Dossiê “mídia e política”

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Dossiê “mídia e política”

  1. 1. REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 21: 7-12 JUN. 2004DOSSIÊ “MÍDIA E POLÍTICA” Apresentação Luis Felipe Miguel “Para a maioria das pessoas, só existem dois de convívio direto. Hoje, estamos expostos a todolugares no mundo: o lugar onde elas vivem e a tipo de informação: fatos da economia e datelevisão”. A frase da personagem de Ruído política, publicidade comercial, fofocas, notíciasbranco, o romance de Don DeLillo (1987, p. 69), de divulgação científica – em uma quantidade antessintetiza a presença da mídia – que a televisão inimaginável. O que chega a cada um de nós,simboliza, na qualidade de meio dominante – no individualmente, porém, é apenas uma partemundo contemporâneo. Dela provêm, direta ou diminuta das informações produzidas. Uma únicaindiretamente, por meio de noticiários ou edição dominical de um grande jornal levaria váriasprogramas de entretenimento, quase todas as semanas para ser lida na íntegra. No dia-a-dia,informações de que dispomos para situarmo-nos um misto de escolha e acaso filtra o conjunto deno mundo. Por meio dela, ganhamos acesso a uma informações que cada indivíduo específico recebe.experiência vicária que multiplica muitas vezes as O acompanhamento da totalidade do conteúdo danossas próprias vivências. mídia, ainda que por um curto lapso de tempo, é tarefa irrealizável, como bem sabem os pesquisa- Estamos tão imersos no discurso midiático dores da área.que, muitas vezes, nem percebemos a extensãode sua presença1 . Mas, quando paramos para Os meios de massa cumprem um papel pri-refletir, verificamos que o impacto da mídia é mordial, também, na universalização de determi-perceptível em todas as esferas de nossa vida nados referentes – sejam marcas comerciais oucotidiana. Já o advento da imprensa diária, no produtos da indústria cultural – que balizam nossoséculo XVIII, fez da leitura dos jornais um novo cotidiano e nossa visão de mundo. Trata-se deritual, sobretudo para as camadas urbanas mais um processo cada vez mais global, propiciando ocultas. No século XX, o rádio e, em seguida, a surgimento daquilo que Renato Ortiz (1994)televisão alteraram toda nossa gestão do tempo, chamou de “cultura internacional-popular”. Aseja pelo surgimento da simultaneidade da familiaridade com esses bens materiais e simbólicosinformação, seja pela adequação da rotina à emissão de penetração mundial faz com que nos sintamosdos programas. Na virada para o século XXI, nas “em casa” nos mais diferentes pontos do planeta,sociedades urbanas, o consumo de mídia era uma de uma forma impensável em épocas anteriores:das duas maiores categorias de dispêndio de tempo, Coca-Cola, Mickey e Volkswagen acompanham-atrás apenas do trabalho (CASTELLS, 1999, p. nos nos Estados Unidos, no Brasil ou no Japão.358). Embora esse processo não se resuma à mídia, tem nela uma ferramenta essencial. Ainda mais significativa do que o aumento dotempo dedicado ao consumo da mídia é a ampliação Uma das análises mais perceptivas do impactoexponencial da quantidade de informações de que da mídia eletrônica sobre o tecido social foi feitacada indivíduo dispõe, para além de seu círculo por Joshua Meyrowitz (1985). Ele mostrou como os meios de comunicação, sobretudo a televisão,1 Este parágrafo e os seguintes resumem partes de Miguel romperam barreiras entre espaços sociais antes(2002a). relativamente estanques. Quando mulheres eRecebido em 27 de maio de 2004 Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 22, p. 7-12, jun. 2004Aprovado em 31 de maio de 2004 7
  2. 2. APRESENTAÇÃOhomens ou jovens e adultos compartilham das de comunicação impuseram ao discursomesmas informações, por assistirem aos mesmos sem um fundo normativo que diga qual é oprogramas, torna-se mais difícil decretar que “isto “verdadeiro” discurso político, livre denão é assunto de mulher” ou “isto não é assunto contaminações.de criança”. Assim, diz ele, a mídia alterou toda a Na época de predomínio da televisão, em“geografia situacional” da vida social. especial, avulta o peso da imagem dos Nas formas da ação política, em especial, o políticos e, o que talvez tenhaimpacto dos meios de comunicação de massa é conseqüências ainda mais importantes, ogigantesco. De maneira esquemática, é possível discurso torna-se cada vez maisassinalar quatro dimensões principais nas quais a fragmentário, bloqueando qualquerpresença da mídia faz-se sentir, alterando as aprofundamento dos conteúdos (MIGUEL,práticas políticas2 : 2000, p. 72-78). A fragmentação do discurso não é uma imposição técnica da 1. a mídia tornou-se o principal instrumento televisão, mas fruto dos usos que se fizeram de contato entre a elite política e os cidadãos dela. O resultado é que a fala-padrão de comuns. As conseqüências desse fato são um entrevistado em um telejornal, por importantes: ele significa que o acesso à exemplo, é de poucos segundos e as mídia substitui esquemas políticos expectativas dos telespectadores tradicionais e, notadamente, reduz o peso adaptaram-se a essa regra. Os políticos, em dos partidos políticos. A literatura costuma conseqüência, também. Abreviar a fala, apresentar, entre as principais funções dos reduzi-la a umas poucas palavras, de partidos, a de serem ferramentas que preferência “de efeito”, tornou-se permitem que a cúpula mobilize seus imperativo para qualquer candidato à apoiadores e, por meio deles, alcance o notoriedade midiática. Em um estudo muito conjunto dos cidadãos; inversamente, que citado, que abriu caminho para pesquisas recolhem demandas das pessoas comuns, posteriores, Daniel C. Hallin (1992) permitindo assim que elas cheguem às observou como tal fenômeno manifestou- esferas de exercício do poder. Os meios se nas campanhas presidenciais de comunicação de massa suprem, em estadunidenses, culminando em falas grande parte, ambas as funções, editadas dos candidatos com, em média, contribuindo para o declínio da política de cerca de 8 segundos. partidos (WATTENBERG, 1998). 3. Conforme uma vasta literatura aponta, a 2. Por efeito dessa predominância como mídia é o principal responsável pela instrumento de contato, o discurso político produção da agenda pública, um momento transformou-se, adaptando-se às formas crucial do jogo político. A pauta de questões preferidas pelos meios de comunicação de relevantes, postas para a deliberação massa. É comum o lamento de que os pública, é em grande parte condicionada “políticos de todas os matizes têm revelado pela visibilidade de cada questão nos meios uma tendência a descaracterizar seu próprio de comunicação. Dito de outra maneira, a discurso e incorporar o estilo midiático” mídia possui a capacidade de formular as (SARTI, 2000, p. 3; grifo suprimido). O preocupações públicas. O impacto da problema desse tipo de formulação é que definição de agenda pelos meios de ele supõe a existência de um modo do comunicação é perceptível não apenas no discurso propriamente político – quando, cidadão comum, que tende a entender como na verdade, ele é mutável, de acordo com mais importantes as questões destacadas o contexto histórico em que se inclui e com pelos meios de comunicação, mas também as possibilidades técnicas de difusão de que no comportamento de líderes políticos e dispõe. Assim, é necessário compreender de funcionários públicos, que se vêem na as transformações que os meios eletrônicos obrigação de dar uma resposta àquelas questões.2 Apresento aqui uma versão muito modificada e resumida Cumpre observar que a mídia não se limitade Miguel (2002b). à definição de agenda, no sentido de apre-8
  3. 3. REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 21: 7-12 JUN. 2004 sentação “neutra” de um elenco de assuntos, deveriam estar expostas aos olhos do como por vezes transparece nos trabalhos público. A gestão do escândalo político pioneiros sobre o tema (COHEN, 1969, p. torna-se um componente cotidiano das 13; MCCOMBS & SHAW, 1972). Assim, ações de governos, partidos, parlamentares a pesquisa sobre a definição de agenda é e candidatos (THOMPSON, 2002). complementada pela noção de A afirmação da importância dos meios de “enquadramento” (framing), adaptada da comunicação de massa na política contemporânea, obra de Erving Goffman (1986): a mídia sintetizada nas quatro dimensões expostas acima, fornece os esquemas narrativos que não deve levar à idéia de que a política perdeu permitem interpretar os acontecimentos. Na qualquer especificidade, curvou-se integralmente verdade, ela privilegia alguns desses às injunções da mídia ou mesmo tornou-se um esquemas, em detrimento de outros. O mero “entretenimento visual” (JANEWAY, 1999, controle sobre a agenda e sobre a visibilidade p. 60). As relações entre mídia e política são bem dos diversos enquadramentos, que alicerça mais complexas. Partidos e redes tradicionais de a centralidade dos meios de comunicação apoio ainda são, em geral, indispensáveis para o no processo político contemporâneo, não êxito em uma disputa eleitoral. O discurso político, passa despercebido dos agentes políticos, por mais que precise adaptar-se aos meios em que que hoje, em grande medida, orientam suas transita, ainda guarda suas marcas de distinção ações para o impacto presumível na mídia. em relação àquele comumente veiculado pela4. Mais do que no passado, os candidatos a mídia, como um vocabulário mais elaborado, signo posições de destaque político têm que adotar de uma pretensa competência. A pauta da mídia uma preocupação central com a gestão da fixa a agenda pública, mas muitas vezes os agentes visibilidade. Não se trata de singularizar a com maior capital político são capazes de orientar época atual pela presença do “espetáculo o noticiário. A gestão da visibilidade é uma tarefa político”, já que aspectos similares fazem política central, mas nem toda a política é visível parte das práticas políticas desde há muito, – uma parte significativa dela continua ocorrendo como foi demonstrado exemplarmente para nos bastidores. a França de Luís XIV (APOSTOLIDÈS, Assim, o jogo de influências entre a mídia e a 1993; BURKE, 1994). Os pontos centrais política é complexo, não é unilateral. Mas fica o são outros. Há, em primeiro lugar, a busca reconhecimento de que a mídia tornou-se um fator do fato político (aquele que é assim central da vida política contemporânea e que não reconhecido pela mídia), como forma de é possível mudar esse fato. Ou seja, não adianta orientar o noticiário e, dessa forma, alimentar a nostalgia de “tempos áureos” da influenciar a agenda pública, o que implica política, quando imperava o verdadeiro debate de a absorção de critérios de “noticiabilidade” idéias, sem a preocupação com a imagem, sem a por parte dos atores políticos. Além disso, contaminação pelas técnicas de marketing, sem a a visibilidade na mídia é, cada vez mais, influência nociva das sondagens de opinião. Em componente da produção do capital político. primeiro lugar, porque um retorno ao passado é A presença em noticiários e talk-shows implausível. Mas também porque tal “época de parece determinante do sucesso ou ouro” nunca existiu. Antes do advento do rádio e fracasso de um mandato parlamentar ou da televisão, outros fatores “viciavam” o discurso do exercício de um cargo executivo; isto político e orientavam sua retórica. Mesmo que se é, na medida em que deve acrescentar algo possa lamentar a atual banalização do discurso ao capital político próprio do ocupante. A político, nunca houve nada parecido a um debate notoriedade midiática é condição necessária “puro” de idéias, desligadas daqueles que as para o acesso às posições mais importantes enunciam. do campo político. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação Mas a visibilidade precisa ser gerida de massa ampliam o acesso aos agentes políticos cuidadosamente. Muito mais do que no e a seus discursos, que ficam expostos, de modo passado, os candidatos à elite política mais permanente, aos olhos do grande público. devem cuidar da “retaguarda” das suas Parte da nostalgia da política pré-midiática deve- vidas, isto é, das esferas privadas, que não 9
  4. 4. APRESENTAÇÃOse à ausência atual de grandes líderes. Como estudos sobre mídia e política. Francisco C. P.observa Meyrowitz (1985, p. 270), isso se deve Fonseca aborda a questão crucial da relação entrenão à falta de candidatos a essa posição, mas “à a democracia e a mídia. O controle da informaçãosuperabundância de informações sobre eles”, isto é um dos pontos de estrangulamento da ordemé, à exposição cotidiana e instantânea de suas democrática nos regimes ocidentais e a soluçãofalhas, vacilações e equívocos. Para quem sonha liberal padrão – o controle mútuo dos veículos decom o encanto de um mundo salpicado de “grandes comunicação na concorrência pelo mercado –vultos”, isso é mau. Do ponto de vista da prática provou-se amplamente insuficiente para garantirdemocrática, porém, a desmitificação dos líderes à cidadania meios de comunicação plurais de fato,políticos pode ser encarada como um progresso. isto é, capazes de refletir os diferentes interesses e visões de mundo presentes na sociedade. O autor No Brasil, embora ainda sejam relativamente busca, então, outro elemento do pensamentopoucos os pesquisadores que produzem com político liberal, a teoria dos freios e contrapesosregularidade sobre o assunto, os estudos sobre ao poder, advogando a necessidade de aplicá-losmídia e política já acumulam uma pequena também ao “quarto poder”.tradição, iniciada nos anos 1980 e fortementeimpulsionada com a experiência das eleições O foco de Pedro José Floriano Ribeiro é menospresidenciais diretas de 1989 (RUBIM & amplo. Ele discute as transformações sofridas pelasAZEVEDO, 1998). O fenômeno Collor, cuja campanhas eleitorais na era do que o cientistaestratégia teve como passo crucial uma pesada político ítalo-estadunidense Giovanni Sartoriinvestida na mídia, chamou a atenção para a chamou de “videopolítica”. Enquanto as estruturasinfluência dos meios de massa nos processos partidárias perdem peso, avulta a importância deeleitorais. Desde 1992, um grupo de trabalho sobre consultores de marketing, publicitários e técnicoscomunicação e política reúne-se anualmente, nos em sondagens de opinião pública. O artigo colocaencontros da Associação Nacional dos Programas a “modernização” das campanhas brasileiras sobrede Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS), o pano de fundo das experiências de outros paísese a área tem sido contemplada também nos e discute os desafios que o processo apresentaencontros da Associação Nacional de Pós- para o exercício da soberania popular.Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais Uma das peculiaridades do caso brasileiro está(ANPOCS). Havia uma publicação especializada, no formato do acesso de partidos e candidatos àa revista Comunicação & Política, em circulação mídia eletrônica – a chamada propaganda eleitoraldesde a década de 1980, mas nos últimos anos, a e partidária gratuita, que visa a reduzir a influênciadespeito do nome, ela alterou seu foco de interesse. tanto do poder econômico (já que o espaço em O principal tema nos estudos brasileiros de rádio e TV não precisaria ser comprado) quantomídia e política ainda é, de longe, o impacto dos da própria mídia (uma vez que os atores políticosmeios eletrônicos de comunicação nas eleições. teriam autonomia para apresentar seus própriosMas também surgem artigos, teses e livros sobre enquadramento e agenda). A capacidade efetivaa retórica política na mídia, a comunicação de cumprir todas essas metas é discutida; mas égovernamental, as políticas públicas de inegável que o horário eleitoral é entendido pelacomunicação e as novas tecnologias da elite política como um elemento essencial deinformação. As pesquisas de recepção ainda são qualquer estratégia de campanha.pouco numerosas, devido – antes de mais nada – No entanto, como observa Márcia Jardim, umaaos custos de realização. Embora a influência parcela significativa das campanhas eleitorais noteórico-metodológica dominante seja dos estudos Brasil ocorre sem a propaganda no rádio e,de comunicação política produzidos nos Estados sobretudo, na televisão – simplesmente porque nãoUnidos, outros interlocutores também são existem, em muitos municípios, emissoras comfreqüentes na produção acadêmica brasileira da capacidade de gerar a programação. Nesses locais,área, como Jürgen Habermas, Antonio Gramsci, durante as eleições municipais, os partidos fazemStuart Hall e Pierre Bourdieu. campanhas tradicionais, baseadas em impressos, Os textos reunidos no dossiê desta edição da comícios e contato corpo-a-corpo, mas o ambienteRevista de Sociologia e Política apresentam uma eleitoral não é tradicional. Os eleitores recebem oamostra da diversidade de temas e enfoques nos sinal (e, portanto, a propaganda eleitoral) dos10
  5. 5. REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 21: 7-12 JUN. 2004municípios vizinhos, resultando em um complexo uma perspectiva histórica, Flávia Biroli faz umsistema de contaminações. exercício de desvendamento dos valores políticos presentes na imprensa. Ela se debruça sobre a crise Um novo ator no cenário da mídia brasileira, de 1955 – quando a posse do Presidente eleitocom implicações também na arena política, são Juscelino Kubitschek, ameaçada por manobrasas rádios comunitárias. Pensadas como golpistas, foi assegurada por um contragolpeinstrumentos de democratização, pulverizadoras militar – e estuda o papel desempenhado por doisda capacidade de produção da informação, elas jornais influentes, O Estado de S. Paulo e o cariocatêm sido, com freqüência, colocadas a serviço de Correio da Manhã. Ao analisar editoriais,chefes políticos locais, de partidos ou de igrejas. reportagens e artigos, a autora revela os limitesApoiada em extensa pesquisa, Márcia Vidal Nunes do liberalismo professado pelos órgãos deanalisa o comportamento de rádios comunitárias imprensa e a presença continuada de elementoscearenses nas eleições de 1998 (estaduais e associados em geral ao pensamento autoritário danacional) e 2000 (municipal), observando Primeira República e da ditadura de Vargas, comoprecisamente a oscilação entre a busca da o atraso do povo, a função civilizadora das elites eintervenção cidadã e a instrumentalização eleitoral. a inadequação da democracia eleitoral às condições Com todos os seus problemas, as emissoras efetivas do país.comunitárias representam um dos caminhos para O recorte histórico de Fabiana Luci de Oliveiraa geração de um espaço comunicacional mais é bem mais recente – de 1979 a 1999. O poderdiversificado, capaz de oferecer informação plural Judiciário era, em geral, deixado de lado nosao público. Não existe uma fórmula para se estudos sobre mídia e política, que preferiamalcançar esse resultado; em geral, considera-se que concentrar-se nos poderes Executivo e Legislativo,é necessário um conjunto de medidas, que podem dependentes de processos eleitorais. A atenção aopassar pelo financiamento estatal para organizações poder Judiciário tem aumentado, graças àalternativas de mídia, regulamentações que forcem discussão sobre a “judicialização da política”, istoalgum tipo de compromisso das emissoras privadas é, ao aumento da intervenção das cortes judiciaiscom o interesse da cidadania ou o “direito de na tomada de decisões políticas. Analisando doisantena”, que é a cessão obrigatória de espaço para jornais diários, Folha de S. Paulo e O Estado dea sociedade civil. Outra medida é o fortalecimento S. Paulo, a autora observa a alteração na imagemde um setor público de radiodifusão, capaz de pública do Supremo Tribunal Federal, cada vezmanter-se independente tanto das pressões do mais visto como forte e envolvido nas grandesmercado quanto do Estado. questões nacionais. Reflexo de mudanças em suas De acordo com Regina Mota, o importante é atribuições constitucionais, a nova imagemque os meios de comunicação de massa – em também reforça a posição do STF na disputa porespecial, a televisão, de que seu artigo ocupa-se – espaço político entre os poderes da República.sejam capazes de seguir o que chama de “uma O conjunto de artigos que a Revista depauta pública”, isto é, que levem em conta o Sociologia e Política oferece neste dossiê revelainteresse público. Sua inspiração é o movimento um pouco da multiplicidade de perspectivas e dedo public journalism estadunidense, que substitui possibilidades de pesquisa presente no estudo dao ideal da “apresentação objetiva dos fatos” pelo relação entre mídia e política. Em rigor, mais doincentivo ao envolvimento dos cidadãos nas que delimitar uma área temática específica, équestões coletivas. A partir de uma série de necessário compreender os meios de comunicaçãoentrevistas com profissionais da mídia e de massa como elementos necessários de qualquerintelectuais, a autora expõe diversas facetas dessa investigação sobre a política contemporânea.pauta pública, ainda em construção, que se opõe Assim – e as Ciências Sociais, no Brasil e foraà mentalidade dominante na televisão brasileira, dele, têm caminhado pouco a pouco nesta direçãotanto privada quanto estatal. – os estudos de mídia e política deixam de ser Alvo de polêmicas e questionamentos nos percebidos como uma “excentricidade” e passamEstados Unidos, o public journalism tem ao menos a ser identificados apenas pela ênfase maior queo mérito de expor abertamente que a mídia é um concedem a algo que já se reconheceator social engajado, rompendo com o discurso universalmente como relevante.dominante de “neutralidade”. Em seu artigo, de 11
  6. 6. APRESENTAÇÃOLuis Felipe Miguel (lfelipe@unb.br; lfm@linkexpress.com.br) é Doutor em Ciências Sociais pelaUniversidade Estadual de Campinas (Unicamp), Professor do Instituto de Ciência Política e do Centrode Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas, ambos da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadordo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAPOSTOLIDÈS, J.-M. 1993. O rei-máquina : MEIROWITZ, J. 1985. No Sense of Place : The espetáculo e política no tempo de Luís XIV. Impact of Electronic Media on Social Behavior. Rio de Janeiro : J. Olympio. Oxford : Oxford University.BURKE, P. 1994. A fabricação do rei : a MIGUEL, L. F. 2000. Mito e discurso político : construção da imagem pública de Luís XIV. uma análise a partir da campanha eleitoral de Rio de Janeiro : J. Zahar. 1994. Campinas : UNICAMP.CASTELLS, M. 1999. A sociedade em rede. São _____. 2002a. Política e mídia no Brasil : episó- Paulo : Paz e Terra. dios da história recente. Brasília : Plano.COHEN, B. 1969. The Press and Foreign Policy. _____. 2002b. Os meios de comunicação e a prá- Princeton : Princeton University. tica política. Lua Nova, São Paulo, n. 55-56, p. 155-184.DELILLO, D. 1987. Ruído branco. São Paulo : Companhia das Letras. ORTIZ, R. 1994. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense.GOFFMAN, E. 1986. Frame Analysis : An Essay on the Organization of Experience. Boston : RUBIM, A. A. C. & AZEVEDO, F. A. 1998. Mídia Northeastern University. e política no Brasil : textos e agenda de pesquisa. Lua Nova, São Paulo, n. 43, p. 189-216.HALLIN, D. C. 1992. Sound Bite News : Television Coverage of Elections, 1968-1988. SARTI, I. 2000. A construção midiática da Journal of Communication, Austin, v. 42, n. política e a crise da representação. Artigo 2, p. 5-24. apresentado no XXIV Encontro Anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-JANEWAY, M. 1999. Republic of Denial : Press, graduação em Ciências Sociais, realizado em Politics, and Public Life. New Haven : Yale Petrópolis (RJ), de 23 a 27.out.2000. Digit. University. THOMPSON, J. B. 2002. O escândalo político :MCCOMBS, M. & SHAW, D. 1972. The poder e visibilidade na era da mídia. Petrópo- Agenda-Setting Function of Mass Media. lis : Vozes. Public Opinion Quarterly, New York, v. 36, n. 2, p. 176-187. WATTENBERG, M. 1998. The Decline of Ame- rican Political Parties. Cambridge (Mass.) : Harvard University.12

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