Cida Sanches - Orientação educacional e o adolescente

11,979
-1

Published on

A atuação do orientador educacional como profissional de ajuda faz-se essencialmente sobre os jovens, seres em transição, com um grande potencial a ser trabalhado. Sua ação desenvolve-se por meio de um conjunto específico de atividades, como incentivar o aluno à pesquisa e ajudá-lo na sua definição vocacional, auxiliando o processo de sua aprendizagem.

Published in: Education
0 Comments
23 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
11,979
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
0
Comments
0
Likes
23
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Cida Sanches - Orientação educacional e o adolescente

  1. 1. Orientação educacional eoadolescente
  2. 2. C i d a S a n c h e sOrientação educacional eoadolescente C O L E Ç Ã O E S T U D O S A C A D Ê M I C O S 1 9 9 9
  3. 3. ©1999, by Editora Arte & Ciência Coordenação Editorial Henrique Villibor Flory Editor, Projeto Gráfico e Capa Aroldo José Abreu Pinto Diretora Administrativa Luciana Wolff Zimermann Abreu Editoração Eletrônica Alessandra Nery Revisão Letizia Zini Antunes TODOS OS DIREITOS RESERVADOS — é proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Biblioteca de F.C.L. - Assis - UNESP) Sanches, CidaM337a Orientação educacional dirigida a adolescentes / Maria Aparecida Sanches. — São Paulo: Arte & Ciência, 1998. 160p.; 21 cm ISBN 1.Orientação educacional I. Título 92-1796 CDD-371.422 Índice para catálogo sistemático: 1.Orientação educacional 371.422 Editora Arte & Ciência Rua dos Franceses, 91 – Bela Vista São Paulo – SP - CEP 01329-010 Tel/fax: (011) 253-0746 Na internet: http://www.arteciencia.com.br
  4. 4. Ao meu marido e aos meus filhos, meus grandes amigos,pela paciência e colaboração demonstradas ao longo de toda esta jornada.
  5. 5. ÍndicePrefácio ................................................................................. 11Introdução ............................................................................. 15Cap. 1: Conceitos básicos ................................................... 37Cap. 2: O que é ser orientador educacional ...................... 55Cap. 3: Conclusão ............................................................... 87ADENDOS:= Descrição do método ........................................................ 95= Exemplo de entrevista ..................................................... 105= Bibliografia ....................................................................... 115= Glossário ........................................................................... 119= Índice de autores ............................................................. 123= Índice de assuntos ........................................................... 125
  6. 6. Prefácio Pode-se atribuir ao Orientador Educacional um papelpreponderante como profissional de ajuda. Esse papel tem umagênese interior e é construído pela sua ação específica, que pro-duz os efeitos esperados de um profissional de ajuda. A ação do Orientador Educacional desenvolve-se por meiode um conjunto específico de atividades, tais como: incentivar oaluno no processo de sua aprendizagem, orientá-lo para a ma-turidade social e afetiva; ajudá-lo na sua definição vocacional.Essas atividades sempre se realizam com o apoio ou a parceriade diversas fontes, a saber: a estrutura educacional, os profes-sores, os pais e até mesmo os próprios alunos. A atuação do Orientador Educacional como profissionalde ajuda faz-se essencialmente junto ao adolescente — reco-nhecido como um ser em transição, com um grande potencial aser trabalhado, um adulto que ainda não o é e quer ser, um al-guém aceito com qualidades e defeitos. O trabalho do OrientadorEducacional sobre o objeto de sua ação é realizado sob um con-junto de crenças que fundamentalmente afirmam: que é precisodar apoio e atenção ao adolescente; que ele só pode ser con-quistado através de afeto que deve ser levado à reflexão eajudado nos momentos mais difíceis e sentir-se feliz. Emvirtude de tal atuação, o adolescente obtém algumas con-quistas, entre elas: um desenvolvimento integral, a consci-ência de si mesmo, um melhor aproveitamento escolar e umamadurecimento — como ser humano — mais facilitado.Mas não só o adolescente obtém proveitos: o próprioOrientador Educacional cresce com a sua atuação diária, poisaprende vivenciando-a. O Orientador Educacional, porém,acredita, que o proveito nos alunos só pode aflorar quando
  7. 7. há, no próprio Orientador Educacional, uma predisposiçãointerior no que o conduza a isso.
  8. 8. Caçador de mimPor tanto amor,Por tanta emoçãoA vida me fez assimDoce ou atroz,Manso ou ferozEu, caçador de mimPreso a cançõesEntregue a paixõesQue nunca tiveram fimVou me encontrarLonge do meu lugarEu, caçador de mimNada a temerSenão o correr da lutaNada a fazerSenão esquecer o medoAbrir o peito à forçaNuma procuraFugir às armadilhas da mata escuraLonge se vai sonhando demaisMas onde se chega assimVou descobrir o que me faz sentirEu, caçador de mim.(Sérgio Magrão e Luís Carlos Sá)
  9. 9. “O adolescente é uma pessoa com uma grande luz a ser trabalhada”.(S7) Introdução A proposta deste trabalho é analisar a ação doOrientador Educacional do ensino médio, das escolas pública eparticular, focalizando a relação de ajuda ao adolescente, na pro-moção do seu amadurecimento enquanto ser humano. Este trabalho está dividido, basicamente, em três capítulos. No primeiro, explicito os principais conceitos pertinentesao problema: Orientador Educacional, sujeito da ação da minhapesquisa; adolescente, principal objeto; relação de ajuda, que é omodo de atuar do sujeito e crescimento humano, o produto daação do Orientador Educacional. No segundo capítulo mostro que o Orientador Educacionalatua como profissional de ajuda ao adolescente do ensino médio.Ciente de que, entre possibilidades e limites, a escola é hoje olocal onde o aluno permanece de quatro a seis horas, ematividades sociais, educacionais e culturais, demonstro, nestesegundo capítulo, que o Orientador Educacional está atuandocomo facilitador no processo de maturidade pessoal e social doadolescente. Por fim, no terceiro capítulo, teço as considerações finaise mostro algumas inferências que a análise permitiu.
  10. 10. 16 Cida Sanches Pela importância do processo da pesquisa realizada,nos Adendos descrevo o método usado, centrado na análise dashistórias de vida profissional recolhidas de diversos OrientadoresEducacionais e ilustro o método com a inclusão de uma entrevista. Minha experiência O que me levou ao estudo deste tema foi a minhaexperiência que se iniciou no 3° ano do curso de Pedagogia, eml98l, quando monitorava a disciplina de Filosofia da Educaçãoem nível de terceiro grau. Nessa época, ainda muito jovem, inicieio meu trabalho com os alunos do l° ano, na sua maioriaadolescentes, na faixa dos 17/18 anos. Quando terminei o curso, dois anos depois, com especia-lizações em Orientação Educacional, Administração e SupervisãoEscolar, dei continuidade ao trabalho como professora de Filosofiada Educação, Didática e Supervisão de Estágios para alunos doensino médio, no curso de formação de professores. Com essas atividades, fui adquirindo uma grande afini-dade com os adolescentes, o que me permitiu desenvolver acapacidade de compreendê-los, por meio da atitude de escutá-los, atuando como “boa ouvinte” dos seus problemas, ajudando-os, dessa forma, a elucidar via diálogo a experiência de seradolescente. ... O diálogo provoca no próprio homem situações existenciais plenas, e é na concretude do dia-a-dia que a realização plena da vida do homem é efetivada. (Albarello, 1992: p.35) Com o diálogo foi possível, muitas vezes, ajudar oadolescente a entender situações que o aborreciam. Foi possívelacalmá-lo em situações de indisciplina e clarificar a necessidadeda observância das normas escolares. Foi possível ajudar o alunoa minimizar, e às vezes esclarecer, suas dúvidas, sobre a impor-
  11. 11. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 17tância do ato de estudar e sobre a opção profissional, pois tinhadificuldade de elaborá-las. Com o diálogo foi possível, ainda, a-judar a mim mesma, como profissional, a descobrir e entenderos processos evolutivos dessa faixa etária. ... O diálogo é o caminho mais seguro para o Orientador aprender a essência da problemática de cada educando, a fim de poder, mais conscientemente, orientá-lo em função da realidade existencial... (Nérici,1992: p.72) No processo educacional, com as minhas atividades comoeducadora, e ainda por meio do relacionamento diário com osadolescentes, descobri em mim a capacidade de identificar nosseus comportamentos, nas suas falas e nas suas expressões, omomento em que precisavam de ajuda. Vivenciar essa expe-riência a cada dia me possibilitou desenvolver um novo tipo decomunicação, definida por Maria Tereza Maldonado (1987) como“linguagem do sentir”. A linguagem do sentir envolve a “reflexão de sentimentos”,que é uma forma de aprender a estar em sintonia com o outro,por meio de uma comunicação que consiste em dizer-lhe,explicitamente, os sentimentos subjacentes que captamos nasmensagens que nos enviou (p.77). Consiste, ainda, em ajudaro outro a “digerir” sentimentos evocados por situações queficam inconclusas ou pendentes (p.83). ... Muitas vezes, o que sentimos não está muito claro para nós. Se alguém sintoniza conosco, é como se projetasse a luz de uma lanterna num lugar escuro e isso nos possibilita ver com mais nitidez o que está acontecendo dentro de nós. (p.80) A “linguagem do sentir” é uma forma de comunicação naqual estão presentes a sensibilidade e os recursos afetivos(p.85) e que pode aprofundar o relacionamento, e com issofavorecer o apoio ao desenvolvimento humano.
  12. 12. 18 Cida Sanches A comunicação entre os adolescentes e mim efetivou-seexatamente dessa maneira: permeada por sentimentos, de formaque, quando sua atitude revelava-me que precisavam serouvidos, eu exercitava a sensibilidade desse ouvir até poder sentiro problema apresentado.Vou contar um exemplo. Maria Cláudia chegou à escola, certa manhã, preocupadacom a doença e a provável morte da sua cachorrinha. Angustiada,chorava, manifestando a sua tristeza. Não se encontrava, dessaforma, em condição de participar da aula. Nada se podia fazer. Talvez mandá-la de volta para casa.Talvez deixá-la quieta no seu canto, protegida para que ninguémviesse aborrecê-la. Como ajudá-la, se eu nem mesmo entendiade animais? Mas entendo de sentimentos. Entendo de afetividade. Epara ajudá-la conduzi o diálogo de forma que ela expressasse,sem receios, a saudade que já sentia da sua cachorrinha deestimação. Falamos de como seria lidar com esse sentimento.Falamos da perda, da morte e de suas várias representações,desabafando e explorando todos os sentimentos, até que conseguiperceber que Maria Cláudia compreendia melhor o momentoque estava vivenciando. Isso significa ouvir o que está implícito na fala, aquelamensagem que não se diz verbalmente, mas que é comunicada,pelo outro, no tom da voz, no olhar lançado sutilmente, na posturaque revela desconforto. Aquela mensagem que está no choro,no grito e que pode estar, também, naquela frase construída sobreuma mágoa que precisa ser desabafada, ou num acesso de raivaque precisa ser liberado. Tornei-me, enfim, capaz de percebero momento em que o aluno precisava ser “ouvido”,independentemente do motivo. E aprendi a ouvi-lo. Fui mepreparando para me sintonizar com o desconhecido, sem o préviopreparo de uma resposta a ser dada. Apropriei-me cada vezmais do sentido de ouvir, de Rogers: ... ouço as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentidos, o significado pessoal, até mesmo o significado que subjaz às intenções
  13. 13. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 19 conscientes do interlocutor. É como ouvir música das estrelas, pois por trás da mensagem imediata de uma pessoa, qualquer que seja a mensagem, há o universal. (1983:p.5) Este é o “ouvir” que espera uma pessoa quando estámagoada, ansiosa ou até mesmo quando está confusa. Este é o“ouvir” que acolhe, que compreende e que faz o outro sentir-segratificado, pois esta atitude proporciona o alívio, oesclarecimento e o verdadeiro valor de nos sentirmos acolhidos.Quando assim ouvimos uma pessoa, estamos ouvindo não suaspalavras, mas ela mesma (p.6), estamos ouvindo o que vem doseu interior, expresso em palavras que mostram a importânciaíntima e pessoal daquilo que foi relatado. Ser “bom ouvinte”, no dizer de Rogers, implica um ouvirsensível, criativo, ativo, profundo e de forma empática, o que éuma habilidade tanto quanto uma atitude. A atitude empática requer muita sensibilidade para queseja possível ao ouvinte viver e captar os sentimentos de raiva,angústia, medo, ternura, felicidade, ou qualquer outro. Érecomendável participar, mas não julgar; refletir junto, ajudandoo interlocutor a perceber os significados da sua própria vivência.É preciso ter sempre uma postura positiva, segura e que nãoconstitua ameaça aos valores ou atitudes do interlocutor. Paratal se faz necessário, ao ouvinte ... perceber o mundo interior de sentidos pessoais e íntimos do cliente, como se fosse o seu, mas sem jamais esquecer a qualidade de ‘como se’. Perceber a confusão, a timidez, a cólera ou o sentimento que o cliente tem de ser tratado injustamente, como se isso se desse com você, mas sem que a indecisão, o medo, a cólera ou a desconfiança que você sente se incluam na relação. (199l:p.107) Perdi o medo nos atendimentos. Aprendi a respeitar, pordetrás das atitudes, a pessoa. A raiva é humana, assim como oé a meiguice. Também é humano o medo, tal como a coragem.
  14. 14. 20 Cida SanchesTambém são humanas a mentira, a ironia, a agressividade, domesmo modo que a coerência, a compreensão e a relação deajuda. Essa postura humanista, adotada no exercício profissionale, portanto, na convivência com os adolescentes, possibilitou-me compreender a importância do trabalho do OrientadorEducacional. Vivenciava uma satisfação que nascia do prazerde vê-los caminhar rumo à confiança em si mesmos, à confiançano outro e na sociedade. Com tudo isso me sentia gratificada eprofissionalmente realizada. Cada vez mais me motivava essetipo de trabalho, o que me levou à decisão de deixar as aulas esó atuar como Orientadora Educacional. Essa opção de trabalho com adolescentes levou-me aobservá-los diariamente, quanto ao modo de lidarem com seusproblemas, quanto à dificuldade para resolver uma situaçãoproblemática, dificuldade essa resultante às vezes do medo eda insegurança, às vezes da agressividade. No atendimentoaos pais e alunos, tive a oportunidade de observar, ainda, quemuitos jovens ficam com o relacionamento familiar abalado emfunção dos questionamentos quanto a suas crenças e valores(podendo estes serem de ordem social, econômica, afetiva oucultural). Percebi que, nessa transformação do “ser criança” parao “ser adulto”, os adolescentes oscilam nas suas atitudes. Orasão mais infantis, ora são mais adultos, porém, sempre no “entre”,na “passagem”. Percebi que são muito influenciados pelo grupode amigos, cujos componentes estão inseridos nesse mesmoprocesso de transformação. A sós, com os pais, eclode o conflito. O “entre” não émuitas vezes compreendido, e a solidão, a falta dos companheirosnessa hora de enfrentamento com os pais — para a conquistado sonho, para tornar-se adulto — rapidamente geracomportamentos agressivos, irônicos, competitivos, impedindo,muitas vezes, o diálogo. Para os pais é difícil confiar nesse ser em oscilação, emconstante movimento, pois também não sabem como lidar com
  15. 15. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 21ele, em nome do amor e da necessária proteção, muitas vezesignoram esse processo de mudança e acabam cobrando essasatitudes que são ora infantis ora adultas. Os pais e a escola, emmuitos momentos, gostariam de poder congelá-los em uma dasextremidades. Acompanhá-los nesse penoso processo detransformação exige do Orientador Educacional uma empatiamuito grande para não reproduzir a atitude de pais e professores. Quando tenho dificuldade para compreender a atitude deum jovem, remeto-me ao passado e vivencio a minha ado-lescência. Procuro lembrar como era a minha busca por umespaço no mundo, como eram as minhas emoções e as grandespaixões. Estamos todos, nessa fase, procurando por nós mesmos,procurando um porto seguro onde possamos resolver essasquestões do medo e da insegurança, que se manifestam emtodas as situações em que precisamos tomar uma decisão oudar uma opinião própria. Como canta Milton Nascimento: Nada a temer Senão o correr da luta Nada a fazer Senão esquecer o medo Abrir o peito à força Numa procura ... Eu, caçador de mim. Muitos jovens, nessa travessia, perdem-se num mundoonde impera a droga, a irresponsabilidade, a violência. Para elesnão é uma questão de chegar ao outro lado da ponte: a vida queescolheram rompeu com a idade cronológica e os transformouem seres perversos, num momento que deveria ser o daconstrução de uma personalidade sadia. Em todos os ambientesencontramos esses jovens, independentemente da classe social.Foram vencidos pela atração fatal das drogas, do sexo, do dinheiroe da violência.
  16. 16. 22 Cida Sanches Fugir às armadilhas da mata escura Longe se vai sonhando demais Mas onde se chega assim Vou descobrir o que me faz sentir Eu, caçador de mim. O trabalho do Orientador Educacional para com essesjovens não surte o efeito necessário. O que podemos fazer éajudá-los a perceber que, durante as horas em que freqüentam aescola, devem tratar com deferência aqueles que ali estão,fazendo o possível para respeitá-los, assim como respeitar oslimites estabelecidos. Não penso que seja necessário excluí-los,mas sim que seja possível conquistar sua compreensão de que,nesse ambiente, é assim que eles devem manter-se. Esses jovensprecisam do atendimento de profissionais mais especializados,pois, a escola, não é uma clínica e o Orientador Educacional nãoé um terapeuta. Ao longo de minha trajetória como OrientadoraEducacional, constatei que o jovem pode, por meio de umrelacionamento de carinho e atenção, ser orientado para quedescubra que todos precisam de um projeto de vida e que, nocerne desse projeto, está a imagem do ser humano que ele almejaser no futuro. Esta é uma forma de motivá-lo a crescer,enriquecendo os seus valores. Acredito que, quando temos uma meta para o futuro, temostambém um estímulo para crescer. Penso que é possível facilitarao jovem a construção de uma auto-imagem como pessoa seguraque, sobretudo, reconheça os seus próprios valores como figurahumana, com referenciais firmemente estabelecidos que oajudem a atuar com confiança nas atividades sociais, culturais eeconômicas. O jovem pode entender que, a partir desse contexto,tudo o que fizer não será somente para atender à sociedade,agradar aos seus pais, ou mesmo para ser o melhor na escola,mas, também, para atingir um objetivo maior: conquistar a sua
  17. 17. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 23independência social e financeira e, fundamentalmente, investirna sua felicidade. Esse jovem tem uma cultura que lhe é própria, com suasposturas, suas músicas, danças e vestuário; tem a sua própriaforma de ver o namoro e as relações entre as pessoas e seuvocabulário é diferenciado, recheado de gírias que constroem asua comunicação. Tudo isso merece ser respeitado pelos adultos.Entendo que o problema, muitas vezes, não está no jovem e nasua cultura, mas no adulto que não a aceita, não a entende. Édifícil para o adulto compreender os valores e as necessidadesparticulares desses jovens no seu processo de crescimento, umprocesso que é individual. Deixa, assim, de ser um apoio, umamigo fiel e colaborador, para assumir uma atitude de revolta,que ignora e critica essa cultura sem nada aceitar. Nessa relação do adulto com o adolescente, a confiançade um no outro adquire grande importância. É ela que abre asportas para o diálogo e, a partir deste, ambos investem natransformação pela qual passarão. O adolescente rumo à vidaadulta deixará para trás, na sua travessia, muitos sonhos, valores,dores e alegrias; e aquele que o acompanha também, ao chegardo outro lado, terá a vida modificada. Esse movimento formadore transformador acompanhará sempre o próprio movimento doexistir, pois no dizer de Rogers, saber-se pessoa é saber-se devir, inacabado, incompleto e construtor de si mesmo e de seu futuro. (Rogers “in” Queluz—1984) A meu ver o jovem tem uma grande disposição para um“bom papo”; gosta de relacionar-se, de fazer amigos. Mesmo omais tímido geralmente tem o seu grupo de amigos mais íntimoscom quem estabelece troca de experiências significativas,especialmente nos assuntos que não se sente seguro de com-partilhar com a família. Assim, dá preferência ao relacionamentocom os amigos da escola, do bairro onde mora, do clube quefreqüenta, que são os seus companheiros de travessia. Isso vem
  18. 18. 24 Cida Sanchesao encontro do que diz Erikson: ... os companheiros de idade, a roda de amigos e a turma ajudam o adolescente a encontrar sua própria identidade, em um contexto social. O sentimento de participação no grupo, nas rodas de adolescentes é forte e determina um sentimento de clã e intolerância com as diferenças, inclusive aspectos mínimos de linguagem, gestos, modos de vestir”. (1980:p.89) No processo educativo, muitos dos alunos buscam ter,com seus educadores, uma relação de amizade mais profun-da. Esses alunos esperam dos educadores um espaço abertonão só para as trocas de conhecimentos gerais (como física,química e português), mas também para a partilha de expe-riências vivenciadas. O aluno geralmente valoriza o relacio-namento com os professores e sente-se valorizado quando éouvido, percebendo que há nessa relação um clima de liber-dade para expor as suas idéias. Parece-me que, quando oeducando encontra esse espaço aberto, essa prédisposiçãodos educadores para essa troca, nasce a possibilidade deque ele encontre aí um amigo e conselheiro que possa ajudá-lo. Amigo, quando o acolhe com sentimento de afeição,ternura e crítica construtiva; conselheiro, quando nessa at-mosfera calorosa o respeita como indivíduo livre para falardos seus sentimentos e desejos; respeita-o e acredita nelecomo capaz de ser responsável por si próprio com tendênci-as naturais para tornar-se maduro, ajustado socialmente, in-dependente e confiante. Rogers diz que ... existe em todo organismo, em qualquer nível, um fluxo subjacente de movimento para uma realização construtiva de suas possibilidades intrínsecas. Há no homem uma tendência natural para o desenvolvimento completo. (1986:p.17) É nesse sentido que entendo serem os Orientadores
  19. 19. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 25Educacionais profissionais com possibilidade para facilitaro processo de relacionamento entre professor e aluno; capa-zes de promover o seu próprio encontro com o educando ecom os professores, como profissionais de ajuda no cresci-mento humano do adolescente, levando sempre em consi-deração as tendências naturais da pessoa para esse cresci-mento. Rogers diz que o “profissional de ajuda” é ... uma pessoa facilitadora [que] pode ajudar na liberação dessas capa- cidades, quando se relaciona como uma pessoa real para com a outra, possuindo e exprimindo seus próprios sentimentos; quando vivencia um cuidado e amor não possessivo em relação à outra; e quando com- preende com aceitação o mundo interno da outra. (1986: p.23) A orientação ao ser humano se faz necessária em to-das as fases da vida, assim como a orientação escolar se faznecessária em todos os níveis escolares. Porém, parece-me quena adolescência essa necessidade é mais intensa, visto que essaé a fase do ser humano que representa a encruzilhada entrea infância e a vida adulta (Strôngoli. 1989:p.10). Revisitando a história da Orientação Educacional A Orientação Educacional é uma atuação profissionalexistente desde o século XIX, e podemos encontrar estudos aesse respeito nas produções acadêmicas de Teresinha Andrade(1978), Piza (1980), Penteado (1980), Osny Galvão (1980), Sena(1985), Leda Pinto (1987), Selma Pimenta (1990), Loffredi(1976 e 1994), Lenita Martins (1994), Regina Garcia (1994) eoutros. Ao longo de sua história, a Orientação Educacional nemsempre teve o mesmo enfoque. A questão ideológica permeou
  20. 20. 26 Cida Sanchesos objetivos da Orientação Educacional, fazendo com que estesmudassem de acordo com a estratégia mais ampla do poderpolítico. Pode-se dizer que o advento dessa profissão ocorreu coma saída dos pais dos lares, para irem trabalhar nas fábricas, noinício da era industrial. A necessidade era atender às sociedadesindustriais através da Orientação Profissional, somada ainda ànecessidade do apoio e supervisão que os alunos deixaram deter nos lares. A Orientação Educacional surgiu no Brasil em 1924,através de Roberto Mange, professor da Politécnica de São Paulo,na forma de Orientação Profissional dirigida a jovens que,tendo terminado a escola média, pudessem ser selecionadose encaminhados para a formação técnica em Mecânica, noLiceu de Artes e Ofícios de São Paulo (Pinto,1987:p.14). Em 1931, no Brasil, Lourenço Filho criou o Serviço deOrientação Profissional e Educacional, dirigido pela psicólogaNoemy Silveira Rudolfer. O objetivo desse serviço era guiar oindivíduo na escolha de seu lugar social na profissão(Pinto,1987:p16). Esse trabalho teve duração de quatro anos,tendo sido extinto, então, em 1935. As educadoras Aracy Muniz Freire e Maria JunqueiraSchmidt, em 1934, implantaram na Escola de Comércio “AmaroCavalcanti” o serviço de Orientação Educacional. Aracy MunizFreire, inclusive, escreveu a primeira obra nacional sobre aprofissão, sob o título A Orientação Educacional na EscolaSecundária, em 1940. Mas só em 1942 a profissão aparece na legislação federal.Daí para frente, como foi dito, seu enfoque foi mudando de acordocom as estratégias políticas. A regulamentação da profissão veio com o decreto 72.846,de 26.9.73, que disciplinou a lei 5.564, de 21.12.68, que proviasobre o exercício da profissão de Orientador Educacional. Oartigo 1o afirma que constitui objeto da Orientação Educacionala assistência ao educando, individualmente e em grupo, no âmbito
  21. 21. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 27do ensino do 1o e 2o graus, visando o desenvolvimento integral eharmonioso de sua personalidade; ordenando e integrando oselementos que exercem influência em sua formação epreparando-o para o exercício das opções básicas. Nas escolas estaduais, somente em 1977 é que o decreto-lei 10.623, nos artigos 18, 19 e 20, fala das atribuições doOrientador Educacional, desde o seu trabalho em cooperaçãocom o professor e a escola, nos programas de apoio técnicopedagógico, até o seu desenvolvimento de esquema de contatopermanente com a família. Esse decreto-lei aprovou o regimentodas escolas de 1o grau, que só entrou em vigor em 1978. Nas décadas de 70 e 80, a Orientação Educacionalencontrou-se em profundo questionamento, quando constatouas limitações dos enfoques anteriores. As produções acadêmicasdessa época falam da existência de uma “crise de identidadeprofissional”. O Orientador Educacional já não sabe quem é,nem quais são as suas funções, como exemplificam os textosabaixo: Teresinha Andrade afirma que: ... estudos têm mostrado que há conflito na expectativa dos membros da comunidade escolar a respeito do desempenho de papéis e função do Orientador Educacional.Os diretores esperam pouco, ou quase nada da Orientação. Alguns toleram porque seus superiores o exigem. (1978:p.29) Piza ocupa-se da perda de identidade profissional doOrientador Educacional: ... O presente estudo trata da perda da identidade do Orientador Educacional no Brasil, procurando caracterizar e dimensionar tal problema, tanto a nível de literatura especializada, como entre os profissionais ativos que desempenham as funções de Orientador Educacional em escolas brasileiras. (1980:p.75)
  22. 22. 28 Cida Sanches Osny Galvão enfatizava o fato de a função da OrientaçãoEducacional não ser nem compreendida, nem valorizada: ... A Orientação Educacional não é bem compreendida e nem valorizada como função na estrutura, não só pelo corpo docente mas também pelas direções. Isso vale não só para as escolas do estado como também para municipais.(1980:p.86) Leda Pinto mostra que só a partir da metade da décadade 70 a Orientação Educacional passa a dispor de um embasa-mento teórico mais concreto: ... Após a promulgação da lei 5.692/71, com todas as conseqüências que traz em seu bojo para a educação e conseqüentemente para a Orientação Educacional, configura-se o momento em que o questionamento da profissão de Orientação Educacional e de seu embasamento teórico toma uma forma mais concreta, mais precisamente na segunda metade da década. (1987:p.69) Apesar de toda essa dificuldade para definir a profissãoe, igualmente, a atuação de seus profissionais, em 1982 o Estatutodo Magistério Municipal de São Paulo mostrava a função doOrientador Educacional integrada à comunidade e à família.Seu trabalho seria realizado em conjunto com a AssistentePedagógica, mas cada um na sua função específica, visto quecada escola era dotada de um Orientador Educacional. Dois anos depois, em 1984, o cargo de OrientadorEducacional nas escolas municipais do Estado de São Paulo foiextinto. Os representantes da educação, nessa altura, deram comojustificativa para extinguir esse cargo a possível cumulação defunções entre a Assistente Pedagógica e a OrientadoraEducacional, ou seja: ambas realizavam trabalhos semelhantes. ... Havia uma ampla discussão sobre a função de cada um dentro do
  23. 23. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 29 regimento escolar, referente ao que cada um fazia dentro da unidade. Começou a se pensar que esse Assistente Pedagógico e esse Orientador Educacional estavam em desacordo. Era uma corrente e a corrente que ficou mais forte foi a de fundir os dois cargos em um só ...Tivemos, então a Coordenadora Pedagógica. (Comunicação Pessoal: S2/1996) Vale ressaltar que no ano de 1984 a maioria dos Orienta-dores Educacionais estava ocupando cargos de direção e super-visão, deixando assim o Sindicato dos Orientadores Educacionaisesvaziado. Ou seja, fragilizada pelas circunstâncias, a própriacategoria não se manifestou, e os poucos que se levantarampara lutar pela categoria (os orientadores da Prefeitura de SãoPaulo) não encontraram eco para a sua voz . Uma vez extinto o cargo de Orientador Educacional, paraatender às necessidades das escolas, foi criado o cargo de Coor-denador Pedagógico, que teria como objetivo atender às neces-sidades dos professores e dos alunos. O regimento que criouesse cargo, porém, pouco fala das suas funções dirigidas espe-cificamente aos alunos, porquanto esse profissional ficou dedicadoà assistência ao professor e ao diretor. Quanto ao aspecto formal, em termos de documentação,no Estatuto do Magistério de 1985, nas escolas estaduais oOrientador Educacional ainda fazia parte da classe dos es-pecialistas com as seguintes exigências: possuir licenciatura plenaem Pedagogia, com habilitação específica em OrientaçãoEducacional e ter, no mínimo, três anos de docência, e/ou serespecialista em educação de 1o e/ou 2 o grau. Porém, na prática,não se encontrava esse especialista executando suas funções. Na rede pública, a figura do Orientador Educacional sofreuum desgaste em função da lei que tornou obrigatória sua presençanas escolas (artigo 10 da lei 5.692/71). Essa obrigatoriedade,que foi instituída com a função de estender-se a todos osalunos, nos vários níveis de ensino, dentro da estrutura 1escolar , acabou por identificar o profissional como um elemento1 Relatório do Ministério da Educação e Cultura. Brasília, 1976.
  24. 24. 30 Cida Sanchesque existiria para controle dos alunos; um controlador dosjovens em termos ideológicos, refletindo uma conotaçãototalmente política. Existem profissionais que defendem aidéia de que a política, na época, não era levar o educando aconhecer-se integralmente: A ênfase era numa linha ideológica da razão sobre os sentimentos, da razão sobre os valores. Desta forma o trabalho de orientação perdia o seu sentido, visto que a ênfase do trabalho dos Orientadores está no ser humano como um todo: razão e emoção”. (E.01.1996) Loffredi faz referência à obrigatoriedade da OrientaçãoEducacional pela lei 5.692/71, como sendo ela a responsávelpela ruptura da posição tradicional do Orientador Educacional eexplica que: ... com a universalização da dimensão profissional, que coloca o orientador educacional contra a parede, foi impossível manter a acomodação ou fazer os ajustes tentados até então. A lei colocou tantos paradoxos para o trabalho do Orientador e para a escola, que tornou a Orientação Educacional inviável. (1994:p.44) O referido autor definia o Orientador Educacional comoum profissional que pudesse orientar os jovens a seguir umcaminho em que se sentiriam mais seguros, ajudando-os, dessaforma, a ... tornarem-se mais capazes de serem independentes e responsáveis por si mesmos, oferecendo-lhes, para isso, a possibilidade de aprender a serem livres, conscientes e responsáveis. (1976:p.43) Lenita Martins fez parte de um grupo de debate sobreOrientação Educacional que concluiu que
  25. 25. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 31 ... O Orientador Educacional não está consciente de sua especificidade enquanto profissional, e disto resulta o fato de a escola não reconhecer nele um elemento competente e necessário no processo educativo. (1994:p.76) A curta e tumultuada história do Orientador Educacional,no Brasil, impediu que se estabelecesse um perfil pacífico desseprofissional, porquanto as suas funções e atribuições ficavam aosabor do objetivo ideológico que se lhe atribuía. Com efeito, o Orientador Educacional, trabalhando desdeno guiar o indivíduo na escolha de seu lugar social na 2profissão , passando pelo trabalho de adaptação profissionale social do aluno e para cuidar para que os estudos e odescanso dos alunos ocorressem dentro da conveniência 3pedagógica , bem como atuando na figura que ensina e treinahabilidades, para que o indivíduo atinja melhores níveis defuncionamento pessoal e interfira no ambiente com vistas à 4formação de um clima favorável à maturidade , para depoispassar à orientação do educando, individualmente ou emgrupo, visando ao desenvolvimento integral e harmoniosodos alunos, preparando-os para o exercício das opções bá- 5sicas , até reconhecer-se numa crise de identidade profissional(1970-1980) em que já não sabia quem era, nem quais eram assuas funções, sem quaisquer contornos, amoldava-se ao que eraideologicamente conveniente. Ele, realmente, tinha perdido o seufoco. Só a partir de meados da década de 70 o Orientador Edu-cacional começa a busca de um desenho consciente do seupróprio papel, como se estivesse traçando a própria linha dodestino; porém, mais uma vez, na minha opinião, a busca mostrou-se infrutífera. É difícil estabelecer o momento a partir do qual o2 Objetivo do Serviço de Orientação Profissional e Educacional, criado em1931 por Lourenço Filho.3 Lei 4.073, de 30.1.19424 Lei 4.024, de 20.12.19615 Lei 5.564, de 21.12.1968
  26. 26. 32 Cida SanchesOrientador Educacional passa a preocupar-se com o seu ver-dadeiro papel. Alguns momentos específicos em tal buscapodem ser elencados como relevantes: o I Congresso Brasi-leiro de Orientação Educacional, realizado em Brasília em1970, em que os Orientadores Educacionais buscavam umadefinição de um papel profissional para o Orientador Edu- 6cacional ; no Congresso de 1972 organizam pautas querespondam à ansiedade dos orientadores em definir concre- 7tamente o seu papel na escola ; porém, ainda no VIII Con-gresso, realizado em Brasília em 1984, o objetivo era redefinira orientação educacional, a partir da revisão crítica de suahistória, da análise crítica da escola concreta e da explicitação 8de seu papel, o de transformação . O X Congresso, em 1988,no Rio de Janeiro, arrasta o debate para o meio da relaçãocapital—trabalho. O Orientador Educacional, embora nãosaiba o seu papel, já se sabe explorado: ... Até que ponto cada um de nós, Orientadores Educacionais, tem clareza do que vem a ser um trabalhador braçal dentro de uma sociedade que valoriza apenas o capital? Se existe este tipo de percepção, será fácil identificar as contradições existentes na sociedade e refletidas na escola. A sociedade exige cada vez mais que nós, trabalhadores, nos organizemos, para que possamos dirimir a exploração de que somos vítimas. Algumas questões devem ser elucidadas: a) Por que existem o patrão e o empregado?... (Araújo,1994:p.21) Regina Garcia, sobre este momento, diz: ... do processo de participação dentro e fora da escola, do processo de construção e assunção de sua identidade de trabalhador da educação, do processo de engajamento na luta pela construção de6 Garcia, Regina Leite (Org). Orientação Educacional: o Trabalho naEscola. 1994, Loyola, p11.7 Idem, p.128 Idem p.17
  27. 27. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 33 uma escola pública e gratuita de qualidade para a classe trabalhadora, do processo de engajamento na luta por uma Constituição que atendesse às reivindicações da classe trabalhadora, do processo de luta pela transformação da sociedade, era inevitável a filiação à CUT. ...Gestada no próprio processo de filiação à CUT, emergiu outra contradição entre os orientadores. Alguns orientadores-trabalhadores abandonaram o seu espaço específico de ação profissional — a escola. Negam assim o que os qualifica como trabalhadores: a sua condição de trabalhadores da educação ...Neste momento, vivemos na orientação educacional duas tendências: uma que privilegia o espaço sindical e outra que dá ênfase ao espaço escolar.(1994: p.17) O X Congresso surpreendeu pela tônica da luta de classes,remetendo os debates para temas como “O Orientador e aorganização dos trabalhadores”, “A Orientação Educacional e aeducação do filho do trabalhador e do aluno trabalhador” e “OOrientador Educacional e o processo de reprodução das classessociais na escola”. Hoje, após tantas modificações na sociedade e ante aconstatação de que nas escolas públicas (que atendem ao filhodo trabalhador e ao aluno trabalhador) não há OrientadoresEducacionais, pode-se dizer que o X Congresso foi em vão. Selma Pimenta, na Apresentação de Uma orientação 9educacional nova para uma nova escola , afirma: ... A preocupação dos Orientadores Educacionais com a definição de suas funções tem sido a constante de encontros, congressos, teses, pesquisas. A indefinição permanece e, com ela, a insatisfação profissional. Chega-se a imaginar que esta é conseqüente daquela. Assim, no momento em que se conseguir definir, especificar e delimitar claramente as funções do Orientador Educacional no interior da escola, as causas que têm provocado a insatisfação profissional desaparecerão. Conseguirão esses profissionais da educação dar o salto9 Maia, Eny e Garcia, Regina. São Paulo, Loyola, 1990, p.7.
  28. 28. 34 Cida Sanchesda qualidade ao seu trabalho por meio dos desafios propos-tos, durante tantos anos, pelas produções acadêmicas? A esserespeito, Regina Garcia diz acreditar que ... é pelas próprias contradições internas da orientação educacional que ela tem condições de recuperar o seu papel, de superar as contradições e caminhar para um novo papel. (...) Se for um agente transformador, começará pela transformação de sua própria prática. (1994:p.14) Foi angustiante para mim rever essa história por per-ceber que o Orientador Educacional não encontrava, mes-mo quando ele se propunha à busca, um lugar para escrevero seu destino. Ele não conseguia se encontrar, não conse-guia estabelecer seu rumo, seu destino. Congressos, círcu-los de estudos, debates, oficinas, discursos, discussões e te-ses… e ao fim disto tudo, sempre a mesma questão: não sa-ber quem era, nem o que queria ser. Esta era a minha inquietação como Orientadora Edu-cacional. Acreditava que outros profissionais possuem estamesma inquietação e a crença na sua superação. Pergunta-va-me: Como estão esses educadores construindo, agora, oseu papel facilitador junto aos adolescentes? Como esseprofissional constituiu, com tantas mudanças, o seu traba-lho com adolescentes? Pude perceber, pela minha experiência, que, em ge-ral, as instituições educacionais possuem uma proposta edu-cacional pragmática — no sentido de uma realidade prática— a qual pode ser sintetizada por um objetivo dominanteem relação ao adolescente: colocá-lo com sucesso na facul-dade ou no mercado de trabalho. Raras são as instituiçõesque têm uma proposta holística para o adolescente — cui-dando do todo: da sua formação acadêmica e da sua forma-ção como ser humano, nos seus vários aspectos. Entendo — e já afirmei isto anteriormente — que asnecessidades do adolescente não coincidem, na maioria das
  29. 29. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 35vezes, com a proposta pragmática de interesse da institui-ção. No meu caso particular, esse conflito é vivenciado nodia-a-dia e acredito que também o mesmo ocorra com ou-tros profissionais. A minha questão era, deste modo, investigar se oOrientador Educacional no exercício do seu papel atuavacomo profissional de ajuda ao adolescente. Esta relação deajuda pressupunha que o Orientador Educacional tivesse umaatuação de: escuta — sendo essa escuta sensível, profunda,criativa e empática, por meio do diálogo; de facilitação narelação entre educador e educando — sempre atento às ne-cessidades do grupo para que esta relação seja saudável esirva como principal ponto de partida para o crescimentodos grupos discente e docente; e de promoção de ativida-des, principalmente daquelas nas quais o aluno tem a opor-tunidade de reconhecer a sua atitude como responsável e detornar-se capaz de ser independente e crítico das suas pró-prias ações e das ações do grupo.
  30. 30. ”Não há nada melhor do que ver nossos alunos crescerem saudáveis, conquistaremos seus espaços, mudarem os seus hábitossociais, saberem avaliar suas condições,suas próprias posições”. (S3) CAPÍTULO I Conceitos básicos V imos atrás que as produções acadêmicas mostramo Orientador Educacional, até o ano de 1994, como um profis-sional cuja função e papel foram sendo sucessivamente alterados,questionados e desvalorizados, influenciando na construção dasua identidade profissional. As produções que se ocupam daOrientação Educacional, conquanto muitas delas investiguem aquestão da sua atuação profissional, raramente fazem mençãoespecífica à atuação do Orientador Educacional na condição deprofissional de ajuda ao adolescente do ensino médio. A lei 5.564/68 define o exercício do Orientador Educa-cional, em especial no ensino médio, com o objetivo genérico de ... facilitar a maturidade pessoal e social do aluno, maturidade essa que será atingida através do desenvolvimento e de um processo em que o aluno vai se tornando progressivamente mais consciente dos seus atos, de si mesmo como ser social e da sociedade da qual participa.
  31. 31. 38 Cida Sanches Analisando todo esse percurso, verifico que o arcabouçolegal já propunha a atuação do Orientador Educacional comoprofissional de ajuda que se interessasse em atuar como umfacilitador do desenvolvimento da maturidade pessoal e socialdo aluno. Sendo assim, não se trata de uma questão legal. Parece-me que a função existe; o que não encontramos são profissionaisinteressados em executá-la como definia a lei e como — a meuver — o jovem necessita. Dorotéa B. Valdez, na sua produção De como aOrientação Educacional vai encontrando na história suaidentidade, levanta questões como: O que dizem de nós? Deonde viemos? Para onde vamos? E como resposta a esta últimaquestão diz que não se trata da importância da profissãolegalmente definida, mas trata-se de pensar, discutir caminhos,perspectivas, para que este profissional possa contribuirna construção de um projeto educativo que reflita a relaçãoescola—produção (1993:p.143). Portanto, a proposta legal existe; o que pretendoinvestigar, então, é se os Orientadores Educacionais atuam comoprofissionais de ajuda ao adolescente e se essa ajuda estariavoltada para o desenvolvimento do adolescente como pessoa —o que chamei de “crescimento humano”. Há portanto, no mínimo,alguns conceitos que devem ser explicados: 1. Orientador Educacional 2. Adolescente 3. Crescimento humano 4. Profissional de ajuda É isso o que veremos a seguir. Orientador educacional Construí a minha atuação profissional em relação aoadolescente influenciada por Carl Rogers. Tornar-se facilitadornão é, para ninguém, uma tarefa simples. Além disso, é preciso
  32. 32. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 39considerar que essa atuação como facilitador acontece no espaçoda escola e perpassa o espaço familiar e da comunidade. Portanto, ao procurar atuar como facilitador no desenvol-vimento do adolescente me vi, muitas vezes, dificultando o meupróprio desenvolvimento dentro da instituição ou junto aos pais,ou ainda junto à comunidade. É nesse espaço de conflito, na impossibilidade de umarotina fielmente seguida, que o Orientador Educacional é cha-mado, todo dia, a atuar nas diferentes frentes que o seu cargoexige. O Orientador Educacional promove atividades em que oobjetivo é desenvolver no aluno uma atitude de reflexão sobreo seu lugar na sociedade da qual participa, com questõespropostas para chamá-lo à realidade social e profissional. Eu própria faço isto, pois no decorrer do ano letivoprogramo encontros individuais, de pais com os filhos, parafalarmos sobre “objetivo de vida”. Questiono o jovem: “Quaissão suas expectativas como pessoa na sociedade? Como vocêse projeta no futuro como ser humano? Que perfil faz para simesmo como profissional, pai, e esposo no futuro?” A questão profissional é colocada objetivando que o alunonão só reflita sobre o tema, mas também observe que esse é omomento em que ele, adquirindo responsabilidade, se preparapara ocupar uma posição social e profissional por meio do estudo,pois lhe é dito que o estudo assegura uma vantagem adicional nacompetição profissional. É um tempo dedicado pela escola e pelos pais aos adoles-centes. É um tempo em que é investido muito amor, muita de-dicação. A promoção desse momento tem a intenção desensibilizar a todos os participantes do processo para o desen-volvimento humano, especialmente o adolescente, através de suaspróprias propostas para com o mundo e a vida. ... O homem tem dado provas, muitas vezes dramáticas, que para sobreviver em sua essência humana depende de metas que o
  33. 33. 40 Cida Sanches ultrapassem. Sua vida precisa de um significado que o transcenda. (Rosenberg.1977:p.58) Promover condições para que os alunos assumam seusatos e conquistem amigos, favorecer a relação afetiva, ensinar-lhes a responsabilidade de serem presentes ao grupo e atentosàs suas obrigações, são atitudes inerentes ao trabalho doOrientador Educacional. Junto aos professores, como Orientadora Educacional,procuro estabelecer um diálogo constante, visando satisfazer anecessidade de um clima propício para o ensino em sala de aula. Os pais representam, no meu trabalho, um alicerce.Sempre que necessário eu os convido a participar das situaçõesque emergem na escola. Nessas oportunidades procuro sabermais e melhor sobre a relação entre eles e seus filhos para poderfacilitar a relação entre aluno, família e escola. Com os alunos, vários níveis de atuação se desdobram nodia-a-dia. Ora sou porta voz de decisões da instituição, ora souuma ouvinte atenta para subsidiar ações da instituição em relaçãoa eles. Ora estou no meio do conflito tentando acertar, compreendere facilitar, sentindo que eu mesma estou prestes a implodir. Tenho a preocupação de não perder oportunidades quelevem o aluno, ou o próprio grupo, a desenvolver o autoco-nhecimento na ação social, de forma que, tais atitudes facilitemo desenvolvimento de novas formas de estrutura para umaconvivência social saudável. A aceitação, o respeito e a confiança,são bases para essa estrutura social, levando em conta que essesconceitos devem ser transmitidos em qualquer instante ousituação. É importante que eu esteja atenta, de forma a promoveroportunidades para que os alunos percebam os seus atos e, apartir daí, efetivem uma reflexão, permitindo mudanças individuaisou em grupo para a sua evolução. ...O indivíduo que vive em um clima estimulante pode escolher livremente qualquer direção, mas na verdade escolhe caminhos
  34. 34. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 41 construtivos e positivos. A tendência à auto-realização é ativa no ser humano. (Rogers.1983:p.50) Suely Drozdek acredita que isso é possível, na medidaem que essas diferentes vias possam ser experienciadas comofavorecendo o crescimento pessoal e a satisfação de neces-sidades de aceitação e de auto-conceito positivo (1990: p.7). O fio condutor que liga as várias frentes de minha atuaçãoé regido pela certeza de que lido com pessoas que, como tal, sãoinacabadas, incompletas, como eu mesma. Assim, os percalços,as dúvidas e os erros que fazem parte do dia-a-dia de minhaatuação estão me tornando sensível às vozes daqueles a quemoriento. Mas, tenho sempre presente a necessidade de estaratenta às oportunidades para salientar os seus valores internos,para mostrar-lhes o caminho da compreensão e do respeito aopróximo, do valor que devem dar à família e à comunidade. Issoé fundamental para a minha realização como OrientadoraEducacional. Desta forma entendo que o Orientador Educacional éum profissional que facilita a maturidade pessoal e social doaluno, por meio de um processo, em que o aluno vai-se tornandoprogressivamente mais consciente dos seus atos, mais conscientede si mesmo e da sociedade da qual participa. Adolescente Num ambiente descontraído, onde todos têm liberdade pararelacionar-se e dizer o que pensam, há a exigência mínima decomportamento para que todos possam conviver em harmonia,com respeito e responsabilidade por si próprios e pelos outros.Esse respeito está relacionado com o campo de atuação de cadaum quando exerce o seu papel. O professor e o aluno precisam de clima e ambiente sau-dáveis para que haja o ensino e a aprendizagem. E a escola zela
  35. 35. 42 Cida Sanchespor isso, exigindo do aluno disciplina e respeito pelo professor ecomportamento adequado quando este estiver atuando. O aluno,por sua vez, espera o melhor do professor com relação aoconhecimento e o respeito à sua pessoa que está em formação.Portanto, todos, no cumprimento do seu papel — seja como aluno,professor, orientador, etc.— colaboram respeitando as normas eregras estabelecidas pela instituição. O jovem sonda para saber quais são os limites doambiente que está freqüentando, para que possa organizar-se socialmente. Para isso, precisa de alguém que expliqueas regras existentes. Ele quer e gosta de ouvir o que está“valendo” para organizar internamente os seus limites. Quando a função das regras fica clara para o aluno —não pela posição autoritária do adulto, mas orientada sobreum comportamento estruturado no diálogo, na ternura, nareflexão dos atos e de suas conseqüências — ele é capaz decompreender e, ainda, de colaborar. Lembremos sempre queele é aberto para o diálogo que favorece a compreensão dosseus atos, não o tipo de diálogo em que o adulto sempre temrazão, mas aquele em que a voz do adolescente é recebida,reconhecida e levada em consideração, numa mútua refle-xão. O adolescente é capaz de entender que os limites im-postos pela escola têm o objetivo de protegê-lo de um ambi-ente de desordem, desfavorável para a aprendizagem. Empalavras simples, reiteradamente explico a ele o que são li-mites e quais são suas funções destes. Limite é ... a criação de um espaço protegido dentro do qual a criança e o adoles- cente podem viver suas experiências vitais criativas e espontaneamente ...Essa é uma visão do limite não como repressão, castração, proibição, etc., e sim como algo que baliza, orienta e contém a mente do indiví- duo, que, de outra forma, ficaria dispersa , sem forma, desorganizada. (Outeiral,1994:p.64) São esses os aspectos com que me ocupo para ficar
  36. 36. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 43em harmonia com o jovem que, muitas vezes, não entendea necessidade que a escola tem de estabelecer limites. Quandoos vejo em dificuldade pelo não cumprimento dos limitesestabelecidos, o diálogo, o carinho que lhes dedico e a com-preensão são os meus melhores companheiros. Trabalho com jovens, na sua maioria aparentementemuito felizes. Eles não têm aquela obrigação interiorizadade mudar o mundo, até porque a sua preocupação maior ébuscar o prazer; a escola, a futura universidade, os amigos eaté a vida profissional parecem ter como meta o prazer. Li-vres para o mundo, gostam de viajar com os amigos, curtema natureza e seus próprios corpos: o importante é o prazerde viver, o lazer, e tudo isso sem sentimento de culpa. Cos-tumo dizer que suas atitudes indisciplinadas não o são poragressividade, ou ainda por desrespeito, mas sim por exces-so de brincadeira com o professor ou até mesmo entre eles— aquilo que eles chamam de “aprontar” — lhes parecemuito natural. Quando se mostram agressivos, em geral a causa estáno desejo de quererem resolver um problema e se sentiremimpotentes para tal. Nesse caso procuro chamá-los em particular,pois sei que algo de errado está acontecendo em suas vidas.Isso é fácil de se perceber, pois — pela minha observação, queé diária — normalmente sentem-se felizes na escola, o que mefaz satisfeita e ao mesmo tempo atenta à manifestação dequalquer tipo de mal-estar. O meu objetivo é ter alunos adaptadose felizes, de forma a estarem abertos para a aprendizagem.Assim, é fácil entender essa manifestação de agressividade doadolescente, se levarmos em consideração o que diz Outeiral: ...‘agressão’ do adolescente tem o sentido de ‘buscar o outro’ de ‘ir na direção’, buscar o contato com alguém. Assim, o gesto agressivo na adolescência deve ser entendido, muitas vezes, como comunicação de uma necessidade, de uma busca de contato, da busca de se assegurar de que existe alguém que o compreende e pode ‘suportá-lo’, de testar o quanto o outro ‘gosta’ efetivamente dele. (1994:p.65)
  37. 37. 44 Cida Sanches Todos os sentimentos e atitudes têm uma origem, e ébuscando compreenderem esta origem com o intuito deajudá-los a também se compreender, que eu desenvolvo omeu trabalho. De todas as maneiras procuro compreenderas atitudes dos adolescentes, seja de raiva, seja de afeto,seja de euforia ou desânimo, pois eles são assim, inconstan-tes. O que mais se ouve na escola são as frases: “você estáestudando?... precisa vir ao plantão de dúvidas... não deixepara estudar próximo das provas... não é assim que se ad-quire conhecimento...” Mas, e o encontro com os amigos? Eas festas? Ah! essas festas! Todo dia é dia de festa ou deshow. E esse inseparável telefone que não pára de tocar? Paracomunicar algo urgente ou importante? Não: apenas para“papear”. “...não posso sair, preciso estudar”. E o “papo” vailonge. E continua no seu aposento predileto, seu refúgio: seuquarto. Por favor bata antes de entrar. Individualista? Não,apenas quer que respeitem o seu espaço. Quando por algum motivo é solicitado aos pais que venhamà escola para falar com a Orientadora, a presença do aluno,junto com os pais, é fundamental. Isso às vezes o aborrece, poisnem sempre concorda que precisa da interferência dos pais pararesolver o “seu” problema. Porém, em geral, o resultado é positivo,pois, nesse momento, temos a oportunidade de sensibilizar afamília para a união, e a compreensão de que os adolescentescontam com os pais como amigos. Amigos que têm a intençãode valorizá-los— não de criticá-los de forma pejorativa — edar-lhes força para vencer os obstáculos. Normalmente, nestemomento, se estabelece um clima de confiança entre pais e filhosque a escola espera continue lá fora. Faço questão da presençados pais na escola porque percebo que os jovens gostam desaber que têm a proteção de alguém que os ama, que não estãosoltos, que não estão “largados”. Eles mesmos dizem que éimportante que se tenha família unida; é importante estar comas pessoas amadas. Dentro das coisas importantes, das coisas que interessam
  38. 38. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 45aos jovens, há a questão financeira. Afinal os estudos têmtambém esse objetivo: a realização profissional e material.Porém, isso não significa que estejam preocupados, nessemomento, em realizar esses sonhos. “Calma.. eu tenho tem-po para estudar... Você está preocupada com uma coisa queeu sei que vou conseguir.” Sabem de tudo, entendem de tudo.O chato é o adulto que está sempre interferindo em seusassuntos. Percebo, pelas nossas conversas, que parece existir aoredor deles um escudo protetor, pois acham que as coisas ruinsnunca vão acontecer com eles, como acidentes, doenças. Ali-ás, errei. Eles têm medo sim: da AIDS. Será? “Eu uso camisi-nha, seleciono parceiros.”Será que têm mesmo medo? Não sei.Geralmente iniciam a vida sexual muito cedo, trocamfreqüentemente de parceiros, pois a condição inicial para rela-cionar-se é o “ficar” e, logo, já não estão mais, para “ficar”com o outro. Tudo muito natural. Como o cigarro é proibido na escola, recebo muitosdeles questionando: — “Por que não posso fumar? Em casaeu fumo, meus pais sabem. Por que aqui não posso?” Surgenesse momento a oportunidade para falarmos não só do malcausado pelo cigarro, mas da droga em geral. E aí as coisasjá não são tão naturais. O adolescente esconde o uso da dro-ga. Não falo do viciado — que traz o vício estampado norosto, na condição física — mas daquele que usa a droga noembalo da turma. Esse assunto é breve: o jovem que usanão se interessa em abordá-lo, e o amigo que sabe quemusa, não se interessa em estender a conversa. Na verdade temos a oportunidade de falar sobre todosos temas que nos interessam. Tenho a dinâmica de circularentre eles, na entrada, quando ficam aguardando o iníciodas aulas, nos intervalos e no final do período, enquantoaguardam que venham buscá-los — geralmente pais oumotoristas os pegam na saída. Quando quero falar sobre algoque me interessa, procuro um jeito de entrar no grupo e“papo” vai, “papo” vem, lá está o assunto. Quando é algo
  39. 39. 46 Cida Sanchesque interessa a eles, fazem o mesmo: me procuram. Essadinâmica me leva a surpresas, algumas vezes: por fazer partedo grupo, acabo por partilhar de segredos, pois sabem quepodem contar com a minha ajuda. Essa confiança e o diálo-go são, sem dúvida, a minha maior força de trabalho paratodos os momentos, bons e ruins. Infelizmente, não são todos os jovens que têm acessoa este tipo de ajuda. Os adolescentes com quem atuo perten-cem a uma classe social mais favorecida, que freqüenta es-colas particulares; são estes, praticamente, os jovens querecebem os serviços dos Orientadores Educacionais. Namaioria das escolas públicas — que atendem os filhos detrabalhadores ou estudantes trabalhadores — não se encon-tra, praticamente, a figura do Orientador Educacional . Tenho a certeza de que a ação do Orientador Educa-cional não seria diferente, caso estivesse se ocupando deadolescentes menos favorecidos. O que afirmo é que, na situaçãoatual, os menos favorecidos, com raras exceções, não recebemos serviços do Orientador Educacional, porque nas escolasgovernamentais que freqüentam não existe a figura desteprofissional. Lá encontram um Coordenador Pedagógico —criado por força do decreto-lei 5.692/71. Há realmente umadiferença gritante entre o CP — que ‘atende’ o adolescentepobre, marginalizado, sacrificado — e o Orientador Educacionalque está voltado para atender o adolescente das escolasparticulares. A adolescência, a meu ver, é a fase mais sonhadora porque passamos, e penso ainda que o adolescente é a criatura maisdesafiadora com que podemos nos relacionar. O seu mundo so-nhado não é este: é sempre um outro — melhor, menos imperfeito,sem injustiças sociais, sem pobres, sem doenças. Mas, se oencontramos triste, angustiado, basta uma boa conversa, para logoo vermos sorrindo novamente. Briga, transgride, afronta, mas, seo diálogo for “numa boa...” podemos conversar. Entendo que viveuma fase afetivo-emocional em que não é mais criança — não sesitua como criança no mundo —, mas também não é adulto. Vive
  40. 40. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 47um período de transição, fazendo uma “travessia” entre acriança e o adulto. O jovem parte dos conceitos e valoresque adquiriu enquanto criança para buscar o seu espaçono mundo, para buscar a si mesmo. Por tanto amor, Por tanta emoção A vida me fez assim Doce ou atroz, Manso ou feroz Eu, caçador de mim Preso a canções Entregue a paixões Que nunca tiveram fim Vou me encontrar Longe do meu lugar Eu, caçador de mim... O adolescente é, desta forma, um caçador/sonhador àprocura de si mesmo e do mundo, até que a maturidade lhepermita encontrar a si mesmo no mundo e o mundo em si mesmo. Crescimento humano O crescimento humano advém de uma das capacidadesque o homem tem, que é a de aprender. É preciso, portanto,fazer referência à aprendizagem para entender o crescimentohumano e à postura do profissional de ajuda como facilitadordesse processo. Quando falamos do processo ensino—aprendizagem paraatitudes de responsabilidade, para o crescimento humano e parao desenvolvimento social, pensamos no aprendizagem le-
  41. 41. 48 Cida Sanchesvando em conta não apenas a intelectualidade, como se oaluno fosse um mero receptáculo de saber(Drozdek,1990:p3), mas também as questõesrelacionadascom a inteligência emocional, intuitiva e afetiva, como umser humano total. Ana Gracinda Queluz apóia-se em Virgínia Axline paramostrar que dentro de cada indivíduo parece haver uma forçapoderosa ... que luta continuamente para uma completa auto-realização. Tal força pode ser caracterizada como uma corrida para a maturidade, independência e auto-direção. (1984: p 24) Essa “corrida para a maturidade” implica uma modificaçãoconstante do self que interage com as forças externas do seucampo fenomenal, forças externas oriundas do meio ambiente.O desenvolvimento do self — que ao longo do tempo buscamaturidade, independência e auto-direção — é feito numainteração constante com o campo fenomenal, campo este que éconstituído de temas familiares ao indivíduo. A educaçãohumanista busca ampliar o alcance do campo fenomenal, levando ... para o self do aluno os elementos localizados, tanto no seu campo fenomenal, quanto no conjunto de temas ainda isentos de significação. Rogers acredita numa força interna do indivíduo para realizar essa aprendizagem, isto é, todos os seres humanos têm natural potencial para aprender. Essa força faz com que o indivíduo, movido pela curiosidade em conhecer o mundo em que vive, traga para incorporar ao self os conhecimentos que, explicando o mundo, explicam o homem, uma vez que não há dualidade entre homem e mundo e sim uma interação: um criando e modificando o outro. (Queluz, 1984: p. 26) Essa potencialidade para a aprendizagem é uma formainterna que envolve a pessoa como um todo. Assim, o objetivo
  42. 42. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 49do ensino humanista é facilitar a realização dessapotencialidade. Por crescimento humano entendo a aquisição, por partedo adolescente, de um espírito de confiança, pela consciênciade seus atos e compreensão da sociedade da qual participa,para o amadurecimento dos seus valores e, conseqüentemente,da liberdade para as suas conquistas sociais, pessoais, emo-cionais que, na verdade, se resumem em conquista da inde-pendência. ... O que foi dado ao indivíduo como bom e valioso, quer pelos pais, pela Igreja, pelo Estado ou pelos partidos políticos, tende a ser questionado. Os comportamentos ou modos de vida que se provaram satisfatórios e plenos de sentido tendem a ser reforçado... Assim o indivíduo passa a viver cada vez mais segundo um conjunto de normas que têm uma base interna, pessoal... Não são esculpidas na pedra mas escritas por um coração humano. ( Rogers,1983:p.61) Profissional de ajuda Neste contexto entendo ser o Orientador Educacional umfacilitador desse processo, cabendo a este profissional, portanto,criar condições através de um clima propício. Ana Gracinda Queluz (1984:p.23) busca em Tolbergalgumas competências inerentes à ação deste facilitador: · ser capaz de criar uma situação amiga, permissível e segura, na qual o aluno falará livremente e reagirá de forma natural; · ser capaz de compreender o aluno, através da observação; · ser capaz de ganhar uma melhor compreensão do aluno através das suas produções em geral; · ser capaz de sintetizar os vários tipos de informação sobre o aluno,
  43. 43. 50 Cida Sanches a fim de compreendê-lo melhor como pessoa; · ser capaz de ajudar o aluno a localizar e utilizar informações que lhe permitirão uma compreensão maior de si mesmo e de suas reações com os outros; · ser capaz de ajudar o aluno a localizar informações sobre oportu- nidades escolares, profissionais, sociais, etc.; · ser capaz de ajudar o aluno a tomar decisões, fazer planos, assumir responsabilidades; deve evitar dizer ao aluno: faça isto ou aquilo, porque neste caso estaria assumindo por ele a responsabilidade de seus atos; · ser capaz de reconhecer suas competências: auxiliar aqueles alunos a quem puder assistir, de forma efetiva e encaminhar os que têm problemas de ajustamento mais sérios. Dessa forma será possível ao facilitador propiciar um climafavorável à aprendizagem, pois esta é realizada a partir deexperiências vivenciadas pelo homem dentro de um clima deconfiança e aceitação, capaz de promover mudanças construtivasno indivíduo. Rogers sugere três atitudes fundamentais, que facilitam otrabalho dos profissionais que tenham como objetivo promover ocrescimento de pessoas, atitudes essas desenvolvidas por elena terapia centrada-na-pessoa: congruência ou autentici-dade, aceitação e compreensão empática. (1986) Congruência ou autenticidade Conceituando congruência ou autenticidade, Rogers dizque o profissional deve vivenciar livremente seus sentimentos eatitudes, ser transparente, verbalizar e exprimir seus sentimentosde forma autêntica, sem fachada. Dessa forma, o profissionalfacilita o crescimento do cliente quando oferece a liberdade paraque ele tenha o mesmo comportamento. Segundo ele, são ossentimentos e atitudes que promovem a ajuda, quando expressos,
  44. 44. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 51e não a opinião ou o julgamento sobre o cliente. Um profissional facilitador, seja este Professor ouOrientador Educacional, dentro de um clima caloroso e de con-fiança mútua, demonstra ser congruente e autêntico, segundoDrozdek, quando é espontâneo em sua interação com o alunoe mostra-se aberto para todos os tipos de experiência, tantoas agradáveis quanto as desagradáveis (p.13). O profissionalfacilitador ... emprega construtivamente suas próprias respostas emocionais autênticas, comunicando-as ao aluno no intuito de desvendar para si mesmo e para o outro a natureza da situação evidenciada, para que, juntos, possam compreendê-la e transformá-la, se desejarem. (1990:p.13) Vera Lúcia Duarte, com relação a este conceito diz: ... A congruência traz a descoberta de que o Adolescente, a partir dessa experiência, pode encarar-se e não negar à sua consciência elementos que a ela não se ajustam. Ser genuíno significa estar consciente dos próprios sentimentos e é sendo real e verdadeiro consigo e nas relações, que o outro poderá ser veraz, tendo em vista que se trata de um processo recíproco. (1996: p.28) Aceitação A consideração positiva incondicional é a aceitação plenado outro com estima e respeito, de maneira que, se o facilitadorperceber restrições em relação ao sentimento, conduta ou valoresdo outro, ele retoma essa restrição em relação à sua congruência.É nesse movimento de volta a si mesmo, com esse contato comos seus próprios sentimentos, que o facilitador aceita o sentidocomo pertencente à sua vivência. Para Rogers a consideraçãopositiva incondicional
  45. 45. 52 Cida Sanches ... é o elemento que oferece o movimento de mudança construtiva. Eu aceito o outro como ele é. Quando você depara-se com alguém escutando com atenção seus sentimentos, torna-se capaz de escutar com atenção a si mesma. (1986: p.18) Quanto a isto, Vera Lúcia Duarte afirma que a ... Consideração positiva incondicional é a aceitação do outro como ele é em sua totalidade; como ele se sente no momento: é o apreço genuíno pela pessoa [do cliente] e por sua capacidade de atualização.(1996: p.30) Atuar como profissional facilitador na relação de ajudaimplica reconhecer que o aluno é uma pessoa em evolução, comdireitos a experiências e sentimentos próprios. Para tanto aaceitação total deste como pessoa, a aceitação do seu mundointerior com realidades agradáveis e desagradáveis, é funda-mental para que haja a compreensão empática exata do aluno. Compreensão empática A compreensão empática é uma forma de entender osfatos em relação ao outro. É a capacidade desenvolvida pelofacilitador de perceber, de sentir o mundo interior do outro, desentir suas emoções de forma sensível e espontânea, sem defesas...sentir precisamente os seus sentimentos e os significadospessoais que estão sendo vivenciados e lhe comunicar estacompreensão (Rogers, 1986: p.18). Essa compreensão empática do mundo interior do alunoque o facilitador faz ... não deve se reduzir a uma compreensão dos sentimentos e experiências dos quais o aluno está plenamente consciente, mas deve se estender à totalidade do seu mundo. É necessário estar atento aos
  46. 46. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 53 sentimentos que estão sendo expressos apenas indiretamente ou que estejam implícitos na comunicação do aluno. (Drozdek,1990:p.20) Vera Lúcia Duarte faz uma esquematização do originalde Rogers e Rosemberg, para definir de uma forma geral a com-preensão empática: — sentir-se totalmente à vontade dentro do mundo perceptual do outro em relação aos significados sentidos (medo, raiva, ternura); — ter sensibilidade para as mudanças que se verificam no outro; — sentir-se temporariamente como se fosse o outro; — perceber os sentimentos do outro, dos quais este não tem consciên- cia, mas não os revelar a ele para evitar-lhe a sensação de ameaça; — não julgar; — transmitir como sente o mundo do outro; — examinar, sem viés e sem medo, os aspectos que o outro teme ; — avaliar (no sentido de checar) com o outro a precisão dos sentimen- tos e percepções (do facilitador) em relação aos sentimentos do outro; — ser companheiro desse mundo interior do outro; — apontar os possíveis significados (os conscientes) presentes no fluxo de suas vivências; — ajudar o outro a vivenciar os significados de forma mais plena, e progredir nessa vivência; — deixar de lado os seus próprios pontos de vista e valores para entrar no mundo do outro sem preconceitos; — deixar de lado seu próprio eu, momentaneamente. Para isto o facilitador deve estar suficientemente seguro para não se emaranhar no mundo estranho e bizarro do outro. (1996:p.33) A compreensão empática deve ser comunicada ao alunopara que este possa, a partir do diálogo, entender os seus senti-mentos e atitudes, tornando-se capaz de reconhecer os seus va-
  47. 47. 54 Cida Sancheslores ou fortalecê-los. Desta forma, entendo como profissional de ajuda oeducador que atua como facilitador através das atitudes de con-gruência ou autenticidade, aceitação e compreensão empá-tica, para o desenvolvimento do crescimento humano doeducando.
  48. 48. “É importante que todos tenham conhecimento do aluno como um todo: social e cultural, porque este trabalho tem que ser com o coração, uma coisa sentida e não só racional”.(S9) CAPÍTULO II O que é ser orientador educacional? O s Orientadores Educacionais reconhecem-se, semdúvida, como profissionais de ajuda ao adolescente. Identifiqueiesse reconhecimento nas entrevistas que coletei, destacando ascategorias descritivas que demonstraram tal relação. A análise das entrevistas que realizei mostra que, no dis-curso e na descrição da ação dos Orientadores Educacionais, aconstante presença de categorias descritivas que estabelecemuma inquestionável relação com o eixo temático da pesquisa: oOrientador Educacional como profissional de ajuda ao adoles-cente. A opção pelo outro Acredito que, quando uma pessoa faz opção pelaeducação, está fazendo uma opção pela dedicação ao outro.Procurei saber, então, de cada entrevistado, por que motivo optou
  49. 49. 56 Cida Sanchespela área de educação. Quem e o que foi mais significativo paraque a sua trajetória culminasse na profissão de Orientador Edu-cacional? Três categorias descritivas conectam-se com este tema,o saber, motivação e crença: Origem: exprime as causas que levaram o entrevistado a optar pelo campo da ação educacional. Motivação: expõe os motivos que levaram o entrevistado à Orientação Educacional. Crença: neste subcapítulo, a categoria descritiva crença refere-se a valores, convicções e opiniões cujos objetos são as causas que levaram o entrevistado a optar pelo campo da ação educacional ou motivos que o levaram à Orientação Educacional. São diversas as causas que levaram estes profissionaispara a Educação. Entre elas, entretanto, mostrou-se prepon-derante a influência da família, dos bons professores e dos bonscursos, e a necessidade de trabalho. Podemos afirmar isto combase nas seguintes citações: Fiz colégio normal, ainda na época do clássico, motivada pela família, que era de professores. (S4) Meu pai dizia que podíamos ter qualquer profissão, mas tinha, obrigatoriamente, que ser professora. (S1) Fui levada para ser professora por solicitação do meu pai. Sou professora do ensino fundamental. Fiz curso normal para tornar-me professora mais ou menos direcionada por meus pais; eu não tinha muita consciência da escolha... Pensava: Eu não posso ficar aqui parada como professora nível I; preciso fazer alguma coisa na minha vida. Aí fui fazer pedagogia na PUC. (S2) Sempre gostei da área de Humanas. Mas fiquei apaixonada pela Educação. O curso era muito bom na escola experimental e, assim, acabei fazendo Pedagogia. (S1)
  50. 50. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 57 A escolha pela Educação, pela profissão como educadora, está muito relacionada com alguns modelos —- bons modelos e antimodelos — do segundo grau: professores, que foram incentivos... Fui incentivada na educação com bons professores. (S3) Eu não queria ficar desempregada e a Educação estava mais fácil. (S10) Posso dizer que os Orientadores Educacionais tornaram-se educadores por opção, já que a sua entrada para a Educaçãofoi, na maioria das vezes, por escolha própria. Isso foi observadoespecialmente nos sujeitos que tinham por objetivo dar aulas.Independentemente da sua formação superior, buscaram umcurso que lhes possibilitasse lecionar — transmitir conhecimento.É o que podemos observar nas afirmações seguintes: Fui fazer o curso superior de Ciências Sociais já com intenção de dar aulas, mesm... Foi por opção que eu entrei na área da Educação. Quando optei por uma faculdade, já estava estabelecido que seria uma formação para que eu pudesse lecionar. (S8) Aí eu entrei na faculdade, no curso de Pedagogia, por opção mesmo. (S6) Queria era estar em contato com a pessoa, para passar o meu conhecimento, eu queria, na realidade, era dar aula. (S7) A opção pela educação também está ligada ao interessedesses profissionais pela formação e ajuda às pessoas. Há umimpulso interno, um ideal a realizar. E a concretização desseideal passa pelo caminho de ajudar o outro: Tem um lado romântico a minha escolha pela Educação. Tem um lado idealista. Hoje eu posso falar desse romantismo, mas era muito certo para mim que tinha que ser alguma coisa que trabalhasse com o ser humano, que estivesse ligada a um tipo qualquer de ajuda ao homem, à formação de pessoas. (S3) O fato de participar constantemente das atividades escolares e dos
  51. 51. 58 Cida Sanches encontros de jovens me dava cada vez mais a certeza de que eu queria fazer Magistério. (S5) Quando fiz Psicologia, já foi pensando em trabalhar com a educação. Foi sempre um trabalho paralelo, psicopedagógico. Eu gosto muito de trabalhar com adolescentes. (S9) Então eu fiz a opção por um curso de ajuda [Psicologia]. (S10) Quando analisada a motivação, isto é, as razões que leva-ram o entrevistado à Orientação Educacional, observa-se a exis-tência de uma série de motivos. Um deles é a própria continuidadeda profissão: a experiência como professor, o contato com alunos,a identificação, ou mesmo as dificuldades com as atividades es-colares, fizeram com que os profissionais se percebessem compotencial para atuar como Orientadores Educacionais: A relação com os alunos foi uma coisa fundamental para o meu início como Orientadora Educacional... Minha experiência com os alunos fora e dentro da sala de aula me favoreceu no trabalho de Orientadora Educacional. (S7) A Orientação Educacional tinha muito a ver com a área que eu escolhi, que era a psicologia e, com a minha experiência como professora, percebi que dava para fazer um trabalho paralelo. (S4) Todo este desenvolvimento que me levou à Orientação Educacional foi incentivado pelos professores que tive e pela minha experiência em sala de aula. (S5) [ o motivo] Era procurar resolver algumas dificuldades que, como professora, eu não estava conseguindo. Era a busca de mais informações, de mais conhecimento. Eu queria aprender mais, eu sentia que tinha mais capacidade do que aquela que estava desenvolvendo. (S2) A escola me solicitou uma ajuda com relação ao apoio aos professores e aos alunos, enfim, uma ajuda na orientação da escola, incluindo a organização geral. (S8) Nem sempre a iniciação por um caminho profissional sedava pela opção de atuar dentro de uma área em que o conteúdo
  52. 52. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 59fosse interessante, ou pelo prazer da continuidade e evoluçãodentro da profissão. Ao contrário, às vezes se dava justamentepela falta de opção: Todo o grupo [faculdade] da tarde optou por Orientação Educacional. Portanto, se eu optasse por Administração Escolar teria que seguir com a turma da noite, e eu já tinha compromisso: não podia mudar de período. Então, fiquei com a turma na habilitação de Orientação Educacional. (S1) Fui para a Educação por acaso... [como funcionária da Secretaria, na escola] Atendi os problemas da Tesouraria, da matrícula por quase um ano. Aí eu passei para a Orientação, que também não era uma coisa que eu queria. (S10) Mas há outros motivos que levaram para a OrientaçãoEducacional e localizam-se dentro do próprio curso de formação.Alguns dos entrevistados optaram pela Orientação Educacional,encantados com a possibilidade de desenvolver a temática apre-sentada no curso: Escolhi Orientação Educacional pela própria descrição da função que era colocada na faculdade na hora de fazer a opção. Era uma outra linha de orientação muito próxima, junto ao aluno e eu fiquei encantada. Tinha uma proposta, nessa relação próxima ao aluno, de ajuda. Tinha uma relação, junto ao professor, e de tudo isso eu gostava. (S6) Toda a temática, todo o conteúdo ligado à matéria de Orientação Educacional me apaixonava. (S3) Um conjunto de crenças nortearam as opções feitas pelosOrientadores Educacionais. Diria que, principalmente, elesacreditam no trabalho realizado com o coração. Mesmo aquelesque entraram na profissão por acaso, ou por falta de opção,acreditam no trabalho como canal de ajuda.
  53. 53. 60 Cida Sanches Eu achava que [a educação] era uma maneira de ser útil e ajudar os outros. Eu acho que na vida devo fazer o que gosto, com que me dê bem — mas que também possa ser um canal para ajudar os outros. (Sl) Acompanhar o crescimento, o desenvolvimento de uma pessoa é fascinante. A formação das pessoas tem que ser uma opção do profissional... Para educar é preciso ter uma predisposição da própria personalidade do indivíduo, ou ele será mais um burocrata, ficando só no papel: não criará, não desenvolverá, não cativará o aluno, não conquistará o seu espaço. (S8) Esse trabalho tem que ser com o coração, uma coisa sentida e não só racional. (S9) O meu lugar é junto do aluno. Por esse motivo eu voltei para a Orientação Educacional em 1986. (S2) Acabei achando que eu nasci para isto mesmo. Mas eu não tinha essa consciência: eu caí nesta área. (S10) A ação do Orientador Educacional Como é ser Orientador Educacional de adolescentes doensino médio? Como se desenrola a rotina do cotidiano profissionaldo entrevistado? Estas são as questões que analisarei nestesubtítulo. Pode-se observar que a ação do Orientador Educacional— como educador — é uma ação múltipla, multifacetada. Quandoconsiderada na sua totalidade, a ação do Orientador Educacionalcobre vários aspectos, incluindo aqueles referentes à sua açãocomo profissional de ajuda. Entretanto, por um quesito meramentemetodológico, dividi a ação do Orientador Educacional, focandoa condição de ‘profissional de ajuda’ no subcapítulo seguinte. Três categorias descritivas estão associadas à atividadedo Orientador Educacional dentro da instituição educacional: Atividade: indica qualquer ação ou trabalho específico desenvolvido pelo entrevistado na sua função de Orientador Educacional.
  54. 54. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 61 Esta categoria descritiva expressa unicamente a atuação do Orientador Educacional no seu cotidiano. Portanto, verbos tais como: trabalhar, preparar, levantar, realizar, tendem a expressar tais ações. Cabe ressaltar que o Orientador Educacional, quando exerce o papel de “profissional de ajuda”, o faz por meio de ações que poderiam ficar abarcadas por esta categoria descritiva. Porém, dada a impor- tância dessas atividades para o meu estudo, essas ações foram espe- cificamente demarcadas através de outras categorias descritivas, que serão explicitadas adiante: escuta, facilitação, promoção. Parceria: representa o auxílio que o Orientador Educacional busca com outros profissionais da instituição educacional, pais e os próprios alunos, para melhor desenvolver sua ação ou seu trabalho. Crença: neste subcapítulo, a categoria descritiva crença refere-se a valores, convicções e opiniões cujo objeto seja a ação do Orientador Educacional. As ações exercidas pelos Orientadores Educacionaisestão concentradas no atendimento ao aluno, fundamentalmentee, depois, na orientação aos pais e professores que, na verdade,atuam como apoio para o desenvolvimento das suas funções.Os Orientadores Educacionais entendem serem o professor eos pais os principais parceiros em seu trabalho. Para tanto, pais,professores e Orientador Educacional procuram estar sempreem contato, para caminhar em harmonia e juntos poder facilitaro desenvolvimento do educando dentro de uma mesma filosofia. São diversas as atividades que os entrevistados desen-volvem; entre elas está a atividade de organizar grupos deestudo, com o objetivo de incentivar e aprimorar a capacidadedo aluno para a aprendizagem, discutindo suas dificuldades,ajudando-o a entender as qualidades de um bom estudo: Preparação de um horário de estudos racional; levantamento de dificuldades e busca do respectivo auxilio; treino de concentração para estudos; leituras complementares; grupos de estudos... (S1) O projeto de orientação de estudos se propõe a ensinar o aluno a
  55. 55. 62 Cida Sanches cronometrar seu tempo. (S2) Eu os ensino a estudar, a prepararem-se para as provas, a entender que estudo é um trabalho diário e não só antes da prova.(S3) Incentivar o aluno a pesquisar... Faço muito pouco acompanhamento por nota, quase nunca é foco da chamada. (S6) Procuro desenvolver a auto-ajuda, o auto-estudo, a autodisciplina e o autoconhecimento. (S8) Para que o aluno possa fazer a sua escolha profissionalcom confiança, os entrevistados atuam de forma a facilitar-lheo conhecimento quanto à sua vocação: O meu trabalho junto aos adolescentes acontece dentro dos projetos de orientação vocacional, orientação sexual e orientação de estudos. (S2) O projeto de orientação vocacional compreende o estudo do mercado de trabalho com pesquisas em jornais sobre oferta e procura de empregos nos diversos setores. (S2) Fazia Orientação Vocacional que era o nosso carro-chefe. (S2) Faço levantamento conjunto de várias facetas a serem consideradas na tomada de decisão. (S1) O Orientador Educacional, com as suas ações, procuraencontrar caminhos que proporcionem um ambiente saudávelpara o desenvolvimento do processo de aprendizagem: Trabalhamos para que a escola seja um ambiente de equilíbrio na vida do jovem. (S3) Discutiremos os caminhos para estarmos confortáveis e ativos... Vou usar a disciplina de Filosofia, entrando duas vezes por mês nas salas, com objetivo de dar uma direção aos alunos. (S9) Ajudo o aluno a refletir, a observar as situações nas quais está envolvido. (S4)
  56. 56. ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL DIRIGIDA AO ADOLESCENTE 63 Orientamos estes alunos por todos os instantes, até mesmo nas questões disciplinares... Atuo como Orientadora com todos os alunos, bem próxima a todos. Não sou capaz de ficar numa sala aguardando um aluno encaminhado, ou para encaminhá-lo. (S3) E tem o outro lado que é o de controlador social, o de impor limites: ser a ordem, manter a escola organizada, não aceitar bagunça ou anarquias, jamais. (S8) Pego alguns temas, de acordo com a necessidade dos adolescentes e os discutimos... São momentos de ajuda com a finalidade de reflexão em todos os instantes, em grupo e individualmente. (S7) Entre os projetos de estudo, a pesquisa com relação àsatividades mostra, também, o projeto de orientação sexual: O projeto de orientação sexual objetiva informar sobre conteúdos necessários ao conhecimento biológico do corpo humano; mostra as diferentes opiniões em relação à questão sexual que, professor, aluno e pais tinham. (S2) Fazíamos o encontro da orientação sexual. Tínhamos uma caixinha, onde eram depositadas as questões sobre sexo. (S2) O trabalho do Orientador Educacional estrutura-se no tripéformado por aluno-família-escola, no qual os demais profissionaisdesempenham um papel relevante. Deve-se entender que o apoioque o Orientador Educacional busca e recebe é fundamentalpara a realização do seu trabalho. De uma forma geral o Orientador Educacional busca apoioem toda a estrutura organizacional, desde o Diretor até o próprioaluno, bem como na família. Este trabalho é realizado por meioda orientação e atendimento aos pais, alunos e professores,objetivando a harmonia do grupo e seu bom relacionamento: Minha ação é de total parceria com a escola toda. (S6) Procuro quem me ajude, procuro uma parceira para realizar o

×