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Cultura um conc. antrop. parte 1
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  • 1. --IROQUE DEBARROS LARAIA professor titular da Universi- é Roque de Barros Laraiadade de Brasília. Iniciou sua carreira no Museu Nacionalda Universidade Federal do Rio de Janeiro e, em 1969,transferiu-se para a Universidade de Brasília, onde foiDiretor do Instituto de Ciências Humanas. Doutor pelaUniversidade de São Paulo, realizou pesquisa de campoentre os índios Suruí, Akuáwa-Asurini, Kamayurá eUrubu-Kaapor.É membro de diferentes associações científicas do paíse do estrangeiro. Foi secretário-geral da AssociaçãoBrasileira de Antropologia (ABA), assim como diretor daAssociação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa emCiências Sociais (Anpocs). Participou dos comitêsassessores da CAPES e do CNPq.É autor de índios e castanheiras, juntamente com Ro-berto Da Matta, Tupi, índios do Brasil atual e Organiza-ção social (org.). Além destes livros possui vários artigospublicados em revistas especializadas. lSBN.85-7110-438-7 Jmllll~~1 IJ-ZEI JorgeZahar Editor "tu.. : ,II ,
  • 2. ~ Coleção Roque de Barros Laraia ANTROPOLOGIA SOCIAL diretor: Gilberto Velho ,.O RIso E o RiSíVEL .AUTORIDADE & AFETO Verena Alberti Myriam Uns de Barros ..MOVIMENTO PUNK NA CIDADE .ILHAS DE HISTÓRIA Marshall Sahlins.O Janice Caiata EspíRITO MILITAR . Os MANDARINS MILAGROSOS CULTURA. Os MILITARES E A REPÚBLICA Elizabeth Travassos Celso Castro . ANTROPOLOGIA URBANA Um Conceito Antropológico. VELHOS MILITANTES . DESVIO E DIVERGÊNCIA .INDIVIDUALISMO E CULTURA Ângela Castro Gomes, Dora Flaksman, . PROJETO E METAMORFOSE 13!! edição . SUBJETIVIDADE E SOCIEDADE Eduardo Stotz .A UTOPIAURBANA . DA VIDA NERVOSA Gilberto Velho Luiz Fernando Duarte . O MUNDO FUNK CARIOCA .GAROTAS DE PROGRAMA . O MISTÉRIO DO SAMBA Maria Dulce Gaspar Hermano Vianna . O COTIDIANO DA POLíTICA .BEZERRA DA SILVA: Karina Kuschnir PRODUTO DO MORRO Letícia Vianna .CULTURA: UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO .O MUNDO DA ASTROLOGIA Roque de Barros Laraia Luís Rodolto Vilhena .CARISMA . ARAWETÉ: os DEUSES CANIBAIS Jorge Zahar Editor Charles Undholm Eduardo Viveiros de Castro Rio de Janeiro
  • 3. SUMÁRIO Copyright @ 1986. Roque de Barros Laraia Apresentação 7 Todos os direitos reservados.A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo primeira parteou em parte. constitui violação do copyright. (Lei 9.610) 2000 Da natureza da cultura ou Direitos para esta edição contratados com: Da natureza à cultura 9 Jorge Zahar Editor LIda. rua México 31 sobreloja 1 O determinismo biológico 17 20031-144 Rio de Janeiro, RJ 2 O determinismo geográfico 21 tel.: (21) 240-0226 I fax: (21) 262-5123 e-mail: jze@zahar.com.br 3 Antecedentes históricos do conceito de cultura 25 site: www.zahar.com.br 4 O desenvolvimento do conceito de cultura 30 Edições anteriores: 1986, 1987, 1988. 1989. 1991. 5 Idéia sobre a origem da cultura 54 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1999 6 Teorias modernas sobre cultura 60 Impressão: Cromosete Gráfica e Editora segunda parte CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Como opera a cultura 67 Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. 1 A cultura condiciona a visãode mundo do homem 69 Laraia, Roque de BarrosL331c Cultura: um conceito antropológico I Roque de 2 A cultura interfere no plano biológico 7713.ed. Barros Laraia.- 13.ed. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. 3 Os indivíduos participam (Antropologia Social) diferentemente de sua cultura 82 Anexos Inclui bibliografia 4 A cultura tem uma lógica própria 90 ISBN: 85-7110-438-7 6 A cultura é dinâmica 98 1. Cultura. I. Título. 11. érie. S Anexo 1 Uma experiência absurda 106 CDD - 30600-1090 CDU - 316.7 Anexo 2 A difusão da cultura 109 Bibliografia 113
  • 4. rI APRESENTAÇÃO Para Lúcia o presente trabalho pretende introduzir o leitor ao conceito antropológico de cultura. Tema central das discussões an- tropológicas nos últimos 100 anos, o assunto tem se de- monstrado inesgotável, razão pela qual aqueles que tiverem o interesse de se aprofundar mais devem recorrer à biblio- grafia apresentada no final do volume. Destinado principal- mente a um público que se inicia no tema, limitamos o al- cance deste trabalho evitando muitos dos desdobramentos teóricos que o mesmo tem suscitado. A nossa intenção foi a de elaborar um texto bem didático e, portanto, bastante claro e simples. Procuramos, na medida do possível, utilizar exemplos referentes à nossa sociedade e às sociedades tribais que compartilham conosco um mesmo território. Isto não impe- de, contudo, a utilização de exemplos tomados emprestado de autores que trabalharam em outras partes do mundo. Tal procedimento é coerente, desde que o desenvolvimento do conceito de cultura é de extrema utilidade para a compreen- .-10do paradoxo da enorme diversidade cultural da espécie humana. Para tornar a bibliografia citada mais acessível aos 7
  • 5. 8 cultura: um conceito antropológico primeira parteleitores, utilizamos prioritariamente os textos em suas edi-ções brasileiras, limitando-se as citações em línguas estran- DA NATUREZA DA CULTURAgeiras apenas para os casos em que não existem traduções. OU DA NATUREZA À CULTURA O Livroestá dividido em duas partes: a primeira, quese refere ao desenvolvimento do conceito de cultura a partirdas mamfestações iluministas até os autores modernos; asegunda parte procura demonstrar como a cultura influen-cia o comportamento social e diversifica enormemente ahumanidade, apesar de sua comprovada unidade biológica. A nossa intenção foi de atender às demandas das dis-ciplinas iniciais dos cursos de graduação em antropologia edemais ciências sociais. Para isto contamos com o apoioe o estimulo dos colegasdo Departamento de Antropologiada Universidade de Brasllia, aos quais devemos nossos agra- decimentos. Mas um reconhecimento especial é devido aJúlio Cezar Melatti, que tanto insistiu para que realizásse- mos este trabalho.
  • 6. da natureza da cultura 11 disso, se uma mulher livre desposa um homem escra- vo, seus filhos são cidadãos integrais; mas se um ho- mem livre desposa uma mulher estrangeira, ou vive com uma concubina, embora seja ele a primeira pes- soa do Estado, os filhos não terão qualquer direito à cidadania.2 4 Ao considerar os costumes dos licios diferentes de "todas as outras nações do mundo", Heródoto estava to- mando como referência a sua própria sociedade patrili- neal,3 agindo de uma maneira etnocêntrica, embol"d ele Este volume trata da discussão de um dilema: a concilia- próprio tenha teoricamente renegado esta postura ao afir- mar: ção da unidade biológica e a grande diversidade cultural da espécie humana. 1 Um dilema que pennanece como o tema ~ Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os central de numerosas polêmicas, apesar de Confúcio ter, costumes do mundo, aqueles que lhes parecessem me- quatro séculos antes de Cristo, enunciado que "A natureza lhor, eles examinariam a totalidade e acabariam prefe- dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm rindo os seus próprios costumes, tão convencidos separados" . estão de que estes são melhores do que todos os outros. //"Wlo03~"9"I10 Mesmo antes-.J.a~c~tação do m.9no~enismo,os ho- mens se preocupavam co_~~ dive~ ~ ~~~m- portamen to ex~_te_l!~en~e os difer~e~ ~vos. A surpresa de Heródoto pela diversidade cultural dos - Até mesmo Heródoto (484-424 a.C.), o grande his- licios não é diferente da de Tácito (55-120), cidadão roma-~w~ do~ no, em relação às tribos gennânicas, sobre as quais escreveu !.2!iador grego, preocupou-se com o tema quando descre- veu o sistema social dos lícios: com admiração: Eles têm um costume singular pelo qual diferem Por tudo isso, o casamento na Alemanha é austero, de todas as outras nações do mundo. Tomam o nome não há aspecto de sua moral que mereça maior elogio. da mãe, e não o do pai. Pergunte-se a um lício quem é, e ele responde dando o seu próprio nome e o de sua mãe, e assim por diante, na linha feminina. Além 1"Iltllclto, 1967, p. 22. I ( hllllllllllOSde sociedade patrilineal aquela em que o parentesco f "lIlIllIlIdo apenas pelo lado paterno. Isto é, o irmão do pai, por , ,"111110, um parente, o mesmo não ocorrendo com o irmão da é I Cl1lford Geertz, 1978. p. 33. IlIill 10
  • 7. r da natureza da cultura 11 disso, se uma mulher livre desposa um homem escra- vo, seus filhos são cidadãos integrais; mas se um ho- mem livre desposa uma mulher estrangeira, ou vive com uma concubina, embora seja ele a primeira pes- soa do Estado, os filhos não terão qualquer direito à cidadania.2 ,~ Ao considerar os costumes dos licios diferentes de "todas as outras nações do mundo", Heródoto estava to- mando como referência a sua própria sociedade patrili- neal,3 agindo de uma maneira etnocêntrica, emboi"à ele Este volume trata da discussão de um dilema: a concilia- próprio tenha teoricamente renegado esta postura ao afir- mar: ção da unidade biológica e a grande diversidade cultural da espécie humana. 1 Um dilema que permanece como o tema ~ Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os central de numerosas polêmicas, apesar de Confúcio ter, costumes do mundo, aqueles que lhes parecessemme- quatro séculos antes de Cristo, enunciado que "A natureza lhor, eles examinariam a totalidade e acabariam prefe- dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm rindo os seus próprios costumes, tão convencidos separados" . estão de que estes são melhores do que todos os outros. //" Wlo103e."~O Mesmo antes~a ..2c~tação do m~n.?ge~~ os ho- mens se preocupavam c~~ d~~dade ~ ~odos de com- portamento existentes entre os diferentes I?<:!vos. A surpresa de Heródoto pela diversidade cultural dos - Até mesmo HerÓd~-to(484-424 ;.C.), o grande his- licios não é diferente da de Tácito (55-120), cidadão roma- ~(ff~Óo~ no, em relação às tribos germânicas, sobre as quais escreveu ~riador grego, preocupou-se com o tema quando descre- veu o sistema social dos licios: com admiração: Eles têm um costume singular pelo qual diferem Por tudo isso, o casamento na Alemanha é austero, de todas as outras nações do mundo. Tomam o nome não há aspecto de sua moral que mereça maior elogio. da mãe, e não o do pai. Pergunte-se a um licio quem é, e ele responde dando o seu próprio nome e o de sua mãe, e assim por diante, na linha feminina. Além 1llIlllIto, 1967, p. 22. , , lllIlIIlIlIIOS de sociedade patrilineal aquela em que o parentesco , ,"mlllllIulo apenas pelo lado paterno. Isto é, o irmão do pai, por 1 Chfford Geertz, 1978. p. 33. , .,IIlplu, um parente, o é mesmo não ocorrendo com o irmão da tiljII~ 10
  • 8. 12 da natureza da cultura 13 cultura: um conceito antropológico São quase únicos, entre os bárbaros, por se satisfaze- parentesco verdadeiro vem pela parte dos pais, que rem com uma mulher para cada. As exceções, que são 1> são agentes; e que as mães não são mais que uns sacos, extremamente raras, constituem-se de homens que em respeito dos pais, em que se criam as crianças, e recebem ofertas de muitas mulheres devido ao seu por esta causa os filhos dos pais, posto que sejam havidos de escravas e contrárias cativas são sempre posto. Não há questão de paixão sexual. O dote é livres e tão estimados como os outros; e os filhos das dado pelo marido à mulher, e não por esta àquele.4 fêmeas, se são filhos de cativos, os têm por escravos e os vendem, e às vezes matam e comem, ainda queMo.f(o ?oo Marco Polo, o legendário viajante italiano que visitou sejam seus netos, filhos de suas filhas, e por isto tam- a China e outras partes da Ásia, entre os anos 1271 e 1296, bém usam das filhas das irmãs sem nenhum pejo ad assim descreveu os costumes dos tártaros: copulam, mas não que haja obrigação e nem o costu- me universal de as terem por mulheres verdadeiras Têm casas circulares, de madeira e cobertas de fel- mais que as outras, como dito é.6 tro, que levam consigo onde vão, em carroças de qua- tro rodas. . . asseguro-lhesque as mulheres compram, . . vendem e fazem tudo o que é necessário para seus r ~., vvt Montaigne (1533-1572) procurou não se espantar em maridos e suas casas. Os homens não se têm de preo- J demasia com os costumes dos Tupinambá, de quem teve cupar com coisa alguma, exceto a caça, a guerra e a notícias e chegou mesmo a ter contato com três deles em Ruão, afirmando não ver nada de bárbaro ou selvagemno falcoaria. . . Não têm objeções a que se coma a carne de cavalos e cães, e se tome o leite de égua. . . Coisa que diziam a respeito deles, porque . B alguma no mundo os faria tocar na mulher do outro: têm extrema consciência de que isto é um erro e uma ~ na verdade, cada qual considera bárbaro o que não desgraça. . .s se pratica em sua terra. //~~ k,Cn~~ O padre José de Anchieta (1534-1597), ao contrário Imbuído de um pioneiro sentido de relativismo cul- de Heródoto, se surpreendeu com os costumes patrilineares tural, Montaigne assim comentou a antropofagia dos Tu- dos índios Tupinambá e escreveu aos seus superiores: pln,lmbá: O terem respeito às filhas dos irmãos é porque lhes Não me parece excessivojulgar bárbaros tais atos de chamam filhas e nessa conta as têm, e assim neque crueldade, mas que o fato de condenar tais defeitos fornicarie as conhecem, porque têm para si que o nao nos leve à cegueira acerca dos nossos. Estimo que G mais bárbaro comer um homem vivo do que o co- 4 PerUl Peito. 1967, p. 23. . I , lI< Anchieta, 1947. 5 ldcm. Iblllem, p. 24.
  • 9. da natureza da cultura 15 14 cultura: um conceito antropológico xualmente; enquanto os do sul são maliciosos, engenhosos, mer depois de morto; e é pior esquartejar um homem I entre suplícios e tonnentos e o queimar aos poucos, abertos, orientados para as ciências, mas mal adaptados para ou entregá-Io a cães e porcos, a pretexto de devoção as atividades poh ticas. 9 r e fé, como não somente o lemos mas vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterrâneos.7 Contudo, explicações deste gênero não foram sufi- cientes para resolver o dilema proposto, tanto é que DHol- bach replicavaem 1774: E tenninou, ironicamente, após descrever diversos Será que o sol que brilhou para os livres gregos e ro- costumes daqueles índios Tupi: "Tudo isso é interessante, manos emite hoje raios diferentes sobre os seus dege- mas, que diabo, essa gente não usa calças." nerados descendentes?10 Desde a Antigüidade, foram comuns as tentativas de explicar as diferenças de comportamento entre os-home~ Qualquer um dos leitores que quiser constatar, uma a partir das variacões dos ambientes físicos. vez mais, a existência dessas diferenças não necessita retor- Marcus V. Pollio, arquiteto romano, afinnou enfa- nar ao passado, nem mesmo empreender uma difícil viagem tlcamente: a um grupo indígena, localizado nos confins da floresta amazônica ou em uma distante ilha do Pacífico. Basta com- Os povos do sul têm uma inteligência aguda, devido à raridade da atmosfera e ao calor; enquanto os das na- parar os costumes de nossos contemporâneos que vivemno ções do Norte, tendo se desenvolvido numa atmosfera chamado mundo civilizado. densa e esfriados pelos vapores dos ares carregados, I~ Esta comparação pode começar pelo sentido do trân- têm uma inteligênciapreguiçosa.8 sito na Inglaterra, que segue a mão esquerda; pelos hábitos culinários franceses, onde rãs e escargots (capazes de causar !bn Khaldun, filósofo árabe do século XIV, tinha uma repulsa a muitos povos) são considerados como iguarias, opinião semelhante, pois também acreditava que os habitan- até outros usos e costumes que chamam mais a atenção tes dos climas quentes tinham uma natureza passional, en- pura as diferenças culturais. quanto aos dos climas frios faltava a vivacidade. No Japão, por exemplo, era costume que o devedor Jean Bodin, filósofo francês do século XVI, desenvol- InHolventepraticasse o suicídio na véspera do Ano Novo,~fA ~JiV1 veu a teoria que os povos do norte têm como líquido do- como uma maneira de limpar o seu nome e o de sua famllia. minante da vida o fleuma, enquanto os do sul são domina- O harakiri (suicídio ritual) sempre foi considerado como dos pela bl1is negra. Em decorrência disto, os nórdicos são 1111<1 fonna de beroísmo. Tal costume justificou o apareci- fiéis, leais aos govemantes, cruéis e pouco interessados se. 10"111, ihidcm, p. 42. ? Montaigne, 1972, p. 107. ~I 1.ltlll, ihlllcm, p. 42. 8 Citado por Marvin Harris, 1969, p. 41.
  • 10. 16 cultura: um conceito antropológico 1mento dos "pilotos suicidas" durante a Segunda GuerraMundial. o DETERMINISMO BIOlÓGICO Entre os ciganos da Califórnia, a obesidade é conside-rada como um IDalCaaOr vmJ1dade,mas também é uti- dalizada para conseguir benefícios junto aos programas gover-namentais de bem-estar social, que a consideram como umadeficiência física. A carne da vaca é proibida aos hindus, da mesma for-ma que a de porco é interditada aos muçulmanos, O nudismo é uma prática tolerada em certas praiaseuropéias, enquanto nos países islâmicos, de orientação São velhas e persistentes as teorias que atribuem capacida- xüta, as mulheres mal podem mostrar o rosto em público. des específicas inatas a "raças" ou a outros grupos huma- Nesses mesmos países, o adultério é uma contravenção gra. nos. Muita gente ainda acredita que os nórdicos são mais ve que pode ser punida com a morte ou longos anos de inteligentes do que os negros; que os alemães têm mais habi- prisão. lidade para a mecânica; que os judeus são avarentos e nego- Não é necessário ir tão longe, nesta seqüência de ciantes; que os norte-americanos são empreendedores e in. exemplos que poderia se estender infinitamente; basta veri. teresseiros; que os portugueses são muito trabalhadores e ficar que em algumas regiões do Norte do Brasil a gravidez pouco inteligentes; que os japoneses são trabalhadores, trai- é considerada como uma enfermidade, e o ato de parir é çoeiros e cruéis; que os ciganos são nômades por instinto, denominado "descansar". Esta mesma palavra é utilizada, e, finalmente, que os brasileiros herdaram a preguiça dos no Sul do país, para se referir á morte (fulano descansou, negros, a imprevidência dos índios e a luxúria dos por- isto é. morreu). Ainda entre nós, existe uma diversidade de tugueses. interdições alimentares que consideram perigoso o consumo Os antropólogos estão totalmente convencidos de conjunto de certos alimentos que isoladamente são inofen que asdiferenças genéticas não são deter~es das düe- sivos,como a manga com o leite etc. ronças cult~ Segundo Felix Keesing, "não existe corre- Enfim, todos estes exemplos e os que se seguem, ser- 1.lç.1osignüicativa entre a distribuição dos caracteres genéti- vem para mostrar que as diferenças de comportamen to co. o a distribuição dos comportamentos culturais. Qual- entre os homens não podem ser explicadas através das diver- quor criança humana normal pode ser educada em qualquer sidades somatológicas ou mesológicas--..- Tanto o determinJ~- (ultura, se for colocada desde o início em situação conve. mo geográfico como o determinismo biológico-,- omo mos. c lIlm!..do aprendizado". Em outras palavras, se transportar- traremos a seguir, foram incapazes de resolver o dilema pro. 11101.na o Brasil, logo após o seu nascimento, uma criança p posto no início deste trabalho. 17
  • 11. 18 cultura: um conceito antropológico da natureza da cultura 19 sueca e a colocannos sob os cuidados de uma família serta- ou temperamento. As pesquisas científicas revelam neja, ela crescerá como tal e não diferenciará mentalmente que o nível das aptidões mentais é quase o mesmo em em nada de seus irmãos de criação. Ou ainda, se retirarmos todos os grupos étnicos. uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma famlua de alta classe média de lpanema, o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de A espécie humana se diferencia anatõmica e fisiolo~ desenvolvimento que os seus novos irmãos. gicamente através do dimorfismo sexual, mas é falso que as ~50 Em 1950, quando o mundo se refazia da catástrofe diferenças de comportamento existentes entre pessoas de e do terror do racismo nazista, antropólogos físicos e cul- sexos diferentes sejam determinadas biologicamente. A"De.c.~YtN:Ao antropologia tem demonstrado que muitas atividades atri- turais, geneticistas, biólogos e outros especialistas, reunidos ~~ em Paris sob os auspícios da Ynesco, redigiram uma decla- buídas às mulheres em uma cultura podem ser atribuídas UNf5~O ração da qual extraímos dois parágrafos: aos homens em outra. A verificação de qualquer sistema de divisão sexual 10. Os dados científicos de que dispomos atualmen- do trabalho mostra que ele é determinado culturalmente e te não confirmam a teoria segundo a qual as diferen- não em função de uma racionalidade biológica. O transpor- ças genéticas hereditárias constituiriam um fator de te de água para a aldeia é uma atividade feminina no Xingu importância primordial entre as causas das diferenças (como nas favelas cariocas). Carregar cerca de vinte litros que se manifestam entre as culturas e as obras das ci- de água sobre a cabeça implica, na verdade, um esforço vilizações dos diversos povos ou grupos étnicos. Eles físico consideravel, muito maior do que o necessário para nos informam, pelo contrário, que essas diferenças o manejo de um arco, arma de uso exclusivo dos homens. se explicam antes de tudo pela história cultural de Até muito pouco tempo, a carreira diplomática, o quadro cada qrupo. Os fatores que tiveram um papel prepon- de funcionários do Banco do Brasil,entre outros exemplos, derante na evolução do homem são a sua faculdade eram atividades exclusivamente masculinas. O exército de de aprender e a sua plasticidade. Esta dupla aptidão é o apanágio de todos os seres humanos. Ela consti- hrael demonstrou que a sua eficiência bélica continua in- tui, de fato, uma das características específicas do tacta, mesmo depois da maciça admissão de mulheres sol- Homo sapiens. dddos. Mesmo as diferenças determinadas pelo aparelho re- 15. produtor humano determinam diferentes manifestações b) No estado atual de nossos conhecimentos, não foi (~lturais. Margareth Mead (1971) mostra que até a ama- amda provada a validade da tese segundo a qual os mcmtllçêlo pode ser transferida a um marido moderno por grupos humanos diferem uns dos outros pelos traços 1111110 mamadeira. E os nossos índios Tupi mostram que da psicologicamélae inatos, quer se trate de inteligência I) m.lIldopode ser o protagonista mais importante do parto.
  • 12. 20 cultura: um conceito antropológicoÉ ele que se recolhe à rede, e não a mulher, e faz o resguar- 2do considerado importante para a sua saúde e a do recém-nascido. o DETERMINISMO GEOGRÁFICO Resumindo, o comportamento dos indivíduos depen-de de um aprendizado, de um processo que chamamos deendoculturação. Um menino e uma menina agem diferente-mente não em função de seus hormônios, mas em decorrên-cia de uma educação diferenciada. o determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. São explicações existentes desde a Antigüidade, do tipo das formuladas por PolUo, Ibn Khaldun, Bodin e outros, como vimos anteriormente. Estas teorias, que foram desenvolvidasprincipalmente por ge6grafos no final do século XIX e no início do sécu- lo XX, ganharam uma grande popularidade. Exemplo signi- ficativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em . Huntington, em seu livro Civiljzation and Climate 1915, no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização, considerando o clima como um fator im- portante na dinâmica do progresso. A partir de 1920, antropólogos como Boas, Wissler, Kroober, entre outros, refutaram este tipo de ~erminismo .. demonstraram que existe uma limitação na influência Vltográfica sobre os fatores culturais. E mais: que é possível I comum existir uma grande diversidade cultural localizada 11111 mesmo tipo de ambiente físico. um Tomemos, como primeiro exemplo, os lapÕ8se os es- 1111111101. habitam a calota polar norte, os primeiros Ambos 21
  • 13. da natureza da cultura 23 22 cultUra: um conceito antropológico sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma sofis- no norte da Europa e os segundos no norte da América. ticada competição de canções entre os competidores. Vivem, pois, em ambientes geográficos muito semelhantes, Um segundo exemplo, transcrito de Felix Keesing, caracterizados por um longo e rigoroso inverno. Ambos é a variação cultural observada entre os índios do sudoeste têm ao seu dispor flora e fauna semelhante. Era de se espe- norte-americano: rar, portanto, que encontrassem as mesmas respostas cul- turais para a sobrevivência em um ambiente hostil. Mas isto Os índios Pueblo e Navajo, do sudoeste americano, não ocorre: ocupam essencialmente o mesmo habitat, sendo que alguns .índios Pueblo até vivem hoje em "bolsões" Os esquimós constroem suas casas (iglu) cortando dentro da reserva Navajo. Os grupos Pueblo são al- blocos de neve e amontoando-os num formato de deões, com uma economia agrícola baseada principal- colmeia. Por dentro a casa é forrada com peles de mente no milho. Os Navajo são descendentes de apa- animais e com o auxílio do fogo conseguem manter nhadores de víveres, que se alimentavam de castanhas o seu interior suficientemente quente. É possível, en- selvagens,sementes de capins e de caça, mais ou me- tão, desvencilhar das pesadas roupas, enquanto no nos como os Apache e outros grupos vizinhos têm exterior da casa a temperatura situa-se a muitos graus feito até os tempos modernos. Mas, obtendo ovinos abaixo de zero grau centígrado. Quando deseja, o dos europeus, os Navajo são hoje mais pastoreado- esquimó abandona a casa tendo que carregar apenas res, vivendo espalhados com seus rebanhos em grupos os seus pertences e vai construir um novo retiro. de faml1ias.O espírito criador do homem pode assim Os lapões, por sua vez, vivem em tendas de peles envolver três alternativas culturais bem diferentes - de rena. Quando desejam mudar os seus acampamen- apanha de víveres, cultivo, pastoreio - no mesmo tos, necessitam realizar um árduo trabalho que se ini- ambiente natural, de sorte que não foram fatores de cia pelo desmonte, pela retirada do gelo que acumu- habitat que proporcionaram a determinante princi- lou sobre as peles, pela secagem das mesmas e o seu pal. Posteriormente, no mesmo habitat, colonizado- transporte para o novo sítio. res americanos tiveram que criar outros sistemas de Em compensação, os lapões são excelentes criado- vida baseados na pecuária, na agricultura irrigada e res de renas, enquanto tradicionalmente os esquimós na urbanização.2 limitavam-seà caça dessesmamíferos. 1 o terceiro exemplo pode ser encontrado no interior A aparente pobreza glacial não impede que os esqui- d(l nosso país, dentro dos limites do Parque Nacional do mÓstenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra- Xlnqu. Os xinguanos propriamente ditos (Kamayurá, Ka- hl~ 111,ibll1cm, p. 183. 1 Cf. Felix Keesing,1961, pp. 184-85.I I
  • 14. 24 cultura: um conceito antropológicolapalo, Tromai, Waurá etc.) desprezam toda a reserla de 3proteínas existentes nos grandes mamíferos, cuja caça lhesé interditada por motivos culturais, e se dedicam mais in- ANTECEDENTES HISTÓRICOStensamente à pesca e caça de aves.Os Kayabi, que habitam DO CONCEITO DE CULTURAo Norte do Parque, são excelentes caçadores e preferemjustamente os mamíferos de grande porte, como a anta, oveado, o caititu etc. Estes três exemplos mostram que não é possível admi-tir a idéia do determinismo geográfico, ou seja, a admissãoda "ação mecânica das forças naturais sobre uma humani-dade puramente receptiva". A posição da moderna antro-pologia é que a "cultura age seletivameme", e não casual- No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o ter-mente, sobre seu meio ambiente, "explorando determinadas mo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todospossibilidades e limites ao desenvolvimento, para o qual os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a pa-as fo~as decisivas estão na própria cultura e na história da lavra francesa Civilization referia-se principalmente as rea-cultura" .3 lizações materiais de um povo. Ambos os termos foram As diferenças existentes entre os homens, portanto, sintetizados por Edward Tylor. (1832-1917) no vocábulonão podem ser explicadas em termos das limitações que lhes inglês Culture, que "tomado em seu amplo sentido etno-são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio gráfico é este todo complexo que inclui conhecimentos,aIJlbiente.A grande qualidade da espécie humana foi a de crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capa- romper com suas próprias limitações: um animal frágil, cidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro provido de insignificante força física, dominou toda a natu- de uma sociedade".. Com esta dl!finição Tylor abrangia reza e se transformou no mais temível dos predadores. Sem om uma s6 palavra todas as possibilidades de realização asas domUlOUos ares; sem guelras ou membranas próprias humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendi- conqUlstou os mares. Tudo isto porque difere dos outros Zc1do cultura em oposição à idéia de aquisição inata, da anUnéUS ser o único que possui cultura. Mas que é cul- por tr.msmitidapor mecanismos biológicos. tura? O conceito de Cultura, pelo menos como utilizado 4tutllmente, foi portanto definido pela primeira vez por Tylor. Mas o que ele fez foi formalizar uma .déia que vinha --3 ~lar~hall Sah1ins, s.d., pp. 100-101. I I ,twllld Tylor, 1871, Capo I, p. 1. l5
  • 15. 26 cultura: um conceito antropológico da natureza da cultura 27crescendo na mente humana. A idéia de cultura, com efeito, Meio século depois, Jacques Turgot (1727-1781) aoestava ganhando consistência talvez mesmo antes de John escrever o seu Plano para dois discursos sobre históriaLocke (1632-1704) que, em 1690, ao escreverEnsajo acer- universal,afirmou:ca do entendimento humano, procurou demonstrar que a Possuidor de um tesouro de signosque tem a faculda-mente humana não é mais do que uma caixa vazia por oca- de de multiplicar infinitamente, o homem é capaz desião do nascimento, dotada apenas da capacidade ilimitada assegurar a retenção de suas idéias eruditas, comunicá-de obter conhecimento, através de um processo que hoje Ias para outros homens e transmiti-Ias para os seuschamamos de endoculturação. Locke refutou fortemente descendentes como uma herança sempre crescente.as idéias correntes na época (e que ainda se manifestam até (O grüo é nosso.)hoje) de princípios ou verdades inatas impressos heredita.riamente na mente humana, ao mesmo tempo que ensaiou Basta apenas a retirada da palavra erudita para queos primeiros passos do relativismo cultural ao afirmar que esta afirmação de Turgot possa ser considerada uma defini-os homens têm princípios práticos opostos: "Quem investi- ção aceitável do conceito de cultura (embora em nenhumgar cuidadosamente a história da humanidade, examinar momento faça menção a este vocábulo). Esta definição épor toda a parte as várias tribos de homens e com indife- equivalente às que foram formuladas, mais de um séculorença observar as suas ações, será capaz de convencer-se depois, por Bronislaw Malinowski e Leslie White, comode que raramente há princípios de moralidade para ser de- o leitor constatará no decorrer deste trabalho.signado, ou regra de virtude para ser considerada... que Jean Jacques Rousseau (1712-1778), em seu Discursonão seja, em alguma parte ou outra, menosprezado e con. sobre a origem e o estabelecimento da desigualdadeentredenado pela moda geral de todas as sociedades de homens, os homens, em 1775, seguiu os passos de Locke e de Tur-governadas por opiniões práticas e regras de condutas bem got ao atribuir um grande papel à educação, chegando mes-contrárias umas às outras" (Livro I, capo11,§ 10). mo ao exagero de acreditar que esse processo teria a possibi- Finalmente, com referência a John Locke, gostaría- lidade de completar a transição entre os grandes macacosmos de citar o antropólogo americano MarvinHarris (1962l.. (chimpanzé, gorila e orangotango) e os homens.3que expressa bem as impücações da obra de Locke para a Mais de um século transcorrido desde a definiçãoépoca: . Nenhuma ordem social é baseada em verdades ina- do Tylor, era de se esperar que existisse hoje um razoávelta:., uma mudança no ambiente resulta numa mudança no ACOrdO entre os antropólogos a respeito do conceito. Talcom -)orta.11ento."Z oxpoctativa seria coerente com o otimismo de Kroeber I Ih pOlIgídcos afastaram-se da linha evolutiva do homem há cerca ,I. }~f)f)O.OOO anos. de2 MarvID Harr:s, 1969.
  • 16. 28 cultura: um conceito antropológico da natureza da cultura 29que, ~O, escreveu que lia maior realizacão da Antro- dade da comunicação oral e a capacidade de fabricação depologia na primeira metade do século XX foi a ampliação e instrumentos, capazes de tomar mais eficiente o seu aparatoa clarificação do conceito de cultura" ("Anthropology", biológico. Mas, estas duas propriedades permitem umain Scientific American, 183). Mas, na verdade, as centenas afirmação mais ampla: o homem é o único ser possuidorde definições formuladas após Tylor serviram mais para es- de cultura. Em suma, a nossa espécie tinha conseguido, notabelecer uma confusão do que ampliar os limites do con- decorrer de sua evolução, estabelecer uma distinção de gê-ceito. Tanto é que, em 1973, Geertz escreveu que o tema nero e não apenas de grau em relação aos demais seres vi-mais importante da moderna teoria antropológica era o de vos. Os fundadores de nossa ciência, através dessa explica-"diminuir a amplitude do conceito e transformá-Io num ção, tinham repetido a temática quase universal dos mitosinstrumento mais especializado e mais poderoso teorica- de origem, pois a maioria destes preocupa-se muito mais emmente". Em outras palavras, o universo conceitual tinha explicar a separação da cultura da natureza do que com asatingido tal dimensão que somente com uma contração especulações de ordem cosmogônica.poderia ser novamente colocado dentro de uma perspecti- No período que decorreu entre Tylor e a afirmaçãova antropológica. de Kroeber, em 1950, o monumento teórico que se desta- Em 1871, Tylor definiu cultura como sendo todo o cava pela sua excessiva simplicidade, construído a partir decomportamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma visãoda natureza humana, elaborada no período ilumi- uma transmissão genética, como diríamos hoje. Em 1917. nista, foi destruído pelas tentativas posteriores de clarifica-Kroeber acabou de romper todos os laços entre o cultural ção do conceito. e o biológico, postulando a supremacia do primeiro em de- A reconstrução deste momento conceitual, a partir trimento do segundo em seu artiQo, hoje clássico, "O Su- de uma diversidade de fragmentos teóricos, é uma das ta- ~rorgânico" (in American Anthrqpologist, Vol. XIX, refas primordiais da antropologia moderna. Neste trabalho, nQ 2, 1917).4 Completava-se, então, um processo iniciado entretanto, seguiremos apenas os procedimentos básicos por Lineu, que consistiu inicialmente em derrubar o homem desta elaboração. de seu pedestal sobrenatural e colocá-Io ~entro da ordem da natureza.O segundo passo deste processo, iniciado por Tylor e completado por Kroeber, representou o afastamen- to crescente desses dois domínios, o cultural e o natural. O "anjo caído" foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor duas notáveis propriedades: a possibili-4 Alfred Kroeber, 1949, pp. 231-81.
  • 17. da natureza da cultura 31 4 Buscando apoio nas ciências naturais, pois considera cultura como um fenômeno natural, Tylor escreve em se- o DESENVOLVIMENTO DO guida: CONCEITO DE CULTURA Nossos investigadores modernos nas ciências de natu- reza inorgânica tendem a reconhecer, dentro e fora de seu campo especial de trabalho, a unidade da nature- za, a permanência de suas leis, a definida seqüência de causa e efeito através da qual depende cada fato. Apóiam firmemente a doutrina Pytagoreana da ordem no cosmo universal. Afirmam, como Aristóteles, que a natureza ni[o é constituída de episódios incoerentes,A primeira definição de cultura que foi formulada do pon- como uma má tragédia. Concordam com Leibniz no que ele chamou "meu axioma, ~ a natureza nun-to de vista antropológico, como vimos, pertence a E. Tylor, / ca age ~ saltos", tanto como em seu "grande prin-no primeiro parágrafo de seu livro Primitive Culture (1871). cípio, comumente pouco utilizado, que nada aconte-Tylor procurou, além disto, demonstrar que cultura pode ce sem suficiente razão". Nem mesmo no estudo dasser objeto de um estudo sistemático, pois trata-se de um fe- estruturas e hábitos das plantas e animais, ou na inves-nômeno natural que possui causas e regularidades, permi- tigação das funções básicas do homem, são idéiastindo um estudo objetivo e uma análise capazes de propor- desconhecidas. Mas quando falamos dos altos pro-cionar a formulação de leis sobre o processo cultural e a cessos do sentimento e da ação humana, do pensa-evolução. " mento e linguagem, conhecimento e arte, uma mu- O seu pensamento pode ser melhor compreendido dança aparece nos tons predominantes de opinião. Oa partir da leitura deste seu trecho: mundo como um todo está fracamente preparado para aceitar o estudo geral da vida humana como um Por um lado, a uniformidade que tão largamente per- ramo da ciência natural (. . .) Para muitas mentes meia entre as civilizaçõespode ser atribuída, em gran- educadas parece alguma coisa presunçosa e repulsiva de parte, a uma uniformidade de ação de causas uni- o ponto de vista que a história da humanidade é parte formes, enquanto, por outro lado, seus vários graus e parcela da história da natureza, que nossos pensa- podem ser considerados como estágios de desenvolvi. mentos, desejos e ações estão de acordo com leis mento ou evolução. . . .2 equivalentes àquelas que governam os ventos e as ondas, a combinação dos ácidos e das bases e o cresci- mento das plantas e animais. 3, I:. T>"lor. 871[1958, parte 1, p.1l. 12 Idem, ibidem. , 1.11111, ibidcm, p. 2.30
  • 18. da natureza da cultura 33 32 cultura: um conceito antropológico gr~.ndeprecisão na comparação das raças do mesmo grau de Neste sentido, ainda na segunda metade do século civilização". XIX, Tylor se defrontava com a idéia da natureza sagrada Mais do que preocupado com a diversidade cultural, do homem, daí as suas afinnações no final do texto acima ,! Tylor a seu modo preocupa-se com a igualdade existente na e a sua preocupação expressa no seguinte: humanidade. A diversidade é explicada por ele como o re- Mas outros obstáculos para a investigação das leis da sultado da desigualdade de estáqios existentes no processo natureza humana surgem das considerações metafí- de evolução. Assim, uma das tarefas da antropologia seria a sicas e teologicas. A noção popular do livre-arbítrio de "estabelecer, grosso modo, uma escala de civilização", humano envolve não somente a liberdade de agir de simplesmente colocando as nações européias em um dos ex- acordo com motivações, mas também o poder de que- tremos da série e em outro as tribos selvagens,dispondo o brar a continuidade e de agir sem causa - uma combi- resto da humanidade entre dois limites. Mercier5 mostra nação que pode ser grossamente ilustrada pela analo- que Tylor pensava as "instituições humanas tão distinta- gia de uma balança, algumas veze~ agindo de modo mente estratificadas quanto a terra sobre a qual o homem usual, mas também possuindo a faculdade de agir por vive. Elas se sucedem em séries substancialmente uniformes ela própria a favor ou contra os pesos. Este ponto de vista de uma ação anômica dos desejos, que é incom- por todo O globo, independentemente de raça e linguagem patível com o argumento científico, subexiste como - diferenças essas que são comparativamente superficiais opinião manifesta ou latente na mente humana, e -, mas moduladas por uma natureza humana semelhante, afeta fortemente a sua visão teórica da história (. . . ) atuando através das condições sucessivamente mutáveis daI Felizmente não é necessário adicionar mais nada à vida selvagem,bárbara e civilizada". lista de dissertações sobre a intervenção sobrenatural Para entender Tylor é necessário compreender a épo- e causação natural, sobre liberdade, predestinação e ca em que viveu e conseqüentemente o seu background in-, responsabilidade. Podemos rapidamente escapar das telectual. O seu livro foi produzido nos anos em que a Eu-I regiões da filosofia transcendental e da teologia, para ropa sofria o impacto da Origem das espécies, de Charles iniciar uma esperançosa jornada sobre um terreno Darwin, e que a nascente antropologia foi dominada pela mais prático. Ninguém negará que, como cada homem estreita perspectiva do evolucionismo unilinear.6 conhece pelas evidências de sua própria consciência, causas naturais e definidas determinam as ações hu- manas.4 Após discutir as questões acima, Tylor reafinna a 5 Iaul Mercier, 1974, p. 30. 6 Segundo esta abordagem, todas as culturas deveriam passar pelas Igualdade da nat.lreza humana, "que pode ser estudada com mesmas etapas de evolução, o que tornava possível situar cada so- dcdllde humana dentro de uma escala que ia da menos à mais desen- ---- vulvida. 4 hkm. ibidem, p. 3.
  • 19. da natureza da cultura 3534 cultura: um conceito antropológico A década de 60 do século XIX foi rica em trabalhos unidade da espécie humana, por mais paradoxal que pos~a parecer tal afirmação, não pode ser explicada senão em ter-desta orientação. Uma série de estudiosos tentou analisar, mos de sua diversidade cultural.sob esse prisma, o desenvolvimento das instituições sociais,buscando no passado as explicações para os procedimentos Mercler considera Tylor u~ dos pais do difusionismosociais da atualidade. Assim, Maine em Ancient Law (1861) cultural. Lowie, em sua The History of Ethnological Theory (1937), faz no entanto uma oportuna ressalva: "O que dis-procurou analisar o desenvolvimento das instituições jurí- tingue Tylor do difusionismo extremo é simplesmente suadicas; o mesmo ocorreu com Bachofen, que em Das Mus-teITecht desenvolveu a idéia da promiscuidade primitiva e capacidade de avaliar as evidências. Recusando assumir a priori que toda semelhança resulta da dispersão, aplica cri.conseqüentemente da instituição do matriarcado.7 E emPrimitive Marriage (1865) McLennan estuda a instituição térios definitivos para a solução da questão." Como Adolfdo matrimônio a partir dos casamentos por rapto. Por Bastian (1826.1905), Tylor acreditava na "unidade psí-detrás de cada um destes estudos predominava, então, a quica da humanidade". Tal fato lhe foi útil para não cair idéia de que a cultura desenvolve-sede maneira uniforme, nas armadilhas do difusionismo (como veremos posterior- de tal forma que era de se esperar que cada sociedade per- mente), mas constituiu em sua falha o fato de "não reco- corresse as etapas que já tinham sido percorridas pelas "so- nhecer os múltiplos caminhos da cultura". ciedades mais avançadas". Desta maneira era fácil estabele- O seu grande mérito na tentativa de analisar e classi- cer uma escala evolutiva que não deixava de ser um proces- ficar cultura foi o de ter superado os demais trabalhadores so discriminatório, através do qual as diferentes sociedades de gabinete, através de uma crítica arguta e exaustiva dos humanas eram classificadas hierarquicamente, com nítida relatos dos viajantes e cronistas coloniais. Em vez da aceita. ção tácita dessas informações, Tylor sempre questionou a vantagem para as culturas européias. Etnocentrismo e ciên- veracidade das mesmas. Ao contrário de John Lubbock cia marchavam então de mãosjuntas. Stocking (1968) critica Tylor por "deixar de lado (1872), recusou aceitar a afirmação de que diversos grupos toda a questão do relativismo cultural e tomar impossível tribais, entre eles os aborígenes brasileiros, eram desprovi- o moderno conceito da cultura". A posição de Tylor não dos de religião. Tais afirmações, conclui Tylor, baseiam-se "sobre evidências freqüentemente erradas e nunca conclu- poderia ser outra, porque a idéia de relativismo cultural aivas" . está implicitamente associada à de evolução multilinear. A A principal reação ao evolucionismo, então deno- minado método comparativo, inicia-se com Franz Boas 7 Matriarcadorefere-se a uma sociedade em que o poder esteja nas (1858-1949), nascido em Westfália (Alemanha) e inicial. mãos das mulheres. Não há comprovação empÍrica da existência de mento um estudante de física e geografia em Heidelberg e tal sociedade. ~ comum, entretanto, confundir este conceito com o Bonn. Uma expedição geográfica a Baffin Land (1883- matrilineal, que se refere às sociedadesonde o parentesco é traçado IRM) que o colocou em contato com os esquimós, mudou pela lin ha materna.