Your SlideShare is downloading. ×
  • Like
23647573 prostituicao-e-supremacia-masculina
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×

Now you can save presentations on your phone or tablet

Available for both IPhone and Android

Text the download link to your phone

Standard text messaging rates apply

23647573 prostituicao-e-supremacia-masculina

  • 441 views
Published

 

  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
    Be the first to like this
No Downloads

Views

Total Views
441
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0

Actions

Shares
Downloads
16
Comments
0
Likes
0

Embeds 0

No embeds

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. Prostituição e Supremacia Masculinapor Andrea Dworkin [Andrea Dworkin pronunciou este discurso em um simpósiointitulado "Prostituição: Da Academia ao Ativismo,"patrocinado pelo Michican Journal of Gender and Law naUniversidade de Michigan Law School, 31 de Outubro, 1992.]Eu sou muito honrada de estar aqui com minhas amigas e minhasiguais, minhas irmãs deste movimento.Eu também sinto uma quantidade terrível de conflito relativo a estaraqui, porque é muito duro pensar a respeito de falar sobreprostituição em um ambiente acadêmico. É realmente difícil.As suposições da academia mal podem começar a imaginar arealidade da vida para mulheres na prostituição. A vida acadêmica éestabelecida na noção preexistente que há um amanhã e o próximodia e um dia seguinte; ou que alguém pode vir para dentro, longe dofrio, para estudar; ou que há algum tipo de discussão de idéias e umano de liberdade no qual você pode ter discordâncias que não lhecustarão sua vida. Estas são premissas que aqueles que sãoestudantes ou que lecionam aqui influenciam diariamente. Elas sãoantitéticas para as vidas de mulheres que estão ou que estiveramna prostituição.Se você esteve na prostituição, você não tem amanhã em suamente, porque amanhã é um tempo muito distante. Você não podesupor que viverá de um minuto a outro. Você não pode e você nãofaz. Se você faz, então você é tola, e ser tola no mundo daprostituição é ser danificada, é ser morta. Nenhuma mulher que éprostituída pode se permitir ser tão tola, de modo que elaverdadeiramente acreditaria que o amanhã virá.Eu não posso reconciliar estas diferentes premissas. Eu apenasposso dizer que as premissas da mulher prostituída são minhaspremissas. Minhas ações são provenientes delas. São nelas quemeu trabalho esteve baseado todos estes anos. Eu não possoaceitar – porque eu não posso acreditar – as premissas dofeminismo que sai da academia: o feminismo que diz que nósouviremos todos estes lados ano após ano, e então, algum dia, nofuturo, por meio de algum processo que nós ainda nãodescobrimos, nós decidiremos o que é certo e o que é verdade. Issonão faz sentido para mim. Eu compreendo que para muitos de
  • 2. vocês isso faz sentido. Eu estou falando através do maior divisorcultural em minha própria vida. Eu tenho tentado falar através delepor vinte anos com o que eu consideraria sucesso marginal.Eu quero trazer-nos de volta aos fundamentos. Prostituição: o que éela? É o uso do corpo de uma mulher para sexo por um homem, elepaga dinheiro, ele faz o que quer. O minuto que você se move parafora do que ela realmente é, você se move para longe daprostituição no mundo das idéias. Você se sentirá melhor; você teráum tempo melhor; é mais divertido; há o bastante para se discutir,mas você estará discutindo idéias, não prostituição. Prostituição nãoé uma idéia. É a boca, a vagina, o reto, penetrado geralmente porum pênis, às vezes por mãos, às vezes por objetos, por um homeme então outro e então outro e então outro e então outro. É isso oque ela é.Eu peço que vocês pensem sobre seus próprios corpos – se vocêspodem fazer de tal modo fora do mundo que os pornógrafos criaramem suas mentes, as bocas e vaginas e ânus flutuantes, lisos emortos, de mulheres. Eu peço que vocês pensem concretamentesobre seus próprios corpos usados dessa maneira. Quão sexy éisto? É divertido? As pessoas que defendem prostituição epornografia querem que vocês sintam uma pequena excitaçãoexcêntrica toda vez que vocês pensarem em algo enfiado em umamulher. Eu quero que vocês sintam os delicados tecidos em seucorpo que estão sendo abusados. Eu quero que você sinta qual é asensação quando isso acontece novamente e novamente enovamente e novamente e novamente e novamente e mais umavez: porque é isso que a prostituição é.Por esse motivo que – da perspectiva de uma mulher naprostituição ou de uma mulher que esteve na prostituição – asdistinções que outras pessoas fazem entre se o evento aconteceuno Hotel Plaza ou em algum lugar mais deselegante não são asdistinções que importam. Estas são percepções irreconciliáveis,com premissas irreconciliáveis. Naturalmente as circunstânciasdevem importar, vocês dizem. Não, elas não importam, porque nósestamos falando sobre o uso da boca, da vagina, e do reto. Ascircunstâncias não abrandam ou modificam o que a prostituição é.E assim, muitas de nós estamos dizendo que a prostituição éintrinsicamente abusiva. Deixe-me ser clara. Eu estou lhes falandosobre a prostituição por si mesma, sem mais violência, semviolência extra, sem uma mulher ser golpeada, sem uma mulher ser
  • 3. empurrada. Prostituição em si mesma é um abuso do corpo de umamulher. Aquelas de nós que dizem isto são acusadas de seremsimplórias. Mas prostituição é muito simples. E se você não ésimplória, você nunca a compreenderá. Quanto mais complexavocê conduz a ser, mais distante da realidade você estará – estarámais prudente, estará mais feliz, mais diversão você terá discutindoo problema da prostituição. Na prostituição, nenhuma mulherpermanece inteira. É impossível usar um corpo humano do modoque os corpos das mulheres são usados em prostituição e ter umser humano inteiro no fim dela, ou no meio dela, ou perto docomeço dela. É impossível. E nenhuma mulher fica inteira de novomais tarde, depois. Mulheres que foram abusadas na prostituiçãotêm algumas escolhas a fazer. Vocês viram aqui mulheres muitocorajosas fazerem algumas escolhas muito importantes: usar o queelas sabem; tentar comunicar-lhes o que elas sabem. Mas ninguémfica inteira, porque muito é levado embora quando a invasão édentro de você, quando a brutalidade é dentro da sua pele. Nóstentamos tão duramente comunicar, cada uma de nós, a dor. Nóspleiteamos, nós fazemos analogias. A única analogia que eu possopensar a respeito da prostituição é que ela é mais como violaçãomúltipla do que ela é como qualquer outra coisa.Oh, você diz, a violação múltipla é completamente diferente. Umamulher inocente está andando pela rua e ela é tomada de surpresa.Toda mulher é a mesma mulher inocente. Toda mulher é tomada desurpresa. Na vida de uma prostituta, ela é tomada de surpresanovamente e novamente e novamente e novamente e mais umavez. A violação múltipla é interrompida por uma troca de dinheiro.Isso é tudo. Essa é a única diferença. Mas o dinheiro tem umaqualidade mágica, não é? Você dá a uma mulher dinheiro e tudo oque você lhe fez ela quis, ela mereceu. Agora, nós compreendemosa respeito do trabalho masculino. Nós compreendemos que oshomens fazem coisas que não gostam de fazer a fim de ganhar umsalário. Quando homens fazem trabalho alienado em uma fábricanós não dizemos que o dinheiro transforma a experiência para elesde tal maneira que eles a amaram, tiveram um bom divertimento, ede fato, aspiraram a mais nada. Nós olhamos para o enfado, aausência de saída; nós dizemos, certamente a qualidade de vida deum homem deveria ser melhor que essa.A função mágica do dinheiro é engendrada; o que é dizer, mulheresnão são pretensas a terem dinheiro, porque quando mulheres têmdinheiro, presumivelmente mulheres podem fazer escolhas, e uma
  • 4. das escolhas que mulheres podem fazer é não estar com homens.E se mulheres escolhem não estar com homens, os homens entãoserão privados do sexo que homens sentem que têm um direito. Ese é necessário que uma classe inteira de pessoas seja tratada comcrueldade e indignidade e humilhação, colocada em uma condiçãode servidão, de modo que os homens possam ter o sexo que elespensam que têm direito, então é o que acontecerá. Essa é aessência e o significado da dominação masculina. Dominaçãomasculina é um sistema político.É sempre extraordinário, quando olhando para esta troca dedinheiro, entender que nas mentes da maioria das pessoas odinheiro vale mais do que a mulher é. Os dez dólares, os trintadólares, os cinqüenta dólares, valem mais do que toda a sua vida.O dinheiro é real, mais real do que ela é. Com o dinheiro ele podecomprar uma vida humana e apagar sua importância de cadaaspecto da consciência civil e social e consciência e sociedade, dasproteções da lei, de todo direito de cidadania, de qualquer conceitode dignidade humana e soberania humana. Por malditos cinqüentadólares qualquer homem pode fazer isso. Se você fosse pensar emuma maneira de punir mulheres por serem mulheres, pobreza seriao bastante. Pobreza é dura. Fere. As cadelas estariam arrependidasde serem mulheres. É duro estar com fome. É duro não ter um lugaragradável para viver. Você se sente realmente desesperada.Pobreza é muito punitiva. Mas pobreza não é o bastante, porque apobreza sozinha não abastece o reservatório de mulheres parahomens foderem em demanda. Pobreza é insuficiente para criaresse reservatório de mulheres, não importa quão famintas asmulheres fiquem. Assim, em diferentes culturas, as sociedades sãoorganizadas diferentemente para alcançar o mesmo resultado: nãosomente as mulheres são pobres, mas a única coisa de valor queuma mulher tem é sua assim-chamada sexualidade, que, junto como seu corpo, tem sido transformada em um produto vendável. Suaassim-chamada sexualidade torna-se a única coisa que importa;seu corpo se torna a única coisa que qualquer um quer comprar.Então uma suposição pode ser feita: se ela é pobre e precisa dedinheiro, ela estará vendendo sexo. A suposição pode estar errada.A suposição não cria o reservatório de mulheres que sãoprostituídas. Ele toma mais que isso. Em nossa sociedade, porexemplo, na população de mulheres que são prostituídas agora,nós temos mulheres que são pobres, que tem vindo de famíliaspobres; elas também são vítimas de abuso sexual infantil,especialmente incesto; e elas tornaram-se desabrigadas.
  • 5. Incesto é o campo de treinamento. O incesto é onde você envia agarota para aprender como fazer. Assim você, obviamente, não temde enviá-la para lugar nenhum, ela já está lá e ela não tem nenhumoutro lugar para ir. Ela é treinada. E o treino é específico e éimportante: não ter limites reais ao seu próprio corpo; saber que elaé valiosa somente para o sexo; aprender sobre homens o que oofensor, o ofensor sexual, lhe está ensinando. Mas mesmo isso nãoé o bastante, porque depois ela foge e ela está fora nas ruas edesabrigada. Para a maioria das mulheres, alguma versão de todosestes tipos de destituição precisa ocorrer.Eu tenho pensado muito nos últimos dois anos sobre o significadoda falta de lar para mulheres. Eu penso que é, em um sentido literal,uma condição prévia, junto com o incesto e a pobreza nos EstadosUnidos, para criar a população de mulheres que podem serprostituídas. Mas isso tem um significado mais extenso, também.Pense sobre onde alguma mulher realmente tem um lar. Nenhumacriança está segura em uma sociedade na qual uma de cada trêsgarotas será abusada sexualmente antes de ter dezoito anos.Nenhuma esposa está segura em uma sociedade em que figurasaparecem para dizer que uma de duas mulheres casadas foi ou éespancada. Nós somos as donas de casa; nós fazemos estes lares,mas não temos direitos a eles. Eu penso que nós estávamoserradas ao dizer que prostituição é a metáfora para o que acontecea todas as mulheres. Eu penso que a falta de um lar é realmenteessa metáfora. Eu penso que as mulheres estão expropriadas deum lugar para viver que seja seguro, que pertença à própria mulher,um lugar em que ela tenha não apenas a soberania sobre seucorpo, mas a soberania sobre a sua vida social real, quer ela seja avida em uma família ou entre amigos. Na prostituição, uma mulherpermanence desabrigada.Mas há algo muito específico sobre a condição de prostituição queeu gostaria de tentar falar a respeito com vocês.Eu quero enfatizar que nestas conversas, estas discussões sobre aprostituição, nós estamos todas procurando por uma linguagem.Nós todas estamos tentando encontrar maneiras de dizer o que nóssabemos e também descobrir o que nós não sabemos. Há umapresunção da classe media que a mesma sabe tudo o que vale apena saber. É uma presunção da maioria das mulheres prostituídasque ela sabe nada que vale a pena saber. De fato, nenhuma dasduas coisas é verdadeira. O que importa aqui é tentar aprender o
  • 6. que a mulher prostituída sabe, porque é de imenso valor. Éverdadeiro e tem sido escondido. Tem sido escondido por umarazão política: sabê-lo é chegar mais perto de saber como desfazero sistema de dominação masculina que está assentado sobre todasnós.Eu penso que as prostitutas experimentam uma inferioridadeespecífica. Mulheres em geral são consideradas sujas. A maioria denós experimenta isto como uma metáfora, e, sim, quando as coisasficam muito ruins, quando coisas terríveis acontecem, quando umamulher é estuprada, quando uma mulher é golpeada, sim, entãovocê reconhece que embaixo da sua vida de classe média existemsuposições que porque você é uma mulher você é suja. Mas umaprostituta vive a realidade literal de ser a mulher suja. Não hámetáfora. Ela é a mulher coberta de sujeira, o que é dizer que cadahomem que esteve alguma vez sobre ela deixou uma parte de simesmo para trás; e ela é também a mulher que tem uma funçãopuramente sexual sob o domínio masculino de modo que àextensão que as pessoas acreditam que sexo é sujo, as pessoasacreditam que mulheres prostituídas são sujas.A mulher prostituída não é, entretanto, estática nesta sujeira. Ela écontagiosa. Ela é contagiosa porque um homem após o outroavança sobre ela e então ele parte. Por exemplo, em discussõessobre AIDS, a mulher prostituída é vista como a fonte da infecção.Esse é um exemplo específico. Geralmente, a mulher prostituída évista como a fonte geradora de tudo que é ruim e errado e podrerelacionado a sexo, com o homem, com mulheres. Ela é vista comoalguém que é merecedora de punição, não apenas por causa doque ela “faz” – e eu ponho faz entre aspas, visto que na maioria dasvezes isso lhe é feito – mas por causa do que ela é.Ela é, naturalmente, a mulher anônima perfeita. Os homens amamisso. Enquanto ela estiver em seu vigésimo quarto nome falso –boneca, bebê, gracinha, torta de cereja, o que quer que ospornógrafos estejam preparando esta semana como uma invençãomercadológica – seu anonimato diz ao homem, ela não é ninguémreal, eu não tenho que ocupar-me com ela, ela não tem um últimonome de qualquer modo, eu não tenho de lembrar quem ela é, elanão é alguém específica para mim, ela é uma incorporaçãogenérica da mulher. Ela é percebida como, tratada como – e euquero que você lembre disto, isto é real – muco vaginal. Ela é suja;
  • 7. muitos homens estiveram lá. Muito sêmen, muito lubrificantevaginal. Isto é visceral, isto é real, isto é o que acontece. Seu ânusé frequentemente rasgado por causa do intercurso anal, ele sangra.Sua boca é um receptáculo para sêmen, deste modo que ela épercebida e tratada. Todas as mulheres são consideradas sujas porcausa do sangue menstrual, mas ela sangra outras vezes, emoutros lugares. Ela sangra porque ela foi ferida, ela sangra e temferimentos.Quando homens usam mulheres na prostituição, eles estãoexpressando um ódio puro ao corpo feminino. É tão puro comoqualquer coisa nesta terra jamais foi ou é. É um desprezo tãoprofundo, tão profundo, que uma vida humana inteira é reduzida aalguns orifícios sexuais, e ele pode fazer qualquer coisa que elequiser. Outras mulheres nesta conferência disseram-lhes isso. Euquero compreender, acreditar nelas. É verdade. Ele pode fazerqualquer coisa que quiser. Ela não tem nenhum lugar para ir. Nãohá nenhum policial para se queixar; o policial pode bem ser oindivíduo que está fazendo isso. O advogado que ela encontra vaiquerer pagamento na mesma moeda. Quando ela precisa de ajudamédica, verifica-se que ele é apenas um outro freguês. Vocêcompreende? Ela não é literalmente nada. Agora, muitas de nóstemos experiências nas quais nos sentimos como nada, ou nóssabemos que alguém nos considera como nada ou menos quenada, sem valor, mas para uma mulher na prostituição, esta é aexperiência de vida diária, dia a dia.Ele, entretanto, o campeão aqui, o herói, o homem, ele estáocupado ligando-se com outros homens através do uso do corpodela. Uma das razões que ele está lá é porque algum homemesteve lá antes e algum homem estará lá depois dele. Isto não éteoria. Quando você vive isso, você vê é verdade. Homens usam oscorpos de mulheres em prostituição e em violação múltipla paracomunicarem-se um com o outro, para expressar o que eles têm emcomum. E o que eles têm em comum é que eles não são ela. Assimela torna-se o veículo de sua masculinidade e seu homoerotismo, eele usa as palavras para dizer-lhe isso. Ele compartilha asexualidade das palavras, assim como dos atos, dirigidos a ela,com outros homens. Todas esses palavrões são apenas aspalavras que ele usa para dizer-lhe o que ela é. (E do ponto de vistade qualquer mulher que foi prostituída – se fosse pra ela expressaresse ponto de vista, o que é provável que ela não expresse – a lutaque artistas masculinos travam pelo direito de usar palavrões é uma
  • 8. das chacotas mais doentias e desprezíveis na face desta terra,porque não há nenhuma lei, nenhuma regra, nenhuma etiqueta,nenhuma cortesia que interrompa qualquer homem de usar cadauma daquelas palavras em qualquer mulher prostituída; e aspalavras têm o ferrão que é pretendido terem porque de fato, aestão descrevendo.) Ela é consumível. Engraçado, ela não temnome. Ela é uma boca, uma vagina, e um ânus, quem precisa delaem particular quando existem tantas outras? Quando ela morre,quem sente sua falta? Quem lamenta por ela? Ela está ausente,alguém vai procurá-la? Eu quero dizer, quem é ela? Ela não éninguém. Não metaforicamente ninguém. Literalmente, ninguém.Agora, na história do genocídio, por exemplo, os Nazistas sereferiram aos Judeus como piolhos e eles disseram, nós vamosexterminá-los. Na história do massacre dos povos indígenas dasAméricas, aqueles que fizeram a política disseram, eles são piolhos,mate-os. Catharine MacKinnon falou mais cedo sobre a limpeza degênero: assassinando prostitutas. Ela está certa. Mulheresprostituídas são as mulheres que estão aí, disponíveis para amatança ginocida. E as mulheres prostituídas estão sendoassassinadas a cada dia, e nós não pensamos que estamosencarando qualquer coisa semelhante a uma emergência. Por quenós deveríamos? Elas não são ninguém. Quando um homem matauma prostituta, ele se sente íntegro. É uma matança justa. Eleapenas se livrou de um pedaço de sujeira, e a sociedade lhe dizque ele está certo.Há também um tipo específico de desumanização experimentadopor mulheres que são prostituídas. Sim, todas as mulheresexperimentam serem objetos, serem tratadas como objetos. Mas asmulheres prostituídas são tratadas como um determinado tipo deobjeto, que é dizer, um alvo. Um alvo não é qualquer objeto velho.Você pode cuidar consideravelmente bem de alguns objetos quevocê tem em torno da casa. Mas você vai atrás de um alvo. Vocêpõe o dardo no buraco. Para isso que a prostituta existe. O que issodeveria lhe dizer é quanta agressão entra no que um homem fazquando ele procura, encontra, e usa uma mulher prostituída.Um dos conflitos que eu sinto a respeito de falar aqui, estar aqui, éque eu estou receosa que qualquer coisa que eu diga que é mesmolevemente abstrata afastará imediatamente a mente de todo mundodo problema fundamental. E o problema fundamental é o que é feitoàs mulheres que estão na prostituição, o que exatamente a
  • 9. prostituição é. Mas eu tenho que correr esse risco porque eu querolhes dizer que vocês não podem pensar sobre a prostituição amenos que você se disponha a pensar sobre o homem que precisafoder a prostituta. Quem é ele? O que ele está fazendo? O que elequer? Do que ele precisa?Ele é todos. Eu quero que você tome uma hora, na Segunda-feira.Eu quero que você ande pela sua escola, e eu quero que você olhepara cada homem. Eu quero que você retire as roupas dele comseus olhos. Eu quero que você o veja com um pau duro. Eu queroque na sua mente você o coloque em cima de uma mulher comdinheiro sobre a mesa próxima a eles. Todos. O reitor desta escolade direito, os professores, os estudantes masculinos, todos. Sevocê está indo à sala de emergência, eu quero que você faça isso.Se você tem um ataque cardíaco, eu quero que você faça isso como médico que está cuidando de você. Porque este é o mundo emque as mulheres prostituídas vivem. É um mundo em que nãoimporta o que lhe acontece, há um outro homem que queira umaparte de você. E se você precisa de algo dele, você tem que dar-lheessa parte.Os homens que usam prostitutas pensam que são realmentegrandes e realmente corajosos. Eles estão muito orgulhosos de simesmos – eles vangloriam-se muito. Eles escrevem romances,escrevem canções, escrevem leis – povo produtivo – e têm umapercepção que eles são muito aventureiros e heróicos, e por queeles pensam isso? Porque eles são predadores que saem eperturbam as mulheres – eles se esfregam contra uma mulher queseja suja e vivem para contar sobre isso. Maldição. Eles vivem paracontar sobre isso. Infelizmente. Virtualmente todo o tempo, nãoimporta o que fizeram, não importa que dano eles tenham feito a ela– eles vivem para contar sobre isso, cantar a respeito disso,escrever sobre isso, fazer programas televisivos sobre isso, fazerfilmes sobre isso. Eu gostaria de lhes dizer que estes homens sãocovardes, que estes homens são brutos, que estes homens sãotolos, que estes homens são capazes de fazer o que eles fazemporque eles têm o poder dos homens como uma classe atrás deles,que eles alcançam porque os homens usam força contra asmulheres. Se você quer uma definição do que é um covarde, énecessitar empurrar uma classe inteira de pessoas para baixo demodo que você possa andar sobre elas. As sociedade sãoorganizadas de modo que os homens tenham o poder queprecisem, para usar as mulheres da maneira que quiserem. As
  • 10. sociedades podem ser organizadas de maneiras diferentes e aindacriar uma população de mulheres que são prostituídas. Porexemplo, nos Estados Unidos as mulheres são pobres, as mulheressão a maioria das vezes vítimas de incesto, as mulheres sãodesabrigadas. Em partes da Ásia, elas são vendidas para aescravidão na idade de seis meses porque elas são fêmeas. Isso écomo o fazem lá. Não tem que ser feito da mesma maneira emcada lugar para ser a mesma coisa.Dominação masculina significa que a sociedade cria umreservatório de prostitutas por todos os meios necessários de modoque os homens tenham o que eles precisem para permanecer notopo, se sentirem grandes, literalmente, metaforicamente, em cadamaneira; no entanto os homens são nosso padrão para sereshumanos. Nós dizemos que queremos ser humanas. Nós dizemosque queremos que eles nos tratem como seres humanos. Numasociedade de domínio masculino, homens são os seres humanos.Eu quero apontar-lhes que nós usamos a palavra humanometaforicamente. Nós não estamos falando sobre como os homensagem. Nós estamos falando sobre uma idéia, um sonho, uma visãoque nós tenhamos, do que é um ser humano. Nós estamos dizendoque nós não os queremos pisando sobre nós; nós também estamosdizendo implicitamente que eles não são um bom padrão para oque é ser humano, porque olha o que nos estão fazendo. Nós nãopodemos querer ser como eles, porque ser como eles significa usarpessoas da maneira que eles usam pessoas – para oestabelecimento de sua importância ou de sua identidade. Eu estoudizendo que homens são em parte figuras mitológicas para nósquando falamos sobre eles como seres humanos. Nós não estamosfalando sobre como os homens realmente se comportam. Nósestamos falando sobre a mitologia dos homens como os árbitros dacivilização. Este movimento político envolve compreender que asqualidades humanas que nós queremos na vida um com o outronão são qualidades que caracterizam a maneira como os homensse comportam realmente.O que a prostituição faz numa sociedade de dominação masculina éque ela estabelece a parte social abaixo de que não há nenhumaparte inferior. É o fundo. Mulheres prostituídas estão todas na partemais baixa. E todos os homens estão acima dela. Eles podem nãoestar muito acima, mas até os homens que são prostituídos estão
  • 11. acima da parte inferior que é formada por mulheres e meninas quesão prostituídas. Cada homem nesta sociedade tira proveito do fatode que as mulheres são prostituídas quer cada homem use umamulher na prostituição ou não. Isto não deveria ter que ser dito, masisso tem de ser dito: a prostituição vem do domínio masculino, nãoda natureza feminina. É uma realidade política que existe porqueum grupo de pessoas tem e mantém poder sobre um outro grupo depessoas. Eu sublinho isso porque eu quero lhes dizer que adominação masculina é cruel. Eu quero lhes dizer que a dominaçãomasculina deve ser destruída. A dominação masculina precisa serterminada, não simplesmente reformada, não feita um pouco maisagradável, e não feita um pouco mais agradável para algumasmulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens –olharrealmente para ele, estudá-lo, compreendê-lo – em mantermulheres pobres, em manter mulheres sem abrigo, em mantermeninas prostituídas, o que é dizer, em criar prostitutas, umapopulação de mulheres que serão usadas na prostituição. Nósprecisamos olhar para o papel dos homens em romantizarprostituição, em fazer seus custos a mulheres culturalmenteinvisíveis, em usar o poder desta sociedade, o poder econômico, opoder cultural, o poder social, para criar o silêncio, criar o silêncioentre aquelas que foram feridas, o silêncio das mulheres que foramusadas.Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criar um ódio àsmulheres, em criar discriminação contra as mulheres, em usar acultura para sustentar, promover, advogar, celebrar agressão contraas mulheres. Nós precisamos olhar para o papel dos homens emcriar uma idéia política de liberdade que somente eles podemrealmente ter. Isso não é engraçado? O que é liberdade? Dois milanos de discurso e de algum modo ele conduz a nos deixar de fora.É um monólogo surpreendentemente servido que eles tenham vindoaqui. Nós precisamos olhar para o papel dos homens em criarsistemas políticos que subordinam mulheres; e isso significa quenós temos de olhar para o papel dos homens em criar aprostituição, em proteger a prostituição – como a aplicação da leifaz isso, como o jornalismo faz isso, como os advogados fazemisso. Nós precisamos saber as maneiras em que todos esseshomens usam prostitutas e em fazê-lo eles destroem a dignidadehumana das mulheres.A cura para este problema é política. Isso significa tomar o poderpara longe dos homens. Isto é material real; é material sério. Eles
  • 12. têm muito disto. Eles não o usam direito. Eles são brigões. Eles nãotêm um direito ao que eles têm; e isso significa que tem que sertomado deles. Nós temos que tomar o poder que eles têm de nosusar para longe deles. Nós temos que tomar o poder que eles têmde nos ferir para longe deles. Nós temos que tomar o dinheirodeles. Eles têm demasiado dele. Qualquer homem que tenhabastante dinheiro para gastar degradando a vida de uma mulher naprostituição tem demasiado dinheiro. Ele não precisa do que eletem em seu bolso. Mas há uma mulher que precisa.Nós precisamos levar embora seu domínio social – sobre nós. Nósvivemos em uma tirania de mentirosos e hipócritas e sádicos.Agora, isso lhes custará lutar contra eles. Eles têm que serdescolados das mulheres, você me compreende? Eles precisam sersuspendidos para cima e para fora. O que é intratável sobreprostituição é domínio masculino. E é o domínio masculino que temde ser terminado de modo que as mulheres não serão prostituídas.Você, você – você tem que enfraquecer e destruir cada instituiçãoque é parte de como os homens governam as mulheres. E nãopergunte se você deveria. A pergunta é como, não se. Como? Façaum coisa, ao invés de gastar suas vidas debatendo se vocêsdeveriam fazer isso ou se deveriam fazer aquilo e eles realmentemerecem isso e é realmente justo? Justo? Isso é realmente justo?Queridas, nós poderíamos tomar as metralhadoras hoje à noite.Justo? Nós quebramos nossos próprios corações com estasperguntas. Isso é justo? Não respeite as leis deles. Não. Nãorespeite as leis deles. Mulheres precisam fazer leis. Eu espero queCatharine MacKinnon e eu tenhamos dado um exemplo. Nóstentamos. Não há nenhuma razão para nenhuma mulher, nenhumamulher no mundo, realizar basicamente felação no sistema legalcorrente. Mas na maior parte é o que alguém na escola de direitoaprende a fazer.O que eu espero que vocês levem embora daqui é isto: que todo equalquer vestígio de hierarquia sexual significará que algumasmulheres em algum lugar está sendo prostituída. Se vocês olharemem torno de si e ver a supremacia masculina, você sabe que emalgum lugar onde você não pode ver, uma mulher está sendoprostituída, porque toda hierarquia precisa de uma parte inferior e aprostituição é a parte inferior do domínio masculino. Assim, quandovocê se acomoda, quando concilia, quando se recusapropositadamente a saber, você está colaborando. Sim, eu sei que
  • 13. sua vida também está em cheque, mas sim, você está colaborando,as duas coisas são verdadeiras, na destruição da vida de uma outramulher.Eu estou pedindo que vocês façam a si mesmas inimigas dodomínio masculino, porque ele tem que ser destruído para o crimeda prostituição acabar – o crime contra a mulher, o crime daprostituição dos direitos-humanos: e tudo mais é além do ponto,uma mentira, uma desculpa, uma apologia, uma justificação, etodas as palavras abstratas são mentiras, justiça, liberdade,igualdade, elas são mentiras. Contanto que as mulheres estejamsendo prostituídas elas são mentiras. Vocês podem dizer a mentirae nesta instituição você será ensinada como contar a mentira; ouvocês podem usar suas vidas para desmantelar o sistema que criae então protege este abuso. Você, uma pessoa bem treinada, podeestar com o abusador ou com a rebelde, a que resiste, arevolucionária. Você pode estar com a irmã a quem ele estáfazendo isto; e se você é muito corajosa você pode tentar ficar entreeles de modo que ele tenha que passar através de você parachegar até ela. Esse, de qualquer maneira, é o significado dapalavra escolha frequentemente mal empregada. Estas sãoescolhas. Eu estou lhe pedindo que faça uma escolha.In http://antipatriarchy.wordpress.com/