Entrevista a Maria das Dores Queiroz (Gonçalo Sousa)
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Logo no primeiro contacto com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, a neta do mestre da ironia transmite uma interpretação sobre o lugar que ocupa no Mundo. “Não tenho muito para contar”, ...

Logo no primeiro contacto com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, a neta do mestre da ironia transmite uma interpretação sobre o lugar que ocupa no Mundo. “Não tenho muito para contar”, afirma com simpatia, mas também com inevitável distância, provocando sorrisos imediatos. Após as devidas apresentações, a boa disposição alastra em doses moderadas.

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Entrevista a Maria das Dores Queiroz (Gonçalo Sousa) Entrevista a Maria das Dores Queiroz (Gonçalo Sousa) Document Transcript

  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003)“Aprecio muito a Verdade”Entrevista com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, Marquesa de Ficalho
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003) INTRODUÇÃO Logo no primeiro contacto com Maria das Dores Eça de Queiroz de Mello, aneta do mestre da ironia transmite uma interpretação sobre o lugar que ocupa noMundo. “Não tenho muito para contar”, afirma com simpatia, mas também cominevitável distância, provocando sorrisos imediatos. Após as devidas apresentações, aboa disposição alastra em doses moderadas. Alguns minutos antes do início da entrevista ao “Jornal de Gaia”, Maria dasDores posa para a fotografia ao lado da estátua de Eça de Queiroz que embeleza umdos jardins do Solar Condes de Resende, onde o escritor se apaixonou por D. Emília deCastro. Sentada ao lado do avô que nunca conheceu em vida, a neta do escritor deficção mais realista que alguma vez existiu permanece escassos segundos a olhar paraa estátua. Com um peculiar sentido de humor, a Marquesa de Ficalho desvia os olhospara uma foto de Eça de Queiroz com os filhos ao colo, incluindo José Maria, pai deMaria das Dores, vira a cara novamente para a estátua, inspira o ar do jardimenquanto o Sol ilumina timidamente o seu rosto, repara que o fotógrafo ainda nãoterminou a sessão e comenta a sua figura de forma irresistível: “Aqui nesta parte dopescoço não fico bem, porque nota-se este buraco. Estão a ver? O meu perfil não émuito fotogénico. Não faz mal”. Após esta brincadeira, o sorriso nasce naturalmente na face da Marquesa deFicalho, invadindo também o espírito dos presentes, incluindo o historiador GonçalvesGuimarães, responsável pelo Solar Condes de Resende e anfitrião da tarde. Depois,Maria das Dores levanta-se e começa a falar sobre o esguicho de água que a fonte dojardim brota lenta e timidamente. A observação provoca de imediato a recordação deuma história pessoal e íntima, que conta com entusiasmo redobrado em cada frase.Então, subitamente, depois de explicar que já abandonou a ideia de construir umafonte na casa de Serpa, embora a ideia tenha alimentado durante muito tempoalgumas peripécias, conversas e momentos que foram agora recordados com prazer, 2
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003)deixa cair uma frase simples: “Estas japoneiras são mesmo muito bonitas”. A emoçãointensa com que pronunciou esta frase obrigou-me a olhar para as árvores e associá-las à beleza irresistível da natureza, assim como à carga dramática que Maria dasDores imprimiu na sua admiração. O cenário era ideal para reviver histórias: sol,sombra, relva, uma rosa altiva apontada com fervor, um banco, canteiros, um cavalo arelinchar, uma fonte, os pequenos caminhos que outrora foram percorridos pelosCondes de Resende, além de restantes familiares e amigos. Após dez segundos desilêncio ambos começamos a andar em direcção ao Salão onde decorreu a entrevista.Porém, mais do que o perfil da estátua de Eça de Queiroz, a sombra e beleza dasjaponeiras provocou uma cumplicidade feita de risos e confidências, criando umaenvolvência que suprimiu a natural distância entre o repórter e a entrevistada. INFÂNCIA DE SONHO “Nasci na Granja há muitos anos, mais precisamente no dia 18 de Julho de1918, mas apenas fui registada no dia 19 de Julho. O meu tio foi registar-me tarde e amás horas. Ainda por cima entrou no Registo Civil com o chapéu na cabeça. Então,disseram-lhe para tirar o chapéu. Ele perguntou porquê e responderam que a estátuada República merecia mais respeito. Depois, o meu tio respondeu: «Não conheço essasenhora». Acabou por ser expulso do Registo. Por causa desta história, acabei por serregistada apenas no dia seguinte”. As palavras saem com naturalidade e de formaininterrupta Maria das Dores, terceira filha de José Maria Eça de Queiroz e Matilde deCastro, explica as origens com orgulho: “Depois da implantação da República, a minhamãe foi para Londres, enquanto o meu pai foi para o exílio. Entretanto casaram emLondres e vieram para a Granja, que na altura era pequena e quase não tinha lojas,mas era um local muito chique e bastante divertido. O comboio rápido e o Sud-Expressparavam na Granja, o que dava movimento à zona, além de trazer pessoasimportantes”. 3
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003) As recordações dos seus primeiros anos de vida estão recheadas de bonsmomentos, conforme refere com entusiasmo: “A minha infância foi um bom sonho.Acho que, em geral, as coisas boas aparecem em forma de sonhos. Tive uma infânciamuito feliz. Passava muito tempo com uma tia-avó que me adorava e gostava imensodas viagens com ela”. Aliás, o conhecimento proporcionado pelos passeios constantespermitiu uma relação com a natureza que mantém inalterável: “Gosto da simplicidadeda ruralidade. Gosto dos pinheiros, os milheirais, os espigueiros, as praias, o mar...Enfim, gosto disso tudo e o verde é a minha cor preferida”. O humor peculiar daMarquesa de Ficalho surge novamente quando reafirma que passou uma infância felizcom os dois irmãos mais velhos e as duas irmãs mais novas: “Como éramos cincofilhos, acho que fiquei no meio da sanduíche. Devo ser o fiambre. A relação com osmeus irmãos era óptima e estávamos sempre muito divertidos”. INFLUÊNCIAS QUEIROSIANAS Apesar de nunca ter conhecido fisicamente o avô, Maria das Dores tem poucasdúvidas sobre a importância exercida por Eça de Queiroz durante a infância: “Nãopodia deixar de marcar a nossa vida, porque o meu pai vivia debruçado sobre osmanuscritos para publicar os livros póstumos”. Além desse factor, a Marquesaacrescenta: “Para mim foi muito importante psicologicamente, porque escrevi todas asminhas cartas de solteira na secretária do meu avô. Também tinha uma secretária nomeu quarto, mas achava que aquilo era uma porcaria, de maneira que ia para a sala eescrevia em cima da pasta do meu avô. Era uma pasta muito simples e não tinha graçade espécie alguma, mas tinha a graça de ele ter estado debruçado sobre ela. Ainfluência do meu avô na época resumiu-se a isso, porque na altura uma menina nãolia Eça de Queiroz”. A relação com a literatura produzida pelo mestre da ironia apenasfoi estimulada mais tarde. Embora não aponte a data exacta, Maria das Dores recordaque «A Cidade e as Serras» foi o primeiro livro do avô vislumbrado pelos seus olhos.“Depois, li quase todos os livros do meu avô, mas na altura gostei muito desse. No 4
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003)entanto, só li «Os Maias» quando já era casada. A minha sogra achou muito mal,porque achava que não era um livro para uma senhora. Não liguei ao recado”. Em relação a outras obras, Maria das Dores declara que, por exemplo, nãoterminou «O Crime do Padre Amaro». A explicação é simples: “Não acho mal dizer-seuma coisa que está errada mas que aconteceu, pelo contrário, acho justo dizer aVerdade, mas certas coisas daquele livro desagradaram-me. Sempre fui um bocadorespeitadora, pelo menos numas coisas, enquanto noutras talvez não seja”. Quanto àpersonalidade de Eça de Queiroz, Maria das Dores revela entre sorrisos: “Sei tudo domeu avô como se o tivesse conhecido, mas em concreto não sei nada. Ouvi muitashistórias através da minha família e divertia-me imenso com o que aprendia”. A morteprecoce do avô, falecido no dia 16 de Agosto de 1900 em Paris, foi um rude golpe paraD. Emília de Castro, conforme enuncia: “A minha avó nunca falava do meu avô. Nóssabíamos que ela tinha um grande desgosto com a morte dele, assim como ficoudestroçada com o falecimento do meu pai, que morreu com apenas 40 anos, em 1928,por causa da febre tifóide”. Somente nos últimos dias da vida é que D. Emília de Castroefectuou um comentário que Maria das Dores nunca esqueceu. “Apesar de ser umapessoa que tinha medo da morte, quando percebeu que ia partir a minha avó disse-nos para não ficarmos tristes, pois estava contente porque finalmente ia estar com omarido e o filho”, declara com emoção. AMIZADE PROFUNDA A influência da literatura na família nunca foi revertida para o campo da criaçãoartística. Aliás, Maria das Dores demonstra como estava afastada desse campo:“Escrevia aos meus amigos, mas nunca senti a vocação de escrever. Certa vez, umaprima minha decidiu fazer um concurso de quadras e fiquei muito atrapalhada, porquenem uma quadra sabia fazer. Mesmo assim, fiz uma rima em ão, porque era fácil, emque referia um portão e o Lão. A minha mãe apanhou aquilo e deu-me um par deestalos. Achei aquilo injustíssimo, porque eu não tinha nada com o Lão. Gostava dele 5
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003)como se fosse meu irmão, apesar de ser meu primo”. Entre as amizades deadolescência, Maria das Dores lembra-se muito bem do contacto com Sophia de MelloBreyner. A partilha de momentos de férias com a poetisa criou uma enorme amizade eadmiração que ainda hoje perdura: “A Sophia era muito minha amiga. Lembro-me queela punha-se em frente a uma janela virada para o mar e lia os versos que escrevia.Ficava completamente espantada com o que saía daquela cabeça de 14 anos e achavaos versos dela uma coisa lindíssima. O português da Sophia é muito bonito e pensoque a poesia dela é pura. Aliás, tudo para ela é poesia. Pode ser uma chaminé, umcandeeiro, o mar, as ondas ou o céu. Achava esquisito como ela conseguia fazeraquilo”. Sobre o sentimento que nutre pela poesia, a Marquesa de Ficalho também nãotem dúvidas: “Aprecio muito a Verdade, mas há certa poesia que não tem Verdadenenhuma. Em geral, não gosto dos poetas. Gosto de algumas coisas do FernandoPessoa, principalmente do Álvaro de Campos. Existem alguns poemas que são muitoconsiderados que acho uma bodega, de maneira que não sei nada de poesia. Apenashá uns que gosto e outros que não gosto”. Já sobre a literatura em prosa, Maria dasDores confessa que aprecia muito os autores franceses, mas não se assume como umaconhecedora profunda. “Acho que na literatura actual ninguém seguiu as pisadas domeu avô, porque ele criou textos absolutamente únicos, mas sou muito inculta nesseaspecto. Tenho lido pouco e não tenho paciência para comprar livros. Agora, ando a leras «Notas Contemporâneas», que acho um livro fantástico. Contudo, de vez emquando, acho que o meu avô devia estar calado. Penso que ele escrevia de umamaneira inacreditável, porque vê-se os miolos a mexerem no texto, mas tambémmetia algumas petas”, declara sem pudor e com bastante humor. 6
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003) PERDAS IRREVERSÍVEIS O casamento com António Martins de Mello, Marquês de Ficalho, aconteceuaos 24 anos, tendo começado a vida matrimonial em Lisboa. Depois, tal comoacontece actualmente, dividiu os seus dias entre a casa de Serpa e a capital dePortugal. “Já conhecia o meu marido desde criança, através de umas brincadeirassoltas, porque o meu sogro viveu um tempo na Serra do Pilar e também tinha casa naGranja, mas só depois da sua família regressar da Índia é que o conheci melhor.Lembro-me que gostava das nossas brincadeiras, mas não lhe achava graça nenhuma.No entanto, depois casei com ele”, afirma, enquanto explica a origem do título deMarquesa e o sobrenome Mello: “O Marquesado de Ficalho não é antiquíssimo. Aliás,foi feito no tempo de D. Maria II. Por sua vez, os Mellos são muito antigos, mas eramsó Mellos e depois foram senhores de Ficalho no século XVII”. A união entre AntónioMartins de Mello e Maria das Dores aumentou a família com mais três filhos, doisrapazes e uma rapariga, além de quatro netos, que são mencionados diversas vezescom prazer e orgulho. Sem recurso a dramatismos, a Marquesa não consegue apontar qual foi a maioralegria da sua vida, “não faço ideia, porque tive muitas alegrias”, mas nem precisa depensar quando revela a maior tristeza: “A morte do meu filho mais velho foi muitodolorosa. Faleceu com 40 anos já há muito tempo. Era um caçador exímio, além de seruma pessoa muito recta que não dizia uma mentira”. Além da grande dor provocadapor essa morte, Maria das Dores perdeu o seu companheiro eterno em 1990, falandomuito pouco sobre o assunto: “Senti uma mudança grande na minha vida. Uma viúva ésempre uma viúva. Seja lá onde e como for essa perda é sempre um grande desgosto”. 7
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003) RELAÇÃO COM GAIA Em relação ao Solar Condes de Resende, Maria das Dores guarda intimamenteóptimas recordações: “Visitava muitas vezes a minha tia neste Solar. Lembro-me dacasa estar velha e, sobretudo, recordo-me bem das camélias e dos degraus da entradae da capela. Não faço a mais pequena ideia do que sinto neste local. Gosto muito de viraqui, mas a gente às vezes não sabe porquê que gosta das coisas. Quase todos os anosvenho a Gaia passar uns dias com a minha irmã, que mora em Santo Ovídio, mas tenhosempre vontade de visitar o Solar. Já vim cá de propósito ao Baile das Camélias”.Contudo, existe outra casa que Maria das Dores gostaria de visitar e, sobretudo, vercom outro aspecto. Trata-se da casa da Granja onde passou tantos momentos defelicidade e que, desde há muito tempo, está num estado lastimável, devido à incúriados proprietários mais recentes. “Gostava de falar com o presidente da CâmaraMunicipal para saber o que é possível fazer neste momento para recuperar aquelacasa. Acho que foi comprada por alguém que está à espera que ela caia, o que é umapena, já que tem a ver com a viúva do Eça e podiam utilizar aquele espaço de outramaneira”, lamenta a Marquesa, que não quer melindrar os actuais proprietários, masapenas dignificar a memória da família. Em 1999, a Câmara Municipal de Gaia decidiu comprar um valioso conjunto dedocumentos dos séculos XVI a XIX, que estava nas mãos dos descendentes de Eça deQueiroz, tendo em vista a sua transferência para o Solar Condes de Resende. Maria dasDores aproveita a ocasião para corrigir uma ideia que, segundo esclarece, nuncacorrespondeu à verdade: “Esses documentos estão aqui por meu intermédio, mastambém por causa da minha irmã, ao contrário do que disseram. O arquivo estavaprovisoriamente em Santa Cruz, mas o meu sobrinho trouxe esse conjunto dedocumentos. Depois de organizar esse arquivo, a Câmara Municipal interessou-se e fezuma oferta que ambas aceitamos. Sempre pensei que o sítio ideal para o estudodesses documentos era o Solar Condes de Resende. Acho uma pena as famíliasespatifarem os seus arquivos e, por isso, esse espólio está aqui à disposição dos 8
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003)interessados”. Durante meados de 2000 e até Junho de 2001, Portugal foi inundadocom colóquios, livros, conferências, exposições e celebrações relativas ao centenárioda morte de Eça de Queiroz. Porém, apesar de apreciar homenagens dedicadas ao seuavô, como as estátuas que permanecem em várias cidades, Maria das Dores nãoesconde sentimentos contraditórios sobre essas comemorações: “Gostei imenso quetivessem festejado o Eça, mas acho um pouco exagerado festejar uma morte. Poroutro lado, claro que achei fantástico, porque saíram imensos livros e falou-se imensosobre o meu avô”. MUNDO SEM VALORES Durante a longa caminhada que percorreu durante a vida, Maria das Doresassistiu a muitas transformações, tendo, por isso, uma opinião formada sobre algumasdas mudanças que marcaram a vida nacional, como é o caso da Revolução dos Cravos.“No dia 25 de Abril de 1974 estava em Lisboa, mas não fiz nada de especial. Tinha umnó na garganta, porque estava nervosa por não saber o que ia acontecer em concreto.O meu marido ficou contentíssimo, porque não lhe passou pela cabeça o efeito que aRevolução teria sobre as propriedades do Alentejo. O meu marido foi aluno doMarcello Caetano e admirava o Salazar, por isso, dizia que era muito político, mastambém dizia que não podia fazer política num País que não tinha democracia. Era umsentimento misto”, explica com naturalidade. Depois, a Marquesa revela porque razãosentiu-se defraudada com os revolucionários: “No Norte de Portugal, a Revolução nãofoi porcaria nenhuma, mas no Alentejo foi uma porcaria, porque espatifou aspropriedades e os patrões. As herdades foram tiradas, depois foram dadas, o que foimuito duro para toda a gente. Só 20 anos depois é que concederam as indemnizaçõesmais ou menos acertadas”. Após manifestar a sua adoração infindável pela casa de Serpa, Maria das Doresreflecte um pouco sobre os tempos actuais. Desde 1974 até agora, Portugal sofreualterações que marcaram profundamente o modo de vida da sociedade nacional. No 9
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003)entanto, a Marquesa revela um cepticismo crescente face aos valores actuais: “Achoque está tudo maluco. As raparigas estão completamente malucas, despem-se até aospés. Acho uma coisa horrorosa. Acho que há muitos menos valores, há muitacorrupção, pelo menos é o que me dizem. As pessoas não têm palavra. Honra? O que éisso hoje? Honra? Acho que não há muita e tenho pena que seja assim”. CHÁ, BISCOITOS E MARMELADA No final da entrevista, quando o gravador já estava desligado, Maria das Dorescomeçou o lanche, enquanto a conversa continuou bastante viva. Entre outros temas,voltamos a falar do Portugal actual, trocando ideias e sentimentos sobre a coberturamediática que, por exemplo, os meios de comunicação social conferem à pedofilia eaos fogos. Porém, a conversa rapidamente girou para outros assuntos. Será que Eça deQueiroz conseguiria denunciar e afectar os valores que governam o Mundo actual? “Daforma como está o Mundo já não faço ideia de nada. Acho que está tudo umabarafunda de sentimentos e pensamentos que não sei nada. Não posso imaginar o quemeu avô escreveria actualmente. Gostava que fosse possível outro Mundo. Podiamreler o Eça para aprender algumas coisas”, responde com vigor. Sobre as mentiras oufalsidades que, por vezes, surgem sobre a vida dos familiares, Maria das Doresconfessa que não acredita que seja por maldade, embora não esconda algumairritação: “Às vezes quando leio certas coisas com muito ênfase fico um pouco irritadae apetece-me perguntar como o meu avô: Como é que sabes? Estavas lá?” Em nome da Verdade, Maria das Dores acrescenta rapidamente: “Pelo que sei,o meu avô não veio ao Solar Condes de Resende muitas vezes. Sei que foi aqui que seapaixonou pela minha avó, como está escrito numa carta. Às vezes, dizem-se coisassobre a minha família que não correspondem à Verdade. Depende do que dizem, masnormalmente não faço cenas. Uma vez escrevi uma carta a contestar um artigo quecomparava a minha avó com a Ana Plácido, mas o texto foi tão cortado que nem sepercebia o sentido do que tentei explicar. A única pessoa que me telefonou a confortar 10
  • Entrevista Jornal de Gaia – Gonçalo Sousa (Novembro 2003)foi a Sophia”. Chá, biscoitos ingleses, marmelada e bom humor foram os ingredientesque condimentaram o diálogo durante os minutos seguintes. “A língua portuguesa é aminha pátria”, declara Maria das Dores, citando Fernando Pessoa e encerrando aentrevista com mais um conjunto de histórias tão deliciosas quanto a marmeladacaseira que condimentou o lanche vespertino. Porém, tal como no início da tarde,Maria Dores não resiste a mais um comentário vertical e simples, que, no fundo,resume a sua visão sobre a Vida: “Tudo o que não é Verdade é mau. Nem vale a pena.Nunca disse petas. Quer dizer... Digo algumas, mas são mais desculpas inocentes doque mentiras. Gosto de dizer a Verdade às pessoas. Conhecer a Verdade é muitoimportante, seja ela qual for”. Gonçal o Sousa - (gsousa.beatdigital@gmail.com) http://www.linkedin. com/pub/gon%C3%A7 alo-s ousa/64/103/17 11