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Procuramos promover a compreensão e a valorização dos aspectos ligados aopatrimônio material e imaterial brasileiro, pois ...
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ao seu lado nos lugares em que os episódios lembrados ocorreram”. 14 É interessantetambém entabular uma conversa prévia qu...
FAUSTO, Boris. A revolução de 30. São Paulo: Brasiliense, 1982FENELON, Déa Ribeiro. Cultura e história social. Projeto His...
SAMUEL, Raphael. História local e história oral. Revista Brasileira de História, v. 9, n.19, São Paulo, ANPUH, 1989/1990, ...
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Os lugares de memória: para além das políticas públicas de preservação do patrimônio histórico

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Os lugares de memória: para além das políticas públicas de preservação do patrimônio histórico

  1. 1. OS LUGARES DE MEMÓRIA: PARA ALÉM DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL Ivanilda Aparecida Andrade Junqueira 1Resumo: O projeto, “Os Lugares de Memória: para além das políticas públicas depreservação do patrimônio histórico e cultural”, teve como ponto de partida nossointeresse em compreender que significados possuem os remanescentes do passado e as“referências da memória” quanto aos bens “consagrados” e “não-consagrados” dacidade de Uberlândia/MG. Aborda o processo de “tombamento” realizado pelasinstituições de proteção do patrimônio histórico e as estratégias utilizadas pelos órgãosespecíficos para a seleção desses “lugares”. Buscamos ainda investigar seus significadosno imaginário dos estudantes de 5ª a 8ª série da Escola Estadual Tubal Vilela da Silva,em Uberlândia.Palavras-chave: Educação Patrimonial, memória, cidadania. Em 2006 desenvolvi um projeto na Escola Estadual Tubal Vilela da Silva emUberlândia denominado “Os Lugares de Memória: para além das políticas públicas depreservação do patrimônio histórico e cultural” , o qual teve como ponto de partida ointeresse em compreender que significados possuem os remanescentes do passado e as“referências da memória” quanto aos bens “consagrados” e “não-consagrados” dacidade de Uberlândia/MG. Procuramos abordar o processo de “tombamento” realizadopelas instituições de proteção do patrimônio histórico e as estratégias utilizadas pelosórgãos específicos para a seleção desses “lugares” investigando seus significados noimaginário dos estudantes de 5ª a 8ª série do ensino fundamental da referida escola. Aeducação patrimonial é um tema ausente ou pouco comum na atual agenda do ensinobásico e médio brasileiro. Percebemos que o problema não é apenas o desconhecimentodas políticas públicas de preservação, mas, trata-se também da desvalorização daconsciência histórica, a qual permite valorizar e preservar a cultura material e amemória de nossa sociedade. As atividades de extensão desenvolvidas pelo Centro de Documentação ePesquisa/CDHIS, da Universidade Federal de Uberlândia viabilizaram a realização doreferido projeto ao promover a integração dos graduandos em História com acomunidade escolar.1 Doutoranda pela Universidade Federal de Uberlândia e Professora da Faculdade Católica de Uberlândia.
  2. 2. Procuramos promover a compreensão e a valorização dos aspectos ligados aopatrimônio material e imaterial brasileiro, pois pensamos que, além de ampliar oconhecimento sobre o patrimônio do sítio histórico, as atividades pedagógicas sevoltaram para a conscientização por meio de ações educativas e informativas; palestrasabertas sobre patrimônio cultural. Acreditamos que, além do enriquecimento da grade curricular dos graduandosem História que estagiam no Centro de Documentação e Pesquisa em História -CDHIS/UFU, também a comunidade escolar se beneficiou quanto aos aspectosculturais, sociais e econômicos, pois com as oficinas de Educação Patrimonial cujasatividades enfocam a aplicação do método através da experiência direta; entrevistascom pessoas da comunidade escolar; elaboração de projetos transdisciplinares na escola;elaboração de materiais didáticos, nossa tarefa pôde ser vista como um “resgatehistórico”. Criado em 1985, o Centro de Documentação e Pesquisa em História partiu dainiciativa de um grupo de professores do Departamento de Ciências Sociais, o qualenglobava os cursos de História e Geografia. Constituiu-se inicialmente como Núcleode Pesquisa em História e Ciências Sociais (NUHCIS), abrigando documentosrecolhidos na comunidade (fotos, coleções de jornais, documentos acumulados eguardados por memorialistas amantes da cidade, e, devido a essa diversidade temáticade suas coleções e acervo, se adéqua às necessidades dos alunos do Programa de PósGraduação em História, principalmente quando seus projetos são voltados para apesquisa contemporânea e buscam a compreensão da cidade e seu cotidiano. Desde a sua criação desenvolveu um grande volume de projetos de pesquisa e deextensão junto à comunidade local e regional, sendo transferido, em 1992, parainstalações próprias, no Bloco 1Q do Campus Santa Mônica, em prédio especialmenteadaptado para acolhimento dos acervos históricos e do laboratório de restauro dedocumentos. A partir de maio de 2003, sofreu novas alterações, passando a incorporaroutro órgão de extensão do Instituto de História, o Laboratório de Ensino eAprendizagem em História-LEAH, ampliando seus acervos com produções acadêmicase documentos relativos ao ensino de História e expandindo as atividades de extensão. Por meio da coleta, organização e preservação de arquivos de instituições oupessoais, o CDHIS tem por missão contribuir para o ensino, pesquisa e extensão naárea de História oferecendo suporte à pesquisa não somente para o Instituto de História,
  3. 3. mas para todos os setores, das ciências humanas ou não, voltados para uma perspectivahistórica dos fatos, no contexto brasileiro, regional e local. Cabe lembrar, que os centros de documentação são “lugares” em que osprocessos históricos são retomados e reconstruídos, frutos de uma multiplicidade dedocumentos produzidos em distintas épocas. Longe de serem simples depositários dedocumentos, os centros “oferecem o passado trazendo a história em narrativas quereencontram o indivíduo nos ambientes intersubjetivos nos quais experimentou, nãosem contradições, a si mesmo e ao mundo”.2 A documentação guardada nestes espaçostraz à tona fatos, versões, acontecimentos, memórias que sobrevivem ao tempo,possibilitando olhares e abordagens diferenciadas. Nesse sentido, ao mencionar a(s)memória(s) não estamos falando, pura e simplesmente, de “nostalgia”, mas do “amorpelo passado. (...) A nostalgia nasce no espírito indefeso que não suporta a visão dopresente e então se evade: foge para o passado, um passado de ouro, meio falsificado eque distrai nossas dores. A memória, pelo contrário, é ir ao encontro do presente depoisde ter se banhado nas visões de um outro tempo.3 Preservar a memória é, sem dúvida alguma, uma das formas de garantir o direitoà história dos vencedores e dos vencidos. “A memória regula posições existenciais epolíticas, fazendo buscar no passado seiva e inspiração para as apostas ativas defuturo”4. Não podemos esquecer que a questão da memória “é de tal modo central nareflexão sobre o ofício do historiador que reponta também nos estudos sobre o ensino daHistória. Pois é por intermédio do ensino que se transmite mais diretamente o cânonfactual que o discurso historiográfico vai gestando nos seus vários estratos, desde apesquisa de ponta até as obras de divulgação e os livros didáticos.5 Desse modo, instituições culturais, como centros de documentação, arquivos,bibliotecas, museus foram “freqüentemente apontados como castelos, repletos detesouros de valor inestimável, comparáveis, todavia, a templos sagrados intocáveis einatingíveis. Hoje, felizmente, aquelas instituições ressurgem da inanição, reagem,buscam atualizar-se tentando compensar o tempo perdido. Assistimos à revisão deconceitos e à valorização e alargamento dos serviços que desenvolvem. Esses serviços2 GONÇALVES FILHO, José Moura. Memória e sociedade. Revista do Arquivo Nacional, n. 200, SãoPaulo, Departamento do Patrimônio Histórico Municipal, 1992, p. 61.3 Idem, ibidem, p. 49 e 61.4 Idem, ibidem, p. 62.5 NOVAIS, Fernando Antônio. Aproximações: estudos de história e historiografia. São Paulo: CosacNaify, 2005, p. 308.
  4. 4. poderiam ser representados através da figura simbólica de pontes levadiças, que põemem comunicação os interessados com os conjuntos documentais, valiosos acervoszelosamente conservados naqueles castelos. Considerando que os acervos custodiadosnos castelos não sejam conjuntos fechados, estáticos, mas ao contrário sejamenriquecidos continuamente, os serviços têm que se atualizar em ritmo dinâmico, paranão envelhecer antes de completar-se, isto é, antes de atender o usuário”.6 Por isso, o CDHIS tem como uma de suas principais responsabilidadesinstrumentalizar a relação pesquisa - ensino - extensão, não se esquecendo do papelsocial e cultural que desempenha na universidade e na região7. Como assinala Yara AunKhoury, “tudo isso se desenvolve na medida em que a cultura universitária passa amelhor compreender a natureza dos centros de documentação e seu significado para apesquisa, para o ensino e a extensão, em vários níveis, e na medida em que se estreitamas relações entre os pesquisadores e esses organismos, dentro de um entendimento deque seus respectivos trabalhos se desenvolvem em áreas de conhecimentosespecíficas”. 8 Os centros de documentação organizados e tornados disponíveis à consultaservem principalmente de apoio às pesquisas realizadas por docentes e alunos dacomunidade acadêmica. Como desdobramento natural desse trabalho, eles atuam com afinalidade de ampliar o alcance de seus serviços aos demais segmentos sociais,procurando atingir aqueles que se configuram como usuários interessados eminformações. Assim, desdobram-se em atividades de extensão universitária, buscandoatingir não apenas novos pesquisadores: Mas, sobretudo unir-se a outras instituições cuja tarefa básica seja a de preservar o patrimônio documental do país. Engajam-se, dessa maneira, nos esforços gerais de preservação do patrimônio histórico nacional e dos seus bens culturais. Como se vê, é uma proposta de trabalho muito importante, absolutamente necessária e que desempenha um papel fundamental, ampliando as possibilidades do exercício da cidadania. É base para a construção do conhecimento6 OLIVEIRA, Daise Aparecida. Arquivo e documento. Revista do Arquivo Nacional, n. 200, São Paulo,Departamento do Patrimônio Histórico Municipal, 1992, p. 113.7 O CDHIS, como órgão do serviço público, tem a missão de “receber, preservar, organizar e servir”. VerMANUAL DE ORIENTAÇÃO PARA ARQUIVOS. Porto Alegre: Comissão Executiva doSesquicentenário da Revolução Farroupilha/Subcomissão de Publicações e Concursos/ Arquivo históricodo Rio Grande do Sul, 1985, p. 18.8 KHOURY, Yara Aun. Centros de documentação universitários: significado e implantação.Texto digitado, 2001, p. 22.
  5. 5. científico e, de outro modo, opera como uma das possibilidades de interferir na sua transformação em conhecimento público, por meio do acesso democratizado à informação especializada.9 De caráter multidisciplinar; destacamos a realização de exposições, aparticipação e organização de projetos de extensão, como o Encontro de Professores doTriangulo Mineiro, a organização e apresentação de seminários, oficinas e mini-cursosvoltados à comunidade acadêmica, a professores e alunos do ensino fundamental emédio, estudos e cursos sobre arquivos. Quanto aos documentos arquivados e sua relação com as práticas de arquivo e deensino podemos dizer que a diversidade dos testemunhos do passado é muito grande.Tudo quanto se diz ou se escreve, tudo quanto se produz e se fabrica pode ser umdocumento histórico. As fontes “são infinitamente variadas, incluindo tanto achadosarqueológicos como restos literários, cultura material, manuscritos e arquivos, dialetos efala ou a palavra impressa” 10. Antigamente a idéia de um documento histórico era a de“papéis velhos”, referentes a “pessoas importantes”, as quais eram vistas como oscondutores da história. Atualmente tem-se consciência de que, entre outros exemplos,uma caderneta de despesas de uma dona de casa, um programa de teatro, um cardápiode restaurante, um folheto de propaganda, são verdadeiros documentos históricos,significativos e reveladores de seu momento. O trabalho com os documentos, quais quer sejam, exigem cuidados e critériosrigorosos, pois estes não estão isolados do contexto social. Mais, “não é inteiramenteexplicativo em si, ao lado das significações explícitas tem as implícitas e as nãomanifestas, tendo o historiador a necessidade de trabalhar (...) dentro dele (o que diz) efora dele (o que representa); (...) Não é espelho da realidade, mas essencialmenterepresentação do real, de momentos particulares da realidade; sua existência é dada noâmbito de uma prática determinada”. 11 Vale realçar, então, que uma particularidade dos centros de documentação dasuniversidades brasileiras é “tornar a fonte próxima ao pesquisador, mas também trazeras fontes documentais que estão sendo perdidas, produzidas, muitas vezes, pelo próprio9 CAMARGO, Célia Reis. Os centros de documentação das universidades: tendências e perspectivas. In:SILVA, Zélia Lopes. (org.). Arquivos, patrimônio e memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo:Unesp/FAPESP, 1999, p. 50 e 51.10 SAMUEL, Raphael. História local e história oral. Revista Brasileira de História, v. 9, n. 19, São Paulo,ANPUH, 1989/1990, p. 220.11 MARSON, Adalberto. Reflexões sobre o procedimento histórico. In: SILVA, Marcos A. (org.).Repensando a história. Rio de Janeiro/São Paulo: Marco Zero/ANPUH/SP, 1984, p. 53.
  6. 6. poder público, a quem caberia, por dever, preservá-las e torná-las disponíveis à consultapública. (...) É preciso dizer que a ênfase para a preservação dos documentos que estãoem torno da universidade, a preocupação com a documentação (...) é uma prática degrande importância. Não apenas do ponto de vista da preservação dos registros (...), mascomo forma de viabilizar as pesquisas de pós-graduação e, especialmente, as deiniciação científica, uma vez que os alunos, nesse processo de aprendizagem no manejodas fontes primárias, ao mesmo tempo em que realizam o seu curso, podem fazê-lo deforma mais fácil e completa. Afinal, as ciências humanas necessitam de laboratórios depesquisa tanto quanto as outras áreas do conhecimento. (...) Os centros (...) trazemgrandes possibilidades de avanço, em particular no exercício da pesquisa, acessível aum número maior de alunos. É preciso reconhecer que ainda somos muito carentes deespaços e de oportunidades para sua realização, ao menos no âmbito do ensino dagraduação”.12 A preservação dos documentos se impõe como uma necessidade no mundocontemporâneo. Cresce a demanda pela constituição de centros de memória econcomitantemente as atividades relativas à rememoração de acontecimentossignificativos para os grupos sociais. A “guarda” desses vestígios tem o mérito deevidenciar o fazer dos grupos sociais. À medida que este fazer se refaz no ato delembrar e refletir, cimenta o sentimento de pertencimento e a consciência da cidadaniados sujeitos envolvidos. O CDHIS – local de guarda e de preservação da memória social – tem seesmerado na busca da interdisciplinaridade entre teoria e prática uma vez que os cursosde História (diurno e noturno) oferecidos pela Universidade Federal de Uberlândia/UFUnão disponibilizam na sua grade curricular, disciplinas que permitam aos alunos sabercomo “tratar” o documento embora este seja considerado ferramenta imprescindível aohistoriador. Portanto, os projetos desenvolvidos pelo CDHIS, tem como finalidade básicacontribuir para a preparação dos licenciados em história com vista ao trabalhopedagógico de organização e preservação da mémoria social. Tal experiência leva emconsideração a superação do conceito de currículo apenas como o elenco rígido12 CAMARGO, Célia Reis. Os centros de documentação das universidades: tendências e perspectivas, op.cit., p. 60.
  7. 7. disciplinar que compõe um curso. Reflexões sobre o tema tem levado à percepção deque a formação do estudante como sujeito do seu tempo se dá por meio de todas asações realizadas para esse fim. Em vista disso, o currículo escolar, atualmente éconcebido como o conjunto das atividades que contribuem para a formação intelectual ea preparação profissional do estudante inseridas em uma perspectiva interacionista. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) ao proporem os temastransversais, dão abertura para o enriquecimento dos currículos nos níveis fundamentale médio. Possibilitam ao professor caminhar por conteúdos diversos das disciplinastradicionais capaz de imprimir nelas um caráter dinâmico envolvendo os estudantes comas questões do seu próprio tempo. Entre os conhecimentos que hoje se fazem necessários, destacam-se osprocedimentos técnicos para organização da memória das experiências sociais, não sónas instituições específicas (museus, centros de documentação, arquivos históricos etc.)e nas escolas, mas em múltiplos espaços, inclusive em empresas. Desta feita,considerando que o CDHIS é um lugar em que tem se acumulado um saber específicosobre o trato com a memória social, propomos que se constitua como um espaço paraenriquecimento da formação dos futuros professores de história nesta área doconhecimento. Outro aspecto que destacamos refere-se às políticas públicas depreservação do patrimônio histórico no Brasil e as discussões relativas ao assunto. Asopiniões são diferenciadas e existe uma complexidade de políticas e normas que regemas práticas de preservação. Heloísa Buarque de Hollanda salienta a dificuldade queenfrentou para responder “adequadamente ao desafio de enfrentar os paradigmascorrentes da reflexão sobre o patrimônio e, sobretudo de tentar superar a dicotomia entreo saber especializado dos técnicos e a compreensão de um processo cultural emevolução”. Nesse sentido, quando nos deparamos com as políticas de preservação e aspráticas voltadas para a conservação de determinados elementos arquitetônicos,percebemos que apenas uma elite seleta define as regras a serem seguidas. Desse modo,grande parte das pessoas, que possuem relação íntima com eles é excluída do processo.Então, algumas vezes, o ato da preservação acaba por se caracterizar como elitista,estratificante ou mesmo, excludente. Concordamos que o saber especializado éfundamental para o desenvolvimento de nossas políticas de patrimônio, masacreditamos também ser necessário levar em conta a opinião das pessoas cuja
  8. 8. experiência de vida se relaciona com o bem ou a prática cultural a ser preservada. Holanda ressalta ainda que “pode-se mesmo observar que, conjugado ao direitoao saneamento, habitação e transporte, as políticas públicas em relação ao espaçourbano expressam agora a preocupação com uma novíssima reivindicação, o „direito àcidade‟. Este direito seria, mais ou menos, o direito de todos os cidadãos ao gozo doespaço urbano como duplo exercício da história e da estética”. Porém, apesar de a reivindicação existir, não se constata que as práticas do poderpúblico estejam plenamente voltadas para o seu atendimento. Os órgãos administrativosdas cidades estão relegando a planos secundários quaisquer ações que objetivem apreservação das tradições e da história daqueles que as habitam. Várias mudançasrelativas à ação preservacionista são ressaltadas no referido artigo, mas, percebemosque, ao contrário do que diz Hollanda, não compõem um universo mais amplo. Estãorestritas principalmente às cidades maiores porque nessas, existe uma parcela deintelectuais que investe numa tentativa de evitar o desgaste das “memórias nacionais”. Reportamo-nos também a Jerôme Monnet, cujas idéias nos ajudaram acompreender que, para preservar não basta uma vontade isolada, mas que existe umagrande complexidade relativa às políticas de preservação adotadas no país. Segundo oautor, a questão do patrimônio é problemática, pois, ao admitirmos que tudo épatrimônio, conseqüentemente, admitimos que tudo deve ser conservado. No entanto,quando se trata da cidade e do país, sabemos que isso é impossível. Então, é necessáriofazer antes uma crítica radical e interrogar-se sobre o uso do conceito de patrimônio,sobre os supostos da palavra. Segundo essa lógica, não há dúvida de que tudo pode serconsiderado patrimônio. Mas ele só existe porque protegemos algo que nomeamosassim. Designação e proteção vão juntas. Segundo Monnet, quando postulamos umobjeto como sagrado, deduzimos que ele deve ser preservado e, “do fato mesmo deprotegê-lo, o sacralizamos, isolando-o do destino habitual das coisas; por sersacralizado, ele deve ser protegido”. Neste ponto cabe uma pergunta: quem são os responsáveis, atualmente, pelasdecisões quanto ao que deve ser preservado? Certa elite cultural? Será, então, que essaelite se preocupará com os interesses e anseios da maioria na hora de decidir? Então,uma participação mais efetiva por parte da população quanto à preservação de suahistória, suas tradições e seus monumentos, apenas contribui para a elaboração depolíticas cujo objetivo seja voltado para essa preservação. Quem sabe, se persistirmos
  9. 9. com nossos sonhos e lutas, as pessoas no mundo e, principalmente no Brasil, não serãomais conscientes e participativas em relação às práticas de cidadania? Tendo em mente esses ideais, iniciei a atividade educativa com os estudantesque foram divididos em grupos e se encarregaram de pesquisar a história de um bemtombado específico e apresentar o resultado para os colegas em sala de aula. Isso foipositivo, uma vez que possibilitou a troca de informações acerca da história da cidade.A metodologia utilizada envolveu o trabalho com imagens, relatos orais e análise dedocumentos impressos. Como suporte teórico, além dos historiadores que se dedicam àmemória como Alessandro Portelli e Pierre Nora, seguimos a orientação proposta porEcléa Bosi em “O Tempo Vivo da Memória”. Em seu livro, a autora faz uma crítica àHistória ensinada nas escolas por deixar de lado os aspectos relativos ao cotidiano, aosmicro-comportamentos, cuja abordagem na Idade Média era denominada de crônicas. Com a concentração da burguesia nos centros urbanos, a história das cidades setorna uma história política compacta e vai registrar o poder das grandes famílias, dosreinos, da guerra entre os estados. A crônica será relegada com um gênero literáriomenor que só ressurgirá nos anos setenta com a crise das grandes teorias da História.Segundo Bosi, a importância da memória oral é muito grande para se constituir acrônica do cotidiano e a história a que se refere a autora é a história de cada um,construída ao longo da vida, a partir do cotidiano que ela considera sempre relevante,pois, a toda hora somos capazes de recuperar aspectos do nosso passado, mas o relatoprimordial é o que pode ser feito a outras pessoas porque, desse modo, o que vivemosganha uma dimensão social. Ao falar da cidade, trás aspectos que não são apenas visuais. Para ela, os sons, oscheiros também despertam a memória e a memória oral é fecunda quando exerce afunção de intermediário cultural entre gerações.13 Dentre as sugestões feitas pela autorasobre como trabalhar com História Oral destacamos, em primeiro lugar, a necessidadede se obter informações objetivas a respeito do assunto que irá falar o depoente, assimnão estaremos “metendo os pés pelas mãos” a respeito da história e da geografia dascoisas que serão relatadas. Em seguida, devemos buscar uma aproximação pessoal aoscontextos dos quais ele pertence, indo, se possível, à sua casa, e “sair com ele, caminhar13 BOSI, Ecléa. O Tempo Vivo da Memória: ensaios da psicologia social. São Paulo: Ateliê Editorial,2003, p. 72-73.
  10. 10. ao seu lado nos lugares em que os episódios lembrados ocorreram”. 14 É interessantetambém entabular uma conversa prévia que possa nos informar a respeito daspreocupações do depoente, formando com ele laços de amizade porque assim noscolocamos na posição da pessoa que se interessa por ele e quer partilhar suaexperiência. Tudo tem que ser anotado e transcrito, o que é possível por meio da gravaçãoque permite observar o que está por trás dos silêncios, das reticências. É importantelembrar que o relato não tem que ter precisão histórica, pois ele tem sua própriaverdade, que é a da crença e da atitude. O dever do historiador é interpretá-lo, notar suascontradições, seus limites. Tais orientações nortearam a pesquisa realizada pelos estudantes de sétima eoitava série e isso ficou evidente ao apresentarem documentários sobre a Casa daCultura, a Oficina Cultural e a Praça Tubal Vilela. Ao comentarem a experiênciapercebemos que é gratificante quando estendemos nosso trabalho para além daacademia. Meninos e meninas vislumbraram aspectos da sua cidade natal que até entãonão valorizavam. Aspectos que vão sendo esquecidos à medida que a intervençãourbana modifica a paisagem por meio de demolições e da construção de novos prédiospor aqueles que almejam uma cidade moderna. Neste sentido, pretendo continuar investigando que políticas de educaçãopatrimonial são desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Cultura e o impacto que têmproduzido na comunidade escolar quando são implementadas.BIBLIOGRAFIA:BARBERO, Jesus Martin. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.BECK, Ingrid et al. Manual de preservação de documentos, Rio de Janeiro, ArquivoNacional, 1996 (Publicações Técnicas, 46).CHAUÍ, Marilena de Souza. Os trabalhos da memória. In: BOSI, Ecléa. Memória esociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz, 1983.ESTUDOS HISTÓRICOS(Arquivos pessoais), v. 11, n. 21, Rio de Janeiro, FGV, 1998.14 BOSI, Ecléa. Op. Cit. p. 72-73.
  11. 11. FAUSTO, Boris. A revolução de 30. São Paulo: Brasiliense, 1982FENELON, Déa Ribeiro. Cultura e história social. Projeto História, n. 10, São Paulo,PUC/Educ, 1993, p. 73-90.GONÇALVES FILHO, José Moura. Memória e sociedade. Revista do ArquivoNacional, n. 200, São Paulo, Departamento do Patrimônio Histórico Municipal, 1992, p.55-75.HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Cidade ou Cidades. In: Revista do PatrimônioHistórico Artístico Nacional, (23), 1994, p. 11.LOPES, Aline Moreira e PIMENTA, Cristina (orgs.). Como montar um centro dedocumentação: democratização, organização e acesso ao conhecimento. Rio de Janeiro:ABIA, 2003.MACHADO, Maria Beatriz Pinheiro. Educação patrimonial: orientações paraprofessores do ensino fundamental e médio. Caxias do Sul, Maneco Livraria & Editora,2004.MARSON, Adalberto. Reflexões sobre o procedimento histórico. In: SILVA, MarcosA. (org.). Repensando a história. Rio de Janeiro/São Paulo: Marco Zero/ANPUH/SP,1984.MENEZES, Ulpiano T. Bezerra de. A crise da memória, história e documento: reflexõespara um tempo de transformações. In: SILVA, Zélia Lopes. (org.). Arquivos, patrimônioe memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo: Unesp/FAPESP,1999.MONNET, Jerôme. O Álibi do Patrimônio: Crise, Gestão Urbana e Nostalgia. In:Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2002.NOVAIS, Fernando Antônio. Aproximações: estudos de história e historiografia. SãoPaulo: Cosac Naify, 2005.PAOLI, Maria Célia. Memória, história e cidadania: o direito ao passado. In: Direito àmemória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo: Departamento do PatrimônioHistórico, 1992.PROJETO HISTÓRIA(Trabalhos da memória), n.17. São Paulo, Educ, 1998.REVISTA DO ARQUIVO MUNICIPAL, n. 200, São Paulo, Departamento doPatrimônio Histórico Municipal, 1992.
  12. 12. SAMUEL, Raphael. História local e história oral. Revista Brasileira de História, v. 9, n.19, São Paulo, ANPUH, 1989/1990, p. 219-243.________. Teatros da Memória. In: Projeto História, São Paulo, (14), fev. 1997.

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