1   agriculturas-edicao-especial-rio+20
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

1 agriculturas-edicao-especial-rio+20

on

  • 746 views

 

Statistics

Views

Total Views
746
Views on SlideShare
746
Embed Views
0

Actions

Likes
0
Downloads
5
Comments
0

0 Embeds 0

No embeds

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

1   agriculturas-edicao-especial-rio+20 1 agriculturas-edicao-especial-rio+20 Document Transcript

  • EXPERIÊNCIAS EM AGROECOLOGIA • • Leisa Brasil • EXPERIÊNCIAS EM AGROECOLOGIA Leisa Brasil • JUN 2012 • vol.9 n.1 JUN 2012 • vol.9 n.1 cial Ed pe ç ã o Es i Agroecologia Política na Rio+20Resiliência às Superação da Soberania e segurançamudanças climáticas pobreza rural alimentar no século XXI
  • Propaganda conferência internacional produção armazenamento transformação comercialização venda a retalho consumo 6–9 novembro 2012 Adis Abeba, Etiópia http://makingtheconnection.cta.int VISITE O NOSSO SITE! Descarregue o leitor de código QR para usar no seu telemóvel.2 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • AGRICULTURA CAMPONESA EM FOCOPromovendo as múltiplasfunções da agriculturaP ara o povo da região do Himalaia indiano, a do cultivo de forragens, o projeto também apoiou criação de gado tem sido tradicionalmente atividades ligadas à conservação de forragem, me- uma parte integrante dos sistemas agrícolas. lhoria no manejo alimentar, capacitação e mobiliza-Mas os agricultores muitas vezes enfrentam uma ção comunitária. Hoje, mais de 1,5 mil agricultoresaguda escassez sazonal de forragem, resultando não estabeleceram pequenos viveiros descentralizadosapenas em baixos rendimentos da produção de leite para a produção de mudas de espécies forrageiras.e na precarização da saúde dos animais, mas tam- Além disso, grupos de criadores foram formados nasbém em trabalho árduo para as mulheres e em de- vilas, permitindo que as comunidades constituam es-gradação florestal. Atualmente, mais de 8 mil famílias quemas de poupança e financiamento e desenvol-no distrito montanhoso de Uttarakhand participam vam microempreendimentos. As famílias agricultorasde um programa da Sociedade Himmotthan para têm aumentado as suas vendas de leite e os plantéispromover um manejo integrado e ecologicamente de gado. No entanto, além da produtividade e dasustentável da pecuária e estão cultivando diversas renda, o programa tem promovido benefícios maisgramíneas forrageiras. Muitas dessas espécies forra- abrangentes: questões ambientais estão sendo dis-geiras introduzidas no programa permanecem sem- cutidas e resolvidas, as famílias estão tendo acesso apre verdes, enquanto outras fornecem forragem seca crédito e mais crianças estão frequentando a escola.nutritiva em quantidade suficiente para durar todo oinverno. Essas ações têm ajudado a preservar as flo- Texto e fotografia: Vishal Singh / Centre for Ecologyrestas e a aumentar o teor de umidade do solo. Além Development and Research Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 3
  • SUMÁRIO3 Agricultura camponesa 26 Superação da pobreza: em foco indo além do enfoque monetarista6 Editorial: Vinte anos P.V. Satheesh depois 32 Agrobiodiversidade reconhecida: aprofundando o debate para uma real transformação 34 O dilema energético Flemming Nielsen8 Alimentando o mundo no século XXI 40 Entrevista: Jean Marc von der Weid Ann Waters-Bayer14 Estratégias agroecológicas 42 Uma abordagem holística para aumentar a resiliência para o aprendizado sobre no contexto de mudanças agricultura sustentável climáticas Clara Nicholls e Miguel Altieri 20 Aprendizagem em rede sobre a organização para acesso aos mercados Giel Ton22 Entrevista: Manuel Esta edição foi produzida com o apoio das Organizações das Gonzalez de Molina Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e da Rede24 Marcando posição na Internacional de Segurança Rio+20 Alimentar (IFSN) .4 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • INTRODUÇÃOA mudançavirá do campoe das ruasA inda não sabemos qual será o resul- Vinte anos depois, há uma abundância de experiências tado da Rio+20. Mas os preparativos bem-sucedidas, mas frequentemente elas têm perma- já desencadearam um enorme fluxo necido localizadas. Aumentar a escala das mesmas foi e de informações sobre a agricultura continua sendo um grande desafio. Um dos principais familiar camponesa e a Agroecologia. motivos para a manutenção dessa situação é que as Mais do que nunca há um acúmulo políticas agrícolas continuam incentivando um tipode evidências que corroboram a afirmação de que os de agricultura que depende de insumos e tecnologiassistemas agroecológicos são produtivos, resilientes e industriais. Mas há exemplos significativos de méto-sustentáveis. No entanto, a invisibilidade da agricultura dos de manejo agrícola sustentáveis que conseguiramcamponesa perante a opinião pública e os tomadores ultrapassar a escala de aplicação localizada. O Sistemade decisão continua predominante. Enquanto isso, o de Intensificação de Arroz, desenvolvido em Madagascarfuturo de muitas comunidades rurais no mundo inteiro na década de 1980, é um desses exemplos. Publicamosestá sob uma ameaça sem precedentes com o avanço da um artigo sobre essa experiência em 1999 e recebemosagricultura industrial. Como podemos ultrapassar essa muitas reações positivas por parte de leitores que decidi-barreira da invisibilidade e promover a agricultura cam- ram experimentar o sistema. Atualmente ele é praticadoponesa como a base social e econômica da agricultura por milhões de agricultores em 36 países com evidênciassustentável? De fato, espera-se que as discussões no Rio bem documentadas de que tem a capacidade de duplicarde Janeiro se concentrem em como podemos promover os rendimentos e reduzir pela metade o uso de água.a transição para sistemas agroalimentares mais sustentá- No entanto, muitos cientistas especialistas na cultura doveis, e não em se devemos promover tais sistemas. Existe arroz continuam a questionar esse método. Por quê?um sentimento generalizado de que não há tempo a Mudanças profundas estão acontecendo. Mas muitasperder. Mas devemos ter cuidado para que essa sensação vezes elas são quase imperceptíveis e escapam à nossade urgência não nos faça cair na armadilha de buscar percepção. Vamos então calibrar melhor o olhar e ficarsaídas enganosas, baseadas em soluções tecnológicas mais perceptivos para identificarmos uma miríade derápidas, muitas vezes apresentadas como a única opção mudanças que fazem parte de um processo vigorosopara alimentar o mundo em 2050. de transformação na agricultura promovido a partir Já em 1992, nossa revista (então chamada Boletim das propriedades e comunidades rurais. Esse processo,Ileia) apresentava artigos sobre essas mesmas questões desencadeado por famílias agricultoras e suas organi-que estamos discutindo hoje. A soberania alimentar era zações, representa uma resposta coerente à profundaum tema chave. Embora a Via Campesina ainda não crise agrária gerada pelo modelo agroindustrial.houvesse cunhado politicamente o termo, as ideias prin- Dedicamos esta edição especial sobre a Rio +20 aoscipais já estavam lá nas mentes dos(as) agricultores(as) agricultores e agricultoras de todo o mundo que see dos(as) autores(as) dos artigos publicados em nossa empenham em construir uma agricultura ecologica-revista. A gestão integral dos recursos, com a integração mente sã e socialmente mais justa. Este número é umaentre agricultura e criação, o fortalecimento dos sistemas produção conjunta da AgriCultures Network: nossosagroalimentares locais, a conservação dos recursos editores do Brasil, Peru, Senegal, Índia e Holandagenéticos locais e outras medidas coerentes com o reuniram histórias inspiradoras recolhidas em todo oenfoque agroecológico eram defendidos como caminhos mundo. Esperamos que goste da leitura, seja no Rio denecessários para enfrentarmos desafios alimentares, Janeiro ou em casa!ambientais e sociais planetários. A questão da energiatambém figurava explicitamente na agenda, assim comoa necessidade de reconhecer o papel e o protagonismodas mulheres agricultoras. O mesmo se passa com nossasproposições para o debate sobre mudanças climáticas... Edith van Walsum Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 5
  • editorialVinte anos depois: Onde estamos? Para onde vamos? Vinte anos após a primeira a conferência. No entanto, quando se tornou claro que Cúpula da Terra em 1992, o documento base oficial não proporia compromissos sérios, muitas organizações optaram por abandonar o a cidade do Rio de Janeiro processo oficial e passaram a se concentrar na organi- novamente sedia uma grande zação de espaços paralelos destinados a debater suas conferência das Nações agendas e reforçar alianças, de forma a assegurar que Unidas. É o momento para todas as articulações internacionais continuarão após a conferência. avaliar o que se avançou e discutir os temas que Mais do mesmo com retórica emergiram desde então. verde  Poucos dias antes da conferência, o sig- nificado de “economia verde” ainda é contestado. O Marta Dabrowska Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente D (Pnuma) descreve economia verde como um sistema de esta vez, os principais temas da confe- atividades econômicas relacionadas à produção, à distri- rência são as bases para uma “econo- buição e ao consumo de bens e serviços que resultam na mia verde” no contexto do desenvolvi- melhoria do bem-estar da humanidade a longo prazo, mento sustentável e dos esforços para ao mesmo tempo em que não expõem as gerações futuras a erradicação da pobreza e o quadro a significativos riscos ambientais e à escassez ecológica. institucional necessário para o desen- Embora abrangente, essa definição está aberta a muitas volvimento sustentável. Desde que a nova Conferência interpretações. Governos nacionais e agências da ONU foi anunciada, no entanto, muitas pessoas se questionam tendem a apoiar apenas pequenas mudanças dentro se faz sentido organizar uma nova Cúpula da Terra ten- dos sistemas econômicos existentes, tendo como foco do em vista que os compromissos anteriores estão longe soluções tecnológicas e políticas que fariam o “cres- de serem cumpridos. Além disso, significativa parcela da cimento sustentável” possível. Muitas organizações sociedade civil denuncia que o foco em uma “economia civis exigem medidas mais radicais e insistem em que verde” significa na prática a desconsideração das múlti- é necessário promover uma transformação de todo o plas dimensões que devem necessariamente integrar-se sistema econômico. Elas defendem uma radical “mu- entre si para a construção de padrões mais sustentáveis dança de paradigma” e novos modelos econômicos que de desenvolvimento. coloquem ao centro as dimensões ambientais e sociais A Minuta Zero do documento base da conferência, do desenvolvimento. A principal questão, no entanto, é apresentada em janeiro de 2012, provocou sérias con- se precisamos de novas ideias ou se devemos nos voltar trovérsias em face do seu grau de generalidade, da falta para as soluções que já estão em curso e que reconhe- de compromissos com mudanças radicais e da omissão cem o potencial dos sistemas alternativos que foram de várias questões importantes, entre outras, a referência desenvolvidos ao longo dos anos. à Agroecologia como enfoque para a reorientação do A disputa pelos futuros rumos da agricultura ilustra modelo dominante de agricultura baseado nos preceitos bem essa discussão. Há um consenso de que a produ- técnico-científicos da Revolução Verde. Se, de um lado, ção agrícola tem que se tornar mais sustentável e de o texto traz a proposta de eliminação de subsídios desti- que a agricultura familiar camponesa, especialmente as nados à agricultura convencional, por outro, evita uma mulheres agricultoras, precisam ter seu papel reconhe- discussão profunda sobre as raízes da insustentabilidade cido e valorizado. No entanto, os pontos de vista sobre dos sistemas agroalimentares modernos. como alcançar a produção sustentável estão altamente Desde o início, organizações da sociedade civil se polarizados. Um modelo propõe uma “intensificação envolveram ativamente no processo preparatório para sustentável” e se baseia no desenvolvimento e na 6 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • agricultura de base agroecológica pode produzir comi- da suficiente para alimentar uma população humana crescente e contribuir para a criação de sistemas sociais mais justos e adaptados às mudanças climáticas. Para muitos, essa postura soa como uma surpresa ou como uma “novidade”. No entanto, há mais de 27 anos, as organizações que compõem a rede AgriCultures têm coletado e partilhado evidências que comprovam esses argumentos. Durante todo esse período as nossas revistas têm apresentado exemplos concretos vindos de países de todos os continentes que demonstram que a propos- ta agroecológica é capaz de assegurar bons níveis de produtividade, conservando os fundamentos ecológicos para que as agriculturas se mantenham indefinidamente produtivas. Além disso, ela permite o desenvolvimento de sistemas agrícolas que se adaptam melhor às mudan- ças climáticas do que os convencionais, que reduzem drasticamente a emissão de gases de efeito estufa e que podem dispensar o emprego de insumos poluentes e contaminantes, reduzindo assim a dependência a recur- sos naturais não-renováveis. Por meio da valorização do potencial da biodiversidade, os sistemas de base agroeco-Precisamos de novas ideias ou devemos valorizar as lógica mantêm os serviços ecossistêmicos e preservam ossoluções que já estão sendo colocadas em prática? recursos naturais renováveis. As experiências publicadasFoto: TREES revelam também que a gestão produtiva fundada nos preceitos da Agroecologia induz dinâmicas de desen-difusão de organismos geneticamente modificados e na volvimento socioeconômico mais justas e equitativas,mecanização agrícola. Os defensores desse modelo não apresentando-se por isso como estratégia consistenteveem a necessidade de uma grande transformação do para o enfrentamento das causas estruturais da pobreza esistema de agricultura “convencional”, mas apenas o o empoderamento das mulheres.seu aprimoramento. Os partidários de padrões alterna- Nesta edição especial, preparada por ocasião dativos defendem uma transição da agricultura conven- Rio+20, abordamos as relações entre a agricultura comcional, baseada nas monoculturas e no aporte intensivo a soberania e segurança alimentar e nutricional, comde insumos, para formas de ocupação e manejo dos as mudanças climáticas, com a problemática energéti-solos fundamentadas na valorização da biodiversidade ca e com o desafio da superação da pobreza. São essese em métodos agroecológicos. Essa transição aponta os quatro temas prioritários identificados na Minutapara mudanças radicais na atual forma de organização Zero do documento base de negociação da Rio+20.dos sistemas agroalimentares, cada vez mais centrados Nossa ideia ao conceber esta edição foi a de explicitar aem circuitos globalizados entre a produção e o consu- superioridade da abordagem agroecológica a partir des-mo e em práticas agrícolas altamente dependentes de sas quatro perspectivas analíticas, com base no extensoenergia fóssil e de insumos industriais. rol de evidências que reunimos por mais de 25 anos. Diferentemente de 20 anos atrás, ainda não estamosPropomos algo realmente novo?  no tempo de avaliar a viabilidade técnica, econômicaUm conjunto significativo e crescente de redes, mo- e social da proposta agroecológica. As demonstraçõesvimentos e organizações da sociedade civil em todo o de sua capacidade de responder aos críticos desafiosmundo vem se organizando para afirmar a perspectiva planetários já são abundantes e generalizadas. Trata-seagroecológica perante a opinião pública e os órgãos agora de construir as condições políticas, institucio-oficiais nacionais e supranacionais. Tomando como nais e ideológicas para que os Estados assumam a suareferência o relatório da Avaliação Internacional sobre responsabilidade, abrindo espaço para o aumento deConhecimento, Ciência e Tecnologia Agrícola para escala das experiências até então promovidas a partiro Desenvolvimento (IAASTD, na sigla em inglês), do protagonismo de organizações civis.argumentam que esse é o caminho para o enfrenta-mento da crise sistêmica global que tem na agricultura Marta Dabrowska é especialista em desenvolvimento rural.uma de suas principais causas e vítimas. A mensagem Atua na co-coordenação do processo preparatório da Redeprincipal do manifesto Tempo de Agir, assinado por or- Agricultures para a Conferência Rio+20.ganizações da sociedade civil de todo o mundo, é que a E-mail: m.i.dabrowska@gmail.com Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 7
  • SEGURANÇA ALIMENTARAlimentandoo mundoxxi no séculoA introdução da para a redução à metade do número de famintos, o fan-adubação química e do tasma da fome endêmica voltou a assombrar o mundo pelo ressurgimento dos problemas ligados à produçãomelhoramento genético alimentar. Não só a prometida redução não ocorreu,científico das espécies como o número absoluto de famintos aumentou paracultivadas no último quarto mais de um bilhão de pessoas. Esse quadro torna-se ain- da mais dramático quando se considera que a produçãodo século XIX anunciou a de alimentos terá que aumentar em 100% até meadospossibilidade de superação deste século, momento em que a população mundial seda síndrome de Malthus estabilizará entre nove e dez bilhões de habitantes.que presumia um limite à As raízes da crise de produçãoexpansão da população de alimentos  O próprio sistema de produçãomundial em função da modernizado que tanto sucesso obteve na superação da síndrome de Malthus trazia em si os germes da criserestrição da capacidade atual. Em primeiro lugar, porque provocou enormede produção de alimentos. concentração de terras nas mãos de poucos produtores capitalistas e a exclusão de centenas de milhões deNo final do século XX essa agricultores familiares e assalariados agrícolas. Mas opromessa parecia realizada. maior ponto de vulnerabilidade desse sistema vem doApesar da forte expansão fato de que ele depende do uso insustentável de recur- sos naturais renováveis e não renováveis.da população mundial, o Os recursos renováveis são rapidamente deterioradosnúmero relativo de pessoas pelo avanço desse sistema e já começam a fazer falta. Asubmetidas à fome vinha agricultura já ocupa perto de 30% de toda a área terres- tre, tendo impactado ecossistemas naturais mais do quecaindo regularmente e qualquer outra atividade humana. Dos 8,7 bilhões dese situava em torno a hectares disponíveis no mundo para cultivos, pastagens840 milhões. e florestas, 2 bilhões já foram degradados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A agricultura consomeJean Marc von der Weid 70% de toda a água empregada em atividades humanasA e os sistemas de irrigação intensiva que se generalizam pesar da magnitude dos problemas estão esgotando aquíferos em várias partes do mundo. nutricionais, o quadro de insegurança Estima-se que 75% da biodiversidade agrícola foi extinta alimentar no mundo não indicava no século passado, sendo que significativa parte dessa problemas na capacidade produtiva, perda ocorreu nos últimos 50 anos devido à substituição mas sim de acesso das populações aos das variedades e raças tradicionais por genótipos comer- alimentos e a dietas adequadas. Mas ciais desenvolvidos para serem utilizadas da forma maisesse quadro mudou abruptamente no início do século abrangente possível, de forma a assegurar lucros para asXXI. A apenas três anos do prazo estabelecido pela FAO empresas do ramo da genética. Essa redução da variabi-8 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Como resultado de processos locais de inovação, os agroecossistemas de base camponesa possuem alto graude especificidade. Fotos: Thomas Bernet, Arno Maatmanlidade genética aumenta a vulnerabilidade agrícola às condições econômicas favoráveis à produção de agro-perdas devido à incidência de insetos-praga ou agentes combustíveis já que os plantios destinados à produçãopatogênicos. Além das perdas relacionadas à variabili- energética passaram a disputar terras e investimentosdade genética das espécies cultivadas, as mudanças no com os plantios alimentares. Como expressou Fidelsistema agroalimentar são responsáveis pela redução no Castro, os pobres do mundo agora têm que competirnúmero de espécies consumidas. Juntos, esse estreita- com os donos de automóveis em um mercado unifica-mento da base alimentar e da variabilidade genética do de alimentos e energia.contribuem de forma decisiva para a perda de soberaniae o aumento da insegurança alimentar e nutricional. Mudanças climáticas e aumen- A degradação acelerada de recursos naturais não to dos riscos agrícolas  Além derenováveis pela agricultura convencional também colo- contribuir para as mudanças climáticas, a agriculturaca o futuro da alimentação em uma situação de alto é também um dos setores mais vulneráveis aos seusrisco. Esse padrão convencional de produção, fundado efeitos. Emissões diretas e indiretas de gases de efeitonos princípios técnico-científicos da Revolução Verde, estufa (GEE) pela agricultura são superiores aos demaisdepende do uso intensivo e sistemático de energia fós- setores produtivos e de serviços e devem aumentar emsil e de fontes naturais de fosfato e de potássio, recursos 40% até 2030. Já os impactos das mudanças climáticasque estão se tornando escassos. A tendência à elevação sobre a agricultura serão variados e imprevisíveis umados custos do petróleo em função do esgotamento das vez que serão criadas as condições para a generalizaçãoreservas mundiais é acompanhada diretamente pela in- dos extremos climáticos. Segundo o Painel Intergover-flação dos preços dos alimentos, tal é o peso dessa fonte namental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla emenergética na produção de adubos químicos e agrotóxi- inglês), as produtividades médias das culturas nas regiõescos, bem como no acionamento de máquinas agrícolas tropicais cairão entre 5 e 11% até 2020 e entre 11 e 46%e no processamento, acondicionamento, resfriamento e até 2050, dependendo do ritmo e da intensidade quetransporte dos produtos a longas distâncias. assumirá o fenômeno. Esse quadro sombrio prenuncia o Os preços dos fertilizantes cresceram entre cinco e sete ressurgimento de uma era de fomes endêmicas em todovezes entre 1999 e 2008 e, embora tenham caído com o mundo, com particular impacto nas regiões tropicais.a crise econômica mundial, continuam três vezes maiscaros do que no início do século e com notada tendência A alternativa agroecológica a subir. Os custos dos agrotóxicos também não param de Ganhou corpo ao longo das duas últimas décadas dosubir, puxados pelas altas no preço do petróleo. Mas a século XX um movimento global orientado à defesacontribuição desses insumos no aumento dos preços dos e à promoção de formas mais sustentáveis de produ-alimentos também se deve à sua crescente ineficiência ção agrícola. Trata-se de uma dinâmica emergenteno controle dos organismos “indesejáveis”. Apesar do au- totalmente descentralizada e diversificada, assumindomento sistemático dos volumes de agrotóxicos aplicados diferentes denominações e conceitos. Por contrapor-senas lavouras, as perdas das culturas cresceram de 28 para ao padrão convencional de desenvolvimento agrícola37% entre 1945 e 1991 e, desde então, esse desequilíbrio fundamentado no paradigma da Revolução Verde, essesó fez aumentar, sobretudo pela crescente resistência de processo inicialmente foi identificado como “agricultu-pragas e plantas espontâneas ao uso dos agrotóxicos após ra alternativa”. A partir da década de 1990, sobretudoa introdução dos cultivos transgênicos. na América Latina, essa denominação imprecisa foi O aumento dos preços do petróleo provocou um substituída pela de “Agroecologia”. Definida como aimpacto indireto no preço dos alimentos ao criar as c ­ iência que aplica conceitos e princípios ecológicos Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 9
  • >> SEGURANÇA ALIMENTARpara o desenho de agroecossistemas sustentáveis, a centenas de projetos após a adoção desses princípios,Agroecologia enfatiza o desenvolvimento e a manuten- com registros de 400% de aumento em situações maisção de processos ecológicos complexos capazes de sub- avançadas na transição agroecológica. Além da boasidiar a fertilidade do solo, bem como a produtividade produtividade, os sistemas manejados segundo o enfo-e a sanidade dos cultivos e criações. O nível de ruptura que agroecológico respondem positivamente a outroscom os sistemas convencionais pode variar bastante fatores responsáveis pela crise da agricultura conven-entre as iniciativas de promoção da Agroecologia, cional: são sistemas com balanço energético positivo epodendo ir desde simples medidas de redução ou subs- altamente poupadores de energia de origem fóssil; sãotituição do uso de insumos agroquímicos até a com- econômicos no uso de água; recuperam e conservam apleta reestruturação da lógica de organização técnica fertilidade dos solos sem uso de insumos externos, aléme econômica dos agroecossistemas. Em seus estágios de serem resistentes aos processos erosivos; funcionammais avançados de desenvolvimento, um agroecossis- como sumidouro de carbono (carbon sink) e não emi-tema desenhado segundo princípios agroecológicos tem ou emitem poucos gases de efeito estufa; integram-estabelece forte analogia estrutural e funcional com os se funcionalmente à vegetação natural, dando maiorecossistemas naturais nos quais estão inseridos. estabilidade aos microclimas onde estão inseridos; são O alto grau de especificidade local implica que o livres de contaminação química causada por agrotó-desenvolvimento dos agroecossistemas pela perspec- xicos e fertilizantes solúveis e da poluição genéticativa agroecológica se faz com a forte contribuição de causada pelos organismos geneticamente modificados.dinâmicas locais de inovação e não por meio da difusão O conjunto desses efeitos positivos indica que a gene-de soluções técnicas universais na forma de pacotes, tal ralização da Agroecologia é uma estratégia consistentecomo pressuposto no paradigma da Revolução Verde. para que a crise do modelo convencional seja enfrenta- A busca da eficiência agroecológica depende da da estruturalmente, a começar pelo desafio de alimen-manutenção de agroecossistemas complexos, com alta tar uma população mundial crescente em condiçõesdiversificação de culturas e criações, o que se conse- adequadas e sustentáveis. Foi exatamente isso o quegue por meio de associações, rotações e sucessões de confirmou a Avaliação Internacional sobre Ciência eespécies. A gestão da complexidade inerente a esse tipo Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento (­ ASSTD, Ide sistema impõe limites ao tamanho das unidades na sigla em inglês), uma iniciativa financiada porprodutivas e às possibilidades de mecanização das ope- organismos vinculados às Nações Unidas que, duranterações de manejo. Por essa razão, cobra a execução de três anos, mobilizou os esforços de um grupo de 400trabalhos qualificados, flexíveis e atentos aos detalhes cientistas de vários ramos do saber em países de todosde manejo, o que significa que o trabalho é realizado os continentes (IASSTD, 2009). De forma ainda maisde forma inseparável à gestão do sistema. Ao contrário explícita, o relator das Nações Unidas para o Direitodos sistemas convencionais que são dependentes do Humano à Alimentação divulgou, em 2010, um rela-emprego intensivo de capital, sendo o trabalho essen- tório em que afirma que a Agroecologia pode a um sócialmente mecânico e separado do processo de gestão, tempo aumentar a produtividade agrícola e a segurançao manejo agroecológico é intensivo em trabalho qua- alimentar, melhorar a renda de agricultores familiareslificado. As unidades familiares de pequeno e médio e conter a tendência de erosão genética gerada pelaporte são as que conseguem integrar trabalho e gestão agricultura industrial (DE SCHUTTER, 2010).em um processo indivisível, condição básica para omanejo da complexidade inerente à prática agroecoló- Um desafio político  O principal desafio àgica. Muito embora princípios da Agroecologia possam generalização da perspectiva agroecológica é de nature-ser empregados por grandes produtores empresariais, za política e não técnica. Ele se apresenta diante da ne-o nível de eficiência econômica e ecológica nessas cessidade de superação do poderio político, econômicounidades de produção tende a ser muito menor do que e ideológico dos setores do agronegócio que sustentamquando aplicados em pequenas unidades de gestão a permanência e a expansão do modelo da agriculturafamiliar. Em síntese: a agricultura familiar camponesa industrial. Entre outros efeitos negativos, a dinâmicaé, por excelência, a base sociocultural para a generali- expansionista da lógica do agronegócio tem sido azação da alternativa agroecológica. principal responsável pela desaparição da agricultura familiar camponesa em todo o mundo. Essa desapari-O potencial da Agroecologia ção não significa apenas a diminuição do número depara enfrentar o desafio alimen- unidades produtivas familiares que poderiam ingressartar no século XXI  Segundo levantamento em trajetórias de transição agroecológica, mas implicarealizado na Universidade de Sussex, Inglaterra, mais também a perda da cultura camponesa e de povos ede 1,4 milhões de agricultores em todo o mundo comunidades tradicionais, elemento essencial para aadotam princípios da Agroecologia. O estudo identifi- construção de conhecimentos agroecológicos ajustadoscou aumentos médios de 100% na produtividade em às mais variadas peculiaridades socioambientais.10 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • O enfoque agroecológico pode simultaneamente incrementar a produtividade agrícola, aumentar arentabilidade econômica e a segurança alimentar, além de conter a erosão genética promovida pela agriculturaindustrial. Fotos: Sofia Naranjo, Salibo Some, Kodjo Kondo/IFDC A crise de insustentabilidade da agricultura globali- A experiência cubana soou como um alerta plane-zada baseada em monoculturas industrializadas vem tário sobre os desafios de enorme envergadura quesendo escamoteada pela continuidade dos crescentes estão colocados para o conjunto da Humanidade.subsídios públicos ao agronegócio. Mas a permanen- Em muitos países ainda existem agriculturas campo-te acentuação dessa crise, com a continuidade da nesas detentoras de conhecimentos essenciais para odepleção dos recursos naturais e com o aumento das desenvolvimento da Agroecologia, desde que apoiadademandas mundiais por alimentos é uma evidência por políticas públicas adequadas. Mas em muitas situ-inescapável e irrefutável. No contexto de realização da ações torna-se urgente a adoção de políticas voltadasConferência Rio+20, evento no qual grandes desafios à proteção e/ou ao restabelecimento da agriculturarelacionados aos rumos do desenvolvimento e do meio camponesa por meio de reformas agrárias e de medidasambiente estarão sendo debatidos pela comunidade que assegurem os direitos territoriais.internacional, resta saber que medidas concretas serão Quanto mais cedo implementar medidas voltadas àtomadas para que a Humanidade se desvie desse cená- promoção de sistemas agroalimentares fundamenta-rio nebuloso que se desenha para o futuro próximo. dos na agricultura camponesa de base agroecológica, Na prática, a questão que se coloca é: como vislum- menos dolorosa será a transição da economia baseadabrar as condições para a superação do agronegócio pela na energia fóssil para uma economia efetivamenteAgroecologia? Uma avaliação realizada nos Estados sustentável. Infelizmente, não são esses os termos doUnidos identificou que seriam necessárias 40 milhões debate que estão propostos no processo da Rio+20. Ode unidades produtivas para que a produção da agricul- documento base da conferência não menciona as cau-tura norte-americana fosse gerada a partir da agricultura sas das múltiplas e interconectadas crises planetáriasfamiliar em base agroecológica. Como o número atual e propõe “soluções” alcunhadas de “economia verde”de unidades agrícolas nos Estados Unidos não é muito que, na prática, se traduzem por “mais do mesmo”.superior a 2 milhões, essa diferença deveria ser preenchi- A luta pela mudança radical nos rumos da nossa civili-da por “neocamponeses”. As dificuldades de inserir esses zação está apenas começando e a Cúpula dos Povos, reu-novos contingentes da população na atividade agrícola nião da sociedade civil paralela à Rio+20 é um momentotornaria esse processo de transição extremamente difícil de aglutinação de forças, de apresentação de caminhose doloroso para a sociedade norte-americana. Apesar da alternativos e de influência sobre a opinião públicaradicalidade dessa proposição, ela não é sem sentido. A mundial. Ganhar governos e instituições internacionaisHistória já vivenciou o exemplo de Cuba, país que foi para adotarem políticas consequentes com as necessida-obrigado a criar uma nova classe de camponeses para des de mudança exigirá a construção de uma agenda deresponder à interrupção abrupta dos fornecimentos esforços continuados e articulados pelas forças vivas dasubsidiados de insumos e energia por parte da União sociedade civil mundial nas próximas décadas.Soviética e países da Europa do Leste. Até então, soba gestão estatal, a agricultura cubana reproduzia os Jean Marc von der Weid Coordenador do Programa de Políticas Públicas da AS-PTAmesmos traços característicos dos padrões produtivos do Agricultura Familiar e Agroecologiabloco capitalista: grandes monoculturas de exportação,mantidas pelo emprego intensivo de fertilizantes quími- Referências bibliográficascos, agrotóxicos e moto-mecanização. As dificuldades DE SCHUTTER, O. (2010) Report submitted by the Specialiniciais dos neocamponeses cubanos em apreender os Rapporteur on the right to food. UN General Assembly. Humanprincípios e práticas da Agroecologia foram em parte Rights Councilm Sixteenth Session, Agenda item 3 A/HRC/16/49.responsáveis pelo sistema de produção alimentar no país INTERNATIONAL ASSESSMENT OF AGRI­ ULTURAL Cser ineficiente por alguns anos, gerando um período de KNOWLEDGE, SCIENCE AND TECHNOLOGY FORdesabastecimento que só não teve maiores consequên- DEVELOPMENT. Syn­ hesis report: a synthesis of the global and tcias sociais devido à capacidade do governo de redistri- sub-global. IAASTD Reports. Washington, 2009. Disponível em:buir por toda a população a alimentação disponível. <http://www.agassessment.org/>. Acesso em: abril, 2012. Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 11
  • >> SEGURANÇA ALIMENTARA produção nos quintais e o aumento dasegurança alimentar no Sri LankaDilrukshi Hashini Galhena, Gunasingham produção. A adoção de técnicas simples de agre-Mikunthan e Karim Maredia gação de valor, tais como o processamento e a embalagem, podem aumentar as possibilidadesEspecialmente devido à longa guerra civil, a segu- de venda e o valor líquido dos produtos dos quin-rança alimentar ainda é um grande desafio no Sri tais domésticos, ajudando as famílias a ganharemLanka – em particular na região Norte. Em 2007, rendas extras.o governo federal iniciou uma campanha chama- Adicionalmente a esses principais benefícios, osda Api wawamu rata nagamu (“Vamos crescer e quintais produtivos proporcionam outras van-construir o país”), voltada para a promoção da tagens. Eles demandam menos recursos que aprodução de alimentos nos quintais das casas, agricultura comercial e, pela possibilidade de sercomo uma abordagem comprovadamente eficaz. ampliados e manejados com facilidade, alcançamDurante os últimos dois anos, diferentes progra- melhores taxas de eficiência energética. Alémmas ajudaram a estabelecer mais de 300 quintais disso, a produtividade dos quintais pode ser sis-produtivos nas áreas afetadas pela guerra. Esses tematicamente aumentada através de práticas am-programas estão dirigidos, em primeiro lugar, a bientalmente amigáveis. Essas práticas ajudam aresidências desfavorecidas que abrigam famílias reduzir alguns dos problemas ambientais e de saú-com poucos recursos, reassentadas e lideradas por de que são comuns no Sri Lanka. As medidas demulheres. A produção nos quintais é uma prática gerenciamento do lixo doméstico, por exemplo,antiga no Sri Lanka. Hoje em dia, esses quintais ajudam a converter resíduos de cozinha e estercoestão ajudando a aumentar a segurança alimen- animal em fertilizantes orgânicos e cobertura mor-tar e nutricional e melhorar os meios de vida de ta para os cultivos. Práticas simples orientadas aodiversas maneiras. As atividades domésticas de manejo ecológico, tais como a introdução de flo-cultivo e criação suplementam a disponibilidade res, plantas medicinais e aromáticas, assim como ae o acesso das famílias aos estoques alimentares diversificação de cultivos, estão ajudando a redu-através da provisão de um conjunto diversificado zir a infestação de insetos-praga e doenças e, aode hortaliças, frutas, raízes e tubérculos frescos, mesmo tempo, a conservar a biodiversidade e osalém de produtos de origem animal. Os quintais inimigos naturais, melhorando também os serviçosdomésticos fornecem acesso fácil a alimentos ao ambientais.longo do ano por uma fração do custo emprega- Devido à longa estação seca e à quantidade dedo para comprá-los no mercado local. Além disso, terras marginais no norte do Sri Lanka, o uso dealgumas famílias conseguiram iniciar pequenos material orgânico incrementa os níveis de nutrien-empreendimentos vendendo o excedente de sua tes e melhora a qualidade do solo e o seu teor de umidade. Em que pesem as limitações de acesso à terra, tecnologias simples como “jardins verti- cais” tornaram os quintais produtivos possíveis tanto em áreas urbanas como rurais. No longo prazo, essas práticas resultarão não apenas na produção sustentável de alimentos, como propor- cionarão uma série de serviços ambientais adicio- nais. A iniciativa dos quintais produtivos também implica um esforço para fortalecer e pacificar as comunidades locais. A longa guerra civil foi muito prejudicial às populações do Norte do país e ini- ciativas como as dos quintais produtivos podem criar condições sociais para instituir solidariedade e a equidade, beneficiando especialmente os se- tores desfavorecidos e vulneráveis da população. Dilrukshi Hashini Galhena, Gunasingham Mikunthan, e Karim Maredia. E-mail: galhenad@msu.edu12 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Polo da BorboremaRoberval Silva, Paula Almeida, Luciano Silveira eMarilene MeloO Polo Sindical da Borborema (Polo) é uma redede organizações da agricultura familiar da regiãodo agreste do estado da Paraíba, que congregasindicatos de trabalhadores(as) rurais, associaçõese grupos informais de 16 municípios. Por meio desuas organizações, o Polo articula cerca de 4.000famílias de agricultores e agricultoras em torno aum projeto voltado à promoção do desenvolvimen-to rural e da Agroecologia. Por meio de processosintensivos de experimentação e intercâmbio de co-nhecimentos, agricultores familiares redescobrirammétodos tradicionais como o uso de variedades lo-cais de espécies cultivadas; policultivos; organiza- regional organizado pelo Polo foram valorizadosção de bancos de sementes comunitários; produ- como referência em debates relacionados às políti-ção de hortaliças e plantas medicinais nos quintais; cas governamentais voltadas ao combate à fome, àe a experimentação e o uso de uma gama de bio- miséria e às raízes da exclusão social. Dessa forma,fertilizantes e métodos alternativos para o controle as ideias surgidas a partir das iniciativas concretasde insetos-praga e doenças. De modo a prevenir a postas em prática nas comunidades na Borboremaescassez de alimentos durante a estação seca, os alcançaram todo o estado da Paraíba para, final-agricultores armazenaram água e forragens produ- mente, repercutirem no conjunto da região semi-zidas em suas propriedades. árida do Brasil.Para promover o debate regional sobre conceito de O Polo também se uniu à Rede Estadual de Ban-segurança alimentar e conectá-lo ao processo de cos de Sementes Comunitários da Articulação doinovação agroecológica em curso na região, o Gru- Semiárido Paraibano, onde foram estabelecidospo de Teatro do Polo estruturou um espetá­ ulo para c acordos com o governo estadual da Paraíba para orefletir sobre a situação de duas realidades muito fornecimento sementes de variedades locais paradiferentes: uma família que melhorou o seu próprio os bancos comunitários. Através desses bancos, osuprimento de alimentos com muito poucos recur- acesso das famílias a sementes de qualidade e nosos ao participar ativamente de programas de inova- tempo certo para o plantio é garantido, evitando-ção agroecológica; e a realidade daquelas famílias se os riscos de insegurança alimentar em decorrên-que ainda vivem em situações de extrema insegu- cia da perda das melhores datas de semeadura e,rança alimentar. Ao deixar os fatos da vida cotidiana com isso, a perda do ano agrícola.falarem por si mesmos, o público pôde refletir criti- Todo esse processo mostrou que as questões acer-camente sobre essa realidade de contrastes. ca da promoção da segurança alimentar não sãoParticipando ativamente de redes maiores, como apenas técnicas e que o ambiente político podea Articulação do Semiárido Paraibano, e se envol- ser influenciado usando-se a habilidade e a criati-vendo no diálogo em torno da construção de polí- vidade das pessoas, grupos e redes para contribuirticas públicas nos níveis estadual e federal, o Polo para a melhoria de suas próprias vidas.conseguiu influenciar a criação de políticas públicasrelacionadas à segurança alimentar e nutricional e à Este artigo foi publicado na revista Leisa,promoção da Agroecologia. A peça teatral que re- vol. 21.4, Dezembro de 2005. Roberval trata a realidade do agreste Silva, Paula Almeida, Luciano Silveira e paraibano foi exibida em Marilene Melo trabalhavam no programa vários espaços nos quais da Paraíba da AS-PTA – Assessoria e as políticas públicas nessa Serviços a Projetos em Agricultura área foram debatidas. Os Alternativa, em Esperança – PB, Brasil. documentos políticos ela- E-mail: asptapb@aspta.org.br borados em um encontro Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 13
  • Mudanças Climáticas Estratégiasagroecológicaspara aumentar a resiliência nocontexto de mudanças climáticas A abordagem da Revolução Verde teve um bom desempenho em termos produtivos em áreas dotadas de um clima estável e energia barata. Milhões de hectares foram transformados em sistemas agrícolas de larga escala, especializados e dependentes de insumos industriais. Mas os fertilizantes, agrotóxicos, equipamentos agrícolas e o combustível necessários para a reprodução desse sistema derivam de fontes de energia fóssil cada vez mais escassas e caras. Os extremos climáticos também estão se tornando mais frequentes, enquanto esses sistemas agrícolas intensivos apresentam menor resistência e maior vulnerabilidade. Felizmente, existem alternativas que dispensam o uso dos agroquímicos, aumentam a resiliência da agricultura e asseguram rendimentos produtivos elevados. Clara Inés Nicholls e Miguel A. AltieriP ouco tem sido feito para aumentar a capa- Com base nessas evidências, vários especialistas cidade de adaptação da agricultura indus- têm sugerido que o resgate de sistemas de manejo trial às mudanças climáticas ou aos even- tradicionais, juntamente com o emprego de estratégias tos climáticos extremos, a não ser por de manejo de base agroecológica, pode representar ações baseadas em “fórmulas mágicas”, o único caminho viável e robusto para aumentar a como a transgenia, com a qual se espera produtividade, a sustentabilidade e a resiliência daque as culturas produzam mesmo em condições de es- produção agrícola. Apresentamos neste artigo algumastresse ambiental. Quase nenhum trabalho foi realizado estratégias de gestão agroecológica de agroecossistemasna elaboração de práticas de manejo que aumentem a que podem ser implementadas nesse sentido.resiliência da agricultura às mudanças climáticas. Háuma ampla gama de evidências que demonstra que os Sistemas agrícolas diversifica-manejos de base agroecológica contribuem enorme- dos  Análises detalhadas do desempenho agrícolamente nesse sentido. De fato, muitos estudos revelam após eventos climáticos extremos têm revelado que aque agricultores familiares que adotam esses manejos resiliência a desastres naturais está intimamente ligadaconseguem lidar com as alterações climáticas, minimi- ao nível de biodiversidade presente na paisagem rural.zando as quebras de safra. Resultados de vários estudos Uma pesquisa realizada em encostas da América Cen-sugerem que esses manejos conferem maior capacida- tral depois da passagem do furacão Mitch mostrou quede de resistência a eventos climáticos, proporcionando os agricultores que utilizam práticas de diversificaçãomenor vulnerabilidade e maior sustentabilidade aos (tais como plantas de cobertura, consórcios e sistemassistemas agrícolas no longo prazo. agroflorestais) sofreram menos danos do que os seus14 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • vizinhos que adotavam monoculturas convencionais. maior estabilidade de rendimento e menor declínioEssa constatação foi o resultado da análise comparativa de produtividade durante períodos de seca. Um estudode mais de 1.800 pares de propriedades vizinhas iden- sobre o efeito da seca (NATARAJAN; WILLEY, 1986)tificadas como “sustentáveis” e “convencionais”, em em policulturas mostrou que consórcios são sistemasregiões por onde o furacão causou estragos na Nicará- de alto desempenho. Um dado muito interessante égua, Honduras e Guatemala. A pesquisa revelou que que os contrastes se acentuam com o estresse hídrico,as parcelas “sustentáveis” apresentavam camadas de mostrando que as diferenças relativas de produtividadesolo superficial entre 20 e 40% superiores, assim como entre as monoculturas e as policulturas são maiores àmaiores teores de umidade no solo, menores graus de medida que o estresse se intensifica.erosão e de perdas econômicas quando comparadas Outro exemplo é o dos sistemas silvipastoris intensi-com as de seus vizinhos convencionais (ver quadro na vos, que combinam arbustos forrageiros plantados empág. 19). De forma similar, as unidades de produção altas densidades, árvores, palmeiras e pastagens. Nessesde café no México que exibiam níveis elevados de sistemas, é possível manter uma alta lotação animal ecomplexidade e diversidade de plantas foram menos ainda produzir leite e carne por meio do pastejo rotacio-afetadas pelo furacão Stan. Em Cuba, quarenta dias nado. Na fazenda El Hatico, em Cauca, na Colômbia,após a passagem do furacão Ike, em 2008, pesquisado- um sistema composto por gramíneas, arbustos de leuce-res verificaram que as propriedades rurais diversificadas na, árvores de médio porte e uma cobertura proporcio-tiveram uma perda da ordem de 50%, enquanto nas nada por grandes árvores tem, ao longo dos últimos 18áreas monocultoras vizinhas a perda foi 90 ou 100%. anos, permitido aumentar as taxas de lotação para 4,3Da mesma forma, propriedades que adotavam manejos vacas leiteiras/ha e elevar em 130% a produção de leite.agroecológicos mostraram uma recuperação produtiva Além disso, possibilitou a completa eliminação do usomais rápida do que as áreas manejadas com monocul- de fertilizantes químicos. Embora 2009 tenha sido o anoturas. mais seco registrado em 40 anos na propriedade El Ha- Esses são apenas alguns exemplos de como agroecos- tico, e ainda que os agricultores tenham vivenciado umasistemas complexos são capazes de se adaptar e resistir redução de 25% da biomassa da pastagem, a produçãoaos efeitos das mudanças climáticas. Os sistemas agro- de forragem permaneceu constante durante todo o ano,florestais têm demonstrado a capacidade de atenuar o neutralizando os efeitos negativos da seca sobre todo oimpacto das grandes flutuações de temperatura sobre sistema. Em resposta ao clima extremo, a fazenda teveas culturas, mantendo-as assim em condições mais que ajustar as suas taxas de lotação animal. Apesar disso,próximas das ideais. Cultivos de café mais sombreados a produção de leite em 2009 foi a maior já registrada,protegem as culturas da queda nos índices de precipi- com um surpreendente aumento de 10% em compa-tação e da redução da disponibilidade de água no solo ração com os quatro anos anteriores. Enquanto isso,em função de seu estrato superior florestal, reduzindo a agricultores em outras partes do país relataram que osevaporação do solo e aumentando a infiltração de água animais tiveram uma perda de peso severa e que houveno solo. Ao mesmo tempo, o consórcio permite que alto índice de mortalidade devido à fome e sede.os agricultores produzam várias culturas simultanea- A combinação de benefícios gerada pelos sistemasmente, minimizando os riscos. Policultivos apresentam diversificados de produção aqui descritos, como regu- lação da água, microclima favorável, biodiversidadeEstratégias de organização social são componentes- e estoques de carbono, não só fornece bens e serviçoschave da resiliência. Foto: Paul Mapfumo ambientais para os produtores, mas também proporcio- na uma maior resiliência às mudanças climáticas. Aumentando a matéria orgânica do solo  A produtividade de culturas sob con- dições climáticas sujeitas a secas é frequentemente limitada pela baixa disponibilidade de água no solo. Adicionar regularmente grandes quantidades de mate- riais orgânicos é uma estratégia comum utilizada por muitos agricultores para melhorar a economia hídrica dos solos nessas condições. A matéria orgânica do solo (MOS) aumenta a capacidade de o solo reter água e a tolerância à seca, melhorando a infiltração, evitan- do que as partículas do solo sejam carregadas pela água sob chuvas intensas. A MOS também melhora a agregação da superfície do solo, mantendo as partícu- las do solo firmemente unidas durante as chuvas ou Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 15
  • >> Mudanças Climáticas REDAGRESvendavais. Nesse sentido, o manejo da MOS é central A Rede Ibero-Americana de Agroecologia paranos esforços para aumentar a resiliência dos sistemas o Desenvolvimento de Sistemas Agrícolas Re-agrícolas por gerar e manter solos saudáveis, com uma silientes às Mudanças Climáticas (Redagres)atividade biológica ativa e boas características físicas e reúne cientistas e pesquisadores localizadosquímicas. em oito países. Seus objetivos são promover o Adicionalmente, os solos ricos em matéria orgânica intercâmbio de conhecimentos e informaçõesgeralmente contêm fungos micorrízicos simbiontes relacionadas à agricultura e às mudanças climá-que constituem um componente-chave das populações ticas. Além de analisar o impacto das alteraçõesmicrobianas, influenciando o crescimento das plantas climáticas sobre a produção agrícola, a Reda-e a produtividade do solo. As micorrizas são impor- gres coloca ênfase especial na exploração detantes porque melhoram as interações planta-água, diferentes estratégias de adaptação a condiçõesaumentando assim a resistência à seca. A habilidade climáticas extremas, bem como na aplicação dede associações específicas entre fungos e plantas para princípios agroecológicos para a concepção etolerar a seca é de grande interesse em áreas afetadas a intensificação de agroecossistemas resilientespelo déficit de água: há registros de que a infecção por às mudanças climáticas.fungos micorrízicos aumenta a absorção de nutrientes Poucos meses atrás, a Redagres lançou um pro-em plantas com estresse hídrico e permite que elas jeto de dois anos, envolvendo uma pesquisautilizem a água de forma mais eficiente. de sistemas agrícolas de pequena escala em determinadas regiões da América Latina a fimManejando a cobertura do solo  de identificar sistemas que resistiram a eventosProteger o solo contra a erosão também é uma estra- climáticos, tanto recentemente como no passa-tégia fundamental para aumentar a resiliência. O uso do, e entender suas principais características.de cobertura morta e de adubos verdes oferece muitas Os princípios emergentes estão sendo compar-vantagens. A cobertura morta a partir de resíduos de tilhados com agricultores familiares de comuni-cultivo protege a superfície do solo, reduzindo o seu dades vizinhas e outros da região por meio deprocesso de ressecamento. A cobertura morta reduz a atividades como dias de campo, visitas de inter-velocidade do vento sobre o terreno em até 99% e, por câmbio, seminários e cursos de curta duração eisso, a perda de água por evaporação se reduz significa- também por meio da elaboração de um manu-tivamente. Além disso, cultivos de cobertura e resíduos al de linguagem acessível direcionado para osde plantas espontâneas podem melhorar a penetração agricultores que explicam como avaliar o nívelde água e diminuir de duas e seis vezes as perdas em de resiliência da cada propriedade e indicam ofunção do escoamento. que fazer para aumentar a resistência. Em toda a América Central, diversas ONGs, comoo Centro Internacional de Informação sobre Cultivosde Cobertura (Ciddico), a Vecinos Mundiales, entreoutras, têm promovido o uso de leguminosas de grãocomo adubos verdes, uma fonte barata de fertilizanteorgânico e uma forma de produzir matéria orgânica.Centenas de agricultores na costa norte de Hondurasestão usando a mucuna (Mucuna pruriens) com exce-lentes resultados, incluindo safras de milho de cercade 3.000 kg/ha, mais que o dobro da média nacional.Essas espécies produzem cerca de 30 t/ha de biomassapor ano ou cerca de 90 a 100 kg de nitrogênio porhectare por ano. O sistema diminui as perdas causadaspelas secas, uma vez que a camada de cobertura mortadeixada pela mucuna ajuda a conservar a água noperfil do solo, tornando os nutrientes prontamente dis-poníveis nos períodos em que a demanda das culturasé maior. Hoje, registram-se mais de 125 mil agricultoresutilizando regularmente os adubos verdes e culturas decobertura no estado de Santa Catarina, Brasil. Agri-cultores familiares de encostas modificaram o sistemaconvencional de plantio direto ao deixarem resíduosvegetais na superfície do solo, observando uma redução16 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Agroecossistemas complexos são capazes de se adaptar e de resistir aos efeitos das mudanças climáticas.Fotos: Faris Ahmed, Mirjam Pullemannos níveis de erosão do solo e também experimentando devem demonstrar a habilidade de atenuar os efeitos demenos flutuações na umidade e temperatura do solo. perturbações com métodos agroecológicos adotados eAplicações repetidas de biomassa fresca aumenta- disseminados por meio da auto-organização e da açãoram a qualidade do solo, minimizaram a erosão e o coletiva (TOMPKINS; ADGER, 2004).crescimento de plantas espontâneas e melhoraram o Reduzir a vulnerabilidade social por meio da am-desempenho das culturas. Esses novos sistemas lançam pliação e consolidação de redes sociais, tanto em nívelmão de coquetéis de espécies de adubo verde tanto local como em escala regional, pode contribuir parapara os períodos de verão como de inverno, deixando aumentar a resiliência dos agroecossistemas. A vulne-uma espessa camada de resíduos em que culturas rabilidade de comunidades rurais depende do grau decomo milho, feijão, trigo, cebola e tomate são direta- desenvolvimento do capital ecológico e social que tornamente semeadas ou plantadas, sofrendo muito pouca os agricultores e seus sistemas mais ou menos suscetíveisinterferência das plantas espontâneas durante a estação aos choques climáticos. A capacidade de adaptaçãode crescimento. Estudos conduzidos pela AS-PTA em refere-se ao conjunto de condições sociais e ecológicasSanta Catarina, após o período seco da estação 2008- que permitem aos indivíduos ou grupos, bem como suas2009, mostraram que produtores convencionais de propriedades, reagir às mudanças climáticas de umamilho apresentaram uma perda de produção média de forma resiliente. Todas as comunidades têm capacidade50%, atingindo níveis de produtividade de 4.500 kg/ha. de responder a alterações nas condições ambientais,No entanto, os produtores que tinham passado a adotar embora em diferentes graus e de formas nem semprepráticas agroecológicas de plantio direto tiveram uma sustentáveis. O desafio é identificar aquelas que podemperda de apenas 20%, confirmando a maior resiliência fazer ajustes de modo que a vulnerabilidade seja redu-desses sistemas (ver quadro na pág. 18). zida por meio do aumento da capacidade reativa das comunidades para implantar mecanismos agroecológi-Aumentando a resiliência social  cos que permitam aos agricultores resistir e se recuperarComunidades com maior diversidade de plantas são de eventos climáticos. Estratégias de organização socialmais resistentes a perturbações e mais resilientes a estres- (redes de solidariedade, trocas de alimentos, etc.) utili-ses ambientais decorrentes de eventos climáticos extre- zadas por agricultores para lidar com situações difíceismos. Sem dúvida, a diversificação de culturas representa impostas por tais eventos constituem, portanto, umuma estratégia de longo prazo para agricultores que componente-chave de resiliência.estão experimentando um clima errático. A diversifica-ção pode reduzir significativamente a vulnerabilidade Clara Inés Nicholls é a coordenadora da Rede Ibero-Ameri-dos sistemas de produção, protegendo produtores rurais cana de Agroecologia para o Desenvolvimento de Sistemas Agrícolas Resilientes às Mudanças Climáticas (Redagres)e a produção agrícola. Agricultores que usam a diversida- E-mail: nicholls@berkeley.edude como uma estratégia de manejo geralmente agregam Miguel A. Altieri é o presidente da Sociedade Científicagrandes quantidades de matéria orgânica em seus solos, Latino-Americana de Agroecologia (Socla)aumentando ainda mais sua capacidade hídrica. Ao ma- E-mail: agroeco3@berkeley.edunejar culturas de cobertura e adubos verdes, melhoram acobertura do solo, protegendo-o da erosão, mas também Referências bibliográficas: LIN, B.B.; PERFECTO, I.; VANDERMEER, J. Synergies betwe-agregando biomassa, o que por sua vez contribui para en agricultural intensification and climate change could createníveis elevados de MOS. surprising vulnerabilities for crops. BioScience, n. 58, p. 847-854, Estratégias que aumentam a resiliência ecológica dos 2008.sistemas agrícolas são essenciais, mas não o suficiente NATARAJAN, M.; WILLEY, R.W. The effects of water stress onpara alcançar a sustentabilidade. A resiliência social, yields advantages of intercropping systems. Field Crops Research, n. 13, p. 117-131, 1996.definida como a capacidade de grupos ou comunidades TOMPKINS, E.L.; ADGER, W.N. Does adaptive management ofde se adaptar a tensões sociais, políticas ou ambientais, natural resources enhance resilience to climate change? Ecologydeve andar de mãos dadas com a resiliência ecológica. and Society, v. 9, n. 2. Disponível em: <http://www.ecologyandso-Para serem resilientes, sociedades rurais geralmente ciety.org/vol9/iss2/art10>. Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 17
  • >> Mudanças Climáticas Lidando com extremos climáticos no Sul do Brasil Edinei de Almeida, Paulo Petersen e Fábio Júnior e aqueles que vêm adotando princípios agroecoló- Pereira gicos em seus métodos de manejo evidencia esse fato. As diferenças surgiram já na fase de replantio. A má distribuição pluviométrica é um dos efeitos Para os primeiros, o replantio significou novo de- das mudanças climáticas já visíveis no Sul do Bra- sembolso financeiro para a aquisição de sementes sil, região caracterizada exatamente pelo oposto, e fertilizantes. Já para os últimos, o desembolso ou seja, pela boa distribuição das chuvas durante foi desnecessário, uma vez que suas lavouras são o ano. Esse cenário ambiental emergente traz con- conduzidas com sementes crioulas (produzidas na sigo o aumento significativo dos riscos inerentes à propriedade ou trocadas com vizinhos) e a gestão agricultura, especialmente quando ela é baseada da fertilidade do sistema se fundamenta na dinami- em lavouras anuais, as mais vulneráveis aos extre- zação biológica do solo pelo manejo da adubação mos climáticos. verde associada ao uso de pós-de-rocha. A safra de 2008-2009 na região do Planalto Norte- Os resultados econômicos ao final da safra foram Catarinense foi mais uma que sofreu com as con- muito contrastantes: os produtores convencionais dições climáticas adversas. Os efeitos desse verão produziram 4,5 mil quilos de milho por hectare, mas atípico se fizeram sentir já em outubro, mês em que tiveram um custo médio equivalente a 7 mil quilos foi registrada uma pluviometria de 350 mm – quase (um prejuízo financeiro de 2,5 mil quilos de milho), 30% da média total anual para a região. Como ou- ao passo que os agricultores em transição agroeco- tubro coincide com o início do período de plantio, lógica produziram uma média de 4,2 mil quilos com o excesso de chuvas significou para muitas famílias um custo produtivo equivalente a 744 quilos de a necessidade do replantio no começo de novem- milho. O melhor desempenho econômico dos sis- bro, quando as chuvas diminuíram em intensidade. temas em transição explica-se pela combinação de Após o excesso de chuvas verificado em outubro, a dois fatores: as menores perdas agronômicas por região assistiu a um longo período de estiagem que conta da maior resiliência agroecológica às instabi- se estendeu de meados de novembro ao final de lidades climáticas; e os custos produtivos significa- dezembro. Esse duplo estresse ambiental (excesso tivamente menores, alcançados pela maior autono- e falta de água no solo) causado por extremos cli- mia em relação à indústria de insumos e ao sistema máticos opostos em uma mesma safra resultou em financeiro, um fator determinante exatamente em perdas significativas das lavouras. Dados oficiais re- um momento em que os preços dos insumos agrí- gistram quebras de safra da ordem de 50% para o colas vêm crescendo rapidamente. milho, 60% para o feijão, 25% para a cebola, 25% Os resultados dessa experiência revelam a impor- para o fumo e 15% para a soja. tância de uma radical reorientação nas políticas pú- Entretanto, as quebras de safra e seus efeitos não blicas, já que elas permanecem fomentando estilos foram iguais para todas as famílias. A análise com- de produção estruturalmente dependentes de insu- parativa entre os produtores convencionais de milho mos industriais e que tornam os sistemas agrícolas altamente vulneráveis às já inevitáveis mudanças climáticas. Este artigo foi publicado na edição v.6, n.1 da Revista Agriculturas: experiências em agroecologia (Abr./2009). Edinei de Almeida, Paulo Petersen e Fábio Júnior Pereira são membros da equipe da AS-PTA. E-mail: edineialm@gmail.com; paulo@aspta.org.br;Cultivo convencional Cultivo em transição agroecológica fabio@aspta.org.br em março de 2009 em março de 2009 18 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Medindo a resistência agroecológica contra ofuracão MitchEric Holt-GiménezEm outubro de 1998, o furacão Mitch, um doscinco mais poderosos furacões a atingir o Caribeno século 20, afetou seriamente a agricultura daNicarágua, de Honduras e da Guatemala. A maio-ria dos observadores concorda que a magnitudedo desastre, sem precedentes, foi consequênciade décadas de desmatamento, agricultura nãosustentável e ações que resultam em degradaçãoambiental. No entanto, observações in situ revela-ram algo diferente: as propriedades onde práticas“sustentáveis” eram aplicadas sofreram menos doque as que empregavam sistemas “convencio-nais”. O Movimento Agricultor a Agricultor, forma-do por agricultores experimentadores e técnicos,elaborou uma proposta para estudar a resistênciaagroecológica de propriedades convencionais aeventos como o furacão Mitch em comparação formassem alianças entre si e com suas assesso-com aquelas onde a agricultura sustentável ou a rias técnicas. Juntos, descreveram como seus sis-Agroecologia era praticada. O objetivo da pes- temas devem ficar nos próximos 10 anos após aquisa foi provar que a agricultura sustentável é a aplicação dos princípios agroecológicos: conser-alternativa mais viável e, portanto, a recuperação vação do solo e da água; redução do uso de insu-das propriedades que foram atingidas pelo fura- mos químicos ou completa eliminação deles; usocão deve apontar nessa direção, seguindo uma de culturas de cobertura; implantação de sistemasestratégia de reconstrução participativa. agroflorestais; plantio em fileiras; emprego de fer- tilizantes orgânicos e produtos naturais; e adoçãoOs resultados gerais mostraram que as proprie- de diferentes formas de manejo integrado de pra-dades agroecológicas são mais resistentes à de- gas. Esse exercício os incentivou a analisar os obs-vastação causada pelos impactos dos eventos cli- táculos ao desenvolvimento de suas localidades.máticos extremos. Foram realizadas oficinas para O Movimento Agricultor a Agricultor conseguiucompartilhar as informações obtidas na pesquisa estimular dinâmicas que levaram à mobilização ede campo, onde foi comprovado que as proprie- ao empoderamento das comunidades, o que indi- dades agroecológicas ca que resiliência envolve uma importante dimen- conservaram melhor as são social, além da técnica. camadas superficiais do solo (20 a 40% mais do Este artigo foi publicado na que propriedades con- edição 17.1 da Leisa - Revista vencionais). No final, de agroecología (julho 2001). cerca de 90% dos parti- Eric Holt-Giménez estava cipantes das 15 oficinas então trabalhando no definiram-se por adotar Departamento de Estudos Ambientais da Universidade da os princípios de manejo Califórnia, em Santa Cruz, EUA. agroecológico. Atualmente é Diretor Executivo do Food First / Institute for A experiência bem su- Food and Development Policy. cedida de compartilha- E-mail: eholtgim@foodfirst.org mento de informações serviu como estímulo para que os agricultores Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 19
  • AGRICULTORES E MERCADOS >Aprendizagem em rede sobre a organização para acesso aos mercados Estamos apenas na metade de O Programa de Empoderamento de Pequenos Agri- 2012, o Ano Internacional das cultores nos Mercados (Esfim, na sigla em inglês) tenta captar esses aprendizados por meio de um site e uma Cooperativas da ONU, mas ele base de dados contendo estudos de caso específicosjá contribuiu muito para mostrar (www.collectivemarketing.org). Esse site foi criado com a importância das organizações o objetivo de servir de instrumento de identificação e da agricultura familiar. Não há divulgação de experiências, reunindo conhecimento sobre regulamentos internos que facilitam as operações como negar que a ação coletiva comerciais. Como essas “experiências” estão sempre de agricultores familiares é associadas a um contexto específico (por exemplo, de extremamente necessária, acordo com o produto, o apoio de instituições, a escala especialmente quando se da organização, etc.), esse instrumento é facilitado por um quadro comparativo que ajuda a encontrar solu- considera que não produzem ções ou lições em função do tipo de desafio. com base na economia de escala, o que dificulta a sua Desafiando as tensões que ame- inserção em mercados agrícolas açam as organizações  Existem várias “tensões básicas” (ou dilemas) que caracterizam as es- cada vez mais concentradores. tratégias coletivas de comercialização. Todas as organi- Giel Ton zações serão afetadas por uma ou mais dessas tensões, embora não venham necessariamente a considerá-lasA como sendo problemáticas. Em geral, as organizações gricultores familiares não produzem de agricultores somente percebem alguma tensão em escala e, portanto, geralmente quando se encontram em situações de mudança ou de precisam aumentar o volume de crise, quando decisões têm de ser tomadas para resolver sua produção para poder acessar os problemas, evitar danos ou mediar conflitos – situações mercados urbanos ou a indústria de que as obrigam a redefinir regulamentos internos. Ao produtos processados. Para alcan- captar essas experiências de definição das “regras doçar essa condição é necessário o desenvolvimento de jogo” internas (ou arranjos institucionais), organizan-formatos organizativos cooperativos. Experiências do-as de acordo com o tipo de tensão, nós proporcio-bem-sucedidas de comercialização em forma associa- namos uma ferramenta por meio da qual os usuáriostiva têm contribuído para a “construção” de atributos podem encontrar lições relevantes sobre aspectos que,organizacionais que facilitam a vida desses agricul- em dado momento, são mais pertinentes para eles.tores. Eles regularmente ajustam suas modalidades Para tanto, basta fazer uma busca e clicar duas vezesinternas de gestão e transação em função de exigências na experiência que pareça mais interessante para terapresentadas por membros e não membros das organi- acesso a informações mais detalhadas, com a referênciazações, por exemplo, em relação à definição de preços, ao documento ou à fonte que apresenta a experiência.a pagamentos, quantidade ou qualidade dos produtos. Não como “melhores práticas”, mas como “insumosPor meio de processos de aprendizagem na prática, para o aprendizado”.essas organizações desenvolveram normas internas, A lista a seguir apresenta algumas áreas em que cos-condições contratuais e sistemas de controle que se tumam residir as tensões entre os membros e a organi-revelaram eficazes e viáveis nas atuais condições de zação. Quando mal administradas, essas tensões podemmercado. levar à desintegração do grupo. No contexto dessas20 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Muitas organizações têm encontrado formas inovadoras para superar as ameaças à coesão do grupo.tendências desintegrativas, organizações têm encontrado Preço justo Os membros esperam que sua organização negociesoluções (muitas vezes bastante inovadoras) que podem um preço justo para suas mercadorias. O poder deinspirar outras organizações a implementar iniciativas barganha do grupo terá que gerar melhores condi-similares, adequando-as a suas condições específicas. ções do que se cada membro negociasse por conta Para participar do site www.collectivemarketing.org, própria. Isso implica a necessidade de um mecanismoo Programa Esfim está à procura de exemplos dessa que crie transparência na determinação do preço.“inteligência organizacional”. Você pode muito bem Garantia de Quando um negócio é fechado, a qualidade quejá ter em mãos esse material pronto, já que muitos pro- qualidade a organização prometeu terá que ser controlada,fissionais que trabalham com organizações de agricul- uma vez que membros individuais podem entregar produtos com uma qualidade mais baixa. A organiza-tores documentam esse tipo de informações em seus ção necessita, portanto, de um sistema para manterprojetos e atividades. O material pode ser enviado para requisitos mínimos de qualidade.giel.ton@esfim.org. Todos os relatos submetidos que Lidando com Muitos agricultores tendem a enfrentar restriçõesforem considerados relevantes e de qualidade serão in- restrições de financeiras e pedir para receber o pagamento rápido,cluídos no site. Os exemplos mais consistentes poderão capital de enquanto que a organização precisa de tempo parafuturamente constar em uma publicação impressa. giro concluir as transações com o comprador final. Isso Mesmo os relatos não totalmente acabados são bem- cria custos financeiros para o grupo que precisam tervindos, pois deles extrairemos a solução organizacional um capital de giro para cobri-los.relevante para o banco de dados e o site. No entanto, Prevenindo A organização pode prestar um serviço de crédito ousão ainda mais bem-vindas as experiências que, ao do- vendas extra- estabelecer um sistema de pagamentos antecipadoscumentarem a maneira que organizações de agriculto- contratuais para viabilizar a produção. No entanto, existe um risco grave de que os agricultores não honrem seusres lidaram com essas tensões, atentaram para: contratos, vendendo paralelamente seus produtos• O CONTEXTO: relate as atividades do grupo e para comerciantes ou empresas de processamento os problemas que fizeram com que seus membros concorrentes, com os quais não têm nenhum com- chegassem a essa solução. promisso.• O MECANISMO: fale dos mecanismos Destinação Quando a organização gera lucros, ela tende a inves- organizacionais que foram usados para resolver a dos lucros tir ou aumentar as reservas de capital, enquanto o tensão entre o interesse do grupo versus o interesse membro tem tendência a preferir benefícios de mais individual dos membros. curto prazo, por exemplo, melhores preços.• O RESULTADO: qual foi o resultado da Diferenciação A maioria das organizações econômicas precisa rece- introdução de tal mecanismo? Como ele mudou o de serviços ber contribuições dos membros para viabilizar suas comportamento dos membros ou afetou a maneira para membros oportunidades de negócios. No entanto, os mem- que o grupo desempenhava suas funções e atividades? e não bros não veem incentivos para contribuir quando os membros benefícios resultantes dessas atividades favorecem• AVALIAÇÃO: você recomendaria essa solução para investidores e não investidores indistintamente. outras organizações de agricultores? Existe qualquer requisito a cumprir para introduzir e usar esse Delegação A maioria de organizações de agricultores contrata de tarefas e profissionais para apoiá-los. De um lado, os membros mecanismo? Ou você pode sugerir formas melhores supervisão do conselho precisam ter informações apropriadas de lidar com problemas semelhantes? de pessoal para tomar boas decisões e precisam de uma equipe profissional que seja transparente e segura na prestação dessasJunte-se ao Programa Esfim, apresentando suas experi- informações. Por outro lado, as decisões sobre asências! transações comerciais precisam ser tomadas no mo- mento oportuno e serem eficientes, o que significaGiel Ton trabalha como pesquisador sênior no Agricultural que a equipe profissional precisa ter autonomiaResearch Institute (LEI), em Wageningen, e é o coordenador suficiente de decisão.do programa Esfim (www.esfim.org). Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 21
  • Entrevista > MANUEL GONZALEZ DE MOLINA Metabolismosocioecológico como ferramenta para aanálise da sustentabilidade dos sistemas agroalimentares Manuel Gonzalez de tima década. Que novas contri- Molina Navarro é PhD buições conceituais e metodoló- gicas eles trazem?  A proposta teórica e em História e professor metodológica do metabolismo social preenche uma do Departamento de grande lacuna. Precisávamos de uma ferramenta História Contemporânea conceitual que fosse comum às várias disciplinas cujo objeto é o estudo do ambiente. Da mesma forma que na Universidade as “disciplinas híbridas” surgiram do casamento entre Pablo de Olavide diferentes ciências, como é o caso da Agroecologia, (Sevilha), onde dirige o o metabolismo socioecológico é uma teoria híbrida entre ciências sociais e naturais, incluindo Ecologia, Laboratório de História Economia, História, Sociologia, termodinâmica, etc. dos Agroecossistemas, Por razões de economia cognitiva, a transdisciplina- no qual historiadores, ridade exige ferramentas conceituais comuns para abordar a complexidade das interações entre sociedade ecólogos, economistas e e natureza e facilitar a compreensão entre diferentes agrônomos desenvolvem especialistas. suas pesquisas com uma De que forma a análise do me- orientação transdisciplinar. tabolismo agrário pode ser útil Entrevista: Paulo Petersen para o planejamento dos siste- mas alimentares?  A aplicação do meta- bolismo socioecológico a agroecossistemas deu lugar J a um “metabolismo agrário”, que é uma ferramenta untamente com Victor Manuel Toledo, extremamente útil para o estudo da sustentabilidade pesquisador da Universidade Autônoma do agrícola. Com ele, pode-se integrar não só aspectos México, o professor Gonzalez de Molina ambientais e agronômicos, mas também econômicos e publicou recentemente o livro Metabolis- sociais, ou seja, os arranjos institucionais que facilitam mos, naturaleza e historia: hacia una teoria ou colocam obstáculos ao alcance da sustentabilidade. de las transformaciones socioecológicas, A aplicação da abordagem metabólica na agricultura publicação onde apresentam a abordagem do meta- permite compreender a crise ambiental nas zonas bolismo social como uma poderosa ferramenta para rurais a partir do enfoque em diferentes escalas de a análise da relação entre homem e natureza. Nesta abordagem (cultivo, propriedade rural, regional, nacio- entrevista, ele apresenta essa perspectiva conceitual e nal ou global), dando assim orientações para o plane- metodológica e suas possibilidades de uso para o plane- jamento das intervenções necessárias para a promoção jamento de sistemas agroalimentares mais sustentáveis. da sustentabilidade dos sistemas agroalimentares. Por exemplo, na Espanha temos aplicado essa Estudos sobre o metabolismo abordagem (ver n. 10 da Revista de Economía Crí- social ganharam terreno na úl- tica: http://revistaeconomiacritica.org/) e os dados 22 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • são conclusivos: a agricultura propriamente dita é paradoxalmente elevar seu consumo. Não será possívelresponsável por apenas um terço da energia primária atingir a sustentabilidade sem uma mudança social queutilizada na alimentação dos espanhóis. Os outros dois coloque em prática um novo modelo econômico e no-terços são gastos no transporte, no processamento, no vos padrões de produção e consumo. Isso está claro paraarmazenamento e no cozimento de alimentos exigidos a abordagem agroecológica, cuja forte concepção de sus-por uma cadeia alimentar caracterizada pelas enormes tentabilidade não apenas propõe soluções agronômicasdistâncias entre produtor e consumidor. Mesmo dentro e técnicas, mas também mudanças econômicas e políti-do sistema agrícola, a produção de nitrogênio sintético, cas. Com efeito, sem essas alterações não há nenhumao uso de ração concentrada feita com matérias-primas garantia de que a inovação tecnológica se desenvolveráque vêm de longe e o consumo de combustíveis conta- no rumo certo. Por exemplo, a dificuldade em chegar abilizam quase 90% do consumo de energia. um acordo sobre limites das emissões de gases de efeito O estudo revelou três questões importantes para o estufa e assim atenuar as mudanças climáticas não édesenho de um sistema agroalimentar sustentável: em apenas um problema de vontade política dos governos, éprimeiro lugar, que a maneira que os espanhóis co- também um problema das regras do jogo. Os operadoresmem é muito dispendiosa em termos ambientais e que econômicos não têm regulamentos ou incentivos parasupera a nossa disponibilidade de recursos energéticos, tornar viáveis as alternativas tecnológicas sustentáveisde modo que o primeiro objetivo de uma proposta disponíveis. Sem um quadro institucional que estimulealternativa deve ser reduzir drasticamente a quantidade canais curtos de distribuição de alimentos, por exem-de energia consumida. Em segundo lugar, a insusten- plo, será impossível chegar a um sistema agroalimentartabilidade reside não só na produção de alimentos, mas sustentável. A forma como os mercados de alimentostambém em nossos padrões de consumo, que reque- estão atualmente regulamentados claramente favorecerem o investimento de enormes quantidades de energia canais longos e uma relação desigual entre agricultores ee materiais. E, em terceiro lugar, não basta substituir distribuidores de alimentos.insumos químicos por insumos orgânicos para elevar asustentabilidade do sistema. O que é preciso é implan- Como essa abordagem analíticatar um manejo agroecológico que feche os ciclos e use pode contribuir para o desen-fontes de energia locais e renováveis, caso o objetivo volvimento de arranjos institu-seja realmente reduzir substancialmente o custo de cionais que favoreçam a transi-energia para alimentar a população espanhola. ção agroecológica dos sistemas agroalimentares?  A proposta metabólicaDo ponto de vista do metabolis- também é uma excelente ferramenta política. Aomo socioecológico, que análise mostrar os pontos críticos do sistema agroalimentar, elapode ser feita do conceito de aponta para os movimentos sociais os principais alvoseconomia verde da forma como de ação. Já para os governos, ela serve de orientaçãoestá sendo proposta na Confe- para a elaboração de políticas públicas. Na verdade,rência Rio + 20?  Muitas organizações ao integrar aspectos físicos e biológicos com direitosinternacionais têm promovido a assim chamada sociais e econômicos, a abordagem teórica e metodoló-“economia verde” como uma tentativa de responder gica do metabolismo socioecológico se torna uma baseàs crescentes demandas sociais por uma economia ideal para proporcionar o enfoque político necessário àmais sustentável. Governos de alguns países e grandes Agroecologia.corporações veem nessa “nova economia” uma grande Para que um arranjo institucional favoreça a susten-oportunidade de negócios. No entanto, a implemen- tabilidade alimentar, ele deve se basear na análise maistação desse tipo de economia não vai resolver a crise rigorosa possível da realidade, o que é possibilitadoecológica. Essa economia verde se baseia num processo pela abordagem metabólica. Enquanto a “pegadamediado pelo mercado de substituição de tecnolo- ecológica” é uma ferramenta educativa que calcula,gias sujas por tecnologias ditas limpas sem profundas por exemplo, o impacto virtual do sistema alimentarmudanças socioeconômicas. Por trás disso permanece em termos ecológicos, a metodologia metabólica éa ideia de que a crise será superada por sucessivos uma ferramenta poderosa que ajuda a descrever, emaumentos na eficiência do uso de energia e materiais, termos físicos, todos os processos que ocorrem desdeorientados por preços relativos e pelo funcionamento os campos de plantação até a mesa do consumidor.autorregulado dos mercados. Isso nos permite identificar onde estão as causas de Não está claro, no entanto, se essa forma de econo- insustentabilidade do sistema agroalimentar e quais sãomia implica uma redução do já elevado consumo de os agentes econômicos que se beneficiam dessa atualrecursos naturais, especialmente nos países ricos. Além configuração. Isso possibilita ainda que o desenho dedisso, já no século XIX Jevons alertava que sucessivos políticas públicas rigorosas e efetivas siga no caminhoganhos em eficiência no uso de um recurso poderiam da sustentabilidade. Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 23
  • MANIFESTOSMarcando posiçãona Rio+20 No processo preparatório para a Conferência Rio+20, muitas organizações da sociedade civil estão elaborando documentos por meio dos quais apresentam suas críticas aos documentos oficiais e suas proposições para o enfrentamento dos dilemas socioambientais que estarão em debate no evento. Apresentamos nesta seção resenhas de alguns desses documentos.Convocatória para ação Rio+20. Que opções temos Excluindo nossos direitos,Via Campesina quando “mais do mesmo” comprometendo nosso fu-Nesse curto, mas poderoso docu- não é uma opção? turo. Por que precisamosmento, a Via Campesina afirma que Tempo de agir de uma Cúpula dos Povos?a raiz da atual crise global é a predo- Esse documento, elaborado por Ibon International (Paul Quintos)minância das “formas de pensamen- mais de 30 organizações da socie- Carta aberta ao secretário-geral dato capitalistas”. Argumenta que dade civil de todo o mundo (entre Conferência das Nações Unidas so-desde a Cúpula da Terra, realizada as quais a AS-PTA e a Biovision), bre Desenvolvimento Sustentávelem 1992, nada tem sido feito para clama por uma grande mudança de (Rio+20), ao secretário-geral e aosresolver os problemas que o mundo paradigma no sistema econômico Estados-Membros da ONUenfrenta e que as medidas imple- mundial e convoca a sociedade A nota preparada por Paul Quintos,mentadas até agora (como a Con- global para a ação imediata. A pro- resumindo suas observações duran-venção sobre Biodiversidade, os posta é colocar a agricultura no te a segunda rodada de negocia-mecanismos REDD ou a Convenção centro das negociações da Confe- ções da Minuta Zero do documentodas Nações Unidas sobre Mudanças rência do Rio, argumentando que base da conferência Rio+20 no finalClimáticas) têm servido como ferra- isso pode ser a solução principal de março de 2012 em Nova York, foimentas para institucionalizar a mer- para as crises que enfrentamos distribuída a organizações da socie-cantilização dos sistemas naturais. hoje. O manifesto defende um pro- dade civil do mundo inteiro, sendoAlém disso, o conceito de “econo- cesso de transformação nos siste- seguida por uma carta aberta aomia verde” que tem sido apresenta- mas agroalimentares a partir das secretário-geral da Conferência.do na fase preparatória para a Con- perspectivas da Agroecologia e da Ambos os documentos expressaramferência Rio+20 seguiria a mesma soberania alimentar. O documento a preocupação de que “o processológica. Portanto, a Via Campesina oferece uma série de recomenda- oficial da Rio+20” tem “sido captu-rejeita terminantemente as ideias re- ções, incluindo a eliminação dos rado pelos interesses dos países po-lacionadas à “economia verde” e “subsídios perversos” destinados à derosos e de atores corporativos”,defende uma redefinição do sistema agricultura industrial e a promoção enquanto as vozes das organizaçõeseconômico global com base em e fortalecimento de sistemas agrí- da sociedade civil são ignoradas.propostas alternativas, tais como colas alternativos, por meio de in- Eles apontam que não há referên-sistemas alimentares locais, sobera- vestimentos em tecnologias de cias a obrigações de direitos huma-nia alimentar e modos agroecológi- base ecológica e da garantia do di- nos e nem mesmo aos maiores prin-cos de produção agroalimentar. reito à terra à agricultura familiar cípios acordados em 1992, assimhttp://viacampesina.org/en/index. camponesa. como o texto a ser discutido evitaphp?option=com_content&view=ar www.timetoactrio20.org/pdf/en. adotar qualquer linguagem prescri-ticle&id=1207&catid=48&Itemid=7 pdf tiva. Além disso, observa que as dis-5#.T2ssMwpbQLc.link cussões prévias à conferência estão24 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • centradas em soluções relacionadas bre Segurança Alimentar e Nutricio- tores conceituam sistemas agroeco-a investimentos do setor privado e nal e Agricultura Sustentável, orga- lógicos como sistemas de produçãoaos mercados livres, negligenciando nizada paralelamente à segunda ro- agrícola em que os insumos exter-questões como direitos aos bens dada de negociações da Minuta nos são substituídos por processoscomuns, regulamentação dos mer- Zero do documento base da Confe- naturais, apresentando os princípioscados, participação da sociedade rência Rio+20. O texto descreve os fundamentais de seu desenho e ma-civil nos processos de tomada de principais problemas resultantes da nejo. O documento apresenta resul-decisão, ações para a juventude, as agricultura industrial, tais como as tados de estudos que avaliam demulheres e a agricultura campone- emissões de gases de efeito estufa e forma muito positiva a performancesa. a sua dependência de insumos ex- de projetos agroecológicos na Áfri-www.ituc-csi.org/rio-20-rights-at- ternos, propondo a intensificação ca, Ásia e América Latina. Esses pro-risk.html?lang=en de sistemas agrícolas resilientes jetos resultam no aumento da segu- como alternativa. O documento de- rança alimentar, da diversidade agrí-Uma economia verde justa fine esses sistemas como sendo cola, na melhoria da saúde dos agri-e equitativa aqueles que fazem um manejo sus- cultores e no aumento da resiliênciaGreenpeace tentável dos solos, da água e dos a extremos climáticos. Em respostaO documento de tomada de posi- recursos naturais; que são energeti- à questão sobre como a Agroecolo-ção elaborado pelo Greenpeace foi camente eficientes; que fazem um gia pode “ser multiplicada e ter suaapresentado ao Comitê da UNCSD uso mínimo de insumos não renová- escala aumentada”, os autores des-como contribuição para a Minuta veis; que apresentam alta biodiver- tacam a necessidade de reformasZero do documento base da Confe- sidade e bem-estar animal; que or- políticas e institucionais, bem comorência Rio+20. Em suas frases ini- ganizam mercados localizados; que de programas de pesquisa e desen-ciais, o Greenpeace manifesta seu geram uma quantidade reduzida de volvimento. Eles enfatizam, entre-descontentamento com a lentidão resíduos; que promovem o empo- tanto, que o aumento da escala dasna implementação da agenda de deramento das comunidades locais inovações agroecológicas não podedesenvolvimento sustentável acor- e exibem padrões sustentáveis de depender apenas da vontade políti-dada no Rio de Janeiro em 1992, consumo. Ao final, o documento ca de governos: todos têm um pa-atribuindo essa falha aos governos. traz recomendações de políticas, pel a cumprir.O Greenpeace pede o fim de práti- dentre as quais destacamos: a for- http://agroeco.org/soclacas insustentáveis, tais como o uso mação de uma Comissão sobre Se-da energia nuclear e de combustí- gurança Alimentar Mundial (como Transição Agrícola: umaveis como o petróleo e o carvão. uma liderança estratégica para as lógica diferenteDefende ainda uma agenda para mudanças esperadas na agricultura); Rede Mais e Melhor (More and Bettero desenvolvimento sustentável, que a promoção de incentivos econômi- Network)deve incluir: a redução do consumo, cos para a intensificação de sistemas O documento propõe uma mudan-o enfrentamento do poder corpo­ de produção alternativos; a interna- ça na percepção dominante e este-rativo excessivo e a definição de lização dos custos da agricultura reotipada que encara a agriculturaMetas de Desenvolvimento Susten- convencional; a avaliação dos siste- camponesa como um fenômeno dotável. No que se refere à agricultura, mas de produção predominantes; e passado. Pelo contrário, demonstraa organização propõe implemen- uma definição rigorosa de indicado- que ela é composta por “profissio-tar as recomendações do relatório res para uma agricultura sustentá- nais consistentes com vastas habili-I­AASTD, entre elas, a eliminação vel. dades” e têm uma grande capaci-dos subsídios destinados à agricul- www.deza.admin.ch/ressources/ dade e potencial para produzir solu-tura convencional, assim como a re- resource_en_210 ções locais e globais para as crisesgulação do uso de agrotóxicos. interconectadas que colocam emwww.greenpeace.org/ Aumento de escala da risco os destinos da civilização. Nes-international/PageFiles/358991/ Agroecologia: disseminan- se sentido, os autores alertam parario2012expectations.pdf do esperança por sobera- o fato de que, em vez de buscar no- nia alimentar e resiliência vas soluções, deveríamos atentarNutrir o nosso povo, Sociedade Científica Latino-americana para os potenciais da agriculturacuidar de nosso planeta. de Agroecologia (SOCLA) camponesa que permanece nas di-Recomendações para a Esse importante documento defen- ferentes partes do mundo apesarMesa Redonda de Alto de a Agroecologia como o enfoque das condições políticas, ideológicasNível Sobre Segurança para o desenvolvimento da agricul- e financeiras que lhes são altamenteAlimentar e Nutricional e tura sustentável. A primeira parte adversas. O documento propõe aAgricultura Sustentável discute os numerosos e interconec- criação de uma plataforma pró-agri-Agência Suíça para o Desenvolvimento tados problemas relacionados à cultura camponesa, alinhando dozee a Cooperação, Instituto Millenium, agricultura industrial, enquanto as itens prioritários para que mudançasBiovision, Stiftung Mercator Schweiz seções seguintes focam na Agroe- estruturais sejam desencadeadasEssa declaração foi preparada para cologia como “a base para a nova nos sistemas agroalimentares.a Mesa Redonda de Alto Nível So- agricultura do século XXI”. Seus au- http://www.moreandbetter.org/en/ Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 25
  • POBREZA Superação da pobreza: indo além do enfoque monetarista Apesar de muito se falar família formada por duas pessoas precisa de uma piscina sobre “economia verde”, tão grande e que usa tanta energia (renovável ou não) para aquecer seus 2.500.000 litros de água. Também nin- parece que ainda não guém questionou por que ele tem de conduzir uma frota houve espaço para a (de meia dúzia ou mais) de carros... É essa interpretação crítica ao próprio conceito. do que é “verde é bom” que deixa perplexos aqueles que trabalham com pessoas que não podem pagar nem mes- Embora grandes esforços mo para andar de ônibus, muito menos usufruir de uma têm sido empreendidos frota de carros. E, a meu ver, a contribuição que eles para tentar fazer o termo fazem para mitigar as mudanças climáticas e “esfriar” o nosso planeta, ou para alimentá-lo, é muito maior. Eu parecer algo diferente, ele me sinto igualmente apreensivo quando se discute a ideia ainda incomoda muitas de uma “economia verde”, e essa inquietação se torna pessoas. Como podemos especialmente relevante quando penso nas milhões de pessoas que vivem em condições muito difíceis – e quan-assegurar que a nova green do pensamos que supostamente caberia aos economistas economy (economia verde) ajudá-los a superar a pobreza.na verdade não seja apenas Definições  Mas como definimos pobreza? uma nova greed economy Lembro-me de um estudante que, ao ser solicitado a (economia da ganância)? escrever sobre pobreza, mencionou: “Eu sou pobre, então eu sei o que é. Meu motorista também é pobre. P.V. Satheesh Minha cozinheira é ainda mais pobre. Meu jardineiroA também é pobre.” Se a ideia de uma “economia verde” no: 2009. Local: Copenhague. A está vinculada à pobreza de milhões de pessoas, será Cúpula do Clima está acontecendo. então que estamos obrigados a viver com outra farsa Um distinto orador convidado pela como a do senhor Schwarzenegger? Grande parte ONU se dirige ao plenário: trata-se de Arnold Schwarzenegger, o gover- nador do estado norte-americanoda Califórnia. Muitos dos participantes (inclusive eu)ficaram um pouco confusos quando ele começou a fa-lar sobre sua contribuição para mitigar o aquecimentoglobal. Ele mencionou que (a) a piscina de sua casa, detamanho olímpico, passou a ser aquecida com energiasolar em vez de energia elétrica, e (b) ele converteu suafrota de veículos utilitários esportivos em carros “híbri-dos”. Mas talvez ainda mais surpreendente foi que, aofinal, toda a Assembleia levantou-se para ovacioná-lo. Embora tenha sido ridículo convidar o senhor Schwar-zenegger para palestrar no plenário, quando nenhumagricultor ou indígena foi chamado a falar, o pior foi ofato de ninguém nunca ter questionado por que uma26 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • “Olhando atentamente para as pessoas com as quais estávamos trabalhando, a nossa própria ideia do queconstitui a pobreza mudou”. Fotos: P.V. Satheeshdas definições de pobreza adota uma interpretação outras palavras, não devemos deixar o novo conceito demonetarista. Um exemplo típico é o da Comissão de “economia verde” ser apenas uma forma de continuarPlanejamento da Índia, que estabeleceu como limiar fazendo “negócios como sempre” (business as usual).da pobreza 27 rupias per capita (= R$ 1,00). Esse tipode cálculo é sempre feito com base na contribuição do A perspectiva da Sociedadeindivíduo para o PIB nacional. Mas o PIB é em si outro para o Desenvolvimento Deccan embuste. Como diz Devender Sharma: “Se uma árvore A Sociedade para o Desenvolvimento Deccan (DDS,está em pé, ela não contribui para o PIB. Mas no mo- na sigla em inglês), organização de base da qual soumento em que é cortada e transformada em madeira associado há 25 anos, atua no distrito de Medak nocomercializável, ela passa a ser contabilizada no PIB”. estado de Andhra Pradesh, exatamente no centro da Então, o que podemos dizer que contribui – e para região semiárida da Índia. A DDS trabalha com cercaquê? Em outra conferência das Nações Unidas, desta de 5 mil mulheres camponesas que majoritariamentevez com foco no conceito de Felicidade Nacional pertenciam aos grupos socialmente excluídos. Essas sãoBruta, o antigo primeiro-ministro do Butão, Lyonpo pessoas que sofrem de várias formas de marginalização.Jigmi Thinley, disse: “Temos que pensar no bem-estar Num contexto de divisão urbano-rural, são margina-humano em termos mais amplos. Bem-estar material lizadas por pertenceram à população rural. Por seremé apenas um componente. Ele não garante que você pobres, são marginalizadas por sua condição econômi-esteja bem em seu ambiente e em harmonia com as ca desfavorecida. Por serem dalits, num contexto depessoas que o cercam ... O modelo de desenvolvimen- forte estratificação social, também são marginalizadas.to orientado pelo PIB que impõe o crescimento sem E como mulheres, enfrentam grave marginalizaçãolimites em um planeta com recursos limitados já não em função do abismo entre os gêneros. Por tudo isso,faz mais sentido. Ele é a causa de nossas ações irres- trabalhar com esse grupo tem sido um grande desafio.ponsáveis, imorais e autodestrutivas.” Thinley acrescen- Um quarto de século atrás, o objetivo inicial que esti-tou: “A finalidade do desenvolvimento deve ser criar pulamos era simplesmente “mitigar a pobreza”. Mas, àcondições propícias por meio de políticas públicas para medida que começamos a ouvir e observar cuidadosa-que todos os cidadãos saiam em busca de seu objetivo mente as pessoas com as quais estávamos trabalhando,final que é a felicidade.” nossa própria percepção do que constitui a pobreza “O PIB (produto interno bruto) por si só não promove foi alterada. Nessa linha de transformação, hoje nósfelicidade”, disse Jeffery Sachs, um destacado economis- encaramos a pobreza sob uma perspectiva muito maista da Universidade de Columbia, em Nova York, e tam- ampla, afastando-nos da visão monetarista e assumindobém autor do Relatório Mundial sobre Felicidade. “Os uma perspectiva de soberania: de uma perspectiva deEUA tiveram um aumento de três vezes o PIB per capita “direitos” passamos para uma perspectiva de “auto-desde 1960, mas a agulha da felicidade não se moveu. nomia”. Isso tudo nos levou em direção a sistemas deOutros países têm prosseguido com outras políticas e produção de alimentos autônomos e de controle comu-alcançado ganhos muito maiores de felicidade, mesmo nitário; sistemas de atendimento de saúde autônomos;a níveis muito mais baixos de renda per capita.” Em mercados autônomos; e uma mídia autônoma. Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 27
  • >> POBREZA Como essas iniciativas estão relacionadas à pobreza? com 400 rupias gastas per capita por outras famíliasÉ neste ponto que eu gostaria de retomar a questão da rurais no estado de Andhra Pradesh), uma vez quedefinição de pobreza. Em uma área rural, se uma mu- a maioria delas produz seu próprio alimento. Assim,lher de uma comunidade dalit é capaz de atender suas para cada família de cinco membros, as famíliasnecessidades alimentares e de saúde de forma satisfató- estão economizando (ganhando?) 1.500 rupiasria; se ela é capaz de ser um membro de um mercado (=  R$ 56,20). Elas também vendem quase 70% dasautônomo criado pelo seu grupo; se ela pode expressar leguminosas produzidas em suas propriedades e 60%seu ponto de vista em um espaço público por meio da das forragens, obtendo uma renda adicional;estação de rádio da comunidade e fazer seus próprios • Todas as comunidades envolvidas no programafilmes por meio de iniciativas como a Community estabeleceram seu próprio sistema público deVideo Collective (tipo de coletivo de vídeo comunitá- distribuição. Elas plantam milhetos nutritivos querio), ela deve realmente ser considerada uma mulher são cultural e ecologicamente adaptados às condiçõesem situação de pobreza só porque sua renda monetária locais. Por meio desse sistema, as comunidades nãoé menor que US$ 2 por dia? Ao contrário, se uma só atendem famílias agricultoras marginalizadas,mulher ganha US$ 3 por dia, mas depende completa- mas também a população sem terra em suasmente de um mercado externo para garantir alimentos, comunidades. Alguns anos atrás, elas fizeram umnutrição ou saúde e não tem nenhum espaço na mídia “mapa da fome” em suas aldeias e descobriram quempara expor seus pontos de vista e opiniões, poderíamos eram os menos favorecidos. A partir daí, criaramconsiderar que ela escapou da pobreza? cozinhas comunitárias para esse público. Assim, É essa forma de análise que me permite dizer que essas comunidades passaram de receptoras paraas famílias agricultoras com as quais trabalhamos têm fornecedoras de alimentos.conseguido superar a pobreza. Em termos de produção Pode-se dizer também que a agricultura praticadae consumo de alimentos, trata-se de famílias agriculto- por essas famílias não faz uso de agrotóxicos e fertili-ras que ocupam em média cerca de 2 hectares. Nesse zantes sintéticos. Elas usam adubos feitos a partir deespaço, elas têm adotado sistemas agrícolas diversifica- materiais coletados nas propriedades, biofertilizantesdos e são capazes de produzir todos os cereais, legumes produzidos domesticamente e outras formulações bo-e oleaginosas que querem consumir durante um ano tânicas localmente elaboradas para o cuidado e o cres-inteiro. Hoje em dia, cimento das plantas. Todas as sementes são próprias,• O consumo per capita de uma família média é de guardadas ano após ano. Por não terem nenhum custo 500 g de cereais e 50 gramas de leguminosas. De com a aquisição de sementes, adubos e agrotóxicos, acordo com a mais recente Pesquisa Econômica da economizam em média 2 mil rupias (R$ 73,60) por Índia, essas famílias estão comendo 20% a mais de hectare a cada safra. Elas também não usam energia cereais e quase 40% a mais de leguminosas que o externa, não produzem gases de efeito estufa e mantêm restante das famílias da Índia; um bom equilíbrio energético.• Em termos de dinheiro gasto, quase 85% dessas Quanto a seus sistemas de saúde, cada comunidade famílias gastam menos de 100 rupias (= R$ 3,70) tem sua própria agente, que geralmente é uma voluntá- por pessoa por mês em alimentos (em comparação ria. Essa agente normalmente trata de todas as doenças28 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Alguém pode ser considerada pobre só porque sua renda monetária é inferior a US$ 2,0 por dia?Fotos: P.V. Shateeshmenos graves em sua comunidade e está acessível a Uma alternativa válida  Estou mencio-qualquer pessoa sem cobrar nada pelos serviços que nando todos esses fatores para sublinhar o fato de que apresta. Ela produz apenas ervas medicinais. Na última DDS optou por ir além do modelo clássico de “geraçãodécada, as agentes de saúde têm representado para sua de renda”, esforçando-se para trabalhar em harmoniacomunidade, formada de 50 aldeias, uma economia de com as percepções ecológicas das comunidades. Issoaté 7,5 milhões de rupias (R$ 276.000,00) todos os anos. tem ajudado esse distrito a se tornar um oásis agroeco-Além disso, as comunidades têm cultivado 29 hortas lógico na região, que agora é reconhecido como ummedicinais comunitárias, cada uma contendo mais de Patrimônio de Agrobiodiversidade pela Autoridade50 espécies de plantas, cada qual com uma propriedade Nacional de Biodiversidade. Nesse processo, nossomedicinal diferente. Qualquer pessoa da comunidade trabalho não só contribuiu para aumentar a segurançapode acessar essas hortas e plantas para fazer suas pró- alimentar e nutricional dessas comunidades, mas tam-prias receitas sem ter que pagar nada por isso. bém permitiu que elas levem uma vida digna, compre- Em relação às opções de venda, as comunidades endendo o papel ecológico que desempenham.constroem seu próprio mercado. Trata-se de mercados Ainda que eu não consiga lembrar de nenhum obs-cooperativos comandados por uma comissão de mulhe- táculo intransponível, há várias razões por trás do nossores na qual todas as decisões são tomadas democratica- sucesso, começando com o fato de que a DDS mantevemente, incluindo aquelas envolvendo os preços pagos uma postura de pouca interferência desde o início. Aaos agricultores que fornecem as mercadorias. Todas DDS seguiu a agenda definida pelas mulheres e nuncaas mulheres que são membros contam com a vanta- tentou impor sua própria agenda. A DDS nunca tentougem de receber 10% a mais do que a taxa de mercado “representar” o povo com que estava trabalhando. Asexterno por todos os produtos que venderem para esses pessoas representaram a si mesmas. Portanto, as lutasmercados. Elas também obtêm 10% de desconto para foram travadas pela comunidade e as conquistas foramtudo o que compram nesses mercados. Todos os anos, a fruto de sua própria força. O que poderia ter atuadocooperativa ainda distribui dividendos! contra a DDS foi que ela não se envolveu com os setores Quase 80% das mulheres estão envolvidas em ricos e poderosos das comunidades. Mas, quando essesalguma forma de “ecoempresa”, na qual as criações de grupos perceberam que a força que as mulheres estavamanimais ocupam papel central. Cada família tem uma adquirindo poderia se voltar contra eles, já era tardecabra ou um búfalo, um boi e pelo menos meia dúzia demais. As mulheres já tinham se empoderado.de aves de capoeira (ou uma combinação de todas es- Para concluir, gostaria de dizer que, sem fixar obje-sas criações). Os rendimentos médios mensais obtidos tivos monetários, nosso trabalho tem mostrado que éatravés da venda do leite e da carne chegam a cerca de possível melhorar o bem-estar das comunidades rurais2,5 mil rupias (R$ 92,00). Além disso, o gado também e vencer a pobreza. Como diz Nagamma, uma senhoraé uma grande fonte de adubo orgânico. A maioria das de 70 anos de idade da aldeia de Tekur, a redução dafamílias produz biofertilizantes (uma média de 1,5 pobreza nas zonas rurais “tem que ser como um rio.toneladas por ano, vendidas a quase 6 rupias por quilo). Outras organizações são como monções que irrompemO gado produz cerca de 6 toneladas de adubo, repre- a cena com força e desaparecem em poucas semanas.sentando uma economia de até 1,5 mil rupias por ano. Nós fluímos plenas e calmas, trazendo vida para oFinalmente, podemos dizer também que, desde 1990, nosso redor.” Esse não deveria ser o objetivo de umaas comunidades têm plantado mais de um milhão de verdadeira “economia verde”?árvores em aproximadamente 35 locais, levantandoflorestas na vizinhança (ou “áreas comuns”). Cada P.V. Satheesh é o Diretor da Sociedade para o Desenvolvi-floresta tem mais de 80 espécies de árvores, das quais as mento Deccan, em Andhra Pradesh, Índia.famílias obtêm forragem, frutas, lenha e madeira. E-mail: satheeshperiyapatna@gmail.com Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 29
  • >> POBREZAIntensificaçãoagroecológica na ÍndiaSabyasachi RoyCresce a percepção no estado de Bengala Ociden- de propriedades vizinhas que mantêm o sistematal, Índia, de que somente a adoção de práticas de convencional de cultivo).agricultura ecológica pode reverter a tendência ao As condições do solo na propriedade melhoraram,declínio da produtividade agrícola. Uma pequena o que pode ser notado com o aumento substancialpropriedade rural de 3,8 hectares conduzida por Bi- da população de minhocas e em terras com maiorrendra Kumar Roy e Paromita Sarkar Roy, na aldeia de capacidade de retenção de água. A variedade e aKamalakantapur, está mostrando que há alternativas diversidade de espécies vegetais na paisagem tam-ao uso de insumos químicos e de práticas de mane- bém levaram a mudanças notáveis na vida silvestrejo que levam à degradação da terra. A propriedade da região.do casal, chamada SAKRIA (que significa “ativa” em Além de suprir as necessidades nutricionais da fa-bengali) supre as necessidades da família, é rentável mília, os excedentes da produção são vendidos ine permite que o filho cresça em um ambiente livre de natura ou processados para pequenos comerciantespoluição, produtos químicos e agrotóxicos. e famílias na vizinhança. Com essa fonte de renda,O casal cultiva diversas espécies de frutas, grãos e a família emprega quatro trabalhadores de tempoverduras, priorizando variedades tradicionais que integral e oito a dez trabalhadores sazonais.são adequadas às condições ambientais locais. As Os esforços sistemáticos de divulgação de seu tra-diferentes variedades de frutas cultivadas assegu- balho nos últimos 15 anos têm influenciado muitosram uma nutrição adequada, além de alimentos sa- agricultores vizinhos que passaram a cultivar maiorborosos para a família. A complementação das exi- diversidade de culturas, além de consorciá-las comgências nutricionais da família é feita com a criação leguminosas. A fazenda orgânica SAKRIA pode serde peixes. Árvores são usadas como quebra vento apenas um pequeno estabelecimento familiar eme a fertilização dos solos é realizada com materiais uma área remota de Bengala Ocidental. Mas elaorgânicos produzidos na propriedade. Espécies de demonstra o que pode ser conseguido por meio doleguminosas são consorciadas aos cultivos ou cul- amor pela terra e pela natureza, da autodetermi-tivadas em rotação, permitindo a fixação de nitro- nação, da inovação e do trabalho duro. O sucessogênio no solo. Em vez de agrotóxicos, a família faz reside no fato de que os agricultores têm articuladoa remoção manual de plantas espontâneas e em- com primor seus conhecimentos tradicionais às téc-prega produtos naturais para o controle de insetos- nicas “modernas”.praga, um problema que não é muito grave devido Sabyasachi Roy trabalha no National Dairy Developmentà manutenção de plantios diversificados (os maio- Board (Conselho Nacional de Desenvolvimento de Laticí-res problemas com as pragas se devem ao fato de nios), VIII BlockI, Koramangala, Bangalore, Índia.que elas facilmente chegam à propriedade vindas E-mail: sabyaroy@gmail.com30 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Intensificação agroecológica com inovações nossistemas de coleta de água de chuvaHasrat ArjjumendA resposta dos governos e cientistas para a escas-sez de água e a recorrência de secas frequentemen-te se baseou em megaprojetos, como barragens dealto custo. Mas uma solução muito mais simples ecertamente mais eficaz e eficiente tem sido a cap-tação descentralizada da água de chuva por partedas comunidades rurais. Em Rajkheta, uma aldeiano estado indiano de Chhattisgarh, a organizaçãonão governamental Sarguja Gramin Vikas Sanstham(SGVS) vem experimentado ideias inovadoras paramelhorar os regimes de água subterrânea, atenden-do as variadas demandas de consumo pela popu-lação local. Tais ideias faziam parte de um conjuntode atividades conduzidas pela comunidade comfoco na gestão da água, na conservação do solo,no desenvolvimento agrícola e, finalmente, no em-poderamento das pessoas e famílias mais empo-brecidas.No início do projeto, foram realizados diagnósticosparticipativos sobre os recursos hídricos que ajuda-ram a desfazer o mito de que a água não é neces-sariamente escassa, mas que pode estar sendo mal novação da lagoa que antes estava morta transfor-manejada ou estar disponível em fontes ainda não mou-a em fonte de água para o gado beber e paraexploradas. Na fase seguinte, foram testadas várias a piscicultura.inovações técnicas. Medidas de conservação do O impacto dessas inovações já foi sentido já no pri-solo, como a construção de diques e a formação de meiro ano com a elevação do nível das águas sub-canais nas propriedades, melhoraram as condições terrâneas e com uma quantidade cada vez maiordo solo e o regime de água. Mais de 100 hectares de água sendo coletada e armazenada. Isso temde áreas em pousio foram convertidas em campos motivado os agricultores a explorar a água para ir-de produção de arroz. Uma grande bacia de cap- rigação, o que proporcionou considerável mudançatação ajudou a recuperar cerca de 50 hectares de na intensidade da atividade agrícola da região. Nosterreno arenoso antes abandonado. Terraços foram primeiros três anos, a área semeada aumentou, aconstruídos para diminuir o escoamento das águas. diversidade de cultivos cresceu assim como os ní-Já no primeiro ano, as chuvas encheram os reserva- veis de produtividade.tórios e os solos dos campos com diques retiverama água precipitada. Um córrego que costumava se- Uma versão completa destecar logo após o período das chuvas gradualmente artigo foi publicada na edição v. 5, n. 2, de Leisaevoluiu para um rio perene. Índia (junho de 2003).Para deter a erosão do solo e ajudar a água da chu- Hasrat Arjjumend trabalhouva a permanecer em uma área de 65 hectares de como consultor com basefloresta, membros da comunidade trabalharam na em Bhopal, na Índia.recuperação de voçorocas e na implantação de pe- E-mail: prc_hasrat@sify.comquenas trincheiras sequenciais e terraços em nívelnas encostas. Além disso, uma microbarragem deretenção foi construída a montante do Bajarmaranala. Um aqueduto também foi construído parapermitir a coleta de água, ajudando a impedir ainundação da estrada de ligação. Finalmente, a re- Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 31
  • AGROBIODIVERSIDADE@RECONHECIDA Promovendo o debate para uma transformação real A biodiversidade é importante para a resiliência do nosso planeta. Os agricultores de base familiar dependem da biodiversidade para seu sustento e sobrevivência e são seus principais guardiões. Embora a agricultura possa ser a maior destruidora da biodiversidade, são comuns as práticas agrícolas que fazem uso dela e a incrementam. A Hivos e a Oxfam-Novib lançaram recentemente um programa que visa gerar novas percepções e evidências sobre essa questão e assim ajudar a fomentar os debates. O objetivo desse programa é desenvolver conceitos e ideias sobre a biodiversidade agrícola, relacionando-a aos meios de vida da agricultura camponesa e às mudanças climáticas. Ele terá a duração de três anos e incluirá atividades de pesquisa- ação, desenvolvimento de redes e o estabelecimento de uma plataforma de debates públicos. A biodiversidade agrícola está relacio- e possibilidades quando falam sobre biodiversidade. nada a muitas coisas: aos genes de Precisam saber também dos riscos de suas ações e uma ampla variedade de plantas e como elas afetam a biodiversidade e, assim, a disponi- animais; às políticas e às práticas bilidade de alimentos. agrícolas; às pessoas e aos sistemas Muitas organizações, governos e empresas vêm sociais dos quais elas fazem parte. lidando com esse complexo conjunto de questões há O que a agrobiodiversidade significa na prática? E algum tempo e desenvolveram abordagens específicas como o vasto conhecimento e experiência que existem a esse respeito. “A diversidade agrícola inclui compo- podem contribuir para melhorar as políticas e as prá- nentes da diversidade biológica que são essenciais para ticas? Povos, agricultores, formuladores de políticas e a nutrição de populações humanas e para a melhoria empresários precisam saber quais são as oportunidades de sua qualidade de vida”, diz Zachary Makanya, do PELUM-Quênia (Gestão Ecológica Participativa do Uso da Terra, na sigla em inglês). “Essa diversidade é“Segurança alimentar significa que sementes de boa o resultado de atividades de agricultores e pastores, doqualidade a preços acessíveis estejam disponíveis aos uso da terra e das florestas, bem como de atividadesagricultores na época em que eles precisam delas. O de pesca e aquicultura ao longo de milhares de anos,enfoque deveria ser o de criar e fortalecer estratégias locais combinadas com milhões de anos de seleção natural.de suprimento de sementes”. Isto é essencial para a nossa existência.”A.V. Balasubramanian, Centro de Sistemas de ConhecimentoTradicional (Centre for Indigenous Knowledge Systems - CIKS), Índia 32 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • “É imperativo que se aumente a produção de alimentosde forma sustentável, valorizando os recursos semcomprometer o capital natural e tirando partido detodos os processos biológicos. É urgente o fortalecimento cais, de modo que os agricultores e as gerações futurasdos sistemas tradicionais de gestão dos recursos para possam continuar a se beneficiar delas.”a conservação da biodiversidade agrícola, e que os Na África Oriental, o PELUM tem também dadoagricultores e suas organizações locais sejam encorajados passos importantes no sentido de compartilhar co-a continuar a conservar suas sementes que são nhecimentos e melhores práticas entre os diferentescomprovadamente eficientes. Parem com a introdução profissionais. O PELUM-Quênia e outras organizaçõesde sementes transgênicas, uma vez que elas destroem a que atuam com a mesma visão estão atualmente lan-agrobiodiversidade e tornam os agricultores dependentes de çando a Iniciativa de Agricultura Orgânica Ecológicacorporações sementeiras”. (EOA, na sigla em inglês), que busca basicamenteZachary Makanya, Coordenador Nacional do PELUM-Quênia e melhorar os meios de vida e a segurança da agriculturaPresidente do Conselho da Rede de Biodiversidade da África (Africa de base familiar e de comunidades rurais na África.Biodiversity Network - ABN). “O PELUM-Quênia está coordenando esta iniciativa piloto para promover a agricultura ecológica e mostra- remos que este é o tipo de agricultura que ajudará a Entendendo a biodiversidade acabar com a fome perene e com a pobreza na África”, agrícola  As organizações envolvidas no programa declara Zachary Makanya. O objetivo é tornar a agri- Agrobiodiversidade@Reconhecida (Agrobiodiversity@ cultura orgânica predominante nos sistemas nacionais knowledged, em inglês) consideram diferentes aspectos de produção agrícola até 2020 – através do aumento do conceito de biodiversidade agrícola. Na Etiópia, por da escala das práticas agroecológicas, da promoção da exemplo, há vários anos o Fórum de Uso Sustentável visibilidade dos alimentos produzidos ecologicamente da Terra (SLUF, na sigla em inglês) tem defendido e de parcerias multi-institucionais. uma abordagem integrada para a agricultura e o uso do solo. Para Tenaw Hailu Tedela, a agrobiodiversidade Os próximos passos  Todas essas orga- tem múltiplas dimensões e nos proporciona diferen- nizações concordam que precisamos dar mais atenção tes benefícios. “Ela fornece as bases para a produção à agrobiodiversidade. “Precisamos não somente reco- de alimentos. E a biodiversidade de uma área inclui nhecer sua importância, mas também aumentar nossa também os organismos que contribuem para muitos compreensão sobre como transformar a agricultura ou, tipos de serviços ambientais, que vão desde o controle em outras palavras, ampliar a escala de programas de de pragas e doenças até o sequestro de carbono. Os sucesso”, diz Gine Zwart, da Oxfam-Novib. A ideia de agricultores reiteradamente mostram que a agrobiodi- uma economia “verde” está agora em voga, mas muitas versidade é a base para a segurança alimentar e para questões permanecem. O que o termo “verde” realmen- os meios de vida sustentáveis. Este é o nosso maior te significa? Quem irá governar essa economia verde? incentivo para preservá-la”. Precisamos de mais conhecimento para moldar novas Na Índia, o CIKS (Centro de Sistemas de Conhe- políticas e práticas? Muitos formuladores de políticas de cimentoTradicional) busca assegurar que os conhe- alto nível podem ter a sensação de que este conhecimen- cimentos populares sobre diferentes espécies sejam to está escondido. Entretanto, perceberemos que ele está revalorizados nos sistemas agrícolas contemporâneos. bem na nossa frente se pararmos para olhar e escutar “A agrobiodiversidade é muito importante: pense no cuidadosamente aqueles que trabalham com a natureza número de variedades que são resistentes a secas, pragas na vida cotidiana: agricultores, pescadores e pastores. e doenças”, diz A.V. Balasubramanian. “A agrobiodiver- sidade nos ajudou a produzir alimentos de forma adapta- “Os governos das nações desenvolvidas deveriam dar a da às nossas condições locais, tradições e costumes. Não devida atenção à agrobiodiversidade, mas não como uma estamos falando apenas de resistência à seca ou a pragas, mera demonstração política. O desenvolvimento sustentável mas também de produtividades maiores”. somente poderá ser alcançado por meio da conservação e do desenvolvimento da biodiversidade agrícola, melhorando, por Iniciativas em curso  A partir dos conhe- meio dela, a segurança alimentar, os meios de vida e a resiliência cimentos tradicionais, o CIKS iniciou em Tamil Nadu face às mudanças climáticas. Políticas apropriadas precisam ser um projeto de banco de sementes comunitário. A implementadas, promovendo e apoiando ações práticas”. biodiversidade perdida foi resgatada pelas comunidades Tenaw Hailu Tedela, Coordenador do Fórum de Uso Sustentável da Terra e hoje mais de 130 variedades de arroz e 50 variedades (Sustainable Land Use Forum - SLUF) de hortaliças estão sendo cultivadas pelos agricultores. “A agrobiodiversidade precisa ser conservada localmen- Para maiores informações, escreva para Gine Zwart (e-mail: te, e não apenas em câmaras frias mantidas por pes- gine.zwart@oxfamnovib.nl), Willy Douma (w.douma@hivos.nl), ou para as próprias organizações participantes: quisadores”, explica A.V. Balasubramanian. “É preciso A. V. Balasubramanian no CIKS (info@ciks.org), Zachary promover a conscientização nas comunidades sobre a Makanya no PELUM (makanya@pelum.net) ou para Tenaw biodiversidade e sobre a importância das variedades lo- Hailu Tedela no SLUF (tenaw.hailu@gmail.com). Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 33
  • Energia O dilemaenergético O acesso às fontes de energia e o seu esgotamento são temas que vêm recebendo cada vez mais atenção, especialmente quando se trata da agricultura e das áreas rurais. Como usar de forma sustentável as fontes de energia existentes e como desenvolver fontes mais sustentáveis de energia são aspectos centrais desse debate. Isso leva a questões sobre como a agricultura pode tornar-se mais eficiente em termos energéticos e sobre o potencial (e os riscos) de fontes alternativas de energia, como os agrocombustíveis. Flemming NielsenA inda que por vezes negligenciada no climática. Para começar, o uso de energia não precisa debate sobre o desenvolvimento, a se dar com tanto desperdício, como frequentemente energia voltou a receber mais atenção acontece na agricultura industrial. Em vez de tratar a recentemente. Algumas pessoas falam energia como um item de consumo, comprado de fora, da pobreza energética e sugerem que precisamos pensar em termos de fluxos de energia, as- um melhor acesso pelas pessoas com sim como fazemos com a água e com os nutrientes nafome de energia pode contribuir significativamente para agricultura de base ecológica. Como podemos reduziralcançarmos os Objetivos de Desenvolvimento do Milê- o desperdício de energia? Como podemos aumentarnio (ODM). O acesso à energia pode reduzir a pobreza a eficiência energética? Como podemos reutilizar aextrema (Objetivo 1) ao possibilitar novas atividades energia? Enquanto os sistemas agrícolas convencionaisgeradoras de renda e reduzir o tempo gasto na coleta de dependem fortemente de combustíveis fósseis, tantolenha. A eletricidade possibilita estudar mais (Objetivo para o maquinário como para a produção de fertilizan-2), assistir TV e usar telefones celulares. Estudos mos- tes, a maioria das pequenas propriedades usa um mí-traram que as meninas, em particular, tiram proveito nimo de insumos derivados de energia não renovável.das horas extras de estudo (Objetivo 3). O acesso à Os benefícios de tal abordagem são muitos e incluemenergia pode reduzir a mortalidade infantil, melhorar um impacto ambiental mínimo, menos dinheiro gastoa saúde materna e ajudar no combate ao HIV/AIDS e e aumento da resiliência com relação às flutuações nooutras doenças (por exemplo, fornecendo água potável). preço dos combustíveis fósseis.Substituir a lenha por biogás ou eletricidade reduz asdoenças respiratórias (Objetivos 4, 5 e 6). Além disso, o Buscando o acesso universal?  Amelhor acesso à energia pode melhorar a sustentabili- queima de lenha, esterco e resíduos de culturas agrícolasdade ambiental ao reduzir o desmatamento (Objetivo 7). representa um terço da energia usada nos países em de- A ligação entre energia e mudanças climáticas é senvolvimento. As famílias rurais, entretanto, encontramhoje amplamente reconhecida, mas o maior acesso cada vez maior dificuldade para obter lenha ou esterco.à energia não necessariamente resulta em mudança Portanto é essencial que se busque outras fontes de34 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • energia. Algumas soluções alternativas, como o biogás, fontes abundantes de recursos energéticos alternativosas pequenas barragens hidrelétricas e a energia eólica ainda não explorados. O limitado domínio tecnológicoevoluíram e estão sendo rapidamente disseminadas. e a falta de capital, os subsídios para os combustíveis fós-Soluções modernas como os painéis solares fotovoltaicos seis e a incipiência de políticas de apoio impedem umbaratearam significativamente ao longo dos últimos desenvolvimento mais expressivo de energias alternativaspoucos anos e estão se tornando competitivas diante em muitos países. As maiores exceções são o Brasil, ade outras fontes de energia. No entanto, muitas dessas China e a Índia. Depois de décadas de apoio governa-tecnologias requerem pesados investimentos iniciais. mental para pesquisa e desenvolvimento, o Brasil é umMuitas pessoas pobres que poderiam se beneficiar dessas dos líderes globais na produção de agrocombustíveis. Osalternativas não têm condições, por exemplo, de adotar outros dois países são líderes na geração descentralizadaos painéis fotovoltaicos – que podem facilmente custar de energia renovável a partir do vento, pequenas centraisaté 500 dólares por família. Mesmo nas opções menos hidrelétricas, biogás e aquecimento solar de água. Acaras, como as pequenas barragens hidrelétricas vistas no maioria dos demais governos tomou pouca iniciativa noNepal, os custos iniciais são muito altos para as comu- desenvolvimento de fontes alternativas de energia.nidades assumirem sozinhas. Ao mesmo tempo, muitos O biodiesel e os óleos vegetais podem atuar comopaíses têm leis em vigor para proteger os fornecedores substitutos para o diesel, ao passo que o etanol podenacionais de eletricidade ao tornar ilegais as pequenas substituir a gasolina. Eles podem mover os veículosredes particulares de energia. Atualmente, o nível de que já existem. Isso difere de outros combustíveisinvestimento na geração de energia renovável localmen- alternativos, como a eletricidade ou o hidrogênio, quete apropriada é apenas um quinto daquele necessário envolvem a substituição dos veículos existentes porpara prover acesso à eletricidade para todos até 2030. A outros novos. Mesmo em países ricos, as adaptaçõesAgência Internacional de Energia (AIE) prevê que até requeridas são proibitivamente caras. Quando os2030 ainda haverá 1,2 bilhão de pessoas sem acesso à preços dos combustíveis fósseis dispararam, foi muitoeletricidade, a menos que as políticas mudem significa- atrativo produzir agrocombustíveis, o que demandariativamente. investimentos relativamente simples nas unidades de Muitas pessoas têm medo dos impactos do acesso processamento. Era um sonho de uma mudança rápidauniversal à eletricidade sobre o aquecimento global. Con- e fácil para um futuro livre de combustíveis fósseis, mastudo, o provimento de acesso universal à energia até 2030 um sonho que não estava enraizado na realidade.aumentaria a demanda global por combustíveis fósseis A mais recente campanha pelos agrocombustíveisem apenas 0,8% e as emissões de CO2 em 0,7%. Isso se começou por volta de 2005 e fez com que muitosdeve à combinação entre a baixa demanda de energia governos, juntamente com investidores privados,pelas populações que atualmente não têm acesso à rede mergulhassem em grandes projetos sem fazer o deverelétrica e a expectativa de que muitos serão servidos por de casa necessário. Em particular, fomentou-se oeletricidade gerada por fontes alternativas. plantio de pinhão-manso (Jatropha curcas) em lugares onde ele não cresce bem e agricultores foram encora-Procurando alternativas  A maioria jados a produzir em lugares onde não havia mercados.das regiões pobres do mundo é importadora líquida de Raramente foram fornecidas informações acerca dascombustível fóssil. Ao mesmo tempo, elas dispõem de práticas agronômicas corretas e ninguém deu atenção àO aumento do acesso à energia não necessariamente contribui para a mudança climática.Fotos: Victor Berrueta / William Critchley Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 35
  • >> EnergiaMuitas fontes alternativas de energia são técnica e economicamente viáveis. Fotos: GERES India / RAAAimportância da criação de subprodutos de valor econô- biogás produz um lodo que é um bom fertilizante, masmico a partir da torta da oleaginosa. Como se poderia que é difícil de ser manuseado e transportado. Painéisprever, os rendimentos foram baixos e a consequente fotovoltaicos são duráveis, mas só fazem funcionar equi-repercussão negativa foi tão grande quanto a propagan- pamentos leves. Agrocombustíveis podem substituir osda realizada anteriormente. Hoje o setor de agrocom- combustíveis fósseis diretamente, mas podem competirbustíveis está enfrentando um momento difícil, tanto com outras culturas por trabalho e terra. Aquecedores dedo ponto de vista econômico, quanto político. água solares são relativamente baratos, mas propensos ao Exemplos de diferentes países mostram que é impor- entupimento se a água empregada estiver suja.tante olhar para as consequências sociais e econômicas Apesar dos grandes benefícios oferecidos por fontesde cada opção de fonte energética, como também alternativas de energia, um foco no aumento do acessopara os impactos ambientais do uso da energia, e levar à energia pode negligenciar a importância de técnicasem conta o processo de distribuição como um todo. e equipamentos usados por muitas famílias de agricul-Grandes usinas hidrelétricas ou a produção em larga tores – e a real demanda energética da agricultura. Noescala de agrocombustíveis podem ter enormes custos mundo todo, agricultores estão testando muitas tecno-sociais, econômicos e políticos, tais como o deslocamen- logias simples e que já estão disponíveis para poupar eto de pessoas que vivem em um determinado território. gerar energia. Muitos exemplos foram documentadosA “sustentabilidade” dos agrocombustíveis depende da nesta revista ao longo dos anos. O tipo de fonte energéti-energia que é demandada na sua produção agrícola (por ca adotado depende fortemente da disponibilidade e doexemplo, se há utilização de agroquímicos) e do tipo preço, mas também das tradições e preferências pessoais.da terra onde essas lavouras são implantadas: é preciso Talvez o mais importante não seja olhar tanto para aavaliar os benefícios líquidos quando essas plantações demanda por energia, mas sim para a eficiência no seusubstituem solos ocupados com florestas naturais ou uso. Esses exemplos mostram que a agricultura campo-com culturas alimentícias. nesa não somente pode alcançar rendimentos elevados: ela é também mais eficiente que a agricultura empresa-Soluções de pequena escala  Os rial no que se refere ao uso de energia.combustíveis fósseis desempenharam um papel impor-tante na agricultura alimentando geradores, bombas e Baseado na Holanda, Flemming Nielsen trabalha comoveículos, impulsionando a produção de fertilizantes sin- pesquisador independente no Banana Hill. E-mail: fnielsen@ bananahill.nettéticos e permitindo que os circuitos de abastecimentocrescessem de maneira progressiva. Entretanto, surgiram Referências Bibliográficasdiversas fontes alternativas de energia que são técnica OECD/IEA. Energy for all: Financing access for the poor, 2011.e economicamente viáveis e estão sendo atualmente UNDP. Expanding energy access in developing countries: Theadotadas em larga escala. Cada tecnologia tem suas role of mechanical power, 2009.vantagens e desvantagens. Por exemplo, a energia eólica UNDP. Decentralized energy access and the Millennium Development Goals: An analysis of the development benefits ofé barata, porém, intermitente, isto é, funciona apenas micro-hydropower in rural Nepal, 2011.quando o vento sopra. Pequenas centrais hidrelétricas THE WORLDWATCH INSTITUTE: Energy for Development:podem produzir energia para atender a demanda, mas The potential role of renewable energy in meeting the Millen-são muito caras para a maioria das comunidades. O nium Development Goal, 2005.36 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Água correntemorro acimaAuke IdzengaA gravidade faz a água correr morro abaixo e aspessoas e comunidades que vivem em áreas mon-tanhosas muitas vezes encontram dificuldades parater acesso à água. A Fundação de DesenvolvimentoAlternativo Tradicional (AIDFI, em inglês), uma ONGque atua em Bacolod, na ilha de Negros, Filipinas, enorme potencial do carneiro hidráulico reside navem trabalhando com camponeses há muitos anos. sua simplicidade. O modelo desenhado pela AIDFIAo ver e ouvir sobre os recorrentes problemas de usa dobradiças comuns (disponíveis em qualquerdeficiência de acesso à água enfrentados por mui- lugar do mundo) e uma válvula de retenção feita atos agricultores, a AIDFI decidiu concentrar sua atu- partir de um pedaço de pneu de carro. A adapta-ação na busca e disseminação de soluções técnicas ção do carneiro hidráulico para outros contextos épara atender às necessidades básicas das comuni- muito simples: basta um ajuste às dobradiças dasdades por água potável e por água para irrigação. portas localmente disponíveis.Desde 1990, a AIDFI experimentou diferentes tiposde bombas d’água e, posteriormente, o carneiro hi- Um dos resultados mais comuns na instalação dedráulico. Um carneiro hidráulico utiliza a energia do um carneiro hidráulico é que as comunidades ruraisfluxo da água para bombeá-la para um terreno mais nunca chegam a ter suas demandas por água aten-elevado, não dependendo do consumo de eletrici- didas: a necessidade parece aumentar de acordodade nem de combustível. Para cada metro cúbico com o aumento na disponibilidade. É por isso que aque flui para o equipamento, ele tem a capacidade associação comunitária precisa desenvolver normasde bombear a uma altura de até 30 vezes mais alta que assegurem que a divisão seja justa. Frequente-do que a fonte de água de onde ela proveio. O mente, a irrigação é a atividade que mais consome água. Para que haja uma distribuição equânime, torna-se necessário configurar horários de irrigação e regulamentos internos. Embora a AIDFI não avan- ce além de suas atribuições de assessoria, ela tem apoiado todas as associações que solicitam ajuda na elaboração desses regulamentos. Expandir a produção e a instalação de carneiros hidráulicos corresponde atualmente a quase totalidade todo o trabalho da AIDFI. As vantagens do carneiro hidráu- lico também têm sido experimentadas em outros países onde a AIDFI atua, entre eles o Afeganistão, a Colômbia e o Nepal. Este artigo foi publicado na edição 26.3 do Farming Matters. Auke Idzenga é um engenheiro naval que vive nas Filipinas desde 1985. Em 1991 ele ajudou a fundar a AIDFI. E-mail: aidfi@hotmail.org Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 37
  • >> EnergiaAs lições aprendidas com aprodução de agrocombustíveisem Nhambita, MoçambiqueMarc Schut, Annemarie van Paassen, Cees nam rentáveis apósLeeuwis, Sandra Bos, Wilson Leonardo e Anna três a quatro anos.Lerner A forma como a pro- dução do pinhão-Em muitos países em desenvolvimento, a produção manso foi promovidade agrocombustíveis pela agricultura familiar é en- em Nhambita pelocarada como alternativa promissora para o atendi- governo de Moçam-mento das demandas de energia em zonas rurais bique gerou resulta-e como catalisador para o desenvolvimento socio- dos muito decepcio-econômico rural. Um estudo em Nhambita –, uma nantes. Estratégiasdas comunidades rurais moçambicanas pioneiras no de estímulo à pro-plantio de Jatropha curcas Linnaeus (pinhão-manso) dução dos agrocom-– teve por objetivo contribuir para a elaboração e bustíveis pela agri-implementação de políticas públicas voltadas à pro- cultura camponesamoção dos agrocombustíveis, analisando o poten- devem ser ajustadascial de produção em três tipos de famílias agrícolas aos contextos específicos em que as agriculturascaracterizadas segundo o seu nível de estruturação locais se desenvolvem, levando em conta a com-e disponibilidade de recursos. plexidade das diferentes estratégias de reproduçãoO estudo identificou que as famílias com recursos econômica e técnica das famílias agricultoras. Alémem níveis entre médio e alto precisam manter em disso, é essencial proporcionar um ambiente propí-torno de 20% do total da sua propriedade para as- cio para a experimentação e desenvolvimento ins-segurar a autossuficiência alimentar. Já as proprie- titucional, favorecendo processos de capacitação edades com recursos escassos precisam manter 80% intercâmbio de conhecimentos, bem como a estru-de sua área produtiva dedicada à produção de ali- turação dos mercados.mentos para o consumo doméstico. Além disso, as O estudo revelou também algumas oportunidades:famílias que dispõem de mais recursos conseguem o óleo de pinhão-manso é apropriado para a fabri-manter maiores reservas de alimentos e têm menos cação de sabão e iluminação – principais despesasdificuldade para se alimentar ao longo do ano. As das famílias Nhambita. Já o bagaço de pinhão-man-famílias com níveis altos e médios de recursos em so e as cascas do fruto podem ser valorizados comogeral possuem mais força de trabalho, além de po- fertilizantes orgânicos. Estratégias de planejamentoderem contratar trabalhadores oriundos de famílias que levem em conta essas limitações e oportuni-com baixos níveis de recursos. Nessas condições de dades podem contribuir para o desenho de políti-restrição de terra e de disponibilidade de trabalho, cas públicas mais ajustadas às múltiplas realidadesinvestir na produção de pinhão-manso tem sido da agricultura familiar, de forma que a produçãoparticularmente difícil para as famílias com menor de agrocombustíveis possa efetivamente se tornarnível de recursos. uma oportunidade para o desenvolvimento rural.Mas também as famílias que possuem mais recur-sos vêm encontrando dificuldades para manterem Marc Schut (marc.schut @ wur.nl) trabalha como pesquisa-o cultivo do pinhão-manso já que não existem mer- dor de pós-doutorado no Departamento de Estudos de Comunicação e Inovação da Universidade e Centro decados organizados ou cadeias produtivas para a Pesquisa de Wageningen, na Holanda. Annemarie vancultura, tornando a atividade muito arriscada, o que Paassen e Cees Leeuwis trabalham no Departamento detem sido responsável pelo abandono da mesma Estudos de Comunicação e Inovação da Universidade epor parte de muitas famílias. Sem a estruturação de Centro de Pesquisa de Wageningen. Sandra Bos trabalhauma cadeia mais estável e segura, é improvável que para a Fundação FATO, Wageningen. Wilson Leonardo está fazendo pesquisa de doutorado com o Sistema demesmo as famílias com maiores recursos se dispo- Produção Agrícola, grupo da Universidade e Centro denham a investir em uma cultura de único propósito Pesquisa de Wageningen. Anna Lerner é especialista eme não alimentícia, como o pinhão-manso, sobre a energia e mudanças climáticas, América Latina e Caribe,qual eles têm pouco conhecimento e que só se tor- Banco Mundial, Washington DC , EUA.38 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • A experiência inevitável de aprendizagemagroecológica em CubaJulia WrightImportando a maioria dos insumos necessários paraa agricultura, as unidades de produção agrícola deCuba usavam mais de 190 quilos de fertilizante ni-trogenado por hectare antes do colapso do blocosoviético, o que correspondia a níveis mais eleva-dos do que os da agricultura nos EUA. A partir de1993, essa prática não foi mais possível e o paísquase enfrentou uma enorme crise alimentar. Noentanto, em menos de uma década, o país recupe-rou sua capacidade produtiva, dobrando sua pro-dução agrícola, aumentando em 25% a oferta decalorias nos alimentos à sua população, e manten-do um programa social de alimentação consistente gânica. A evidência que se constata da experiên-e justo, sem que para isso necessitasse dos enor- cia cubana é que a produção ecológica em largames aportes de insumos externos que antes carac- escala é técnica e economicamente viável, mos-terizavam a agricultura cubana. No final da década trando-se como uma estratégia para o alcance dede 1990, Cuba obteve mais soberania sobre o seu segurança e soberania alimentar de uma nação.sistema alimentar do que em qualquer momentode sua história recente, adotando um padrão de No entanto, a maneira pela qual os agricultores,produção que mostrou resistência excepcional ao grupos e instituições cubanas trabalham mostralongo dos anos 1990. que a remoção ou a ausência de insumos quími- cos não implica necessariamente em um sistemaEm vez da dependência de insumos importados, de produção ecológico. O avanço na transiçãoas grandes mudanças colocadas em prática es- agroecológica requer uma decisão consciente quetavam relacionadas a tecnologias baseadas no demanda a implementação de políticas públicasconhecimento, nas habilidades e nos recursos lo- enérgicas para aumentar a produção agroecológicacais. Apesar da falta de uma política consistente do e torná-la facilmente acessível. Uma das condiçõesEstado, muitas práticas características da aborda- necessárias para isso é o aumento da “alfabetiza-gem agroecológica vinham sendo desenvolvidas, ção ecológica” da população e apoio a inovadoresentre elas os centros de produção de agentes bio- ou “pioneiros ecológicos. O aumento da disponi-lógicos para controle de insetos-praga, unidades bilidade de recursos e tecnologias adequadas e ademonstrativas de produção ecológica, capacita- restrição a fatores políticos e sociais que limitamção em práticas de manejo agroecológico, agri- a transição agroecológica são também medidascultura urbana (inclusive com canteiros suspensos), que precisam implantadas. Outro ensinamento daalém de um amplo movimento de agricultura or- experiência cubana refere-se ao foco sobre as or- ganizações locais, principais agentes responsáveis pelo avanço das abordagens agro- ecológicas e a conversão das antigas fazendas monoculto- ras e empresas agrícolas. A versão completa deste artigo foi publicada no vol. 22.2 da Revista Leisa (Junho, 2006). Julia Wright trabalhava, na época, no programa internacional da Doubleday Henry Research Association, da Ryton Organic Garden, em Coventry, Reino Unido Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 39
  • ENTREVISTA > ANN WATERS-BAYER“As mudanças virão do prota A Conferência Rio+20 tem suscitado a atenção internacional para o tema da agricultura. Uma socióloga agrícola, Ann Waters-Bayer, permaneceu por muito tempo envolvida na produção do boletim de notícias do Ileia e da revista Leisa. Atualmente, ela faz parte do programa Prolinnova (em tradução livre, Promovendo a Inovação Local para a Agricultura Ecológica e para o Manejo dos Recursos Naturais), um projeto internacional que tem por objetivo fomentar dinâmicas sociais de inovação agroecológica com base no protagonismo das populações locais. Entrevista: Laura Eggens e Marta DabrowskaH ouve grandes mudanças na arena O que desencadeou o interesse internacional de desenvolvimento nos na troca de informações?  Prova- últimos 30 anos, o que se fará visível na velmente o relatório Limites do crescimento, que saiu Rio+20 também. “Eu imagino que no alguns anos antes alertando sobre o rumo que o mundo Rio de Janeiro encontraremos um bom iria seguir se continuássemos fazendo tudo da mesma número de organizações agricultoras e forma, especialmente no que diz respeito à utilização da sociedade civil expondo suas próprias demandas”, diz dos recursos naturais. Penso que esse fato causou um Ann Waters-Bayer. “Desde 1984, nossas revistas vêm ten- estalo na cabeça das pessoas. Os autores dos artigos que tando construir uma ponte entre a política e a prática, publicávamos tinham experiência com agricultores mas, naquela época, essas organizações de agricultores que praticavam um tipo alternativo de agricultura, di- não eram tão fortes como hoje.” ferente do que estava sendo proposto como “o futuro” e que fazia parte da Revolução Verde. Essa percepção O que ajudou a dar visibilidade abalou muitas pessoas que começaram a atentar para o ao papel relevante que essas conhecimento local e seu potencial. A Conferência das organizações desempenham?  Eu Nações Unidas no Rio de Janeiro, em 1992, contribuiu acredito que o Ileia e outras organizações semelhantes em certa medida para fortalecer e confirmar o que contribuíram para essa maior visibilidade. Esses atores essas pessoas estavam fazendo, mas não representou sempre tentaram fazer com que as vozes da agricultura um ponto de inflexão. camponesa fossem ouvidas – incluindo povos tradicio- nais ou agricultores sem terra. Penso que conseguimos Muitos desses alertas estão dar mais confiança para algumas organizações, que sendo repetidos agora. Existe perceberam que poderiam se fazer ouvir fora de seus alguma diferença?  Nos últimos anos países por meio desses canais internacionais. Elas tam- temos visto que as pessoas estão prestando muito mais bém passaram a compartilhar mais intensamente suas atenção na Agroecologia e nos “aspectos verdes” da experiências dentro de seus próprios países. Há organi- economia mundial. Eu acho que a crise alimentar, os zações que publicaram nas revistas Leisa no passado e danos ambientais, os levantes políticos, as desigual- que agora têm suas próprias publicações. E havia mais dades sociais, o imenso desperdício de alimentos no organizações como o Ileia fazendo isso, colocando o Norte e as discussões sobre mudanças do clima, enfim, foco na agricultura camponesa e na agricultura de base todas essas questões contribuíram para esse crescente ecológica e tentando reunir e adaptar informações interesse. Algumas formas de agricultura são prejudi- para torná-las publicáveis. Isso foi antes de podermos ciais e outras são menos nocivas e possivelmente mais encontrar tudo na internet. resilientes. Há também cada vez mais evidências que 40 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • gonismo de atores locais nos processos de inovação” atestam a produtividade da agricultura de base ecoló- organizações locais a organizarem seus conhecimentos gica. E, nos últimos dois ou três anos, muitas pessoas para incidirem sobre os processos políticos. começaram a questionar se a intensificação da agri- cultura é realmente o melhor caminho a percorrer. Qual é o papel do Prolinnova Penso que o relatório IAASTD também desempenhou nesse processo?  Entre outras coisas, o um grande papel, uma vez que as pessoas de influ- Prolinnova está tentando influenciar organizações ência envolvidas nessa avaliação se empenharam em de extensão e pesquisa agrícola. O Prolinnova quer divulgar amplamente os seus resultados. Para muitas aumentar a consciência sobre as capacidades dos(as) ONGs, esse foi um processo de múltiplos atores que agricultores(as) para desenvolver seus próprios siste- chegou a conclusões que eles já tinham chegado vá- mas, tecnologias e instituições, o que eles têm feito rios anos antes. Esse trabalho impulsionou bastante as há gerações. Atividades de pesquisa e extensão podem pressões sociais direcionadas à elaboração de políticas ser construídas com base nessas iniciativas existentes. públicas e trouxe pessoas de outras organizações fora Gostaríamos de estabelecer um vínculo muito maior do âmbito das ONGs para refletirem sobre a direção com os movimentos camponeses. Ouvimos muito que a agricultura tomou. falar sobre o tipo de agricultura que deve ser promo- vida, mas não sobre como ela deve ser promovida. Ao Você acha que a internet mudou mesmo tempo, estou impressionada como se tem dado muito a forma como as pesso- atenção às inovações locais e apoio às iniciativas locais, as compartilham conhecimen- pelo menos em teoria. Embora o apoio às abordagens tos?  No início, quando tentávamos reunir material convencionais focadas na noção de transferência de para um boletim informativo, estávamos trabalhando tecnologia não vá desaparecer do dia para a noite, apenas dentro de nossa rede, procurando informações alguns documentos já reconhecem a importância do de campo que não constavam em publicações acadê- protagonismo local nos processos de inovação. micas. Agora muito do conhecimento local sobre as melhores práticas é simplesmente disponibilizado na Você tem alguma esperança que internet. Claro, você ainda tem que julgar a validade a Rio+20 provoque alterações da informação que encontra. A maioria das instituições nas políticas para o desenvolvi- de alto nível não vai vasculhar a internet para encon- mento rural?  Eu não gosto de apostar todas trar experiências locais; elas precisam de algum tipo as minhas fichas em um evento, mas acho que um de seleção e avaliação. Acho que instituições como o evento como a Rio+20 pode dar uma grande contribui- Ileia podem exercer essa função, coletando, validando ção, uma vez que possibilita a aproximação de vários e analisando as experiências, bem como extraindo as movimentos sociais. Você sempre pode usar a Rio+20 questões e conclusões mais importantes sobre políticas para transmitir a sua mensagem. Não apenas para as e difundi-las. pessoas que estão envolvidas no evento em si, mas também para gente em todo o mundo. Supostamen- Também em nível local?  Eu acho que te, uma grande quantidade de apoio financeiro será a influência sobre as políticas locais deve ser feita pelas disponibilizada agora. Mas temos que nos certificar de populações locais. Pode haver colaboração externa em que a mensagem certa seja ouvida. As pessoas também termos de capacitação e pesquisa participativa para devem ver o que vem acontecendo há décadas nas que os profissionais e especialistas locais coletem as áreas marginais. Organizações internacionais, como a informações que precisam, assim como na obtenção FAO, o Banco Mundial e agências bilaterais e multila- de evidências vindas de outras fontes. E, em segui- terais, agora estão apoiando programas agrícolas mais da, pode-se contribuir na organização de tudo isso e sustentáveis e, portanto, acho que podemos começar a na elaboração de estratégias voltadas para levar esse falar em uma mudança de paradigma. Mas há que se conhecimento para as instâncias locais de tomada de lembrar que existe uma parcela grande da agricultura decisão. As oficinas sobre sistematização de experiên- familiar e de organizações de assessoria que já pensa cias promovidas pelo Ileia, por exemplo, ajudam as assim há décadas! Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 41
  • APRENDENDO SOBREUma abordagem holística parao aprendizado sobre agricultura sustentávelAo longo dos anos, muitos leitores dasrevistas produzidas pela Rede Agriculturassolicitaram materiais pedagógicos sobreos princípios que fundamentam as práticasda agricultura sustentável. A série LearningAgriCultures (em tradução livre, Aprendendosobre AgriCulturas), por ora disponível sóem inglês, veio para suprir essa demanda.O objetivo geral da série é proporcionarcondições para que educadores e educandosestejam melhor capacitados para analisaremsistemas de agricultura familiar a partirdo enfoque agroecológico. Após 28anos publicando artigos que trazem osaprendizados de experiências nessa áreadesenvolvidas em todo o mundo, valorizamosesse rico acervo documental para ilustrarcomo esses princípios se aplicam na prática.O objetivo da série é apoiar processos etc. Esses temas são explorados por diferentes ângulos, de aprendizagem sobre agricultura a partir das seguintes escalas de abordagem: sustentável a partir da perspectiva 1) a propriedade rural, 2) o contexto dos territórios sistêmica, ou seja, encarando a 3) o contexto dos processos políticos que incidem sobre propriedade rural e as regiões agrí- a sustentabilidade agrícola. Todos os módulos incluem colas como sistemas e não como questões instigantes e materiais de apoio educativos:algo constituído por componentes isolados. A Learning exemplos práticos, exercícios, jogos, fotos, vídeos,AgriCultures é um recurso pedagógico especialmente checklists para visitas de campo, bem como referênciasdestinado a educadores que necessitam de material de acesso livre (de sites e livros gratuitos).de apoio para abordar a agricultura sustentável em A série tem uma perspectiva global ao apresentarseus cursos, seja em nível universitário ou técnico, em experiências práticas de todo o mundo. Apesar daprocessos de formação promovidos por ONGs ou em enorme diversidade da agricultura familiar camponesaoutros ambientes profissionais. O material foi concebi- no mundo, ela compartilha algumas característicasdo para estimular debates e reflexões sobre as contri- comuns que são enfocadas na série a partir de suabuições da agricultura familiar camponesa e sobre os demonstração nos variados contextos socioculturais,significados da noção de sustentabilidade em diferentes econômicos e ambientais. Educadores podem valorizarcontextos. A série pode ser útil em cursos nas áreas de aspectos relevantes para seu próprio contexto regionalciências agrárias, de desenvolvimento rural, de estudos e grupo de educandos, podendo usar os módulos paraambientais e de políticas agrícolas. desenvolver seus próprios currículos. A série é composta por sete módulos, cada um enfo-cando um aspecto relacionado ao manejo de sistemas Para obter mais informações, entre em contato com Lauraagrícolas de base familiar: o solo e a água, a criação Eggens: l.eggens@ileia.organimal, a comercialização, a gestão do conhecimento42 | Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012
  • Subscreva-se!A rede Agricultures publica sete edições da revista sobre experiências deagricultura sustentável. Todas as edições estão disponíveis no meio eletrônicoe impresso. Para mais detalhes sobre assinaturas gratuitas ou pagas ou para seinscrever online, acesse nosso site: www.agriculturesnetwork.org/magazines. ✂Gostaria de receber: Por favor, forneça as seguintes informações: Farming Matters (edição global – em inglês) Sexo masculino feminino R  evista Agriculturas (edição brasileira – em português) Leisa China (edição chinesa – em mandarim) Eu trabalho como (marque apenas uma opção) Baobab (edição da África Oriental – em inglês) coordenador(a) de projeto L  eisa India (edição indiana – em inglês, hindi, tâmil, técnico(a) extensionista kannada, telugu e oriya) agricultor(a) L  eisa revista de agroecología (edição latino-americana – empreendedor(a) privado em espanhol) pesquisador(a) Agridape (edição da África Ocidental – em francês) estudante professor(a)Meus dados: outro: Organização  Informações sobre a organização (marque apenas umaSobrenome  opção) organização de base comunitáriaNome  escola/ instituto de capacitação/universidadeRua/Caixa Postal  organização não governamental organização governamentalCódigo postal e cidade  organização internacional outra: País  E-mail  Por favor, copie e envie este formulário para:Telefone  Ileia, P.O. Box 90, 6700 AB Wageningen, the Netherlands. Você também pode enviar uma mensagem para subscrip-Por favor, entre em contato comigo via: tions@ileia.org. Você será contatado para informar sobre o e-mail correio tipo de assinatura escolhida e detalhes sobre a opção de pagamento selecionada. ✂Agriculturas: A AgriCultures Network é uma Endereço da Secretaria da Projeto gráfico e diagra- Revista Agriculturas: experiên- rede formada por oito Rede mação cias em agroecologia, v.9, n.1experiências em organizações que disponibili- Lawickse Allee 11, 6701 AN Eline Slegers - Twin Media bv, (Corresponde ao v.28.2 daagroecologia zam informações sobre Wageningen, Holanda Culemborg, Holanda Revista Farmers Matters) agricultura sustentável em todo Tel: +31 (0)33 467 38 70, o mundo e publica as revistas: Fax: +31 (0)33 463 24 10 Impressão ISSN: 1807-49 IXPublicação trimestral Leisa: revista de agroecología E-mail: ileia@ileia.org Gol Gráfica e Editora LTDA,da AS-PTA (América Latina, em espanhol), www.ileia.org Rio de Janeiro-RJ, Brasil. Leisa India (em inglês, hindi, tâmil, kannada, telugu e oriya), Equipe editorial Apoio Majalah Petani (Indonésia), Esta edição especial de nossas ILEIA / Programa AgriCultures Agridape (África Ocidental, em revistas foi organizada por é financiado pela Agência Sueca francês), Agriculturas: Marta Dabrowska, Laura Eggens, de Cooperação Internacional experiências em Agroecologia Paulo Petersen, Adriana Galvão, para o Desenvolvimento (Sida, (Brasil, em português), Teresa Gianella, T.M. Radha e na sigla em inglês) (em chinês) e Jorge Chavez-Tafur. Os editores Baobab (África Oriental, e tomaram todos os cuidados Foto da capa m inglês). para garantir que o conteúdo P.V. Satheesh. desta revista seja o mais preciso ILEIA / AgriCultures Network Endereço Postal possível. Os autores têm plena usa a licença da Creative Com- P.O. Box 90, 6700 AB, responsabilidade, porém, pelo mons. Para mais detalhes, acesse Wageningen, Holanda conteúdo dos artigos individuais. www.creativecommons.org Agriculturas: experiências em agroecologia | Junho 2012 | 43
  • Rede Agriculturaslocalmente enraizada, globalmente conectada www.agriculturesnetwork.org