Breves traços do beato giácomo cusmano

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Breves traços do beato giácomo cusmano

  1. 1. http://sdpbrasil.blogspot.com/ Breves Traços Da Vida Do Padre Giácomo Cusmano Fundador Do “BOCADO DO POBRE” Palermo Gráfica “Bocado do Pobre” 1914
  2. 2. http://sdpbrasil.blogspot.com/ Estes “Breves Traços da Vida do Pe. Giácomo”, que vieram à luz a mais oumenos vinte e cinco anos após a morte do Beato padre, estão entre os escritos maispreciosos que dão testemunho dele. O anônimo livrinho que recolhera o que fora publicado no periódico “LaCaritá”, deve ser atribuído sem dúvida aos primeiros Missionários Servos dos Pobresque redigiam o periódico, de modo particular ao Pe. Miguel Fici, que cuidou dapublicação em 1914. Estes padres conviveram com o Pe. Giácomo e foram testemunhas oculares dacaridade heróica e sem limites, que o levou a consumir a vida no trabalho, contínuo esem pausas, a fim de levar de novo o pobre àquela dignidade humana e cristã,desvirtuada pela necessidade e pelo vício. Estas páginas possuem também outra preciosidade, a da língua. Embora jápassados tantos anos, conservam o frescor de uma obra recente. O que nos leva a re-imprimir esta obra é, antes de mais nada, o motivo de nãodeixar que se perca um documentos histórico tão importante, e de facilitar o primeiroencontro com o Pe. Giácomo aos jovens de nossas casas de formação e aos devotos fiéisque querem conhecê-lo em sua autêntica espiritualidade. Em apêndice, para completar o que foi narrado na obra, publicamos, na traduçãoportuguesa, o decreto promulgado pelo Santo Padre João Paulo II a cerca da heroicidadedas virtudes do Beato Padre, o discurso pronunciado por ele no dia da Beatificação e aCarta Apostólica com a qual ele levou ao conhecimento de todo o mundo cristão arealizada Beatificação. Palermo, 25 de julho de 1991, Pe. Giuseppe Giorgio, sdP. Superior Geral
  3. 3. http://sdpbrasil.blogspot.com/ AO LEITOR A coleção ordenada e resumida do que fora publicado em várias partes,especialmente em “La Caritá”, periódico da pia obra “O Bocado do Pobre” a cerca dofundador desta mesma obra providencial, deu origem a estes: Breves traços da vida doPe. Giácomo Cusmano. Na espera de uma história completa que ilustre as virtudes pessoais deste grandeServo de Deus e da pia Obra por ele fundada, achamos por bem imprimir estes brevestraços de sua vida, por ocasião da transladação de seus restos mortais para o Orfanatofeminino de Terre Rosse. Estes servirão, esperamos, a relembrar em tempos deexagerado egoísmo a luminosa figura deste grande herói da caridade, cuja memória éabençoada. Conforta-nos pois na publicação deste pequeno trabalho o lisonjeiro parecer quedeu o Revmo. Mons. Cônego Nicolau Crisafi, encarregado pela revisão eclesiástica. Este, após o Nihil Obstat escrevia estas palavras, que nós com gratidãopublicamos para provar a verdade histórica dos fatos que narramos: “Estou feliz de atestar minha complacência ao autor destes Breves traços da vidado Pe. Giácomo Cusmano. É um escrito em perfeita língua, historicamente verdadeiro até nos mínimosdetalhes, sem nenhum artifício retórico, ágil e simples em sua dicção, comovepermitindo-nos admirar cada vez mais a grande virtude daquele grande Servo de Deus edos Pobres que foi o Pe. Giácomo Cusmano”.
  4. 4. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO I Nascimento – Adolescência – Estudo do Pe. Cusmano De Giácomo Cusmano e Madalena Patti casados no civil e no religioso eornados de excelentes virtudes cristãs, nasceu o Pe. Giácomo em Palermo aos 15 demarço de 1834; foi batizado na tarde do dia seguinte na Paróquia de São Nicolau naAlbergueria. Ele foi o quarto de cinco filhos que o casal Cusmano tiveram, duas mulheres etrês homens. A primogênita Vincenzina foi a mais válida colaboradora nas obras decaridade do Servo de Deus, e a que melhor copiou em si as santas e heróicas virtudes doirmão. A outra irmã, Giuseppina, casada com o Senhor Salvador Marocco, deu ao Pe.Giácomo três de suas filhas que vestiram o hábito de Servas dos Pobres, duas delasainda estão vivas. Também o irmão mais velho, Pedro, ofereceu três filhas, que, mortascom o hábito de Servas dos Pobres, deixaram grande saudade na obra do Bocado doPobre. A mais velha destas, Irmã Madalena, foi entre as primeiras que recebeu o hábitoreligioso pelas mãos do Pe. Giácomo e substituiu a tia, Irmã Vincenzina, no cargo deSuperiora Geral das Servas dos Pobres. O irmão mais novo, Giuseppe, logo que foi criada a comunidade dos Servos dosPobres, vestiu o hábito de irmão, tomando o nome de seu Santo irmão. Com a idade de três anos, o Pe. Giácomo perdeu sua mãe que morreu de cóleraem julho de 1837; parece que a providência quis provar o pequeno Giácomo com umatão grande desventura para formar desde o amanhecer de sua vida a sua alma com ossentimentos de compaixão para com os infelizes. O vazio deixado na família pela morte da boa Madalena foi logo preenchido pelafilha mais velha Vincenzina, a qual assumiu o governo interno da casa. Foi ela que cuidou da primeira educação do pequeno Giácomo; este cresceu sobseus joelhos e recebeu no coração os germes do amor divino, que mais tarde, deviamproduzir frutos abundantes de caridade. Desde criança o nosso Giácomo começou a demonstrar como a graça antecedeuem seu coração a santa educação que recebeu por parte da pia irmã Vincenzina; nele apiedade era tão notável que parecia quase inata. Mas o que pareceu verdadeiramente extraordinário e maravilhoso neste filho dabênção, foi o seu engenhoso amor para com os pobres, amor com o qual devia seidentificar por toda a sua vida. Alguns detalhes da sua infância, contados pela sua mesma irmã Vincenzina, nosrevelam que grande alma possuía este tenro mocinho, que ainda ignorava as infinitasmisérias que afligem a humanidade. Suas primeiras ações foram as esmolas. Era ainda garotinho, e um dia viu queum infeliz menino não tinha camisa para cobrir seu corpo inocente. O pequeno Giácomonão agüenta, chama perto de si o pobrezinho, leva-o até a esquina, tira seu paletó, tira acamisa e a dá ao menininho, veste rapidamente o paletó e volta para sua casa. Outro dia se encontrava na sacada, e viu que um garotinho que passava não tinhasapatos. Giácomo o chamou, tirou os seus e os jogou embaixo ao pobrezinho. Ao ver um indigente despido ou faminto se afligia e então dava tudo, isto é, davao que naquela idade podia ter, seu pão, seu dinheiro. Freqüentemente, quando tomavacafé ia à janela esperando que passasse algum pobre e todo feliz o dava ao primeiro quese apresentasse.
  5. 5. http://sdpbrasil.blogspot.com/ Algumas vezes, como se lê na vida de São Vicente de Paulo, baseando-se nacaridade dos seus parentes da qual freqüentemente era testemunha, tiravaescondidamente o que recebia para comer, para vestir, o dinheiro que ganhava, e osdistribuía aos necessitados, ao ponto que seus parentes tiveram que chavear tudo,porque Giácomo à vista de um pobre não teria hesitado em dar até os talheres de pratada mesa. Giácomo recebeu as primeiras noções escolares à sombra do santuáriodoméstico por um pio e inteligente sacerdote, Pe. Francisco Li Bassi, que lhe ensinou aler, a escrever e as primeiras lições de gramática. O pai que o via tão inteligente e de boa vontade, logo o mandou estudar noColégio dos Padres Jesuítas, e com professores tão iluminados e preparados, quais sãoos beneméritos padres da Companhia de Jesus, a juízo dos mesmos adversários, fez comhonra os estudos de letras italianas e latinas e as disciplinas filosóficas, dando prova deinteligência pronta e perspicaz e de uma penetração de mente extraordinária. Porém, mesmo com esta cultura intelectual que possuía e que cada diaaumentava enriquecendo sua mente, não se distraía, como acontece normalmente comos jovens, das suas práticas de piedade e de religião, nem sequer prejudicou os germesde virtude que a graça tinha colocado abundantemente em seu coração, pelo contrárioserviu para elevar e embelezar seu espírito. As leituras que o jovem Giácomo mais gostava era as cartas dos missionários,especialmente os dos países infiéis. Natureza ardente, capaz de teimosas e generosas resoluções e sacrifícios,desejou sempre dedicar-se às Missões estrangeiras. Quem teve a sorte de conviver comele, muitas vezes o escutaram falar, até o final de sua vida, com ardentes palavras, dosperigos, dos sofrimentos, das fadigas enfrentadas pelos missionários, do bem e dasconversões realizadas por eles no meio dos povos infiéis e bárbaros, em invejar suasorte, e aspirar também o martírio, ou como ele brincando dizia “camiseta vermelha”! Contamos um fato de quando Giácomo era ainda estudante de humanidades naescola do Colégio dos Padres Jesuítas, fato que saindo das vias ordinárias, encontra-sesomente na adolescência de alguns santos e grandes homens. Giácomo naqueles dias estava lendo sobre as missões nas Montanhas Rochosas. Terminando as tarefas escolares se ajoelhava e fazia aquelas leitura com o maiorespírito de recolhimento e piedade. Eis que se acende nele o mais vivo desejo de tornar-se missionário. Começa logo a entrar em contato com os Padres da Companhia de Jesus,os quais conhecendo a alma pia e fervorosa do jovenzinho, encorajaram-no nesteardente desejo. Naquele tempo viera a Palermo o Pe. Geral da Companhia, e o pequenoGiácomo quis absolutamente fixar sua viagem no mesmo dia em que o Pe. Geralviajaria para Roma. Chegando o dia por ele tanto suspirado, vai embarcar-seescondidamente. Sabendo disso Pe. Mora, Jesuíta, amigo da casa Cusmano, corre ainformar a seu pai, o qual mandou o irmão mais velho Pedro, que o reconduziu paracasa xingando e batendo nele. Giácomo naquela época não tinha mais que quatorzeanos. Terminado o curso de letras e filosofia com a idade de dezessete anos, doColégio passou para a Universidade e se matriculou na faculdade de medicina. Ele teve para com a arte médica um culto apaixonado, e esta sua inclinaçãonatural, favorecida pelo engenho vivo e penetrante, ajudou-o a progredir nas disciplinasmédicas, sendo sempre o primeiro com a admiração dos mesmos professores quepreviam as mais felizes realizações por parte do Cusmano. A sua índole doce ecamarada, o seu caráter franco, leal, generoso, a fisionomia aberta e atraente lhe
  6. 6. http://sdpbrasil.blogspot.com/cativaram o afeto de todos, e logo Giácomo se tornou o centro da escola. Era semprerodeado pelos melhores entre seus companheiros, os quais gostavam de estar-lhe perto,conversar com ele, confiar a ele os segredos mais íntimos de seus corações, eaconselhar-se com ele em seus negócios mais importantes: e dado que ele se mostravaum grande gênio nas ciências que aprendia, os mais estudiosos se reuniam ao seu redor,e a sua casa foi transformada em sala anatômica. Disso renderam testemunho os mesmoseus companheiros, entre os quais alguns se tornaram ilustres e gloriosos na artemédica; muitos destes fatos da sua juventude contavam o mesmo Pe. Giácomo nosúltimos dias de sua vida, quando conversava com o Dr. Giovanne Piazza, que vinhavisitá-lo quase todos os dias, e que gostava de entreter-se longamente com o amigoíntimo dos seus primeiros anos. O Cusmano, como afirmava todos os seus antigos colegas, se tivesse continuadonos estudos se tornaria com certeza grande perito nas artes médicas e celebre naquelasciências. Entre os companheiros de estudo do Pe. Giácomo durante o curso universitário,recordamos Henrique Albanese, famoso cirurgião, merecidamente celebrado emPalermoe fora pela sua valentia. Por aquela afinidade de natureza que une freqüentemente as almas, entreAlbanese e o Cusmano se criou uma amizade tal que somente a morte pode quebrar.Tinham recebido os dois uma alma elevada, fervorosa, capaz de amar até o sacrifício ese amaram de verdade com afeto tenaz e sincero. Quando adulto, por vários motivos,tiveram que separar; o Albanese não cessou de amar o seu antigo companheiro, emesmo tende se tornado adversário feroz de Giácomo quanto aos princípios, sempre oestimou e venerou grandemente. Logo que Giácomo começou a freqüentar a Universidade foi visitado por umagrave desventura bem no mais profundo do coração. Aos 27 de julho de 1852 o Senhor Cusmano morria por prolongada doença,suportada com paciência cristã, deixando seus cinco filhos inteiramente órfãos. O nosso Giácomo naquela época tinha 18 anos, idade na qual o amor filial põeprofundas raízes e por isso se torna mais doloroso o encontro com a morte. Se a mortedo pai amargurou a carreira dos seus diletos estudos, por isso nem sequer foi distraído,porque os prosseguiu e cultivou com o mesmo ardor até completá-los na Universidade. Terminado portanto o estágio teórico e prático começou a exercer a profissão demédico em Palermo, mas dado que interesses familiares o obrigavam freqüentemente amorar em San Giuseppe Jato, esta cidade ganhou as vantagens provenientes da rarainteligência e bondade de alma do jovem médico. Verdadeiramente naquele brevetempo em que exerceu a medicina foi o gênio benéfico daquele município. De suaperícia médica se contam muitas coisas, como por exemplo cirurgias e curar realizadasquase sempre com ótimos resultados: isso lhe adquiriu demasiadamente o afeto e aestima daquele podo a tal ponto que a memória e a impressão perduram até hoje. O nosso Giácomo entendeu o exercício da sua profissão como o alívio,especialmente dos Pobres, em favor dos quais dirigiu a inteligência, a atividade efreqüentemente os seus bens, nunca aceitando deles a mínima doação, mas recebendocomo compensação de suas fadigas, a alegria de beneficiá-los. Os doentes o procuravam em multidão antes de amanhecer, pelo fato que eramcamponeses e deviam ir para a roça. Ele mesmo contou várias vezes que os doentes de lá não lhe davam sossego; umdia, voltando para Palermo estava a quase um quilômetro da cidade quando percebeuque uma pobre mulher corria, esforçando-se para alcança-lo. Mandou então o cocheiroparar, e conhecido o motivo pelo qual aquela pobrezinha o procurava, sem perder tempo
  7. 7. http://sdpbrasil.blogspot.com/pagou a viagem e a pé voltou à cidade para fazer os curativos no marido daquela mulherque havia sido ferido no pé por um tiro. Estupendas manifestações de um coração quevive de caridade!
  8. 8. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO II Abraça o estado Eclesiástico – Começa a pensar numa instituição religiosa a serviço dos Pobres Embora o Pe. Giácomo, terminados os seus estudos de medicina, começasse arecolher os primeiros frutos na assistência dos enfermos pobres, coisa que satisfazia suairresistível tendência de ajudar os infelizes, sentia em si que não era aquela a metaprefixada por Deus. Desde quando era estudante, interrogado pela irmã Vincenzina se estudava comgosto a medicina, respondia: Sim, estudo-a com prazer, mas tenho o pressentimento quenão serei sempre médico. Então, como aconteceu sua transformação de médico doscorpos em médico das almas? De que modo o Senhor lhe manifestou sua vontade? Um dia, enquanto ainda freqüentava a Universidade, um querido amigo seu,Michele De Franchis, talvez por desejo manifestado por ele mesmo, apresentou-o aocônego Domênico Turano, que havia pregado os Exercícios Espirituais aos jovensuniversitários. Aquele grande apóstolo de Palermo, quando o encontrou ficou admiradoda fisionomia aberta, inteligente e do olhar puríssimo do jovem Cusmano; amou-o, leuem seu rosto os desígnios da Providência e se sentiu inspirado a cativá-lo para osacerdócio. Com a sua quente e influente palavra exerceu tamanha influência sobre ojovem doutor, que nunca mais se apagou durante a sua vida. “Eu – contava o cônego -senti algo no coração, e ainda não sei expressar o que provei naqueles momentos, e queincêndio se despertava no meu coração”. Giácomo o escolheu por seu pai e mestreespiritual e confiou inteiramente sua alma nas suas mãos. O Pe. Giácomo disse depois,que o Turano começou exortando-o a comungar todos os dias, e que ele tirou grandefruto daquela comunhão diária. De fato, logo que seu diálogo com o Senhor se tornoumais freqüente, e o Deus escondido pode entreter-se com ele de coração a coração,sentiu aquela palavra divina, que nem todos podem ouvir, aquela palavra que o chamavaa uma vida de completo sacrifício e abnegação e que o queria todo para si. O Cusmanosentiu em seu coração aquela voz pela qual se decidiu a pedir ao seu guia a bênção paraentrar numa ordem mendicante como simples frade leigo. Mas o Senhor, se por um ladose comprazia em ver os sentimentos de humildade e amor no coração de seu escolhido,por outro, não deixava de inspirar seu Diretor Espiritual a conduzi-lo por um caminhodiferente. Foi assim que por obediência ao seu Diretor Espiritual, aos 8 de dezembro de1859 vestia o hábito talar na Paróquia de são Giácomo, à beira mar, agora destruída, eingressava na Associação Clerical de Santa Maria do Fervor. Em um ano completou os estudos teológicos indispensáveis para a sagradaordenação, sob a guia do Monsenhor Pedro Boccone, atual Vigário Geral daArquidiocese de Palermo e então simples sacerdote. Recebeu a Tonsura clerical e as ordens menores aos 18 de março de 1860; oSubdiaconatoaos 24 do mesmo mês e o Diaconato aos 22 de setembro. E finalmente aos22 de dezembro do mesmo ano era ungido sacerdote com o Crisma sagrado. Todavia aceitou com relutância e grande senso de temor a sagrada ordenação, ecom freqüentemente ele mesmo dizia em sua profundo humildade: “eu sou o chamadoda última hora”. Logo que se tornou sacerdote entendeu mais claramente aquilo ao qual o Senhoro destinava; compreendeu sua missão. Numa carta dirigida em 1882 ao Pe. Daniel deBassano, confessor Papa Leão XIII e seu amigo, escrevia: “Chamado à última hora, e
  9. 9. http://sdpbrasil.blogspot.com/elevado por vontade de Deus ao sacerdócio em dezembro de 1860, senti em minha almao desejo de consagrar-me aos Pobrezinhos, assumir suas misérias, tirá-los de seusterríveis sofrimentos e aproximá-los de Deus”. Seria muito bonito poder registrar o programa da vida deste grande Servo deDeus com suas mesmas palavras! Ele foi fiel a este seu programa, não houve uminstante em sua vida em que se afastasse dele. A partir deste momento começou a traçaras primeiras linhas do grande ideal que queria realizar numa congregação religiosa;deste vivíssimo sentimento ele sempre tirou imensa força com a qual resistiu a todos osobstáculos e a todos superou. O programa não podia ser com certeza mais vasto. Basta ler aquelas suaspalavras para ver claramente que ele não fixou o olhar em algum tipo particular desantidade para imitá-lo em tudo ou parcialmente; não: ele fixou seu olhar no divinomestre e procurou encarnar em si aquele exemplar divino. Quando ele diz: “senti emminha alma o desejo de consagrar-me aos Pobrezinhos”, ele não faz distinção entrejudeu e grego, entre servo e patrão, entre homem e mulher, mas abraça a todos, pobres,sofredores, miseráveis, infelizes, seja a sua miséria espiritual ou corporal, porque todossão uma só coisa na caridade de Jesus Cristo. Ele se fez tudo para todos, e nenhuma coisa no mundo poderá frear e limitar suacaridade celeste. Quando ele acrescenta: “assumi suas misérias”, está estendendo a mão paraconvidar a Santa Pobreza a celebrar as núpcias com ele. Ele compreende com o grande Francisco de Assis, que a miséria humilha e abateo espírito do Pobre e entende que é necessário oferecer-lhe o conforto e descer paraencontra-lo em sua própria miséria; ele compreende que aliviará a angústia do faminto,compartilhando com ele o pão da caridade; compreende que trará paz e consolação aomiserável que não encontra vestuário para cobrir sua nudez, aproximando-se dele compobres e remendadas vestes; compreende que pode diminuir a vergonha do mendigomostrando-lhe que também ele é capaz de pedir o pão de porta em porta; compreendeque elevará o espírito abatido do Pobrezinho que vem procurá-lo em sua habitação,acolhendo-o em sua pobre cela que, privada de qualquer objeto de luxo, aproxima-semuito ao casebre do infeliz; compreende que lhe tornará menos amarga sua condição,mostrando-lhe sua pobre caminha que na verdade é um simples saco, que sua comida éuma sopa mal temperada junto a poucos pedacinhos de pão duríssimo, preto e atéembolorado. Por isso ele casou-se com a pobreza do seráfico Pai, amando-a semprecomo as pupilas dos seus olhos. Quando depois ele diz: “para tirá-los de seus terríveis sofrimentos paraaproximá-los de Deus”, ele está se lançando atrás da bandeira hasteada por Vicente dePaulo, e quer correr nos hospitais, entrar nas prisões, acolher os recém nascidos erejeitados, procurar os órfãos abandonados, abrir casas de repouso para os velhosenfraquecidos e para as velhas inválidas, estender os braços amigáveis e paternos àstransviadas e às moças que estão em perigo, para que correndo ao seu encontro pudessereconduzir suas almas a Jesus, que a todos comprou com seu divino sangue. É verdadeque ele oferecerá um pão ao faminto, mas ao mesmo tempo o alimentará com o pãocelestial que é a palavra de vida eterna; lavará e tratará também as chagas do enfermoulceroso, mas ao mesmo tempo levantará a mão para curá-lo de suas horríveis úlcerasque sujaram sua alma; estenderá a mão ao órfão, para procurar-lhe uma adequadaeducação, mas não deixará de formar à escola do amor de Deus aquela alma inocente,aquele coração cheio das graças da juventude; acolherá o velho moribundo, enquantoprocurará manter em vida aquele corpo que está apagando, cuidará de preparar a almapara a grande viagem; apertará ao coração o infeliz para consolá-lo, e no mesmo abraço
  10. 10. http://sdpbrasil.blogspot.com/abrir-lhe-á o coração sacerdotal, pronto a receber a confissão de seus pecados e dar-lheo perdão por parte de Deus, O novo ungido do Senhor se sente então inspirado por estes nobres sentimentos.É o Senhor que o vai formando à escola de sua divina caridade para depois servir-sedele em benefício de seus filhos infelizes. O Pe. Cusmano no entanto sente aquele fogo que lhe abrasa o peito, dilata seupensamento para ver as necessidades de todo o gênero humano; grandiosos ideaisagitam seu coração. É ele mesmo que diz: “O meu desejo era de ver surgir umacomunidade religiosa, a qual inspirando-se à caridade de Jesus Cristo, que assumiutodas as misérias da humanidade, se dedicasse totalmente ao serviço dos Pobres, paraconduzi-los das misérias desta vida às alegrias do céu. Os membros de tal comunidade,despojando-se de tudo para dá-lo aos Pobres devem achar uma grandíssima sorteservir o mesmo Jesus Cristo no Pobre, trabalhando, mendigando o necessário,colocando-se em tudo depois dos Pobres, preferindo faltar a eles as coisas necessáriasà vida do que aos Pobres”. E com maior clareza escrevia em outra ocasião, que elesempre almejara “uma instituição de Irmãos e Irmãs, que vivessem em verdadeirapobreza e no espírito de abnegação evangélica, para reerguer a todos das misérias edos sofrimentos; uma instituição também de Missionários, dedicados à direção dos doisInstitutos e à evangelização apostólica dos Pobres; e enfim duas Congregações, uma deDamas, outra de Senhores, os quais deveriam atrair pessoas em favor dos Missionáriose assim ganhá-las para Jesus Cristo”. A idéia, portanto de uma Instituição que estendesse sua obra a cada misériahumana e tivesse os mesmos limites da terra, foi o pensamento sublime diante do qualmeditava a alma do Cusmano e que atormentou o seu espírito sete anos, dia e noite.Sobre isto conversava freqüentemente com sua irmã Vincenzina, e às vezes, acordandode manhã lhe dizia: Vincenzina, esta noite não pude dormir, e sabe por quê? Pensei noque se poderia fazer para os Pobres. Mas ainda não tinha chegado o tempo decidido pela divina Providência, cujasobras requerem como virtude essencial a paciência, a longanimidade, a provação. No momento ele se acontentava em correr à cabeceira dos moribundos passandoa noite inteira a reanimar aquelas almas angustiadas; acontentava-se em dirigir palavrasde conforto aos míseros que corriam a ele pedindo socorro; acontentava-se em dar a elestudo o que era seu, enquanto seu coração se partia à vista das miséria que afligiam osseus irmãos. Foi neste período que em São Giuseppe Jato, superando indizíveis dificuldades,envolvendo o povo e as autoridades, conseguiu fundar um Instituto de Filhas daCaridade, que se tornou tão útil para aquelas populações rurais.
  11. 11. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO III Como lhe nasce a idéia do “Bocado do Pobre” – Provações às quais o Senhor o submeteu – consegue fundar sua Obra. Um caso imprevisto determina muitas vezes a vocação dos homens bons, oupode ser um meio que a Providência apresenta a eles para atuar seus grandes projetos. Assim foi com a obra do Pe. Cusmano; teve início e também um nome por umacontecimento praticamente acidental. Um dia foi visitar seu íntimo amigo Dr. Miguel De Franchis. Estava na hora doalmoço e ficou impressionado por um nobre gesto de caridade que se costumavapraticar diariamente naquela família. Viu que todos tiraram um bocado do próprio pratopondo-o em outro colocado no meio da mesa, e que eles chamavam “o bocado dopobre”. Terminando o almoço, entrava um pobre, sentava à mesa e os filhos seapressavam em servi-lo. Foi aquela faísca que acendeu uma grande chama no coração do Pe. Giácomo. Ele lê naquele fato somente o projeto de uma obra benéfica que a Providêncialhe inspirava. “Entre as obras de são Francisco de Sales – escreve o Cantú1 – existetambém a do bocado do pobre; em cada almoço se tira um bocado e isto basta paraalimentar centenas de pobres”. Sabia disso o Dr. De Franchis e o seu jovem amigo sacerdote? Não, poderíamosafirmá-lo. Uma coisa, porém está certa, que para o Pe. Cusmano aquele gesto foi comoque uma revelação totalmente nova; ele soube admirar o bonito daquele ato e tirar asoportunas conseqüências. Dizia ele: “se metade da população de Palermo se associassepara cumprir esta obra benéfica, privando-se de um bocado, poderiam-se alimentar atésete mil pobres em um só dia”. Com um tal pensamento seu coração exultou. Ele descobriu o meio, um meio simples, para atuar seus grandes ideais; e já viaos pobrezinhos alimentados, salvas as órfãs desamparadas e educado para a família,para a sociedade e para a Igreja o menor abandonado. Lê-se numa carta pastoral publicada por Monsenhor Naselli, então Arcebispo dePalermo, em favor da nascente Instituição, aos 6 de abril de 1869: “A idéia foiamadurecendo aos pés do crucifixo, foi submetida ao conselho de seu DiretorEspiritual”. Mas este – diz o mesmo Pe. Cusmano – pôs à prova por sete anos aqueledesejo. Esta prova foi duríssima, e precisou da ajuda do Espírito Santo, do qual o santojovem era animado, para resistir e perseverar até o fim. O Pe. Cusmano escrevia a tal propósito: “Eu sentia ardentíssimo, em meucoração, o desejo desta obra, e lutei tanto comigo mesmo durante sete anos sem podê-lo extinguir. Eu era contrariado por meu Diretor Espiritual, o qual queria que,esquecido tudo e apagado o meu desejo, dedicasse-me somente aos estudos. Mas aqueledesejo era tão forte no meu coração, tão firme estava aquela idéia na minha mente, queera impossível vencer-me, e aplicar a outras coisas as forças da minha alma.Naturalmente eu me acusava disso, e o meu Diretor achando que eu queria resistir naluta contra a obediência, várias vezes chegou a deixar-me sozinho de joelhos no1 CATÚ, Buon senso e buon cuore, Conf. XII.
  12. 12. http://sdpbrasil.blogspot.com/confessionário. Imagine a amargura da minh’alma e as angústias que oprimiam meupobre coração”. Finalmente, porém, a prova devia ter seu término, faltava somente a ocasião paraatuar a obra tão desejada. E esta se ofereceu propícia. No ano de 1866 uma louca revolta popular e uma epidemia de cólera que aacompanhou, a supressão das comunidades religiosas tinham acumulado imensas ruínassobre a cidade de Palermo. Muitas famílias definhavam e um triste dia apareceu nosjornais a notícia de que numa casa uma jovem e um menino tinham morrido de fome. A alma do Pe. Giácomo ficou dolorosamente despedaçada. Corre ao CônegoTurano, conta-lhe o piedoso caso e pede-lhe que lhe dê a suspirada permissão de iniciara obra em favor dos pobres, há muito tempo desejada. Recebida a bênção de joelhos, vairapidamente visitar as duas aflitas famílias. Bate à porta da primeira casa mas uma voz fraca de um pobre velho lhe fazentender que não podia abrir porque os seus jaziam por terra, morrendo de fome, quasenus. Voa para outra casa e encontra – é horrível dizer – algumas pessoas famintas, àsquais nada sobrou, a não ser um cachorro; tendo tirado a pele, devoravam-no cru.Diante daquela cena repugnante não pode refrear o choro. Com ardente espírito decaridade começa a visitar algumas pessoas amigas para recolher esmolas, roupas emóveis para aquelas duas pobres famílias. Precisava porém pensar diariamente à sua subsistência; e ei-lo pelas ruas dacidade com duas grandes mochilas subindo e descendo as escadas de manhã até à noite,batendo de porta em porta e persuadindo a todos a fazer aquilo que ele tinha visto fazerem casa de De Franchis. Outras famílias pobres, no entanto, estimulavam suacompaixão: e ei-lo a multiplicar-se, recolhendo durante o dia os bocados de pão, restosde massa, roupas e outras coisas velhas, levando-as para sua casa dos Santos QuarentaMártires; e isso se repetia três ou quatros vezes por dia. Antes de escurecer colocava tudo sobre uma mesa e separava por gênero, paradistribuir de noite escondidamente às famílias mais miseráveis. O Pe. Giácomo fazendo a coleta se servia no início da ajuda de pessoas pagas.Depois, porém, atraídos pelas palavras e mais ainda pelo exemplo do Servo de Deus,um bom número de leigos devotos e de sacerdotes uniram-se a ele para ajudá-lo nacoleta e na distribuição dos socorros. Entre estes destacavam-se: o Pe. José Guarino,Cônego da Igreja de Magione, elevado depois à Sé episcopal de Siracusa e depois à Sémetropolitana de Messina e por fim feito Cardeal; o Pe. Ignácia Zucchero que depois setornou Cônego da Catedral de Palermo, secretário do Cardeal Celesia e por fim Bispode Caltanissetta; o Pe. Antônio Pennino, feito Cônego pelo Cardeal Celesia e depoisnomeado como seu Vigário Geral; o Pe. Pedro Boccone, ainda vivo e atual VigárioGeral do Cardeal Lualdi; o Pe. Francisco Mammana, que, tirado pela obediência do ladodo Pe. Giácomo para ocupar a tarefa de diretor espiritual do Seminário Diocesano dePalermo e nomeado Cônego da Catedral Metropolitana, voltava a reunir-se, após terrenunciado ao canonicato, ao seu amado pai e mestre em 1887, quando se inaugurava aCasa dos Missionários Servos dos Pobres, e sucedendo-lhe depois na direção da Obra. Alma, porém, da nascente pia Obra era a irmã do Pe. Giácomo, a boaVincenzina. Ela se ocupava de separar tudo aquilo que era recolhido na coleta e depoisdestiná-lo às várias famílias. A ela, após algum tempo, se uniu como colaboradora umajovem piedosa, repleta do Espírito de Jesus Cristo e da sua caridade; seu nome eraMaria Ana Delise. “Incansável, embora doente, escolheu para si quase todo o peso dafadiga: ela classificava os alimentos e os repartia para os pobres, apontava os doentespara serem socorridos; e recolhia os farrapos para fazer camisas, vestidos e outras coisasúteis; preocupava-se até em manter ordenados os registros para que servissem de guia
  13. 13. http://sdpbrasil.blogspot.com/àqueles que depois tomariam seu lugar. A heróica jovem gastou dois anos nestecaridoso serviço; quando de repente uma grave doença a arrebatou do meio de suasfadigas. Continuou até quando pode, com uma força que parecia prodigiosa. Na medidaque enfraquecia-se nela o vigor da natureza (era consumida pela tuberculose),aumentava a sua caridade; sentia a dor e o peso da doença somente quando era distraídados seus trabalhos de verdadeira caridade cristã. nos seus últimos momentos relembravaàs outras colaboradoras, os recursos a serem distribuídos aos Pobres. Todos os Pobreschoraram sua morte porque quando não podia ajudá-los materialmente, sempre dava osconfortos da alma, infundindo o espírito de paciência, e exortando-os, como mãeamorosa a confiar em Deus”2. Com tantos e zelosos cooperadores, a Obra ia se desenvolvendo. Uma associação, porém, de tamanha atividade à qual pertenciam um bomnúmero de eclesiásticos, numa época de muitas agitações políticas e de perseguiçãocontra a Igreja, não podia deixar de atrair a atenção suspeitosa da autoridade civil, demodo que o Pe. Giácomo foi chamado pelo comandante da polícia de Palermo para darsatisfações da Obra por ele fundada. Bastou um simples encontro para que o comandante da polícia se convencesselogo das sinceras intenções caridosas do Servo de Deus e ao invés de impedi-lo na Obraque havia empreendido, obrigou-o a apresentar um projeto ao governo para obter umacasa e auxílios para o melhor desenvolvimento da mesma Obra. Foi então que ele emmaio de 1868 escreveu privadamente ao Santo Padre Pio IX por meio do seu amigobeneditino, o Pe. Ercoli Tedeschi, que naquela época morava em Roma, “para obter –são suas palavras – do Santo Padre a aprovação e autorização de apresentar aogoverno um pedido para aceitar alguma casa religiosa aonde fosse oferecida. Pediu aomesmo tempo uma grande bênção que confirmasse a Obra e a preenchesse de todos osprivilégios e indulgências concedidas a todas as Obras de São Vicente de Paulo,desejando ao mesmo tempo que a Obra do Bocado do Pobre fosse filiada a ela,desejando que aparecessem na Sicília, por meio desta pequena semente, todas aquelasgrandes obras que mudaram e melhoraram as condições da França. Tudo isso pormeio de contribuições adaptadas às circunstâncias, aos tempos, aos lugares, afim deque se tornasse mais fácil a difusão da caridade no coração de todos, e enrobustecessea fé que parecia adormecida”. “O Senhor deveria relembrar – continua a falar, retornando sobre a sua idéiafixa – quantas belas idéias se planejavam no início desta Obra. O pedido que VossaReverência apresentará ao Santo Padre, deverá mostrar ao Santo Padre, deverámostrar as necessidades deste pobre e abandonado povo, e a paterna bênção Deleimprimir nas almas destes afortunados e generosos (homens e mulheres) que querem setornar pobres por amor dos Pobrezinhos de Jesus Cristo e ter a sorte de se consagrarao seu serviço, aquela fé, aquele espírito, aquela caridade, que leve a termo, em nossostempos, uma Obra tão grande e tão difícil a ser realizada”. Dado que não queria fazer nada sem primeiro ter certeza de agradar a Deus,fecha esta carta com estes sentimento que manifestam o homem de Deus: “O Senhorseria cortês dizer-nos a acolhida que fará o nosso Santo Padre a estes nossos desejos,os quais somos prontos a abandonar, se forem por ele minimamente desaprovados; poisé querida a nós do que qualquer outra coisa a adorável vontade de Deus, por causa daqual foi escrita esta presente. Se for a vontade de Deus que por meio do senhor sejaaprovado pelo Santo Padre todo desejo que aqui se manifestou, deixando ao zelocaridoso de Vossa Reverência formular o pedido como achar conveniente, então nos2 Carta Pastoral de Mons. Naselli.
  14. 14. http://sdpbrasil.blogspot.com/será leve todo obstáculo e doce toda pena que encontrarmos, seguros de agradar aDeus”. Após esta carta Sua Santidade Pio IX, após ter tomado as devidas informaçõescom o Ordinário, aos 5 de agosto de 1868, mandava-lhe sob forma de Decreto aApostólica Bênção sobre a Obra, e sobre todos os membros a ela agregados. No mesmodia do mesmo ano com documento da Sagrada Congregação dos Bispos e dosReligiosos, ele recebia a faculdade de pedir ao Governo Italiano, Casas de Religiosospara acolher os Pobres. Diante deste impulso dado pelo Sumo Pontífice, o Arcebispo Naselli, emdezembro do mesmo ano instituía canonicamente a Obra sob o título de “Associação doBocado do Pobre”. Assim ela teve o início difícil. Naquela ocasião se leu um discurso inauguralentre os associados e os cooperadores para estimular-se reciprocamente. O mesmoArcebispo propôs a criação de carteirinhas capazes de apresentar a Obra e seusignificado à primeira vista e ao mesmo tempo estimular o amor aos Pobres. Nacarteirinha foi representado o bom Jesus acolhendo de um lado os Pobrezinhos e deoutro as esmolas dos ricos que Ele recebia como feitas a si mesmo. A inscrição quecircundava a figura era conforme a idéia expressa na mesma: são as palavras de NossoSenhor: esurivi et dedistis mihi manducare: Quod uni ex minimis meis fecistis, mihifecistis. (Tive fome e me destes de comer: o que fizestes a um destes pequeninos, a mimo fizestes). A forma, porém, que a Obra estava tomando não respondia de modo algum àinspiração que o Pe. Giácomo tinha recebido de Deus. Ele não via surgir aquelacomunidade religiosa por ele desejada, “consumida na caridade para copiar em si avida de Jesus Cristo”. Isso se tornava para o seu coração motivo de grande sofrimento. Escrevia ele: “Eu sofria muito em servir-me de pessoas mercenárias e de outrasque, mesmo tendo vontade de cooperar, não tinham o desejo de unir-se em comunidadepara praticar a vida por mim desejada. Mas todavia este era o desejo dos Superiores.As necessidades falavam mais alto, faltavam as vocações, nem ele podia suscitá-las.Tive que me confortar com esta situação. O Arcebispo Monsenhor Naselli criou umconselho diretivo para organizar as coletas; foram criados também escritórios decontabilidade, arquivo, secretaria, inspetoria, e a Associação começou a tomarproporções interessantes.”3 A Carta Pastoral de Monsenhor Naselli nos informa sobre os felicíssimosresultados daqueles primeiros tempos. Os auxílios dados em vinte e dois meseschegaram a 48.428, isto é, se alimentaram mais de cem pobres cada dia, além das ajudasem dinheiro para manter as órfãs nos orfanatos, as moças, as virgens dos Colégios deMaria, sem contar os pobres enfermos curados em suas próprias casas e os remédios emédicos oferecidos gratuitamente.3 Carta ao Pe. Daniel de Bassano.
  15. 15. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO IV Novas provas às quais é submetido – Fica sozinho em sustentar a Obra por ele fundada – Renuncia ser pároco de Santo Hipólito – É nomeado membro do Conselho de Administração do Depósito de Mendicância – Renuncia ao Canonicato da Catedral de Palermo – Monsenhor Turano o conduz consigo a Agrigento – Passa as orfãzinhas para o Convento de São Marcos. Aonde Deus opera é preciso que o homem desapareça ou se esconda. Foi por isso que enquanto a obra do Pe. Cusmano tomava um satisfatóriodesenvolvimento, ele começava a sentir em si um grande desânimo que o mergulhavanuma angustiosa tristeza. Mais deixemos que ele mesmo nos descreva aquilo que então se passou no seucoração. Suas palavras deixam transparecer toda a santidade do Servo de Deus: “Apartir daquele momento uma profunda dor começou a entristecer a minha alma, porquea consciência me advertia que Deus não deixava surgir, pela minha indignidade adesejada Comunidade; sobretudo contristava-me o pensamento que eu tivessecomeçado a Obra com desejos que não eram pura e simples caridade, (oh santa, imensahumildade do Servo de Deus!). De maneira que sentia um ardente desejo de voar aos pé do Santo Padre Pio IX,confessar-lhe as graves iniquidades de toda a minha vida, manifestar-lhe os mausdesejos do meu coração, que pareciam estragar em mim o espírito de caridade, parasaber se aquele desejo que eu sentia era de Deus ou do demônio, e para decidir sedevia ou não continuar no caminho empreendido”.1 Sublimes sentimentos de filial confiança para com o Pai comum dos Crentesaqui na terra, o Santo Vigário de Jesus Cristo, lembra aquela confiança mostrada poroutros santos em semelhantes situações! Aqui aparece claramente como o espíritohumano desapareceu totalmente, para permanecer somente o espírito de Deus que seserve do seu ministro como de um dócil instrumento. E tal foi a prova à qual o Senhorquis submetê-lo que ele mesmo chegou a dizer: “Muitas vezes resolvi abandonar tudopara fugir na solidão e chorar, por toa a vida, o meu horroroso passado”. Em seguidacontinua narrando assim as coisas de então: “Todavia a Obra progredia, mais de vintesacerdotes partilhavam comigo a fadiga da coleta e da distribuição dos alimentos paraos Pobres a domicílio; um número razoável de leigos de ambos os sexos trabalhavamtambém: em casas alugadas separadamente estavam reunidos meninos e meninas que oConselho me autorizava a recolher para que mais proveitosa para suas almas setornasse aquela esmola que com tanto sacrifício se recolhia, oferecendo-a juntamentecom a palavra de Deus, com a instrução catequética, com o ensinamento das letras edas artes.1 Carta ao Pe. Daniel de Bassano.
  16. 16. http://sdpbrasil.blogspot.com/ Passaram mais ou menos quatro anos nesta feliz situação e não havia pobre queconhecêssemos que não recebesse os benéficos auxílios da Obra, antes, chegava até aestragar-se o pão e o macarrão pela abundância das esmolas, e era muito bonito vercomo por meio destas ajudas materiais se aproximavam as almas a Deus”. Mas quando o servo fiel do Senhor já começava a gozar um pouco em sua alma,vendo que quase se realizavam os seus desejos, e as coisas se encaminhavam para umêxito feliz, eis que o Senhor renova com mais dureza a provação, que qual fogo maisvivo e ardente deve purificar nosso Pe. Giácomo de toda levíssima imperfeição. De fato– é o Pe. Giácomo que escreve – “promovido ao bispado de Agrigento, o CônegoTurano, Vice-presidente do Conselho Diretivo da Obra, e ao mesmo tempo elevado aArcebispo de Siracusa o Cônego Guarino, um dos mais zelosos conselheiros, e quasetodos promovidos a altos cargos eclesiásticos, aqueles sacerdotes que tanto seafadigavam pelos pobres, encontrei-me de repente quase sozinho a sustentar comminha miséria todo o peso e responsabilidade da Obra. A coleta começou a diminuirem grande parte. Diminuíram as distribuições a domicílio, foi fechada a casa dasorfãzinhas, foram mantidas somente as órfãs internas pelo perigo de sua perdição.Governo e Prefeitura, não obstante suas promessas, permaneceram na mais completaindiferença, a coleta diminuía sempre, e parecia um milagre que por onze anos se podeprovidenciar o sustento daquelas infelicíssimas criaturas”. Nestes onze anos, o Pe. Giácomo ficou sozinho com um simples leigo que oajudava nas escassas coletas, e somente algum sacerdote dos mais afeiçoados, como oPe. Vincenzo Datino e o Pe. Francesco Mammana, que vinham ainda para ajudá-lo umpouco na assistência às órfãs. Estas eram confiadas à sua irmã Vincenzina e a outras trêsboas moças que deixando as famílias queriam dedicar-se a servir Jesus nos seuspobrezinhos, até o Senhor permitir o surgimento da desejada Comunidade. O Servo deDeus, porém, estava fiel no lugar onde a Providência o tinha colocado, pronto apermanecer como vítima do que dar um passo atrás. Na vida do Pe. Giácomo talvez é este o período no qual, melhor do que qualqueroutro, ele teve que mostrar aquela firme virtude que adornava seu nobre coração. Entretanto, enquanto o Pe. Cusmano levava sozinho a Obra que, como vimos sereduzia em manter vinte órfãos, vindo a faltar em 1871 o pároco de Santo Hipólito, aCâmara Municipal de Palermo que tinha o privilégio de nomear os párocos da cidade,unanimemente o chamava àquele cargo, e encarregava o Cônego Professor Vicente DiGiovanni, da Universidade de Palermo, então vereador municipal, de comunicar-lhe aescolha que dele se fizera. Eis como o ilustre Professor, que em seguida foi consagradoBispo, narra o encontro tido e a impressão que teve: “O Pe. Giácomo me olhava fixocom os seus olhos bondosos, na atitude de grande surpresa, e com o rosto pálido queriafalar, mas lhe faltava a palavra. Naquele momento com certeza passaram diante de seus olhos as suas orfãzinhas,pensou na sua Obra; não sabia quais os planos da Providência com aquela nomeação.Calando e sentindo grande confusão na alma, apareceram as lágrimas em seus olhos. Aúnica coisa que pode dizer-me foi: “Mas como, meu Padre? Eu não posso...” Entenditudo quanto se passava então naquela grande alma: ele era o Pai do Bocado do Pobre,era a providência das orfãzinhas, e era aquele e não outro o lugar destinado-lhe porDeus, querido pelo seu coração, exigido pelas condições dos tempos, necessitados denovas formas de caridade, de nova operosidade evangélica, de nova ação docristianismo numa sociedade egoísta e materializada pelo lucro e pelos prazeres baixosdo sexo. Pedi-lhe, portanto, com muita comoção, que ficasse sereno, e que teria pedidodos colegas da Câmara e ao Prefeito de Palermo de dirigir-se aos outros sacerdotes para
  17. 17. http://sdpbrasil.blogspot.com/providenciar um pároco para a paróquia vacante; e que ele ficasse no seu lugar de paiamoroso das orfãzinhas, como um sinal luminoso da caridade urbana. Teria sido maisfácil encontrar um pároco para uma paróquia, do que um pai para os Pobres e as órfãspelos quais fora instituído o Bocado do Pobre. O bom padre Giácomo sorriu às minhaspalavras com aquela doçura inefável dos lábios e das serenas pupilas; deixando-o, leveicomigo uma admiração ainda maior por aquela grande alma, por um coração quepalpitava somente pela caridade aos pobres, aos velhos, às orfãzinhas, imagens todos deJesus Cristo sobre a terra. De tais almas, (concluía o ilustre Monsenhor Di Giovanni), não se tem senãoraríssimo exemplo; e afortunados aqueles que puderam admirá-las de perto”. Depois da renúncia a ser pároco, a Câmara de Palermo com deliberação de 3 deabril de 1871, nomeava-o membro do Conselho de Administração do Depósito deMendicância. Tratando-se de uma assistência a ser dada aos Pobres, ele aceitou e foi nestaocasião que pronunciou um discurso que em seguida foi publicado, no qual defendendoa liberdade de consciência lesada por algumas deliberações daquele Conselho, deuprovas admiráveis de eloquência, mansidão e fortaleza sacerdotal. Foi naquele mesmo período que o Ex.mo. Cardeal Celesia querendo-o honrarpelos seus méritos preclaros, com insistência lhe oferecia a dignidade de Cônego daCatedral de Palermo. Mas ele soube suplicar tanto a seu venerável Pastor, queconseguiu não ser tirado dos Pobres aos quais tinha jurado consagrar-se inteiramente.Eis como relata este fato o mesmo Cardeal Celesia em ocasião 5º aniversário da mortedo Servo de Deus: “Como prova de nossa pastoral complacência por tão grande bem, emais como prova de estima pessoal, não como recompensa aos méritos que Deussomente podia conceder-lhe, nós, de bom gosto lhe oferecemos com insistência ashonras eclesiástica em nossa Catedral. Mas fomos profundamente edificados pelamodéstia, aliás, pelo desprezo com que a si mesmo tratava, que se tornou maisacentuado naquele momento em que prostrado no chão aos nossos joelhos, suplicoupara ser exonerado de tal honra, afirmando que, além de ser indigno, os Pobres, seusfilhos em Jesus Cristo, não podiam ficar sem sua contínua assistência e dos serviços detodo o gênero que tinha jurado prestar a eles. Acontentamo-lhe pela sua insistência: maso amamos mais ainda e nunca mais foi-lhe negada a entrada em nosso palácio nem tãopouco lhe negamos a entrada em nosso coração, abençoando-o em cada passo seu porcausa de sua Obra tão querida para Deus e para os homens”. Em 1872, consagrado como Bispo de Agrigento o seu Diretor Espiritual oCônego Turano, este quis conduzi-lo com ele naquela Sede para receber ajuda econselho no governo da Diocese. Obedecendo, o Pe. Giácomo, embora com o coração despedaçado por afastar-sede suas orfãzinhas, deixa estas aos cuidados da irmã Vincenzina e segue o seu Pai eMestre para o novo campo destinado por Deus às suas fadigas apostólicas. O afastamento do Pe. Giácomo fez com que a Obra caminhasse para a ruína. OPe. Mammana, que por ele fora encarregado em substituí-lo durante sua ausência,escrevia-lhe cartas de fogo, pressionando-o a voltar para Palermo se não quisesse que aObra se destruísse. O Pe. Giácomo, gemendo em seu coração, na oração e no silêncio,esperava que se manifestasse a vontade de Deus por meio da obediência. Uma destas cartas caída nas mãos de Monsenhor Turano o deixou muitoimpressionado. Foi então que ele, mesmo de má vontade, consentiu que o diletíssimoGiácomo voltasse a Palermo para sustentar a moribunda Obra do Bocado do Pobre. Uma carta enviada pelo Monsenhor Turano ao Pe. Giácomo aos 17 de dezembrode 1872, mostra todo o bem operado por ele em dois meses naquela Diocese. “Você foi,
  18. 18. http://sdpbrasil.blogspot.com/escreve-lhe, um rio de bênçãos que derramou a abundância na minha Diocese com a suabenéfica estadia”. Numa outra carta, queixando-se de não poder tê-lo consigo diz:“lembro-me que no ano de 1860, Monsenhor Cilluffo, apontando-te a mim, disse: eis oteu Timóteo. Você será São Timóteo e até mais, mas não para mim...” O retorno do Pe. Giácomo a Palermo serviu para aquele germe que aindapermanecia da Obra por ele fundada, não morresse, germe que ele devia regar efecundar som seus suores, suas lágrimas, seus gemidos, suas orações. Em 1873 conseguira transportar as orfãzinhas da incômoda casa dos SantosQuarenta Mártires no mais amplo Conventinho de São Marcos, gratuitamente concedidopela benemérita Confraria da Companhia de São Marcos Evangelista; mesmo assim, ascoisas não melhoraram muito, Vendo-o lutar contra toda esperança por tão longo período de tempo, não faltavaquem o chamasse de louco, de fanático, ou quisesse desviá-lo de seu caminho, mas eleque não baixava a cabeça como um vencido, mas confiava no Senhor, suportando comheróica mansidão toda maledicência e maldade, não deixava de renovar os esforços paracontinuar, aliás, para fazer ressurgir aquela Obra bendita.
  19. 19. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO V Quer confiar as orfãzinhas a vários Institutos religiosos – Confortado por um sonho misterioso, dá o hábito às primeiras Irmãs Servas dos Pobres. Passaram-se onze anos, onze longos anos de luta e de sacrifícios, e vendo o Pe.Cusmano faltar-lhe qualquer socorro, convicto que aquela Obra era querida por Deus,começou a pensar em confiá-la a algum Pio Instituto entre os aprovados pela Igreja,para impedir que a sua indignidade, como ele com profunda humildade dizia,continuasse a ser um obstáculo. Dirigiu-se então a várias Instituições religiosas para confiar suas pequenasorfãzinhas a piedosas Irmãs, às quais, mendigando de casa em casa o piedoso bocado,as poderiam socorrer. Porém, nem as Filhas da Caridade, nem as Pequenas Irmãs dos Pobres quiseramaceitar. Enquanto em seu coração pensava em recorrer às Estigmatinas, o Senhor que,em seus planos quisera provar tão longamente sua constância veio consolá-lo de ummodo todo especial. Deixemos a ele a palavra da narração de um fato que teve umaimportância capital na vida do Servo de Deus e na existência da Obra por ele fundada: “No dia em que recebi esta outra recusa (a das Pequenas Irmãs dos Pobres doAbade Lepailleur) cheguei ao cúmulo da minha dor. Havia terminado o meu trabalho –era hora do meu descanso – na amargura do meu coração, estava iniciando uma cartaao meu Diretor Espiritual para informá-lo sobre a resposta das Pequenas Irmãs dosPobres, e pedir-lhe licença de convidar as Estigmatinas e confiar a elas as orfãzinhas,abandonando totalmente a idéia de querer conservar ainda a Associação do Bocado doPobre que eu, por minha indignidade, via já destruída. Estava no término da cartaquando um sentimento de mal estar unido ao sono, sem perceber, fez-me deitar nacama que estava ao meu lado, e na quietude daquele repouso, parecia-me estar numcampo e na fenda de uma montanha que erguia-se à minha esquerda... Voltando oolhar, via um grande antro, onde estavam reunidas minhas pequenas órfãs com as boassenhoras que as tem sempre assistido. Atrás destas, distinguia uma outra Senhora amim desconhecida, também ela em trajes pobres, no ato de amamentar um menino.Estas coisas se manifestavam a um mesmo tempo e foi extrema minha surpresa, quandonaquela Senhora reconheci a Grande Mãe de Deus! (...) Um alto grito e um rápidoimpulso que me fez cair de joelhos aos pés da Mãe Santíssima, alertaram a todos, maseu, prostrando-me profundamente, beijava seus pés, sentindo-me confortado, seguro,livre de qualquer perigo, como um menino no aconchego do seio materno. Teria permanecido ali toda a vida, se a meiga Senhora, soerguendo-me, não metivesse avizinhado ao seu seio materno, onde, pouco antes, havia visto um menino; e,naquele instante, que não sei repensar sem comover-me, consolava-me da esperança deque a Obra era aceita pelo Senhor e que, oportunamente seria levada ao grande fimpelo qual a havia feito nascer.
  20. 20. http://sdpbrasil.blogspot.com/ Depois com o sentimento que aludia aos meus desalentos e à minhaindignidade: “É ao meu tenro Filho, é a Ele, a Ele só que tu deves tudo!” dizia-medirigindo seu doce olhar atrás dos meus ombros, olhar que tirou-me da posição em queme encontrava; porque naquele mesmo instante, por um sentimento espontâneo dereverência, de gratidão, de temor, voltei a procurar Aquele ao qual tudo devia; vi entãoo menino na idade de quatro anos, com os olhos vermelhos, como quem havia tido umgrande pranto, recolhido, sério, que obrigou-me a prostrar-me, pedir perdão dasminhas ingratidões, e implorar piedade para as pobres criaturas a mim confiadas,pedindo também a ajuda de sua Providência para saciar-lhes materialmente. Então me ergui e recolhi pedaços de pão, que constituía toda nossa provisão,mas, ao retornar, vi somente a Mãe de Deus. Prostrando-me, supliquei-lhe de abençoaraqueles restos de pães, para que fossem suficientes para a alimentação de todas asórfãs, e a Mãe Santíssima, com benévolo aspecto acolheu minha prece e abençoouaqueles sobejos. Contentíssimo, ergui-me para distribuir os pães às órfãs, quando,voltando o olhar, vi duas grandes panelas de ferro em meio a grande fogo, e a água emebulição que cozinhava o macarrão, lancei-me sobre elas, sem proteger as mãos,quando, a meiga Senhora me veio em auxílio. Quando acordei, surpreendi-me vestidona cama sem saber como. Não pensava nada daquilo que havia sonhado, porém meucoração não estava mais com aquelas angústias, que impeliam-me de escrever a carta,que eu deixara começada sobre a escrivaninha. Aprecei-me rapidamente para a celebração da Santa Missa, e noagradecimento, com nova surpresa, o sonho me veio à memória. Sinto ainda tantaconsolação só ao pensar no sonho. Contei tudo ao meu amigo sacerdote, ao qual, naausência do meu diretor espiritual, costumo dirigir-me para algum conselho (este era oCônego Antônio Pennino) e ele me proibiu de completar e enviar a carta começada,exortando-me, pelo contrário, a não deixar de buscar a instituição das Irmãs e dosFrades que deveriam sustentar a Obra conforme eu a tinha desejado, e não recorrer àsEstigmatinas, a não ser, quando, depois de se ter tentado tudo, visse claramente que oSenhor não queria esta nova Instituição. Continuei a trabalhar pacificamente em meio às dificuldades nas quais vivia hátantos anos, mas nenhum conforto humano via aparecer para iniciar a desejadaInstituição. Era um contínuo milagre da Providência a alimentação de tantos pobrescom a magra coleta que se ganhava durante o dia, a ponto de não ter coragem decomer minha sopa, sem antes ter certeza de que todos da casa estivessem saciados;após este período, a abundância começou a crescer a cada dia. Foi então que pormaior segurança de minha alma, e afim de conhecer melhor a vontade do Senhor, fuiconsultar uma pia pessoa, que fora muito favorecida pelo Senhor e pela VirgemSantíssima. (Esta era Melânia, que naquele tempo encontrava-se em Palermo). Após ter-lhe contado os meus problemas, ela com grande humildade me encorajou a continuarna Obra começada, servindo dos elementos que o Senhor tinha me dado sem procuraroutras Instituições para me ajudarem. Em seguida me animou a vestir as Irmãs e aprocurar reunir e iniciar a Comunidade daquele modo que o Senhor teria-meinspirado, confiando muito na ajuda de Deus e de Maria Santíssima, afim de que ascoisas prosperassem para a sua glória e a salvação das almas. Entretanto eu estava esperando a volta do nosso Monsenhor Arcebispo queestava fazendo uma visita pastoral, para pedir-lhe licença de vestir as primeiras Irmãs.Chegando lhe relatei tudo, consegui a licença de vestir as primeiras Irmãs e na festa da
  21. 21. http://sdpbrasil.blogspot.com/Santíssima Trindade do ano de 1880 tive a sorte de vê-las já trabalhando com aaprovação do Ordinário”. 1 Assim finalmente o Senhor premiava a constância heróica do Pe. Giácomo, e apartir daquele dia a Obra do Bocado do Pobre tomava sua verdadeira forma regular eestável, como desde o princípio se apresentara mais no coração do que na mente doServo de Deus. Muitos dias antes da vestição religiosa, sua sobrinha Madalena sonhara estar jávestida de Irmã: parecia-lhe estar trajada com um hábito preto, uma capa também preta,um capuz branco, um amplo avental azul, e um terço de Nossa Senhora ao lado. Foiaquele o hábito que o Pe. Giácomo adotou para as primeiras Irmãs, hábito que vestemainda hoje. O manto preto completa este hábito quando as Irmãs saem de casa. Durantea coleta saíam com dois alforjes brancos, pareciam anjos de misericórdia andando pelasruas de casa em casa, recolhendo as ofertas da caridosa cidade. As primeiras Irmãs que receberam o hábito sacro e às quais o Pe. Giácomo deu otítulo de Servas dos Pobres eram seis; primeira entre elas estava a Irmã Vincenzina.Educada na escola das grandes virtudes por aquele grande mestre de vida interior,Monsenhor Turano, foi o retrato perfeito de seu santo irmão e dividiu com ele a direçãoda Obra por tantos anos, também ela vítima da caridade. Que doçura inefável elaexperimentou quando foi revestida do branco véu e do humilde hábito das Servas dosPobres! Levada por natureza à vida de clausura venceu heroicamente a si mesma e selançou na nova via que o Senhor lhe apontou, consagrando-se inteiramente ao serviçodos Pobres. “Vê, dizia-lhe brincando o Pe. Giácomo, tu querias entrar num mosteiropequeno, ao invés o Senhor te quer num mosteiro grandíssimo. O mundo inteiro deveser para ti este mosteiro.” E ela permaneceu fiel no seu lugar até que em 1894 o Senhora chamou a receber o prêmio da sua caridade.1 Carta ao Pe. Daniel de Bassano
  22. 22. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO VI Conseguida do Prefeito de Palermo a Quinta Casa a beira mar, funda o primeiro Asilo de Pobres incapazes de trabalhar – sofre uma cirurgia – Suas relações com o Barão Turrisi. Logo que o Pe. Giácomo deu o hábito às primeiras Irmãs, com a bênção doArcebispo de Palermo e do seu Diretor Espiritual Monsenhor Turano, confortado pelacerteza de que a Instituição por ele a tantos anos desejada era querida por Deus, comtodo o impulso deu-se totalmente a todo tipo de obra de caridade. As Irmãs Servas dos Pobres, que com seu jeito humilde e modesto começaram aandar por toda a cidade para recolher o “Bocado do Pobre”, tornavam sempre maispopular o nome de seu Pai e mestre. A pequena Casa de São Marcos tornou-se em breveum centro de bênção aonde acorriam todos os tipos de necessitados e infelizes porquena inesgotável caridade do Servo de Deus encontravam ajuda e conforto. Foi assim quese formou aquele ditado popular: “A caridade está em São Marcos”. Existia naquela época em Palermo um lugar desprezível chamado Refúgio, ondeestavam reunidos, sem nenhuma distinção de sexo ou de idade, um grande número depobres abandonados por todos. Era prefeito de Palermo o Barão Nicolau Turrisi, o qual informado da condiçãodesagradável daqueles infelizes e da situação indigna na qual se encontravam, pensouresolver o caso assegurando a eles uma assistência mais humana. Movia-o a isso o fatoque, devendo chegar em breve em Palermo o Rei na ocasião das festas centenárias dasVésperas Sicilianas, queria tirar das ruas o grande número de pobres mendigos, quedavam a impressão de um triste espetáculo. Mas onde coloca-los e a quem confia-los? Portanto tivessem estudado paraencontrar uma solução, não conseguiam chegar a cabo de modo satisfatório emprovidencial à necessidade. Falaram-lhe do Pe. Cusmano e do seu espírito de caridade e de sacrifício; mas oBarão Turrisi que, embebido de preconceitos contra a Igreja, não era muito tenro com ospadres, não quis ouvir. No entanto o tempo apertava e não se encontrava nenhumasolução. Foi então que, apertado pela necessidade, decidiu-se finalmente dirigir-se aoPe. Cusmano, que nem conhecia. Apresentaram-lhe o Pe. Giácomo e bastou aqueleprimeiro encontro para que o Prefeito Turrisi ficasse de tal modo impressionado que setornou um dos maiores admiradores e protetores dele. O Pe. Giácomo com o coração exultante oferece a si mesmo e suas filhas, asServas dos Pobres para assistir todos aqueles pobres que quisessem confiar-lhe; o Barão
  23. 23. http://sdpbrasil.blogspot.com/Turrisi lhe promete por parte da prefeitura, toda ajuda material e moral. Começoudando-lhe a Quinta Casa à beira mar. Pertencia esta grande construção originariamente aos padres Jesuítas que autilizavam como Casa de retiro. Suprimida a Companhia de Jesus por Clemente XIV,aquela Casa passou às mãos do governo Bourbônico, o qual a destinou primeiramentecomo quartel e depois como cadeia dos endividados. Restaurada na Sicília a Companhiade Jesus em 1804, a Quinta Casa ficou com o governo dos Bourbons, até que caído em1860, esta passou a pertencer ao novo governo que acabou abandonando-a por causa domau estado no qual se encontrava. O Barão Turrisi a pediu e conseguiu por motivosbeneficentes. Conseguida a Casa, o Pe. Giácomo fez as necessárias reparações conforme anova destinação. Em março de 1881 todos os Pobres que se encontravam no Refúgioforam levados até lá. Eram dez pobres velhos inválidos, quinze velhinhas, seteorfãzinhas e vinte órfãos; era uma situação deplorável! Foi assim que as antigasaspirações do Servo de Deus foram finalmente concretizadas; ele via por caminhostotalmente providenciais à sua disposição uma grandíssima construção onde poderiaacolher todo tipo de Pobres abandonados. O pequeno grãozinho já começava a germinar; não passará muito tempo eproduzirá vigorosos rebentos. O Pe. Giácomo, porém, com grande pena não pode assistir à passagem dosPobres à Quinta Casa. Naquele dia ele estava constrangido a ficar na cama. As excessivas fadigas enfrentadas para preparar o local excitaram de tal modoaquele mal que o atormentava desde os primeiros anos do seu sacerdócio e que deverdade o tornara o homem das dores, a ponto de submeter-se a uma cirurgia. Tratava-se de uma profunda fistula intestinal. E o Pe. Giácomo se submeteu àquele corte com talfortaleza e tranqüilidade de espírito, a tal ponto de maravilhar aqueles que o visitavamapós a dolorosíssima cirurgia. Mal tinha se restabelecido voou à Quinta Casa para dedicar-se aos serviços maishumildes para com os Pobres que ali estavam, e os mais repugnantes eram os que maisatraíam seus cuidados. Um dia foi admitido um pobre velho paralítico. A entrada de um novo Pobre erauma festa para o Pe. Giácomo. Acolheu-o com gestos da mais viva alegria e, cingidoseu avental branco pôs-se a lavá-lo, penteá-lo e trocar-lhe a roupa. Arrumou a cama ecarregando-o no colo para deita-lo,olhou-o amorosamente e contemplando naquele rostoemagrecido a bela imagem de Jesus Pobre e sofredor, tenramente o abraçou e o beijou. O pobre velho paralítico, como o velho Simeão, não se continha da alegria, edizia: “Agora posso morrer, não desejo mais nada, o Pe. Giácomo me deu um beijo!” O Barão Turrisi que naquele primeiro período da abertura do asilo da QuintaCasa teve freqüentes ocasiões de aproximar-se do Servo de Deus, afeiçoou-se sempremais a ele,chamando-o de “o melhor dos meus amigos”. E o Pe. Giácomo que oconsiderava como o maior benfeitor da sua Obra, olhou-o sempre com a mais viva eafetuosa gratidão. E quando após alguns anos o Barão Turrisi sofreu uma paralisia quelhe tirou também o uso da palavra, o Pe. Giácomo empenhou-se em reergue-lo daquelaterrível doença. Como um dos maiores sofrimentos do pobre Barão era o de nãoconseguir deixar-se compreender em suas diversas necessidades, o Pe. Giácomo comsua operosa caridade, mandou colocar ao lado de seu leito uma taboa onde estavaescrito em grandes caracteres tudo o que lhe pudesse ser útil, de maneira que o pobredoente devia somente indicar com uma varinha o que precisava para logo ser servido. A caridade do Pe. Giácomo não se preocupava somente com os sofrimentos docorpo do Barão Turrisi; ele queria a todo custo salvar-lhe a alma. Com estrema
  24. 24. http://sdpbrasil.blogspot.com/delicadeza, servindo-se da estima que gozava do Barão, começou a induzi-lo a pensarem sua própria consciência. Com certeza teria conseguido se, nos últimos dias de suadoença, não tivessem com sua imensa dor, fechando-lhe a porta da Casa Turrisi,certamente não por vontade do pobre Barão.
  25. 25. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO VII Funda uma Casa de Misericórdia em Agrigento. Se grande consolação fora, para o Pe. Giácomo a fundação do Asilo da QuintaCasa, não menor foi a alegria pelo insistente convite que lhe fazia seu venerado PadreMonsenhor Turano de implantar a Obra em Agrigento. Existia naquela cidade um lugarsujo, fedorento, infestado de insetos, com o teto e o piso em ruínas. Encontravam-se aliinternadas muitas mulheres e moças, sem governo nem disciplina; saiam e entravam porconta própria e cada uma devia providenciar seu próprio sustento. Um leito de palha eum fogão de barro eram os únicos móveis de cada quarto. Monsenhor Turano gemia em seu paterno coração e, após alguns gravesproblemas aí ocorridos, tendo combinado com o Prefeito de Agrigento, dirigiu-se ao Pe.Giácomo para confiar às Servas dos Pobres a direção e a reforma daquela casa. O Pe.Giácomo entendeu rápido a dificuldade daquela missão. Como disciplinar aquelasjovens a tantos anos habituadas a uma completa liberdade? Como manterconvenientemente aquelas pobres desamparadas numa absoluta deficiência de meiosmateriais? Seu grande coração zeloso pela salvação das almas e a completa confiançaque tinha em Deus, fizeram com que ele não recusasse nem colocasse condições. Mas a quem entre as suas filhas confiar a árdua missão? Fazia-se mister apresença de almas acostumadas ao espírito de sacrifício e prontas a imolar-seinteiramente pela salvação do próximo. Primeira entre estas foi a própria irmã. E aoscinco de janeiro de 1882 a boa Irmã Vincenzina com outras cinco companheiras,acompanhadas pelo Pe. Giácomo chegam a Agrigento e tomam posse daquela Casa. Aboa madre andava entre aquela miséria, consolando aquelas jovens e animando-as arezar para que o bom Deus as ajudasse a melhorar sua condição. O Pe. Giácomo por sua vez derrama naquelas infelizes criaturas toda plenitudeda sua misericordiosa caridade procurando amansar aquelas jovens enfurecidas pelonovo gênero de vida à qual queriam submete-las. No entanto faltam as camas para as Irmãs e de um ínfimo albergue alugaram-seseis colchões de palha; mas onde coloca-los? Os quartos estão todos lotados; recorre-seao sótão, aí se encontra espaço. A Irmã Vincenzina é a primeira a caças os ratos, tirar ateias de aranha e tampar as frestas com papel. Aquele ninho de ratos do qual através dastelhas podia-se ver as estrelas por muito tempo foi o dormitório das Irmãs. A boa IrmãVincenzina, como era alta, freqüentemente batia a cabeça no telhado, mas não seimportava com estes incômodos. O que mais angustiava seu coração eram asdificuldades que encontrava na educação, moralização e formação religiosa daquelasjovens ali reunidas. Um trabalho longo, paciente, doloroso, levado adiante comabnegação e singular caridade foi o de derrubar os fogões, habituar as internas à mesacomum, proibir as saídas, arrancar tantos hábitos péssimos, espantar os vícios eincentiva-las à virtude. O que não teve de sofrer por vários anos a santa mulherjuntamente às heróicas Irmãs! Abertas revoltas, injúrias cotidianas, insultos, zombarias,implicância, ameaças... e ela sempre doce, amorosa, caridosa, constante em promoversua transformação. Era uma luta contínua entre pecado e graça, vício e virtude, brutal
  26. 26. http://sdpbrasil.blogspot.com/egoísmo e sublime caridade! Mas quem sustentava de fato aquelas heroínas era o Pe.Giácomo que, tendo voltado a Palermo, com seu espírito permanecia sempre no meiodelas. Com sua palavra ardente ele não deixava de animar continuamente as Irmãs nadificílima missão a elas confiadas de conforta-las em meio àquelas duríssimasprovações às quais tiveram que submeter-se. Assim de fato escrevia para a IrmãVincenzina em maio de 1882: “...Coragem e grande ânimo em todos osacontecimentos. Não se deixem nunca abater, minha filhas e não entristeçam vossasalmas; procurem sempre novos recursos para responder às necessidades dos Pobres,procurando sempre a salvação de todos. Quando pois suceder que as almas seobstinam à ação da graça, e aos contínuos esforços da caridade, transformam emveneno o leite das misericórdias de Deus, e tornam-se molestas não para vós, mas parasi mesmas e para as outras almas com suas desordens e escândalos, então convémconsentir à sua desaconselhada resolução de ir embora, esclarecendo para as outrasque são elas mesmas que querem se perder e não são vocês que as abandonaram... Eu me consumo no desejo de apascentar-vos com a Palavra de Deus, desustentar-vos e confortar-vos com seus santos conselhos, e assim que chegam vossascaríssimas cartas, gostaria de respondê-las prontamente uma vez que não posso correrem vossa ajuda. Mas o Senhor dispõe diversamente e tornam-se inúteis os meusesforços. Deus quer formar o nosso espírito com toda prova, quer que nossa confiançanele multiplique-se com os mesmos obstáculos que se interpõem claramente paraatrapalhar as mesmas obras da sua glória; quer que a nossa espera em sua ajuda sejasempre maior e verás, na medida em que desaparecem as esperanças humanas queconfortam os nossos corações. Este Deus de bondade não quer ser vencido porgentilezas, e estando vós prontas a responder ao seu convite e dedicar-vos ao seuserviço, quer ser somente Ele vossa ajuda e vosso conforto. Teriam a ousadia de dizer-me que não vos basta? Eu espero que não, antes faço votos que vossos corações exultem de ternura emseu amor e em sua união. Não digo isso porque queira ser poupado ou porque estejalonge de vós, mas porque sinto grandíssima pena em não ver vocês apreciarem, comvossa inteligência os tesouros infinitos com os quais Deus vos estreita ao seu coração;se pudesse tomar sobre mim vossos necessários sofrimentos e deixar em vossas almasos tesouros de Deus que eles vos trazem, quereria a todo custo fazer o possível paralivrar-vos e ver-vos repletas do Espírito Santo, sem ter a dor de sentir-vos sofredoras... Nós somos chamados a ser vítimas por amor a Jesus, servindo-o e ajudando-oem seus Pobrezinhos. Foi o Bispo que nos chamou a Agrigento e por conseguinteestamos seguros de aí estarmos por vontade de Deus... Meus caminhos não são os vossos caminhos, diz o Senhor; e se a prudênciahumana, minhas filhas, deve ajudar a formar a norma do nosso agir, mesmo assimnunca devemos temer os homens quando nos encontramos empenhados nas obras deDeus. Todos vos desprezam, ninguém se importa com vocês? No entanto vós, nahumildade e na paciência vos empenhais em amar o Bom Jesus desprezado eabandonado na pessoa dos seus Pobrezinhos? Pois bem, a obra de Deus está completa,o triunfo em todos os corações está seguro... Surgirá uma outra Instituição? Esta,o conseguirá melhor que vocês em operarem Jesus Cristo, e então terão o conforto de confiar aos seus cuidados o importanteserviço de Jesus sofredor em seus Pobrezinhos, ou viverá dividindo vossas privações eas imitarão santamente no serviço do Senhor, ou não será aprovada e acabará oobstáculo que a prudência humana faz temer. De qualquer maneira,o que a nós convém é empenhar-nos com todo zelo ecaridade em cumprir santamente o ministério que Deus nos confiou, e até que Deus não
  27. 27. http://sdpbrasil.blogspot.com/nos tire desta situação, procuraremos fazer com toda fidelidade os nossos deveres, e oSenhor se encarregará do resto...”. Para compreender bem o último trecho desta carta é preciso saber que nosprimeiros tempos que as Servas dos Pobres começaram a dirigir a Casa de Agrigento,elas não foram acolhidas benevolamente pela população. Não eram conhecidas, não se entendia bem qual era sua missão, por isso, quandosaíam para a coleta, eram rejeitadas por todos. Naquele tempo um sacerdote de Agrigento tentou fundar uma outra Instituiçãosemelhante que no princípio atraiu a simpatia dos cidadãos. Tudo isso, enquantodesanimava as pobres Irmãs, animava a fé do Servo de Deus, o qual, por sua vez,procurava reanimar o ânimo abatido de suas filhas com contínuas cartas. E estas cartasnão eram recebidas em vão pelas Irmãs. Entre estas encontra-se uma dirigida à IrmãVincenzina em setembro de 1883, na qual aparece o quanto tiveram que sofrer emAgrigento as primeiras Servas dos Pobres, verdades heroínas de caridade . Nesta carta,após ter exortado a Irmã a estar tranqüila no meio da tempestade que a circundava,aludindo ao seu antigo desejo das missões estrangeiras e do martírio, prosseguedizendo: “Agrigento é o Noviciado da China, e eu não acredito que a tua alma nãoaspire em preparar-se para a missão bárbara, onde, juntamente à alegre esperança deganha as almas que são possuídas pelo demônio, encontraras também a grandeconsolação de poder dar a vida por Jesus Cristo na infinita sorte do martírio. Estar em Agrigento é um martírio seco, quer dizer, sem derramamento desangue, sem tortura material mas justamente por isso é um martírio mais elevado,porque os instrumentos de tortura são morais, e o sacrifício se cumpre somente diantede Deus que é a única testemunha dos enormes sacrifícios que se fazem por seu amor...Coragem então, minha filha, e avante, com ânimo tranqüilo e cheio daquela calma queo verdadeiro amor desinteressado é capaz de dar”. Fortalecidas por estas santas exortações as filhas do Pe. Giácomo ficaram firmesem meio as mais duras provações materiais e morais. No entanto a Providênciadispunha-se em premiar a fé de seu fiel servo. Por ocasião de uma festa da cidade, houve uma caridosa pessoa que quis dae umsuntuoso almoço para todos os Pobres de Agrigento, incluindo as órfãs assistidas peloPe. Giácomo. Na ocasião foi feito um grande convite entre as mais distintas Senhoras daaristocracia agrigentina para que assistissem àquele. Estas acorreram em grande númerona Casa das Órfãs e ficaram fortemente impressionadas em ver o lugar onde moravamas Servas dos Pobres. Não paravam de chamar aquelas Irmãs de anjos terrestres que,movidas somente pela caridade viviam naquele lugar tão miserável em meio a tantasprivações. A nobre Senhora Margarida Montana conseguiu logo uma importância emdinheiro para que a Irmã Vincenzina pudesse reformar aquele local sujo e em ruínas.Muitas obras depois se empenharam para que as autoridades e toda a cidadania seinteressassem e viessem em ajuda daquela pobre Casa. O Pe. Giácomo , informado detudo, acorreu a Agrigento e para organizar este entusiasmo propôs a constituição doComitê das Damas de Caridade. Esta proposta foi acolhida com ímpeto. O Pe. Giácomoconvidou o Monsenhor Turano a dar uma palestra mensal àquelas nobres senhoras paraanima-as mais no espírito de caridade. Mas teve que sofrer muito em sua profundahumildade quando o Monsenhor Turano lhe impôs por obediência dar ele mesmo apalestra mensal. Dobrou a cabeça por obediência mas era uma tortura cada vez quedevia desenvolver algum tema diante daquelas pias senhoras. Pedia a este ou a outrosentre seu amigos para que lhe sugerissem uma idéia, dessem-lhe uma dica para
  28. 28. http://sdpbrasil.blogspot.com/desenvolver ou melhor, que lhe escrevessem toda inteira a palestra para decora-la erecitá-la em Agrigento. Mas por quantos esforços fizesse para preparar-se oudesenvolver algum tema sugerido por alguma amigo, nunca conseguia, no ardor do seufalar acompanhar os conceitos preparados: suas palestras eram sempre espontâneas esempre eloqüentes, capazes de envolver e levar a qualquer sacrifício as pessoas que oouviam. Foi assim que em breve toda a Agrigento se entusiasmou pelo Pe. Giácomo epela sua Obra; a coleta começou a receber abundantes esmolas; todas as classes sóciascompetiam em ajudar as pobres orfãzinhas, de modo que após algum tempo aquelapobre Casa tornada quase nova, pode oferecer comodamente a hospitalidade a oitentaorfãzinhas que, com sua piedade, tornaram-se a consolação do Servo de Deus.
  29. 29. http://sdpbrasil.blogspot.com/ CAPÍTULO VIII Funda um Orfanato Feminino em Terre Rosse – Abre uma Casa para as Órfãs, Pobres e Doentes em Valguarnera Caropepe, uma outra par Órfãs em Monreale e outra para Velhos e orfãzinhas em São Cataldo. Enquanto o Pe. Giácomo se ocupava da fundação da Casa de Agrigento, iaaumentando o número das orfãzinhas na Quinta Casa. Compreendendo bem em suacaridade iluminada que não era bom que as órfãs vivessem juntas com as velhinhas,começou a procurar outro local para instalar as meninas. Foi-lhe oferecida a casinha de Sommariva com um pequeno jardim ao lado nalocalidade de Terre Rosse a noroeste de Palermo. Precisavam, porém de 26 mil liras:onde consegui-las? O novo Cottolengo encaminha o negócio confiando na Providência. Até a véspera do dia em que devia assinar o contrato, ele não sabia ondeencontrar aquele dinheiro. Mas como – lhe diz o Pe. Gambino, o primeiro sacerdote quese uniu a ele para ajuda-lo em sua nobre missão – o senhor precisa de 26 mil liras eamanhã se deve assinar o contrato! Respondeu ele: “O negócio é de grande importância, se Deus o quer, Ele oprovidenciará”. E o Senhor providenciou. Naquele mesmo dia o nobre e piedoso SenhorBarão Rafael Starrabba oferecia-lhe as 26 mil liras, a serem devolvidas quando pudesse.Nesta Casa, a primeiro de maio de 1882 o Pe. Giácomo alojou trinta órfãs, eseparadamente os vinte órfãos que, como foi dito, tinham passado do Refúgio à QuintaCasa junto aos velhinhos. Lá permaneceram por dois anos assistidos pelo próprio Pe.Giácomo que por eles gastou as melhores horas do dia e com imensa alegria cuidava desua higiene, instrução e educação. Aquele Casa em seguida foi ampliada e totalmente restaurada por outro generosobenfeitor que gastou mais de cem mil liras: o senhor Salvador Celestre, fervidoadmirador do Pe. Giácomo, de maneira que em poucos anos pode acolher mais detrezentas órfãs, além das Irmãs que cuidavam das meninas. O Monsenhor Domingos Lancia, da família dos Duques de Brolo, Arcebispo deMonreale, no 5.º aniversário da morte do Pe. Giácomo, unindo a sua voz àquela dosvários outros Bispos, que naquela circunstância quiseram honrar a venerada memória doServo de Deus, assim escrevia: “Recordo com prazer que convidado pelo Pe. Giácomofui a Terre Rosse para consagrar com as orações da Igreja e a Bênção episcopal, aprimeira pedra para a fundação de uma Casa beneficente. A esta feliz inspiração daqueleServo de Deus, não parecia corresponder os recursos humanos. Contudo, não transcorrera muito tempo que eu passei por lá juntamente a ele, evi com surpresa que daquela pedra surgira, como por encanto, um magnífico edifícioonde encontram pão, trabalho, educação religiosa e civil centenas de inocentes órfãs.Era a fé do sacerdote Cusmano que sabia realizar tais milagres”. Multiplicando-se, no entanto, o número de Órfãos e dos Pobres, aumentavasempre mais no Pe. Giácomo o desejo de dar vida à Comunidade dos Irmãos Servos dos
  30. 30. http://sdpbrasil.blogspot.com/Pobres. Ele de fato teve que confiar os primeiros Pobres e Órfãos internados à QuintaCasa a um piedoso capuchinho. Ele era Pe. Antonio de Petralia que, embebido doespírito do seu Seráfico Pai São Francisco, mesmo após a supressão da OrdemFranciscana, mantivera o hábito na espera de tempos melhores. Tendo conhecido o Pe.Giácomo se apegou a ele, e após a inauguração do Asilo da Quinta Casa dedicou-se comardente zelo à assistência dos Pobres. Queria ligar-se à nova Instituição, mas como jácomeçavam reabrir-se vários conventos da sua Ordem, foi chamado pelos seussuperiores. O Pe. Giácomo, entretanto, colocava em Deus sua confiança, seguro que quemlhe dera a possibilidade de reunir a família das Irmãs Servas dos Pobres, tornar-lhe-iafácil também a fundação dos Irmãos Servos dos Pobres, segundo seu antigo desejo. E o Senhor que queria servir-se dele para dar vida na Igreja a esta novaInstituição, enviou-lhe um bom número de piedosos leigos que, atraídos pela fama desantidade do Servo de Deus, acorreram a ele animados pelo nobre desejo de sacrificar-se inteiramente sobre o altar da caridade. Foi assim que no mesmo ano de 1884 pode dar, juntamente com o hábito, otítulo de Servos dos Pobres a nove jovens corajosos que formaram o primeiro núcleo danova família. A eles foram confiados no mesmo local da Quinta Casa, mas emcompartimentos separados, tanto os pobres inválidos como os orfãozinhos. Para estesúltimos, que trouxe de volta de Terre Rosse, alugou um local do lado da Quinta Casa edeixou Terre Rosse somente para as Órfãs. Este novo local servia exclusivamente como dormitório para os órfãos. Duranteo dia, sob a direção dos irmãos ficavam no Asilo para estudar e trabalhar, já que o Pe.Giácomo foi solícito em criar algumas oficinas para educar nas artes e no trabalho, ospobres órfãos, afim de que pudessem tirar desta profissão, um dia, o sustento de suavida e tornar-se então úteis para si mesmos e para a sociedade. Por volta daquele período, outro sacerdote entre os admiradores do Pe. Cusmanodecidia-se a tudo deixar para seguira as pegadas do Servo de Deus. Este foi o Pe.Salvador Boscarini, filho do Barão Antônio, de Valguarnera Caropepe. Jovem de belainteligência e entusiasta para as obras de caridade, tendo conhecido o Pe. Giácomoaderiu a ele e acabou entrando em São Marcos, onde num pequeno quartinho, ao lado daIgreja, morava o Servo de Deus. Não passou muito tempo e o Pe. Giácomo lhe confiavaa direção do Orfanato Feminino de Terre Rosse, assim como ao Pe. Salvatore Gambinoque o havia precedido, tinha confiado a direção do Asilo da Quinta Casa. O Pe. Boscarini, desejoso de ajudar as pobres órfãs de sua cidade natal, apressouem apresentar o Pe. Giácomo a alguns nobres senhores daquela cidade. Tendoconhecido o Servo de Deus e visitadas as Casas por ele fundadas em Palermo, ficaramde tal modo entusiasmados, que fizeram todo o possível para ter, a todo custo, as Servasdos Pobres em Valguarnera. Conseguiram da Prefeitura para o Pe. Giácomo um ex-Convento deFranciscanos, distante meia hora da cidade, e com muita insistência pediram-lhe que alifundasse uma Casa de Misericórdia para as órfãs, os pobres velhos e os doentes dacidade. O Pe. Giácomo, que já dispunha de um bom número de Irmãs, acolheu o convitede bom coração em abril de 1883 viajou para Valguarnera com um grupo de Servas dosPobres. Enquanto estas preparavam a vasta casa para a beneficência e a santahospitalidade, ele girava pela cidade, pelas estreitas ruas, lugares de miséria, procurandoos pobres para interna-los. Por acaso encontrou um amigo que comovido grita-lhe: “OhPe. Giácomo, o céu mandou-vos aqui”, e apontando-lhe uma porta em pedaços de uma
  31. 31. http://sdpbrasil.blogspot.com/parede velha e suja, disse: “Aí dentro estão dois infelizes precisando de ajuda”. O Pe.Giácomo, com o coração palpitante, como se pela primeira vez assistisse a um tristeespetáculo, entrou naquele casebre e oh!... Que horrível cena! Num vão de escada incômodo, úmido, preto, onde o ar era abafado pelo mofo epelo mau cheiro igual ao que provém dos quartinhos sujos dos enfermos, sofriaterrivelmente uma mulher. Estava deitada numa esteira, que ocupava quase todo oespaço, esteira formada por uma espécie de grelha de ramos cheios de nós, erguidasobre quatro troncos fixos no chão; sem colchões nem cobertores. A pobre mulherestava com a perna quebrada em três lugares. Diante da porta, numa grande sujeira,estava sentada sua mãe. Tirada à força do lado da filha, sentada encolhida numa pedracom a cabeça reclinada sobre o peito, chorava soluçando. O Pe. Giácomo dirigiu-lheafetuosamente a palavra. De repente a velha levantou o rosto; oh, que rosto horrendo!Uma casca preta cobria-lhe a olheira; um câncer roia-lhe o olho direito. Não se via nadade tão repugnante: um rosto tão deturpado e que no entanto levava a uma grandecompaixão. A pobre velha chorava com o outro olho e as lágrimas caíam sobre sua peleressequida e cheia de rugas, sobre seus lábios trêmulos e rachados, sobre suas mãosamarelas e ásperas. Oh, infeliz criatura! O Pe. Giácomo estava inclinado amorosamentesobre ela, com a mão sobre seu ombro. Não se pense que naquele momento o Pe.Giácomo estivesse vencendo um sentimento de repugnância porque sua fé viva lhe faziaver nos Pobres o seu Jesus e os amava profundamente por causa disso; tinha em seucoração o mesmo fogo que aquecia São Francisco quando curava os leprosos e beijavasuas chaga. No entanto uma carroça coberta de colchões estava esperando diante daporta. A caridade dos cidadãos, que renasce por causa dos santos exemplos, reacendeu-se naquele momento como um milagre. Bastou uma só palavra do Pe. Giácomo para quetodos acorressem para ajudar as infelizes. Porém, somente as Irmãs, as pias criaturasque o Pe. Giácomo comparava às santas mulheres do Calvário, quiseram cumprir opiedoso ofício. A triste caravana encaminhou-se lentamente ao Asilo entre as estreitas vias dacidade, e pelas vias lamacentas do campo, em meio a uma comoção geral. E quando asduas mulheres foram colocadas no leito, depois que as Irmãs lhes deram banho e asvestiram com roupas limpas, o Pe. Giácomo assentou-se ao lado das camas e começou afalar-lhes com aquele fogo e intensidade de afeto próprios dele, sobre a brevidade dasdores deste mundo e das delícias eternas do Paraíso. No dia seguinte, após a celebração da santa missa, chorando de alegria, o Pe.Giácomo começou a andar pelas ruas desejoso de caçar os Pobres, como ele diziabrincando. Encontrou um guia, um amigo que o conduzia até a cidade para socorreroutro caso desesperador. Seguiram-no pelo caminho alguns senhores do laicato e do clero e muita genteque soubera do gesto caridoso do dia anterior. Perto da casinha daquelas duas pobres mulheres, as primeiras internadas, numbeco sem saída, numa estrada lamacenta, apresentou-se outra cena angustiante. Sobre um leito de tábuas do mesmo comprimento do quartinho no qual seencontrava, mas muito curta para a pessoa que estava deitada, jazia um jovem com ametade do corpo paralisado. O infeliz devia ter sido forte antes, porque era bem robustoe muito alto. Mas agora mexia somente um braço, sua única parte viva, que agitava decima para baixo como se estivesse tentando procurar alguma coisa ou expulsar suasdores. Daquele casebre escuro saíam tristes gemidos. Eram de uma pobre velha, a mãeque sentada aos pés do filho, lamentava-se pelos reumatismos que lhe atormentavam aspernas.
  32. 32. http://sdpbrasil.blogspot.com/ O quarto era pequeno e não dava para se mexerem, nem se podia transportar oenfermo sobre um carro, porque os solavancos o torturariam. Por isso pediu-se umamaca. No entanto o tempo fechou-se e começou uma garoa fina, mas que aos poucos setornava mais forte. O céu escureceu e as nuvens estavam baixas. Chegou a maca trazida pelas Irmãs. Desta vez foi uma verdadeira e viva disputa:“Não, elas não poderiam carregar este peso, pobres mulheres fracas e cansadas”.Protestavam os senhores. Mas aquelas boas criaturas socorriam porque tinham a forçada alma. Lenta e delicadamente pegaram o enfermo, ajudadas pelo Pe. Giácomo e opuseram sobre as almofadas da maca. No ato de erguer a maca com seus braçosdelicados, quatro senhores fortes e robustos tiraram delas, quase à força bruta, a piedosacarga. E assim, revezando-se, levavam pela via, felizes e orgulhosos sob a chuva que osmolhava e com os pés que atolavam na lama. Chegando ao Asilo o Pe. Giácomo tomou entre seus braços o enfermo ecolocando-o sobre uma poltrona começou a limpa-lo e penteá-lo com piedoso cuidado,antes amável. Enquanto os outros, enojados profundamente, olhavam a cabeça daqueleinfeliz que fervilhava de insetos; o Servo de Deus, sorrindo, passava o pente entre seuscabelos emaranhados. Também ele, o Pe. Giácomo teve que trocar a roupa. Depois voltou sereno, felize com o rosto transfigurado. Correu então até um senhor que tinha-se prestado commaior entusiasmo em ajudar o transporte daquele paralítico, e com os olhos cheios delágrimas e voz trêmula, abraçou-o e beijou-o chamando-o com os doces nomes deamigo, irmão e benfeitor... Todos então choravam ao seu redor. Aconteceram muitas cenas semelhantes a esta até que o Asilo ficou repleto detodos os Pobres que podia conter. Foi então que o Pe. Giácomo voltou para Palermo deixando os habitantes deValguarnera cheios de admiração pela sua heróica caridade. Em Palermo encontrou o Pároco José Soldano que o convidou a enviar aMonreale, sua cidade, algumas Irmãs para abrir o internato para as pobres órfãs.Oferecia-lhe uma grande casa desabitada na estrema periferia da cidade, usada umtempo como casa de Exercícios Espirituais, por isso chamada de Casa Santa. O Pe. Giácomo aceitou o convite e dispondo de tudo que precisava para o bomêxito dessa nova fundação, no Natal do mesmo ano mandou a Irmã Vincenzina, que elechamara de Agrigento para a Casa Central de São Marcos, juntamente a outras Irmãs aMonreale. Contemporaneamente recebeu um outro convite por parte do Prefeito de SãoCataldo, o Cavalheiro Salvatore Baglio. Tendo este conhecido as várias fundações feitas pelo Pe. Giácomo e querendoprovidenciar uma melhor assistência aos Pobre de São Cataldo que se encontravaminternados num antigo Convento de Capuchinhos, assistidos por pessoas pagas, dirigiu-se ao Pe. Cusmano para pedir-lhe as Irmãs. Também este convite ele aceitou de bomgrado, e em julho de 1884 inaugurou esta outra Casa de Misericórdia que, em seguida,além dos Pobres, velhos e doentes, começou a hospedar também as meninas pobres. E assim, num período de quatro anos, o Pe. Giácomo tinha a consolação de ver asua Obra começar a difundir-se em toda a Sicília para a consolação de tantos Pobres.

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