EXPERIÊNCIAS EM AGROECOLOGIA   •   Leisa Brasil   DEZ 2009 • vol. 6 n. 4Mulheres construindo                     a Agroeco...
Editorial     A                 s desigualdades nas relações de gênero na agricul-                 tura familiar constitue...
Sumário04   Editora convidada • Maria Emília Lisboa Pacheco     ARTIGOS                                                   ...
Editor convidado                  Os caminhos das            mudanças na construção              da Agroecologia pelas    ...
à equidade no acesso aos recursos produtivos, à busca de               A declaração de jornadas de tra-autonomia econômica...
tercâmbio como ferramenta pedagógica para a expressão e troca de saberes, pos-           pelos membros das famílias. Além ...
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Soberania alimentar,         feminismo e ação política                                              um olhar sobre as açõe...
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Metas da Campanha•	   Produção de alimentos saudáveis e diversificados.•	   Recursos públicos e subsidiados para a produçã...
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da sistematização, a partir dos debates e reflexões sobre as experiências apre-Fotos: GT Mulheres da ANA                  ...
As experiências mostraram que                                   vidade. A logística de transporte dos produtos para as fei...
Foto: Adriana Galvão Freire                                                                                               ...
Foto: Luciana Rios                                                                        Produção de alimentos agroecológ...
Foto: Luciana Rios                                                                                                        ...
Foto: Luciana RiosManejo agroflorestal na roça das mulheres      Durante todo o processo de experimentação dos princí-    ...
3   mulheres construindo agroecologia
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3 mulheres construindo agroecologia

  1. 1. EXPERIÊNCIAS EM AGROECOLOGIA • Leisa Brasil DEZ 2009 • vol. 6 n. 4Mulheres construindo a Agroecologia
  2. 2. Editorial A s desigualdades nas relações de gênero na agricul- tura familiar constituem um obstáculo ético e prá- tico ao desenvolvimento rural. Elas manifestam-seem várias esferas da vida material e simbólica de agricultores e EXPERIÊNCIAS EM AGROECOLOGIAagricultoras, entre as quais se destacam a distribuição das rique-zas geradas pelo trabalho familiar, a participação nos processos ISSN: 1807-491X Revista Agriculturas: experiências em agroecologia, v.6, n.4decisórios, a presença em espaços de sociabilidade e o acesso à (corresponde ao v. 25, n. 3 da Revista Leisa)informação e aos bens culturais. Revista Agriculturas: experiências em agroecologia é uma publicação da AS- Essas expressões de iniquidade entre homens e mulheres es- PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia –, em parceria com a Funda-tão presentes no conjunto da sociedade, mas assumem cores pró- ção Ileia – Centre of Information on Low External Input and Sustainableprias quando analisadas à luz da realidade da agricultura familiar. A Agriculture.construção de um entendimento sobre os processos peculiaresde reprodução das desigualdades nesse universo socioculturalapresenta-se como um desafio para organizações e movimentosque atuam na defesa de transformações radicais na ordem social Rua Candelária, n.º 9, 6º andar.injusta que penaliza a agricultura camponesa, como um todo, e as Centro, Rio de Janeiro/RJ, Brasil 20091-904agricultoras, em especial. Organizações do campo agroecológico Telefone: 55(21) 2253-8317 Fax: 55(21)2233-8363vêm no dia-a-dia buscando assimilar esse desafio por meio da in- E-mail: revista@aspta.org.brcorporação de um enfoque sensível às relações de gênero em seus www.aspta.org.brprogramas e projetos institucionais. Ao assumirem essa perspecti-va político-estratégica, as redes sociais de inovação agroecológica Fundação Ileia P.O. Box 2067, 3800 CB Amersfoort, Holanda.vão consolidando a compreensão de que estilos mais sustentáveis Telefone: +31 33 467 38 70 Fax: +31 33 463 24 10de desenvolvimento rural só serão construídos por meio da com- www.ileia.infobinação de transformações na base técnica e econômica de gestãodos agroecossistemas com a emergência de novos valores de con- CONSELHO EDITORIALvivência social que condicionam as relações de gênero no interior Claudia Schmitt Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento,das famílias agricultoras e nas comunidades e organizações de que Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeirofazem parte. - CPDA/UFRRJ Para avançar no tratamento da questão, organizações e redes Eugênio Ferrarivinculadas à Articulação Nacional de Agroecologia vêm adotando Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata, MG – CTA/ZMcom sucesso o método da sistematização das realidades nas quais Ghislaine Duqueas desigualdades de gênero na agricultura familiar se expressam. Universidade Federal de Campina Grande – UFCG e PatacAo explorarem esse caminho metodológico, as entidades envol- Jean Marc von der Weidvidas nesses esforços procuram analisar as condições que favo- AS-PTArecem e/ou bloqueiam as mudanças nas relações entre homens José Antônio Costabebere mulheres nos ambientes sociais influenciados por suas ações. Universidade Federal de Santa Maria - UFSMAo mesmo tempo, esses exercícios têm tido o mérito de motivar Maria Emília Lisboa Pachecofamílias e lideranças da agricultura familiar a se engajarem no pro- Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional – Fase – RJcesso de produção de conhecimentos sobre suas próprias práticas Romier Sousade gênero. Evitam-se, assim, formulações generalizantes sobre o Grupo de Trabalho em Agroecologia na Amazônia – GTNAtema que, no mais das vezes, não encontram correspondência na Sílvio Gomes de Almeida AS-PTArealidade específica percebida por aquelas que sofrem mais direta-mente com as desigualdades. Tatiana Deane de Sá Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária – Embrapa Um dos principais aspectos ressaltados nas sistematizaçõestem sido a relevância das mulheres como provedoras das econo- EQUIPE EXECUTIVA Editor – Paulo Petersenmias de suas famílias e comunidades. Esse desocultamento do tra- Editor convidado para este número – Maria Emília Lisboa Pachecobalho feminino e do seu papel decisivo para a sustentabilidade da Produção executiva – Adriana Galvão Freireagricultura familiar camponesa vem criando condições favoráveis Pesquisa – Adriana Galvão Freire, Maria Emília Lisboa Pacheco e Paulopara que a separação arbitrária entre as esferas da produção e da Petersenreprodução econômica seja questionada, desmistificando a con- Base de dados de subscritores – Nádia Maria Miceli de Oliveiravencional divisão sexual do trabalho, que reserva o espaço domés- Copidesque – Rosa L. Peralta Revisão – Gláucia Cruztico às mulheres enquanto os homens se ocupam do domínio do Tradução – Rosa L. Peraltapúblico. Na evolução desses exercícios de análise coletiva da rea- Foto da capa – ©André Telles/ActionAid/Brasillidade, a dominação masculina sobre os núcleos familiares e sobre Projeto gráfico e diagramação – I Graficci Comunicação & Designas organizações é desnaturalizada e passa a ser percebida como Impressão: Sol Gráficao resultado de construções sociais sujeitas a questionamentos e Tiragem: 6.500transformações promovidas pela ação política das mulheres. Os A AS-PTA estimula que os leitores circulem livremente os artigos aquiartigos publicados nesta edição trazem ricas narrativas dessas di- publicados. Sempre que for necessária a reprodução total ou parcial denâmicas sociais em que a transição agroecológica é também com- algum desses artigos, solicitamos que a Revista Agriculturas: experiênciaspreendida como caminho para o empoderamento das mulheres. em agroecologia seja citada como fonte. O editor
  3. 3. Sumário04 Editora convidada • Maria Emília Lisboa Pacheco ARTIGOS 0909 Soberania alimentar, feminismo e ação política: um olhar sobre as ações do Movimento de Mulheres Camponesas Laeticia Jalil12 Mulheres construindo a Agroecologia no Brasil Elisabeth Maria Cardoso e Vanessa Schottz Rodrigues 1217 Roça agroecológica das mulheres do Assentamento Dandara dos Palmares, Camamu (BA) Ana Celsa Sousa, Carlos Eduardo de Souza Leite e Luciana Rios Das janelas para o rio às práticas agroecológicas:22 a experiência das mulheres agroextrativistas da Foz do Rio Mazagão Velho 17 Bianca Ferreira Lima e Waldiléia Rendeiro Amaral28 Fonte de água viva: soberania alimentar e ação das mulheres na Rede Xique-Xique Marialda Moura da Silva 22 Quintais agroflorestais: mulheres redesenham32 espaços de produção e reprodução no Maranhão Cidvânia Andrade de Oliveira Riscos e oportunidades das mudanças climáticas:36 uma análise a partir da perspectiva de gênero Ana Paula Lopes Ferreira, Guilherme Strauch, Celso Marcatto e Dorivaldo de Sá (Vavá) 2841 Mulheres e soberania alimentar Michel Pimbert46 Mulheres no Congresso Brasileiro de Agroecologia Maria Virgínia Aguiar, Emma Siliprandi e Maria Emília Pacheco 3249 Publicações51 Agroecologia em Rede
  4. 4. Editor convidado Os caminhos das mudanças na construção da Agroecologia pelas mulheres Maria Emília Lisboa Pacheco A s mulheres representam, no mundo, cerca da danças nesse quadro de desigualdades. Mostram processos de metade dos 2,5 milhões de pequenos agriculto- construção coletiva que se expressam no plano local, regio- res, criadores, habitantes das florestas e pesca- nal, nacional e internacional. Os vários sentidos e percursosdores, cujos conhecimentos e trabalho cumprem papel funda- desses caminhos nos quais as mulheres exercem um papelmental na sustentabilidade dos diversos sistemas alimentares, de liderança desafiam e interpelam a construção do campoparticularmente nos países em desenvolvimento. Na América agroecológico.Latina e Caribe, são responsáveis por 45% da produção de ali- Ao mesmo tempo em que introduzem mudanças nos sis-mentos. Paradoxalmente, compõem a maior parcela de pessoas temas de produção, as mulheres vão experimentando trans-que vivem abaixo da linha da pobreza e sujeitas ao drama da formações em sua vida cotidiana que as levam ao questio-fome e desnutrição em várias partes do mundo. namento do modelo agrícola e social, consagrando-se como sujeitos políticos. No Brasil, quase 15 milhões de mulheres do campo estão priva- A luta por reconhecimento e redistribuição das do acesso à cidadania por não O artigo de Laeticia Jalil abre a revista com um olhar so- bre as ações do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). terem reconhecida a sua condição Mostra a forma com que esse movimento busca construir um de agricultoras familiares, cam- projeto de agricultura camponesa baseado nos princípios da Agroecologia. Um projeto que garanta a soberania alimentar ponesas ou trabalhadoras rurais. enquanto direito, questione o patriarcado, afirme a auto-orga- Embora representem 47,8% da nização das mulheres e as reconheça como sujeitos políticos. A Campanha Nacional pela Produção de Alimentos Saudáveispopulação residente no meio rural, expressa a dupla face de questionamento, tanto do modelo somente 16% são titulares de produção capitalista quanto da opressão patriarcal vivida pelas mulheres. das terras onde moram. A iniciativa do Grupo de Trabalho de Mulheres da Arti- Este é o cenário a partir do qual Michel Pimbert, Laeti- culação Nacional de Agroecologia (GT Mulheres da ANA) decia Jalil, Ana Paula Ferreira e outros coautores desenvolveram realizar um processo político-pedagógico de intercâmbio esuas análises neste número que a Revista Agriculturas dedica sistematização de experiências protagonizadas por mulheres é apresentada por Elizabeth Maria Cardoso e Vanessa Schottzàs mulheres. Os artigos mostram o quanto as mulheres tra- Rodrigues no artigo Mulheres construindo a Agroecologia no Bra-balham e como estão engajadas em praticamente todas as sil. Calcado nas análises de dinâmicas locais e microrregionais,atividades agrícolas e extrativistas, assumindo jornadas de esse processo, ainda que inconcluso, uma vez que se encer-trabalho muito extensas. Mesmo assim, elas continuam com rou apenas na região Nordeste e está em curso nas regiõesrestrição de acesso aos recursos produtivos, bem como o re- Norte e Sul, vem anunciando o fortalecimento do diálogoconhecimento do seu trabalho ainda é colocado em questão. entre o movimento agroecológico e o movimento feminista. Mas as experiências aqui apresentadas também revelam A proposta tem propiciado a reflexão sobre as questões polí-outros sinais. Trazem evidências de caminhos que geram mu- ticas de redistribuição, que dizem respeito ao direito à renda,Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 4
  5. 5. à equidade no acesso aos recursos produtivos, à busca de A declaração de jornadas de tra-autonomia econômica das mulheres no âmbito das relaçõesfamiliares e às propostas de acesso aos recursos públicos. Ao balho tão baixas expressa o enten-mesmo tempo suscita questões relativas à identidade e ao re- dimento ainda dominante entre asconhecimento dos diversos papéis das mulheres, assim comotraz à tona a violência praticada contra elas, evidenciando mulheres no campo, que nem seprocessos que se inter-relacionam. Além disso, do ponto de conscientizaram do sentido eco-vista pedagógico, o processo de sistematização cria espaçosde autorreflexão das mulheres, onde se dá a construção de nômico do seu trabalho nem ca-referências locais para a organização política e produtiva de- racterizam suas atividades comolas, contribuindo tanto para a conscientização do seu trabalhoquanto para seu reconhecimento. trabalho, continuando a encará-lo como ajuda.A construção política da visibilidade dotrabalho e dos direitos das mulheres Hildete de Melo (2009) e Maria Um estudo divulgado em 2009, baseado nas Pesquisas Ignez Paulilo (2004) sugerem incluirNacionais por Amostra de Domicílio (Pnad) e em dados doInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra a categoria de trabalhador(a) fami-que, embora a diferença entre a renda das mulheres e a dos liar nas estatísticas para o debatehomens no campo tenha se reduzido a partir de 2004, a de-sigualdade entre os gêneros permanece no que se refere ao ser mais aprofundado. Diferente dovalor do rendimento, à jornada de trabalho, entre outros fato- homem, que é considerado respon-res. Hildete Melo, coautora desse estudo, em seu lançamentoexplicou que o mesmo refere-se à economia feminista, e não sável pelo estabelecimento, a espo-feminina, no campo, uma vez que visa lançar um olhar enga- sa e filhos aparecem como membrosjado, buscando desvendar as mulheres que normalmente asestatísticas econômicas ignoram. não-remunerados da família, embora Em 2006, os homens declararam uma jornada média se- o pai também não seja remunera-manal de 39 horas de trabalho, enquanto a carga declarada do, o que expressa um reconheci-pelas mulheres foi de apenas 21,7 horas. Para esse resultadocontribuiu o fato de que aproximadamente 30% das trabalha- mento implícito de ter ele o maiordoras rurais, ou seja, praticamente 1/3, declararam jornada de poder sobre a renda familiar.trabalho de até 10 horas semanais, contra 5,5% dos homens.E o mais espantoso é que 12,8% delas declararam jornada deapenas cinco horas semanais (Melo, 2009:68). Apesar desse quadro de desigual- Por que as mulheres declaram uma jornada de trabalho dades, identificamos em algumastão inferior ao padrão masculino? Maria Ignez Paulilo estudouo trabalho das mulheres em cinco regiões do país e percebeu experiências analisadas nesteque a distinção entre trabalho leve feito pelas mulheres não se número dedicado às mulheresdevia a uma qualidade do esforço despendido, mas ao sexo dequem o executava, de tal modo que qualquer trabalho era consi- processos emancipatórios de re-derado leve se feito por mulheres, por mais exaustivo, desgastante conhecimento da condição de agri-e prejudicial à saúde que fosse (2004:245). O mesmo fenôme- cultoras e pescadoras que apon-no ocorre com a divisão entre trabalho doméstico e traba-lho produtivo. É doméstico se é atribuição da mulher, como tam para um cenário em mudança.quando ela cuida da horta e das galinhas sozinha. Já se ela vaipara o trabalho na roça com o marido, é trabalho produtivo, Os exemplos vêm dos vários biomas. Bianca F. Lima equalquer que seja o destino do que for colhido – para vender Waldiléia R. Amaral nos mostram como a participação emou para comer. experiências agroecológicas, que estimulam as práticas de in- 5 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009
  6. 6. tercâmbio como ferramenta pedagógica para a expressão e troca de saberes, pos- pelos membros das famílias. Além disso,sibilita a ampliação do espaço de atuação das mulheres, colocando-as em contato homens e mulheres gastam de formacom outras redes de sociabilidade e legitimando a sua contribuição. O trabalho da diferente. A renda controlada pelas mu-Associação das Mulheres Produtoras e Agroextrativistas da Foz do Rio Mazagão lheres tem mais probabilidade de con-Velho (Ampafoz), no Amapá, levou as mulheres a enfrentarem a resistência dos ma- tribuir para a garantia da alimentaçãoridos e a aderirem à colônia de pescadores.Tornaram-se, assim, pescadoras artesanais da família e do bem-estar dos filhos doprofissionais, garantindo seus direitos na época do defeso, além de outros benefícios, que aquela controlada pelos homens. Acomo o salário-maternidade e a aposentadoria. Uma conquista que revela inequivoca- desigualdade de gênero na divisão demente uma nova consciência de direitos no quadro das desigualdades. benefícios na família se manifesta, por- tanto, de vários modos. Na Bahia, Ana Celsa Souza, Carlos Eduardo S. Leite e Luciana Rios nos contama história do grupo Mulheres de Dandara na luta pelos seus direitos. Descrevem Ana Paula L. Ferreira e coautores,como se dá seu reconhecimento e participação como integrantes da Associação analisando os riscos e oportunidadesComunitária no Assentamento Dandara e do Sindicato dos Trabalhadores e Traba- das mudanças climáticas sob a pers-lhadoras Rurais de Camamu. Apesar de o grupo contar com apenas sete mulheres, pectiva de gênero no semiárido brasi-elas também conseguiram vencer resistências e influenciar na mudança dos estatu- leiro, explicam como, nesses contextos,tos da associação, instituindo o pagamento de uma só mensalidade por família para as mulheres são as mais prejudicadas.assegurarem o direito a voz e voto também das mulheres. Com frequência têm um limitado aces- A ação das mulheres na Rede Xique-Xique, apresentada no artigo de Marialda so e controle sobre os ativos físicos eM. da Silva, tem uma amplitude maior. São 392 mulheres auto-organizadas em 44 um papel marginal na tomada de deci-grupos presentes em três territórios do Rio Grande do Norte e que se articulam e são. Também a elas cabe, de forma re-se mobilizam no campo agroecológico, da economia solidária e do feminismo. corrente, a provisão da lenha e da água, assim como em situações de escassez No sertão de Pernambuco, Ana Paula Ferreira e coautores explicam mudan- elas comem menos e pior. Assim, torna-ças na vida das mulheres, especialmente a partir de 2006, quando começaram a se patente em que medida os papéis departicipar de um trabalho orientado pela perspectiva agroecológica, por meio de gênero expõem mais as mulheres doassociações, feiras agroecológicas, intercâmbios de experiências e fornecimento de que os homens às mudanças climáticas.alimentos para o mercado institucional. Já a experiência no Maranhão, des- Já as ações do Movimento das Mulheres Camponesas, por meio da Campanha crita por Cidvânia Andrade de Oliveira,pela Produção de Alimentos Saudáveis, mencionada anteriormente, inserem-se nas é um bom exemplo de como a influ-lutas por participação e reconhecimento das camponesas como sujeitos políticos ência das mulheres nas decisões sobrede direitos. planejamento e organização da produ- Essas experiências têm em comum o fato de mostrarem que o reconhecimen- ção pode contribuir para redesenharto da identidade e a conquista de direitos são parte do processo de auto-organiza- os sistemas de produção, reafirmar oção das mulheres, seja em suas organizações próprias e nos movimentos específicos princípio da alternatividade da econo-seja na intervenção junto a organizações mistas. O processo de empoderamento mia camponesa – ou seja, a destinaçãovem junto com a participação política individual e coletiva na construção de redes do produto ao consumo e à venda – ede integração e coesão social. democratizar as relações na família. Por meio das práticas agroecológicas imple- A participação nas experiências agroecológicas que estimulam as práticas de mentadas pelas mulheres em um assen-intercâmbio como ferramenta pedagógica para a expressão e troca de saberes, pos- tamento rural na comunidade de Patizal,sibilita a ampliação do espaço de atuação das mulheres, colocando-as em contato no município de Morros, promoveu-secom outras redes de sociabilidade e legitima a sua participação, como vemos na o enriquecimento e o redesenho dosexperiência das pescadoras do Amapá. quintais, espaço que cumpre função Por isso, considerar o tempo de participação cidadã dedicado pelas mulheres essencial de natureza social, ambiental,ao trabalho em associações, organizações e movimentos sociais é necessário para o cultural e econômica.seu desenvolvimento pessoal e para a construção de redes de integração (Carrasco, Em algumas experiências é possí-1999). Essa perspectiva de afirmação dos direitos das mulheres é coerente com os vel também observar que está se ex-objetivos do GT Mulheres da ANA e sua metodologia adotada na sistematização pandindo o leque de atividades gera-das experiências. doras de renda que podem contribuir para aumentar as opções estratégicasO acesso à renda e a construção da autonomia econômica das mulheres, criando condições para que elas tenham mais autonomia e po- Há evidências empíricas, relatadas em vários estudos de autoras feministas, der de decisão. Esse é o resultado, porcomo Carmem Deere (2002), de que a garantia das condições de bem-estar físico exemplo, do trabalho da associaçãodas mulheres e dos filhos e o enfrentamento da pobreza dependem significati- das pescadoras de camarão no Amapá,vamente do fato de as mulheres terem ou não acesso direto à renda e a bens que já permite que as mulheres com-produtivos. prem os apetrechos para a pesca com Nem toda renda gerada pela família é necessariamente destinada a um fundo os recursos oriundos de sua atividadecomum. E, mesmo quando constituído, esse fundo não é consumido em partes iguais econômica. Hoje elas se mobilizam paraAgriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 6
  7. 7. inserir o camarão e o açaí na alimentação escolar. Há também mudanças na divisão do autoconsumo para a garantia da so-sexual do trabalho, com o envolvimento dos maridos em atividades domésticas. berania e segurança alimentar, além da inserção no mercado. E é destacado o O grupo Dandara, na Bahia, também vem construindo sua autonomia econô- papel das mulheres no autoconsumo,mica com as iniciativas de beneficiamento de frutas nativas para comercialização representando 90,9% na criação dena Feira Agroecológica de Camamu e a venda de produtos in natura e beneficiados aves e pequenos animais; 69,2% na hor-para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA/Conab). No Rio Grande do Nor- ticultura e floricultura e 26,5 na pescate, a organização do Grupo Maria, da Rede Xique-Xique, é também considerada (Melo: 2009).uma alternativa para as mulheres, pois tem proporcionado visibilidade pública e re-conhecimento social, reflexos da busca pela autonomia econômica para a aquisição Essa lógica corrobora uma interpre-de alguns produtos para seu uso e dos filhos. tação recorrente em Chayanov (1974). O autor desenvolve a tese do equilíbrioOs contextos de insegurança alimentar e a ótimo entre consumo e trabalho, visan- do explicar que o objetivo final de todasbusca da soberania alimentar as ações e estratégias do campesinato é o bem-estar da família, para o qual é Todas as experiências apresentadas, com um fundamental garantir o autoconsumo. A recorte ou outro, têm como tema mobilizador compreensão das características e do significado da produção para o auto-e articulador a soberania e segurança alimentar, provisionamento da família e do próprio o que ressalta o papel histórico que cumprem estabelecimento continua a ser um tema pouco aprofundado, assim como suaas mulheres nesse campo, uma vez que elas são importância para a segurança alimentar, levadas a enfrentar os mais diversos contextos para a sociabilidade e para a transmissão de conhecimentos ainda precisa ser mais em que se manifesta a insegurança alimentar: estudada. O autoconsumo é uma forma falta de alternativas alimentares e atividades de proteção das famílias frente ao merca- do de compra de alimentos e um meio extrativas provocando degradação ambiental para os agricultores garantirem sua se- no Amapá; potencial extrativista ameaçado no gurança alimentar e nutricional (Gazolla e Schneider, 2007). Maranhão; expansão da monocultura com fru- Mas estudos feministas mostra-ticultura irrigada no Rio Grande do Norte; falta ram que para o produto do trabalho de alimentos e desnutrição das crianças no as- beneficiar a todos que contribuíram vai depender de quem controla os bens e sentamento na Bahia; redução das alternativas recursos. Em geral, a distribuição é maisde autoconsumo em razão da especialização da igualitária nos sistemas de produção fa- miliar nos quais a mulher participa do agricultura nas áreas de atuação do sul do Mo- trabalho no campo, das decisões e da vimento das Mulheres Camponesas; o impacto forma de dispor o produto. Nesse sen- tido há uma crítica à não-diferenciação das mudanças climáticas na produção agrícola de ganhos da teoria de Chayanov. nos exemplos do sertão de Pernambuco e do As transformações capitalistas, com Norte de Minas; as políticas de livre comércio e a especialização e a artificialização da agricultura segundo os padrões da Re- a crise do sistema agroalimentar no volução Verde, deslocaram o lugar e o plano internacional. sentido do autoconsumo, sobretudo a partir dos anos 1970 e especialmente em algumas regiões do país. As alternativas postas em prática nas experiências, embora com amplitude eênfases distintas, operam segundo uma lógica econômica comum, na qual a produ- É necessário, portanto, elaborartividade está associada à diversificação da produção agroecológica e à valorização uma nova teoria econômica para a agri- 7 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009
  8. 8. cultura ecológica, sobre a qual nos falam Almeida e Ferrari assumem o compromisso de se opor a todas as formas de(2005), que incorpore os atributos da sustentabilidade desses violência contra as mulheres que negam a sua cidadania.sistemas, como a segurança alimentar e o valor econômico do Concluindo, podemos afirmar que as experiências sus-conjunto de serviços ambientais que configuram como bem citam várias questões que seguramente contribuirão para opúblico (conservação de nascentes e cursos d’água, manejo avanço do debate e a concretização das reivindicações dasadequado dos solos, conservação da fauna, manejo de bens mulheres, que desde o 1 Encontro Nacional de Agroeco-florestais madeireiros e não-madeireiros, conservação da bio- logia, em 2002, preconizaram a igualdade de gênero comodiversidade, etc.). Como nos dizem esses autores: a economia uma condição essencial para a sustentabilidade da produçãoconvencional desconhece os conceitos de limites naturais, de ca- agroecológica e a cidadania no campo. Somam-se a elas aspacidade de suporte dos ecossistemas e de equilíbrio ecológico propostas no campo da pesquisa e metodologia debatidas no(2005:28). VI Congresso de Agroecologia que se encontram registradas Mas a economia convencional também desvaloriza ou no artigo de Maria Virgínia Aguiar e coautoras, sob o títulonão considera o trabalho das mulheres. Reflexo disso é que Mulheres no Congresso Brasileiro de Agroecologia, que fecha estamais de 70% das trabalhadoras rurais continuam a dizer que publicação.não têm renda ou que trabalham somente para o autocon- sumo. Para as economistas feministas, porém, qualquer con- Maria Emília Lisboa Pachecoceitualização de atividade econômica deve incluir todos os Assessora da Fase-Solidariedade e Educação eprocessos de produção de bens e serviços orientados para a integrante do Núcleo Executivo da ANAsubsistência e a reprodução das pessoas, independentemente memilia@fase.org.brdas relações sob as quais se produzam. Rechaçam a separaçãoartificial entre a esfera da produção e da reprodução, enten- Referências bibliográficasdendo a reprodução social como um processo dinâmico queimplica a reprodução biológica e da força de trabalho, a repro-dução dos bens de consumo e de produção e a reprodução ALMEIDA, Sílvio Gomes; FERRARI, Eugênio. Por uma novadas relações de produção (Carrasco, 1999:35). Essa perspec- teoria econômica para a agricultura ecológica. Ação Am-tiva abre possibilidades para o diálogo entre o campo agroe- biental, Minas Gerais (Universidade Federal de Viçosa),cológico e o movimento feminista de elaboração alternativa e ano VIII, n. 31, mai/jun 2005.crítica à economia convencional. CARRASCO, Cristina (Ed.). Mujeres y economía: nuevas perspectivas para viejos y nuevos problemas. Barcelona: Ed.Não à violência contra as mulheres Icaria – Antrazyt, 1999. Em dezembro de 2009, realizou-se na América Central o CHAYANOV, A.V. La organización de la Unidad Campe-primeiro acampamento de mulheres rurais para a campanha sina. Buenos Aires: Ediciones Nueva Vision, 1974.Sim à soberania alimentar, não mais violência contra as mulheres,promovida pela Coordenadora Latino-americana de Orga- CLOC. Si a la soberanía alimentaria, no más violência contra lasnizações do Campo (Cloc) e Via Campesina. O movimento mujeres. In: primer campamento de mujeres rurales - Co-camponês considera urgente construir um modelo de socie- municaciones Via Campesina em Honduras. Disponível em:dade justo e equitativo, no qual homens e mulheres rechacem <http://movimientos.org/cloc/show_text.php3?key=16527>.a violência em todas as suas formas – econômica, social, física, Acesso em: 28 de dezembro de 2009.psicológica, sexual, ambiental. DEERE, Carmem; LEÓN, Magdalena. O empoderamento No Brasil, sobretudo após a promulgação da Lei Maria da da mulher: direito à terra e direitos de propriedade naPenha, crescem as denúncias de violência contra as mulheres. América Latina. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002.Em alguns casos, é a análise das iniciativas de aplicação dos GAZOLLA, Marcio; SCHNEIDER, Sergio.  A produção daprincípios da Agroecologia ou de transição agroecológica que autonomia: “os papéis” do autoconsumo na reproduçãorevela como as desigualdades se expressam sob várias formas social dos agricultores familiares. Revista Estudos So-de violência, como no caso do grupo de mulheres Dandara, ciedade e Agricultura, Rio de Janeiro (UFRRJ), v. 15, p.que tiveram veneno lançado em seus quintais pelos homens. 89-122, 2007Mas as experiências aqui apresentadas mostram como asmulheres se organizam e elaboram estratégias de resistência LEÓN, Magdalena. Pleno empleo y el trabajo de las mujeres.para serem reconhecidas como produtoras e conquistarem in: Nalu Faria. Construir la Igualdad, Sof. REMTE e Redea cidadania. Economia e Feminismo, agosto de 2003 Esse debate está se ampliando. Houve uma repercussão MELO, Hildete Pereira; DI SABBATO, Alberto; LOMBARDI,bastante positiva das atividades sobre relações de gênero re- Maria Rosa; FARIA, Nalu; BUTTO; Andrea (Org.). Estatís-alizadas no VI Congresso Brasileiro de Agroecologia e II Con- ticas Rurais e a Economia Feminista: um olhar sobre o trabalho das mulheres. Brasília: MDA, 2009.gresso Latino-americano de Agroecologia, em 2009. A CartaAgroecológica de Curitiba destaca a importância das mulhe- PAULILO, Maria Ignez S. Trabalho familiar: uma categoria es-res na construção da Agroecologia e, assim como na Carta quecida de análise. Estudos Feministas. UniversidadePolítica do II Encontro Nacional de Agroecologia, em 2006, Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Ex-os participantes e as participantes do campo agroecológico pressão, v. 12, n. 1, 2004.Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 8
  9. 9. Soberania alimentar, feminismo e ação política um olhar sobre as ações do Movimento de Mulheres Camponesas Laeticia Jalil A atual discussão sobre reconhecidos e valorizados. Este artigo apresenta como o Movimento de Mulheres soberania alimentar no Camponesas (MMC), a partir de sua Campanha pela Produção de Alimentos Saudá- Brasil engloba enfoques veis, vem compreendendo e articulando a luta pela soberania alimentar enquantopolíticos e práticas sociais diversificadas uma estratégia de questionamento do modelo de desenvolvimento capitalista –que se desenvolvem a partir da comple- contrapondo-se à mercantilização da vida e da natureza – e da divisão sexual doxidade da nossa realidade social, políti- trabalho.ca, econômica e cultural. A questão temganho grande projeção política nos úl- O MMC e a Campanha pela Produção de Alimentostimos tempos por referenciar ações de Saudáveisdiversos movimentos sociais e sujeitospolíticos da sociedade civil ligados aosmeios urbano e rural. Ao analisarmos O MMC é fruto de uma luta política que envol-como esses movimentos sociais, redes ve as mulheres camponesas desde a década dee articulações nacionais e internacio-nais traduzem, em ações práticas e polí- 1970 e faz parte dos processos de questiona-ticas, o conceito de soberania alimentar, mento às estruturas patriarcais e capitalistastorna-se evidente que as questões degênero, mais precisamente aquelas liga- fortemente presentes no meio rural brasileiro.das às mulheres camponesas, adquirem Está organizado em quase todo o Brasil, atuan-grande realce nesse debate. do em articulação com diversos movimentos Embora as mulheres representem47,8% da população residente no meio sociais, de mulheres e mistos, rurais e urbanos,rural brasileiro (PNAD, 2006), somente de atuação nacional e internacional, sendo o16% delas são titulares das terras ondemoram. Segundo o Instituto Brasileiro único movimento feminista que compõe a Viade Geografia e Estatística (IBGE), 40% Campesina no Brasil. Como tal, reafirma oda população rural não possui qual-quer documento e, desse total, 60% modelo de agricultura camponesa na luta pelasão mulheres, o que as impossibilita de preservação da terra e da vida, a partir da auto-ter acesso a proteção social, direitossociais básicos e crédito. Isso significa organização das mulheres.quase 15 milhões de mulheres que, emsua maioria, estão privadas do acesso à Na condição de movimento feminista1, o MMC percebe a necessidade de arti-cidadania por não ter reconhecida a sua cular a luta contra o patriarcado no âmbito das forças sociais contra-hegemônicas.condição de agricultora familiar, campo- Com base nesse entendimento, elaborou e implantou a Campanha pela Produçãonesa, quilombola ou trabalhadora rural de Alimentos Saudáveis, lançada oficialmente em fevereiro de 2007 como tema polí-(Butto e Hora, 2008). tico para o Dia Internacional de Luta da Mulheres, em 8 de março. Segundo o MMC: o Movimento de Mulheres Camponesas, em seus 20 anos de história e construção, vem Essa realidade demonstra a impor- reafirmando a agricultura camponesa como forma de resistir, enfrentar e negar o modelotância da integração da perspectiva fe-minista na luta pela soberania alimentar, 1 “Constituir um movimento nacional das mulheres camponesas se justifica a partir da certeza de que ade forma que os papéis das mulheres libertação da mulher é obra da própria mulher, fruto da organização e da luta”. Nota de apresentação nana agricultura e na alimentação sejam página eletrônica: www.mmcbrasil.com.br/menu/historia_por.html. Acesso em 9/5/2009. 9 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009
  10. 10. Foto: Arquivo MMC Alimentos saudáveis produzidos localmentecapitalista e patriarcal no campo. Construímos nossa luta no sentido de propor um Projeto Como parte de suas ações no diade Agricultura Camponesa, fundamentado nos princípios da Agroecologia, que garanta a 8 de março de 2008, o MMC levou 600soberania alimentar como direito, onde o povo possa produzir e comer seus próprios mulheres camponesas para Florianópo-alimentos, respeitando as diferentes culturas, o ambiente e promovendo a vida. Assim, o lis para uma manifestação cujo lema foiMMC Brasil, neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, lança a Campanha Nacional Contra o agronegócio, pela defesa da vida epela Produção de Alimentos Saudáveis, com o lema “Produzir alimentos saudáveis, cuidar construção do Projeto de Agricultura Cam-da vida e da natureza!”. O objetivo é avançar na luta pela soberania alimentar, contribuin- ponesa. Nessa ocasião o movimento en-do no combate à fome e à miséria, tornando visível o grande potencial de produção de tregou um conjunto de reivindicaçõesalimentos que a agricultura camponesa possui, evidenciando o papel das mulheres nesse concretas ao poder público, tais comoprocesso e sensibilizando a sociedade para a situação de degradação da natureza, como a construção de 600 cisternas, a viabi-também as possibilidades de retomar o cuidado com a vida. lização de recursos para a implantação A campanha articula atividades em três frentes de ação: a) o resgate das se- de 30 hortos de plantas medicinais e amentes crioulas – com bancos de sementes, melhoramento das variedades e trocas; organização de três turmas de alfabeti-b) o resgate e a revalorização dos saberes tradicionais sobre plantas medicinais; e zação. Essa ação fortaleceu a Campanhac) a produção alimentar de base ecológica com a reeducação e revalorização dos pela Produção de Alimentos Saudáveishábitos alimentares, a partir da ética do cuidado com a vida e com a natureza. em Santa Catarina ao apontar e de- mandar as condições materiais mínimas Para concretização da campanha, as mulheres desencadeiam ações que se arti- para o seu desenvolvimento posterior.culam como parte do projeto político do MMC na sua luta pela soberania alimentar. De fato, segundo algumas mulheres queA participação do MMC no acampamento nacional das mulheres pela previdência participaram:universal em outubro de 2007, em Brasília, e as mobilizações do dia 8 de março de2008 foram momentos importantes da campanha. A pauta do 8 de março veio forta- lecer a campanha. Porque se nós tivésse- O acampamento nacional das mulheres pela previdência universal teve como mos cisterna, nossas hortas iam ser bemtema Nenhum direito a menos: pela manutenção da Previdência Pública Universal e Soli- diferentes, né? Então, nós não vamos ficardária e a manutenção da condição de Segurados Especiais. Seu objetivo foi o de ques- sem produção. Porque, queira ou não quei-tionar a exclusão das mulheres do fórum de discussão proposto pelo Ministério ra, acontece, já aconteceu nesse ano tam-da Previdência e influenciar as decisões e encaminhamentos quanto à reforma da bém, falta de água, falta, então essa pauta,legislação sobre a matéria. que nós levamos, nós esperamos que seja O MMC se apresentou no acampamento como importante força política e atendida e que fortaleça essa questão dateve a oportunidade de dar grande visibilidade à sua campanha, evidenciando que as campanha. (R.S., monitora do MMC, emmulheres compreendem e articulam as lutas pela soberania alimentar com outras depoimento colhido em Chapecó (SC)questões estruturantes, como a previdência social e a aposentadoria rural. em maio de 2008).Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 10
  11. 11. Metas da Campanha• Produção de alimentos saudáveis e diversificados.• Recursos públicos e subsidiados para a produção ecológica de alimentos.• Preservação da natureza e recuperação da biodiversidade.• Reconhecimento e valorização do trabalho da mulher.• Potencialização das redes solidárias de trabalho e consumo.• Construção de novas relações humanas e com a natureza.• Reforma agrária e políticas públicas para o campo (previdência, saúde, educação, moradia, transporte, lazer etc).• Melhoria da infraestrutura das propriedades: construção de cisternas, saneamento, energia etc.• Combate as todas as formas de violência (moral, física, psiscológica, cultural) cometidas contra as mulheres e os trabalhadores.• Ressignificação da cultura, dos valores e hábitos alimentares.• Promover a saúde e qualidade de vida da população.• Assistência técnica e desenvolvimento de tecnologias adequadas à agricultura camponesa ecológica. A Campanha de Produção de Alimentos Saudáveis quer ser um espaço para reunir as mulheres do campo e dacidade, a fim de afirmar a soberania alimentar dos povos e fortalecer a luta em defesa da vida. Eu acho que são duas coisas [a campanha e a pauta do 8 ção na sociedade, reforçando o protagonismo das mulheresde março] muito bem ligadas. Porque se você fala pra uma com- no enfrentamento não só do modelo capitalista, como tam-panheira: “faça uma horta”, uma horta sem irrigação, a primeira bém das estruturas patriarcais. Afinal, o que a experiência dacoisa que acontece é ela não vingar. Assim, temos que lutar por- campanha ressalta é que a conquista da soberania alimentarque é direito das mulheres terem horta, água, escola. (C.H., mo- não se fará somente a partir do questionamento do modelonitora do MMC em depoimento colhido em Chapecó (SC), de produção capitalista ou apenas por meio da revalorizaçãoem maio de 2008). dos saberes tradicionais da cultura camponesa. Ela explicita que essa luta deve ser fortalecida e deve fortalecer a lutaRompendo a cortina da invisibilidade e contra a opressão patriarcal sobre as mulheres, levando aconquistando espaço na sociedade novas relações sociais, pautadas pela solidariedade, respeito, reconhecimento das diversidades e o questionamento das de- As ações articuladas pela campanha se inserem nas lutaspor participação e reconhecimento das camponesas enquan- sigualdades produzidas pela divisão sexual do trabalho.to sujeitos políticos de direitos. Trata-se, em essência, da pró-pria luta pela democratização da sociedade brasileira, já que Laetícia Jalilquestiona os enfoques hegemônicos que orientam a forma socióloga e doutoranda do CPDA/UFRRJcom que o Estado historicamente se relacionou com as mu- laeticiajalil@gmail.comlheres no meio rural. Um aspecto essencial nesse processo tem sido a maiorparticipação das mulheres em espaços públicos e, a partir daí,a conquista de novos espaços políticos no âmbito doméstico. Referências bibliográficasDe fato, ao participar das lutas no campo articuladas pelomovimento de mulheres, a trabalhadora rural assume uma BUTTO, A.; HORA, K. Mulheres e reforma agrária no Brasil.posição que lhe permite questionar as relações de dominação, In: LOPES, ZARZAR (Org.). A experiência recente noespecialmente no espaço público (Fischer, 2006, p. 57). Assim, Brasil. Brasília: MDA, 2008.ao romper a cortina de sua invisibilidade pública (SILVA, 1992,p. 282), graças a uma nova trama de relações sociais que pres- FISCHER, Isaura Rufino. O protagonismo da mulher ruralsupõe interações e novos saberes, também se redefinem as no contexto da dominação. Recife: Fundação Joaquimrelações de poder na instância privada. Nabuco – Massangana, 2006. A Campanha pela Produção de Alimentos Saudáveisreafirma a luta pela soberania alimentar enquanto princípio Movimento das Mulheres Camponesas (MMC). <http://www.de ação e instrumento político de processos de transforma- mmcbrasil.com.br>. Acesso em: 8 de maio de 2009. 11 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009
  12. 12. Foto: Adriana Galvão Freire Troca de conhecimento: jovem agricultora apresenta sua experiência agroecológica durante a II Oficina de Sistematização de Experiências do NE Mulheres construindo a Agroecologia no Brasil Elisabeth Maria Cardoso e Vanessa Schottz Rodrigues D esde sua criação, em 20041, o Grupo de Tra- nível nacional e regional, e pela atuação junto aos outros GTs balho de Mulheres da Articulação Nacional da articulação. A segunda se expressa pela intervenção nos de Agroecologia (GT Mulheres da ANA) espaços de formulação de políticas públicas, buscando valori- adota uma estratégia ancorada em duas linhas de ação com- zar as experiências que as mulheres vêm desenvolvendo nos plementares. A primeira consiste na incorporação do debate diferentes contextos socioambientais do país. O GT se afirma de gênero em todas as instâncias organizativas da ANA, em como um espaço de auto-organização das mulheres dentro da ANA, assumindo que é necessário mobilizá-las e articulá- las para atuarem efetivamente diante das desigualdades de 1 O GT Mulheres da ANA foi criado em 2004 durante um seminário nacional que reuniu organizações feministas, de mulheres rurais e do campo agroeco- gênero na sociedade e da situação de exclusão nos debates lógico para refletir sobre os diálogos entre feminismo e Agroecologia. e na esfera política. A incorporação da perspectiva de gênero Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 12
  13. 13. na ANA e a divulgação das reflexões e experiências das mu- da rotina institucional, embora o protagonismo das mulhereslheres é, para o GT, condição indispensável para que seja dada ainda não fosse contemplado, enquanto para outras foi umavisibilidade ao papel fundamental desempenhado por elas na novidade. Descrevemos a seguir a metodologia adotada noconstrução da Agroecologia. processo, apresentando alguns dados preliminares com base nos resultados obtidos entre março de 2008 e abril de 2009Intercâmbio e sistematização de na região Nordeste.experiências protagonizadas por mulheres A proposta metodológica Muitos esforços vêm sendo empregados para identificare sistematizar as experiências em Agroecologia conduzidas Os principais objetivos da sistematização de experiên-por todo o país. Contudo, percebe-se que, embora a gran- cias protagonizadas por mulheres têm sido: 1) dar visibilidadede maioria de experiências sistematizadas seja protagonizada às experiências promovidas por mulheres na Agroecologia; 2)por homens, muitas contam com a importante participação elaborar e experimentar uma metodologia participativa dee esforço das mulheres. Esse aspecto, porém, vem sendo ne- sistematização, aprimorando a capacidade das mulheres degligenciado. Ao destacar a natureza familiar da experiência, refletir sobre suas próprias experiências; 3) refletir sobre omuitas sistematizações deixam de problematizar as relações papel das mulheres na construção da Agroecologia e o papelde poder e os papéis exercidos por cada um dos membros da Agroecologia na vida das mulheres; e 4) gerar referênciasda família, contribuindo para manter invisível o trabalho das para a formulação de políticas públicas a partir dos aprendiza-mulheres na construção da Agroecologia.Temas como divisão dos das experiências sistematizadas.sexual do trabalho, planejamento produtivo, autonomia polí-tica e econômica das mulheres acabam, portanto, não sendo A proposta se baseia na ideia de que a sistematizaçãoabordados nas sistematizações. deve ser conduzida pelas próprias agricultoras e técnicas das organizações envolvidas. Além disso, evitou-se definir previa- Foi diante dessa problemática que as mulheres reunidas mente um formato metodológico único que pudesse tolherno GT apontaram a necessidade de garantir espaços especí- a liberdade de expressão e de produção coletiva dos gruposficos para sua auto-organização. Elas também ressaltaram a engajados nesse esforço de sistematização. No lugar de me-importância estratégica de realizar sistematizações e inter- todologias-padrão, optou-se pela construção conjunta de umcâmbios de experiências protagonizadas pelas agricultoras, roteiro de questões essenciais sobre a vida das mulheres quecamponesas, agroextrativistas, indígenas, quilombolas, quebra- deveriam ser abordadas nas sistematizações.deiras de coco babaçu, ribeirinhas, entre outras. Essa iniciativabuscava explicitar as interfaces entre as ações locais e a pers- Os grupos foram estimulados a empregar instrumentospectiva de construção da transição agroecológica. de sistematização variados que assegurassem a plena parti- cipação dos diferentes agentes envolvidos nas experiências, As mulheres vão se reconhecer na medida em que fa- assim como o respeito aos distintos graus de maturidade das lam da sua própria história, do seu protagonismo. (Rose, agri- organizações e de suas reflexões sobre Agroecologia e femi- cultora e membro do Pólo Sindical da Borborema, Paraíba) nismo. Em síntese, o método adotado no processo envolveu Foi nesse contexto que se iniciou, em 2008, o proces- os seguintes passos:so de Intercâmbio e Sistematização de Experiências Agroe- 1. Formação de uma comissão local, composta por organiza-cológicas de Mulheres, fruto de uma parceria entre o GT ções da região onde as sistematizações foram realizadas,Mulheres da ANA, a ActionAid Brasil e a Heifer. O processo para o mapeamento das experiências, a construção daenvolve um conjunto amplo de organizações e movimentos proposta metodológica e a elaboração da programaçãosociais, tendo já motivado a sistematização de 23 experiências da primeira oficina.da região Nordeste e duas da região Sudeste. No momento,estão sendo sistematizadas 15 experiências da região Sul e 2. Realização da primeira oficina com os seguintes ob-16 da Amazônia.2 As sistematizações abrangem tanto unidades jetivos: conhecer e refletir sobre as experiências comfamiliares como grupos e associações de mulheres. Para algu- mulheres e Agroecologia de cada organização envolvida;mas organizações, a prática da sistematização já fazia parte refletir sobre o papel da sistematização para a vida das mulheres e das organizações; construir de forma conjun-2 Esse processo de intercâmbio e sistematização vem sendo desenvolvido em ta uma proposta de roteiro de sistematização de expe-parceria com algumas organizações e redes regionais: GT Mulheres de Per- riências.nambuco, na região Nordeste; GT Gênero da Rede Ecovida e Movimento deMulheres Camponesas, na região Sul; e Rede de Mulheres Empreendedoras 3. Cada grupo/organização/movimento conduz o seu pró-Rurais da Amazônia, na região amazônica. prio processo de sistematização. Para acompanhar essa 13 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009
  14. 14. da sistematização, a partir dos debates e reflexões sobre as experiências apre-Fotos: GT Mulheres da ANA sentadas na segunda oficina. As visitas a experiências protagonizadas por mulheres realizadas durante a pri‑ meira e a segunda oficina foram de grande importância para o processo de sistema- tização. Os exemplos práticos visualizados nessas oportunidades contribuíram para a reflexão sobre o papel das mulheres na construção da Agroecologia, assim como sobre a importância da perspectiva agroecológica para a vida das mulheres. Foi exatamente com base nessa reflexão coletiva que os elementos básicos que vieram a compor o roteiro de sistematização foram definidos. A pergunta básica para esse exercício foi: Quais as questões fundamentais para o movimento de mulheres e para o movimento agroecológico que as experiências apontam e que devem ser evidenciadas num processo de sistematização? Na região Nordeste, o roteiro de sistematização construído durante a primei- ra oficina apontou um conjunto de questões a serem aprofundadas: • Resgate da história do grupo e da trajetória de vida das mulheres, buscando entender em que contexto as experiências se desenvolvem. • Em que medida as experiências contribuem para a construção da autonomia política das mulheres, valorizando e incentivando a sua participação nos diversos espaços públicos e decisórios. • Em que medida as experiências propiciam geração de renda e autonomia finan- ceira às mulheres? Elas estão tendo autonomia para usar a renda? Que estraté- gias elas utilizaram para conquistar essa autonomia? • Quanto às transformações na vida das mulheres, houve alguma mudança na re- lação com o marido e os filhos? E na divisão de tarefas domésticas? O seu trabalho vem sendo mais valorizado pela comunidade e pela família? Houve conquistas de direitos das mulheres a partir da experiência? • Como se dá o planejamento das mulheres para as atividades produtivas e repro- dutivas, incluindo o tempo para o lazer? O trabalho doméstico e nos quintais é De cima para baixo: Construção coletiva do contabilizado no planejamento das atividades da propriedade? “Rio da vida”; Grupo de mulheres para a sistematização; Detalhe do “Rio da Vida” • As mulheres envolvidas com a experiência vivenciam algum tipo de violência, seja ela física, psicológica ou patrimonial? etapa, foi importante a criação de uma comissão de metodologia, que A Agroecologia na vida das mulheres assegurou a participação de agri- cultoras e técnicas e que moni- Escrever sobre a minha história me tocou. Acho que foi muito importante colo- torou o andamento do processo car no papel aquilo que faço. (Luiza, agricultora do grupo Artemísia, Pernambuco) de sistematização nas diferentes As mulheres relataram que, ao sistematizarem suas experiências, sentiram-se regiões. No caso do Nordeste, o mais valorizadas, porque isso deu maior visibilidade ao seu trabalho, que na maioria prazo para a realização dessas sis- das vezes é desconsiderado pelos companheiros e filhos. Há também uma clara tematizações foi de oito meses; percepção de que a falta de divisão dos afazeres domésticos gera uma grande so- 4. Realização da segunda oficina para brecarga e compromete sua participação nos espaços públicos, como sindicatos, socialização das experiências sis- movimentos e associações, além do tempo dedicado ao sistema de produção. Em tematizadas, avaliação da metodo- muitas situações, a mulher continua sendo a única responsável por tarefas como a logia e aprofundamento de alguns manutenção diária da casa e o cuidado com os filhos. temas que surgiram com mais Por outro lado, há experiências em que a produção agroecológica e a partici- destaque nas sistematizações e na pação crescente na esfera política têm contribuído para o empoderamento das mu- primeira oficina. No Nordeste, por lheres, que começaram a transpor o espaço doméstico, conquistando maior auto- exemplo, foram identificados os nomia e autoestima. Aliás, a elevação da autoestima é uma das principais conquistas seguintes temas: violência contra destacadas pelas mulheres, pois a partir dela ganha-se mais confiança para sair do as mulheres; autonomia política e isolamento e ocupar espaços antes destinados apenas aos homens. Muitas agricul- financeira; inovações na divisão se- toras passaram a assumir cargos estratégicos nas associações e sindicatos, como a xual do trabalho; e protagonismo presidência e a tesouraria. Tais condições estão contribuindo para a alteração das juvenil. relações de gênero em algumas famílias, incidindo sobre a distribuição do trabalho 5. Um período para a incorporação doméstico entre os demais membros da família (pai e filhos) e a inclusão das mulhe- de novos elementos ao texto final res no planejamento produtivo da propriedade. Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 14
  15. 15. As experiências mostraram que vidade. A logística de transporte dos produtos para as feiras ainda é um grande entrave, na medida em que as distâncias essas conquistas só foram possíveis são grandes, as condições das estradas são péssimas e não há nos processos em que a produção apoio das prefeituras. Por conta disso, os custos com trans- porte têm comprometido muito a rentabilidade das ativida- agroecológica foi articulada com des produtivas. Alguns grupos de mulheres ainda encontram a superação da divisão sexual do dificuldades para se inserirem nos espaços de comercializa- ção, justamente por não contarem com assistência técnica, trabalho, a promoção do acesso à acesso a crédito e apoio logístico. informação e com estratégias de É comum também a situação em que a inserção das mu- garantia da autonomia econômica lheres nos espaços de comercialização não assegura maior autonomia financeira, pois os homens se apropriam desses re- e política das mulheres. cursos e continuam definindo sozinhos onde eles serão em- pregados. Outra reflexão importante é a de que, assim como Embora muitas experiências já avancem no sentido da o trabalho das mulheres é invisível aos olhos dos homens einclusão das mulheres nos espaços de comercialização, foi da sociedade, muitas vezes a renda obtida por elas tambémpossível identificar inúmeros desafios relacionados a essa ati- é desconsiderada e desvalorizada, uma vez que os recursosFoto: Adriana Galvão FreireMulheres do Grupo Xique-Xique apresentam sua experiência durante a I Oficina de Sistematização de Experiências do NE em Afogadosda Ingazeira (PE) 15 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009
  16. 16. Foto: Adriana Galvão Freire a aproximação e o diálogo entre orga- nizações e movimentos mistos e femi- nistas. Segundo porque a metodologia adotada propiciou que as organizações envolvidas participassem do processo com base nos seus acúmulos prévios. Os formatos e instrumentos utili- zados pelas organizações foram muito diversificados, tais como: intercâmbio de cartas, confecção de murais, oficinas, entrevistas, poesias, visitas e vídeos. As mulheres consideraram que a metodo- logia empregada para a sistematização favoreceu a participação do coletivo de mulheres em todo o processo, o que despertou o interesse de outras mu- lheres e outros grupos em continuarem sistematizando suas experiências. Além disso, o processo de inter- câmbio e sistematização de experi- ências protagonizadas por mulheres Grupo de trabalho na II Oficina de Sistematização de Experiências do NE em Suape (PE) contribuiu para o aprofundamento da reflexão sobre Agroecologia e para asão destinados a suprir necessidades domésticas, como roupas, calçados e material desconstrução dos papéis socialmenteescolar para as crianças. Apesar dessa falta de reconhecimento, a renda obtida com atribuídos às mulheres, trazendo à tonaa venda dos produtos dos quintais abriu portas para que muitas mulheres voltassem alguns debates políticos que já come-a estudar. çam a influenciar as organizações, entre eles: o aprofundamento da discussão Embora a violência contra a mulher tenha sido pautada e incluída no roteiro sobre os elos entre feminismo e Agro-de sistematização pelas agricultoras e técnicas na primeira oficina, poucas experiên­ ecologia; o acesso das mulheres aoscias abordaram o tema. Ficou evidenciado para o GT que a questão necessita ser mercados; a incorporação da valoriza-aprofundada coletivamente. ção da autonomia financeira e política nas experiências; e o enfrentamento daA sistematização na vida das mulheres violência contra as mulheres. A abordagem metodológica adotada no processo foi ajustada às possibilida- O GT avalia que esse processo deudes e interesses das organizações envolvidas e propiciou o pleno envolvimento maior visibilidade ao protagonismo dasdas agricultoras e técnicas. O acompanhamento de todas as etapas pela comissão mulheres na construção da Agroecolo-metodológica colaborou também para que o processo fosse bem-sucedido, tendo gia e fortaleceu a capacidade de refletirtodas organizações participantes sistematizado ao menos uma experiência. sobre suas próprias experiências. As visitas de intercâmbio também foram destacadas pelas agricultoras como Colocar em prática foi difícil.espaços de reflexão, troca de experiências e valorização do seu trabalho. Nunca tínhamos sistematizado. Apro- veitei muito, pois tive a oportunidade Estou muito alegre e me emocionei com a visita. Não é só mostrar o que faço, de conversar com as mulheres. Elas mas pude aprender também. Elas me passaram muitas coisas boas e me deram se sentiram valorizadas com o pro- ânimo para continuar a luta. (Dilene, jovem agricultora de Sirinhaém) cesso de sistematização. (Cicleude, Cada grupo que me visita é uma renovação da minha luta. (D. Amara, agriculto- MST-MA) ra do Grupo de Mulheres de União e Riachuelo, Pernambuco) Elisabeth Maria Cardoso As participantes consideraram que o roteiro proposto contribuiu para apro- engenheira agrônoma do Centro defundar o olhar sobre alguns temas relacionados ao cotidiano das mulheres, como Tecnologias Alternativas da Zona daviolência, autonomia, divisão do trabalho, bem como chamou a atenção para a im- Mata (CTA/ZM) e animadora do GTportância do resgate da história dos grupos e das trajetórias de vida das mulheres. Mulheres da ANAAssim, ganharam também destaque nas sistematizações temas como nascimento, beth@ctazm.org.brcasamento, maturidade, amizade e a saída da casa dos pais. Outro aspecto destacado pelas participantes foi a ampla diversidade de ex- Vanessa Schottz Rodriguesperiências apresentadas pelas organizações e movimentos que se encontram em nutricionista integrante da equipe daestágios distintos de organização e reflexão sobre os temas da Agroecologia e do Fase e animadora do GTfeminismo. Embora essa diversidade trouxesse alguma dificuldade para o processo Mulheres da ANAcoletivo, ela foi reconhecida como uma grande virtude. Primeiro porque permitiu vanessa@fase.org.brAgriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 16
  17. 17. Foto: Luciana Rios Produção de alimentos agroecológicos da roça das mulheres Roça agroecológica dasmulheres do Assentamento Dandara dos Palmares, Camamu (BA) Ana Celsa Sousa, Carlos Eduardo de Souza Leite e Luciana Rios Mulheres de Dandara na luta pelos seus direitos: esse é A comunidade surgiu em 1997 em uma área antes ex-o lema do Grupo de Mulheres de Dandara, que conta com plorada pela empresa Cepel para o cultivo do cacau em mo-sete integrantes e que há 10 anos desenvolve experiências nocultura, sistema que favoreceu a disseminação da doençaagroecológicas numa roça comunitária localizada no As- vassoura-de-bruxa causada pelo fungo Moniliophtera pernicio-sentamento Dandara dos Palmares, município de Camamu, sa, o que contribuiu decisivamente para o declínio da ativida-Baixo-Sul da Bahia. de cacaueira nas grandes fazendas da região.  A transforma- 17 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009
  18. 18. Foto: Luciana Rios Foto: Luciana RiosFoto: Luciana Rios Acima e ao lado: Comemoração dos 10 anos da roça agroecológica, em agosto de 2009 ção das grandes propriedades cacauicultoras em latifúndios roxinho (Euphorbia cotinifolia) e a manipueira (água extraída da improdutivos impulsionou o surgimento de assentamentos mandioca). Esse primeiro momento também foi marcado pelo rurais como o de Dandara, coroando a luta pela terra de 30 descrédito dos homens da comunidade que, em desrespei- anos de muitas famílias da região. to às mulheres e ao padrão de manejo que elas escolheram, utilizavam veneno nos quintais cultivados por elas. Além de No início do acampamento, as famílias vivenciaram mo- dificultar a disseminação das práticas agroecológicas no as- mentos críticos devido à falta de alimentos. Segundo uma sentamento, essa atitude foi considerada uma violência contra agricultora, que na época atuava como líder pela Pastoral da as mulheres. Devido ao trabalho duro e à falta de apoio de Criança, as crianças eram as mais atingidas pela desnutrição, alguns maridos, algumas mulheres foram desistindo do pro- diarreia e outras doenças. Com o propósito de produzir ali- cesso, restando as sete que permanecem até hoje. mentos destinados prioritariamente às crianças, em 1998 um grupo de 20 mulheres solicitou à Associação Comunitária um lote de quatro hectares. Em 1999, a doação da área foi apro- Em 2004, a comunidade iniciou a vada numa assembleia da associação, e o grupo deu início ao produção de alimentos nos quin- trabalho em mutirões, contando com o apoio de algumas en- tidades, como o Serviço de Assessoria a Organizações Popu- tais, a criação de pequenos ani- lares Rurais (Sasop) e a Pastoral da Criança, que assessoraram mais, o resgate das plantas medici- na produção do viveiro de mudas de frutíferas, no manejo agroecológico e na gestão de um fundo rotativo para compra nais e dos remédios caseiros e um de insumos, sementes e ferramentas. A roça foi implantada programa de reeducação alimen- com uma grande diversidade de plantas: mandioca, cupuaçu, banana-da-terra, café, feijão, bata-doce, gergelim, milho, abaca- tar. A dinâmica gerada na comuni- xi, urucum, entre outras. dade em função da construção e O grupo implantou o roçado com o manejo agroflo- do resgate do conhecimento so- restal regenerativo, já que se trata de uma região rica em biodiversidade do bioma Mata Atlântica, no qual as árvores bre essas diversas questões criou predominam como componentes dos agroecossistemas. De um ambiente favorável ao em- início, houve certa resistência por parte de algumas mulheres do grupo por não conhecerem essa proposta de manejo. No poderamento das mulheres, por entanto, após as primeiras experimentações, elas perceberam meio de um processo intenso de que se tratava da melhor opção, na qual o mato era roçado e o solo era protegido por plantas nativas. mobilização, capacitação e inter- O maior desafio nesse período inicial foi convencer as câmbio com outras experiências companheiras a não empregarem veneno para o controle de em torno à temática da segurança formigas, adotando no lugar o manejo de plantas ajudantes, como a comigo-ninguém-pode (Dieffenbachia picta Schott), o alimentar e nutricional. Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009 18
  19. 19. Foto: Luciana RiosManejo agroflorestal na roça das mulheres Durante todo o processo de experimentação dos princí- são fomentadas por agentes externos, tais como políticos epios da Agroecologia no manejo da roça, aconteceram várias agentes financeiros. As comunidades acabam adotando essevisitas de outras organizações que traziam agricultoras e agri- formato institucional com o objetivo de acessar os benefícioscultores para discutirem sobre o processo de transição agro- de políticas públicas. Normalmente, a gestão dessas organiza-ecológica em suas propriedades. Com o grupo organizado e ções é feita pelos homens, que resistem ao acesso das mulhe-sendo referência na comunidade, muitas mulheres foram con- res aos cargos diretivos e de tomada de decisão.vidadas para participar de encontros fora de Dandara, tanto A inserção das mulheres na associação comunitária depara capacitações como para trocas de conhecimentos com Dandara não foi fácil. No início, sequer a participação delasoutros grupos. como sócias foi aceita, já que não eram titulares dos lotes das Os encontros no assentamento também são importan- famílias. Dessa forma, não foi dado a elas o direito de votartes para capacitação e criação de autonomia. Nesses momen- nem de serem votadas e poucas participavam das decisõestos as mulheres têm a oportunidade de expor pensamentos relacionadas ao desenvolvimento do assentamento. Dois anose ideias, de resgatar e reconstruir sua cidadania. A dinâmica depois, as mulheres conquistaram o direito de se associarem,de intercâmbio, seja em nível comunitário, regional, estadual mas como não podiam pagar as mensalidades ficavam inadim-ou nacional, a exemplo do Grupo de Trabalho de Mulheres plentes e sem direito a voz e voto. Com muita luta, o grupoda Articulação Nacional de Agroecologia (GT Mulheres da de mulheres conseguiu alteração no estatuto de forma queANA), da Rede de Mulheres em Remanso (BA), do Quilombo todos os membros de uma família estariam adimplentes me-de Conceição das Crioulas (PE), dos Encontros sobre Agroe- diante o pagamento de uma única mensalidade.cologia, dos fóruns e feiras, tem sido algo constante e funda- Algumas das mulheres do grupo são associadas ao Sin-mental para o grupo de Dandara, sobretudo por propiciar a dicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Camamutroca de experiências das práticas agroecológicas, uma maior (STTR), instituição que tem desempenhado um papel essen-articulação entre mulheres e a organização comunitária. cial na formação de lideranças. Embora a política de cotas da organização assegure que as mulheres ocupem secretarias doParticipação das mulheres nas organizações STTR, a falta de experiência delas nessas funções se apresen- Geralmente, as comunidades e os assentamentos de Ca- tou como um obstáculo.mamu se organizam por intermédio de associações comuni- Nos espaços de formação política, o grupo tem refle-tárias, assumindo formas jurídicas que muito frequentemente tido sobre a participação efetiva das mulheres em cargos 19 Agriculturas • v. 6 - n. 4 • dezembro de 2009

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