Cultura um conc. antrop. parte 2.0
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Cultura um conc. antrop. parte 2.0 Cultura um conc. antrop. parte 2.0 Presentation Transcript

  • -- ..- 36 cultura: um conceito antropológico da natureza da cultura 37 o curso de sua vida, transfonnando.o em antropólogo. Tal eventos históricos que enfrentou. A partir daí a explicação I fato provocou, também, a sua mudança para os Estados ~. evolucionista da cultura.só tem sentido quando ocorre em Unidos, onde foi responsável pela fonnação de toda uma tennos de uma abordagem h1ultilinear.9 geração de antropólogos. Aposentou.se, em 1936, pela Uni. Alfred Kroeber (1876-1960), antropólogo americano, versidade de COlúmbia, da cadeira que hoje tem o seu em seu artigo "O Superorgânico"lo mostrou como a cultu- nome. ra atua sobre o homem, ao mesmo tempo em que se preocu- A sua crítica ao evolucionismo está, principalmente, pou com a discuss40 de uma série de pontos controverti- contida em seu artigo "The Limitation of the Comparative dos, pois suas explicações contrariam um conjunto de cren- Method of Anthropology",8 no qual atribuiu à antropolo- ças populares. Iniciou, como o título de seu trabalho indi- gia a execução de duas tarefas: ca, com a demonstração de que graças à cultura a humani- a) a reconstrução da história de povos ou regiõespar- dade distanciou-se do mundo animal. Mais do que isto, o ticulares; homem passou a ser considerado !.mser que está acima de b) a comparação da vida social de diferentes povos, suas limitações orgânicas. cujo desenvolvimento segueas mesmas leis. Tem sido modo de pensamento característico de nos- Além disto, insistiu na necessidade de ser comprova- sa civilização ocidental uma formulação de antíteses da, antes de tudo, a possibilidadede os dados serem compa- complementares, um equilíbrio de contrários que se rados. E propôs, em lugar do método comparativo puro e excluem. Um desses pares de idéias com que o nosso simples, a comparação dos resultados obtidos através dos mundo vem lidando há cerca de dois mü anos se ex- estudos históricos das culturas simples e da compreensão prime nas palavras corpo e alma. Outro par que já dos efeitos das condições psicológicas e dos meios am- teve a sua utilidade, mas de que a ciência está agora bientes: muitas vezes. se esforçando por descartar-se, pelo - São as investigações históricas reafirma Boas o - que convém para descobrir a origem deste ou daquele tra- I Para os evolucionistas do século XIX a evolução desenvolvia-se ço cultural e para interpretar a maneira pela qual toma lu- IItravés de uma linha única; a evolução teria raízcs em uma unidade gar num dado conjunto sociocultural. Em outras palavras, IIa(quica através da qual todos os grupos humanos teriam o mesmo Boa:> desenvolveu o particularismo histórico (ou a chamada polencial de desenvolvimento, embora alguns estivessem mais adian- tados que outros. E~ta abordagem unilmear considerava que. cada Escola Cultural Ame""ricana), segundo a qual cada cultura ,uclcllade seguiria o seu curso histórico através de três estágios: sei: segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes vd"Crla,barbarismo e civilização. Em oJKsição a essa teoria, e a par- 111do Franz Boas, surgiu a idéia de que cada grupo humano desen- vulvCI11Jatravés de caminho próprio, que não pode ser sunplificado 1111..Irulura tríplice dos estágios. Esta possibilidade de desenvolvi- 11""10múltiplo constitui o objeto da abordagem multilinear. 8 Franz Boas, 1896, Vol. 4. .. V.r nola 4 do capítulo 3.L
  • da natureza da cultura 39 38 cultura: um concsiro antropol6gico tem a ver com as suas ações e pensamentos, pois todos os menos em certos aspectos, é a distinção entre o físico e o mental. seus atos dependem inteiramente de um processo de apren- Há uma terceira discriminação que é entre o vital dizado. Por isto, continua Kroeber: e o social, ou em outras palavras, entre o orgânico Todos sabem que nascemos com certos poderes e e o cultural. adquirimos outros. Não é preciso argumentar para O reconhecimento implícito da diferença entre provar que algumas coisas de nossas vidas e constitui- qualidades e processos orgânicos e qualidades e pro- ção provêm da natureza pela hereditariedade, e que cessos sociais vem de longa data. Contudo, a distinção outras coisas nos chegam através de outros agentes formal é recente. De fato, pode dizer-se que o pleno com os quais a hereditariedade nada tem que ver. Não alcance da importância da antítese está apenas raian- apareceu ninguém que afirmasse ter um ser humano do sobre o mundo. Para cada ocasião em que alguma nascido com o conhecimento inerente da tábua de mente humana separa nitidamente as forças orgânicas multiplicação, nem, por outro lado, que duvidassede e sociais, há dezenas de outras vezes em que não se que os filhos de um negro nascem negros pela atuação cogita da diferença entre elas, ou em"queocorre uma de forças hereditárias. Contudo, certas qualidades real confusão de duas idéias.11 de todo indivíduo são claramente sujeitas a debate e quando se compara o desenvolvimento da civilização A preocupação de Kro"eberé evitar a confusão, ainda como um todo. a distinção dos processos envolvidos tão comum, entre o orgânico e o cultural. Não se pode ig- apresenta muitas vezesfalhas.12 norar que o homem, membro proeminente da ordem dos o homem, como parte do reino animal, participa do ~J~VI ~;.Erimatas, depende m~tõ de seu !Quipamentobiológico. . grande processo evolutivo em que muitas espécies sucum- b"6 (.0<> Para se manter vivo, independente do sistema cultural ao biram e só deixaram alguns poucos vestígios fósseis. As es- ~ qual pertença. ele tem que satisfazer um número determi- nado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respi- pécies re~anescentes obtiveram esta condição porque fo- ração. a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções ram capazes de superar uma furiosa competição e suportar sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfa- modificações climáticas radicais que perturbaram enorme- zê-Ias varia de uma cultura para outra. É esta grande varie- mente as condições mesológicascomo um todo. dade na operação de um número tão pequeno de funções A espécie humana sobreviveu. E, no entanto, o fez que faz com que o homem seja considerado EIl ser predo- com um equipamento físico muito pobre. Incapaz de correr minantemente cultural. Os seus comportamentos não são como um antílope; sem a força de um tigre; sem a acuidade biologicamente determinados. A sua herança genética nadaiJ1 12 hl~m. ibidem, p. 234.,Ij I I KroebeI. 1949, pp. 232-33.
  • da natursza da cultura 4140 cultura: um conceito antropológico te possível mediante a perda ou a modificação de ór-visual de um lince ou as dimensões de um elefante; mas, ao gãos ou faculdades existentes 13contrário de todos eles, dotada de um instrumental extra- A baleia não é só um mamífero de sangue quente,orgânico de adaptação, que ampliou a força de seus braços, mas é reconhecida como o descendente remoto dea-roa"" velocidade,-a sua acuidade visual e auditiva etc. E o animais terrestres carnívoros. Em alguns rnilhões demais importante, tais modificações ocorreram sem nenhuma anos (. . .) esse animal perdeu suas pernas para correr,(ou quase nenhuma) modificação anatõmica. suas garras para segurar e dilacerar, seu pêlo original Alguns répteis, por exemplo, buscaram o refúgio dos e as orelhas externas que, no mínimo, nenhuma utili- ares para superar as difíceis condições de competição exis- dade teriam na água, e adquiriu nadadeiras e cauda, tente no solo. Para isto, tiveram que se submeter a inten- um corpo cilíndrico, uma camada de banha e facul- sas modificações biológicas, através de numerosas gerações. dade de reter a respiração. Muita coisa perdeu a Perderam escamas e ganharam penas; trocaram um par de espécie, mais, talvez, em conjunto de que ganhou. É membros por um par de asas; um sistema de sangue frio por certo que algumas de suas partes degeneraram. Mas um de sangue quente; além de outras modificações anatõ houve um novo poder que ela adquiriu: o de percorrer indefinidamente o oceano. micas e fisiológicas. Ganhando a locomoção aérea, afinal Encontramos o paralelo e também o contraste na se transformaram em aves.O homem obteve o mesmo resul- aquisição humana da mesma faculdade. Não transfor- tado por outro caminho: mamos, por alteração gradual de pai a filho, nossos braços em nadadeiras e não adquirimos uma cauda. Não faz muitos anos que os seres humanos atingiram Nem precisamos absolutamente entrar na água para também o poder da locomoção aérea..Maso processo navegar. Construímos um barco. jjsJC? !l.uerdizer que pelo qual esse poder foi alcançado, e os seus efeitos, preservamos., intactos nossos corpos e faculdades de -., - -.~ são completamente diferentes daqueles que i::aracteri- nascunento, inalterados com relação ao de nossos pais zaram a aquisiçáo, pelos primeiros pássaros, da facul- e dos I!lais rem..otosancestrais. Os nossos meios de dade de voar. Nossos meios de voar são exteriores aos navegação marítima são exteriores ao nosso equipa- nossos corpos. O pássaro nasce com um par de asas; mento natural. Nós os fazemos e utilizamos, ao passo nós inventamos o aeroplano. O pássaro renunciou a que a baleia original teve de transformar-se ela mesma um par potencial de mãos para obter as suas asas; em barco. Foram-lhe precisas incontáveis gerações nós, Porque a nossa faculdade não é parte de nossa para chegar à sua condição atual. Todos os indivíduos constituição congênita, conservamos todos os órgãos que não lograram conformar-se ao tipo não deixaram e capacidade de nossos antepassados, acrescentando- lhes a nova capacidade. O processo do desenvolvimen- to da civilização é claramente .acumulativo: conserva- se o antigo, apesar da aquisição do novo. Naevolução U Idem. ibidem,p. 233. orgânica, a introdução de novos traços só é geralmen-
  • da natureza da cultura 43 42 cultura: um conceito antropol6gico filho, e seu centésimo descendente nasceram tão nus descendente algum, ou nenhum que esteja no sangue das baleias de nossos dias.14 ~I e fisicamente tão desarmados como ele e o seu cen- tésimo ancestral. 16 Estes dois exemplos de Kroeber mostram que o ho- Enquanto o urso polar não pode mudar de seu am- mem criou o seu próprio processo evolutivo..No decorrer biente pois não suportaria um grande aumento de tempera- de sua história, sem se submeter a modificações biológicas tura, um esquimó pode transferir-se de sua região gelada radicais, ele tem sobrevividoa numerosas espécies, adaptan- para. um país tropical e em pouco tempo estaria adaptado do-se às mais cllierentes condições mesológicas. Kroeber procurou mostrar que, superando o orgânico, ao mesmo, bastando apenas trocar o seu equipament~ cu~ C~I/r~v ~ ~ral ]>elo des,envolvidono novo habítat. Ao invés de um oJ~vy",1 o homem de certa forma libertou-se da natureza. Tal fato iglu capaz de conservar as menores parcelas de calor preferi- possibilitou a expansão da espécie por todos os recantos da ria, então, ocupar um apartamento refrigerado, ao mesmo Terra. Nenhum outro animal tem toda a Terra como o seu tempo em que trocaria suas pesadas vestimentas por rouI1as habitat,15 apenas o homem conseguiu esta proeza: muito leves ou quase inexistentes. Vi/1los que na evolução animal para cada nova ca- De fato, o que faz o habitante humano de latitudes111 inclementes, não é desenvolver um sistema digestivo racterística adquirida ocorria a perda de uma anterior.1"li 1 Com o homem, uma vez pelo menos este fato tomou-se I peculiar, nem tão pouco adquirir pêlo. Ele muda o seu am1:iente e pode assim conservar inalterado o seu verdadeiro. Ao adquirir cultura perdeu a propriedade ani- -li corpo original. Constrói uma casa fechada, que o pro- mal, geneticamente determinada, de repetir os atos de seus tege contra o vento e lhe permite conservar o calor do antepassados, sem a necesSidadede copiá-los ou de se sub- corpo. Faz uma fogueira ou acende uma lâmpada. Es- meter a um processo de aprendizado. Um jovem lobo, se- fola uma foca ou um caribu, extraindo-lhe a pele com parado de seus semelhantes no momento do nascimento, " que a seleção n!Sl!al, ou outros p~ess()s de_evolu- saberá uivar quando necessário; saberá distinguir entrei / ção orgânicaJ dotou esses animais; sua mulher faz-lhe muitos odores o cheiro de uma fêmea no cio e distinguir, 1i umã -cãmisa e calças, sapatos e luvas, ou duas peças entre numerosas espécies animais, aquelas que lhe são amis- de cada um; ele os usa, e dentro de alguns anos, ou tosas ou adversárias. Kroeber nos mostra que com o ho- dJ.as,está provido de proteção que o urso polar e a le- mem, mais uma vez, o processo é diferente: bre áruca, a zibelina e o tetraz , levam longos perío- dos a adquirir. Demais, o seu filho e o filho de seu Um cachorrinho recém-nascido é criado com uma ninhada de gatinhos por uma gata. Contrariamente às 14 hJem, ibidem. p. 236. 15 Apena> . cão pode ser encontrado em todas as regiões da Terra, In IÜoobcr, 1949, p. 238. mas tal dlluão deve-se à ação humana.
  • 44 cultura: um conceiro an tropo/dgico da natureza da culrura 45 anedotas familiares e aos tópicos de jornais, o cachor- bebê a um casal de chineses. que o adotam legalmen- rinho latirá e rosnará, não miará. Ele nem mesmo ex- te, e o criam como seu próprio filho. Suponhamos perimentará miar. A primeira vez que se lhe pisar na agora que se passem três, dez ou trinta anos. Será ne- pata ele ganirá e não guinchará, tão certo como, quan- cessário debater sobre que língua falará o jovem ou do ficar enfurecido, morderá, como o faria a sua mãe adulto francês? Nem uma só palavra de francês, mas desconhecida, e nunca procurará arranhar, tal como viu a mãe adotiva fazer. Um longo retiro pode privá- o puro chinês, sem um mais. 7 fluência chinesa, e nada vestíp.iode sotaque, e com a 10 da vista, do som ou do cheiro de outros cães. Mas se acontecer chegar-lhe aos ouvidos um latido ou ga- Este é talvez o ponto em que a noção de cultura mais nido. ei-lo todo atento - mais do que a qualquer som contraria o pensamento leigo. É comum, entre os diferentes emitido pelos gatinhos seus companheiros. Que se repita o latido. e então o interesse dará lugar à excita- setores de nossa população, a crença nas qualidades (positi- ção, e ele 1atirá também, tão certo como, posto em vas ou negativas) adquiridas graças à transmissão genética. contato com uma cadela, manifestar-se-ão nele os "Tenho a física no sangue" - dizia uma aluna que impulsos sexuais de sua espécie. Não pode haver dú- pretendia mudar a sua opção de ciências sociais para a de vida de que a linguagem canina constitui. de modo física, invocando o nome de um ancestral. inextirpável, parte da natureza do cachorro, tão ple- "Meu filho tem muito jeito para a música, pois her- namente nele contida sem treino ou cultura, quanto dou esta qualidade do seu avô." É este um outro exemplo fazendo inteiramente parte do organismo canino, comum. como os dentes, pés, estômagos, movimentos ou ins- Muito contribuiu para afirmações deste tipo a divul. tintos. Nenhum grãu de contato com os gatos, ou pri- gaçãoda teoria de Cesare Lombroso (1835-1909), crimina. vação de associação com a sua própria espécie, fará lista italiano, que procurou correlacionar aparência fíSíca com que o cão aprenda a linguagemdo qato, ou perca com tendência para comportamentos criminosos. Por mais a sua, nem tão pouco o fará enrolar o rabo em vez de absurda que nos possa parecer, a teoria de Lombroso en- abaná-lo. esfregar os flancos no seu dono ao invésde saltar nele, ou adquirir bigodes e levar as orelhas controu grande receptividade popular e, até recentemente, erectas. era ministrada em alguns cursos de..direito, como verdade Tomemos um bebê francês, nascido na França, de científica. Em nossos dias o mau uso da sociobiologia tem pais franceses, descendentes estes, através de numero- exorcido o mesmo papel. sas gerações, de ancestrais que falavam francês. Con- O perigo desses tipos de explicações é que facilmente fiemos esse bebê, imediatamente depois de nascer, a ociam-se com tipos de discriminações raciais e sociais, uma pajem muda, com instruções para que não per- mita que ninguém fale com a criança ou mesmo veja durante a viagemque a levará pelo caminho mais direI to ao interior da China. Lá chegando, entrega ela o II I 11 111 , ibidem, li p. 234.
  • da natureza da cultura 4746 cultufa: um conceito antropológico Aristóteles por direito do nascimento; mas teriamnuma tentativa de justificar as diferenças sociais. Assim, contribuído muito menos para o progresso da ciênciaaté mesmo o sucesso empresarial passa a ser explicado como de que doze esforçadas mediocridades no século vin-uma forma de determinação genética e é ilustrado com a te. Um super-Arquimedes na idade do gelo não teriaenumeração das diferentes dinastias de industriais ou em. inventado nem armas de fogo nem o telégrafo. Sepresários.18 tivesse nascido no Congo ao invés de uma Saxônia, 9 homem é o resultado do meio cultural em que foi. não poderia Bach ter composto nem mesmo um frag-s_ocializado. le é um herdeiro de um longo processo acu- ~ mento de coral ou sonata, se bem que possamos con-mulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adqui- fiar igualmente em que ele teria eclipsado os seuspdas pelas numerosas gerações que o antecederam. A mani- compatriotas em alguma espécie de música. Quanto a pulação adequada e criativa desse patrimônio cultural pe~- saber se existiu algum dia um Bach na África, é outra mtte as inõvações e as invenções. Estas não são, pois, o pro- questão - à qual não se pode dar uma resposta nega- duto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esfor- tiva meramente porque nenhum Bach jamais por lá apareceu, questão que devemos razoavelmente admi- ço de toda uma comunidade. No parágrafo seguinte, Kroe- . tir não ter tido resposta, mas em relação à qual o estu- ber discute o tema: dioso da civilização, até que se apresente uma de- Segundo um dito que é quase proverbial, e verdadeiro monstração, não pode dar mais que uma resposta e na medida em que podem ser verdadeiros tais lugares- assumir uma só atitude: supor, não como uma finali- comuns, o escolar moderno sabe mais que Aristóte- dade mas como uma condição de método, que existi- ram tais indivíduos; que o gênio e a capacidade ocor- les; mas esse fato, soubesse o escolar mil vezes mais rem com freqüência substancialmente regular, e que que Aristóteles, nem por isso o dota de uma fração do - intelecto do grande grego. Socialmente é o conheci- todas as raças ou grupos bastante grandes de homens mento, e não o desenvolvimento maior de um ou ou- são em média substancialmente iguais e têm as mes- tro indivíduo, que vale, do mesmo modo que na men- mas qualidades.19 suração da verdadeira força da grandeza da pessoa, o psicólogo ou o geneticista não leva em consideração Em outras palavras, não basta a natureza criar indiví- o estado do esclarecimento geral, o grau variável do duos altamente inteligentes, isto ela o faz com freqüência,20 desenvolvimento ligado à civilização, para fazer suas mas é necessário que coloque ao alcance desses indivíduos comparações. Cem Aristóteles perdidos entre nossos ancestrais habitantes das cavernas não seriam menos I~ Krocbcr, 1949,p. 264. 111EIII todos os grupos humanos, independentemente de seu desen- 18 Alguns autores, utilizando-se da sociobiologia, advogam a idélu ~"lvllllcnto, pode-se encontrar indivíduos mais ou menos privilegia de que a capacidade empresarial é transmitida geneticamente, visan. It.." IlItrlr.ctualmente. do com issoa legitimaçãode uma desigualdadesocial.
  • 48 cultura: um conceito antropológico da natureza da cultura 49o material que o permita exercer a sua criatividade de uma um outro matemático com o qual não teve o menor con-maneira revolucionária. Santos Dumont (1873-1932) não tato, que sintetizava toda a sua tese. A explicação para talteria sido o inventor do avião se não tivesse abandonado a fato é muito simples: comparando-se a bibliografia utilizadasua pachorrenta Palmira, no final do século XIX, e se trans. por cada um descobriu.se serem ambas muito semelhantes.ferido em 1892 para Paris. Ali teve acesso a todo o conhe- Assim, diante de um mesmo material cultural, dois cien.cimento acumUladopela civilização ocidental. Em Palmira, tistas agindo independj3ntemente chegaram.a um m~~ resultado.o seu cérebro privilegiado poderia talvez realizar outras in-vençõés, como por exemplo um eixo mais aperfeiçoado ;desmo quando entre dois inventores simultâneospara carros de bois, mas jamais teria tido a oportunidade de existe a separação da diversidade cultural, a explicação éproporcionar à humanidade a capacidade da locomoção muito simples (mais simples do que a intervenção de seresaérea. Albert Einstein (1879-1955) não teria desenvolvido a extraterrestres ou sobrenaturais para explicar a ocorrênciateoria da relatividade se tivesse nascido em uma distante de pirâmides no Egito e no México): para alguns tipos delocalidade do Himalaia e lá permanecido. Mas, por outro problemas existem determinadas limitações de alternativaslado, se Alberto Santos Dumont tivesse morrido em sua pri- que possibilitam que invenções iguais ocorram em culturasmeira infância, fato comum no lugar e época em que diferentes. Uma construção está limitada pelas formas geo.nasceu, e se Albert Einstein tivesse sido consumido pela métricas e estas são limitadas, portanto nada existe demaisvoragem de uma das guerras européias do final do século que em duas partes do mundo elas assumam independente-XIX, a humanidade teria que esperar um pouco mais, mente formas piramidais.talvez, pelas suas descobertas. Mas certamente não ficaria Resumindo, a contribuição de Kroeber para a amplia-privada da teoria da relatividade e do aeroplano. pois outros ção do conceito de cultura pode ser relacionada nos seguin-cientistas e inventores estariam aptos para utilizar os tes pontos:mesmos conhecimentos e realizar as mesmas façanhas. A 1. A cultura, mais do que a herança genética, deter-afirmação acima nos leva a fazer algumas breves considera- mina o comportamento do homem e justifica asções sobre as invenções simultâneas, objeto de intensas po. suas realizações.lêmicas pela escola difusionista. Ao mesmo tempo em que 2. O homem age de acordo com os seus padrões cul.Santos Dumont tentava realizar o seu vôo com um aparelho turais. Os seus instintos foram parcialmente anu-mais pesado que o êir,do outro lado do oceano, dois irmãos, lados pelo longo processo evolutivo por que pas-utilizandc os mesmos conhecimentos e a mesma experiên. sou. (Voltaremos a este ponto mais adiante.)cia, tentavam e cons8Quiram o mesmo feito. O mesmo 3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes am-ocorreu com certo matemático que, ao terminar de redigir I bientes ecológicos. Ao invés de modificar para istosua tese de doutoramento e se preparava para editá.Ia, o seu aparato biológico, o homem modifica o seudescobriu p.m uma revista européia um artigo, escrito por equipamento superorgânico.
  • , da natureza da cultura 51 50 cultura: um conceito antropológico Gostaríamos, agora, antes de finalizarmos este capí- 4. Em decorrência da afirmação anterior, o homem tulo, voltar a discutir dois pontos que parecem, ao senso foi capaz de romper as barreiras das diferenças am- comum, mais controvertidos: bientais e transformar toda a terra em seu habitat. O primeiro deles refere-se ao ofuscamento dos instin- 5. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através tos humanos pelo desenvolvimento da cultura. Na verdade, nem todos os instintos foram suprimidos; a criança ao nas- de atitudes geneticamente determinadas. cer busca o seio matemo e instintivamente faz com a bo- 6. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o iluminismo, é este processo de aprendiza- quinha o movimento de sucção. Mais tarde, movido ainda por instintos, procurará utilizar os seus membros e conse- gem (socialização ou endoculturação, não importa guirá produzir sons, emhora tenda a imitar os emitidos o termo) que determina o seu comportamento e a pelos adultos que o rodeiam. Mas, muito cedo, tudo o que sua capacidade artística ou profissional. fizer não será mais determinado por instintos, mas sim 7. A cultura ~ um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações ante- pela ,!mitaçã,? do! eadrões cu!t!r~~ da sociedade em que vive. riores. Este processo limita ou estimula a ação cria- tiva do indivíduo. As perguntas que comumente se coloca: Masonde fi- ca o instinto de conservação? O instinto matemo? O instin- 8. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes to filial? O instinto sexual? etc. que têm a oportunidade de utilizar o conhecimen- to existente ao seu dispor, construído pelos parti- Em primeiro lugar, tais palavras exprimem ~!!1..!r~ semântico, pois não se referem a comportamentos determi- cipantes vivos e mortos de seu sistema cultural, e criar um novo objeto ou uma nova técnica. Nesta n~.?s bioI02!~amente,m~ sim a padrões culturais. Pois se prevalecesse o primeiro caso, toda a humanidade deveria classificação podem ser incluídos os indivíduos agir igualmente diante das mesmas situações, e isto não é que fizeram as primeiras invenções, tais como o verdadeiro. Vejamos: primeiro homem que produziu o fogo através Como falar em instinto de conservação quando lem- do atrito da madeira seca; ou o primeiro homem bramos as façanhas dos kamikase japoneses (pilotos suici- que fabricou a primeira máquina capaz de ampJiar das) durante a Segunda Guerra Mundial? Se o instinto exis- a força muscular, o arco e a flecha etc. São eles tisse, seria impossível aos arrojados pilotos guiarem os seus gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e aviões de encontro as torres das belonaves americanas. O Einstein. Sem as suas primeiras invenções ou des- mesmo é verdadeiro para os índios das planícies americanas, cobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais. E pior do que isto, talvez nem que possuíam algumas sociedades militares nas quais os seus mesmo a espécie humana teria chegado ao que. mombros juravam morrer em combate e assim assegurarum melhor lugar no outro mundo. hoje.
  • 52 culrura: um conceito antropológico da natureza da culrura 53 Como falar em instinto matemo, quando sabemos c~mo um_p!...~essoacumulativo, Através da discussão desteque o infanticídio é um fato muito comum entre diversos ponto podemos entender melhor a diferença que existe en-gruJ>Os humanos? Tomemos o exemplo das mulheres Tapi- tre o homem e seus parentes mais próximos, ~..R9ngídeos. ch,rapé, tribo Tupi do Norte do Mato Grosso, que desconhe- Acompanhando o desenvolvimento de uma criança humanaciam quaisquer técnicas anticoncepcionais ou abortivas e e de uma criança chimpanzé até o primeiro ano de vida, nãoeram obrigadas, por crenças religiosas, a matarem todos os se nota muita düerença: ambas são capazes de aprender,filhos após o terceiro. Tal atitude era considerada normal e mais ou menos, as mesmas coisas. Mas quando a criança co-não criava nenhum sentimento de culpa entre as praticantes meça a aprender a falar, coisa que o chimpanzé não conse-do infanticídio. gue, a distância toma-se imensa. ~través da comunicação Como falar em instinto filial, quando sabemos que os oral a criança vai recebendo informações sobre todo oco-esquimós conduziam os seus velhos pais para as planícies õiiãcimentõãcumulado pela cultura em que vive. Tal_fato,geladas para serem devorados pelos ursos? Assim fazendo, ãSsociado com a sua capacidade de observação e de inven- acreditavam que o mesmo seria reincorporado na tribo ção, faz com que ela se distancie cada vez_maisde seu com- quando o urso fosse abatido e devorado pela comunidade. panheiro de infância. Como falar em instinto sexual? Muitos são os casos É interessante observar que não falta ao chimpanzé a conhecidos de adolescentes, crescidos em contextos purita- mesma capacidade de observaç~o e de invenção, ~t<l!!.do- nos, que desconheciam completamente como agir em rela- lhe p-orém a possibilidade de comunicação. Assim sendo, ção aos membros do outr~ sexo, simplesmente porque não cada ~bservaçãO realizada p;r u~ ~divíduo chimpanzé não tiveram possibilidade de presenciar nenhum ato .sexual e beneficia a sua espécie, pois nasce e acaba com ele. No c_aso ninguém os ter esclarecido sobre tais atitudes.21 humano, ocoqe exatamente o contr~rio: toda a experiência Concluindo, tudo que o homem faz, aprendeu com os de um. inc!iv~duoé transmitida aOsdemais, criando aSSlm seus semelhantes e não decorre de imposições originadas fo- um interminável (!rocessode aC!!!1ulação. ra da cultura. (A este respeito, consulte o nosso Anexo 1- Assim sendo, ~ comunicaç!o .!..u!1...E!:-~esso cult~ral. "Uma experiência absurda".) Mais explicitamente, a linguagem humana é um produto O segundo ponto, que costuma apresentar algumas da cultura, mas não existiria cultura se o homem não tives- controverSlaS,refere-se ao item 7 acima, ou seja,~ltura se a possibilidade de desenvolver um sistema articulado de comunica Sãooral. - - 21 Tina de Benedlctis demonstra que tal fato se repete entre uma es. pede de ma.:acos, incapazes de agir sexuahnente quando, isolados do~ adultos. não tiveram oportunidade de observar a cópula. CI". BeneCI1.:th.1973.
  • .... da natureza da cultura 66 deu muito de sua importância, foi responsável pela eclosão 5 de uma ,!isão ~reoscópica. Esta, combinada com a capaci- dade de utilização das mãos, abriu para os E!!!nata~, princi- ID~IA SOBRE A ORIGEM DA CULTURA palmente os.!.u~r:iores, um mundo tridimensional, inexis- tente para qualquer outro mamífero. O fato de poder pegar e examinar um objeto atribui a este significado próprio. A forma e a cor podem ser .correlacionadas com a resistência e o peso (não deixando ainda de lado a tradicional forma de investigação dos mamíferos: ~ olfato), fornecendouma nova percepção. David Pilbeam2 refere-se ao bipedismo como uma característica exclu~iva dos priméitas entre todos os mamí- Uma das orimeiras preocupações dos estudiosos com rela- feros. "Quase todos os primatas vivos se comportam como ção à cultura refere-se a sua origem. Em outras palavras, bípedes de vez em quando", afirma ele. A seguir considera como o homem adquiriu este processo extra-somático que que o bipedismo foi, provavelmente, o resultado de todo o diferenciou de todos os animais e lhe deu um lugar privi- um conjunto de ~_~sões seletivas: "para o animal parecer legiado na vida terrestre? maior e mais intimidante, para transportar objetos (alimen- Uma resposta simplificada da questão seria a de que tos ou filhotes), para utilizar armas (cacetes ou lança) e o homem adquiriu, ou melhor, produziu cultura a partir para aumentar a visibilidade. ,,3 do momento em que seu cérebro, modifi~ado pelo processo Kenneth P. Oakley destaca a importância da habi- 1 f "IY1,,,f:Itf - - - evolutivo dos primatas,foi capazde assim .proceder. Não - resta d6vida de que se trata de uma resposta insatisfatória, lidade manual, possibilitada pela posição erecta, ao pro- porcionar maiores estímulos ao cérebro, como o conse. com um odor tautológico, e que não deixa de nos conduzir qüente desenvolvimento da inteligência humana. A cul. a uma outra pergunta: mas como e porque modificou-se o tura seria, então, o resultado de um cérebro mais volumo- cérebro do primata, a ponto de atingir a dimensão e a com- so e complexo.4 plexidade que permitiram o aparecimento do homem? Deixando de lado as explicações de paleontologia Segundo diversos autores, entre eles Richard Leackey humana! é oportuno tomar conhecimento do-pensamento e Roger Lewin, I o início do desenvolvimento do cérebro humano é uma conseqüência da vida arborícola de seus re- motos antepassados. Esta vida arb(;riCo~dé o iaro per. J Duvid Pilbeam, 1973. ., Idcn:, ibidem, p. 95. 4 Kenneth Oakley, 1954. I Rlchard Leackey e Roger Lewm. 1981. 54
  • da natureza da cultura 5756 cultura: um conceito antropológicq Com efeito, temos de concordar que é impossívelde dois importantes antropólogos sociais contemporâneos para um animal compreender os significados que os objetosa respeito do momento em que o primata transforma-se recebem de cada cultura. Como, por exemplo, a cor pretaem homem. significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que 9~ude ~év!:.~itra!.ss,o mais destacado antropólogo exprime esse sentimento. Mesmo um símio não saberia fa- S(ttIOfrancês, considera que a cultura surgiu no momento em que zer a distinção entre um pedaço de pano, sacudido ao ven-o homem convencionou a primeira regra, a primeira norma. to, e uma bandeira desfraldada. Isto porque, como afirmouPara Lévi-Strauss, esta seria a proibição do incesto, padrão o próprio White, "todos os símbolos devem ter uma formade comportamento comum a todas as sociedades humanas. física, pois do contrário não podem penetrar em nossa ex-Todas est~s proíbem a relação sexual de um homem com periência, mas o seu significado não pode ser percebido certas categorias de mulheres (entre nós, a mãe, a filha e a pelos sentidos", Ou seja, ~ra perceber o significado de um irmã). símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou. ~.!lh..iteJ. antropólogo norte-americano contem- Vimos algumas explicações sobre o aparecimento da porâneo. considera que a passagem do estado animal para cultura. Explicações de natureza física e social. Algumas o humano ocorreu quando o cérebro do homem foi capaz delas tendem implícita ou explicitamente a admitir que a de gerar símbolos. cultura apareceu de repente, num dado momento. Um verdadeiro salto da natureza para a humanidade. Tal postu- Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. Foi o símbolo que transformou nossos an- --- ra implica ã"ãceitação de um ponto crítico, expressão esta utilizada por Alfred Kroeber ~Q_cQ!l~eber eclosãQ ~ ~ ; Todas asantro})Óide~em homens ee fê-Ios humanos. ~strais civilizações se espalharam perpetuaram so- cultura como um aconte~ento súEit2, ~salto 9.:lanti- I mente pelo uso de símbolos (. . .) Toda cultura de- tativo na filogenia dos primatas: em um dado momento um f1b~, ,~doS pende de símbolos. É o exercício da faculdade de ramo dessa família sofreu uma alteração orgânica e tomou- 111101.1 <! simbolização que cria""ãCüftUrãe o uso de símbolos se capaz de "exprimir-se, aprender, ensinar e de fazer I que tomã possível a sua perpetuãçãõ. Sem o símbolo. generalizações a partir da infinita cadeia de sensações e não -haveria cultura, e o homem seriã apenas animal, objetivos isolados". não um ser humano. (. . .) O comportamento humano Em essência, a explanação acima.não é muito diferen- ê 0~m.p9rjal!lentQ .si.ml;lQlico.Uma criança do gêne- te da formulada por alguns pensadores católicos, preocupa- ro Homo toma-se humana somente quando é introdu- zlda e participa da ordem de fenômenos superorgâni- dos c~l!!a concili~o entre a doutrina e a ciência, ~ndo cos que é a cultura. E a chave deste mundo, e o meio a qual o hOplemad9.uiriucultura _nomome~t~ em que ~ce- beu do Criador uma alma imortal. E esta somente foi atri- de participaçãe nele. é o símbolo.5 buída ao primata no momento em que a Divindade consi- derou que o corpo do mesmo tinha evoluído organicamente 5 Le5he Whlte, 1955.IEd. bras.. p. 180.)
  • da natureza da cultura 5968 cultura: um conceito antropol6gico O fato de que o cérebro de Australopiteco mediao suficiente para tornar.se digno de uma alma e, conseqüen. 1/3 do nosso leva Geertz a concluir que "logicamente atemente, de cultura. maior parte do crescimento cortical humano foi posterior e O ponto crítico, mais do que um evento maravilhoso, não anterior ao início da cultura". Assim, continua: "Oé hoje considerado uma impossib~i~ade~n!ífica: ~~t!!. fato de ser errônea a teoria do ponto crítico (pois o desen. reza não age por saltos. O primata, como ironizou um ano volvimento cultural já se vinha processando bem antes de tropólogofísico, não foi promovido da noite para o dia ao cessar o desenvolvimento orgânico) é de importância fun. posto de homem. O conhecimento científico atual está damental para o nosso ponto de vista sobre a natureza do convencido que ~to d~~e_za para. ~ cultura foi con. homem que se torna, assim, não apenas o produtor da cul. tínuo e incrivelmente lento. tura, mas também, num sentido especificamente biológico, Clifford Geertz, antropólogo norte.americano, mostra o produto da cultura." em seu artigo" A transição para a humanidade"6 como a A cultura desenvolveu-se,pois, simultaneamente com ~~ologta hl}mana demonstrou que o corpo humano o próprio equipamento biológico e é, por isto mesmo, com. formou.se aos poucos. O Australopiteco Africano (cujas preendida como uma das características da espécie, ao lado datações recentes realizadas na Tanzânia atribuem.lhe uma do bipedismo e de um adequado volume cerebral. antigüidade muito maior que 2 milhões de anos), embora dotado de um cérebro 1/3 menor que o nossOe uma estatu. ra não superior a 1,20m, já manufaturava.objetos e caçava pequenos animais. Devido à dimensão de seu cérebro pare- ce, entretanto, improvável que possuísse uma linguagem, na moderna acepção da palavra. O Australopiteco parece ser, portanto, uma es~_c~ de homem que evidentemente era capaz de adquirir ãiguns -el~entos da cultura - fabricação de instruo mentos simples, caça esporádica, e talvez um sistema de comunicação mais avançado do que o dos macacos contemporâneos, embora mais atrasado do que a fala humana -, porém incapaz de adquirir outros, o que lança certa dúvida sobre a teoria do ponto crítico. 7 6 Clifford Geertz, 1966. 7 Idem, ibidem, p. 36.
  • da natureza da CulturB 61 6 mentos biológicos. Esse modo de vida das comuni- TEORIAS MODERNAS SOBRE CULTURA dades inclui tecnologias e modos de organização econômica, padrões de estabelecimento, de agrupa- mento social e organização política, crenças e prá- ticas religiosas,e assim por diante." 2. "Mudança cultural é primariamente um processo , J ~ I de adaptação equivalente ã sel~Q _n~~~l1:aJ." ("O )~ ,$M t "I (". homem é um animal e, como todos animais, deve manter uma relaçãoadaptativacom o meiocircun- dante para sobreviver. Embora ele consiga estaVimos, no inicio deste trabalho, que uma das tarefas da r I~, 11,.0.:0 111" daptaç!o através da cultura, o processo é dirigido luh aantropologia moderna tem sido a reconstrução do conceito Lr.o:éb.J"fJr,c pelas mesmas regras de seleção natural que gover-de cultura, fragmentado por numerosas reformulações. Nes- nam a adaptação biológica". B. Meggers,1977.)te capítulo procuraremos sintetizar os principais esforços 3. "A tecnologia, a economia de subsistência e os ele-para a obtenção deste objetivo. A nossa missão será facili- mentos da organização social diretamente ligada àtada com a utilização do esquema elaborado pelo antropó- produção constituem o domínio mais adaptativologo Roger Keesing em seu artigo "Theories of Culture"l , da cultura. É neste domínio que usualmente come-no qual classifica as tentativas modernas de obter uma pre- çam as mudanças adaptativas que depois se ramifi-cisão conceitual. cam. Existem, entretanto, divergênciassobre como ,,) Keesirig refere-se, inicialmente, às teorias Que consi- opera este processo. Estas divergências podem serderam a cultura como um sistema adaptativo. Difundida notadas nas posições do materialismo cultural, de.E2!. neo-evolucionistas como Les1ieWhite, esta posição foi senvolvido por Marvin Harris, na dialética socialI"eformulada criativamente por ~, ~, Carneirq, dos marxistas, no evolucionismo cultural de EI.Rappaport, Vayda e outros que, apesar das fortes divergên- man Service e entre os ecologistas culturais, como Steward."cias que apresentam entre si, concordam que: 1. "Culturas são sistemas (de padrões de comporta- 4. "Os componentes ideológicos dos sistemas cultu- mente socialmente transmitidos). que servem para rais podem ter conseqüências adaptativas no con- adaptar as comunidades humanas aos seus embasa- trole da população, da subsistência, da manuten- ção do ecossistema etc."I ROgCI Kcc~mg, 1974. 3.) Em segundo lugar, Roger Keesing refere-se às ~ idealistasde cultura, que ~bc!!vide em três diferentes abor-60
  • li] da natUreza da cultura 63 62 cultura: um conceito antropológico sim, os paraleljsmos culturais são por ele explicado~~lo f.!: dagens. A primeira delas é a dos que cOl)sideramcultura como sistema coqnitivo, produto dos chamados "novos et- !O de~ue o pen~amento humano está_subJ!l!tid() regras in-#re~c~ ! conscientes, ou seja, ~m conjunto deJ)rincípios - tais como Mccn~~n~s~ nógrafos", Esta abordagem antropológica tem se distingui- a lógicade contrastesbinários,de relaçõese transformações"l. ~ I " - .. o" I IA - I (] do pelo estudo dos sistemas de classüicação de folk,2 isto que contro Iam as manbestaçoes emplncas d e um dado J ", é, a análise dos modelos construídos pelos membros da co- grupo. fY1~ ~I~ mu~de a respeito de seu próprio universo. A.ssim,para A última das três abordagens, entre as teorias idealis- W. Goodenoul.h, cultura é um sistema de conhecimento: tas, é a que considera cultura como sistemas simbólicos. "cc,.nsistede tudo .aquilo que alguém tem de conhecer ou Esta posição foi desenvolvida nos Estados UDidos princiPaf.. acreditar para operar de maneira aceitável dentro de sua mente por dois antropólogos: o já conhecido ~ sociedade." Keesing,come~ta que se cultura for assim con- cebida ela fica situada epistemologicamente no mesmo do- .- Geertz e DavidSchneider, O primeiro deles busca uma definição de homem ba- mínio da linguagem, como um evento observável. Daí o seada na definição de cultura. Para isto, refuta a idéia de fato de que a antropologia cognitiva (a praticada pelos "no- uma forma ideal de homem, decorrente do iluminismo e da vos etnÓgrafos") tem se apropriado dos métodos lingüístl- antropologia clássica, perto da qual as demais eram distor- cos, con:o por exemplo a análise componencial, çóes ou aproximações, e tenta resolver o paradoxo (citado A segunda abordagem é aquela que considera cultura no início deste livro) de uma imensa variedade cultural que como sis;;emasestruturais. ou seja, a perspectiva desenvolvi- contrasta com a unidade da espécie humana. Para isto, a da por Claude Lévi-Strauss, "que define cultura como um cultura deve ser considerada "não um complexo de compor- $ ~I.lWl{l... ~st:.m2.simbólico ~e é uma criaç,ãoacumulativa_daII!~~ tamentos concretos mas !!!L~9munto de mecanismos d~ humana. O seu trabalho tem sido..Q.~ <!el!cobrir a estrutu; n cont~le, planos, receitas, regras, instruções (que os técnicos 511Vloo, lÁ ~ãO dOS-ctOl!!l.!!.Í2.I!. .çul1!!!...a!s mito, arte, parentesco e - de computadores chamam programa) eara ,govemé!,r -c0D!:0 linguagem - N princípios da mente que geram essas elabo- port~nto". Assim, para Geertz, todos os homens são r~ões culturais", geneticamente aptos para receber um programa, e este pro- Keesing é muito sucinto na análise desta abordagem, grama é o que chamamos de cultura. E esta formulação - que em um dado momento teve uma grande aceitação no que consideramos uma nova~!ira de encaré!f_a,!l!,lÍdade_. meio acadêmico brasileiro. Lévi-Strauss,a seu modo.,f?f!I1ll- da espéc!!..- permitiu a Geertz afirmar que "um dos mais 7la~a nova teoria da unidade psíquica da humanidade,.8.§~ significativosfatos sobre nós pode ser finalmente a consta- taç40 que todos nascemos com um equipamento para viver mil vidas, mas terminamos no fim tendo vivido uma sól 2 Chamamos de sistemas de classificação de folk àqueles que são desenvolvidos pelos própnos memb.tos da comunidade. Um exem- gm outras palavras,. a criança está apta ao nascer a ser plo disso entre nós é a classificação popular de alimentos fortes e IOcializadaem qualquer cultura existente. Esta amplitude fracos.
  • 64 cultura: um conceito antropológico da natureza da cultura 65 de possibilidades, entretanto, será limitada lJtiv contexto observabilidade: mesmo fantasmas e pessoas mortas podem real e específico onde de fato ela crescer. ser categoriasculturais." Voltando a Keesing, este nos mostra que Geertz con. Neste ponto, o leitor já deverá ter compreendido que sidera a abordagem dos novos etnógrafos como um forma- a discussão não terminou - continua ainda -, e provavel- lismo reducionista e espúrio, porque aceitar simplesmen,te mente nunca terminará, pois uma compreensão exata do os modelos conscientes de uma comunidade é admitir que conceito de cultura significa a compreensão da própria na- os signüicados estão na cabeça das pessoas. E, para Geertz, tureza humana, tema perene da incansávelreflexão humana. os símbolos e ,significados são partilhados pelos atores (os Assim, no final desta primeira parte, só nos resta afirmar membros do sistema cultural) entre eles, mas não dentro mineiramente como Murdock (1932): "Os antropólogos deles. São públicos e não privados. Cada um de nós sabe o sabem de fato o que é cultura, mas divergem na maneira de que fazer em determinadas situações, mas nem todos sabem exteriorizar este conhecimento.,4 prever o que faria nessas situações. Estudar a cultura é por- tanto estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura. Assim procedendo, Geertz considera que a antropolo- gia bus~ interpretações. Com isto, ele abandona o otimis- mo de Goodenough que pretende captar o código cultural em uma gramática; ou a pretensão de Lévi-Straussem des- codificá-Io. A interpretação de um texto cultural será sem- pre uma tarefà difícil e vagarosa. David Schneider tem uma abordagem distinta, embo- ra em muitos pontos semelhantes à de Geertz. O ponto de vista de Schneider sobre cultura está claramente expresso 4 Como dissemos, não pretendemos esgotar o tema. A nossa inten- em sua introdução do seu livro American Kinship: A Cul- ção é a de introduzir o leitor no mesmo, devendo de acordo com o tural Account:3 "Cultura é um sistema de símbolos e signi- seu interesse complementar este texto com as leituras indicadas. En- ficados. Compreende categorias ou unidades e regras sobre tretanto, torna-se necessário enfatizar que consideramos válida a abordagem de Marshal Sahlins (Cultura e razaõ prática, Zahar), uma relações e modo de comportamento. O status epistemológi- crítica da idéia de que as culturas humanas são formuladas a partir co das unidades ou coisas cultu~ais não depende da sua da atividade prática e, mais fundamentalmente, a partir do interesse utilitário. Para Sahlins o homem vive num mundo material, mas de Dcordo com um esquema significativo criado por si próprio. Assim.,II 3 David Schneider, 1968. o cultura define a vida não através das pressões de ordem material. mas de acordo com um sistema simbólico definido, que nunca é o único possíveL A cultura, portanto, é que constitui a utilidade.
  • ii « a: :J I- ..J <J) ..... :J L- (J m C. « m-o « c: a: = w C> a.. <J) cn o o :E o (J --
  • 1 A CULTURA CONDICIONA A VISÃO DE MUNDO DO HOMEM Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e aNa primeira parte deste trabalho discutimos o desenvolvi-mento, na antropologia, do conceito de cultura..Mostramos espada! que a cultura é como uma lente através da Qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usamtambém as explicações da ciência para o processo de evolu- lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas délSção biocultural do homem. Em outras palavras, vimos comoa cultura, a principal característica humana, desenvolveu coisas. Por exemplo, a floresta amazônica não passa para osimultaneamente com o equipamento fisiológico do ho- ãi1ttõpólogo -desprovido de um razoável conhecimento demem. Preocupamo-nos então em fornecer uma descrição botânica - de um amontoado confuso de árvores e arbus-diacrônica do próprio desenvolvimento teórico da antro. tos, dos mais diversos tamanhos e com uma imensa varieda-pologia. Nesta segunda parte pretendemos mostrar, de uma de de tonalidades verdes. A visão que um índio Tupi tem maneira mais prática, a atuação da cultura e de que forma deste mesmo cené1rioé totalmente diversa: cada um desse" ela molda uma vida "num ser biologicamente preparado pa. vegetais tem um signüicado qualitativo e uma referência ra viver mil vidas". espacial. Ao invés de dizer como n6s: "encontro-lhe na es- quina junto ao edifício X", eles freqüentemente usam de. terminadas árvores como ponto de referência. Assim, ao contrário da visão de um mundo vegetal amorfo, a floresta é Y1ltacomo um conjunto ordenado, constituído ae formas v8Qetaisbem de~inidas. A nossa herançA cultural, desenvolvidaatravés de inú- I ~ulh IJcncd!ct. 1972. 69
  • 70 cultura: um conceito antropológico como opera a cultura 71meras gerações, sempre nos condicionou a reagir depreciati- do homem e dos primatas superiores. O riso se expressa, pri-vamente em relação ao comportamento daqueles que agem mariamente, através da contração de determinados mús-fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. Por culos da face e da emissão de um determinado tipo de somisto, discriminamos o comportamento desviante. Até recen. vocal. O riso exprime quase sempre um estado de alegria.temente, por exemplo, o homossexual corria o risco de Todos os homens riem, mas o fazem de maneira diferenteagressões físicas quando era identificado numa via pública e por motivos diversos.ainda é objeto de termos depreciativos. Tal fato representa A primeira vez que vimos um índio Kaapor rir foi umum tipo de comportamento padronizado por um sisteina motivo de susto. A emissão sonora, profundamente alta, as-cultural. Esta atitude varia em outras culturas. Entre algu- semelhava-se a imaginários gritos de guerra e a expressãomas tribos das planícies norte-americanas, o homossexual facial em nada se assemelhava com aquilo que estávamosera visto como um ser dotado de propriedades mágicas,ca- acostumados a ver. Tal fato se explica porque cada culturapaz de servir de mediador entre o mundo social e o sobrena- tem um determinado padrão para este fim. Os alunos detural, e portanto respeitado. Um outro exemplo de atitudediferente de comportamento desviante encontramos entre uma nossa sala de aula, por exemplo, estão convencidos ~ cada um deles tem um modo particular de rir. mas um ob-alguns povos da Antigüidade, onde a pro~tuição não cons- servador estranho a nossa cultura comentará qu~d~stituía um fato anômalo: jovens da Lícia praticavam relações riem de uma mesma forma. Na verdade, as diferenças perce-sexuais em.troca de moedas de ouro, a fim de acumular um bidas pelos estudantes, e não pelo observador de fora, ~dote para o casamento. variações de um mesmo padrão cultural. Por isto é que O modo de ver o mundo, as apreciações de ordem acreditamos que todos os japoneses riem de uma mesiliãmoral e valorativa, os difere~tes comportamentos sociais e maneira. Temos a certeza que os japoneses também estãomesmo as posturas corporais são assim produto.s de uma he- convencidos que o riso varia de indivíduo para indivíduorança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma de- dentro do Japão e que todos os ocidentais riem de modoterminada cultura. iqual. Graças ao que foi dito acima, podemos entender o fa- Pessoas de culturas diferentes riem de coisasdiversas.to de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facil- O repetitivo pastelão americano não encontra entre nós amente identificados por uma série de características, tais m.sma receptividade da comédia erótica italiana, porquecomo o modo de agir, vestir, caminhar, comer, sem men- .m nossa cultura a piad.adeve ser temperada com uma boacionar a evidência das diferenças lingüísticas, o fato de mais dOMde sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolosimediata observação empírica. nArllce do adversário. Voltando aos japoneses: riem muitas Mesmo o exercício de atividades consideradas como v por questão de etiqueta, mesmo em momentos evi.parte da fisiologia humana podem refletir diferenças de cul- d.ntem,nte desagradáveis. Enfim, poderíamos continuar tura. Tomemos, por exemplo, o riso. Rir é uma propriedade IlIdllrlnldamentemostrando que o riso é totalmente condi-
  • I I I como opera a cultura 7372 cultura: um conceito antropol6gico mem. Estas postUras femininas s!o copiadas pelos travestis.cionado pelos padrões culturais, apesar de toda a sua Resumindo, todos os homens s!o dotados do mesmofisiologia. equipamento anatõmico, mas a utilização do mesmo, ao Ainda com referência às diferentes maneiras culturais invés de ser determinada geneticamente (todas as formigasde efetUar ações fisiológicas, gostaríamos de citar o clássico de uma dada espécie usam os seus membros uniformemen-artigo de MarcelMauss(1872-1950) "Noção de técnica cor- te), depende de um aprendizado e este consiste na cópia deporal" ," no qual analisa as formas como os homens, de so- padrões que fazem parte da herança cultural do grupo. ciedades diferentes, sabem servir-sede seus corpos. Segundo Não pretendemos nos estender neste ponto porque os Mauss, podemos admitir com certeza que se "uma criança exemplos seriam inumeráveis, mas vamos acrescentar mais senta-se à mesa com os cotovelos junto ao corpo e perma- um exemplo: o homem recupera a sua energia, a sua força nece com as mãos.nos joelhos, quando não está comendo, de trabalho, através da alimentação. Esta é realizada de for- que ela é inglesa. Um jovem francês não sabe mais se domi- mas multiplas e com alimentos diferentes. nar: ele abre os cotovelos eM leque e apOia-ossobre a me- É evidente e amplamente conhecida a grande diversi. sa". Não é difícil imaginar 9ue a posição das crianças brasi- dade gastronõmica da espécie humana. FreqUentemente, es- leiras, nesta mesma sitUação,pode ser bem diversa. ta diversidade é utilizada para classificaçõesdepreciativas; Como exemplo destas diferenças culturais em atos assim, no início do século os americanos denominavam os que podem ser classificadoscomo naturais, Mausscita ainda franceses de "comedores de rãs". Os índios Kaapor discri- as técnicas do nascimento e da obstetrícia. Segundo ele, minam os Timbira chamando-os pejorativamente de "come- "Buda nasceu estando sua mãe, Mãya, agarrada, reta, a um dores de cobra". E a palavra potiguara pode significarreal- ramo de árvore. Ela deu à luz em pé. Boa parte das mulhe- mente "comedores de camarão", mas resta uma dúvida lin- res da India ainda dão à luz desse modo". Para nós, a posi- gUisticadesde que em Tupi ela soa muito próximo da pala- ção normal é a mãe deitada sobre as costas, e entre os Tupis vra que Slgnifica"comedores de fezes". e outros índios brasileiros a posição é de cócoras. Em algu- As pessoas não se chocam, apenas, porque as outras mas regiões do meio rural existiam cadeiras especiais para comem coisas diferentes, mas também pela maneira que o par~o sentado. Entre estas técnicas pode.se incluir o cha- AII8mà mesa. Como utilizamos garfos, surpreendemo-nos mado parto sem dor e provavelmente muitas outras modali- com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos dades culturais que estao à espera de um cadastramento oC9mentos nossa sociedade: de etnográfico. Dentro de uma mesma cultUra, a utilização do corpo "Vida de Pará, é diferenciado em função do sexo. As mulheres sentam, ca- Vida de descanso, minham, gesticulam etc., de maneiras diferentes das do ho- Comer de arremesso E dormir de balanço." " Mareei Mauss, 1974, Vol. n.
  • 74 cultura: um conceito antropológico como opera a cultura 75 Em algumas sociedades o ato de comer pode ser pú- .0 fato de Que o homem vêo mundo através de suablico, em outras uma atividade privada. Alguns rituais de cultura tem como conseqüência a propensão em considerarboas maneiras exigem um forte arroto, após a refeição, co- o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural.mo sinal de agrado da mesma. Tal fato, entre nós, seria Tal tendência, denominada de etnocentriSmo, é responsávelconsiderado, no mínimo, como indicador de má edu- em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos con-cação. Entre os latinos, o ato de comer é um verdadeiro rito flitos sociais.social, segundo o qual, em horas determinadas, a faml1ia C etnocentrismo, de fato, é um fenômeno universal.deve toda sentar-se à mesa, com o chefe na cabeceira, e É comum a crença de que a própria sociedade é o centro dasomente iniciar a alimentação, em alguns casos, após uma humarndade, ou mesmo a sua única expressão. As autode.prece. nominações de diferentes grupos refletem este ponto de vis- Roger Keesing em seu manual News Perspectives ta. Os Cheyene, índios das planícies norte-americanas, sein Cultural Anthropology3 começa com uma parábola autodenominavam "os entes humanos"; os Akuáwa, grupoque. aconteceu ser verdadeira: "Uma jovem da Bulgária Tupi do Sul dó Pará, consideram-se "os homens"; os esqui.ofereceu um jantar para os estudantes americ~os, colegas mós também se denominam "os homens"; da mesma formade seu marido, e entre eles foi convidado um jovem asiá- que os Navajo se intitulavam "o povo". Os australianos cha-tico. Após os convidados terem terminado os seus pratos, mavam as roupas de "peles de fantasmas", pois não acredi-a anfitriã perguntou quem gostaria de repetir, pois uma tavam que os ingleses fossem parte da humanidade; e os anfitriã búlgara que deixasse os seus convidados se retirarem nossos Xavante acreditam que o seu território tribal está famintos estaria desgraçada. O estudante asiático aceitou um situado bem no centro do mundo. É comum assim a crença segundo prato, e um"terceiro - enquanto a anfitriã ansiosa- no povo eleito, predestinado por seres sobrenaturais para mente preparava mais comida na cozinha. Finalmente, no, ser superior aos demais. Tais crenças contêm o germe do meiO de seu quarto pratb o estudante caiu ao solo, conven- racismo. da intolerância, e, freqUentemente, são utilizadas Cido de que agiu melhor do que insultar a anfitriã pela re- para justificar a violência praticada contra os outros. cusa da comida que lhe era oferecida, conforme o costume A dicotomia "nós e os c.Itros" expressa em níveis di- de ~u país." Esta parábola, acrescenta Keesing, reflete a fQtentesessa tendência. Dentro de uma mesma sociedade, a condição humana. O homem tem despendido grande parte dlvlsAoocorre sob a forma de parentes e não-parentes. Os da sua história na Terra, separado em pequenos grupos, ca. primeiros são melho~~ por definição e recebem um trata- da um ~(Ima sua própria linguagem, sua própria visão de mento diferenciado. A projeção desta dicotomia para o pla- mund0 ~us costumes e expectativas. no extragrupal resulta nas manifestações nacionalistas ou lormas mais extremadas de xenofobia. -- O ponto fundamental de referência não é a humani- 3 Roger Keesing,1971. d.1de.mas o grupo. Daí a reação, ou pelo menos a estranhe-
  • ",I".. 76 cultura: um conceito antropológico 2 za, em relação aos estrangeiros. A chegada de um estranho em detenninadas comunidades pode ser considerada como a A CULTURA INTERFERE NO PLANO BIOlÓGICO quebra da ordem .social ou sobrenatural. Os Xamã Surui (índios Tupi do Pará) defumam com seus grandes charutos rituais os primeiros visitantes da aldeia, a fim de purificá- los e tomá-los inofensivos. O costume de discriminar os que são diferentes, por- que pertencem a outro grupo, pode ser encontrado mesmo dentro de uma sociedade. A relação de parentesco consan- güíneo afim pode ser tomada como exemplo. Entre os ro- manos, a maneira de neutralizar os inconvenientes da afini- Vimos, acima, que a cultura interfere na satisfação das ne- dade consistia em transfonnar a noiva em consangüínea, cessidades fisiológicas básicas. Veremos, agora", como ela incorporando-a no clã do noivo através do ritual de carre. pode condicionar outros aspectos biológicos e até mesmo gá-la através da soleira da porta (ritual este perpetuado por decidir sobre a vida e a morte dos membros do sistema. Hollywood). A noiva japonesa tem a cabeça coberta por um Comecemos pela reação oposta ao etnocentrismo, que véu alto que esconde os "chifres" que representam a discór- é a apatia. Em lugar da superestima dos valores de sua pró- dia a ser implantada na família do noivo com o início da pria sociedade, numa dada situação de crise os membros de relação afim. Um outro exemplo são as agressões verbais, uma cultura abandonam a crença nas mesmas e, conseqüen- e até físicas, praticadas contra os estranhos que se arris- temente, perdem a motivação que os mantém unidos e vi- cam em detenninados bairros periféricos de nossas gran- vos. Diversos exemplos dramáticos deste tipo de comporta- des cidades. mento anômico são encontrados em nossa própria história. Comportamentos etnocêntricos resultam também em Os africanos removidos violentamente de seu conti- apreciações negativas dos padrões culturais de povos dife- rentes. Práticas de outroS sistemas culturais são catalogadas nente (ou seja, de seu ecossistema e de seu contexto cultu- como absurdas, deprimentes e imorais. ral) e transportados como escravospara uma terra estranha, habitada por pessoas de fenotipia, costumes e linguas dife- rentes, perdiam toda a motivação de continuar vivos. Mui- t08 foram os suicídios praticados, e outros acabavam sendo mortos pelo mal que foi denominado de banzo. Traduzido lIomo saudade, o banzo é de fato uma fonna de morte de- l1orronteda apatia. 77
  • cultura: um conceito antropológico como opara a cultura 7978 Foi, também, a apatia que dizimou parte da popula- gico: liA vítima-perde O apetite e a sede, a pressão sangUí- nea cai, o plasma sangUíneoescapa para os tecidos e o cora-ção Kaingang de São Paulo, quando teve o seu territórioinvadido pelos construtores da Estrada de Ferro Noroeste. ção deteriora. Ela morre de choque, o que é fisiologicamen-Ao perceberem que os seus recursos tecnológicos, e mesmo te a mesma coisa que choque de ferimento na guerra e nasos seus seres sobrenaturais, eram impotentes diante do po- mortes de acidente de estrada." É de se supor que em todosder da sociedade branca, estes índios perderam a crença em os casos relatados o procedimento orgânico que leva ao de. senlace tenha sido o mesmo. sua sociedade. Muitos abandonaram a tribo, outros simples. mente esperaram pela morte que não tardou. 1 Deixando de lado estes exemplos mais drásticos sobre Entre os índios Kaapor, grupo Tupi do Maranhão, a atuação da cultura sobre o biológico, podemos agora nos acredita-se que se uma pessoa vê um fantasma ela logo moro referir a um campo que vem sendo amplamente estudado: rerá. O principal protagonista de um filme, realizado em os das doenças psicossomáticas. Estas são fortemente in- fluenciadas pelos padrões culturais. Muitos brasileiros, por 1953 por Darcy Ribeiro e Hains Forthmann, ao regressarde exemplo, dizem padecer de doenças do fígado, embora uma caçada contou ter visto a alma de seu falecido pai pe- rambulando pela floresta. O jovem índio deitou em uma grande parte dos mesmos ignorem até a localização do ór- rede e dois dias depois estava morto. Em 1967, durante a gão. Entre nós é também comum os sintomas de mal-estar provocados pela ingestão combinada de alimentos. Quem nossa permanência entre estes índios (quando a história aci- ma nos foi contada), fomos procurados por uma mulher, acredita que o leite e a manga constituem uma combinação em estado de pânico, que teria visto um fantasma (um perigosa, certamente sentirá um forte incômodo estomacal se ingerir simultaneamente e.ssesalimentos. "aiian"). Confiante .nos poderes do branco, nos solicitou A sensação de fome depende dos horários de alimen- um "aiian-puhan" (remédio para fantasma). Diante de uma tação que são estabelecidos diferentemente em cada cultu- situação crítica, acabamos por fornecer-lhe um comprimido vermelho de vitaminas, que foi considerado muito eficaz, ra. "Meio-dia, quem não almoçou assobia", diz um ditado neste e em outros casos, para neutralizar o malefício pro- popular. E de fato, estamos condicionados a sentir fome no meio do dia, por maior que tenha sido o nosso desjejum. A .vocado pela visão de um morto. É muito rica a etnografia africana no que se refere às mesma sensação se repetirá no horário determinado para o jantar. Em muitas sociedades humanas, entretanto, estes mortes causadas por feitiçaria. A vítima, acreditando efeti- horários foram estabelecidos diferentemente e, em alguns vamente no poder do mágico e de sua magia, acaba realmen- te morrendo. Pertti Pelto descreve esse tipo de morte como casos, o mdivíduo pode passar um grande número de horas sendo conseqüência de um profundo choque psicofisioló- 10mse alimentar e sem sentir a sensação de fome. A cultura também é capaz de provocar curas de doenças. reais ou imaginárias. Estas curas ocorrem quando 1 A este respeito conferir Darcy Ribeiro, 1970. existe a fé do doente na eficácia do remédio ou no poder
  • I!80 cultura: um conceito antropológico como opera a cultura 81dos agentes culturais. Um destes agentes é o xamã de nossassociedades tribais (entre os Tupi, conhecidos pela denomi- çôes como se fosse vomitar. Finalmente conseguiu extrair e vonutar o ymaé, que fez desaparecer na mão.nação de paié ou pajé). Basicamente, a técnica de cura do Nas curas a que assistimos, os pajés jamais mostraramxamã consiste em uma sessão de cantos e danças, além da o ymaé que extraíam dos doentes. Guardavam-nosdefumação do paciente com a fumaça de seus grandes cha- por algum tempo dentro da mão, livre do cigarro.rutos (petin), e a posterior retirada de um objeto estranho para fazê-lo desaparecer ap6s. Explicavam, porém,do interior do corpo do doente por meio de sucção. O fato à audiência a sua natureza, o que parecia bastante.de que esse pequeno objeto (pedaço de osso, insetos mor- Dizem que os pajés mais poderosos o fazem, e algu-tos etc.) tenha sido ocúltado dentro de sua boca, desde o mas pessoas guardam pequenos objetos que acreditaminício do ritual, não é importante. O que importa é que o terem sido retirados de seu corpo por um pajé.2doente é tomado de uma sensaçiio de alívio, e em muitoscasos a cura se efetiva. A descriçiio de uma cura dará, talvez, uma idéia mais detalhada do processo. Após cerca de uma hora de cantar, dançar e puxar no cigarro, o pajé recebeu o espírito. Aproximando-se do doente que estava senta- do em um banco, o pajé soprou fumaça primeiro so- bre as pr6prias mãos e, em seguida, sobre o corpo do paciente. Ajoelhando-se junto a ele, esfregou.lhe o peito e o pescoço. A massagem era dirigida para um ponto no peito do doente; e o pajé esfregavaas mãos como se tivessejuntado qualquer coisa. Interrompia a massagem para soprar fumaça nas mãos e esfregá- Ias uma na outra, como se quisesse livrá-Iasde uma substância invisível. Após muitas massagens no doen- te, levantou-lhe os braços e encostou seu peito ao dele. Queria assim passar o ymaé (a causa da doença, aquilo que um ser sobrenatural faZentrar no corpo da vítima) do doente para o seu proprio corpo. Não o conseguiu e voltou a repetir as massagens, dessa vez dirigidas para o ombro. Aí aplicou a boca e chupou com muita força. Repetiu as massagens e sucçOes, intercalando.as com baforadas de cigarro e contra- j Chades Wagley e Edwudo Galvão, 1961, pp.1l7-18.
  • como opera a cultura 83 3 cultura depende de sua idade. Mas é necessário saber que esta afirmação permite dois tipos de explicações: uma de os INDlVlbuos PARTICIPAM ordem cronológica e outra estritamente cultural. DIFERENTEMENTEDESUACULTURA Existem limitações que são objetivamente determina- das pela idade: uma criança não está apta para exercer cer- tas atividades próprias de adultos, da mesma forma que um velho já não é capaz de realizar algumas tarefas. Estes impe- dimentos decorrem geralmente da incapacidade do desem- penho de funções que dependem da força física ou agilida- de, como as referentes à guerra, à caça etc. Entre outras A participação do indivíduo em sua cultura é sempre limi- funções podemos incluir as que dependem do acúmulo de tada; nenhuma pessoa é capaz de participar d~ todos os ele- uma experiência obtida através de muitos anos de prepara- mentos de sua c~tura. Este fato é tão verdadeiro nas socie- ção. Toma-se fácil entender porque estas são interditadas às dades complexas com um alto grau de especialização,quan- crianças e aos jovens e reservadasàs pessoas maduras, como to nas simples, onde ~ especialização refere-se apenas às certos cargos políticos etc. determinadas pelas diferenças de sexo e de idade. No primeiro tipo de impedimento etário as razões Com exceção de algumas sociedades africanas - nas parecem ser bastante evidentes, o que não ocorre com o se- quais as mulheres desempenham papéis importantes na vida gundo tipo, quando tratamos das razões determinadas cul- -. ritual e econômica a maior parte das sociedades humanas turalmente. Por que um jovem aos 18 anos pode votar, ter permite uma mais ampla participação na vida cultural aos um emprego, ir à guerra, se não pode casar, manipular os elementos do sexo masculino. Grande parte da vida ritual seus bens financeiros antes dos 21 anos sem a autorização do Xingu, por exemplb, é interditada às mulheres. Estas paterna? Por que um homem necessita ter 35 anos para ser não podem ver as flautas Jacui e as que quebram esta inter- um senador? Qual o argumento para impedir o acesso aoi I dição sofrem o risco de graves sanções. Em alguns segmen- mesmo cargo para um homem de 34 anos? Por que uma jo- tos de nossa sociedade, o trabalho fora de casa é considera- vem com 18 anos pode assistir a um determinado filme e do inconveniente para o sexo feminino. Como já discutimos uma outra com 17 anos, 11 meses e 20 dias não o pode? este tema na primeira parte deste trabalho, quando trata- Por que um assassino com exatamente 18 anos pode ir d mos dos determinismos biol6gicos; vamos nos limitar a julgamento e outro com um dia a menos de vida recebe um uma discussão mais ampla das restrições decorrentes das tratamento diferenciado? categorias etárias. Estas e outras questões estão relacionadas com a de- É óbvio que a participação de um indivíduo em sua turminação do limite entre as classes etárias, ou :reja,comQ 82
  • 84 cultura: um conceito antropológico como opera a cultura 85separar objetivamente adolescentes de adultos, sem incorrer em determinadas situações e, também, como prever o com-em algum tipo de arbitrariedade? portamento dos outros. Somente assim é possível o con- Os grupos tribais utilizam métodos mais evidentes trole de determinadas ações. Apesar disso tudo há semprepara estabelecer esta distinção: uma moça é considerada o risco de perda do controle da situação, porque "em ne-adulta logo após a primeira menstruação, podendo a seguir nhuma sociedade todas condições são previsíveis e con- troladas".2exercer plenamente todos os papéis femininos. Em contra-partida, pode-se afirmar que é evidente. que uma jovem de De fato, 0&indivíduos podem perder o controle da12 ou 13 anos não está ainda adequadamente socializada situação, embora na maioria dos casos isto não seja verda-para exercer esses papéis numa sociedade complexa. Mas deiro. E não o é porque o conhecimento mínimo referidomesmo numa sociedade simples a determinação idêntica abrange um certo número de padrões de comportamentopara um jovem do sexo masculino não parece ser tão fácil. que são regulares e, portanto, permitem a previsão.Provavelmente depende do desempenho individual dos Todos os membros de nossa sociedade sabem quecandidatos a um novo status. uma forma cortês de solicitar algum tipo de favor é a de Mas, qualquer que seja a sociedade, não existe a possi- preceder o pedido com a expressão "por favor". Sabembilidade de um indivíduo dominar todos os aspectos de sua também da necessidade de agradecer formalmente o atendi-cultura. Isto porque, com~ afirmou Marion Levy Jr., 1 "ne- m~to conseguido com as palavras "muito obrigado", sob anhum sistema de socialização é idealmente perfeito, em pena de não mais conseguir nada de seu interlocutor se es-nenhuma sociedade são todos os indivíduos igualmente quecer de pronunciar estes simples vocábulos. Estas pala-bem socializados, e ninguém é perfeitamente socializado. vras, pois, fazem parte de nossos padrões de comportamen-Um indivíduo não pode ser igualmente familiarizado com to e ignorá-Iassignifica o rompimento de uma regra e, con-todos os aspectos de sua sociedade; pelo contrário, ele pode seqüentemente, a impossibilidade de prever a resposta. As-permanecer completamente ignorante a respeito de alguns sim, a solicitação de um favor em termos imperativos podeaspectos". Exemplificando: Einstein era um gênio na física, provocar, entre outras, as seguintes ações: o interlocutorum medíocre violinista e, provavelmente, seria um comple- atende o pedido; finge não ouvir o pedido; nega em termos to desastre como pintor. ríspidos atender o pedido; ou retruca com um forte pala- O importante, porém, é que deve existir um mínimo vrão. Estas alternativas somente ocorreram porque foram de participação do indivíduo na pauta de conhecimento da rompidos padrões de comportamentos que asseguravam a cultura a fim de permitir a sua articulação com os demais possibilidade de uma previsão. membros da sociedade. Todos necessitam saber como agir1 Marillnl~vyJr., 1952,p.190. , J~I1I. iblJcm. p. 169.
  • --86 cultura: um conceito antropológico como opara a cu/~ura 87 Tomemos, ainda como exemplo, os nossos termos deparentescos. Se uma pessoa denomina outra de pai, ela es- cess:idadesde comercialização do caucho por parte dopera um determinado tipo de comportamento que geral- comerciante. Em Cabitutu, Bib:oinão tinha parentes e era considerado muito jovem e por isto tinha menosmente a beneficia. Daí a expressão popular: "negócio de prestígio que muitos homens do povoado. No intento.pai para filho". As pessoas sabem como agir e podem prever de fortalecer sua posição, Biboi casou com uma viúvaa ação do outra, mesmo quando diante de um pai com o vários anos mais velha que ele. Considerando a mu-qual nunca teve um contato anterior. lher pouco atraente, trouxe para casa uma segunda Um candidato a um emprego sabe que o empregador mulher. A primeira esposa não gostou e atacou a jo-dispõe apenas de duas alternativas básicas: conceder-lhe o vem. Os irm40s da primeira obrigaram Biboi a des-lugar ou não. A surpresa oCorrerá, apenas, se o empregador pedir a segunda esposa e afastá-Ia do povoado. Biboi, então, estabeleceu a jovem em Cabruá, o povoado deagir de maneira inusitada, não prevista pelas duas possibili- seu pai.dades de respostas. Tendo deixado a sua formosa esposa num lugar se- Nem sempre, porém, a falta de comunicação acontece guro, como a casa de seu pai, Biboi voltou a Cabitutu porque um padrão de comportamento foi q lebrado, mas para arranjar as coisas e acalmar os descontentes. porque às vezes os padrões não cobrem toda:; as situações Mas continuou com as suas maneiras arrogantes e exi- possíveis. Tal fato ocorre em períodos de mudança cultural gentes, e assim os sentimentos do povoado foram se e, principalmente, quando estas são determinadas por for- inflamando sem que ele recebesse nenhum apoio de ças externas, quando surgem fatos inesperados e de difícil de sua primeira esposa e de seus parentes. Entre eles manipulação. São situações sem precedentes e que, portan- foi crescendo cada ve~-mais a determinação de exter- miná-Io. to, não são controladas pelo conjunto de regras ordinárias. Nem sempre os indivíduos envolvidos conseguem utilizar Enquanto isto, a pessoa de sua jovem esposa não sua tradição cultural para contorná-Ias sem provocar confli- estava tão segura como Biboi acreditava. Seu e~poso tos. Alan Beals transcreve um texto de Robert Murphy, estava ausente e ela era uma moça desacompanhada; a. acerca dos -ínmos Munduruku, localizados no rio Madeira, sua retidão não foi suficiente para fazer frente aos ho- que.serve como exemplo para este tipo de situação: mens de Cabruá. Breve todos os homens dq povoado, com exceção daqueles que eram afetados pela proibi- Isto ocorreu ao jovem chefe Munduruku, quando cha- ção do incesto, desfrutaram os favores da jovem es- posa de Biboi. . . mado Biboi. Ele era o filho de um chefe, mas tinha sido educad.o por um comerciante brasileiro e se sentia su- O equilíbrio do poder e da moral favorecia os opo- perior a seus companheiros. Foi o cO,mercianteque o nentes de Biboi, e o esforço dos que o apoiavam tor- nomeou capitão de Cabitutu. O papel de capitão con. nou.$( cada vez mais difícil em virtude do fato de que sistia Pomservir de intermediário entre o grupo e as ne- Blboi havia quase deixado de ser uma pessoa social, .. rO<Jras não se aplicavama ele. Nós mesmosdeixa- já
  • 88 cultura: um conceito antropológico como opera a cultura 89 mos o lugar antes de que caísse o pano deste pequeno tes da sociedade de forma a permitir a convivência dos mes- drama social, mas já se podia prever a conclusão. Esta mos. Um médico pode desconhecer qual a melhor época se tornou mais evidente após a nossa saída, quando do ano para o plantio de feijão, um lavrador certamente Caetano caiu de uma palmeira e ficou gravemente ferido durante vários dias. Sabendo que o povo de desconhece as causas de certas anomalias celulares, mas Cabitutu lhe daria a morte tão logo soubesse do fale- ambos conhecem as regras que regulam a chamada etiqueta cimento de seu pai, Biboi voltou. imediatamente a social no que se refere às formas de cumprimentos entre as pessoas de uma mesma sociedade. Cabruá e ali permaneceu até que o ancião conseguis- se recuperar-se.Durante este período Biboi se acercou de mim e disse: "Sabe, se meu pai morrer, partirei desta terra e viverei na margem do rio Tapajós." Per- guntei por que ele se ia, Biboi respondeu: "Porque é muito bonito lá." Biboi sabia que a sua vida como membro dos Munduruku estava terminada.3 Biboi é um homem que não se sente em nenhuma cultura. Não soube manejar as regras para viver bem na sociedade Munduruku - ele se considerava muito superior a eles e acreditava poder ensiná-los. Estava colocado em um status que não lhe pertencia e onde não podia ter êxito já que não contava com o apoio de parentes. No final teve que escolher entre a morte ou o exílio.4 o exemplo descrito acima mostra o que pode ocorrercom uma pessoa que, por força de uma socialização ina-dequada, não conhece as regras de seu grupo. Embora ne-nhum indivíduo, repetimos, conheça totalmente o seu siste-ma cultural, é necessário ter um conhecimento mínimopara operar dentro do mesmo. Além disto, este conheci.mento mínimo deve ser partilhado por todos os componen-3 Robert Murphy, 1961, p. 60.4 Alan Beals, 1971, pp. 248-50.
  • - --.- - -- como opera a cultura 91 4 selvagem2, que refuta a abordagem evolucionista de que as A CULTURATEM UMALÓGICAPRÓPRIA sociedades simples dispõem de um pensamento mágico que antecedeo científicoe que,portanto,lhe , inferior."O pensamento mágico - diz Lévi-8trauss - não é um começo, um esboço, uma iniciação, a parte de um todo que não se realizou; forma um sistema bem articulado, independente deste outro sist..ma que constituirá a ciência, salvo a analo- gia formal que as aproxima e que faz do primeiro uma ex- pressão meÚtf6rica do segundo." Assim, ao invés de um contínuo magia,-religião e ciência, temos de fato sistemas Já foi o tempo em que se admitia existir sistemas culturais simultâneos e não-sucessivosna história da humanidade. lógicos e sistemas culturais pré-lógicos. Levy-Bruhl, em seu .A ciência não depende da dicotomia entre os tipos de pensamento citados acima, mas de instrumentos de observa- livro A mentalidade primitiva, I admitia mesmo que a huma- ção, pois como enfatizou Lévi-8tiauss: "o sábio nunca dia- nidade podia ser dividida entre aqueles que possuíam um loga com a natureza pura, se~o com um determinado esta- pensamento lógico. os que estavam numa fase pré-lógica. Tal afirmaÇão não encontrou, por parte dos pesquisadores do de relação entre a natureza e a cultura, definida por um de campo, qualquer confirmação empírica. Todo sistema período da história em que vive, a civilização que é a sua e os meios materiais que dispõem." cultural tem a sua própria lógica e não passa de um ato pri- mário de etnocentrismo tentar transferir a lógica de um sis- Sem estes meios materiais o homem tem que tirar tema para outro. Infelizmente, a tendência mais comum conclusões a partir de sua observação direta, valendo-se é de considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir ilpenas do instrumental sensorial que dispõe. Assim, não ~ aos demais um alto grau de irracionalismo. nAdail6gico supor que é o Sol que gira em tomo da Terra,I pol. é esta sua sensação. Uma conhecida nossa perguntou I A coerência de um hábito cultural somente pode ser . um ccÚpirapaulista como é que o sol morre todos os dias analisada a partir do sistema a que pertence. no oeste e nasce no leste. "Ele volta apagado durante a Um trabalho fundamental para a compreensão deste nolto", foi a resposta que obteve. Menos que um pensa- problema é o livro de Claude Lévi-Strauss, O pensamento monto absurdo, trata-se de uma outra concepção a respeito 110univorso. obviamente diferente da nossa, que dispomos d.. Informações obtidas por sofisticados observatórios as- I" flomlcos. 1 Lucial Levy-Bruhl, 1925, 10~ed. I Iliju,l~ L.I:YI-Strauss, 1976, 2~ed. 90
  • 92 cultura: um conce.ito antropológico com,o opera a cultúra 93 Sem o auxílio do microscópio é impossível imaginara existência de germes, daí ser mais fácil admitir que as sua linhagem materna, que vai gerar em seu útero umadoenças são decorrentes da intromissão de seres sobrenatu- criança. Esta criança estará ligada por laços de paren-rais malignos. E, conseqüentemente, o tratamento deve ser tesco, apenas, aos parentes da jovem, não existindoformulado a partir de sessõesxamanísticas, capazes de con- em Trobriand nenhuma palavra correspondente à que utilizamos para definir o pai.trolar e exorcizar essas entidades. O homem que vive com a mulher será chamado Em um outro artigo mostramos que o fenômeno do pela criança por um termo que podemos traduziraparecimento da vida individual só é explicado através da como "companheiro da mãe".mediação de equipamentos ópticos que a humanidade Esta idéia de reprodução sexual não impediu quesomente recentemente passou a possuir: os habitantes de Trobriand notassem a semelhança física que ocorre entre a criança e o "companheiro O homem sempre buscou explicações para fatos tão da mãe". A explicação encontrada foi a de que a cruciais como a vida e a morte. Estas tentativas de ex- criança convive diariamente com aquele homem e plicar o início e o fim da vida humana foram sem dele copia-lhe os gestos, o modo de falar, as expres- dúvida responsáveis pelo aparecimento dos diversos sões faciais, dando a ilusão de uma semelhança. sistemas filosóficos. Explicar a vida implica a compre- Além disto, deve-seconsiderar que o limitado "stock" ensão dos fenômenos da concepção do nascimento. genético de um grupo excessivamente endogâmico Estas são importantes para a ordem social. Da explica- não torna tão relevante a identidade física. ção que o grupo aceita para a reprodução humana re- Por outro lado, os índios Jê, do Brasil, cçrrelacio- sulta o sistema de parentesco, que vài regulamentar nam a relação sexual com a concepção mas acreditam todo o comportamento social. que só uma cópula é insuficiente para "orJ1arum no- Nem sempre as relações de causa e efeito são per- vo ser. É necessário que o homem e a ".lulhertenham cebidas da mesma maneira por homens de culturas di- várias relações para que a criança seja totalmente for- ferentes. E hoje todos sabem que o homem só pode mada e tome-se apta para o nascimento. O recém-nas- compreender o mistério da vida quando dispõe de ins- cido pertencerá tanto à famllia do pai como à da mãe. trumentos que o permitam desvendar o mundo do E se ocorrer que a mulher tenha, em um dado perío- infinitamente pequeno. O homem tribal não possuía do que antecede ao nascimento, relações sexuais com microscópios. E teve que construir a partir de suas outros homens, todos estes serão considerados pais simples observações as teorias que durante séculos e da criança e agirão socialmente como tal. ainda hoje têm a validade das verdades científicas. Outra é a concepção dos índios Tupi, também do Para os habitantes das ilhas Trobriand, no Pacífico, Bra~il.Para estes, a criança depende exclusivamente não existe nenhuma relação entre a cópula e a con. do pai. Ela existe anteriormente como uma espécie cepção. Sabem, apenas, que uma jovem não deve mais d. somente no interior do homem, muito tempo mes- ser virgem para ser penetrada por um "espírito" do 111(,antes do ato sexual que a transferirá para o ventre d. mulher. No interior desta, a criança se desenvolve
  • ---. .194 cultura: um conceito enrropol6gico como Opsraa cultura 96 sem estabelecer nenhuma relação consangüínea com a esposa do pai. A mulher não passa, então, de um Talvez seja mais fácil para o leitor entender a lógica recipiente próprio para o desenvolvimento do novo e a coerência de um sistema cultural, tratando-o como ser. E ela será sempre uma parente afim tanto de seu uma forma de classificação. Muito do que supomos.ser uma marido quanto de seu filho. Esta teoria permite o ordem inerente da natureza não passa, na verdade, de uma matrimônio entre meio-irmãos .isto é, jovens que t~nham a mesma mãe e pais diferentes.3 ordenação que é fruto de Ulp procedimento cultural, mas que nada tem a ver com Umaordem objetiva. . As explicações encontradas pelos membros das diver- Rodney Needham, antropólogo inglês, faz uma in. sas sociedades humanas, portanto, são lógicas e encontram teressante analogia, baseada em estudos sobre indivíduos a sua coerência dentro do próprio sistema. Nunca é demais cegos desde o nascimento e que ganham a visão através de repetir o clásmcotrecho de E.E. Evans-Pritchard,4 no qual uma cirurgia. A reação inicial é de uma dolorosa aflição explica como a ação da feitiçaria é entendida pela filosofia diante de uma caótica confusão de cores e formas. EstasAzande: "Considerada como sistema de filosofia natural, ela .lhes parecem náo ter nenhuma relação compreensível entre [a feitiçaria] implica uma teoria de causas: a infelicidade si "Apenas vagarosamente e com um intenso esforço poderesulta da feitiçaria, que trabalha em combinação com as apreender que esta confusão manifesta uma ordem, e so-forças naturais. Caso um homem receba uma chifrada de mente Com uma aplicação resoluta é capaz de distinguirum búfalo, caso lhe caia na cabeça um celeiro cujos supor. e classificar objetos e adquirir o significado de termos taistes tenham minado pelas térmitas; ou contraia uma menino como espaço e forma. Quando um etnólogo inicia o seugite cérebro-espinhal, os Azande afirmarão que o búfalo, ..tudo de um povo estranho ele está numa situação análoga,o celeiro ou a doença são causas que se conjugam com a . no caso de uma sociedade desconhecida ele pode exata-feitiçaria para matar o homem. Pelo búfalo, pelo celeiro, mente ser descrito como culturalmente cego.,,5pela doença, a feitiçaria não é responsável,pois existem por O que podemos deduzir da analogia formulada porsi mesmos; mas o é pela circunstância particular que os põe N..dham é que cada cultura ordenou a seu modo o mundoem relação destruidora com um certo indivíduo. O celeiro que a circunscreve e que esta ordenação dá um sentido cul.teria caído de qualquer maneira, mas foi pela feitiçaria que lurAlà aparente confusão das coisas naturais.. É este proce.caiu em um dado momento e quando certo indivíduo re. dlmento que consiste em um sistema de classificaÇão.pousava embaixo. Entre todas essas causas, apenas a feitio Retomemos o exemplo da floresta utilizado no iní-çaria é significativano plano das relações sociais." III(~ primeiro capítulo da segunda parte deste trabalho. do3 Roque de Banos Laraia, 1976.4 E.E. Evans-Pritchard.1955, pp. 418-19. . IC",II~)Nccdham.1963, p. VÜ.
  • -- -- -96 cultura: um conceito antropológico como OptlM. eu/tur. 87o amontoado de árvores e arbustos só pode ser ordenadoquando é classificado através de uma taxionomia. Esta, con- juizos e raciocínios, tendo por objetos atributos que dotudo, não é uma propriedade da botânica ocidental, pois aqueles do mana".6 O leitor brasileiro entenderá melhormuitas sociedades tribais construíram sistemas de classifi- esta definição se trocar a palavra mana por panema, azar ou reima.7cação bastante sofisticados para o mundo vegetal que asenvolvem. Assim, os índios Tewa do Novo Méxiqo "têmnomes para designar todas as espécies de coníferas da re-gião; ora, neste caso, as diferenças são pouco visíveise, entreos brancos, um indivíduo sem treinamento seria incapaz deas distinguir (. . .). Realmente, nada impediria a traduçãoem Tewa de um tratado de botânica". (Robbins, Harring-ton e Freire-Marreco,citados por Lévi-Strauss, 1976, p. 25.) Que todas as sociedades humanas dispõem de um sis-tema de classificação para o mundo natural parece não ha-ver mais dúvida, mas é importante reafirmar que esses siste-mas divergem entre si porque a natureza não tem meiosde determinar ao homem um só tipo taxionômico. Por issoo morcego é muitas vezes colocado numa mesma catego-ria com as aves, da mesma forma que a baleia é vulgarmen-te considerada um peixe. No norte de Goiás, uma dona depensão nos afirmou que o "rato era um inseto impertinen-te". Constatamos, então, que como inseto eram classifica-dos todos os seresvivosque perturbam o mundo doméstico. Finalmente, entender a lógica de um sistema culturaldepende da compreensão das categorias constituídas pelomesmo. Como categorias entendemos, como Mauss, "essolprincípios de juízos e raciocínios (. . .) constantemente pre.sentes na linguagem, sem que estejam l1ecessariamenteex.plícitas, elas existem ordinariamente, sobretudo sob a formade hábitos diretrizes da consciência, elas próprias incon..cientes. A noção de mana é um desses princípios: ela Ol~ ... ~."ftl M.~ 1969. pp. 28-29.dada na linguagem; está implicada em toda uma sério di IMI.I m"",lto de categorias. (1979), em sua "Introdução", dis- , Mllh,IOCudoso de Oliveira
  • como opera a cultura 99 senho de Von den Steinen, que ali esteve 80 anos antes. 5 Desta comparação poderíamos ser levados, tal a identidade existente entre os dois documentos, a afirmar que não A CULTURA ~ DINÂMICA ocorreu modificação naquela sociedade no último século. Mas seria verdadeira tal dedução? A resposta é negati- va. Em primeiro lugar, porque os ntos religiosos situam-se entre as partes de uma sociedade que parecem ter um~ me- nor velocidade de mudança. Em segundo lugar, porque a foto não cobre todas as variáveis do ritual. Consideremos que ao invés do ritual xinguano, os dois documentos retra- tassem uma parte da missa católica. O aspecto apenas vi- sual dos mesmos daria a falsa impressão de que não bouveNum exercício de imaginação, suponhamos que um dos nenhuma mudança no ritual. E nós sabemos que estas mu-missionários jesuítas do século XVI, durante a sua perma- danças ocorreram.nência no Brasil, tenha dividido as suas observações entre o A resposta do antropólogo seria, portanto, diferentecomportamento dos indígenas e os hábitos das formigas da da maioria dos leigos. O espaço de quatro séculos seriasaúva. Quatro séculos depois, qualquer entomologista pode- suficiente para demonstrar que a referida sociedade indíge-rá constatar que não houve qualquermudança nos hábitos na mudou, porque os homens, ao contrário das formigas,dos referidos insetos. Dúrante quase meio milênio, as habi- tem a capacidade de questionar os seus próprios hábitos e tantes do formigueiro repetiram os procedimentos de suas modificá-los. O antropólogo concordaria, porém, que as antecessoras, obedecendo apenas as diretrizes de seus pa- IOciedades indígenas isoladas têm um ritmo de mudança drões genéticos. Supondo, por outro lado, numa hipótese menos acelerado do que o de uma sociedade complexa, quase absurda, que um dos grupos indígenas observados atingida por sucessivas inovações tecnológicas. Esse ritmo tenha sobrevivido aos quatro séculos de dizimação, graças Indigona decorre do fato que a sociedade está satisfeita a um isolamento em relação aos brancos, o que constataria uom muitas de suas respostas ao meio e que são resolvidas um antroPÓJogomoderno? por NASsoluções tradicionais. Mas esta satisfação é relati- A tendência de muitos leigos seria a de responder qUI VA,muito antes de conhecer o machado de aço, os nossos essas pequenas sociedades tendem a ser estáticas e qUI, i In"lo.nas tinham a consciência da ineficácia do machado portanto, o antropólogoconfirmaria observações o mia. as d li. pCJdra. or isto, o nosso machado representou um grande P sionário.Essa tendênciadecorredo fato de que as chama. I 111001 atração dos índios. das sociedades simples dão realmente uma impressão di IJ Na Manifesto sobre aculturação, resultado de um estaticidade. Por exemplo, em 1964 fotografamos um ritulll : ." rla realizadona Universidade Stanford,em 1953, de xinguano e a foto foi, posteriormente, comparada a um dto 11 98
  • ---.-.- -.. -.100 cultura: um conCllito antropológico como opera a Cultura 101 os autores afirmam que "qualquer sistema cultural está num contínuo processo de modificação. Assim sendo, a ceitual específico. Surge, então, o conceito de aculturação. mudança que é inculcada pelo contato não representa um utilizado desde o início do século pela antropologia alemã e salto de um estado estático para um dinâmico mas, antes, a partir de 1928 pelos antropólogos anglo-saxões. Através a passagem de uma espécie de mudança para outra. O con. destes o conceito atinge o nosso meio acadêmico, mas so- tato, muitas vezes, estimula a mudança mais brusca, geral mente passa a ser utilizado amplamente a partir dos anose rápida do que as forças internas". 50, depois que Eduardo Galvão apresentou o seu "Estudo Podemos agora afirmar que existem dois tipos de mu. de Aculturação dos Grupos Indígenas Brasileiros", na I Reunião Brasileirade Antropologia, em 1953. dança cultural: uma que é interna, resultante da dinâmicado pr6prio sistema cultural, e uma segunda que é o r~ul- Deixaremos de lado as mudanças mais espetaculares,tado do contato de um sistema cultural com um outro. como as decorrentes de uma revolução política - como a No primeiro caso, a mudança pode ser lenta, quase francesa ou soviética; as resultantes de uma inovação cien-impercebível para o observador que não tenha o suporte tífica - como as conseqüências da invenção do avião ou da de bons dados diacrônicos. O ritmo, porém, pode ser al- pílula anticoncepcional para, num exercício didático, terado por eventos históricos tais como uma catástrofe, discorrermos mais sobre as que agem lentamente sobre os uma grande inovação tecnológica ou uma dramática situa- nossos hábitos culturais. É necessário, porém, lembrar sem-ção de contato. pre que ambas pertencem a um mesmo tipo de fenômeno, O segundo caso, como vimos na afirmação do Mani- vinculadasque são ao caráter dinâmico da cultura.festo sobre aculturação, pode ser mais rápido e brusco. No Comecemos pela descrição de um tipo carioca, feiti:1caso dos índios brasileiros, representou uma verdadeira por Machado de Assis, em Dom Casmurro: "e vimos passarcatástrofe. Mas, também, pode ser um processo menos radi. com suas calças brancas engomadas, presilhas, rodaques ecal, onde a troca de padrões culturais ocorre sem grandes gravata de mola. Foi dos últimos que usaram presilhas notraumas. Rio de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as Calçascurtas Este segundo tipo de mudança, além de ser o mais e.. pMa que lhes ficassem bem esticadas. A gravata de cetim proto, com um arco de aço por dentro, imobilizava-lhe otudado, ~ o mais atuante na maior parte das sociedades hu.manas. E praticam,nte impossível imaginar a existência I po.coço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseirade um sistema cultúral que seja afetado apenas pela mudan. . IIV, parecia nele uma casaca de cerimônia." Não há dúvi-ça interna. Isto somente seria possível no caso, quase ablult li" que as vestimentas masculinas mudaram muito, nestesdo, de um povo totalmente isolado dos demais. Por ilto, t uhhnos 100 anos, na cidade do Rio de JaneIro. Muitasmudança proveniente de causas externas mereceu sIm.,.! ouIr.. mudanças sucederam as descritas por Machado deuma grande atenção por parte dos antropólogos. Para otlq! Anil, p.usando pelas pesadas vestimentas de casimira pretadê.la foi necessário o desenvolvimento de um esquema .. IltI 1111(110 século, até o modo informal de vestir dos dias do 11.1I0J".
  • 102 cultura: um conceito antropo/6glco como opera a cultura 103 São mudanças como essas que comprovam de uma o tempo constitui um elemento importante na análi-maneira mais evidente o caráter dinâmico da cultura. se de umé4cultura. Nesse mesmo quarto de século, muda- Basta que o jovem leitor converse com seus pais e ram-se os padrões de beleza. Regras morais que eram vigen-co~pare a nossa vida quotidiana com a dos anos 50, por tes passaram a ser consideradas nulas: hoje uma jovem podeexemplo. Ele poderá, então, imaginar estar em plena noite, fumar"em público sem que a lua reputação seja ferida. Aopostado diante de um espelpo, ajeitando o n6 triangular de contrário de sua mãe, pode ceder um beijo ao namoradosua gravata, bem no centro.de seu colarinho, mantido reto em plena Juz do dia. Tais fatos atestam que as mudançaspela ação das hàstes de barbatana..Poderá também imaqinar de costumes são bastante comuns. Entretanto, elas"nãoo"seu seI1:timentode vaidade ao reparar quão bem passado ocorrem com a tranqüilid"adeque descrevemos. Cada mu-está o seu terno de casimira azul. Enfim, estava pronto para dança, por menor que seja, representa o desenlace de nume-brilhar em mais um baile. Antes, porém, de entrar no salão rosos conflitos. Isto porque. em cada momento as socieda.não dispensaria o reforço de uma dose de bebida, seguida des humanas são palco do embate entre as tendências con-do mastigar de um chiclete capaz de disfarçar o forte cheiro servadoras e as inovadoras. As primeiras pretendem mélAterde agUârdente. Com esta dose adicional de coragem, o jo. os hábitos inaltetados, muitas vezes atribuindo aos mesmosvem estaria apto para audaciosamente atravessar o salão e, uma legitimidade de ordem sobrenatural. As segundas con-numa discreta mesura diante da escolhida, perguntar: "a testam a sua permanência e pretendem substituí-Ios porsenhorita me dá o prazer desta dança?" novos procedimentos. Tudo estana bem com a resposta afirmativa da mo- Assim, uma moça pode hoje fumar tranqüilamenteça. Mas, se esta, rompendo os limites da etiqueta, não acei. em público, mas isto somente é possível porque antes delatava o convite, o mundo abria aos pés do jovem, que vol. numerosas jovens suportaram as zombarias, as recrimina-tava murcho e cabisbaixo para o seu lugar, lamentando a çOes, at~ que estas se esgotaram diante da nova evidência."bruta tábua que levara". Por Í$to, num mesmo momento é possivel encontrar numa Um quarto de século depois, esse pequeno drama so. mesma sOC1edade pessoas que têm juízos diametralmente opostos sobre um novo fato.cial é perfeitamente desconhecido para. muitos jovens qUIjamais compreenderão perfeitamente como era esse estra Talvez seja mais fácil explicar a mudança raciocinan.nho ritual denominado baile. dQ em termos de padrões ideais e padrões reais d~ compor- 1,l/nentC~em sempre os padrões ideais podem ser efetiva- São essas aparentemente pequenas mudanças qu. (11)hNeste caso, as pessoas agem diferentemente (esta açãocavam o fosso entre as gerações, que faz com que 01 p&lt" 1l)lulltui os padrões reais), mas consideram que os seU$pro.não se r~conheçam nos filhos e es~esse surpreendam ao"!;! ,),"lImenlos não são exatamente os mais desejados peia so-a "carettce" de seus progenitores, mcapazes de reconhl "IIIIJ.1de Tomemos, como exemplo, as regras ~atrimoniaisque a cultura está sempre mudando. II,pl Os Indios Akuáwa-Asurini (do sudeste do Pará) con-
  • como opera a cultura 105104 cu/rura: um conceito antropológicosideram que um homem deve casar preferencialmente com grande reação por parte de diferentes setores e a revista tevea filha do irmão da mãe; ou com a filha da irmã do pai; ou d sua edição apreendida. Menos de dez anós depois, umaainda com a filha da irmã. Mas razões diversas, entre elas as outra revista repetiu a pesquisa, com uma amostragem bemde ordem dernográfica, fazem com que nem sempre o ho- maior, e os resultados foram mais significativos do que osmem encontre esposas dentro dessas categorias genealógi- da vez anterior. Comprovavam enfaticamente uma mudançacasoAssim, qualquer outro casamento é tolerado desde que no comportamento feminino. Dessa vez, contudo, a reação a mulher não seja mãe, filha ou irmã do noivo. Em decor- não ocorreu e a revista circulou livremente. Tal fato signifi- rência destas regras, os Akuáwa-Asurini classificam o casa- ca, sem dúvida, a ocorrência de mudanças nos padrões ideais da sociedade de forma a ajustá-Ia aos eventos reais. mento segundo três tipos. Ao primeiro denominam de "katu-eté" (muito bom) e é referente a todas as uniões reali- Em outras palavras, a mudança chegou a uma tal dimensão zadas de acordo com as regras preferenciais relacionadas que modificou o próprio padrão ideal. acima. O sequndo tipo é aquele que engloba todos os casa- Concluindo, cada sistema cultural está sempre em mu- mentos que não estão de acordo com as regras preferenciais, dança. Entender esta dinâmica é importante para atenuar mas também não são proibidos, e que são denominados o choque entre as gerações e evitar comportamen tos pre- "Katu" (bom). Do ponto de vista estatístico este é o tipo conceituosos. Da mesma forma que é fundamental para a de casamento mais comum. Finalmente, o terceiro tipo, humanidade a compreensão das diferenças entre povos de denominado de "katu-i", é o referente às uniões dentro das culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças categorias proibidas, ou seja, aquelas que levam ao rompi- que ocorrem dent"O do mesmo sistema. Este é o único pro- mento da proibição do incesto. cedimento que prepara o homem para enfrentar serenamen- O fato de que a maioria dos matrimônios não corres. te este constdJ1tee admirável mundo novo do porvir. ponde ao ideal somente pode ser considerado uma mu. dança quando as pessoas, além. de agirem diferentemente, começam a colocar em dúvida a validade do modelo. Tomemos agora um exemplo de nossa sociedade. No início dos anos 70. uma revista fez uma pesquisa sobro O comportamentosexualda mulherbrasileira. resultadon. i I O dicou que existia uma porcentagem significativa quo n«. : agia de acordo com os padrões tradicionais da sociodar1.. I Ou seja, tomavam-se mais freqüentes as relações 58X.&18 pré-matrimoniais o número de relaçõesextraconJuvAI8i. e A publicação desses resultados - mesmo deixando do I a validade da amostra levantada na pesquisa - cau&OU U
  • uma flxptlrllncla alnurda 107 Anexo 1 ingfnua como ti, a inquirição revelaria que multidOes de UMA EXPERI~NCIA ABSURDA gente civilizadaainda a ela aderem. "Contudo, não é essa nossa moral da história. Ela está no fato de que a.única palavra, bek, atribuída às crianças, constituía apenas, se a história tem qualquer autenticidade, um reflexo ou imitação - como conjeturamhá muito os comentadores de Heródoto - do grito das cabras, que fo- ram as únicas companheiras e instrutoras das crianças. Em suma, se for permitido deduzir qualquer inferência de tão ap6crifa anedota, o que ela prova é que não há nenhumaKroeber, em seu artigo "O Superorgânico", refere-se a duas língua humana natural e, portanto, nenhuma língua huma-experiências que teriam sido praticadas no passado. Embora na orgânica.o autor duvide da veracidade das mesmas, ele as utilizacomoexemplode reflexãosobrea naturezahumana.. "Milhares de anos depois, outro soberano, o impera- "Heródoto conta-nos que um rei egípcio, desejando dor mongol Akbar .repetiu a experiência com o propósito deverificar qual a língua-mater da humanidade, ordenou que averiguar qual a religião natural da humanidade. O seu banalgumas crianças fossem isoladas da sua espécie, tendo so- do de crianças foi encerrado numa casa. Quando decorridomente cabras como companheiros e para o seu sustento. o tempo necessário, ao se abrirem as portas na presença doQuando as criançasjá crescidas foram de novo visitadas, gri- imperador expectante e esc.larecido,foi grande o seu desa-taram a palavra bekos, ou, mais provavelmente bek. supri- pontamento: as crianças saíram tão silenciosas como semindo o final, que o grego padronizador e sensível nlo fossem surdas-mudas. Contudo, a fé cUstaa morrer; e pode-podia tolerar que se omitisse. O rei mandou entãc emÍlSá. mos suspeitar que será preciso uma terceira experiência,rios a todos os países a fim de saber em que terra tinha .... em condições modernas escolhidas e controladas, para satis-vocábulo alguma significação. Ele verificou que no idioma fazer alguns cientistas naturais e convencê-Ios de que a lin-frigio isso signüicava pão, e, supondo que as crianças ..d. vuagem, para o indivíduo humano como para a raça huma-vessem reclamando alimentos, concluiu que usavam o trt, nA, é uma coisa inteiramente adquirida e não hereditária,gio para falar a sua linguagem humana natural, e quo li" - completamente externa e não interna um produto social . nc10um crescimento orgânico."língua devia ser, portanto, a língua original da humamdadt.A crença d() rei numa língua humana ineren~e e congtniNeque só os cegos acIdentes temporais tinham decompOlSl É óbvio que quando Kroeber fala em linguagem estánuma multidão de idiomas, pode parecer simplol, ~: Implícita a possibilidade de estender o seu raciocínio para lod/l 4 cultura. Muitos anos depois de Kroeber, Clüford
  • 108 culrura: um conceito antropológico Anexo 2Geertz demonstrou não ser possível, à luz do conhecimento A DIFUSÃODA CULTURAatual, esperar algum resultado de uma terceira experiência: ". . . isso sugere não existir o que chamamos de natu-reza humana independente da cultura. Os homens sem cul-tura não seriam os selvagens inteligentes de Lord of theFlies, de Golding, atirados à sabedoria cruel dos seus instin-tos animais; nem seriam eles os bons selvagensdo primitivis.mo iluminista, ou até mesmo, como a antropologia insinua, os macacos intrinsecamente talentosos que, por algum mo. tivo, deixaram de se encontrar. Eles seriam monstruosidades Não resta dúvida que grande parte dos padrões culturais incontroláveis, com muito poucos instintos úteis, menos de um dado sistema não foram criados por um processo sentimentos reconhecíveis e nenhum intelecto: verdadeiros autóctone, foram copiados de outros sistemas culturais. A casos psiquiátricos. Como nossO sistema nervoso central - esses empréstimos culturais a antropologia denomina düu- e principalmente a maldição e glória que o coroam, o neo- são. Os antropólogos estão convencidos de que, sem a difu- c6rtex - cresceu, em sua maior parte, em interação com a são, não seria possível o grande desenvolvimento atual. da cultura, ele é incapaz de dirigir nossO comportamento ou humanidade. Nas primeiras décadas deste século duas esco- organizar nossa experiência sem a orientação fornecida por las antropológicas (uma inglesa, outra alemã), denominadas sistemas de símbolos significantes...1 difusionistas, tentaram analisar esse processo. O erro de ambas foi o de superestimar a importância da difusão, esse mais flagrante no caso do difusionismo inglês que advogava a tese de que todo o processo de düusão originou-se no velho EgIto. Mas deixando de lado o exagero difusionista, e mes. mo considerando a importância das invenções simultâneas (isto é, invenções de um mesmo objeto que ocorreram inú- meras vezes em povos de culturas düerentes situados nas diversas reqlões do globo), não poderíamos ignorar o papel da dIfusão cultural. Numa época em que os norte-americanos viviam qm grande desenvolvimento material e os seus sentimentos na- I C. Geertz, 1978, p. 61. 109
  • 110 cu/turB: um conCtlito Bntropo/6gico . difus60 d. culturs 111 cionalistas faziam crer que grande parte desse progresso calça galochas de borracha descoberta pelos indios da Amé-era resultado de um esforço autóctone, o antropólogo riCa Central e toma uni guarda-chuva inventado no sudoesteRalph Linton escreveu um admirável texto sobre o começo da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nasdo dia do homem americano: estepes asiáticas. "O cidadão norte-americano desperta num leito cons- De caminho para o breakfast, pára para comprar umtruido segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas jornal, pagando-o com moedas, invenção da Llbia antiga.modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmiti- No restaurante, toda uma série de elementos ,tomados dedo à América. Sai debaixo ,de cobertas feitas de algodão empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie decuja planta se tomou doméstica na India; ou de IiÍ1hoou cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feitade lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente pela primeira vez na India do Sul; o garfo é inventado naPróximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Itália medieval; a colher vem de um original romano. Come-Todos estes materiais foram fiados e tecidos por processos ça o seu breakfast com uma laranja vinda do Mediterrâneoinventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melanciauso dos "mocassins" que fO,raminventados pelos índios africana. Toma café, planta abissinia, com nata e açúcar. Adas florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto domesticaç&odo gado bovino e a idéia de aproveitar o seude banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções leite são onginárias do Oriente Próximo, ao passo que oeuropéias e norte-americanas, umas e outras recentes Tira açúcar foi feito pela primeira vez na India. Depois das fru-o pijama, que é vestuário inventado na India e lava-secom tas e do café vêm waff1es, os quais são bolinhos fabricadossabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba segundo uma técmca,escandinava, empregando como maté-que é um rito masoquistico que parece provir dos sumeria- ria-prima o trigo, que se tomou planta doméstica na Ásianos ou do antigo Egito. Menor Rega.se com xarope de maple, inventado pe;os Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que índios das florestas do Leste dos Estados Unidos. Comoestão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste- prato adiCional talvez coma o ovo de uma espécie de avese. As peças de seu vestuário têm ~ forma das vestes de pele domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada~edefuma- feitos de peles curtidas por um processo inventado no ano da por um prcx:essodesenvolvido no Norte da Europa. tigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente da. Acabanao de comer, nosso amigo se recosta -para fu- civilizações clássicasdo Mediterrâneo; a tira de pano de co. mar, hábito imllantado p~los índios americanos e que con- res vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xal.. some uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que usados aos ombros pelos croatas do século XVII. Ante. d, procede dos índios da Virginia, ou cigarro, proveniente do ir tomar o seu breakfast, ele olha a rua através da vid~aQ. México. Se for ,fumante valente, pode ser que fume mesmo feita de vidJ;oUlventadono Egito; e, se estiver cho~.ndo, um charuto, transmitldo à América do ~orte pelas Anti,
  • 112 cultura: um conceito antropológico lhas, por intennédio da Espanha. Enquanto fuma, lê no- tícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um BIBLIOGRAFIA processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narra- tivas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão con- servador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano."! ANCHIET A, José 1947 "Informações de casamentos dos índios do Brasil". Sociolo- gia, 9 (4); 379-383, S. Paulo. BEALS, Alan 1971 Antropologia culturaL México/Buenos Aires, Centro Regional de AYUdaTecnica. BENEDICT, Ruth 1972 O crisântemo e a espada. S. Paulo, Perspectiva. BENEDICTIS, Tina de 1973 "The Behavior of Young Primats During Adult Copulation: Observations of a Macaca irus Colony". American Anthro- pologist, VoL 75, nl?5. BOAS, Franz 1896 Science, N.S., Vol. 4.Compara tive Method of Anthropology". "The Limitation of CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto 1979 Mauss. S. Paulo, Ática. EV ANS.PRlTCHARD, E.E. 1955 "Witchcraft". Africa, Voi. 8, nl? 4, Londres. GEERTZ, Clifford 1966 "A transição para a humanidade", in Sol Tax (org.). Pano.1 Ralph Linton, 3~ed., 1959, pp. 355-56. rama da antropologia. Rio, Fundo de CuJtura. 1978 lnterpretaçaõ das culturas. Rio, Zahar. 113
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