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Por uma análise_automática_do_discurso_-_introdução_à_obra_de_michel_pêcheux_-_f._gadet_e_t._hak_(orgs.)

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  • 1. A Analise do Di / lade F. Gadet e T. Haksessenta num moi -ralismo, tanto no ~ LU •utu- lien- (orgs.)clas Humanas. A Analise de Discurso Francesa se particula-rtza por articular a materialidade HngiJistica, "o historico-social, o politico. Seu campo teori-co e ainda atravessado por uma teoria pclco-nalitica do sujeito. POR UM> Os textos aqui reunidos, organizados crono-logicamente, tracam um historico da Analisede Discurso Francesa, buscando compreender o ANALISlugar que nela ocupou e ocupa a obra de Mi-chel Pecheux, um de seus iniciadores, e cujo 8 AUTtrabalho, entre outroi, tern sido decisive paraseu desenvolvimento. Encontram-se aqui textos fundamentals dePecheux, como Analise Automatlea do Discur-so, de 1969, ao lado de outros textos seus e de t«5 Uma Introducao a ^outros autores, que incluem frabalhos sabredescricao textual, e trabalhos que analisom os J<2 Obra de Michel Pecheuxfundamentos da Analise do Discurso, mostran-do SIMS transformacdes. f 801 P832 3.ed. POR
  • 2. FOR UMA ANALISE AUTOMATICA DO DISCURSO
  • 3. FRANfOISE GADET TONY HAK (Orgs.) FOR UMA ANALISE AUTOMATICA DO DISCURSO Uma Introdueao a obra de Michel Ptcheux Tradutores: Bethania S. Mariani, Eni Pulcinelli Orlandi Jonas de A. Romualdo, Lourenco Chacon J. Filho Manoel Gon$alves, Maria Augusta B. de Matos Pericles Cunha, Silvana M. Serrani Suzy Lagazzi EDITORA DA UNIVERS1DADE ESTADUAL DE CAiMPIN AS UNICAMP Reitor: Jose Martins Filho Coordenador Geralda Universidade: Andr^ VillalobosConselha Editorial: Antonio Carlos Bannwart, AricioXavier Linhares, Cesar Francisco Ciacco (Presidente),Eduardo Guimaraes, Fernando Jorge da Paixao Filho,Hugo Horacio Torriani, Jayme Antunes Maciel Junior,Luiz Roberto Monzani, Paulo Sos6 Samenho Moran Direior Executivo: Eduardo Guimaraes
  • 4. FICHA CATALOGRAFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL DA UNICAMP Por uma analise automatica do discurso: uma intro-P82 ducao a ohra de Michel Pecheux / organizadores3.ed. Francaise Gadet; Tony Hak; tradutores Bethania S. Mariani... [et al.) — 3. ed. — Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997. (Colecao Repertories) Traducao de: Towards an automatic discurse analysis. SUMARIO 1. Discurso - Analise. 2. Lingiiistica. I. G^l^t Francoise. II. Hak, Tony. III. Titulo. 20. CDD - 418 PREFACIO - Frangoise Gadet 7ISBN 85-268-0160-0 - 410 I OS FUNDAMENTOS TEORICOS DA "ANALISE indices para catalogo sistematico: AUTOMATICA DO DISCURSO" DE1. Discurso 418 MICHEL PECHEUX (1969) - Paul Henry 132. Lingiiistica 410 Colecao Repertories II APRESENTACAO DA CONJUNTURA EM Projeto Grafico LINGUiSTICA, EM PSICANALISE E EM Cami/a Cesarino Costa INFORMATICA APLICADA AO ESTUDO Kestenhaum DOS TEXTOS NA FRANgA, EM 1969 - Frangoise Gadet, Jacqueline Le"on, Denise Maldidier Coordenacao Editorial e Michel Plon 39 Carmen Silvia P. Teixeira Producao Editorial in ANALISE AUTOMATICA DO DISCURSO Sandra Vieira Alves (AAD-69) - Michel Pecheux 61 Revisao tecnica Eni Pulcinelli Orlxndi IV A PROPOSITO DA ANALISE AUTOMATICA DO Preparacao DISCURSO: ATUALIZACAO E PERSPECTIVAS Adagoberto Ferreira Batista (1975) - Michel Pecheux e Catherine Fuchs 163 Revisao V APRESENTACAO DA ANALISE AUTOMATICA DO Niuza Maria Gon^alves DISCURSO (1982) - Michel Pecheux, Jacqueline L£on, Aizirn Dias Sterque Simone Bonnafous e Jean-Marie Marandin 253 Composicao Gilmar Nascimento Saraiva VI ANALISE DO DISCURSO: ESTRAT^GIAS DE Montagem DESCRICAO TEXTUAL (1984) - Alain Lecomte, Nelson Norte Pinto Jacqueline Leon e Jean-Marie Marandin 283 1997 VII A ANALISE DE DISCURSO: TRES E>OCAS (1983) Editora da Unicamp - Michel Pecheux 311 Caixa Postal 6074 Universitaria - Barao Geraldo CEP 13083-970 - Campinas - SP - Brasil Fone: (019) 788.2015 Fone/Fax; (019) 788.2170
  • 5. PREFACIO Franchise Gadet Nao se trata, de forma alguma, de apresentar, nessas pou-cas linhas, um histdrico da Analise de Discurso. Os textos quepodemos ler aqui, organizados segundo sua cronologia, se en-carregam de tragar um histdrico, melhor do que o faria qualquercomentario. For outro lado, ha" trabalhos que comegam a apare-cer, reconstituindo esta histdria ainda recente;1 trabalhos estesque procuram compreender o lugar que, entre outros, af ocupouMichel Pecheux. Contentar-nos-emos em propor alguns elementos de refle-xao, nao perdendo de vista o fato de que o prdprio termo "dis-curso", que acabamos de submeter a andlise, longe de ser umprimitivo a se tomar em uma evidSncia ou em uma tradigao, &um conceito que a reflexao deve visar construir. Para compreender o interesse que suscitou a Analise deDiscurso em muitos pafses, entre os quais os da America Lati-na, nao deve ser indtil lembrar as condicoes nas quais essa dis-ciplina surgiu, enquanto tal, na paisagem disciplinar francesa. Temos sublinhado, frequentemente, as particularidades desua emergencla. Emergencia geogrdfica, de infclo: fenomeno li-mitado a Franga. Ou, para ser mais exata, o que pode levar essenome (por exemplo, existe uma discipline "discourse analysisna Gra-Bretanha e nos Estados Unidos) nao se ap6ia sobre amesma configuragao tedrica, e nao se reveste, de modo algum,
  • 6. da mesma forma. Na Franga, a Analise de Discurso 6, de ime- zer"), s6 mais tarde € que, em favor de um vasto movimento de diato, concebida como um dispositive que coloca em relagao, reflexao crftica sobre os seus fundamentos, a suspeita vir3 a to- sob uma forma mais complexa do que o suporia uma simples co- na. Ilusao ainda € a concepgao da lingufstica como instrumento variagao, o campo da Ifngua (suscetfvel de ser estudada pela lin- objetivo de abordagem da lingua, sonho de uma hipot6tica neu- gufstica em sua forma plena) e o campo da sociedade apreendida tralidade da grama~tica. pela histdria (nos termos das relagoes de forga e de dominagaoideol<5gica). Emergencia temporal, tambem; a Analise de Discur- Finalmente, como esse feixe de diferengas nao pode se re-so aparece nos anos sessenta, sob uma conjuntura dominada solver em uma semelhanga as outras teorias, nao podemos senao destacar uma ultima caracterfstica da Andlise de Discurso Fran-pelo estruturalismo ainda pouco criticado na linguistica, e triun- cesa, cuja forma acabada 6 a de Michel P€cheux, com o apoiofante por ser "generalizado", isto 6, exportado para as outras sobre uma teoria do discurso. Para ele 6 impossivel a Analise deciencias humanas (por exemplo por LeVi-Strauss ou Barthes), ou Discurso sem sua ancoragem ern uma teoria do sujeito, tema queinspirador de reflexoes mesmo quando nao se declara explicita- tambem deve ser visto como um lugar problemdtico, que devemente (por exemplo por Lacan, Foucault, Althusser ou Derrida); ser constituido.a lingufstica pode ainda ser chamada de ciencia-piloto das cien-cias humanas. O conjunto dessas caracterfsticas mostra bem por que esta Esta relagao privilegiada que a Analise de Discurso entre- disciplina se revelou dificilmente exportaVel: tanto no tempote"m com o estruturalismo pesara", alia"s, de forma muito pronun- (ela nao conservou muito tempo sua forma inicial), quanto geo-ciada, sobre a escolha de uma teoria gramatical. Se, mais geral- graficamente. Quanto ao tempo, certos artigos que aqui figuram,mente, 6 adotado o distribucionalismo harrissiano e nao a gra- e outros que se interrogam sobre a primeira epoca,2 permitemmatica gerativa, 6 certamente porque ele permite que se perma- compreender por que, desde que a conjuntura te<5rica francesa seneca na superffcie discursiva (piano em que nao se tern duvida modrficou, a Analise de Discurso tambem se modificou pouco ade que tudo se passa quanto a forma enunciatlva e, logo, quanto pouco. Quanto a exportac.ao geogrdfica, nos deteremos (muitoao sentido). Mas & tambem porque esta teoria - pelas ligagoes brevemente pois nao sou, certamente, a mais indicada para falarque conserva com o estruturalismo — e" sentida e admitida como disso) no exemplo do Brasil. Uma reflexao que se reclama doum prolongamento natural daquilo que, em materia de aborda- marxismo nesse pafs nao pode seguir a mesma periodizac,ao dagem global dos textos, veio ocupar, nos anos cincoenta, o terre- Franga, se mais nao fosse jd pelos pap6is respectivos que a tra-no daquilo que tomou o relevo da tradicional "explicagao de digao intelectual d^ a histdria, a antropologia, a etnologia: se atexto": a lexicologia estrutural. Com efeito, tal como sera" re-in- hist<5ria 6 central na Franga, 6 a antropologia que aparece comoterpretado na Analise de Discurso, o metodo harrissiano permite dominante no Brasil; seria, entao, em relagao a ela que a Analiseuma analise a partir da palavra (e esta sera" a te"cnica da palavra- de Discurso tern de se situar?pivd), integrando, entretanto, a dimensao de um reconhecimentoda espessura sinta"tica da Ifngua. Tratar-se-ia aqui, nos textos que acabamos de trazer, de Ha" ainda um terceiro fator para particularizar esta Analise uma pagina definitivamente virada, que nao refletiria senao ode Discurso: 6 que ela se apdia sobre o polftico. Ela nasce na perfume do passado, e s<5 deveria ser conhecida como uma 6po-crenca em uma visao de intervengao polftica, porque aparece ca deixada para Iras? Vemos no entanto que se expandem nascomo portadora de uma crftica ideol<5gica apoiada em uma arma reflexoes atuais termos (como interdlscurso, formagao discursi-cientffica, que permitiria um modo de leitura cuja objetividade va...) que fazemos agir nao talvez enquanto dispositive te<5ncoseria insuspeitaVel. Que af haja ilusao, a de encontrar "o que global (seria, alias, isto verdadeiramente desejaVel?) mas pontoo texto disse verdadeiramente" (ou "quis verdadeiramente di- a ponto. E hd questoes que concernem a produgao do sentido
  • 7. que permanecem sempre muito vivas para quern pensa que osentido deve ser apreendido, ao mesmo tempo, na Ifngua e na NOTASsociedade. Tradugao: Eni Pulcinelli Orlandi De forma recente, e em pane ainda em fase de elaborac.ao, Denise Maldidier cst3 efetuando tal trabalho, ao qual ela contribui especificamente com sua dupla especia- lizacao, ao mesmo tempo participante e historiadora dessa histdria. Ver, em particu- lar, "Elements pour une histoire de 1analyse de discours en France", de junho de 1989, nos Cahiers de linguistique sociale n2 14, IRED, BP 108, 76134 Mont Saint- Aignan, Franca; tamb6m (em curso de elaboracao) Edition critique d°extraits de foeu- vre de Michel Pecheux, com uma express!va introduc.ao de Denise Maldidier, a apare- cer nas Editions des Cendres. * Ver, por exemplo, Marandin, "Analyse de discours et linguistique g6n£rale", Langages n- 55; Guillaumou e Maldidier, "Courte critique pour une longue histoi- re", Dialectiques n? 26; Courtine, "Le discours politique", Langages n- 62, 10 11
  • 8. OS FUNDAMENTOS TEORICOS DA ANALISE AUTOMATICA DO DISCURSO" DE MICHEL PECHEUX (1969) Paul Henry Em 1966, era publicado nos Cahiers pour ^analyse, a re-vista do Cercle dEpistemologie de 1Ecole Normale Supe"rieureem Paris, um texto que tinha como tftulo "Reflexions sur la si-tuation the"orique des sciences sociales, spe"cialement de la psy-chologie sociale".1 Este texto era assinado por Thomas Herbert,mas, na verdade, era a primeira publicagao de Michel Pecheux.Algum tempo depois, durante o ano de 1968, era publicado sobo mesmo pseudonimo um segundo texto: "Remarques pour unetheorie g6ne"rale des ideologies".2 No intervalo entre a publica-?ao destes textos assinados por Thomas Herbert, surgiram doisartigos sobre a analise do discurso, ambos assinados por MichelP£cheux: o primeiro no Bulletin du Centre d*Etudes et de Re~cherches Psychotechniques (C.E.R.E.P.) em 1967, e o segundona Psychologic frangaise no inicio de 1968.3 A primeira vista,nao hd nenhuma relagao clara e evidente entre os textos assina-dos por Thomas Herbert e os dois dltimos, relatives a analise dodiscurso. Do mesmo modo, se nds percorremos L*Analyse auto-matique du discours (publicado em 1969),4 poderfamos pensarque Michel Pecheux e Thomas Herbert eram duas pessoas real-mente distintas, tendo preocupa§6es e pressupostos bem dife-rentes. De fato, os conceitos e as nogoes-chaves dos textos assi-nados Thomas Herbert, que fazem explicitamente referenda ao"materialismo hist<5rico" e a psicanSlise, estao quase que com- 13
  • 9. pletamente ausentes do livro de Pecheux sobre a analise auto- Um instrumento cientfficomatica do discurso. Nao hd, no livro, senao uma dnica referen-cia a uma "teoria das ideologias" e a uma "teoria do incons- Como vimos, a primeira publicac.ao de Pecheux diz res-ciente", em uma nota de rodape".5 Nesta nota, Michel Pecheux peito a "situagao tedrica" nas ciencias sociais. Nao tentarei dardiz somente que a teoria do discurso, tal como ele a concebe, conta aqui deste texto de modo complete. Ele e", entretanto, fun-nao pode ocupar o lugar destas teorias, mas pode intervir em seu damental para se compreender aquilo que Pecheux objetivava aocampo. Do mesmo modo, a crftica as ciencias sociais, em parti- desenvolver a analise automdtica do discurso: fornecer as cien-cular, a crftica & psicologia social, desenvolvida no primeiro dos cias sociais um instrumento cientffico de que elas tinham neces-artigos de Herbert, nao aparece claramente no livro. Que este li- sidade, um instrumento que seria a contrapartida de uma abertu-vro tenha sido publicado em uma colegao dirigida por dois psi- ra tedrica em seu campo. Isto quer dizer que para Pecheux:cologos de renome, e que seu conteudo tenha sido apresentado 1. O estado das ciencias sociais era um tanto pre"-cientifi-inicialmente como uma tese de doutorado em psicologia social, co;poderia levar a pensar que Pecheux utilizou-se de um codinomee que, nestas publicagoes acadSmicas, escondeu seu ponto de 2. O estabelecimento de uma ciencia necessita de instru-vista por puro oportunismo: evitar uma apresentagao explfcita e mentos.direta de suas orientac,6es tedricas efetivas que, nao estando na O primeiro ponto decorre da crftica sobre o estado daslinha academica da psicologia francesa, poderiam causar incon- ciencias sociais tal como ele se apresentava no momento em quevenientes a sua carreira. Ao contrario, longe de ser oportunista, Peucheux escrevia sua obra. Mas este primeiro ponto esta ligadoa atitude de Pecheux representava a tradugao de uma estrategia ao segundo. Nds reencontramos nele o interesse de Pecheuxcuidadosamente deliberada. pela epistemologia e pela hist<5ria das ciencias, e, tambem, seu investimento neste campo.7 Pecheux escreve que um duplo erro deve ser evitado: "considerar qualquer utilizac.ao de um instru- Pecheux sempre teve como ambigao abrir uma fissura ted- mento como cientffica, esquecer o papel dos instrumentos narica e cientffica no campo das ciencias sociais, e, em particular, prdtica cientffica".8 De fato, no primeiro texto, Herbert desen-da psicologia social. Ele afirmava, no momento da publicagao volve uma andlise precisa sobre o que 6 um instrumento cientffi-de A andlise automdtica do discurso, que ali se encontrava seu co, e 6 sobre esta base de analise que Pecheux concebeu seuobjetivo profissional principal. Nesta tentativa, ele queria se sistema de analise automatica do discurso.apoiar sobre o que Ihe parecia ja ter estimulado uma reviravoltana problematica dominante das ciencias sociais: o materialismo O que e", entao, para Pecheux um instrumento cientffico?histdrico tal como Louis Althusser o havia renovado a partir de Af o ponto de vista de Pecheux 6, antes de mais nada, aquele dasua releitura de Marx; a psicanalise, tal como a reformulou Jac- hist<5ria da ciSncia e das te"cnicas cientfficas. Ele segue de pertoques Lacan, atrave"s de seu "retorno a Freud",6 bem como certos Bachelard e Canguilhem.9 Mas ele acrescenta a estes tedricosaspectos do grande movimento chamado, nao sem ambiguidades, elementos oriundos de uma analise marxista sobre as conse-de estruturalismo. No fim da de"cada de sessenta, o estruturalis- qiidncias da divisao do trabalho (em particular, da separagaomo estava no seu apogeu. O denominador comum entre Althus- entre o trabalho manual e o trabalho intelectual), e sobre as con-ser e Lacan tem algo a ver com o estruturalismo, mesmo que seqiiencias do cardter contraditdrio da combinagao das forgasambos nao possam ser considerados estruturalistas. O que inte- produtivas e das relagoes sociais de produgao em uma sociedaderessava a Pecheux no estruturalismo eram aspectos que supu- dividida em classes.nham uma atitude nao-reducionista no que se refere & lingua- No imcio do segundo texto de Herbert encontramos um re-gem. Nos veremos o porque, em seguida. sumo dos resultados do primeiro. Neste resume sao enunciadas 14 15
  • 10. duas proposicdes fundamentals. A primeira concerne as condi- a ciencia pode encontra-los — nas prdticas cientfficas ja" estabele-gdes nas quais uma ciencia estabelece seu objeto. A segunda, cidas, bem como nas "prdticas te"cnicas", isto 6, pn5ticas ligadaspor sua vez, refere-se ao processo de "reproducao metddica" ao processo de producao. Pecheux apresema inrimeros exemplosdeste objeto, isto 6, o processo atrave"s do qual uma ciencia ex- de ferramentas ou instrumentos que foram utilizados nas "prdti-plora, do interior, seu pr6prio discurso, testando sua consisten- cas te"cnicas" bem antes de serem transferidos para as "praticascia e necessidade. cientfficas", notadamente os alambiques, as balancas e as lune- 1. Toda ciencia, escreve Herbert-Pecheux, 6 produzida tas. Por exemplo, as balancas estiveram em uso nas transacdes por uma mutac.ao conceitual num campo ideoldgico em comerciais bem antes de se tornarem instrumentos cientfficos. rela^ao ao qual esta ciencia produz uma ruptura atrave"s Com Galileu, a teoria das balancas tornou-se parte integrante da de um movimento que tanto Ihe permite o conhecimento teoria ffsica. Os princCpios que explicam por que as balangas dos tramites anteriores quanto Ihe d£ garantia de sua dao resultados invariantes (e em que limites) faziam parte da prdpria cientificidade. Ele acrescenta que, num certo teoria de Galileu. Desta maneira tstava criada uma homogenei- sentido, toda ciencia 6, antes de tudo, a ciencia da dade entre o objeto da ffsica e seus me"todos, o que realmente ideologia com a qual rompe. Logo, o objeto de uma estabeleceu a ffsica enquanto ciencia fundamental. Se, utilizan- ciencia nao 6 um objeto empfrico, mas uma construcao. do-se as balancas, algum resultado incongruente tivesse sido Ale"m do mais, tal objeto nao pode se destacar, atrav6s obtido, este teria ganho uma significagao tedrica imediata, obri- do jogo de um questionamento aleatdrio, da natureza gando a revisao ou a transformacao de aspectos determinados da que progressivamente o delimitaria tornando visfveis teoria. Contrariamente, todo desenvolvimento das teorias da ff- suas caracteristicas. sica podia, gragas a esta homogeneidade, traduzir-se em seus me"todos e em seus instrumentos (inclusive os matemaiicos). Este 2. Em cada ciencia, dois momentos devem ser distingui- processo corresponde bem precisamente aquilo que Pecheux dos. Primeiramente, o momento da transformacao pro- chama de "reproducao metddica" do objeto de uma ciencia, ou dutora do seu objeto, que 6 dominado por um trabalho seja, o processo pelo qual uma cie"ncia cria seu prdprio Spiel- de elaboragao tedrico-conceitual que subverte o discur- raum ou espago de jogo, faz variar suas questoes, e, atravds de so ideoldgico com que esta ciencia rompe. Em segundo, tais variacoes, ajusta seu discurso tedrico a si mesma, nele de- o momento da "reproducao metddica" deste objeto, o qual 6 de natureza conceitual e experimental. sen volvendo sua consistencia e necessidade. Evidentemente, as ciSncias firmemente estabelecidas desenvolvem instrumentos no Em cada uma destas fases ou momentos da ciencia, os ins- interior de si prdprias, de modo que a "inveneao" de tais ins-trumentos e as ferramentas representam um papel diferente. Este trumentos produz-se no seu interior sob a forma de "teoria reali-ponto foi desenvolvido sobretudo no primeiro dos dois textos de zada". Entretanto, diz Pecheux, cada vez que um instrumento ouHerbert. O primeiro momento pode ser descrito como essencial- experimento e" transferido de um ramo de ciencia para outro, oumente tedrico e conceitual, o que nao quer dizer que as ferra- a fortiori de uma ciencia para outra, este instrumento ou estementas ou os instrumentos ("materials" e/ou "abstratos") af nao experimento 6 de algum modo reinventado, tornando-se um ins-exergam nenhum papel. Mas 6 no segundo momento, aquele da trumento ou experimento desta ciencia em particular, ou deste"reproducao metddica" do objeto, que os instrumentos parecem ramo particular de ciencia. E PScheux conclui sobre este pontoter uma funcao mais determinante. No entanto, esta funcao nao dizendo que as ciencias colocam suas questoes, atraves da inter-pode ser exercida senao na medida em que a transformacao pro- preta^ao de instrumentos, de tal maneira que o ajustamento dedutora do objeto ja" tenha ocorrido. E este momento fundador de um discurso cientffico a si mesmo consiste, em ultima instSncia,uma ciencia 6 tambe"m aquele da reinvencao dos instrumentos e na apropriacao dos instrumentos pela teoria. £ isto que faz dadas ferramentas que sao necessaries e que sao procurados onde atividade cientffica uma prdtica. 16 17
  • 11. Temos, agora, uma ideia suficientemente clara do que era isto € em si uma posicao filos6fica (na linha de Bachelard, Can- para Pecheux um instrumento cientffico e do que ele queria que guilhem e Althusser), o que significa que, se Pecheux tinha uma fosse seu sistema de analise automatica do discurso. Isto quer posicao crftica em relacao a maneira tradicional de abordar as dizer, entre outras coisas, que esse instrumento nao podia ser, ciencias pela filosofia ("Deixemos Kant para seu Tribunal", es- do seu ponto de vista, concebido independentemente de uma creve), ele nao estava de modo algum pronto a considerar que as teoria que o inclufsse ou que pudesse conduzir a teoria deste praticas cientfficas pudessem ser exercidas fora de uma prdticamesmo instrumento. Isto quer dizer, tambe"m, que o que pudesse filosdfica. Ao contraYio, segundo ele, um outro tipo de pra"tica ser tornado de emprestimo para construir este instrumento preci- filosdfica era completamente indispensaVel no mfnimo porque, sava ser reinventado, devia poder ser "apropriado" pela teoria entre outras coisas, a pr£tica tradicional da filosofia desempe-que ele tivesse em vista. E, em particular, o caso para aquilo que nhou um papel crucial na elaborate do que ele considera comoele devia emprestar a lingiifstica. Este instrumento nao podia ser ideologias ou pseudociencias, entre as quais, as ciencias so-somente de analise lingiifstica "aplicada". E por esta razao que ciais. Por outro lado, Pecheux estava convencido, como vimos,Pecheux, no imcio de sua obra, criticou as aplicacoes de analise de que as praticas cientfficas necessitam de instrumentos ("ma-lingiifstica a "analise de textos". A mesma critica € vdlida para terials" ou "abstratos") mesmo que o uso de instrumentos naotodos os outros emprestimos feitos a Idgica, a informatica... Isto garanta que uma praiica que se de por cientffica o seja efetiva-quer dizer ainda que esse instrumento nao podia ser somente um mente. Definir um novo instrumento cientffico 6 para ele o me-instrumento a mais, acrescido a todo o conjunto existente dos Ihor meio de evitar a rotina da crftica filosdfica tradicional.instrumentos utilizados pelas ciencias sociais, completando este Al6m do mais, esta" af, pensa ele, a linica forma de ter uma chan-conjunto para efetuar as tarefas que os outros instrumentos nao ce de ser compreendida pelos especialistas das ciencias sociaispreenchiam. Pecheux visava a uma transformasao da pra"tica nas que sempre recusaram - nem sempre por fracos motives - asciencias sociais, uma transformacao que poderia fazer desta pra"- crfticas filosdficas tradicionais. Pecheux debate tanto com ostica uma prdtica verdadeiramente cientffica. fildsofos quanto com os especialistas das ciencias sociais. No Pecheux 6 um fildsofo de foraia^ao, mas um fildsofo fasci- entanto, estes dois tipos de interlocutores sao, para ele, tendonado pelas maquinas, pelas ferramentas, pelos instrumentos e em vista o estado de sua pesquisa (em particular por causa dapelas te"cnicas, por razoes profundamente enraizadas em sua divisao acadSmica do trabalho intelectual), completamente dife-histdria pessoal e antecedentes familiares. E ele nao 6 um fildso- rentes. Nao se pode debater com uns e outros da mesma manei-fo qualquer, mas sim um fildsofo convencido de que a pratica ra.tradicional da filosofia, em particular no que tange as ciencias, Deste modo, podemos compreender por que, quando se di-est5 desprovida de sentido ou 6, no mfnimo, um fracasso. Por rige aos especialistas de ciencias humanas, Pecheux enfatizaprdtica classica da filosofia em relacao as ciencias, deve-se o instrumento. Ele percebe que, se privilegiasse naquele mo-compreender essa pratica que pretende legislar em materia de mento os aspectos tedricos e filosdficos de sua tentativa, seu de-ciencia, de cientificidade, de legitimidade epistemoldgica e coi- bate com estes especialistas se centralizaria neste terreno, e osas semelhantes. Ele esta" convencido de que uma crftica unica- instrumento apareceria como uma simples ilustragao de seumente filosdfica das ciSncias sociais nao pode ir muito longe, ponto de vista. Isto entraria em total contradisao com sua con-mesmo estando convicto de que as ciencias sociais nao sao cien- cepgao de instrumento cientffico, ja" que este nao deve ser consi-cias e nao sao nada mais que ideologias. Para ele, a tinica crftica derado independente da teoria ou como uma "aplicagao" desta.valida a tais ideologias € a ciencia, ou as ciencias, do terreno ou Ao contrario, quando se dirige aos fildsofos, como € o caso dosdo domfnio que elas ocupam. E isto precisamente o que ele quer Cahiers pour Ianalyse, ele apenas menciona a necessidade, pa-dizer quando escreve que uma ciencia e", antes de tudo, a ciSncia ra provocar uma muta^ao conceitual em um campo ideoldgico,da ideologia (ou das ideologias) com as quais ela rompe. Mas de construir um dispositive instrumental em uma regiao, do es- 18 19
  • 12. pago ideo!6gico concernido, localizada com precisab. E ele f6rico e assim por diante, quase tudo que podia ser pesado. Es-acrescenta que nao se pode travar um dialogo especulativo com sas pessoas fizeram comparagoes sistematicas e, eventualmente,qualquer interlocutor, nem produzir experimentos em quaisquer formularam teorias com base nestas observacoes empfricas. Mascondigoes e com qualquer um. Pecheux 6 consciente da divisao neste uso das balangas nao havia nenhuma "re-invengao" doe da especial izagao do trabalho intelectual (ao mesmo tempo em instrumento, nenhuma "apropriagao" do instrumento pela teoria.que a deplora); ele sabe que um filosofo nao € um psicologo ex- As balangas eram tidas como instrumentos que davam medidasperimentalista e que, inversamente, um psicologo experimenta- "objetivas" sobre reahdade; dados que permitiam o direito delista tambem nao € um fihSsofo. Daf sua estrat6gia. especular e de tirar conclusoes. De fato, a chamada "objetivida- A crftica feita por Pecheux sobre a utilizacao de instru- de" nao era nada senao a transposicao da adequagao do instru-mentos nas ciencias sociais 6 um ponto crucial. Se ele concebeu mento as "pr&icas tecnicas" no interior das quais o prdprio ins-sua analise autom£tica do discurso como um instrumento, este trumento havia sido desenvolvido e utilizado (as transagoes co-nao era de nenhum modo andlogo aos que ele via utilizados nas merciais).ciencias sociais- Mas ele nao se limitava a recusar esta utilizacao Em certo sentido, as balangas representam um subproduto,(empfrica) dos instrumentos; ele procurou depreender aquilo que entre outras coisas, das praticas comerciais e, ao mesmo tempo,tornou possivel esta utilizacao, e que fez com que ela se tornas- abriram a possibilidade de certas fonnas destas praticas. "Asse dominante no campo preencbido pelas ci^ncias sociais. Neste praticas tecnicas sao determinadas, escreve Pecheux, no sentidoponto, sua crftica ao modo de se servir dos instrumentos nas de receber da exterioridade uma demanda, e sao determinantesciencias sociais confunde-se com sua crftica as ci£ncias sociais na medida em que 6 o conjunto das possibilidades que elasem si mesmas, uma crftica que diz respeito a ligagao dessas abrem que tornam possfvel a existencia da demanda". S6 se exi-ciencias com o polftico. ge das balangas, no que diz respeito as transagoes comerciais, o fornecimento de resultados invariantes no caso de medidas re- petidas e certas propriedades, como por exemplo: se duas quan- tidades de um material qualquer sao pesadas separadamente eAs ciencias sociais e seus instrumentos depois conjuntamente, a soma dos dois primeiros pesos deve ser igual ao terceiro, e assim por diante, de modo reiterado. Deste modo, o prego, por exemplo, de duas vezes um certo peso de Com seu primeiro texto, Pecheux critica a concepcao da qualquer coisa poderia ser legitimamente declarado duas vezes opratica cientffica, que coloca esta na continuidade das "praticas prego deste mesmo peso desta coisa. Nestas condigoes, sendotecnicas". Essa percepgao tradicional da pratica cientffica,con- colocado um certo peso de ouro correspondente a uma unidadecordando com a epistemologia empirista, nao chega a fazer a di- de peso de um material qualquer, poderia ser estabelecida umavisao entre as praticas cientfficas e as outras praiicas, colocando correspondencia entre um peso qualquer deste material e um pe-em jogo a especulagao, a teorizagao e uma utilizacao de instru- so correspondente de ouro. Um sistema de medida dos pregosmentos. Por exemplo, nao consegue separar o que diferencia a das quantidades de materiais-objetos de transagoes comerciaisalquimia da qufmica (um ponto que Pecheux desenvolve a tftulo havia sido instaurado em referenda aos pesos. Em suma, todade ilustragao). Se retornamos as balangas (mas se aplicavam ob- uma tecnologia das balangas foi desenvolvida. Esta tecnologia,servagoes similares aos alambiques ou as lunetas, por exemplo) na epoca, buscou mesmo certos conhecimentos cientificos, massem considerar sua utilizagao tecnica (em particular, nas transa- nada que se comparasse a unm teoria das balangas, nem da ati-goes comerciais), sabemos que as pessoas pesaram, utilizando- vidade associativa das medidas de peso. Tais propriedades dasas, todos os tipos de coisas, tal como sangue, urina, la, ar atmos- balangas e dos pesos eram fatos estabelecidos, verificados empi- 20 21
  • 13. ricamente. Dava-se o mesmo para as medidas de sangue, de uri- deradas como desprovidas de fundamento. Nao pode- na... que foram feitas. mos dizer que elas nao representam nenhum saber. Tais Pode-se dizer que, se estas medidas foram consideradas extensdes da utilizagao das ferramentas e dos instru- confiaVeis o bastante para que houvesse liberdade de especula- mentos foram racionalizadas pela epistemologia e pela gao sobre seus resultados, foi sobre as mesmas bases. E a teoria filosofia do conhecimento empirico. de Galileu que tornou ao mesmo tempo possfvel e necessaria a 2. X primeira vista, tal uso dos instrumentos aparece des- constituicao de uma verdadeira teoria dos pesos e das balances, ligado da demanda social comum, pr(5xima a esfera da exatamente como Galileu poderia constituir uma teoria da ob- produgao (do tipo daquela implicada nas transagoes servagao astronomica e de seus instrumentos (como ele fez, efe- comerciais, por exemplo). Mas, de um outro ponto de tivamente, em uma pequena obra inacabada, datando de 1637). vista, ele aparece ligado a uma outra forma de demanda Mas seguindo a ide"ia do ato de pesar sangue, urina... por que e de ordem social. Mesmo que este exemplo parec.a um nao se poderia pesar, por exemplo, cerebros, declarando que o pouco esquematico e simplista, isto 6 particularmente peso do ceYebro mede a inteligencia? Foi efetivamente o que se claro no caso do peso de c6rebro utilizado para legiti- produziu e fomos conduzidos a faze-lo na base de teorias que mar posic.oes evidentemente racistas. Sem duvida, €, fazem do ce"rebro o drgao do pensamento e da inteligencia. Al- possfvel estimar semelhantes utilizagoes de instrumen- guns antropdlogos se puseram a determinar o peso me"dio do ce"- tos em antropologia indo exatamente no sentido inver- rebro das diversas ragas humanas, relacionando este tanto ao su- se. O ponto importante € que esta utilizagao de instru-posto nfvel de aptidao intelectual destas ragas, quanto a sua mentos & diretamente utilizada para autorizar ou, aodistancia relativa com as espe"cies animais... Claro esta" que fo- contrano, contestar posi^oes ideoldgicas; 6 recrutadaram feitas experiencias bastante elaboradas, e bem menos, evi- para intervir no combate ideoldgico. Isto quer dizer: (a)dentemente, recusaVeis. Mas Binet estava longe disto quando que nao se pode descartar tal utilizac.ao de instrumentosdisse que 6 a inteligencia o que seus testes medem? Temos ai sd em vista do fato de que ele ir£ sempre no sentido dasexatamente aquilo que Canguilhem chamou de ideologias mesmas orientac.6es polfticas ou ideoldgicas; e (b) que a(pre"-)cientificas, caracterizando-as (no dommio das ciencias da demanda ou a ordem social que parece ter safdo pelavida, de que ele se ocupou particularmente) como discursos que porta entre pela janela.fundam sua credibilidade sobre o cdlculo de um maximo de Os dois textos de Herbert sugerem que este processo (suasanalogias com dados estabelecidos em outros campos, na aus£n- condigoes de possibilidade) tern alguma coisa a ver com a divi-cia de qualquer possibilidade atual de verificacao experimental sao entre trabalhadores e nao-trabalhadores em uma sociedadeem seu proprio campo.10 dividida em classes. Neste sentido, estes dois textos delineiam Duas observances devem ser feitas a propdsito desta ilus- uma andlise sobre as rafzes histdricas da epistemologia e da filo-tragao de uma utilizagao ideoldgica particular (mas nao obstante sofia do conhecimento empiricista.bastante frequente) de ferramentas e de instrumentos: 1. Tais utilizagoes de instrumentos sao claramente exten- No segundo texto de Herbert, PScheux analisa a ideologia soes de outras utilizagoes dos mesmos. Se tais praticas enquanto um processo com "dupla-face":11 sao concebidas como cientfficas, a pratica cientffica 1. Do lado do processo de produc,ao, a ideologia 6, escre- esta" colocada na continuidade de prdticas te"cnicas. E ve Pecheux, um processo gragas ao qua! conceitos t6c- claro que nem tudo € false nestas pr&icas: as medidas nicos operatdrios, tendo sua fungao primitiva no pro- nao sao falsas, sao, como se diz, "objetivas", e, por- cesso de trabalho, sao destacados de sua seqiiencia ope- tanto, as comparagdes efetuadas nao podem ser consi- ratdria e recombinados em um processo original. 22 23
  • 14. 2. Do lado das redoes sociais, a ideologia 6 um processo volvidas em contato com a prdtica polftica, cujo instrumento € o que produz e mantem as diferencas necessaVias ao fun- discurso. Esta idem 6 retomada no segundo texto assinado por cionamento das relagoes sociais de producao em uma Herbert. Se o homem, escreve Pecheux, 6 considerado como um sociedade dividida em classes, e, acima de tudo, a divi- animal que se comunica com seus semelhantes, nao entendere- sao fundamental entre trabalhadores e nao-trabalhado- mos jamais por que 6 precisamente sob a forma geral do discur- res. Neste caso, a ideologia tem como func.ao fazer com so que estao amarradas as dissimetrias e as dissimilaridades en- que os agentes da producao reconhecam seu lugar nes- tre os agentes do sistema de producao. Nesta base, podemos tas relagoes sociais de producao. compreender por que Pecheux, tendo em vista provocar uma Do ponto de vista de Pecheux, os especialistas das ci£ncias ruptura no campo ideoldgico das "ciencias sociais", escolheu o sociais procederam exatamente como nossos medidores de ce"re- discurso e a analise do discurso como o lugar preciso onde €bro, mas eles tem a ver com uma demanda ou encomenda social possfvel intervir teoricamente (a teoria do discurso), e pratica-bem especifica, aquela que diz respeito a transformagao-repro- mente construir um dispositive experimental (a analise automa~ti-dugao das relagdes sociais de producao, isto 6, a pra"tica polftica. ca do discurso). As "ciencias sociais" desenvolveram-se principalmente, escreve Ha" duas razoes para isto:Pecheux, nas sociedades em que, de modo dominante, a pnStica 1. A relagao oculta entre a pratica polftica e as "cienciaspolftica teve como objetivo transformar as relagoes sociais no sociais" (a primeira vista, a psicologia social e a so-seio da pratica social de tal modo que a estrutura global desta ciologia, mas tambem a psicologia, mesmo que ela naoultima ficasse conservada. As "ciencias sociais", segundo P&~ seja considerada como uma "ciencia social" e sim,cheux, estao no prolongamento direto das ideologias que se de- eventualmente, como uma ciencia humana" ou, at6senvolveram em contato estreito com a praiica polftica. Elas mesmo, como uma "ciencia da vida").consistem, em seu estado atual, ele acrescenta, na aplicagao de 2. A ligagao entre a prdtica polftica e o discurso. Pecheuxuma tecnica a uma ideologia das relacoes sociais tendo em vista recusa completamente a concepgao da linguagem que aa adaptagao ou a "re-adaptagao" das relagoes sociais a pra"tica reduz a um instrumento de comunicacao de significa-social global, considerada como uma invariante do sisterna.12 goes que existiriam e poderiam ser definidas indepen-Mas Pecheux acrescenta ainda algo concemente a pratica polfti- dentemente da linguagem, isto 6, "informagoes". Estaca que, enfim, nos faz retornar a analise do discurso. Ele diz que teoria ou concepgao da linguagem 6, para ele, umao instrumento da pra"tica polftica 6 o discurso, ou mais precisa- ideologia cuja fungao nas "ciencias humanas e sociais"mente, que a pratica polftica tem como fungao, pelo discurso, (onde ela 6 dominante) € justamente mascarar sua liga-transformar as relagoes sociais reformulando a demanda so- gao com a pratica polftica, obscurecer esta ligagao e, aocial.13 mesmo tempo, colocar estas ciencias no prolongamento das ciencias naturais. Mesmo nao possuindo uma lin- guagem nos moldes das linguagens humanas, os ani- mais se comunicam. For este motive, a redutora con-Linguagem, discurso e ideologia cepgao de linguagem humana como instrumento de co- municagao (concebida, 6 verdade, de modo muito com- plexo, muito elaborada, e muito performante, mas, no Deste modo vemos que, do ponto de vista de Pecheux, as entanto, para isso) conduz a conceber o homem e as so-"ciencias sociais" sao essencialmente tecnicas que tern uma li- ciedades humanas com base nos mesmos princlpios dosgagao crucial com a pratica polftica e com as ideologias desen- animais e das sociedades animais. Se & sob a forma ge- 24 25
  • 15. ral do discurso que estao apagadas as dissimetrias e as Estruturalismo e linguagem dissimilaridades entre os agentes do sistema de produ- gao, sem duvida isto nao se produz de modo explfcito, atrave"s de um tipo de ordem: "coloque-se aqui, este 6 Pecheux, nao mais que Lacan, Foucault ou Althusser, nao seu lugar no sistema de produgao", isto 6, pelo vie"s de pode ser considerado um "estruturalista". Contudo, houve no uma especie de "comunicagao", eventualmente acom- estruturalismo um foco colocado sobre a linguagem que pode ser panhada de alguma forma de coercao ffsica ou de encontrado tanto em Lacan ou Foucault quanto em Pecheux. O ameaga. E claro que a coerc.ao pode existir e existe estruturalismo frances fez da Hngufstica a ciencia-piloto; os es- senipre em um sentido. E claro, por exemplo, que qual- truturalistas tentaram definir seus me"todos tendo como referen- quer um pode se ver obrigado a tomar um lugar defini- cia a lingufstica, tendo tamb^m transferido todo um conjunto de do em um sistema de trabalho, mas esse lugar nao 6 um conceitos lingufsticos para quase todos os dominios das ciencias lugar no sistema de produc.ao.Nao e a isto que estamos humanas e "socials". Os estruturalistas identificaram cultura e nos referindo. linguagem de tal modo que toda a analise de qualquer fato cultu- ral devia- tomar uma forma de andlise Hngufstica, ou qualquer O que precisa ser compreendido e como os agentes deste coisa de similar (semiologia, semidtica). Nao e" este o caso de sistema reconhecem eles prdprios seu lugar sem terem recebido Lacan. Lacan nao tentou reduzir a psicanalise a uma espdcie deformalmente uma ordem, ou mesmo sem "saber" que tern um analise linguistica; mas sua concepgao de psicandlise centraliza-lugar definido no sistema de produgao. Quando alguem se ve se sobre o fato de que se trata de uma "cura de palavra", ope-obrigado a ocupar um lugar dentro de um sistema de trabalho, rando exclusivamente sobre a fala (isto vai de encontro a certaseste processo ja se deu anteriormente; tal pessoa sabe, por tendencias psicologizantes, biologizantes ou mesmo sociologi-exemplo, que 6 um trabalhador e sabe o que tudo isto implica. O zantes ou antropologizantes na psicandlise). Lacan se referiu amesmo acontece quando alguem 6, por exemplo, nomeado juiz. Saussure e Jakobson; interpretou a Verdichtung e a Verschie-O processo pelo qual os agentes sao colocados em seu lugar 6 bung fcondensagao e deslocamento) freudianas em termos deapagado; nao vemos senao as aparencias externas e as conse- metafbra e metonimia; e colocou primeiramente uma concepgaoquencias. Para compreender como este processo se situa em um do inconsciente como estruturado como uma linguagem, e domesmo movimento, ao mesmo tempo realizado e mascarado, e o sujeito como ser de linguagem ou ser falante. Mas podemos ob-papel que nele desempenha a linguagem, devemos renunciar a servar que tudo aquilo que Lacan tomou emprestado a lingiifsti-concepgao de linguagem como instrumento de comunicacao. Isto ca (como em relagao a qualquer outro campo cientffico) foi denao quer dizer que a linguagem nao serve para comunicar, mas fato reelaborado por ele tet5rica e operacionalmente.sim que este aspecto e" somente a parte emersa do iceberg. No estruturalismo, os conceitos e os metodos linguisticos foram simplesmente transferidos para outros campos sem ter so- E justamente para romper com a concepcao instrumental frido reelaboragoes fundamentals. Ao fazer isto, os estruturalis-tradicional da linguagem que Pecheux fez intervir o discurso tas se comportaram de modo semelhante aos nossos medidorese tentou elaborar teoricamente, conceitualmente e empiricamente de ce"rebro. Por este motivo, e este 6 um ponto fundamental, elesuma concep$ao original sobre este. Nesta tentativa de romper nao se encontraram em uma posigao que Ihes terJa permitido secom a concepcao instrumental da linguagem, Pecheux seguiu desfazer do ha"bito de fazer da natureza humana (ou do espfritouma orientacao que teve uma importancia considerate! na Fran- humano) um princfpio explicativo.14 Tal hdbito foi herdado daca, la" evocamos o estruturalismo e devemos acrescentar agora teologia crista (a qual colocava Deus atra"s da natureza ou do es-algumas observacoes a seu respeito. pfrito humano — assim como atra"s de cada coisa, mas em uma 26 27
  • 16. posigao privilegiada, de eleigao — como princfpio explicative jogo e tenta ir al6m do homem e do humanismo, o nome do ho- ultimo de tudo que 6 concernente ao homem) e da filosofia clds- mem sendo o nome deste ser que, atravfis da histtfria da metaff- sica, que elaborou sobre esta base sua concepgao do sujeito hu- sica ou da onto-teologia, isto 6, do todo de sua histdria sonhou mano (sob diversas denominagoes como, por exemplo, a Kazao). com a presenc.a plena, o fundamento tranqiiilizado, a origem e o O estruturalismo nao renunciou a ide"ia de que hd uma especifi- flm do jogo. Esta segunda interpretagao da interpretagao, cujo cidade das "ciencias humanas" assentada sobre a especificidade caminho Nietzsche nos indicou, nao busca na etnografia, como a de seu objeto, o homem, o que resulta em uma petigao de prin- queria L6vi-Strauss (...), a ciencia "inspiradora de um novo hu- cfpio porque pressupoe que a referenda ao homem bastaria para manismo".18 Por trds destas posigoes, as quais foi colocada a colocar e especificar a priori um objeto de ciencia, quaiquer etiqueta de "anti-humanismo tedrico", corre um fio comum: o coisa cientiflcamente especifica e bem definida. Desta maneira, desfazer-se da sujeigao transcendental em quaiquer de suas for- o estruturalismo preservou a id&a de que as "ciencias do ho- mas, inclusive aquelas ligadas ao humanismo tedrico, mas tam- mem" ou as "ciencias humanas" podiam ser a base de um reno- bem as formas dissimuladas que pode tomar, como, por exem- var do humanismo. E por isso que, na Franga, a (principal) filo- plo, o caso de certos tipos de pseudomaterialismo da natureza sofia das "ciencias do homem" ou das "ciencias humanas", isto humana ou do espfrito humano - com o objetivo de abrir um €, aquela que enunciava a diferenca especifica entre estas cidn- campo de questoes e de prdticas tornadas impossfveis ou incon- cias e as outras foi o estruturalismo. Esta confusao chegou a tal cebfveis em func,ao desta sujeic.ao. Com este objetivo, Lacan, ponto que, como o estruturalismo, as ciencias humanas ou as Foucault ou Derrida fazem uma referencia comum a lingua- "ciencias do homem" foram, durante certo perfodo de tempo, gem, ao signo ou ao discurso. Derrida, na citagao acima men- entendidas por alguns como a prdpria filosofia, como a "filoso- cionada (mas encontram-se formulagoes relativamente equiva- fia do nosso tempo". De fato, o estruturalismo deixou, deste lentes em Lacan ou Foucault), fornece a chave quando critica modo, a porta aberta para todas as formas de reducionismo, en- a tentativa de se decifrar "uma verdade ou origem, escapando quanto tentativas para especificar, de todos os pontos de vista do jogo ou da ordem do signo". A linguagem (ou jogo, ou a or- possfveis, inclusive os biologicos, a natureza humana, para dela dem do signo, ou o discurso) nao e" entendida como uma origem, fazer um princfpio explicative. ou como algo que encobre uma verdade existente independen- temente dela pnSpria, mas sim como exterior a quaiquer falante, Mas na mesma ocasiao em que a filosofia estruturalista era o que define precisamente a posigao do sujeito, de todo sujeito elaborada, pessoas como Lacan, mas tambem Althusser, Derrida possivel. Mas isto define o sujeito como posigao, e nao como ou Foucault, estavam rejeitando — tendo como base posicoes di- uma coisa em si mesma, como uma substimcia. Nao se encontra versas — radicalmente esta concepcao de sujeito e aquela de em Lacan, em Foucault ou em Derrida uma definigao "positiva" "ci£ncias humanas", que afse enquadram.15 Quase que simulta- quaiquer de sujeito enquanto entidade; encontra-se somente sua neamente, Foucault escreve: "A cultura ocidental constituiu, sob posigao. Deste modo, torna-se possfvel dar conta da sujeigao o nome homem, um ser que, por um rfnico e mesmo jogo de ra- transcendental em si e de suas conseqii£ncias, como tendo rela- zoes, deve ser objeto positive de saber e nao pode ser objeto de gao com este "sempre-jd-Id" da linguagem (ou de signo) em tu- ciencia";16 Lacan escreve: "Nao hd ciencia do homem porque o do que se refere ao sujeito, e nao fazendo referencia a uma pos- homem da cidncia nao existe, existe somente seu sujeito",17 e sivel credibilidade que seria inerente a natureza humana. AssimDerrida escreve: "Hd, portanto, duas interpretac.6es da interpre- sendo, a linguagem deixa de ser fato substitute da "naturezatagao, da estrutura, do signo e do jogo. Uma procure decifrar, humana", ou do "espfrito humano" ou da "estrutura do espfritosonho de decifrar uma verdade ou uma origem que escapa ao jo- humano" enquanto princfpio de explicagao ou enquanto origem.go e a ordem do signo, e vive como um exflio a necessidade da E 6 por af mesmo que, no que diz respeito ao sujeito, toda velei-interpretagao. A outra, que nao se volta para a origem, afirma o dade reducionista tornara-se nao-pertinente. 28 29
  • 17. Sujeito, discurso e ideologia na epoca entre a releitura de Marx, por Althusser, e o "retorno a Freud" de Lacan). Esta releitura de Marx foi conduzida de acordo com um metodo que Althusser definiu como sendo uma Mas, no momenta em que escreve A andlise automdtica do "leitura de sintomas"; isto e", uma leitura centralizada sobre as discurso e os dois textos assinados por Herbert, Pecheux segue descontinuidades, os saltos, os pontos de embaraco, as refor- mais Althusser que Lacan, Derrida ou Foucault. Vimos que a mulacoes que aparecem nos textos de Marx21. Este metodo im- preocupacao principal de Pecheux referia-se a ligac.ao entre o plica que os textos de Marx sejam confrontados entre si antes de discurso e a prdtica polftica, ligagao que, para ele, passa pela serem referidos a qualquer outra coisa exterior a eles mesmos. ideologia. E por este motivo que o segundo texto assinado por Por este motivo, tal metodo foi visto como um rnetodo "estratu- Herbert foi consagrado ao esboco de uma teoria geral das ideo- ralista", uma vez que se assemelha a certos procedimentos es- logias. Segundo Althusser, 6_tendg_.como_.referencia-a ideologia truturais (por exemplo, aqueles aplicados por Vladimir Propp que Pecheux introduz o sujeito enquanto efeito ideoldgico ele- aos contos populares ou por Le"vi-Strauss aos mitos, ou seja, o mentar. E enquanto sujeito que qualquer pessoa 6 "interpelada" confronto entre as diversas versoes de um conto ou de um mito). a ocupar urn lugar determinado no sistema de producao. Em um O objetivo de Althusser era abrir o marxismo para novas elabo- texto publicado mais tarde, ao qual Pecheux refere-se com fre- racoes te6ricas sem perder o que Marx havia produzido, no lu- quencia, Althusser escreve: "Como todas as eviddncias, incluin- gar de tomar as obras de Marx como uma especie de Bfblia ou do aquela segundo a qual uma palavra designa uma coisa ou de Vulgata. O m^todo de Althusser com certeza influenciou Pe- possufa uma significagao* , ou seja, incluindo a evidSncia da cheux. Podemos dizer que uma das coisas que Pecheux tinha em transparSncia da linguagem, esta evid£ncia de que eu e voce1 mente quando comecou a trabalhar com a analise e a teoria do somos sujeitos — e que este fato nao constitui nenhum problema discurso era constituir uma teoria e uma sistematizagao deste- 6 um efeito ideoldgico, o efeito ideoldgico elementar".19 Por m^todo.que "elementar"? O que este termo quer dizer? Quer dizer pre- Mas a releitura de Marx por Althusser nao se baseia ape-cisamente que tal "efeito" nao 6 a conseqiiencia de alguma coi- nas em um metodo. Ela envolve tambem "instrumentos filosdfi-sa. Nada se torna um sujeito, mas aquele que e" "chamado" € cos". Em Elementos de autocritica, Althusser explica que, sesempre ja-sujeito. Mais precisamente, Althusser escreve: "A pareceu ser um estruturalista, mesmo nao o sendo, foi porque foiideologia nao existe senao por e para os sujeitos"; e ele acres- culpado de uma paixao muito mais comprometedora, aquela decenta que nao existe pra"tica senao sob uma ideologia. Em ser spinozista. Considerando que toda filosofia deva fazer umoutras palavras, todo sujeito huniano, isto e", social, s6 pode ser desvio por outras filosofias para poder se definir a si mesma e seagente de uma praiica social enquanto sujeito, apoderar de sua especificidade, sua diferenca, Althusser expli- ca que, do mesmo modo que foi necess<Srio para Marx empreen- der um desvio por Hegel, ele, Althusser, devia fazer um desvio Tais proposicoes foram formuladas apds a publicacao de A por Spinoza para cercar com mais precisao o desvio de Marx por andlise do discurso e dos dois textos assinados por Herbert. Hegel. No curso deste desvio por Spinoza, Althusser encontrou Entretanto, elas representam uma sistematizacao de posicoes neste ultimo uma concepcao que Ihe permitiu depreender aquilotedricas subentendidas no trabalho de Althusser sobre O capital que restava em Hegel da concepcao do sujeito como origem (oude Marx20 que PScheux conhecia bem. Nao 6 surpreendente, fonte), isto 6, a raiz do idealismo hegeliano, e, deste modo com-portanto, perceber que os dois textos assinados por Herbert se- preender aquilo que Marx quis dizer quando afirmou ter recolo-jam coerentes com estas posigoes. Ale"m do mais, o trabalho de cado Hegel em pe22 Spinoza, segundo Althusser, permite com-Althusser sobre O capital 6 uma releitura que tenta romper com preender por que e como esta "subversao" era possfvel, e de-a leitura dogmfitica predominante de Marx (um paralelo foi feito preender a "diferenga" entre Marx e Hegel.23 A tese de Almus- 30 31
  • 18. ser 6 que a categoria de Spinoza de "efeito sem causa" (exter- ciente para fazer de tudo aquilo que 6 humane objeto de ciencias no) ou finalidade 6 que subentende o famoso verum index sui et especfficas. A diferenca entre Althusser, de um lado, e Lacanfalsi (o verdadeiro indica a si mesmo, assim como o falso), e Derrida ou Foucault, de outro, e" que os tres dltimos refcrem oantecipou Marx sobre urn ponto especffico, mas crucial, que sujeito a umaunpossibilidade. ou seja, a impossibilidade de es-~concerne a categoria- central^do _idealismo:-o-sujeitO-como-ori- capaT—"JQgQ ou ordeni jb signo" (retomando a foirriulacao~flegem, essencia ou causa. Para Althusser, Spinoza € o primeiro Derrida), enquanto que_com- Althusser tgm-se a impossTbiridade"alePrompido com a questao da origem e a concepgao de sujeito deescapar da ideolggia^na qual ela se condensou. Deste modo, Althusser atacava a con- "A ideologia nao tern exterior (a ela)", escreve Althusser.cepgao de sujeito que Lacan, Derrida ou Foucault tambem ti- Ele nao diz "as ideologias nao tern exterior". Sem dtivida, paranham em mira. Mas ele a ataca em bases bastante diferentes e ele, ha" diferentes ideologias, diferentes posicoes ideologicas.com um objetivo preciso (discernir a ligagao e a diferenga entre Estas diferentes ideologias ou posigoes ideoldgicas sao antago-Marx e Hegel). Althusser, em sua "auto-crftica", explica tam- nicas (nao em contradigao). Assim, uma ideologia tern um "ex-be"m que um marxista nao podia fazer este desvio por Spinoza, terior", mas este exterior 6 de outras ideologias. Se ha" ciSncia,seja o que for que este desvio tenha trazido, sem, de uma manei- esta nao pode estar senao no "entremeio". Althusser diferenciara ou de outra, paga"-lo. Aquilo que Hegel deu a Marx, a contra- ciencias e teorias cientfficas. As teorias cientfficas sao enuncia-digao, falta completamente a Spinoza, diz Althusser, e isto o in- das, e como tal implicam ideologias, uma posigao de sujeito. Emduziu (a ele, Althusser) a ver a ideologia como sendo o ele- sjuma,..t_oda ,. teoria. eLideoldgica,_toda_teoria 6 provistSria. . . Umamento universal da existencia hist6rica. Assim ele foi, explica o teoria pode somente ser mais verdadeira do que uma outra, e naoprdprio Althusser, conduzido diretamente a uma teoria das pode ser simplesmente verdadeira. Em outras palavras, o sujeitoideologias em que estavam apagadas as diferengas entre as re- °MJf!JtO_jgioes da ideologia, as contradigdes de classe que passam atrave"s s,enao-este-da-ideologia._ Nao se tern af o sujeito de Lacan, ou dedelas, dividem-nas, agrupam-nas e as opoem umas as outras. Foucault, ou de Derrida. "Descrever uma formulagao como umEsta teoria geral das ideologias 6 precisamente aquela que esta- enunciado nao consiste, escreve Foucault, em analisar a relagaova esbogada no texto que citei mais acima.24 Em outras pala- entre o autor e aquilo que ele disse (ou quis dizer, ou disse semvras, Althusser considera que foi tirado da trilha do estrutura- o querer), mas sim em determinar qual € a posigao que pode elismo por Spinoza (e pela critica ao sujeito tradicional da filoso- deve ocupar todo indivfduo para ser seu sujeito.26 E nao hd ou-fia que ele ai encontrou), mas, pela pn5pria forga e poder desta tros modos de ser um sujeito. Em outros termos, s£r_um_sujejtpmesma critica, caiu na armadilha que o distanciou da contradi- para Foucaulj_€_ ocupjr jjma_p^^iciap_^nguanto_.enunciador. Oscao e da luta de classes na ideologia. discursos sap enunciados. A_unidade-eleme.n^_dp djscm^o_6_p_ E o que se encontra nos textos assinados Herbert? Uma re- enunciado. Aquilo que 6 ser um sujeito para Foucault & consis-ferSncia a Spinoza, no primeiro, e uma tentativa de esbocar uma tente_cpm sua concepgao de discursp._E podemos dizer que^euteoria geral das ideologias, no segundo. Tais textos estao clara- sujeito € gsujeito^do-discursjojal como ele o^oncebe. Devemosmente na linha de Althusser antes de sua autocrftica. Isto apare- ter em mente qual era o objetivo de Foucault: definir um cami-ce com muito mais forga quando se confronta a posicao de Al- nho novo no campo ocupado pela tradicional hlstdria das idelas;thusser com as de Lacan, Derrida ou Foucault. Como vimos, um caminho que poderia renovar a histdria das id^ias, contor-Althusser compartilha junto com estes Ires dltimos uma posigao nando o que a entrava: suas referfencias a uma subjetividade psi-comum sobre o estatuto dos sujeitos. E em referencia a esta po- coldgica considerada como principio explicativo. Q^Bjeito-desigao comum que Althusser, como Lacan, Foucault e Derrida, Foucault^e p suieito^.da.JlQnlenx.do,_discurso".27 O objetivo deexplicita sua diferenga com o estruturalismo25 e descarta de lado Derrida 6 renovar a filosofia desembaragando-a de suas tentati-a id^ia de que a especificidade da natureza humana seria sufi- vas de achar uma origem ou uma verdade fora do jogo ou da or- 32 33
  • 19. dem do signo. Seu sujeito € o sujeito deste "jogo de ordem do guagem (vista a partir da lingufstica, do conceito saussuriano de signo". O objetivo de Lacan 6 renovar a psicanalise e seu su- langue) e a ideologia28. Isto porque Pecheux nao se ateve asjeito e" aquele do inconsciente estruturado como uma linguagem. formulacoes que havia colocado anteriormente nos dois textos A linguagem 6 a condigao do inconsciente, aquilo que introduz assinados Herbert e no A andlise automdtica do discurso. Comopara todo ser falante uma discordancia com sua prdpria realida- Althusser, e junto com ele, renunciou & possibilidade de desen-de. E o objetivo de Althusser 6, como vimos, renovar o marxis- volver uma teoria geral da ideologia (ou das ideologias).mo e o materialismo histdrico. Temos, deste modo, diversas Ele voltou sua atengao para outros problemas que havia encon-tentativas de renovagao, sendo que todas colocam em mira o trado pelo caminho: o das liga^oes entre o objeto de analise e dasujeito, seu estatuto, como sendo a questao-chave. Mas os re- teoria do discurso e o objeto da lingufstica.29 Esta questao naocortes entre os sujeitos de Lacan, Foucault ou Derrida sao mais era somente um problema tedrico, mas tambem um problema le-evidentes do que aqueles entre qualquer um destes sujeitos e o vantado pelo sistema de analise de discurso que ele tinha cons-de Althusser. Os sujeitos de Lacan, Foucault ou Derrida sao li- truido. Era, em especial, o problema do tipo de analise lingufsti-gados a linguagem ou ao signo. A referencia & ideologia nao ca requerido para tornar o sistema operacional e Ihe permitirtern as mesmas implicasoes que a referencia a linguagem. Al- efetuar aquilo que havia sido concebido. Era, ale"m disso, o pro-thusser nao estava particularmente interessado pela linguagem, e blema dos limites de analise e da teoria lingufstica face a ques-€ af que chegamos ao amago daquilo que tern de ver com Pe- tao do sentido, da signiflcagao e da semantica. A maneira comocheux: as relagoes entre a linguagem e a ideologia. Para fazer Pecheux tratou estas questoes e tambem como ele faz frente aisto, ele s<5 tinha a sua disposicao a indicacao formulada por escolha do sistema informatico adequado 6 exposta mais adiante.Althusser sobre o paraielo entre a evidencia da transparencia da Trata-se af exatamente daquilo que Pecheux chamou de o pro-linguagem e o "efeito ideoldgico elementar", a evid£ncia se- blema da "apropriagao" dos "instrumentos", no caso, os "ins-gundo a qual somos sujeitos. Althusser estabeleceu o paraielo trumentos" lingiifsticos e da informatica. Mas estes problemassem definir uma ligacao. E foi para expressar esta ligacao que nao representam apenas problemas tecnicos; sao tambem pro-Pecheux introduziu aquilo que ele chama discurso^ tentando de- blemas tedricos. Pecheux nao podia concebe-los de outro modo.senvolver uma teoria do discurso e um dispositive operacional No nfvel mais profundo, o problema era bem aquilo que disse-de analise do discurso. O discurso de Pecheux nao 6 o de Fou- mos, ou seja, o da liga^ao entre o "sujeito da linguagem" e o dacault. ideologia. Pecheux nunca abandonou este problema mesmo que o tenha reformulado profundamente. Em seu ultimo Hvro, escrito em conjunto com Franchise Gadet, ele ainda se ocupava da lin-A teoria e a analise do discurso de Pecheux gufstica e de suas ambiguidades frente a disjunqao entre aquilo que faz e o que nao faz sentido, enquanto problema ao mesmo tempo tedrico e politico: "a metaTora merece que se lute por Pecheux se colocou entre o que podemos chamar de "su- ela", escreve ele, citando Kundera.30jeito da linguagem" e "sujeito da ideologia". Isto teve um peso Antes de examinar com mais detalhe como PScheux arti-sobre toda sua obra e nao apenas naquilo que se pode encontrar culou concretamente a andlise e a teoria do discurso por um ladoem A andlise automdtica do discurso. Em um de seus livros e a lingufstica por outro, desejo fazer uma ultima observagaoposteriores, Les vgrites de La Police, ele trata, precisamente, de concernente a "estrat^gia" de Pecheux. Vimos as razoes por quediscernir mais claramente as relagoes entre estes dois sujeitos, ele separou a apresentagao de seu sistema de analise automdticaou seja, as relagoes entre a "evidencia subjetiva" e a "evidencia do discurso da apresentacao dos problemas tedricos, filosdficosdo sentido (ou da significac.ao)", e coloca o discurso entre a lin- (e polfticos) que o conduziram a construir este sistema. Esta es- 34 35
  • 20. trate"gia teve, como todas as estrate"gias, seus inconvenientes. Ele NOTAS deixou aberta a possibilidade de se usar este sistema de a utilise do discurso como um instrumento ou uma ferramenta no sentido empfrico. E efetivamente o que se produziu, ainda que Pecheux tenha se preocupado e tentado impedir este desvio de seu ins- * Cahiers pour tanatyse, 2, marQO-abril 1966, reedigao, 1-2, pp. 141-167 (referi- trumento. De certo modo, ele concebeu seu sistema como uma do como Herbert 1 nas notas seguintes). 2 especie de "Cavalo de Trdia" destinado a ser introduzido nas Cahiers pour tanafyse, 9, verao 1968, pp. 74-92 (referido como Herbert 2 nas notas seguiotes). ciencias socials para provocar uma reviravolta (algo analogo ao 3 "Analyse decontenuetth£oriedudiscours"(BH/ferin^«C^J?J1., 1967,16, (3), que Foucault tentou com sua "arqueologia" em relagao a histd- pp. 211-227. "Vers une technique danalyse du discours", Psychologie frcmgaise, ria das idelas). Nao podemos dizer que isto nao se tenha produ- 1968,13,(1), pp. 113-117, zido, na medida em que numerosos pesquisadores, tendo utiliza- ^ Analyse automatique du discours, Paris, Dunod, colegao "Sciences du Compor- do a anaUise autom5tica do discurso de Pecheux, foram levados a tement", 1969, p. 142. formular questoes que provavelmente nao seriam formuladas ca- ^ PSgina 110 da edic.ao original em frances. 6 so nao tivessem reconido a este sistema, e isto mesmo se a Em 1964 era publicado em La nouveUe critique, a revista do partido comunista trances destinada aos intelectuais, um texto de Althusser tendo como tftulo "Freud et maior parte destas questoes continuam, ainda hoje, sem resposta. Lacan" (La nouveUe cririgue,dez. 1964-jan. 1965, n9 161-162, pp. 105-144, republi- Os instrumentos cientfficos nao sao feitos para dar respostas, cado em Louis Althusser, Positions, Paris, Editions Sociales, 1976). A publicagao mas para colocar questoes. E pelo menos isto que PScheux es- deste texto nesta revista marca o fim do ostracismo oficial do partido comunista francos com relagao a psicanalise. No Cercle d*Epistemo]ogie de IEcole Normale perava de seu dispositivo: que ele fosse verdadeiramente o meio Sup6rieure (onde Pecheux era membro sob o pseudfinimo de Thomas Herbert) se en- de uma experimenta§ao efetiva. Alem do mais, creio que sua re- contravam reunidos marxistas prtiximos do partido comunista frances (e mesmo flexao geral sobre aquilo que 6 verdadeiramente um instrumento membros efetivos), assim como filiSsofos muito influenciados por Lacan. cientffico merece ainda nossa reflexao. Este deveria ser o caso, Pecheux enfocou o desenvolvimento histdrico da teoria do magnetismo, Ver; "I- deologie et histoire des sciences", em M. Fichant e M. Pecheux (eds.), Surfhistoire se temos em mente aquilo que se coloca atualmente como forne- des sciences, Paris, Maspero, 1969, pp. 13-47. cendo as bases de uma "nova ciencia do espfrito", fazendo refe- 8 Herbert 1, p. 163.rdncia as maquinas de Turing, aos computadores e as redes neo- 9 Os Ifderes de uma abordagem nao-positivista e anti-empirista em epistemologia,conexionistas ou neuronais. Infelizmente, Pecheux nao esta" mais histdria e filosofla da ciencia na Franca (oposta, por exemplo, aquela de Duhem), queconosco para nos ajudar a fazer frente a este retorno do "velho insistiram sobre a necessidade de nao se dissociar epistemologia e histdria da cienciamonstro". e recusaram a concepc3o continufsta do progresso das ciSncias, chamando aatengao para as descontiiiuidades e as rupturas. Esta abordagem da epistemologia e da hist<5- ria das ciSncias teve uma continuagao, em uma perspectiva um pouco diferente, por Michel Foucault em especial (ver, por exemplo: Dominique Lecourt, Poor une criti- que de fepistemologie (Bachelard, Canguilhem, Foucault), Paris, Maspero, 1978. 10 Georges Canguilhem: Ideologic et rationoBtt de Fhistoire des sciences de la vie, Traducao: Bethania S. Mariani Paris, Vrin, 1977. 11 Herbert 2, p. 77. 12 Herbert 1, p. 157 e pp. 158-159. 13 Herbert 1, p. 152. Sem ddvida, Pecheux observa que isto nao quer dizer que o politico nao € nada senao o discurso. A tftulo de ilustrac.ao, ele toma o exemplo do direito e da pratica jurfdica que tentam ao mesmo tempo, escreve, racionahzar a lei "estabelecida" e realizar a "essencia racional do direito". A transfonnacao que a pratica jurfdica tenta efetuar consiste em fazer parecer que aquilo que, em mate"ria de direito, existe "por natureza" existe "por razao". Esta transformasab € uma refor- mulagao que fez intervir o discurso e, indo ainda mais al£m, que se realiza na instSn- cia do discurso. 36 37
  • 21. ^ Ver, por exemplo, Claude LeVi-Strauss: La pensee sauvage, Paris, Plon, 1962, eumacrftica sobre esta posigao em Cahierspour f analyse, n34("L£vi-StraussdansleXVIIF siecle").^ Ver Francois Wahl, "La philosophic entre Iavant et lapr£s du stracturalisme",em Quest-ce que le structuralismel, Paris, Le Seuil, 1968, APRESENTA^AO DA CONJUNTURA EM *6 Michel Foucault, Les mots et leschases, Paris, Gallimard, 1966, p. 378. Existem LINGVlSTICA, EM PSICANALISE Etnuitos pontos de contato entre aquilo que Michel Foucault elaborou no que se refereao discurso e aquilo que fez Michel Pecheux, pelo menos no nfvel tedrico (por exem- EM INFORMATICA APLICADA AO ESTVDOplo, encontra-se em Foucault uma nogao de "formagao discursiva" que tern algunspontos em comum com aquela de Pecheux), e em particular no nfvel pra"tico (Fou- DOS TEXTOS NA FRANCA, EM 1969cault nunca tentou elaborar um dispositivo operacional de analise do discurso) (Ver:Michel Foucault, Larcheologie du savoir, Paris, Gallimard, 1969, e Lordre du dis-cours, Paris, Gallimard, 1971). Pecheux partilhava com Foucault um interesse co- Frangoise Gadetmum pela historia das ciencias e das ide*ias que pode explicar por que ambos, mais do Jacqueline Le"onque qualquer outro autor, focaiizaram o discurso. Denise MaldidierI "7 I Jacques Lacan, "La science et la verite", Cahiers pour f analyse, 1, 1966, Michel Plonpp. 9-30, republicadoem£cri&, Paris, Le Seuil, 1966, pp. 855-875, p. 859. 18 Jacques Derrida, "La structure, le signe et le jeu dans le discours des scienceshumanes", em Lecriture et la difference, Paris, Le Seuil, 1979, p. 427. PScheuxsempre considerou Nietzsche como uma figura crucial da hist<5ria da filosofia, capi-tal para se compreender o que esta" em jogo no debate atual em filosofia (pouco tem- Pareceu-nos necessdrio proper alguns elementos a umapo antes de nos deixar, ele tinha como projeto trabalhar mais particularmente sobre leitura histoYica desse livro de 1969, para esclarecer suas refe-Nietzsche). rencias tedricas, remetendo-as a sua conjuntura. O presente *" Louis Althusser, "Ideologic et appareils ide*ologiques detat",- La Pensee, 151,junho!970,p. 30. texto e as notas que se seguem permitirao compreender melhor a"}n relacao entre esse primeiro texto de analise do discurso e os re-*u Louis Althusser, Pour Marx, Paris, Maspero, 1965 e (em col. com J. Ranciere, P.Macherey, E. Balibar, R. Establet) Lire le Capital, 2 vols. Paris, Maspero, 1965. manejamentos que Michel Pecheux nunca deixou de proper.T1Z1 Observemos que, para defmir seu metodo, Althusser faz referSncia a Freud. Aquestao do sujeito e do inconsciente era, no entanto, evocada nos primeiros textosassinados por Herbert, sobretudo quando 6 abordada a crftica do sujeito tradicionalda filosofia. Pecheux at se ap<5ia sobre Freud (e Lacan) e nao somente em Althusser.99 Observamos a ligac.ao com o metodo se observarmos que uma filosofia nao pode 1. A Ifiigua e a lingufstica ter ligacao com outra filosofia senao atraves de textos, logo de uma "leitura". 23 Elements d"autocritique, Paris, Hachett, 1974, Cap. 3 e 4, pp. 55-83.24TC Vernotal9. s Vamos tentar circunscrever a concepgao que MP tern da E particularmente claro para o que 6 concemente a Foucault na conclusao deLarcheologie du savoir, p. 126. lingua atrave"s de algumas breves monografias, baseadas em seis26 Michel Foucault, Larcheologie du savoir, p. 126. nomes e temas da conjuntura lingufstica tal como ela se apre-2 Michel Foucault,Lordredu discours, Paris, Gallimard, 1971. sentava na Franca no infcio dos anos sessenta:^ Michel PScheux, Les verites de La Police (Linguistique, s&mantique, philosophic), — Saussure e o estruturalismoParis, Maspero, 1975. Traduzido para o portugues como Semandca e discurso, Edi-tora da Unicamp, 1988. - a recepcao de Chomsky e da GGT2" Observemos que, quase ao mesmo tempo, Foucault passou da problematica da — Harrisarticulagao entre discurso, saber e histoVia das idfiias aquela das rela$6es entre o sabere o poder. Ver: SurveUler et punir (Naissance de la prison), Paris, Gallimard, 1975, — Jakobsone Histoire de la sexuaUtt, 1, La volonti de savoir, Paris, Gallimard, 1976. — Benveniste e a enunciacao 3 " Francoise Gadet e Michel PScheux, La langue introuvable, Paris, Gallimard, - Culioli 1981. 38 39
  • 22. Se esses seis temas sao necessdrios, 6 porque parece, com tern um lado redutor, tirando pouco proveito das Sources ma-efeito, que a concepgao de lingua de onde MP vai isolar seu nuscrites du CLG, estudadas por Robert Godel, entao aindaconceito de discurso 6 delineada por contribuigoes cuja hetero- muito pouco conhecidas, embora disponfveis desde 1957;geneidade ele rapidamente sentiu, e porposicdes filosdficas que - a dos sociolingiiistas: uma leitura essencialmente mili-adotou na paisagem tedrica dos anos sessenta. tante e crftica, visando sobretudo a demonstrar a inefi- Qualquer que seja a amplitude do horizonte lingufstico ca*cia da "hngua/fala" no tratamento de problemas deabrangido, sua pnJtica gramatical efetiva se cruza frequente- discurso e de utilizagao da lingua em contexto social;mente com a da grama*tica tradicional tal como se manifesta no - a dos "fildlogos" do texto saussuriano. Excegao feita aoensino fundamental frances: andlise gramatical e anaMise Idgica, artigo de Benveniste (1963, in 1966), ela tern pouca di-princfpios de retdrica. Eis o pano de fundo, corrigido superfi- fusao fora dos cfrculos de especialistas. As Sources...cialmente em certos pontos por contribuigdes mais recentes. de Godel foram publicadas em 1957, mas em um editor sufgo pouco difundido (Droz). Engler j5 tinba comegado Rapidamente, em escritos posteriores, MP passa a criticar seu monumental empreendimento (cujos cinco tomossua concepgao de lingua entao em vigor para, em seguida, tentarmodifica"-la. Entretanto, o formato do enunciado elementar per- apareceram entre 1967 e 1974); 6 certo que ele publicou artigos a esse respeito nos Cahiers Ferdinand de Saus-manece fixo ate" o abandono do programa AAD-69, no infcio dosanos 80, quando o uso de DEREDEC vai fazer com que as pos- sure, a partir de 1962, mas trata-se af de uma revista com tiragem restrita. E sd depois de 1970 que os primei-sibilidades de comparacao nao mais se limitem unicamente as ros artigos de Cl. Normand aparecerao em revistas desequencias de igual dimensao (ver Formalizagao). orientagao te<5rica nitidamente marxista (La Pens4e, Dialectiques), e na grande revista francesa de lingufsti- ca, Langages. Ve-se, pois, que as Sources... levamSaussure e o estruturalismo lingufstico muito tempo para suscitar o interesse dos linguistas; - a dos liter^rios. A partir de 1961, Starobinski comecou a publicar artigos — que posteriormente serao reunidos em Indubitavelmente, desde a epoca da AAD-69, MP 6 um As palavras sob as palavras (1971) — sobre um aspectoleitor de Saussure muito atento, o que permanecera" na seqiidncia na e"poca ainda muito pouco conhecido da obra de Saus-de sua obra (por exemplo: LANGAGES 24 e La langue introu- sure: os Anagramas. Sao pessoas como R.Jakobson,vable). J.Kristeva, T.Todorov, R.Barthes e, mais tarde, L.J.Cal- Isso € digno de nota em uma e"poca, no geral, caracterizada vet, que vao garantir sua difusao na Franca. Os ameri-por um interesse bastante vago por Saussure, mais referdncia do canos continuam essa difusao no ano de 1975, em parti-que materia de trabalho. As leituras dos anos sessenta se enqua- cular com os dois Saussures (niSmero especial da revistadram, na verdade, em va>ios tipos: Semiotexi)- - a dos estruturalistas, bastante marcada na Franca por Mesmo sem aplicar, na verdade, nenhuma dessas catego- Martinet (como Elementos de lingutstica geral de 1962) rias de leitura, MP revela, desde 1969, uma grande familiaridade e por Mounin (Saussure ou le structuralisme sans le sa- com o texto de Saussure: uma leitura informada, inteligente e voir sera" publicado em 1968). pessoal, que faz realmente operar as nogoes saussurianas. Essa leitura ainda nao leva, na e"poca, o nome de "vulga-ta" que Ihe sera" atribufdo a partir de Lepschy (1966, A lingufsti- Paul Henry se recorda de que MP tinha nessa ^poca estu-ca estrutural, traducao francesa pela Payot em 1968), mas ela dado o CLG, lido as Sources..., Starobinski e, inclusive, o tra- 40 41
  • 23. balho sobre os Nibelungen. Os efeitos dessa convivencia fntima Chomsky tira proveito de Jakobson ao integrar em sua teoria apddem ser sentidos em AAD-69: frase e uma criatividade nao-subjetiva da lingua. Ele passa, na — com respeito a concepgao geral de lingua: na passagem AAD-69, algo do entusiasmo que certos lingiiistas puderam sen- do interesse pela funcao ao interesse pelo funciona- tir com a eclosao da "revolugao chomskyana". mento das hnguas, ele tira proveito do fundamento do Mas, para MP, essa revolugao mais instiga a pensar do que deslocamento saussuriano, ao reconhecer o trago funda- fornece solugoes. Antes Ihe surge a necessidade de pensar con- mental sobre o qual repousa a lingiifstica moderna a tra, resistindo a vertigem de construir um mecanismo de produ- partir de Saussure: a lingua 6 um sistema; gao dos discursos baseado no modelo da gramdtica gerativa. — se 6 verdade que ele constata, como os sociolinguistas, Mas pensa a favor quanto toma emprestada — de maneira metafd- que a oposigao hngua/fala nao poderia se incumbir da rica, 6 verdade — a oposigao chomskyana entre estrutura de su- problema"tica do discurso, nao 6 pela diluigao da oposi- perffcie e estrutura profunda. Veremos que essa oposigao Ihe gao que ele vai procurar resolver o problema, mas por permite propor a relacao entre estruturas discursivas analisaVeis meio de uma reflexao sobre o polo da oposigao menos como lugares de efeitos de superffcie e a "estrutura invisfvel" desenvolvido por Saussure: a fala; que as determina, - o papel atribuido ao "efeito metafdrico". Certamente in- Notemos tambe*m que a oposigao entre Saussure e Choms- fluenciado tambem pela leitura de Jakobson (par metafo- ky nao € ainda avaliada: a linguistica se acha incluida em ra/metonfmia, tal como € apresentado em "LinguTstica e "qualquer ciencia que trate do signo" (p.8), o que supoe uma Poe"tica") mas talvez, acima de tudo, pela compreensao equivalencia entre teoria do signo e linguistica, totalmente es- de uma posigao saussuriana sobre a lingua, que parece tranha a concepgao chomskyana de lingua. Ver sobre esse ponto dever algo ao mesmo tempo ao conceito de valor e a Saussure, une science de la langue, de F.Gadet, particularmente convivencia com os Anagramas. o cap. 3f "La linguistique est-elle vou^e a signe?". No entanto, essa opgao saussuriana nao evita certas for-mulagoes grosseiramente "estruturalistas" (no sentido da vul-gata). HarrisChomsky e a gramdtica gerativa Fundamentalmente, mesmo se um tanto heterdclito, 6 em A difusao da gramatica gerativa na Franga comega a partir Harris que se inspira o me"todo de andlise.de 1965: o numero 4 da revista Langages, intitulado La gram- A primeira tradugao de Harris em frances relativa a analisemaire generative, 6 de dezembro de 1966, e o livro introdutdrio do discurso aparece na revista Langages n9 13 (1969): "Dis-de N.Ruwet & de 1968; por outro lado, a primeira tradugao fran- course analysis", publicado em Language em 1952.cesa, a de Estruturas sintdticas, € de 1969. O nome desse lingiiista americano figura na Bibliografia A gramdtica gerativa 6, em AAD-69, menos o objeto de de AAD-69, com referencia a um outro texto, intitulado tamb^mempre"stimos formais, conceptuais ou metodoldgicos do que a "Discourse analysis", La Haye, Mouton, 1963 (inedito em fran-designagao de um horizonte tetfrico estimulante. Parece, quando ces), mas 6 mencionado apenas uma vez no texto, a propdsito dase le MP, que, na marcha triunfal da "ciencia lingiifstica", transformac.ao denominada T2, 42 43
  • 24. Nao nos sentimos em condicao de apresentar uma explica- Com respeito ao piano das proposigoes tedricas Jakobson 530 para essa ausencia, sobre a qual vamos proper apenas al- 6, de infcio, citado a contrdrio, quando se trata de buscar na guns elementos de reflexao. lingufstica posigoes anti-subjetivas: MP recusa o fato de que, Posteriormente (a partir de Langages 24 e em numerosos dos fonemas ao discurso, passa-se (gradatim) do sistema neces- textos, ver aqui Langages 37, p.4, e Mots 4, p.97), MP tomou sa"rio a contingSncia da liberdade; de que se tenha necessidade explfcita sua dfvida para com Harris. De fato, parece-nos que de regras combinatdrias cada vez mais poderosas (Essais, cap.Harris nao apenas fornece alguns procedimentos de ana*lise; ele 2, "Dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia").inspira o estabelecimento de todo o dispositive da AAD. No re- Mas, em Jakobson, MP encontra aberturas ou proposigoesgistro da superffcie discursiva, que constitui propriamente a fase para ampliar os limites da lingufstica, mesmo permanecendo node analise lingiifstica, a proximidade com Harris 6 muito grande: quadro do estruturalismo. Explica-se, desse modo, a retomadareducao do texto a enunciados elementares que lembram a frase da reformulagao do c61ebre esquema da comunicagao, assim co- "nrfcleo" de Harris, recurso as transformagoes (te"cnica gramati- mo a referencia a passagem em que Jakobson, em relagao a suacal essencial no mfitodo de Harris), busca, atrave"s dessas opera- teoria das funcpes da linguagem, propoe ver na unidade da Ifn-goes, de uma regularizagao dtima do discurso, com vistas a gua "um sistema de subcddigos em comunicagao recfproca".constituigao dos domfnios semanticos. Em que pese estar em Citagao nao-crftica, que marca a busca de um apoio tedrico paraquestao o emprestimo de um "procedimento" e nao o de uma dar conta da variagao discursiva no invariante da Ifngua (Essais,"teoria da Ifngua", MP tern presente que esse procedimento € cap. 11).estabelecido sobre "pressupostos tedricos que exigem precisa- As outras referSncias a Jakobson dizem respeito ao dispo-mente ser explicitados e criticados pelo lingiiista" (p.85). sitive de analise lingufstica. Elas se situam nos capftulos desti- Desse modo, com o recurso implfcito a Harris, perfilam-se, nados a analise da superffcie discursiva e se referem, nao semdesde AAD-69, questoes sobre a sinonfmia/substituibilidade, confusao, a notagao dos pronomes, ou dos elementos do sintag-sobre a variabilidade ou a invariabilidade sem^ntica, as quais se- ma verbal que tern a ver com a relacao enunciado/enunciagaorao formuladas mais tarde em torno da questao da parSfrase (tempo, voz, modo, pessoa). E impressionante constatar a refe-(Langages 37), introduzida por Harris, atraves da oposicao entre rencia utilitaria as indicagoes de Jakobson. Elas aparecem ape-transformagao incremencial e transformagao parafrastica (cf. nas como refer^ncias tecnicas que permitem dar consistencia a"Co-occurrence and transformation in linguistic structure", "forma do enunciado" (notada Fi e integrada a estrutura formalLanguage 33, 1957). Essa questao, motor do dispositive, terd em oito lugares).um estatuto essencial at£ Mat£rialites discursives (1980). Benveniste e a enunciagaoJakobson Os Essais de linguistique g£n£ralet traduzidos e prefa- Ii claro que em 1969 MP passou ao largo pela enunciagao.ciados por N.Ruwet, sao public ados em 1963. Eles fornecem a O lugar secundArio atribufdo a Benveniste confirma esse fato.MP elementos de reflexao tedrica e instrumentos de analise lin- Nenhuma das trfis referdncias a Benveniste mostra umagiifstica. compreensao real da fenda aberta no estruturalismo pelo reco- nhecimento do papel da enunciagao. O que, bem depressa, MP N.T.: com excecao do ensaio "Em busca da essencia da linguagem", os denials encoDtram-se traduzidos em Ungiastica e comutuca^do, SP, Cullrix. Sempre que reconhecerfi: a partir de Langages 37, ele dird que a AAD-69 ti- nos referirmos a essa obra, utilizaremos o tftulo em francos. nha sido "opaca" aos fen6menos da enunciagao. 44 45
  • 25. MP se apdia em Benveniste para fazer da frase - ao con- o recurso ao termo lexis ("o termo lexis foi apenas men- trario do que concede a Jakobson — a unidade do discurso, a cionado na AAD-69", escreve MP em Langages 37 fronteira de um domfnio irredutfvel a ordem da gramatica, mas p.52). Trata-se de um puro empre"stimo terminoldgico,ele nao lira desse fato nenhuma conclusao tedrica. Se Ihe credita do qual MP deriva a ide"ia de um esquema com oito lu-uma posigao sobre a "criagao infinita" da fala, sua retice"ncia gares resultante da aplicagao de uma forma (portadoraideol<5gica 6 clara: Benveniste aparece para MP como o lingiiista de determinagoes e de valores modais) a uma estruturada subjetividade. Qualquer que seja o canal pelo qual Benve- morfossintatica;niste tenha chegado ao conhecimento de MP (teria ele lido "Da a analise das determinagoes do nome e do verbo nosubjetividade na linguagem" a disposigao desde 1958 no Jour- enunciado, diretamente inspirada em Culioli, como MPnal de Psychologie, antes de descobrir os Problernas de lingiifs- sublinha em uma nota.tica geral publicados em 1966), parece que MP percebeu, ini-cialmente, em Benveniste, uma espe"cie de retrocesso, o retornodo sujeito psicoldgico, vitoriosamente banido da cena tedricapor Saussure e pelo estruturalismo. A publicagao da AAD-69 passa, no geral, desapercebida Se se admite com Cl.Normand (Langages 77) que a teoria pelos linguistas. Uma excegao, entretanto, portadora de todo umda enunciagao teve lugar, entre os Hngiiistas, mais atrave"s dos futuro: no numero 151 de La Pensee, "revista do racionalismotrabalhos de Jakobson do que dos de Benveniste, MP participa moderno", em que figura o famoso artigo de L. Althusser, Apa-da atitude dominante entre os Hnguistas. Esse desconhecimento relhos ideol6gicos de Estado (junho, 1970), a lingiiista Gene-provisdrio de Benveniste se explica por razoes tedricas prdprias. vieve Provost consagra, na rubrica dos livros, uma nota impor-Fundamentalmente ocupado com a questao do sujeito, MP nao tante sobre a AAD de MP. Seu artigo, ao mesmo tempo em quepodia senao reinvestir muito rapidamente os problemas da enun- coloca questdes propriamente lingiifsticas (problema da sinoni-ciacao. Ver Langages 37, p. 16 sg., as reflexoes sobre "a ilusao mia) e se interroga sobre os me"todos de analise, acentua funda-necessaria constitutiva do sujeito" e a teoria dos dois esqueci- mentalmente a contribuigao de MP a problem^tica da analise domentos. discurso ("uma abordagem interessante das orientacoes atuais concernentes a analise do discurso"). No mesmo fluxo, testemu- nha um encontro de fato entre as preocupagoes de MP e as de um grupo de pesquisadores que trabalham, a exemplo da prdpriaCulioli G.Provost, em torno do lingiiista Jean Dubois em uma nova dis- ciplina universitdria, a analise do discurso. O reconhecimento de um objeto comum caminhava par a par com a busca de me"todos Sabe-se que MP estava atento aos trabalhos do seminario de analise lingiifstica (referencia implfcita em MP, Harris era ade Culioli (Nancy, 1967) e que participou do Centre dEtudes et referSncia central do grupo de J.Dubois — lembremos aqui a tra-de Traduction Automatique de Grenoble (CETA) que contava, dugao, em 1969, por iniciativa deste dltimo, de "Discourseentre outros, com A.Culioli. Por outro lado, trabalhou com Cu- analysis"); essa busca se inscrevia em uma perspective global-lioli, notadamente sobre a questao dos determinantes. Cf. "Con- mente marxista da relagao Ifngua/classe social. G.Provost teve oside"rations theoriques a propos du traitement formel du langa- m6rito de compreender, de imediato, a importancia do eventoge" por A.Culioli, C.Fuchs e M.Pecheux, Dunod, 1970. AAD-69. A histdria da andlise do discurso na Franca, tal como Esse encontro 6 atestado por dois pontos principals na se pode, hoje, tentar comp6-la, 6 fortemente marcada pelasAAD-69: orientagoes conceptuais do livro de 1969. 46 47
  • 26. 2. Sobie a questao do sujeito rienbad, centrada em "O estado de espelho". Essa coletanea que ia se tornar, mais do que qualquer outra obra publicada na epoca, o livro de cabeceira de toda uma geragao de intelectuais No final do ano de 1964, como conclusao do prdlogo que franceses, se encerra com o artigo "La science et la ve"rite"", pu- faz a seu artigo "Freud e Lacan", Louis Althusser escreve: "O blicado anteriormente no primeiro ntimero dos Cahiers pour Ia- estudo seVio de Freud e de Lacan, que todos podem empreender, nafyse, e que constitufa a aula de abertura do semina"rio que La- dard sozinho a medida exata desses conceitos, e permitira definir can dirigiu na Ecole Normale Superieure da rua dUlm no curso os problemas em suspenso numa reflexao tedrica j£ rica em re- do ano 1965-1966. sultados e promessas" (in Positions* Paris, Ed. Sociales, 1976). Atendo-se apenas a essas breves reconstituic.6es histdricas, Quaisquer que sejam as qualidades intrfnsecas desse artigo poder-se-ia pensar que MP, aluno de Louis Althusser, "norma-— que seu autor jamais considerou como totalmente isento de lien"*, agrege de filosofia, membro do Cercle dEpistemologie aproximagao -, sua data de publicac,ao, o evento que ele cons- dessa Ecole Normale, nao podia deixar de estar familiarizado titui e a ruptura que opera no abismo que, desde Politzer, o pen- com o pensamento lacariiano. samento marxista (frances especialmente) tinha instaurado entre A julgar pelas evidencias, de fato nao e* assim; a primeira si e a psicanalise, 6 que Ihe vao conferir importancia hist6rica e edicao de Andlise automdtica do discurso testemunha isso, bem fazer dele uma referencia incontornaVel. E, pois, na conjuntura como toda a seqiie"ncia de sua obra, que, marcando sempre, seja tedrica da qual esse artigo faz parte que se deve inscrever o que silenciosamente, seja sob a forma de referencias e de tentativas,6, ou melhor, o que pode ser decriptado da relacao de Michel limitadas, de utilizacao de conceitos freudianos e lacanianos, umPecheux com a teoria psicanalftica. respeito absolute pela teoria psicanalftica, vai permanecer um Jacques Lacan nasceu em 1901; medico psiquiatra, aluno pouco esquerda, frequentemente tomando-a de empnSstimo me-de Clerambault, defende, em 1933, uma tese sobre a psicose pa- nos em relacao ao inconsciente do que face as teorizagdes derandica na qual rompe com a corrente da psiquiatria organicista seu funcionamento e de seus efeitos.para se encaminhar em diregao ao percurso clmico dinamico e seapoiar na psicologia concreta, que Ihe permite sustentar o con- Nem Freud nem Lacan figuram na bibliografia da AAD, eceito, entao revolucionaYio, de personalidade. la" nesse trabalho, a psicanalise enquanto tal se encontra af apenas furtivamentepode-se discernir o interesse por um exterior da psiquiatria e a mencionada (pp.7 e 110).fixagao de bases que vao, bem cedo, orientar a caminhada desse Para explicar essa discricao, podem ser antecipadas razoesjovem medico, amigo dos surrealistas, rumo a descoberta freu- de ordem titica, inscritas na estrat^gia universit^ria que era a dediana. A partir desse memento, a vida ptiblica e a obra de Lacan MP na £poca, razoes ligadas as referencias tedricas da cole?aovao progress! vamente participar da histdria da pslcandlise na que deveria acolher esse trabalho as opgoes piagetianas do di-Fran§a, ritmar seu curso e acabar por orquestrd-la por complete retor da colegao, Francois Bresson, ou ainda a insergao institu-(ver Elisabeth Roudinesco, La bataille de cent cms, histoire de cional de MP na secao de psicofisiologia e psicologia do Centrela psychanafyse en France,2 vols, Paris, Ed. du Seuil, 1986). National de la Recherche Scientifique, sec.ao fortemente domi- nada pelas concepgoes positivistas que privilegiam o desenvol- Em 1966, Lacan publica um volume de quase mil pdginas vimento da psicologia mais suscetfvel a se articular com o que iaintitulado Escritos, no qual se acha reunida - para alguns, modi- tornar-se o conjunto das neurociSncias cujos partid^rios jamaisflcada e, para outros, em conformidade com sua versao original ocultaram sua hostilidade para com a psicanalise.— a maior parte dos artigos que ele redigiu a partir de 1936, data *de sua primeira intervencao pdblica como analista, no XTVe N.T.: esse tenno refere-se aos intelectuais que frequentam a Ecole Nonnale Su-Congres de rinternational Psychoanalytic Association a Ma- perieure. 48 49
  • 27. Todas essas razoes sao justas e, como tais, perfeitamente pode descrever o feixe de traces objetivos — caracterfsticos: as-admissiveis, mas nao esgotam o problema colocado. sim, por ex., no interior da esfera da produgao economica, os lugares do "patrao" (diretor, chefe de empresa...), do funciona- A leitura dos dois artigos que MP publica em 1966 e em rio de repartigao, do contra-mestre, do operario sao marcados1968 em Cahiers pour Vanalyse•, sob o pseudonimo de Thomas por propriedades differencials determinaveis". Observemos, deHerbert, leva a apresentar algumas hipdteses que poem em jogo passagem, que a referencia & sociologia que se encontra no finalrazoes outras, nao apenas t£ticas, quanto aos fatores que resulta- da obra, quando estao em questao perspectivas de utilizacao, de-ram nessa convivencia, no mfnimo ehptica, com as teorias freu- signa algo muito diferente da sociologia oficial: uma sociologiadiana e lacaniana. nova, cujo desenvolvimento era imaginado por Louis Althusser Se a teoria psicanalftica, a "psicanalise como ciencia do e seus alunos, sobre as bases do materialismo histdrico, cienciainconsciente" estao af realmente convocadas, se os nomes de das formagoes sociais.Freud e de Lacan sao mencionados — somente no segundo arti- Esse verdadeiro princfpio organizador determina conside-go, no qual, alias, Freud sd e citado uma unica vez e de uma ravelmente o lugar que sera", ao menos momentaneamente, o damaneira sobre a qual vamos voltar, sendo Lacan, por sua vez,apenas evocado, utilizado de modo relativamente geral, sem teoria psicanalftica, assim como a perspective na qual ela se ins-que, precisamente, seja feita referenda a tal ou tal passagem de crevera.seus Escritos — tudo isso se efetua segundo uma perspective e Para ir ao essencial, quando se trata de questoes que mere-segundo modalidades suscetiveis de nos fornecer informagoes ceriam, cada uma delas, um exame mais apurado do que aquelesobre o lugar que MP atribui, na e"poca, a teoria psicanalftica no que estamos nos propondo aqui, o que se pode dizer a respeitodispositive conceptual que estd elaborando, e sobre o estado de desse lugar 6 que ele sera" "regional", j5 que este € o termo uti-sua informagao quanto aos desenvolvimentos da trajetdria laca- lizado por MP na AAD quando fala, de um modo antes ambf-niana. guo, de uma "... teoria regional do significante". Pode-se Pode-se isolar uma primeira inforrnagao, relativa ao lugar igualmente qualificar esse lugar da psicanalise como subordina-central atribuido nesse dispositive ao materialismo histdrico, que do quando o encontramos no trabalho de Thomas Herbert: nele,se pode dizer "instalado no posto de comando" - para usar uma a psicanalise intervem, de fato, no esquema destinado a darexpressao que MP gostava muito de empregar. Isso sobressai, conta do processo da pratica cientifica no nfvel em que, no es-ate" nao poder mais, da leitura dos dois artigos assinados por quema, da" conta da transformagao dos elementos ideoldgicos emThomas Herbert, mas sobressai igualmente, ainda que de manei- sistema conceptual.ra mais velada, da leitura de AAD, no que se refere ao conceito No segundo dos dois artigos de Thomas Herbert, a moda-de "condigoes de produgao". No desenvolvimento althusseria- lidade ambfgua desse recurso a psicanalise £ ainda mais nftida;no, o conceito de produgao € sistematicamente importado da es- alguns conceitos psicanalfticos sao utilizados a titulo de "ins-fera das atividades economicas, esfera da producao material, pa- trumento", com a curiosa indicagao de que foram "... inicial-ra a das atividades intelectuais; o tedrico, o fildsofo, o escritor, mente constitufdos para a psicanalise". Essa indicagao se torna ao pintor, o musico sao considerados trabalhadores na mesma ocasiao para o autor apontar um problema cuja formulagao omedida que o opera~rio (ver, p.ex., Pierre Macherey, Pour une conduz a enunciar uma nova ambiguidade, j£ que entao estavaih£orie de la production litttraire, Paris, Maspero, 1966). em questao a "... relacao entre o inconsciente analftico e o in- O lugar do materialismo histdrico 6 manifestado igual- consciente social do recalque ideoldgico..." Poder-se-ia assim-mente em alguns exemplos, tais como aqueles em que os luga- por ocasiao de uma releitura que coloca hoje o problema das ra-res A e B sao indicados como sendo "... lugares determinados zoes da separacao entre o artigo de Th.Herbert e a AAD-69 -na estrutura de uma formagao social, lugares de que a sociologia multiplicar os mdices que atestam o fato de que, pelo menos 50 51
  • 28. nessa e"poca, o empreendimento de MP permanece orientado pa- tuada perto do Pantheon, uma vez que tinha sido expulso dara um horizonte te6rico implicitamente dominado por um fan- Ecole Normale SupeYieure no movimento de refluxo e de restau-tasma da articulacao entre o materialismo hist<5rico, pec.a domi- ragao caracterfstico dos meses p6s-68. Por essa 6poca, Lacan ia"nante, e a teoria do inconsciente, contribuigao regional, tinha elaborado sua topica RSI (real, simbdlico, imaginario)- A unica referencia explfcita feita a Freud por Th.Herbert 6 trabalha entao na topologia organizando sua reflexao em tornoa esse respeito eloqiiente, atestando a gestagao desse fantasma e dos n<5s borromianos e se langando a pesquisa dos matemas dado sentido de sua organizagao; trata-se de uma frase extrafda da psicandlise, cuja atualizacao asseguraria uma transmissao daIntroduction a psychanalyse, que supostamente demonstra que psicandlise protegida das deformagoes imagin^rias inerentes aFreud "nao deixa de lado" a questao da "... reprodugao do ho- literalidade do discurso. O sujeito do inconsciente, que nao ces-mem como forc.a de trabalho", e que 6 por essa via que ele 6 sa de advir para se apagar enquanto resfduo logo renascente,freqiientdvel pela teoria marxista. Verifica-se no implfcito que precede do lugar do simbolico, lugar do Outro, distinto do ou- tro, o da relagao imagina"ria que diz respeito ao eu, o sujeito dacorre por essas linhas, de resto animadas por um prodigioso so- psicologia e da psicologia social. Em outros palavras, o_sujeitopro de curiosidade e de inteligSncia, a que ponto o apelo althus- em_Lacan nao 6 um dado de base^quiL-lugar qualquer do psi-seriano a leitura e ao estudo "s6rio" de Freud e de Lacan eracircunstancial em relacao ao que ainda persistia dos efeitos da quismo em^^uio-ceDtco__v.irianL-se ajustar operagoesjie^reconhe-excomunhao da psicana"lise pelo marxismo, como ideologia "pe-queno-burguesa". mecanica interna da reprodugao ideoI6gjca tal como_Tliomas Herbert_a concebe. — O aval desse fantasma, que funciona sob o modo ambiva-lente da rejeigao e do fascfnio, pode ser localizado, na pioble- Quando Lacan enuncia seu ce"lebre axioma: "ogignificaqfgmatica da AAD, sob a forma da presence persistente de uma J^presejnta_o sujeito para um outro significante", ele marca a ab-verdadeira psicologia social, da qual se tratava, todavia, de apa- soluta incompatibilidade entre seu sujeito do inconsciente egar as marcas. qualquer outra forma de localizagao em cujo quadro pudesse vir Um conceito central permite situar o ponto no qual vem se a ser identificado um sujeito, suporte de operagoes terminante-cristalizar a maior parte das dificuldades ate" aqui evocadas: € o mente psfquicas.conceito de sujeito. Testemunho do desvio que entao separa amplamente a O conceito de sujeito, sujeito do inconsciente, tal como concepcao lacaniana de sujeito daquela utilizada por ThomasLacan o forja ao longo de sua obra, sofre uma se"rie de transfor- Herbert € a seguinte frase, extrafda do segundo dos dois artigosmac,6es que, para nao serem contraditorias, apuram o proprio desse autor fictfcio: "Pois se, ao contraYio (esse contr^rio 6conceito, distanciando-o, muito cedo e de maneira definitiva, de constitufdo por uma teoria da sociedade concebida como umqualquer forma — ainda que metaf<5rica — de localizagao e de sistema em que cada elemento € um reflexo do todo) aplicamos asubstancializac.ao para inscrev£-lo exclusivamente no registro da questao que nos ocupa o enunciado que Lacan formula com finsestrutura (Ver Bertrand Ogilvie, Lacan, le sujet, Paris, PUF, (parcialmente) diferentes — a saber: o significante representa ocol. Philosophies, 1987). sujeito para um outro significante —, vamos perceber que a ca- deia sintStica dos significantes atribui ao sujeito seu lugar, iden- Desde o tempo de "O estado de espelho", onde sua cate- tificando-o com um certo ponto da cadeia (o significante no qualgoria de imagindrio permanecia estreitamente fixada ao corpo e ele se representa), e que o mecanismo da identificagao diferen-s<5 se abria a perspectiva alienante da identificagao, Lacan vinha cial nao passa do efeito de sociedade, cujas dissimetrias en-realizando ano a ano seu semindrio, que, justamente no ano da contram aqui sua causa" (Cahiers pour Vanatysey n- 9, 1968,publicagao da AAD, vem a emigrar para a Faculte" de Droit si- p.82). 52 53
  • 29. Mal-entendido detalhe, que se pode, no essencial, caracte- 3. Formaliza^ao e infonnSticarizar de duas maneiras: uma diz respeito a problematica da apli-cagao que € explicitamente operacionalizada (fato que 6 subli-nhado pelo aparecimento do termo *parcialmente"), como se o O lugar destacado que a formalizagao ocupa na AAD-69 seenunciado de Lacan pudesse ser utilizado em uma perspectiva inscreve para MP em uma dupla perspectiva: epistemo!6gica,diferente daquela em que foi forjado; a outra trata precisamente por um lado, visando a definir procedimentos repetfveis e com-da concepgao de sujeito desenvolvida, concepgao essa que apre- paraveis que definam, de algum modo, heurfsticas para a andlisesenta a ide"ia de um sujeito preexistente a uma operagao de loca- do discurso; operacional, por outro lado, permitindo obter re-lizagao pelo significante que Ihe atribuiria entao um lugar, ele sultados empfricos, de maneira a propor uma alternative tedricamesmo articulado com processes sociais designados pela expres- e metodoldgica a andlise de conteiido.sao "efeito de sociedade". Trata-se, pois, para MP, nao somente de formalizar o dis- Em decorrencia da opgao tecnicista deliberadamente man- positive AAD mas de informatiza-lo, de realizar um programatida, por razoes que nao sao apenas tdticas (ver o texto de informatizado que permita preencher essa dupla exigencia (ver,P.Henry), o desvio e a ambigiiidade sao ainda amplificados na a esse respeito, a problemStica do instrumento desenvolvida noAAD. Se A e B nao sao - e certo - individuos, indivfduos caros texto de Paul Henry acima).a psicologia empfrica, se esses "elementos A e B" representam Constatar-se-5 que a demarche formalizadora de MP selugares, esses lugares continuam enigmaticos, pois sao lugares situa em um quadro essencialmente algebrico (teoria dos con-de sujeitos (patroes, funcionaYios de repartigao, operarios) que juntos, dlgebra de Boole, teoria dos grafos) antes que Idgico.sao outros tantos, isto 6, representagoes imagin£rias nao atesta- Alguns emprestimos foram feitos igualmente ao dominio dasdas como tais, pois justamente esses_Jugaies_sao-considerados gramdticas formais (automatos a estados finitos, pilhas e listas).como sede de representag6es_ imaginarias determinadas pela es- A propdsito, P.Henry se lembra de ter estudado duas obras comtrutura economica e tidas como escapadigas ao domfnio desses MP nessa e"poca: La th^orie des graphes et ses applica-sujeito.s. tions, C.Berge, Dunod, 1958, e Vanalyse formelle des langues Sem duvida alguma, a opacidade da AAD sobre esse ponto naturelles, N.Chomsky e G.A.Miller, Gauthier-Villars, 1968capital deve ser relacionada ao "lugar secundaVio" que, conco- (tradugao francesa dos capftulos 11 e 12 do volume n do Hand-mitantemente, 6 dado & teoria da enunciacao tal como e" desen- book of mathematical psychology, John Wiley and Sons inc.,volvida por Benveniste. 1963-5). Essas dificuldades, das quais tragamos apenas um quadro Todo o dispositive, enfim, foi representado sob forma derudimentar, nao sao, na e"poca, exclusivas de MP; elas devem ser algoritmos, diretamente admissfvel & programagao informatizadareferidas a conjuntura na qual a AAD 6 concebida, elas teste- destes dltimos.munham a formidaVel fratura constitufda pela contribuigao de Por outro lado, a investigagao de uma automatizagao doLacan, fratura cuja amplitude e", ainda, freqiientemente subesti- dispositive de andlise do discurso cruzava-se com os trabalhosmada, quando nao 6 parcialmente encoberta pelos prdprios psi- de Tradugao Automdtica desenvolvidos, nessa epoca,.na Franga,canalistas. No desenvolvimento da obra de MP, esses obstdculos principalmente no CETA (Centre dEtudes et de Traductionvao se atenuar na medida em que se ameniza o influxo do fan- Automarjque), em Grenoble, com o qual Pecheux colaborou. Atasma da articulagao, para o qual a publicagao do artigo de Al- estrat6gia entao adotada para a tradugao automdtica consistia emthusser sobre os Aparelhos Ideoldgicos de Estado, em 1970, vai elaborar as gramdticas de reconhecimento da lingua de partida etrazer um apoio inesperado, mas marcado pelo impasse que se da Ifngua-alvo como etapa pr6via a tradugao. Para MP, a cons-seguird. tituigao de uma gramatica de reconhecimento do frances deveria 54 55
  • 30. permitir a automatizagao da fase manual de construgao dos da teoria do discurso, assim como sua inadequagao lin-enunciados elementares e a ultrapassagem do cardter rudimentar giiistica e mesmo tecnica, levaram MP e sua equipe ada representagao da seqiiencia linguistica apresentada em buscar, a partir de 1980, uma alternativa ao programaAAD-69, e ja" designada como provisdria. AAD-69. O software DEREDEC, programado por Esse cuidado teve prolongamentos em pesquisas desenvol- P.Plante na Universidade de Quebec em Montreal, e quevidas independentemente do CETA, sob a diregao de MP, com inclufa um analisador sintdtico do frances (a Gramatica devistas a constituigao de um analisador morfossintdtico do fran- Superffcie do Frances), permitiu essa renovagao metodol<5-ces. Um analisador parcial relative as formas funcionais foi de- gica. Apresentando-se como um ambiente de programagaosenvolvido em 1971-72 e programado em linguagem PL 1. A que permitia a realizagao de procedimentos modulares, aodescrigao desse analisador figura em Premiers eMments ffun contr^rio do AAD-69, que nao executava mais do que umaanalyseur morpho-syntaxique dufrangais, C.Fuchs, Cl.Haroche, tinica tarefa bem determinada, DEREDEC oferecia novas perspectives de andlise automdtica do discurso (cf. os arti-P.Henry, J.LSon, M.Pecheux, CNRS, EPHE, Paris VH, 1972. gos em Mots 4 e Mots 9). Lembremos igualmente que o final dos anos 60 correspon-de a introdugao, na Franga, da informatica nas ciencias humanas O programa AAD-69 foi igualmente implantado na Uni-(o Centre de Calcul pour les Sciences Humaines do CNRS, em versidade de Quebec em Montreal e em Madri, gragasparticular, foi criado em 1969), e que na AAD-69 MP se situa a N.Pizarro.no campo dos metodos de andlise por computador, criticando os Os vfnculos privilegiados que MP continuava a manterprogramas de lexicometria e de analise documental tais como o com as pesquisas desenvolvidas em Grenoble suscitaram aprograma SYNTOL (J.C.Gardin) ou o General Inquirer. O pro- realizagao de duas versoes do dispositivo AAD, ambas im-grama AAD-69 foi, juntamente com os programas de lexicome- plantadas na Universidade de Grenoble II.tria, aperfeigoado pela equipe de St.Cloud, um dos primeiros A versao AADP foi realizada em ALGOLW por Ph.Bizardprogramas operacionais no domfnio da "andlise de textos por e M.Dupraz em 1972. Identica a AAD no nivel algorftmi-computador". co, essa versao deu lugar a vdrias aplicagoes. Tres versoes do programa foram realizadas: Uma versao posterior (1975), nomeada AAD-75, foi rea- lizada em ALGOLW por C.Del Vigna. Permitia testar cer- O programa AAD-69, escrito em Fortran IV por MP e tas modificagoes das proposigoes algorftmicas de AAD-69, Ph.Duval, foi implantado no Centre de Calcul pour les especialmente gragas a sua configuragao interativa. Sciences Humaines do CNRS em 1972. Cerca de duas de- zenas de pesquisadores em Ciencias Humanas que proble- matizavam sua disciplina (lingufstica, psicolingiifstica, so- ciologia, psicologia, psicologia social...) no quadro da teo- Tradugao: Lourengo C. Filho ria do discurso utilizaram esse programa de 1971 a 1981, Manoel Gongalves em que pese o fardo da codificagao manual preVia. O que mostra o interesse suscitado pela novidade da abordagem metodoMgica e te<5rica que o dispositive AAD representa- va. A progressive inadequate do programa - cujas modifica- goes nunca passaram de parciais — aos desenvolvimentos 56 57
  • 31. BIBLIOGRAFIAAUSTIN: How to do things with words. Oxford, 1962,p.l4.. A tradugao francesa e" de 1972.BENVENISTE: Problemes de linguistique g£n£rale, 1966, tomo I, p.34, p.38, p.71.Edigao em portuguSs: Froblemas de lingufstica geral I, 2- edi- gao. Tradugao de Maria da Gloria Novak e Maria Luiza Neri; revisao do prof. Isaac Nicolau Salum. Campinas, SP, Pontes/Editora da Universidade Estadual de Campi- nas, 1988.CHOMSKY: "Syntaxe logique et se~mantique: leur pertinence linguistique", Langages 66, n- 2. Nota 1, p.32, p.44.CULIOLI: "La formalisation en linguistique", Cahiers pour V analyse, 1968, p.70, nota 3, p.76.DOLEZEL L. "Un modele statistique de codage linguistique", Etudes de linguistique appliquge, 1964, ne 3, 51-61. p.24.DUCROT: "Logique et linguistique", Langages 2 - p.22, p.79 nota 1.Tradugao para o portugues:"Ldgica e Lingufstica". In: Provar e dizer: linguagem e I6gi- ca/Oswald Ducrot, com a colaboragao de M.C.Barbault e J. Depresle; traducao de Maria Aparecida Barbosa, Maria de Fa"tima Gongalves Moreira, Cidmar Teodoro Pais. Sao Paulo, Global Ed., 1981.HARRIS: Discourse analysis reprints, 1963 — p.49.JAKOBSON: Essais de linguistique generate, 1963 - p-10, p.12, p.18, p.34, p.43, p.69, p.73, p.74.Edigao em portugues:Lingufstica e comunicagdo. Tradugao de Izidoro Blikstein e Jo- s6 Paulo Paes, Sao Paulo, Editora Cultrix, s/d. 59
  • 32. MOUNIN: Les probletnes theoriques de la traduction, 1963, p. lH-p.7.SAUSSURE: CLG, 1915, 3eme Edition 1962, p.2, pp.8-9, p.9, p.ll.p.13. ANALISE AUTOMATICA DO DISCURSOEdicao em portugues: (AAD-69)Curso de lingufstica geral. 13- ed. Org. por Ch.Bally e A.Se- chehaye, com a colaboracao de A.Reidlinger. Traducao de Antonio Chelini, Jose* Paulo Paes e Izidoro Blikstein. Michel Pecheux Sao Paulo, Cultrix, 1987.TODOROV: 1966 - p.28. PARTS I ANALISE DE CONTEUDO E TEORIA DO DISCURSO I. LJngufstica e analise de texto: suas relacpes de vizinhanga Ate" os recentes desenvolvimentos da ciencia lingufstica, cuja origem pode ser marcada com o Curso de Lingufstica Ge- ral, estudar uma Ifngua era, na maior parte das vezes, estudar textos, e colocar a seu respeito questoes de natureza variada provenientes, ao mesmo tempo, da prfitica escolar que ainda 6 chamada de compreensao de texto,1 e da atividade do gramdtico sob modalidades normativas ou descritivas; perguntaVamos ao mesmo tempo: "De que fala este texto?", "Quais sao as ide"ias* principals contidas neste texto?" e "Este texto esta" em confor- midade com as normas da Ifngua na qua! ele se apresenta?", ou entao "Quais sao as normas pr<5prias a este texto?". Todas essas questoes eram colocadas simultaneamente porque remetiam umas as outras: mais precisamente, as questoes concernentes aos usos semanticos e sintflticos colocados em evidfincia pelo texto ajudavam a responder as questoes que diziam respeito ao sentido do texto (o que o autor "quis dizer"). Em outros termos, a cie"n- cia cldssica da linguagem pretendia ser ao mesmo tempo ciSncia da expressao e ciencia dos meios desta expressdo, e o estudo gramatical e semantico era um meio a servigo de um fim, a sa- ber, a compreensao do texto, da mesma forma que, no prtSprio 60 61
  • 33. texto, os "meios de expressao" estavam a service do fim visado — "O que quer dizer este texto?"pelo produtor do texto (a saber: fazer-se compreender). — "Que significac,ao contem este texto?" Nessas condicoes, se o homem entende seu semelhante 6 — "Em que o sentido deste texto difere daquele de tal ou-porque eles sao um e outro, em algum grau, "gramdticos4*, en- tro texto?"quanto que o especialista da linguagem $6 pode fazer cienciaporque, j5 de infcio, ele 6, como qualquer homem, apto a se ex- Sao essas as diferentes formas da mesma questao, a qualprimir. va"rias respostas foram fornecidas pelo que chamamos andlise de Ora, o deslocamento conceptual introduzido por Saussure contetido e, as vezes tambem, andlise de texto.consiste precisamente em separar essa homogeneidade crimplice Propomo-nos examinar diferentes tipos de resposta queentre a prdtica e a teoria da linguagem: a partir do momento em podemos discernir nas pr&icas atuais de analise: a maneira pelaque a lingua deve ser pensada como um sistema, deixa de ser qual o terreno deixado livre pela lingufstica 6 abordado em cadacompreendida como tendo ajungao de exprimir sentido; ela tor- caso sera o meio de nossa classificacao.na-se um objeto do qual uma ciencia pode descrever o funcio-narnento (retomando a metafora do jogo de xadrez utilizada porSaussure para pensar o objeto da lingufstica, diremos que nao sedeve procurar o que cada parte significa, mas quais sdo as re- A) Os m£todos nao-lingufsticosgras que tornam possfvel qualquer parte, quer se realize ounao). A conseqiiencia desse deslocamento e", como se sabe, a se- Em primeiro lugar, existem metodos de an^lise que, emguinte: o "texto", de modo algum, pode ser o objeto pertinente aparSncia, nao tem relagao com a lingufstica: apareceram pri-para a ciencia lingufstica pois ele nao funciona; o que funciona meiro e seu desenvolvimento se deu mais ou menos ao mesmo6 a Ifngua, isto 6, um conjunto de sistemas que autorizam com- tempo em que o deslocamento acima descrito se operava, o quebinagoes e substituic.6es reguladas por elementos deflnidos, cu- explica que eles o tenham ignorado, por falta de recuo. Essesjos mecanismos colocados em causa sao de dimensao inferior ao metodos se dao, pois, a tarefa de responder a questao sob umatexto: a Ifngua, como objeto de ciSncia, se opoe & fala, como re- forma, por assim dizer, "pr^-saussuriana": colocam-se fora dasfduo nao-cientifico da analise. "Com o separar a Ifngua da fala, lingufstica atual, o que nao quer dizer que nao se baseiam emsepara-se ao mesmo tempo: 1-, o que 6 social do que e" indivi- conceitos de origem lingufstica — simplesmente,, esses conceitosdual; 2-, o que 6 essencial do que e" acessoYio e mais ou menos estao defasados em relacao a teoria lingufstica atual.acidental" (Saussure, 1915, 13^ ed., 1987, p. 22). Assim, o estudo da linguagem, que havia de infcio almeja-do o estatuto de ciencia da expressao e de sens meios, preten- 1 - O me"todo de dedugao frequencialdendo tratar de fen<3menos de grande dimensao, se curvou a po-sigao que € ainda hoje o lugar da lingufstica. Mas, como 6 deregra na hist<5ria da ciencia, a inclinac,ao pela qual a lingufstica Designamos assim o processo que consiste em recensear oconstituiu sua cientificidade, deixou a descoberto o terreno que niimero de ocorr^ncias de um mesmo signo lingiifstico (palavraela estava abandonando, e a questao que a lingufstica teve que ou lexia, mais frequentemente) no interior de uma sequSncia dedeixar de responder continua a se colocar, motivada por interes- dimensao fixada, e em definir uma freqiiSncia que pode serses a um s<5 tempo tedricos e prdticos: comparada com outras, o que fornece um teste de comparabili- 62 63
  • 34. dade entre vdrios itens da mesma seqtiencia, ou entre vdrias se- lingufstica mas nap responde a questao do sentido contido noquencias paralelas para o mesmo item. A grande vantagem deste texto, nem & da diferen$a de sentido entre um texto e outro.metodo foi desenvolver instrumentos estatfsticos adequados ao A analise de conteudo classical2] - tal como 6, por exem-tratamento da informagao (a relacao coluna/freqiiencia2 & o mais plo, descrita por D.P.Cartwrigt (in Festinger e Katz, trad, fran-importante dos resultados assim obtidos). cesa, p. 481) — tenta, ao contraiio, trazer uma resposta a essa questao: o que € visada no texto € justamente uma se"rie de sig- A relagao com o domfnio lingiifstico e" aqui reduzida ao nificagoes que o codificador detecta por meio dos indicadoresmihimo: podemos dizer que o rfnico conceito de origem lingiifs- que Ihes estao ligados; em outros tennos, a relagao funcionaltica 6 o da biunivocidade da relagao significante-significado, o expressao da significagao/meios desta expressao retoma aqui to-que autoriza notar a presenga do mesmo conterfdo de pensa- da sua importancia. Assim, a analise se situa, desta vez, em ummento a cada vez que o mesmo signo aparece. Mas este conceito nfvel supralingufstico, pois o que est5 em questao 6 o acesso aopertence a um campo teorico pre"-saussuriano, j& que a linguisti- sentido de um segmento do texto, atravessando-se sua estruturaca atual se baseia em grande paite sobre a ideia de que um termo lingufstica; codificar ou caracterizar um segmento € coloc^-los<5 tern sentido em uma Ungua porque ele tern va"rios sentidos, o em uma das classes de equivalencia definidas, a partir das signi-que significa negar que a rela?ao entre significante e significado ficagoes, pelo quadro da analise, em funcao do julgamento doseja biunfvoca. codificador, sobre a presenga ou ausencia, ou sobre a intensida- Uma maneira diferente de formular, em definitive, a mes- de da apresentacao do predicado considerado.ma crftica consiste em observar que, mesmo que se multiplicas-sem as deducoes frequenciais, nem mesmo assim se daria conta O julgamento se estabelece, pois, com base em indicadoresda organizagao do texto, das redes de relagoes entre seus ele- cuja pertinencia lingufstica nao est£ fixada (palavra, frase, "te-mentos: tudo se passa como se a superffcie do texto fosse uma ma"...), o que exige qualidades psicoldgicas complementarespopulagao na qual pudessem ser efetuados, assim, recensea- como a fineza, a sensibilidade, a flexibilidade, por parte do co-mentos diferenciais; obt£m-se uma descricao da populacao, tao dificador para apreender o que importa, e apenas isto (Festingerfina quanto se deseja, mas os efeitos de sentido que constituem e Katz, trad, francesa, 1963, p. 529). Significa dizer ao mesmoo conteudo do texto sao negligenciados: paga-se a objetividade tempo que este metodo supoe fundamentalmente uma acultura-da informac.ao recolhida pela dificuldade de fazer dela o uso que cao dos codificadores, uma aprendizagem da leitura^] Deixan-se previra.3 ^ do de lado o problema da fidelidade intercodificadores, cuja im- portancia conhecemos, vamos designar o ponto que aqui nos pa- rece essencial: nesta perspectiva, a analise nao pode ser uma se- qii^ncia de operacoes objetivas com resultado unfvoco (e um2. A analise por categorias tematicas codificador que quisesse simular esta objetividade nao faria se- nao um trabalho rotineiro e mecanico sem validade analftica); entretanto, "para que a codificagao seja a obra de uma equipe de O metodo que acabamos de descrever se situa em um nfvel codificadores, € necessaYio que todos eles apliquem as mesmasinfra-lingufstico: na medida em que se d& por objeto uma espe"- definicoes e o mesmo sistema de referencia ao curso de suascie de demografia dos textos, ele visa nao o funcionamento de operacoes" (ibid., p. 530), & precise supor a existdncia de umum sistema de elementos mas a pura existSncia de tal ou tal ma- consenso explfcito ou implfcito4 entre os codificadores sobre asterial lingiifstico, o que presta incontestaVeis services & teoria modalidades de suas leituras: em outros termos, um texto s<5 ^ analisaVel no interior do sistema comum de valores que um As notas entre colchetes encontram-se no final do capftulo. sentido tern para os codificadores e constitui seu modo de leitu- 64 65
  • 35. ra; ora, o me"todo impoe, com a relagao expressao/meios de ex- os fatos da Ifngua e os fenomenos da dimensao do texto, garan-pressao, as consequencias desta relacao, a saber, o encavala- tem, assim, o emprego dos mesmos instrumentos conceptuais-mento entre a fungao tedrica do analista e a fungao pratica do por exemplo, a relagao paradigma-sintagma serd estendida aoslocutor (cf. p^62)- O risco-limite 6 pois o de que a analise assim diferentes nfveis de funcionamento, logo da analise: visa-se oconcebida reproduza em seus resultados a grade de leitura que a ideal da analise lingufstica transportando o instrumento lingiifs-tornou possfvel (qualquer que seja, alias, o grau de probidade, ticoJ4! Pode-se, no entanto, dizer que isto foi atingido? Aqui sede sensibilidade e de fidelidade dos codificadores) por um fe- manifesta a resistencia prdpria ao nfvel e a dimensao do objeto:nOmeno de participac.ao em reflexo entre o objeto e o metodo a disjuncao entre a teoria da Ifngua e a prdtica do locutor pareceque se da" corno tarefa apreender esse objeto.5 um adquirido, mas aquela entre a teoria do mito e a pratica do mito € ainda problematica. Pode-se mesmo perguntar se ela 6 possfvel, quando se le o que escreve um especialista — e nao dos menores — a prop6sito disto:B) Os metodos para-lingiifsticos Nao hd um fim verdadeiro para a andlise mftica, Ao lado dos me"todos descritos, que sao nao-lingiiisticos na nenhuma unidade secreta que se possa apreender aomedida em que evitam o nfvel especffico do signo, e que deri- fim do trabalho de decomposifdo. Os temas se des-vam de metodologias psicoldgicas ou socioldgicas, existem ou~ dobram ao infinito... consequentemente, a unidadetros, de aparigao mais recente, que, ao contrSrio, se referem do mito nao e senao tendencial e projetiva; ela naoabertamente a lingufstica moderna6 e dao outra resposta a reflete jamais um estado ou momento do mito. . . Co-questao do sentido contido num texto. Ora, ha1 aqui um parado- mo os ritos, os mitos sdo in-terminaveis. E, ao que-xo, cuja razao 6 precise explicar: com efeito, de que modo dis- rer imitar o movimento espontdneo do pensatnentociplinas como a etnologia, a critica literaria ou o estudo dos sis- mftico, nossa empresa, ela tambem breve demais etemas de signos pn5prios as civilizagoes ditas "de massa" po- muito longa, teve de se curvar a suas exigencias edem fazer apelo a lingufstica para responder a uma questao que respeitar seu ritmo. Assim, o livro sobre os mitos e, se coloca precisamente sobre o terreno que a lingufstica abando- a seu modo, um mito" (LeVi-Strauss, 1964, p.13). nou ao se constituir? Eis a solucao que propomos com respeito ao paradoxo Parece que se encontramos aqui "a harmonia preestabele- enunciado: as diferentes discipHnas enumeradas reconhecem o cida" entre o produtor do mito e seu analista, que j£ nos apare- fato tedrico fundamental que marca o nascimento da ciencia lin- cerd (cf . p. 62 ) entre o homem que fala e o grarrtdtico; quer di- giifstica, a saber, a passagem dajunfdo ao funcionamento; ale"m zer que o "funcionamento" do texto esta" muito prdximo ainda do mais, elas decifraram este acontecimento nao como um fe- de sua funcao e, logo, que o deslocamento ainda nao se deu. chamento, que tornaria impossfvel certas questoes, mas como o 6 precise tirar todas as consequencias do fato de que signo de uma possibilidade nova oferecida a elas, a saber, a pos- aquilo que € analisado nao existe em geral pelo desejo do ana- sibilidade de efetuar uma segunda vez o mesmo deslocamento lista, e o esclarecimento deste ponto parece ser uma das condi- (da fiincao ao funcionamento) mas desta vez no nfvel do texto. §6es de existencia de uma prdtica semioldgica cientffica.7 As di- Em outros termos, uma vez que existem sistemas sintaticos, faz- ficuldades metodoldgicas relativas a constituigao do corpus en- se a hipbtese de que existam do mesmo modo sistemas mfticos, contram aqui sua origem; se, com efeito, o objeto da analise nao sistemas literarios etc., ou seja, que os textost como a Ifngua, esta" conceptualmente definido como o elemento de um processo funcionem, a homogeneidade epistemoldgica que se supoe entre do qual 6 preciso construir a estrutura, este objeto permanece 66 67
  • 36. como objeto de desejo, o que implica duas consequencias: a "(o analista) constitui, para cada espgcie de obje-primeira € a de que a constituicao do objeto depende daquilo tos, o cddigo de strnbolos que marcarao a presencaque, no espfrito do analista, o leva a colocd-lo; a segunda 6 a de ou ausencia de todos os tracos distintivos do tipo deque o analista finge encontra-lo como um dado natural, o que objeto a ser descrito e classificado. A codificagao e,o Hvra de sua responsabilidade. pois, precedida de uma analise tecnoldgica destinada O problema diz respeito, pois, antes de tudo, ao modo de a estabelecer o recenseamento de todos os tracos dis-acesso ao objeto, e € em torno desse ponto que se articulam as tintivos necessaries & descricao de objetos desse tipo,orientacoes conceptuais que nds apresentaremos aqui (cf.p.78-9). isto 6, o quadro exaustivo do qual constara" a defini- Expliquemo-nos por um contra-exemplo: acabamos de cao de cada objeto" (Mounin, 1963, p.l 14)J61mostrar que face ao mito o analista nao dispoe de norma quepermita definir o que pertence ou nao ao corpus: ora, em pre- E, pois, porque j5 existe um discurso institucionabnente garantido sobre o objeto que o analista pode racionalizar o sis-senga de um texto jurfdico ou cientffico, esta dificuldade nao pa- tema de tracos semanticos que caracterizam este objeto: o siste-rece se colocar, na medida em que existe, nesse caso, uma ins- ma de analise terd portanto a idade teorica (o nfvel de desenvol-tituicao (cientffica, jurfdica etc.) a qual podem-se referir os tex- vimento) da instituicao que € sua norma, e permitird definir atos. Podemos, pois, estabelecer a diferenca entre analise docu- posigao de um conteddo particular em relacao a esta norma: osmental, efetuada no interior de uma referencia institucional com trabalhos de W.Ackermann (1966), por exemplo, colocam emfins que respondem em geral aos da instituicao, e a analise que evidencia a possibilidade de medir a adequagao progressiva dechamaremos "nao-institucional", tal como acabamos de evocar a um grupo de objetos as normas cientfficas que Ihes sao impostasprop<5sito do mitof53: a convergencia metodo!6gica pela qual atrav£s de uma instituicao de ensino.certos dispositivos de documentagao automatica se encontramaplicados na analise "nao-institucional" pode, pois, suscitar al- Ao termo desta analise, viirias questoes se colocam e nosgum estranhamento. Com efeito, a analise documental supoe as formularemos do seguinte modo:fundamentalmente que as classes de equivalence sejam defini- 1. Se se considers como adquirido o fato de que todadas, a priori, pela propria norma institucional; ao falar das mo- ciencia que trata do signo sd pode se constituir pelo abandonodalidades de memorizagao da informacao necessaYia a analise de do terreno da fimcao de expressao e de sentido para se situar noum documento, J.C.Gardin escreve: do funcionamento, que tipo de funcionamento se pode designar para o objeto que aqui se encontra em questao? Qualquer que seja o partido adotado, o que fica € 2. Em que o conceito de instituigao importa para a cons- que devemos estabetecer antes as relagdes em ques- trucao do conceito deste objeto? tdo, isto e, constituir de uma maneira ou de outra 3. Se entendemos por texto qualquer objeto lingiifstico or- uma classificacdo na qual o lugar de cada palavra- chave reflita as relagoes semanticas que entretem ganizado submetido ^ analise, poder-se-ia conservar este con- ceito para designar o objeto de uma prdtica analftica que levasse com outros termos (exemplo: lobo temporal , parte do telencefalo ) ou grupo de termos (exem- em conta as respostas as duas questoes precedentes? plo: ataxia , esp&cie particular de perturbagao do comportamento motor* )" (Gardin, 1964, p.42). D- Orientacoes conceptoais para tnna teoria do discurso Daf compreende-se, pois, a importancia do pre-requisitoindispensaVel a qualquer an^lise, enunciado claramente por A) Consequencias tedricas induzidas por certos conceitos saus-G.Mounin: surianos 68 69
  • 37. No Curso de Lingiifstica Geral, no capftulo III, encontra- Assim, a Ifngua € pensada por Saussure como um objetomos dusisfortnas de deflnigdo do conceito de Ifngua. cientffico homogeneo (pertencente a regiao do "semioldgico") cuja especificidade se estabelece sobre duas exclusoes tedricas; A primeira forma consiste em enunciar as propriedades doobjeto definido: — a exclusao dafala no inacessfvel da ciencia lingiifstica; — a exclusao das instituicoes "nao-semiol6gicas" para fo- ra da zona de pertinencia da ciencia lingufstica. "A Ifngua... 4 aparte social da linguagem, exterior ao indivfduo, que por si s6 ndo pode nem crid-la Elucidemos agora as conseqiiencias que resultam das duas nem modificd-la". definic.6es apresentadas. A segunda forma de definicao consiste em definir o objeto 1. As implicacoes da oposigao saussuriana entre Ifngua e falapela sua relagao com outros objetos situados no mesmo piano: Esta oposigao pertence a tradigao lingiifstica pds-saussu- "... a Ifngua £ uma ins* luiciL social; mas se dis- riana: tingue, por vdrios tracos, das outras instituicoes po~ Ifticas, jurfdicas etc. Para compreender sua natureza Entre os dots termos, a Ifngua e a fala, a antino- especial, uma nova ordem de fatos precisa intervir. mia I total. A fala £ um ato, logo uma manifestagao A Ifngua & um sistema de signos que exprimem atualizada dafaculdade da linguagem. Ela pressupoe id£ias, e por isto compardvel a escrita, ao alfabeto um contexto, uma situagao concreta e determinada. dos surdos-mudos, aos ritos simb6licos, as formas A Ifngua, ao contrdrio, e" um sistema virtual que s6 de polidez, aos sinais militares etc. Ela £ somente o se atualiza na e pela fala. Ndo 4 menos verdade que mais importante desses sistemas. Pode-se pois con- os dois princfpios sao interdependentes: a Ifngua ndo ceber uma ciencia que estuda a vida dos signos no & senao o resfduo de inumerdveis atos de fala, en- seio da vida social,- ela formaria uma parte da psi~ quanto que estes sao apenas a aplicagao, a utiliza- cologia social e conseqiientemente da psicologia ge- GOO dos meios de expressao8 fornecidos pela Ifngua. ral; n6s a nomearemos semiologia (Saussure, Decorre daf que a fala 4 um ato ou uma atividade individual que se opoe claramente ao cardter social ibid., p. 33). da Ifngua" (Ullmann, 1952, p.16). Por meio desta definic,ao, Saussure opera uma dupla divi- Este texto poe as claras as conseqxiencias da operacao desao: opoe um sistema semioldgico (*o mais importante": a Ifn- exclusao efetuada por Saussure: mesmo que explicitamente elegua) ao conjunto de todos os sistemas semioldgicos que saopensados como tendo um estatuto cientffico potencialmente nao o tenha desejado, € urn fato que esta oposigao autoriza aequivalente, e entra no campo da teoria regional do significan- reaparigao triunfal do sujeito falante como subjetividade em atoyteJ7^ Mas hd uma outra oposi^ao que 6 evocada por Saussure unidade ativa de intengoes que se realizam pelos meios coloca- dos a sua disposicao; em outros termos, tudo se passa como se apor meio do termo instituicdo: ela Ihe permite separar os siste- lingiifstica cientffica (tendo por objeto a Ifngua) liberasse um re-mas institucionais jurfdico, polftico etc. da se*rie dos sistemas sfduo, que 6 o conceito filosdfico de sujeito livre, pensado comoinstitucionais semioldgicos, e excluf-los pura e simplesmente do ° avesso indispensa*vel, o correlato necessa"rio do sistema. A fa-campo da teoria regional em questao. la, enquanto uso da Ifngua, aparece como um caminho da liber- dade humana; avangar no caminho estranho que conduz dos fo- 70 71
  • 38. nemas ao discurso 6 passar gradatim da necessidade do sistema formas atuais: pode-se enuncia-la dizendo que nao 6 certo que oa contingencia da liberdade, como o sugere este texto de Jakob- objeto tedrico que permite pensar a linguagem seja uno e homo-son, que, 6 verdade, muitas outras indicacoes vao corrigir: geneo, mas que talvez a conceptualizacao dos fen6menos que pertencem ao "alto da escala" necessite de um deslocamento da "Assim, existe na combinacdo das unidades lingufs- perspectiva tedrica, uma "mudanga de terreno" que faca intervir ticas uma escala ascendente de liberdade. Na com- conceitos exteriores & regiao da lingiifstica atual. O problema binacdo dos tracos distintivos em fonemas, a liber- agora cMssico, da "normalidade do enunciado" 6, a nossos dade do locator individual e" nula; o cddigo jd esta- olhos, um fndice exemplar dessa dificuldade: as condigoes atuais beleceu todas as possibilidades que podem ser utili- do funcionamento de uma gramatica gerativa supoem um tipo de zadas na Ifngua em questao. A liberdade de combi- locutor que chamaremos neutralizado, isto 6, ligado & normali- nar os fonemas em palavras € circunscrita, e limita- dade universal dos "enunciados canonicos", em que a posicao da a situacdo marginal da criacdo de palavras. Na das classes de equivalencia (por exemplo: sujeito animado + formacao das frases a partir de palavras, a coercdo objeto inanimado) 6 ct priori fixada como uma propriedade da que o locator sofre e menor. Enfim, na combinacdo lingua. E, pois, em relagao a esta normalidade suposta na lingua das frases em enunciados, a acdo das regras coerci- que o "enunciado anfimalo" se encontra definido. Ora, esta tese tivas da sintaxe para e a liberdade de todo locutor parece frigil em muitos aspectos, como o mostra o exemplo se- particular aumenta substancialmente, ainda que seja guinte: ao se interrogar para saber se a frase pertence & ordem precise ndo subestimar o numero dos enunciados da fala ou a da lingua, Saussure escreve: estereotipados" (Jakobson, 1963, p.47). E precise atribuir a Ifngua, e ndo a fala, todos os Na medida, pois, em que a Ifngua se define pelo conjuntodas regras universalmente presentes na "comunidade" linguisti- tipos de sintagmas construtdos por formas regula- res... acontece exatamente o mesmo com as frasesca, concebe-se que os mecanismos que a caracterizam tenham ou grupos de palavras estabelecidas sobre padroessido antes procurados no nfvel das combinacoes e substituicoes regulares; combinacoes como a terra gira, o que eleelementares (fora das quais toda palavra 6 impossfvel porque es- esta" dizendo? etc., respondem a tipos gerais que ternses sao os seus meios indispensaVeis) embaixo da escala, em um por sua vez seu suporte na Ifngua sob a forma denivel, em qualquer hipdtese, inferior a frase. Ora, os desenvol- lembrancas concretas" (Saussure, op. cit., p.173).vimentos recentes de certas pesquisas lingufsticas (e, antes detudo, o aparecimento das gramaticas gerativas) parecem estender Seja, pois, a frase "a terra gira": um lingiiista pre-coper-esse limite e tendem a constituir uma teoria lingufstica da frase, nicano, que, por milagre, conhega as gramaticas gerativas e ossem, no entanto, sair do sistema da Ifngua: enquanto que Saus- trabalhos atuais dos semanticistas, teria certamente colocadosure pensava que a Ifngua nada cria, o funcionamento de uma uma incompatibilidade entre as partes constitutivas da frase egramatica gerativa coloca em evidencia uma forma de criativi- declarado o enunciado anomalo.I8!dade ndo-subjetiva no proprio interior da Ifngua. Isso significa que nem sempre se pode dizer da frase que Seria o caso de se pensar que a ciencia lingufstica vai as- ela € normal ou anomala apenas por sua referSncia a uma normasim progressivamente estender seu empreendimento e chegar a universal inscrita na lingua, mas sim que esta frase deve ser re-dar conta de toda a "escala" utilizando instrumentos combinatd- ferida ao mecanismo discursivo especffico que a tornou possfvelrios cada vez mais potentes? e necessaria em um contexto cientffico dado. Em outros termos, Parece que h£ aqui uma dificuldade fundamental, presa a parece indispensaVel colocar em questao a identidade implicita-natureza do horizonte teonco da lingufstica, mesmo em suas roente estabelecida por Saussure entre o universal e o extra-in- 72 73
  • 39. dividual, mostrando a possibilidade de definir um nfvel interme- culares considerados sobre o "fundo invariante" da lin-didrio entre a singularidade individual e a universalidade, a sa- gua (essencialmente: a sintaxe como fonte de coergoesber, o nfvel da particularidade que define "contratos" lingufsti- universais). Especificaremos mais adiante os conceitos ecos especfficos de tal ou tal regiao do sistema, isto 6, feixes de a metodologia utilizados.9normas mais ou menos localmente definidos, e desigualmente - o estudo da ligacao entre as "circunstancias" de um dis-aptos a disseminar-se uns sobre os outros; como escreve Jakob- curso — que chamaremos daqui em diante suas condicoesson: de producao10 — e seu processo de produc.ao. Esta pers- pectiva esta" representada na teoria lingufstica atual pelo "Sem nenhuma duvida, para toda comunidade lin- papel dado ao contexto ou a situacdo, como pano de guistica, para todo sujeito falante, existe uma unida- fundo especifico dos discursos, que toma possfvel sua de da Ifngua, mas esse codigo global representa um formulagao e sua compreensao: 6 este aspecto da ques- sistema de subcddigos em comunicacao reciproca; tao que vamos tentar esclarecer agora, atrave"s do exame coda lingua abarca vdrios sistemas simultaneos, crftico do conceito saussuriano de instituicdo. sendo coda ion caracterizado por uma funcdo dife- rente" (Jakobson, op. cit., E certo que o conceito de "campo semantico" jd repre- 2. As implicacoes do conceito saussuriano de instituigaosenta um passo nessa direcao, uma vez que visa as coercoes se-manticas entre os elementos morfematicos, suas relacoes inpraesentia e in absentia em uma a"rea de significagao dada. En- Segundo Saussure, a Ifngua 6 uma instituicao social entre outras, o que faz com que se possa enunciar a diferenga especi-tretanto, ele nao dd conta dos efeitos sequenciais ligados & dis- fica que a coloca na s£rie das instituigoes como uma especie nocursividade. Em outras palavras, o conceito de campo semSnti- interior de um gSnero: tudo parece claro uma vez que se deter-col10! recobre uma das duas significances da palavra "retdrica" mine que esta diferenga especffica se chama o semioldgico. En-(isto 6, retdrica como saber que incide sobre a "disposicao", a tretanto, encontramos no Curso de Linguistica Geral um outro"ordem e o encadeatnento de idelas" etc.): em termos tornados tipo de diferenga que coloca ainda uma vez em causa as "ou-de empre"stimo & Idgica, pode-se dizer que a normalidade local tras" instituigoes e cuja avaliagao crftica 6 para n6s fundamen-que controla a producao de um tipo de discurso dado concerne tal.nao somente a natureza dos predicados que sao atribufdos a umsujeito mas tambern as transformacoes que esses predicados Com efeito, escreve Saussure:sofrem nofio do discurso e que o conduzem a seufim, nos doissentidos da palavra. "As outras instituicoes humanas — os costumes, as leis etc. — se jundam, em diversos graus, nas rela- Propomos designar por meio do termo processo de produ- coes naturals das coisas; hd nelas uma conformidadecao o conjunto de mecanismos formais que produzem um dis- necessdria entre os meios empregados e os fins per-curso de tipo dado em "circunstancias" dadas. seguidos.,. A Ifngua, ao contrdrio, nao e" limitada Resulta do que precede que o estudo dos processes discur- em nada na escolha de seus meios" (Saussure, op.sivos supde duas ordens de pesquisas: cit.,p.UO). — o estudo das variacoes especfficas (semanticas, retdricas Reencontramos aqui a indicagao da reviravolta que descre- e pragmaticas) ligadas aos processos de produgao parti- vemos no comeco e que con sis te em mostrar que a Ifngua nao 74 75
  • 40. pode ser definida por uma "conformidade necessaria" (uma derivam da estrutura de uma ideologia polftica, correspondendo,harmonia teleoldgica) entre os meios e os fins - ora, para deixar pois, a um certo lugar no interior de uma formagao social dada. bem entendida a novidade do que enuncia, Saussure faz apelo a Em outras palavras, um discurso € sempre pronunciado apropriedades funcionais das outras instituigoes como a uma evi- partir de condi$oes de produgao dadas: por exemplo, o deputadodencia; em outros termos, 6 porque Saussure continua a pensar pertence a um partido polftico que participa do governo ou a umas instituigoes em geral como meios adaptados a fins que ele partido da oposigao; € porta-voz de tal ou tal grupo que repre-pode fazer ressaltar o caso dnico da lingua, para a qua) nao ha* senta tal ou tal interesse, ou entao esta" "isolado" etc. Ele esta",meio predestinado por natureza. pois, bem ou mal, situado no interior da relagdo deforgas exis- Certamente, nao se trata de reprovar Saussure pelo fato de tentes entre os elementos antagonistas de um campo polftico da-ter ignorado o que os socidlogos de seu tempo comegam a dis- do: o que diz, o que anuncia, promete ou denuncia nao tern ocernir: observaremos apenas que, na grande Enciclope"dia Fran- mesmo estatuto conforme o lugar que ele ocupa; a mesma decla-cesa de 1901, Mauss e Fauconnet definiam a sociologia como a ragao pode ser uma arma temfvel ou uma comedia ridfcula se-ciencia das instituigoes, precisando: "As instituigoes sao o con- gundo a posigao do orador e do que ele representa, em relacaojunto de atos e de ide"ias institufdas que os individuos encontram ao que diz: um discurso pode ser um ato polftico diieto ou umdiante deles e que Ihes sao mais ou menos impostos "(citado em gesto vazio, para "dar o troco", o que 6 uma outra forma deGurvitch, 1958, p.9), definigao que Saussure poderia ter aceito agao polftica.I11 Podemos evocar aqui o conceito de "enuncia-para caracterizar a lingua, "parte social da linguagem". do performativo" introduzido por J.L.Austin, para sublinhar a De fato, & inega"vel que um dos resultados mais decisivos relacao necessaria entre um discurso e seu lugar em um meca-da sociologia contemporanea consiste precisamente em saber nismo institucional extralinguisticoJ12!distinguir a funfdo aparente de uma instituigao e seu junciona- Se prosseguirmos com a analise do discurso polftico — quemento implfcito; as normas dos comportamentos socials nao sao serve aqui apenas de representante exemplar de diversos tiposmais transparentes a seus autores do que as normas da lingua o de processes discursivos — veremos que por outro lado, ele devesao para o locutor; "o sentido objetivo de sua conduta... os pos- ser remetido as rela^oes de sentido nas quais € produzido: as-sui porque eles sao despossufdos por ele " (Bourdieu, 1965, sim, tal discurso remete a tal outro, frente ao qual € uma res-p.20), O que significa que, retrospectivamente, Saussure nos pa- posta direta ou indireta, ou do qual ele "orquestra" os termosrece aqui afetado pela necessaria ilusao do nao-socioldgico, que principals ou anula os argumentos. Em outros termos, o proces-consiste em considerar as instituigoes em geral como funcoes so discursive nao tern, de direito, infcio: o discurso se conjugacomfinalidadeexplfcita.] l sempre sobre um discursive preVio, ao qual ele atribui o papel Isto nao deixa de ter consequencias para a teoria dos pro- de mate"ria-prima, e o orador sabe que quando evoca tal aconte-cesses discursivos. cimento, que ja" foi objeto de discurso, ressuscita no espfrito dos ouvintes o discurso no qual este acontecimento era alegado, com Seja, por exemplo, o discurso de um deputado na Camara. as "deformac.6es" que a situagao presents introduz e da qual pode tirar partido.f133Do estrito ponto de vista saussuriano, o discurso 6, enquanto tal,da ordem dafala, na qual se manifesta a "liberdade do locutor", Isso implica que o orador experimente de certa maneiraainda que, bem entendido, seja proveniente da Ungua enquanto o lugar de ouvinte a partir de seu prdprio lugar de orador: suasequencia sintaticamente correta. Mas o mesmo discurso 6 torna- habilidade de imaginar, de preceder o ouvinte 6, as vezes, deci-do pelo socidlogo como uma pane de um mecanismo em fun- siva se ele sabe prever, em tempo hdbil, onde este ouvinte ocionamento, isto e", como pertencente a um sistema de normas "espera".12 Esta antecipacao do que o outro vai pensar parecenem puramente individuals nem globalmente universais, mas que constitutiva de qualquer discurso, atrav^s de variasoes que sao 76 77
  • 41. definidas ao mesmo tempo pelo campo dos possfveis da patolo- Faremos a hipdtese de que, a um estado dado das condi-gia mental aplicada ao comportamento verbal13 e pelos modos goes de producao corresponde uma estrutura definida dos pro-de resposta que o funcionamento da instituicao autoriza ao ou- cesses de produgao do discurso a partir da Ifngua, o que signifi-vinte: a esse respeito, um sermao e uma conversa a bandeiras ca que, se o estado das condicoes 6 fixado, o conjunto dos dis-despregadas "funcionam" de modo diferente. Em certos casos, o cursos suscetiveis de serem engendrados nessas condicoes mani-ouvinte, ou o auditdrio, pode bloquear o discurso ou, ao contra- festa invariantes semantico-retdricas estdveis no conjunto consi-rio, apoid-lo por meio de intervengoes diretas ou indiretas, ver- derado e que sao caracterfsticas do processo de produgao colo-bais ou nao-verbais. cado em jogo. Isto supoe que 6 impossfvel analisar um discurso Por exemplo, o deputado na Camara pode ser interrompido como um texto, isto €, como uma sequencia lingiifstica fechadapor um adversario que, situado em outro "lugar" (isto 6, cujo sobre si mesma, mas que € necessdrio referi-lo ao conjunto dediscurso responde a outras condicoes de produgao),tentara atrair discursos possfveis a partir de um estado definido das condicoeso orador para seu terreno, obrig£-lo a responder sobre um as- de produgao, como mostraremos a seguir.sunto escabroso para ele etc. Existe, por outro lado, um sistema Vamos, pois, proper, inicialmente, um esquema formal quede signos nao-linguTsticos tais como, no caso do discurso parla- permita chegar a uma definiQao operacional do estado das con-mentar, os aplausos, o riso, o tumulto, os assobios, os "movi- dicoes de produgao de um discurso; descreveremos em seguidamentos diversos", que tornam possfveis as intervencoes indire- os requisites tedricos e metodoldgicos necessdrios a representa-tas do auditdrio sobre o orador; esses comportamentos sao, na gao do processo de produgao que corresponde a um estado da-maior parte das vezes, gestos (atos no nivel do simbdlico) mas do.podem transbordar para intervencoes ffsicas diretas; infelizmen-te, faz falta14 uma teoria do gesto como ato simbdlico no estadoatual da teoria do significante, o que deixa muitos problemassem resolugao: quando, por exemplo, os "anarquistas" langavam B) As condicoes de producao do discurso^14bombas no meio das Assembleias, qual era o elemento domi-nante: o gesto simbdlico significando a interrupgao a mais bru-tal que seja, ou a tentativa de destruicdo ffsica visando tal ou tal 1. Os elementos estruturais pertencentes as condicoes de produ-personagem polftica considerada nociva? gao Dentre as questoes que acabamos de evocar, vanas delaspermanecerao aqui sem resposta. Nosso propdsito nao 6, comefeito, o de estimular uma sociologia das condicoes de produgao Duas famflias de esquemas estao em competicao no quedo discurso mas definir os elementos tedricos que permitem pen- diz respeito & descrigao extrfaseca do comportamento lingiifsticosar os processes discursivos em sua generalidade: enunciaremos em geral (per oposigao a andlise intrfaseca da cadeia falada):a tftulo de proposicao geral que os fendmenos lingufsticos de — um esquema "reacional", derivado das teorias psicofi-dimensdo superior a frase podem efetivamente ser concebidos sioldgicas e psicoldgicas do comportamento (esquemacomo um funcionamento mas com a condicao de acrescentar "estfinulo-resposta" ou "estfmulo-organismo-resposta");imediatamente que este funcionamento nao 6 integralmente lin- — um esquema "informacional" derivado das teorias so-giifstico, no sentido atual desse terrno e que nao podemos defi- cioldgicas e psicossocioldgicas da comunicacao (esque-ni-lo senao em referSncia ao mecanismo de colocacdo dos pro- ma "emissor-mensagem-receptor*")-tagonistas e do objeto de discurso, mecanismo que chamamos O primeiro esquema parece dominar ainda largamente o"condigoes de produgao" do discurso. pensamento atual: "... as prefer^ncias da maioria, escrevem 78 79
  • 42. S.TMoscovici e M.Plon (1966, p.720) vao em diregao a uma das regras, das normas que os mdivtduos estabele-apreensao do fundamento da linguagem na organizac,ao do sis- cem entre si. Por essa via, ela chega tambem a mi-tema nervoso que € sua matriz material e nao naquilo que se diz nimizar a dimensao simbdlica que a linguagem ad-ser sua func.ao, ou seja, a comunicagao. Por esta razao, digamos quire, a par de sua associagao com essas regras, e oque uma progressao tedrica sob o angulo psicossocio!6gico nao papel nao - negligencidvel que ela desempenha na6 suficiente, mas 6 necessaria uma mudanga das opcoes atuais sua constituicdo" (ibid,, p.718).situando a psicologia social ao lado de outras disciplinas psico- O que significa que o esquema S-O-R implica excessivosMgicas com vistas a compreender a linguagem". "esquecimentos" tedricos no dommio de que nos ocupamos para Seja, com efeito, a aplicagao do esquema S-OR do corn- ser conservado sob esta forma.portamento verbal: O esquema "informacional" apresenta, ao contrario, a vantagem de por em cena os protagonistas do discurso bem co- discurso 1 discurso 2 mo seu "referente". Ao fazer o inventdrio dos "fatores consti- ou -+SUJEITO tutivos de qualquer processo lingufstico" Jakobson escreve: ou estfrnulo nao-discursivo comportamento nao-discursive "O destinador envia uma mensagem ao destinatdrio. Para ser operante, a mensagem requer antes um (S) (O) (R) contexto ao qual ela remete (e isto que cnamamos tambem, em uma terminologia umpouco ambfgua, o lt referente"), contexto apreensfvel pelo destinatdrio Esta representagao tern o inconveniente de anular o lugar e que e verbal ou suscetCvel de ser verbalizado; emdo produtor de (S) e do destinatdrio de (R): esta anulagao 6 per- seguida a mensagem requer um cddigo, comum, oufeilamente legftima quando a estimulagao 6ffsica (por exemplo, ao menos em pane, ao destinador e ao destinatdriouma variagao de intensidade luminosa) e a resposta organica (ou, em outros termos, ao codificador e ao decodifi-(por exemplo, uma variagao da resposta E.E.G.); neste caso, cador da mensagem). A mensagem requer, enfim,c« >m efeito, o experimentador 6 somente o construtor de uma um contacto, um canal ffsico ou uma conexdo psi-montagem que funciona independentemente dele, extrafdos os cologica entre o destinador e o destinatdrio, con-artefatos experimentais. Em uma experiencia sobre o "compor- tacto que permite estabelecer e manter a comunica-tamento verbal", ao contrario, o experimentador 6 umaparte da cao" (Jakobson,1963,pp.213-214).montagem, qualquer que seja a modalidade de suapresenca, f(- O esquema torna-se entao:sica ou nao, nas condigoes de produgao do discurso-resposta:em outras palavras, o estimulo s6 € estfrnulo em referenda £ si-tuac,ao de "comunicagao verbal" na qual se sela o pacto provi- 3)sdrio entre o experimentador e seu objetq. Os mesmos autores, Bj^ citados, escrevem a este respeito: "... a atitude skinneriana resulta em excluir no com, respectivamente: exame do comportamento humano, em geral, e do A: o "destinador", comportamento lingiifstico, em particular, as acdes B: o "destinatdrio", 80 81
  • 43. R: o "referente", uma situagao pode ser representada como vdrias posigoes, e isto (L): o cddigo lingufstico comum a A e a B, nao ao acaso, mas segundo leis que apenas uma investigagao so- -* : O "contacto" estabelecido entre A e B, cioldgica poderd revelar. D: a seqiiencia verbal emitida por A em diregao a B. O que podemos dizer 6 apenas que todo processo discursi- ve supoe a existencia dessas formagoes imagin^rias, que serao Observemos que, a prop6sito de "D", a teoria da informa- designadas aqui da seguinte maneira:gao, subjacente e este esquema, leva a falar de mensagem comotransmissao de informagao: o que dissemos precedentemente nosfaz preferir aqui o termo discurso, que implica que nao se trata Expressao Significagao QuestSo implfcitanecessariamente de uma transmissao de informagao entre A e B que designa as formac.oes da expressao cuja "resposta"mas, de modo mais geral, de um "efeito de sentidos" entre os imaginarias subentende a formagao imaginaViapontos A e B. correspondenle Podemos a partir de agora enunciar os diferentes elementosestruturais das condigoes de produgao do discurso. IA(A) Imagem do lugar de "Quem sou eu para Pica bem claro, j5 de infcio, que os elementos A e B de- A para o sujeito Ihe falar assim?"signam algo diferente da presenga ffsica de organismos humanos colocado em Aindividuais. Se o que dissemos antes faz sentido, resulta pois Adele que A e B designam lugares determinados na estrutura deuma formagao social, lugares dos quais a sociologia pode des- I A (B) Imagem do lugar de "Quem & ele paracrever o feixe de tragos objetivos caracterfsticos: assim, por • B para o sujeito que eu Iheexemplo, no interior da esfera da produgao economica, os luga- colocado em A fale assim?"res do "patrao" (diretor, chefe da empresa etc.), do funcionariode repartigao, do contramestre, do operaVio, sao marcados porpropriedades diferenciais determineveis. IB(B> Imagem do lugar de "Quem sou eu para B para o sujeito que ele me fale assim?" Nossa hipdtese 6 a de que esses lugares estao representa- colocado em Bdos nos processes discursivos em que sao colocados em jogo. BEntretanto, seria ingenuo supor que o lugar como feixe de tra- IB (A) Imagem do lugar de "Quem 6 ele paragos objetivos funciona como tal no interior do processo discur- A para o sujeito que me fale assim?" colocado em Bsivo; ele se encontra ai representado, isto 6, presente, mas .transformado; em outros termos, o que funciona nos processesdiscursivos 6 uma se"rie de formagoes imaginarias que designamo lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a ima- Acabamos de esbogar a maneira pela qual a posigao dosgem que eles se fazem de seu prdprio lugar e do lugar do outro. protagonistas do discurso interve"m a tftulo de condigoes de pro-Se assim ocorre, existem nos mecanismos de qualquer formagao dugao do discurso. Convem agora acrescentar que o "referente"social regras de projegao, que estabelecem as relagoes entre as (R no esquema acima, o "contexto", a "situagao" na qual apa-situafdes (objetivamente definfveis) e as posigoes (representa- rece o discurso) pertdhce igualmente as condigoes de produgao.goes dessas situacoes). Acrescentemos que & bastante provaVel Sublinhemos mais uma vez que se trata de um objeto imagindrioque esta correspondSncia nao seja biunfvoca, de modo que dife- (a saber, o ponto de vista do sujeito) e nao da realidade ffsica.rengas de situagao podem corresponder a uma mesma posigao, e Colocaremos, pois: 82 83
  • 44. Vemos em cada caso que a antecipacao de B por A depen- Expressoes que Significant) Questao implfcita de da "distancia" que A supoe entre A e B: encontram-se assim designam da expressao cuja "resposta" subentende a formagao formalmente diferenciados os discursos em que se trata para o as formaijoes orador de transformar o ouvinte (tentativa de persuasao, por imagin&rias imaginaVia correspondente exemplo) e aqueles em que o orador e seu ouvinte se identifi-A IA(R) "Ponto de vista" de A "De que Ihe falo assim?" cam (fenomeno de cumplicidade cultural, "piscar de olhos" ma- sobre R nifestando acordo etc.). 1B "Ponto de vista" de B De que ele me fala assim? Resulta do que precede que o estado n das condicoes de W sobre R produgao do discurso3):i:que A dirige a B a proptfsito de R — que notaremos como I^.(A, B} - serd representado pelo seguinte vetor16: Enfim, indicamos mais acima15 que todo processo discur-sive supunha, por parte do emissor, uma antecipagdo das repre-sentafdes do receptor, sobre a qual se funda a estrate"gia do dis-curso. Formaremos, pois, as expressoes: , B) = B Isto exige v^rias observagoes:para exprimir a maneira pela qual A representa para si as repre-sentac.6es de B, e reciprocamente, em urn momenta dado do dis-curso. Em primeiro lugar, no que concerne a natureza dos ele- Como se trata, por hip<5tese, de antecipagoes, deve-se ob- mentos que pertencem ao vetor acima, j4 foi indicado que seservar que esses valores precedem as eventuais "respostas" de trata de representacoes imagindrias das diferentes instancias doB, vindo sancionar as decisoes antecipadoras de A: as antecipa- processp discursive: tornaremos agora precisas nossas hip6tesesc.6es de A com respeito a B, por exemplo, devem ser pensadas a este respeito acrescentando que as diversas formac6es resul-como derivadas de IA(A}, IA(B) e IA(R). tam, elas mesmas, de processes discursivos anteriores (prove- Simbolizaremos essa derivagao pelas expressoes seguintes, nientes de outras condicoes de produgao) que deixaram de fun-que, atualmente, nos servem apenas para explicitar nossas hip<5- cionar mas que deram nascimento a "tomadas de posicao" im-teses sobre a natureza especffica da derivacao em cada caso: plfcitas que asseguram a possibilidade do processo discursive em foco. Por oposi$ao a tese "fenomenologica" que colocaria a apreensdo percepttva do referente, do outro e de si mesmo como condicdo pre-discursiva do discurso, supomos que a per- cepgao € sempre atravessada pelo "ja ouvido" e o "ja" dito", atrav€s dos quais se constitui a substancia das formacoes imagi- 84 85
  • 45. narias enunciadas; os conceitos de pressuposigao e de implica- Nesta perspectiva, o objeto de uma sociologia do discursogao apresentados e utilizados por O.Ducrot colocam em jogo seria, pois, o de verificar a ligacao entre as relagoes de for$ao mesmo gSnero de hipdtese^15]; a propdsito da situagao que, es- (exteriores a situacao do discurso) e as relagoes de sentido quecreve este autor, "nao pode mais ser concebida de forma sim- se manifestam nessa situagao, colocando sistematicamente emplesmente cronoldgica ou geogra"fica como uma localizagao es- evidencia as variagdes de domindncia que acabamos de evocar.pago-temporal", ele acrescenta: "a situagao de discurso, a qualremetem as pressuposigoes, comporta como parte integrantecertos conhecimentos que o sujeito falante empresta a seu ou- 2. Esbogo de uma representagao formal dos processes discursi- vosvinte. Ela concerne pois a imagem que se fazem uns dos outrosos participantes do dialogo".17 Paralelamente, e" claro que em um estado dado das condi- Assim como anunciamos precedentemente,18 fazemos a hi-c.6es de produc.ao de um discurso, os elementos que constituem pdtese de que dadas as condic.6es de produgao de um discursoeste estado nao sao simplesmente justapostos mas mantem entre 1)x no estado n, ou seja, F$ , € possfvel Ihe fazer correspondersi relagoes suscetiveis de variar segundo a natureza dos ele- um processo de produgao 3),, no estado n, processo quementos colocados em jogo: parece possfvel adiantar que nem to- designaremos por Aax.dos os elementos de /£ tern uma eficacia necessariamenteigual, mas que, segundo um sistema de regras, a ser defmido,um dos elementos pode se tornar daminante no interior das con- Mas vimos, por. outro lado, que um estado dado das con-digoes de um estado dado. T^ aparece assim como uma se- digoes de produgao deveria ser compreendido como resultandoqiiencia ordenada, eventualmente do tipo vetorial, em que certos de processes discursivos sedimentados:19 ve-se que 6 pois im-termos tdm a propriedade de determinar a natureza, o valor e possfvel definir uma origem das condicoes de produgao, poiso lugar dos outros termos. esta origem, a rigor impensdvel, suporia uma recorrencia infi- Com efeito, seja por exemplo uma serie de discursos ca- nita. Por outro lado, 6 possfvel interrogar sobre as transfonna-racterizados pelo fato dnico de que se trate da "liberdade": con- c,6es das condigoes de produ§ao a partir de um estado dado des-forme se trate de um professor de filosofia que se dirige a seus sas condigoes.alunos, de um diretor de prisao que comenta o regulamento parauso dos detentos, ou de um terapeuta que dirige a palavra a seu Trataremos, pois, sucessivamente de duas questoes:paciente, assistitnos a um deslocamento do elemento daminante — a questao da correspond£ncia entre -T* e A"x,nas condi§6es de produgao do discurso: seja A o emissor e B oreceptor; no discurso terapeutico, tal como € concebido pela - a questao da transformacao F^ -in+lpsiquiatria cla*ssica, 6 a imagem que o paciente faz de si mesmoque & o principal do discurso, ou seja, IB(B). Na relagao peda- As operagoes abstratas que vamos introduzir sobre os ele-g<5gica, a representacao que os alunos fazem daquilo que o pro- mentos precedentemente definidos tomam possfvel, a nosso ver,fessor Ihes designa 6 que domina o discurso, ou seja, IS(IA(R))., o esbogo de uma descricao formal dos processos discursivos. Aem sua relagao com IA(R) . Enfim, no discurso do diretor de pri- formulagao que daremos aqui vai permanecer incompleta e pro- sao, tudo esta" condicionado pela imagem que os detentos forma- vis6ria; nossa finalidade presente 6 somente mostrar a possibili-rao do representante do regulamento atrave"s de seu discurso, ou dade geral de tal teoria, e situar o caso particular ao qual se re- seja, IB(A) , pois se trate, para uns, de saber "ate" onde da" pra ir duz a parte atual do nosso trabalho, em relaeao aos fendmenoscom ele" e, para o outro, de Ihes tornar isto significative. mais complexes que estamos deixando, por enquanto, de lado. 86 87
  • 46. REGRA 1 o empreendimento de Dolezel permanece, sob muitos pontos de vista, esclarecedor para nossos propdsitos; com efeito ele pros- segue: O processo de produgao de um discurso CD* (no estado n)resulta da composigdo das condigoes de produgao de 2)* (no * A unidade fundamental que se obtem como resulta-estado n) com urn sistema lingufstico^dado. do do processo de codificagao 4 a frase; uma frase ou uma sequencia de frases constitui a mensagem Convencionaremos notar esta operagao de composic.ao lingufstica, o discurso {...} 4 preciso estabelecer epelo sfmbolo o, e escreveremos: especificar o conjunto de regras cuja aplicagdo per- mite alinhar, durante o processo de codificagdo, as palavras em frases e as frases em mensagem" (ibid., A interpretacao que se pode dar a essa regra 6 a seguin- p.52).te: 71" funciona como um princfpio de selecao-combinac.ao so-bre os elementos da lingua .Sfe constitui, a partir deles, o sistema Acrescentemos que o autor citado emite explicitamente ade ligagoes semanticas que representa a matriz do discurso 3),, hipdtese do carrier estaciondrio dos "parametros da Ifngua" queno estado n, isto 6, os domfnios semdnticos e as dependencias retomamos por nossa conta.entre esses domfnios. Acrescentemos que a efetuagao dessa ope-ragao apresenta, de fato, diversos nfveis hierarquizados: con-forme mostraremos em seguida,20 a constituisao do enunciado —frase elementar — nao responde as mesmas leis semanticas, retd- REGRA2ricas e pragmdticas que a disposigao dos enunciados na sequ6n-cia discursiva. A partir de premissas tedricas bastante diferentes das ex- Todo processo de produgao Ay, em composigdo com umpostas aqui, o trabalho de L.Dolezel (1964) manifesta, pelos fins estado determinado n das condigoes de produgao de um discur-que se propde, uma convergencia interessante de se notar: so 3)x induz uma transformagdo desse estado. Convencionaremos designar esta composic,ao pelo sfm- Ao utilizar as unidades elementares do codigo e as bolo e escreveremos: regras do codigo, escreve ele, a fonte da informagao lingufstica — o codificador — produz mensagens con- cretas — os discursos — que sao uma representagdo dos conjuntos de acontecimentos extralingufstica e Esta regra coloca em evidencia o efeito de transformasao que transmitem a informagao desses acontecimen- que induz a presence de um processo particular no campo dis- tos". cursivo sobre o estado das condicoes de produc.ao: & claro, jd de infcio, que o discurso que A dirige a B modifica o estado de B na medida em que B pode comparer as "antecipac.6es" que faz Nossas considera$6es tedricas anteriores devem advertir o de A no discurso de A.leitor sobre as divergdncias que registramos aqui: os conceitosde informagao^ de mensagem e de acontecimento extralingufsti- Mas, por outro lado, destacamos21 que todo orador era um ouvinte virtual de seu proprio discurso, o que implica que o queco, em particular, derivam de pressupostos empiristas cujas difi-culdades acreditamos ter assinalado, em tempo dtil. Entretanto, e" dito por A transforma igualmente as condicoes de produgao 88 89
  • 47. prdprias a A, permitindo-lhe "continuar" seu discurso; as "per- (E): Codificacao,turbagoes do comportamento narrativo", caracterizadas pela (DE): Decodificacao externa,perda do fio do relate, o incessante retorno ao infcio etc. pode-riam ser interpretados como uma perturbagao desse mecanismo. (DI): Decodificagao interna. Essas duas regras pedem alguns comentaiios. Em primeiro Vd-se que, a cada "passo", o discurso de um dos protago-lugar, ve-se que a primeira regra corresponde a emissao da se- nistas 6 modificado pelo do outro.qiiencia discursiva, ao passo que a segunda diz respeito a sua Consideremos, ao contra"rio, o tipo de discurso em que orecepcdo, o que significa que elas desempenham, respectiva- destinador nao recebe nenhuma resposta por parte do destinata-mente, um papel comparaVel ao que 6 chamado frequentemente rio (nenhuma resposta, isto 6, nem discurso nem gesto simb<51i-de codificacdo e decodificacdo. Deve-se, entretanto, observar co).que a oposicao linguagem/realidade, que serve frequentemente O esquema torna-se entao o seguinte:de fundamento a esses dois conceitos, nao esta* operando aqui eque a "simetria" entre a codificagao e a decodificagao, muitasvezes evocada como uma necessidade, desaparece igualmente, Em segundo lugar, a segunda regra ("regra da decodifica-cao") comporta, como acabamos de ver, duas modalidades defuncionamento, aos quais propomos chamar decodificagao ex- (E)terna e decodificagao interna: ve-se, pois, que toda situagao de (DI) TJ * Aldiscurso comporta necessariamente decodificagoes internas mas <E) n o j?que a existencia de decodiflcacoes externas esta" ligada a uma (Di)"resposta" do destinatario dirigida ao destinador inicial, res-posta que pode muito bem estar ausente de certas situagoes dediscurso — por exemplo a redagao de uma carta, um discurso ra-diodifundido etc. Este ponto explica o caso particular que estamos opondoao caso geral. Seja, com efeito, uma situagao de discurso entre Estamos em presenca de um caso particularmente simples,A e B, tal que cada um "responda" ao outro; ela pode ser repre- pois, assim como o vemos acima, a s^rie dos estados Flx po-sentada da maneira seguinte: de ser deduzida de /"j, e o discurso 2)x assimilado & se- A B qiiencia. r%A, B) ri(B, A) (E) (DE) (DI) (E) rl »£ (Dl) (E) (DE) Nessas condisoes, falaremos de Px (integrando A, rl..., r? (Dl) (E) como condicao de produgao do discurso 2), (integran- rt* doO)*,a)^...3);), condicao a qual corresponde o processo de pro- CE) ducao Ax (integrando A, A*,..., d$). 90 91
  • 48. Ill Trataremos aqui unicamente desse caso particular do dis- ditdria, exaustiva e simples. A teoria da gramdtica gerativa in- curso-monologo, que podemos identificar na conduc.ao do rela- verte a rela^ao; ela se pergunta: que regras lingufsticas sao to, do testemunho, da prece, da demonstracao pelo exemplo, ca- consciente ou inconscientemente aplicadas para produzir frases sos em que, no mihimo, o destinatario sd se encontra presente na corretas de uma Ifngua dada? A analise cede seu lugar a sfntese; situagao pela imagem que o destinador faz dele. A anaiise das maneja-se, pois, um sistema de regras ao nivel de um sistema de situagoes de dialogo, com a presenc.a eventual de um persona- elementos." gem "terceiro" no processo, necessita que se considerem rela- Suponhamos que os resultados dessa revolugao copemica- goes mais complexas (vaiias condicoes de produ$ao em intera- na, que organiza a Ifngua em torao do "sujeito falante", se- 530), o que implica em novas pesquisas. jam diretamente aplic^veis a teoria do discurso: isso significaria No momenta, o problems ao qual propomos uma soluc,ao que o objetivo primordial 6 o de dar-se um conjunto de regras 6, pois, o seguinte: que permitam engendrar um discurso, e significaria que pode- mos, sem inconveniente, nos dispensar de analisar as efeitos de "Dado um estado definido de condigoes de produgao de superffcie da sequencia discursiva, o que seria uma preocupagao um discurso-mon<51ogo 3)^ (seja 7^ ) e um conjunto finite de ptolomaica superada. Ora, como jd vimos, nossa hipfitese 6 a de realizac.6es discursivas empfricas de 3)^ (seja^,- a>,j 2>™)22 que essa transferencia de resultados entre o "sujeito falante" representativas desse estado, determinar a estrutura do processo (neutralizado pela relagao com as condigoes de produgao do de produgao ( Ax ) que corresponde a Fx , isto 6, o conjunto discurso) e um hipot6tico "sujeito do discurso" 6 ilfcita: o que dos domfnios semanticos colocados em jogo em 3),, , bem co- dissemos precedentemente supoe, com efeito, o fato de que nao mo as relacoes de dependencia existente entre esses domfnios." hd sujeito psicoldgico universal que sustente o processo de pro- dugao de todos os discursos possfveis, no sentido de que o su- Supomos que 6 possfvel definir empiricamente um con- jeito representado por uma gramatica gerativa 6 apto a engendrar junto de emissores identificaVeis quanto ao estado das condicoes todas as frases gramaticalmente corretas de uma Ifngua. Em ou- de producao de 3)x (e nao, bem entendido, para qualquer discur- tros termos, pensamos que a continuidade metodologica que su- so em geral). pomos as vezes aqui 6 atualmente suspeita, na medida em que Como foi indicado anteriormente,23 a constituigao desse ela implica, para passar do sujeito da lingua ao sujeito do dis- conjunto se baseia ao mesmo tempo no controle das varidveis curso, a existdncia de regras seletivas que funcionam no nfvel sociologicas objetivas caractensticas do "lugar" do destinador e do "vocabulario terminal", as quais (regras) remetem de fato a no controle das formacoes imagindrias proprias a situacao de uma andlise dos elementos morfemfiticos em tracos semdnticos, 3)x, das quais um jogo pr6vio de questoes indiretas terd por fun- cujo cardter altamente problemdtico em geral concordamos em c.ao verificar o conteiido. reconhecer. Isso significa, em definitive, que nao podemos aqui evitar o desvio atravSs de uma andlise que, no entanto, fica, na maioria das vezes, implfcita e nao sistematica: ela repousa com efeito geralmente sobre uma concepgao atomfstica das signifi- C) Por uma andlise do processo de produgao do discurso cagdes, de forma que os lexemas ou os morfemas sao arbitraria- mente analisados como unidades decomponfveis em "semas" que existem por si,24 e as propriedades combinatdrias sao dedu- "A lingiifstica estrutural cldssica, escreve T.Todorov zidas a partir de regras de compatibilidade inter-semas igual- (1966, p.5)tI6l, apresentava assim, de forma geral, seu procedi- mente colocadas de modo arbitrario.25 Por outro lado parece mento: existe um corpus de fatos da Ifngua; € precise encontrar que, neste dommio, o princfpio "nao elementos, mas sim rela- nocoes e relac,6es que Ihe permitam uma descrigao nao-contra- e regras" estd singularmente 92 93
  • 49. Nessas condicoes, e posto que o desvio por uma andlise Por exemplo: x = brilhanteparece, atualmente, inevitaVel, consideramos que 6 preferfvel y = notavelcolocar aqui os seus princfpios: diremos, pois, que a serie das x e y sao substitufveis em certos contextos.superficies discursivas 5),,,,..., 3)^ constitui um vestfgio doprocesso de producao Ax do discurso 3)^, isto 6, da "estrutura Por exemplo: este matematico € (xfy)profunda" comum a SDMj, ...,2)jn . Nosso empreendimento con- ou entao: a demonstra^ao desse matematico € (x/y).siste, pois, em remontar desses "efeitos de superffcie" a estrutu- Mas existem outros contextos para os quais x e y nao saora invisfvel que os determina: e" s6 depois que uma teoria geral substitufveis.dos processes de produgao discursivos torna-se realizavel, en- Por exemplo: a luz brilhante do farol o cegou;quanto teoria da varia$do regulada das "estruturas profun-das". ou entao: esta curva comporta um ponto assinalavel. (3) representa, ao contrario, o caso em que x e y sao subs- titufveis, qualquer que seja o contexto, propomos como exem-1. Efeito metafdrico plo: x = refrear y = reprimir Consideremos a seguinte questao: para prop<5sito do qual a exist£ncia de um contexto que impec.a a Sejam dois termos x e y, pertencentes a uma mesma cate- substituigao parega problemdtica. Observemos no entanto que,goria gramaticaJ em uma Ifngua dada $?. Existe pelo menos um para ser correta, a decisao de classiflcar o par refrear/reprimirdiscurso no interior do qual x e y possam ser substitufdos um em (3) deveria se apoiar em um exame de todos os contextospelo outro sem mudar a interpretacao desse discurso? discursivos possfveis para uma Ifngua dada. Em outras palavras, Consideremos S(;r,;y) a operac.ao de substituigao que res- se o par x/y pertence a (2), 6 possfvel sabe-lo em um tempo fi-peita a restrigao indicada, e 3)n uma sequencia de termos engen- nite, o que nao € evidentemente o caso para (3).drada por An na Ifngua Jzf.correspondente a um estado Pano conjunto dos estados possfveis. Designaremos a possibilidade de substituicao (2) pelo ter- Tr6s casos sao logicamente possfveis, a saber: mo sinonfmia local ou contextual, por oposicao & possibilidade (3) a qual chamaremos sinonfrnia nao-contextual. x e y nunca sao substitufveis um pelo outro. Vemos que, em presenca de um conjunto finite de discur- x e y sao substitufveis um pelo outro, as vezes, mas sos correspondente a um mesmo Tn , devemos, por prudSncia,nao sempre. considerar que todas as sinonfmias sao contextuais, ate" se verifi- (3) V2>n,S(;c,.v) car que, eventualmente, algumas delas sao conservadas ao longo de todas as variances estudadas do T : a sinonfmia nao-con- x e y sao sempre substitufveis um pelo outro. textual apareceria assim .como um limite para o qual tende uma Consideremos os casos (2) e (3), em que a substituigao € sinonfmia contextual verificada em condigoes de producao cadapossfvel: vez mais numerosas, o que remete & questao das interseccoes (2) representa o caso em que x e y sao substitufveis em semanticas nao-vazias. De nossa parte, formularemos a hipdtesefungao de um contexto dado. de que as sinonfmias contextuais sao a regra, e que as sinonf- 94 95
  • 50. mias nao-contextuais sao excepcionais, se nos referimos a teoria Sejam as sequencias desses n discursos:saussuriana do valor: 0 S d b h .... No interior de wna mesma Ifngua, todas as pala- ( d b h .... vras que exprimem ideias vizirihas se limitam reci- procamente: sindnimos como recear, temer, ter medo k d b h .... s6 tern valor prdprio pela oposigao; se recear nao I existisse, todo seu conteiido iria para seus concor- k m b h .... rentes" (Saussure, op. cit., p.135). k m k m Notemos que, de fato, 6 possfvel considerar sinonfmiascontextuais entre dois grupos de termos ou expressoes que pro-duzem o mesmo efeito de sentido em relagao a um contexto da-do.^! k m Chamaremos efeito metaforico o fenomeno semantico pro- 3D, k mduzido por uma substituicao contextual}19] para lembrar que es-se "deslizamento de sentido" entre x e y 6 constitutive do "sen- Vemos que cada discurso f)xi 6 tido como diferente dotido" designado por x e y; esse efeito € caracterfstico dos siste- precedente D^J-D por wna s6 substituigao, sendo que o con-mas linguTsticos "naturals", por oposigao aos c6digos e as "Ifn- junto do contexto € a cada vez conservado. Temos, pois, umaguas artificiais", em que o sentido 6 fixado em relacao a uma slrie de efeitos metafdricos (a/j, g/k, d/m, etc.) cujo efeito 6metahngua "natural": em outros termos, um sistema "natural" manter uma ancoragem semantica atrav^s de uma variacao danao comporta uma metalfngua a partir da qual seus termos pode- superficie do texto, pois, no limite, S)xn nao contem mais ne-riam se definir: ele 6 por si mesmo sua prtfpria metalfngua. nhum dos termos que pertencem a 2)^ , e Ihe 6, no entanto, por definigao, semanticamente equivalente. Ve-se, entao, que € fundamentalmente necessaiio dispor de Esse exemplo, puramente fictfcio, e alia"s totalmente im-uma se"rie de sequencias representativas de um -T* dado para possfvel, tern por rfnica funcao colocar em evidencia o que en-poder colocar em evidencia os pontos de ancoragem sem&ntica tendemos por conservagao da invariante atravds da variagaoque se definem pelo recorte das metaToras. morfem^tica: o mesmo sistema de representagoes se reinscreve atraves das variantes que o repetem progressivamente; 6 esta re- Expliquemo-nos, com respeito a esse ponto, por um exem- peticao do iddntico atraves das formas necessariamente diversasplo cujo carater empiricamente inveross&nil nao deve mascarar a que caracteriza, a nossos olhos, o mecanismo de um processo designificacao tedrica: producao; a "estrutura profunda" aparece assim como um tecido Seja um estado rx e um corpus Gx de discursos estrita- de elementos solidarios, instalando-se e assegurando-se a simente representativos desse estado, Qx — 2)^,, y)x2,..., 2),n. mesma atraves de efeitos metafiSricos que permitem gerar uma Designemos por uma letra cada uma das palavras que seiie quase infinita de "superffcies" pela sua restrigao a limitescompoem os discursos considerados (a cada palavra diferente de funcionamento a!6m dos quais a "estrutura profunda" explo-corresponde uma letra diferente e reciprocamente). 120] 96 97
  • 51. Nessas condigoes, o confronto recfproco das formas varia- "adormecido", caso em que a substituic,ao que d& um sentido aodas da superffcie permite, ao multiplicar a presence do discurso termo empregado nao funciona no interior do discurso (assimpor ele mesmo, manifestar a estrutura invariante do processo de por exemplo, o "nascer do sol" representa uma metafora "a-produgao para um estado dado, estrutura esta cujas variagoes dormecida" na medida em que o estado atual das leis de substi-sao o sintoma. tuicao nao autoriza a forma comutaVel com "nascer").27 Nesta Vamos agora expor de que modo esta confrontac.ao pode medida, podemos, pois, supor, atrav^s da s^rie de seqii£nciasser efetivamente realizada. discursivas a exist^ncia de obstaculos manifestados pela repeti- 530 de certos termos em torno dos quais se efetuam os desloca-2. Da superffcie discursiva a estrutura do processo de producao mentos metafdricos. Isso significa dizer que nao se passa necessariamente de uma seqiidncia discursiva a outra apenas por uma substituigao, Consideremos o exemplo tedrico que acaba de ser exposto: mas que as duas sequencias estao, em geral, ligadas uma & outranos o utilizamos simplesmente para representar o efeito metafo- por uma se"rie de efeitos metafdricos. Mas se admitimos que v5-rico tal como o definimos, indicando que a realizagao de tal rios efeitos metafdricos podem funcionar entre tal discurso dadoexemplo era impossivel. Agora 6 importante precisar as determi- e o resto do corpus, isto significa, ao mesmo tempo, que o con-nacoes que tinham sido provisoriamente deixadas de lado nesta texto de uma substituicao nao 6 necessariamente o discurso narepresentac.ao abstrata. sua totalidade, o que nos leva a colocar o problema da segmen- Colocaremos, assim, sucessivamente em evidencia: tac.30 dos contextos no interior da sequSncia discursiva. No arti- go ja" citado, Jakobson escreve: — A impossibilidade concrete da hipdtese-limite que con- cerne a existencia de dots discursos que pertencem a mesma estrutura de pvodugdo e que nao possuem ne- * Todo signo £ composto de signos constituintes e/ou rthum termo em comum. aparece em combinagao com outros signos. Isto sig- nifica que toda unidade lingufstica serve ao mesmo — As consequencias que resultam desse primeiro ponto, tempo de contexto a unidades mais simples e/ou en- concernente a noc.ao de contexto, e a elaborac.ao te<5rica contra seu prdprio contexto em uma unidade lin- de que esta nocao necessita. gufstica mais complexa. De onde se segue que toda — A e^xistencia de um efeito de dominancia no interior da reunido efetiva de unidades lingufsticas as Hga a produgao de uma seqiiencia discursiva dada, cujo resul- uma unidade superior" (Jakobson, 1963, p.48). tado € o de recortar zonas de pertinSncia no interior da sequencia, em funcao de um Ax dado. E ele acrescenta: No que se refere ao primeiro ponto, 6 claro que a hip6"teseproposta J3 6 quase impossivel de ser sustentada a propdsito de "O destinatario percebe que o enunciado dadodots discursos quaisquer, uma vez que existe, na Imgua, um (mensagem) e" uma combinagdo de partes constituin-pequeno ndmero de palavras-operadores muito frequentes, cujo tes (frases, palavras, fonemas) selecionadas no re-uso nao estd semanticamente ligado a um contexto dado. Para- pertdrio de todas as partes constituintes possfveislelamente, isto € mais fundamental para nosso propdsito, parece (cddigo)" (ibid.).que as leis semSntico-retdricas que regem os deslizamentos desentido em um Ax impoem certos bloqueios de lugar a lugar, Se tomamos esse texto ao pe" da letra, poderfanios suporde forma que certas metaToras s6 existem no discurso em estado do fonema ao discurso estamos em presen?a de signos lin- 98 99
  • 52. gufsticos cuja dimensao aumenta mas que permanecem ligados & l&gico-retdrica, que nao 6 mais restrita a conexidade: dois enun-mesma regra de combinagdo. Se assim fosse, seria impossfvel ciados podem estar em relagao funcional atraves de um espacodefinir o contexto de uma substituicdo, por nao conhecermos a discursivo neutro face a esta relacao.dimensao do signo na qual convem parar.f21] Vemos, entao, que nosso problema se apresenta como sen- Esta dificuldade 6 superada com a condigao de se reconhe- do o de saber por em relagao as propriedades internas dos enun-cer um estatuto bem particular para a frase: o da fronteira que ciados (como combinagao de signos) e suas propriedades exter-separa a lingufstica da teoria do discurso. Benveniste fornece nas (como elementos funcionais no discurso), a fim de determi-sobre este ponto precisoes importantes: nar os casos em que a interpretacdo semdntica — no sentido que a 16gica da" a esta expressao — € identica para dois enunciados Com a frase, urn limiie £ transposto, n6s entramos dados. Estabeleceremos que, para que haja efeito metafdrico em um novo domfnio... N6s podemos segmentar a entre dois termos x e y pertencentes a dois enunciados Ea e E^, frase, n6s nao podemos empregd-la para integrar... eles mesmos respectivamente situados em dois discursos D x j e Pelo fato de que a frase nao constitui uma classe de Dx: representativos de um mesmo Ax, 6 precise que Ea e unidades distintivas, que seriam membros virtuais de Ejj tenham uma interpretacdo semdntica identica, o que notare- unidades superiores, como o sdo os fonemas ou os mos como morfemas, ela se distingue fundamentabnente das outras unidades lingittsticas, O fundamento desta diferenga € que a frase contem signos, mas nao e" ela isto €: mesma um signo" (Benveniste, 1966, p.128). a) que os elementos de Ea e Ej, fornecam um contexto comum de substituigao para x e y, condicao a que chamaremos Empregaremos por nossa conta o termo enunciado para "condigao de proximidade paradigm^tica" entre Ea e E^.distinguir a frase elementar enquanto objeto u*nico sobre o qual b) que os enunciados Ea e £5 tenham uma posigdo fun-opera o mecanismo do discurso. Resulta do que precede que nao cional identica frente aos dois enunciados Ec e E(j pertencenteshd relacoes de combinagao/substituicao entre os enunciados que respectivamente a Dx; e Dx; e tendo eles mesmos uma interpre-permita conslruir a partir deles o discurso como unidade supe- tagao semantica identica ou sejarior, pois o enunciado jde da ordem do discurso: 28 "A frase pertence ao discurso, escreve ainda Benve- niste; I por isto mesmo que a podemos definir: a fra- se £ a unidade do discurso" (Benveniste, ibid., Ilustremos o que precede com um exemplo. Sejam os se- p.130). guintes enunciados: EI = E*i = o xerife avangava prudentemente em diregao Em outros termos, uma substituigao tern sempre por con- ao saloontexto o enunciado, considerado como combinasao-substituic,ao £2 = E*2 = a tempestade ribombavade lexemas, ao passo que nao podemos dizer que um enunciado _-, . * £3 = um tiro atravessou a noitetenha um contexto, no mesmo sentido da palavra, pois os enun-ciados podem ser ligados por uma relacdo de dependencia jun- £4 = um clarao atravessou a noitecional, o que significa que a contigiiidade sintagmStica entre os £5 = um raio atravessou a noiteelementos - princfpio fundamental da analise lingufstica do sig- N.T.:Era francos temos "coup de feu" o que pemrite a aproxima§ao entre "eclairno em seus diversos nfveis — cede o passo a ligagdo Juncional (clarao e raio) e "foudre" (raio). 100 101
  • 53. £5 = Eg = a bala o rogou Vemos, inicialmente, que E3, E4, E5 preenchem uns em £7 = £7 = a granja estava em chamas rela^ao aos outros a "condigao de proximidade paradigmatica" — Sejam os operadores inter-enunciados seguintes: pois os termos: tpj = "de repente" (relacao temporal entre um enunciado- um tiro estado e um enunciado-acontecimento). um clarao <P2 " : " (relacao explicativa). = o raio — Sejam dois processes de produc.ao -T, e F7 tais que sao substitufveis no contexto "atravessou a noite". Por outro lado, £3 e £4 tern uma interpretac.ao semantica identica em Cx, em razao de 3 (E^). Resulta daf o efeito meta- fdrico M emCx um tiro um clarao • Da mesma maneira, £4 e £5 tern uma interpretacao seman- tica identica Cy, em razao de 3 [^2]= 3 [E^]. Resulta daf o efeito metaforico M2 em Cy: um clarao o raio Deve-se notar que as relagoes de interpretagao semanticas <f2 nao sao transitivas porque = 3(£4) nao implicam 3(-E3) = Com efeito, a aplica§ao das regras de interpreta§ao enun-Coloquemos enfim as equivalencias de interpretagao semantica ciadas acima coloca em evidSncia que 3(E3) ^ 3(£5), pois aseguintes, das quais se supoe que tenham sido obtidas por uma "condigao de proximidade paradigmatica" entre Eg e £5 esta"fase anterior da analise: preenchida mas nao a condicao de identidade das posi^oes fun- cionais. Com efeito, 3(£t) ^ 3(£^} e 3(£6) =£ 3(£J). Resta enfim expor o que entendemos por e^iw de dami- 3(£6) - f&ncia no ulterior da produgao de uma sequSncia discursiva da- da; atg aqui, n6s raclocinamos nos seguintes tennos: "Dado um estado Fr, de que modo determinar Ax pela andlise de um conjunto de discursos que o representam?". Jsto suporia que ca- 102 103
  • 54. rda elemento da superffcie discursiva remete necessariamente a discurso, mas que toda forma discursiva particular remete neces- ^i , com uma necessidade igual, e logo que todos os discursos sariamente a se"rie de formas possfveis, e que essas rernissoes dacorrespondentes ao mesmo estado de produgao sao estritamente superffcie de cada discurso as superffcies possfveis que Ihe saoparalelos, isto e", absolutamente isomorfos, considerados os (em parte) justapostas na operagao de analise, constituem justa-efeitos metafdricos que os diferenciam. mente os sintomas pertinentes do processo de producjio domi- nante que rege o discurso submetido a analise. Ora, af esta", como vimos, uma eventualidade altamenteimprovaVel: o paralelismo € paulatinamente rompido pelas dis-torgoes "individuals" do discurso, que parece assim "escapar*ao processo de produgao, por uma "criagao infinita" uma "va-riedade sem limites" que seria o prdprio da fala.29 t22^ Pensamos que 6 possfvel dar conta deste fendmeno semabandonar nossos pressupostos tedricos anteriores, baseados nadeterminacdo do processo discursive pelas suas condi$6es deproduc.ao e na recusa da noc.ao ideoldgica da "criac.ao infinita".Introduziremos nesse ponto o conceito de dominancia, especifi-cando que toda situagao de produc.ao do discurso pode ser ca-racterizada pelo processo de produgao dominante Ax que e1ainduz, mas que as sequ£ncias discursivas concretas que mani-festam ^x resultam necessariamente da interac.ao do processodominante com os processes secunddrios, cujo encavalamentopraduz toda a aparencia do aleat6rio, do infinitamente imprevi-sfvel, face a ignorancia total em que ainda estamos atualmenteno que conceme aos mecanismos desta interagao. Estamos, agora, em condic.ao de formular mais correta-mente nosso objetivo atual, dizendo: dado um estado dominantedas conduces de produgao do discurso, a ele corresponde umprocesso de produgao dominante que se pode colocar em evi-dencia pela confrontagao das diferentes superffcies discursivasempfricas provenientes desse mesmo estado dominante: os pon-tos de recorte definidos pelos efeitos metafdricos permitirao as-sim extrair os domfnios semdnticos determinados pelo processodominante, e as refaffdes de dependencia Idgico-retorica impli-cadas entre esses domfnios, sendo que o resto do material dis-cursivo empiricamente encontrado fica fora do limite da zona depertinencia do processo dominante. Isso supoe, vamos repetir, que um discurso nao apresenta,na sua materialidade textual, uma unidade orgdnica em um so"nfvel que se poderia colocar em evidfincia a partir do prdprio 104 105
  • 55. PAKTEII Descricao de um dispositive de andlise automdtica do processo discursiveI. Regras para o registro codificado da superffcie discursiva Vamos supor, a partir de agora, que as condigoes que defi-nimos anteriormente estejam preenchidas, isto 6, que a se"rie dos2) submetida ao registro e a analise corresponde exatamente ummesmo estado dominante das condigoes de produQao, induzindoum processo de produgao 4«- Designaremos, pois, por 3)xl, ^)x2, ..., 3>*n os n discursosrecolhidos empiricamente nas condigoes precedentemente defi-nidas, considerando que sao representatives do conjunto de dis-cursos possfveis associado as mesmas condiQoes: mostraremosmais adiante que existem meios formais que permitem decidir,para um valor dado de n, se o corpus assim constitufdo € sufi-cientemente sistemdtico, ou nao, para ser representative da es-trutura do Ax procurado. Digamos simplesmente, no momento,que temos como defmido um corpus de dimensao n tal que aprobabilidade de poder constituir, a partir dos elementos dessecorpus, uma superffcie "S)xp, exterior ao corpus e pertencente aoconjunto dos discursos possfveis representatives de Ax sejasuperior a um valor previamente fixado. Vemos assim que o problema consiste em analisar toda su-perffcie 1)xi dada em elementos mfnimos Hgados entre si segun-do as leis prdprias a AK. 107
  • 56. O que foi exposto no capftulo precedente supoe que defi- nimos dois nfveis de analise: Chamamos frases a parte de um discurso limitada por duas 1. O nfvel de andlise dos enunciados no 2), ligados entre marcas de parada consecutivas — ou por um branco e uma mar-si por relagoes funcionais caracteristicas do Ax considerado; ca de parada, no caso da primeira frase. 2. O nfvel de analise dos lexemas no enunciado, ligadosentre si por leis de combinagao/comutagao caracterfsticas do Ax considerado. Chamamos proposicdo a parte de uma frase que comporta Ora, 6 claro que esta dupla analise s6 pode funcionar sob a apenas um verbo no modo pessoal.condic.ao de uma dupla hipdtese sobre o objeto lingutstico emgeral, qualquer que seja o ^x considerado, a saber: Chamamos proposicdo reduzida uma proposic.ao que nao 1. toda seqiiencia lingiifstica € constitufda por um con- pode ser dissociada em duas ou mais proposicoes por uma trans-junto estruturado de enunciados em relagao, discernfveis a partir formac.ao de tipo Tj (1).das leis lingufsticas gerais; 2. todo enunciado lingiifstico 6 composto de lexemas quemantem entre si relagoes morfossintdticas universalmente neces- Chamamos enunciado uma proposigao tal que nao possa-saYias que derivam de uma teoria gramatical do enunciado. mos mais obter dela enunciados que Ihe sejam adjuntos, por uma Tudo se passa pois como se tive"ssemos de colocar primei- das transformagoes do tipo T2-31ramente propriedades invariantes em relagao a variedade dosprocesses de produgao, propriedades que podem servir de qua-dro de referencia as variagoes que queremos por em evidSncia. Todo enunciado pode ser registrado sob a forma de umFalaremos pois, antes de tudo, das conseqiiencias que a existen- conjunto ordenado, de dimensdo fixa, cujos elementos sao sig-cia desta invariante acarreta com respeito ao registro da superff- nos lingufsticos que pertencem a classes morfossintaticas defini-cie discursiva, considerado como etapa preparatdria indispensa- das.32vel a analise de discurso. Nao pretendemos fornecer aqui muito mais do que um es-bogo desse processo de registro, sabendo bem que estamos dei- Existe um enunciado vazio E0 que representa um brancoxando ao lingiiista um grande ndmero de decisoes que nao po- semslntico tal quedemos fazer em seu lugar. E somente a diregdo geral que que-remos indicar e defender aqui na medida em que ela condicionaa segunda fase da analise, que 6, do ponto de vista do estudo doprocesso discursive, o verdadeiro motivo. sendo Ej, o enunciado inicial do discurso e i£ o operadorLista de postulados de hip6teses concernentes ao sistema de de- de abertura do discurso.pendencias de um discurso.^ 8 Dado um enunciado qualquer E;, diferente de E^, existe ao Chamamos discurso uma seqiiencia lingufstica limitada por menos um enunciado Ej tal quedois brancos semdnticos e que corresponde a condigoes de pro-dugao discursivas definidas. 108 109
  • 57. Ej ^ E; € uma relagao binaYia na qual E; estd diretamente r 11dominado por Ej por meio do operador _i. Inversamente, um O conjunto nao-ordenado dos elementos (relagoes binaiias)enunciado qualquer E; pode dominar m enunciados, com m &0. de uma pilha de tipo S3 (seja $ esse conjunto) contem suficien- tes informacoes para reconstituir a pilha inicial, de forma que se pode considerar o conjunto $ como representative da estrutura A relagao de dependencia entre dois enunciados Ej e do discurso registrado.E: pode marcar:• a adjungao de E; a Ej, seja 12 Toda estrutura S3 pode ser transcrita por uma superposi- gao de estruturas Sl> isto 6, de concatenates puras. E-. F —*- ^j *-> _^L E- O registro da estrutura do enunciado• a coordenagao ou a subordinagdoy indicada — seja pela marca de parada, com ou sem sintagma quequalifique a marca, com ou sem efeito de andfora; At£ agora tratamos do registro das dependencias funcio- nais prdprias a uma estrutura discursiva dada, mostrando que — seja por um termo ou sintagma que subordina. podfamos representd-las por um conjunto de relacoes binaiias da Convencionaremos, entao, escrever a relacao sob a forma forma Ej ^n Ej, onde ¥n 6 um operador de dependSncia (Bj ou e 82, (pl» —» <Pn)» Ei enunciados que tem um conteudo defini- do: ficam agora por determinar as modalidades de registro deste conteudo.Observagdo. O registro da relacao de dependencia se baseia em A estrutura elementar do enunciado j£ foi exposta,33 oufndices presentes na superffcie discursiva, em diferentes nfveis(discurso, frase e proposigao): uma classificagao funcional des- seja:ses fndices deve permitir posteriormente a automatizacao do re-gistro da dependencia. * +SN2 10 A estrutura de um discurso pode ser representada por uma PI + SN;"pilha" de relacoes binarias da forma p2 + SN3 Tornemos precise este esquema: em um "Ensaio de classificagaocom das categorias verbais",34 Jakobson escreve: "Tendo em vista a classificacao das categorias verbais, devemos observar duas dis- tin56es de base:6 sempre possfvel dar ao registro a forma 83 (que comporta 1. 6 precise distinguir entre a enunciagao ela mesma (a) econcatenagoes, expansoes e saturacoes). seu objeto, a mate*ria enunciada (e). 110 Ill
  • 58. 2. E precise distinguir em seguida entre o ato ou o proces- | Waterloo, morna plamcieso ele mesmo (C) e um dos seus protagonistas (T) qualquer, "a- Waterloo + & ••- * + planfciegente" ou "paciente". Conseqiientemente, quatro rubricas de-vem ser distinguidas: planicie + e + -t- morna — um acontecimento contado (narrated event) ou processo Decorre daf que nao pretendemos colocar como *univer- do enunciado (Ce), sais" lingufsticos esses diversos constituintes: nosso dnico fim € - um ato de discurso ou processo de enunciagao (Ca), aqui o de mostrar a possibilidade de registro dofrances. — um protagonista do processo do enunciado (T6), Resulta do que precede que empregaremos o termo "sin- tagma nominal" para designar especificamente SN^, SN2, SN*2 — um protagonista do processo de enunciagao (Ta); desti- e SN3 e que o termo SV "sintagma verbal" nao designa o pre- nador ou destinatario." dicado de SNj mas somente o que, no predicado, € exterior ao sintagma nominal objeto e a sua eventual preposicao introduto- Os protagonistas do processo de enuncia$ao correspondema A e B na estrutura das condigoes de producao Fx ,35 e es-tao, enquanto tais, fora do presente esquema, ainda que possamaf estar representados (isto e" importante frente as questoes de 1. O sintagma nominalaspecto e de modalidade): de qualquer maneira, supoe-se que ascondicoes de enunciagao sejam, como se sabe, fixas. O sintagma nominal sujeito comporta necessariamente um O protagonista "agente" do enunciado € representado no nome ("comum" ou "prdprio"), ou um termo que o representa.esquema por SNj ou sintagma nominal sujeito, Consideraremos No caso de ser o sintagma nominal objeto do tipo SN2, o nomeSNj um constituinte indispensaVel de qualquer enunciado — o pode ser, por outro lado, substitufdo por um adjetivo atributo docaso dos enunciados "meteoroldgicos" (cita-se sempre "chove", SNj correspondente."neva" etc.) € marginal demais para por esta regra em ques- O termo que toma o lugar do nome se relaciona a ele portao.36 um fenomeno de ana"fora, que pode ser externo^-^: O protagonista "paciente" do enunciado est£ representado || Eu declare aberta a sessaopor SN2, SN*2, SN3 e 0: em outros termos, o sintagma nominal (o produtor do enunciado, isto 6, o protagonista agente da enun-objeto pode tomar vaYias formas, af incluindo-se aquela da au- ciacao, 6 o presidente da sessao, Eu = o presidente x),sencia pura e simples. Acrescentaremos, por outro lado, que Ou interno:o adjetivo como atributo do sujeito pode ser registrado no lugarde SN2, o que implica que, se toda forma suscetfvel de ser ins-crita no lugar SNj pode tambem se-lo no lugar de SN2, SN2, EtcSN3, o inverse nao 6 verdadeiro. O expresso en trando na esiaijao (= o expresso) estava no horSrio. Este SV representa, enfim, o "processo do enunciado", do qua!diremos que ele pode sempre ser restabelecido quando nao esti-ver explicitamente presente: em particular, a aposigao sera" sis- Vemos assim que os pronomes e outros termos que "ficamtematicamente transformada em predicagao e registrada como no lugar de" remetem, segundo o caso, a enunciagao ou a umtal: anterior, sendo que sua enunciacao serve de caugao 112 113
  • 59. para a introducao em urn enunciado posterior, desses "signos // Um cao se pos a latir.vazios", nao-referenciais em relacao a "realidade", sempre dis-ponfveis e que se tornam "cheios" desde que urn locutor os as- • a "classe" N seja varrida por Dsume em cada instancia de seu discurso. Desprovidos de refe- // Nenhum cao deixou o canil hoje.rencias materials, nao podem ser mal-empregados, por nao afir- // Todos os caes devem estar na correia.marem nada, nao estao submetidos a condicao de verdade e es- • a "classe" W seja considerada como o (ndice de umcapam a qualquer denegagao. Seu papel € o de fornecer o ins- conceitotrumento de uma conversao, a qual podemos chamar a conversaoda linguagem em discurso (Benveniste, op. cit., p. 254). I! Durante anos ele levou uma vida de cao. Observemos a esse respeito que a analise formal do mor- Por outro lado, o nome aparece geralmente acompanhado fema que representa D nem sempre 6 suficiente para identificarde uma marca de determinacao^^ — ausente no caso do nome o modo de determinagao (por exemplo,"um cao 6 sempre fiel"prdprio e no da maior parte das anaforas, ¥=• *um cao se pos a latir") e que 6 precise considerar as marcas Chamaremos Dj e D2 essas marcas, conforme sua associa- atribufdas anteriormente ao mesmo N segundo a ordem de su-c,ao com o nome constitua o sintagma sujeito ou o sintagma ob- perficie para deduzir o modo de deterniinac.ao que representa taljeto, ou seja: morfema ("o", "um" etc.) em um ponto dado da superffcie: isto supoe que o linguista possa estabelecer o sistema de regras que permite (idealmente) chegar, nesse caso, a uma soluc.ao unica. i _> Dl + E de se notar igualmente que o lugar da marca D pode es- SN, tar vazio, por exemplo no caso do nomeprdprio ou do adjetivo. Ha" de se convir, por outro lado, que este lugar est£ sempe vazio D no caso da retomada do nome em uma adjuncao. SN3 _ D2 + N3 Exemplo: // O gabinete da zeladora da para o patio. Podemos, por outro lado, decompor a marca D em umfeixe ser5 registrado:de dimensoes, a saber: a. O numero (singular/plural); Ej = (o + gabinete) + di + para + (o + pdtio) b. O modo de determinac.ao de N, conforme: £2 = ( <£ + gabinete) + e + de + (a + zeladora) • a classe N seja visada com // O cao € um animal fiel • um elemento particular da classe N seja apontado pela marca D que desempenha entao o papel de flecha desig- EI 8 £2- nadora. // Este cao 6 bravo. c. Enfim, o genera (oposi$ao o/a) 6 quase sempre redun // Teu cao est£ doente. dante em rela§ao ao lexema nominal. No entanto, as vezes • um elemento particular seja extrafdo da "classe" N possfvel dar conta dessa dimensao. Por exemplo: sent qualquer outra indicacao. o zelador/ a zeladora 114 115
  • 60. nil! 2. O sintagma verbal "A pessoa", escreve Jakobson,39 "caracteriza os protago- nistas do processo do enunciado relativamente aos protagonistas O sintagma verbal pode ser considerado como o lexema do processo da enunciado. Assim, a primeira pessoa indica a verbal mais uma serie de determinacoes combinadas entre si. identidade de um dos protagonistas do enunciado com o agente Seja, por exemplo, a frase: do processo da enunciagao, e a segunda pessoa sua identidade com o paciente atual ou potencial do processo de enunciac.ao". // Nao teria sido deliberadamente envenenado? Sabemos que, conta feita das regras de registro do sin- Temos: tagma nominal, os protagonistas da enunciagao sao registrados envenenar: lexema verbal quando os protagonistas do enunciado os designam:40 a marca da pessoa, integrada a forma do verbo, 6 assim sempre redun- deliberadamente: modulagao adverbial do lexema dante em relagao ao registro do sujeito desse verbo; ela nao sera" teria: marca de suposicao pois registrada. sido: marca do passado passive c. O estatuto define a "quantidade logica do processo"; nao: marca da negacdo. distinguiremos os estatutos afirmativo, negative, interrogative e a. O adv&rbio € um elemento relativamente livre em rela- interrogativo-negativo: observemos que 6 possfvel representar gao ao resto do sintagma: de um lado, o lugar do adveibio pode o estatuto pelo registro combinado de um valor na oposigdo as- permanecer vazio; de outro, ele pode se deslocar na superffcie a sercdo/interrogacdo e de uma modalizacdo deste valor (nao, ponto de, em certos casos, poder controlar a totalidade do enun- jamais, talvez, sempre etc.; 0 representa aqui a assergao ou in- terrogagao nao-modulada). ciado e ligd-lo a um enunciado precedente - o problema e, pois, a este respeito, o de saber se um adverbio dado funciona como d. O tempo modulagao do verbo (uma espe"cie de "adjetivo" do verbo: "de- "O tempo caracteriza o processo do enunciado relativa- liberadamente envenenado" —*• "envenenamento deliberado") mente ao processo da enunciagao. E assim que o preterite nos ou como uma qitalificacdo de um operador de dependencia do informa que o processo do enunciado 6 anterior ao processo da tipo .4. = [(•) + adve"rbio] por exemplo, no caso em que o enunciac.ao".41 adverbio marca a ordem. de dependencia entre dois processes de e. A voz enunciado, especificando esta ordem como "simultaneidade, anterioridade, interrupgao, conexao concessiva etc."38 1251 "A voz caracteriza a relagao que liga o processo do enun- ciado a seu protagonista, sem referencia ao processo do enun- Seja, por exemplo, a sequencia: ciado ou ao locutor".42 O ciclista rodava prudentemente. Subitamente, um carro f. O modo desembocou pela esquerda e o atropelou. "O modo caracteriza a relagao entre o processo do enun- Vemos que: ciado e seus protagonistas corn referdncia aos protagonistas do prudentemente = modulagao adverbial de rodava processo de enunciagao".43 subitamente = qualificagao da marca de parada (.) de for- Os pontos d, e, f, necessitam, por parte do linguists, de ma que o operador entre as duas frases € tpx =[(.) + stibito] uma elaboragao que indique os diferentes valores possfveis de As outras detenninacoes sao, ao contraVio, todas mais ou menos cada marca e as combinagoes que a Ifngua tolera. integradas a forma do verbo: Nds completaremos esta lista com as marcas da modalida- b. Apessoa de e da enfase. 116 117
  • 61. g. A modalidade fS) uma Snfase sobre o sujeito Sabemos que a logica modal introduziu signos especfficos HE Joao que come magasque exprimem modalidades do possfvel e do necessdrio na pro- HE um aviao que caiposicao Idgica. Fazendo uso de uma analogia, diremos que asproposic.6es do tipo -y) uma enfase sobre o objeto |Eu posso vir amanha 11 Sao macas que Joao come ||Eu devo escrever uma carta 5) uma enfase sobre o enunciado globalcorrespondem a IIE que Joao come mac, as jlEu venho amanha + modalidade do possfvel IIE que um aviao cai ||Eu escrevo uma carta + modalidade do necessdrio Nao propusemos aqui senao o esbo^o do quadro das mar- cas cuja combinagao de cada uma dd uma forma ao enuncia- Os termos "possfvel" e "necessdrio" remetem, bem enten- do: indiquemos simplesmente que chamaremos "forma do enun-dido, a modalidades lingufsticas, e nao 16gicas, do enunciado. ciado"(Fi) o vetor constitufdo pelo conjunto ordenado de valo- Observemos que a transformagao T^2*] que consiste em res que toma cada marca para o enunciado considerado, ou seja:restabelecer as proposigoes latentes na seqiiencia, por exemplo: Fi = <£v (estatuto); v (tempo); v (voz); v (modo); v (mo- IfEle Ihe disse para vir dalidade); v (enfase) J> —»- ||Ele Ihe disse (que) viesse A palavra assim formada 6 analiticamente decomponfvelnao se aplica aqui: Notar-se-a" que no caso de modalidades do em fungao do quadro das marcas.possfvel e do necessdrio, o sujeito (subentendido) do verbo no Nessas condigoes, a estrutura do enunciado se tornainfinitivo 6 sempre o mesmo que o sujeito (expresso) do verboportador da modalidade, o que diferencia "poder" e "dever"dos verbos do tipo "querer" que autorizam a construgao V ADV Ft p |jEu quero que voces...e a prop<5sito dos quais 6 legftimo aplicar Tj, a saber: Ora, pudemos constatar, segundo o que precede, que a |Eu quero partir forma do enunciado (Fi) pode exercer uma determinac.ao sobre —> | Eu quero (que) eu parta. todos os elementos do enunciado, e nao somente sobre seu sin- tagma verbal. Se for conveniente chamar "lexis" o conjunto ca- h. A enfase nonicamente ordenado desses elementos, diremos que um enun- Existem, enfim, contomos estilfsticos que permitem colo- ciado resulta da aplicagao de uma forma do enunciado sobrecar em relevo uma parte do enunciado ou o enunciado inteiro, uma lexis dada, ou sejaem geral com a ajuda de expressoes do tipo "6 o/um... que/oqual". Proporemos £ a = fF ((1 ) . T , JV,, K, ADV, p, Z 2, JVa/s) a) um grau zero da enfase Um enunciado pode, pois, finalmente ser registrado como 11 Joao come macas um conjunto ordenado de oito termos, sendo que cada um deles ilUm aviao cai corresponde a uma categoria morfossintdtica determnada- 118 119
  • 62. 3. As transformagoes do enunciado Observemos que 7j a combina seus efeitos com os de Tj e Seja, por exemplo, a frase || A cortina cai no fim do espeta"culo. Lembremos que colocamos, anteriormente, dois tipos de Temos, pela aplicagao de 7*2 (liberagao das jungoes)transformagao: || A cortina cai no fim 82 ft™ e do espeta"culo. , 1. Transformagoes do tipo Tj Ora, por meio da transformagao Tj a do enunciado, obt6m- ||Ele pede para voce vir se —> ||Ele pede a voce ((pn= que) voce venha || fim e do espeta"culo —^ o espetficulo acabou de onde a possibilidade de se construir 2. Transformagoes do tipo 72 || A cortina cai (quando) o espeta"culo acaba || O caozinho dorme perto do fogo o que representa a liberagao de uma proposigao latente na pro- __». j| O cao dorme perto do fogo Sj cao E # pequeno. posigao inicial, por um efeito que podemos assim remeter a uma A essas transformagoes que dissociam as proposigoes transformagao Tf que faz corresponderacrescentaremos agora urn terceiro grupo (ou seja, T$) que de-signa as transformagoes que incidem sobre o proprio enuncia- a (=px) + complementodo, citemos entre elas: quando (=pn) + enunciado que resulta da transformagao - Tyi: nominalizacdo T$ a do complemento. Esta observagao s6 tern valor indicativo: pensamos que e possfvel chegar, explorando sistematicamente esta diregao, a re- For exemplo gistros paralelos de uma mesma superffcie, multiplicando assim || Pedro parte de carro as possibilidades de relagoes entre as superffcies discursivas deque serd indicado como um mesmo A .45 |j Partida E de Pedro + Partida e de carroe || A terra gira 4. Regularizagao do registroque sera" escrita como || A rotagao e da terra Nosso objetivo 6, sabe-se, multiplicar as possibilidades deou co-ocorrdncia de uma superffcie a outra. Para isto, tomaremos as II A rotagao e * terrestre. seguintes decisoes. —Tj b: ativo-passivo. 1. Todas as transformagoes T$b, puramente internas ao Por exemplo enunciado, serao efetuadas sistematicamente em Um s6 sentido || O menino olha a vitrine de maneira a reduzir as distancias morfoldgicas entre os enun- —HI A vitrine 6 olhada pelo menino. ciados. 120 121
  • 63. 2. No caso da nominalizagao (7j«) vimos acima que esta do-se que esse procedimento repousa sobre pressupostos tedri-transforrnac.ao colocava em causa o conteudo dos enunciados vi- cos que exigem precisamente ser explicitados e criticados pelozinhos e a natureza dos operadores de dependeneia. Geraremos, lingtiista.pois, sistematicamente as diferentes solucoes possfveis em fun- O ponto essencial concerne, a nosso ver, a questao de sa-c.ao de Tja e registraremos as dependencias que correspondem a ber se e* Ifcito representar uma sequ^ncia por meio de um gra^lcocada uma delas. Por exemplo: que liga enunciados elementares de composigao fixa, do tipo da lexis. O professor afirma que a ciencia demonstra Corpus «x correspondente As condijdea [ a rotagao terrestre j de produ$5o f x do discureo x EI = o professor afirma 0 <f> £2 = A ciencia demonstra * a rotagao Pesquisa das marcaa de parada, eventualmente qualUicadas, que delimitam a frase £3 = 3 rotacao E * terrestre Tja aplicada a £3 da" operadores [(.) + adv.J = <pn £4 = 3 rotac.ao E da terra Tja aplicada a £4 da" AnStise da fraae em proposifdes, isto 6, uma seqfiflncia que contem s6 um verbo no mode pessoal £5 = 3 terra gira 0 0 operadores <pn de subordina^o — coordenagao O resultado de 7j sobre £2 e" E g ^ a ciencia demonstra 0 0 de onde Libera^ao das "proposisoes latenles" na proposi^ao de sentido precedente por meio da transfonnasao Tj: EI 92 E2 •proposiySo reduzidd" £2 92 E3 operadores vn de subordinasao - coordena9§o E E 2 V2 4 EI (P2 E6 Libera?fio do ematciado central e dos enunctados- jungdes na propoBigfio reduzida, por meio da tnuisfonnasao -p. E E = ue 6 ^2 5 com 92 ^ operadores 61,82 Por esta via, o conteddo do discurso registrado 6 regulari-zado de tal maneira que as diferengas que se devem a variagao Registro das dependencias,das constntfoes sintdticas, sem variacdo semdntica, se encon- saturacdestram, sempre que possfvel, eliminadas. Em resume, o processo de registro tern a forma indicadaabaixo. Vamos repetir ainda uma vez que a automatizagao desseprocesso exige um longo trabalho lingiifstico no curso do qualmuitos pontos ja" adiantados por nos serao recolocados em Registro dos Conjunto de rela^oes binanas enunciados (temos *•{&!«. 6J.com *i-£i^£jquestao: para nds o essencial era especificar aqui os requisitos entfiolingiifsticos indispensaveis a andlise. Em outros termos, propu-semos um procedimento e nao uma teoria da Ifngua, entenden- 122 123
  • 64. . A analise automdtica do material registrado postas por &. Por exemplo, a selegao-combinagao efetuada com base nas palavras "propriedade" e "roubo" nao € a mesma nas duas sequencias Seja um corpus Cx de discurso Dxj... Dj^ correspondentea condigoes Fx estaVeis, definidas por crit£rios externos, de IIO roubo 6 um atentado a propriedade particular;tipo socioldgico (situacao e posicdo do emissor, pap&is coloca-dos em jogo etc.)-46 || A propriedade 6 um roubo J2?] O corpus GX foi transformado pelo registro em um con-junto Consideraremos que as coer$6es sintdticas sao estdveis na Ifngua (os efeitos de ordem, de dnfase etc. nao sao considerados como sintaticos) e que, consequentemente, a especificidade das coergoes combinat6rias sobre os componentes dos enunciados com assim como a do mecanismo de aplica^ao "9 ( .; x ;, ) represen- tam a dist&ncia do discurso em relagao a Ifngua, isto e a das condigoes de produ?ao do discurso, ou seja, com ^X = {E^E1,E2, ... Ea} Para colocar em eviddncia Ax. procuraremos definir os 47 De acordo com nossas hipdteses anteriores, colocaremos "pontos de ancoragem" no corpus — que chamaremos os "domf-a existencia de dois mecanismos: nios semSnticos" — assim como as relagoes de dependencia entre esses domihios. a) uma selecao-combinagao (S-C) efetuada sobre a Ifngua eque produz o conjunto de enunciados: Diremos48 que dois enunciados Ej e Ej tern a mesma inter- pretagao semantica se (S-C), (JSP) = S» ; a) Ej e E; estao paradigmaticamente prdximos um do outro; b) E[ e E; estao ligados por dependencias funcionais iden- b) uma aplicac.ao "9 do conjunto dos enunciados sobre si ticas a dois outros enunciados E^ e EUJ, paradigmaticamentemesmo: prdximos um do outro. Isto supoe que possamos definir: Observemos, a propdsito do mecanismo S-Cique certas — Um programa de comparagao paradigm^tica dos enun-coerc.6es sao impostas pela propria Ifngua & -por exemplo, a ciados;necessidade de se selecionar um complemento de objeto para — Um programa de formacao dos domfnios semSnticos,combinfi-lo com um verbo transitive: essas coercoes sao, pois, pelo estabelecimento de relacoes entre os enunciados por meioexternas a S-C. S-C representa aqui as coercoes que nao sao im- dos operadores de dependencia ^n. 124 125
  • 65. A) Andlise paradigrruitica dos enunciados Seja agora uma relacao R entre os elementos de £ x £ definida por1. Particao de ^ em categorias (Et, Ej)R(Ep, E,) o »(£„ £••) = TT(£P, £,) /? 6 uma relacao de equivalencia porque Sejam dois enunciados Ej e E; que pertencem a £.,.. Sa- (1) (Et, Ej)R(Et, Ej) (reflexividade)bemos que Ej e E; compoem-se cada um deles de uma seqiiencia (2) (Eit Ej)R(Ep, Eq) o (Ep, Eq)R(Ei} Ej) (comutatividade)de termos ordenados segundo as classes morfossintaticas, seja (3) [(£(, Ej)R(Ep, Eq)} A [(Ep, E^R(EU, £„)] -> (£(, £,)J?(£U! £p)por exemplo: (transit! vidade). Fi D! NX V ADV PP D2 N2/3 £ x£ Chamaremos G j o conjunto dos elementos de —B— E i = a b c d e f g h Notemos, enfim, que se pode efetuar uma particao de GJ: seja, E j = a b c d j f km com efeito, uma categoria G[ tal que: G, = {(£*£,); (£;.£0; (£„,£„); (£n,£p); (£t,£fl)} Associemos um numero binaYio TT ao par (Ej, E;) tomandocomo convengao que Pica claro que se pode escrever Dois termos identicos na mesma classe morfossintatica se traduzem pela cifra 1 em IT, no lugar correspondente, e 0^(0} G*) dois termos diferentes, pela cifra 0. com Por exemplo, obtemos aqui G/ = {£„£,, Ek,Ea} (E,. £;) = I I I 1 0 1 0 0Vemos que 6 possfvel classificar cada um dos n (n - l)/2 pares Os enunciados contidos em G sao tais que conservam fixasformados a partir de n elementos de £ v segundo seu "nome" ao menos todas as classes morfossintaticas correspondentes a 1bin&io, representando a categoria — seja Gj — a qual cada par no" IT associado a Gj. Certamente pode acontecer que o grupopertence. (E:, Ejj), por exemplo, nao esteja contido em Gj, mas em uma Seja, pois, um conjunto ?>x de enunciados Ej tais que categoria G; que conserva as mesmas classes que Gj mats outras F. - v 1 A; 2 i.j — - V f . v , .... * .1,-, .... T j -V 8 • classes; por exemplo Vamos definir a aplicacao de £ x £ em 2^, onde "2" £, = a b c ddesigna o conjunto 0,1: E; = a b m k V (£;, Ej) € £ X £ -+ TT < ttl, a,, ..., at, „., <xs > € 28 £t = a b m htal que V k, 1 ^ A- ^ 8 : temos (£„ Ej) = 1 i 0 0 (£„ £t) = I 1 0 0 ; xj ^ xkj) ~* cck = 0 mas (Ej, £,) = 1 1 1 0 . Observemos que ir(Elt £}) = ir(EJt £ 126 127
  • 66. De onde a anglise das proximidades paradigmaticas (Alg. 2. Valor da proximidade paradigm^tica1) dada no quadro seguinte: Em fungao do que precede, poder-se-ia ordenar as catego- rias Gj em fungao do ntfmero de classes morfossintdticas manti- das no par (Ej, Ep, ntimero que seria uma estimativa da proxi- midade. Entretanto, 6 importante administrar a possibilidade de atribuir valores diferentes as diferentes classes: por exemplo, pode-se, com razao, fazer a hip6tese de que a conserva§ao de NI e de V entre Ej e Ej Ihes assegura uma proximidade para- £.i _ vl -y-2 V 3tt ..., vAt, ..., V Bf r> — Xi, Xi, X fc X digmdtica superior a conservagao de Dj e D2- ___ -.1 ^.2 .,3 k v ** v Consideraremos, pois, coeficientes pj, p2, -..,pg tais que j — Xjt AJ, Aj, ..., -A.j ..... Aj < 0£2, y, com = 0 ou 1. =x O valor desses coeficientes pode, alitis, ser fixado seja de uma vez por todas pelo lingiiista, ou, ao contrdrio, colocado co- mo uma fungao de uma varidvel — por exemplo a forma do enunciado — caso em que terfamos: ou mesmo pk=f(aja}} Podemos, por outro lado, objetivar a modifica§ao do valor de p% em fungao da natureza de oj/o,- . Se, por exemplo, a? = af = <£ (#2/3 vazio), nao associarfamos a essa ocor- rSncia o mesmo peso que se a] = a* com a° nao-vazio. Quaisquer que sejam as decisoes posteriores sobre esse ponto, vemos que cada particao de Gj - seja G" - pode ser afetada por um "peso" p que traduz o valor da relagao paradigmaticaAlg. L AruS&se das proximidades paradigmdticas entre o par de enunciados considerados.49 128 129
  • 67. 3. Calculo da proximidade de dois enunciados no conjunto £., Consideremos dois enunciados Ej e Ej pertencentes a um (E,, £j) e G"t e /•(£, Ej)=piconjunto E^. Nos acabamos de mostrar como se pode atribuirum valor p a sua relagao paradigmdtica; este valor resulta dacomparac.ao e Ej e Ej, obstrofoo feita dos outros enunciados de£T- Ora, o fato de que exista, ou nao, um ou varies enunciados ede fijr que sejarn intermediaries entre Ej e E; influi sobre sua ss^f e, *- o» ao;, E* e fa proximidade em 6^. X Seja, por exemplo, SIM 1 Ej = o coronel seduziu a marquesa 3f ci *= wG* •"•*> F e m Ej = o oficial agradou & marquesa e ? Se existe um enunciado Ej^ = o coronel agradou a marquesa / )a possibilidade da substitui^ao paradigmdtica entre os compo- 1nentes de Ej e Ej encontra-se aumentada. /-(£•;,£,) = ^ (emGD Definiremos, pois, um programa, seja Alg. 2, que permitadeterminar sistematicamente os enunciados intermediaries entredois enunciados dados, e deduzir o valor resultante, seja P, daproximidade paradigmdtica que caracteriza seu par no interior ^2 + P.< ^ r,.do conjunto £r. 2 !l / ) p(E,, fiJ = p2 MEM6RIA p(Et, E}) = p, +P3 > ^ Ciknlar o v*lor wperior de P • pvtii do Pt Biitem* de deiiguildade* nglmdo at memdrla. Subttitnlr pi p*t* que e«c valor KJR PfEi, Ep. Se • memdrU for vtzJa. regfs- imTP - pj. Alg. 2. Anrffae d« proximidade paradigmdtica de (Ef, Ej) retacioMda ao conjunto Kx- 130 131
  • 68. B) Constituigao dos domtnios semdnficos e andlise de suas de- Engendremos g classes diferentes correspondentes aos & pendencias operadores de dependencia _y que tern uma fungao diferente em px (supoe-se que o registro tenha regularizado os casos de 1. Andlise das similitudes equi Valencia entre dois operadores W de morfologia diferentes que tern mesma fungao). Sejam dois enunciados Ej e Ej pertencentes a Seja px: £, 5, E2 — Se existem em px duas relagoes binarias E ?i *Ps s Eg $1 &6 j -* . E+ <pa E5 £, P, E-, - e se o valor das proximidades paradigmaticas entre Ej e E, ^ £„ E:, de um lado, E^j e E^, de outro, 6 superior a um li- mite dado p ft , dir-se-£ que Ei px toma entao a forma seguinte constitui-se uma zona de similitude, eventualmente suscetfvel de se prolongar por concatenacao: «i S2 9. * 9s A, E2 E2, E3 £ 4> F, ^5 *» ** EI, Es seja Es, E6 E^> E8 Es, E7 • • se Convencionaremos chamar G(t/ij) o conjunto de enunciados co- E.J*Et locados a esquerda na classe t/i,-, e D(^:) o conjunto de enuncia- dos colocados a direita. responde as mesmas exigSncias precedentes. Chamaremos ca- Por exemplo deia de similitude uma concatenate de zonas de similitude. € G(S2) 7 a) Formacao das ^-classes Seja um conjunto px formado de n relagoes binarias do ti- b) Formasao das cadeias de similitude po EJ 9^ EUJ, com Seja a ^"-classe ^n. Suponhamos que ela contenha Ej e Ej* tais que 133 132ILhil
  • 69. Resulta dai que esta mesma classe compreende Chamaremos esta operagao "anulagao da diferenga repeti-tais que Observagao 2 Podemos reiterar a operac.ao que acaba de ser efetuada, com a condigao de que exista uma *P -classe ^p tal que Seja PI o valor da proximidade paradigmatica de Ej e Ejrelacionada ao conjunto £x : PI = p (Ej, Ej) segundo Alg. 2.Seja da mesma maneira P2 = p (Ek> E^ segundo Alg. 2. Dire-mos que Chamaremos cadeia de similitude o resultado de n reitera- goes da operacao descrita acima. De onde o algoritmo 3. £„constitui uma zona de similitude se sendo fixo. Escolheremos para/?x um valor intermediario, por exemplo,a meia-soma dos valores maximos (cf. anexo HI}. Observagao 1 Se a J Et =ay*b /-(E,. EJ ° p, | j f(Ei. E J - f T Ej = ay * c Ek = bw * k AI B .2 t I A!-2 Em = cw * q(Estamos representando aqui os enunciados por quatro elemen- tos, para simplificar a escrita). Ve-se que a oposicao b/c, presente no par (Ej, Ej) € repetida no par (Efc, E^: para evitar o fato de se levar em conta duas vezes a mesma oposigao, vamos convir escrever b/c — x j e transcrever respectivamente E^ e ^ pelas expressoes Xt W * k Xt w * qdeonde P2=P Alg, 3. Formafdo das cadeias de similitude 134 135
  • 70. 2. Forrnagao dos domfnios com a) Grupo operador Seja uma cadeia C = em que o numero provisoriamente atribufdo que expoe enunciado indica seu lugar no presente cdlculo e nao deve serConvencionaremos colocar na cabeca da expressao Cn a serie confundido com a indicagao dos enunciados em £A.dos operadores, ordenados em funcao de sua aparigao na ca- Formemos e calculemos:deia, seja aqui P(E £3) P(E5, Et P(E1, £4) P(ES, P(E2, £3) P(E6t E7)Chamaremos grupo operador o conjunto ordenado dos operado- , £8)res, colocado na cabega da expressao Cn. Diremos que as duas zonas « (Si)(51- +1) » e « b) Categoria de cadeia sao homogeneas, o que notaremos como jfe Seja C o conjunto das cadeias produzidas por Alg. 3. Epossivel efetuar uma particao de C em fungao do grupo opera-dor das cadeias de C : de onde as n categorias K j , K2, ..-, Kj, se pelo menos uma das expressoes for superior ao limite fixado...., K n correspondentes aos n grupos operadores diferentes con-tidos em C*. c) Homogeneidade de duas cadeias em uma mesma catego-ria: definicao do domfnio semantico Chamaremos domfnio um conjunto de cadeias de umamesma categoria, tal que sejam homogeneas entre si; diremos P(E E4-) + P(£5, Es)que duas cadeias de uma mesma categoria sao homogeneas entresi se for possivel definir uma homogeneidade entre suas zonas P(E2, £3) + P(E6, E1)de similitude respectivas, tomadas sucessivamente. d) Definigao da homogeneidade entre duas zonas de simi-litude P(E £*) Para simplificar a escrita, colocaremos: Cp = (grupo operador Kt) [(St)... (5£), (5i+1)... (5n)] Cq = (grupo operador Kt) [(S{)... (5J)f (5(,) ... (^)J De onde o teste de homogeneidade Alg. 4. 136 137
  • 71. e) Homogeneidade entre duas cadeias de similitude Uma aplicagao recursiva de Alg. 4 a duas cadeias Cn e Cn, pertencentes a uma mesma categoria Kj, permite testar a homogeneidade dessas duas cadeias: pode-se declarf-las homo- ggneas - seja CH J£ €„. - se o teste Alg. 4 for positive para todos os valores de / tornados dois a dois (/ e i + 1), estando i compreendido entre 1 e n. Nao se visou aqui a eventualidade de uma homogeneidade parcial entre Cn e Cn, o que nao significa que nao seremos levados, posteriormente, a tom£-Ia em conside- ragao. Forraagiio de oito expressoes Acrescentemos, enfim, que duas cadeias cujo grupo opera- dor nao difere senao por um operador final de adjungdo — (i/-;, i/r-) e (</»,-, ipj, 5 t ) por exemplo - podem ser homogfineas ainda que nao fagam parte, stricto sensu, de mesma categoria; esta disposigao particular se justifica pelo fato de que a adjun- P(E6, 530 pode desenvolver um enunciado sob forma metonfmica. Seja por exemplo Alg. 2 Cfilculo do valor das expressoes precedences Formate de P() • P(ll); P(11I); fllV) Suponhamos 3P(JV), JV = (1) v (11) v (III) v (IV) (5n+ ), Ex = o presidente expfis a situagao WO > />. )^ =o presidente e daReptfblica SIM ), Ex = o presidente comentou a situacao NAO = STOP Temos aqui um efeito metonfmico entre ^ e EX 8 1 Ey> precisamente entre "o presidente" e "o presidente da Repdbli- ca". O conjunto das regras que precedem € representado noAlg. 4 7e.s7tf fife homogeneidade entre duas zonas de similitude Alg. 5. 138 139
  • 72. Chamaremos domtnio semdntico o conjunto das cadeias de uma mesma categoria (considerada a observaQao anterior sobre as adjungoes) homogeneas entre si. Temos, entao, para uma categoria dada: com K" = Ds (dominio semantico de nome S). Diremos que dois domfnios de uma mesma categoria (se- jam K™ et K" ) sao disjuntos entre si 1) V d € K?, 3 C._, C,_ € tel que C, J6 C ; 2) V Cy € K?, 3 , € tel que Cy JC Ct. Ve-se que um dominio corresponde a um conjunto de se- qiiencias passfveis de serem superpostas. A dimensao de um domfnio corresponde ao numero de lu- gares que possui, seja o produto do nrimero de linhas (as dife- rentes superffcies) pelo das colunas (o numero de enunciados que pertencem a cadeia, ou seja, n + 1 se o grupo operador comporta n operadores). For definicao, duas seqiiencias perten- centes a um mesmo dominio recebem a mesma interpretacao se- SIM m^ntica. 3SnA sj> = i + 2 ? 3. Analise da dependencia entre os domfnios semSnticos SIM NAO a) Dependencia entre dois enunciados Registrar Cn .1CCn na categoriarie /^ Diremos que um enunciado £„ depende de um enunciado IM Ek - o que vamos notar como (Ek ^ En) - se existe uma con- catenacao de dependencies diretas entre Et e En. Seja Ek 9a EI tpp ... y,Alg. 5. Hamogeneidade entre duas cadeias de similitude De onde o Alg. 6. 140 141
  • 73. c) Relagoes entre dois domfnios - Diremos que dois domfnios Dx e Dy te^n origens total- mente comuns se, para toda seqiiencia do domfnio D existe uma sequencia do domfnio Dy que tern a mesma origem, e reciprocamente. Notaremos como Dx Dy. — Diremos que 0 dommio Dx inclui o domfnio Dy se o conjunto das origens das seqii§ncias de Dy 6 uma parte do conjunto das origens de Dx. Notaremos como Dx D Dy. — Diremos que existe uma intersecgao entre os domfnios Dx e Dy se a intersecgao dos conjuntos das origens de suas seqiiencias respectivas nao for vazia, ainda que Dx nao inclua Dy e que Dy nao inclua Dx. Notaremos como Dx fl Dy. — Diremos que um domfnio Dy depende de um domfnio Dx se, sendo vazia a intersecgao dos conjuntos das ori- gens de suas seqiiencias, certas seqiiencias de Dy de-Alg. 6. AndUse da depend&nda entre enundados pendem de certas seque~ncias de Dx, sem que o inverse seja verificado. b) Dependfencia entre dims seqiiencias Esta dependSncia comporta varies graus, que distinguire- Chamaremos origem de uma seqiiencia — seja 0 (Sn) - o mos assim:enunciado colocado a esquerda desta seqiiencia. - se duas seqiiencias Sn e S n > tern a-mesma origem, nota- • se toda seqiiencia de Dx comanda uma seqiiencia de Dy remos como e se toda seqiidncia de Dy depende de uma sequfincia de DX ocsj = 0(5n.) et sn CD stt>. notaremos como Dx=>Dy; • se toda seqiiencia de Dx comanda uma sequSncia de Dy, — se duas seqiiencias tern origens diferentes, diremos que sem que toda seqiiencia de Dy dependa de uma sequSn- Sn depende de Sn (ou que Sn comanda Sn) se a origem cia de Dx de Sn depende da origem de Sn, e notaremos como On —> On*- notaremos como Dr - •••= Z>,. 142 143
  • 74. se existem certas sequencias (mas nao todas) de Dx que comandam sequencias de Dy e se toda sequencia de Dy depende de uma seqiiSncia de Dx, notaremos como I VS. e D* 35* € Dr 0(5.) - 0(5..) VS., e &„ 35. e £>„ 0(5.,} - 0(SJ se existem certas sequencias (mas nao todas) de D x que comandam sequencias de Dy sem que toda seqii£ncia de NAO DV dependa de uma sequencia de Dx notaremos como VS. e D,, 35,. e D^ 0(5.) - 0(5.,} * VS.. e D,, 35. 6 £>„ 0(5.,) - 0(5.) NAO Se para dois dommios Dx e Dy existe ao mesmo tempo sequencias de Dx que comandam sequencias de Dy e 35.60,, 35, €0,, CMS.) - (HSj ? sequencias de Dy que comandam sequencias de Dx no- taremos como — Se, enfim, dois dommios Dx e Dy sao tais que a inter- Alg.6 secgao dos conjuntos das origens de suas sequencias seja vazia e que nenhuma sequencia de Dx comande NAO uma sequencia de Dy e reciprocamente, dir-se-a" que Dx 35. € It,, S. • 5., 6 D, VS, .e D,, 5. e Dy sao disjuntos, e notaremos como - 35.- e D,, iV • 5. e D, D * I D* NAode onde o Alg. 7. SIM NAO D. « D l>, -* fl. Diremos, em funcao do que precede, que o processo de " 1 ViVeO,- 3S. e 0,. S. • 5., •iprodugao Ax de urn discurso 6 representado pela rede de rela- 1cpes que afetam os dommios semanticos previamente colocados 35. e Da S. — 3i.. e B,, 5,< -—> 5. e Dxem evid^ncia. &*- D, Alg. 7. AndSse das relagoes entre domfaias 144 145
  • 75. CONCWSAO PROV2SORIA Perspectives de aplicogao da Andlise Automtftica de Discurso O projeto que acabamos de apresentar 6 incomplete sobvaries aspectos. De um lado, com efeito, deixamos ao sqci(51ogo a respon^sabili3ade de definir, no detalhe,, os iragos que caracterizam es-pecificamente uma condtcao de producao discursiva atrayes dasituagao ejdappsigao dos protagonistas do discurso em uma.es-trutura social dada; deixamos, por outro lado, provisoriamente &parte a questao dos discursos que ndo sao mon<5logosf na medi-da em que a solugao desse problema mostrou ser dependente daresolugao do caso particular ao qual nos limitamos aqui, assina-lamos iguahnente, muitas vezes, o fato de que a elaboracao dasregras do registro da superffcie discursiva exigia um trabalholingiifstico do qual fornecemos aqui apenas o esboco; enfim, ficabem claro que o programa de andlise, tal como apresentamos,por razoes de clareza de exposigao, comporta iniimeras repeti-§6es, que devem ser eliminadas na redacao do programa defini-tivo: aqui, € ao matemdtico que fazemos apelo, para definir asequencia mfnima de algoritmos suscetfveis de executar a andli-se. Por outro lado, e isto engaja diretamente nossa prdpria ati-vidade posterior, estamos conscientes da existdncia de um certondmero de dificuldades que ficam por superar: por exemplo, odispositive atual de andlise dd conta das equivcdencias termo-a-terrno entre duas superffcies discursivas, na medida em 147
  • 76. compara uma jl outra duas concatenagoes paralelas de enuncia- cos intemas atrav^s das quais se manifesta o invariante do dis-dos; mas se se admite a eventualidade de equivalencias semdnti- curso x, que chamamos o processo de producao Ax. Obtemoscas globais, correspondentes a estruturas de dependencia dife- por este meio uma representagao dos efeitos semanticos presen-rentes ap6s a transformagao das superffcies, vemos que este tes em Ax. Mas o que dissemos precedentemente a prop<5sitoproblema permanece em suspenso atualmente. Diremos somente dos "discursos implfcitos" aos quais se refere uma dada superff-que parece possfvel visar uma "re-injecao" dos resultados da cie discursiva nos convida a pensar que as diferencas extemasandlise atual nas superffcies discursivas iniciais, e uma nova entre Ax e um ou vdrios outros processes Ay, J. ... queconfrontacao das concatena9<5es gerais a partir desse novo esta- constituem o exterior especffico de Ax devem igualmente serdo da superffcie: chegarfamos, assim, & ide"ia de um processo re- tornados em consideracao: em outros termos, pensamos que umcorrente, constitufdo de ciclos de andlise tais que os resultados processo se caracteriza nao somente pelos efeitos semanticosobtidos na "saida" do ciclo n constituiria "a entrada" do ciclo n que nele se encontram realizados — o que € dito no discurso x -+ 1. mas tambem pela ausencia de um certo numero de efeitos que estao presentes "al^m", precisamente naquilo que chamamos Se consideramos o resultado atual do programa de analise, o exterior espectfico do A,. Isto supoe que nao podemos defi-vemos que o processo de producao dominante Ax 6 represen- nir a ausencia de um efeito de sentido senao como a ausenciatado por um conjunto de "domfnios" que comportam entre si di- especffica daquilo que estd presente em outro lugar. o "nao-versos tipos de ligagao:50 pensamos que, 6, entao, possfvel re- dito", o implfcito caracterfstico de um J T 6, pois, representa-presentar cada domihio por uma ou viirias proposicdes no senti- do pela distorcao que induz em dx seu confronto com Aytdo logico do termo, do tipo g(x) ou m(x,y) segundo o caso, e de- A;, ... que se tornam assim a causa real das ausencias pro-finir indutivamente as transformagoes com as quais sao afetados prias a Ax. Por exemplo, os "erros", os "esquecimentos"os predicados das variaVeis proposicionais colocadas em jogo prdprios ao discurso de uma ciencia em um estado dado nao saonos processes de produgao: obterfamos, assim, regras 16gicasque defmiriam as coerencias semdnticas e a transformagao des- visfveis senao em relacao ao discurso que vem corrigi-Io.sas coerencias, isto £, o efeito semanlico produzido por Ax. Do mesmo modo, uma figura de estilo s6 existe em relacaoDisporfamos, assim, de um instrumento que permite distinguir os a um processo implicitamente suposto no destinata"rio, e sobre otipos de processes colocados em jogo (a estrutura da narrativa), qual o destinador se apc5ia.sendo distinta, por exemplo, daquela da demonstracdd) e forne- Os modos de insercao da pr^tica da andlise do discurso noscer, por essa via, fatos te6ricos suscetfveis de serem integrados diversos setores da pesquisa supoem um grande niinKro de pro-a uma teoria do discurso enquanto teoria geral da producao dos blemas especfficos que abordaremos aqui. Contentar-nos-emosefeitos de sentido.51 E281 tamb^m a esse respeito em indicar algumas direc.6es, a tftulo de O mdvel dessa empreitada 6 finalmente o de realizar as exemplo.condigoes de uma prdtica de leitura, enquanto detecc,ao sistema*- 3IBUOTECR CENTRALtica dos sintomas representativos dos efeitos de sentido no inte-rior da superffcie discursivat29!. Antes de evocar rapidamente os A) O campo da investigacao socioldgica UFHSusos que se pode esperar de tal pratica, 6 importante tornar pre-cise um dltimo ponto, de importSncia capital para nos; trata-sedo principle desta leitura, que poderfamos chamar "princfpio da Najned^daemque a sociologia se dfi por tarefa interrogardupla diferenga": mostratnos neste trabalho como o confronto a reiacdo entre^asrvlagoes de forga easelaoes de _regulado de superffcies discursivas que derivam de um mesmo prdprias a uma estrutura social^ dada, ela *?"ata o discurso_dp Fx das condigoes de producao permitia esclarecer as diferen- sujeito sdciblSgico como representative da relacao entre suajj- 148 149
  • 77. tuagao (socioeconomica) e sua posigdo (ideoldgica) na estrutu- dominante J., cuja repeticao indeflnida 6 precisamente impos- ra. O que o sujeito diz deve, pois, sempre ser referido as condi- sibilitada por 3)y, goes em que ele diz: .o que e^pertinente nao 6, pois, tanto o O estudo dos processes aos quais uma ciencia faz empre"s- "conteddo" da entrevista que um diretor de empresa da" ao so-_ times, que ela usa como metdforas para compreender e para se ciSlogo, mas a confrontacao desse discurso que ele sustenta em, fazer compreender,52 o do "contexto" de uma obra cientffica — a relacao ao que ele diz efaz em outro lugar, isto 6, em relagao a constelagao dos processes discursivos com os quais ela debate e outros papers discursivos cujos efeitos podem ser apreendidos se debate — aquele enfim da "difusao" dos conhecimentos emenTbutro lugar, MAIS a descricao da praiica efetuada pelo su- um sistema de representagoes pre-cientfficas, colocam uma s^riejeTfcT, como representante de um lugar no campo das praticas, de problemas que o tipo de analise proposto contribuiria, talvez,pelo discurso cientifico da sociologia. para resolver. Em outros termos, o emprego do "princfpio da dupla dife- Lembremos que um imenso trabalho fica por se efetuar renca" deve permitir, ao mesmo tempo, definir o processo dis- antes que essas diversas possibilidades sejam concretamentecursivo dominante e as ausencias especfficas que ele contem, em t realizaVeis. Com efeito, o uso dessas ana"lises est^ subordinado, relacao a outros processes, ao responder a outras condicoes de de fato, a cuitomatiza$do do registro da superffcie discursiva, produgao discursiva. sendo dado o volume do material a tratar: pensamos que nao ha Problemas tais como o do "implicito cultural", o das for- aqui outra saida possfvel, e que em particular toda redugao ar- mas implfcitas e explfcitas do consenso e da diferenciacao, o da bitraria pr6via da superffcie 2),n, por t^cnicas do tipo "resume implicagao da resposta fornecida na questao colocada, talvez codificado", deve ser evitada, pois supde de fato o conheci- pudessem ser esclarecidos por este meio. mento do resultado que se trata precisamente de obter, a saber, a representagao do Ax correspondente a classe de discurso de que 3)^ e extrafdo.B) O campo da historia das ciencias TraduQao: Eni Pulcinelli Orlandi A identiflcagao da "ruptura epistemoldgica" entre umaciencia e o terreno de que ela se separa para se constituir surgiucomo um dos problemas cruciais que a histtSria das ciSncias deveresolver: a analise das condigoes nas quais um novo discursocientffico se instaura, com os meios que ele empresta as cienciasja" existentes ou a representagoes "nao-cientfficas" pode ser des-crita como o relacionamento entre vdrios processes de producaocuja interagao engendra, em certas condigoes, um novo processoque subverte as regras de coerencia que regem o discurso ante-rior. Se 6 verdade que ler um texto cientifico 6 referi-lo aquilode que ele se separa, vemos que a prdtica da analise precisa daevidencia§ao daquilo que, em um texto 2),, produz um descotn-passo — uma diferenga assinal^vel na natureza dos predicados ede suas transformagoes — em relagao a um processo de producao 150 151
  • 78. NOTAS A AAD-69 [ * J MP (Michel Pficheux) tern em vista aqui os me"todos de lexicologia aplicada fundados na estatfstica, que apresentam um grande desenvolvimento na Franca nos anos 60. Posteriormente (ver Mots 4, p. 96), MP vai reinscrever essa crftica no qua- dro da luta contra "o objetivismo quantitativo" dominante da Spoca. A AAD deve- ria, pois, com a referfincia a lingufstica, "deslocar o terreno das questoes do domfnio do quantitativo em diregSo ao domfnio do qualitativo". Mas em Langages 37, a pro- pdsito da constituisSo do corpus, MP admite o interesse de "procedimentos prfivios de decifracjio estatfstica..." para a demarcasao inicial do campo das Uptfteses (p. 28). t 2 1 Para MP, o projeto de uma anAlise automatica do discurso se inscrevia em grande parte no quadro de uma crftica e como alternativa as te*cnicas de analise de contetido, que floresciam, na e"poca, nas ciencias humanas, e que ja" se achavam au- tomatizadas sob a forma dos me"todos de analise documental (Syntol, General Inqui- rer). MP publicou vfirios artigos sobre esse tema: - anterionnente a publicagao de AAD-69: "Analyse de contenu et theorie du dis- cours", Bulletin du CERP 1967, tf 16 (3); - enquanto AAD-69 estava no prelo: "Vers une technique danalyse du discours", Psychologic Jrancaise, 1968,13(1); - em 1973, esse tema estava aindanaordem do diaem "L1 application des concepts de la linguistique & lame"lioration des techniques danalyse de contenu", Eth- nics, n- 3. t ^ 1 Primeira aparigao da palavra"leitura". Apenasnaconclusao(p. I47)6queo projeto da AAD ser£ problematizado sob o tenno leitura. Mas a nojao terd um per- curso central (p.ex. Langages 37, p.8 e segs., Mots 4, p.95...) at6 se tornar constituti- va na forma$5o da RCP ADELA (1982): Analyse de Discours et Lectures d Archi- ves. [ 4 1 Devem-se reconhecer aqui as abordagens semiolt5gicas e semitfticas. E pre- ciso lembrar que, na dpoca, elas Rao abundantes na Franga. Se MP cita Lfivi-Strauss, pensa evidentemente em Barthes (cujos Elementos de senvologia sao publicados em 1964, em Communications 4), talvez em Todorov (cuja tradugao de textos dos For- malistas Russos, que apresentava em particular um texto de Propp, i publicada em 1966 sob o tftulo TMorie de fa Uttlrature). Ver tambem uma reflexao sobre esse as- pectoemMots4. [ ^ 1 Relacionando-a com a questao dos dados e da delimitagao do corpus, MP es- tabelece aqui uma oposigao entre a analise documental (que autoriza, por exemplo, o estudo de textos jurfdicos ou cientfficos em referfincia a uma instituisSo) e a anfilise por ele chamada nao-institiicional, da qual seria proveniente o estudo do mito (e, po- de-se acrescentar, o estudo dos discursos ideoldgicos). Pode-se ver aqui a primeira formulae.ao de uma oposigao que vai tomar, em seus itltimos textos, a forma da dis- tinc,ao entre "universos discursivos logicamente estabilizados" (p.ex. cientfficos) e "universos discursivos nao estabilizados logicamente" (prdprios ao espago so^io- histdrico). Ver DRLAV 27, 1982, p. 19; "Lire Iarehive aujourdhui". Archives et do- cuments, n2 2, SHESL, 1982. As notas que seguem s3o as acrescentadas ao texto original de Michel PScheux pelos autores do artigo Apresentaedo da conjuntura em ling&&tica> &" psicanaUse e em inforrndtica aplicada ao estudo dos textos na Franca, em 1969. 153
  • 79. *• Convem tornar precise: previo a qualquer an&ise documental. A citacao de I I Se essa passagem constitui um avanco na "teoria dos processes discursivos" G.Mounin remete, em Les problems th£oriques de la traduction, ao capftulo 8, con- constata-se que o termo discurso ainda nao recebeu um estatuto tedrico bem nftido sagrado a anSlise documental de J.C.Gardin. Passa-se, aqui, de um emprego tedrico (o discurso como "parte de um mecanismo em funcionamento... proveniente da estrutura de uma ideologia politica") a descri- Para o uso que 6 feito da nocao de teoria regional do significante, ver "Sur la coes em que o termo discurso especificado como polftico tem apenas um valor empf-question du sujet". rico. Seja como for, & precise notar que o fato de se evocarem as condicoes de produ- r o-i 1 Essa passagem remete evidentemente ao conceito de gramaticalidade introdu- cao, a relagao de forgas em que 6 precise situar o discurso, deve ser recolocado emzido pela grama"tica gerativa. MP nao emprega o termo, mas fala de "normalidade do uma conjuntura em que a emergencia de conceitos vindosdomarxismorepresentavaenunciado". Ao fazer isso, muito mais do que colocar a questao da boa formacao uma audacia inetlita com respeito a insdtuicao universitaVia.gramatical do enunciado, ele o situa no terreno da aceitabilidade por um locutor. [ l| T >1 Encontra-se aqui a dnica referencia a Austin e a problem^tica do "performa- *-O retorno a Saussure e o comentario sobre seu exemplo nao contribuem para o es- tive". Trata-se, como se ve, de uma alusao nao-trabalhada (Austin nao aparece,clarecimento do problema, ao se substituir a questao sobre a regularidade combina- ali3s, na bibliografia), A tradugao de Austin surge na Franca em 1970, sob otitulodetdria por uma questao sobre o que pode ser dito em funcao dos conhecimentos cien- Quand dire cest faire. Foi atraves de Benveniste ("A filosofia analftica e a lingua-tificos de uma epoca dada. gem") que os linguistas tomaram conhecimento dos temas da filosofia analftica. UmEssa discussao nao se da" scm adiantar aquela que se passara" nos anos setenta, entre titulo de Slakta em 1974 ("Essai pour Austin", em Langue frangaise n- 2) testemu-semanuctstas e grama"ticos gerativistas (debate conhecido na Franca atraves da tradu- nha a lenndao com a qual os temas dos atos de linguagem penetram no meio lingufs-cao dc Lakoff em 1973), sobre a aceitabilidade de uma frase como "Pedro chamou tico. Quanto aos primeiros escritos de Ducrot, que vao popularizar esses temas, saoMaria dc rcpublicana e ela, por sua vez, o insultou ", em que o uso dc "insultar" im- doperfodo 1965-1970.plica que scja ofensivo chamar algu£m de republicano. i •* Encontra-se aqui, sob forma descritiva, a primeira mencao a sustentagao do " J A referenda a um "mecanismo discursive" provoca a "mudanga de terreno" discurso sobre um discurso previo.evocada mais acima, ao ser proposto um princfpio explicative exterior a Ifngua. A [ 14 1 Toda essa passagem do livro e capital, jd que constitui uma das raras partesquestao vai encontrar sua formulacao quando MP, cm Semantica e discurso: uma cri- "nao-t£cnicas" em que sao apresentadas algumas das premissas tedricas do instru-tica (i aftrmacao do obvio e em Langages 37, opoe base lingiifstica e processes dis- mento.cursivos. Mas ela implica a ideologia, Em 1969, em linguagem filosdfica (oposigao J£ de infcio, trata-se de efettiar uma escolha entre duas famQias de esquemas concer-entre o universal/a universalidadc e o extra-individual/a singularidade individual), nentes a descricao do comportamento (o destaque 6 nosso) lingiifstico. Sob a protecSoMP introduz, sem design^-Ia como tal, a questao da ideologia. Mascaramento? Pro- de uma tal escolha, est£ a nogao de comportamento, nogao central da psicologia, queblema"tica ainda nao resolvida? Nao nos cabe decidir. se encontra ratificada sem qualquer discussao.Pode-se fazer, entretanto, duas observances. A partir do artigo dc Langages 24 sobre O chamado esquema "informacional", sustentado pelo artigo citado de Serge Mos-o corte saussuriano (1971), MP introduz o conceito de formacao discursiva em sua covici e Michel Plon, 6 evidentemente preferido ao esquema "reacional" do tiporelacao com a formacao ideoldgica; paralelamente, a questao do lugar da semantica "estfmulo-resposta". Essa referencia impoe a colocagao de algumas questoes, umana lingufstica, inscrita apenas como filigrana em AAI>69, toma-se central. Assim, a vez que (exceto o fato de que o esquema behaviorista se encontra efetivamente rejei-referencia nao-crftica a proposisao de Jakobson de ver sob "o cddigo global da Ifn- tado) toda a sua ancoragem se da" na psicologia, sendo o artigo e a experiencia que etcgua" um "sistema de subcddigos em comunicacao recfproca" toma lugar em Langa- veicula perfeitamente representatives de uma psicologia social que ignora delibera-ges 24 com uma decisao tedrica que exclui a possibilidade de regrar a questao de damente tanto Freud e Lacan quanto desenvolvimentos contemporaneos, quaisquer"discursos rcalizados a partir de posigoes diferentes", "ligando esses discursos a di- que sejam eles, da lingufstica. versos subsistemas da Ifngua". O esquema que entao se fixa designa os "elementos A e B f como o "destinador" e o( 1" J MP nao da" aqui nenhuma referencia. A questao dos campos semanticos foi "destinatario". A e B sao alternadamente "pontos", "lugares" que "sao representa-notadamente apresentada por G.Mounin (1963; cf. cap, 6 "La structure du lexique et dos nos processes discursivos em que sao postos em jogo". Certo, mas algumas H-la traduction", que, sob essa expressao, redne: "o sprachliche Feld de Jost Trier e nhas mais adiante, o que esta* em questao £ "... o lugar que A e B se atribuem, cadados alemaes, a area of meaning dos autores anglo-saxoes, o campo nocional* de um, a si e ao outro, a imagem que se fazem de seu prdprio lugar e do lugar do outre".Matore", os campos lexicoltfgicos de Guiraud"). Essa nocao esta" presente nas dis- Que estranhos lugares sao esses, que se fazem uma imagem de seu lugar bem comocussoes da Spoca, ilustrando contraditoriamente as possibilidades e os limites da an&- do lugar do outro... lugar!lise estrutural (ver Todorov, Langages 1, 1966). O campo semantico parece abrir Ainda um pouco mais adiante, e nos depanunos com um quadro recapitulativo/expli-uma brecha na homogeneidade estrutural. cativo em que se pode ler que IA (A) signifies "imagem do lugar de A para o sujeitoImportantes trabalhos de lexicologia destinam-se a circunscrever, baseados em do- colocado em A", o que se pode traduzir por "quern sou eo para Ihe falar assim? ,mfnios particulares, as relacdes entre Ifngua e sociedade. A tese de Jean Dubois sobre exatamente uma questao que poderia ser colocada por um "sujeito" da psicologia so-o vocabulaVio de La Commune (1962) constitui o arque"tipo. Toda uma producao cial e que se pode qualificar como sendo, integralmente, da ordem do imaginario,abundante — testemunhada pelos Caftiers de lexicologie e pela revista Langue jran- pelo que se atesta, alias involuntariamente, a total ausfincia de distinsao nesse mesmocaise de ne 2(1969), consagrada ao lexico por Louis Guilbert - forma o htimus sobre quadro entre o "eu" e o "mim" [moi] distribufdos nos exemplos.o qual a ana" Use do discurso (em sua versao AAD de Michel Pficheux ou na versao Pode-se dizer que, com essa passagem, atmgimos o centre do paradoxo, a fonts deharrisiana de Jean Dubois) vai ter o seu nascimento. numerosos mal-entendidos que a AAD n§o deixar^, em seguida, de provocar. Na 154 155
  • 80. verdade, ao ser comparada com o artigo citado de Moscovici e Plon, e, mais ampla- texto dado. Ale"m da referenda a Saussure, o problema da sinonimia contextualmente, com a psicologia social que trata da "comunicagao", a trajetdria de MP cons- abordado aqui remete, sem que seja nomeado, S problematica de Harris, e nao 6 se-titui um avanco formidavel, ao p6r em desordem o formalismo em vigor no minimo nao um caso particular do problema da pardfrase.por causa de um ponto decisivo, ignorado pela psicologia social por razoes estrutu- Em Langages 37, quando se refere a Harris ("pensavamos em ir at£ o limite mdximorais, a saber, que ai se leva em conta, como parametro essenciat, aquilo de que se fa- das possibilidades abertas pelo trabalho de Harris", p. 70), MP introduz a no§ao dela, o referente do discurso; o que implica que se estS prestes a considerar que as coisas parafrase discursiva como constitutiva dos efeitos de sentido ligados a um processonao se desenvolvem da mesma maneira segundo se fale de tal ou tal coisa. Mas, si- discursivo e especifica a sinonfmia entre as relacoes de transforma^ao (ver pp. 74-5).multaneamcnte, essa verdadeira ruptura - para se con veneer disso, basta evocar o que [ " J Pela apresentacao do "efeito metafdrico", MP manifesta, a propdsito dosforam as reacoes no mcio da psicologia - leva a crenca em um possfvel desenvolvi- sistemas lingufsticos "naturais" (em oposigao as "Imguas artificiais"), uma posigaomento de uma area de pesquisa e de conhecimento sobre essas questoes que nao ne- sobre a recusa a qualquer metalingua que nao sofrera" variacoes (ver "AD: tres £po-cessitasse levar em conta a teoria psicanalftica. Af esti o equfvoco, que, na verdade, 6 cas"). -duplo: fazer economia de uma tal teoria & impossfvel, sob pena de se retomar aostrilhos da psicologia; nao fazS-la implica uma total desordenacao do percurso, uma [ 20 ] o prdprio MP tenta explicar o emprestimo terminoldgico que faz de Choms-recoloca§ao em questao de seus fundamentos. E 6 dizer pouco lembrar que MP nao ky. A oposicao estrutura profunda/estrutura de superffcie representa uma analogiadeixard de voltar a esses pontos. utilizada em 1969 para marcar a relacao invariante/varias&es. MP destaca essa analo-O esclarecimento dessas questoes bem como de outras que essa passagem sugere, tais gia em Langages 37 (pp. 72-3), ao mesmo tempo em que se volta de maneira crfticacomo as referencias aos trabalhos de O.Ducrot, sera" feito, com uma agudeza incon- sobre a oposigao invariante/variacao, que Ihe parece estar re-inscrita nas dicotomiastornavel,- por Paul Henry em seu livro Le mauvais outil, pufalicado em 1977 pelas tradicionais denotagao/conotacao, norma/desvio, e estar colocando novamente emEditions Klincksieck. causa a concepcao da "metfifora primeira e constitutiva". Deve-se notar que a expressao "superffcie discursiva" ser^ frequentemente retomada A referenda a O.Ducrot, cujos trabalhos sobre a pressuposicao comecam a ser na analise do discurso, fora do trabalho de MP e de seu grupo.conhecidos pelos linguistas (Langages 2, 1966), fomece uma base lingiifstica a hi- [ 21 J ]S precise admitir a confusao dessa passagem sobreocontextode substituicao.pdtese de sustenta^ao do discurso sobre o discurso prdvio, formulada aqui nos termosdo "jd-dito". Deve-se ver nesse ponto a origem detodaumaproblema"ticaquevira. ^ creditada a Jakobson - ao contrario do que deixava transparecer a citagao da p£ginaO pr6-construfdo (elaborado por MP e Paul Henry, e que serf exposto por este lilti- 10, embora extrafda do mesmo capftulo dos&«iw-uma posigao linear: funcionam,mo particularmente em Langages 37, no ano de 1975, eemte mauvais outU, noano do fonema ao discurso, as mesmas regras de combinacao. Ele & citado - parece-nos -de 1977} constitui uma alternativa a pressuposicao; dissociado da problematics co- apenas para que seja mais valorizada a contribuigao de Benveniste sobre a frase,municacional de Ducrot, & considerado como o vestfgio de enunciacoes feitas alhu- contribuicao que, no mais, nao 6 explorada. Mas a escolha terminol<5gica (empregores. Ele ganha lugar no interior de um conjunto conceptual: formacao discursi- de enunciado por frase elementar) obscurece o desenvolvimento.va/formacao ideo!6gica; intradiscurso/interdiscurso. Remeteremos, aqui mcsmo, I 22 ] DC Benveniste, MP aponta a posicao subjetiva sobre a "criacJio infinita". Elea Langages 37 e it teorizacao dos "dois esquecimentos"; cf. igualmente "AD: tres retornara, em Langages 37, a concepgao de Benveniste: "a dualidade ideoldgica queepocas". associa sistema (de signos) e criatividade (individual): o discurso nao passa de um 16 J Essa citacao de Todorov 6 extrafda do artigo que abre "Recherches se"manti- novo avatar da fala" (p. 79). Mas o percurso inclui, entao, uma reflexao sobre osques", primeiro ntfmero da rcvista Langages (1966). Ela tern lugar em uma reflexao processos de enunciagao, que, cada vez mais, ganha importiuTcianasobrasposterio-sobre os "impasses da semSntica estrutural" e 6 bastante representativa das esperan- res.cas que a teoria gerativa representava para alguns estudiosos na conjuntura !ingiifsti- E 23 ] kjp vale-se de uma terminologia que corre o risco de se prestar a confusoescadosanos 1965-1970. quando op6e a anafora interna (os fenfimenos de substituicao no fio do texto) S ana1-[ I J Deve-se ler essa passagem ressaltando-se que MP retoma a seu modo as ftfr- fora externa (a remissSo aos protagonistas da enunciasao). A citagao de Benveniste,mulas pelas quais a "revolucao copeYnico-chomskyana" 6 recebida na Franca. Ao evidentemente, toma precise o estatuto dos elementos que se referem a enuncia$aomesmo tempo, ele assinala o que, de seu ponto de vista, tonta incompatfveis o pro- (andfora externa nos termos de MP).jeto da GGT e seu prdprio projeto: trata-se, mais uma vez, da questao do sujeito, e a I 24 ] ]5 aqui que deveria figurar a nota 37.unica coisa que MP pode fazer 6 rejeitar o postulado de um sujeito psicologico uni- [ 25 ] [yjp jefere-se livremente & nogao de ordem dependente apresentada por Ja-versal como suporte do processo de producao de todos os discursos possfveis. Se MP kobson em sua tentativa de classificacao das categorias verbais. Essanocao permitiafoi tentado pelo fantasma de um mecanismo de engendramento dos discursos, 0 que a Jakobson caracterizar relagoes expressas especialmente pelo sistema verbal da 1m-resta de sua confrontacao com o modelo de Chomsky 6 que ele pretende, no que Ihediz respeito, se situar no terreno da artalise de processos de producSo do discurso. gua gilyak (relacao CeCe).Mas uma das diflculdades principals recebe aqui sua primeira formulagao atraves dacrftica a concepcao atomfstica do sentido. O que fica como horizonte i a questao da [ 26 ] ^ propdsito dessa transformagao, MP remete & passagem em que ele introdu-"semantica universal", o lugar da semantica na lingiifstica. Essa questao, retomada ziu o termo. Encontra-se na p. 120 uma apresentagao do conjunto das transfonna-com forca em Langages 24, retoma em Langages 37 e em Semantica e discurso: uma cSes, caracterizadas em tipos Tl, T2, T3, a, b. O termo transformacao designa emcrftica d afirmacao do 6bvo. Harris regras de equivaiencia gramatical entre estruturas. E" exatamente esse valor que MP Ihe da, mas, como vimos na JntrodugSo, a referdncia a Harris aparece apenas 18 J Como introducao ao metodo de andlise que vai elaborar, MP consagra um uma vez e de maneira incidental a propdsilo das T2 ("Baseamo-nos aqui noslongo desenvolvimento a questao da operacao de substituicao de termos em um con- 156 157
  • 81. trabalhos de Harris {1963) que mostram que 6 possfvel recuperar, por meio da trans-formasao, o enunciado latente constitufdo pela adjetivacao"). NOTASt 27 ] A partir da ptfgina 12, MP introduz "a nocao de fundo invariante da Ifngua 1 Isto 6, a filosofia, segundo Saussure, na medida em que ela pretends antes de tu.(essencialmente: a sintaxe como fonte de coercoes universais)". A varia^ao, como se do "fixar, interpretar, comentar textos" (Saussure, 1915,13sed., 1987, p.7).ve aqui, diz respeito a selecao-combinacao das unidades lexicais, que nao provfim do ^ Lei de Estoup-Zipf-Mandelbrot.sistema da Ifngua. Cf. Langages 37, pp. 16-7. q Pode-se, entretanto, observar que o metodo de anSIise das co-ocorrencias (con- [ 28 ] Deve-se salientar a nota 2, onde esti em questao a teoria da ideologia, que 6, tingency analysis) permite observar um tipo particular de relacoes entre os elementos entao, apenas um projeto ao qual um certo Thomas Herbert, soberbamente ignorado (a saber: sua presenca simultSnea namesmaunidadetexto). (Sola-Pool, 1959, p.6i pelo autor da AAD, dava infcio, e uma "teoria do inconsciente" que, assim referida, ess.). poderia, alias, ser considerada como estando, ela tamb6m, por vir... Essa indicacao furtiva, justo quando sao discutidas perspectivas de utilizacao, parece-nos bastante Se o acordo for ou nao obtido por uma discussao coletiva ou por um processo representativa tanto da desconfianca tatica de MP quanto de sua "crenga" mantida na como o de Round Robin. vinda de um Eldorado, que seria o da realizacao daquilo a que chamamos o fantasma A passagem do artesanato para a indtistria nao muda fundamentalmente a ques- da articulagao. tao: o metodo do General Inquirer (Philip J.Stone, MIT Press) consiste em salientar, t 29 ] Voltando-se, em sua conclusao, sobre a pratica de leitura que a AAD consti- no corpus, as ocorrencias das palavras e das frases correspondentes a categorias in- tui, MP introduz o "princfpio da dupla diferenca". Durante toda a passagem, po- troduzidas previamente em um programa de reconhecimento. Claro que existem v&- de-se ver aqui a pre"- figuracao de elementos tedricos pelos quais se enriquecerS pos- rios progratnas, entre os quais o analista escolhe em furujao de suas necessidades - teriorniente a problematica de MP: Formagao Ideoldgica, Formacao Discursiva, In- isto 6, o mais frequentemente, em funcao dos pressupostos tedricos que governam sua leitura, terdiscurso, Intradiscurso... 6 Mais precisamente, seja a seus prdprios conceitos (por exemplo, a oposi9ao para- digma/sintagma), seja a seus instrumentos (por exemplo, gramaticas gerativas, siste- mas transformacionais). 7 A rela^ao psicanalftica constituiria assim, neste ponto, um caso particular na me- dida em que aquele que 6 "analisado" existe tamb&n pelo e para o desejo do analista. o 0 A enfase 6 nossa. 9 Cf.p.92. 10 Cf. p. 79. * * Pode-se reencontrar o trago da oposigao: fungao aparente/funcionamento implf- cito em Merton (funcao manifesta/fungao latente) e tamb£m em Durkheim. 12 Robert Pages (in "Image de r£metteur et du recepteur dans la communication, Bulletin de Psychologie de IUniversitS de Paris, abril 1955) observa que o emissor se guia, se "ajusta" em seu discurso por pressuposigoes que visam um "pdblico relati- vamente determinado". Em certos casos, acrescenta ele, o emissor 6 informado do "eco" encontrado por emissoes anteriores no receptor e modifica paulatinamente suas pressuposi9des. 13 Cf. em particular a esse respeito os trabalhos de LJriguaray, n- 5, p.84 e ss. Notemos no entanto que, em ntimero recente consagrado as "prfticas e lingua- gens gestuais" (Langages n- 10, junho 1968), certos elementos desta teoria se en- contram reunidos, 15 Cf.p.77. 16 Observemos que existe um certo mfmero de tragos retdricos (sintdticos e semanti- cos) suscetfveis de serem explicitamente remetidos a este ou aquele elemento ou inS- tincia de /";. Por exemplo: JSU3(0) • " Voc6 vai pensar que eu sou indiscrete". /2(/jJW) : "Que coisa estranha, dir5 vocg...". Isto nao significa, no entanto, que todo fragmento da seqiiencia discursiva possa s61" referido de forma unfvoca a uma instancia determinada. 158 159
  • 82. •Por outro lado, deixaremos de lado aqui a questaode saber seexpressoesdegrau su- -10 RJakobson, art. cit. p.!83,a propdsito do conceito deordem("aordem caracteperior t£m ou nao uma significa^ao com respeito ao problema considerado. riza o processo do enunciado em relagao a um outro processo do enunciado e sem referenda ao processo da enunciac.ao").^ ** 7 O.Ducrot, "Logique et linguistique" , Langages n? 2; ibid., pp. 84-85, 39 Ibid.,p.l82.18 Cf.p.79. 40 Cf. p. 113."Cf.p.86. 41 Jakobson, I963,p.l83.20 Cf. p. 99- 100. 42 Ibid.21 Cf. p. 77-78. 43 Ibid.22 Observemos que nao se deve confundir a designacao de uma realizacao discursi- 44 Cf, AnalyseAutomalique du Discours, p. 128 e ss.va particular de DX (seja DXJ) com a de uma sub-sequencia (sejaDJ.cf. p. 90) corres- 45pondente a um estado Pi das condic.6es de produsao. Cf. "Regularizacao do registro", p. 121.23 Cf. p. 81 ess. Uma vez que o ndmero initial 6 definido por criterios extemos parece possfvel24 conceber umjtttro que selecione, por meio de criterios internes, os discursos suscetf- Esta opera$ao 6 freqiientemente chamada "ana"lise componencial" .25 veis de "enriquecer" o ndcleo inicialmente dado. li notdvel que, neste ponto, Chomsky permanece, ele mesmo, mais discrete e 47 Cf. pp. 100-101.mais prudente que mumerSveis tetfricos que se inspiram em seu pensamenlo. E, por 48 Ibid.outro lado, sempre possfvel pensar a constituigao de uma semantica que nao fosse ta-on6mica, A tftulo provisorio, proporemos as seguintes ponderac.oes:26 A palavra "superffcie" introduzida por Chomsky (estrutura profunda/estruturade superfTcie) deve aqui ser referida a seu contexto geometrico a saber: a superffciecomo justaposi?ao de linhas discursivas D i ,..., Dx_. Trata-se, pois, menos de refe- *rw F D, A1, V ADV W D, N,rir a seqiiencia linear as operacfies subjacentes de que ela seria o vestfgio, do que derelacioaar cada linha discursiva com o conjunto das outras linhas que Ihe sao parale- *,/*, 3 2 5 _ 5 3 3 2 5las, para um dado estado das condicoes de producao. O profundo n5o estaha, pois, tit — 1 — 1 1 1 Ientao, sob a superffcie, mas na rela^ao que cada superffcie (no sentido de Chomsky) .1. — — — 2 — — — —mantem com suas variagoes, na superffcie (no sentido "geometrico" que Ihe da-27 O "discurso implfcito" exigido, como viroos (cf, pp. 85-86), pelo orador da 50parte do ouvinte nao estfi mais presents nos termos no interior do discurso do orador, Cf. pp. 142-144.o que funda para este dltimo a possibilidade de engendrar asfiguras de estila, jogando -^ Sublinhamos ainda que uma vez que a teoria do discurso nao pode de forma al-sobre as expectativas do outro. guma substituir uma teoria da ideologia, da mesma forma que nao pode substituir uma teoria do inconsciente, mas ela pode intervir no campo dessas teorias.2TO£ -° Esses pontos serao tratados de maneira mais detalhadana parte II, p. 132. 52"}Q Entre ArisbSteles e Harvey, diz G.Canguilhem, asmetSforas diferem. Aristtfteles Tomamos de empr6stimo este termo a Benveniste, que relaciona assim, de ma- pensava que o sangue irrigava o corpo como a a"gua irriga a terra. Harvey, ao contrS-neira evidente, o discurso a fala. ho, concebe a circulacao sangiifnea como um sistema hidraulico, com bombas e di-30 Cf. p. 123. ques.3 Cf. Analyse Automatique du Discours, p. 49.32 Cf. p. III." Cf. Analyse Automatique du Discours, p. 47.34 Jakobson,op. cit., p. 154.35 Cf.p.85.3 " Colocaremos nesse caso a existSncia de um conteddo impessoal de SNi : "isto"= "ele" impessoal.37 Faremos aqui grande uso das distincoes e especifica^Ses que derivam da meto-dologia lingufstica, que M.Culioli teve a amabilidade de nos comunicar, especial-mente sobre as questoes do modo de determinafdo do SN, das marcas Sgadas aosintagma verbal e da lexis. 160 161
  • 83. T IV A PROPOSITO DA ANALISE AUTOMATICA DO DISCURSO: ATUALIZA£AO E PERSPECTIVAS (1975) M Pecheux C.Fuchs Nestes dltimos anos, a "aniSlise automa"tica do discurso" (abreviadamente: AAD) produziu um certo numero de publica- coes, tanto no nfvel tedrico quanto no das aplicagoes experi- mentais.1 Parece-nos que as observances, interpretac.6es, crfticas ou mesmo deformacoes que suscitaram nestes dois niveis2 preci- sam de uma reformulacao de conjunto, visando a eliminar certas ambigiiidades, retificar certos erros, constatar certas dificuldades nao-resolvidas e, ao mesmo tempo, indicar as bases para uma nova formulagao da questao, a luz dos desenvolvimentos mais recentes, freqiientemente nao-publicados, da reflexao sobre a relacao entre a lingiifstica e a teoria do discurso. Daf, a presenga indispensaVel de um lingiiista no balango que empreendemos. Para evitar qualquer equfvoco que anisque confundir o ne- cess^rio trabalho crftico, pn5prio a um campo tedrico, com as tentativas de recuo visando a abandonar o campo, comecaremos por apresentar, numa primeira parte,o quadro epistemoldgico geral deste empreendimento. Ele reside, a i^osso ver, .na articulagao de tres regioes do conhecimento cientffico: 1. o materialismo histdnco, como teoria das ciais 6 de suas transformasoes, compreendida a( a 2. a lingufstica,cqmo teoria dos mecanismos sint^ticosje_ dos processes de enuncia5ao ao mesmo tempo; 163
  • 84. 3. a teoria do discurso, como teoria da determinagao histd- que sao evocadas no tftulo geral da primeira parte. Observemosrica dos processes semanticos. desde logo que, nas condigdes atuais do trabalho universitario tudo concorre para tornar mais diffcil a articulacao tedrica entre Conv£m explicitar ainda que estas tres regioes sao, de estas regioes. Alem de esta articulacao parecer a alguns de gostocerto modo, atravessadas e articuladas por uma teoria da subje- tedrico duvidoso, subsiste o fato de que, mesmo com a melhortividade (de natureza psicanalftica). vontade tedrica e polftica do mundo, € diffcil levantar os obsta- Isto nos levara" a reformular como uma das questoes cen- culos organizacionais e epistemoldgicos ligados a balcanizagaotrais a que se refere a leitura, ao efeito leitor como constitutive dos conhecimentos e sobretudo ao recalcamento-mascaramentoda subjetividade, e caracterizado pelo fato de que, para que ele universit^rio do materialismo histdrico. A experiencia comega ase realize, € necessario que as condicoes de existencia deste nos ensinar que 6 diffcil evitar as tradugoes espontaneas que fa-efeito, estejam dissimuladas para o prdprio sujeito. Acerca deste zem com que o materialismo historico se transforme em "socio-ponto tentaremos levar em conta o que, neste esquecimento, logia", a teoria do discurso se reserve o "aspecto social da lin-pertence especificamente ao dominio lingufstico, em relagao as guagem" etc. Mesmo em relagao aos pesquisadores marxistas,regioes ndo ou/we-lingiiisticas. acontece freqiientemente que, capazes de uma crftica Itfcida de A segunda parte sera" consagrada a discussao, em detalhe, sua disciplina de origem, permanecem cegos a certos aspectosdos diferentes aspectos criticados, o que nao se pode fazer senao academico-idealistas das disciplinas vizinhas, a ponto de acre-no quadro tedrico geral da primeira parte, indicando-se, todas as ditarem poder encontrar diretamente af "instrumentos" uteis pa-vezes que for possivel, os meios de reformar localmente este ou ra a sua prdpria pratica, inclusive sua prdtica crftica.aquele aspecto ultrapassado (permanecendo-se inteiramente no A formulagao desta articulagao que aqui propomos nao es-quadro da problem^tica inicial), e tentando-se, por outro lado, capa, evidentemente, ao risco assinalado, jd que este risco €.na medida do possivel, preparar as condigoes para uma trans- coextensivo as condigoes da prdtica universitdria atual. Reto-formagao radical do problema em seus prdprios termos. Isto e", mando o estado mais recente desta formulacao,3 colocaremosas condigdes para uma revolugao de que todos sentem a necessi- inicialmente que a regiao do materialismo histdrico que nos dizdade mas cuja forma 6, hoje, impossfvel de se prever. Se 6 ver- respeito 6 a da superestrutura ideoldgica em sua ligagao com odade que "nao se destrdi senao o que se substitui" (a AAD vi- modo de produgao que domina a formagao social considerada.sando, ela prdpria, a destruir deste ponto de vista a "analise de Os trabalhos marxistas recentes4 mostram a insuflciencia deconteudo") a responsabilidade tedrica impde, antes de mais na- considerar a superestrutura ideoldgica como expressao da "baseda, que se prepare o terreno sobre o qual se possa efetuar o econdmica", como se a ideologia fosse constitufda pela "esferadeslocamento-substituigao que evocamos aqui pela met£fora da das idems" acima do mundo das coisas, dos fatos economicospalavra "revolugao". Isto pressupoe, particularmente, que seja etc. Em outras palavras, a regiao da ideologia deve ser caracte-superado o atraso no nfvel dos procedimentos prdticos de trata- rizada por uma materialidade especffica articulada sobre a mate-mento dos textos em comparagao com o nfvel atingido nas dis- rialidade economica: mais particularmente, o funcionamento dacussdes sobre a relagao entre as tres regioes mencionadas ante- instancia ideoldgica deve ser concebido como "determinado emriormente e, antes de tudo, que seja reduzida a distancia que se- ultima instancia" pela instancia economica, na medida em quepara a andlise de discurso da teoria do discurso, aparece como uma das condicoes (nao-economicas) da reprodu-I — Formacao social, lingua, discurso gao da base economica, mais especificamente das relagoes de/. FormoQ&o social, ideologia, discurso produgao inerentes a esta base econdmica.5 A modalidade parti- cular do funcionamento da instancia ideoldgica quanto a repro- O ponto de organizagao desta primeira parte 6 constitufdo dugao das relagdes de produgao consiste no que se convencio-pela relagao entre as Ires regioes mencionadas anteriormente e nou charnar interpelagdo, ou o assujeitamento do sujeito como 164 165
  • 85. sujeito ideoldgico, de tal modo que cada um seja conduzido, sem interior de um aparelho ideoldgico, e inscrita numa relacao dese dar conta, e tendo a impressao de estar exercendo sua livre classes. Diremos, entao, que toda formacao discursiva deriva devontade, a ocupar o seu litgar em uma ou outra das duas classes condigoes de produfdo11 especfficas, identifiedveis a partir dosocials antagonistas do modo de produgao (ou naquela catego- que acabamos de designar.ria, camada ou fragao de classe ligada a uma delas).6 Esta re- Logo "a ideologia interpela os individuos em sujeitos":producao contfnua das relacoes de classe (economica, mas tam- esta lei constitutiva da Ideologia nunca se realiza "em geral",bem, como acabamos de ver, nao-economica) € assegurada ma- mas sempre atraves de um conjunto complexo determinado deterialmente pela existencia de realidades complexas designadas formagoes ideoldgicas que desempenham no interior deste con-por Althusser como "aparelhos ideoldgicos do Estado", e que se junto, em cada fase histdrica da luta de classes, um papel neces-caracterizam pelo fato de colocarem em jogo pra"ticas associadasa lugares ou a relacoes de lugares que remetem as relacoes de sariamente desigual na reprodugao e na transformacao das rela-classes sem, no entanto, decalca-las exatamente. Num dado mo- coes de produgao, e isto, em razao de suas caractensticas "re-mento histdrico, as relagdes de classes (a luta de classes) se ca- gionais" (o Direito, a Moral, o Conhecimento, Deus etc....) e,racterizam pelo afrontamento, no interior mesmo destes apare- ao mesmo tempo, de suas caracterfsticas de classe. Por esta du-lhos, de posicoes pohticas e ideoldgicas "que nao constituema pla razao, as formacoes discursivas intervem nas formacoesmaneira de ser dos individuos, mas que se organizam em forma- ideoldgicas enquanto componentes. Tomemos um exemplo: acoes que mantem entre si relagoes de antagonismo, de alianga ou formagdo ideologica religiosa constitui, no modo de produgaode dominagao. Falaremos de formagao ideologica para caracte- feudal, a forma da ideologia dominance; ela realiza "a interpela-rizar um elemento (este aspecto da luta nos aparelhos) suscetfvel gao dos individuos em sujeitos" atraves do Aparelho Ideoldgicode intervir como uma forga em confronto com outras forgas na do Estado religiose "especializado" nas relacoes de Deus comconjuntura ideoldgica caracterfstica de uma formagao social em os homens, sujeitos de Deus, na forma especffica das cerimoniasdado momento; desse modo, cada formagao ideoldgica constitui (offcios, batismos, casamentos e enterros etc...) que, sob a figureum conjunto complexo de atitudes e de representagoes7 que nao da religiao, intervem, em realidade, nas relagoes juridicas e nasao nem individuals nem universais mas se relacionam produ§ao economica, portanto no prdprio interior das rela9oesmais ou menos diretamente a posigoes de classes em conflito de produgao feudais. Na realizacao destas relagoes ideoldgicasumas com as outras".8 Somos levados, assim, a nos colocar a de classes, diversas formagoes discursivas intervem enquanto componentes, combinadas cada vez em formas especfficas; porquestao da relagao entre ideologia e discurso. Considerando o exemplo, e enquanto hipdtese histdrica a ser verificada: de umque precede, ve-se claramente que 6 impossfvel identificar lado, a pregagao camponesa reproduzida pelo "Baixo-Clero"ideologia e discurso (o que seria uma concepcao idealista da no interior do campesinato, de outro o sermao do Alto-Clero pa-ideologia como esfera das ideias e dos discursos), mas que se ra os Grandes da nobreza, logo duas formagoes discursivas, adeve conceber o discursive como um dos aspectos materials do primeira subordinada a segunda, de modo que se trata, ao mes-que chamamos de materialidade ideoldgica. Dito de outro modo, mo tempo, das mesmas "coisas" (a pobreza, a morte, a submis-a esp£cie discursiva pertence, assim pensamos, ao genero ideo- sao etc...) mas sob formas diferentes (ex.: a submissao do povoldgico, o que 6 o mesmo que dizer que as formagoes ideolo"gicas aos Grandes/a submissao dos Grandes a Deus) e tambem dede que acabamos de falar "comportam necessariamente,9 como "coisas" diferentes (ex.: o trabalho da terra/o destino dos Gran-um de seus componentes, uma ou va"rias formagoes discursi- des).vas interligadas que determinam o que pode e deve ser dito (ar-ticulado sob a forma de uma harenga, um sermao, um panfleto, Enfim, sublinhemos que uma formagab discursiva existeuma exposigao, um programa etc.) a partir de uma posicao dada historicamente no interior de determinadas relagoes de classes; numa conjuntura",10 isto 6, numa certa relagao de lugares no pode fornecer elementos que se Integram em novas formagoes 166 167
  • 86. discursivas, constituindo-se no interior de novas relagoes ideo- isto constitui uma outra forma deste mesmo esquecimento ologicas, que colocam em jogo novas formacoes ideo!6gicas. Por processo pelo qual uma seqiiencia discursiva concrete 6 produ-exemplo (e isto seria igualmente objeto de verificacjao histdrica), zida, ou reconhecida como sendo um sentido para um sujeito sepodemos adiantar que as formagoes discursivas evocadas acima, apaga, ele pr6prio, aos olhos do sujeito. Queremos dizer quedesaparecidas enquanto tais, forneceram ingredientes que foram para nds, a producao do sentido 6 estritamente indissoci^vel da"retornados" em diferentes formas histoYicas do atefsmo bur- relacao de paraTrase14 entre seqiiencias tais que a famflia para-gues e reapropriados na dominagao ideoldgica da classe burgue- frastica destas seqiiencias constitui o que se poderia chamar asa, sob a forma de novas formacoes discursivas (integrando, por "matriz do sentido". Isto equivale a dizer que 6 a partir da rela-exemplo, certos discursos parlamentares da Revolugao de 1789). §ao no interior desta famflia que se constitui o efeito de sentido, Aqui surge urna dificuldade que os teoYicos marxistas co- assim como a relagao a um referente que implique este efeito.15nhecem bem: a de .caracterizar as fronteiras reais dos objetos Se nos acompanham, compreenderao, entao, que a evid£ncia dareais que correspondem aos conceitos introduzidos (p.ex., for- leitura subjetiva segundo a qual um texto € biunivocamente as-magao ideologica, formagao discursiva, condigoes de produgao). sociado a seu sentido (com ambiguidades sint^ticas e/ou seman-Esta "dificuldade" nao 6 efeito apenas de um malfadado acaso ticas) € uma ilusao constitutive do efeito-sujeito em relacao amas resulta da contradicao existente entre a natureza destes con- linguagem e que contribui, neste domfnio especffico, para pro-ceitos e o uso espontaneamente imobilista e classificatono (de duzir o efeito de assujeitamento que mencionamos acima: naque nao se pode impedir a ocorrencia) sob a forma de questoes realidade, afirmamos que o "sentido" de uma seqiiencia s<5 6aparentemente inevitaVeis do tipo: "quantas formagoes ideol(5gi- materialmente concebfvel na medida em que se concebe esta se-cas existem numa formacao social? quantas formagoes discursi- qiiencia como pertencente necessariamente a esta ou aquela for-vas pode center cada uma delas etc.?" Efetivamente, e levando macao discursiva (o que explica, de passagem, que ela possa terem conta precisamente o carater dial&tico das realidades aqui varios sentidos).16 E este fato de toda seqiiencia pertencer ne-designadas, uma discretizagdo de tal ordem £ radicalmente im- cessariamente a uma formacao discursiva para que seja "dotadapossivel, salvo se inscrever-se na propria determinagao de cada de sentido" que se acha recalcado para o (ou pelo?) sujeito e re-um destes objetos a possibilidade de se transformar em outro, coberto para este Ultimo, pela ilusao de estar nafonte do senti-isto e, de denunciar precisamente como uma ilusao o seu cardter do, sob a forma da retomada pelo sujeito de um sentido univer-discreto. sal preexistente (isto explica, particularmente, o eterno par indi- vidualidade/universalidade, caracterfstico da ilusao discursiva O ponto da exterioridade relativa de uma formacao ideold- do sujeito). Observaremos, de passagem, que esta hermeneuticagica em relacao a uma formagao discursiva se traduz no prdprio espontanea que caracteriza o efeito subjetivo em relacao a lin-interior desta formagao discursiva: ela designs o efeito necessa- guagem se desdobra, sem mudar fundamentalmente de natureza,rio de elementos ideoldgicos nao-discursivos (representagoes, nas elaboragoes tetfricas inerentes a concepgao chomskiana eimagens ligadas a prdticas etc.) numa determinada formac.ao dis- pds-chomskiana da semantica (recurso inevit^vel a uma semanti-cursiva. Ou melhor, no prdprio interior do discursive ela provo- ca universal posta em movimento numa 16gica de predicados, oca uma defasagem que reflete esta exterioridade. Trata-rse da de- que equivale propriamente a supor resolvido o problema pelafasagem entre uma e outra formacao discursiva, a primeira ser- anulagao da distancia entre processo discursive e formulagao 16-vindo de algum modo de mate"ria-prima representacional para a gica),segunda, como se a discursividade desta "mate"ria-prima" se es- Estes esclarecimentos permitem compreender por que ovanecesse aos olhos do sujeito falante.12 Trata-se do que carac- dispositive AAD, na medida em que se conforma as concepgoesterizamos como o esquecimento ne I,13 inevitavelmente inerente da teoria do discurso que acabamos de enunciar, exclui funda-a pratica subjetiva ligada a linguagem. Mas, simultaneamente, e mentalmente a prdpria id^ia da analise semantica de w« texto. 168 169
  • 87. Sobre este ponto conve"m observar a distingao, sobre a qual cao" designs va ao mesmo tempo o efeito das relacoes de lugarvoltaremos adiante, entre a ana"lise lingufstica de uma seqiidncia nas quais se acha inscrito o sujeito e a "stuacao" no sentidodiscursiva e o tratamento automatico de um conjunto de objetos concrete e empirico do termo, isto 6, o ambiente material e ins-obtido por meio desta analise, o que parece ter parcialmente es- titucional, os papels mais ou menos conscientemente colocadoscapado a S.Fisher e E.Veron17 na medida em que parecem ter se em jogo etc. No limite, as ccndicoes de produgao nestc Ultimoespantado com o fato de que "apesar desta advertencia (a im- sentido determinarism "a situacao vivida pelo sujeito" no senti-possibilidade que acabamos de recordar) Pecheux... testou o seu do de variavel subjetiva ("atitudes", "representagoes" etc.) ine-sistema de ana"Iise num texto so"" — a expressao "sistema de rentes a um situagao experimental. Podemos agora precisar queanalise" 6 aqui o lugar de um jogo de palavras encaixando ana"- a primeira definicao se opoe a segunda como o real ao imagina-lise lingufstica e analise discursiva. rio, e o que faltava no texto de 1969 era precisamente uma teo ria deste imaginario localizada em re^acao ao real. Na falta desta locaHzacao era incvitavel (e fc»i o que efetivamente se produziu) Nesta medida, e na condicao de entender por processo dis- que as relagoes de lugar fossem confundidas com o jogo de es-cursivo as relagoes de paraTrase interiores ao que chamamos a pelhos de pap^is interiores a uma instituic^o,^ o termo apare-matriz do sentido inerente a formagao discursiva, diremos que o Iho, introduzido acima, sendo, ele mesmo, indevidamente con-procedimento AAD constitui o esboco de uma analise nao-sub- fundido com a nogao de institui^ao. Em outros termos, o quejetiva dos efeitos de sentido que atravessa a ilusao do efeito-su- faltava e o que ainda falta parcialmente 6 uma teoria nao-subje-jeito (produgao/leitura) e que retorna ao processo discursivo por tiva da constitui$ao do sujeito em sua situagao concreta deuma espe"cie de arqueologia regular. Em seu estado atual, o pro- enunciador.19 O fato de se tratar fundamentalmente de uma ilu-cedimento fornece o que se pode chamar os tracos do processo sao nao impede a necessidade desta ilusao e impoe como tarefadiscursivo que assumimos como objeto de estudo. A dificuldade ao menos a descricao de sua estrutura (sob a forma de um esbo-a ser resolvida aqui reside no fato de que a famflia de parafrases 50 descritivo dos processes de enunciacao) e possivelmente (ou antes, as diferentes famflias parafra"sticas ou domfhios se- tamb^m a articulagao da descricao desta ilusao ao que aqui cha-manticos) nao correspondem diretamente a uma proposigao Idgi- mamos owesquecimento n° 1."ca (ou a um sistema de proposicoes 16gicas), como demonstra-remos adiante. Nao pensamos que seja o efeito de uma inade-quagao acidental que se pudesse reduzir procedendo mats firia- 2. A lingufstica como teoria dos mecanismos sintdticos e dosmente; trata-se da distancia ja" mencionada entre proposic.ao 16- processos de enunciacaogica e processo discursivo, distancia que € precisamente anuladaimaginariamente pela filosofia espont^nea da logica formal e, aomesmo tempo,-pelo idealismo positivista em lingufstica. Como foi dito acima, o dispositive AAD visa a colocar em Como acabamos de ver, os processes discursivos, como fo- evidencia os tragos dos processos discursivos.20 Sendo os cor- ram aqui concebidos, nao poderiam ter sua origem no sujeito. pus discursivos21 o ponto de partlda da AAD, 6 normal que oContudo eles se realizam necessariamente neste mesmo sujeito. dispositive comporte uma fase de analise lingufstica j£ que os textos pertencentes aos corpus estao evidentemente em "IfnguaEsta aparente contradicao remete na realidade a prdpria questao natural" e o desenvolvimento dos tratamentos automaticos deda constituicao do sujeito e ao que chamamos seu assujeita- textos demostraram a impossibilidade de limitar-se a um estudomento. Sobre este ponto, se impoem certos esclarecimentos em estatfstico (cf. teoria das cadeias de Markov) da linearidade. relagao as formulacoes ambfguas que o texto de 1969 fornecia, principalmente referentes as "condigoes de producao": esta am- Mas a escolha dessa ou daquela prAtica de an^Iise lingufs- bigiiidade residia no fato de que o termo "condigoes de produ- tica pressupoe uma defini§ao pre"via da natureza e do papel 170 171
  • 88. se atribui a Ifngua. De fato, que relacao existe entre os proces- Dito isto, resta o fato de que as conduces desta analiseses discursivos e a Ifngua, do ponto de vista da teoria do discur- "morfossintatica" estao atualmente definidas de forma poucoso? A perspectiva de conjunto € a seguinte: estando os proces- clara, e o recurso a um semantismo implfcito nao estd exclufdoses discursivos na fonte da producao dos efeitos de sentido, a dela. Tudo se passa como se a analise morfbssinta"tica colocasselingua constitui o lugor material onde se realizam estes efeitos necessariamente em jogo elementos que temos o hatito de de-de sentido. Esta materialidade especffica da Ifngua remete a nominar semSnticos. Como ser£ demonstrado a seguir, a apre-ide"ia de "funcionamento" (no sentido saussuriano), por oposi- sentagao inicial da AAD negligenciou sistematicamente este as-530 a id6ia de "fungao". A caracterizagao desta materialidade pecto.23 Isto se explica pelo carSter conscientemente precarioconstitui todo o problema da lingiifstica. Como se vera mais das "solugoes" lingiifsticas propostas e, ao mesmo tempo, pelaadiante, 6 insuficiente conceber a Ifngua como a base de urn le- urgencia tedrica da luta contra uma concepgao idealista da Ifn-xico e de sistemas fono!6gicos, morfoldgicos e sintaticos (esta gua, concebida como visao-percepgao do mundo e, em seu li-dificuldade 6 acentuada no artigo de T.A.Informac.6es-Haroche- mite, como a origem deste ultimo.Pecheux, 1972-em que se fala de "stock lexical"). Contudo,pode-se desde j5 utilizar esta formulagao insuficiente dizendo Apresentada em sua forma extrema, a posigao lingiiisticaque, nestas condigoes, a tarefa do lingiiista consistiria em ca- inerente a AAD voltaria a considerar que sintaxe e semanticaracterizar e em tornar operacionalmente manipuMveis este le"xico constituem dois nfveis autonomos e bem definidos e que I^xico ee estes sistemas de regras evitando-se de af fazer intervir consi- grama"tica sao igualmente dois domfnios distintos. Ora, visivel-deragoes semanticas incontroladas, ja" que isto seria justamente mente, isto nao 6 assim. AliSs, a fase lingiifstica da AAD em seucair de novo no efeito subjetivo da leitura. estado atual ilustra bem as dificuldades ligadas a semelhante exigSncia: longe de evitar qualquer contaminagao da analise lin- giifstica pela semantica, as regras sintdticas aplicadas introdu- Ora, a analise nao-subjetiva dos efeitos de sentidos que a zem sub-repticiamente recursos nao-controlados ao sentido.AAD se atribui como objetivo passa, precisamente, como vimos, Quer dizer que esta semantica a qual a analise sinta"tica nao podepor uma fase de analise lingiifstica cujo estatuto permanece deixar de recorrer € precisamente o que foi designado acima sobmuito problema"tico, como iremos demonstrar. Efetivamente, a o nome de semantica discursiva? Se assim o fosse, isto equivale-questao gira em torno do papel da semantica na andlise lin- ria a dizer que a autonomia tedrica da lingiifstica 6 praticamentegiifstica. Na perspectiva definida anteriormente, nao seria o caso nula j£ que sd se reencontraria no fim o que tivesse sido coloca-de colocar no inicio da andlise lingiifstica o que deve justamente do no infcio. Nao creio que isto seja assim. Esta situagao nosaparecer como o resultado da confrontagao de objetos que deri- parece de fato ligada a heranga filosdfica que as categorias gra-vam precisamente desta ana"lise. Dito de outro modo, a analise maticais veiculam necessariamente, mesmo sob seu aspecto maislingiifstica que a AAD almeja deve ser essencialmente de natu- neutro, mais moderno, mais tecnico. O que falta atualmente €reza morfossintatica e, por esta razao, deve permitir a des-linea- uma teoria do funcionamento material da Ifngua em sua relagaorizagao especificamente lingiifstica dos textos, ligada aos feno- consigo prtfpria, isto 6, uma sistematicidade que nao se opoe aomenos de hierarquias, encaixes, determinagoes.,. Nao seria, nao-sisterndtico (Ifngua/fala), mas que se articula em processes.pois, o caso de introduzir uma "concepgao do mundo" que re- Se convencionamos chamar "sem&ntica formal"24 a teoria destepousasse nutna semantica universal e a priori, j£ que isto signi- funcionamento material da Ifngua, pode-se dizer que o que faltaficaria voltar a incluir no prdprio funcionamento da Ifngua os a analise lingiifstica 6 precisamente essa semantica formal queprocesses discursivos historicamente determinados que nao po- nao coincide de modo nenhum com a "semantica discursiva"dem ser colocados como co-extensivos a Ifngua, salvo se identi- evocada acima. A expressao "semantica formal", tomada deficar-se ideologia e Ifngua.22 emprestimo de A.Culioli, que definiremos adiante como o ultimo 172 173
  • 89. nfvel da analise lingiifstica, atingiria, neste sentido, o lugar es- definida formabnente (...) mas justificada filosofica-pecifico da lingua, que corresponde & construgao do efeito-su- mente: a enunciagao £ este aciotiamento da linguajeito. Se € justa a nossa hipdtese, isto significa igualmente que a por um ato individual de utilizacdo. Aqui nos con-AAD, que deseja "atravessar o efeito-sujeito", deve aferir onde frontamos com a dificuldade essencial da iniciattvaela o atravessa na Ifngua, nao reproduzir este efeito na prdtica saussuriana, aquela que, nos parece, constitui ode uma andlise objetiva 6 unia preocupagao legftima, esquecer a bloqueio principal de qualquer teoria saussuriana dosua existencia no objeto de estudo e", ao contr^rio, um erro. discurso. Certamente, o concetto de Ifngua concebi- Isto nos conduz necessariamente & questao da enunciagao, da apenas como sistema de signos 4 ultrapassado,e nao € inutil fornecer, a este propdsito, algumas precisoes, dada mas ao custo da introdugdo, no seio mesmo da teo- ria lingufstica, das duos nocoes que havia tentadoa maneira pela qual o idealismo "ocupa" hoje esta questao, com rejeitar, o sujeito e sua relacdo com o mundo social.os diferentes obstaculos daf resultantes. Ora — e ai estd o paradoxo — estas duos nocoes, se Se definimos a enunciagao como a relagao sempre necessa- elas vem preencher um espaco no aparelho concep-riamente presente do sujeito enunciador com o sen enunciado, tual, nao tern, de fato, nenhum estatuto tedrico pre-entao aparece claramente, no prdprio nfvel da Ifngua, uma nova ciso. Opondo a liberdade do sujeito individual a ne-forma de ilusao segundo a qual o sujeito se encontra na fonte do cessidade do sistema da Ifngua, colocando a Ifnguasentido ou se identifica a fonte do sentido: o discurso do sujeito como medioQao entre o sujeito e o mundo, e o sujeitose organiza por referencia (direta, divergente), ou ausSncia de como se apropriando do mundo por intermedio dareferencia, & situagao de enunciagao (o "eu-aqui-agora" do lo- Ifngua, e da Ifngua por intermedio do aparelho decutor) que ele experimenta subjetivamente como tantas origens enunciacao, Benveniste apenas transpoe em termosquantos sao os eixos de referenciagao (eixo das pessoas, dos lingufsticos nocoes filosoficas que, longe de seremtempos, das localizagoes). Toda atividade de linguagem neces- neutras, se ligam diretamente a corrente idealista"sita da estabilidade destes pontos de ancoragem para o sujeito; (Hirsbrunner e Fiala, 1972, pp.26-27).se esta estabilidade falha, h£ um abalo na propria estrutura dosujeito e na atividade de linguagem. Tentaremos mostrar abaixo como nos propomos retirar a FalaVamos de obstdculos: trata-se da ilusao empirista sub- problem^tica da enunciacao deste cfrculo de idealismo.jetiva que se reproduz na teoria lingiifstica e, ao mesmo tempo, A dificuldade atual das teorias da enunciagao reside noda ilusao formalista que faz da enunciagao um simples sistema fato de que estas teorias refletem na maioria das vezes a ilusaode operagoes. Comentando as nogoes de sujeito enunciador e de necessa"ria25 construtora do sujeito, isto 6, que elas se contentamsituacao de enunciagao, P.Fiala e C.Ridoux escrevem: "... 6 em reproduzir no nfvel tetfrico esta ilusao do sujeito, atrave"s daprecise ainda nao reduzi-las a um simples suporte de operagoes ide"ia de um sujeito enunciador portador de escolha, intengoes,formais, mas tentar, a cada vez, extrair delas o contetido real pa- decisoes etc. na tradicao de Bally, Jakobson, Benveniste (ara evitar as armadilhas sempre presentes do formalismo" (Fiala e "fala" nao estd longe!).26Ridoux, 1973, p.44). Em texto anterior, M.Hirsbrunner e P.Fialaobservavam a propdsito disto, comentando as propostas de Ben- veniste: A refer^ncia ao funcionamento material dos mecamsmos " De fato, semidtica e semdntica aparecem como a sintAticos em relagao a eles mesmos, introduzida acima, permite transposicao lingiifstica das categorias filosdficas de precisar o que entendemos por enunciagao. Diremos que os pro- cessos de enunciagao consistem em uma seYie de determinagoes potencia e de ato... Ainda afa mediacdo £ operada com a ajuda de uma nocdo ambfgua, a enunciagao, sucessivas pelas quais o enunciado se constitui pouco a pouco e 174 175
  • 90. que tern por caracterfstica colocar o "dito" e em conseqiienciarejeitar o "nao-dito". A enunciacao equivale pois a colocar mos que estes dois esquecimentos diferem profundamente um dofronteiras entre o que 6 "selecionado" e tornado preciso aos outro. Constata-se, com efeito, que o sujeito pode penetrarpoucos (atrave~s do que se constitui o "universo do discurso"), e conscientemente na zona do n? 2 e que ele o faz em realidadeo que € rejeitado. Desse modo se acha, pois, desenhado num es- constantemente por um retorno de seu disciirso sobre si umapac.o vazio o campo de "tudo o que teria sido possfvel ao sujeito antecipacao de seu efeito, e pela consideracao da defasagem quedizer (mas que nao diz)" ou o campo de "tudo a que se opoe o af mtroduz o discurso de um outro.28 Na medida em que o su-que o sujeito disse". Esta zona do "rejeitado" pode estar mais jeito se corrige para explicitar a si Pr6prio o que disse, paraou menos pro~xima da consciencia e ha questoes do interlocutor aprofundar "o que pensa" e formulfi-lo mais adequadamente- visando a fazer,por exemplo, com que o sujeito indique com pode-se dizer que esta zona n? 2, que £ a dos processes deprecisao "o que ele queria dizer" — que o fazem reformular as enunciafdo, se caracteriza por um funcionamento do tipo pr6-fronteiras e re-investigar esta zona.27 Propomos chamar este consciente/consciente. Por oposigao, o esquecimento n9 1, cujaefeito de ocultasao parcial esquecimento n~ 2 e de identificar af zona € inacessfvel ao sujeito, precisamente por esta razao apa-a fonte da impressao de realidade do pensamento para o sujeito rece como constitutive da subjetividade na lingua. Desta manei-("eu sei o que eu digo", "eu sei do que eu falo"). ra, pode-se adiantar que este recalque (tendo ao mesmo tempo como objeto o pn5prio processo discursive e o interdiscurso,29 Decorre do que precede que o estudo das marcas ligadas a ao qual ele se articula por relacoes de contradic^o, de submissaoenunciacao deve constituir um ponto central da fase de andlise ou de usurpacao) 6 de natureza inconsciente, no sentido em quelingmstica da AAD, e que este estudo induz modificagoes im- a ideologia 6 constitutivamente inconsciente dela mesma (e naoportantes na concepgao da lingua. Antes de mais nada, o lexico somente distrafda, escapando incessanteniente a si mesma...) 30nao pode ser considerado como um "estoque de unidades lexi-cais", simples lista de morfemas sem conexao com a sintaxe Esta oposicao entre os dois tipos de esquecimento tern re-mas, pelo contrdrio, como um conjunto estruturado de elementos lagao com a oposigao j5 mencionada entre a situacao empfricaarticulados sobre a sintaxe. Em segundo lugar, a sintaxe nao concreta na qual se encontra o sujeito, marcada pelo cardter daconstitui mais o domfnio neutro de regras puramente formais, identificacao imagindria onde o outro € um outro eu ("outro"mas o modo de organizagao (proprio a uma determinada Ifngua) com o miniisculo), e o processo de interpelagao-assujeitamentodos tracos das referencias enunciativas. As construcoes sintati- do sujeito, que se refere ao que J.Lacan designa metaforica-cas, deste ponto de vista, tern, pois, uma "sigmficac.ao" que mente pelo "Outro" com O maidsculo; neste sentido, o mon(51o-convetn destacar. go 6 um caso particular do dialogo e da interpelacao Nesta perspectiva & interessante precisar a ligacao entre os Em outros termos, colocamos que a relacao entre os "es-dois esquecimentos que qualificamos respectivamente de n9 1 e quecimentos n^ 1 e n^ 2" remete k relagao entre a condicao den- 2: que relagao existe entre a famflia de seqiiencias parafrdsti- existencia (nao-subjetiva) da ilusao subjetiva e as formas subje-cas constitutivas dos efeitos de sentido, e o "nao-dito", que es- tivas de sua realizasao.31tao, ambos, colocados fora do jogo? Utilizando aqui a terminologia freudiana que distingue, por um lado, o pre"-consciente-consciente e, por outro lado, o in-3. Lfngua, ideologia, discurso consciente, nao pretendemos de modo nenhum resolver a ques- tao da relagao entre ideologia, inconsciente e discursividade: queremos apenas caracterizar o fato de que umaformagaodis- Consideremos o que designamos respectivamente com o cursiva € constitufda-margeada pelo que Ihe ^ exterior, logo pornome de "esquecimento n- 1" e de "esquecimento n2 2". Ve- aquilo que af 6 estritamente nao-formuklvel, jd que a determi- na, e, ao mesmo tempo, sublinhar que esta exterioridade consti- 176 177
  • 91. tutiva em nenhum caso poderia ser confundida com o espago & ideia de que existem hnguas, tomando ao p£ da letra a expres-subjetivo da enunciagdo, espago imaginSrio que assegura ao sao, politicamente justa mas lingiiisticamente discutivel, segun-sujeito falante seus deslocamentos no interior do reformuMvel, do a qual "patroes e empregados nao falam a mesma Ifngua".de forma que ele faga incessantes retornos sobre o que formula,e af se reconhega na "relac.ao reflexiva ou pre"-consciente com as Diante destas duas deformagoes da realidade designadapalavras, que faz com que elas nos aparecam como a expressao pelo termo "discurso", achamos dtil introduzir a distingao entredas coisas" de acordo com a formulagao de M.Safouan em "So- base (lingiiistica) e processo (discursive) que se desenvolve so-bre a estrutura em psicanalise" (1968), p.282. O termo prl- bre esta base,33 distincao que, achamos, somente ela pode auto-consciente remete, como se sabe, ao primeiro t6pico freudiano, e rizar a consideragao das relagoes de contradigao, antagonismo,desaparece como tal no segundo. Ora, € em grande parte no am- alianga, absorgao,... entre formagoes discursivas que pertencembito deste segundo topico que foi efetuada a reelaboracao laca- a formac.6es ideo!6gicas diferentes, sem implicar, para tanto, aniana da teoria de Freud, a que fazemos referenda aqui. Em ou- existSncia mftica de uma pluralidade de "Ifnguas" pertencendo atro estudo voltaremos a esta "incoerencia" tedrica para expli- estas diferentes forrnagoes.ca-la, trabalha-la e reduzi-la. Esta "desigualdade" entre os dois esquecimentos corres-ponde a uma relagao de dominancia que se pode caracterizar di- n - A anaUse automatica do discurso: crlticas e novas perspecti-zendo que "o nao-afirmado precede e domina o afirmado".32 vas Ale"m disso, € precise nao perder de vista que o recalqueque caracteriza o "esquecimento n- 1" regula, afinal de contas,a relac.ao entre dito e nao-dito no "esquecimento n- 2", onde se 1. Constmgao do corpus emfungao das condigoes de produgaoestrutura a sequencia discursiva. Isto deve ser compreendido no dominantessentido em que, para Lacan, "todo discurso e" ocultagao do in-consctente". Para concluir esta apresentagao geral, diremos que em re- A introduc,ao e os desenvolvimentos precedentes indicamlagao ao termo "discurso", tal como funciona na expressao claramente que as "condigoes de produgao" de um discurso nao"teoria do discurso", hd dois equfvocos complementares a serem sao espe"cies de filtros ou freios que viriam inflectir o livre fun-evitados. O primeiro consiste em confundir discurso e fala (no cionamento da linguagem, no sentido em que, por exemplo, asentido saussuriano): o discurso seria entao a realizagao em atos resistencia do ar interv^m na trajet6ria de um rndbil cuja cine-verbais da liberdade subjetiva que "escapa ao sistema" (da Ifh- matica prev6 o deslocamento te<5rico, quer dizer, o que seria estegua). Contra esta interpretagao reafirmamos que a teoria do dis- deslocamento se o m6bil estivesse reduzido a um ponto, e securso e os procedimentos que ela engaja nao poderiam se identi- deslocasse no vazio. Em outros termos, nao h£ espaco tedricoficar com uma "lingufstica da fala". O segundo equfvoco se socialmente vazio no qual se desenvolveriam as leis de uma se-opoe ao primeiro porque "distorce no outro sentido" a signifi- mantica geral (por exemplo, leis da "comunica§ao"), e no qualcagao do termo "discurso", enxergando af um suplemento social se re-introduziriam, na qualidade de pararnetros corretivos,do enunciado, logo um elemento particular do sistema da Ifngua, "restricoes" suplementares, de natureza social. De fato, tudo oque a "lingiifstica classica" teria negligenciado. Nesta perspec- que introduzimos acima visa a explicitar as razoes pelas quais otiva, o nfvel do discurso se integraria a Ifngua, por exemplo sob discursive so" pode ser concebido como um processo social cujaa forma de uma competSncia de tipo particular, cujas proprieda- especificidade reside no tipo de materialidade de sua base, a sa-des variariam em fungao da posigao social, o que equivaleria ber, a materialidade lingiifstica. 178 179
  • 92. • Processo discursivo: entendido como o resultado da re- A partir dai, a expressao "condicoes de produgao de um lacao regulada de objetos discursivos correspondentesdiscurso" necessita ser detalhadamente explicitada, para evitar a superficies lingufsticos que derivam, elas mesmas, deerros de interpretagao acarretados pela ambigiiidade de certas condigoes de produc.ao est^veis e homogeneas. Esteformulagoes. Observemos, antes de mais nada, que o prtSprio acesso ao processo discursivo 6 obtido por uma de-sin-termo "discurso" pode remeter ao que chamamos acima um pro- tagmatizagao que incide na zona de ilusao-esquecimentocesso discursive,34 mas tambem a uma sequencia verbal oral ou n^l.escrita de dimensao varidvel, em geral superior a da frase. Estatiltima realidade, em razao de seu carrier imediatamente "con- Acentuemos entretanto que a escala completa aqu^m destecrete", foi designada (Pecheux, 1969) pela expressao "superff- esquecimento pressupoe nao apenas que se coloque em evide"n-cie discursiva", que tern, entretanto, o duplo defeito de deixar cia a formagao discursiva subjacente ("matriz de sentido" daentender que as seqiiencias sao tratadas no mvel de suas formas qual o atual processo da AAD permite localizar alguns traces),de "superficie", no sentido chornskiano do termo, e de designar mas supoe tambem a captagao das relagoes de defasagem entresob uma forma muito reduzida o que 6, de fato, a superflcie Hn- esta formacao discursiva e o inter-discurso que a determina (este ponto ainda hoje nao recebeu solugao "operacional").giiistica de um discurso. Este erro acerca do sentido de "super-ffcie discursiva" leva-nos a enfatizar a necessaria distingao entre O esquema que se segue resume as observances terminolo-os dois tipos de de-sintagmatizacao inerentes, por um lado, ao gicas referidas acima:domfnio do lingihstico e, por outro, ao dominio do discursive: ade-sintagmatizagao linguistica (ou ainda: de-superficializagao)remete a existencia material da hngua, caracterizada pela estru- LfNGUA DISCURSOtura nao-linear dos mecanismos sintdticos e mais profundamente anfflise dos mecanis- an^Iise de umpor tudo aquilo sobre o que se exerce o "esquecimento n- 2"; mos sinKtticos e dos corpus de obje-quanto a de-sintagmatizagao discursiva, ela s<5 pode comegar a funcionamentos enun- tos discursi- ciativos vos que funcio-efetuar esta escalada alem do "esquecimento n 9 1" apoiando-se Superffcie lin- nam como auto-na operacao lingufstica que acabamos de mencionar: Estas ob- gufstica de um Objeto dicionSrioservagoes nos permitem proper as seguintes distin§6es termino- discurso que discur- •*• sivo16"gicas: corpus = de-superficializagao Cgrafo pro- lingiifstica, visando conexo) ., *"cesso • Superffcie lingiifstica: entendida no sentido de sequencia a anular o efeito do discur- "esquecimeoto n- 2" sivo oral ou escrita de dimensao varia"vel, em geral superior a (pre-consciente-cons- frase. Trata-se a( de um "discurso" concrete, isto e", do ciente no nf vel do objeto empirico afetado pelos esquecimentos 1 e 2, na imaginario) = de-sintagmatiza- cao discursiva, medida mesmo em que 6 o lugar de sua realizacao, sob a que rompe a cone- forma, coerente e subjetivamente vivida como necessa"- xidade prdpria a ria, de uma dupla ilusao. cada objeto dis- cursivo e que co- • Objeto discursivo: entendido como o resultado da trans- meca a anular o formac.ao da superffcie lingiiistica de um discurso con- efeito do "esque- cimento n- 1" crete, em um objeto tedrico, isto 6, em um objeto lin- giiisticamente de-superficializado, produzido por uma an^lise lingiifstica que visa a anular a ilusao n- 2. 180 181
  • 93. Agora podemos retomar o exame da expressao "condicoes mentos individuals que podem aparecer neste discurso "concre-de produgao de um discurso", que, dizfamos, pode apresentar to" e nao em outro, estando os dois dominados pelas mesmascertas ambigiiidades: parece efetivamente, Ji luz do que precede, condigoes. Naturalmente, isto nao exclui de modo nenhum que aque se pode entender por isso seja as determinagoes que carac- gente se de como objeto de estudo as diferengas, mas estas dife-terizam um processo discursivo, seja as caracteristicas multi- rengas serao sempre consideradas como diferencas entre corpus,plas de uma "situacao concreta" que conduz a "produc.ao", no resultantes de diferengas entre condic.6es de produc.ao, e jamaissentido lingiifstico ou psicolingiifstico deste termo, da superffcie como diferengas individuals.lingiifstica de um discurso empirico concreto. Bern entendido, Precisemos as duas formas de tratamento que mencionamosesta ambigiiidade € a mesma que a assinalada acima a prop<5sito acima, a saber, o tratamento "experimental" e o tratamento deda oposi§ao instituisao/aparelho: nos dois casos, o que esta" em arquivos. Trata-se de dois processes diferentes ambos visando ajogo 6 a necessidade de reconhecer a defasagem entre o registro constnicao de um corpus, ou de um sistema de corpus, que pos-do imaginario, cuja existdncia nao 6 anulavel sob o pretexto de sa ser submetido & andlise AAD. Assinalemos bem que, nos doisque se trata do imagin^rio, e o exterior que o determina. Nesta casos, os princfpios tedricos e as consideragoes prdticas quemedida, parece que nos falta radicalmente uma teoria da "situa- guiam esta fase sao estritamente exteriores aos princfpios e as530 concreta" enquanto formac,ao ideo!6gica em que o "vivido" caracterfsticas "t^cnicas" do prdprio dispositive AAD. Em ou-e" informado, constitufdo pela estrutura da Ideologia, isto e", ele tros termos, a responsabilidade tedrica que preside & construgaose torna esta estrutura na forma da interpelagao recebida, para do corpus (ou do sistema de corpus), em principio, nada tern emretomar uma formulagao de L.Althusser. comum com a responsabilidade especffica do procedimento Esta teoria da "situagao concreta", isto e", o relaciona- AAD, a saber, a responsabilidade de realizar uma leitura nao-mento te6rico das determinaQoes a seu efeito imaginario, € defi- subjetiva; todavia, e" precise logo acrescentar que, naturalmente,nitivamente o ponto a partir do qual as operagoes de construcdo as responsabilidades assumidas no nfvel extra-discursivo (as di-do corpus poderiam encontrar seu verdadeiro estatuto. Atual- ferentes hipdteses socioldgicas, histtfricas etc.) que presidem amente, ainda sem esta articulagao,35 a prdtica de construgao de construgao do corpus nao deixam de ter efeito sobre os resulta-corpus (e dos pianos de processamento que combinam varies dos a serem produzidos pela analise AAD. Ou melhor, pode-secorpus) sofre inevitavelmente o seu efeito, sob a forma de uma dizer que estes resultados refletirao estas hipoteses no nfvel dostentagao empirista que visa a impossfvel articulasao entre uma efeitos discursivos localizados, o que nao quer dizer que os re-psicologia "experimental" e o Materialismo Hist6rico. Digamos sultados sejam o puro e simples reflexo transparente das hipdte-entretanto que, sob as duas formas que examinaremos abaixo ses extra-discursivas que servem a construsao. Sem esta distin-(tratamento experirnental, tratamento de arquivos), o liame entre gao entre as duas responsabilidades, 6-se fatalmente conduzido &o imagindrio e o exterior que o determina passa pelo conceito de id£ia de uma circularidade pela qual a AAD corre o risco "dedominancia: diremos que um corpus € constitufdo por uma se"rie reencontrar como resultado da analise o prdprio conteudo intro-de superffcies lingufsticas (discursos concretos) ou de objetos duzido e organizado por esta categoriza§ao" como o supoemdiscursivos (o que pressupoe um modo de intervengao diferente M.Borillo e J.Virbel em artigo (1973, p.l) do qual discutiremosda praiica lingmstica na definic.ao do corpus; voltaremos a isto), adiante as observaeoes crfticas de natureza lingufstica e/ou do-estando estas superffcies dominadas por condigoes de produgao cumentana. Pretendendo que "de fato, a iniciativa que leva aestaVeis e homogeneas. Isto significa que se pressupoe que todo escolha do termo circunstancia* resulta exatamente na que Ga-discurso "concreto" 6, de fato, um complexo de processes que yot e Pecheux recusam antes de mais nada" (art. cit., p.12), Bo-remetem a diferentes condicxies. Determinar a construc,ao do rillo e Virbel colocam o dedo numa dificuldade real, enquantocorpus pela referenda a esta dominancia € o mesmo que desfal- cometem ao mesmo tempo uma sub-repgao l<5gica; expliquemo- car como elementos estrangeiros ao processo estudado os ele- nos: afirmando que estes autores cometem uma sub-repcao logi- 182 183
  • 94. ca, queremos dizer que, por nao reconhecerem a necessidade da • por um lado, vS-se mal, de um ponto de vista metodold-distingao entre os dois tipos de responsabilidade que evocamos gico, como o detalhe de "justificac,6es de natureza ex-acima, nos atribuem, eles mesmos, esta confusao, e dela derivam tremamente variada" (art. cit,, p.10) conduziu & retenc,ao "consequencias" que, por esta razao, sao ao menos em parte in- do termo "circunstancias" e nao outra coisa,validadas. Efetivamente, nao distinguir entre as determinacoes • por outro lado, a decisao de conservar as frases (se-extra-discursivas (e extra-lingufsticas a fortiori), de um lado, e a quencias separadas por dois pontos) que cont&m o termo"categorizacao" (para retomarmos sua formulacao) que o proce- retido constitui um segundo aspecto arbitr^rio que con-dimento AAD pretende produzir como resultado, de outro, sem tribui igualmente para incriminar o procedimento esco-pressupor sua existencia no sistema de leitura inerente a este Ihido.procedimento, € finalmente superpor os nfveis lingufstico, dis- Retomemos sucessivamente estes dois pontos:cursivo e ideoldgico-cultural (cf. hipdtese implfcita do tipo Sa-pir-Whorf) e identifica"-los como o lugar onde se efetua a mesina — No que se refere a primeira crftica, ela parece suficien-"categorizac.ao", uma primeira vez sem dize-lo no nfvel da es- temente justificada. Para responder a isto nao basta efetivamentecolha dos elementos que constituent o corpus, uma segunda vez sublinhar o cardter nao-metodoldgico mas diretamente te<5ricono nfvel dos "resultados" obtidos pela AAD, que nao seriam na (no caso em questao, a teoria materialista-histdrica) do procedi-realidade senao o reflexo transparente^ da primeira mento que levou a reter o termo "circunst&ncias". De fato, uma"categorizagao". E finalmente a nao-redutibilidade do discursi- "ana"lise concreta da situagao concreta"37 deveria redundar emvo ao linguistico ou ao ideoldgico do qual e" precise relembrar um sistema de pontos sensfveis com uma relac.ao entre eles eaqui a importancia, com o risco de recair nas aporias de uma suscetfvel de se projetar metodologicamente em um projeto deteoria idealista da ideologia. Esta perspectiva, que 6 necessaVio processamento reunindo vdrios corpus em vista da interrogac.aomesmo chamar regressive* na medida em que visa a colocar, de- acerca de suas diferengas. Em outros termos, atualmente parece-finitivamente, a impossibilidade do objetivo que nos fixamos nos possfvel e necessario nao nos limitar a ana*lise de um corpus("reconhecer enfim que 6 impossfvel evitar uma eategorizac.ao a construfdo arbitrariamente a partir de uma palavra-polo, recor-priori, que nao se pode evitar o recurso a subjetividade" etc.) rendo sistematicamente & analise das diferengas interaas que umnao deve impedir de discernir o que, nas crfticas sobre as quais projeto de processamento pode colocar em evidencia. Isto pres-esta regressao se fundamenta, constirui um envolvimento justifi- supoe, no nfvel metodoldgico, a existencia de um meio que per-cado que nos permite ir adiante na direc/ao que evocamos acima. mifa associar n corpus a um so, para estudar as diferengas que se acham induzidas desse modo; este meio, realizado atualmente Uma vez colocado que a materialidade da ideologia nao se no programa pelo procedimento chamado de "compactagem"identifica de modo algum com a materialidade discursiva (na (cf. p. 213-214), nao era disponfvel na gpoca em que o trabalhomedida em que esta dltima € um seu elemento particular, o que evocado foi realizado. De fato, a evolucao de nossa concepgaoimplica, no que nos diz respeito, que as condigoes de construc,ao do processamento foi neste sentido: defmitivamente o acesso aode um corpus nao poderiam ser exclusivamente intra-discursi- processo discursive prdprio a um corpus nos parece encontrarvas), 6 possfvel levar em consideragao as crfticas que Borillo- sua garantia em grande parte no estudo de sua especificidade noVirbel fonnularam sobre este ponto. Digamos que a principal interior de um sistema de hip cleses realizadas sob a forma de umdelas consiste em sublinhar o cardter passavelmente imotivado complexo de corpus, processado com a ajuda do procedimentodo princfpio de construcao retido no artigo em consideracao, a de compactagem evocada ha" pouco. Finalmente, trata-se aosaber, a selec,ao, em uma determinada obra, das frases que con- mesmo tempo de estudar a produtividade dessa hipdtese e detem uma certa "palavra-pdlo", no caso em foco, a palavra "cir- deduzir as suas caractenfsticas do processo discursive estudado.cunstancias". A censura 6 dupla: Acrescentemos, ainda acerca deste primeiro ponto, que naoa 184 185
  • 95. profbe pensar que os procedimentos preVios de deslindamento 6 o mesmo que considerar o campo do arquivo corno um discoestatfstico (por exemplo, os estudos de co-ocorrencias como os sitivo quase experimental. Por estas diferentes razoes, adianta-que propoe a equipe de lexicologia da Ens de St-Cloud)38 pode- remos a opiniao de que a forma-arquivo deve ser consideradariam apresentar interesse para a localizacao inicial do campo das como uma forma derivada "abastardada" do procedimento dehipdteses; por outre lado, pode-se considerar a possibilidade de tratamento que, em seus designios, € de natureza experimental;um controle estatfstico a priori da homogeneidade de cada cor- este ponto merecia ser sublinhado, haja vista um certo ndmeropus submetido a analise, ou de regras de fechamento de um cor- de interpretacoes "nao-diretivistas" ocasionadas por certas for- mulacoes da AAD 1969. - A segunda critica recai sobre o carrier relativamente ar- Todavia € conveniente acrescentar logo que esta indicacaobitraiio do procedimento de segmentagao, baseado no criterio da de orientagao nao resolve em si mesma nenhum problema defrase. Digamos ja que esta censura, completamente justificada, fundo quanto a natureza de uma experimentagao materialista nodesigna uma dificuldade muito grave sobre a qual e* impossfvel domifnio que nos diz respeito. Contentemo-nos em sublinhar quedizer hoje como sera" resolvida. Quais sao os limites empfricos a prdtica sdcio-hist6rica que serve de referenda inevitaVel nestede um "discurso" no interior de uma determinada sequencia ponto 6 de fato profimdamente ambfgua: esta pra"tica € bastantecomplexa? As combinagoes de processes correspondem ou nao, "instdvel" no sentido em que pode virar de um lado e de outro,a justaposicoes na linearidade da seqiiencia? Tudo o que se pode sem encosto, isto 6, do lado do materialismo histdrico ou do la-dizer € que qualquer nocao "literaria" que remeta a "unidade do da psicologia social, com probabilidades, para dizer a verda-interior" da "ohra", do texto, do paragrafo etc. 6 nula e sem de, completamente desiguais entre as duas safdas se nao se to-future, tendo em conta os pressupostos teoricos a que nos refe- mar cuidado: queremos dizer que, sem outro encosto senao "orimos acima. O princfpio de uma ligacdo expressiva entre a uni- me"todo experimental", cai-se inevitavelmente na psicologia so-dade organica da forma e a unidade intencional do fundo — cial das situacoes, e no idealismo, que 6 seu correlative.conteddo, projeto ou sentido — € um mito litera"rio (necessario aforma cla"ssica da "explicagao de textos") que reproduz a ilusaosubjetiva comentada acima. Podemos apenas constatar que esta 2. A andlise lingufsticaquestao, levantada igualmente por Genevieve ProvostiChauveau(1970, p. 135), remete aos proprios limites da lingufstica da fra-se, sobre o que voltaremos adiante, e designa o vazio, que urge 2.1 Os objetivos de uma analise lingufstica do discursoser preenchido, de uma teoria da inter-frase. O estudo crftico que acabamos de efetuar nao deixa de terconseqii6ncias em relacao aos dois procedimentos de construcao As vezes fala-se de uma "lingufstica do discurso" para de-de corpus que comecamos a distinguir: efetivamente, se conside- signar, na realidade, um tipo de abordagem da linguagem susce-ramos, por um lado, a via "experimental" na qual uma encena- tfvel de escapar ao menos parcialmente a certos efeitos das res-cao reproduz (com um coeficiente variaVel de imaginario) uma trigoes tedricas de uma lingufstica "tradicional" cujo principal"situagao concreta" quanto a estes ou aqueles efeitos que a ca- defeito seria o de conceber seu objeto no quadro do que a gra-racterizam40 e, por outro lado, a via "arqui vista",41 constatamos mdtica cl^ssica (e principalmente a gramdtica latina) chamou deque o problema da segmentacao do discurso nao se coloca (ou 6 "frase". Isto significa uma fixacao na estrutura do enunciado e,mais facilmente soluVel) no caso da via "experimental" e que, ao mesmo tempo, uma especie de cegueira em relacao ao que sede outro ponto de vista, a id6ia de que e" preferfvel tratar um chama atualmente de "enunciagao"; simultanearnente, a questaosistema de hipdteses realizado como um "complexo de corpus" da interfrase, sobre a qual voltaremos adiante, se acha colocada 186 187
  • 96. no centre das discussoes. Efetivamente, o fato de se levar em meira fase absolutamente indispensaVel (nao poderia haver afconta a realidade do discurso, a esp6cie de descentramento que analise sem uma teoria e uma prStica lingiifsticas), mas insufi-ela introduz na propria lingiifstica 6, como veremos, decisive pa- cientes como tal, na medida em que ela existe com vistas a umara o nosso empreendimento. segunda fase, a propdsito da qual se opera uma mudanga de ter- Contudo seria um erro considerar que a analise do discurso reno: a aplicagao nao € uma aplicagao da lingufstica sobre sicomo a concebemos seja simplesmente o exercicio desta nova prdpria (isto e uma aplicagao interna, no interior de uma dadalinguistica livre dos preconceitos da linguistica "tradicional". teoria, como no caso da informatica lingufstica que se revezaCom efeito, seria o mesmo dizer que a mudanga em relacao a com a lingufstica em um procedimento que visa a realizar esteesta ultima reside, essencialmente, num outro modo de abordar ou aquele mecanismo exposto no nfvel do discurso tedrico daseu objeto, dentro de novas necessidades impostas pela pesquisa linguistica, por exemplo um algoritmo de geragao de formasetc. Tudo isto que, de outro ponto de vista, 6 perfeitamente sinta"ticas, ou um procedimento de classificagao automdtica dosexato ainda nao atinge o objetivo que destinamos a uma ondlise tragos sintatico-semanticos de uma lista de verbos etc.), maslinguistica do discurso. Digamos que isto constitui uma das uma aplicagao da teoria linguistica em um campo exterior. Nes-condicpes necessdrias de realizagao dessa analise: falta precisar tas condigoes, 6 compreensfvel que aquele que chamamos "lin-quais sao as outras e, sobretudo, como elas se articulam entre si. giiista puro" tenha uma reagao um pouco irritada compar^vel aPara ir diretamente ao ponto principal parece titil acentuar que do artesao a quem escapa o conteudo de seu trabalho; nao deixaos lingiiistas (enquanto "linguistas puros") frequentemente vi- de experimentar como exigencies muito fortes as restric.6es im-sam como resultado de sua pratica a um discurso teorico que postas por este "campo exterior". Nesta medida, a analise depode ter a forma de uma teoria geral ou de uma monografia mas discurso, & qual se ligam teoricamente por uma dependencia deque de qualquer modo se refere a um objeto linguTstico mais ou fundagao a documentagao e a tradueao automdticas, encontra damenos especffico sob a modalidade de sua descricdo, da expo- parte da "linguistica pura" as mesmas reticencias e as mesmassicdo de seu juncionamento, da teoria dos tnecanismos que o dificuldades que estas dltunas: o ponto comum 6 constitufdoconstituent. Diante desta prdtica do lingiiista, a analise do dis- pela exigencia de uma "gramatica de reconhecimento" suscetf-curso se caracteriza por duas particularidades: a primeira 6 a de vel de responder as exigencias te6ricas internas da lingufstica e,que esta prdtica utiliza necessariamente um procedimento algo- ao mesmo tempo, as necessidades do que chamamos o "campontmico,42 o que pressupoe uma diferenga essencial na forma do exterior":resultado produzido (Observagao: trata-se aqui da analise do No que se refere a nos diremos que a gramatica de reco-discurso e nao da teoria do discurso que ela pressupoe). Neste nhecimento necessaYia a analise do discurso deve responder asentido, a analise do discurso se aproxima, como se ver£, do que dois requisites:se chama algumas vezes de "lingufstica aplicada", na medidaem que, empiricamente, observa-se nos dois casos o "recurso ao a) esta gramdtica deve poder produzir algoritmicamentecomputador". Mas esta primeira caracterfstica permanece em si uma representagao do que foi designado acima com o nome demesma insuficiente e € precise acrescentar logo uma segunda superftcie lingufstica, sendo que esta representagao produzidaespecificidade da analise do discurso, a saber, que o objeto a algoritmicamente constitui o que chamamos o objeto discursivoprop<3sito do qual ela produz seu "resultado" nao 6 um objeto correspondente;linguistico mas um objeto socio-histdrico onde o linguistico in- b) esta representagao (o objeto discursivo produzido) devetervem como pressuposto.43 E 6 esta relac,ao de aplicagao44 que, permitir um cdlculo efetudvel sobre a relagao entre os diferentesa nosso ver, determina este efeito de separagao-clivagem entre a objetos discursivos assim produzidos, com o objetivo de restituirpraiica lingufstica e a analise do discurso: do ponto de vista da o vestfgio dos processes semantico-discursivos caractef^stcosanalise do discurso, a prdtica lingufstica aparece como uma pri- do corpus estudado. 188 189
  • 97. E claro que, nas condigoes atuais de desenvolvimento da "representacoes profundas" de Dx e Dy respectivamente. Dire-teoria lingufstica, a solucao de um problema deste tipo se choca mos, por nossa conta, que a idela de fazer corresponder umacontra multiples dificuldades. E certo que, jd ha" alguns anos, "representagao profunda" a uma superffcie lingufstica (caso doexistem gramJSticas capazes de reconhecer (com vistas a docu- esquema A) coloca em jogo pressupostos psico-semanticos que amentacao ou a traducao) textos especializados em Ifngua ingle- concepcao discursiva da significacao coloca precisa e radical-sa, russa ou francesa, mas elas sucumbem ao peso das crfticas mente em causa. Efetivamente, na perspectiva do esquema A, a(no mais das vezes perfeitamente justificadas) da "lingufstica concepgao da relac,ao entre sintaxe e semantica € a de uma rela-pura", e a solugao que propusemos nao escapa mais que outra a cao inteiramente infra-linguistica, j£ que a analise representadaisto. Consideremos os dois casos que acabamos que evocar, em pela flecha horizontal ( •-) conduz, por etapas, da superffcieque esta" em jogo uma grama"tica de reconhecimento, a saber, a morfo-fonologica do texto a sua estrutura semantica ou repre-tradugao de um lado e, de outro, a documentacao ou comparagao sentacao profunda Mxy, supostamente comum a todas as Ifnguasde textos; podemos Ihes fazer corresponder respectivamente os e constituindo assim uma espeeie de ponte Idgica ou "piv6"dois esquemas seguintes cuja "evidencia" garante a estabilida- (sendo esta estrutura Idgica formada por argumentos e predica-de: dos extraidos da Ifngua Idgica universal, isto 6, da "estrutura do espfrito humano"). Na perspectiva que corresponde ao segundo esquema, ao contraYio, observa-se que a "representacao profun-A) Traducao da" (ou antes, o que a substitui, a saber a relagao R(Sx/Sy) ) nao 6 concebida como o resultado da analise lingufstica (- -0, Dx »-Mxy »Dy mas como o produto de uma operagao especffica que se efetua sobre o resultado preVio da analise lingiifstica, a saber, Sx e Sy.onde Dx e Dy representam duas "versoes" do "mesmo" texto, Tudo isto para melhor colocar em evidencia que, quando fala-nas lihguas x e y, e onde Mxy designa a "representacao profun- mos agora de "andlise lingufstica", nos situamos na segundada" subjacente comum a Dx e a Dy. perspectiva, onde Sx nao designa uma "representacao profun- da" mas simplesmente o resultado de uma delinearizagao mor-B) Documentacao e comparagao de textos fossintdtica aplicada de modo eventualmente algorftmico a su- perffcie lingufstica de partida: em outros termos, a analise que Dx- Sx designamos como "lingufstica", e que constitui a segunda fase R(Sx/Sy) da AAD que comentamos atualmente, tern como fim exclusive Dy --*Sy produzir o que foi descrito acima como objeto discursive, ex- ciuindo qualquer "representacao profunda".onde Dx e Dy representam duas seqiiencias a serem relaciona- Daqui por diante podemos reformular, precisando-as, asdas, Sx e Sy as descricoes que a analise lingufstica fornece delas duas exigencias definidas acima:respectivamente, e R(Sx/Sy) o resultado do relacionamentoefetuado pelo dispositivo comparador qu documentario. A des- a) 6 necessario que a gramdtica de reconhecimento sejapeito das aparencias grdficas sustentamos que o segundo esque- capaz, a partir de uma dada superffcie lingufstica Dx, de produ-ma 6 mais elementar que o primeiro e, para dizer a verdade, Ihe zir sua representacao morfossintatica coerente Sx, isto 6, umapreexiste logicamente: com efeito, o termo de "representacao representagao linguisticamente deslinearizada, que restitui aprofunda" que aparece no esquema "tradugao" desaparece nao-linearidade sintdtica, que 6 objeto do que designamosno segundo esquema; 6 substitufdo pela relacao entre duas como "esquecimento n- 2". A coerencia desta representasao,estruturas Sx e Sy das quais nao se pressupoe que constituam as baseada na autonomia relativa das estruturas morfossintAticas 190 191
  • 98. discurso" de F.Bugniet,47 na medida <*«, ue m("funcionamento da Imgua em relac.aoa si prdpria") pressupoe ^ - i j? q a repre-a possibilidade senao de reconstituir o texto de partida, dada a sentacao que ele fez corresponder a sequoia de partidarepresentagao dele fornecida pela gramatica de reconhecimento, € mais uma hsta de tracos (suscetivel de estudo estatfstiao menos de decidir, considerando uma representagao Sx dada, co) do que uma estrutura munida de caractensticas foraquela a qual ela corresponde (isto 6, da qual € derivada), entre mais que permitam um cdlculo algorftmico nao-trivial - A fase de "analise lingufstica" que a apHcacao da AADduas superffcies lingiiisticas cuja proximidade € tal que o estado necessita, foi descnta de maneira mais ou menos com-atual da teoria lingufstica apesar de tudo permite distingui-las. pleta em Pecheux, 1969, e sobretudo no Manual (Haro- b) Por outro lado, 6 indispensavel que a representagao Sx che-Pecheux, 1972). Logo, nao retomaremos em detalheconstitua uma entrada possivel para efetuar a comparac.ao que o procedimento de analise sintdtica aproprfado a esta fa-representamos por uma flecha vertical (cf. p.190) no esquema B. se, tanto mais que um trabalho esPecif1Camente lingufs-Digarnos ja" que esta segunda condigao, exterior a analise lin- tico acerca deste ponto esta" sendo elaboradogufstica enquanto tal, 6 a fonte de grandes dificuldades que se Todavia pareceu-nos necessa"rio recordar brevemente osresumem defmitivamente no fato de que e", ao que parece, muito caracteres principais da fase lingufstica da AAD, aparentada nodiffcil comparar estruturas complexas entre si, com a ajuda de essencial as perspectivas de S.Z.Harris. Poderfanios resumir di-procedimentos algorftmicos. zendo que o procedimento (concebido como suscetfvel de apli- Nao tentaremos descrever aqui as diferentes soluc.6es cacao algorftmica) consiste em produzir, dada uma sequencia deatualmente utilizadas ou consideradas; sem nenhuma pretensao a comprimento variavel, uma representacao desta seqiiancia naexaustividade, mencionemos simplesmente: forma de um grafo conexo, valorado e de s6 raiz cujos - Os analisadores sintaticos baseados nos "sistemas-Q" pontos sao constitufdos por erwnciados elementares de dimen- (Colmerauer, Vauquois) e as representac.6es de tipo "pi- sao "canonica" e cujos arcos sao relacoes que conectam dois a vo 2" (Equipe TAL de Grenoble),45 que parecem ter dois certos enunciados, sendo que estas relacoes podem tomar como propriedade comum o ato de realizarem ou de te- diferentes valores (de determinacao, como no caso da relativa rem sido concebidos com o objetivo de realizar de ma- da adjetiva ou do objeto direto; de subordinagao-coordenacao no neira algorftmica os procedimentos antigamente pro- caso das diferentes relacoes temporais e/ou l<5gicas que podem postos por Tesniere (Elements de syntaxe structurale, afetar um par de enunciados). Klincksieck, 1959), articulando dependencias hierarqui- Exemplo: zadas em filiagoes num ponto inicial constitufdo em ge- ral pelo verbo. — Os dispositivos de anaUise sintdtica diretamente inspira- dos nos trabalhos de Harris (compreendidas af as "string grammars") que se baseiam na extragao de "esquemas- Os enunciados elementares sao ndcleos" (NV, NVN, NVPN etc.) e na distinc.ao entre aqui designados pela sequencia cadeia central e adjungoes.46 de nUmeros inteiros e a valora- - As gramaticas de caso desenvolvidas a partir dos traba- gao dos arcos que os ligam 6 lhos de Fillmore (ver principalmente Slakta, 1974) sobre marcada por letras gregas. base gerativo-transformacional. - Pelas razoes expostas acima, nao incluiremos nesta enumerasao o procedimento de "analise lingufstica do GlC... 193 192
  • 99. Se tentamos caracterizar a especificidade deste procedimento, SV: formado pela composicao V + ADV (vert,o .parece importante insistir nos dois aspectos seguintes: bio = VA) e pelo sintagma nominal objeto SN2> eventualmente a) Diferentemente das arvores, arborescencias ou grafos introduzido por uma preposicao P (derivando entao com ele doprdprios das grama"ticas gerativo-transformacionais de Harris ou sfmbolo SP).de Chomsky, os nds (ou pontos) nao sao aqui categorias sintdti- Acrescentemos que DET2 pode tamb6m ser vazio, espe-cas pre"-terminais ou terminals (do tipo GN ou DET etc.) ou uni- cialmente no caso em que SN2 € adjetival, e que escolhemosdades lexicais, mas espe"cies de relacoes-pontos ou, se quiser- convencionalmente representar a preposicao vazia introduzindomos, subgrafos reduzidos a um ponto no mvel da estrutura do o complemento de "objeto direto" por *, o vazio diante do "a-grafo que representa o conjunto da seqiiencia. Isto quer dizer tributo" por "a"49 e a cdpula subentendida na determinacaoque ha" dois sistemas imbricados um no outro: o sistema dos adjetiva50 etc. por "E". Vemos facilmente que estas disposicoesenuneiados e o das relafoes inter-enunciados, de tal modo que permitem reconslruir os seguintes "esquemas-nucleos":os objetos do primeiro sistema servem de elementos para a 1) SNj SV O O Pedro dormeconstruc,ao dos objetos do segundo. Assinalemos que no domi- 2) SN! SV * SN2 Pedro come o bifenio das teorias gerativas, a estrutura deste subgrafo48 poderia ser 3) SNi SV P SN2 Pedro se debruga na janelarepresentada da seguinte maneira: 4) SNX SV a A Pedro parece estupefato 5) SNj E a A O chap^u € bonito—-»O bonito chap^u 6) SNX E P SN2 O chap<5u € de Pedro---*O chap^u de Pedro 7) SNi SV a SN2 Pedro 6 professor 8) SNj SV p SN3 Pedro come com um garfo Podemos aqui em diante precisar o que entendemos quan- do falamos da imbricagao de dois sistemas. Sejam com efeito os fenomenos sintdticos classicamente conhecidos desde as gra- rn^ticas gerativas pelo nome de "encaixe" ou "imbricacao" (re- cursividade): na perspectiva destas gramaticas, o encaixe 6 re- presentado como uma complexificagao do grafo do enunciado DET, (cf. p.193), do modo que, passo a passo, o enunciado £ a matriz da frase como uma forma abstrata e despojada e" o esqueleto docom corpo acabado. Em outros termos, menos figurados, pode-se di- E : enunciado elementar zer que a imbricacao (e de modo mais geral a recursividade) 6 a ESN : esquema-nucleo, sobre o qual se exerce uma se"rie condigao que assegura a homogeneidade te6"rica e metodoldgicade determinac.6es verbals por intermedio de F entre o enunciado e qualquer formac,ao mais complexa, de tal F : forma do enunciado, contendo indicates morfossinta- modo que, todas as relagoes se efetuam man mesmo sistema,ticas acerca da voz, do estatuto, do modo e do tempo gramati- que se marca pelo encaixe do grafo do enunciado determinantecais do enunciado. no grafo do enunciado matriz. Ao contrario, no caso do proce- dimento que estamos expondo, a decisao de nao reintroduzirESN = SN1 e SV enuneiados no interior do enunciado supoe que a questao da re- cursividade seja regulada de outro modo (a saber, pela passagem SNj: sintagma nominal sujeito, formado por um determi- do primeiro sistema, intra-enunciado, ao segundo sistema, dasnante (eventualmente vazio) e um substantivo. entre enuneiados). E colocar no mesmo ato que o enun- 194 195
  • 100. ciado EJ pode determinar um outro £2 por uma relagao dissi- Este esquema, de forma combinatdria, 6 o seguinte:metrica que equivale a uma imbricac.ao de Ej em £2, e mais ge- iralmente que uma porcao do grafo que organiza vaVios enuncia- T QUEdos pode equivaler a um ponto do grafo geral; isto constitui, de ETfato, o segundo ponto caracterfstico que gostanamos de apre-sentar com alguns detalhes. b) Este segundo ponto se refere as relacoes entre enuncia- Observaremos que a escrita parent6tica abaixo € estrita-dos como relacoes de dominancia. Seja a seguinte frase: "Pare- mente equivalente:ce-me que a Igreja fica nas nuvens e que esquece das dificulda-des e dos problemas da vida". Podemos extrair daf os seguintes 1 QUE (2 E ((3DT4) E (5 DT6»)enunciados: Quando comentarmos a fase 3, retomaremps a questao de 1) Parece-me que S (= alguma coisa), saber se um procedimento algorftmico de comparaQao poderia se 2) a Igreja fica nas nuvens, efetuar sobre representacoes deste tipo;51 contentemo-nos por 3) a Igreja se esquece das dificuldades, enquanto em expor o sistema de transformacoes pelo qual pas- 4) as dificuldades (sao) da vida, samos da representacao acima para um grafo de enunciados li- 5) a Igreja esquece dos problemas, gados por relacoes binarias, como foi dito acima. 6) os problemas (sao) da vida. Se, a!6m disso, colocamos os conectores QUE, E e DT Sejam as duas condi^oes seguintes: (este ultimo conector servindo para marcar a determuiacao de um enunciado sobre o N de um outro enunciado), € claro que se a) pode representar a seqiiencia inicial da seguinte maneira: b)sequencia = 1 QUE /A/ /A/ = 2 E /B/ /B/ = /C/ E /D/ /C/ = 3 DT 4 Observe-se que se Ihes aplicamos o esquema se torna: /D/ = 5 DT 6 1 I QUE onde se constata que os enunciados sao relacionados com cons- trugoes de enunciados, indicadas pelas maitisculas /A/, /B/ etc., e que se imbricam uns nos outros. Entretanto € possfvel representar estas dependencias por * I um esquema comportando apenas enunciados e relagoes entre enunciados, isto e", onde as construcoes intermedi^rias /A/, /B/ Impoe-se entao uma constatacao, a saber, que o carater etc. nao aparecem mais como tais, o que constitui, a nosso ver, distributivo do "QUE" em rela$ao aos enunciados da constru- uma condic.ao indispensavel da fase 3 do tratamento informStico, cao /A/ desapareceu; logo, 6 necess^rio que se restabelecam as ligacoes existentes entre 1 e 3, e 1 e 5. (Recordemos que estas de que falaremos adiante. 196 197
  • 101. ligacoes assim restabelecidas recebem o nome de "saturacoes"). 2.2 Crftica da fase de analise lingufstica da AADChegamos desta maneira a um grafo saturado como o que se se-gue: Ap6s recordar quais eram, para nos, os objetivos da fase 1 de analise lingiifstica do discurso e a maneira global pela qual, QUE QUE no momento, tentamos realizd-los, podemos, daqui por diante, DT _ A expor as diversas crfticas formuladas acerca deste ponto, sem terner confundir uma crftica justificada, de nosso pr<5prio ponto de vista (crftica que pode ser vital para a analise do discurso le- var em conta em sua teoria e sua prdtica), e uma "crftica" que camufla na realidade uma regressdo te6rica para aqu&m da teoria do discurso. Evidentemente esta questao se coloca sobretudo no que se Os dados de entrada da fase 3 sao, pois, em definitive: refere as crfticas de ordem geral que visam o conjunto do pro- a) a lista dos enunciados elementares, sendo cada um, co- cesso de analise; por isso, comegaremos por este tipo de crftica,mo jd foi dito, uma seqiiencia e 8 categorias "morfossintiticas mais precisamente pela questao da manipufacdo implfcita domunidas de seu valor respective; texto por consideracdes semdnticas dissimuladas. Este ponto aparece independentemente, em formas bastante prdximas, nos F DETj N, V ADV P N 2 diferentes comentadores, em particular em A.Trognon, S.Fis-noooo t S PARECER 4 A EX3O cher, E.Veron e Borillo-Virbel. Distinguiremos, aqui, dois nf-2)0000 L IGREIA FICAR 0 EM LS NUVEM veis de crftica, mostrando por que um € aceitaVel e o outro nao. ESQUECER j) * LS DIFICULDADE3)0000 R IGREJA L V1DA O primeiro nfvel consiste em acentuar que, na analise dita "mor-4100J052 R DIFICULDADE E ft DE5)0000 R IGREJA ESQUECER (1 * LS PROBLEMA fossintdtica" tal como foi apresentada, intervem, inevitavel-610040 R PROBLEMA E t DE L VIDA mente, consideracoes habitualmente chamadas "semanticas", e que estas consideragoes, permanecendc impUcitas, possibilitam que toda a analise seja por elas afetada, na forma de incoeren- cias que dissimulam ds fen6menos, ou, pelo contrArio, produ- b) a lista das relagoes bindrias: zindo artefatos com conseqiiencias nas fases ulteriores do pro- cessamento da AAD. Digamos claramente que reconhecemos1 QUE 2 esta crftica como perfeitamente justificada. Ela se refere a nossa1 QUE 32E 3 problematica, e num ponto vital enunciado precedentemente co-1QUE5 mo a primeira condigao a ser preenchida por uma gramatica de3DT 4 reconhecimento: se, com efeito, intervem na analise "operagoes5DT 6 sem^nticas nao-definidas" (Fischer-Veron, 1973, p.167), no mesmo ato, a coerdncia e a estabilidade dos resultados sao atin- gidas de modo que nao € garantida a reprodutibilidade da repre- sentacao associada a uma determinada seqiiencia, o que, conse-OBSERVACAO: teremos notado, na coluna DETj, a presenca quentemente, coloca em causa a condigao de bi-univocidade ex-da forma "R" que significa a retomada de uma determinacao pressa pela primeira condigao. Neste sentido, estamos totalmente de acordo com a crftica de Fisher-Veron: "se o metodo (de ana-precedente. lise lingiifstica) impede a localizacao de certas propriedades, 198 199
  • 102. estas jamais serao recuperadas" (art. cit., p.167), em outras pa- que a Ifngua e" "sua pn5pria meta-lfngua" para se espantar com lavras, uma simples "codificac,ao" estenogrSfica da superffcie, isso! Logo, digamos de uma vez por todas que as crfticas sobre filtrando o que 6 importante reter e o que pode ser deixado de a aparigao de um "verbo" (E) nao-atestado na superffcie, bem lado, nao satisfaria a "primeira condigao"; e 6 precise reconhe- como assim as leituras apressadas que colocam no mesmo piano cer efetivamente que certas questoes de teorias lingufsticas nao- as operates de lematizagdo-e mesmo de redugao ortogrSfica - eresolvidas afetam a analise, e nao apenas perifericamente, mas as transformagoes sintdticas, nao nos parecem admissfveis). no prdprio principio do processo, como mostraremos em segui- Por outro lado, € evidente que o dispositive de analise da. sintdtica continuarS ainda por muito tempo em evoluc,ao (o que Nestas condigoes, nos consideramos ainda mais funda- quer dizer que sua realizacao na forma de um autfimato seriamentados a criticar a crttica que nos € feita num segundo mvel, provavelmente do tipo "experimental"), de modo que certas in-que 6 a da relafdo entre a semantica e a lingufstica j£ referida coerSncias "locais" serao progressivamente eliminadas. A esseacima a propdsito da dupla "categoriza$ao" (na terminologia de respeito, daremos como exemplo a confusao entre os conectoresBorillo-Virbel). Quando, por sua vez, S.Fisher e E.Veron des- "porque" e "j£ que" o ressaltado independentemente por Bo-qualificam nossa perspectiva pelo fato de ela estar "sempre as- rillo-Virbel e por Fisher-Veron a propdsito de um texto apareci-sociada a pretensa diferenc,a entre sintaxe e semantica" (1973, do em 1971, e que desaparece na nova lista dos conectores pu~p.167. Grifo nosso) fazem "como se" fosse uma aquisigao re- blicada em Haroche-Pecheux, 1972.54 Entretanto, estamos longecente e decisiva da lingiiistica contemporanea ter reinscrito a de pensar que esta heterogeneidade se reabsorverS assim pro-semantica no campo da lingufstica, a ponto de torna"-la uma rea- gressivamente, por uma esp£cie de "reformismo", roendo pa-lidade intralingufstica. Acerca deste assunto,53 nao podemos, cientemente o campo dos problemas que permanecem em sus-evidentemente, aceitar as crfticas que nos sao feitas; apenas re- pense. Achamos, ao contrario, que as dificuldades que encon-metemos ao que j£ foi dito aqui mesmo. tramos (e que encontram todos os projetos de ana"Hse sintatica) Voltemos, pois, ao que chamamos "o primeiro nfvel de constituem um bloco tenaz e consistent^, baseado em grandecntica", que nos parece inteiramente justificada de nosso prd- parte no que se pode chamar a dominagao tedrica da frase. Nesteprio ponto de vista, com a intengao de determinar o de que se sentido, nao basta simplesmente um ato de boa vontade tetfrica,trata, para eventualmente definir os princfpios que permitam que aceda a uma "abordagem sem preconceito" (Fisher-Veron,remediar as dificuldades reconhecidas. Certamente concordamos p.169), mas uma tfansformagao do prdprio objeto da lingufstica.com G.Provost-Chauveau em reconhecer a heterogeneidade das No texto de 1969, a necessidade de um estudo se*rio da inter-referencias lingiifsticas que traduz a ausencia de uma reflexao frase era mais evocada do que realmente empenhada (cf. AADtedrica global acerca dos fenomenos sintAticos. Como observa- 69, p.44 ss.), O atual desenvolvimento das pesquisas lingiifsticasmos no comego, fomos ao mais urgente, com os meios de que e a ligagao que progressivamente se estabelece entre a inter-fra-disptinhamos, e sabendo exatamente que as "soluc,6es" lingiifs- se e a pardfrase no domfnio das "lingiifsticas do texto" que apa-ticas que propdnhamos eram outras tantas "provocacoes" ende- receram permitem pensar que a lingufstica tomou, hoje, o cami-regadas aos "Hngiiistas puros" para que delas fizessem uma crf- nho da solu§ao deste problema que, como dissemos, comandatica transformadora. Assinalemos todavia que esta heterogenei- um grande nrimero de outros. A este aspecto se junta, igual-dade tedrica, geradora de incoerencias e artefatos, que fazem mente, a diffcil questao das andforas, que coloca em jogo neces-com que todas as "solugoes" nao tenham a mesma "idade tedri- sariamente fendmenos sintdtico-semanticos complexos que Com-ca", nao deve ser confundida com a inevita"vel combinagao de binam a localizagao das ligac.oes entre pronomes e substantives,caracterfsticas morfoldgicas e sintdticas nem tampouco com a a consideragao dos deslizamentos e das oposic.6es lexicais, aexperiencia, na representa$ao, de termos lexicais e de meta- construgao da imagem de uma proposisao (representada portermos como *, S, X, E etc. (com efeito, seria necessaVio ignorar "S") etc. Ora, os exemplos de anaforizagao dados no Manual de 200 201
  • 103. 1972 constituem apenas um caso relativamente privilegiado do Evidentemente, esta dominacao tedrica da frase nao deixafenomeno, por causa de sua simplicidade: bastante facil mostrar de ter conseqiiencias no pr6prio nfvel dos constituintes do enun-os casos de anaforizac.ao que colocam problemas de restabele- ciado. Lembraremos os casos de ADV, P, DET e F, sem querercimento autom£tico dificilmente soluveis. Citemos, por exemplo: dizer com isso, de resto, que as outras "categorias morfossinta- ticas" nao colocam problemas! — um substantive anaforizado por um novo termo lexical, - ADV: esta categoria 6 apresentada explicitamente como - uma proposigao inteira anaforizada por um novo termo provis6ria; € claro que nao se poderia atribuir aos adve"rbios uma lexical, dnica forma de tratamento. Parece necess^rio distinguir entre os — a anaforizac.ao por oposigao (ex.: "o assassino, Jean *adv^rbios" que funcionam como qualificadores de marca de Dupont"), parada e aqueles que se aplicam a urn enunciado em seu con- — a anaforizacao "vazia", mas sustentada por uma opera- junto, ou ainda ao predicate, ou a um adjetivo. Esta simples C.ao de determinacao suplementar, como em "os estu- consideragao impoe, para um tratamento correto do adve"rbio, dantes estavam reunidos. Alguns.../ aqueles que... / que se coloque, em relacao o seu funcionamento de um lado Uns...."55 com os conectores e de outro com as modalidades.56 Por outro lado, 6 precise levar em conta o duplo estaruto morfolbgico do adve"rbio, que remete ao mesmo tempo a uma classe fechada e a Sem subestimar a importancia das dificuldades que acabam uma derivacao adjetival por meio do sufixo "-mente".de ser mencionadas, acreditamos, entretanto, que ainda naoatingimos com elas o ponto central que arrasta em sua sucessao — P: a solugao adotada atualmente consiste em tratar dife-todas as outras dificuldades. Ora, este ponto central, no qual "a rentemente o "complemento preposicional obrigatdrio ligado aodominac,ao tedrica da frase se exerce", nao 6 outro senao o pres- funcionamento sintatico do verbo e o complemento circunstan-suposto tedrico que reune^ose, proposigao e enunciado. E so- cial, no caso em que a construgao sintatica autoriza sua supres-bre este ponto, e com toda razao a nosso ver, que as crfticas fo- sao" (Manual, p.34). Na pr^tica, tal posigao nao funciona semram mais numerosas e mais pertinentes; em seu princfpio, elas alguma dificuldade, nao sendo sempre muito nftida a fronteiraconsistem em sublinhar que esta fase de analise sintatica coinci- entre os dois tipos de complementos preposicionais, e a escapa-de praticamente com a de uma "analise Idgica" tradicional, co- tdria, que consiste em registrar as duas construgoes em caso demo o indica, alids explicitamente, a parte correspondente do ambigiiidade, nao resolve fundamentalmente a dificuldade.57"Manual"; ela repousa, de fato, na ideia de uma organizagao aomesmo tempo hierarquizada (principal/subordinada) e seqiien- — DET: no estado atual do processo trata-se, em grandecial (coordenagao) da frase em proposigoes. Esta concepgao, parte, de uma codificagao de superffcie, que deixa completa-que se ap6ia na noc.ao de um tecido formado de n6s constituindo mente & parte a questao crucial da referenda no discurso. E deoutro tanto de "graos de enunciagao", redunda, na pratica, em se assinalar que uma tentativa, visando precisamente a ultrapas-"casos de consciSncia" do analista, ligados ao carater arbitrario sar este est^gio, foi objeto de um artigo publicado em 1970do recorte, oscilando entre o desejo de representar fielmente a (C.Fuchs e M.Pecheux in Considerations th^oriques & propos durealidade lingufstica e a necessidade de "dar uma maozinha", o traitement formel du langagel Documents de linguistique quan-que pode levar a "enunciados elementares" nao-enunciaVeis, titative n- 7, Dunod) de que falaremos mais adiante. As dificul-nao-afirm<Sveis e ate" mesmo simplesmente nao-interpretaveis. dades de aplicac.ao prdtica das solugoes propostas neste artigo seAssinalemos, para lembrar, o caso classico dos predicados com referem, entre outros, aos problemas ligados & construgao domais de dois argumentos obrigatdrios, que ainda espera uma objeto de chegada chamado "lexis" a partir da sequencia anali-solugao satisfatdria. sada. 202 203
  • 104. — F: numerosas crfticas foram igualmente dirigidas endere- relagao entre as fases 2 e 3, para examinar se as duas condigoesgadas a "categoria" Forma, na medida em que ela reagrupa que colocamos anteriormente encontram sua relac.ao em disposi-elementos morfoldgicos, sintaticos e semanticos muito dispara- goes ao mesmo tempo necessdrias e suficientes, e que solugoestados. For outro lado, nao € levada em consideragao a ligagao, novas se nos oferecem no caso de uma resposta negativa a essacada vez mais evidente, com o sistema dos determinantes; enfim, questao.todas as "formas" estao em um nfvel homogeneo, em relagao aosistema dos enunciados, o que exclui qualquer hierarquizagao equalquer imbricagao ou composigao destes, numa perspectiva 3.1 Aspectos principals do processo de des-sintagmatizagaoque levaria em conta as relagoes de "profundidade estrutural"58 discursiva, dita "fase 3"entre os enunciados. Enfim, a"dominagao teorica da frase" (e da teoria implfcitado enunciado que ela sustenta) apresenta conseqiiencias nao- Nos consideramos que, tendo a fase 1 determinado as con- digoes de produgao (ou, como vimos, de preferencia, dos) cor-negligenciaVeis sobre as relagoes inter-enunciados. Quanto a is-so, deve ser, de novo, trazida a baila a distingao estabelecida pus, e tendo-os realizado materialmente sob a forma de uma fa- mflia de "superffcies lingiifsticas", e tendo a fase 2, por sua vez,entre os conectores de determinagdo (do tipo "delta") e os co- feito corresponder a cada uma dessas seqiiencias lingiifsticas suanectores de coordertagao-subordinagao (do tipo "phi"), na me- representagao dessuperficializada, estaremos em presenga de ndida em que as transformagoes permitem passar de um conector corpus suscetiveis de constituir as "entradas" da fase 3, n a me-a outro, em particular por intermedio da preposigao. Disso re- dida em que cada um destes corpus 6 composto de duas listas, asulta uma heterogeneidade de nfvel que reflete o fato de que os saber, a lista dos "enunciados elementares" (EN) e a lista das" ^ " recobrem, sem diferencia-las, relagoes sintdticas relati- "relagoes binarias" (RB)61 que corresponde ao conjunto dosvamente diferenciadas no nfvel dos " *& ". Inversamente, sao grafos que constituem o corpus. Deixando de lado todas as pre-colocadas relagoes nos "b" que nao sao consideradas nas ccne- caugoes a serem tomadas para que os dados EN e RB nao con-xoes verbais.59 tenham erro62 (processamento de normalizagao puraiiKnte me- canogrdfico dos dados, renumeragao — dos ndmeros — dos enun- ciados, por exemplo), nos contentaremos em expor as duas partes fundamentals deste processamento, a saber:3. A cmdlise do processo discursivo — uma comparagao das estruturas "grafos" introduzidas como dados por uma varredura "ponto a ponto% desti- A terceira fase se refere, assim como indicamos mais aci- nada a munir cada um destes pontos de comparagao dema, ao conjunto das operagoes de "des-sintagmatizagao" discur- uma caracterfstica matem^tica que exprima o resultadosiva, a deslinearizagao lingiilstica que foi efetuada antes, isto 6, da comparagao,pelas operates da fase 2. — um processamento de reconstrugao de subestruturas, a Come9aremos lembrando os aspectos principals desta fase, partir da informagao obtida na primeira parte do proces-sob a forma com que € atualmente executada pelo programa de samento. Descrevamos sucessivamente essas duas subfa-calculo que a realiza.60 Em seguida, assinalaremos as diferentes ses:crfticas formuladas acerca deste procedimento, sugerindo diver- a) A primeira consists em efetuar uma comparagao siste-sas possibilidades capazes de remedia-las, ao menos parcial- mdtica ponto por ponto, tomando a relagdo bindria como uni-mente. Ftnalmente, colocaremos tamb^m a questao mais geral da dade de comparagao. 204 205
  • 105. Deve-se acentuar que esta varredura pode tomar vdrias A segunda restrigao mencionada a respeito do processo deformas, em funcao das condigoes pr6vias introduzidas: de fato, comparagao "ponto por ponto" entre relagoes binarias se refereal em do caso em que todas as relacoes binarias do corpus sao a natureza dos conectores das duas relagoes consideradascomparadas umas com as outras, pareceu interessante restringir Atualmente, 6 possfvel ou efetuar todas as comparacoes entrea comparagao de dois modos que podem, ali^s, se associar. A RB (evidentemente nos limites da primeira restrigao), ou restrin-primeira restrigao consiste em so" efetuar a comparagao de um gir esta comparagao aos pares de RB que apresentam um co-discurso com outro, o que se constitui de fato numa decisao nector identico. Esta dltima opgao, que corresponde as disposi-oposta a de Harris que, como se sabe, definiu o processo de goes descritas na AAD 69 (construgao das "classes-psi") e queandlise de discurso em referenda a um so texto, isto 6, em refe- era obrigatdria na versao inicial do programa Fortran (Paris) erencia a um funcionamento intratextual; assim procedendo, em sua versao Algol W (Grenoble), foi objeto de crfticas na me-Harris se orienta pela hipdtese implicita de acordo com a qual dida em que o tratamento particular dos conectores os exclufa,um texto se repete, reproduz sintagmaticamente estruturas que de fato, do processo de comparagao, j£ que a distancia entrepodem ser superpostas pela operagao de analise, chegando a pa- dois conectores so" podia ser considerada nula, no caso da iden-radigmatiza-las. Isto explica por que Harris concede uma im- tidade pura e simples dos conectores, ou muito grande a prioriportancia metodologicamente privilegiada aos textos de propa- para conservar qualquer interesse na comparagao entre duas RB,ganda ou de publicidade e, em geral, as formas "estereotipa- que nao era efetuada no caso de conectores diferentes.das" da discursividade. Nesta perspectiva isto corresponde a ne- Agora podemos recordar brevemente em que consiste acessidade de que o texto seja seu pr&prio dicionario, enquanto, comparagao "ponto por ponto". Coloquemo-nos nas condigoesna perspectiva que descrevemos atualmente (e cuja filiacao evi- em que duas ordens de restrigao sobre a varredura nao funcio-dente com as pesquisas de Harris foi inumeras vezes sublinha- nam. Observamos facilmente que, se a lista das RB cont6m "n"da), 6 o corpus que desempenha este papel de auto-diciondrio: e relagoes binarias, haverd n(n-l)/2 comparagoes levando em6 de fato, na passagem da intra para a inter-repetitividade que a conta o fato de que nao se compara uma RB a ela mesma (o quedessubjetivizagao da discursividade, preparada pelo trabalho de nao exclui a comparagao de duas RB identicas entre si!), e deHarris, encontra suas verdadeiras condigoes de realizagao. O que o resultado da comparagao C(RI/RBj) & iddntico ao de sentido metodoldgico da restrigao aqui exposta 6, pois, o de C(RBj/RBi). Observemos que cada um destes pontos de compa-permitir o estudo do efeito da diferenga entre uma comparagao ragao tera" a formainter-discurso (na qual um discurso nao € comparado a ele mes-mo, isto 6, na medida em que duos subsequencias, pertencentes Em Ki Ena este discurso, sao aproximadas por intermedio de uma outrasubsequSncia que pertence a um outro discurso), e uma compa- Ep Kj Eqragao na qual esta aproximagao entre as duas subsequenciasconsideradas 6 operada diretamente. Pode-se, alias, procurar as Recordemos enfim que, atualmente, a proximidade que ca-condigoes as quais deve responder um corpus para que a escolha racteriza um ponto de comparagao 6 calculada da seguinte ma-de uma ou outra das duas opcoes assinaladas nao exerga rtenhu- neira:ma influencia nos resultados: € nesta diregao que parecem seorientar, em parte, os trabalhos de M.Dupraz e C.Del Vigna Sejam de um lado os dois enunciados a esquerda (Em/Ep)(1974); essa pesquisa deveria permitir a expressao precisa de e de outro os dois enunciados & direita (En/Ep): a cada um des-certos aspectos formais que caracterizam a autonomia de um tes dois pares de enunciados pode ser associado um vetor boo-processo discursive, pela diferenga entre sua inter e intra-repe- leano que exprime, por uma sucessao de 0 e 1, o resultado datitlvidade.63 comparagao, coluna por coluna, dos conteddos literals dos dois 206 207
  • 106. mesmos numeros de ordem na lista dos enunciados) aos (objeto de nfvel 1), que permanece sintagmatica e para- dois enunciados a direita do outro. digmaticamente isolado, se torne uma cadeia de com- primento 1, isto 6, um objeto de nfvel 2, e depois um Exemplo: domfnio formado de duas sequencias, quer dizer, um objeto de nfvel 3.Em En En Es Em En Es c) Mencionemos um iiltimo aspecto do procedimento atual antes de voltar a seu resultado central, a saber, a representaqao K + K1 > K K do processo discursive pelos "domfnios semanticos" cujo modo de gerar acabamos de expor. Trata-se da constituigao de umEp Et Et Ev Ep Et Ev "quadro das relagoes entre domfnios", do qual lembraremos apenas os dois tipos de informacao que fornece, que poderiarn quadruple quadruple infcio de cadeia ser designadas respectivamente como relacoes paradigmdticas, 1 2 definindo as relacoes de intersecgao e de inclusao entre domf- nios e relagoes sintagmdticas, caracterizando o andamento prd- Assim se gera um "quadro de cadeias" a partir do quadro prio ao processo discursive do corpus. Digamos simplesmentedos quadruples. Recordemos ainda uma vez que os quadruples que as primeiras relagoes conduzem a construgao de reagrupa-residuals que permanecem "solteiros" sao integrados, no fim mentos de domfnios (ou "hiperdomfnios"), enquanto as segun-desta operagao, ao conjunto das cadeias (na qualidade de "ca- das permitem tra^ar o grafo do processo discursivo, grafo cone-deias de comprimento 1", na terminologia do programa realiza- xo, nao-valorado, cujos nos sao constituidos por domfnios oudo em Grenoble). por hiperdomfnios. - Os domfnios correspondem a fase paradigmdtica da re- Retomemos entao a questao que deixamos em suspense, construgao sendo que a regra de sua formagao pressupoe isto 6, a questao dos "domfnios" enquanto elementos de base a definigao intermediaria da "seqiiencia" como meia- pelos quais 6 obtida uma representagao do processo discursivo: cadeia. Desse modo, distinguiremos, na cadeia acima, as na forma atual dos resultados constatamos que os "domfnios duas sequencias "Em, En, Es" e "Ep, Et, Ev". Lembra- semanticos" se apresentam como reagrupamentos de n subse- da esta definigao intermediaria, diremos que as duas ca- quencias extrafdas do discurso do corpus, atrav£s da deslineari- deias pertencem a um mesmo domfnio se elas tiverem zacao sintatica fornecida pela segunda fase. Estes n objetos es- tao, por construcdo, numa reiacdo de substituicao cuja natureza uma sequencia em comum. Aplicando esta regra, vemos que se podem aproximar num mesmo domfnio sequen- nao e mais especificada, no processo que acabamos de descre- cias que nao foram diretamente formadas de quadruple. ver. No infcio (Pecheux, 1969), pensdvamos que estas substitui- Diremos entao que esta aproximagao se efetua por tran- goes eram necessariamente indices de equivalencia, em outros sitividade, lembrando bem que esta transitividade 6 im- termos, que as n sequSncias de um domfnio constituem nformas posta pela regra de formagao dos domfnios, e de modo semdnticas equivalentes de uma mesma proposigao, no sentido algum constatada como uma propriedade "demonstra"- Idgico do termo.65 vel" do objeto-domfaio. Enfim, € evidente que, como Desde a publicagao do Manual, chamamos a atengao para anteriormente, as cadeias que nao sao associadas a uma o fato de que as relac.6es de substitui?ao a que chegaVamos des- outra cadeia para formar um domfnio sao integradas ao se modo nao parecem poder se reduzir a simples equivalencia; "quadro dos domfnios", no fim desta etapa do proces- foi entao que fomos levados a distinguir dois tipos fundamentals samento. Desta maneira, nao 6 raro que um quddruplo de substituigao, a saber: 210 211
  • 107. T 1) As substituigoes "simetricas", tais que, dados dois Todos estes pontos serao retomados e desenvolvidos num tra-substitufveis (morfemas, sintagmas ou enunciados) A e B, o ca- balho que esta" sendo realizado e que tem como tema as relagoesminho que conduz de A a B 6 identico ao que conduz de B a A, entre semantica e processo discursive.67o que pressupoe uma eqmvalencia A = B, de tipo dicionaiio, ou Terminaremos este comentdrio acerca dos atuais processesum efeito contextual equivalente. Neste primeiro caso, A 6 con- de dessintagmatiza^ao discursiva lembrando a significagao detextualmente sinonimo de B, ou entao, £ uma sua metaTora ade- v^rias "opcoes" introduzidas mais ou menos recentemente:quada (e reciprocamente para B em relagao a A), no caso emque esta equivalencia € produzida no pr<5prio processo, sem serreferfvel a um efeito de tipo diciona"rio. — o processo chamado de "compactagem", que permite submeter & analise o corpus (A + B), apes haver efe- 2) As substituicoes "orientadas", isto €, aquelas em que o tuado a analise distinta de A e de B, e portanto ap<5s tercaminho de A a B nao 6 id£ntico ao caminho de B a A. Neste estudado sistematicamente as diferengas entre os doisultimo caso, os substitufveis nao sao equivalertt.es, mas se pode corpus, e, em particular ap<5s ter deterrninado os domf-passar de um a outro, "deduzir" um do outro. Em outros termos, nios que pertencem especificamente a A e a B, aquelesA e B estao numa relacao que, em seu nfvel mais geral, pode ser que resultam da aglomeragao de domfnios de A e de B equalificada de meton&nica. A existSncia desta "relagao nao-si- aqueles, enfirn, que sao produzidospe/a compactagem Ame"trica de dedutibilidade" entre A e B remete, a nosso ver (cf. + B;Haroche-PScheux, 1972, pp.47-49), a possibilidade de uma sin-tagmatizagao A + R + B (ou B + R + A), onde R (e R) re-metem a existencia de uma relagao sintAtica entre os dois ele- — a distingao entre as duas modalidades de comparagaomentos A e B. Desse modo, dado o resultado bruto: das RB (inter-discurso, apenas, ou inter e intra-discur- so) abre caminho, ao que parece, para importantes pes- A = uma cata"strofe aconteceu quisas para a caracterizagao da repetitividade, da este- a abertura da porta reotipia de um corpus, estudando em que medida ele se reproduz parcialmente a si prdprio. Nao se exclui que B = as pessoas evitam esta problema"tica tenha uma ligacao com o discwso do outro no interior mesmo do discurso do locutor;levantamos a hip6tese de uma sintagmatizacao implfcita entre Ae B, do tipo: "e porque uma cata"strofe aconteceu em X que as — a integragao dos conectores no ca"lculo da distancia entrepessoas evitam X", que devemos supor ser formulada em algu- duas relacoes bin^rias levanta, como dissemos, uma di-ma parte (nao necessariamente no corpus estudado), o que nos ficuldade freqiientemente assinalada. Em todo caso, aleva a colocar a questao a respeito daquilo que, no "exterior es- relacao entre os diferentes tipos de conectores nao foipecffico" de um dado corpus, intervem nas substituicoes nele ainda estudada do ponto de vista de sua substituibilida-produzidas, com o fim de orientS-las.66 O resultado e" entao con- de; este estudo teria eventualmente efeitos de retornovencionalmente representado assim: neste ca*lculo permitindo associar um valor a cada par de conectores que se encontram em co-ocorrencia. Isto pressuporia uma tabela cartesiana de conectores, inte- A abertura da porta. grando os valores para cada par, as relac,6e$ de compati- B bilidade e de permutabilidade (tais como Ea Ri Eb —^ t t Eb Rj Ea). 212 213
  • 108. T3.2 Crftica ao procedimento atual, com base nas entradas EN — sa de um enunciado numa sequencia, no sentido que acabamos RB. de dar a este termo no paragrafo 3. Seja, com efeito, o quSdru- plo: Para a exposigao destas crfticas retomaremos o mesmo pia-no seguido no dltimo paragrafo, mencionando de infcio que, demaneira geral, foi o carrier relativcunente arbitrdrio dos proces- Ea Ebses efetuados o que foi mais frequentemente criticado. Em re-cente artigo, J5 citado, Borillo e Virbel observam que muitas Koperagoes "sao consideradas como naturais" ao passo que pode- Em Enriamos localizd-las no interior de uma famflia de operagoes, oque obrigaria a dar os motives da escolha desta ou daquela ope-rac,ao. A.Trognon, por sua vez, formula a natureza te<5rica dodesvio que critica falando de um misto de empirismo e defor-malismo. Se admitimos que as distancias calculadas sobre estes componentes conduzem a um valor aritmetico superior ao limiar, Digamos claramente que o princfpio destas crfticas nos pa- vemos que as sequencias Ea K Eb e Em K En estarao num mes-rece plenamente valido na medida em que ainda nao foi efetuado mo domfnio. Suponhamos agora que, em lugar da seqiiSncia Emo trabalho de modeliza§ao matemdtica que permite localizar os K En,tenhamos a sequSncia Em K Ep K" En: vemos que a in-pontos de "escolha" no processo, e de motiv^-los.68 terpolagdo do enunciado Ep impede a comparagao que coloca- mos no infcio como conduzindo a um resultado positive. Prati- Examinemos agora, sucessivamente, do ponto de vista das carnente parece bastante diffcil atenuar este inconvenience secrfticas que suscitam, as duas etapas do processo que expuse- nao colocarmos ao mesmo tempo "heurfsticos" que permitammos, mencionando, cada vez que for possfvel, a direcao em que limitar o campo de extenaSo deste procedimento que consiste emse deve ir para evit£-las. "saltar" enunciados na sequencia, e portanto em nao mais se contentar em comparar relagoes bin^rias entre si. O problema do valor atribufdo a camparag&o entre duasRB. A segunda observagao crftica 6 de maior alcance imediato: consiste em levantar o cardter, ao mesmo tempo empfrico e ar- bitrdrio, da dist^ncia (qualquer que seja, alids, sua zona de apli- cagao): trata-se do sistema de pondera§ao (o "pattern" na termi- Sobre este ponto levantaremos tres observances de impor- nologia dos programas realizados) pelo qual se multiplica o ve-tancia variavel. tor booleano obtido no fim da comparagao, coluna por coluna, A primeira constatac.ao consiste em observar que a prdpria de dois enunciados. Pode-se dizer que se trata af de uma dupladefinigao dos "pontos de comparacao" apresentada como natu- arbitrariedade, na medida em que, nem linguisticamente nemral 6, de fato, bastante arbitraVia. Efetivamente, seria falso pen- matematicamente (de um ponto de vista estatfstico), a significa-sar que este processo, sob o pretexto de efetuar-se ponto por cao do princfpio desta ponderac.ao, e ainda menos a significasaoponto, considera todas as possibilidades de comparacao. Nao & das diferencas de "peso" entre as categorias do vetor-enuncia-nada disso, como se pode facilmente perceber pelo caso da inci- do, foi claramente definida. A questao que se coloca, particu- 214 215
  • 109. larmente, 6 a de saber se a identidade ou a nao-identidade entre de outras no nivel n + 1 (observaremos que esta sugestao sedois "conterfdos" deve revestir-se da mesma significacao, aproxima muito do procedimento harrissiano). Acrescentemosquaisquer que sejam estes conteddos.69 Nao se trata, natural- que seria possfvel, por outro lado, combinar este processo com amente, de retomar ao prdprio principle da AAD, que, como se determinagao a priori de "palavras-chaves" (a partir de medidassabe, inf erdita a constituigao a priori de classes de morfemas, de estatfsticas previas) atribuindo o valor concedido a sua co-ocor-sintagmas ou de enunciados, mas de se interrogar, de urn ponto rencia.de vista linguistico, acerca da diferenga de funcionamento, noque concerne a este fato, do que se cbama habitualmente "clas- A terceira observagao de que devemos dar conta tern comoses fechadas", em oposigao as "classes abertas". Na resenha objeto a utilizacao da medida de distancia assim calculada: ante-que tez da AAD 69 em La Pens&e (n^ 161, junho 70), G.Pro- riormente mostramos que esta etapa volta a associar definitiva-vost-Chauveau comenta este aspecto do procedimento, dizendo mente um valor nume"rico a cada um dos n(n - l)/2 pontos deo seguinte a propdsito do valor atribufdo a cada categoria: "a comparagao. Ora, a questao que se coloca € a de saber se estadeterminacao aproximativa deste valor apela (atualmente) para distribuicao dos valores atiibuidos aos pontos de comparagaoas nogoes de probabilidade, assim, Dj, *escolhido* num con- nao apresenta um interesse maior do que a simples operagdo dejunto restrito de termos (artigos, demonstratevos...) tern valor 2, dicotomiza^do a que 6 reduzida atualmente a sua utilidade. Sa-enquanto que Nj, caso em que a escolha dos lexemas se efetua be-se, de fato, que o processo 6 efetuado aqui em termos de tudonum conjunto mais vasto, tern valor 5". Dizendo isto, G.Pro- ou nada: um ponto de comparagao e, ou nao, registrado no vost-Chauveau "ultrapassava nosso pensamento" como fora ex- "quadro dos quadruples". Assim se perde uma seiie de informa-presso na AAD 69, onde nao havia nenhuma mencao de proba- goes que permitiriam distribuir os quadruples realizados em fun-bilidades, mas ela o ultrapassava na diregao que nos parece gao do valor do "limite P alfa" (notado PAL na terminologiahoje titil tomar, na condicao de levantar certas ambigiiidades. dos programas realizados). Nao se pode deixar de pensar que oAssim, submetemos a discussao a seguinte ideia: antes de tratar estudo de uma distribuigao como essa para cada corpus poderiade maneira bomogenea cada co-ocorr€ncia, qualquer que seja a fornecer interessantes informagoes, compreendida af talvez umacategoria morfossintdtica em que ela aparega, nao seria conve- estimativa do valor optimal do limite P alfa para o corpus consi-niente distinguir dois momentos fundamentalmente diferentes da derado. Observemos por outro lado que esta distribuigao permi-co-ocorrgncia, em fungao do cara"ter "fechado" ou "aberto" da tiria seriar as substituigoes na medida em que elas afetam umcategoria em que esta co-ocorrencia aparece? Poderiamos, ao morfema (uma s<5 categoria comporta um 0), um sintagma ou umque parece, para o conjunto das categories DET (1 e 2), F, P e enunciado. Isto poderia apresentar um grande interesse para aCONECTOR, considerar facilmente a possibilidade de um pro- realizagao de um algoritmo "do contexto rndximo", que ser^cessamento da co-ocorrSncia no qual qualquer par de elementos mencionado adiante. Enfim, para fechar provisoriamente esta (compreendido af, naturalmente, o par de elementos identicos) questao da definigao da distancia entre dois objetos (nos nos seria munido a priori de um valor a ser integrado no cdlculo ge- colocamos sempre no caso em que se trata de relagoes binaVias), ral da distancia. acrescentemos que se pode naturalmente encarar outros tipos de Quanto as "classes abertas" (essencialmente N, V e ADJ), medida alem da m6dia aritm^tica atualmente utilizada. Deve-se podemos encarar a possibilidade ou de manter o processo atual, observar, por outro lado, os trabalhos de Lerman70 acerca destes ou de instaurar um sistema de aprendizagetn, no qual as substi- problemas, e o conjunto dos metodos de classificacao autom^ti-tuigoes ja" localizadas seriam reinjetadas nos dados na forma de ca, que requerem, todos, uma medida de dist^ncia. Situar as exi-um meta-termo que assume o lugar dos dois substitufveis. Desse gencias especfficas da analise AAD no interior da famflia dasmodo se constituiria progress! vamente um "autodicionaiio" que solugoes formalmente possfveis serfi um dos aspectos da moaeli-registraria as equivalSncias de nfvel n, com vistas a localizagao zagao matemfitica de que falaVamos hd pouco. 216 217
  • 110. TO problema da construcdo dos domfnios por apagamento da sintagmatizagao, o que nao exclui, eviden- temente, que as sinonfmias (ou as metaToras) sejam de novo "suturadas" por novas relacoes sintagm^ticas. A questao central, a nosso ver, foi abordada de modo in- Nestas condicoes, consideramos que a dificuldade princi-dependence por G.Provost-Chauveau e por A.Trognon. Ela se pal vem nao da necessidade de justificar aqui o uso do termoreporta a referenda a semantica implicada pela expressao "do- semantico mas do fato de que estes dois tipos de relagao no es-mfnios semanticos". G.Provost-Chauveau coloca a questao de se tado atual do processo nao sao produzidos por um algoritmosaber se 6 justificada, ou nao, a afirmagao de que "as substitui- automatiz^vel, como se pode claramente ver nos dois esquemasgoes nao mudam o sentido", o que nao deixa de assinalar a liga- que seguem.gao entre nossa problematica e a da paraTrase, no domfnio de Indiquemos, todavia, que a realizagao dos algoritmo impli-uma teoria transformacional; A.Trognon, por sua vez, questiona ca duas condigoes:a afirmagao da AAD 69 segundo a qual "duas seqiiSncias per-tencentes a um mesmo domfnio tern uma interpretagao semantica — de inicio, 6 necessa"rio que as zonas de substituigao se-identica". Sem ter a experiencia dos resultados, nos quais cons- jam identificadas por um procedimento automatico, otatamos efetivamente reaproximagdes incongruentes e artefatos que nao € o caso, atualmente,devidos ao caracter formal (formalista) de nosso procedimento, — por outro lado, a orientagao deve ser definida pela loca-A.Trognon ja" tinha pressentido a dificuldade. Sena necessario lizagao de sintagmatizagoes, atestadas em outros domf-mesmo dizer que as relagdes utilizadas sd se referem a proximi- nios pertencentes aos resultados, ou no corpus dos da-dade frastica, excluindo todo "efeito de sentido"? De fato, dos, ou mesmo no "interdiscurso" do corpus ou do sis-achamos hoje que a questao 6 mais complexa, na medida em que tema de corpus estudado.convem discernir os artefatos sintdticos puros que seriam emprincfpio eliminaVeis por uma corregao da ana"lise sintatica e/ou Na falta de elementos que permitam abordar este problema,uma modificagao do sistema de ponderagao que forneceu a co- nada mais diremos sobre esta ultima condigao. No entanto, fa-ocorrencia que conte"m este artefato, e os fenomenos semanticos remos algumas precisoes sobre a primeira condigao enunciada.de substituigao, os quais, como ja" tivemos a ocasiao de dizer,nao se reduzem, de qualquer maneira, a uma "identidade da in-terpretagao semantica": com efeito, distinguimos dois tipos de Seja, com efeito, um "domfnio semantico" tal que o pro-funcionamento que merecem, a nosso ver, tanto um quanto ou- grama atual seja capaz de calculable: podemos considera"-lo co-tro, ser qualificados de semanticos, a saber, por um lado, a rela- mo uma lista de seqiiencias da mesma extensao, supondo quegao de substituicdo-equivalgncia, que remete a estabilidade Id- elas apresentem entre si relagoes de substituicao; a primeira ope-gica de um sistema formal metalingufstico, e, por outro lado, ragao a ser efetuada 6 a de reconstituir estas zonas de substitui-a substitidgao-orientada que, se fomos bem compreendidos, gao (ou melhor, evitar a perda de informagao que se produziu no momento da dicotomizacao do conjunto dos "quddruplos possf-constituiria a condigao de possibilidade de uma equivalencia veis"). Para isto, parece dtil definir o "contexto ma"ximo" de umulterior, ou, se quiserem, uma equivaldncia "em estado nascen- domfnio como o conjunto dos n elementos pertencentes a pelote". Isto quer dizer que a equivalencia 6 o resultado do desapa- menos duas seqiiencias de um mesmo domfnio e colocados narecimento, esquecimento ou apagamento de uma orientagao, o mesma posigao, tal que n seja o maximo para o domfnio consi-que faria da pardfrase Idgica (salvaguardando o sentido) um ca- derado. O complementar deste contexto mdximo 6, para o domf-so particular do funcionamento dos efeitos de sentido. Ainda, nio considerado, uma zona de comutagao contendo no mfnimoem outros termos, diremos que toda metonfmia (ligada a uma dois elementos.orientagao sintagma"tica) tende a se "degradar" em sinonfmia, 218 219
  • 111. O algoritmo considerado consiste, no caso em que o con- texto maximo € unico, em substituir a zona de comutacao por um meta-termo indiciado, em considerar as sequ6ncias (ao me- nos duas) como uma s6, e em re-efetuar o algoritmo. No caso 92 480 0000 R POSSIBILITE E * DE EPANOUISSEMENT 92 92 em que va"rios contextos m£ximos aparecem simultaneamente, I Intelcctual Riquezas Lucros serii conveniente efetuar a uniao dos resultados sucessivamente bens obtidos assim determinados. E evidente que, como indicamos 02 724 0000 H POSSIBILITE E 0 DE CROISSANCE I Desenvolvimenio I anterionnente, a informac.ao produzida pelo calculo das distan- cias — que abastece o conjunto dos pontos de comparacao — Possibilidadesdct Crcscimenlo 91 922 0000 R REPARTITION E * DE LS RICHESSE Eqiiitativa 91 923 0000 R REPARTITION E « DE LS REVENU contribuiria amplamente sem ddvida para a realizagao pra*tica justa 674 0000 R REPARTITION E PLUS a 0 EQUITABLE 31 675 0000 R REPARTITION E « DE LS BIEN 91 971 0000 R REPARTITION E * DE LS BIEN deste algoritmo, que forneceria desse modo as questoes perti- nentes que servem de base para a pesquisa das rela§6es de sin- tagmatizagao, que constitui o que chamamos aqui a segundaE*eroplosde domfnios calculados pelo programa, com sua imerpreta^SQ "manual" condigao.71. Distribui^io As outras observances referentes a construgao dos domf- I nios se referem em geral ou sobre a validade estatfstica dos re- Tod as as sultados obtidos, ou sobre sua apresenta^ao. As No que diz respeito a validade estatfstica dos resultados obtidos na forma de domfnios e de relac.6es entre domfnios, nos INTELLECTS EL INTELLECTLEL contentaremos em recordar que o princfpio da AAD 6, tornado O Govemo oftrece TTLS POSSIBILITE POSSIBILITE - Imerpreta^ao: em si prdprio, exterior a toda consideragdo estatfstica. O que Aumentar nao exclui, entretanto, que sejam efetuadas certas investigates estatfsticas, das quais mencionaremos rapidamente as mais uteis. a « MEILLEUR a 4 MEILLEUR * 2 3* a w s- w CL H^ 3 o n B P o (a a fl JUSTE M LS Ba e a » • calculo da freqiiSncia relativa dos itens lexicais em cada 723 OOOOR GOUVERNEMENT OFFRIR 0 a categoria morfossintatica dos enunciados, inclufda af a "forma do enunciado". fl 481 00000 EPANOUISSEMEXT E 921 0000 P. REPARTITION E » 970 0000 R REPARTITION E « 921 0000 R REPARTITION E « • localizagao dos pares Nj x N2 numa matriz de incidSn- 479 00000 X AUGMEXTER 725 OOOOR CROISSANCE E cia. • analise da estrutura do grafo: frequencia relativa dos co- - Impressocs de salda: nectores, das relagoes de saturac,ao, comprimento m^dio e complexidade das sequSncias laterais e da seqiiencia central. El. ! Ex. I Esta investigagao deveria, a nosso ver, ser efetuada na du- >,- pla perspectiva da defmigao das propriedades estatfsticas co- ffi, muns a todo corpus e de propriedades diferenciais entre corpus. m 221 to
  • 112. For outro lado, parece oportuno examinar as aproximagoes relagao se articula em torno de uma dupla exiggncia, a saber que a representagao da superffcie lingiifstica deve:eventuais entre estes resultados e aqueles que podem ser efetua-dos sobre um corpus de discurso em seu estado "natural". 1. restituir a nao-linearidade das estruturas sint^ticas e de 2. Sobre os resultados obtidos pelo tratamento AAD: modo geral apresentar as garantias de estabilidade e de coeren- cia que expusemos anteriormente, Relacionando os resultados ao ndmero de enunciados, de 2. autorizar, por sua estrutura, a realizagao de um cdlculorelagoes e de discursos, propomos estudar: de comparagao-reconstrugao do tipo daquele que acabamos de • a distribuigao dos valores de distancia paradigmStica, considerar na fase 3. em fungao do limite Pa e do "pattern", a densidade Ora, parece que a representagao utilizada atualmente, e (relacao do numero de quadruples retidos, com o ndme- que designaremos por "representacao EN-RB", apresenta o gra- ro de quadruples possfveis), ve defeito de nao respeitar plenamente a primeira condigao, se • o ndmero dos quadruples, cadeias e domfnios, encarregando inteiramente de exigencias que nao sao impostas, • a estrutura dos domfnios (ndmero de discursos que in- de fato, pelo segunda condigao. Em outros termos, esta segunda condigao nao parece impor a transformagao da foima "combi- tervem em sua constituigao, discursos "facultativos" i. e, que nao intervem em nenhum domfnio) e a estrutura nat6ria" do grafo em sua forma "EN-RB"; no entanto, parece que, como o observa M.Dupraz (1974), a representagao que en- das dependencias entre domfnios. tra presentemente nos dados para a fase 3 nao conserva o vestf- 3. Assinalemos, enfim, que a confrontagao de caracterfsti- gio das relagoes de hierarquia estrutural entre os enunciados, ocas de um corpus (em sua forma "natural" e como conjunto de que poderia explicar, efetivamente, a aparigao de um certo tipoobjetos discursivos) com as caracterfsticas dos resultados obti- de artefato caracterizado pela heterogeneidade do nfvel estrutu-dos pelo tratamento pode conduzir a construcao de um procedi- ral dos enunciados que constituem as "seqiiencias" de um do-mento de avaliagdo pr&via que permita "predizer" se um trata- mfnio. Nesta perspectiva, duas solucoes estendidas no tempomento AAD 6 ou nao aplicaVel a um corpus determinado. En- nos parecem possfveis: em prazo relativamente curto, pareceflm, no que se refere a apresentacao dos resultados, parece que a possfvel tentar melhorar a representacao "EN-RB", de modoprincipal crftica recai sobre o "quadro das relagoes entre os do- que os conectores integrem as relacoes de parentetizagao exis-mfnios", que necessita de um trabalho manual ulterior facil- tentes entre os enunciados.mente automatiza"vel, jd que consiste em reagrupar os dommiosligados entre si por intersecgoes ou inclusoes em "hiperdomf- Mais a longo prazo, o objetivo seria o de transformar a fa-nios", e em reconstituir o grafo que representa os andamentos se 3, de modo a permitir o tratamento dos grafos (em sua formaentre domfnios e hiperdomfnios pertencentes ao corpus. Deve-se combinatdria), o que seria o preludio de mudancas ainda maisobservar que uma das conseqiiencias tedricas da constituigao radicals na medida em que se trata de comparar entre si as es-dos hiperdomfnios seria a de permitir o reagrupamento de se- truturas que contem "lexis".qiiencias de extensao desigual, o que poderia conduzir, even-tualmente, 5 renovagao da problema"tica da substituicao. Conclusao3.3 Em diregao a uma transformagao das entradas da fase 3 No fim deste exame, parece-nos desejaVel voltar & questao Em sua resenha j& citada, G.Provost-Chauveau ressalta,geral da relacao entre a fase 2 e a fase 3: lembremos que esta acertadamente, o fato de que uma das condigoes para que nosso 222 223
  • 113. empreendimento tenha sentido 6 a possibilidade de, em um dado medida em que este impunha uma repeticao do texto na forma de contexto, operar certas substitui§6es entre dois termos x e y sem um corpus homogeneo quanto a suas condic.6es de producao,mudar "a interpretagao semantica" do enunciado (art. cit., pp. mas igualmente pelas disposicoes internas de comparacao entre 136-137). elementos do corpus), poderfamos tirar a reticencia que Harris Partiremos desta observacao para abordar os problemas manifesta aqui, retice"ncia acompanhada, evidentemente, de um tetfricos levantados atualmente pela fase dita "de interpretagao abandono a uma espe~cie de semantica intuitiva do sujeito falantedos resultados" na qual, como j£ tivemos ocasiao de assinala-lo, e de suas intencoes (o que o autor queria fazer...) que critica"va- os diferentes tipos de substituicao existences entre as sequencias mos e continuamos a criticar radicalmente. .Falando de retice"n- de um mesmo domfnio sao reconstrufdas pelo analista. Para de- cias, querfamos dizer que, a nosso ver, tudo conduziu Harris a signar todo o alcance deste problema, em torno do qual se arris- estabelecer que "os resultados formais" que ele obte"m consti- ca, de fato, a validade e as possibilidades do desenvolvimento tuem, na verdade, tudo o que uma analise nao-subjetiva 6 capaz posterior da analise de discurso nesta via, voltaremos sobre nos- de fomecer, salvo eventuais reelaboragoes tao formais quanto as so pressuposto quando da redacao de AAD 69, a fim de liqui- precedentes. E, de fato, continuamos a pensar que, entre o que dar, para n6s mesmos e, acreditamos, tambe"m para o leitor, uma D.Leeman (1973) chama de uma "semantica forte" que seria "o ilusao referente a estrutura dos processos semanticos. A esse estudo das relac.6es entre os enunciados e a realidade extralin- respeito, a id6ia central do texto que evocamos era a de que "as giifstica", — e uma "semantica fraca" — caracterizada pelo fato substitutes nao mudam o sentido", com a condigao de assegu- de que "remete a uma equivalencia entre os enunciados, sem rar-se uma identidade minima de contexto. Neste sentido, pen- que se coloque a questao de saber o que significam estes dois sdvamos ter ido ate" o fim das possibilidades abertas pelo traba- enunciados", a soluc,ao correta deve ser buscada na segunda di~ Iho de Harris, fornecendo uma interpretagao mais estrita das recdo. Se acrescentarmos enftm que, como o observa igual- "classes de equivalencia" por ele introduzidas em seu procedi- mente D.Leeman, a pardfrase & um "concetto fundamental da mento de ana"lise, e a propdsito das quais ele permaneceu estra- semantica fraca" (p. 85, loc, cit.), pode-se dizer que a "reti- nhamente vago: "Os resultados formais obtidos por este genera cencia" de Harris consiste no fato de que ele hesita em ligar de ana"lise fazem mais que definir a distribuicao das classes, a diretamente pardfrase, substituibilidade, e sinonimia. Quanto a estrutura dos segmentos ou mesmo a distribuigao dos tipos de n6s, parece-nos que esta ligagao deve, inevitavelmente, ser co- segmentos. Podem tambem revelar particularidades no interior locada para que se possa ir ate* o fim das instituicoes linguisticasda estrutura, em relacao ao resto da estrutura. Podem mostrar em e Idgicas de Harris caracterizadas, antes de tudo, pela recusa deque certas estruturas se assemelham a outras, e em que diferem. qualquer andlise extralingufstica do "sentido". Esta ligaQao nosPodem conduzir a numerosas conclusoes referentes ao texto. conduziu, de fato, em 1969, & ide"ia da invariante proposicional "Tudo isto, entretanto, ainda € distinto da interpretagao subjacente a uma famflia parafrdstica, numa perspectiva que, dos resultados (aqui 6 Harris quern sublinha), que deve dar por motives tedricos muito afastados dos seus, recorta a de Paul conta do sentido dos morfemas e colocar a questao de se saber o Gochet (1972). Nosso objetivo72 era mesmo, de fato, o de atin-que o autor queria fazer quando escreveu o texto. Esta interpre- gir, pelo procedimento de analise proposto, estes "nexos se-tagao 6, evidentemente, completamente distinta dos resultados manticos" que constituent o conteddo comum a um conjunto deformais, se bem que possa segui-lo estritamente na via que proposicoes, e que ainda se pode chamar "proposi9ao de ba- se"." abrem", (Harris, 1969, pp. 43-44. Salvo indicacao contrSria, somos n<5s que sublinhamos). Nesta perspectiva, que achamos necessaYio expor com al- Ora, havfamos pensado que, estando assegurada a identi- gum detalhe — nem que fosse apenas porque, atualmente, nao 6 dade do contexto (nao apenas pela construc.ao do material, na possfvel determinar se ela nao tern, em certos limites, sua vali- 224 225
  • 114. dade -, o resultado da analise seria, entao, urn grafo conexo, mantica fraca", se torna o desvio em relagao & invariante) Con-nao-valorado, cujos nos seriam constitufdos de "proposicoes de trariamente, portanto, ao que havfamos colocado desde o infciobase". A partir deste memento, serfamos reconduzidos a um a saber, que a metafora 6 primeira e constitutive, e nao segundaproblema de Idgica formal, que poderia ser formulado como se e derivada, tal perspectiva, abandonada a si propria, leva neces-segue: dado um grafo, ligando entre si "proposig.6es de base", sariamente a relegar o funcionamento da metaTora a categoriasendo o conjunto associado a um corpus discursivo determina- dos "fen6menos de superffcie" que acompanham o sentido, odo, defmir as regras que permitam: que pressupoe que este ja" esteja constitufdo.74 Em seu limite, a 1. construir, a partir de um lexico de predicados e de ar- questao que se coloca €, a de saber se essa "semantica fraca",gumentos, o conjunto de proposigoes de base, e somente elas, levada ate" o fim nesta perspectiva, 6 ainda discernfvel de uma "semantica forte": o sistema de oposicoes que acabamos de 2. construir o grafo que liga entre si as proposigoes de ba- lembrar pressupoe, fundamentalmente, que o sentido existe co-se assim definidas. mo um objeto, de modo que a estabilidade do objeto (objeto real Esse sistema de regras constituiria, na realidade, o que se ou referente) 6 primeira, e que os processes devem ser concebi-poderia chamar, com razao, o "processo de produ?ao" do dis- dos como objetos colocados em movimento deslocados atrav^scurso correspondente ao corpus analisado. da representagao que deles € dada. Sem abandonar completamente esta perspectiva (daqui apouco veremos por que), parece-nos necessario fazer duas ob- Ao passo que, ao contrario, se aceitamos a tese materialistaservagoes. A primeira consiste numa simples constatagao, cujo segundo a qual os "objetos" nao sao invariantes primeiros, mascarater de generalidade nao pode ser garantido como tal: trata-se pontos de estabilizagao de processos, veremos entao que a pers-do fato, ja" assinalado, de que os "domfnios semanticos" efeti- pectiva se modifica notavelmente, em particular no que se referevamente obtidos pelo procedimento AAD nao se reduzem a uma ao princfpio segundo o qual "as substituicoes nao mudam ofarmlia de enunciados inter-parafrasaVeis por uma dnica e mes- sentido", Nao mais do que o princfpio correspondente aplicadoma proposigao de base, de modo que fomos levados a distinguir as transformacoes ("as transformacpes nao mudam o sentido"),dots tipos de relafdes de substituicao. A segunda observagao se 6 evidente que este princfpio nao pode ser validamente colocadoap(5ia na primeira, e dela tenta extrair as causas a partir da dis- no universal, Seu exercfcio pressupoe, de fato, um campo maistingao entre semanticas "forte" e "fraca", colocando em evi- vasto no qual nada garante a priori que as substituic.6es e asdencia o fato de que, partindo de uma "semantica fraca", nossa transformagoes nao mudem o sentido.perspectiva tentava, na realidade, reconstituir a partir deste Isto nos conduz, evidentemente, a especificar de novo oponto os elementos de uma "semantica forte". Observaremos, que conve"m se entender por "pardfrase", ligando este conceitocom efeito, que a ideia de uma correspondencia entre uma inva- ao de substituicao e de sinonfmia e, por outro lado, ao de trans-riante (a proposigao de base) e uma se"rie de variacoes que a re- formagao.presentam & homologa & dlstincao entre "estrutura profunda" e D.Leeman, em trabalho jd citado, expoe a evolucao das"estrutura de superffcie", baseando-se estas duas distincoes em concepcoes de Harris, resumindo assim: "tem-se, portanto, numuma terceira que as engloba, a saber, a distingao entre de um la- primeiro tempo, um conjunto nao-ordenado de transformasdesdo a "informacao objetiva" — denotacao —, domfnio ao qual se definidas em termos de co-ocorrencias, e todas parafr^sticas,aplicam os valores de verdade etc. e de outro o car<Ster subjetivo sem que o termo pardfrase aparega... (num segundo tempo) che-da mensagem — conotacoes —, domfnio de expressao (observa- ga-se a dois tipos de operadores, cada um com caracterfsticasremos, de passagem, que esta distingao permite igualmente asse- descritiveis na gramdtica: os operadores incremenciais e os ope-gurar a teoria retonca do "desvio da norma" que, em uma "se- radores parafrasticos" (Leeman, 1973, p.42). 226 227
  • 115. Distinguiremos, pois, quanto a n<5s, tres tipos de transfor- A caracterfstica das transformacoes parafrdsticas 6 a de magao (ou de relagoes entre pares de —•"*- •"que elas nao determinam, em geral, nenhuma mudanga de sen- 1. As transformacoes de unidades lexicais constantes Atido em seu "operando", (que) elas nao Ihe acrescentam nenhu- pesquisa lingufstica atual se baseia em grande parte na hipdtesema informacao suplementar" (ibid.,p.43). de tais transformacoes (por exemplo: "Os romanos decidiram O segundo tipo de transformacao se caracteriza, ao contrii- destruir Cartago" -> "A destruicao de Cartago foi decididario, por "acrescentarem uma certa informacao de modo que po- pelos romanos").dem, por esta razao ser interpretadas como sendo predicativas" Trata-se do que se poderia chamar transformagoes sintati-(ibid., p.51). Pensamos que esta distingao corresponde (numa cas puras, transformagoes-substituicoes que, em princfpio, naoformulagao que nao 6, entretanto, desprovida de ambigiiidade) a mudariam o sentido na medida em que se constituiriam em con-distincao introduzida anteriormente entre substituicao-equiva- versoes de uma sequencia de fonemas em outra. Conservamoslencia e substituigao "orientada". Se falamos de ambigiiidade a esta designacao, ao menos a tftulo de caso-limite, permanecendopropdsito da formulagao de Harris, € porque ela nao deixa de circunspectos acerca do fundamento desta hipdtese (que se ba-evocar os pressupostos da "sem^ntica forte", particularmente, a seia, em definitive, em um pressuposto logicista por interm^diodistingao entre objetivo e subjetivo, e suas consequencias lin- da oposicao competencia/desempenho, necessariamente ligada a gtifsticas na forma da distincao Ifngua/fala; isto 6, como se sabe, esta concepcao) quanto a sua compatibilidade com uma concep- a distincao entre um sistema e atos que, ao mesmo tempo, Ihe gao da enunciagao, como a que foi esbocada. preexistem, o constituem e se "perdem nele". Podemos julgar a pertinencia desta aproxima^ao a luz do texto abaixo: 2. As transformacoes-substituicoes que "mudam o senti- do", na medida em que 6 impossfVel considerar como equiva- lentes os substituiveis: trata-se das substituigoes que chamamos A diferen$a entre o sistema incremencial e o siste- de "orientadas", isto 6, com mudanga lexical, e utilizando uma ma de T parafrdsticos e grosso modo compardvel relacao de sintagmatizacao entre os comutaVeis. Elas correspon- aquela existente entre as atividades diretas da vida e dem as transformagoes "incremenciais" de Harris. o aparelho institutional que os canaliza. Como as instituigoes sociais, a estrutura do sistema de Tfaci- 3. Enfim, e 6, a nosso ver, o que constitui o ponto decisi- lita, inflecta e petrifica as atividades que entram em vo, propomos a introducao de um terceiro tipo de relacao, a sa- uso no sistema /I/, e este sistema € inflexfvel, con- ber, a substituicao nao-orientada, com mudancas lexicais. Trata- vencional e, em parte, historicamente acidental..." se da relagdo de sinonimia, sublinhada por D.Leeman como (Z.S.Harris, ibid., p.68). "uma relagao de equivalencia entre frases, diferente da relagao transformacional: a constatacao da similitude semantica € ime- diata e nao-empfrica; em outras palavras, nao encontramos o Nestas condigoes, nao parece que a aquisigao seja aprecid- meio lingufstico de derivar a sinonfmia de uma operagao lin- vel, j£ que a nova distin<jao nos reconduz aos pressupostos dos gufstica" (loc. cit.,p. 49). Adiantaremos a hipdtese de que as di-quais gostariamos de escapar. Propomo-nos demonstrar que, de ficuldades levantadas pela andlise lingufstica da sinonfmia pro-fato, esta distingao abre o caminho para uma concepcao nova, v6m do fato de que esta ultima 6 pensada em referSncia a pri-mats de acordo com os requisites te<5ricos que formulamos, mas meira categoria de transformacoes (a das parafrases "sintdti- com a condicao de distinguir nao dois, mas tres tipos de trans- cas"), como uma equivalencia atenuada, e nao em referencia Sformafdes, de tal modo que o terceiro tipo seja suscetfvel de se segunda categoria, porque ela parece antitetica a prdpria nogao absorver nos dois outros, sob certas condicoes que iremos pre- de sinonfmia. No entanto, 6 nessa perspectiva que concebe a si- cisar. 229 228
  • 116. nonfrnia como um apagamento da orientacao (e nao como uma Quanto & relagao do tipo 2, nao se exclui que ela remeta,extensao lexical da equivalencia sintdtica), que nos parece fe- em parte, tambem, ao "esquecimento n- 2", na exata medida emcundo orientar as pesquisas. que o prdprio locutor seja capaz de convocar os processes dis- Se, daqui por diante, voltarmos aos problemas concretos cursivos que permitam orientar as substituigoes. Logo, definiti-levantados pela interpretacao dos domfnios semanticos produzi- vamente, o que chamamos de "esquecimento n- 1" se caracteri-dos pela analise AAD, poderemos dizer, a luz do que precede, zaria pela inacessibilidade, para o locutor-sujeito, aos proces-que o problema mais urgente 6 o dos criteries que permitem lo- ses que constituem os discursos transversos e os pre-construf-calizar as "orientac.6es" entre comutaVeis: sabemos que o prin- dos de seu proprio discurso, em outras palavras, o que designa acibio desta localizagao consiste na pesquisa de construgoes que expressao j£ introduzida do "discurso" do Outro (com um Oligam os comutaVeis por uma sintagmatizacao de algum mode maiiSsculo).76 Nestas condigoes, podemos facilmente levantar aperpendicular ao eixo das seqiiencias de comutacao; deve-se hip(5tese de que os domfnios semanticos identificados atualmente pelo procedimento AAD nao sao homog^neos, levando em con-observar, alia"s, que estas constru$6es podem recobrir tanto en- sideragao a distincao entre os dois "esquecimentos"; por outrocadeamentos temporais do tipo narrativo quanto relagoes logi- lado, permanece aberta a questao de se saber se esta mixagemcas, como a dedutibilidade. Em todo caso, a realizacao concrete nao 6 redobrada por uma outra heterogeneidade, devido a nao-desta localizac.ao se choca com o obsta"culo das fronteiras docorpus: nada prova (e todas as pesquisas sobre a pressuposicao dissociagao de processes combinados.parecem provar exatamente o contraYio) que o tipo de informa- Todavia, no estado atual das safdas, a comparagao em umc.ao que procuramos localizar desse modo seja discursivamente piano de tratamento dos resultados oriundos de corpus diferen-homogenea Ji zona na qual se estabelecem as comutagoes. Esta tes nao deveria ser efetuada da mesma maneira, na medida emquestao nos reconduz assim a um problema te<5rico: o da relagao que a diferenca entre os corpus depende, predominantemente,de um processo discursive com o "interdiscurso", isto 6, o ou da zona de esquecimento n9 1, ou, ao contraYio, da zona deconjunto dos outros processes que intervem nele para consti- esquecimento n- 2.tuf-lo (fornecendo-lhe seus "pre-construfdos"75) e para orien-ta"-lo (desempenhando, em relagao a ele, o papel de discurso Finalmente, a questao dos crit^rios que permitem reconhe-transverso, ou, como dizfamos h£ pouco, de discurso perpendi- cer a autonomia de um processo, e localizar as fronteiras destacular). autonomia permanece ela tambe"m nao resolvida. Enquanto nao Como se ve, esta questao remete diretamente a problemati- for encontrada a solugao para esta questao subsistird a incertezaca dos dois esquecimentos que haviamos apresentado no comeco acerca da possfvel relacao entre substituicoes orientadas e com-deste trabalho: vemos, com efeito, que o que haviamos designa- binagao de processes; efetivamente, nao abandonamos a id^ia dedo como "esquecimento n9 2", analogicamente referido ao PCS- que a orienta§ao deveria ser concebida como o efeito da articu-CS, e que diz respeito ao ponto de articulagao da linguistics lagao entre processes diferentes, com relasoes de apagamento,com a teoria do discurso, corresponde, antes de tudo, ao funcio- de subordinacao e de depend^ncia: nesta rfltima hipdtese, a au-namento das parSfrases "sinta"ticas" e das sinonfmias linguisti- tonomia de um processo seria marcada, em definitive, exata-camente "naturals", isto €, cuja orientacao foi objeto de um mente pela existencia de famflias inter-parafr^sticas, onde todaapagamento. Todo o sistema de autopardfrase (que leva todo "orientacao" € apagada, e a natureza dos resultados obtidosdiscurso a se explicitar, separando o que poderia ser dito do que atualmente proviria do fate de que nao chegamos ainda a isolar6 conscientemente rejeitado), isto 6, em grande parte, a presenga um processo; nestas condicoes, poderfamos pensar em obter estedo outro (com um o minusculo), no discurso do locutor, remete resultado aumentando, talvez bastante consideravelmente, a di-portanto as transformagoes-substituicoes do tipo 1 e 3. mensao do corpus (que estaria atualmente abaixo da "massa crf- 230 231
  • 117. tica"), e elevando o limite P alfa, que fixa a proxhmdade mfni- lingiifstico, mesmo se, contrariamente a Chomsky, a semanticama conservada entre as seqiiencias comparadas. nao esteja dissociada da sintaxe (cf. as estruturas subiacentes Para terminar, voltemos ao problema da relagao entre se- "Idgico-semantico-sintaticas") e se alguns fenomenos semanti-mantica e sintaxe, que 6, na verdade, o proprio fundamento de cos (por exemplo, os "pressupostos") sejam tratados no quadrotodo o debate crftico do qual expusemos os eixos principals: de uma "teoria dos mundos" que visa a romper a unicidade do,,atualmente, parece ser possfvel formular tres hip(5teses sobre sujeito. No entanto, estes sujeitos ainda sao sujeitos neutros,esta questao: fontes de sentido, e nao referidos a determinagoes objetivas; 6. por isso que a semantica gerativa pode ser considerada como a) Pertence & lingiifstica apenas o domfnio dos fatos de "um passo a mais" na via da confusao entre ideologia, discursosintaxe (como prolongamento da fonologia e da morfologia), e linguagem.que remete a funcionamentos calculaveis; a semantica, ao con-trario, € do dominio subjetivo do sentido. Esta hip<5tese, em sua c) Apenas uma parte dos estudos semanticos e" da alcada de um estudo lingiifstico. Esta terceira hip6tese pode dar origem aorigem, assenta-se em um postulado de independencia da sintaxeem relacao & semantica, inscrevendo-se na linha do estruturalis- dois tipos de solugao mutuamente exclusivos (podendo, destemo que visa a caracterizar um sistema de formas. Esta solucao ponto de vista, se prestar a confusao o termo "enunciagao", aofoi adotada ao mesmo tempo pelo behaviorismo e pelos te<5ricos qual ambos se referem):do distribucionalismo e do funcionalismo. E igualmente o ponto cl) A solugao de Benveniste que, no interior do processode vista adotado inicialmente por Chomsky, em Estruturas sin- de significac,ao, distingue "o sentido" e "a referenda" (ou *de-tdticas. signagao"). A interpretagao mais imediata desta distingao con- b) A semantica pertence inteiramente ao campo da lingiifs- siste em ver af uma oposigao entre uma semantica lingiifstica etica. Paradoxalmente, esta segunda hipdtese 6 herdeira da pri- uma semantica extralingiifstica. Este parece ser o caso enquantomeira. O estudo da semantica aparece como o prolongamento se permanece no estudo da Ifngua concebida como sistema es-natural dos fatos de sintaxe, visando a explicates (os metodos truturado e hierarquizado de signos: "o sentido de uma unidadedistribucionalistas mostraram os seus limites). Esta e", entre ou- 6 o fato de que ela tern um sentido (...) o que equivale a identifi-tras, a posigao de Chomsky, em Aspects, onde o componente ca-la por sua capacidade de exercer uma "fungao proposicional"semantico interpreta a sintaxe. Deve-se observar que a integra- (Probletnes, p.127); isto € do domfnio de uma analise lingiifsti-530 da semantica neste modelo de linguagem se faz a partir de ca. Ao contrano, a referenda do signo remete "ao mundo dosum postulado, implfcito em grande parte, segundo o qual o sen- objetos gerais ou particulares, tornados na experiencia ou forja-tido 6 um fato de Ifngua; do ponto de vista metodoldgico, o pro- dos pela comunidade lingiifstica" (ibidem, p.128). Mas, paracedimento de analise semantica das unidades € comparaVel Benveniste, a Ifngua nao 6 apenas um sistema de signos, 6 tam-ao utilizado pela fonologia (decomposigao em tragos, cf. Katz e be"m "um instrumento de comunicagao, cuja expressao 6 o dis-Fodor). Esta solugao se baseia em uma teoria que e", ao mesmo curso" (ibidem, p.30). Sistema de signos e discurso constituemtempo, uma "teoria do conhecimento" & uma psicologia da pes- "dois universes diferentes, ainda que abranjam a mesma reali-soa humana - uma construcSo do mundo referida a um sujeito dade e possibilitem duas lingiifsticas diferentes" (ibidem,p.!30).neutro e ideal. A articulasao destas duas lingiifsticas se opera no nfvel da frase, e, af, o estudo da referSncia 6 reintroduzido no campo da lin- Apesar do torn pole"mico assumido pela discussao entre giifstica; efetivamente, o sentido da frase (sua fungao de predi-Chomsky e os aspectos da semantica gerativa, esta segunda cor- cado) 6 descrito, analisando as relagoes entre os signos que arente se aparenta, ela tambem, a hip<5tese b) apresentada aqui: compoem; a referenda da frase (isto e", as "situagoes concretas eem ultima instancia, tudo que 6 semantico € da algada do estudo empfricas" (ibidem, p.!28))€ do domfnio da lingiifstica discursi- 232 233
  • 118. va (teoria da enunciagao). Esta segunda direcao abre caminhopara a idela de discurso-fala enquanto lugar da 0113530 indivi- Pode-se pensar, em particular, que os resultados interme- di&ios obtidos, referentes as relagoes de sinonfmia, de par^frasedual. Assim, as modalidades de frase traduzem, para Benveniste, "sintatica" e de sintagmatizacao entre comutaveis, pudessem sertres fungpes "inter-humanas" caracterfsticas do discurso, cada reinvestidos em uma analise morfossintatica de nfvel mais eje_uma correspondendo a uma "atitude do locutor", a saber, vado, especialmente sobre a determinagao dos fenomenos de"transmitir um elemento de conhecimento, pedir uma informa-530, dar uma ordem" (ibidem, p.130). A caracterfstica desta so- inter-frase, ligados, ao mesmo tempo, a identificagao dos "cen-lugao reside, a nosso ver, no fato de nao poder escapar a duali- tros sintaticos" e a das relagoes de sintagmatizagso. E nesta di-dade ideologica que reune o sistema (de signos) e a criatividade recao que contamos engajar, a longo prazo, as pesquisas refe- rentes a articulagao entre lingufstica e teoria do discurso.(individual): "discurso", af, nao € outra coisa senao um novoavatar da "fala". c2) A solugao de acordo com a qual a fronteira entre o lin-guistico e o nao-Hngiifstico se situa no interior dos fenomenos Tradugao: Pericles Cunhasemanticos, precisamente af onde se opoem uma "semanticaformal" e uma semiintica discursiva. Reencontramos realmente a"enunciagao" mas, desta vez, defmida como a teoria da ilusaosubjetiva da fala (teoria do "corpo verbal"), e nso como sua re-peticao. Tudo o que precede demonstra seguramente que tenta-mos constantemente nos colocar no ambito desta hipdtese (c2), oque nao significa, naturaimente, que os diferentes aspec(os doprocedimento AAD, deste ponto de vista, nao possam, precisa-mente, ser objeto de crfticas. Podemos, sem duvida, constatar que fenomenos como anominalizagao, o "esvaziamento" dos DET ou do SN, o "pr£-construfdo", etc. sao, desde agora, identificados no nfvel dos re-sultados,77 entretanto, todas as crfticas que lembrarnos ou for-mulamos em relagao 3s modalidades atuais da analise morfos-sintdtica permanecem validas e exigem profundas mudangas. Pa-ra terminar, gostarfamos de colocar acerca deste ponto a questaoda pr<5pria relagao entre as fases 2 ("lingufstica") e 3 (compara-tivo-discursiva); nao € possfvel conceber que, ao inv^s de sejustaporem seqiiencialmente, estas duas fases se codeterminam,de modo que haveria um "efeito de retorno" da fase 3 a fase deanalise sintatica; nada nos impede de imaginar a realizagao deuma leitura em varios nfveis que, partindo de um sistema mor-fossintatico mfnimo, reintegraria, em seguida, progress! vamente,as "infonnagoes" semanticas localizadas depois desta primeiraleitura e de seus efeitos no nfvel da fase 2. 234 235
  • 119. NOTAS 1 Verbibliografiall, 1 e 2. 2 VerbibliografiaII,3. 3 C.Haroche, P.Henry, M.Pecheux, 1971. Confira particularmente o artigo de L.Althusser, "Ideologic et appareils idgolo- giquesdEtat"(1970). 5 As rela$6es de produ$ao nao estao, de modo nenhum, fixadas numa repeti$5o eterna, como pretende a sociologia funcionalista. Na realidade, e na medida em que as relacoes de producao correspondem a relagoes de classe, 6 conveniente falar de re-pradufao-transformagaa das relagoes de produ§ao. Aqui nao 6 o lugar para desen- vol ver mais este ponto essencial do materialismo historico. " A ideologia burguesa, como a forma mais completamente desenvolvida, instrui- nos nao apenas acerca do funcionamento da instSncia ideoltfgica em geral, mas tam- bem sobre as formas histdricas que a precederam. Todavia, nao se deve projetar as fonnas burguesas de interpelacao sobre as formas anteriores. Nao 6 evidente, porexemplo, que a interpelac 3o consiste sempre em aplicar sobre o pniprio sujeito a suadeterminagao. A autonomia do sujeito como "representacSo da relacao imaginana"6, de fato, estritamente ligada a aparigao e a extensao da ideologia jurfdico-polfticaburguesa. Nas formacdes sociais dominadas por outros modos de producao, o sujeito pode se representar sua prdpria determinacao como se impondo a ele na forma de uma restricao ou de uma vontade esterna, sem que, para tanto, a nelagao assim re- presentada deixe de ser imagindria. Nos nao dissimulamos senao quando, utilizando termos como "atitudes" e "re-presentagoes" tomamos ao vocabulaYio da sociologia, deixamospairarumequfvoco;as prdticas no sentido marxista nao sao "comportamentos sociais" ou "representa-9oes sociais". 8 C.Haroche, P.Henry, M.PScheux, 1971, p.102. " Esta necessidade remete a especificidade da linguagem inerente ao homem comoanimal ideoldgico. 10 C.Haroche, P.Henry, M.Pecheux, 197I,p.l02.1 ^ Precisemos que o termo produfdo pode, aqui, acarretar certas ambigiiidades.Para eviti-las, distinguiremos o sentido econdmico do termo, de seu sentido episte-moldgico (producSo de conhecimentos), de seu uso psicolingOfctico (producSo damensagem), e, enfim, da significasSo que recebe na expressSo: "produgao de umefeito". Antes de tudo, 6 neste ultimo sentido que se deve entender este termo. En-tretanto, veremos mais adiante que s5o, igualmente, objetos de discussSo os meca-nisrhos de realizagao do discurso produzido pelo sujeito. Por outro lado, o uso destetermo assume, a nosso ver, uma funclo polimica em rela§5o ao emprego reiteradodo termo "circulacao", e atfi mesmo "criasSo", paracaracterizar processos de sigm-ficacao.Acrescentemos, enfim, que a materialidade verbal (f6nica ou grdfica) & um dpspressupostos da produg5o econdmica como coodic§o infra-estrutural de comercio (e,de modo geral, do contrato) e, ao mesmo tempo, como condigSo de aproveitamento 237
  • 120. social das forsas produtivas ((ransmissao do "modo de usar" dos meios de uabalho e 21"educagao" da for^a de trabalho). Entendemos por "corpus discursivo" um conjunto de textos de extensao variavel (ou sequencias discursivas), remetendo a conduces de produ9ao consideradas est5-A significacao da expressao "condigoes de producao" sera" precisada adiante. veis, isto 6, um conjunto de imagens textuais ligadas a um "texto" virtual (isto 6 ao processo discursivo que domina e engendra as diferentes sequSncias discursivas per-12 Cf. P.Henry(1971,1974). tencentes ao corpus). Retomaremos esta questao a propdsito da construgao dos corpus,13 O termo "esquecimento" nao remete, aqui, a urn disturbio individual da raemd- 22ria. Designa, paradoxalmente, o que nunca foi sabido e que, no entanto, toca o mais O fato de que o discurso esteja no ponto de articulacao dos processes ideo!6gicosproximo o "sujeito falante", na estranha familiaridade que mantem com ascausas e dos fenomenos lingiifsticos nao deve levar & confusao pela qual a Ifrigua seria assi-que o determinam... em toda ignoiancia de causa. milada a uma superestrutura ideolcSgica. Esla precauc_ao, que constitui um dos pontos14 de partida tedricos da AAD, pode parecer a alguns como uma interdicao (uma nor- Nao colocamos de infcio uma "identidade de sentido" entre os membros da fa- malizacao!) conflnando o linguista a tarefas subalternas (o sentido interditado ao lin-mflia parafrastica. Ao contrario, pressupomos que 6 nesta relagao que sentido e iden- guista!!!). Adiante veremos que, muito ao contrdrio, esta distincao entre Imgua etidade de sentido podem se definir. ideologia conduz a uma reformulac.ao fecunda da problematica lingufetica atrav^s da15 Damos, logo, urn exemplo do que entendemos, do ponto de vista discursivo, por consideragao dos processos de enunciagao.uma "famflia parafrastica" atraves daapresentacao de um "dommio semantico" ob- 2 3 O caso da anftlise "sintatica" das relativas constitui um exemplo privilegiaclo datido em recente estudo efetuado com a A AD: reintrodu^ao sub-reptfcia de consideragoes semanticas. Este aspecto, j£ abordado em C.Fuchs, J.Mibier e P. Le Goffic (1974), 6 retomado nesta coletanea pelos textos de P.Henry e A.Gresillon. eqiiitativa bens 24 dos lucros Cf.Langages37,p.5Q.Distribuicao das 2* O termo "ilusao necessaria" foi introduzido pela primeira vez por P. Le Goffic justa riquezas (Cf. obra coletiva sobre as relativas, por C.Fuchs, J.Milner e P. Le Goffic, 1974). melhor 2 " Esta concepc.ao da enunciacao volta a colocar, de fato, o "sujeito psicolo"gico"Veremos mais adiante que as relac6es aqui representadas por chaves devem ser inter- idealista na base da lingufstica. ^ o que constata R.Robin dizendo: "A lingufstica dopretadas como relacoes simetricas (tracos verticals) ou relagoes nao-simetricas (fle- discurso nao conseguiu operar o descentramento do sujeito do discurso porque elachas). Observemos, ao mesmo tempo, que a par£frase discursiva n5o deve set con- nao conseguiu integrar nem o sujeito ideoldgico do materialismo histdrico nem ofundida com o que alguns lingfiistas chamam de parafrase (por exemplo, a transfbr- sujeito psicanalitico a sua teoria do sujeito" (Robin, 1973, p,81). 2macao passiva). Voltaremos a isso. Cf. a nogao de "antiparafrase" introduzida por S.Fischer e E.Veron (1973).16 Acentuamos que esta concep$ao nao se identifica com a das "leituras plurais" 2° Esta zona n? 2 6 o domfnio do que se chama as vezes de "estrat6gias discursivas"que sugerem a id6ia de um pululamento infinito de significacoes, cada sujeito mani- incluindo, particularmente, a interrogacao retdrica, a reformulagao tendenciosa e ofestando af sua singularidade. Isto seria perder de vista a matertalidade do discursivo uso manipuiabSrio da ambiguidade. Sobre este ponto, cf. C.Haroche (1974).e 6, ao que parece, o que faz A.Trognon quando escreve: "O que o discurso diz e"o 2 " Por isso entendemos o "exterior especffico" de um processo discursivo determi-queescrevemos, ua problematicaque nos definimos". Trognon, 1972,p.28. nado (Cf. AAD 1969, p. 111), isto 6, os processos que intervem na constituic_ao ena17 S,Fischer, E.Veron, 1973,pp.l62-181. organizagao deste Ultimo. 1Q As expressoes pelas quais tentamos caracterizar as relacoes entre "formacoes 30 Ver em particular C.Haroche e M.Pecheux, 1972 (b), pp.67-83.imaginarias" (Pecheux, 1969, pp.I9-21), do tipo: Ia(A)( Ia(B), etc. deixam ampla- Q1 JImente aberta a possibilidade de uma interpretagao "interpessoal" do sistema das Acerca deste ponto, e em particular acerca da distingao lei inconsciente/regracondigoes de produgao. Encontramos as repercussoes desta ambiguidade em varies pr^-consciente-consciente, cf. Th.Herbert (1968). Ver a discussao de R.Robin (1973,trabalhos como, por exemplo, M.J.Borel (1970). Por outro lado, a ide"ia adiantada p. 100). 32por A.Trognon (1972, p.164) deacordocom a qua! a AADteriacomofun§aoadis- Cf. Culioli, Fuchs, Pecheux (1970).tribuicao dos "elementos do discurso" ou "unidades textuais" em fungao destas di- •" Os processos de enunciacao constituent o que, no interior mestno da "base" lin-ferentes expressoes (Ja(A) etc.) nos e estranha. Enfim, estamos de acordo com gufstica, autoriza o desenvolvimento de processos em relacao a ela.L.Guespin quando reconhece que a multiplicacao dos "mecanisraos" nao regula, 34fundamentalmente, a questao. Por exemplo, quando se fala do "discurso de uma cie"ncia". 35 y Adiante veremos as conseqiiencias desta dificuldade em relagao a constituic.ao do Precisemos que a teoria desta articulacao necessita de elaboracao em um piano geral e nao se poderia confundir com as condicdes e os resultados desta ou daquelacorpus. analise discursiva particular; fazemos, aqui, esta observac,ao para evitar a ide"ia de Assinalemos desde ja1 que os termos "discurso", "processo discursivo", "forma- um cfrculo vicioso.cao discursiva", "texto" (ou "sequencia") nao sao, de nenhum modo, intercambi^- 36 Esta transpantncia 6 desmentida na prdtica pela alternSncia dos comentarios naveis. A definigao deles ser£ dada logo em seguida. presen§a de urn mesmo conjunto de resultados AAD. Esta alternSncia funciona de 238 239
  • 121. acordo com o princfpio: "VocS diz que obtdm este resultado, prove-o" / "Este re- antes de tudo, ao evidenciamento da armadilha constitufda pela ideologia singularsultado que vocfi obteve 6 evidente". conservadora ou contra-revolucionana submetida pelo discurso tnagdnicooumarti-37 A analise concreta de uma situac.ao concreta pressupoe que a materialidade dis- nista no sec. XVIII, ideologia que pdde enganar, e ainda engana, certos defensorescursiva em uma formac.ao ideologica seja concebida como uma articulac.ao de pro- do progresso." 4cessos. A este respeito, recordemos a observac.§o de P.Fiala e C.Ridoux (1973, p.45): ^ Algoritmo: sequfincia regulada de operagoes realizaVel em tempo finito por um"O texto" - dirfamos - o discurso - "nao € um conjunto de enunciados portadores de computador, produzindo um resultado determinado, a partir de um ponto de partidauma, e ate" mesmo varias, significagocs. Ii antes um processo que se desenvolve de dado.mdltiplas formas, em determinadas situagoes sociais." 43 t. por isso que nos parece haver, as vezes, abuso de linguagem quando se utiliza o38 Geffrey etal. (1973). termo "lingmstica do discurso" para designar, de fato, uma Knguistica dos textos (e39 Cf, acima, p. 181-182 e abaixo, pp. 205-207 c 221. mesmo de um texto), sob o pretexto de que ela ultrapassa o domfnio da analise da40 frase, muitas vezes recoberta, por outro lado, pela expressao "lingufetica da fala". Em rela$6es de lugares inscritas no interior das relac.des de classes, Indicamos acima as razoes de nossa reticencia a este respeito. O procedimento AAD foi utilizado (na perspectiva "arquivista") pelo historiadorG.Gayot em tres estudos independentes sobre textos do s6c. XVIII. Eis as observa- Empregando o termo "aplicacao", airiscanio-nos a introduzir uma ambigiiidadec.6es que ele transmitiu acerca deste assunto: que convfim ser explicada, o que faremos, distinguindo "aplicagao tficnica" e "apli-"Nos tres casos, os processes discursivos que localizamos correspondiam ao que uma ca?ao tetfrica".leitura informada dos textos sugeria ao historiador. Mas dois fatos merecem atenc.ao: - A aplicacao t£cnica consists em utilizar uma teoria e uma aparelhagem como ins-1) Sabemos que, na forma de processamento arquivos , o corpus & constitufdo pe- trumento para a produ§ao de um efeito, objeto ou resultado, na prftica (a teoria doslas sequ&icias extrafdas de um conjunto determinado que contemn o termo escolhido semicondutores 6 aplicada tecnicamente a fabricagao de transistores).em razao do papel determinante que eu Ihe atribuo hipoteticamente enquanto histo- - A aplicagao tedrica consiste na intervensao de uma disciplina tedrica em outra (a-riador, plicagao da matemdtica na ffsica) ou na aplicacao de uma disciplina a ela mesma.Ora, apesar do cuidado com a minha escolha, aconteceu que os resultados foram Acentuemos que, no caso da informatica lingufstica, infelizmente, nem sempre £ f&- pobres , no sentido em que os mecanismos discursivos empregados no contexto do cil distinguir as aplicagoes t^cnicas das aplicagoes te«5ricas.termo escolhido nao fornecem nada mais do que o que fomeceria uma longa apren- 45 Esta equipe, dirigida por J.Rouault, coloca como um dos seus objetivos a consti-dizagem da leitura dos textos submetidos a analise (cf. Histoire et Linguistique, tuigao de uma GRF capaz, especialmente, de automatizar (ao menos parcialmente)A.Colin, 1973,p.242). a fase de analise lingufstica da AAD.Acredito que, de fato, sera" sempre assim com corpus centrados em um tenno cuja 4 " Sena interessante comparar sistematicamente o grafo da analise AAD em enun-potencia & tal, nas condigoes discursivas consideradas, que ele cria um vazio em tor- ciados elementares e o que produz o analisador sint&tico de M.Salkoff, que aplica ao no de si e, al&n do processo principal que o contem, n5o convoca senao processos frances o m^todo proposto por S.Z,Harrisem "String Analysis". Cf. Salkoff (1973). derivados direlamente subordinados, Assim, se acha experimentalmente questio- 47nada a evidencia que pretendia que a importancia indiscutfvel de uma palavra, para F.Bugniet(1971-1972). 48 aqueles que a utilizaram em uma determinada fipoca, fosse necessariamente produti- Assinalemos realmente que se trata aqui da representagao adotada no texto de P6- va, do ponto de vista dos processos discursivos que Ihe sSo ligados. cheux, 1969. Adiante veremos as modificagoes atualmente consideradas. 2) Ao contrario, os dois oulros estudos (Gayot-P8cheux, Annales 1971, (3-4) 49 pp.681 -704 e Gayot, a ser publicado) demonstraram que a forma dominants de sele- Este ponto foi introduzido desde a publicagao do Manual 1972. c^o-combinac^io das palavras ligadas ao emprego do termo escolhido cedia lugarao 5 ® A questao da determinat;ao adjetiva levanta problemas analogos e tao diffceis de funcionamento de processos discursivos secunddrios relativamente autonamos que, resolver quanto os que ressaltamos a propdsito das relatives, porque reencontramos pela simples leitura, poderiam ser percebidos como principals (Exemplos: os enca- nao apenas a distingSo entre adjetivagao determinativa e nao-determinativa(i7a«to- deamentos sobre o tema do progresso geral realizado pelas massas, na obra de Saint- m6vel negro/a neve bronco), mas tamb£m oposigoes de um outro tipo como: am sim- Martin; os encadeamentos sobre o tema da fratemidade e da igualdade entre os ho- ples soldado/um verdadeiro democrata, ou ainda: o passo mardal de X/a cone mar- mens, nos franco-mac.ons do sec. XVin). A AAD demonstrou, de fato, que estes cialetc. mecanismos secundarios eram retomados, integrados e como que digeridos na orga- 51 nizac.ao geral do discurso gerida em Saint-Martin pela confianc.a concedida a dnica Cf. Haroche-PScheux, 1972, p.40. C-) elite dos eleitos de Deus e, nos franco-magons, pelo servic.o prestado pela fratemida- J * A introducao de um novo valor de modo, correspondente ao nao-afirmado liga- de mac,6nica a ordem estabelecida, a ordem tradicional e nao a ordem a vir . do ao restabelecimento de G foi efetuado desde a publicagSo do Manual (Haroche- Desse modo, a partir de uma colecao de enunciados determinados, a AAD permite ao PScheux, 1972). historiador recompor e distinguir as regras - principals e anexas- que os produzem. Esta distinc.ao 6 capital para escapar das armadilhas armadas, ao longo das leituras, ^3 Que leva, logicamente, os crfticos a nos acusar de ter efetuado uma "prestidigita- pelos processos discursivos secundarios que projetam uma zona de sombra em tomo S5o" (e f. A.Trognon, 1971) enlre os dados e os resultados, na medida em que sua do processo dominante. No que nos diz respeito o beneffcio que obtivemos se refere, posicao 6 sua impossibilidade em distinguir entre a semSntica "lingufstica", que in- 240 241
  • 122. tervein implicitamente na analise sintatica, eos processes semantico-discursivos cu- Observacoes:jos trac.os sao localizados pela fase 3 do processamento AAD, a) O "tao" de "tSo profundamente" nao foi levado em considera^ao,™ A impressao de uma crftica um tanto apressada, onde o acidental se mescla ao b) O problema de "6 porque... que" e o da permutaslo que representaestaconstru-essencial, & reforc.ada pelo exemplo de aplicac.ao da analise lingufstica AAD proposta c5o em relagao a ordem candnica poderia ser tratado ou por uma marca intra-enun-por S.Fisher e E.Veron, em artigo citado. Tendo escolhido como sequfincia a set ciado afetando a forma F, ou por uma reflexao de certas relagSes do grafo, o que te-analisada o texto publicitario abaixo, bastante particular quanta a sua forma ret6rica: ria como efeito, ao mesmo tempo, a supressao da repeti^ao do contetfdo dos enuncia- dos 2 e 4 pelos enunciados 3 e 6. Para esta segunda possibilidade nos contentamos em "Baranne 6 um creme, sugerir o seguinte grafo: E porque Baranne 6 um creme 1 Oue Baranne penetra a ciitis tao profundamente E porque Baranne penetraa ciitis tao profundamente porque Que Baranne alimenta a ciitis. Todas as ciitis.motivo pelo qual nos resguardariamos de pretender efetuar a analise. Os autorcs exe-cutam, a seu propdsito (e em todos os sentidos do termo) "o m6todo de P&cheux",isto 6, aplicam-no, deformando-o para fazer a sua crftica. porque porqueQue os autores nao tenham se preocupado em respeitar as convenc.6es relativas ao re-gistro dos verbos (no infinitivo) e dos substantives (no singular), que ignorem, poroutro lado, a disnngao entre ausencia de preposi$ao (0) e a casa vazia da preposic.aodiante de SN2 (*) tern apenas, naOiralmente, pouco efeito sobre a demonstrasao. Nada prova que, nas condicdes normals de utilizac.ao da AAD (pressupondo, entreAo contrSrio, o fato de terem esquecido de reconstruir a ordem canSnica no interior outras, a existencia de um corpus de sequencias discursivas), os erros que acabamosda seqtiencia (cf. "Manual", p.17) faz com que proponham com desenvoltura solu- de assinalar nao tivessem consequSncias, De qualquer modo, o fato de que uma partec.6escomo, particularmente, o estranhoenunciado: das crfticas gerais que os autores dirigem ao processo sinta"tico proposto pennanesa "00000 Ce"j3 0 0 0" vilida nao os dispensava, a nosso ver, da aplicacao conscienciosa desta analise.que Ihe deixamos a total responsabilidade. 55 Cf., particularmente: M.Gross( 1973).Com todas as precaugoes devidas a particularidade deste texto, indicamos abaixo a 56 Cf. o problema das composic,6es do tipo: "certamente, j& estfl um pouco muitoque teria conduzido a aplicasao do processo descrito no Manual 72, e levando em quente".conta a distinsao entre * e a surgida apes a publicacjlo do "Manual". Serf conveniente poder tratar, igualmente, o caso em que uma preposic.ao na su- O restabelecimenio da "ordem canfinica" teria conduzido & seguinte reformulac,ao: perffcie pode remeter a interpretacoes semSnticas diferentes; cf., por exemplo, a po- lissemia da preposigao "de": "ele vem de Paris", "o chapdu de Pedro". "Baranne 6 um creme. Baranne penetra a ctitis tao profundamente pprque Baranne & GO J0 um creme. Baranne alimenta a ciitis, Baranne alimenta todas as ciitis porque Baranne A profundidade estrutural remete ao problema das diferengas de nfvel entre os penetra a ciitis tao profundamente". enunciados, Iraduzidas pela parentesagem (op. cit., p.40). Adiante (op. cit., p.78) consideramos a possibilidade de levar em conta diretamente estes fendmenos, no Os enunciados elementares seriam entao os seguintes: processo de comparagao. Cf. igualmente as tentativas de diferenciagao dos compo- 0 a U creme nentes de F na comparagao dos enunciados (Del Vigna e Dupraz, 1974). 1 0000 0 Baranne ser * L cdtis 59 2 0000 0 Baranne penetrar profundamente Mencionemos, enfim, o problema nao-resolvido colocado pelas relatives do tipo: creme "a escola 6 o lugar onde as crianc.as aprendem a ler", "o homem de quern eu encon- 3 0000 0 Baranne ser 4 0000 9 Baranne alimentar * L ctfns trei o filho", "a casa no teto da qua! as cegonhas fizeram o seu ninho". 5 0000 0 Baranne alimentar * TLS cdtis 60 Cf. bibliografia, II, 4. 6 0000 (J Baranne penetrar profundamente * ciitis 61 A lista das RB 6, de fato, a lista dos arcos do grafo, munidos de sua valoragao que reunidos pelo grafo abaixo: 6 um conector. O grafo, tendo como vertices os enunciados elementares, define uma 1 rela§5o binSria sobre o conjunto dos enunciados. Por abuso de linguagem, chamamos "relagoes binarias" um par de enunciados elementares em relacSo, e mumdo do co- 2 nector que Ihe 6 atribufdo. * porque 62 Um programa preliminar de detecgSo de erros nos dados foi realizado por J.Leon I no quadro do Service Calcul Sciences Humaines CNRS. 4 63 porque Este procedimento poderia ser apUcado ao estudo das condicfies de fechamento I porque de um corpus, considerando que & sempre possfvel obter este fechamento duplicando 5- o corpus. 242 243
  • 123. 564 A diferenc,a entre os dois programas reside, essencialmente, na ordem em que Acerca destes pontos ver o trabalho de P.Henry (1974) e Pecheuefetuam as operac.6es. Digamos, simplesmente, que o programa ALGOL W segue Os "atos do sujeito falante", numa "situacao" e em nresenca ue ae H,, ,»„.- mais literalmente o texto AAD 1969, particularmente no que se refere & nogao de ««• , , . » • * * -i ,• • , . tcrminados interlocutores - isto e, a ilusao subjebva que algumas teonas da enunciacao to "psiclasses" e, de modo mais geral, trata todas as relacoes paradigmaticas antes de mam como dinheiro vivo - sao portanto, na realidade, o efeito de relacoes entre D abordar os encadeamentos sintagmaticos inter-enunciados, o que nao 6 o caso na cessos discursivos. Em particular, o fato de que uma sequencia (ffinica ou versao parisiente. materialmente especificada - e nao outra - seja, a cada instante, "filtrada" "selecio 65 Cf.Pecheux, 1969,pp.35-38. nada", nao 6, de modo algum, o resultado de uma escolha do locutor, mas traduz a 66 intervencao, numa determinada forma^ao discursiva (com seus pr<5prios funciona- Em artigo jS citado, S.Fisher e E.Veron fazem alusao a este exemplo. A este res- mentos parafrasticos), de outras formagoes discursivas que des-equalizam uns em re- peito, criticam a representacao acima como "deixando de lado a aparicao na superff- lafdo aos outros, os elementos que entram em jogo nestes tuncionamentos e os or- cie da expressao: "e porque... que" encontrada na frase". (art. cit., p.166). Era suma, denam de tal modo que um dentre eles recebe a cada instante o "privile"gio" de apa- os autores, distraidamente, tomaram esta conexao sintatica hipot&ica como uma recer como a palavra, a expressao, etc., "justas". No domfnio do que se convencio-frase do corpus analisado, ainda que eles critiquem a segmentacao sintatica desta nou chamar de literatura, este "privil^gio" assume a forma da evidente impossibili- frase em dois elementos, segmentac.ao que, com toda razao, jamais ocorreu. dade de pararrasear o texto "genial" (isto 6, "nao se poderia dizeMo de outro mo- 67 M.Pecheux, 1975. do"). Este ponto, que podemos aqui apenas esbocar, nos parece de natureza a inver- 68 Um trabalho sobre este ponto estfi sendo realizado (cf, Langages 37, p. 4.). ter a problematica do "sentido prfiprio" concebido como um liame natural entre "a 6 linguagem e o pensamento", e, consequentemente, a recolocar em causa as teorias ^ Cf. os fenomenos de homonfmia, como o caso de "compreender" (conter^cap- literarias do estilo concebido como desvio. O que, habitualmente, 6 designado corao tar pelo pensamento), recentemente mencionado no comentario dos resultados AAD o carfter linico da sequencia literaria (a insubstituibilidade das palavras, expressdes, (Michel Morin, 1973, p.III, 12). contornos), onde, muitas vezes, acreditamos discernir a vontade, mais ou menos 70 I.Lerman(1970). "genial" em sua umcidade,deumafastamentomantido (isto £, prolongado, como se 7 Assinalemos, por outro lado, a relacao evidente entre o algoritmo do contexto fala de uma nota sustentada) seria, nestas condicoes, o produto sobredeterminado da maximo e o processo dito de "re-injecao" relagfio contraditdria e desigual entre formacoes discursivas. A materialidade fono- 7 16gica e morfossiBtibca da sequencia (o Significante) seria desde entao determinado ^ Nesla medida, a perspectiva que tentamos desenvolver 6, em certos pontos de como unica entre as multiplicidades parafrasticas que suportam "o sentido", do vista, pnSxima da de I.A.MelCuk, em particular sobre a questao da parffrase e da mesmo modo que a existencia de um jogo de palavras impoe em sua literalidade tal relacao entre sentido e texto, em ZoIkovskij-MelCuk (1971). formulacao (e nao esta ou aquela parSfrase logicamente equivalente) para que o Seja, por exemplo, o seguinte domfnio semantico: "compromisso entre duas formacoes discursivas seja mantido, isto 6, para que seja dar realizado o que designamos aqui como sobredeterminagao. 77 Damos a seguir alguns exeraplos de fen6menos lingiifsticos localiziveis nos re- assegurar um mfnimo vital. sultados atualmente obtidos pela AAD, extrafdos do estudo sobre S .Mansholt O Estado assegura Prfi-constntfdos: mmimo vital Neste caso particular, 6 possfvel Ihe fazer corresponder a proposis5o: desenvolvimento cultural distribuicao dos bens R(A,B) desenvolvimento do homem com R = dar, assegurar,... Modalidades: A = X, o Estado,... serf necessario.../a acao do Estado deverf... B = mfnimo vital,... Instanciacao - Esvaziamento: 74 A questao da metafora e do efeito metaftfrico (cf. PScheux, 1969, p.29) 6 decisi- va, em nosso sentido. Afirmando que a metaTora 6 primeira e ndo-derivada nao que- dar remos inverter a relacao entre sentido prdprio (ndcleo de sentido, denotacfio, funda- assegurar um mfnimo vital. mento da proposicao l<5gica) e sentido figurado (periferia do sentido, maneira de fa- lar, conotacao e competencia do "estilo"), fazendo entender que todo sentido 6 fi- gurado e perif&ico, o que levaacrerna perspectiva das "leiturasplurais".Trata-se, o Estado assegura ao contrano, de liquidar o pniprio par nucleo/periferia, considerando a metdfora recuo do bem-estar de cada um. como o transporte entre dois significantes, constitutivo de seu sentido, e a orientacfio o mdivfduo. des-equalizante desta relacSo como a condicao de aparecimento do que, em cada ca- so, poderf funcionar como "sentido prtfprio" ou como "sentido figurado". 244 245
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  • 127. CIPOLLI, C. Considerazione teorico-metodologiche sullanalisi del discorso a proposito del metodo AAD di M.Pecheux. Lingua e Stile, 1972 (1):299-319. APRESENTA^AO DA ANALISEDEL VIGNA, C. & DUPRAZ, M. Recherches li^es a 1Analyse Automatique du Discours. In Colloque sur 1Analyse du AUTOMATICA DO DISCURSO (1982) Discours, Y.Oppel (ed.) Travaux du Centre de Recher- ches Semiologiques de Neufchatel, 1974(19):23 sqq. Michel PdcheuxDUBOIS, J. Compte Rendu. In Journal Psychol. Norm. Pa- Jacqueline Le"on thai., 1970 (3):359-360. Simone Bonnafous Jean-Marie MarandinDUPRAZ, M. Caracte"ristiques du Programme "AADP" dA- nalyse Automatique du Discours ficrit en Algol W da- Apresentacao tetfrica da AAD69 pres la Me"thode de M.Pecheux. Document de 1Universite des Sciences Sociales de Grenoble, Rone"o, 1972, 20p.HSHER, S. & VERON, E. Baranne est une Creme. Communi- As referencias tedricas (positivas e negativas) que, a partir cations, 1973 (20):162-181. de 1966, presidiram a construgao do dispositvo AAD (AndlisePROVOST-CHAUVEAU, G. Compte rendu. In La Pensee, Automdtica do Discurso, editado em 1969 pela Dunod, primeiro 1970(161):135-138. programa informatico "operacional" em 1971) inscrevem-se noROBIN. R. Histoire et Linguistique. Paris, Colin, 1974 (chap. espaso do estruturalismo filos6fico dos anos 60 , em torno da 4). Trad, brasileira. questao da ideologia e, em particular, da leitura dos discursos ideoldgicos.TROGNON, A. Analyse de Contenu et Th£orie de la Significa- A problematica estruturalista que se estava condensando tion. These de Doctoral, 3e. cycle, University Paris VH, 1971. em tomo de alguns nomes como os de Le"vi-Strauss, Foucault, Barthes, Althusser..., era um dispositive polSmico contra as id&as dominantes da 6poca, bem como um programa de traba-4. Informatica Iho. As idelas dominantes da ^poca: Uma versao do programa, redigido em Fortran IV por - Os "restos", que nao estavam tao mal (e que demoram aPh.Duval foi implantada, atualmente, em Paris (Service de Cal- morrer!), de um espiritualismo filosdfico adepto de umacul Sciences Humaines CNRS), e em Bolonha, no IBM 360. concepcao religiosa da leitura: da hermeneutica literfria,Uma adaptacao deste mesmo programa para calculadora CDC perseguindo os "temas" atrav^s das "obras", a concep-foi realizada na Universidade de Quebec, em Montreal. gao fenomenoldgica do "projeto" como projegao do Uma outra versao, redigida em Algol W por M.Dupraz e" sentido sobre a materia verbal, pelo poder constituinteutilizada, atualmente, em Grenoble pela equipe de Processa- do sujeito-leitor... a iddia de que o sentido dos textos 6 omento Automatico da Linguagem (Dupraz, 1972). correlate de uma consciencia-leitora instalada numa subjetividade "interpretativa" sem limites. - Mas tambe~m as formas secularizadas, mais cotidianas, daquela prfitica espontanea da leitura que, sob as mdlti- plas formas da "analise de conteiido", estava invadindo as ciencias hutnanas. 252 253
  • 128. - E, finalmente, o objetivismo quantitativo reagindo aos tituir o tracp da estrutura invariante desses discursos (o sistema espiritualismos impress ion istas por uma referenda ao se~- de suas "fungoes") sob a seYie combinatdria de suas variances rio das ciSncias e, em primeiro lugar, nessas circunstan- superficiais, "empfricas": portanto, reconstituir algurna coisa cias, as teorias da informacao: o projeto de tratar os dessa "estrutura presente na seYie de seus efeitos". textos como populacao de palavras, suscetfveis de uma esp6cie de demografia estatfstica dos textos (tal como ela O projeto da AAD69 constitui uma tentativa, entre outras, se realiza, por exemplo, nos estudos lexicome"tricos). de realizar esse programa, esfor$ando-se em levar a seYio "a lin- gufstica moderna" e, em particular, os trabalhos de um linguista O estruturalismo filos<5fico dos anos 60 partia em guerra americano, autor de um texto providencialmente intitulado Dis-contra essas diversas formas (espontaneas ou cientfficas) de evi- course Analysis, que serviu, durante todo um perfodo, de refe-dencia empfrica da leitura, com suas bandeiras de conceitos tais renda cientffica concreta aos lingiiistas que trabalhavam nocomo "leitura de sistemas" e "teoria do discurso", e palavras de campo da analise do discurso, sob o impulse dos trabalhos deordem como "ajuste de eficacia de uma estrutura sobre seus Jean Dubois.efeitos, atrave"s de seus efeitos". Desse ponto de vista, parece que a especificidade da AAD Marx, Nietzsche, Freud e Saussure eram recrutados para versao 69, no espago dos trabalhos da analise do discurso esta-um mesmo combate, tomando por objeto, nesse momento, a va, em primeiro lugar, em impelir a lingufstica harrisiana ao li-questao de saber o que 6 falar, escutar e ler. mite de suas conseqiiencias, do ponto de vista teorico que aca- "E a partir de Freud" - escreveu Louis Althusser no come- bamos de lembrar. 90 de Ler O Capital - "que come$amos a suspeitar aquilo Se o sentido de uma superficie textual existe no jogo das que escutar, portanto aquilo que falar (e calar-se), quer di- relagoes (de equivalencia, comuta§ao, pardfrase...) que se esta- zer; que esse querer dizer* do falar e do escutar desco- belecem necessariamente entre essa e outras superficies textuais bre, sob a inocencia da fala e da escuta, a profundidade especfficas, daf resulta que o estudo dos processes discursivos atribufvel de um fundo falso, o querer dizer do discurso (inerentes a estrutura subjacente a ser estudada) supoe a referSn- do inconsciente - esse fundo falso do qual a lingufstica cia a conjuntos de superficies (ou "corpus discursivos") que o moderna, no interior dos mecanismos da linguagem, pensa dispositivo teriS por efeito colocar em estado de autoparAfrase os efeitos e condigoes formais." (N.T.: A tradugao e" nos- potencial, para interrogar sobre sua estrutura generalizando, pa- sa). ra os corpora assim recuperados por suas "condigoes (sdcio- Assim, o apoio estrategico sobre o estruturalismo lingufsti- histdricas) de produsao", os procedimentos que Harris haviaco estava claramente reinvidicado; se era questao de analisar o aplicado a certas seqiiencias particulares, marcadas por repeti-"discurso inconsciente" das ideologias, a lingufstica estrutural, goes, estereotipias internas, como o famoso exemplo "Millionsciencia "moderna" da e"poca, era o meio "cientffico" de deslo- cant be wrong", apresentado no n2 13 de Langages.car o terreno das questoes do domfnio do quantitativo em dire- A ordem e a disposigao dos procedimentos da AAD69 en-c,ao ao qualitative, da descri$ao estatfstica em diregao a uma teo- contravam-se, assim, fixados. A AAD69 comportava necessa-ria quase algdbrica das estruturas, rejeitando o "nao importa riamente:que" das leituras "literarias". - uma fase de construgao socio-histdrica dos corpora subntetidos a analise; Se os discursos ideoldgicos eram de fato os mitos prdpriosde nossas sociedades, comparaVeis aqueles que haviam sido es- - depois, uma fase "harrisiana" de delinearizac.ao sint^ticatudados por Vladimir Propp, depois Claude LeVi-Strauss, deve- das superficies textuais do corpus, isolando os enuncia-ria ser possfvel construir procedimentos efetivos capazes de res- dos elementares e as relagoes lingiifsticas entre esses enunciados; 254 255
  • 129. - e uma fase de tratamento automatico dos dados resul- Os dados tantes da analise sintdtica. A fim de ilustrar, atrav^s de um exemplo, a exposicao do E essa dltima fase que justifica a pretensao "automa"tica" algoritmo AAD69, escolhemos uma parte do corpus de Simoneda AAD. A objetividade de um processo funcionando por si Bonnafous sobre as mocoes do Congresso de Metz do Partidomesmo visava explicitamente a eliminar as "evidencias subjeti- Socialista, de 1979 1, do qual apresentaremos, a seguir, os re-vas" da leitura, esperando trazer a tona tragos dessa famosa sultados. "estrutura subjacente" do corpus textual estudado. Esse corpus do tipo "arquivo" 2 foi constitufdo a partir de A utilizagao de procedimentos algorftmicos efetivos era, ties moc.6es desse congresso: a mogao A (Mitterrand), a mogaopois, uma condigao essencial do empreendimento, e ela se man- C (Rocard) e a mogao E (CERES) 3, escolhidas em fungao daste"m ainda hoje, em meio a reestruturagoes bastante radicais de hip6teses polftico-histdricas de Simone Bonnafous. Dois temasdiferentes aspectos da AAD, nas quais estamos atualmente en- (a uniao da esquerda e a economia) para cada mogao permitiramgajados. construir seis corpora de base. O tratamento realizar-se-a" sobre onze corpora: seis corpora de base e cinco compactagens 4 (trds compactagens reagrupando dois corpora por mogao e duas com- pactagens reagrupando tres corpora por temas ).Apresentacao do procedimento da analise antomatica do discur-so Exemplo 7: Os 6 corpora de base + as 5 compactagens Economia Uniao da esquerda Mocao A (Mitterrand) ACE ACU Comp.A Esta "apresentagao" tern interesse apenas de um ponto de Mogao C (Rocard) CCE CCU Comp.C vista hist6rico: ela constitui uma espe"cie de balango, senao de Mocao E (CERES) ECE ECU Comp.Eponto final, das utilizagoes do metodo de an&ise do discurso Comp.Economia Comp.Uniao da esq.proposto por Michel Pecheux em 1969. Este texto apresenta, de fato, um resume, na verdade uma Decidimos nos interessar pelo corpus de base ACU em ra-constatagao desse metodo, na medida em que ele nao retoma os zao da dimensao dos resultados que podem ser facilmente ex-aspectos tetfricos que presidiram sua elaboragao e que acabam postos.de ser evocados. Ele pode servir de ponto de referSncia para oleitor que se interessar pelos novos algoritmos (versao AAD80)da ana*Hse do discurso, cujas perspectivas serao apresentadas no As sequencias discuisivas autdnomasfinal deste artigo. No novo projeto, a estruturagao dos dados apresentados aseguir, retrospectivamente inaceitivel de um ponto de vista lin- A primeira etapa - manual - do procedimento consiste emgufstico, sera" completamente transformada. Contudo, a id£ia de dividir o corpus em Sequencias Discursivas Aut6nomas (SDA) algoritmo paradigmatico de parafraseamento, a ide"ia de um que constituem as unidades ma^timas de comparagao. A ide"ia delevantamento de caminhos ligados ao fio do discurso nao sao uma segmentacao em SDA 6 coerente com uma das hipdtesesinvalidadas: elas podem efetivamente constituir um aspecto, in- principals da AAD, que diz respeito ao processo de produgao deterpretado de modo diferente, dos novos algoritmos. efeito de sentido. Na verdade, 6 a partir da relagao de duas se- 256 257
  • 130. qiiSncias, do estudo de suas possibilidades de comutagao, de As oito categorias morfossintaticas que constituem as pro-substituigao, eventualmente de equivalencia, que poderemos por posi?6es (ou enunciados elementares) sao as seguintes:em evidencia os processes discursivos. As SDA sao, no entanto, - DI, determinante do N.o produto de um "arrancar" pedagos de texto, que impede todotratamento desse texto em sua sequencialidade. - NI, em geral um nome ou metatermo na posic.ao do su- jeito. Assim, se tomamos como exemplo o corpus ACU, a seYiede paragrafos inicialmente retida pelo analista 6 dividida em - V, verbo ou metatermo indicando a presenc,a de um sin-vinte e cinco seqiiencias discursivas autonomas, resultado do tagma nominal complexo.procedimento de segmentagao. - ADV, adve"rbio modificando adjetivo, verbo ou frase. Esse procedimento de segmentac.ao de um corpus em SDA - PP, preposigao ligada a regencia do verbo ou introdu-efetua-se segundo criteYios lingufsticos tais como os nexos inter- zindo um complemento adverbial de circunstancia.frasticos (andforas, elipses, conectores da jungao 5), aos quais - D2, determinaQao do N2-sera" necessario acrescentar, depois de um serio estudo lingufsti- - N2, nome em posi^ao de complemento, adjetivo ou me-co, as questoes de modalidade, aspecto, tempo, determinantes. tatermo imagem de uma completiva/infinitiva 8. As SDA, no mfnimo uma frase, se definem por sua unida- O grdfico 6 representado por uma Hsta de relagoes binariasde tem^tica: que associam dois enunciados elementares atrave"s de um co- - Seja uma frase i, se a frase j seguinte comega por um co- nector, designado CO (ver grafico da SDA 9, p. 261). nector de junc.ao (por exemplo "mas"), nao se segmenta; Apresentamos aqui, por necessidade da nossa exposic.ao, ha" continuidade temdtica de i a j, e as frases / e j perten- os exemplos da analise sintdtica das SDA, ACU5 e ACU9. cem a mesma SDA. - Se a frase j cont6m uma anafora cujo referente est£ con- tido na frase i (tipo anafora simples 6: Joao... Ele), as Exemplo 2: SDA ACU5 frases i e j pertencem a mesma SDA, na medida em que a anaTora assegura uma unidade temStica entre as frases i O Partido Comunista s6 participou (com De Gaulle, e; 7 - Gouin, Bidault e Ramadier) em governos de uniao nacional de Essas duas condisoes constituem, assim, as duas condigoes concentrac.ao republicana.principals de nao-segmentagao. a) Lista dos enunciados 9 F DI NI V ADVPP D2 N2A analise sintatica ACU0540410003L PC PARTICIPAR SO DE DS GOVERNO ACU0540420000R GOVERNO E 0 DE O UNIAO ACU0540430000R UNIAO E 0 O NACIONAL ACU0540440000R GOVERNO E 0 DE O CONCENTRACAO A analise sintdtica das SDA corresponde a uma delineari- ACU0540450000R CONCENTRACAO E O O REPUBLICANA ACU0540460003R PC PARTICIPAR SO CCMO DE GAULLE manual da superffcie do texto. Cada SDA € analisada sob ACU0540470003R PC PARTICIPAR SO COMO GOUINa forma de um grafico cujos pontos sao proposicoes (no sentido ACU0540580003R PC PARTICIPAR SO COMO BIDAULT ACU0540490003R PC PARTICIPAR SC- COMO RAMADIERda gramatica tradicional) com oito lugares morfossintaticos, ecujos arcos sao as conexoes entre essas proposicoes. 258 259
  • 131. b) Lista das relates binaYias GrdficoACU944944 01202 44044 0190744944 02203 44044 0190844944 01204 44044 0190944444 02004 44444 0600744944 04205 44444 07008 CHI44044 01906 44444 08009 Exemplo3: SDA ACU9 O ponto que nos importa no momento 6 saber se 6 possfvelimaginar que o PC mude de atitude, que deixe de considerar ossocialistas como seus principals adversaries e de preferir o go-verno da direita e do grande capital a vitdria dos trabalhadores.Nada o mostra. a) Lista dos enunciados. F DI H] V ADV Pf NACUOW 11 700000 S, IMPORTAR KOJE A i NOSACUOM1 1800CXK) Nbs SABER O * oACU0041I 900000 5 SER O o IMAGINAVELACU094I200020L PC MUDAR o DE o ATITUDEACUOW 12 10020R PC CESSAR OTOT O o OACUOM I220000R PC CONSIDERAR O • LS SOCIALIS.TAACUOW1230000R PC CONSIDERAR O co; SES ADVERSARIOACU094I240000R ADVERSARIO e O * O PRINCIPALACUOM1250000R PC PREFERIR O L GOVERNOACU0941 2GOOOOR GOVERNO E O DE L DIREITAACUOM 1270000R GOVERNO E O DE L CAPITALACUOM I280000R CAPITAL E O O GRANDEACUOMI290000R K PREFERIR O A L VITORIA *ACUOM1300000R VITORIA E O DE * LS TRABALHADORACU09413101000 NADA MOSTRAR O O 1SSO b) Lista de relacoes bindrias4117054118 41224041254118134119 41259241264119054120 41259241274119054121 42442 160174120404121 412792412842042 11612 42042 158194122104123 41299241304123924124 411760413142042 11615 260 261
  • 132. Quando o limite introduzido como parSmetro € igu^j „ ->fiO algoritmo quddrupla fbrmada por duas relacoes binaiias € retidai3. Um programa em FORTRAN IV, atualizado por Philippe Obtemos sete quddruplas ao final da comparagao (jas rela_Duval e Michel Pecheux em 1971-1972, permitiu a realizagao goes binaYias das SDA5 e SDA9. Por outro lado, a coinpaj^p^Qdo algoritmo exposto a seguir. das relagoes biniSrias do conjunto das SDA do corpus fornecem vinte e cinco quddruplas. Exemplo 5: Lista das quadruples formadas ao final daA fonnagao das quadruples comparagao das SDA: ACU5 e ACU9. O procedimento 6 o seguinte: o programa compara todas as 4041 92 4042 4042 92 4O43 92 4126 4127 92 412Hrelagoes bindrias de uma SDAi com todas as relagoes binaYias 4125das outras SDA do corpus, de maneira a excluir as relagoes bi- 4041 92 4042 4127 4125 92narias da SDAi, isso na medida em que as SDA podem apre- 4042 40 44 04 404] 92 4044 4126 40 4127sentar uma repetigao interna que viria interferir nos efeitos de 4125 92 4126paraTrases detectaVeis no corpus. 4041 92 4044 44 04 92 4045 4125 92 4127 4127 92 4128 Hustraremos o procedimento de parafrasear duas relagoesbinaYias tomando do corpus ACU a relagao bina*ria 4041 92 A fonnagao das cadeias4O42 (SDA5) e a relagao binaVia 4125 92 4126 (SDA9). Compa-ramos as duas relagoes bina"rias categoria (morfossintatica) por As vinte e cinco quadruplas constituem a primeira etapa,categoria. Construimos assim um vetor booleano: 1 se o I6xico 6 quantitativamente exaustiva, dos resultados sobre o conjunto doidentico na categoria estudada, 0 se 6 diferente. Multiplicands corpus ACU. Esses resultados serao, agora, reorganizados porem seguida esse vetor por um "padrao" que entra como dado, transit!vidade segundo dois eixos, vertical e horizontal.atribuindo a cada categoria morfossintatica um peso determinadode maneira empfrica10. A soma dos pesos obtida 6 comparada a Exemplo 6: Lista das cadeias que reagrupam 7 quadrupletesum limite, que igualmente entra como dado, e 6 estabelecida de 6 ijuau i t uo par de relagoes binarias comparado € retido e constitui o que 4125 92 4126 40 4127chaniamos de qua"drupla. quad 2 e 5 ~* cadeia 2 4041 92 4042 92 4 4 03 4125 92 4127 92 4128 Exemplo 4: Comparagao de duas relagoes binarias quad 4 e 7 -* cadeia 3 4041 92 4 4 92 4045 04 F DI N] V ADV pp D2 N2 CO 4125 92 4127 92 4128ACIJ5ACU9 4041 0003 L PC PARTICIPAR s6 A DS GOVERNO 92 4125 0000 fi PC PREFBKIR o • L GOVERNO 92vetor hoolcaito 0 0 1 0 0 0 0 1 1 i— quad 6 e 7 -» cadeia 4 4042 40 4 4 92 4 4 04 05peso 5 0 6 6 0 5 0 6 6vclor x peso 0 0 6 0 o 0 0 fi ft 4126 40 4127 92 4128 v iz pp F N| ADV 4042 40 4 4 92 4 4 05 D| N D2 2 04ACU5 4042 0000 R GOVERNO E 0 DE 0 UNlAo _^ L» cadeia 1 e 4-* cadeia 5 4041 92ACU9veliw 4126 0000 R GOVERNO E 0 DE L DIREITA 4125 92 4126 40 4127 92 4128peso booleano 1 1 1 I 1 1 0 D 5 0 6 3 0 5 0 6vetor x peso 5 6 0 3 0 5 0 D quad 3 ~* quad 3 4041 92 44 04 4125 92 4126 262 263
  • 133. Se os cddigos numericos dos enunciados a direita de uma cia que serao interpretadas a partir das invariantes que pemuti-qua"drupla sao identicos aos cddigos numericos dos enunciados a ram o reagrupamento das seque"ncias.esquerda de uma outra qua"drupla, eles formarao uma cadeia por Sobre o conjunto do corpus ACU obtivemos treze domf-trahsitividade. nios, dentre os quais os tres domfnios acima referidos, cuja lista Retomemos o caso das SDA5 e 9. Em um primeiro mo- figura a seguir (exemplo 8).mento, as sete quadruples resultantes da sua comparagao darao,por transitividade horizontal, as quatro primeiras cadeias, fican- Relacoes entre domJhiosdo isolada a quadruple 3. Depois da lista dos domfnios, um segundo tipo de resulta- Em um segundo momento, as cadeias 1 e 4 sao reagrupa- dos 6 constitufdo pelas relagoes entre domfnios. Elas sao de doisdas, tendo como resultado a cadeia 5, A etapa de formagao das tipos: uma, paradigmatica, leva a construgao dos hiperdomfnios;cadeias 6 conclufda quando todos os reagrupamentos por recur- outra, sintagm^tica, estabelece relac.6es de dependencia entre ossividade foram efetuados. domfnios e os hiperdomfnios entre si.Fonnacao dos domfnios a) Constitugao dos hiperdomfnios Os hiperdomfnios sao formados a partir de cddigos nume- Se duas cadeias t£m uma seqiiencia comum, ou seja, se a ricos dos enunciados a esquerda dos domfnios, em ftingao dese*rie dos cddigos numericos dos enunciados e de conectores su- tres tipos de relagoes: a inclusao (ICL), a intersecgao (INT), e aperiores de uma cadeia 6 identica a uma s6rie de outra cadeia, identidade de origem (IRG).por transitividade vertical formaremos um domfnio. Reagrupa- - ICL: todos os cddigos numericos dos enunciados a es-remos apenas cadeias de comprimento semelhante. querda de um domfnio Di pertencem igualmente a Dj, No que concerne a formagao dos domfnios corresponden- exemplos: Dl ICL D2, o domfnio 1 estd inclufdo no do-tes as SDA5 e SDA9, obteremos tres domfnios: mfnio 2. Dl e D2 formam um hiperdomfnio. Exemplo 7: Lista dos domfnios que reagrupam as sete qua"- - INT: o domfnio Di tern em comum com o domfnio Dj um druplas ou va"rios enunciados a esquerda; exemplo: D12 INT Dl, D12 e Dl formam um hiperdomfnio. - IRG: os domfnios Di e Dj t§m todos os seus cddigoscadeia 5 -» Dj 4041 92 4042 40 4044 92 4045 numericos de enunciados a esquerda em comum, exem- 4125 92 4126 40 4127 92 4128 plo: D4 IRG Dl, Dl e D4 formam um hiperdomfnio.cadeia 2 e 3 -» D2 4041 92 4042 92 4043 Exemplo 8: 4125 92 4-27 92 4128 4041 92 4044 92 4045quad 3 D4 4041 92 4044 4125 92 4126 O ato de parafrasear e", pois, realizado em dois nfveis, ver-tical e horizontal. Os domfnios apresentam classes de equivalen- 264 265
  • 134. For transitividade, podemos formar um unico hiperdomfnio Apresentacao de resultados da AAD69 sobre dois subcorpuscompreendendo os domfnios Dl, D2, D4 e D12: HD1 = (Dl,D2, D4, D12). Os hiperdomfnios constituem classes de equival^ncia de Escolhemos apresentar um exemplo de resultado da AAD adimensao superior aquelas dos domfnios a partir de um parafra- partir de dois subcorpus estudados no referido trabalho, que saoseamento sobre o eixo paradigma"tico, ACU e CCU, ou seja, os corpora (C), "Uniao da esquerda" (U), mogoes Mitterand (A) e Rocard (C). b) Relagdes de dependencies entre domfnios Para o pesquisador em analise do discurso, o verdadeiro trabalho de analise s6 comeca depois de todo o processo acima Dois domfnios estao em relacao de dependSncia se eles apresentado: segmentac.ao em SDA, anSlise sinta"tica e analisecontem cddigos numericos de enunciados que pertencem a um automdtica. A base do trabalho 6, entao, constitufda pela listamesmo percurso da mesma SDA: exemplo: DIG -* D4. dos domfnios (e hiperdomfnios) que correspondem a cada cor- O domfnio DID domina o domfnio D4: D10 contftn o pus, bem como pelas relacoes de dependencia que ligam os dife-enunciado 4122 que pertence ao mesmo percurso (4117 -» 4118 rentes domfnios.-> 4119 -» 4120 -> 4121 -» 4122 -> 4125 -» 4126 -» 4127-* 4128) - ver p. 261 - do enunciado 4125 de D4. O enunciado4122 domina o enunciado 4125 na medida em que ele apareceantes no percurso do grdflco da SDA. Duas pistas de pesquisa possfveis Essa localizagao anterior no gnlflco de uma SDA corres-ponde a posigao relativa dos enunciados numa frase ou na SDA Poderfamos ter estudado em detalhe a organizagao de cada(proposicao principal/proposigao subordinada, determinado/de- domfnio para distinguir sinonfmia contextual, implicagao e con-terminante, sucessao de duas principals em duas frases diferen- tradigao (cf. M.Pe^heux, Un exernple cTambiguitg id&ologique:tes). le rapport Mansholt). Isso nos teria permitido classiflcar os do- Poderfamos dizer, entao, que essas relacoes de dependen- mfnios por temas, estudar as emergencias de sentido em cadacia sao a imagem de um tipo de micro-argumentagao interna a corpus, e especificar identificaeoes, divergdncias e contradigoesSDA. de um corpus a outro. Esse nao era nosso principal objetivo, Assim, essas relacoes de dependdncia reagrupam domfnios Mais que nos detalhes dos domfnios, nos nos fixamos nassegundo um eixo sintagmatico (pertencendo a um mesmo per- relagoes de dependencia que se estabelecem de um domfnio acurso). Contudo, elas introduzem uma relacao paradigmatica outro e permitem, portanto, construir um trajeto discursive deentre as outras partes do domfnio que nao pertencem necessa- cada corpus. Para nos, os domfnios constitufram apenas umariamente a um mesmo percurso, tais como as relagoes binarias etapa em direcao aos trajetos discursivos.4041 92 4044 e 4094 40 4095. A questao 6, entao, saber se po- Para que esses trajetos possam ser estabelecidos de manei-demos interpretar o conjunto das relagoes entre domfnio de um ra legfvel, seria precise poder apresentar, sobre um quadro dni-corpus como a "argumentac,ao subjacente" do corpus.O con- co, o contetido de cada domfnio. Procuramos, entao, representarjunto dessas relacoes de dependencia podem representar-se sob cada domfnio ou hiperdomfnio por uma frase de base que o re-a forma de um grdfico que sera" comentado mais adiante quando sumisse de maneira exata.da anfilise dos resultados do corpus ACU comparados aos re- O papel representado pelas frases de base em nosso estudosultados do corpus CCU. nao tern relagao com o de outros trabalhos de AAD. Na medida 266 267 1
  • 135. em que estes se interessam em primeiro lugar pelas relagoes in- remos que 6 diferente na mogao (C) "O partido", "nosso parti-ternas a cada dominio e, em seguida, apenas pela estrutura geral do", "nos", "o PS", "os socialistas", frente a "o PCF", ou odos processes discursivos, o proprio contelido dos domfnios s<5 € "comunismo" constituem duas series de termos que uma diale"ti-lembrado ocasionalmente e a titulo de indicac.ao nessa segunda ca retine em torno das nocoes de "dia"logo", "acordo", "alian-fase. ga", "pacto", "uniao". O problema central ^ claramente colo- Para nos, pelo contrario, as frases de base que figuram nos cado como aquele da relagao PS-PC. Mas € preciso notar,-a essegrdficos representam os trajetos discursivos e permitem recom- respeito, a dissimetria entre duas series: de um lado fala-se dospor uma especie de segundo texto, cuja leitura constitui a base "socialistas", enquanto que do outro s<5 se menciona o "PCF"de nossa interpretacao. ou o "comunismo". Isso diz respeito a analise feita pela cor- rente A, alia"s por todo o Partido Socialista, e que distingue entre Os principles que presidiram a elaboragao dessas frases de diregao e base do PCF (cf. Introdugao da moc.ao A: "Cada umbase sao simples: coordenacao ou justaposigao dos elementos diz em que condigoes os dirigentes comunistas, nao podendoque ocupam o mesmo lugar no interior do dominio, supressao impedir que o Partido Socialista se tomasse o primeiro partidodas redundancias e adjuncao entre parenteses dos elementos do da Franca, mantiveram a direita no poder").contexto absolutamente indispensaVeis a inteligibilidade dessasfrases. ACU Considerando, por exemplo, o hiperdominio HD1 de ACU, O pmida nuotcrii e rcfor^trtconstitufdo pelos domfnios Dl, D2, D4 e D12 formamos a se- >eui tKpa com limJEUni, siioci»SfiCi c moiiinewoi »ci«B. HPKI-Z-4-12)guinte frase de base: I - O P.C.F, til funicipou de go de uniio lucioiil e cnnccm HD1 = 1. O PC participou somente de governos de RptihlEcnru: el« preferiu a ^j dm DireiJa edt>i{nndcciipiDi uniao nacional e de concentrac,ao republicana; (dot intburhmdarEik ele preferiu o governo da direita e do grande .DJ I not^tot 1 pii ll dg fignlc de c Eiu propoiiijio eiprtme. limptdmenli capital a vit<5ria (dos trabalhadores). wna evkUncit tc ell ajnUln 2. (Alguns sugerem) preferir (outras) noc,6es & -Aei de fT*nce*e* dc CH|uenlH>: di 4 Juirinuda 10 quer dlier que nogao e a prdtica (de uniao da esquerda e de inn o movfanenk* vtckal). IIU2IT-8] frente de classe). Em (odo lu^ *r o P.C.F. pmcunw eic...)t nvti nunci Cada dominio ou hiperdomfmo de ACU foi assim resumi- eordo dirciu, BKOlhCU 0 1 preferential coin o. xuiilliiai.do, e seu conteu"do representado no interior de quadros ligados , Silvon.Fn inva.por setas, simbolizando as relagoes de dependSncia. Obtemos, assim, um trajeto discursive com domfnios 1 - Evolu(aodom™ asmo rraiKti 2 - (I.S.UcVEnaru — dbl"fontes", "pontos de chegada", ou "passagens" que permitem *..- niudArK • da poWH francca.ver aquilo que, na argumentacao de cada texto, 6 ponto de parti- Mda, conclusao ou lugar de passagem obrigatdria. DID 0 P.C.F. AniunnM rompeu i I - OP.C.F. (proquronemoulmi lugoreiji com p*nidoi de osrara d. Fnn;i, JAoDcondulcu a* ilaliiui. Ele 01 conilden ! - P.S. t IB partulo Ji Pmnfi. Deve leomD Kia pdocijiBEi RilverulrtoiAndlise do trajeto discursivo da ACU pnftiiu 0 govtrno (d( dinila). propor *ui paiiidot de eiquetda um pacto [de njo ifttssto} c lim cmnum (pan emprego). 3 - (Ncm rcalib(ak ncm I|CKJUHI) Je iiKluir Uma primeira conclusao pode ser tirada do esquema da pirttdin poiniaa [emum.-J ) mm ilinHcdiiii c iom»-iBviVi.mogao A: o papel preponderante reconhecido aos partidos (ve- 268 269
  • 136. Centrada nas relagoes PS-PC, a mogao A nao atribui o acordos eleitorais do passado, al^m do mais, deslocados para fo-mesmo lugar aos dois partidos. Todo o raciocfhio 6 estruturado ra do circuito no dominio isolado (D6). O essencial, no que diz sobre o PC: fontes (Dl 1 e HD2) e centres (D10 e HD1) sao, de respeito aos dois circuitos centrals, 6 a id6ia de um debate e de fato, consagrados a analisar sua atitude, enquanto que pontos de uma a§ao comum com "os movimentos sociais", "os partidos,chegada (D13, D7, D9, D6) e dominios laterals (D3) tratam sindicatos, associagoes, movimentos sociais", ou seja, com "to-principalmente da estrate"gia do PS: o PCF 6 assim colocado co- das as forgas"14, mas a maior desconfianga se exprime com re-mo o ponto cego do qual tudo depende e, em particular, o future lagao a um dialogo com o PC (D2).do PS. Mesmo nao tendo incluido em nosso corpus da AAD o pa- De HD2 a Dll, passando por DIG, ponto de encontro dos r£grafo sobre os "movimentos sociais", que julgamos muito es-dois primeiros, temos uma sintese da evolugao do PC com: a pecffico dessa mogao, e tendo apenas retido os paragrafos cen-lembranga do acordo preferencial acontecido na Franca entre trais sobre a "Uniao da esquerda", 6 interessante notar que oscomunistas e socialistas (HD2), a menc.ao da ruptura (D10), e as "movimentos sociais" figuram, apesar de tudo, em dois domf-hipdteses sobre a mudanga de atitude do PC (Dll). nios (Dl e D5). Articulando-se sobre o ponto central, aparecem dois tiposde percurso: um, que passa sobretudo por HD1, D3, D13, mas CCUtamb6m parcialmente por D6, e" uma refutagao das sugestoes D2formuladas por "alguns", e que visariam a "incluir os partidos 1 - Necessidade transformagao socialpoliticos num vasto agrupamento com sindicatos e associagoes", e renovagao aijao pal flic aoutro, que desemboca nos pontos de chegada D7, D9, D6, evi- 2 - (PS) & inicialiva de um debatedencia a forca do PS por/para preconizar uma polftica de propo- politico e social e agiosigao ofensiva aos partidos de esquerda (D9, D6) em geral e ao com todas as forc,as; man nao diSlogo (com PC) ?_PC em particular (Dll). a ai-ao comum. D6 Pelo fato dessa dupla polarizagao sobre as relagoes PC-PS, I - responsabiltdade nas efetivagoes 3 - __ ?_ __ _ do corpo social sobre (PC).e no interior destas sobre o PC, duas ausencias maiores sao pro- dos acordos com o M.R.C.duzidas, Uma concerne a responsabilidade do PS pela ruptura, 2 - balangoda efetivajao dos acnrdos dc 1977.cuja eventualidade nao 6 nem mesmo mencionada. A outra con- D3cerne as lutas. Esses dois temas ocupam um lugar importante na debate politico e socialargmentagao da mocao CERES. Dl (com as pessoas ilc esquerda). 1 — desenvolvimento 2. operdri os. 2 — confronlo com movimcrlos sociaia.Andlise do trajeto discursive de CCU 3 — organizagao do mowimenio operfSrio. Se a mogao C nao deixa de afirmar sua fidelidade S estra-te"gia de uniao da esquerda, a delinearizagao do texto que estd nabase da AAD permite constatar que esse nao 6 o tema recorrente confronto e iniciativa deda mogao, 6 preciso tomar e retomar agao com todos os iniciativas (di^Iogo com PC "PS", "PC" e "Uniao da esquerda" nao figuram enquanto paitidos, sindicatos, + agao com mavimentostais em domfnio algum, e os acordos polfticos evocados sao associagoes e movimentos sociais sociais). 270 271
  • 137. A prioridade do "social" sobre o "politico" 6, pois, bem a goes de dependencia entre domfnios. O problema 6 saber o que 6caracterfstica da moc.ao C, haja vista seu apoio a linha de Epi- tornado nessas duas listas.nay: a procura de acordo PC-PS € remetida a dias melhores, erabeneffcio da "Uniao das forcas populares". Essa expressao ja-mais figura nos domfnios da AAD, mas € ela que subjaz a todo a) Os domfnios semanticoso circuito argumentative e 6 claramente desenvolvida em D5("confronto e iniciativa de agao convtodos os partidos, sindica-tos, associates e movimentos sociais"). Eles foram concebidos e sao interpretados como paradig- mas nos quais se decide o valor dos itens lexicais por diferenc.a Vemos, por esses dois exemplos muito simples, que a em um contexto distribucional equivalente. Essa concepc,ao ba-comparagao das linhas argumentativas de dois ou va"rios corpora seia-se (assim como a totalidade do procedimento) em uma in-6 de interesse: a delinearizagao do texto operada pela constitui- terpretagao particular da analise harrissiana, que assiimla equi-530 dos domfnios provoca a quebra da uniformidade das refe- valSncia e identidade de sentido (sinonimo lexical e parafrase).rencias (a uniao da esquerda em particular), e revela percursos Os domfnios semanticos, tal como sao produzidos e quando saomuito divergentes, de uma mo$ao a outra. confrontados com os discursos a partir dos quais foi obtido Em razao do passado politico e da ambiguidade da posigao o corpus, parecem, antes de qualquer coisa, indicar objetos dede muitos membros do PS, em razao da ambivaldncia funcional discurso: um referencial disperso em suas realizagoes lexicais.das mogoes, em razao tambe"m do clima muito particular do con- Se assim for, essas sao as modalidades particulares de constru-gresso de Metz, nosso corpus derivava desses textos que divi- 500 de um objeto15 (que valem como actante, processo, situa-dem a tema"tica e que propiciam nos leitores a intuicao, para re- gao...) que deveriam prender a atengao no interior de uma pro-tomar a expressao de M. Pecheux, de que "isso pode ir em um blemdtica que considere as series discursivas16 como o trago desentido ou em outro". A AAD pode permitir desfazer essa am- uma prdtica discursiva ou de uma maneira de falar. A interpreta-biguidade discursiva, e especificar em que sentido vao uns e c.ao semSntica dos domfnios semanticos desvia-se daquilo queoutros. parece o objeto de uma andlise do discurso17. Os domfnios semanticos mostram muito frequentementeDa AAD69 a AAD80: novas perspectives uma proposigao modalizada, tal como: "X fazer Y, X dever fa- zer Y, X nao fazer Y,...". Esse tipo de resultado sempre pren- deu a atengao dos analistas de discurso, que v£em af um ponto O procedimento da AAD69 6 um "marco", no sentido em de divisao de uma formagao discursiva ou de interfere"ncia entreque corresponde especificamente a uma probleina"tica, aquela a formagoes discursivas. Ainda que essa interpretac,ao parega fun-que se referia M. Pecheux na introducao. So" se pode tratar, para damentada (em relacao as hipdteses da AD), ela s6 pode ser rati-n(5s, de tirar os ensinamentos das experie"ncias que ele permitiu, ficada ao levar em conta, de modo generalizado, todas as moda-e de esboe,ar, aqui em linhas gerais, um novo projeto. lidades enunciativas. Isso nao somente porque elas marcam "a distancia" (tal como e" definida por Dubois, Langages i- 13) daAAD69: enunciagao em relagao a seu enunciado, mas porque as diferen- tes regioes de uma formac,ao discursiva podem se realizar em lu-Quais os resultados? gares e formas enunciativas diferentes. Assim, o estudo da enunciagao pode ser um Sngulo de ataque para descrever uma O programa AAD69 produz, como vimos, dois tipos de re- formagao discursiva, mas a enunciac.ao permanece fora do cam-sul