Teologia Sistemática: A Existência e Cognoscibilidade de Deus
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Aula 1: Deus existe e pode ser conhecido

Aula 1: Deus existe e pode ser conhecido
Aula de Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus (A existência e Cognoscibilidade de Deus).

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Teologia Sistemática: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Teologia Sistemática: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Document Transcript

  • Deus existe e pode ser conhecido Aula de Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus (A existência e Cognoscibilidade de Deus) oferecida ao Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano, na Igreja Presbiteriana em Erechim, Erechim, Rio Grande do Sul – 05 de abril de 2014
  • 2 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus Capítulo 1 – A Existência e a Cognoscibilidade de Deus Introdução Nesta primeira lição nos ocuparemos com os dois pontos fundamentais para toda a construção teológica segundo cremos ser verdadeiro e revelado nas Sagradas Escrituras, ou seja, que Deus existe e pode ser conhecido. Essas verdades fundamentais dão sentido para o estudo da Bíblia e esperança para que este conhecimento afete as nossas mais profundas afeições, capaz de modificar e lapidar a nossa imagem para ser conforme a imagem de Cristo. O nosso labor nesse aprendizado deverá invadir todas as nossas faculdades, sujeitando-as à adoração e persuadindo-nos a servir a este Deus grandioso. Por razão apologética, à título de introdução apenas, este estudo começa com uma discussão a respeito de uma das mais eficazes ameaças à fé cristã que merece a nossa atenção, a fenomenologia das religiões comparadas em sua teimosa interpretação antissobrenaturalista e mitológica da Bíblia. Esse conceito descarta o texto em si e prima pela experiência. O perigo dessa abordagem está em considerar o texto bíblico desnecessário para ter uma experiência com Deus e considerar verdadeira qualquer manifestação de qualquer fenômeno religioso. Em meio a tantas linhas e escolas de interpretação, será que ainda há espaço para a Teologia Reformada? Nós cremos que hoje, mais do que nunca, se faz urgente e necessário trazer de volta a voz de Deus sendo ecoada pela igreja, por meio da pregação e do ensino teológico de maneira límpida, em uma interpretação honesta e simples do evangelho, como Jesus se revelou nas páginas da Bíblia. 1. Construindo a Teologia Fazer teologia é responder à revelação de Deus e fornecer esta resposta à igreja e à sociedade. Em alguns círculos universitários e grupos estudantis (especialmente sob a influência da teologia luterana racionalista e em pesquisas de religiões comparadas – fenomenologia) a teologia é considerada um diálogo entre a igreja e a sociedade, numa busca em construir a verdade segundo os anseios e desejos do homem e suas crises e perguntas. No entanto, precisamos fazer aqui uma diferença entre verdade e teologia. A verdade é absoluta e só pode ser conhecida quando revelada, ao passo que a teologia é relativa e verdadeira somente quando subsiste no entendimento correto de Deus, conforme revelado nas Escrituras. Com esse entendimento, confessamos que toda a Palavra é a verdade revelada de Deus; sendo assim, a verdade não é construída, mas precisa ser descoberta. Como crentes em Jesus e intérpretes das Escrituras, é nossa responsabilidade e privilégio extrair a verdade já contida no texto bíblico para as nossas vidas, e aplicá-las, de modo que tais verdades, pela ação do Espírito, causem a transformação para as quais nos foram entregues. De fato, admitimos ser de fundamental importância estabelecer um diálogo coerente com a sociedade e que é nosso dever dar respostas coerentes e plausíveis
  • 3 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho em toda e qualquer matéria da existência humana. Contudo, partimos da perspectiva de Deus para dar respostas às mais variadas situações ou dúvidas doutrinárias. Ao mesmo tempo em que reconhecemos que não compete à Bíblia ensinar política, economia, matemática ou física nuclear, entendemos que nela estão todos os ensinos que precisamos para observar que toda a criação está sob o comando e o governo absoluto de Deus. C.S. Lewis (1898-1963) expõe isso em melhores palavras: De qualquer modo, não é assim que o Cristianismo exerce influência. Quando diz que devemos dar comida ao faminto, não nos dá lições de arte culinária. Quando diz que devemos ler as Escrituras, não nos dá lições de hebraico e grego, nem mesmo de gramática da nosso língua. O Cristianismo nunca pretendeu substituir ou anular as artes e as ciências humanas; é antes como um diretor que as colocará convenientemente em suas funções como uma fonte de energia que lhes dará uma nova vida, se elas tão somente se colocarem à sua disposição. 1 Diferença entre teologia e filosofia Uma vez que tanto uma como outra se ocupa em descobrir e buscar o mesmo objeto, a verdade, vale fazer aqui uma distinção. A filosofia procura a verdade por meio da observação, da investigação e do raciocínio, ao passo que a teologia, embora faça uso de todos esses mesmos instrumentos, dá primazia à revelação e, portanto, tem como iniciativa o próprio Deus. O teólogo escolástico João Duns Escoto (1265-1308), por exemplo, fez a seguinte distinção: A filosofia se ocupa do ente enquanto tal e de tudo o que é redutível a ele ou dele dedutível. Já a teologia, ao contrário, trata dos articula fidei ou objetos de fé. A filosofia segue o procedimento demonstrativo, a teologia o procedimento persuasivo. A filosofia se detém na “lógica do natural”, a teologia move-se na “lógica do sobrenatural”. A filosofia se ocupa do geral ou universal, porque é obrigada a seguir “pro statu isto” o itinerário cognoscitivo da abstração, enquanto a teologia aprofunda e sistematiza tudo o que Deus se dignou a nos revelar sobre a sua natureza pessoal e o nosso destino. A filosofia é essencialmente especulativa, porque visa a conhecer por conhecer, ao passo que a teologia é tendencialmente prática, porque nos põe a par de certas verdades para nos induzir a agir mais corretamente. 2 Charles Hodge (1797-1878) também contribui mostrando que com convergências, ainda assim ambas as ciências lidam com métodos distintos: “A filosofia e a teologia ocupam terreno comum. Ambas presumem ensinar o que é verdadeiro no que diz respeito a Deus, ao homem, ao mundo e à relação que Deus mantém com suas criaturas”, no entanto, “A filosofia busca obter conhecimento por meio de especulação e indução, ou pelo exercício de nossas próprias faculdades 1 C.S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, São Paulo, ABU, 1997, p. 45. Semelhantemente Calvino diz: “É bem verdade que os que recebem instrução sobre as artes liberais ou que aprovam algo delas têm nesse conhecimento um ajuda especial para aprofundar-se nos segredos da sabedoria divina. Contudo, mesmo aquele que desconhece essas artes não é impedido de ver grande parte das obras de Deus, sendo levado a admirar o Artífice que as criou”, in: As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo, Cultura Cristã, 2006, I.1.11, p. 63. E Abraham Kuyper: “A arte não é invenção do homem, mas uma criação de Deus”, in: A Obra do Espírito Santo, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 76. 2 Giovanni Reale e Dario Antisineri, História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média, vol. 1, São Paulo, Paulus, 1990, p. 598-599.
  • 4 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho intelectuais. A teologia confia na autoridade, aceitando como verdade tudo o que Deus tem revelado em sua Palavra”.3 Em razão dessas definições é inevitável, portanto, que ambas choquem em algum momento. Deus concedeu a capacidade de raciocínio aos homens e esta não lhe foi tirada na Queda, embora esteja profundamente afetada e deturpada pela corrupção do coração. Sendo assim, o homem sem a revelação de Deus, sua iniciativa e ação do Espírito, jamais obterá o conhecimento salvador de Jesus e a consciência para arrepender-se de seus pecados. A sabedoria deste mundo permanecerá sendo loucura e inconciliável com a mente eterna de Deus e, em algum momento, aquele que investiga terá que escolher entre a sabedoria de Deus e a sabedoria do mundo. 1.1. Conceito de mito Esses conceitos e distinções não são suficientes para os antissobrenaturalistas. Eles desejam ir além e desconstruir os textos bíblicos e “limpá-los” de suas “fábulas”. Para esse grupo, a teologia deve respeitar a linguagem mitológica da Bíblia que exige uma interpretação “não literal” do que está registrado ali. Essas escolas de pensamento em geral são profundamente influenciadas pelo racionalismo iluminista no século XIX que, a cada geração, se reveste de novas formas. Antigamente eles eram chamados de racionalistas4 , cientificistas5 , depois passaram a historicistas,6 hoje em dia o rótulo está entre fenomenologistas7 e relativistas pós-modernos. Em todo caso, o dogma deles permanece, de que a Bíblia não é inspirada por Deus, contém erros e Deus não pode ser conhecido por um texto antigo. Segundo os seus pressupostos eles transferem tudo o que transcende à lógica (como os milagres) para o campo do mito. Segundo Paul Tillich (1886- 1965): Mitos estão sempre em todo ato de crer, porque o símbolo é a linguagem da fé. Mas em todas as grandes religiões da humanidade eles são criticados e transcendidos. O motivo para isso está na própria natureza do mito, que obtém seu material da nossa experiência cotidiana e coloca os atos e experiências dos deuses dentro do tempo e do espaço. 8 Para o existencialista Rudolf Bultmann (1884-1976), Deus não pode ser crido pelo texto bíblico, mas somente pela experiência: A invisibilidade de Deus e Sua ação exclui todo mito que intente torná-los visíveis; Deus mesmo se subtrai aos olhares e à observação. Só podemos 3 Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo, Hagnos, 2001, p. 42. 4 A crença de que tudo pode ser explicação pela razão. Seus principais proponentes na filosofia são René Descartes (1596-1650), Baruch Spinoza (1632-1677) e Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). 5 A partir do positivismo do francês Augusto Comte, esta é a crença de que tudo pode ser explicado pela ciência. 6 Remonta a Georg Hegel (1770-1831), cujo posicionamento é de que não existe um critério objetivo teoria de análise, ao passo que o para o pensamento pós-moderno utiliza para descrever uma visão de verdade absoluta. 7 Afirma a importância dos fenômenos da consciência que devem ser estudados em si mesmos. O fundador desse método de investigação é Edmund Husserl (1859-1938). 8 Paul Tillich, Dinâmica da fé, São Paulo, Sinodal, 2001, 6ª edição, p. 35.
  • 5 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho crer em Deus apesar da experiência, do mesmo modo que só podemos aceitar a justificação apesar de nossa consciência. 9 O que fazer com o texto bíblico, então? Para Bultmann, só terá proveito para o homem do século XX, se houver a desmitologização, isto é, o processo interpretativo das lendas e fábulas para conceitos e verdades significativas para a vida moderna: As concepções mitológicas podem ser usadas como símbolos e imagens, quiçá, são necessários à linguagem religiosa e, portanto, também à fé cristã. É pois evidente que o uso da linguagem mitológica, longe de ser uma objeção à desmitologização, a exige positivamente. Em segundo lugar, a afirmação de que a linguagem da fé necessita do mito, só pode ser dada como válida, se leva em consideração outra condição. Se é verdade que as concepções mitológicas são necessárias como símbolos ou imagens, temos de nos perguntar o que expressam agora tais símbolos ou imagens. 10 O nosso contraponto a essa teoria é absoluto e não compartilhamos do mesmo entendimento. Podemos enumerar três principais critérios para a nossa compreensão teológica: 1) Nossos pressupostos inegociáveis; 2) Primazia da revelação de Deus e; 3) Deus como ponto de referência. 1) Nossos Pressupostos Conforme estudamos em Hermenêutica,11 cremos que a Bíblia é a revelação verbal de Deus. Portanto, cremos que os milagres de Jesus e todos os eventos registrados no Antigo e Novo Testamentos são reais e verdadeiros e, obviamente, transcendem à nossa lógica e raciocínio. O campo de maior discordância que existe entre a fé reformada e o racionalismo está nos pressupostos. A nossa fé está atrelada à convicção de que a Bíblia é a Palavra de Deus e, portanto, só podemos ter uma verdadeira e transformadora experiência com Deus a partir de sua revelação. 2) A primazia da revelação Só conhecemos Deus porque ele se deu a conhecer primeiro. Esse ponto será melhor desenvolvido abaixo, mas por ora basta afirmarmos como princípio de fé e pesquisa que Deus se revelou por palavras e atos em toda a história e, por isso, podemos conhecê-lo e interpretá-lo, naquilo que ele nos deixou registrado. A fé reformada não se fundamenta no abstrato e nem no “não revelado”, mas naquilo que Deus falou e fez, conforme registrado nas Sagradas Escrituras. Do ponto de vista filosófico, os “tais fenômenos mitológicos” devem ser interpretados como eventos reais ou, na expressão do filósofo calvinista Hermann Dooyeweerd (1894-1977), como “janelas para a eternidade” que Deus abriu na história: 9 Rudolf Bultmann, Jesus Cristo e Mitologia, São Paulo, Novo Século, 2003, 2ª edição, p. 10. Na mesma página, pouco à frente, Bultmann nega qualquer possibilidade de construção de fé, senão, pela experiência, somente: “O homem que deseja crer em Deus deve saber que não dispõe absolutamente de nada sobre o qual possa construir sua fé, e que, por assim dizê-lo, se encontra pendurado no vazio... Ante Deus, o homem tem sempre as mãos vazias”. 10 Ibid., p. 54. 11 Consultar Introdução à Hermenêutica Bíblica, CTGP, p. 3-4.
  • 6 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho Um dos mais alarmantes sintomas do início de uma crise fundamental da cultura ocidental, desde as últimas décadas do século XIX, foi o surgimento de uma visão historicista. Essa visão não deixa lugar à outra perspectiva senão um niilismo espiritual cujo moto é: ‘Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’. O historicismo radical faz do ponto de vista histórico uma totalidade abrangente, absorvendo todos os outros aspectos do horizonte da experiência humana... Assim, seria uma mera ilusão dogmática pensar que o homem seja capaz de enxergar seu mundo e sua vida a partir de outro ponto de referência senão o histórico. A história não teria janelas abertas para a eternidade. O homem seria completamente encerrado nela, não podendo transcendê-la para um nível de contemplação supra-histórico. 12 Nesse sentido afirmamos, portanto, que a teologia só pode ser elaborada pelos parâmetros na própria revelação de Deus e não da lógica humana decaída, afinal, conforme McGrath: “Declarações teológicas simplesmente não operam no mesmo plano em que operam as equações matemáticas”.13 3) Deus é o nosso ponto de referência14 Deus é o ponto de referência absoluto para o estudo teológico. O fundamento do pensamento de Tillich, Bultmann baseia-se no homem e direciona-se para o próprio homem. O problema é que ego humano não pode servir de referência para si mesmo, como sugeriria Sócrates ou, modernamente, foi sugerido por Mircea Eliade (1907-1986).15 O problema é que o finito não apreende o infinito. Assim Francis Schaeffer (1912-1984) atinge a veia do problema: “nenhum ponto finito faz qualquer sentido, se não tiver um ponto de referência infinito... O homem é finito; portanto não pode servir de parâmetro integrador para si mesmo”.16 Ele admite mais à frente a possibilidade do homem por si mesmo ver que existe um problema, mas ele não tem condições de dar respostas por si mesmo: 12 Herman Dooyeweerd, No crepúsculo do pensamento, São Paulo, Hagnos, 2010, p. 118. 13 Alister McGrath, Paixão pela verdade: a coerência intelectual do evangelicalismo, São Paulo, Shedd, 2007, p. 119. 14 Aqui seguimos Davi Charles Gomes: “Se o pensamento secular trabalha com fatos sem Deus e racionalidade autônoma, o pensador cristão coerente vira a figura de cabeça para baixo e começa com a pressuposição ética-relacional (aliancista) de que os objetos e o sujeito do conhecimento devem ser vistos a priori em relação a Deus ou, como diziam os reformadores, coram Deo. Na epistemologia cristã os fatos derivam significado do ato criador do Deus eterno e soberano, e a racionalidade deriva seu mérito da pré-interpretação inerente ao ato criativo de Deus. Nenhum fato é desprovido de significado, nenhum intérprete é autônomo e todo conhecimento é primeiramente ético- relacional. Deus assim é a fonte última de todo significado e o sujeito final de todo predicado”, in: “Fides et Scientia: indo além da discussão de ‘fatos’”, in: Fides Reformata, 2/2, 1997, disponível em http://www.mackenzie.com.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_II__1997__2/fides_et.... pdf. No mesmo artigo Gomes faz uma categórica afirmação: “Se os fatos do universo são reais é porque Deus os fez, e se são racionais, é porque ele os pré-interpretou. Assim, portanto, a fonte final do conhecimento é a revelação... [Nas palavras de Cornelius Van Til:] ‘pensar os pensamentos de Deus segundo Deus’”. 15 Mircea Eliade é considerado místico por uns e filósofo por outros. Em todo caso, ele interpreta o ser humano como homo religiosus e entende que o homem tem em si mesmo a essência para experimentar o divino. Para ele, o ego é referência para a interpretação de sua própria existência: “Para o homo religiosus, o essencial precede à existência... Para o homo religiosus, a existência real, autêntica, começa no momento em que recebe a comunicação da história primordial e assume as consequências. Sempre há história divina, pois os personagens são os Seres Sobrenaturais e os antepassados míticos”, in: Mircea Eliade, Mito y realidad, Colección Labor, p. 42. 16 Francis Schaeffer, O Deus que se revela, São Paulo, Cultura Cristã, 2002, p. 40.
  • 7 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho ... o ser humano, começando por si mesmo, pode definir o problema filosófico da existência, mas não pode gerar por si mesmo a resposta ao problema. A resposta para este problema da existência é que o Deus pessoal infinito e trino existe, e que o Deus pessoal infinito e trino não está em silêncio. 17 Segundo a fé reformada, Deus é quem interpreta o homem e ele é quem fornece as diretrizes para o correto entendimento nas Escrituras. Conforme McGrath: O perigo desta abordagem [racionalidade] será óbvio. Não é só isso que reduz a Escritura a ‘um livro de códigos de ordenanças teológicas’; ele abre caminho para tornar a verdade da revelação divina dependente dos juízos da razão humana decaída. Dentre todas as pessoas, os evangélicos são quem não pode permitir que a revelação seja aprisionada dentro dos limites da razão humana pecaminosa. Qualquer que seja a extensão à qual a mente humana é noeticamente comprometida pelo pecado, torna-se imperativo que essas mentes humanas finitas e decaídas não seja permitido serem os juízes do que é e do que não é revelação divina. Como pode a teologia com tão boa vontade permitir-se ser aprisionada por ‘especialistas’ em lógica? O evangelicalismo moderno não tem desejo nenhum de seguir o caminho do ‘racionalismo evangélico’, que surgiu na segunda metade do século XVI quando escritores evangélicos buscaram alcançar a aceitação e credibilidade cultural permitindo que normas extrabíblicas validassem ou julgassem o testemunho escritural. 18 2. A Existência de Deus O tema da existência de Deus é como geralmente as teologias sistemáticas iniciam e nós o faremos como pressuposto inegociável e elementar para todo o saber teológico. Ao confessarmos fé na suficiência e veracidade das Escrituras Sagradas seguimos o seu próprio curso, de modo que ela mesma não se preocupa, em nenhum momento, em “provar” a existência de Deus. Pelo contrário, ela simplesmente o declara: “No princípio Deus...” (Gn 1.1); e atribui à loucura humana a negação dessa verdade básica: “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus” (Sl 14.1). No entanto, mesmo enquanto a Bíblia não entra na arena das discussões científicas modernas a respeito da existência de Deus, ela nos fornece recursos e informações suficientes para que não questionemos sua presença. 2.1. Deus é Autoexistente Começamos com uma afirmação negativa: Deus não tem a sua existência contingente ou ocasionada, como nós, porque Ele é o único Ser autoexistente. Sua existência não foi causada, planejada e nem depende de uma autoridade superior para subsistir. Ele é a autoridade suprema e absoluta. Razão pela qual ele se revela a Moisés como o “EU SOU”, ou nas palavras do próprio Moisés: “Antes que os 17 Ibid., p. 58. Se o infinito for ignorado, pode ocorrer o que Dooyeweerd chama de “absolutização do relativo”: “O impulso religioso inato ao ego, no qual a relação em direção à origem divina encontra expressão, toma seu conteúdo de um motivo-base religioso como o poder espiritual central de nosso pensamento e ação. Se esse motivo é de caráter apóstata, ele distanciará o ego de sua origem verdadeira e direcionará seu impulso religioso para nosso horizonte temporal de experiência, buscando nesse tanto a si mesmo quanto à sua origem. Isso fará com que surjam ídolos originados da absolutização daquilo que tem um significado apenas relativo”, in: Herman ibid., p. 83. 18 MCGRATH, Alister, Paixão pela verdade: a coerência intelectual do evangelicalismo, São Paulo, Shedd, 2007, p. 143.
  • 8 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Sl 90.2). Outros textos bíblicos afirmam: Salmo 93.2: Desde a antiguidade, está firme o teu trono; tu és desde a eternidade. Salmo 102.26-27: Eles perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como uma veste, como roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim. Isaías 44.6: Assim diz o SENHOR, Rei de Israel, seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos: Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus. Assim declara a Sabedoria: “Antes que os montes fossem firmados, antes de haver outeiros, eu nasci. Ainda ele não tinha feito a terra, nem as amplidões, nem sequer o princípio do pó do mundo” (Pv 8.25-26). Portanto, Deus existe de maneira completamente independente de sua criação. 2.2. A Intuição Humana Como os Salmos 14 e 53 comprovam, é possível o homem negar a existência de Deus, no entanto, ele não pode remover de si a semente que o próprio Deus imprimiu em cada um. Partimos das evidências bíblicas e comprobatórias na experiência pessoal de que o homem não tem escapatória, uma vez que:  O homem foi criado à imagem de Deus (Gn 1.26; 5.1; 9.6; 1Co 11.7);  O homem possui consciência da divindade com um carimbo indelével em sua alma (Rm 2.15);  O homem, ao contemplar a criação e a evidência que Deus imprimiu de si mesmo nela, se rebelou conscientemente contra Ele, trocando a verdade pela mentira (Rm 1.18-20); Na Queda o homem não perdeu a imagem e a semelhança de Deus em si, embora tenha-lhe causado uma degradação impossível de ser restaurada, senão pela própria intervenção de Deus na Pessoa de Jesus Cristo (Rm 8.29; 2Co 3.18). A existência de Deus é, teologicamente falando, impossível ser negada, uma vez que parte do próprio Deus Absoluto. João Calvino (1509-1564) chama a isso de “centelha da verdade”: Finalmente, estamos envolvidos em tantos erros e opiniões perigosas que a centelha da verdade, que poderia iluminar-nos e guiar-nos à contemplação da majestade de Deus, fica encoberta e estanque de tal maneira que já não nos propicia um reto conhecimento de Deus, só restando a primeira semente, que jamais pode ser arrancada – isto é, a que leva o homem a saber que Deus existe”. 19 19 João Calvino, As Institutas da Religião Cristã, I.1.6., p. 60.
  • 9 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho Ele também afirmou que o homem foi criado conforme a imagem de Deus: “Adão foi inicialmente criado à imagem de Deus, para que pudesse refletir, como por um espelho, a justiça divina”.20 Sendo assim, o homem seria a expressão de Deus: Quando, pois, Deus decretou criar o homem à Sua imagem, porque não era tão claro, explicitamente o repete nesta breve locução: à semelhança, como se estivesse a dizer que iria fazer um homem, no qual, mediante esculpidas marcas de semelhança, se haveria de a Si próprio representar como em uma imagem. 21 Deste entendimento derivou sua tese sobre o sensus divinitatis, ou senso do divino/divindade: “Há na mente do homem, e de fato por um instinto natural, uma consciência da divindade [sensus divinitatis]”.22 Por pior que seja um homem ou uma nação, sempre nos depararemos com pessoas religiosas e com senso de grandeza nelas, conforme Calvino: “Ora, como os próprios pagãos confessam, não existe nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem que não tenha impressa no coração a existência de algum Deus”.23 A adoração é uma atividade natural do ser humano, porque fomos criados para a adoração. Aqueles que não se curvam perante Deus, se curvam perante outros deuses e ídolos, conforme interpreta o casal Tripp: “Idolatrar a grandeza é uma característica inata do ser humano. Somos feitos à imagem de Deus e projetados para adorar. Fomos criados para a fascinação que a glória de Deus evoca. A adoração é uma reação à grandeza”.24 2.3. Fé para ter comunhão com Deus Apenas como continuidade do item anterior, reforçamos a existência de Deus e a possibilidade de comungar com ele mediante a fé, afinal: “sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6). A fé necessariamente implica o “não ver”. Se vemos não precisamos crer. É exatamente por esta razão que dependemos das informações e ensinos bíblicos, pois do contrário, exigiremos evidências visíveis e palpáveis para crer na existência de Deus. Existe uma diferença inconciliável entre a fé racionalista e a fé cristã. Por exemplo, a fé de Tomé era racionalista. Ele precisava de evidências, e Jesus, em sua misericórdia, o concedeu, mas o advertiu: “Porque me viste, creste? Bem- aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.29). Por isso, em contrapartida, declara o apóstolo Paulo: “visto que andamos por fé e não pelo que vemos” (2Co 5.7). A busca por Deus e por conhecê-lo brota, portanto, da fé genuína, do cristão que experimentou a graça divina. Nas palavras de Agostinho, o cristão não se 20 João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, p. 24. 21 Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, Fundación Editorial de Literatura Reformada, Países Bajos, 1968, I.15.3. 22 Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, I.3.1. 23 João Calvino, As Institutas da Religião Cristã, I.1.4, p. 58. 24 Tedd & Margy Tripp, Instruindo o coração da criança, São José dos Campos, Fiel, 2011, p. 123.
  • 10 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho satisfaz com outro conhecimento, sem antes investigar a fonte. Tal conhecimento, portanto, o levará ao culto: É mais digna de louvor a alma que tem consciência de sua debilidade do que aquela que não a tendo esquadrinha o curso dos astros com afã de novos conhecimentos; e mesmo no caso de os conhecer, ignora qual o caminho da salvação e da verdadeira segurança. Aquele, porém, inflamado pelo calor do Espírito Santo, já despertou para Deus e reconheceu no amor divino sua própria vileza, desejando encontrar o caminho para ele, e não podendo, reflete sobre si mesmo sob as divinas luzes, encontra-se a si mesmo e percebe que a própria debilidade não pode ser comparada à pureza de Deus. Por isso, considera-se feliz ao chorar e suplicar ao Senhor que dele se compadeça mais e mais até conseguir despojá-lo de toda miséria. E ora com confiança, após receber gratuitamente o penhor da salvação mediante o único Salvador e iluminador dos homens. 25 O conhecimento íntimo e relacional é, portanto, restrito apenas àqueles que se vincularam em um relacionamento redentor com Deus e receberam, em Cristo, o perdão de seus pecados. 2.4. A negação da existência de Deus26 Ainda assim, é possível negar a existência de Deus. Berkhof distingue os ateus práticos dos ateus teóricos. O ateísmo prático é a prática de pessoas que vivem sem a preocupação religiosa ou sem a busca de um conhecimento ou entendimento do divino. Por outro lado, o ateísmo teórico procura razões e compreensão intelectual para a negação da existência de Deus, que pode se subdividir em três interpretações: 1) ateísmo dogmático, que nega peremptoriamente a existência de um ser divino; 2) ateísmo cético, que duvida da capacidade da mente humana de determinar se há ou não há um Deus; e 3) ateísmo crítico, que sustenta que não há nenhuma prova válida da existência de Deus. Assim Berkhof conclui: Em última análise, o ateísmo resulta do estado moral pervertido do homem e do seu desejo de fugir de Deus. É deliberadamente cego para o instinto mais fundamental do homem, para as necessidades mais profundas da alma, para as quais elevadas aspirações do espírito humano, e para os anseios de um coração que anda tateando em busca de um ser mais alto; é cego para estas realidades e as procura suprimir. 27 Como primo feio do ateísmo, está o agnosticismo. Em geral os agnósticos não gostam de ser identificados como ateus, porque eles não negam a existência de Deus de maneira dogmática. Eles declaram que não se pode afirmar se Deus existe ou não e, mesmo que exista, não estão certos de que podemos ter algum conhecimento dele. Dentre os agnósticos os principais são David Hume, Immnuel Kant, Augusto Comte e Herbert Spencer. O conhecimento humano está restrito ao que é observável cientificamente; o que passa disso depende unicamente de fé. 25 Santo Agostinho, A Trindade, Coleção Patrística, São Paulo, Paulus, 1994, 2ª edição, IV, p. 145. 26 Cf. Louis Bekhof, Teologia Sistemática, Campinas-SP, Luz para o Caminho, 1990, p. 23-27. 27 Louis Bekhof, Teologia Sistemática, p. 24.
  • 11 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho 2.5. Provas racionais da existência de Deus No campo da filosofia sempre houve a preocupação em descobrir a respeito de Deus. O pré-socrático Xenófanes, por exemplo, com o sentimento de grandeza, afirmou que o “cosmos é Deus”. Se há outros “deuses”, deve haver um Deus supremo a todos eles: “Assim, o uno de Xenófanes é o universo, que, como ele próprio diz, ‘é uno, Deus, superior entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens’”.28 Sócrates entendia que a verdade residia no ser humano e, portanto, bastava trazê-la para fora; a verdade estava nas premissas filosóficas, isto é, no entendimento, e não em revelação.29 Vários argumentos racionais foram elaborados pelo decorrer da história do pensamento filosófico e teológico para provar a existência de Deus. Em suma, esses pensamentos podem ser categorizados em cinco: 1) Ontológico (Anselmo, Descartes, Samuel Clark): segundo este argumento, o homem tem a ideia de um ser absolutamente perfeito; que a existência é atributo de perfeição; e que, portanto, um ser absolutamente perfeito tem que existir. 2) Cosmológico: Cada coisa existente no mundo tem que ter uma causa adequada; sendo assim, o universo também tem que ter uma causa adequada, isto é, uma causa indefinidamente grande. Para Aristóteles, por exemplo, a observação exige a ideia de que tudo tenha uma causa primeira: “Com efeito, quem busca as causas e os princípios primeiros necessariamente deve encontrar Deus, porque Deus é a causa e o princípio primeiro por excelência”.30 Assim, também, Tales de Mileto afirmava que “tudo está repleto de deuses”, e com isso ele queria dizer que tudo é permeado por uma causa originária. 3) Teleológico: Em toda parte o mundo revela inteligência, ordem, harmonia e propósito, e assim implica a existência de um ser inteligente e com propósito, apropriado para a produção de um mundo como este. Este conceito 4) Moral: Alguns argumentam baseados na desigualdade muitas vezes observada entre a conduta moral dos homens e a prosperidade que eles gozam na vida presente, e acham que isso requer um ajustamento no futuro que, por sua vez, exige um árbitro justo. 5) Histórico ou etnológico: Entre todos os povos e tribos da terra há um sentimento religioso que se revela em cultos exteriores. Os argumentos racionais a favor da existência de Deus corroboram a verdade de que a mente humana é capaz de contemplar a criação e ter a apreensão da presença de Deus. Esses argumentos também merecem consideração por serem todos razoáveis e prováveis. No entanto, em última análise, nenhum deles pode provar irrefutavelmente a existência de Deus. Conforme afirmamos acima, nem o próprio Deus se preocupou em dar essa prova cabal; o que nos é exigido para ter comunhão com ele é a fé. 28 Giovanni Reale e Dario Antisineri, História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média, p. 49. 29 Ibid., p. 95 30 Ibid., p. 179. Aristóteles chegou racionalmente ao entendimento de que Deus só poderia ser autoexistente: “E Ele também é Vida, porque a atividade da inteligência é vida e Ele é precisamente essa atividade. E sua atividade, que subsiste por si mesma, é vida ótima e eterna. Com efeito, dizemos que Deus é vivo, eterno e ótimo, de modo que a Deus pertence uma vida perenemente contínua e eterna: isso, portanto, é Deus”, p. 188.
  • 12 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho Desse modo, a nossa fé é a resposta do homem à revelação de Deus. O conhecimento de sua existência para nós não depende da nossa mente, mas de sua revelação. 3. A Cognoscibilidade de Deus A teologia sempre deve se mostrar temente e reverente ao se aproximar de Deus, reconhecendo sua grandeza e incompreensibilidade. Em sua própria Revelação Deus apresenta a sua grandeza inatingível e a estampa diante de nossos olhos. No entanto, aquilo que nos é possível saber e o próprio Deus quis nos mostrar, isso sim podemos aprender. 3.1. Deus Incompreensível, contudo Cognoscível Não há nenhuma criatura, quer humana ou celestial, que tenha capacidade de compreender exaustivamente o Ser e os atributos de Deus. Charles Hodge diz que “Nenhuma criatura, muito menos o homem, pode conhecer tudo o que é próprio a Deus; e, portanto, nenhuma criatura pode apresentar uma declaração exaustiva de tudo o que é Deus”.31 Isaías se preocupou em dar mostras da grandeza de Deus e da sua infinitude, para constatar que não existe nenhum outro ser ou deus que se iguale a ele em grandeza: Isaías 40.12-14 - Quem na concha de sua mão mediu as águas e tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu na terça parte de um efa o pó da terra e pesou os montes em romana e os outeiros em balança de precisão? Quem guiou o Espírito do SENHOR? Ou, como seu conselheiro o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento?. De maneira inquestionável, Deus se apresenta a Jó desnudando sua glória de uma forma magnífica. Enquanto Jó passava pelo inquérito de seus três impiedosos amigos, não se conformava às provas às quais estava sendo submetido. Jó estava de consciência limpa quanto à sua conduta, mas estava confuso e queria respostas para entender o seu sofrimento. Após reclamações e murmúrios, Deus se apresenta a ele e lhe dá um longo questionário. O grande erro de Jó não foi cometer nada do que os seus três amigos o acusavam, mas de querer entrar nos misteriosos desígnios de Deus. Jó não errou em fazer súplicas e em clamar perante o trono de Deus, mas ele deveria ter admitido que Deus faz o que quer com suas criaturas, deveria ter aguardado em paciência a restauração de Deus, por isso o Senhor lhe diz: “Cinge, pois, os lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber.” (Jó 38.3; 40.7). Agora, Deus chama Jó para que respondesse às suas perguntas. Elas comprovam a ignorância do homem e a incompreensível soberania de Deus. Os temas abordados por Deus são os seguintes: 31 Charles Hodge, Teologia Sistemática, p. 276.
  • 13 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho A criação do céu – Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhes pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases ou quem lhe assentou a pedra angular, quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus? (38.4-7). A criação das águas – Ou quem encerrou o mar com portas, quando irrompeu na madre; quando eu lhe pus as nuvens por vestidura e a escuridão por fraldas? Quando eu lhe tracei limites, e lhe pus ferrolhos e portas, e disse: até aqui virás e não mais adiante e aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas... Acaso, entraste nos mananciais do mar ou percorreste o mais profundo do abismo? Porventura te foram reveladas as portas da morte ou viste essas portas da região tenebrosa? (38.8-11,16,17). O controle climático – Podes levantar a tua voz até às nuvens, para que a abundância de águas te cubra? Ou ordenarás aos relâmpagos que saiam e te digam: Eis-nos aqui? Quem pôs sabedoria nas camadas de nuvens? Ou quem deu entendimento ao meteoro? Quem pode enumerar com sabedoria as nuvens? Ou os odres dos céus, quem o pode despejar, para que o pó se transforme em massas sólidas, e os torrões se apeguem uns aos outros? (38.34-38). O controle dos animais – Sabes tu o tempo em que as cabras monteses têm os filhos ou cuidaste das corças quando dão suas crias?... Quem despediu livre o jumento selvagem, e quem soltou as prisões ao asno veloz, ao qual dei ermo por casa e a terra salgada por moradas?... Acaso, quer o boi selvagem servir-te? Ou passará ele a noite junto da tua manjedoura?... Podes tu, com anzol apanhar o crocodilo ou lhe travar a língua com uma corda?... Fará ele acordo contigo? Ou tomá-lo-ás por servo para sempre? Brincarás com ele, como se fora um passarinho? Ou tê-lo-ás preso à correia para as tuas meninas? (39.1,5,6,9; 41.1,4,5). Essas e muitas outras coisas foram ditas a Jó para que ele fosse convencido de que Deus é insondável: “Acaso, anularás tu, de fato, o meu juízo? Ou me condenarás para te justificares? Ou tens braço como Deus ou pode trovejar com a voz como ele o faz?” (40.8,9). Deus é revelado em grande poder e majestade, de modo que a perfeição da sua revelação nos leva ao reconhecimento assombroso de sua magnitude. Nas palavras de Berkhof: O Ser de Deus é caracterizado por profundidade, plenitude, variedade, e uma glória que excede nossa compreensão, e a Bíblia apresenta isto como um todo glorioso e harmonioso, sem nenhuma contradição inerente. E esta plenitude de Deus acha expressão nas perfeições de Deus, e não doutra maneira. 32 Considerando tanta grandeza, somos levados ao constrangimento diante de Deus e chegamos à conclusão de Davi: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir.” (Sl 139.6). Em outro Salmo ele reconhece a mesma coisa: “Grande é o SENHOR e mui digno de ser 32 Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 44.
  • 14 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho louvado; a sua grandeza é insondável.” (Sl 145.3). Paulo sente-se paralisado diante de tanta majestade: Romanos 11.33,34 - Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os teus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? As informações acima são suficientes para que vejamos o quanto o homem é ignorante diante de Deus. Somente Cristo conhece totalmente o Pai: “Eu o conheço, porque venho da parte dele e fui por ele enviado.” (Jo 7.29); assim como o Espírito Santo: “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus.” (1Co 2.10). A necessidade do homem em descobrir e aprender já é, por si mesma, uma prova de sua ignorância, o que faz com que ele se aproxime de Deus com reverência: “O homem não pode extrair conhecimento de Deus como o faz dos outros objetos de estudo, mas Deus transmite conhecimento de Si ao homem, conhecimento que o homem pode somente aceitar e assimilar”.33 O conhecimento de Deus na Bíblia não exaure o Ser de Deus, pois sua revelação é parcial. O homem não pode absorver Deus. Assim como Moisés desejava vê-lo, mas não podia suportar toda a sua glória (Êx 33.18,20), assim nós, por maior que seja o nosso desejo e a nossa consagração, não podemos suportar todo o seu conhecimento. Deus se revela na medida que necessitamos e que podemos suportar. É assim que Berkhof coloca a questão: Não podemos compreender Deus, não podemos ter um absoluto e exaustivo conhecimento dele, mas, sem dúvida, podemos ter um conhecimento relativo ou parcial do Ser Divino. É perfeitamente certo que este conhecimento de Deus só é possível porque Ele se colocou em certas relações com as Suas criaturas morais e se revelou a estas, e que mesmo este conhecimento é humanamente condicionado; mas, não obstante, é um conhecimento real e verdadeiro, e, no mínimo, é um conhecimento parcial da natureza absoluta de Deus. 34 Como não podemos conhecer tudo o que gostaríamos, devemos aceitar o que Deus nos permitiu saber. Mesmo aquelas questões bíblicas que não estão fechadas e nem podemos entender totalmente, devemos aceitar até onde Deus quis mostrar. Nas palavras de Hodge: “No que somos ignorantes, é sábio guardar silêncio. Não temos o direito de afirmar ou negar, quando não podemos saber o que nossa afirmação ou negação envolve ou implica”.35 Como corretamente pergunta Zofar a Jó: “Porventura, desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até a perfeição do Todo poderoso?” (Jó 11.7). Se nos sentirmos tentados a discordar de algum assunto ou questão revelada nas Escrituras, mesmo que em parte, ao invés de discordar devemos é nos silenciar (cf. Ec 5.2). C.S. Lewis discute isso mostrando que: 33 Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 56-57. 34 Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 46. 35 Charles Hodge, Teologia Sistemática, p. 293.
  • 15 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho ”há uma dificuldade em discordar de Deus. Ele é a fonte de toda a nossa faculdade de raciocinar: não poderíamos estar certos e Ele errado, assim como uma corrente d’água não pode estar acima de sua nascente. Quando discutimos com Ele, discutimos com o próprio poder que nos deu a capacidade de discutir: é como cortar o galho onde estamos sentados”. 36 3.2. Autorrevelação de Deus Conhecemos Deus pela revelação que ele nos forneceu, não pelas categorias do pensamento, como sugeriu Sócrates, ou pela investigação científica, como sugerem os racionalistas e agnósticos. Se não fosse por sua própria iniciativa, Deus seria totalmente desconhecido de nós. Respondendo à pergunta deste tópico, só pode conhecer a Deus aqueles que o procurarem nos modos em que ele se revelou. Conforme Berkhof postula: No estudo de todas as outras ciências, o homem se coloca acima do objeto de sua investigação e ativamente extrai dele o seu conhecimento pelo método que lhe pareça mais apropriado, mas, na teologia, ele não pode colocar-se acima, e, sim, sob o objeto do seu conhecimento. Noutras palavras, o homem só pode conhecer a Deus na medida em que Este ativamente se faz conhecido. 37 Deus se revelou pela criação (Sl 19.1-6; Rm 1.20); pela constituição do homem (Rm 2.15), criando-o à sua imagem e semelhança (Gn 1.26,27; 5.1; 9.6); através da sua palavra (Sl 19.7-10). A maior manifestação de Deus veio na pessoa de Jesus Cristo (Hb 1.1,2), o Verbo de Deus (Jo 1.1,14), a expressão exata do seu Ser (Hb 1.3). Esse conhecimento não pode ser aceito e crido senão pela própria ação divina (Mt 11.27; 1Jo 4.19). Aliás, foi possível o conhecimento de Deus porque Cristo o revelou: “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto ao Pai, o tornou conhecido.” (Jo 1.18; NVI). O apóstolo João nos incentiva à confirmação de nossa fé, dando evidências de um verdadeiro conhecimento de Deus. Nós sabemos que o temos conhecido se guardamos os seus mandamentos (1Jo 2.3; 3.24; 4.6); se amamos os nossos irmãos (1Jo 3.14,16,19; 4.7,16,20,21); se temos o seu Espírito (1Jo 3.24; 4.2,13; cf. Rm 8.16); e se confessamos Cristo (1Jo 3.23; 4.2,15; 5.20). Essas evidências são essenciais no verdadeiro cristão. Sua vida e conduta mostrarão se ele realmente conhece a Deus. Este conhecimento é possível, portanto, porque Deus dignou-se revelar-se a nós. Investigamos, raciocinamos, oramos e buscamos a compreensão de tudo o que nos está disponível, em reverência ao Ser Supremo que ele é: Desta maneira havemos de procurar entender a Deus, se pudermos e o quanto pudermos: como um ser bom sem qualidade, grande sem quantidade, criador sem privação, presente sem lugar determinado, tudo contendo sem por nada ser contido, inteiro em tudo mas não de modo local, sempiterno sem tempo, agente que tudo muda sem se mudar em nada. 38 36 C.S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, p. 26-27. 37 Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 36. 38 Santo Agostinho, A Trindade, V.1.2, p. 193.
  • 16 CTGP – Curso Teológico Gaúcho Presbiteriano Teologia Sistemática I – A Doutrina de Deus: A Existência e Cognoscibilidade de Deus Rev. Mauro Filgueiras Filho Conclusão Não se questiona o inquestionável e, por isso, não colocamos em dúvida a fonte e base de toda a nossa existência. Deus é supremo e senhor do universo e sua existência está presente desde a constituição do ser humano e em toda a sua criação. A sua existência para nós é, portanto, intuitiva, no entanto isso é insuficiente para conhecê-lo, pois precisamos adquirir o conhecimento dele pelo estudo de sua Palavra.