DINÂMICAS E PERSPECTIVAS DO MERCADO DA CACHAÇA

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  • 1. DINÂMICAS E PERSPECTIVAS DO MERCADO DA CACHAÇA1 Adriana Renata Verdi21 - INTRODUÇÃO 1 2 2 - MERCADO INTERNACIONAL DE CACHAÇA Nos últimos anos a cadeia produtiva da Apesar do crescimento dos últimos a-cachaça encontra-se em efervescência, pois vem nos, a participação das exportações de cachaça nose firmando como um importante produto do total da produção nacional ainda é bastante ínfima.agronegócio brasileiro. Embora detenha uma pe- A maior parte da cachaça destina-se ao mercadoquena participação no total, vem adquirindo es- interno. No território nacional, a bebida é o destila-paço crescente na pauta de exportação do País. do mais consumido e ocupa o segundo lugar entreEsse novo contexto tem sido respaldado pela as bebidas alcoólicas, perdendo apenas para acomposição de todo um quadro institucional e pe- cerveja.lo desenvolvimento de profundas mudanças no De um montante de 1,5 bilhão de litrosaparato regulatório. produzidos por ano, o mercado externo absorve Trata-se de um segmento em franco em torno de 1%. Essa baixa participação dasprocesso de ajustamento às novas condições de exportações revela que a bebida detém significa-concorrência, ao mesmo tempo que vem conquis- tivo potencial de mercado.tando competitividade e preço. Dentre os principais A cachaça constitui a terceira bebidafatores que corroboram para esse processo desta- destilada mais consumida no planeta de acordocam-se os esforços para o reconhecimento da com o ranking mundial do consumo de destiladosdenominação de origem “cachaça” e a construção publicado pelo Programa Brasileiro de Desenvol-de normas e selos de qualidade nas várias esferas vimento da Cachaça (PBDAC). Tendo em vista(nacional, estadual e regional). Observa-se que este ranking, a cachaça perde somente para aessas estratégias de mercado atingem também os vodca e o shoju3 e ganha de várias bebidas desti-pequenos e médios produtores inseridos nas prin- ladas bastantes tradicionais como o gim, o scotchcipais aglomerações e organizados em cooperati- wisky e o licor.vas e associações. A maior interação e articulação Um processo significativo de cresci-entre esses produtores têm proporcionado escala, mento das exportações da cachaça brasileiraincorporação de atributos específicos à bebida e, iniciou-se no final dos anos 90s e atingiu seuconseqüentemente, a conquista de importantes auge em 2002. De um montante de 5,5 milhõesnichos de mercado, bem como maior agregação de litros em 1988 passou para 14,5 milhões dede valor ao produto. litros no início desta década. Apesar da perspectiva de mercado, Esse crescimento da quantidade expor-das estruturações institucionais e regulatórias do tada pode ser explicado pela estruturação do qua-segmento no País e das várias experiências posi- dro institucional do setor no País, principalmente ativas de cooperação de pequenos produtores, a partir de 1997, com a criação do PBDAC, pelacachaça brasileira enfrenta ainda sérios desafios, Associação Brasileira de Bebidas (ABRABE).que precisam ser superados: a produção “clan- Além das ações da Federação Nacional dasdestina” (informal), o isolamento e falta de em- Associações de Produtores de Cachaça de A-preendedorismo da produção familiar e a expor- lambique (FENACA), da Agência de Promoçãotação a granel. de Exportações e Investimentos (APEX4), do 3 Bebida destilada coreana. 4 A atuação da APEX ocorre através de projetos e incentivo1Registrado no CCTC, IE-104/2005. à participação nos principais eventos nacionais e interna- cionais. Recentemente, o setor da cachaça contou com2 Geógrafa, Doutora, Pesquisadora Científica do Instituto um total de cinco projetos: coocachaça-MG II (cachaçade Economia Agrícola (averdi@iea.sp.gov.br). artesanal); SEBRAE-PE (cachaça); ABRABE/FENACA -Informações Econômicas, SP, v.36, n.2, fev. 2006.
  • 2. 94Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas pelas exportações de cachaça paulista represen-Empresas (SEBRAE5) e do PBDAC6, pode-se tou 62% do montante exportado pelo País. Situa-destacar ainda a instituição da Câmara Setorial ção semelhante deve se confirmar em 2005, poisda Cachaça pelo Ministério da Agricultura, Pe- o estado já detém 59% do valor total exportadocuária e Abastecimento (MAPA) em setembro de até outubro (Tabela 1).2004, reunindo a cadeia produtiva do setor. Esseaparato institucional contribui para a expansão domercado, à medida que proporciona capacitação TABELA 1 - Participação da Cachaça Exportadatécnica dos produtores, valorização da imagem pelo Estado de São Paulo no Totaldo produto e divulgação da cachaça no exterior. do País, 2000 a 20051 A partir de 2003 a quantidade de ca- Quantidade (mil litros)chaça exportada por ano vem se mantendo em Ano Brasil SP Partic.%torno dos 8,6 milhões de litros. Nos dez primeiros (BR) (SP) (SP/BR)meses de 2005 ocorreu alteração nessa estabili- 2000 13.429 7.084 53dade visto que a quantidade exportada já é de 2001 10.150 3.237 328,7 milhões de litros, montante que ultrapassa o 2002 14.535 5.760 40 2003 8.648 3.698 43total exportado em 2004 (Tabela 1). 2004 8.604 3.129 36 Paralelamente a essa recente estabili- 2005 8.693 3.955 45zação da quantidade enviada ao mercado exte- Valor (mil dólares, FOB)rior, observa-se uma trajetória crescente para o Ano Brasil SP Partic.%valor exportado pelo Brasil, que de um total de (BR) (SP) (SP/BR)US$ 8,15 milhões registrados em 2002, passou 2000 8.147 3.681 45para um montante superior a US$ 11,07 milhões 2001 8.453 3.880 46em 2004. A variação do valor exportado de 2003 2002 8.722 3.395 39para 2004 foi de 22,92% e, considerando somen- 2003 9.008 5.130 57te os dez primeiros meses do ano atual, nota-se 2004 11.072 6.827 62que as exportações de cachaça já contabilizaram 2005 10.458 6.182 59cerca de US$ 10,5 milhões (Tabela 1). Preço médio (US$/litro) Ano Brasil SP Var. Especificamente com relação a São (BR) (SP) (SP/BR)Paulo, pode-se ressaltar que o Estado detém a 2000 0,61 0,52 -15maior participação no total do volume exportado 2001 0,83 1,2 45de cachaça do País, liderança assumida desde 2002 0,6 0,59 -21997 e cuja participação só foi inferior a 40% em 2003 1,04 1,39 34dois anos (2001 e 2004). A melhor posição foi 2004 1,29 2,18 69conquistada em 2000, quando respondeu por 2005 1,2 1,56 30mais da metade (53%) do total, enquanto nos dez 1 Os dados de 2005 referem-se ao período de janeiro a outu-primeiros meses de 2005, a exportação, em ter- bro. Os números correspondem à cachaça e caninha (rum emos de volume, já é maior que nos quatro anos tafia). Fonte: SECEX. Disponível em: <http://www.alice.gov.br>.anteriores (Tabela 1). Acesso em: nov. 2005. Em termos de valor, o destaque doestado nas exportações brasileiras com o produto De 2003 para 2004, a variação da par-é ainda maior. Assim, em 2004 o valor gerado ticipação do Estado de São Paulo no valor total exportado foi de 33,1%, maior do que a variaçãoSP e MG (cachaça); ABRABE-SP (cachaça) e coocachaça nacional (22,9%), mas inferior à de três Estados:- MG I (cachaça artesanal). Paraná (51,7%), Pernambuco (41,5%) e Ceará5A atuação do SEBRAE consiste principalmente na pro- (41,1%).moção de cursos aos agentes do setor. Dada a manutenção da quantidade de6 O PBDAC tem como prioridades: capacitar o setor de ca- cachaça exportada pelo País nos últimos trêschaça para competir no mercado internacional com eficiênciae qualidade; valorizar a imagem da cachaça como produto anos, o aumento do valor resultou dos preçosgenuinamente brasileiro, com características históricas, médios por litro do produto. De 2000 a 2002 oculturais e econômicas; oferecer capacitação técnico-comer-cial aos produtores para proporcionar a inserção destes no preço médio por litro de cachaça exportada eramercado. inferior a US$1,00, sendo que em 2004 o preçoInformações Econômicas, SP, v.36, n.2, fev. 2006.
  • 3. 95médio passou para US$1,29. Apesar de o Estado nal e, portanto, merecedora de um valor extra node São Paulo deter suas exportações concentra- preço total final.das na cachaça produzida industrialmente, o Além dessa estratégia nacional, açõespreço médio da bebida exportada por esse esta- regionais e locais têm sido empreendidas com odo só foi inferior ao nacional em dois anos, 2000 objetivo de conquista de nichos de mercado ee 2002. Em 2004, o preço médio recebido pelos maior agregação de valor ao produto. Nessaexportadores paulistas foi bem superior ao do perspectiva, a diferenciação da cachaça está sePaís, atingindo o montante de US$ 2,18/litro (Ta- intensificando no Brasil. Cada região, cada lugarbela 1). de produção procura buscar um diferencial, seja Um dos fatores que explicam esse na utilização da técnica e da madeira no proces-comportamento nos preços da cachaça exporta- so de envelhecimento, responsáveis por variaçãoda pelo país é a estratégia adotada pelo governo na coloração e sabor, seja aderindo novos pro-brasileiro, notadamente do PBDAC e da Câmara cessos como o orgânico. Na realidade, a produ-Setorial quanto à indicação de procedência como ção local busca atribuir especificação de seubebida típica do Brasil e regulamentação da qua- território.lidade do produto, além da intenção em dificultar As experiências espalhadas pelo Paísa exportação a granel. Ressalte-se que o Brasil mostram que os maiores êxitos são frutos dedisputa pela exclusividade de utilização do termo projetos coletivos, ou seja, quando a construção“cachaça” para o destilado de cana produzido no de especificidade territorial envolve esforços dosPaís desde 2001. mais variados agentes presentes no local, tanto Apesar de recentes, essas estratégias privados como públicos.de mercado já vêm sendo adotadas no setor da Além dessas, deve-se ressaltar os es-cachaça, notadamente a partir da efetivação do forços dos governos estaduais junto às institui-Decreto n. 4.8517, de 02/10/2003, que institui a ções certificadoras para a criação de normas decachaça como bebida típica do Brasil. O reco- qualidade a serem aplicadas aos seus respecti-nhecimento internacional está em fase adiantada vos territórios. É o que vem sendo elaborado nona Organização Mundial de Aduana (OMA), que Estado de São Paulo, com o selo de qualidadedefinirá uma nova posição tarifária para a cacha- para a cachaça paulista, sob a coordenação daça. A vigência desse decreto e, principalmente, Coordenadoria de Desenvolvimento dos Agro-seu reconhecimento internacional, poderá gerar negócios (CODEAGRO), da Secretaria de Agri-possibilidades de agregar maior valor ao produto cultura e Abastecimento do Estado de São Pau-no mercado externo. Como bebida típica do País, lo.com raízes na história, apoiado no patrimônio Vale reconhecer que todos esses es-cognitivo coletivo do povo brasileiro, dependente forços de estabelecimento de normas de qualida-do savoir-faire presente no País, passa a se de, aperfeiçoamento do design e materiais utili-constituir numa especificidade do território nacio- zados na apresentação do produto, bem como de indicação de procedência, ao mesmo tempo que7 O Decreto altera os dispositivos do regulamento aprovado implicam novos custos de transação, constituempelo Decreto n. 2.314, de 04/09/1997, que dispõe sobre a estratégias importantes para agregação de valorpadronização, a classificação, o registro, a inspeção, a à bebida. Esse fato parece já influenciar as expor-produção e a fiscalização de bebidas: No artigo 81, § 4: “acaipirinha é a bebida típica do Brasil, com graduação tações de cachaça do Brasil a partir de 2003, aalcoólica de quinze a trinta e seis por cento em volume, a julgar pelos preços praticados.vinte graus Celsius. Obtida exclusivamente com cachaça, Quanto aos destinos internacionais daacrescida de limão e açúcar”. O § V “O limão de que tratao inciso IV deste artigo, poderá ser adicionado de forma cachaça brasileira, a Alemanha encontra-se nodesidratada”. Artigo 90, inciso I “A aguardente terá a de- topo do ranking dos 48 países importadores danominação da matéria-prima de sua origem”. Segundo oartigo 92 “Cachaça é a denominação típica e exclusiva da bebida, com 2,7 milhões de litros, ou seja, 31,5%aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação da quantidade total de cachaça exportada nosalcoólica de trinta a quarenta e oito por cento em volume, dez primeiros meses de 2005, correspondentes aa vinte graus Celsius, obtida pela destilação do mosto fer-mentado de cana-de-açúcar com características sensoriais 20,2% do valor total no mercado exterior. Outrospeculiares, podendo ser adicionada de açúcares até seis clientes significativos do destilado de cana brasi-gramas por litro, expressos em sacarose” (Decreto n. leiro em 2005 são, pela ordem de quantidade4.851, de 02/10/2003).Informações Econômicas, SP, v.36, n.2, fev. 2006.
  • 4. 96importada, Paraguai, Uruguai, Portugal, Estados 3 - PRODUÇÃO E PREÇOS RECEBIDOS DEUnidos, Argentina e Itália (Tabela 2). CACHAÇA A participação alemã também se des-taca como principal destino das exportações No território nacional, especialmente nopaulistas, com 812 mil litros, o que equivale a Estado de São Paulo, a produção da cachaça é20,5% da quantidade total de cachaça exportada realizada segundo duas formas principais, ou se-por esse estado nos dez primeiros meses de ja, a produção em larga escala com modernas2005. No tocante ao valor, observa-se que o colunas de destilação e com sofisticados recur-peso da Alemanha foi menor, pois deteve apenas sos de análises laboratoriais, geralmente organi-13% do valor total da cachaça paulista exportada. zada pelos grandes grupos e a de alambique,Tal fato indica que a cachaça do Estado de São mais artesanal, geralmente desenvolvida por pe-Paulo destinada a esse país possui um baixo quenos produtores, de base familiar e com recur-preço, permitindo estabelecer a hipótese de que sos mais modestos.boa parte dessa bebida tenha sido produzida A produção nacional da cachaça desegundo o processo industrial (Tabela 2). alambique é cerca de 300 milhões de litros, contra 1 bilhão da indústria, realizada pelos grandes gru- pos de empresas8. Enquanto a produção de ca-TABELA 2 - Principais Países Importadores da chaça industrial tem se mantido estável desde Cachaça Brasileira e Paulista, 2005 1995, a cachaça de alambique apresenta um crescimento de 5% ao ano. Contudo, o volume de Brasil País cachaça artesanal embarcado ainda é muito pe- Quantidade Valor (mil litros) (mil dólares) queno (menos de 2%) em comparação ao in- dustrial, devendo se expandir nos próximos anos. 1 Alemanha 2.736 2.112 Destaca-se a participação do Estado de São Paulo 2 Paraguai 1.006 593 na produção nacional de cachaça, posicionando- 3 Uruguai 790 558 se como líder no ranking no processo industrial, 4 Portugal 719 1.418 enquanto no artesanal, ocupa o segundo lugar, 5 EUA 480 1.026 sendo superado apenas por Minas Gerais. 6 Argentina 318 500 Quanto ao custo de produção, os da- 7 Itália 309 620 dos fornecidos por agentes representativos do São Paulo setor9 permitem afirmar que a produção de uma País Quantidade Valor garrafa de cachaça elaborada a partir do proces- (mil litros) (mil dólares) so industrial fica em torno de R$0,46 a R$0,48, 1 Alemanha 812 805 enquanto na produção artesanal a estimativa é 2 Portugal 618 1226 de pelo menos R$1,20. Para a cachaça envelhe- 3 Angola 412 268 cida o custo envolve ainda uma série de variá- 4 Argentina 291 485 veis, que acabam dificultando a elaboração de 5 EUA 258 521 uma média. Aos custos normais de produção, 6 Itália 218 406 como os relacionados ao plantio e corte da cana, 7 Espanha 210 385 transporte desse insumo até ao alambique, pro-1 Os dados de 2005 referem-se ao período de janeiro a outu- cesso de fabricação, armazenagem, engarrafa-bro. Os números correspondem à cachaça e caninha (rum etafia). mento, embalagem e rótulos, somam-se gastosFonte: SECEX (www.alice.gov.br). com recipientes de envelhecimento, tipo de mate- 8 Na terceira posição no ranking dos Os principais grupos de bebida destilada do País em termos de receita líquida em 2004 são: Müller de bebidasmaiores países importadores da cachaça paulista SP e PE; Thoquino RJ, Boituva RS, Fazenda Santa Adéliaestá Angola, um dos maiores destaques do perío- SP, Capuava SP e Sagatiba SP BALANÇO ANUAL (GA- ZETA MERCANTIL. São Paulo, 2005, p. 429).do em termos de expansão de mercado. Esse 9país adquiriu quantidade superior a de muitos Trata-se dos produtores e principais representantes de instituições do setor que compõem o grupo de discussãopaíses já tradicionais na compra da bebida, como sobre as normas de qualidade para o Selo de QualidadeItália, Espanha e Holanda. da cachaça paulista, sob a coordenação da CODEAGRO.Informações Econômicas, SP, v.36, n.2, fev. 2006.
  • 5. 97rial desses recipientes, necessidades de controle pectiva, convém salientar que a produção orgâ-da temperatura no local do envelhecimento e nica, que enfrenta grandes desafios na concor-embalagens especiais. Além dos custos extras, rência com a aguardente industrializada, tambémdevem ser levadas sempre em consideração as vem se tornando um recurso importante paraperdas associadas ao tempo de envelhecimento. construção de uma especificidade, detendo, por Atualmente, em função da necessidade sua vez, um significativo potencial de mercadode adequação às normas de qualidade vigentes, externo.despesas com certificação, selos, controle e fis-calização dos componentes prejudiciais à saúde(auditorias, análises químicas e sensoriais da 4 - CONCLUSÕESprodução) vão sendo incorporadas. Nesse senti-do, vale ressaltar as influências a serem geradas Levando em consideração que somen-pela vigência da Instrução Normativa n. 13 do Mi- te cerca de 1% do total de cachaça produzida nonistério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Brasil é exportada e que as ações de marketing(MAPA), publicada em junho de 2005, cujas nor- da bebida são recentes no mercado externo, po-mas ampliam a lista de substâncias proibidas10 de-se afirmar que o destilado de cana genuina-na composição da cachaça e exigem maior fisca- mente nacional tem muito espaço a conquistar nolização e controle. comércio internacional. É com essa perspectiva Além dessas medidas, a Instrução Nor- positiva que o setor estima que a bebida temmativa reafirma a definição de cachaça e aguar- potencial para chegar a 50 milhões de litros ex-dente e estabelece três classificações à bebida portados até 2010.envelhecida (a Envelhecida, a Premium e a Extra Além do mais a estruturação do quadroPremium)11. institucional, do aparato regulatório, bem como o Considerando a produção artesanal, início da adequação do produto às normas e exi-convém destacar que a etapa de envelhecimento gências internacionais e as experiências de coo-em tonéis de madeira de diferentes espécies peração e interação entre os pequenos produto-vem se tornando um recurso cada vez mais im- res constituem processos bem atuais, portanto,portante para a incorporação de diferencial à pro- ainda podem gerar implicações positivas sobre odução e detendo, assim, grande capacidade de desempenho da bebida no mercado.agregar valor ao produto. Segundo o diretor exe- Tendo em vista os dois processos decutivo da FENACA, enquanto a cachaça in- produção da cachaça (industrial e artesanal), po-dustrial é vendida no exterior por US$0,60/litro, a de-se afirmar que a cachaça de alambique, nota-artesanal tem preço de US$3,50/litro, uma agre- damente a envelhecida, tem maior potencial degação de valor próxima de 480%12. Nessa pers- mercado, com capacidade de agregar maior valor ao produto final.10 Considerando que a grande maioria Além do cobre e do metanol, estão proibidos o carbama-to de etila, chumbo e arsênio. dos produtores de cachaça artesanal é constituí-11 da por pequenos e médios, acredita-se que a coo- Envelhecida: é a bebida que contém, no mínimo, 50%de cachaça ou aguardente de cana envelhecidas em peração, interação e associação passaram a cons-recipiente de madeira apropriado, com capacidade máxi- tituir estratégias fundamentais para a conquista dema de 700 litros, por um período não inferior a 1 ano. escala e de uma cachaça mais valorizada noPremium: é a bebida que contém 100% de cachaça ouaguardente de cana envelhecidas em recipiente de madei- mercado.ra apropriado com capacidade máxima de 700 litros, por Tendo em vista o contexto atual, cadaum período não inferior a 1 ano. Extra Premium: é a vez mais competitivo e marcado por tendênciasbebida que contém 100% de cachaça ou aguardente decana envelhecidas em recipiente de madeira apropriado voltadas para a qualidade e segurança alimen-com capacidade máxima de 700 litros, por um período não tar, o sucesso do pequeno e médio empreendi-inferior a 3 anos (Regulamento técnico para fixação dospadrões de identidade e qualidade para aguardente de mento do setor tende a ficar mais dependentecana e para cachaça, Diário Oficial da União, n° 124, de sua capacidade à associação e cooperação.Seção 1, 30/06/2005). A maior articulação entre os agentes de cadeia12 Segundo o executivo “a cachaça de alambique possui um numa base territorial tem se mostrado comoalto valor agregado em relação à industrial, que é a mais uma estratégia viável ao desenvolvimento daexportada” (DCI, São Paulo, 21 nov. 2003. Disponível em:<http://www. pbdac.com.br>. Acesso em: fev. 2005). produção de base familiar, pois tem proporcio-Informações Econômicas, SP, v.36, n.2, fev. 2006.
  • 6. 98nado a obtenção de escala, a possibilidade de a elaboração de toda uma regulamentação paraadequação às exigências de qualidade e segu- o produto, como a nova Instrução Normativa n.rança, além da criação coletiva de marcas re- 13, constituem indicadores de “novos tempos”gionais e atributos específicos relacionados ao para o destilado de cana brasileiro. Tais indicado-território local. res revelam um maior profissionalismo e maturi- Por último, as atuais medidas tomadas dade do setor, ao mesmo tempo que são porta-para o setor, principalmente a criação da Câmara dores de novas e boas perspectivas para a ca-Setorial, a defesa pela denominação de origem e chaça num futuro próximo.Informações Econômicas, SP, v.36, n.2, fev. 2006.