A Conquista Do EspaçO Profissional
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  • 1. Almeida, Helena (2003). A construção do espaço profissional, um desafiopermanente para o Serviço Social. 1ª Mostra de Práticas Pré-profissionaisde Serviço Social. Coimbra / ISBB, 3 Junho. A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO PROFISSIONAL UM DESAFIO PERMANENTE PARA O SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida* Tal como as pessoas e as instituições, também as profissões possuem umatrajectória irregular, condicionada por factores internos e externos, individuais ecolectivos, configurando ciclos de vida cuja característica fundamental é amudança e a transformação. A análise do desenvolvimento do serviço social, desde a suainstitucionalização e luta pela sua legitimação (de 1897 a meados dos anos 30)até à actualidade revela movimentos constantes de afirmação de uma baseteórica, onde se assinalam contributos, como os de Mary Richmond (1917,1922), Grace Coyle, Hunt e Kogan (anos 40-50), Lilian Ripple, Murray Ross(anos 60), Ander-Egg, William Reid e Ann Shyne (anos 1970), Schon, DuRanquet , Howe (anos 80), Malcom Payne, De Robertis (anos 90), e tantosoutros, que são incontornáveis e alicerçam o saber fazer num conhecimentoconstruído a partir de procedimentos submetidos á lógica da prova e dadescoberta, sem desvalorizar as questões axiológicas, os valores queconstituem referências transversais às práticas profissionais e de onde se realçao respeito pelos direitos do homem e do cidadão. Em Portugal consolida-se o reconhecimento da profissão a partir daaprovação do funcionamento das primeiras instituições de formação em ServiçoSocial em 1935 (Lisboa) e 1937 (Coimbra), e a partir dos anos 50 –60 éreforçado o seu estatuto regulador das relações sociais, ao ser-lhe associada aárea de desenvolvimento comunitário e dos problemas decorrentes do processode urbanização. O 25 de Abril ocorre num momento de questionamento einsatisfação dos profissionais em relação ao seu papel na sociedade e em* Professora Auxiliar do Instituto Superior Bissaya Barreto, Doutora em Letras / Trabalho Social.
  • 2. 2relação à sua prática quotidiana. Com a expansão do Estado-Providência e aintegração de Portugal na CEE (1986) criaram-se novos equipamentos eabriram-se portas para uma intervenção de cariz colectivo, indutores dareivindicação para os Assistentes Sociais de uma maior participação noprocesso de produção das normas. O campo de intervenção expandiu-se paraalém das tradicionais áreas da saúde, educação e assistência/segurança social,ocupando hoje novos domínios como os da Deficiência, Justiça, Emprego, PoderLocal, Serviços Centrais e Regionais da Administração Pública, Empresas,Organizações não Governamentais, e dentro deles diversos serviços. O movimento pela afirmação de um papel mais activo não apenas nodomínio da prestação de serviços mas também na sua planificação e gestão, foiacompanhado por um binómio aparentemente paradoxal: por um lado, o reforçode uma formação multidisciplinar, alimentando a dependência teórica em relaçãoàs diversas Ciências Sociais e Humanas, e por outro lado, a afirmação doServiço Social como um ramo das ciências sociais, assegurada pela criação demestrados e o estabelecimento de acordos com universidades estrangeiras paracursos de doutoramento. De salientar que a partir de meados dos anos 90 setem assistido à proliferação de instituições de ensino superior que asseguram aformação em Serviço Social, existindo hoje a nível nacional 10 instituiçõesuniversitárias das quais 8 são privadas e 2 são públicas. Tendo emconsideração os numerus clausus destas instituições de ensino prevê-se que apartir do corrente ano lectivo sejam colocados no mercado de trabalho mais de600 Assistentes Sociais por ano. Estamos inegavelmente numa faseexpansionista da profissão, e as novas dinâmicas sociais e locais revelam-sepotenciadoras da sua integração; porém, estas constituem igualmenteoportunidades para os psicólogos, sociólogos, e outros profissionais no campodas Ciências Sociais e Humanas. Tal significa que, tendo em consideração arecente afirmação do serviço social no ensino universitário, a atenção deverá serfocalizada em dois polos de análise: a consolidação no plano teórico e prático, ea conquista quotidiana do espaço profissional, dois aspectos intrinsecamenterelacionados. No plano teórico, os institutos e as universidades têm que estabelecer edesenvolver uma estratégia de relacionamento permanente com a sociedade,seja na prestação de serviços seja no plano da investigação, reforçando as 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 3. 3iniciativas ainda pontuais no plano da formação pós-graduada e de mestrados, ecriando um curso de doutoramento em serviço social. No plano prático o grandedesafio que se coloca é o de consolidar experiências e conquistar novosespaços de intervenção. Neste contexto, o conceito de estratégia é fundamental, uma vez quepermite aos sujeitos dilatar a margem de liberdade que possuem nas relaçõesde poder, negociar a sua participação, contornar as regras do jogo. O conceitode estratégia remete-nos sempre para o exercício de uma autonomia relativa nodecurso da vida, para a utilização de uma margem de manobra que osindivíduos dispõem mesmo nas estruturas sociais menos personalizadas e maisisoladas, que lhes permite perverter o sistema e defender os seus interesses. Osobjectivos e os projectos concretos vão-se edificando num percurso que vai doideal ao possível. Há contínuos reajustamentos. Os comportamentos constituemum dos sinais de busca de oportunidades, numa relação com os outros e nojogo de papéis e poderes existentes no relacionamento com outros parceiros.Por isso, o uso de estratégias é importante na construção do espaçoprofissional, isto é, tanto a nível da consolidação de experiências como daconquista de novos domínios de intervenção. Dado que as estratégias não abarcam apenas as condutas racionais, mastambém aquelas que se revelam como potencializadoras dos recursos e queponderam os riscos e as oportunidades, as atitudes constituem “orientaçõesestratégicas” (Tap, 1996, 223). Elas não são necessariamente deliberadas nemconscientes e não se reduzem à optimização do aqui e agora; elas prolongam-se noespaço e no tempo, enquadram-se e têm continuidade num projecto global deacção. Não se limitam à gestão do momento, nem à ocasião; não lutam apenascontra as circunstâncias e os acontecimentos, nem ignoram as contradições, peloque não podem ser consideradas meras tácticas (De Certeau, 1980). Apesar de asatitudes poderem variar no quotidiano profissional, produto da interpretação dasituação e circunstâncias vividas pelo(s) sujeito(s) no momento, elas contrariam opressuposto do determinismo social e integram-se numa lógica global deintervenção. Neste sentido, as atitudes não são mais do que patamares noprocesso de instauração / renovação de laços sociais e de regulação dos conflitos.As circunstâncias são referentes contextuais que resultam de alterações nos 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 4. 4processos de relação social do(s) utentes(s), o que torna imperativo umacompreensão das mudanças ocorridas ou desejadas, do significado que lhes éatribuído pelos sujeitos e do seu posicionamento face às situações de vida. Porisso, as atitudes aparentemente circunstanciais projectam-se no futuro, enquadrame legitimam uma plataforma global de intervenção, ultrapassam a dimensão deimediaticidade, substituindo-a pela lógica da duração processual, conferemcoerência e racionalidade à acção. O uso de estratégias é importante tanto a nível da conquista do espaçoprofissional como na procura de alternativas à situação-problema, elas potenciam aintervenção. Em termos profissionais, para além dos constrangimentos contextuaisao desenvolvimento da acção, há a considerar a posição activa do profissional naconstrução do seu quotidiano. Quer isto dizer, que a prática não se impõe aotécnico, como se de um ritual pragmático se tratasse, mas que lhe competeparticipar, criar ou inovar constantemente face à variedade de solicitações. Se éverdade que é necessário que cada profissional perceba os seus limites, também éverdade que a intervenção implica uma avaliação permanente da sua posição e odesenvolvimento de uma acção estratégica com avanços e recuos, num processode conquista permanente. Ora a trajectória de afirmação dos Assistentes Sociaistem passado pelo reconhecimento do valor da estratégia em brechas e momentosoportunos. A relação de poder que se exerce no contexto institucional é diferenteem cada situação e cada momento, pelo que a estratégia assume relevo inclusivena conquista de espaço profissional. Por vezes é necessário negociar papéis, delimitando fronteiras ecomplementaridades, (re)estabelecendo espaços de troca. O Serviço Social,embora seja dependente de instâncias superiores a nível administrativo, possuiuma autonomia técnica que lhe confere alguma margem de manobra no processode intervenção. Quando existem litígios no plano das competências profissionais,torna-se imperativo clarificar as funções e os papéis que lhe são reservados, definiros momentos de intervenção e de articulação com outros profissionais, determinaras responsabilidades de cada actor no processo. Por vezes verificam-seresistências e representações da profissão que dificultam a acção. Retenho sobre oassunto o testemunho de uma Assistente Social que, trabalhando na área dasaúde, face à acusação de incompetência do serviço social formulada por ummembro da equipa, por a sua intervenção se revelar ineficaz a nível da resolução 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 5. 5de problemas de emprego ou de habitação, que estavam subjacentes aoprotelamento de uma alta, respondeu o seguinte: “A senhora trabalha numa área de mulheres com abortamentos sucessivos. Consegue resolver todos os problemas dessas mulheres? Certamente que não. E porquê? Porque a senhora não tem meios, nem é dona de todo o saber e muitas vezes não é por culpa sua, uma vez que não há meios técnicos para suprir todas as deficiências que essas situações apresentam. E não é por causa disso que a senhora é incompetente. Também os Assistentes Sociais não possuem uma varinha mágica para resolver os problemas ” . Quando as dificuldades são estruturais, a procura de alternativas nãodepende nem da vontade nem do empenhamento individual do técnico ou dosujeito. É necessário que isso seja esclarecido, porque isso permite ponderar oslimites e em função dessa avaliação unir esforços (em termos de equipa ou a nívelinstitucional) para prosseguir o trabalho, contornando ou enfrentando as barreirasque intervêm no processo. Na intervenção social não existem receitas e uma atitude com resultadospositivos num dado momento e situação poderá não ser eficaz num outro contexto.Não é um ritual pragmático. Os referenciais teóricos orientam e potenciam aspráticas, não as substituem nem limitam. O profissional ao tomar conhecimento dasituação-problema intervém, integrando os quadros teóricos referenciais, osobjectivos institucionais, a representação que faz da prática profissional e dopotencial humano dos recursos que utiliza. Deste modo, quando se fala emestratégias de intervenção faz-se apelo ao conjunto de atitudes que permitem aoprofissional fazer a gestão dos poderes que contextualizam a acção e proporcionara mudança não apenas na situação mas também nos sujeitos. Tal faz com que elassejam diversificadas e sinalizadoras de diferentes concepções de práticaprofissional. O problema coloca-se quando o Assistente Social se prende aconcepções teóricas em detrimento do discernimento das oportunidades e dopotencial humano na resolução das situações, ou quando a sua prática quotidianase processa de forma rotineira. Surgem então discursos desculpabilizadores da(in)acção, de vitimização, de dúvida e interrogação face às dificuldades, tais como: " 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 6. 6não existem respostas para os problemas", " o serviço social não dispõe demodelos teóricos alternativos a outras ciências sociais", ou " foi para isto que tirei ocurso?". É obvio que este tipo de argumentos surge algumas vezes após tentativasvariadas de solução para o problema diagnosticado, mas também é verdade queem algumas ocasiões subentende uma ausência de questionamento sobre opercurso profissional : "o que é que eu fiz para ultrapassar a situação?". É precisorecusar este fatalismo funcional. Apesar de as estratégias poderem ser interdependentes e complementaresentre si durante o processo de intervenção, e abrangerem também o campo doimprevisto, uma vez que embora racionais surgem no contexto da emergência donovo, a prática do Serviço Social evidencia-as como um leque de opçõesorganizadas em torno do contexto (situação) e da representação que o técnico fazdo seu perfil profissional. O termo "bricolage " utilizado pelos autores francófonosreflecte esta incessante atitude criativa no processo de descoberta de soluçõesinovadoras, e cobre diversas vertentes : 1 - Corresponde ao acto de saber tecer e compor laços, avaliando aspossibilidades e limites, 2 – Permite encontrar soluções para os problemas colocados pelos utentes,de forma pontual ou não, mas sempre construídas em função das oportunidades erecursos disponíveis, 3 – Compreende a utilização de toda a informação disponível para descobrirmeios reduzidos, 4 – Recorre às redes relacionais, para obter concessões ou criar umaalternativa. Mas o principal instrumento de trabalho do Assistente Social é a palavra(escrita ou oral), e esta permite estender o conceito “estratégia” para o domínio docliente. No processo de intervenção a estratégia consiste muitas vezes em fazeradquirir por parte do cliente um pensamento estratégico de antecipação do cursodos acontecimentos e em relação a essa previsão reorientar o seu comportamento. Como refere Paulo Netto (2001), as acções humanas são sempre orientadaspara objectivos-metas e fins. Elas implicam sempre um projecto que é umaantecipação ideal da finalidade que se pretende alcançar, com a inovação dos 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 7. 7valores que a legitimam e a escolha dos meios para a atingir. O Serviço Social estáalicerçado numa diversidade de origens e expectativas sociais, comportamentos epreferências teóricas, ideológicas e societárias. Por isso, poderão emergirprojectos profissionais diferentes, embora se reconheçam valores básicos. Quais são esses valores?1 - A Liberdade:Reconhece a liberdade como valor central, concebida historicamente comopossibilidade de escolha entre alternativas concretas. Deste modo, a liberdadesurge associada à autonomia, à emancipação e desenvolvimento dos sujeitosentendidos como actores providos de vontade.2 - A Defesa intransigente dos Direitos do Homem e do Cidadão:A equidade e a justiça social, na perspectiva da universalização do acesso aosbens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, a ampliação e aconsolidação da cidadania constituem condição para a garantia dos direitos civis,políticos e sociais.3 - A democratização de procedimentos:O projecto reclama-se radicalmente democrático, entendendo-se democratizaçãocomo a “socialização da participação política e socialização da riqueza socialmenteproduzida”.4 - Um compromisso com a competência:A competência profissional implica uma formação académica qualificada queviabilize a “análise concreta da realidade social” imprescindível ao desenvolvimentode procedimentos adequados. A auto-formação permanente e o exercício de umapostura investigativa revelam-se fundamentais.É necessário romper com o voluntarismo e com o isolamento profissional.5 - Um compromisso com a qualidade dos serviços prestados:O projecto profissional radica num compromisso com a qualidade dos serviçosprestados à população, o que implica uma maior participação dos utentes na 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 8. 8tomada de decisão. A defesa e a reprodução dos princípios e valores éticos que lheestão subjacentes exige sujeitos profissionais activos e autónomos. O reconhecimento do valor da estratégia e dos fundamentos éticos do projectoprofissional, revelam-se pois como alicerces na construção do espaço profissional,na medida em que permitem: I - ADOPTAR UM POSICIONAMENTO DE RECUSA DO FATALISMOFUNCIONAL, que está alicerçado no modelo de “deficit”. Para isso é necessário: 1 – Evitar o ritual pragmático: Diariamente existe um conjunto de diligências rotineiras, adequadas ao normal exercício das funções. Tal não significa que a intervenção possa ser entendido como se de um ritual pragmático se tratasse. Há que criar condições para a emergência do novo, através do domínio das atitudes comunicacionais, da construção de propostas inovadoras que formatem novas ofertas sociais, da integração no quotidiano de espaços propiciadores de reflexão sobre aquilo que se faz, como se faz e porque se faz. É preciso enveredar pela criação de novas representações a partir de novas práticas. 2 – Valorizar a intervenção reflexiva e a investigação-acção. Confrontados diariamente com a urgência da resposta, os assistentes sociais desenvolvem acções detentoras de um residual assistencialista que importa incorporar como um patamar de intervenção não limitativo da sua imagem ou da sua prática. Ponderar as oportunidades, os recursos, os meios, os limites pessoais, profissionais, institucionais e sociais, exige por um lado uma ruptura com procedimentos standartizados e por outro lado a previsão de momentos de paragem para a escrita, a análise e a reflexão. O trabalho em equipa, a actualização de conhecimentos, a participação em fóruns de discussão alarga horizontes e favorece a inovação das práticas quotidianas. É importante conceber a intervenção como uma mediação social, capaz de articular diferentes níveis e perfis de intervenção. Neste contexto, é importante associar a investigação (produção de conhecimentos) e a acção (intervenção), como garante tanto da adequabilidade desta ao conhecimento objectivo da realidade 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 9. 9 social, como da participação dos sujeitos e da formação de competências que um processo de mudança exige. 3 – Reconhecer os poderes associados à intervenção. Apesar de a intervenção dos Assistentes Sociais se processar à margem do exercício de um poder coercivo, resultando por isso naquilo que se designa por mediação desarmada, é inegável a sua contribuição no processo de procura de alternativas à exclusão social e na resolução dos problemas sociais. As fontes de legitimação da sua intervenção são diversas, com referências a nível conceptual, contextual e técnico-metodológica. A primeira decorre da perspectiva humanista e relacional que lhe está associada desde a institucionalização dos serviços sociais e do trabalho social; a segunda deriva do lugar intermediário do serviço social nas organizações, designadamente no âmbito da regulação da procura e da oferta social; a terceira prende-se com os saberes e competências associados à prática dos Assistentes Sociais, fortemente influenciados por conhecimentos provenientes das ciências sociais. Apesar de a sua intervenção se processar num clima de ausência de poder, é- lhe atribuído um papel mediador no processo de resolução de problemas sociais, tanto pelos clientes como pelas organizações. Ora, a noção de acção está logicamente ligada à de poder1. A acção implica, por um lado, a utilização de meios para alcançar resultados, através da intervenção directa de um actor no decurso do fenómeno e, por outro lado, uma acção intencionada. O poder representa a capacidade de um agente para mobilizar recursos que permitam alterar o curso de um fenómeno, e é uma propriedade da interacção. Por isso, poder-se-á falar de poder associado à intervenção como produto de factores intrínsecos e extrínsecos ao saber fazer profissional, um poder com características próprias: 1. Poder relacional: A mediação do assistente social processa-se sempre no contexto de confluência de comunicações, reciprocidades e trocas. Apesar de se reconhecer que estas são também condições subjacentes a1 GIDDENS, Anthony , Novas regras do método sociológico. Trajectos. Lisboa: Gradiva, 1996, p.128. 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 10. 10práticas de persuasão, quando esta se sobrepõe à capacidade de escuta e dediálogo deixamos de estar na presença de um processo de mediação. Esteexige tempo e desenvolve-se de forma catalítica, no quadro de uma “liberdaderelativa de escolha” e num processo crescente de autonomia dos sujeitos querecorrem aos serviços. 2. Poder partilhado e micro: Quando a solução provem apenas de umafonte, ela resulta da autoridade que lhe é atribuída. Ora, o desempenhoprofissional faz-se sentir a nível micro (utentes, familiares, contexto social) eresulta da combinação de esforços de diversos intervenientes: a equipa, outrosprofissionais, o utente, a família, organizações da comunidade, voluntários.Raramente a sua acção resulta de uma decisão própria e unidireccional. Porisso, o seu poder do assistente social é partilhado e micro. 3. Poder proponente : Resulta da capacidade de elaborar propostas eprojectos capazes de sinalizar problemas sociais, instituir salvaguardasprocessuais no plano dos direitos e deveres do utente-cidadão, argumentar deforma convincente, rigorosa e objectiva sobre as vantagens, as desvantagens,os limites e as potencialidades dos clientes, apresentar novas propostas deacção, defender os interesses do utente no quadro dos direitos que estãoconsagrados na lei, e dentro dos princípios da equidade e da justiça social,propor e elaborar projectos inovadores no campo social. O enquadramentolegal confere legitimidade ao fazer profissional e vem reforçar a suacredibilidade. 4. Poder consultivo: Está aliado ao anterior, e resulta da proximidadeque o assistente social tem com o utente e com o meio, e da sua capacidadepara analisar a realidade social envolvente, a sua dinâmica, os seus limites epotencialidades. O conhecimento do contexto territorial e pessoal dassituações atribui-lhe um poder consultivo por parte da administração ou gestãodos serviços sempre que seja necessário. É no quadro deste poder que sepoderão inserir diligências de pesquisa-acção, como aproximações ao terreno,levantamento de novos dados, estudo das variáveis consideradas úteis àinterpretação da situação na sua globalidade e particularidade. tais 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 11. 11 procedimentos dão visibilidade a situações até aí não diagnosticadas e viabilizam o desenvolvimento de novas formas de intervenção. II – INTEGRAR UMA CULTURA DE INVESTIGAÇÃO E VALORIZAR APRÁTICA COMO FONTE DE CONHECIMENTO. A aplicação de conhecimentos à realidade social implica um esforço fundadoem três vertentes: 1 – o reconhecimento dos conteúdos teóricos que fundamentam as práticasrenovadas e o sentido que lhes é atribuído; 2 – a identificação da rede conceptual que alicerça as posturas inovadorasno plano processual; 3 – a aceitação do papel activo do interventor no plano da construção doconhecimento. Estes elementos favorecem tanto o desenvolvimento de acçõescoerentes, teoricamente fundamentadas, estratégicas, isto é, cognitivamenteorientadas por relações meios-fins, adaptadas à realidade social de intervenção,como a produção de novos saberes. O campo da acção não é um depósito deconhecimentos que se traduzam numa rotina. A acção é o resultado de opçõesmesmo que não tenhamos consciência do facto. E, embora os seusfundamentos nem sempre sejam muito claros, essas opções conduzem àpercepção de que as práticas são diversas. Para isso muito tem contribuído adeficiente reflexão que é feita sobre o quotidiano profissional. Neste contexto, aresponsabilidade das instituições universitárias é acrescida. Torna-se necessáriodesenvolver uma “cultura de investigação” que aproxime os discursos da teoria eda prática. E isso só se consegue fazendo e ensinando a fazer investigação. Arelação com o campo da intervenção permite renovar conhecimentos, aproximarestratégias e valorizar saberes. 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 12. 12 III – APROVEITAR DINÂMICAS ACTUAIS, INVESTIR EM ÁREAS ANTIGASE NOVOS PROBLEMAS, COM NOVOS INSTRUMENTOS E /OUPROCEDIMENTOS RENOVADOS. A articulação entre o económico e o social, constitui hoje uma referênciacentral de novas práticas, um vector de inovação para a profissão, que temsubjacente uma visão renovada das competências que lhe são atribuídas ecomprovadas no seu quotidiano. Assiste-se à abertura de novos objectos deintervenção associados à esfera económica ou da inserção, criando-se novasdinâmicas através da entrada de novos actores profissionais e institucionais. Apromoção da igualdade de oportunidades e de integração social, bem como avalorização da cidadania, exigem uma avaliação e acção preventivas reveladorasde novas competências, designadamente nos domínios da gestão social e damediação de conflitos. Estes constituem novos desafios, novos campos deintervenção, onde novos e acumulados conhecimentos são movimentados nosentido da construção de respostas adequadas e inovadoras, capazes de asseguraro restabelecimento de laços sociais, cuja ruptura está na origem dos novosproblemas sociais, designadamente e entre outros na área da família, dos menores,dos idosos, das relações de proximidade. Advocacy, empowerment, partenariado,trabalho de rede constituem-se como concepções passíveis de articulação nummesmo processo de intervenção. O seu recurso implica uma interpretação dasituação, dos factores contextuais e pessoais intervenientes. Compete ao assistentesocial posicionar-se no tabuleiro dinâmico dos referenciais teóricos e interpretar osentido da intervenção adequada. Na construção do espaço profissional intervêm elementos de nível micro(natureza do problema, características dos utentes), nível meso (representaçãoda profissão e conceptualização da intervenção) e nível macro (problemas epolíticas sociais). A diversidade de práticas existentes, é o produto dessesfactores. A consolidação e conquista de espaço constituem um desafio a queurge dar resposta com determinação e esperança. 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003
  • 13. 13 CORTINA INVISÍVEL Do lado de cá Busco a liberdade. Jogo-me contra a vidraça Que me impede de correr Em direcção ao longínquo horizonte. Faço-o Num frenesim inquietante e infrutífero. Impotente Detenho-me perante a cortina invisível Que me impede de correr. Baixo os braços... Encosto a cabeça...Talvez desista de me jogar contra a vidraça... Mas nada me impedirá De a tatear insistentemente Pois um dia Hei-de encontrar uma brecha! Luisa Pimentel, 2002 1ª MOSTRA DE PRÁTICAS PRÉ-PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL Helena Neves Almeida....ISBB...3 de Junho 2003