Revista a cor_brasil_2010
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Revista a cor_brasil_2010 Document Transcript

  • 1. Revista A COR DO BRASIL Sumário 2 Enxergar o Brasil com um novo olhar - Esse é o desafio Ivanir dos Santos 4 DISCRIMINAÇÃO, RACISMO, PRECONCEITO E DESIGUALDADE SOCIAL: ENSAIANDO UM PANFLETO PEDAGÓGICO Azoilda Loretto da Trindade 14 Raça, etnia e nação: a ambigüidade dos conceitos Jacques d’Adesky 20 A ousadia que transforma 100 anos da Revolta da Chibata 22 PARA UMA PEDAGOGIA DA (RE)EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS Alexandre do Nascimento 32 Movimento Negro Brasileiro: uma pedagogia de exemplos e desafios Amauri Mendes PereiraA lei 10.639 torna obrigatório a inclusão da história da África e da cultura negra no currículo escolar do ensino básico.A revista A Cor do Brasil é uma contribuição ao fomento de debates sobre o tema relacionado ao concurso de redaçãopromovido pelo projeto Camélia da Liberdade e servirá como subsídio para alunos e professores das redes pública eprivada do Estado de Rio de Janeiro. A Cor do Brasil é uma publicação do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas – CEAP Rua da Lapa, 200 – gr.810 – Centro RJ – CEP: 20021-180 – Tels.: (21) 2242-0961 / 2232-7077 e-mail: ceap@portalceap.org.br camelia@portalceap.org.br Site: www.portalceap.org.br Edição e produção: Espalhafato comunicação e produção / Programação visual: Ricardo Bogéa Rio de Janeiro, 2010 Patrocínio
  • 2. Ivanir dos Santos 2Revista A COR DO BRASIL Professores são certificados pelo Curso de Professoras da Fundação de Ensino de Niterói, Capacitação de professores da Lei 10.639/03, recebem o livro “ Ações Afirmativas, Atitudes ministrado pelo Centro de Articulação de Populações positivas” após palestra sobre educação, ministrada Marginalizadas. por Ivanir dos Santos .
  • 3. Enxergar o Brasilcom um novo olhar Nesses cinco anos em que o Centro de efetiva. Difícil por que somos obrigados a nosArticulação de Populações Marginalizadas enxergar e pensar sob uma nova ótica, a partir de(CEAP) realizou o Projeto Camélia da outros conceitos, que não os europeus. Pensar aLiberdade foi possível perceber que o maior própria realidade nos leva a crescer como povodesafio da sociedade brasileira é se pensar e nação. E crescer dói, causa mal-estares.fora do contexto eurocêntrico. Os padrõesdos nossos heróis e de ícones históricos se A escolha do centenário da Revolta dabaseiam, fora do círculo dos profissionais de Chibata como tema deste ano para o Prêmio eensino engajados nas lutas do Movimento o Concurso de Redação Camélia da LiberdadeNegro, na perpetuação da invisibilidade tem a finalidade de propor uma reflexão sobredas contribuições que os descendentes o que nos contaram e o que é fato. Neste casode africanos deram ao Brasil. Enxergar a específico, o que nos contaram é que os castigos 3formação social de uma nação, assim como físicos impostos aos negros foram abolidosjá fazem países como o México e a Costa junto com a escravidão, em 1888. Poucos sãoRica, a partir das contribuições de todos os os livros que narram, mesmo de forma concisa,povos que a compõem é recontar a própria a história de João Cândido, líder da revolta, ehistória e entender o papel e quinhão que como se deu o motim. O fato é que dois milnos cabe. marujos, negros e mulatos, quase trinta anos após a abolição da escravatura, ainda recebiam A Lei 10639/03 - que instituiu o ensino castigos físicos de superiores militares, que emda História da África, da Cultura Afrobrasileira sua esmagadora maioria eram de ascendênciae do papel do negro na sociedade, no ensino européia. Foi preciso que a capital federal,fundamental e médio das escolas públicas e na época, fosse ameaçada por marinheirosprivadas, do país – tem pretensão muito maior amotinados para que milhares de homens livresque o de resgatar a dívida histórica que o Brasil pudessem ser tratados com dignidade.tem com os negros e negras descendentes deafricanos que vieram para cá sob o domínio do O Brasil levou 98 anos para reconhecertráfico. Ela propõe uma nova perspectiva de João Cândido como Herói Nacional. Assimcompreensão da identidade nacional e desloca como levou 115 anos – entre a abolição daos padrões impostos, por séculos, pelos nossos escravatura e a confecção da Lei 10639/03 Revista A COR DO BRASILcolonizadores. O caráter democrático da Lei – para reconhecer a importância de contar aem questão implica um real conhecimento da história dos descendentes de africanos que aparticipação e contribuição dos afro-brasileiros nossa história não contou. Porém, o atraso quena formação econômica, cultural e social do insiste em tratar negros e negras como atoresBrasil mas, sobretudo, mexe na urdidura de invisíveis da sociedade brasileira deve servirintolerâncias decorrentes do preconceito tão para explicitar o que de melhor nossos ancestraisbanalizado em nossa sociedade. Intolerância ensinaram: a capacidade de resistir na busca docultural, intolerância racial, intolerância sonho e a de encarar desafios como quem gritareligiosa. Por isso é tão difícil sua implementação por liberdade.
  • 4. 4 DISCRIMINAÇÃO, RACISMO, PRECONCEITO E DESIGUALDADE SOCIAL: ENSAIANDO UM PANFLETO PEDAGÓGICO Azoilda Loretto da Trindade* “Ser capaz de sentir indignação contra qualquer injustiça cometidaRevista A COR DO BRASIL contra qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um militante.” Ernesto “Che” Guevara * Pedagoga, Psicóloga, Mestre em Educação e Doutora em Comunicação Social e, principalmente, ativista da luta contra o racismo.
  • 5. 5 Diante da necessidade de escrever sobre Reflexõestemas que me inquietam, me vi sem inspiraçãopara efetivamente dizer algo contundente sobre Gostaria de pensar estes termosquestões que fazem parte de minha existência. (Discriminação, Racismo, Preconceito eOs prazos esgotados, as cobranças justas e o Desigualdade Social) como amalgamados,texto – um monte de palavras colocadas sobre complementares. Se, inicialmente, destaco osa tela do computador – não expressava, nem conceitos é só como estratégia didática, poisde longe, algo significativo e que pudesse, na no dia-a-dia, o que vale combater são as açõesminha opinião, tocar o leitor. Pus-me a pensar, preconceituosas, racistas, discriminatóriasbuscar referências, quer em livros, quer a partir produtoras e reprodutoras de desigualdadesde observações do cotidiano, em músicas, sociais.filmes,... Tentei fazer uma imersão mais Quero destacar, no entanto, que ointencional na temática, partindo da premissa caminho por mim trilhado não corresponde,que, numa sociedade que é discriminatória, evidentemente, a uma unanimidade. E creiopreconceituosa e racista, essa imersão já foi Revista A COR DO BRASIL ser importante enfatizar que a necessidadenaturalizada... Esse distanciamento permitiria, de uma definição, ainda que imprecisa, étalvez, produzir o trabalho que pretende ser nada apenas para que possamos ter tranqüilidademais do que uma reflexão a ser compartilhada para compreender o sentido, o processo e oscom potenciais pessoas leitoras. Um texto não engendramentos de tais ou quais conceitos emacadêmico, mas nem por isso sem os requisitos nossa vida cotidiana. Afinal, concordamos combásicos necessários a um texto, temperado para Munanga (1998) quando diz que quem defineseduzir. Espero que seja uma leitura saborosa o racismo são os anti-racistas que, por suae nutritiva para alimentar os nossos ideais vez, partem de perspectivas diversas, às vezeslibertários e libertadores. opostas, que dificultam a construção de uma
  • 6. definição unânime. Esta falta de consenso na definição do racismo faz com que os anti-racistas se fixem em compreender o racismo e os racistas a agirem. Vamos ao trato dos conceitos, que são, no meu ponto de vista, de uma certa forma, polissêmicos e polêmicos. 6Revista A COR DO BRASIL
  • 7. a) Discriminação 3 - Derivação: por extensão de sentido. tratamento pior ou injusto dado a alguém por “Lutar pela igualdade sempre que as causa de características pessoais; intolerância,diferenças nos discriminem; preconceito. lutar pelas diferenças sempre que a Ex.: os idosos lutam contra a d. noigualdade nos descaracterize.” mercado de trabalho. 4 - Rubrica: termo jurídico. Boaventura de Souza Santos Ato que quebra o princípio de igualdade, como distinção, exclusão, restrição ou Recentemente, fui a um encontro em que preferências, motivado por raça, cor, sexo,uma das palestrantes fortalecia a tese de se idade, trabalho, credo religioso ou convicçõesbanir qualquer forma de discriminação. Ora, políticas.como educadora, pessoa que pensa palavras,ações, pensamentos... comecei a refletir sobre Discriminaro tema de maneira mais crítica... Ora, naescola, a discriminação não é algo totalmente 1 - Verbo transitivo direto e bitransitivoruim, ela é, por vezes, demandada. Lembram perceber diferenças; distinguir, discernirdas classes de alfabetização e mesmo da Ex.: <d. bem as cores> <d. o certo doeducação infantil? A criança deve ser capaz de errado> <d. entre uma cópia e o original>“discriminar” as letras p-b-d-q, os tamanhos, transitivo direto.as cores, as formas... Alguns setores sociaislutam pelo que chamam “discriminação 2 - Colocar à parte por algum critério; 7positiva”... – observem, por exemplo, as especificar, classificar, listar.cotas para mulheres nos partidos políticos, Ex.: é preciso d. os artigos em faltaas cotas para portadores de deficiências transitivo direto e pronominalnos concursos públicos...Afinal, como 3 - Não (se) misturar; formar grupo à parteperceber as diferenças, as singularidades, por alguma característica étnica, cultural, religiosaas peculiaridades sem discriminar? Em que etc.; separar(-se), apartar(-se), afastar(-se)consiste a discriminação? Podemos viver Ex.: <a professora foi punida por d.sem discriminar? Como ler este texto sem os alunos negros, colocando-os nas últimasdiscriminar as letras, as palavras, os sinais? carteiras> <não se julgando igual aos demais,E os nossos sentidos, - olfato, paladar, tato, ele mesmo se discrimina>visão, audição-, não são discriminatórios? transitivo diretoEntão, vamos chegar num acordo? De que 4 - Derivação: por extensão de sentido.discriminação estamos falando? tratar mal ou de modo injusto, desigual, Segundo o Dicionário1: um indivíduo ou grupo de indivíduos, em razão de alguma característica pessoal, cor da pele, Discriminação classe social, convicções etc. Ex.: é comum a polícia d. os pretos e Substantivo feminino ato ou efeito de pobres Revista A COR DO BRASILdiscriminar. 1 - Faculdade de discriminar, distinguir; Estas definições de dicionário, nosdiscernimento. revelam a complexidade dos conceitos, pelo 2 - Ação ou efeito de separar, segregar, menos no que se refere à dinâmica escolar.pôr à parte. Pode passar despercebido o fato de, por Ex.: <d. racial> <os negros sofrem d.> exemplo, ouvir educadores dizendo que nas suas classes todos são iguais, negros, brancos,1 http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=discrimin pobres, ricos...Ver educadores, em legitimasa%E7%E3o&stype=k em 20/02/2007 discussões, negando a necessidade de se discutir
  • 8. questões afro-brasileiras, em nome do direito sua cidadania, seus direitos (humanos, de todas as diferenças serem retratadas na políticos, sociais,...), valorizando aquela que escola, sem, muitas vezes, se dar conta de que o justamente nos possibilita, ao discriminar as segmento masculino, branco e de classe sócio- diferenças, propor estratégias de se atender na econômica média/alta/favorecida acaba por ter escola e na sociedade o preceito de igualdade um tratamento privilegiado...Daí surge uma na diversidade. indagação: Como se forjou a resistência que muitos educadores e educadoras têm em dar relevância aos Artigo 2 * valores da população afro- Declaração Universal dos Direitos Humanos descendente/negra e à própria população afro-brasileira? É tão I) Todo o homem tem capacidade para gozar evidente que vemos, em muitos os direitos e as liberdades estabelecidos nesta casos, até o dia 20 de novembro Declaração sem distinção de qualquer espécie, seja – Dia Nacional da Consciência de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou Negra, ser rechaçado como algo de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, discriminatório, enquanto os nascimento, ou qualquer outra condição. outros 199 dias letivos, estão recheados de referências da * http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/textos/integra.htm. Em cultura de matriz européia, como 25/02/2007 calendários de festas religiosas, de feriados. Cabe analisar sobretudo os murais udo 8 os conteúdos escolares...E muitas vezes, tudo isto, vem encoberto por atos de “bondade”, de “amor ao próximo”. Trago estas pontuações, ainda que de maneira superficial, objetivando que, nós educadoras, que trabalhamos cotidianamente com conceitos, com as noções de erro e acerto, com a avaliação, que implica aprovação e reprovação, com experimentos, com valores, percebamos a complexidade dos conceitos e a utilização dos mesmos. Observem que contradição ou paradoxo: Se não houver discriminação não podemos perceber as diferenças, respeitar as singularidades e criar mecanismos, instrumentos e equipamentos sociais voltados para atender às especificidades, no caso, dos diversos modos e maneiras de se ser humano,Revista A COR DO BRASIL criando políticas públicas que potencializem e representem a Vida na sua amplitude e não no restrito e excludente modelo hegemônico e dominante e etnocêntrico. Ao mesmo tempo, no que se refere a direitos, à humanidade, não podemos discriminar ninguém. Nesse sentido, rechaçamos a discriminação que subtrai a humanidade do outro, das pessoas, que subtrai a sua importância, visibilidade social e histórica,
  • 9. Revista A COR DO BRASIL 9
  • 10. b) Preconceito E nesta? O que você responderia? Parece simples a questão dos preconceitos: Sapo ou cavalo? idéias preconcebidas a respeito de outrem ou alguma coisa, com ou sem base real. De fato, somos seres complexos. Somos todos, creio, marcados por idéias preconcebidas. Quantas vezes brincamos com o ditado “não vi e não gostei” ou ”não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe” e outros ditos engraçados mas que sinalizam nossa predisposição para idéias preconcebidas? Temos tantos exemplos, não temos? Observem estas figuras e digam o que Figura 3 vêem: A mesma figura é a resposta. Poderíamos dizer, com base nestas imagens, que nossa resposta depende de como vemos a realidade, de como organizamos o que vemos na realidade e de como a interpretamos. Algumas pessoas poderão ver uma imagem, 10 outras duas, outras três... e, muitas vezes, rechaçar o que o outro possa estar vendo e elas não. Muitas vezes, a verdade, o conceito é, simplesmente, o que conseguimos captar e não o que o outro vê, sente, percebe. Lembram, “Narciso acha feio o que não é espelho”? Nossos preconceitos não são dissociados Figura 12 da realidade, ao contrário, estão alicerçados em como vemos ou lemos esta realidade e, também, em como os valores sociais estão sendo apresentados aprioristicamente a cada um de nós. SInalizo isto, com o intuito de dizer que os preconceitos não são desconectados da realidade, há um contexto social, histórico, político que favorece a emergência e o recrudescimento dos preconceitos, para o “bem” e para o “mal”, se assim tomarmos essa dicotomia. Já que, podemos dizer, somos uma sociedade de definições, de classificações, deRevista A COR DO BRASIL busca de explicações e respostas, de “verdades” e busca de “verdades”, da Ciência, das hipóteses, da lógica, das etiquetas, das planificações, dos Figura 2 pressupostos, ... “Dessatanizar” os preconceitos, compre- Na figura 1 se apresentam um rato e um endê-los fora da lógica binária, do bem e do homem idoso, na figura 2 duas mulheres, uma mal, do certo e do errado mostra-se produtivo jovem e uma idosa. O que você viu? como problematização. Uma vez que, não os 2 http://www.ceballos.ws/rat2.gif eliminamos com exorcismos, com sectarismos,
  • 11. com fundamentalismos,mas com luta, sobre-tudo interna, lutando com “aquela velha opi-nião que temos sobre tudo”, com encontros,com aproximações, com coragem. Ufa! E hajaaproximação, haja encontro! São tantos ospreconceitos: religiosos, políticos, sexuais, degênero, de cor/etnia, de raças, de classe. Con-tra africanos e seus descendentes (negros), in-dígenas, orientais, alemães, ciganos, gordos,baixos, altos, minorias, maiorias, deficientes,doentes... Contra quem pensa diferente de nós,contra quem é a favor das cotas, contra quem écontra, contra proletário, contra burguês, con-tra os acadêmicos, contra os militantes, con-tra, contra, preconceitos contra tantos e tantasque parece que vivemos num mundo inviável. Não, não é com esta dimensão que 11quero me aliançar. Portanto, queremosconvidar a quem é preconceituoso/a, e creioque todos somos, numa dimensão ou outra,a compreender que embora recebamosum legado que nos “predetermina” a serpreconceituosos/as, que embora tenhamosnossas experiências que nos “determinam”a ser preconceituosos/as, podemos deixarde ser. Estamos diante de uma construção,não de uma geração espontânea, universal,eterna, imutável de idéias. Felizmente, creio,somos sujeitos/pessoas em movimento, emtransformação, em construção e reconstruçãode saberes, de conhecimento, de conceitos,de linguagem, de história, de vida...Somos“metamorfoses ambulantes” e espero que aserviço da vida, nossa e do outro, sobretudo dooutro muitas vezes diferente de nós, que nos Revista A COR DO BRASILinquieta, nos leva a indagar, a perder o chão,a buscar novas respostas, a sair da “segurançado já dito, sabido, feito”.
  • 12. c) Racismo de “considerar o racismo não só um fator poderoso na produção da exclusão social, mas Aqui, não vou me furtar a colocar algumas principalmente o mecanismo civilizatório definições de racismo, não de dicionários, mas (portanto ocidental e cristão) de rejeição de ativistas negros da luta contra o racismo. existencial, ou seja, consciente e subconsciente, da alteridade”. [...] designa um comportamento Esta concepção nos ajuda a pensar o de hostilidade e menosprezo em relação racismo como alicerce da sociedade ocidental, a pessoas ou grupos humanos cujas na medida em que engendra-se numa características intelectuais ou morais, “hiperracionalização sistemática dos juízos de consideradas ‘inferiores’, estariam valor positivos sobre a civilização ocidental, que diretamente relacionadas a suas se reforça na medida em que se fortalecem os características ‘raciais’, isto é, físicas ou seus mecanismos racionalizantes (tecnologia, biológicas ciências), essencializando ou naturalizando a (BORGES, MEDEIROS E D’ADESKY; cultura” (SODRÉ: op. cit, p.259). 2002, p. 48-49). d) <->Discriminação <-> O racismo é um sistema de opressão Racismo <-> Preconceito <-> da diferença marginalizada. Nesse Desigualdades Sociais <-> sistema cada etapa se apóia, se nutre e se sustenta na outra. Trata-se da opressão de (...) tipos físicos ou grupos étnicos, por 12 serem diferentes do modelo estabelecido pelo opressor como padrão ideal. O ideal de beleza física, de cultura, o modelo padrão, é definido e estabelecido pelas elites dominantes (TEORORO, 1999, p. 98). Uma ideologia que defende a hierarquia entre grupos humanos, Em síntese, há uma interação entre esses classificando-os em raças inferiores e termos sobretudo no que se refere a produção de superiores. exclusão social, subjugação e subalternização de segmentos significativos da sociedade. [...] a ideologia racista é um Cabe ressaltar, antes de finalizar este conjunto de idéias utilizado para explicar escrito, tendo em vista a Lei nº 10.639/03 determinada realidade, no caso, as que, embora tenha destacado o caráter geral desvantagens dos negros em relação aos do preconceito e da discriminação, pensar na brancos situação dos negros, afro-brasileiros, que de (BENTO,1998, p. 25). acordo com dados oficiais, constituem cerca deRevista A COR DO BRASIL 50% da população brasileira é um convite que O racismo é uma construção sócio- se impõe. histórica tecida ao longo dos séculos, na Compartilho com vocês a percepção, perspectiva da exclusão, da dominação, na oriunda de análises e observações do que justificativa da apartação e hierarquização acontece na sociedade, no que se refere ao humana. O racismo não é natural, não é tratamento dado à população negra afro- intrínseco ao ser humano, às pessoas. brasileira. Ou seja, quero evidenciar a Compactuamos com o destaque de Sodré insensibilidade freqüente em relação ao seu (1999, p. 258) que nos sinaliza a possibilidade sofrimento e ao aviltamento da sua cidadania, o
  • 13. silêncio quase cúmplice com o que acontece, em SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros:termos de desumanização, com esta população, identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis,em níveis micro e macro político. Por quê? Será RJ: Editora Vozes, 1999.racismo? O que você acha? TRINDADE, Azoilda L. da. O racismo Finalizo este texto com reticências, texto no cotidiano escolar. 1994. Dissertaçãoinconcluso como um ensaio e, ainda mais, (Mestrado em Educação) - IESAE/de caráter panfletário. Espero, que soe como FGV, Rio de Janeiro, 1994.um convite ao seu envolvimento visceral no ______________________Reinventandoprocesso de construção de uma educação de A Roda: Experiências multiculturais de umafato para todos/todas, que contemple, atendendo educação para todos – Boletim do Programaàs diferenças e à rica diversidade da nossa Salto Para O Futuro, TVESCOLA - 2002.sociedade, sem hierarquizações das diferenças.Proponho um olhar sobre a escola em que omachismo, racismo, elitismo não encontremsolo para florescer e reflorescer. É possível umasociedade melhor para todos e todas e a escola/educação, creio, tem uma enorme e significativacontribuição a dar nessa direção.Referências BENTO, Maria Aparecida da Silva. 13Cidadania em preto e branco: discutindo as relações raciais. São Paulo: Ática, 1998. BORGES, Edson; MEDEIROS, CarlosAlberto e d’ADESKY, Jacques. Racismo, preconceito e intolerância. São Paulo: AtualEditora, 2002. MUNANGA, Kabengele. “Teorias sobreo racismo”. In. HASENBALG, Carlos. Racismo: perspectivas para um estudocontextualizado da sociedade brasileira.Niterói: EDUFF, 1998. MUNANGA, Kabengele. Superando oracismo na escola. Brasília-DF: Ministério da Educação, Secretaria de EducaçãoFundamental, 2000. Revista A COR DO BRASIL
  • 14. Raça, etnia e nação: a ambigüidade dos conceitos Jacques d’Adesky Doutor em Ciência Social / Antropologia, Professor Titular da Universidade Cândido Mendes. 14 As noções de raça, etnia e nação não se deixam captar com facilidade. Todas são de uso no campo das ciências humanas e utilizadas na língua corrente. São noções que chegam a se entrelaçar. Em certas circunstâncias, é usada indiferentemente uma pela outra. Em razão que estes termos encontram- se no vocabulário político e no discurso ideológico, convém esclarecer os seus sentidos. A antropologia ajuda a compreender melhor essas duas noções. Mostra que o significado do termo raça vem evoluindo com o decorrer do tempo. Baseando-se nos estudos da genética, aponta a ambigüidade que cerca a noção de raça. Em relação à etnia, a antropologia analisa a idéia da nação moderna para diferenciar claramente o que é etnia e o que é nação.Revista A COR DO BRASIL Antigamente a palavra raça era de uso restrito. Referia-se à família, a uma filiação, à nobreza. Não era usado para identificar grupos humanos. Será necessário esperar para que o termo venha designar um grupo de pessoas aparentadas (ou supostamente aparentadas) por características físicas comuns. Mais tardar, no decorrer da primeira metade do século XIX, o termo raça vem a incorporar além dos traços físicos, características de outra natureza, como os elementos culturais, sociais, de modo que chegará a se falar de raça indo-européia, raça semita, etc.
  • 15. Durante o século XIX a antropologia tenta classificar as pessoas com base em di- ferenças de natureza exis- tentes entre os grupos. A característica que se impõem naturalmente é a cor da pele que permi- tirá definir as três raças negra, branca e amare- la. Mas as imprecisões desta classificação não podiam ser definitivas. Não havia como agru- par numa mesma raça os habitantes da África Central, os do Sul da Índia e os que mora- vam na Mela- 15 nésia. Todos tinham a pele muito escura, mas além deste traço, tudo os di- ferenciava. Isto levou a incluir outras caracterís- ticas como a textura dos cabelos, o formato do crânio, etc. Diante dos progressos da genética no século XX, renovou- se a problemática das raças. Não se tratava mais de diferenciar os grupos de indivíduos segundo os seus caracteres aparentes Revista A COR DO BRASIL (os fenótipos), mas segundo os conteúdos de seus patrimônios genéticos. Chega-se até mesmo a uma definição da raça que encontrou uma aprovação unânime e que é formuladada seguinte maneira: uma raça é um conjunto de indivíduos que tem uma parteimportante de seus genes em comum e que pode ser diferenciado das outras raças emfunção destes genes.
  • 16. Quando se tratou de dar um conteúdo a esta definição, ao tentar precisar quais eram os genes que distinguiam os conjuntos de indivíduos, observou-se que o conjunto das semelhanças e das diferenças era tão complexo que mesmo com a acumulação de novos dados genéticos cada vez mais precisos, tornava-se mais difícil a classificação das diversas po- pulações com- pondo a espécie humana. Em face desta realidade os geneticistas tiveram que admitir que não era possível classificar as diversas populações humanas segundo as freqüências dos diver- sos genes contidos nos patrimônios genéticos 16 destas populações. Se era possível, na base de caracteres bem definidos, comparar as popu- lações, analisar as distâncias observadas, contudo estes trabalhos não permitiam che- gar a uma classificação em raças. Concluí- ram, portanto que a raça não era um fato, mas um conceito. Não correspondia na espécie humana a nenhuma realidade que pudesse ser definida de maneira objetiva. Em conseqüência disto, será então necessário abandonar a idéia de raça? A nossa resposta é negativa. Pois o termo raça representa nos dias de hoje algo mais que uma simples classificação entre grupos de indivíduos. Pode apresentar dentro de certos contextos um significado ideológico quando afirma a existência de uma hierarquia entre os grupos classificados. Além disto, ela é umRevista A COR DO BRASIL dado espontâneo da percepção. Por isso torna-se uma idéia construída socialmente. E por ser construída, pode ter um impacto extremamente grande nas sociedades dominadas pelo(s) racismo(s). Pois falar de racismo(s) nessas sociedades, significa também falar sobre exclusão e a marginalização de grupos ou populações menosprezadas em virtude da raça. Possibilita, portanto discernir o(s) racismo(s) que permeia(m) estas sociedades, mas também discutir as suas causas, debater os seus efeitos assim como propor políticas públicas e ações concretas de luta anti-racista.
  • 17. Em relação à indeterminabilidade do A coexistência dessesconceito de raça do ponto de vista de seuuso corrente pela população, Pierre-André dois conceitos que parecemTaguieff 1 lembra que o homem comum temformas de percepção que nada têm a ver com antinômicos deve compreender-seos complexos modelos teóricos dos geneticistas histórica e teoricamente.contemporâneos. Ele não percebe seus vizinhoscom os olhos do espírito científico, pois eleentende o discurso cientificamente autorizado será a solução. O apelo a corrigir as palavras parados geneticistas anti-racistas como algo melhorar as coisas é uma tentação permanentedistante, abstrato, angelical, sustentado pelas do politicamente correto, alerta ele. A eliminaçãoelites do saber e desprovido do conhecimento no vocabulário da palavra raça como prescriçãocorriqueiro das raças socialmente percebidas. da ação anti-racista remete, escreve ele, a uma eugenia lexical negativa que crê matar o racismo O homem comum, continua Taguieff, não eliminando a palavra. Tal supressão, segundovendo continuidade genética nem a diversidade Taguieff, teria conseqüências contrárias aogenética que torna os geneticistas tão otimistas, efeito imaginado, pois reforçaria os mecanismoscontinuará a tipificar e a classificar os indivíduos racistas do “querer dizer”, favorecendo, assim,segundo suas características perceptíveis e, a normalização do racismo simbólico.mais particularmente, visíveis. A desconstruçãocientífica da raça biológica, observa ele, não faz A classificação do conceito de etnia édesaparecer a evidência da raça simbólica, da também necessária. É de grande importânciaraça percebida e, invariavelmente, interpretada. na medida em que a maioria das nações no 17Acima de tudo o imaginário racista alimenta- mundo atual são pluriétnicas. Além disso, ase das semelhanças e das diferenças fenotípicas etnia tornou-se para as minorias uma fonte deda cor da pele até diversas características solidariedade e, ao mesmo tempo, um espaçomorfológicas. Portanto, se para a biologia a de afirmação de identidade no seio da nação.noção de raça coloca problemas insolúveis Tornaram-se também nos dias de hoje umade definição que a tornam ultrapassada, sua referência crescente no cenário internacionalimportância, indubitavelmente, não pode quando se destaca, por exemplo, as lutas étnicasser negada. Porque a raça, queira-se ou não, na África ou o genocídio e a limpeza étnica napermanece sendo um elemento maior da antiga Iugoslávia.realidade social, na medida em que emprega, apartir das características físicas visíveis, formas Como escrito no início, sabemos dacoletivas de diferenciação classificatória e dificuldade de apreender a noção de etnia. Umahierárquica que podem engendrar, às vezes, das fontes dessa situação provém do fato quecomportamentos discriminatórios individuais até o nascimento da nação moderna, chamava-ou coletivos. se nação o que qualificamos hoje de etnia. Pois etimologicamente, natio, nationis, refere-se não Em relação às propostas de certos só àqueles que nascem no mesmo local, mas Revista A COR DO BRASILgeneticistas e intelectuais que advogam a também à família, à cidade, ao sangue, ao solo,supressão da palavra raça, porque, segundo eles, à época, à geração. Assim, a nação remete aa idéia de raça só aparece como sobrevivência etnia, dela nutrindo-se, principalmente quandocientífica ultrapassada que traz em si o risco de prevalece o conceito de nação baseado na raçamanter os preconceitos entre os leigos, Taguieff e na língua.ressalta que tirar da língua essa palavra, visandoapagar o racismo do espaço mental, também não A coexistência desses dois conceitos1 que parecem antinômicos deve compreender- TAGUIEFF, Pierre-André, Les fins de l’antiracisme,Paris, Editions Michalon, 1995 se histórica e teoricamente. De fato o
  • 18. O critério de base territorial ajuda vezes que, devido às vicissitudes da guerra ou às conseqüências de migrações, as fronteiras também a distinguir a nação da etnia, nacionais sejam fluidas e se sobreponham às de um outro grupo nacional efetivamente se levarmos em conta que a idéia do reconhecido ou que aspire a sê-lo. território é necessariamente inclusa no Portanto, podemos dizer que são as conceito de nação... características político-jurídicas, às quais se junta à existência de uma base territorial, que processo histórico da construção dos Estados afirmam o predomínio da nação moderna sobre europeus modernos comporta dois aspectos as etnias que asseguram a clara separação complementares: a unificação cultural da entre identidade nacional e identidade étnica, população e a criação de estruturas políticas uma vez que não somente o Estado se atribui capazes de sustentar o desaparecimento da o monopólio da coação orgânica, mas lhe cabe sociedade feudal. também, por direito, a necessária organização das aspirações de uma comunidade nacional Em muitos países europeus, a construção num território claramente delimitado, cuja da nação e a unificação cultural realizaram-se soberania é reconhecida por outros Estados. paralelamente, sob o mando de um grupo étnico dominante. Este modo de construção nacional É essa clivagem que pressupõe o Estado- influenciou profundamente os Estados da nação como quadro político de referência e periferia que surgem depois da descolonização. permite colocar a etnia em segundo plano. 18 Assim, por exemplo, vale relembrar nos países O Estado-nação apresenta-se, assim, como o africanos o papel assumido tanto pelo partido espaço no interior do qual progressivamente único quanto pelo exército em vista a integração se atenua o predomínio da etnicidade em de populações etnicamente fragmentadas em favor da nacionalidade. É essa passagem de uma nação pós-colonial. etnia para a nação que assegura ao conceito da cidadania a guarda de direitos civis e políticos Portanto, parece claro que a concepção que só podem ser apanágio daqueles que uma da etnia entendida como um conjunto de identidade nacional designa, por toda parte, indivíduos que partilham um certo número como membros da comunidade nacional de características, nomeadamente raciais, dotados de plenos direitos. Portanto, a cidadania lingüísticas, desatrela-se formalmente do não está diretamente ligada à etnicidade. Não se sentido moderno da nação, porque esta última é cidadão de uma etnia, mas cidadão de uma é relacionada a uma certa forma de Estado nação. A cidadania indica o pertencimento ao territorial, o Estado-nação, e ao privilégio de povo soberano do Estado, segundo os princípios soberania que lhe é concedido. Estas duas dos modernos Estados-nações. características político-jurídicas, a do Estado e a da soberania, diferenciam sem ambigüidade a Mas, se é necessário reconhecer que a et- nação moderna e a etnia. nicidade implica um diferencial comunitário,Revista A COR DO BRASIL ela não afirma, necessariamente, um antinacio- O critério de base territorial ajuda também nalismo. O que contribui para o dilaceramento a distinguir a nação da etnia, se levarmos em entre o nacionalismo e o particularismo étnico conta que a idéia do território é necessariamente são as antinomias e os dilemas vividos a partir inclusa no conceito de nação, embora não seja das tentativas de homogeneização e de unifor- um requisito imprescindível à existência de mização que negam o direito de cada um a uma grupos étnicos. A referência histórica com um identidade cultural e a um enraizamento comu- lugar (território) preciso é uma condição sine nitário diferente. qua non da nação, podendo até acontecer às
  • 19. A antinomia entre a naciona- 19lidade e o particularismo identifi-cador é marcante quando a políticado Estado é a de um represamentodos pluralismos étnicos, podendoentão traduzir-se pela depreciaçãodos particularismos em benefício dapromoção da identidade comum acimadas diferenças culturais. É o caso, em especial, dosnacionalismos dos Estados multirraciaisou multiétnicos que constroem políticasassimilacionalistas privilegiandoa matriz cultural dominante. Namedida em que esses nacionalismosdefendem uma homogeneidadecultural, um pertencimentoreligioso ou histórico comum, Revista A COR DO BRASILeles podem impor, pelo recursoa veleidades totalitárias, modelosnormativos que excluem os que sãodiferentes. O nacionalismo torna-seentão um movimento voltado paradesenraizar e homogeneizar, impondoàqueles que vivem no mesmo territórioum modelo normativo do humano.
  • 20. A ousadia que transforma 100 anos da Revolta da Chibata Em novembro de 2010, o país undo maior navio da Armada) e rende justas homenagens à valentia de mais seis embarcações meno- e coragem de homens que oferece- res ancoradas na baía. Foi en- ram suas próprias vidas para mudar tão emitido um ultimato no qual a dura realidade da Marinha do ameaçavam abrir fogo sobre a en- Brasil, que impunha castigos físicos tão Capital Federal. Eles exigiam aos marinheiros de patentes inferi- o fim das chibatadas e a anistia a to- ores. Há 100 anos, João Cândido – dos os revoltosos que se entregassem. o Almirante Negro – coordenava a A Marinha chegou a esboçar um ataque, revolta que parou a então capital da mas além de rechaçada, ainda sofreu um 20 República e garantiu, por decreto bombardeio às instalações na ilha das Cobras. presidencial, tratamento digno para todos. A cidade estupefata parou. Muitos curiosos se aglomeravam ás mar- A Revolta da Chibata acon- gens da Baía de Guanabara teceu entre 22 e 27 de novembro para acompanhar a de 1910, no Rio de Janeiro, na movimentação dos época Capital da República. Dois revoltosos. Uma mil marinheiros se rebelaram con- forte pressão tra a aplicação de castigos físicos, popular pedia o ameaçando bombardear o entorno fim da revolta, que da Baía de Guanabara. O estopim era bravamente conduzida da revolta foi a punição (com 250 com o mínimo de condições. Havia chibatadas) aplicada ao marinheiro pouca comida e a munição era escassa. Marcelino Rodrigues Menezes, do Encouraçado Minas Gerais. Em 26 de novembro, já sem al- Por ter ferido um cabo com uma ternativa, o então presidente Hermes da navalha, ele recebeu o castigo na Fonseca, determinou o fim dos castigos e presença da tropa formada, ao som garantiu a anistia dos revoltosos. Porém, suaRevista A COR DO BRASIL de tambores. O rigor dessa punição, promessa não foi cumprida. Os revoltosos fo- considerada desumana, provo- ram detidos com requinte de crueldade na Ilha das cou a indignação da tripulação. Cobras. Outros, após serem expulsos de seus navios, acabaram assassinados. Dos dois mil homens que se atrev- Na noite de 22 de novembro, eram a clamar por liberdade, menos de cem ficaram vivos. os marinheiros do Encouraçado Mi- nas Gerais se amotinaram, mataram João Cândido, líder da rebelião e que sobreviveu a quatro oficiais, obtiveram a adesão todos os martírios, foi internado como louco e indigente do Encouraçado São Paulo (o seg- no Hospital dos Alienados, em 1911. Sua absolvição - e
  • 21. A COR Revista DO BRASIL a de outros sobreviv- do delegado da Capitania dos Por- entes - só aconteceu em tos de Porto Alegre. O apoio foi 1913. Somente em 2008 dado pelo Almirante Alexandrino ele e seus companheiros de Alencar, ex-ministro da Mar- seriam reconhecidos como inha que conhecia a família do menino. Heróis Nacionais. Foi a menos de dois anos que um João Cândido conheceu os estátua de bronze daquele quatro continentes navegando pela que liderou a revolta foi er- Marinha, o que lhe deu uma nova guido na Praça XV. concepção de mundo. Foi nestas viagens que percebeu a diferença 21 Memória e homenagem com que os marujos da Europa e de outros lugares eram tratados. É em homenagem Ele se perguntava por que apenas à valentia daqueles a Marinha do Brasil ainda impunha que ofereceram castigos físicos aos seus subordina- dos. Apesar de não ter sido alvo das suas próprias vi- chibatas, o marinheiro negro sofria das para mudar com o que via à sua frente: vários a história da homens sendo submetidos a casti- Marinha e do gos cruéis impostos pelas chibatas Brasil que o Centro - feitas com pregos nas pontas que de Articulações de Popu- rasgavam a pele e faziam escorrer lações Marginalizadas (CEAP) sangue e dor. escolheu o tema “João Cândido, o Fonte: Projeto Memória Banco do Brasil Marinheiro da Liberdade - 100 anos da Revolta da Chibata” para edição do Prêmio Camélia da Liberdade e de seu Concurso de Redação. O prêmio, patrocinado pela Petrobras e que já está na sua quinta edição, Revista A COR DO BRASIL pretende resgatar a memória de homens e mul- heres negros que fizeram a diferença na história do país.Almirante Negro João Cândido nasceu nas serras gaúchas em 1880, oito anos antes da abolição da escravatura. Filho de escravos, aos 13 anos lutou na Revolta Federalista. Aos 15, foi enviado por seus pais para o Rio de Janeiro com uma carta de recomendação
  • 22. Alexandre do Nascimento Doutorando em Serviço Social (UFRJ), Mestre em Educação (UERJ), Profes- sor e Integrante do Núcleo de Estudos Étnico-Raciais e Ações Afirmativas da Fundação de Apoio à Escola Técnica do Rio de Janeiro (Faetec) e Professor do Movimento Pré-Vestibular para Negros e Carentes (PVNC). 22Revista A COR DO BRASIL
  • 23. PARA UMA PEDAGOGIADA (RE)EDUCAÇÃO DASRELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS Na sociedade e na educação, uma nova demanda se coloca a partir da promulgação da Lei Federal 10.639/03 e do Parecer 003/04 e Resolução 01/04, ambos do Conselho Nacional de Educação que, como já sabemos, instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana e as diretrizes gerais deste ensino. Trata-se, de um modo geral, da concretização de uma das propostas e exigências mais importantes da luta histórica do Movimento Social Negro1, que se insere no campo da educação e, pois, da produção 23 de uma nova consciência social-histórica e uma nova cultura. Esta demanda se coloca para o currículo escolar e para a pedagogia, que necessariamente, devem passar por uma reestruturação, sobretudo nas disciplinas de história, literatura e educação artística, como diz a Lei, e por uma revisão de práticas tradicionais. Estamos, dessa forma, diante de um novo desafio colocado para os educadores pela exigência social de democratização das relações sociais, que no Brasil passa indispensavelmente pela superação do racismo, dos preconceitos e discriminações contra os descendentes de africanos, sua história, valores e produções culturais. Como essa exigência social não diz respeito somente ao combate às desigualdades raciais, o currículo e a pedagogia se tornaram parte dessa perspectiva, pois o conceito de democracia propõe igualdade e não uniformidade. Revista A COR DO BRASIL Neste sentido, além da igualdade de condições socioeconômicas, a democracia proposta que a multiplicidade de movimentos sociais requer que todas as pessoas, como são, sejam reconhecidas, visíveis e tenham as mesmas oportunidades de participação na sociedade, 1 Para os organizadores do I Encontro Nacional de Entidades Negras, realizado em 1991 na cidade de São Paulo, “o Movimento Negro se define como o conjunto de entidades e grupos, de maioria negra, que têm o objetivo específico de combater o racismo e/ou expressar valores culturais de matrizes africanas e que não são vincu- lados a estruturas governamentais e partidárias” ( D’Adesky, 2001).
  • 24. na economia e na política, respeitando-se possuem a disciplina Cultura e Cidadania, suas singularidades e as dimensões culturais entre outros cursos pré-vestibulares que atuam e raciais que as compõe. Os movimentos contra as discriminações e desigualdades sociais, principalmente aqueles que lutam pelo raciais na educação, são outros exemplos de reconhecimento dos direitos de cidadania, movimentos que possuem propostas e práticas dos direitos culturais e dos chamados direitos pedagógicas preocupadas com a superação do humanos para os grupos sociais estigmatizados racismo e com a produção de uma nova cultura e discriminados por preconceitos e racismos, de relações étnico-raciais. ocupam uma posição chave nesse projeto de A Lei nº 10.639/03 tornou uma das democracia, pois além de atores necessários principais reivindicações do movimento negro ao processo de produção/universalização de em um direito da sociedade e um dever para direitos são, num sentido amplo, movimentos a educação formal. Ou seja, os sistemas de que contribuem para a educação geral da ensino devem incluir o ensino de história e sociedade. No caso da luta anti-racista, tendo cultura afro-brasileira e africana e a educação em vista uma mudança cultural e simbólica das relações raciais em seu trabalho. E os não estereotipada e baseada no reconhecimento educadores e educadoras, como agentes positivo das heranças históricas e culturais de principais desse processo, devem rever suas 24 origem africana, setores do movimento social práticas pedagógicas e incluir o debate sobre chegaram a desenvolver propostas pedagógicas relações raciais e o legado histórico-cultural de bem elaboradas e direcionadas à educação origem africana no Brasil. escolar. Como trabalhar esses conteúdos em No movimento negro, por exemplo, sala de aula? Em que consiste o que a Lei podemos citar as propostas de Pedagogia denomina de “educação das relações étnico- Interétnica2 e de Pedagogia Multirracial3. raciais”? Como criar formas de dialogar com Além dessas, muitas outras propostas foram alunos e alunas sobre racismo, preconceito, e continuam sendo criadas por militantes, discriminação e intolerâncias em relação a educadores e pesquisadores negros e negras, negros, homossexuais, mulheres, deficientes tendo sempre como objetivo a superação do e outros grupos sociais historicamente racismo, dos preconceitos e das discriminações discriminados? Eis alguns dos desafios que raciais. O movimento dos cursos pré- educadores e educadoras devem enfrentar. vestibulares para negros, com destaque para o E nesse enfrentamento o ponto de partida Curso Pré-Vestibular do Instituto Steve Biko,Revista A COR DO BRASIL é, conscientemente, fazer a opção ética pela que possui a disciplina Cultura e Consciência igualdade de tratamento e de reconhecimento, Negra, para o Pré-Vestibular para Negros e pelo respeito às diferenças, pela multiplicidade Carentes (PVNC) e o Instituto Educafro, que e, pois, por uma educação democrática e cidadã. 2 Essa proposta pedagógica foi desenvolvida pelo profes- sor Manoel de Almeida Cruz, em Salvador-BA.Ver LIMA Porém, considerando o movimento (2007). negro como o principal produtor de práticas 3 Maria José Lopes. Pedagogia Multirracial em contra- posição à ideologia do branqueamento na Educação. In: e conteúdos para a educação, o currículo e a Núcleos de Estudos Negros (1997, p. 23-37).
  • 25. 25No movimento negro, por exemplo, podemos citar as propostas de PedagogiaInterétnica e de Pedagogia Revista A COR DO BRASIL Multirracial.
  • 26. (re)Educação das Relações pedagogia, podemos partir concretamente da movimento negro constituem um terceiro seguinte questão: O que os educadores podem elemento de análise e aprendizado que apreender e aprender dessas lutas e das práticas educadores e educadoras podem tomar como produzidas por elas? referência para pensarmos e experimentarmos novos conteúdos e formas anti-racistas e A primeira coisa que podemos aprender multirraciais, no currículo escolar e no fazer com essa luta histórica é que a educação escolar pedagógico. Como já dissemos, a perspectiva é parte de uma cultura racista, preconceituosa anti-racista, a valorização das diferenças e discriminatória que estabelece hierarquias e étnico-raciais e de reconhecimento das histórias desigualdades entre os diversos grupos sociais, 26 e produções sócio-culturais de africanos e afro- seus valores e aspectos culturais. Não são descendentes, são fundamentais no Brasil para poucas as pesquisas e análises que comprovam um processo social mais amplo de constituição e concluem que a escola e as suas práticas das condições objetivas e subjetivas de educacionais são, também, reprodutoras e igualdade, autonomia e, pois, de democracia. produtoras de preconceitos, discriminações, A educação (e, obviamente, os educadores e hierarquias e desigualdades raciais. educadoras) tem uma importante e indispensável O segundo aprendizado é que as contribuição nessa perspectiva, a partir do propostas de promoção de igualdade racial e momento em que se inicie uma reestruturação de reconhecimento histórico, social, cultural curricular que incorpore de forma consciente e estético positivo, bem como a valorização e positivamente, os princípios de Consciência da multiplicidade étnica e cultural inserem-se Política e Histórica da Diversidade, de num processo democrático. E também não são Fortalecimento de Identidades e de Direitos e poucas as pesquisas e análises que mostram de Ações Educativas de Combate ao Racismo e que as imensas desigualdades socioeconômicas às Discriminações4.Revista A COR DO BRASIL do Brasil e, portanto, a falta de democracia material, tem no racismo um dos principais determinantes. A observância das relações entre educação, preconceitos e discriminações 4 Esses princípios constam das Diretrizes Curriculares raciais, bem como de propostas e experiências Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e pedagógicas desenvolvidas no âmbito do Africana. In: MEC/Secad (2006).
  • 27. Étnico-Raciais sentido, alguns conceitos ajudam na construção de perspectivas, projetos e ações político- pedagógicas. Destaco o conceito Diversidade como sendo a perspectiva que deve assumir uma proposta para a (re)educação das relações étnico-raciais. Primeiramente, podemos definir Diver- sidade, do ponto de vista sócio-cultural, como Propostas para uma o conjunto das diversas formas de vida, estilos, Pedagogia da valores, visões de mundo. A diversidade é uma 27 multiplicidade de sujeitos sociais singulares que (re)Educação das possuem história e cultura. “Essa constatação Relações Étnico-Raciais indica que é necessário repensar a nossa escola e os processos de formação docente, rompendo Assim como tem sido até então reprodutora com as práticas seletivas, fragmentadas, corpo- e produtora de preconceitos, discriminações, rativistas, sexistas e racistas ainda existentes” depreciações e hierarquias étnico-raciais, a (Sodré apud MEC/Secad, 2006, p. 218). Porém, educação escolar pode passar a ser o oposto, “Assumir a diversidade cultural significa muito ou seja, uma atividade de reconhecimento e mais do que um elogio às diferenças. Represen- valorização da multiplicidade e das diferenças ta não somente fazer uma reflexão mais densa étnico-raciais, de produção de uma consciência sobre as particularidades dos grupos sociais, política e histórica da diversidade e de crítica mas, também, implementar políticas públicas, ao racismo e qualquer forma de discriminação e alterar relações de poder, redefinir escolhas, to- intolerância, e já começa a sê-lo pelo menos nas mar novos rumos e questionar a nossa visão de Revista A COR DO BRASIL suas diretrizes, nas políticas educacionais do democracia” (Gomes apud MEC/Secad, 2006, Ministério da Educação e algumas Secretarias p. 218). Estaduais e Municipais e nas preocupações dos Na educação escolar, assumir a educadores, que cada vez em maior número diversidade significa reconhecer e valorizar mobilizam esforços de pesquisa, aquisição as diferenças étnico-raciais e, para isso, deve- de conhecimentos e seleção de material para se fazer escolas curriculares e pedagógicas dar conta da questão em sala de aula. Nesse coerentes com essa perspectiva, o que mais que
  • 28. explicitar diferenças é colocar em discussão as relações de poder e criar condições de troca, reciprocidade, reconhecimento e respeito ao outro. Portanto, como perspectiva e como conceito, a diversidade pode servir como base e objetivo geral de um projeto político- pedagógico cujo principio seja uma aposta na multiplicidade, o que quer dizer que a pedagogia passa a ser não apenas uma ação 28 de explicitação, mas fundamentalmente uma ação de produção de singularidades. Porém, isso não se faz sem um permanente diálogo sobre os preconceitos e discriminações, sobre as dimensões raciais da desigualdade social e as relações de poder estabelecidas, sempre na perspectiva na superação do racismo e valorização da história, cultura, cidadania e do etnocentrismo. Trata-se, então, de uma reconstrução da auto-estima dos integrantes pedagogia militante e constituinte, na medida desses grupos sociais. em que pretende explicitamente produzir uma Isso conduz ao segundo elemento nova cultura, um novo jeito de ser, uma nova do projeto, que é trabalhar com as noções de visão estética e de relações sócio-culturais. multiplicidade, diferenças e identidade. Essas O primeiro elemento desse projeto noções são importantes às práticas que visam é colocar no centro os grupos sociais ajudar os educandos a desenvolverem as estigmatizados e discriminados (raça/etnia, dimensões que os compõe, a compreenderemRevista A COR DO BRASIL gênero, orientação sexual), propondo conteúdos que as diferenças étnico-raciais, culturais e e atividades coerentes com essa opção, ou seja, religiosas não são desigualdades e, portanto, não um conjunto de conteúdos, leituras e debates comprometem o ideal de igualdade de direitos, que explicitem e discutam as relações de poder oportunidades, tratamento e reconhecimento, e que se estabeleceram entre as raças, culturas que a multiplicidade é uma relação aberta das e gêneros, sempre no sentido de superação identidades singulares, que em cooperação da discriminação e que avance no sentido da constituem o comum. É afirmando-se como
  • 29. multiplicidade, ou seja, como singularidadesque cooperam que se mantém como tais, que asnovas lutas contra o racismo, cujas principaisexpressões são os movimentos culturais dasfavelas e periferias e os cursos pré-vestibulares  Desenvolvimento de atividadespara negros, produzem direitos, estilos, culturais, artísticas e musicais, nãodiversidade e o desmoronamento definitivo da apenas aquelas que resgatam a história,hibridação freyreana. mas que fundamentalmente incorporem elementos da cultura de origem africana Esses elementos - colocar no centro os e produzam estilos e formas singularesgrupos sociais estigmatizados e discriminados de estéticas, de linguagem, de expressão,e as trabalhar com as noções de multiplicidade, etc. O hip-hop, por exemplo, é umadiferenças e identidade - são pontos básicos de dessas produções;um novo projeto político-pedagógico e, dentrodele, pode-se propor e produzir ações e práticas  Mobilização das diversas disciplinasconcretas, tais como: em projetos comuns. Um projeto sobre África, por exemplo, pode mobilizar  Uma postura crítica dos educadores, diversas áreas, como história, literatura, independente da disciplina que redação, geografia, matemática 29 leciona, em face de manifestações (no trabalho com as estatísticas da preconceituosas e racistas entre desigualdade racial, por exemplo), estudantes, entre professores e ciências (na discussão da biodiversidade, estudantes e no âmbito geral da escola. das produções científicas), informática Isso é muito importante, pois não é (na sistematização de dados, produção incomum na escola as atitudes de de hipertextos, etc.), arte e educação desprezo, depreciação e desrespeito em física (danças, teatro, capoeira etc.). Um relação a estudantes negros(as), muitas projeto deste tipo pelo menos uma vez vezes em forma de “brincadeiras” em ao ano, com apresentações na semana relação à cor da pele e ao cabelo. Tal do 20 de novembro, por exemplo, ajuda postura deve mobilizar não apenas os a mobilizar esforços em pesquisa e professores, mas os diversos setores da produção de materiais informativos. escola, como diretores, supervisores, O trabalho pedagógico por projetos é orientadores e inspetores. Os uma das dimensões mais importantes Revista A COR DO BRASIL orientadores educacionais, em especial, dessa pedagogia da (re)educação das devem buscar entender o impacto relações raciais com foco no anti- das depreciações na auto-estima e no racismo, na produção de multiplicidade desempenho escolar dos estudantes; e singularidades étnico-raciais;  Criação de grupos ou círculos de leitura de textos da literatura brasileira e africana;
  • 30.  Debates a partir de palestras de militantes Outro elemento, não menos importante, do movimento negro, pesquisadores e é o da luta pela constituição material de direitos. artistas que trabalham com a temática Neste ponto, a compreensão do conceito de ou a partir de filmes, leituras de textos; ação afirmativa e as políticas concretas que são propostas a partir dele é muito importante.  Incorporação da temática pelas Inicialmente é preciso que os educadores disciplinas em seus conteúdos debatam as políticas em discussão que se programáticos. Além das disciplinas apresentam na sociedade, como a proposta de de História, Literatura e Educação cotas raciais e outras, no contexto do debate Artística, que são os lugares principais teórico e político sobre ações afirmativas, em que, segundo a Lei nº 10.639/03, observando na realidade social concreta as deve se desenvolver de forma desigualdades e as barreiras raciais impostas aos sistemática o ensino de história e cultura afro-descendentes e não um moralismo abstrato africana e afro-brasileira, conteúdos segundo o qual todos devem ter os mesmos sobre África, história e produções dos direitos e possibilidades. A perspectiva do afro-brasileiros e de uma (re)educação conceito de ação afirmativa insere num projeto das relações étnico-raciais podem ser de democratização dos direitos, de distribuição trabalhados pelas outras disciplinas. 30 de renda, de reconhecimento e, portanto, de Língua Portuguesa, Redação, Geografia, produção de condições objetivas e subjetivas de Sociologia, Ciências, Matemática e igualdade e autonomia. Cabe aos educadores, Educação Física, levando para seus além da compreensão teórica e política do currículos, por exemplo, discussões conceito de ação afirmativa, a explicitação de sobre a influência dos idiomas de todas as dimensões desse conceito e os motivos origem africana em nosso universo que levaram o movimento negro a se tornar o lingüístico, temas a serem explorados na protagonista intelectual e militantes das ações produção de textos, informações sobre afirmativas no Brasil. Mesmo porque a Lei nº características físicas, populacionais 10.639/03, as Diretrizes Nacionais Curriculares e culturais do continente africano, para e Educação das Relações Étnico-Raciais textos e debates sobre relações raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro- e desigualdades, o debate sobre raça do brasileira e Africana e a pedagogia que estamos ponto de vista biológico e sociológico, discutindo e propondo, inclusive neste texto, tabelas e gráficos estatísticos, as danças, são também ações afirmativas, ou seja, inserem- o samba, a capoeira, tudo isso situadoRevista A COR DO BRASIL se numa perspectiva de afirmação de identidade no tempo e no espaço. Até mesmo a e direitos. disciplina de Informática pode dar sua contribuição, utilizando dados, imagens Por fim, e para início de um processo de e pesquisas para o desenvolvimento criação de práticas pedagógicas anti-racistas e de textos, planilhas, banco de dados, de valorização da diversidade étnico-racial pelos hipertextos e softwares. educadores que ainda não se mobilizaram para tal, podemos dizer que a proposta educacional
  • 31. que não considera a multiplicidade e as diferenças é arbitrária, pois, conscientemente ou não,acaba fazendo uma determinada opção étnico-racial; a emancipação que não se alimenta da suaprópria história e cultura não produz autonomia. Portanto, a pedagogia, na perspectiva aqui delineada, coloca-se como uma ação militanteque visa produzir uma mudança cultural e simbólica nas relações étnico-raciais e uma das principaismedidas de ação afirmativa de um processo de superação dos preconceitos e discriminações raciais,de construção de respeito às diferenças raciais, culturais e religiosas e, pois, de fortalecimento dademocracia. O movimento negro vem mostrando, ao longo da sua história e com experiênciasconcretas, o que deve e como pode ser feito, a sociedade em geral está mais aberta a esse debate,o Estado brasileiro já reconheceu a necessidade de promoção da igualdade racial na educação, osinstrumentos legais existem e algumas ferramentas didático-pedagógicas já estão à disposição eoutras em produção. Resta agora aos educadores e educadoras colocar a mão na massa.Bibliografia MUNANGA, Kabengele & GOMES, Nilma Lino. O negro no Brasil de hoje. São Paulo: Global, 2006.BENTO, Maria Aparecida Silva & CARONE,Iray. Psicologia Social do Racismo: estudos NASCIMENTO, Alexandre do. “Movimentossobre branquitude e branqueamento no Brasil Sociais, Educação e Cidadania: UmPetrópolis, RJ: Vozes, 2003. Estudo sobre os Cursos Pré-Vestibulares Populares”. Dissertação de Mestrado. Rio 31BORGES, Edson; MEDEIROS, Carlos A. & de Janeiro: Universidade do Estado do Rio deD’ADESKY, Jacques. Racismo, preconceito e Janeiro (UERJ), 1999. Texto disponível emIntolerância. São Paulo: Atual, 2002. www.alexandrenascimento.com.Centro de Estudos das Relações de Trabalhoe Desigualdades. “Políticas de Promoção da NASCIMENTO, Alexandre do. AçõesIgualdade Racial na Educação: exercitando a Afirmativas: da luta do Movimento Socialdefinição de conteúdos e metodologias”. São Negro às políticas concretas. Rio de Janeiro:Paulo: Ceert, 2005. CEAP, 2006.D’ADESKY, Jacques. Plurarismo étnico e Núcleo de Estudos Negros. As idéias racistas,multiculturalismo: racismos e anti-racismos no os Negros e a Educação. Série PensamentoBrasil. Rio de Janeiro, Pallas, 2001. Negro em Educação, Volume 1. Florianópolis: Atilende, 1997.D’ADESKY, Jacques. Anti-racismo, liberdadee reconhecimento. Rio de Janeiro, Daudt, 2006. Núcleo de Estudos Negros. Os Negros, os Conteúdos Escolares e a Diversidade Cultural.HERNANDEZ, Leila M. G. Leite. A África na Série Pensamento Negro em Educação, Volumesala de aula: visita à história contemporânea. 3. Florianópolis: Atilende, 1998.São Paulo: Selo Negro, 2005. Núcleo de Estudos Negros. Os Negros, osLIMA, Ivan Costa. “As Propostas Pedagógicas Conteúdos Escolares e a Diversidade Culturaldo Movimento Negro no Brasil: Pedagogia II. Série Pensamento Negro em Educação,Interétnica uma Ação de Combate Ao Racismo”. Volume 4. Florianópolis: Atilende, 1998. Revista A COR DO BRASILDisponível em http://www.rizoma.ufsc.br/producao.php?cat=5. Núcleo de Estudos Negros. Multiculturalismo e a Pedagogia Multirracial e Popular. SérieMinistério da Educação. “Educação anti- Pensamento Negro em Educação, Volume 8.racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº. Florianópolis: Atilende, 2002.10.639/03”. Coleção Educação para Todos.Brasília: MEC/Secad, 2005. Unesco. Relações raciais na escola: reprodução de desigualdades em nome daMinistério da Educação. “Orientações e Ações igualdade. Coordenação de Miriam Abramovaypara a Educação das Relações Étnico-Raciais”. e Mary Garcia Castro. Brasília: Unesco, INEP,Brasília: MEC/Secad, 2006. Observatório de Violências nas Escolas, 2006.
  • 32. 32 Movimento Negro Brasileiro: uma pedagogia de exemplos e desafios Amauri Mendes PereiraRevista A COR DO BRASIL Especialista em História da África Mestre em Educação-UERJ Doutor em Ciências Sociais-UERJ
  • 33. 33 A trajetória de auto-instituição do até meados do século XX, e do qual aindaMovimento Negro Brasileiro vem cumprindo um hoje não estamos livres. Estudo recente epapel pedagógico extraordinário, propiciando à bem objetivo a respeito pode-se encontrar nosociedade brasileira pensar-se de maneira mais livro de Kabengele Munanga Rediscutindo aconsistente do que vem sendo comum: a partir mestiçagem no Brasil. Preciosos, também, osdos valores arraigados e sempre resignificados trabalhos de Giralda Seyferth especificamenteem séculos de escravismo; e do acúmulo sobre a imigração como a primeira grandede vantagens econômicas e políticas, de política pública da República e seus propósitoscolonialismo cultural, enfim, de hierarquização “eugênicos”.e naturalização da hierarquia social e “racial” É essencial, no entanto, cruzar ambas asentre mais claros e mais escuros. coisas: se há um movimento social emergindo Aos poucos vai ficando mais evidente, é porque há necessidade e condições sociaistanto no terreno da instituição política, e históricas para isso. Como não falar noquanto para a comunidade de estudiosos dos interesse do novo Estado republicano emproblemas brasileiros contemporâneos, a substituir (ou como era mais comum se falarenvergadura dos processos através dos quais Revista A COR DO BRASIL na época, higienizar) a população, branqueá-la,o Movimento Negro emerge na cena histórica tornando-a mais apta à civilização? Ao negrorompendo com uma questão sensível nos brasileiro restava sucumbir ou (como sempre!)sonhos das elites brasileiras: a construção de resistir. Aqui tratamos dessa resistência,uma nação etnicamente homogênea, em que a observando que foi e está indo mais além dosuperioridade (cultural e biológica) “branca” que era possível – está propondo coisas novas,diluiria a “mancha negra”. novos sentidos à sociedade. E em relação ao Não é aqui o lugar de se estender sobre racismo transformista, que exige cada vez maiso racismo “estrutural” que consistia na própria força, habilidade e generosidade do Movimentoessência do pensamento das elites brasileiras Negro? É preciso não perdê-lo de vista.
  • 34. de acordos, em que os escravos conquistavam Um currículo direitos e condições de manter famílias, de remoto gerar certa autonomia econômica que permitia a compra de bens e até de alforrias, e de articular Os quilombos são sempre uma referência espaços próprios de vivências culturais, quando se fala em lutas negras. Mas é uma ilusão religiosas e outras. imaginarmos quilombos apenas como grupos Estes estudos que falam do escravo – de negros escondidos, isolados no meio do e até de famílias escravas – como sujeitos mato. Pelo menos há estudos que mostram uma históricos são bem-vindos. Mas serão mais variedade de tipos de quilombos, que muitas bem-vindos ainda os estudos que tratem da vezes mantinham relações – às vezes mais, às população negra no pós-abolição. Como já foi vezes menos – conflituosas com outros grupos referido há um silêncio historiográfico sobre e agentes sociais de suas regiões. Palmares, sem essa trajetória, quer dizer, a escrita da história dúvida, é o maior de todos os exemplos, o mais do Brasil não registra a população negra como conhecido. Será que para aqueles que viviam tal, suas iniciativas, suas formas de adaptação na Serra da Barriga bastava a existência do ao novo regime, sua capacidade de sobreviver Quilombo? É possível que não, pois este cresceu, ao abandono social, que foi o que a abolição se desenvolveu, e se complexificaram suas representou para a grande maioria, depois formas de organização interna (da produção, de de passada a alegria do primeiro momento. É circulação de idéias, das relações de poder etc.), como se o fim da escravidão legal e a igualdade transformando-o política e institucionalmente, formal da constituição republicana tivessem gerando novas e desafiantes perspectivas, suprimido a hierarquização de importâncias 34 inclusive nas relações com os fazendeiros e durante séculos associadas à cor da pele. autoridades da região. Hoje, podemos pensar E por que a história social não registra? que se tornaria intolerável, por ser uma negação Porque na visão da maioria dos historiadores, radical do sistema dominante. Por isso a tensão com a República começava um novo Brasil no foi se tornando aguda e, com o incremento das qual a cor não importava e sim a classe social. ações militares, ou se rendiam ou negociavam Pode-se pensar que essa concepção sobre o (como teria feito Ganga Zumba), ou se levava desenvolvimento da nação e da sociedade o enfrentamento até as últimas conseqüências, brasileira tem a ver com a origem “racial” da como teriam deliberado Zumbi, e a maioria.1 maioria dos historiadores. Mais importante, Mas certamente não eram apenas essas as porém, que esse vício de origem, que muitos formas de resistência no tempo da escravidão. conseguem superar, são as idéias que foram Em cada tempo e lugar oprimidos de todas as sendo criadas para explicar a perpetuação das “raças” encontram seu jeito. Não seria diferente desigualdades materiais e simbólicas que, de entre nós. Já são muitos os estudos que abordam maneiras renovadas, passaram a vigorar. A as relações senhor X escravo, como atravessadas crença generalizada entre as elites intelectuais por tensões e conflitos, diferentes das visões era de que o atraso cultural se devia ao negro: de escravidão benevolente, ainda comuns em à sua inferioridade biológica, à sua condição nosso imaginário social. Documentos da época primitiva de ser humano. Hoje já são muitos osRevista A COR DO BRASIL mostram que em meio a disputas (que às vezes estudos que mostram os discursos e expectativas degeneravam em fugas, assassinatos de feitores de parlamentares, de advogados, de médicos e senhores, ou ao contrário em punições terríveis e outros entre os mais acreditados intérpretes sobre os rebeldes), eram selados variados tipos daqueles momentos. Além de trabalhos de Giralda Seyferth, já referidos, gostaria de 1 Esse tipo de análise se tornou possível a partir da des- coberta de documentos da época e de sua análise por recomendar o pequeno texto de Carlos Vainer Décio Freitas, que mesmo não sendo à época um histo- que se encontra na bibliografia. riador de formação, produziu um clássico: Palmares: a Interessante como custou tanto – quase o Guerra dos Escravos. Ed. Mercado Aberto. Porto Alegre. século XX inteiro – para serem “descobertas” 5ª edição. 1984.
  • 35. Revista A COR DO BRASIL 35
  • 36. e analisadas: a volumosa documentação sobre idéias irradiaram-se por incontáveis cidades o racialismo e racismo de quase todos os do interior... E alcançaria quase todas as principais intelectuais até meados do século XX; regiões brasileiras, com volume incontrolável assim como a fábula de recursos despendidos de representações (os dirigentes da FNB para trazer imigrantes europeus (logo em 1891, alardeavam – deve-se descontar os exageros – a foi decretado que apenas europeus podiam ser adesão de mais de 200.000 filiados).3 imigrantes); e as evidências de que o sul do Brasil Se as irmandades negras católicas já tornou-se muito mais “branco” e desenvolvido eram muito antigas, assim como a Sociedade do que era. Até muito recentemente era quase Protetora dos Desvalidos, na Bahia, e o Clube absoluta a visão de que o imigrante é que fizera Floresta Aurora no Rio Grande do Sul, a partir a diferença. Sozinho. Como se suas áreas de da segunda década do século XX – e a Revolta acolhimento – sem menosprezar a determinação da Chibata e o heroísmo de João Cândido, de homens e mulheres que se abalaram de tão são um emblema disso – foram se mostrando, longe exatamente para se livrarem da miséria cada vez mais claramente, a inconsistência das e exploração – não tivessem sido as mais idealizações e esforços arianizantes das elites. beneficiadas por todo tipo de investimento, Foram sendo fundados clubes e associações inclusive, no que diz respeito à sua valorização negras em toda parte do país, com variadas como pessoas. Para as nossas elites, o imigrante características, de acordo com especificidades europeu era o portador do sangue redentor da e possibilidades locais. Exemplos dos mais ossa inferioridade biológica – o verdadeiro conhecidos: o Marcílio Dias e o Satélite “sangue-bom”... Prontidão, em Porto Alegre, RS; o Aristocrata Clube em São Paulo; o Renascença Club, na 36 capital e o Clube Palmares, em Volta Redonda, O quadro-negro RJ; o Chico Rei Clube em Poços de Caldas e o recente Minas Clube em Além Paraíba, o Elite Clube de Uberaba, MG... Em torno desses e de outros tipos O fenômeno da Frente Negra Brasileira, de espaços associativos, que não se pode tratar que impactou São Paulo quando de sua criação mais longamente aqui, aglutinavam-se famílias em 1931, é o exemplo mais conhecido de ruptura negras, criando mecanismos de assistência com as idealizações de branqueamento da mútua e outras formas de fortalecimento social sociedade. Mais do que simplesmente “clarear” e econômico. pela mestiçagem, era necessário que o negro Não é outro também o sentido da ampla brasileiro concedesse em clarear culturalmente. e irreprimível instituição das manifestações E estava acontecendo o contrário: a valorização culturais de matrizes africanas. Às vezes, através de ser negro! Hoje é fácil encontrar documentos de confrontação direta, como os afoxés nascidos organizativos, depoimentos dos militantes mais dos candomblés da Bahia, cujo momento conhecidos e exemplares de jornais da imprensa decisivo de afirmação foi contra a repressão negra que contam tal história.2 A FNB era uma policial, em 1949 (por isso a tradição baiana do organização de caráter social, que abrigava Afoxé Filhos de Gandhi de desfilarem apenas 3 Está por ser feita uma História do Movimento Negro vasta e abnegada militância, ostensiva, comRevista A COR DO BRASIL Brasileiro. Flavio Gomes (Negros e Política, Jorge Zahar, seus uniformes, carteirinha, posturas pessoais e 2005), sinalizou agudamente para o silêncio historiográfi- coletivas até então inéditas da parte de negros, co sobre essa trajetória de lutas pós-abolição. São incon- táveis e as mais variadas, as iniciativas no seio da popu- com esmerada disciplina de organização e lação negra, em todas as regiões brasileiras. É recente e mobilização, reivindicações e exigências ainda escasso, no entanto, o interesse acadêmico sobre abertas e diretas às autoridades públicas. Suas esses eventos. Uma preciosidade é o livro ...E disse o velho militante José Correia Leite. É relato e análise feitos 2 Na segunda parte do livro clássico de Florestan Fer- por quem ajudou a produzir tal história – um dos mais nandes A integração do negro à sociedade de classes, importantes nomes entre os militantes do MN ao longo há todo um capítulo dedicado aos movimentos sociais no do século XX. Editado por Cuti, poeta e militante negro, e meio negro. Farta documentação da Imprensa Negra da publicado pela Secretaria de Cultura do Município de São época e outras fontes. Paulo, em 1992.
  • 37. homens); como o Passo (do qual surgiu o Frevo) O problema do negro atravessou o séculoem Pernambuco; da Capoeira no Rio de Janeiro, xx como um dos mais sensíveis na sociedadeBahia e outras regiões... Outras vezes, como o brasileira. Ao invés de assumir que o negro era umSamba carioca, que foi se insinuando, resistindo problema o Movimento Negro veio, aos poucos,(aqui e ali obrigado a enfrentamentos também), mostrando que o problema se encontrava (e seaté conquistar certa institucionalidade, e galgar encontra) na formação e no desenvolvimento daa importância que tem hoje. sociedade. A sociologia intuitiva e desafiadora Pois em cada um desses processos sociais de Alberto Guerreiro Ramos – negro, baiano,há muito mais do que a contabilidade de êxitos dos mais respeitados sociólogos brasileirosdos quais se ufana, com razão, o Movimento por volta de meados do século XX – deu oNegro. Há histórias de vidas, de abnegação, diagnóstico: segundo ele, havia uma patologiade tenacidade e talento, de homens e mulheres social do branco brasileiro. Que se manifestavainabaláveis em sua dignidade e determinação. no esforço de tematizar o negro, de vê-lo comoA trajetória de resistência e a capacidade o problema – hoje podemos dizer; de torná-lode construir suas próprias alternativas de o étnico, o diferente; enquanto o “branco” sesociabilidade constituem motivos de justificado oculta e transparece como a normalidade. É umaorgulho para todos os que (independente da forma sofisticada de racismo. Capaz, mesmo,cor da pele e do tipo de cabelo) assumem a de enganar gente sinceramente solidária, econsciência social do que significa ser negro no até militantes do Movimento Negro. SomosBrasil. muitas vezes levados a nos agarrar à diferença como um espaço possível, o único que nos é oferecido, onde podemos afrontar os estigmasAprender e ensinar que nos afrontam. 37novas lições É verdade que a juventude negra que “tomou a história em suas próprias mãos” a partir dos anos 1970, criando novas formas de organização, assumindo novos discursos“A bibliografia do ‘problema do e práticas, buscando alianças e reforço junto a outros setores dos movimentos sociais, teve de romper com certas características das lutasbranco’ sobre o negro é imensa. contra o racismo que vinham lá de trás. Mas soube aproveitar bem a história e os exemplosNela, como não podia deixar de de tenacidade, de abnegação, de capacidade de se instituir a ferro e fogo, que constituíam umaser, o negro é o problema. herança inestimável dos que lhes antecederam. Em fins dos anos 1980, aquela juventude amadurecia. Vivera a experiência concreta deAs exceções – sinal dos tempos! – se lançar, junto aos setores democráticos e anti- racistas, nas grandes campanhas políticas daestão aumentando. conjuntura e acabar praticamente sozinha frente Revista A COR DO BRASIL à repressão absolutamente desproporcionalInfelizmente a regra, idem.” dos batalhões da polícia e do exército, nas manifestações de rua questionando o centenário da abolição.TI. Literatura Negra No início da década de 1990 se esgotava a fase heróica e romântica do impulso doBrasileira: notas a respeito de Movimento Negro iniciado nos anos 70. Novoscondicionamentos jovens militantes tinham menos paciência e agendas mais pragmáticas. Ostentando a
  • 38. “não há caminhos, fazemos os caminhos ao andar” recém conquistada visibilidade (quase diria O Salto pode se tornar uma viagem longa, respeitabilidade) política da causa, lançaram-se na qual Ações Afirmativas e cotas representam ao Salto: a conquista de novos espaços político- uma estação. Como disse um poeta angolano, institucionais, dentro e fora do país, acessando Helder Neto, “não há caminhos, fazemos os fundos públicos e a cooperação internacional, caminhos ao andar”. Resta – enquanto se faz como já era uma verdadeira febre em outros o que se tem de fazer, do jeito que tiver que ser setores do movimento social. Militantes negras feito – interrogar. Serão suficientes esses jeitos questionavam o machismo dos homens negros possíveis de fazer Movimento Negro? Serão e o elitismo e racismo do feminismo branco; mesmo nossos esses espaços e formas toleradas religiosos católicos, protestantes, umbandistas, pelo campo de poder racial e de classe que nos candomblecistas precisavam resguardar suas lança no gueto e, até, absorve – e manipula instituições e áreas de influência; o mesmo, com através da produção cultural e do consumismo aqueles que haviam conquistado espaços em – a nova estética e as muitas energias e coisas partidos políticos, no sindicalismo e em outros boas que produzimos? 38 segmentos. Aos poucos foi se enfraquecendo No seio da população negra, “no âmago a noção de que estar junto ao conjunto das das coisas”, conforme poetou Cuti, nas “Almas lutas sociais era suficiente para, através da da gente negra”, de que falava W.E.B. Du Bois, ampliação da luta contra o racismo, realizar há exemplos sem conta que precisamos resgatar. pouco a pouco, a redenção da sociedade. Não eram muitas e complexas as formas de luta Essa visão universalista perdeu espaço para durante a escravidão? No pós-abolição não o diferencialismo e a agilidade, simplicidade foram encontrados os jeitos mais diversos de do discurso e de projetos, que ele propicia. não ficar de fora da nova sociedade que nascia, e Simultaneamente foi se inaugurando uma nova mais adiante e até hoje não estão sendo colhidos postura, não mais apenas de demanda, mas de os frutos da força, da tenacidade, da alquimia da disputa, em esquemas de poder. dor e do sofrimento em energia transformadora? O Movimento Negro Brasileiro se deixará emparedar (como no poema de Cruz e Souza) Como vivenciar o em jeitos e caminhos óbvios, domesticadores? Como vivenciar o momento atual com momento atual com a a eficácia, mas também com o poder da criação e superação com que Luiza Mahin e eficácia, mas também Luiz Gama, Castro Alves, Patrocínio, José Correia Leite, Arlindo Veiga dos Santos, RaulRevista A COR DO BRASIL com o poder da criação Joviano do Amaral, Henrique Cunha, Abdias do Nascimento, Maria Nascimento, Solano e e superação (...) Margarida Trindade, e tantos outros e outras, vivenciaram os desafios e ensinaram as sociedades de seus tempos? Franz Fanon, como cada um de nós, não tem soluções. Mas do fundo de sua alma e de uma vida martirizada nos enviou pistas:
  • 39. Bibliografia BARBOSA, Marcio. Frente Negra Brasileira: depoimentos. Quilombhoje. SP. 1998 CARNEIRO, Sueli. Raça, gênero e ações afirmativas. Em Levando a raça a sério: ação afirmativa e universidade. Joaze Bernardino e Daniela Galdino. Editora“É por um esforço DP&A e PPcor-LPP-UERJ. 2004. CORREA, Marisa. Ilusões da Liberdade. Ed.para se reapossar Universidade São Francisco. Bragança Paulista.1998.de si, e de CUNHA Jr, Henrique. Textos para o Movimento Negro. Edicon. SP. 1992 D’ ADESKY, Jacques. Pluralismo étnico edespojamento. multiculturalismo: racismos e anti- racismos no Brasil. Pallas editora.RJ.É por uma tensão 2001. DU BOIS, W. E. B. As almas da gente negra.permanente de sua Lacerda editores. RJ. 1999 39 FANON, Franz. Pele negra, máscaras brancas.liberdade, Livraria Paisagem. Porto. Portugal. s/data. FERNANDES, Florestan. A integração doque os homens negro à sociedade de classes. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. 1964podem criar as GOMES, Flávio dos Santos. Negros e Política (1888-1937). Jorge Zahar Editor. RJ.condições ideais 2005. GONZALES, Lélia e HASENBALG, Carlos.de existência de um Lugar de negro. Editora Marco Zero. RJ. 1982.mundo humano.” GUERREIRO RAMOS, Alberto. Introdução crítica à sociologia brasileira. Editora UFRJ.1995. Revista A COR DO BRASIL HANCHARD, Michael. Orfeu e Poder: o Movimento Negro no Rio de Janeiro e São Paulo (1945-1988). EdUERJ-UCAM. RJ. 2001. HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais. EdUFMG. BH. 2003
  • 40. IANNI, Otávio. Raças e classes sociais no República e a questão do negro no Brasil. Brasil. Editora Civilização Brasileira. RJ. Salgueiro, M A. A.(Org). Editora Museu 1966. da República. RJ. 2005 LEITE, José Correia e CUTI. Assim falava o SILVA, Joselina da. A União dos Homens de velho militante. Sec Municipal de Cultura. Cor: aspectos do movimento negro dos SP. 1992. anos 40 e 50. Estudos Afro-Asiáticos ano MEDEIROS, Carlos Alberto. Na lei e na raça. DP& A editora/LPP-UERJ. 2004 25 n° 2, 2003 MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a SILVÉRIO, Valter Roberto. Negros em mestiçagem no Brasil. Vozes. Petrópolis. 1999 movimento: a construção da autonomia pela afirmação de direitos. Em Levando a NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do raça a sério: ação afirmativa e universidade. negro brasileiro: processo de um racismo Joaze Bernardino e Daniela Galdino (Orgs). DP&A e PPcor-LPP-UERJ. 2004 mascarado. Ed. Paz e Terra. RJ. 1978. SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros. Editora PEREIRA, Amauri M. Trajetória e perspectivas Vozes. Petrópolis. 1999 do Movimento Negro brasileiro.(livro) Comissão de combate às discriminações VAINER, Carlos. Estado e raça no Brasil: notas e preconceitos da Alerj - Assembléia exploratórias. Estudos Afro-Asiáticos n° Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. 18. RJ. 1990 2005. VALENTE, Ana Lúcia E. F. O negro e a igreja 40 SANTOS, Ivair Augusto Alves dos. O católica – o espaço concedido, um espaço Movimento Negro e o Estado: o reivindicado. CECITEC-UFMS. 1994 caso do Conselho de Participação e WEST, Cornel. Questão de raça. Companhia desenvolvimento da Comunidade Negra das Letras. SP. 1994. no Governo de São Paulo (1983-1987). Dissertação de Mestrado em Ciência Política-Unicamp, 2001. SANTOS, Marcio André O. A persistência política dos Movimentos Negros Brasileiros: processo de mobilização à 3ª Conferência Mundial das Nações Unidas Contra o Racismo. Dissertação de Mestrado. PPCIS-UERJ. 2005. SEYFERTH, Giralda. Construindo a nação: hierarquisas raciais e o papel do racismo na política de imigração e colonização”. In Raça, Ciência e Sociedade. CHORRevista A COR DO BRASIL MAIO, Marcos e VENTURA SANTOS, Ricardo. FIOCRUZ/CCBB. RJ. 1996 ______________. As Ciências Sociais no Brasil e a questão racial. Em Cativeiro e Liberdade. Birman P, da Silva, J e Wanderley, R. (Orgs). UERJ. 1989 ______________. A colonização e a questão racial nos primórdios da República. Em A