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Casos de Amor (quando viver é mais do que um caso de amor)
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Casos de Amor (quando viver é mais do que um caso de amor)

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História contada por alguns dos mais velhos camponeses do meu povo.

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Transcript

  • 1.  
  • 2.  
  • 3. Confesso-me embaraçado. O título desta crônica soa pomposo demais para a simplicidade da história que estou para lhe contar. De fato, o que fiz foi ilustrar um caso que, volta e meia, é contado por algum dos cidadãos mais velhos do meu povo: camponeses por origem, homens da terra.
  • 4. E ainda devo explicar que, embora esta terra do meu povo esteja no coração do Brasil, a sua parte mais ao norte (a partir de onde viveu o escritor Guimarães Rosa, autor do famoso livro Grande Sertão: Veredas ), há muito foi incluída no “Polígono das Secas”, referente ao estado das terras nordestinas; esta terra, então, não pode ou não pode mais ser incluída no que os próprios nordestinos chamam de “ sul maravilha” ...
  • 5. Os velhos contam que numa época passada, em algum lugar perto daqui, existiu um homem que vivia com sua mulher em quase total isolamento. Trabalhavam de sol a sol naquela faixa de terra que haviam comprado com grande sacrifício, onde, ano após ano, tiravam o sustento.
  • 6. Mas houve dois longos períodos de seca, a terra rachou e as plantas morreram.
  • 7. E chegou o dia em que a mulher disse ao marido que teria de usar para comer as sementes de feijão que estavam guardadas, destinadas à lavoura ou ao plantio.
  • 8. O homem coçou sua cabeça e retrucou: “ Se comermos estas sementes será o fim; não haverá mais qualquer esperança.” “ Esperança...”, ela sussurrou com um meio-sorriso triste. “ Vamos embora daqui. Não há mais o que fazer.”
  • 9. “ Você me pede para abandonar minha terra e ir para a cidade?... Mas, se já não existe alimento aqui, encontraremos alimentos lá?...” Ela não pensou sequer, antes de dizer: “ Lá é outro mundo..., nem precisa de chuva. O que nós dois precisamos é arrumar emprego e, com o dinheiro, comprar os alimentos.” Ele riu e, em seguida, tristemente, disse: “ Você está delirando, pobre mulher, cidades não produzem alimentos.”
  • 10. Enfim, depois de um longo silêncio, ela suspirou antes de arrematar: “ Eu não sei de onde os alimentos saem; só sei que eles podem ser encontrados lá, em grandes sacos nos armazéns. Olhe. Eu também estou triste, mas o que posso fazer...? Esta nossa terra já se esgotou. E se você prefere ficar aqui, fique. Eu vou-me embora.”
  • 11. “ Vai me abandonar?... Não posso viver sem o seu amor.”
  • 12.  
  • 13. Completamente solitário ele passou três dias sem dormir, andando sonâmbulo pelos arredores com aquela última imagem em sua cabeça...
  • 14.  
  • 15. Até que decidiu ir embora também. Amava demais aquela mulher. Arrumou sua trouxa, fechou a porta de sua casa e se pôs a caminho ...
  • 16.  
  • 17. Mas, então, de repente, um vento novo e estranho soprou forte, e, sobre a sua cabeça, o céu se transformou. Nuvens negras pesadas de chuvas vieram..., sabe-se lá de onde.
  • 18. E logo o chão se encheu de gotas d´água.
  • 19. E aquele homem girou o corpo em direção ao céu, para receber a chuva que, para ele, era a própria vida.
  • 20. Voltou correndo para casa; pegou a sua enxada e foi para o campo.
  • 21. Poucos dias depois ele já estava a semear ...
  • 22. Tinha pressa.
  • 23. Daquela vez, precisava colher muitas sementes...,
  • 24. para com elas encher grandes sacos...,
  • 25. que seriam levados para a cidade...,
  • 26. onde vivia sua mulher .
  • 27. Foi o que ele fez, porque, para um filho da terra, o papel de quem realmente amava era alimentar.
  • 28. Quanto ao desfecho do caso de amor daquele homem por sua mulher...,
  • 29. foi este..., eu imagino.
  • 30.  
  • 31. E quanto ao outro caso de amor, por sua terra, provavelmente ele o traduziu assim:
  • 32. “ Vou continuar a amar a Terra e a cuidar dela, para que ela mesma continue a me amar e então a me alimentar.”
  • 33. Lanier Wcr