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Cida Sanches - Orientação educacional e o adolescente
 

Cida Sanches - Orientação educacional e o adolescente

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A atuação do orientador educacional como profissional de ajuda faz-se essencialmente sobre os jovens, seres em transição, com um grande potencial a ser trabalhado. Sua ação desenvolve-se por ...

A atuação do orientador educacional como profissional de ajuda faz-se essencialmente sobre os jovens, seres em transição, com um grande potencial a ser trabalhado. Sua ação desenvolve-se por meio de um conjunto específico de atividades, como incentivar o aluno à pesquisa e ajudá-lo na sua definição vocacional, auxiliando o processo de sua aprendizagem.

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    Cida Sanches - Orientação educacional e o adolescente Cida Sanches - Orientação educacional e o adolescente Document Transcript

    • Orientação educacional eoadolescente
    • C i d a S a n c h e sOrientação educacional eoadolescente C O L E Ç Ã O E S T U D O S A C A D Ê M I C O S 1 9 9 9
    • ©1999, by Editora Arte & Ciência Coordenação Editorial Henrique Villibor Flory Editor, Projeto Gráfico e Capa Aroldo José Abreu Pinto Diretora Administrativa Luciana Wolff Zimermann Abreu Editoração Eletrônica Alessandra Nery Revisão Letizia Zini Antunes TODOS OS DIREITOS RESERVADOS — é proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Biblioteca de F.C.L. - Assis - UNESP) Sanches, CidaM337a Orientação educacional dirigida a adolescentes / Maria Aparecida Sanches. — São Paulo: Arte & Ciência, 1998. 160p.; 21 cm ISBN 1.Orientação educacional I. Título 92-1796 CDD-371.422 Índice para catálogo sistemático: 1.Orientação educacional 371.422 Editora Arte & Ciência Rua dos Franceses, 91 – Bela Vista São Paulo – SP - CEP 01329-010 Tel/fax: (011) 253-0746 Na internet: http://www.arteciencia.com.br
    • Ao meu marido e aos meus filhos, meus grandes amigos,pela paciência e colaboração demonstradas ao longo de toda esta jornada.
    • ÍndicePrefácio ................................................................................. 11Introdução ............................................................................. 15Cap. 1: Conceitos básicos ................................................... 37Cap. 2: O que é ser orientador educacional ...................... 55Cap. 3: Conclusão ............................................................... 87ADENDOS:= Descrição do método ........................................................ 95= Exemplo de entrevista ..................................................... 105= Bibliografia ....................................................................... 115= Glossário ........................................................................... 119= Índice de autores ............................................................. 123= Índice de assuntos ........................................................... 125
    • Prefácio Pode-se atribuir ao Orientador Educacional um papelpreponderante como profissional de ajuda. Esse papel tem umagênese interior e é construído pela sua ação específica, que pro-duz os efeitos esperados de um profissional de ajuda. A ação do Orientador Educacional desenvolve-se por meiode um conjunto específico de atividades, tais como: incentivar oaluno no processo de sua aprendizagem, orientá-lo para a ma-turidade social e afetiva; ajudá-lo na sua definição vocacional.Essas atividades sempre se realizam com o apoio ou a parceriade diversas fontes, a saber: a estrutura educacional, os profes-sores, os pais e até mesmo os próprios alunos. A atuação do Orientador Educacional como profissionalde ajuda faz-se essencialmente junto ao adolescente — reco-nhecido como um ser em transição, com um grande potencial aser trabalhado, um adulto que ainda não o é e quer ser, um al-guém aceito com qualidades e defeitos. O trabalho do OrientadorEducacional sobre o objeto de sua ação é realizado sob um con-junto de crenças que fundamentalmente afirmam: que é precisodar apoio e atenção ao adolescente; que ele só pode ser con-quistado através de afeto que deve ser levado à reflexão eajudado nos momentos mais difíceis e sentir-se feliz. Emvirtude de tal atuação, o adolescente obtém algumas con-quistas, entre elas: um desenvolvimento integral, a consci-ência de si mesmo, um melhor aproveitamento escolar e umamadurecimento — como ser humano — mais facilitado.Mas não só o adolescente obtém proveitos: o próprioOrientador Educacional cresce com a sua atuação diária, poisaprende vivenciando-a. O Orientador Educacional, porém,acredita, que o proveito nos alunos só pode aflorar quando
    • há, no próprio Orientador Educacional, uma predisposiçãointerior no que o conduza a isso.
    • Caçador de mimPor tanto amor,Por tanta emoçãoA vida me fez assimDoce ou atroz,Manso ou ferozEu, caçador de mimPreso a cançõesEntregue a paixõesQue nunca tiveram fimVou me encontrarLonge do meu lugarEu, caçador de mimNada a temerSenão o correr da lutaNada a fazerSenão esquecer o medoAbrir o peito à forçaNuma procuraFugir às armadilhas da mata escuraLonge se vai sonhando demaisMas onde se chega assimVou descobrir o que me faz sentirEu, caçador de mim.(Sérgio Magrão e Luís Carlos Sá)
    • “O adolescente é uma pessoa com uma grande luz a ser trabalhada”.(S7) Introdução A proposta deste trabalho é analisar a ação doOrientador Educacional do ensino médio, das escolas pública eparticular, focalizando a relação de ajuda ao adolescente, na pro-moção do seu amadurecimento enquanto ser humano. Este trabalho está dividido, basicamente, em três capítulos. No primeiro, explicito os principais conceitos pertinentesao problema: Orientador Educacional, sujeito da ação da minhapesquisa; adolescente, principal objeto; relação de ajuda, que é omodo de atuar do sujeito e crescimento humano, o produto daação do Orientador Educacional. No segundo capítulo mostro que o Orientador Educacionalatua como profissional de ajuda ao adolescente do ensino médio.Ciente de que, entre possibilidades e limites, a escola é hoje olocal onde o aluno permanece de quatro a seis horas, ematividades sociais, educacionais e culturais, demonstro, nestesegundo capítulo, que o Orientador Educacional está atuandocomo facilitador no processo de maturidade pessoal e social doadolescente. Por fim, no terceiro capítulo, teço as considerações finaise mostro algumas inferências que a análise permitiu.
    • 16 Cida Sanches Pela importância do processo da pesquisa realizada,nos Adendos descrevo o método usado, centrado na análise dashistórias de vida profissional recolhidas de diversos OrientadoresEducacionais e ilustro o método com a inclusão de uma entrevista. Minha experiência O que me levou ao estudo deste tema foi a minhaexperiência que se iniciou no 3° ano do curso de Pedagogia, eml98l, quando monitorava a disciplina de Filosofia da Educaçãoem nível de terceiro grau. Nessa época, ainda muito jovem, inicieio meu trabalho com os alunos do l° ano, na sua maioriaadolescentes, na faixa dos 17/18 anos. Quando terminei o curso, dois anos depois, com especia-lizações em Orientação Educacional, Administração e SupervisãoEscolar, dei continuidade ao trabalho como professora de Filosofiada Educação, Didática e Supervisão de Estágios para alunos doensino médio, no curso de formação de professores. Com essas atividades, fui adquirindo uma grande afini-dade com os adolescentes, o que me permitiu desenvolver acapacidade de compreendê-los, por meio da atitude de escutá-los, atuando como “boa ouvinte” dos seus problemas, ajudando-os, dessa forma, a elucidar via diálogo a experiência de seradolescente. ... O diálogo provoca no próprio homem situações existenciais plenas, e é na concretude do dia-a-dia que a realização plena da vida do homem é efetivada. (Albarello, 1992: p.35) Com o diálogo foi possível, muitas vezes, ajudar oadolescente a entender situações que o aborreciam. Foi possívelacalmá-lo em situações de indisciplina e clarificar a necessidadeda observância das normas escolares. Foi possível ajudar o alunoa minimizar, e às vezes esclarecer, suas dúvidas, sobre a impor-
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 17tância do ato de estudar e sobre a opção profissional, pois tinhadificuldade de elaborá-las. Com o diálogo foi possível, ainda, a-judar a mim mesma, como profissional, a descobrir e entenderos processos evolutivos dessa faixa etária. ... O diálogo é o caminho mais seguro para o Orientador aprender a essência da problemática de cada educando, a fim de poder, mais conscientemente, orientá-lo em função da realidade existencial... (Nérici,1992: p.72) No processo educacional, com as minhas atividades comoeducadora, e ainda por meio do relacionamento diário com osadolescentes, descobri em mim a capacidade de identificar nosseus comportamentos, nas suas falas e nas suas expressões, omomento em que precisavam de ajuda. Vivenciar essa expe-riência a cada dia me possibilitou desenvolver um novo tipo decomunicação, definida por Maria Tereza Maldonado (1987) como“linguagem do sentir”. A linguagem do sentir envolve a “reflexão de sentimentos”,que é uma forma de aprender a estar em sintonia com o outro,por meio de uma comunicação que consiste em dizer-lhe,explicitamente, os sentimentos subjacentes que captamos nasmensagens que nos enviou (p.77). Consiste, ainda, em ajudaro outro a “digerir” sentimentos evocados por situações queficam inconclusas ou pendentes (p.83). ... Muitas vezes, o que sentimos não está muito claro para nós. Se alguém sintoniza conosco, é como se projetasse a luz de uma lanterna num lugar escuro e isso nos possibilita ver com mais nitidez o que está acontecendo dentro de nós. (p.80) A “linguagem do sentir” é uma forma de comunicação naqual estão presentes a sensibilidade e os recursos afetivos(p.85) e que pode aprofundar o relacionamento, e com issofavorecer o apoio ao desenvolvimento humano.
    • 18 Cida Sanches A comunicação entre os adolescentes e mim efetivou-seexatamente dessa maneira: permeada por sentimentos, de formaque, quando sua atitude revelava-me que precisavam serouvidos, eu exercitava a sensibilidade desse ouvir até poder sentiro problema apresentado.Vou contar um exemplo. Maria Cláudia chegou à escola, certa manhã, preocupadacom a doença e a provável morte da sua cachorrinha. Angustiada,chorava, manifestando a sua tristeza. Não se encontrava, dessaforma, em condição de participar da aula. Nada se podia fazer. Talvez mandá-la de volta para casa.Talvez deixá-la quieta no seu canto, protegida para que ninguémviesse aborrecê-la. Como ajudá-la, se eu nem mesmo entendiade animais? Mas entendo de sentimentos. Entendo de afetividade. Epara ajudá-la conduzi o diálogo de forma que ela expressasse,sem receios, a saudade que já sentia da sua cachorrinha deestimação. Falamos de como seria lidar com esse sentimento.Falamos da perda, da morte e de suas várias representações,desabafando e explorando todos os sentimentos, até que conseguiperceber que Maria Cláudia compreendia melhor o momentoque estava vivenciando. Isso significa ouvir o que está implícito na fala, aquelamensagem que não se diz verbalmente, mas que é comunicada,pelo outro, no tom da voz, no olhar lançado sutilmente, na posturaque revela desconforto. Aquela mensagem que está no choro,no grito e que pode estar, também, naquela frase construída sobreuma mágoa que precisa ser desabafada, ou num acesso de raivaque precisa ser liberado. Tornei-me, enfim, capaz de percebero momento em que o aluno precisava ser “ouvido”,independentemente do motivo. E aprendi a ouvi-lo. Fui mepreparando para me sintonizar com o desconhecido, sem o préviopreparo de uma resposta a ser dada. Apropriei-me cada vezmais do sentido de ouvir, de Rogers: ... ouço as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentidos, o significado pessoal, até mesmo o significado que subjaz às intenções
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 19 conscientes do interlocutor. É como ouvir música das estrelas, pois por trás da mensagem imediata de uma pessoa, qualquer que seja a mensagem, há o universal. (1983:p.5) Este é o “ouvir” que espera uma pessoa quando estámagoada, ansiosa ou até mesmo quando está confusa. Este é o“ouvir” que acolhe, que compreende e que faz o outro sentir-segratificado, pois esta atitude proporciona o alívio, oesclarecimento e o verdadeiro valor de nos sentirmos acolhidos.Quando assim ouvimos uma pessoa, estamos ouvindo não suaspalavras, mas ela mesma (p.6), estamos ouvindo o que vem doseu interior, expresso em palavras que mostram a importânciaíntima e pessoal daquilo que foi relatado. Ser “bom ouvinte”, no dizer de Rogers, implica um ouvirsensível, criativo, ativo, profundo e de forma empática, o que éuma habilidade tanto quanto uma atitude. A atitude empática requer muita sensibilidade para queseja possível ao ouvinte viver e captar os sentimentos de raiva,angústia, medo, ternura, felicidade, ou qualquer outro. Érecomendável participar, mas não julgar; refletir junto, ajudandoo interlocutor a perceber os significados da sua própria vivência.É preciso ter sempre uma postura positiva, segura e que nãoconstitua ameaça aos valores ou atitudes do interlocutor. Paratal se faz necessário, ao ouvinte ... perceber o mundo interior de sentidos pessoais e íntimos do cliente, como se fosse o seu, mas sem jamais esquecer a qualidade de ‘como se’. Perceber a confusão, a timidez, a cólera ou o sentimento que o cliente tem de ser tratado injustamente, como se isso se desse com você, mas sem que a indecisão, o medo, a cólera ou a desconfiança que você sente se incluam na relação. (199l:p.107) Perdi o medo nos atendimentos. Aprendi a respeitar, pordetrás das atitudes, a pessoa. A raiva é humana, assim como oé a meiguice. Também é humano o medo, tal como a coragem.
    • 20 Cida SanchesTambém são humanas a mentira, a ironia, a agressividade, domesmo modo que a coerência, a compreensão e a relação deajuda. Essa postura humanista, adotada no exercício profissionale, portanto, na convivência com os adolescentes, possibilitou-me compreender a importância do trabalho do OrientadorEducacional. Vivenciava uma satisfação que nascia do prazerde vê-los caminhar rumo à confiança em si mesmos, à confiançano outro e na sociedade. Com tudo isso me sentia gratificada eprofissionalmente realizada. Cada vez mais me motivava essetipo de trabalho, o que me levou à decisão de deixar as aulas esó atuar como Orientadora Educacional. Essa opção de trabalho com adolescentes levou-me aobservá-los diariamente, quanto ao modo de lidarem com seusproblemas, quanto à dificuldade para resolver uma situaçãoproblemática, dificuldade essa resultante às vezes do medo eda insegurança, às vezes da agressividade. No atendimentoaos pais e alunos, tive a oportunidade de observar, ainda, quemuitos jovens ficam com o relacionamento familiar abalado emfunção dos questionamentos quanto a suas crenças e valores(podendo estes serem de ordem social, econômica, afetiva oucultural). Percebi que, nessa transformação do “ser criança” parao “ser adulto”, os adolescentes oscilam nas suas atitudes. Orasão mais infantis, ora são mais adultos, porém, sempre no “entre”,na “passagem”. Percebi que são muito influenciados pelo grupode amigos, cujos componentes estão inseridos nesse mesmoprocesso de transformação. A sós, com os pais, eclode o conflito. O “entre” não émuitas vezes compreendido, e a solidão, a falta dos companheirosnessa hora de enfrentamento com os pais — para a conquistado sonho, para tornar-se adulto — rapidamente geracomportamentos agressivos, irônicos, competitivos, impedindo,muitas vezes, o diálogo. Para os pais é difícil confiar nesse ser em oscilação, emconstante movimento, pois também não sabem como lidar com
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 21ele, em nome do amor e da necessária proteção, muitas vezesignoram esse processo de mudança e acabam cobrando essasatitudes que são ora infantis ora adultas. Os pais e a escola, emmuitos momentos, gostariam de poder congelá-los em uma dasextremidades. Acompanhá-los nesse penoso processo detransformação exige do Orientador Educacional uma empatiamuito grande para não reproduzir a atitude de pais e professores. Quando tenho dificuldade para compreender a atitude deum jovem, remeto-me ao passado e vivencio a minha ado-lescência. Procuro lembrar como era a minha busca por umespaço no mundo, como eram as minhas emoções e as grandespaixões. Estamos todos, nessa fase, procurando por nós mesmos,procurando um porto seguro onde possamos resolver essasquestões do medo e da insegurança, que se manifestam emtodas as situações em que precisamos tomar uma decisão oudar uma opinião própria. Como canta Milton Nascimento: Nada a temer Senão o correr da luta Nada a fazer Senão esquecer o medo Abrir o peito à força Numa procura ... Eu, caçador de mim. Muitos jovens, nessa travessia, perdem-se num mundoonde impera a droga, a irresponsabilidade, a violência. Para elesnão é uma questão de chegar ao outro lado da ponte: a vida queescolheram rompeu com a idade cronológica e os transformouem seres perversos, num momento que deveria ser o daconstrução de uma personalidade sadia. Em todos os ambientesencontramos esses jovens, independentemente da classe social.Foram vencidos pela atração fatal das drogas, do sexo, do dinheiroe da violência.
    • 22 Cida Sanches Fugir às armadilhas da mata escura Longe se vai sonhando demais Mas onde se chega assim Vou descobrir o que me faz sentir Eu, caçador de mim. O trabalho do Orientador Educacional para com essesjovens não surte o efeito necessário. O que podemos fazer éajudá-los a perceber que, durante as horas em que freqüentam aescola, devem tratar com deferência aqueles que ali estão,fazendo o possível para respeitá-los, assim como respeitar oslimites estabelecidos. Não penso que seja necessário excluí-los,mas sim que seja possível conquistar sua compreensão de que,nesse ambiente, é assim que eles devem manter-se. Esses jovensprecisam do atendimento de profissionais mais especializados,pois, a escola, não é uma clínica e o Orientador Educacional nãoé um terapeuta. Ao longo de minha trajetória como OrientadoraEducacional, constatei que o jovem pode, por meio de umrelacionamento de carinho e atenção, ser orientado para quedescubra que todos precisam de um projeto de vida e que, nocerne desse projeto, está a imagem do ser humano que ele almejaser no futuro. Esta é uma forma de motivá-lo a crescer,enriquecendo os seus valores. Acredito que, quando temos uma meta para o futuro, temostambém um estímulo para crescer. Penso que é possível facilitarao jovem a construção de uma auto-imagem como pessoa seguraque, sobretudo, reconheça os seus próprios valores como figurahumana, com referenciais firmemente estabelecidos que oajudem a atuar com confiança nas atividades sociais, culturais eeconômicas. O jovem pode entender que, a partir desse contexto,tudo o que fizer não será somente para atender à sociedade,agradar aos seus pais, ou mesmo para ser o melhor na escola,mas, também, para atingir um objetivo maior: conquistar a sua
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 23independência social e financeira e, fundamentalmente, investirna sua felicidade. Esse jovem tem uma cultura que lhe é própria, com suasposturas, suas músicas, danças e vestuário; tem a sua própriaforma de ver o namoro e as relações entre as pessoas e seuvocabulário é diferenciado, recheado de gírias que constroem asua comunicação. Tudo isso merece ser respeitado pelos adultos.Entendo que o problema, muitas vezes, não está no jovem e nasua cultura, mas no adulto que não a aceita, não a entende. Édifícil para o adulto compreender os valores e as necessidadesparticulares desses jovens no seu processo de crescimento, umprocesso que é individual. Deixa, assim, de ser um apoio, umamigo fiel e colaborador, para assumir uma atitude de revolta,que ignora e critica essa cultura sem nada aceitar. Nessa relação do adulto com o adolescente, a confiançade um no outro adquire grande importância. É ela que abre asportas para o diálogo e, a partir deste, ambos investem natransformação pela qual passarão. O adolescente rumo à vidaadulta deixará para trás, na sua travessia, muitos sonhos, valores,dores e alegrias; e aquele que o acompanha também, ao chegardo outro lado, terá a vida modificada. Esse movimento formadore transformador acompanhará sempre o próprio movimento doexistir, pois no dizer de Rogers, saber-se pessoa é saber-se devir, inacabado, incompleto e construtor de si mesmo e de seu futuro. (Rogers “in” Queluz—1984) A meu ver o jovem tem uma grande disposição para um“bom papo”; gosta de relacionar-se, de fazer amigos. Mesmo omais tímido geralmente tem o seu grupo de amigos mais íntimoscom quem estabelece troca de experiências significativas,especialmente nos assuntos que não se sente seguro de com-partilhar com a família. Assim, dá preferência ao relacionamentocom os amigos da escola, do bairro onde mora, do clube quefreqüenta, que são os seus companheiros de travessia. Isso vem
    • 24 Cida Sanchesao encontro do que diz Erikson: ... os companheiros de idade, a roda de amigos e a turma ajudam o adolescente a encontrar sua própria identidade, em um contexto social. O sentimento de participação no grupo, nas rodas de adolescentes é forte e determina um sentimento de clã e intolerância com as diferenças, inclusive aspectos mínimos de linguagem, gestos, modos de vestir”. (1980:p.89) No processo educativo, muitos dos alunos buscam ter,com seus educadores, uma relação de amizade mais profun-da. Esses alunos esperam dos educadores um espaço abertonão só para as trocas de conhecimentos gerais (como física,química e português), mas também para a partilha de expe-riências vivenciadas. O aluno geralmente valoriza o relacio-namento com os professores e sente-se valorizado quando éouvido, percebendo que há nessa relação um clima de liber-dade para expor as suas idéias. Parece-me que, quando oeducando encontra esse espaço aberto, essa prédisposiçãodos educadores para essa troca, nasce a possibilidade deque ele encontre aí um amigo e conselheiro que possa ajudá-lo. Amigo, quando o acolhe com sentimento de afeição,ternura e crítica construtiva; conselheiro, quando nessa at-mosfera calorosa o respeita como indivíduo livre para falardos seus sentimentos e desejos; respeita-o e acredita nelecomo capaz de ser responsável por si próprio com tendênci-as naturais para tornar-se maduro, ajustado socialmente, in-dependente e confiante. Rogers diz que ... existe em todo organismo, em qualquer nível, um fluxo subjacente de movimento para uma realização construtiva de suas possibilidades intrínsecas. Há no homem uma tendência natural para o desenvolvimento completo. (1986:p.17) É nesse sentido que entendo serem os Orientadores
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 25Educacionais profissionais com possibilidade para facilitaro processo de relacionamento entre professor e aluno; capa-zes de promover o seu próprio encontro com o educando ecom os professores, como profissionais de ajuda no cresci-mento humano do adolescente, levando sempre em consi-deração as tendências naturais da pessoa para esse cresci-mento. Rogers diz que o “profissional de ajuda” é ... uma pessoa facilitadora [que] pode ajudar na liberação dessas capa- cidades, quando se relaciona como uma pessoa real para com a outra, possuindo e exprimindo seus próprios sentimentos; quando vivencia um cuidado e amor não possessivo em relação à outra; e quando com- preende com aceitação o mundo interno da outra. (1986: p.23) A orientação ao ser humano se faz necessária em to-das as fases da vida, assim como a orientação escolar se faznecessária em todos os níveis escolares. Porém, parece-me quena adolescência essa necessidade é mais intensa, visto que essaé a fase do ser humano que representa a encruzilhada entrea infância e a vida adulta (Strôngoli. 1989:p.10). Revisitando a história da Orientação Educacional A Orientação Educacional é uma atuação profissionalexistente desde o século XIX, e podemos encontrar estudos aesse respeito nas produções acadêmicas de Teresinha Andrade(1978), Piza (1980), Penteado (1980), Osny Galvão (1980), Sena(1985), Leda Pinto (1987), Selma Pimenta (1990), Loffredi(1976 e 1994), Lenita Martins (1994), Regina Garcia (1994) eoutros. Ao longo de sua história, a Orientação Educacional nemsempre teve o mesmo enfoque. A questão ideológica permeou
    • 26 Cida Sanchesos objetivos da Orientação Educacional, fazendo com que estesmudassem de acordo com a estratégia mais ampla do poderpolítico. Pode-se dizer que o advento dessa profissão ocorreu coma saída dos pais dos lares, para irem trabalhar nas fábricas, noinício da era industrial. A necessidade era atender às sociedadesindustriais através da Orientação Profissional, somada ainda ànecessidade do apoio e supervisão que os alunos deixaram deter nos lares. A Orientação Educacional surgiu no Brasil em 1924,através de Roberto Mange, professor da Politécnica de São Paulo,na forma de Orientação Profissional dirigida a jovens que,tendo terminado a escola média, pudessem ser selecionadose encaminhados para a formação técnica em Mecânica, noLiceu de Artes e Ofícios de São Paulo (Pinto,1987:p.14). Em 1931, no Brasil, Lourenço Filho criou o Serviço deOrientação Profissional e Educacional, dirigido pela psicólogaNoemy Silveira Rudolfer. O objetivo desse serviço era guiar oindivíduo na escolha de seu lugar social na profissão(Pinto,1987:p16). Esse trabalho teve duração de quatro anos,tendo sido extinto, então, em 1935. As educadoras Aracy Muniz Freire e Maria JunqueiraSchmidt, em 1934, implantaram na Escola de Comércio “AmaroCavalcanti” o serviço de Orientação Educacional. Aracy MunizFreire, inclusive, escreveu a primeira obra nacional sobre aprofissão, sob o título A Orientação Educacional na EscolaSecundária, em 1940. Mas só em 1942 a profissão aparece na legislação federal.Daí para frente, como foi dito, seu enfoque foi mudando de acordocom as estratégias políticas. A regulamentação da profissão veio com o decreto 72.846,de 26.9.73, que disciplinou a lei 5.564, de 21.12.68, que proviasobre o exercício da profissão de Orientador Educacional. Oartigo 1o afirma que constitui objeto da Orientação Educacionala assistência ao educando, individualmente e em grupo, no âmbito
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 27do ensino do 1o e 2o graus, visando o desenvolvimento integral eharmonioso de sua personalidade; ordenando e integrando oselementos que exercem influência em sua formação epreparando-o para o exercício das opções básicas. Nas escolas estaduais, somente em 1977 é que o decreto-lei 10.623, nos artigos 18, 19 e 20, fala das atribuições doOrientador Educacional, desde o seu trabalho em cooperaçãocom o professor e a escola, nos programas de apoio técnicopedagógico, até o seu desenvolvimento de esquema de contatopermanente com a família. Esse decreto-lei aprovou o regimentodas escolas de 1o grau, que só entrou em vigor em 1978. Nas décadas de 70 e 80, a Orientação Educacionalencontrou-se em profundo questionamento, quando constatouas limitações dos enfoques anteriores. As produções acadêmicasdessa época falam da existência de uma “crise de identidadeprofissional”. O Orientador Educacional já não sabe quem é,nem quais são as suas funções, como exemplificam os textosabaixo: Teresinha Andrade afirma que: ... estudos têm mostrado que há conflito na expectativa dos membros da comunidade escolar a respeito do desempenho de papéis e função do Orientador Educacional.Os diretores esperam pouco, ou quase nada da Orientação. Alguns toleram porque seus superiores o exigem. (1978:p.29) Piza ocupa-se da perda de identidade profissional doOrientador Educacional: ... O presente estudo trata da perda da identidade do Orientador Educacional no Brasil, procurando caracterizar e dimensionar tal problema, tanto a nível de literatura especializada, como entre os profissionais ativos que desempenham as funções de Orientador Educacional em escolas brasileiras. (1980:p.75)
    • 28 Cida Sanches Osny Galvão enfatizava o fato de a função da OrientaçãoEducacional não ser nem compreendida, nem valorizada: ... A Orientação Educacional não é bem compreendida e nem valorizada como função na estrutura, não só pelo corpo docente mas também pelas direções. Isso vale não só para as escolas do estado como também para municipais.(1980:p.86) Leda Pinto mostra que só a partir da metade da décadade 70 a Orientação Educacional passa a dispor de um embasa-mento teórico mais concreto: ... Após a promulgação da lei 5.692/71, com todas as conseqüências que traz em seu bojo para a educação e conseqüentemente para a Orientação Educacional, configura-se o momento em que o questionamento da profissão de Orientação Educacional e de seu embasamento teórico toma uma forma mais concreta, mais precisamente na segunda metade da década. (1987:p.69) Apesar de toda essa dificuldade para definir a profissãoe, igualmente, a atuação de seus profissionais, em 1982 o Estatutodo Magistério Municipal de São Paulo mostrava a função doOrientador Educacional integrada à comunidade e à família.Seu trabalho seria realizado em conjunto com a AssistentePedagógica, mas cada um na sua função específica, visto quecada escola era dotada de um Orientador Educacional. Dois anos depois, em 1984, o cargo de OrientadorEducacional nas escolas municipais do Estado de São Paulo foiextinto. Os representantes da educação, nessa altura, deram comojustificativa para extinguir esse cargo a possível cumulação defunções entre a Assistente Pedagógica e a OrientadoraEducacional, ou seja: ambas realizavam trabalhos semelhantes. ... Havia uma ampla discussão sobre a função de cada um dentro do
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 29 regimento escolar, referente ao que cada um fazia dentro da unidade. Começou a se pensar que esse Assistente Pedagógico e esse Orientador Educacional estavam em desacordo. Era uma corrente e a corrente que ficou mais forte foi a de fundir os dois cargos em um só ...Tivemos, então a Coordenadora Pedagógica. (Comunicação Pessoal: S2/1996) Vale ressaltar que no ano de 1984 a maioria dos Orienta-dores Educacionais estava ocupando cargos de direção e super-visão, deixando assim o Sindicato dos Orientadores Educacionaisesvaziado. Ou seja, fragilizada pelas circunstâncias, a própriacategoria não se manifestou, e os poucos que se levantarampara lutar pela categoria (os orientadores da Prefeitura de SãoPaulo) não encontraram eco para a sua voz . Uma vez extinto o cargo de Orientador Educacional, paraatender às necessidades das escolas, foi criado o cargo de Coor-denador Pedagógico, que teria como objetivo atender às neces-sidades dos professores e dos alunos. O regimento que criouesse cargo, porém, pouco fala das suas funções dirigidas espe-cificamente aos alunos, porquanto esse profissional ficou dedicadoà assistência ao professor e ao diretor. Quanto ao aspecto formal, em termos de documentação,no Estatuto do Magistério de 1985, nas escolas estaduais oOrientador Educacional ainda fazia parte da classe dos es-pecialistas com as seguintes exigências: possuir licenciatura plenaem Pedagogia, com habilitação específica em OrientaçãoEducacional e ter, no mínimo, três anos de docência, e/ou serespecialista em educação de 1o e/ou 2 o grau. Porém, na prática,não se encontrava esse especialista executando suas funções. Na rede pública, a figura do Orientador Educacional sofreuum desgaste em função da lei que tornou obrigatória sua presençanas escolas (artigo 10 da lei 5.692/71). Essa obrigatoriedade,que foi instituída com a função de estender-se a todos osalunos, nos vários níveis de ensino, dentro da estrutura 1escolar , acabou por identificar o profissional como um elemento1 Relatório do Ministério da Educação e Cultura. Brasília, 1976.
    • 30 Cida Sanchesque existiria para controle dos alunos; um controlador dosjovens em termos ideológicos, refletindo uma conotaçãototalmente política. Existem profissionais que defendem aidéia de que a política, na época, não era levar o educando aconhecer-se integralmente: A ênfase era numa linha ideológica da razão sobre os sentimentos, da razão sobre os valores. Desta forma o trabalho de orientação perdia o seu sentido, visto que a ênfase do trabalho dos Orientadores está no ser humano como um todo: razão e emoção”. (E.01.1996) Loffredi faz referência à obrigatoriedade da OrientaçãoEducacional pela lei 5.692/71, como sendo ela a responsávelpela ruptura da posição tradicional do Orientador Educacional eexplica que: ... com a universalização da dimensão profissional, que coloca o orientador educacional contra a parede, foi impossível manter a acomodação ou fazer os ajustes tentados até então. A lei colocou tantos paradoxos para o trabalho do Orientador e para a escola, que tornou a Orientação Educacional inviável. (1994:p.44) O referido autor definia o Orientador Educacional comoum profissional que pudesse orientar os jovens a seguir umcaminho em que se sentiriam mais seguros, ajudando-os, dessaforma, a ... tornarem-se mais capazes de serem independentes e responsáveis por si mesmos, oferecendo-lhes, para isso, a possibilidade de aprender a serem livres, conscientes e responsáveis. (1976:p.43) Lenita Martins fez parte de um grupo de debate sobreOrientação Educacional que concluiu que
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 31 ... O Orientador Educacional não está consciente de sua especificidade enquanto profissional, e disto resulta o fato de a escola não reconhecer nele um elemento competente e necessário no processo educativo. (1994:p.76) A curta e tumultuada história do Orientador Educacional,no Brasil, impediu que se estabelecesse um perfil pacífico desseprofissional, porquanto as suas funções e atribuições ficavam aosabor do objetivo ideológico que se lhe atribuía. Com efeito, o Orientador Educacional, trabalhando desdeno guiar o indivíduo na escolha de seu lugar social na 2profissão , passando pelo trabalho de adaptação profissionale social do aluno e para cuidar para que os estudos e odescanso dos alunos ocorressem dentro da conveniência 3pedagógica , bem como atuando na figura que ensina e treinahabilidades, para que o indivíduo atinja melhores níveis defuncionamento pessoal e interfira no ambiente com vistas à 4formação de um clima favorável à maturidade , para depoispassar à orientação do educando, individualmente ou emgrupo, visando ao desenvolvimento integral e harmoniosodos alunos, preparando-os para o exercício das opções bá- 5sicas , até reconhecer-se numa crise de identidade profissional(1970-1980) em que já não sabia quem era, nem quais eram assuas funções, sem quaisquer contornos, amoldava-se ao que eraideologicamente conveniente. Ele, realmente, tinha perdido o seufoco. Só a partir de meados da década de 70 o Orientador Edu-cacional começa a busca de um desenho consciente do seupróprio papel, como se estivesse traçando a própria linha dodestino; porém, mais uma vez, na minha opinião, a busca mostrou-se infrutífera. É difícil estabelecer o momento a partir do qual o2 Objetivo do Serviço de Orientação Profissional e Educacional, criado em1931 por Lourenço Filho.3 Lei 4.073, de 30.1.19424 Lei 4.024, de 20.12.19615 Lei 5.564, de 21.12.1968
    • 32 Cida SanchesOrientador Educacional passa a preocupar-se com o seu ver-dadeiro papel. Alguns momentos específicos em tal buscapodem ser elencados como relevantes: o I Congresso Brasi-leiro de Orientação Educacional, realizado em Brasília em1970, em que os Orientadores Educacionais buscavam umadefinição de um papel profissional para o Orientador Edu- 6cacional ; no Congresso de 1972 organizam pautas querespondam à ansiedade dos orientadores em definir concre- 7tamente o seu papel na escola ; porém, ainda no VIII Con-gresso, realizado em Brasília em 1984, o objetivo era redefinira orientação educacional, a partir da revisão crítica de suahistória, da análise crítica da escola concreta e da explicitação 8de seu papel, o de transformação . O X Congresso, em 1988,no Rio de Janeiro, arrasta o debate para o meio da relaçãocapital—trabalho. O Orientador Educacional, embora nãosaiba o seu papel, já se sabe explorado: ... Até que ponto cada um de nós, Orientadores Educacionais, tem clareza do que vem a ser um trabalhador braçal dentro de uma sociedade que valoriza apenas o capital? Se existe este tipo de percepção, será fácil identificar as contradições existentes na sociedade e refletidas na escola. A sociedade exige cada vez mais que nós, trabalhadores, nos organizemos, para que possamos dirimir a exploração de que somos vítimas. Algumas questões devem ser elucidadas: a) Por que existem o patrão e o empregado?... (Araújo,1994:p.21) Regina Garcia, sobre este momento, diz: ... do processo de participação dentro e fora da escola, do processo de construção e assunção de sua identidade de trabalhador da educação, do processo de engajamento na luta pela construção de6 Garcia, Regina Leite (Org). Orientação Educacional: o Trabalho naEscola. 1994, Loyola, p11.7 Idem, p.128 Idem p.17
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 33 uma escola pública e gratuita de qualidade para a classe trabalhadora, do processo de engajamento na luta por uma Constituição que atendesse às reivindicações da classe trabalhadora, do processo de luta pela transformação da sociedade, era inevitável a filiação à CUT. ...Gestada no próprio processo de filiação à CUT, emergiu outra contradição entre os orientadores. Alguns orientadores-trabalhadores abandonaram o seu espaço específico de ação profissional — a escola. Negam assim o que os qualifica como trabalhadores: a sua condição de trabalhadores da educação ...Neste momento, vivemos na orientação educacional duas tendências: uma que privilegia o espaço sindical e outra que dá ênfase ao espaço escolar.(1994: p.17) O X Congresso surpreendeu pela tônica da luta de classes,remetendo os debates para temas como “O Orientador e aorganização dos trabalhadores”, “A Orientação Educacional e aeducação do filho do trabalhador e do aluno trabalhador” e “OOrientador Educacional e o processo de reprodução das classessociais na escola”. Hoje, após tantas modificações na sociedade e ante aconstatação de que nas escolas públicas (que atendem ao filhodo trabalhador e ao aluno trabalhador) não há OrientadoresEducacionais, pode-se dizer que o X Congresso foi em vão. Selma Pimenta, na Apresentação de Uma orientação 9educacional nova para uma nova escola , afirma: ... A preocupação dos Orientadores Educacionais com a definição de suas funções tem sido a constante de encontros, congressos, teses, pesquisas. A indefinição permanece e, com ela, a insatisfação profissional. Chega-se a imaginar que esta é conseqüente daquela. Assim, no momento em que se conseguir definir, especificar e delimitar claramente as funções do Orientador Educacional no interior da escola, as causas que têm provocado a insatisfação profissional desaparecerão. Conseguirão esses profissionais da educação dar o salto9 Maia, Eny e Garcia, Regina. São Paulo, Loyola, 1990, p.7.
    • 34 Cida Sanchesda qualidade ao seu trabalho por meio dos desafios propos-tos, durante tantos anos, pelas produções acadêmicas? A esserespeito, Regina Garcia diz acreditar que ... é pelas próprias contradições internas da orientação educacional que ela tem condições de recuperar o seu papel, de superar as contradições e caminhar para um novo papel. (...) Se for um agente transformador, começará pela transformação de sua própria prática. (1994:p.14) Foi angustiante para mim rever essa história por per-ceber que o Orientador Educacional não encontrava, mes-mo quando ele se propunha à busca, um lugar para escrevero seu destino. Ele não conseguia se encontrar, não conse-guia estabelecer seu rumo, seu destino. Congressos, círcu-los de estudos, debates, oficinas, discursos, discussões e te-ses… e ao fim disto tudo, sempre a mesma questão: não sa-ber quem era, nem o que queria ser. Esta era a minha inquietação como Orientadora Edu-cacional. Acreditava que outros profissionais possuem estamesma inquietação e a crença na sua superação. Pergunta-va-me: Como estão esses educadores construindo, agora, oseu papel facilitador junto aos adolescentes? Como esseprofissional constituiu, com tantas mudanças, o seu traba-lho com adolescentes? Pude perceber, pela minha experiência, que, em ge-ral, as instituições educacionais possuem uma proposta edu-cacional pragmática — no sentido de uma realidade prática— a qual pode ser sintetizada por um objetivo dominanteem relação ao adolescente: colocá-lo com sucesso na facul-dade ou no mercado de trabalho. Raras são as instituiçõesque têm uma proposta holística para o adolescente — cui-dando do todo: da sua formação acadêmica e da sua forma-ção como ser humano, nos seus vários aspectos. Entendo — e já afirmei isto anteriormente — que asnecessidades do adolescente não coincidem, na maioria das
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 35vezes, com a proposta pragmática de interesse da institui-ção. No meu caso particular, esse conflito é vivenciado nodia-a-dia e acredito que também o mesmo ocorra com ou-tros profissionais. A minha questão era, deste modo, investigar se oOrientador Educacional no exercício do seu papel atuavacomo profissional de ajuda ao adolescente. Esta relação deajuda pressupunha que o Orientador Educacional tivesse umaatuação de: escuta — sendo essa escuta sensível, profunda,criativa e empática, por meio do diálogo; de facilitação narelação entre educador e educando — sempre atento às ne-cessidades do grupo para que esta relação seja saudável esirva como principal ponto de partida para o crescimentodos grupos discente e docente; e de promoção de ativida-des, principalmente daquelas nas quais o aluno tem a opor-tunidade de reconhecer a sua atitude como responsável e detornar-se capaz de ser independente e crítico das suas pró-prias ações e das ações do grupo.
    • ”Não há nada melhor do que ver nossos alunos crescerem saudáveis, conquistaremos seus espaços, mudarem os seus hábitossociais, saberem avaliar suas condições,suas próprias posições”. (S3) CAPÍTULO I Conceitos básicos V imos atrás que as produções acadêmicas mostramo Orientador Educacional, até o ano de 1994, como um profis-sional cuja função e papel foram sendo sucessivamente alterados,questionados e desvalorizados, influenciando na construção dasua identidade profissional. As produções que se ocupam daOrientação Educacional, conquanto muitas delas investiguem aquestão da sua atuação profissional, raramente fazem mençãoespecífica à atuação do Orientador Educacional na condição deprofissional de ajuda ao adolescente do ensino médio. A lei 5.564/68 define o exercício do Orientador Educa-cional, em especial no ensino médio, com o objetivo genérico de ... facilitar a maturidade pessoal e social do aluno, maturidade essa que será atingida através do desenvolvimento e de um processo em que o aluno vai se tornando progressivamente mais consciente dos seus atos, de si mesmo como ser social e da sociedade da qual participa.
    • 38 Cida Sanches Analisando todo esse percurso, verifico que o arcabouçolegal já propunha a atuação do Orientador Educacional comoprofissional de ajuda que se interessasse em atuar como umfacilitador do desenvolvimento da maturidade pessoal e socialdo aluno. Sendo assim, não se trata de uma questão legal. Parece-me que a função existe; o que não encontramos são profissionaisinteressados em executá-la como definia a lei e como — a meuver — o jovem necessita. Dorotéa B. Valdez, na sua produção De como aOrientação Educacional vai encontrando na história suaidentidade, levanta questões como: O que dizem de nós? Deonde viemos? Para onde vamos? E como resposta a esta últimaquestão diz que não se trata da importância da profissãolegalmente definida, mas trata-se de pensar, discutir caminhos,perspectivas, para que este profissional possa contribuirna construção de um projeto educativo que reflita a relaçãoescola—produção (1993:p.143). Portanto, a proposta legal existe; o que pretendoinvestigar, então, é se os Orientadores Educacionais atuam comoprofissionais de ajuda ao adolescente e se essa ajuda estariavoltada para o desenvolvimento do adolescente como pessoa —o que chamei de “crescimento humano”. Há portanto, no mínimo,alguns conceitos que devem ser explicados: 1. Orientador Educacional 2. Adolescente 3. Crescimento humano 4. Profissional de ajuda É isso o que veremos a seguir. Orientador educacional Construí a minha atuação profissional em relação aoadolescente influenciada por Carl Rogers. Tornar-se facilitadornão é, para ninguém, uma tarefa simples. Além disso, é preciso
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 39considerar que essa atuação como facilitador acontece no espaçoda escola e perpassa o espaço familiar e da comunidade. Portanto, ao procurar atuar como facilitador no desenvol-vimento do adolescente me vi, muitas vezes, dificultando o meupróprio desenvolvimento dentro da instituição ou junto aos pais,ou ainda junto à comunidade. É nesse espaço de conflito, na impossibilidade de umarotina fielmente seguida, que o Orientador Educacional é cha-mado, todo dia, a atuar nas diferentes frentes que o seu cargoexige. O Orientador Educacional promove atividades em que oobjetivo é desenvolver no aluno uma atitude de reflexão sobreo seu lugar na sociedade da qual participa, com questõespropostas para chamá-lo à realidade social e profissional. Eu própria faço isto, pois no decorrer do ano letivoprogramo encontros individuais, de pais com os filhos, parafalarmos sobre “objetivo de vida”. Questiono o jovem: “Quaissão suas expectativas como pessoa na sociedade? Como vocêse projeta no futuro como ser humano? Que perfil faz para simesmo como profissional, pai, e esposo no futuro?” A questão profissional é colocada objetivando que o alunonão só reflita sobre o tema, mas também observe que esse é omomento em que ele, adquirindo responsabilidade, se preparapara ocupar uma posição social e profissional por meio do estudo,pois lhe é dito que o estudo assegura uma vantagem adicional nacompetição profissional. É um tempo dedicado pela escola e pelos pais aos adoles-centes. É um tempo em que é investido muito amor, muita de-dicação. A promoção desse momento tem a intenção desensibilizar a todos os participantes do processo para o desen-volvimento humano, especialmente o adolescente, através de suaspróprias propostas para com o mundo e a vida. ... O homem tem dado provas, muitas vezes dramáticas, que para sobreviver em sua essência humana depende de metas que o
    • 40 Cida Sanches ultrapassem. Sua vida precisa de um significado que o transcenda. (Rosenberg.1977:p.58) Promover condições para que os alunos assumam seusatos e conquistem amigos, favorecer a relação afetiva, ensinar-lhes a responsabilidade de serem presentes ao grupo e atentosàs suas obrigações, são atitudes inerentes ao trabalho doOrientador Educacional. Junto aos professores, como Orientadora Educacional,procuro estabelecer um diálogo constante, visando satisfazer anecessidade de um clima propício para o ensino em sala de aula. Os pais representam, no meu trabalho, um alicerce.Sempre que necessário eu os convido a participar das situaçõesque emergem na escola. Nessas oportunidades procuro sabermais e melhor sobre a relação entre eles e seus filhos para poderfacilitar a relação entre aluno, família e escola. Com os alunos, vários níveis de atuação se desdobram nodia-a-dia. Ora sou porta voz de decisões da instituição, ora souuma ouvinte atenta para subsidiar ações da instituição em relaçãoa eles. Ora estou no meio do conflito tentando acertar, compreendere facilitar, sentindo que eu mesma estou prestes a implodir. Tenho a preocupação de não perder oportunidades quelevem o aluno, ou o próprio grupo, a desenvolver o autoco-nhecimento na ação social, de forma que, tais atitudes facilitemo desenvolvimento de novas formas de estrutura para umaconvivência social saudável. A aceitação, o respeito e a confiança,são bases para essa estrutura social, levando em conta que essesconceitos devem ser transmitidos em qualquer instante ousituação. É importante que eu esteja atenta, de forma a promoveroportunidades para que os alunos percebam os seus atos e, apartir daí, efetivem uma reflexão, permitindo mudanças individuaisou em grupo para a sua evolução. ...O indivíduo que vive em um clima estimulante pode escolher livremente qualquer direção, mas na verdade escolhe caminhos
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 41 construtivos e positivos. A tendência à auto-realização é ativa no ser humano. (Rogers.1983:p.50) Suely Drozdek acredita que isso é possível, na medidaem que essas diferentes vias possam ser experienciadas comofavorecendo o crescimento pessoal e a satisfação de neces-sidades de aceitação e de auto-conceito positivo (1990: p.7). O fio condutor que liga as várias frentes de minha atuaçãoé regido pela certeza de que lido com pessoas que, como tal, sãoinacabadas, incompletas, como eu mesma. Assim, os percalços,as dúvidas e os erros que fazem parte do dia-a-dia de minhaatuação estão me tornando sensível às vozes daqueles a quemoriento. Mas, tenho sempre presente a necessidade de estaratenta às oportunidades para salientar os seus valores internos,para mostrar-lhes o caminho da compreensão e do respeito aopróximo, do valor que devem dar à família e à comunidade. Issoé fundamental para a minha realização como OrientadoraEducacional. Desta forma entendo que o Orientador Educacional éum profissional que facilita a maturidade pessoal e social doaluno, por meio de um processo, em que o aluno vai-se tornandoprogressivamente mais consciente dos seus atos, mais conscientede si mesmo e da sociedade da qual participa. Adolescente Num ambiente descontraído, onde todos têm liberdade pararelacionar-se e dizer o que pensam, há a exigência mínima decomportamento para que todos possam conviver em harmonia,com respeito e responsabilidade por si próprios e pelos outros.Esse respeito está relacionado com o campo de atuação de cadaum quando exerce o seu papel. O professor e o aluno precisam de clima e ambiente sau-dáveis para que haja o ensino e a aprendizagem. E a escola zela
    • 42 Cida Sanchespor isso, exigindo do aluno disciplina e respeito pelo professor ecomportamento adequado quando este estiver atuando. O aluno,por sua vez, espera o melhor do professor com relação aoconhecimento e o respeito à sua pessoa que está em formação.Portanto, todos, no cumprimento do seu papel — seja como aluno,professor, orientador, etc.— colaboram respeitando as normas eregras estabelecidas pela instituição. O jovem sonda para saber quais são os limites doambiente que está freqüentando, para que possa organizar-se socialmente. Para isso, precisa de alguém que expliqueas regras existentes. Ele quer e gosta de ouvir o que está“valendo” para organizar internamente os seus limites. Quando a função das regras fica clara para o aluno —não pela posição autoritária do adulto, mas orientada sobreum comportamento estruturado no diálogo, na ternura, nareflexão dos atos e de suas conseqüências — ele é capaz decompreender e, ainda, de colaborar. Lembremos sempre queele é aberto para o diálogo que favorece a compreensão dosseus atos, não o tipo de diálogo em que o adulto sempre temrazão, mas aquele em que a voz do adolescente é recebida,reconhecida e levada em consideração, numa mútua refle-xão. O adolescente é capaz de entender que os limites im-postos pela escola têm o objetivo de protegê-lo de um ambi-ente de desordem, desfavorável para a aprendizagem. Empalavras simples, reiteradamente explico a ele o que são li-mites e quais são suas funções destes. Limite é ... a criação de um espaço protegido dentro do qual a criança e o adoles- cente podem viver suas experiências vitais criativas e espontaneamente ...Essa é uma visão do limite não como repressão, castração, proibição, etc., e sim como algo que baliza, orienta e contém a mente do indiví- duo, que, de outra forma, ficaria dispersa , sem forma, desorganizada. (Outeiral,1994:p.64) São esses os aspectos com que me ocupo para ficar
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 43em harmonia com o jovem que, muitas vezes, não entendea necessidade que a escola tem de estabelecer limites. Quandoos vejo em dificuldade pelo não cumprimento dos limitesestabelecidos, o diálogo, o carinho que lhes dedico e a com-preensão são os meus melhores companheiros. Trabalho com jovens, na sua maioria aparentementemuito felizes. Eles não têm aquela obrigação interiorizadade mudar o mundo, até porque a sua preocupação maior ébuscar o prazer; a escola, a futura universidade, os amigos eaté a vida profissional parecem ter como meta o prazer. Li-vres para o mundo, gostam de viajar com os amigos, curtema natureza e seus próprios corpos: o importante é o prazerde viver, o lazer, e tudo isso sem sentimento de culpa. Cos-tumo dizer que suas atitudes indisciplinadas não o são poragressividade, ou ainda por desrespeito, mas sim por exces-so de brincadeira com o professor ou até mesmo entre eles— aquilo que eles chamam de “aprontar” — lhes parecemuito natural. Quando se mostram agressivos, em geral a causa estáno desejo de quererem resolver um problema e se sentiremimpotentes para tal. Nesse caso procuro chamá-los em particular,pois sei que algo de errado está acontecendo em suas vidas.Isso é fácil de se perceber, pois — pela minha observação, queé diária — normalmente sentem-se felizes na escola, o que mefaz satisfeita e ao mesmo tempo atenta à manifestação dequalquer tipo de mal-estar. O meu objetivo é ter alunos adaptadose felizes, de forma a estarem abertos para a aprendizagem.Assim, é fácil entender essa manifestação de agressividade doadolescente, se levarmos em consideração o que diz Outeiral: ...‘agressão’ do adolescente tem o sentido de ‘buscar o outro’ de ‘ir na direção’, buscar o contato com alguém. Assim, o gesto agressivo na adolescência deve ser entendido, muitas vezes, como comunicação de uma necessidade, de uma busca de contato, da busca de se assegurar de que existe alguém que o compreende e pode ‘suportá-lo’, de testar o quanto o outro ‘gosta’ efetivamente dele. (1994:p.65)
    • 44 Cida Sanches Todos os sentimentos e atitudes têm uma origem, e ébuscando compreenderem esta origem com o intuito deajudá-los a também se compreender, que eu desenvolvo omeu trabalho. De todas as maneiras procuro compreenderas atitudes dos adolescentes, seja de raiva, seja de afeto,seja de euforia ou desânimo, pois eles são assim, inconstan-tes. O que mais se ouve na escola são as frases: “você estáestudando?... precisa vir ao plantão de dúvidas... não deixepara estudar próximo das provas... não é assim que se ad-quire conhecimento...” Mas, e o encontro com os amigos? Eas festas? Ah! essas festas! Todo dia é dia de festa ou deshow. E esse inseparável telefone que não pára de tocar? Paracomunicar algo urgente ou importante? Não: apenas para“papear”. “...não posso sair, preciso estudar”. E o “papo” vailonge. E continua no seu aposento predileto, seu refúgio: seuquarto. Por favor bata antes de entrar. Individualista? Não,apenas quer que respeitem o seu espaço. Quando por algum motivo é solicitado aos pais que venhamà escola para falar com a Orientadora, a presença do aluno,junto com os pais, é fundamental. Isso às vezes o aborrece, poisnem sempre concorda que precisa da interferência dos pais pararesolver o “seu” problema. Porém, em geral, o resultado é positivo,pois, nesse momento, temos a oportunidade de sensibilizar afamília para a união, e a compreensão de que os adolescentescontam com os pais como amigos. Amigos que têm a intençãode valorizá-los— não de criticá-los de forma pejorativa — edar-lhes força para vencer os obstáculos. Normalmente, nestemomento, se estabelece um clima de confiança entre pais e filhosque a escola espera continue lá fora. Faço questão da presençados pais na escola porque percebo que os jovens gostam desaber que têm a proteção de alguém que os ama, que não estãosoltos, que não estão “largados”. Eles mesmos dizem que éimportante que se tenha família unida; é importante estar comas pessoas amadas. Dentro das coisas importantes, das coisas que interessam
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 45aos jovens, há a questão financeira. Afinal os estudos têmtambém esse objetivo: a realização profissional e material.Porém, isso não significa que estejam preocupados, nessemomento, em realizar esses sonhos. “Calma.. eu tenho tem-po para estudar... Você está preocupada com uma coisa queeu sei que vou conseguir.” Sabem de tudo, entendem de tudo.O chato é o adulto que está sempre interferindo em seusassuntos. Percebo, pelas nossas conversas, que parece existir aoredor deles um escudo protetor, pois acham que as coisas ruinsnunca vão acontecer com eles, como acidentes, doenças. Ali-ás, errei. Eles têm medo sim: da AIDS. Será? “Eu uso camisi-nha, seleciono parceiros.”Será que têm mesmo medo? Não sei.Geralmente iniciam a vida sexual muito cedo, trocamfreqüentemente de parceiros, pois a condição inicial para rela-cionar-se é o “ficar” e, logo, já não estão mais, para “ficar”com o outro. Tudo muito natural. Como o cigarro é proibido na escola, recebo muitosdeles questionando: — “Por que não posso fumar? Em casaeu fumo, meus pais sabem. Por que aqui não posso?” Surgenesse momento a oportunidade para falarmos não só do malcausado pelo cigarro, mas da droga em geral. E aí as coisasjá não são tão naturais. O adolescente esconde o uso da dro-ga. Não falo do viciado — que traz o vício estampado norosto, na condição física — mas daquele que usa a droga noembalo da turma. Esse assunto é breve: o jovem que usanão se interessa em abordá-lo, e o amigo que sabe quemusa, não se interessa em estender a conversa. Na verdade temos a oportunidade de falar sobre todosos temas que nos interessam. Tenho a dinâmica de circularentre eles, na entrada, quando ficam aguardando o iníciodas aulas, nos intervalos e no final do período, enquantoaguardam que venham buscá-los — geralmente pais oumotoristas os pegam na saída. Quando quero falar sobre algoque me interessa, procuro um jeito de entrar no grupo e“papo” vai, “papo” vem, lá está o assunto. Quando é algo
    • 46 Cida Sanchesque interessa a eles, fazem o mesmo: me procuram. Essadinâmica me leva a surpresas, algumas vezes: por fazer partedo grupo, acabo por partilhar de segredos, pois sabem quepodem contar com a minha ajuda. Essa confiança e o diálo-go são, sem dúvida, a minha maior força de trabalho paratodos os momentos, bons e ruins. Infelizmente, não são todos os jovens que têm acessoa este tipo de ajuda. Os adolescentes com quem atuo perten-cem a uma classe social mais favorecida, que freqüenta es-colas particulares; são estes, praticamente, os jovens querecebem os serviços dos Orientadores Educacionais. Namaioria das escolas públicas — que atendem os filhos detrabalhadores ou estudantes trabalhadores — não se encon-tra, praticamente, a figura do Orientador Educacional . Tenho a certeza de que a ação do Orientador Educa-cional não seria diferente, caso estivesse se ocupando deadolescentes menos favorecidos. O que afirmo é que, na situaçãoatual, os menos favorecidos, com raras exceções, não recebemos serviços do Orientador Educacional, porque nas escolasgovernamentais que freqüentam não existe a figura desteprofissional. Lá encontram um Coordenador Pedagógico —criado por força do decreto-lei 5.692/71. Há realmente umadiferença gritante entre o CP — que ‘atende’ o adolescentepobre, marginalizado, sacrificado — e o Orientador Educacionalque está voltado para atender o adolescente das escolasparticulares. A adolescência, a meu ver, é a fase mais sonhadora porque passamos, e penso ainda que o adolescente é a criatura maisdesafiadora com que podemos nos relacionar. O seu mundo so-nhado não é este: é sempre um outro — melhor, menos imperfeito,sem injustiças sociais, sem pobres, sem doenças. Mas, se oencontramos triste, angustiado, basta uma boa conversa, para logoo vermos sorrindo novamente. Briga, transgride, afronta, mas, seo diálogo for “numa boa...” podemos conversar. Entendo que viveuma fase afetivo-emocional em que não é mais criança — não sesitua como criança no mundo —, mas também não é adulto. Vive
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 47um período de transição, fazendo uma “travessia” entre acriança e o adulto. O jovem parte dos conceitos e valoresque adquiriu enquanto criança para buscar o seu espaçono mundo, para buscar a si mesmo. Por tanto amor, Por tanta emoção A vida me fez assim Doce ou atroz, Manso ou feroz Eu, caçador de mim Preso a canções Entregue a paixões Que nunca tiveram fim Vou me encontrar Longe do meu lugar Eu, caçador de mim... O adolescente é, desta forma, um caçador/sonhador àprocura de si mesmo e do mundo, até que a maturidade lhepermita encontrar a si mesmo no mundo e o mundo em si mesmo. Crescimento humano O crescimento humano advém de uma das capacidadesque o homem tem, que é a de aprender. É preciso, portanto,fazer referência à aprendizagem para entender o crescimentohumano e à postura do profissional de ajuda como facilitadordesse processo. Quando falamos do processo ensino—aprendizagem paraatitudes de responsabilidade, para o crescimento humano e parao desenvolvimento social, pensamos no aprendizagem le-
    • 48 Cida Sanchesvando em conta não apenas a intelectualidade, como se oaluno fosse um mero receptáculo de saber(Drozdek,1990:p3), mas também as questõesrelacionadascom a inteligência emocional, intuitiva e afetiva, como umser humano total. Ana Gracinda Queluz apóia-se em Virgínia Axline paramostrar que dentro de cada indivíduo parece haver uma forçapoderosa ... que luta continuamente para uma completa auto-realização. Tal força pode ser caracterizada como uma corrida para a maturidade, independência e auto-direção. (1984: p 24) Essa “corrida para a maturidade” implica uma modificaçãoconstante do self que interage com as forças externas do seucampo fenomenal, forças externas oriundas do meio ambiente.O desenvolvimento do self — que ao longo do tempo buscamaturidade, independência e auto-direção — é feito numainteração constante com o campo fenomenal, campo este que éconstituído de temas familiares ao indivíduo. A educaçãohumanista busca ampliar o alcance do campo fenomenal, levando ... para o self do aluno os elementos localizados, tanto no seu campo fenomenal, quanto no conjunto de temas ainda isentos de significação. Rogers acredita numa força interna do indivíduo para realizar essa aprendizagem, isto é, todos os seres humanos têm natural potencial para aprender. Essa força faz com que o indivíduo, movido pela curiosidade em conhecer o mundo em que vive, traga para incorporar ao self os conhecimentos que, explicando o mundo, explicam o homem, uma vez que não há dualidade entre homem e mundo e sim uma interação: um criando e modificando o outro. (Queluz, 1984: p. 26) Essa potencialidade para a aprendizagem é uma formainterna que envolve a pessoa como um todo. Assim, o objetivo
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 49do ensino humanista é facilitar a realização dessapotencialidade. Por crescimento humano entendo a aquisição, por partedo adolescente, de um espírito de confiança, pela consciênciade seus atos e compreensão da sociedade da qual participa,para o amadurecimento dos seus valores e, conseqüentemente,da liberdade para as suas conquistas sociais, pessoais, emo-cionais que, na verdade, se resumem em conquista da inde-pendência. ... O que foi dado ao indivíduo como bom e valioso, quer pelos pais, pela Igreja, pelo Estado ou pelos partidos políticos, tende a ser questionado. Os comportamentos ou modos de vida que se provaram satisfatórios e plenos de sentido tendem a ser reforçado... Assim o indivíduo passa a viver cada vez mais segundo um conjunto de normas que têm uma base interna, pessoal... Não são esculpidas na pedra mas escritas por um coração humano. ( Rogers,1983:p.61) Profissional de ajuda Neste contexto entendo ser o Orientador Educacional umfacilitador desse processo, cabendo a este profissional, portanto,criar condições através de um clima propício. Ana Gracinda Queluz (1984:p.23) busca em Tolbergalgumas competências inerentes à ação deste facilitador: · ser capaz de criar uma situação amiga, permissível e segura, na qual o aluno falará livremente e reagirá de forma natural; · ser capaz de compreender o aluno, através da observação; · ser capaz de ganhar uma melhor compreensão do aluno através das suas produções em geral; · ser capaz de sintetizar os vários tipos de informação sobre o aluno,
    • 50 Cida Sanches a fim de compreendê-lo melhor como pessoa; · ser capaz de ajudar o aluno a localizar e utilizar informações que lhe permitirão uma compreensão maior de si mesmo e de suas reações com os outros; · ser capaz de ajudar o aluno a localizar informações sobre oportu- nidades escolares, profissionais, sociais, etc.; · ser capaz de ajudar o aluno a tomar decisões, fazer planos, assumir responsabilidades; deve evitar dizer ao aluno: faça isto ou aquilo, porque neste caso estaria assumindo por ele a responsabilidade de seus atos; · ser capaz de reconhecer suas competências: auxiliar aqueles alunos a quem puder assistir, de forma efetiva e encaminhar os que têm problemas de ajustamento mais sérios. Dessa forma será possível ao facilitador propiciar um climafavorável à aprendizagem, pois esta é realizada a partir deexperiências vivenciadas pelo homem dentro de um clima deconfiança e aceitação, capaz de promover mudanças construtivasno indivíduo. Rogers sugere três atitudes fundamentais, que facilitam otrabalho dos profissionais que tenham como objetivo promover ocrescimento de pessoas, atitudes essas desenvolvidas por elena terapia centrada-na-pessoa: congruência ou autentici-dade, aceitação e compreensão empática. (1986) Congruência ou autenticidade Conceituando congruência ou autenticidade, Rogers dizque o profissional deve vivenciar livremente seus sentimentos eatitudes, ser transparente, verbalizar e exprimir seus sentimentosde forma autêntica, sem fachada. Dessa forma, o profissionalfacilita o crescimento do cliente quando oferece a liberdade paraque ele tenha o mesmo comportamento. Segundo ele, são ossentimentos e atitudes que promovem a ajuda, quando expressos,
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 51e não a opinião ou o julgamento sobre o cliente. Um profissional facilitador, seja este Professor ouOrientador Educacional, dentro de um clima caloroso e de con-fiança mútua, demonstra ser congruente e autêntico, segundoDrozdek, quando é espontâneo em sua interação com o alunoe mostra-se aberto para todos os tipos de experiência, tantoas agradáveis quanto as desagradáveis (p.13). O profissionalfacilitador ... emprega construtivamente suas próprias respostas emocionais autênticas, comunicando-as ao aluno no intuito de desvendar para si mesmo e para o outro a natureza da situação evidenciada, para que, juntos, possam compreendê-la e transformá-la, se desejarem. (1990:p.13) Vera Lúcia Duarte, com relação a este conceito diz: ... A congruência traz a descoberta de que o Adolescente, a partir dessa experiência, pode encarar-se e não negar à sua consciência elementos que a ela não se ajustam. Ser genuíno significa estar consciente dos próprios sentimentos e é sendo real e verdadeiro consigo e nas relações, que o outro poderá ser veraz, tendo em vista que se trata de um processo recíproco. (1996: p.28) Aceitação A consideração positiva incondicional é a aceitação plenado outro com estima e respeito, de maneira que, se o facilitadorperceber restrições em relação ao sentimento, conduta ou valoresdo outro, ele retoma essa restrição em relação à sua congruência.É nesse movimento de volta a si mesmo, com esse contato comos seus próprios sentimentos, que o facilitador aceita o sentidocomo pertencente à sua vivência. Para Rogers a consideraçãopositiva incondicional
    • 52 Cida Sanches ... é o elemento que oferece o movimento de mudança construtiva. Eu aceito o outro como ele é. Quando você depara-se com alguém escutando com atenção seus sentimentos, torna-se capaz de escutar com atenção a si mesma. (1986: p.18) Quanto a isto, Vera Lúcia Duarte afirma que a ... Consideração positiva incondicional é a aceitação do outro como ele é em sua totalidade; como ele se sente no momento: é o apreço genuíno pela pessoa [do cliente] e por sua capacidade de atualização.(1996: p.30) Atuar como profissional facilitador na relação de ajudaimplica reconhecer que o aluno é uma pessoa em evolução, comdireitos a experiências e sentimentos próprios. Para tanto aaceitação total deste como pessoa, a aceitação do seu mundointerior com realidades agradáveis e desagradáveis, é funda-mental para que haja a compreensão empática exata do aluno. Compreensão empática A compreensão empática é uma forma de entender osfatos em relação ao outro. É a capacidade desenvolvida pelofacilitador de perceber, de sentir o mundo interior do outro, desentir suas emoções de forma sensível e espontânea, sem defesas...sentir precisamente os seus sentimentos e os significadospessoais que estão sendo vivenciados e lhe comunicar estacompreensão (Rogers, 1986: p.18). Essa compreensão empática do mundo interior do alunoque o facilitador faz ... não deve se reduzir a uma compreensão dos sentimentos e experiências dos quais o aluno está plenamente consciente, mas deve se estender à totalidade do seu mundo. É necessário estar atento aos
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 53 sentimentos que estão sendo expressos apenas indiretamente ou que estejam implícitos na comunicação do aluno. (Drozdek,1990:p.20) Vera Lúcia Duarte faz uma esquematização do originalde Rogers e Rosemberg, para definir de uma forma geral a com-preensão empática: — sentir-se totalmente à vontade dentro do mundo perceptual do outro em relação aos significados sentidos (medo, raiva, ternura); — ter sensibilidade para as mudanças que se verificam no outro; — sentir-se temporariamente como se fosse o outro; — perceber os sentimentos do outro, dos quais este não tem consciên- cia, mas não os revelar a ele para evitar-lhe a sensação de ameaça; — não julgar; — transmitir como sente o mundo do outro; — examinar, sem viés e sem medo, os aspectos que o outro teme ; — avaliar (no sentido de checar) com o outro a precisão dos sentimen- tos e percepções (do facilitador) em relação aos sentimentos do outro; — ser companheiro desse mundo interior do outro; — apontar os possíveis significados (os conscientes) presentes no fluxo de suas vivências; — ajudar o outro a vivenciar os significados de forma mais plena, e progredir nessa vivência; — deixar de lado os seus próprios pontos de vista e valores para entrar no mundo do outro sem preconceitos; — deixar de lado seu próprio eu, momentaneamente. Para isto o facilitador deve estar suficientemente seguro para não se emaranhar no mundo estranho e bizarro do outro. (1996:p.33) A compreensão empática deve ser comunicada ao alunopara que este possa, a partir do diálogo, entender os seus senti-mentos e atitudes, tornando-se capaz de reconhecer os seus va-
    • 54 Cida Sancheslores ou fortalecê-los. Desta forma, entendo como profissional de ajuda oeducador que atua como facilitador através das atitudes de con-gruência ou autenticidade, aceitação e compreensão empá-tica, para o desenvolvimento do crescimento humano doeducando.
    • “É importante que todos tenham conhecimento do aluno como um todo: social e cultural, porque este trabalho tem que ser com o coração, uma coisa sentida e não só racional”.(S9) CAPÍTULO II O que é ser orientador educacional? O s Orientadores Educacionais reconhecem-se, semdúvida, como profissionais de ajuda ao adolescente. Identifiqueiesse reconhecimento nas entrevistas que coletei, destacando ascategorias descritivas que demonstraram tal relação. A análise das entrevistas que realizei mostra que, no dis-curso e na descrição da ação dos Orientadores Educacionais, aconstante presença de categorias descritivas que estabelecemuma inquestionável relação com o eixo temático da pesquisa: oOrientador Educacional como profissional de ajuda ao adoles-cente. A opção pelo outro Acredito que, quando uma pessoa faz opção pelaeducação, está fazendo uma opção pela dedicação ao outro.Procurei saber, então, de cada entrevistado, por que motivo optou
    • 56 Cida Sanchespela área de educação. Quem e o que foi mais significativo paraque a sua trajetória culminasse na profissão de Orientador Edu-cacional? Três categorias descritivas conectam-se com este tema,o saber, motivação e crença: Origem: exprime as causas que levaram o entrevistado a optar pelo campo da ação educacional. Motivação: expõe os motivos que levaram o entrevistado à Orientação Educacional. Crença: neste subcapítulo, a categoria descritiva crença refere-se a valores, convicções e opiniões cujos objetos são as causas que levaram o entrevistado a optar pelo campo da ação educacional ou motivos que o levaram à Orientação Educacional. São diversas as causas que levaram estes profissionaispara a Educação. Entre elas, entretanto, mostrou-se prepon-derante a influência da família, dos bons professores e dos bonscursos, e a necessidade de trabalho. Podemos afirmar isto combase nas seguintes citações: Fiz colégio normal, ainda na época do clássico, motivada pela família, que era de professores. (S4) Meu pai dizia que podíamos ter qualquer profissão, mas tinha, obrigatoriamente, que ser professora. (S1) Fui levada para ser professora por solicitação do meu pai. Sou professora do ensino fundamental. Fiz curso normal para tornar-me professora mais ou menos direcionada por meus pais; eu não tinha muita consciência da escolha... Pensava: Eu não posso ficar aqui parada como professora nível I; preciso fazer alguma coisa na minha vida. Aí fui fazer pedagogia na PUC. (S2) Sempre gostei da área de Humanas. Mas fiquei apaixonada pela Educação. O curso era muito bom na escola experimental e, assim, acabei fazendo Pedagogia. (S1)
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 57 A escolha pela Educação, pela profissão como educadora, está muito relacionada com alguns modelos —- bons modelos e antimodelos — do segundo grau: professores, que foram incentivos... Fui incentivada na educação com bons professores. (S3) Eu não queria ficar desempregada e a Educação estava mais fácil. (S10) Posso dizer que os Orientadores Educacionais tornaram-se educadores por opção, já que a sua entrada para a Educaçãofoi, na maioria das vezes, por escolha própria. Isso foi observadoespecialmente nos sujeitos que tinham por objetivo dar aulas.Independentemente da sua formação superior, buscaram umcurso que lhes possibilitasse lecionar — transmitir conhecimento.É o que podemos observar nas afirmações seguintes: Fui fazer o curso superior de Ciências Sociais já com intenção de dar aulas, mesm... Foi por opção que eu entrei na área da Educação. Quando optei por uma faculdade, já estava estabelecido que seria uma formação para que eu pudesse lecionar. (S8) Aí eu entrei na faculdade, no curso de Pedagogia, por opção mesmo. (S6) Queria era estar em contato com a pessoa, para passar o meu conhecimento, eu queria, na realidade, era dar aula. (S7) A opção pela educação também está ligada ao interessedesses profissionais pela formação e ajuda às pessoas. Há umimpulso interno, um ideal a realizar. E a concretização desseideal passa pelo caminho de ajudar o outro: Tem um lado romântico a minha escolha pela Educação. Tem um lado idealista. Hoje eu posso falar desse romantismo, mas era muito certo para mim que tinha que ser alguma coisa que trabalhasse com o ser humano, que estivesse ligada a um tipo qualquer de ajuda ao homem, à formação de pessoas. (S3) O fato de participar constantemente das atividades escolares e dos
    • 58 Cida Sanches encontros de jovens me dava cada vez mais a certeza de que eu queria fazer Magistério. (S5) Quando fiz Psicologia, já foi pensando em trabalhar com a educação. Foi sempre um trabalho paralelo, psicopedagógico. Eu gosto muito de trabalhar com adolescentes. (S9) Então eu fiz a opção por um curso de ajuda [Psicologia]. (S10) Quando analisada a motivação, isto é, as razões que leva-ram o entrevistado à Orientação Educacional, observa-se a exis-tência de uma série de motivos. Um deles é a própria continuidadeda profissão: a experiência como professor, o contato com alunos,a identificação, ou mesmo as dificuldades com as atividades es-colares, fizeram com que os profissionais se percebessem compotencial para atuar como Orientadores Educacionais: A relação com os alunos foi uma coisa fundamental para o meu início como Orientadora Educacional... Minha experiência com os alunos fora e dentro da sala de aula me favoreceu no trabalho de Orientadora Educacional. (S7) A Orientação Educacional tinha muito a ver com a área que eu escolhi, que era a psicologia e, com a minha experiência como professora, percebi que dava para fazer um trabalho paralelo. (S4) Todo este desenvolvimento que me levou à Orientação Educacional foi incentivado pelos professores que tive e pela minha experiência em sala de aula. (S5) [ o motivo] Era procurar resolver algumas dificuldades que, como professora, eu não estava conseguindo. Era a busca de mais informações, de mais conhecimento. Eu queria aprender mais, eu sentia que tinha mais capacidade do que aquela que estava desenvolvendo. (S2) A escola me solicitou uma ajuda com relação ao apoio aos professores e aos alunos, enfim, uma ajuda na orientação da escola, incluindo a organização geral. (S8) Nem sempre a iniciação por um caminho profissional sedava pela opção de atuar dentro de uma área em que o conteúdo
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 59fosse interessante, ou pelo prazer da continuidade e evoluçãodentro da profissão. Ao contrário, às vezes se dava justamentepela falta de opção: Todo o grupo [faculdade] da tarde optou por Orientação Educacional. Portanto, se eu optasse por Administração Escolar teria que seguir com a turma da noite, e eu já tinha compromisso: não podia mudar de período. Então, fiquei com a turma na habilitação de Orientação Educacional. (S1) Fui para a Educação por acaso... [como funcionária da Secretaria, na escola] Atendi os problemas da Tesouraria, da matrícula por quase um ano. Aí eu passei para a Orientação, que também não era uma coisa que eu queria. (S10) Mas há outros motivos que levaram para a OrientaçãoEducacional e localizam-se dentro do próprio curso de formação.Alguns dos entrevistados optaram pela Orientação Educacional,encantados com a possibilidade de desenvolver a temática apre-sentada no curso: Escolhi Orientação Educacional pela própria descrição da função que era colocada na faculdade na hora de fazer a opção. Era uma outra linha de orientação muito próxima, junto ao aluno e eu fiquei encantada. Tinha uma proposta, nessa relação próxima ao aluno, de ajuda. Tinha uma relação, junto ao professor, e de tudo isso eu gostava. (S6) Toda a temática, todo o conteúdo ligado à matéria de Orientação Educacional me apaixonava. (S3) Um conjunto de crenças nortearam as opções feitas pelosOrientadores Educacionais. Diria que, principalmente, elesacreditam no trabalho realizado com o coração. Mesmo aquelesque entraram na profissão por acaso, ou por falta de opção,acreditam no trabalho como canal de ajuda.
    • 60 Cida Sanches Eu achava que [a educação] era uma maneira de ser útil e ajudar os outros. Eu acho que na vida devo fazer o que gosto, com que me dê bem — mas que também possa ser um canal para ajudar os outros. (Sl) Acompanhar o crescimento, o desenvolvimento de uma pessoa é fascinante. A formação das pessoas tem que ser uma opção do profissional... Para educar é preciso ter uma predisposição da própria personalidade do indivíduo, ou ele será mais um burocrata, ficando só no papel: não criará, não desenvolverá, não cativará o aluno, não conquistará o seu espaço. (S8) Esse trabalho tem que ser com o coração, uma coisa sentida e não só racional. (S9) O meu lugar é junto do aluno. Por esse motivo eu voltei para a Orientação Educacional em 1986. (S2) Acabei achando que eu nasci para isto mesmo. Mas eu não tinha essa consciência: eu caí nesta área. (S10) A ação do Orientador Educacional Como é ser Orientador Educacional de adolescentes doensino médio? Como se desenrola a rotina do cotidiano profissionaldo entrevistado? Estas são as questões que analisarei nestesubtítulo. Pode-se observar que a ação do Orientador Educacional— como educador — é uma ação múltipla, multifacetada. Quandoconsiderada na sua totalidade, a ação do Orientador Educacionalcobre vários aspectos, incluindo aqueles referentes à sua açãocomo profissional de ajuda. Entretanto, por um quesito meramentemetodológico, dividi a ação do Orientador Educacional, focandoa condição de ‘profissional de ajuda’ no subcapítulo seguinte. Três categorias descritivas estão associadas à atividadedo Orientador Educacional dentro da instituição educacional: Atividade: indica qualquer ação ou trabalho específico desenvolvido pelo entrevistado na sua função de Orientador Educacional.
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 61 Esta categoria descritiva expressa unicamente a atuação do Orientador Educacional no seu cotidiano. Portanto, verbos tais como: trabalhar, preparar, levantar, realizar, tendem a expressar tais ações. Cabe ressaltar que o Orientador Educacional, quando exerce o papel de “profissional de ajuda”, o faz por meio de ações que poderiam ficar abarcadas por esta categoria descritiva. Porém, dada a impor- tância dessas atividades para o meu estudo, essas ações foram espe- cificamente demarcadas através de outras categorias descritivas, que serão explicitadas adiante: escuta, facilitação, promoção. Parceria: representa o auxílio que o Orientador Educacional busca com outros profissionais da instituição educacional, pais e os próprios alunos, para melhor desenvolver sua ação ou seu trabalho. Crença: neste subcapítulo, a categoria descritiva crença refere-se a valores, convicções e opiniões cujo objeto seja a ação do Orientador Educacional. As ações exercidas pelos Orientadores Educacionaisestão concentradas no atendimento ao aluno, fundamentalmentee, depois, na orientação aos pais e professores que, na verdade,atuam como apoio para o desenvolvimento das suas funções.Os Orientadores Educacionais entendem serem o professor eos pais os principais parceiros em seu trabalho. Para tanto, pais,professores e Orientador Educacional procuram estar sempreem contato, para caminhar em harmonia e juntos poder facilitaro desenvolvimento do educando dentro de uma mesma filosofia. São diversas as atividades que os entrevistados desen-volvem; entre elas está a atividade de organizar grupos deestudo, com o objetivo de incentivar e aprimorar a capacidadedo aluno para a aprendizagem, discutindo suas dificuldades,ajudando-o a entender as qualidades de um bom estudo: Preparação de um horário de estudos racional; levantamento de dificuldades e busca do respectivo auxilio; treino de concentração para estudos; leituras complementares; grupos de estudos... (S1) O projeto de orientação de estudos se propõe a ensinar o aluno a
    • 62 Cida Sanches cronometrar seu tempo. (S2) Eu os ensino a estudar, a prepararem-se para as provas, a entender que estudo é um trabalho diário e não só antes da prova.(S3) Incentivar o aluno a pesquisar... Faço muito pouco acompanhamento por nota, quase nunca é foco da chamada. (S6) Procuro desenvolver a auto-ajuda, o auto-estudo, a autodisciplina e o autoconhecimento. (S8) Para que o aluno possa fazer a sua escolha profissionalcom confiança, os entrevistados atuam de forma a facilitar-lheo conhecimento quanto à sua vocação: O meu trabalho junto aos adolescentes acontece dentro dos projetos de orientação vocacional, orientação sexual e orientação de estudos. (S2) O projeto de orientação vocacional compreende o estudo do mercado de trabalho com pesquisas em jornais sobre oferta e procura de empregos nos diversos setores. (S2) Fazia Orientação Vocacional que era o nosso carro-chefe. (S2) Faço levantamento conjunto de várias facetas a serem consideradas na tomada de decisão. (S1) O Orientador Educacional, com as suas ações, procuraencontrar caminhos que proporcionem um ambiente saudávelpara o desenvolvimento do processo de aprendizagem: Trabalhamos para que a escola seja um ambiente de equilíbrio na vida do jovem. (S3) Discutiremos os caminhos para estarmos confortáveis e ativos... Vou usar a disciplina de Filosofia, entrando duas vezes por mês nas salas, com objetivo de dar uma direção aos alunos. (S9) Ajudo o aluno a refletir, a observar as situações nas quais está envolvido. (S4)
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 63 Orientamos estes alunos por todos os instantes, até mesmo nas questões disciplinares... Atuo como Orientadora com todos os alunos, bem próxima a todos. Não sou capaz de ficar numa sala aguardando um aluno encaminhado, ou para encaminhá-lo. (S3) E tem o outro lado que é o de controlador social, o de impor limites: ser a ordem, manter a escola organizada, não aceitar bagunça ou anarquias, jamais. (S8) Pego alguns temas, de acordo com a necessidade dos adolescentes e os discutimos... São momentos de ajuda com a finalidade de reflexão em todos os instantes, em grupo e individualmente. (S7) Entre os projetos de estudo, a pesquisa com relação àsatividades mostra, também, o projeto de orientação sexual: O projeto de orientação sexual objetiva informar sobre conteúdos necessários ao conhecimento biológico do corpo humano; mostra as diferentes opiniões em relação à questão sexual que, professor, aluno e pais tinham. (S2) Fazíamos o encontro da orientação sexual. Tínhamos uma caixinha, onde eram depositadas as questões sobre sexo. (S2) O trabalho do Orientador Educacional estrutura-se no tripéformado por aluno-família-escola, no qual os demais profissionaisdesempenham um papel relevante. Deve-se entender que o apoioque o Orientador Educacional busca e recebe é fundamentalpara a realização do seu trabalho. De uma forma geral o Orientador Educacional busca apoioem toda a estrutura organizacional, desde o Diretor até o próprioaluno, bem como na família. Este trabalho é realizado por meioda orientação e atendimento aos pais, alunos e professores,objetivando a harmonia do grupo e seu bom relacionamento: Minha ação é de total parceria com a escola toda. (S6) Procuro quem me ajude, procuro uma parceira para realizar o
    • 64 Cida Sanches necessário. (S2) Trabalho junto ao professor e junto ao aluno e ainda com toda a equipe de apoio: é muita coisa. (S6) Trabalho totalmente integrado com a Direção, professores e alunos, pois somos todos formadores e responsáveis pelo processo de mudança e crescimento do aluno. (S4) Fazemos parceria profissional: fazemos trocas de conhecimentos [com psicólogos e fonoaudiólogos] para que o nosso universo não fique muito restrito. (S3) O professor é considerado como um parceiro na cons-cientização do aluno e como fonte de informação das necessi-dades mais imediatas dos alunos: Trabalhar essa questão do desenvolvimento humano, de reflexão e também o apoio ao professor. (S9) Não podemos trabalhar com a Orientação voltada somente para o aluno. Precisamos entender a alma do professor... Precisamos avaliar como deve ser estar no lugar dele em determinados momentos; entender o processo de ensino para saberd o que o professor precisa para melhor ensinar. (S7) Acabo trabalhando com os professores da série que eu coordeno: um trabalho preventivo, pedagógico. Trabalho junto dos outros coordenadores de série, que são todos professores. (S3) O professor tem a oportunidade de estar registrando o desempenho geral do aluno: se o aluno falta muito, se tem uma ação pertinente, se está isolado, enfim, coisas que acontecem que precisam chegar até a Orientação. (S6) Faço o trabalho com os professores, com base nos valores que todos têm em comum. (S6) Trabalho muito junto ao professor, e tenho uma atuação junto ao aluno, mas é maior com os professores. (S6) [O Orientador Educacional] Precisa do professor como seu parceiro. (S6)
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 65 Trabalho “meio que” costurando entre as equipes de professores e de coordenadores. (S3) Professores que são os meus parceiros internamente. (S3) Eu tenho um trabalho com professores que acontece semanalmente, em que o professor vai-me passando as suas dificuldades, as dificuldades dos alunos. (S4) ... Fazer com os professores, reuniões semanais, em que todos, de cada série, participem ativamente neste processo de crescimento do grupo em apoio ao aluno. (S9) [Pretendo] trabalhar, essa questão do desenvolvimento humano, de reflexão e também o apoio ao professor. (S9) Os pais também são chamados a participar do processo,seja como provedores de apoio ao trabalho desenvolvido peloOrientador Educacional, seja como fruidores de apoio para quedesempenhem mais facilmente o seu papel: Estou sempre em contato com os pais, para que eles participem dessa formação, sintam-se responsáveis, junto com a escola, dessa preparação do jovem, aluno e filho. (S8) “Localizo” os pais para que entendam que são eles os protagonistas e não a escola. (S7) Recorre à família quando é necessário. (S3) Fazíamos um trabalho com os pais, quando sentíamos a necessidade da família: chamávamos para participar de uma reunião em que contávamos sobre o que as crianças faziam e ouvíamos as queixas dos pais. Depois falávamos um pouco do desenvolvimento dos filhos.(S2) O papel da Orientação é buscar formas para convocar os pais para palestras, cursos e entrevistas. (S2) Orientava pais que me procuravam para saber como agir com determinadas atitudes dos seus filhos. (S2) Realização de entrevistas, cursos, reuniões com pais, para que os mesmos possam melhor compreender seus filhos. (S1)
    • 66 Cida Sanches [O Orientador Educacional com a sua prática ou com o diálogo, ou participando aos pais a problemática desse aluno e no dia-a-dia tentando adaptá-lo à escola. (S10) O próprio aluno, que é objeto da ação do OrientadorEducacional, também é apoio no processo, ajudando-o comointerventor junto aos colegas e na organização escolar. Sobreeste aspecto, alguns entrevistados acreditam que: Orientador e professor precisam trabalhar juntos com os alunos, caso contrário o trabalho fica pela metade. ( S1) [Tenho um papel de] desencadear o processo com o professor, desafiar o aluno com o papel de organizar, isso tudo a partir das suas crenças. (S6) Trabalhar com representantes de classe que possam estar liderando esse movimento de estar trazendo as necessidades das salas e até respondendo pelos atos desse grupo. (S9) Trabalhamos com representantes de classe, que são os representantes dos alunos em todas as situações. Faço uma reunião quinzenal com esses representantes e eles têm espaço para trabalhar e reunir-se sempre que querem e precisam. (S6) Discutimos [Orientação e alunos] as normas da escola, as avaliações, a organização dessas avaliações dentro da semana, a metodologia, etc. (S6) Faço um acompanhamento com as auto-avaliações feitas pelos alunos com relação aos professores, ao curso, à programação e à escola... Trabalhando com conselhos de classe, envolvendo o trabalho do professor numa auto-avaliação. (S6) Os entrevistados acreditam que necessitam desenvolverações específicas para conquistar o seu próprio espaço e obterresultados: Os Orientadores precisam conquistar o seu próprio espaço: eles precisam demonstrar que são competentes para assumir a posição de Orientador Educacional. (S1) [A atividade do Orientador Educacional é feita através de] um processo
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 67 lento, com muita conquista e dedicação, para se ter sucesso, pois é necessário ter respeito aos problemas particulares dos alunos. (S4) Os entrevistados acreditam que o estabelecimento de par-cerias — com professores, outros profissionais e pais — éimportante para facilitar o trabalho com o educando. Ressaltamtambém que é importante que todos comunguem da mesma filo-sofia da instituição: Somos todos uma equipe que funciona a serviço de todos: tanto do professor quanto do funcionário de apoio, e estamos sempre atuando para o aluno. (S6) A preparação dos professores é um caminho para trabalhar a conscientização do aluno, pois somos todos responsáveis, mas o professor é o primeiro envolvido no processo. Precisamos congregar as mesmas idéias, os mesmos objetivos da escola. (S9) Você tem que estar atenta a tudo, concentrada em todos os aspectos e com toda a equipe envolvida no processo, inclusive os pais. (S6) Em contrapartida, observou-se que essa assistência nãoexiste nas escolas estaduais, em função da junção dos cargosde Orientador Educacional e Assistente Pedagógico: O trabalho da Orientação Educacional perdeu-se: paramos de o fazer. Não tínhamos mais tempo para essa assistência; não entrávamos mais em sala para fazer orientação de estudos; deixamos o trabalho de Orientação Educacional. (S2) Dessa forma os adolescentes das escolas da rede estadualnão mais recebem o apoio específico do profissional de OrientaçãoEducacional para sua formação, ao contrário dos alunos das redesparticulares. O apoio e orientação que aqueles recebem sãooferecidos por professores com boa vontade, preocupados coma formação dos seus alunos.
    • 68 Cida Sanches Profissional de ajuda O ponto fulcral do meu trabalho assenta-se na constataçãoda ação do Orientador Educacional como “profissional de ajuda”.Aqui mostro como o entrevistado desenvolve o processo de “pro-fissional de ajuda”, na sua rotina dentro da instituição. Para isso fui buscar em Carl Rogers três atitudes funda-mentais no seu entender, que facilitam o trabalho dos profissio-nais que tenham como objetivo promover o crescimento depessoas, desenvolvidas por ele na terapia “centrada-na-pessoa”são: congruência ou autenticidade, aceitação, e compre-ensão empática. Estas três atitudes, que ajudam considera-velmente na construção de um relacionamento maduro e menosdesgastante e que podem, ainda, fazer aumentar a possibilidadede auxilio nos processos de mudança, foram identificadas nafala dos entrevistados. Entendi que era importante sublinhar asdiferentes atuações do Orientador Educacional referentes aomodo de proceder ou agir como profissional de ajuda. Para taldesenvolvi as seguintes categorias descritivas: Escuta: refere-se a uma ação que envolve uma postura de ouvir o outro numa atitude sensível e de forma empática. Esta escuta permite que o outro tenha a oportunidade de expor livre- mente o seu pensamento, num clima de confiança, discutir o exposto com aceitação e respeito, sem críticas pejorativas. Esta escuta empática tem como resultado o amadurecimento dos valores do interlocutor. Facilitação: indica atuação no sentido de auxiliar o desenvolvimento de relacionamentos interpessoais, envolvendo alunos e professores. A ação de facilitar geralmente estrutura-se em torno de uma dada condição existente sobre a qual o Orientador Educacional atua. Este auxílio, expressa-se comumentemente por ações cujos verbos dominantes são: relacionar, incentivar, observar. Para tal o Orientador Educacional deve estar atento ao processo ensino-aprendizagem,
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 69 observar o comportamento do grupo, objetivando favorecer seu bom relacionamento e suas propostas e necessidades para um bom de- sempenho e desenvolvimento. Promoção: exprime atitudes concretas objetivando propiciar oportunidade para mudanças e reflexões, para que o adolescente se perceba responsável, capaz, independente e crítico. A ação de promover geralmente é construída em torno de uma dada condição ou situação inexistente para a qual o Orientador Educacional atua. Crença: Neste subcapítulo, a categoria descritiva crença refere-se a valores, convicções e opiniões cujo objeto seja a ação do Orientador Educacional como ‘profissional de ajuda’. Para o Orientador Educacional o diálogo tem uma desta-cada importância. A categoria descritiva escuta salienta aimportância do diálogo, quando mostra que os entrevistadospercebem a necessidade que o jovem tem de relacionar-se,inclusive no ambiente escolar, com pessoas disponíveis paraajudá-los a refletir e a entender os seus problemas: Sabem, por exemplo, que, a qualquer momento podem me procurar que serão ouvidos. (S7) Procuro mostrar confiança e segurança aos alunos; acolher o mais próximo possível e estar sempre disponível para ouví-los, a qualquer momento, quer a portas fechadas ou no pátio. (S3) É importante para elas [alunas] poder contar com alguém que possa ouvi-las e orientá-las com uma palavra amiga, segura e, principalmente, que possa dar atenção aos ‘grandes’ problemas que estas jovens têm. (S5) Ouvir é, também, uma forma de desenvolver no aluno acapacidade de ser ouvinte, a capacidade de promover um diálogoe de conduzir as suas próprias reflexões: Eu não digo o que está certo ou errado, sentamos juntos e avaliamos
    • 70 Cida Sanches o comportamento em questão, através do diálogo e da reflexão. (S7) O aluno aprende a trabalhar com o diálogo, a possibilidade de falar sempre, mesmo que o condenem, mas precisa falar, precisa de um ouvinte. Isso está na fala do aluno, ele gosta de ter a oportunidade de falar. (S7) Vamos conversar sobre esses problemas. O mais importante é que surge nesse momento a possibilidade de reflexão sobre o seus atos. (S4) Temos muito que os ouvir e refletir, para que possamos nos entender e aprimorar. (S6) O diálogo tem ainda o seu lado funcional para a práticaescolar, visto que, por meio dele, o aluno descobre no OrientadorEducacional uma pessoa que pode atendê-lo nas suas diversasdificuldades, sociais, afetivas e culturais: Sou um ouvinte dos seus problemas — de qualquer ordem: familiar, sentimental (aquele namoro que não dá certo), dificuldade na aprendizagem. (S8) Sou uma pessoa à disposição para ouvi-los, atenta às suas necessidades escolares e sociais. (S8). No caso do entrevistado (S6), sua atuação se desenvolvenuma comunidade escolar que possibilita ao aluno a oportunidadede estar discutindo suas necessidades atuais em termoseducacionais: Ouvir os alunos para saber o que eles gostariam de estar recebendo na disciplina, o que eles estão precisando ouvir. (S6) Uma das preocupações do Orientador Educacional é iden-tificar sinais de necessidade de ajuda. Para um profissional atuarcomo facilitador, as entrevistas mostram a importância de teruma atitude pró-ativa, voltada para identificar os sinais de neces-
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 71sidade de ajuda que qualquer elemento do grupo emita. Para tal,ele deve estar atento ao comportamento diário do aluno: Tem que ter olho clínico para estar percebendo que fatores de ordem afetivo-emocional podem estar interferindo naquele momento da vida do aluno. (S10) No dia-a-dia isso vai aparecer em suas atitudes, como observador: se o aluno está triste, “sacar” se há algum problema, se vão “apron- tar” alguma, enfim, ter a percepção das coisas. (S10) O Orientador Educacional, com a sua atitude de ouvinte,na verdade abre o principal canal para atuar como agente faci-litador na escola, junto aos alunos e professores. Com osprofessores pode discutir os objetivos e metas a serem alcançados,clarear a filosofia da escola, explicitar os seus conceitos e mé-todos, concretizando, dessa forma, sua atuação como agentefacilitador: É importante discutir com os professores todo esse lado, assumir o seu papel que vai além da formação de conceitos. (S1) Incentivo para que os objetivos e metas sejam alcançados da melhor maneira possível. (S1) Estou procurando ajudar os professores. Ser alguém que possa capacitar o nosso professor para atuar na sala de aula; alguém que possa capacitá-lo para diagnosticar a comunidade de forma diversificada na escola... Fui procurar como fazer um trabalho individualizado. (S2) Quero que o professor seja capaz de fazer um diagnóstico da sala de aula, de atuar com um trabalho diversificado na sala de aula. (S2) Promover a relação do professor com a escola, até para que ele [professor] seja mais eficiente para com seus alunos. (S4) Este trabalho é feito procurando discutir as idéias que secompartilham, desde as questões disciplinares até o conteúdo
    • 72 Cida Sanchesprogramático, não deixando nunca de estar atento às necessida-des dos professores e do grupo: Atuar como facilitadora junto ao professor, clareando, discutindo e atualizando as idéias... Atenta para ver por onde se pode seguir, e discutir, não importa com quem, as prioridades. É preciso ter pessoas juntas que estejam comungando das mesmas idéias; é preciso ter um grupo. (S6) Estar presente com o professor até a questão do conteúdo; é facilitar a relação entre professor e aluno. (S7) Descobrir que os professores precisam de ajuda e que eu preciso ajudá-los a resolver. (S2) [conselho de classe] os professores percebem a sala, como também percebem a disciplina de cada um. A percepção da disciplina de cada um e da classe, eu trabalho individualmente com cada professor. (S6) Os entrevistados falam da necessidade de estarem atentosao processo de ensino-aprendizagem, verificando o equilíbriono relacionamento professor-aluno, aluno-aluno, e inclusive aorelacionamento da equipe escolar, visto que esta harmonia éconsiderada fator importante para este processo: Fortalecemos o grupo sempre comunicando dos fatos e ouvindo o grupo. (S6) O fundamental na minha atuação é a prática, a emoção; é estar atenta. (S3) Dá a oportunidade do aluno estar se abrindo para ser ajudado; é apoio ao professor para facilitar suas relações com os alunos e com os próprios colegas de trabalho. (S4) Equilibrar a relação aluno-aluno, professor-aluno, aluno-professor, acompanhamento de estudos, os valores dos seus grupos diferentes, lar, escola, comunidade. (S4) Discutimos as relações e as dificuldades desse relacionamento, a questão da aprendizagem e da adaptação. (S4)
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 73 Ainda na intenção de desenvolver esta harmonia, a atitudede facilitador também aparece nas entrevistas, quando osentrevistados fazem referência à necessidade de o OrientadorEducacional clarear o papel do adolescente, o papel do professore até o papel da própria família: A integração deste aluno é a sua relação com a escola e seus participantes. Numa relação de grupo, ele deve saber seu lugar no grupo, seu papel como aluno e como amigo. (S4) O jovem tenta executar bem o seu papel, mas às vezes esse papel não está bem claro. (...) (Precisamos situá-lo mostrando a todo o instante: “Esta é a sua família, este é o seu papel na família, esta é a sua sociedade e este é o seu papel na sociedade”. (S3) Você vai conversar e questionar: “Se você fosse um adulto, como é que você agiria?” (S10) É difícil, também, para algumas pessoas serem pais: eu preciso ter compreensão disso também. Esse é o papel que às vezes eu preciso estimular e mostrar nos nossos encontros. Quando percebo que a família está perdida, solicito que cada um deles verifique seus próprios papéis, pois sei que não é fácil assumi-los. (S3) Ajudar o professor a se perceber, a perceber que o que ele está fazendo é uma transferência; deve mostrar como ele está transferindo a situação e promover a reflexão. não só do professor mas de toda a equipe da escola. (S4) O Orientador Educacional, comprometido com a formaçãodestes jovens, ajuda-os a reconhecer seus valores e os valoresdaqueles que os rodeiam: Mostrar suas responsabilidades e deveres para perceber os momentos em que muitas vezes podem estar errados. Mas, acima de tudo, me empenho em mostrar o valor de cada uma [aluna], passando pela família, valor que deve ser mantido e respeitado. (S5) Discutimos [Orientador e alunos] todos os nossos problemas que aconteceram no período. Mostro os valores, a amizade, o respeito, o
    • 74 Cida Sanches espaço do outro. (S7) Como promotores de oportunidades que facilitem o desen-volvimento do aluno, os entrevistados apresentam atividadesque estimulam a aprendizagem: [Eu aconselho...] Como estudar, como organizar um horário de estudo, como organizar a rotina escolar. (S8) Através do diálogo... procuro trabalhar a vontade de estudar, dar objetivos, dar um objetivo para essas coisas; procuro fazer com que tenham vontade de serem indivíduos críticos, capazes de defender suas idéias, levantarem suas dúvidas e, acima de tudo, que saibam refletir sobre essas dúvidas e essas idéias. (S7) Os respondentes também se ocupam dos aspectos práticosda vida profissional dos alunos e chegam a fazer apresentaçãode referenciais concretos para a escolha profissional: A apresentação ao aluno de um quadro bem amplo de informações profissionais, das habilidades necessárias para exercer as profissões. (S1) Inscrevi o meu grupo de jovens em um projeto de incentivo à criatividade. (S2) Fazemos pesquisas nos jornais para verificar o que o mercado oferece; enfim fazemos com eles a pesquisa sobre profissões. (S2) Foi interessante perceber que, entre tantos profissionaisentrevistados, pouco se falou sobre assuntos tão atuais como apromoção de atividades para a orientação quanto à droga, oumesmo sobre a prevenção contra a gravidez. De dezentrevistados, apenas dois falaram destes aspectos: A maior ajuda é estar presente. Mostrar, em termos de prevenção, os problemas que podem se aproximar da vida deles. Por exemplo, a
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 75 gravidez, a droga. Trabalhamos essa prevenção em grupo. (S7) Quando percebemos um problema de drogas ou de sexualidade, damos um jeito de provocar o assunto: colocámo-lo como tema na reunião e aí surgem os convites que são organizados como palestras, seminários. (S6) Os Orientadores Educacionais acreditam que a formaçãodo ser humano deve ser integral. Os profissionais entrevistados,que trabalham com adolescentes do ensino médio, acreditam naformação do homem como um todo, na íntegra, como ser social,afetivo-emocional e intelectual: Na hora em que você tiver no sentimento a formação de valores, não é só o conhecimento que importa, mas também o relacionamento humano, o problema da ética. (S1) (...) sobre os valores, achando que você só forma através da linha do conhecimento, o que não é verdade. (S1) Acreditam, os entrevistados, que o Orientador Educa-cional é um mediador entre os profissionais da escola com oobjetivo de ajudar no processo escolar, para que todos estejambem relacionados e adaptados: Ser Orientador é ser um agente mediador entre aluno e escola fazendo com que ambos vivam bem... Tendo que dar para o aluno um pouco de cada um desses papéis: mãe, amiga, policiadora; um pouco de pai, um pouco de tudo na orientação do aluno. (S10) É muito importante o estabelecimento de relações harmoniosas, desde o relacionamento aluno—aluno até aluno—professor. (S8) A Orientadora Educacional entra com esse lado humano dos encontros e desencontros, da colocação. (S1) Sendo o Orientador Educacional um mediador, está atento,inclusive, ao seu próprio relacionamento com os demais da escola:
    • 76 Cida Sanches O Orientador é um profissional dentro da escola que deve estar sempre bem relacionado com todos. (S4) Os entrevistados acreditam que precisamos ouvir e sersolidários para entender e promover o desenvolvimento doeducando e o seu próprio crescimento: Julgamos com muita facilidade... mas com o jovem não podemos ser assim: nós precisamos ouvi-los e ajudá-los a refletir através dos questionamentos. (S6) Serei solidário quando souber me colocar no lugar do outro, para entender o mundo do outro, e poder avançar no meu crescimento.(...) Precisam ser respeitados os diferentes tipos de inteligência. (S1) O professor está muito preocupado em entrar na sala, dar o seu conteúdo. Mas o aluno não é só isso: o aluno precisa de orientação para a sua formação geral, precisa conversar sobre os seus problemas. (S2) Crescimento humano Neste tópico analiso como é, na ótica dos OrientadoresEducacionais, o desenvolvimento humano do adolescente, bomcomo as conquistas que este obtém. As categorias descritivasassociadas a este tema são: Adolescente: define as características atribuídas pelo Orientador Educacional ao adolescente, aluno do ensino médio. Conquistas: exprime as vantagens ou benefícios auferidos pelo adolescente, decorrentes da ação do Orientador Educacional como profissional de ajuda. Crença: neste subcapítulo, a categoria descritiva crença refere-se a valores, convicções e opiniões cujos objetos sejam o adolescente ou suas conquistas.
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 77 Os Orientadores Educacionais percebem os adolescentescom quem trabalham de uma forma bem característica e têmuma visão muito peculiar da forma como eles se vêem apoiandoo adolescente. Vejamos estes dois aspectos. Para o Orientador Educacional o adolescente é um serque está transitando entre dois momentos — criança e adulto— realizando uma travessia com muitos conflitos e, talvez porisso, não se preocupa com as conseqüências dos seus atos: A adolescência é um período de transição entre dois momentos bem determinados: o momento em que se é criança — ele sabe que é uma criança, o que faz e o que pode fazer — e o momento em que se é adulto — ele sabe que é um adulto e o que pode fazer. (S10) Sinto hoje o adolescente muito sem rumo, com problemas sérios em termos de família. São muitos os conflitos que o adolescente trava com a vida. Eu vejo sofrimento aí. (S9) Ele é imediatista: não está preocupado com as consqüências do amanhã, com os seus atos. (S8) O adolescente é, também, um potencial a ser trabalhado.A potencialidade do adolescente é reconhecida não só comoalgo que precisa ser cuidado para alcançar sua totalidade, masespecialmente pela qualidade que ela representa em si. E o quemelhor se podia dizer senão que ... ele é uma pessoa com uma grande luz a ser trabalhada. (S7) Eles são riquíssimos. (S3) [Se o O.E. ] atuar dando respaldo para esse aluno, para ele conseguir externar esse lado adulto, que não é total, em atividades, ele vai conseguir se sentir um adulto num sentido positivo. (S10) Há qualidades e defeitos percebidos nos adolescentes. Oentrevistado (S6), pela sua experiência na organização de escolaque conta com a participação direta do aluno, também fala das
    • 78 Cida Sanchesqualidades do jovem, quando afirma que: O jovem é muito responsável quando você delega obrigações, e é sempre muito rígido com essa responsabilidade. (S6) O entrevistado (S7) levanta um aspecto importante que épreciso levar em conta, que precisa ser trabalhado, pois faz partedas características do adolescente: o egoísmo. Diz ele: Essa questão do outro é muito importante trabalhar, caso contrário eles [adolescentes] só olham para o próprio umbigo; nem mesmo a família são capazes de olhar com olhos de comunidade. (S7) Observa-se nos entrevistados pensamentos divergentes,como é o caso de (S3) e (S4) quando, no decorrer das entrevistas,falam sobre os adolescentes e comentam sobre a questão: “Sãoos jovens, ou é a época em que os jovens vivem que muda?” Não se acha receita, nos livros, de como fazer para acompanhar os jovens, pois logo aquele jovem “já foi”. São rápidos os momentos: as situações mudam. Somente uma coisa não muda: a angústia do jovem. (S3) Não existe o mesmo adolescente em tempos diferentes. O universo de trabalho é o mesmo, mas o adolescente muda. (S3) Diferentemente do entrevistado (S3), o entrevistado (S4)não pensa ser o adolescente que muda, mas sim a época. Os adolescentes são sempre iguais, o que muda é a época. Por exemplo: hoje o aluno enfrenta mais os seus problemas, questiona mais. (S4) Todavia, independentemente de serem os adolescentes ou
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 79a época em que vivem os responsáveis pelas mudanças, oadolescente está em transição entre a criança e o adulto e, emfunção disso, nem sempre sabe dosar muito bem os seus limites,nem sempre tem presente... o adulto que ainda não é e quer ser. (S10) Às vezes ele age agressivamente, em função de ainda não ter o ‘poder’ que como adulto teria, para estar resolvendo algumas questões da vida —- tanto pessoal quanto escolar —- e às vezes também se sente uma criança —- quando querido, quando se sente mimado pelos professores e colegas. (S10) Os respondentes entendem ser importante mostrar quaissão os limites para os alunos. Falam, assim, da importância dessetema: ... estabelecer limites. Os adolescentes, antes de tudo, precisam saber até onde podem chegar. (S6) O adolescente tem regras a seguir: tem que ter atenção com a qualidade dos seus atos, reconhecer limites, tem que ter disciplina. (S3) Ele só precisa saber qual é esse limite; do resto ele cuida e se enquadra. (S8) A questão disciplinar, a orientação profissional, tudo isso é muito importante para o bom rendimento e crescimento dos nossos alunos. (S8) Você pode trabalhar, trabalhar, mas ele não se cansa e sempre espera mais. Desta forma trabalho os limites e muito mais ainda a reflexão. (S7) Igualmente os entrevistados (S4) e (S8) observam queos jovens valorizam a ordem e a disciplina: É importante trabalhar os limites, pois os adolescentes esperam isso dos seus formadores. (S4)
    • 80 Cida Sanches O adolescente gosta de saber que tem uma organização no seu ambiente. (S8) Os Orientadores Educacionais possuem um conjunto decrenças referentes aos adolescentes. A primeira delas é que épreciso dar apoio e atenção. Para tornar esse processo escolarmais tranqüilo e o adolescente mais bem adaptado, alguns dosentrevistados apontam caminhos, cuja tônica é o apoio, a atenção.Como os Orientadores Educacionais se vêem no apoio aoadolescente? O adolescente precisa ter um porto seguro, que não apenas o critique, mas o ajude a crescer como ser humano. (S5) O aluno adolescente precisa do nosso apoio, muito mais do que uma criança de Educação Infantil. Precisamos falar com ele de igual para igual; às vezes precisa de colo e muitas vezes de uma grande chamada pelos seus erros. Então ele precisa muito do apoio dos educadores, mais do que qualquer série. Não existe status, não existe condição financeira: eles precisam, todos, igualmente do apoio do adulto. (S7) Eles gostam muito de conversar e contam muito com as pessoas dentro da escola. (S7) A segunda crença é a que afirma que só o afeto conquista.Os entrevistados acreditam que o jovem só é conquistado comafeição — muita dedicação, muito carinho, muito amor. Otrabalho do Orientador Educacional é feito com o coração: Só conquistamos esses jovens com muita dedicação, amor mesmo. Não é possível trabalhar na educação sem que seja com muito amor. (S7) Este trabalho tem que ser com o coração, uma coisa sentida e não só racional. (S9) Uma outra destacada crença é a de que é preciso levar ojovem à reflexão. Os entrevistados acreditam serem a reflexão
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 81e o questionamento fatores que auxiliam o adolescente a perceberos seus atos com maior clareza e consciência. Pelo menos é oque se pode deduzir da importância que o Orientador Educacionaldá ao processo de reflexão, através do qual o adolescente constróio seu crescimento: O Orientador Educacional dá a possibilidade para que os adolescentes discutam seus problemas existenciais.(S1) Nós precisamos ouvi-los e ajudá-los a refletir através dos questionamentos. Precisamos estar próximos do mundo deles, das coisas que eles gostam, da sua moda; precisamos estar em sintonia com o mundo deles. Isso é fundamental para o nosso trabalho. (S6) Entendemos que a relação da escola é com um profissional treinado para ouvi-los, ajudá-los a aprender a refletir, refletir e refletir. (S7) Acho importante esse trabalho dentro da escola, com um acompanhamento visando a essa consciência [dos seus atos] justamente para poder ser trabalhada, refletida e resolvida. (S9) Também é preciso ajudar os adolescentes nos momentosmais difíceis. Os entrevistados entendem que a adolescência éuma fase difícil, que precisa ser compreendida para que se possaajudar o jovem nos momentos mais difíceis. Reconhecem que éum momento difícil não só para o jovem, como também paraaqueles que com ele se relacionam: Precisamos experimentar para entender os nossos alunos. Precisamos olhar a nossa história: como nos lançamos no mundo, qual é a nossa experiência para entender as experiências dos nossos alunos. Eu preciso de um referencial para dar referência. (S3) É difícil para o educador, é difícil para o adolescente e é difícil para a família... É difícil crescer, são angustiantes os desencantos, os conflitos com a família; a compreensão do mundo é muito difícil. (S3) Somos, portanto, primeiramente, profissionais com espaços humanos para atendê-los de maneira afetuosa quando precisam e para colocar limites quando for necessário. (S3)
    • 82 Cida Sanches Também é preciso fazer com que os adolescentes sesintam felizes. Os entrevistados acreditam ainda que, se oadolescente se sentir bem, se sentir feliz e adaptado ao ambienteescolar, o seu amadurecimento será facilmente conduzido, poisse sentirá valorizado e integrando no processo: [Se não fizermos da escola um lugar agradável...] dificilmente conseguiremos que eles aprendam as lições importantes para a sua formação. (S5) A Orientação Educacional é muito importante porque aí há um espaço grande para os alunos se sentirem gente. (S1) Conquistas A gama de conquistas que o adolescente obtém, em de-corrência da ajuda do Orientador Educacional, é extensa. É difícildefinir adequadamente o principal responsável pelos benefíciosque o jovem recebe. Por isso me soa melhor falar das conquistasque o jovem empreende. E quando falo em conquistas, sintetizoisso numa única expressão: crescimento humano. Crescimentohumano significa amadurecimento de valores e aquisição de res-ponsabilidades; isso tende a refletir-se numa concomitante con-quista de liberdade, conquista da independência. É semprebom lembrar que cada um dos jovens é quem faz a colheitasegundo a sua vontade. Ao Orientador Educacional e aos outroseducadores cabe apenas o papel de propiciar as melhorescondições para que tais conquistas sejam feitas. Os entrevistados afirmam que a maior conquista que ojovem empreende é a possibilidade de um ambiente favorávelpara o seu desenvolvimento integral: desenvolvimento da auto-estima, da capacidade decisória e, especialmente, da sua ade-quação social: O Orientador Educacional pode propiciar estas situações para ele: situação de segurança — fazê-lo sentir-se querido, porque ele é carente
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 83 pela própria fase... O aluno tem que estar feliz, adaptado na escola. (S10) Busquem uma melhor compreensão de si mesmos; desenvolvam sua auto-estima e desenvolvam sua capacidade para tomar decisões.(S1) Não há nada melhor do que ver nossos alunos crescerem saudáveis, conquistarem seus espaços, mudarem o seus hábitos sociais, saberem avaliar suas condições, suas próprias posições. (S3) O adolescente pode fazer suas mudanças e melhorar a sua postura como aluno, filho, enfim nos seus diversos papéis. (S4) O desenvolvimento da consciência de seus atos é a viapor meio da qual o crescimento integral é feito. Crescer embusca da liberdade significa crescer assumindo responsabilidades,assumindo os resultados das próprias escolhas: É esta a tomada de consciência dos atos, imediatamente após o acontecimento. (S4) O adolescente precisa adquirir uma consciência do que será, do que virá a ser, do que poderá acontecer. (S8) Para que ele possa decidir qual a escolha mais eficaz e eficiente. (S1) Você trabalha a autonomia com os alunos através dos representantes. (S6) A escola deve ajudá-los a buscar um caminho, tanto na educação formal, como na educação informal. (S8) Outras conquistas, entretanto, podem ser elencadas, frutodo trabalho do Orientador Educacional, dentro dos seus projetosde Orientação Vocacional, Orientação Sexual e de Estudos, atéum aproveitamento escolar melhor: Esclarecer as habilidades necessárias exigidas para desenvolver as profissões, e ainda o autoconhecimento do aluno. (S2) [O projeto de orientação de estudos faz com que o aluno] desenvolva
    • 84 Cida Sanches as atividades de forma equilibrada e também que conheça os pontos mais importantes de cada matéria a estudar. (S2) Os alunos percebem que há maneiras diferentes de ver o sexo, dependendo de cada pessoa. (S2) Este trabalho é realizado visando facilitar o desenvolvi-mentos do aluno por um caminho mais agradável, com maisoportunidades de resolução dos seus problemas, a partir do apoiorecebido pelo Orientador, que procura estar sempre presente: Enfim, tento fazer com que eles se sintam felizes na escola, com que saibam lidar com as suas dificuldades e resolvê-las. (S3) Ele é ouvido, tem oportunidade para se colocar, questionar, desabafar, até de portas fechadas quando assim desejar. (S8) Quero que os alunos, mais do que nunca, sintam que existe uma assistência, uma equipe de apoio e que saibam que todos somos igualmente responsáveis por termos uma escola melhor. (S9) O aluno sempre vem nos procurar para nos colocar os seus problemas, aqueles problemas que ele não pode colocar para os pais. Quando o profissional é atuante, o aluno descobre esta ajuda. Pois, quando você se instala numa escola, o aluno percebe sua dedicação.(S2) Este trabalho aproxima muito o aluno do professor, melhora o relacionamento e a aprendizagem. (S2) Isso contribui com o desenvolvimento do aluno de uma maneira menos dolorosa, menos sofrida.(S10) Entre os profissionais entrevistados existe a preocupa-ção de trabalhar no apoio ao adolescente, fazer um trabalho deajuda, sem atritar com as regras disciplinares: Sinto que não sou ainda aquela orientadora que quero ser. Estou ainda muito envolvida com as questões disciplinares, e penso que não é esse o meu desenvolvimento de ajuda. (S4)
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 85 O crescimento humano não é uma conquista somente doadolescente. O próprio Orientador Educacional cresce com asua atuação diária, pois aprende com a sua vivência: ... [Orientadores] que saibam valorizar o potencial do jovem, como também aprender com eles. (S5) À medida que ensinamos, também aprendemos. Há uma troca; é uma questão dialética. (S8) O entrevistado (S7) acredita que aprendemos enquantoensinamos aos educandos, acredita na troca pela comunicação: O adolescente é um grande professor; não fala para agradar, mas para comunicar-se. Dessa forma torna-se um grande educador. (S7) Os Orientadores Educacionais possuem algumas crençassobre as conquistas, isto é, sobre valores, convicções e opiniõescujos objetos sejam o adolescente ou suas conquistas. Uma delasé que só a disposição interna pode gerar conquistas. O entrevistado (S10) foi muito feliz quando abordou a suapercepção com relação aos benefícios que o aluno recebemediante essa disposição para o trabalho de ajuda da parte doOrientador Educacional. As conquistas feitas pelos alunos sópodem aflorar quando há uma predisposição interior no OrientadorEducacional que conduza a isso: O desenvolvimento profissional de ajuda depende muito da disposição interior do Orientador Educacional. As pessoas têm ou não essas características: feeling, sensibilidade, praticidade... É assim que eu percebo um Orientador Educacional. (S10) Esse entrevistado associa a disposição de ajuda do Ori-
    • 86 Cida Sanchesentador Educacional com a disposição de ajuda de um pro-fissional da medicina, pela qualidade de assistência queambos precisam dar a quem lhes solicita: Um médico, se ele não tiver um nível satisfatório de assistência como ser humano, não pode optar por uma carreira de ajuda: ser médico; porque ele não vai ter esta disposição interna para assistir o paciente, sempre que este precisar... É uma coisa de dentro para fora, não dá para se enquadrar, moldar. (S10) Existe um chamamento interno no indivíduo que pode ser percebido nas atividades externas. O indivíduo tem aquela vocação. Isso é interno. (S10) O profissional tem que estar internamente prédisposto. (S10) Portanto, o entrevistado acredita que a ajuda é umaquestão de disposição interna e que o envolvimento não podepassar para o campo pessoal: Não deixar nunca que a sua relação vá para o nível pessoal, porque assim você não consegue ajudar: o seu trabalho não será competente se você estiver envolvida. (S10) Em suma, ser Orientador Educacional de adolescentes éser um profissional de ajuda na promoção de seu crescimentointegral como pessoas.
    • “O adolescente precisa ter um porto seguro, que não apenas o critique, mas o ajude a crescer como ser humano.” (S5) CAPÍTULO III Conclusão É inegável que o Orientador Educacional é um pro-fissional de ajuda ao adolescente e que suas ações se mani-festam na escuta, na facilitação e na promoção. Ouvir, saber ouvir, é uma grande virtude em profis-sionais de qualquer área, num relacionamento interpessoal.Calcule-se, então, a importância dessa atitude onde a preo-cupação do profissional é a formação de um outro ser hu-mano. Conhecer os anseios, as necessidades, os medos deum homem somente será possível por meio da escuta, e so-mente por meio desse conhecimento seremos capazes depromover e facilitar a promoção desse ser. Eu acredito no trabalho dos educadores. Acredito queeles podem preparar-se cada vez mais para atender às ne-cessidades dos educandos, em termos de conteúdo e, prin-cipalmente, no seu desenvolvimento social e pessoal. Pri-meiramente, porém, esses profissionais precisam reconhe-
    • 88 Cida Sanchescer os seus próprios valores pessoais, e serem sinceros, trans-parentes e sensíveis para poderem perceber não só os seussentimentos, mas os sentimentos dos outros e, assim,compreendê-los. Desta forma, esses profissionais estarãocapacitados para partilhar de um ambiente de confiança, parapromover o amadurecimento dos valores pessoais de seuseducandos, conduzindo-os por um caminho de conhecimen-to e autoconfiança. O objetivo da ação do Orientador Educacional comoprofissional de ajuda ao adolescente é, como demonstrou aanálise, o crescimento humano — caracterizado pela aquisiçãopor parte do adolescente de um espírito de confiança, pelaconsciência de seus atos e compreensão da sociedade da qualparticipa. É também, e sobretudo, o amadurecimento dos valoresda pessoa humana, que lhe possibilitem a conquista de seu maiorsonho — a independência. Entendo essa independência como sendo interior, cujaconquista só é facilitada quando a escola oferece para isso umclima favorável. Um clima de respeito à individualidade do ser,de modo a sensibilizá-lo para que perceba os seus sentimentosde forma aberta e livremente, com capacidade de refletir comconfiança e responsabilidade sobre os seus valores introjetadospela sociedade e pelos pais. Ficou claro que só é possível facilitar o desenvolvimentohumano, quando as pessoas envolvidas no processo são capazesde se deixarem penetrar num sentimento de amor; deixando quea ternura flua naturalmente. Esse amor a que me refiro é um amor não possessivo,que não controla e não espera recompensas, mas apenas umsentimento que vem de dentro para fora, com aceitação eadmiração pelo outro como este se apresenta. ... Significa uma forma de amor pelo cliente tal como este é, desde que compreendamos a palavra amor como equivalente do termo teológico agape, e não em seu sentido habitual, romântico e possessivo(...) Um sentimento não paternalista, nem sentimental, nem superficialmente
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 89 social e agradável. (Rogers,1991:p.109) É este o sentimento que impulsiona a realização de umtrabalho profissional na educação. Sentir-se feliz por importar-se com o outro, por poder amá-lo e sentir-se gratificado pelaternura que sente. ... Um dos sentimentos mais gratificantes que conheço e também um dos que mais oferecem possibilidades de crescimento para a outra pessoa — advém do fato de eu presenciar essa pessoa do mesmo modo como aprecio um pôr-do-sol. As pessoas são tão belas quanto um pôr-do-sol quando as deixamos ser [grifo meu]. De fato, talvez possamos apreciar um pôr-do-sol justamente pelo fato de não o podermos controlar... Não faço isso. Não tento controlar um pôr-do- sol. Olho com admiração a sua evolução. (Rogers,1983:p.14) É assim, com este sentimento, com respeito e aceitaçãoque o Orientador Educacional pode desenvolver o seu trabalho.Está aí a possibilidade de escuta ao outro. Isso é gratificante,pois nos faz sentir a possibilidade de podermos ser úteis, ouvindonão o som das palavras, mas a verdadeira mensagem que estápor trás destas — um pedido de ajuda, uma angústia, um medo.Para tudo isso o Orientador Educacional precisa ter sensibilidade,para, fundamentalmente, ouvir sem criticar. Expor a sua maneirade ver aquele problema colocado, expor a sua maneira desolucionar aquela dificuldade e discutir, livre e abertamente, assuas percepções: o jovem não aprecia o adulto como “dono daverdade”, mas valoriza uma idéia exposta e discutida. O Orientador Educacional e o adolescente crescem juntos,após cada conversa, não importa quem a tenha solicitado — sealuno ou Orientador Educacional. Ambos amadurecem seusvalores, porque há a possibilidade de mudar, de trocar conceitosque foram discutidos e aceitos em comum acordo. Para isso, oclima favorável é o de confiança e afetividade, os sentimentosverdadeiros, íntegros e autênticos, e o Orientador Educacionaldeve estar sempre atento às relações, observando diariamente,
    • 90 Cida Sanchesacompanhando muito de perto o comportamento dos educandos,professores e demais participantes da equipe. Entendo ser importante em nossa vida, no nosso mundointerior, a existência de um companheiro confiante. É esseentendimento que me faz ser ouvinte, porque sei, pela minhaexperiência, que os resultados de uma postura empática sãosempre positivos. A atitude facilitadora está presente nos profissionais daeducação, não por uma questão de exigência apenas profissional,mas porque esta atitude brota espontaneamente da pessoa,mostrando um potencial de empatia e solidariedade que, parece-me, é interno, próprio ou natural do educador. Este é o desafio para os educadores: humanizar a escola.E à frente desse desafio só podem estar pessoas que sereconheçam como verdadeiros profissionais da educação. Porserem conhecedores do seu compromisso com a escola emtermos de conteúdo, espera-se dos Orientadores Educacionaisque sejam capazes, ainda, de favorecer um ambiente humano eharmonioso que possibilite às pessoas a condição de seremfelizes, pois a aprendizagem é mais significativa quando feitacom afetividade. Fica patente para mim a necessidade de se rever aprofissão de Orientador Educacional, afim de que ele possaatuardentro da escola no sentido de promover o crescimentohumano desse jovem que precisa de uma parceria quando sai à“caça” de si mesmo. Fica claro, também, que o Orientador Educacional, realizao seu trabalho numa postura holística que não conflita com asposturas pragmáticas das Instituições que, primordialmente,objetivam colocar o jovem no mercado de trabalho. Permito-me, agora, formular alguns questionamentos queprecisarão ser mais sistematicamente explorados em estudosfuturos. Não tenho a pretensão de levantar tópicos de interessegeral, mas é possível alinhavar alguns temas conexos, cujasindagações podem ser assim formuladas:
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 91 Pode o Orientador Educacional — face à sua açãoindiscutível de profissional de ajuda — atuar com a mesma poten-cialidade junto a adultos? Já que, neste caso, não há a neces-sidade de transformar o adulto em um homem integral — umser social, afetivo-emocional e intelectual — pode o OrientadorEducacional ajudar o adulto a buscar o ser que ele quer ser eainda não é?
    • ADENDOS
    • “É importante que todos tenham conhecimento do aluno como um todo: social e cultural, porque este trabalho tem que ser com o coração, uma coisa sentida e não só racional”.(S9) Descrição do método N este trabalho usei o método denominado auto-biográfico ou história de vida. A abordagem autobiográfica ouda história de vida é um método por meio do qual o pesquisadortenta obter dados relativos à experiência de pessoas que tenhamsignificado para o estudo. Neste estudo procurei investigar opercurso profissional de cada Orientador Educacional ... entendê-lo como uma trajetória seqüenciada, onde interferem tanto o desenvolvimento biológico, como processos estruturais socialmente organizados e dinâmicas institucionais, e ainda aspectos complexos específicos de cada pessoa. Aproximei-me da metodologia adotada pela abordagem biográfica, ou das histórias de vida, através de entrevistas abertas, semi-estruturadas em torno de grandes linhas orientadoras decorrentes das sugestões de Ferrarotti, que aponta como variáveis fundamentais a considerar: a experiência de trabalho ... (Cavaco,1991:p.160) Tentei compreender como o Orientador Educacional atuacomo profissional de ajuda, dentro de uma estrutura individual esocial no seu tempo e espaço.
    • 96 Cida Sanches O planejamento das entrevistas As entrevistas exigiram um planejamento geral antes quefossem executadas. Tal planejamento consistiu na escolha dosobjetivos, do tempo, do local, da situação dos entrevistados edo roteiro. O método da história de vida faz uso da técnica deentrevistas, que podem ser abertas ou semi-estruturadas. Fizuso de entrevistas semi-estruturadas de forma a manter orespondente à vontade e livre para expressar as suasexperiências, para assim obter um leque maior de informações. A entrevista semi-estruturada ... se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicado rigidamente, permitindo que o entrevistador faça as necessárias adaptações. Parece-nos claro que o tipo de entrevista mais adequado para o trabalho de pesquisa que se faz atualmente em educação aproxima-se mais dos esquemas mais livres, menos estruturados. ( Ludke e André, 1986:p. 34) Por meio de dez entrevistas com Orientadores Educacio-nais do ensino médio, das redes pública e particular e contandocom mais de cinco anos de experiência, coletei dados que seinseriram dentro do eixo temático ligado à trajetória de vida profi-ssional dos entrevistados, objetivando saber como eles se viamna condição de articuladores de um processo de ajuda ao ado-lescente. As entrevistas foram realizadas nos locais de trabalho 1dos entrevistados , não havendo especificação quanto à sua du-ração, ficando este fator condicionado a circunstâncias pessoaisdo entrevistado. Todas as entrevistas foram por mim gravadas e transcritas.A cada uma foi atribuída a letra (S), seguida de um número,para que não fosse possível identificar o sujeito, resguardando1 Com exceção de uma, que foi realizada na residência da entrevistada.
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 97assim o sigilo. Essencialmente, a entrevista pretendia que o entrevistadotraçasse a sua própria história de vida profissional, focando pontosimportantes que pudessem responder à questão principal: oOrientador Educacional ajuda o adolescente no seu crecimento? Para tal objetivo, elaborei um esquema básico, um roteiroem torno de cinco pontos fundamentais, além da identificaçãodo entrevistado: 1. Devemos lembrar que a Orientação Educacional é umaopção profissional de quem, inicialmente, escolheu a áreaeducativa para atuar. Desta forma, a primeira questão foi: “Falesobre a sua trajetória profissional, começando, por exemplo, acontar por que optou pela área da Educação”. 2. A seguir busquei aspectos pessoais, familiares e sociais— ideal e cronologicamente narrados — que mostrassem comoo entrevistado acabou optando pela Orientação Educacional. Apergunta seguinte, portanto, foi: “Quem ou o que foi mais signi-ficativo para que sua trajetória culminasse na profissão de Orien-tador Educacional?” A razão desta pergunta foi obter a repre-sentação do que, ou de quem fora formador do entrevistado. “Oque foi mais importante? O que foi mais representativo?” 3. Foi importante conhecer a rotina do cotidiano profis-sional do entrevistado, tendo por foco o adolescente. Para tal,foi feita a seguinte pergunta: “Como é ser Orientador Educacionalde adolescentes do ensino médio?” Aqui o ponto fulcral era co-nhecer o modo como o Orientador Educacional percebia e agia,de forma genérica, com relação ao adolescente. 4. Na questão seguinte busquei obter especificidades dotrabalho do Orientador Educacional na condição de ‘profissionalde ajuda’. A pergunta foi: “Como se desenvolve o processo de‘profissional de ajuda’ na sua rotina de trabalho?” 5. Tal atuação produzia resultados? Que tipos de resultadoso Orientador Educacional percebia? Quais as conquistas que osalunos obtinham, decorrentes da ação do Orientador Educacionalcomo ‘profissional de ajuda’? Para obter respostas a estas
    • 98 Cida Sanchesindagações, era feita a última pergunta: “Que conquistas oadolescente obtém em decorrência da sua dedicação?” Esgotadas estas questões, foi deixado amplo espaço, semquaisquer restrições, para que o entrevistado se manifestasse.Esta estratégia permitiu obter subsídios para a pesquisa,considerados interessantes levando-se em conta a experiênciado entrevistado. Trabalhando os dados coletados Tais entrevistas produziram um grande volume de dados,mas nem todos foram relevantes para o meu estudo. Os dadosobtidos por meio das entrevistas foram sujeitos a um plano feito,basicamente, em quatro momentos: — no primeiro fiz uma prévia definição das principais categorias descritivas importantes para uma leitura ordenada das entrevistas; — a seguir, procedi ao recorte das categorias descritivas dentro década história de vida profissional, obtendo assim uma síntese dos dados mais relevantes de cada entrevista; — no terceiro momento, por meio de um processo de análise organizei o material, adequando-o, conforme as categorias descritivas, aos temas e subtemas; — por fim, extraí uma conclusão e reavaliei as tendências e os padrões encontrados, a fim de buscar maior compreensão para elaborar as considerações finais. A definição das categorias descritivas A especificação prévia das categorias descritivas delimitouo trabalho e apontou os aspectos relevantes para o estudo. Taiscategorias foram fundamentais não só para direcionar o trabalho,mas para possibilitar uma análise adequada dos dados. Este foi
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 99um ponto metodológico importante. Segundo Lalande, uma categoria exprime conceitosgerais com os quais o espírito (ou grupo de espíritos) tem ohábito de relacionar os seus pensamentos e os seus juízos(1993:p.142). Assim, o conjunto de categorias descritivas ... fornece geralmente a base inicial de conceitos a partir dos quais é feita a primeira classificação dos dados. Em alguns casos, pode ser que essas categorias iniciais sejam suficientes, pois sua amplitude e flexibilidade permitem abranger a maior parte dos dados. Em outros casos, as características específicas da situação podem exigir a criação de novas categorias conceituais. (Ludke e André, 1986: p.48). De fato as categorias descritivas previamente definidasnão se mostraram suficientes e, durante a leitura e releitura dashistórias de vida profissional, percebi a necessidade de definiralgumas mais — não só porque a categoria em si mostrava-seimportante para a articulação da análise, mas também porqueelementos significativos passariam despercebidos se não seprocedesse ao ajuste. Ao estabelecer cada categoria fiz uso dos princípios aque Hegenberg faz referência: ... São freqüentemente citados certos princípios fundamentais para a formulação de definições apropriadas. Entre estes princípios figurariam, por exemplo: 1) uma definição deve aludir à essência daquilo que procura definir; 2) uma definição não deve ser circular; 3) uma definição deve ser colocada, sempre que possível, em forma afirmativa; 4) uma definição não deve ser formulada em linguagem obscura ou metafórica. (1974: p.27) Essencialmente, para cada categoria descritiva desen-volvida dei um nome, sempre que possível sintético, ao qual as-sociei uma definição, que conforme diz Maritain é um conceito
    • 100 Cida Sanchescomplexo ou uma locução que expõe o que uma coisa é ouo que significa um nome (1983:p. 103). Foi o caso, por exemplo, da categoria descritiva Escuta: refere-se a uma ação que envolve uma postura de ouvir o outro, numa atitude sensível e de forma empática. O conceito expõe, de maneira precisa, o que significava— ou como deve ser interpretado — o nome ‘escuta’. Com ouso de nomes sintéticos pretendi facilitar o recorte das históriasde vida profissional. É evidente que um outro nome ou expressãopoderia ser mais conveniente, tal como, por exemplo, “escutapró-ativa”, mas entendi ser recomendável a síntese, porquanto omais importante era a definição. Esta definição, aliás, quandome pareceu recomendável, foi ampliada com alguns comentáriosque se fizeram necessários para elucidar a categoria. No exemploque ora estou dando, isso ocorreu com a seguinte extensão: Esta escuta permite que o outro tenha a oportunidade deexpôr livremente o seu pensamento, num clima de confiança,discutir o exposto com aceitação e respeito, sem criticaspejorativas. Esta escuta empática tem como resultado o amadu-recimento dos valores do interlocutor. A síntese dos dados Uma vez especificadas as categorias descritivas que aanálise exigiu, procedi a um trabalho de recorte das entrevistas.Em cada uma delas destaquei as falas que se inseriam dentrode uma ou outra categoria descritiva, obtendo, deste modo, oque se pode chamar de história sintética de vida profissional,porquanto se procedermos à leitura unicamente dos recortes,obteremos uma síntese do que é significativo para o estudo.Portanto, o trabalho de recorte foi uma dupla busca: da expressão
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 101do entrevistado em relação a alguma categoria descrivivaespecífica e da delimitação adequada dessa expressão. O recorte nada mais é, portanto, do que um apropriadotrecho da história de vida profissional do entrevistado que temuma referência com alguma categoria descritiva previamenteespecificada. Os recortes foram feitos destacando-se as palavrase a caracterização foi feita à margem. Obtive, assim, uma síntese dos dados das estrevistas queme possibilitou uma visão panorâmica de todas as categoriasdescritivas elencadas e o conteúdo de expressão de cada entre-vistado em relação à mesma categoria descritiva. Deste modo,na história de vida profissional de cada entrevistado foram colo-cados à margem os nomes das categorias descritivas refe-renciadas e a sua delimitação em negrito, de tal modo que foipossível procedermos, por exemplo, a uma leitura, em todas ashistórias de vida, apenas quanto a uma categoria descritivaespecífica. Como exemplo foi selecionada a entrevista do res-pondente (S10), que está em anexo. Com efeito, proceder ao recorte das entrevistas foi a se-gunda etapa do trabalho. À minha frente havia dez entrevistas— histórias de vida profissional multifacetadas, tão diferentesumas das outras quão diversos eram os entrevistados. Era precisocolocá-las numa urdidura para que as tecesse dentro de umformato que possibilitasse a análise com maior facilidade e rigor. Nesta etapa busquei fazer uma síntese do que tinha sidomais representativo para as perguntas que fiz. Era precisointerpelar o percurso profissional de cada entrevistado, fazendoos recortes necessários para que a trajetória se mostrasseapropriada a cada categoria descritiva importante, para averificação ou não da tese central. Ao término desta etapa tinhaa história de vida profissional de cada um dos entrevistadosrecortada, estando estes adequadamente relacionados a umacategoria descritiva específica, relevante para o presente estudo.
    • 102 Cida Sanches Definindo os passos para a análise Com a análise busquei as respostas que o problemaexigia, não em termos quantitativos, mas essencialmentequanto ao conteúdo dos discursos — estes subordinados adeterminada categoria descritiva — mostrando a relevânciadas categorias descritivas ‘recortadas’ das histórias de vidaprofissional para a comprovação da minha hipótese. A análise debruçou-se sobre a síntese dos dados dasentrevistas inicialmente produzidas e operou um trabalhode compreensão das relações observadas. Fundamentalmen-te centrou-se sobre os discursos pertinentes a determinadascategorias descritivas, em busca de uma resposta para asquestões que no início eu havia formulado. Para tal procureime ater a categorias descritivas que pudessem me ajudar amelhor responder às questões anteriormente formuladas. — Por que o profissional entrevistado optou pela áreada Educação? Quem ou o que foi mais significativo paraque sua trajetória culminasse na profissão de OrientadorEducacional? Três categorias descritivas conectaram-se comeste tema: origem, motivação e crença. — Como é ser Orientador Educacional de adolescen-tes do ensino médio? Estão associadas a esse tema três ca-tegorias descritivas: atividade, parceria e crença. — Como o profissional entrevistado desenvolve oprocesso de ‘profissional de ajuda’ na sua rotina de traba-lho? As quatro categorias descritivas referentes ao modo deproceder do Orientador Educacional foram: escuta, facilita-ção, promoção e crença. — Quais são as conquistas que o adolescente obtém,no crescimento humano, em decorrência da sua dedicação?As categorias descritivas pertinentes são: adolescente, con-quistas e crença. A categoria descritiva crença está presente em todosos temas porque define um conjunto paradigmático de valo-
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 103res sobre a realidade à qual o Orientador Educacional estevee está associado. As crenças presentes nos diversos momen-tos são denotadoras de expressões que envolvem valores,convicções e opiniões sobre o objeto do meu estudo. Res-salta-se que não é feito qualquer juizo de valor quanto àveracidade da opinião. O resultado é analisado no capítulo 3, que se subdivi-de em partes, cada uma delas abordando os tópicos acimacitados. Para a demonstração dos temas e subtemas foramutilizados os recortes inicialmente produzidos durante o tra-balho de síntese dos dados das entrevistas. Da análise às considerações finais: fechando a pesquisa Feita a análise, dela extraí as conclusões que os processosanalíticos de inferência me possibilitavam. O traçado dasconsiderações finais, que podem ser vistas no capítulo 4, recorreua um processo lógico-dedutivo, incidindo sobre o conteúdo daanálise. Nesse capítulo, pretendi seguir as recomendações de AstiVera, seja quanto ao formato, seja quanto ao conteúdo: ... Concluir um trabalho de investigação não é simplesmente colocar- lhe um ponto final. A conclusão, como a introdução e o desenvolvimento, possui uma estrutura própria. A conclusão deve proporcionar um resumo sintético, porém completo, das provas e dos exemplos (se os apresentar) consignados nas duas primeiras partes do trabalho. Esta parte deve possuir as características do que chamamos síntese: em primeiro lugar a conclusão deve relacionar as diversas partes da argumentação, unir as idéias desenvolvidas. É por isso que se diz que, em certo sentido, a conclusão é uma volta à introdução: cerra-se sobre o começo. Esta circularidade do trabalho constitui um dos seus elementos estéticos (de beleza lógica). Fica assim, no leitor, a impressão, de um sistema harmônico, acabado em si mesmo. (1968:p.172)
    • 104 Cida Sanches Por fim, extraí da análise as inferências que ela per-mitia, de forma a estabelecer conexões e relações ... que possibilitem a proposição de novas explicações e interpreta- ções. É preciso dar o ‘salto’, como se diz vulgarmente, acrescentar algo ao já conhecido. Esse acréscimo pode significar, desde um conjunto de proposições bem concatenadas até ao simples levantamento de novas questões e questionamentos que precisarão ser mais sistema- ticamente explorados em estudos futuros. (Ludke e André, 1986:p. 49)
    • Exemplo de entrevista “O desenvolvimento profissional, de ajuda, depende muito da sua disposição interior. As pessoas têm ou não essa características: feeling, sensibilidade, praticidade.” 1Caracterização: 1Formação: Psicologia - UNIP 1Experiência: 8 anos - Orientadora Educacional 1Sexo: Feminino 1Data da entrevista: 04.02.1997. Eu fui para a Educação por acaso. Estou Origematé hoje, não mais por acaso. Quando me formei, aminha intenção era de atuar na área clínica: queriater um consultório. Na verdade, quando você teminclinação para essa área clínica, como formandode psicologia, você tem este sonho. Além de serum sonho, tem que estar realmente de acordo comaquilo que você tem intenção de estar fazendoprofissionalmente. Então não foi uma postura minhadefinir que estaria atuando na área educacional; pelocontrário: eu precisava de um emprego. Eu nãoqueria ficar desempregada e a Educação es-tava mais fácil.
    • 106 Cida SanchesOrigem A médio ou a longo prazos ia tentar consul- tório, atuar na área clínica. Era essa a minha in- tenção. Só que eu acabei percebendo, com a minha atuação do dia-a-dia na escola, que toda a minha habilidade, aptidão, estava voltada para esta área. Me surpreendeu, a princípio, por eu conseguir me perceber, a nível de interesse de vocação, para atuar na área educacional. E acabei ficando até hoje. Iniciei fazendo matrículas — emprego mesmo — na secretaria da escola. Inclusive a orientação que eu tinha do meu superior era para eu começar por baixo: entender todo o processo, desde a matrícula. Ele dizia: “Você vai longe: vai subir dentro da empresa”. Eu queria era trabalhar. Atendi os problemas da Tesouraria, da matrícula, por quase um ano. AíOrigem eu passei para a orientação, que também não era uma coisa que eu queria. Eu trabalhava na escola, mas não queria nada com a escola. Quando eu comecei a atuar como Orien- tadora Educacional, eu pensei: “Nossa! Como eu dou bem para a coisa”. O meu trabalho teve re- sultados rápidos e efetivos. Então eu consegui, real- mente na Orientação Educacional, dentro desta es- cola, realizar um bom trabalho, reconhecido pelas pessoas com quem eu atuo. Acabei achando que eu nasci para isto mesmo. Mas eu não tinha essa consciência: eu caí nesta área. Eu nunca achei o papel de Orientadora muito fácil para desempenhar, nemCrença muito gostoso — associado com o tranqüilo. Eu me sentia sendo um pouco mãe, um pouco amiga, um pouco conselheira, sem perder de vista o objetivo da escola, o perfil do aluno que a escola queria e quer formar.
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 107 A Orientadora tem um papel mediadorentre aluno e escola, tendo que dar para oaluno um pouco de cada um desses papéis: Crençamãe, amiga, policiadora; um pouco de pai, umpouco de tudo na orientação do aluno. AOrientadora tem que procurar atuar como umagente mediador, para que o aluno viva bem dentroda escola onde ele passa a maior parte do seu tempo— até mais do que com os próprios pais. AOrientadora convive mais com o aluno do que coma sua própria família a nível de tempo quantitativo. Bom: quando o tempo, a nível quantitativo, émaior, tem que ter uma qualidade muito boa, casocontrário fica uma relação insuportável. A rela-ção do aluno tem que ser boa com todos da escola:colegas, professores, funcionários e com a Orien-tadora Educacional. Então você é, acima de tudo,um mediador entre aluno e escola. Não é muitotranqüilo ser Orientadora, justamente porque vocêtem que ter em vista todos os setores da escola e oaluno que é o seu objeto principal de trabalho. Lidarcom pessoas, de maneira geral, não é fácil, mastem um lado gratificante quando você consegueefetivar o que chamamos de ajuda. Em relação ao aluno você sente quando oajudou; porém precisa atuar como profissional, não Crençadeixar nunca que a sua relação vá para o nívelpessoal, porque assim você não consegueajudar: o seu trabalho não será competentese você estiver envolvida. Agora, se você per-cebe que o aluno tem um problema de ordem pes-soal, que o atrapalha no dia-a-dia da escola, é ummotivo de interferência, no sentido de estar aju-dando. Se você conseguir, com a sua prática ou Parceriacom diálogo, ou participando aos pais a pro-blemática desse aluno, e no dia-a-dia tentando
    • 108 Cida Sanches adaptá-lo na escola, sempre em função deste problema pessoal que ele tem, você está sendo um profissional competente, porque você não perdeu de vista o seu papel de Orientador Educa-Crença cional: o aluno tem que estar feliz, adaptado na escola. Quando você fala a palavra escola, você está se referindo à pessoa do professor, também. O aluno não é um papel só; ele é uma pessoa. Assim como o Orientador Educacional. Então você tem que conseguir trabalhar com essas pessoas que estão por trás desses papéis, mas levando em consideração os papéis que eles exercem: sejam alunos, professores, até mesmo o seu, como Orientador. Só há ajuda quando a pessoa do aluno está bem dentro da escola, adaptada. Se o professor se desempenha muito bem, a nível didático, mas não tem jogo de cintura — não é uma pessoa carismática, principalmente em sala de aula — você também tem que apoiá-lo, sempre se aproximando do outro como indivíduo, mas usando o papel dele dentro da escola: você é um agente intermediador. Nós estamos falando de um aluno que na verdade é um adolescente. O que é a adolescencia? É uma fase que, a nível cronológico, se consegue estipular que começa entre l3/14 anos — quando está saindo da puberdade — até 17/18 anos. A nível afetivo, o que é este adolescente? Como é essa coisa de ser adolescente? Ele está numa fase afe-Adolescente tivo-emocional, onde ele não se situa como criança — porque ele não é mais — e também não se situa como adulto, porque ele não o é. Então a adolescência é um periodo de transição entre dois momentos bem determinados: o momento em que se é criança — ele sabe que é uma
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 109criança, o que faz e o que pode fazer — e omomento em que se é adulto, em que sabeque é um adulto e o que pode fazer. O adoles-cente não. Então é muito difícil para ele esse mo-mento afetivo-emocional: ele não sabe se definir. FacilitaçãoNuma hora se sente uma criança, noutra se senteum adulto. Então você, como Orientadora Educacional,tem que estar ciente destas questões; quer dizer:tem que ter olho clínico para estar percebendoque fatores de ordem afetivo-emocional podemestar interferindo naquele momento da vidado aluno. É uma fase de muita impotência e potência:o jovem está jogando o tempo todo com estesfatores. Impotente quando ele se sente criança epotente quando ele se sente adulto. Só que não éuma coisa e também não é outra. Adolescente Você como Orientadora Educacional vai serum profissional de grande ajuda, sem dúvidanenhuma, dando respaldo nesses momentos da vidadele. Às vezes ele age agressivamente, emfunção de ainda não ter o “poder” que comoadulto teria para estar resolvendo algumasquestões da vida — tanto pessoal como quantoescolar — e às vezes também se sente umacriança, quando querido, quando se sentemimado pelos professores e colegas. Esse é o Conquistalado positivo de ser criança. Ele vai se sentir comoadulto, e também é positivo, quando é solicitado pelaescola para atuar em situações úteis ou de liderança,desenvolver trabalho em equipe, etc. Isso contribui Adolescentecom o desevolvimento do aluno de umamaneira menos dolorosa, menos sofrida, porqueé sofrido ser adolescente, ter esta falta de definição. Se você, como Orientador Educacional,
    • 110 Cida Sanches conseguir atuar dando respaldo para esse aluno, para ele conseguir externar esse lado adulto,Facilitação que não é total, em atividades, ele vai conse- guir se sentir um adulto num sentido positivo. Nas costumeiras questões a serem resolvidas a nível disciplinar, por exemplo, caso que eles te- nham com o professor em sala de aula, então você vai conversar e questionar: “Se você fosse um adulto, como é que você agiria?” Dessa forma você estará o tempo todo dan- do esta afirmativa para ele. Quando ele não consegue conviver com estes conflitos — quando pesa mais a parte negativa dessa fase afetivo-emocional que ele passa na adoles- cência — é que pode incorrer nas drogas, na postura questionadora — o famoso si hay gobierno soy contra. Isso em casa, na escola. Ele tenta essasConquistas alternativas porque aí ele se sente potente: — na droga ele se sente potente, na reivindicação ele se sente potente, no questionamento ele se sente potente. Ele é um padrão de comportamento des-Crença viante. Se ele te traz esse problema, qual é o seu objetivo? Tentar coadunar; tentar levá-lo com muitas respostas positivas. O Orientador Educacional pode propiciar estas situações para ele: situação de segurança — fazê-lo sentir-se querido, porque ele é carente pela própria fase. Agora, para estas atitudes, o profissional tem que estar internamente prédisposto. E como é estar internamente prédisposto para ajudar ? Bom: eu posso falar da minha experiência. Desde menina, com cinco, seis anos, eu já sabia que queria fazer psicologia. Nunca tive ne-
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 111 nhum momento de indefinição profissional. Eu que- ria ajudar as pessoas, eu queria entender melhor as pessoas, entender melhor o ser humano, eu queria saber de gente. Eu gosto de pessoas no sentido deOrigem estar podendo ajudar. Foi este o sentido que me fez sentir útil na educação, nessa área de Orientação, porque eu poderia estar na área educacional pela minha formação e não estar conseguindo efetivar esta ajuda que estamos falando. Então eu fiz a opção por um curso de ajuda. Acho que foi a maneira como fui criada. Meu pai sempre me ensinou a ajudar as minhas irmãs, a ter paciência e tentar entender. E a filosofia de educação, o modelo do meu pai é que me fez ser assim: tentar dar sempre o melhor. Ele dizia que “se não está bom, não reclama, porque isso não vai conseguir mudar nada. Se você puder fazer alguma coisa para melhorar, faça”. Eu cresci, assim, dentro desta filosofia: “Tem alguma coisa que você pode fazer de bom? Não? Então deixa para lá — não faça nada”. Eu acho que começou aí essa coisa de tentar sempre ajudar. E aprendi, também, a estar me ajudando, pois através disso eu sempre me ajudei.Crença Isso está em mim, em qualquer área que eu atue, qualquer coisa que eu faça. Se há alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar eu vou fazer, desde que eu não me prejudique. Isso está associado com a minha atuação como profissional de ajuda. Essa característica estáCrença embutida na pessoa do profissional.Você sabe que a sua proposta é de ajuda. Por exemplo: um médico, se ele não tiver um nível satisfatório de assistência como ser humano, não pode optar por uma carreira de ajuda, ser médico, porque ele não vai ter esta disposição interna para assistir o paciente, sempre
    • 112 Cida Sanches que este precisar. Quer dizer: é uma coisa de dentro paraCrença fora, não dá para se enquadrar, moldar. É da pessoa. Se a pessoa já tiver esta característica, aí então é mais fácil você trazer isso para uma atuação profissional: basta ter estímulos externos que contribuam para isso. Caso contrário esta atitude será forçada e o profissional não será eficaz, não conseguirá ajudar. Ser Orientador é ser um agente media-Crença dor entre aluno e escola fazendo com que am- bos vivam bem, tendo em vista o indivíduo que tem por trás daquele papel para que aquele papel seja bem desempenhado. E se você não tem estaFacilitação característica interna, não tem condição. Aí tem um pouco do conceito de vocação quando abordamos este assunto. Vocação vem do latim vocare, que quer dizer chamamento interno. Então existe um chamamento interno no indi- víduo que pode ser percebido nas atividades externas. O indivíduo tem aquela vocação. Is- so é interno. No dia-a-dia isso vai aparecer em suas atitudes como observador: se o aluno está triste, “sacar” se há algum problema, se vão “aprontar” alguma, enfim ter percepção das coisas. Ele tem que ser agil, tem que estar atento a tudo e a todos, tem que ter feeling. Ninguém diz a um profissional: “Olha você tem que ter intuição, tem que saber observar, temCrença que saber falar”. Não. O profissional de ajuda tem que ter essas qualidades. Isso tem muito da sua história de vida, do seu aprendizado, das suas ex- periências. O desenvolvimento profissional, de ajuda, depende muito da sua disposição in- terior. As pessoas têm ou não essas caracte-
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 113rísticas: feeling, sensibilidade, praticidade. Sãon as caracteristicas que o profissional tem que tercomo pessoa para estar desempenhando esse seutrabalho de maneira adequada. É assim que eu me analiso, e é assimque eu percebo um Orientador Educacional.
    • BibliografiaALBARELLO, Leonir L. O Orientador educacional: antinomias entre formação e atuação. Porto Alegre: 1992. Dissertação (Mestrado em Educação — PUCRS.ANDRADE,Teresinha de P. Expectativas de diretores, professores, orientadores educacionais e graduados em orientação educacional, relativas a prioridades de funções do orientador educacional em o escolas de 1 Grau. Rio de Janeiro: 1978. Dissertação (Mestrado em Educação) — UFRJ.ARAÚJO, Margareth Martins. Orientador Educacional e a organiza- ção dos trabalhadores. In: GARCIA, Regina Leite. Orientação educacional: o trabalho na escola. São Paulo: Loyola, 1994.CAVACO, M.Helena. Ofício do professor: o tempo e as mudanças. In:NÓVOA, António. Profissão professor. Portugal: Porto Editora, 1991.DOMINICÉ, Pierre. L’histoire de vie comme processus de formation. Paris: Édition L’Harmattan,1994.DROZDEK, Suely. Percepção das atitudes facilitadoras do professor: elaboração e validação de um instrumento. São Paulo: 1990. Dis- sertação (Mestrado em Psicologia Escolar) — USP.DUARTE, Vera Lúcia C. Aprendendo a aprender: experienciar, refletir e transformar, um processo sem fim. São Paulo, 1996. Tese (Dou- torado) — PUC.ERIKSON, Erik H. Teoria do estabelecimento da identidade do ego.in: CAMPOS, Dina M.de S. Psicologia da adolescência: normalidade e psicopatologia. 5. ed. Petrópolis: Vozes: 1980.FERRAROTTI, Franco. Histoire et histoires de vie: la méthode biographique dans les sciences sociales. 2. ed. Paris: Méridiens Klincksieck, 1990.GALVÃO, Osny T. M. M. Diagnóstico e avaliação da função do orientador educacional nas escolas paulistanas. São Paulo: 1980. Dissertação (Mestrado) — PUC.
    • 116 Cida SanchesGARCIA, Regina L. A orientação educacional e a democrati-zação do ensino. In: NEVES, Maria A.C.M. Orientação educacional: per- manência ou mudança. Petrópolis: Vozes, 1994.GARCIA, Regina L. & MAIA Eny M. Uma orientação educacional nova para uma nova escola. São Paulo: Loyola, 1990.HEGENBERG, Leonidas. Definições termos teóricos e significado. São Paulo: Cultrix, 1974.LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.LOFFREDI, Laís E. Paradigma da orientação educacional, baseado no modelo de Carkhuff. Rio de Janeiro: 1976._____________. A orientação educacional na perspectiva contextual. In: NEVES A.C.M. A orientação educacional: permenência ou mudança. Petrópolis: Vozes, 1994.LUDKE, Menga & ANDRÉ, Marli. Pesquisa em educação: aborda- gens qualitativas. São Paulo: EPU,1986.MALDONADO, Maria Tereza. Comunicação entre pais e filhos: a lin- guagem do sentir. Petrópolis: Vozes, 1987.MARITAIN, Jacques. A ordem dos conceitos lógica menor. Elemen- tos de filosofia. 10. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1983.MARTIN, Lenita. Orientação educacional, teoria e prática: repensan- do o estágio. In: GARCIA, Regina L. Orientação educacional: o trabalho na escola. São Paulo: Loyola, 1994.NÉRICI, Imídio G. Introdução à orientação educacional. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1992.OSÓRIO, Luiz Carlos. Adolescente hoje. Porto Alegre, Artes Médi- cas: 1989.OUTEIRAL, José O. Adolescer : estudo dos adolescentes. Porto Ale- gre: Artes Médicas Sul, 1994.PENTEADO, Wilma M.A. Orientação educacional: fundamentos le- gais. São Paulo: Edicon, 1980.PINTO, Leda M.P.M.O. Orientação educacional: estudo de sua situa- ção nas escolas particulares na cidade de São Paulo. São Paulo: 1987. Dissertação ( Mestrado.) — PUC.PIZA, Aurea C.S.de T. A descaracterização do orientador educacional no Brasil. São Paulo: 1980. Dissertação (Mestrado em Educação.
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 117QUELUZ, Ana Gracinda. A pré-escola centrada na criança: uma influência de Carl R. Rogers. São Paulo: Pioneira, 1984.RIBEIRO, Maria T.F., ANDRADE, Teresinha de P. & PINTO, Sônia E. Orientação educacional: uma experiência em desenvolvimento. São Paulo: EPU, 1984.ROGERS, Carl R. Sobre o poder pessoal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1986._______________. Um jeito de ser. São Paulo: EPU, 1983.______________e STEVENS, Barry. De pessoa para pessoa: o pro- blema de ser humano. 4.ed. São Paulo: Pioneira, 1991.________________ e ROSENBERG, Rachel L. A pessoa como cen- tro. São Paulo: EPU, 1977.ROSA, Merval. Psicologia da adolescência. Rio de Janeiro: Vozes, 1983.SALOMON, Délcio Vieira. Como fazer uma monografia. São Paulo: Martins Fontes, 1996. asSENA, Maria G. de C. Orientação educacional no cotidiano das 1 . o séries do 1 grau. São Paulo: Loyola, 1985.STRÔNGOLI, Maria T.Q.G. O discurso e o imaginário de um adoles- cente: reflexão e análise. São Paulo: 1989. Tese (Doutorado) — USP.VALDEZ, Dorotéa B. De como a orientação educacional vai encon- trando na história sua identidade. São Carlos: 1993. Dissertação (Mestrado em Educação e Ciências Humanas) — UFSC. I Círculo de Estudos de Orientação Educacional - Relatórios -Ministério da Educação e Cultura. Brasília: 1976.
    • GlossárioAdolescente: é um jovem entre 14 e 20 anos, caçador/so- nhador na procura de si mesmo, do mundo, até que a maturidade lhe permita encontrar a si mesmo no mundo e o mundo em si mesmo.Atividade: indica qualquer ação ou trabalho específico de- senvolvido pelo entrevistado na sua função de Orientador Educacional. Esta categoria descritiva expressa unicamente a atuação do Orientador Educacional no seu cotidiano. Portanto, verbos tais como: trabalhar, preparar, levantar, realizar, tendem a expressar tais ações.Conquistas: exprime as vantagens ou benefícios auferidos pelo adolescente decorrentes da ação do Orientador Edu- cacional como profissional de ajuda.Crença: define um conjunto parigmático de valores sobre a realidade à qual o Orientador Educacional esteve e está associado. São denotadores de crença, expressões que envolvam valores, convições e opiniões sobre o objeto do nosso estudo. Ressalte-se que não é feito qualquer juízo de valor quanto à veracidade da opinião.Crescimento humano: é caracterizado pela aquisição, por parte do adolescente, de um espírito de confiança, pela consciência de seus atos e compreensão da sociedade na qual participa, para o amadurecimento dos seus valores e, conseqüentemente, da liberdade para as suas conquistas sociais, pessoais, emocionais que, na verdade, se resume em conquista da independência.Escuta: refere-se a uma ação que envolve uma postura de ouvir o outro numa atitude sensível e de forma empática. Esta escuta permite que o outro tenha a oportunidade de
    • 120 Cida Sanches expor livremente o seu pensamento, num clima de con- fiança, discutir o exposto com aceitação e respeito, sem críticas pejorativas. Esta escuta empática tem como re- sultado o amadurecimento dos valores do interlocutor.Facilitação: indica atuação no sentido de auxiliar o desen- volvimento de relacionamentos interpessoais envolven- do os seguintes conjuntos de pessoas: alunos e profes- sores. A ação de facilitar geralmente estrutura-se em tor- no de uma dada condição existente sobre a qual o Orientador Educacional atua. Este auxílio expressa-se, comumentemente, por ações cujos verbos dominantes são: relacionar, incentivar, atentar, observar. Para tal, o Orientador Educacional deve estar atento ao processo ensino- aprendizagem, observar o comportamento do grupo, objetivando favorecer seu bom relacionamento e suas pro- postas e necessidades para um bom desempenho e desen- volvimento.Holística, proposta: abordagem de trabalho com o adoles- cente que cuida do todo: da sua formação acadêmica e da sua formação como ser humano, nos seus vários as-pectos. Limites : estabelecem para o adolescente até onde ele pode chegar com as suas atitudes e decisões; qual é o seu espaço social e familiar; quais são claramente as re- gras e normas dos ambientes que frequenta, de forma a que o adolescente entenda perfeitamente o significadodo respeito ao próximo e a si mesmo.Motivação: expõe os motivos ou causas que levaram o en-trevistado à Orientação Educacional. Orientador Educacional: profissional que facilita a ma- turidade pessoal e social do aluno, por meio de um pro- cesso em que o aluno vai-se tornando progressivamen- te mais consciente dos seus atos, mais consciente de simesmo e da sociedade da qual participa Origem: exprime os motivos que levaram o entrevista-
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 121do a optar pelo campo de ação educacional. Parceria: representa o auxílio que o Orientador Edu- .cacional busca junto a outros profissionais da instituição educacional, pais e os próprios alunos, para melhor de-senvolver sua ação ou seu trabalho. Pragmática, proposta: abordagem de trabalho com o adolescente voltada para o sentido de uma realidade prá- tica; pode ser sintetizada por um objetivo dominante em relação ao adolescente: colocá-lo com sucesso na facul-dade ou no mercado de trabalho. Profissional de Ajuda: caracteriza o educador que atua como facilitador através das atitudes de congruência ou autenticidade, aceitação e compreensão empática, parao desenvolvimento do crescimento humano do educando. Promoção: exprime atitudes concretas objetivando pro- piciar oportunidade para mudanças e reflexões, para que o adolescente se perceba responsável, capaz, indepen- dente e crítico. A ação de promover geralmente é construída em torno de uma dada condição ou situaçãoinexistente para a qual o Orientador Educacional atua. Self: ou “eu”, é o núcleo central da pessoa e representa um autoconceito. Neste núcleo da pessoa se encontram todas as auto-referências conscientes ou inconscientes.
    • Índice de autoresAlbarello, Leoni .......................................................................... 16Andrade, Teresinha ............................................................... 24, 26André, Marli ................................................................... 88,91, 95Araújo, Margareth Martins ......................................................... 31Axline, Virgínia ........................................................................... 45Cavaco, Maria Helena ................................................................. 87Drozdek, Suely ............................................................... 38 45, 48Duarte, Vera Lúcia ................................................................ 48, 49Erikson, Erik ............................................................................... 23Freire, Aracy Muniz .................................................................... 25Galvão, Osny ......................................................................... 24, 26Garcia, Regina Leite .................................................. 24, 30,31,32Hegenberg, Leonidas .................................................................. 91Lalande, André ............................................................................ 90Loffredi, Laís E. ...................................................................24,29Lourenço Filho ..................................................................... 25, 29Ludke, Menga ...................................................................88,91,95Maia, Eny .................................................................................... 32Maldonado, Maria Tereza ........................................................... 17Mange, Roberto ........................................................................... 25Maritain, Jacques ......................................................................... 31Martins, Lenita ...................................................................... 24, 29Nérici, Imidio G. ........................................................................ 17Outeiral, José O. ................................................................... 40, 41Penteado, Vilma M.A. ................................................................ 24Pimenta, Selma ......................................................................24,32Pinto, Leda M.P.M.O. ................................................... 24, 25, 27Piza, Áurea C.S. ................................................................... 24, 26Queluz, Ana Gracinda .................................................... 23, 45, 46Rogers, Carl R. ......................................... 18, 19, 22, 23, 24, 36,
    • 124 Cida Sanches............................................................... 46, 47, 48, 49, 62, 82, 83Rosemberg, Rachel ............................................................... 37, 49Rudolfer, Noemy Silveira ........................................................... 25Schimidt, Maria Junqueira .......................................................... 25Sena, Maria G. ............................................................................ 24Strôngoli, Maria T.Q.G. ............................................................. 24Tolberg ........................................................................................ 46Valdez, Dorotéia B. ..................................................................... 36Vera, Asti ..................................................................................... 94
    • Índice de assuntosaceitação ................................................................................ 42, 73acaso, influência do ..................................................................... 61adolescência ........................................................................... 37, 83adolescente ............................................................................ 31, 83adulto que ainda não é e quer ser .............................................. 86agressividade ......................................................................... 33, 86conquistas dos ............................................................................. 90crenças sobre o ............................................................................ 87conceito de .................................................................................. 37consciência de si mesmo ............................................................. 91desenvolvimento facilitado do ................................................... 92desenvolvimento integral do ....................................................... 90drogas e ........................................................................................ 35limites do ..................................................................................... 87melhor aproveitamento escolar do ............................................ 91mutação dos jovens e das épocas ............................................... 85Orientador Educacional e ........................................................... 98potencial a ser trabalhado ........................................................... 85preciso fazer com que se sintam felizes ..................................... 89precisa ser levado à reflexão ...................................................... 88precisa ser ajudado nos momentos difíceis ................................ 89problemas existenciais do .......................................................... 88qualidades e defeitos percebidos no ........................................... 85ser em transição ........................................................................... 84só o afeto conquista alunos ........................................................ 30além das conquistas do ................................................................ 93ajudado na escolha da profissão ................................................. 66auxiliado na compreensão da sexualidade .................................. 67auxiliado no processo deaprendizagem ...................................... 67conduzido à reflexão .................................................................. 75facilitando a incorporação valores ............................................. 79
    • 126 Cida Sanchesfacilitando a integração do .......................................................... 78facilitando o relacionamento do ................................................. 78identificando sinais de necessidade de ajuda .............................. 76incentivado a estudar .................................................................. 66importância do diálogo para o ................................................... 74promovendo o estímulo à aprendizagem do .............................. 79promovendo atividades deorientação de conduta ...................... 80promovendo ajuda para decisão profissional ............................. 80ouvido sem restrições .................................................................. 75análise .................................................................................... 53, 56aprender ....................................................................................... 80potencialidade para ..................................................................... 39assistente pedagógico ............................................................ 18, 72atividade ................................................................................ 65, 66autenticidade ............................................................................... 73categorias descritivas .................................................................. 50adolescente .................................................................................. 54definição das ............................................................................... 50crença ........................................................................................... 54escuta ........................................................................................... 54conquista ...................................................................................... 54motivação .................................................................................... 54origem .......................................................................................... 54recorte das ................................................................................... 50compreensão empática .......................................................... 43, 73conceitos básicos ......................................................................... 26conclusões .................................................................................... 55confiança ...................................................................................... 10congruência ................................................................... 41, 42 , 73conquistas .............................................................................. 84, 90disposição para gerar .................................................................. 93considerações finais ..................................................................... 95coordenador pedagógico ....................................................... 18, 36crença .....................................................................................59, 74crescimento humano ............................................................. 38, 83conceito de .................................................................................. 39decreto 72846 de 26.09.73 ........................................................ 16decreto-lei
    • ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 1274073 de 30.1.42 .......................................................................... 14 4424 de 9.4.42 ........................................................................... 146141 de 28.12.43 ........................................................................ 159613 de 20.8.46 .......................................................................... 1510623 de 1977 ............................................................................. 16diálogo ................................................................................ 3, 4, 74educação, entrada para a ............................................................. 60educação nacional ...........................................................................diretrizes e bases da ..................................................................... 15entrevistados, qualificação dos ................................................... 57entrevistasplanejamento das ......................................................................... 46recorte das ................................................................................... 52roteiro das .................................................................................... 47semiestruturadas .......................................................................... 47síntese das .................................................................................... 52escuta .............................................................................. 24, 74, 75estatuto do magistério ........................................................... 18, 19facilitação ....................................................................... 24, 73, 76facilitador ................................................................. 39, 41, 42, 43família, influência da .................................................................. 59idealismo, escolha com base no ................................................. 60identidade .................................................................................... 12jovem ........................................................................................... 10lei..4024 de 20.12.61 ........................................................................ 155564 de 21.12.68 ............................................................. 15, 16, 25692 de 1971 ............................................................ 16, 17, 19, 20lei orgânicado ensino comercial .................................................................... 15do ensino industrial ..................................................................... 14do ensino secundário ................................................................... 14limite ............................................................................................ 87conceito de .................................................................................. 32maturidade, corrida para a .......................................................... 38mediador, orientador educacional como .................................... 82métodoautobiográfico ............................................................................. 46
    • 128 Cida Sancheshistória de vida ............................................................................ 46metodologia da pesquisa ............................................................. 46motivação .............................................................................. 60, 62orientação educacionalcongresso brasileiro de .......................................................... 21, 22