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  • - 178 - Koerich MS, Backes DS, Scortegagna HM, Wall ML, Veronese AM, Zeferino MT, et al. TECNOLOGIAS DE CUIDADO EM SAÚDE E ENFERMAGEM E SUAS PERSPECTIVAS FILOSÓFICAS CARE TECHNOLOGIES IN HEALTH AND NURSING AND THEIR PHILOSOPHICAL PERSPECTIVES LAS TECNOLOGÍAS DE CUIDADO EN LA SALUD Y ENFERMERÍA Y SUS PERSPECTIVAS FILOSÓFICAS Magda Santos Koerich1, Dirce Stein Backes2, Helenice de Moura Scortegagna3, Marilene Loewen Wall4, Andréa Márian Veronese5, Maria Terezinha Zeferino6, Vera Radünz7, Evanguelia Kotzias Atherino dos Santos81 Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente do Departamento de Patologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN) da UFSC. Membro do Núcleo de Pesquisa e Estudos sobre o Quotidiano e Imaginário em Saúde na UFSC. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração de Enfermagem e Saúde (GEPADES) na UFSC. Santa Catarina, Brasil.2 Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutoranda do PEN/UFSC. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Membro do Grupo de Pesquisa GEPADES na UFSC. Santa Catarina, Brasil.3 Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Adjunto do Curso de Enfermagem da Universidade de Passo Fundo. Doutoranda do PEN/UFSC. Membro do Grupo de Estudos sobre Cuidado de Saúde de Idosos na UFSC. Rio Grande do Sul, Brasil.4 Enfermeira Obstetra. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutoranda do PEN/UFSC. Membro do Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Cuidado Humano de Enfermagem na UFPR. Membro do Grupo de Pesquisa Cuidando e Confortando (C&C) na UFSC. Paraná, Brasil.5 Enfermeira do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência de Porto Alegre, RS. Mestre em Enfermagem. Aluna especial no Curso de Doutorado do PEN/UFSC. Membro do Grupo de Estudos em Promoção da Saúde na Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, Brasil.6 Enfermeira da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina. Mestre em Engenharia Civil. Professora do Curso de Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. Aluna especial no Curso de Doutorado do PEN/UFSC. Membro do Grupo C&C na UFSC. Santa Catarina, Brasil.7 Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem e do PEN/UFSC. Vice- coordenadora do Grupo de Pesquisa C&C na UFSC. Santa Catarina, Brasil.8 Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem e do PEN/UFSC. Coordenadora do Grupo de Pesquisa em Enfermagem na Saúde da Mulher e do Recém-Nascido na UFSC. Santa Catarina, Brasil.PALAVRAS-CHAVE: Ética. RESUMO: A tecnologia, como expressão do avanço da ciência, acompanha a evolução histórica daTecnologia. Conhecimento. humanidade mostrando-se, sempre, mais extraordinária e abrangente em diversas áreas do conhecimento.Saúde. Enfermagem. Apesar de sua inserção, cada vez maior, nas diversas formas de relações entre os seres e, destes, com o ambiente, este é um tema que ainda suscita muita reflexão. Assim, propusemos questionar, refletir e aproximar os fenômenos “tecnologia e cuidado”, não como crítica às tecnologias disponíveis, mas como reflexão sobre tecnologias de cuidado e suas perspectivas filosóficas. Nesse exercício reflexivo, destacamos a responsabilidade ética como um imperativo moral a ser seguido pelos profissionais da saúde enquanto membros da civilização do desenvolvimento tecnológico. A responsabilidade não pressupõe a bondade e a perfeição do homem que, sendo responsável, procurará agir para o bem, mas indica a capacidade individual de assumir antecipadamente o que vai fazer, tendo consciência de todas as conseqüências das suas próprias ações e omissões.KEYWORD: Ethics. Tech- ABSTRACT: Technology as an expression of the advancement of science accompanies the evolutionnology. Knowledge. Health. of human history, revealing itself to be evermore extraordinary and encompassing in diverse areas ofNursing. knowledge. Even with its increasing insertion into the diverse relationships among human beings, and through them with the environment, this is an issue that still requires much reflection. Thus, our objective is to question, to reflect, and to approximate the phenomena “technology and care”. It is not our intention to offer criticism of available technologies, but to reflect upon the significance of care technologies and their philosophical perspectives. In this reflective exercise, we highlight ethical responsibility as a moral imperative to be followed by health care professionals, as members of the civilization of technological development. Responsibility is not about supposing the goodness and perfection in mankind, who, being responsible will look to act towards good. Rather, it indicates an individual capacity to previously assume what one will do, conscious of all the consequences of one’s own actions or omissions.Endereço: Magda Santos Koerich Reflexão teóricaR. Dona Leopoldina, 40 Recebido em: 25/10/200688.104-022 - Ponta de Baixo, São José, SC. Aprovação final: 18/04/2007E-mail: magmau@matrix.com.br Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.
  • Tecnologias de cuidado em saúde e enfermagem e suas perspectivas... - 179 -PALABRAS CLAVES: Ética. RESUMEN: La tecnología como una expresión del progreso de la ciencia acompaña la evoluciónTecnología. Conocimiento. histórica de la humanidad, mostrándose cada vez más extraordinaria y abierta en las diferentes áreas delSalud. Enfermería. conocimiento. A pesar de que su inserción es cada vez mayor en las diversas formas de las relaciones entre los seres y de ellos con el medio ambiente, este es un tema que todavía necesita de mucha reflexión. Por ese motivo, nosotras nos propusimos cuestionar, reflexionar y aproximar los fenómenos de la “tecnología y el cuidado”, no como una crítica a las tecnologías disponibles, sino más bien como una reflexión a cerca de las tecnologías del cuidado y sus perspectivas filosóficas. En este ejercicio reflexivo destacamos la responsabilidad ética como un imperativo moral a ser seguido por los profesionales del área de la salud, como participantes de la civilización del desarrollo tecnológico. La responsabilidad no presupone la bondad y la perfección del hombre donde, siendo el responsable, procurará siempre actuar para el bien, sino que también indica la capacidad individual de asumir con anticipación aquello que va a hacer, teniendo conciencia de todas las consecuencias de sus propias acciones y omisiones.CONSIDERAÇÕES INICIAIS pretende-se refletir sobre o significado das tecnolo- gias de cuidado e suas perspectivas filosóficas. Todos nós construímos representações da-quilo que conhecemos e/ou vivenciamos, mesmo Como ponto de partida para o desenvolvi-que essa experiência não aconteça na sua totalidade, mento desse estudo, fizemos uma busca na lite-mas parcialmente. Portanto, quando pensamos em ratura e levantamos, entre os colegas de sala detecnologia certamente nos vem uma imagem e um aula, respostas às seguintes questões: qual o seuconceito acerca dessa terminologia. Esse processo entendimento sobre tecnologia de cuidado? Quaistambém acontece quando pensamos em cuidado. as tecnologias utilizadas na prática cotidiana? Quais as tecnologias julgadas indispensáveis na prática e Ao iniciarmos a discussão acerca da temática qual a dimensão de seu uso frente à condição emi-“Tecnologias de cuidado” é preciso rever e ques- nentemente humana da profissão?tionar a utilização do termo “tecnologia” que, nacontemporaneidade, parece conduzir a reflexão para A partir das respostas, partimos para umauma conotação contraditória e dicotômica, quando análise reflexiva sobre o objeto em estudo e perce-associada ao termo “cuidado”. bemos que, tecnologias de cuidado se relacionam com recursos tanto humanos quanto materiais, O termo tecnologia nos remete, freqüente- como figuram algumas falas: um conjunto de conhe-mente, ao aspecto trabalho-intervenção-produ- cimentos; o próprio profissional ao interagir com o clienteção-máquina, logo, nos mantêm reféns do mundo assim como ferramentas e/ou estratégias que auxiliam nadas máquinas produtivas, escravos de uma lógica instrumentalização do cuidado. Também ficou evidentereducionista e dissociada das interações entre cui- a idéia de que, direta e/ou indiretamente, as tec-dado e trabalho. Esse termo também nos remete nologias estão a serviço do cuidado e conforme osaos centros especializados tais como os de terapia posicionamentos, tudo o que é utilizado como instrumentointensiva, nos quais o ser humano permanece ex- para levar cuidado a outras pessoas; o próprio profissional podeposto a todo um aparato tecnológico, ou seja, a uma ser considerado tecnologia em suas interações.multiplicidade de aparelhos sofisticados e complexosque podem determinar, por exemplo: os padrões Quanto ao que se refere às tecnologias utili-ventilatórios, identificar os sinais vitais e controlar zadas na prática cotidiana, foram ressaltadas, nasos valores hemodinâmicos. Assim, como em outras discussões, as tecnologias leves e pesadas, tais como:situações, são as técnicas e procedimentos invasivos cuidados manuais [...] forma de tocar e conversar; conhecimentosque definem a complexidade do tratamento. e até tecnologia de ponta; fazendo parte dessas tudo que está disponível; equipamentos em geral para a prestação de serviço e Ao longo da disciplina “Cuidado em En- de acesso à informação e organização da prática. As tecno-fermagem e Saúde”, do curso de Doutorado em logias consideradas indispensáveis na prática são asEnfermagem da Universidade Federal de Santa relacionais, as interativas e as comunicativas.Catarina (UFSC), fomos motivadas, por meio do de-senvolvimento de ateliês e seminários, a aprofundar, Quanto à questão da tecnologia associada à di-organizar e gerar conhecimentos sobre o cuidado em mensão humana do cuidado, as discussões levaramenfermagem. A partir daí, surgiu a temática aborda- a algumas divergências, quais sejam: enquanto parada no presente artigo. Não se pretende, aqui, fazer alguns a tecnologia pode ultrapassar a dimensãouma crítica às tecnologias disponíveis, ao contrário, humana, para outros, há uma interligação entreTexto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.
  • - 180 - Koerich MS, Backes DS, Scortegagna HM, Wall ML, Veronese AM, Zeferino MT, et al.tecnologia e evolução humana. De outro modo, alternativa para resolver esse problema e, ainda,ficou explicita a preocupação com a forma de sobre a criatividade, que é a capacidade de encontrarutilização das tecnologias, ou seja, como um fim alternativas para resolver um problema existente.4em si mesmo ao invés de um meio para assegurar Na Idade Média, Hugo de Saint-Victor descre-a qualidade da assistência. veu a tecnologia como uma forma de conhecimento que deve abranger os métodos de produção de todasCONCEITOS DE TECNOLOGIAS DE as coisas.1 “Atualmente a ciência é considerada a par-CUIDADO ceira da tecnologia sendo, dessa forma, uma atividade tão utilitária quanto contemplativa [...]. A moderna A palavra tecnologia deriva do substantivo tecnologia com base científica consiste no uso de ci-grego τέχνη (téchne) que significa arte e habilidade. ência pura e aplicada para fabricar artefatos, construir“Essa derivação nos diz que a tecnologia é uma técnicas e organizar atividades humanas”.1:252atividade essencialmente prática, tendo o objetivo A tecnologia moderna não só produz máqui-de alterar mais do que compreender o mundo. A nas e ferramentas físicas, mas também organiza etecnologia utiliza as formulações criadas pela ciên- sistematiza as atividades. A tecnologia física (pesada)cia para criar implementos e aparelhos que façam a apóia-se nas ciências naturais e a tecnologia não físicanatureza obedecer ao homem”.1:245 (leve) nas ciências comportamentais. O termo téchne também significa fabricar, pro- Esse último viés abordado sobre a tecnologiaduzir, fazer ou construir, principalmente coisas ma- nos remete aos estudos que buscam mudanças noteriais, através do trabalho ou da arte, como também modo de produzir saúde no Brasil, sendo que umcausar fenômenos naturais, ações ou eventos. Em dos temas mais tratados e problemáticos tem sido oconformidade com autores trágicos gregos, como por modo como se estruturam e gerenciam os processosexemplo Homero, pode também ser compreendida de trabalho, nos mais distintos estabelecimentos quecomo a habilidade em geral, o método, a maneira, o ofertam serviços de saúde.5modo de fazer. Já o substantivo τεύκος (teckos), signi-fica ferramenta, instrumento ou utensílio.2 Na Grécia Produzir tecnologia é produzir coisas que, tan-Antiga, além de adotarem os sentidos mencionados, o to podem ser materiais como produtos simbólicostermo techné foi freqüentemente mencionado em opo- que satisfaçam necessidades. Essa tecnologia não sesição à επιστηµε (episteme = ciência, conhecimento), refere exclusivamente a equipamentos, máquinas eà λογοσ (logos = razão, estudo, teoria), à δοχα (doxa = instrumentos, mas também a certos saberes acumu-opinião) e à Φυσις (physis = natureza ou físico).3 lados para a geração de produtos e para organizar as ações humanas nos processos produtivos, até mesmo A tecnologia é tão complexa quanto a ciên- em sua dimensão inter-humana.6cia, consistindo em fenômenos de muitas espécies,como: agentes, instituições, produtos, conhecimen- Tecnologia é, também, “um conjunto de conhe-tos, técnicas e tantos outros. cimentos (científicos e empíricos) sistematizados, em constante processo de inovação, os quais são aplicados O principal objetivo da tecnologia é aumentar pelo profissional de enfermagem em seu processo dea eficiência da atividade humana nas mais variadas trabalho, para o alcance de um objetivo específico.esferas, e para isso a tecnologia produz os mais varia- Permeada pela reflexão, interpretação e análise, essados objetos para atender às necessidades da demanda, é subsidiada pela sua experiência profissional e hu-ou aperfeiçoa objetos tornando-os mais duráveis ao mana. A característica da tecnologia em enfermagempasso que melhora a produção ao reduzir o tempo é peculiar, pois ao se cuidar do ser humano, não éou o custo de certo objeto. Podemos dizer assim, possível generalizar condutas, mas sim adaptá-las àsque o trabalho tecnológico é intencional e racional, mais diversas situações, a fim de oferecer um cuidadoenvolve raciocínio teórico e prático, conhecimentos individual e adequado ao indivíduo”.7:120-1sistemáticos e especializados e o resultado só podeser alcançado mediante um planejamento eficiente Quando relacionamos a produção tecnológi-e o uso cuidadoso de ferramentas.1 ca com a enfermagem, estamos nos aproximando das alternativas criativas que a equipe de enfer- Essa idéia da produção de tecnologia implica magem lança mão para superar suas dificuldades.num empreendimento alicerçado sobre a necessida- Estas estão atreladas, na maioria das vezes, ade, vista como um problema a ser resolvido; sobre o circunstâncias de precariedade das condições deconhecimento, que é o saber que orienta uma nova Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.
  • Tecnologias de cuidado em saúde e enfermagem e suas perspectivas... - 181 -trabalho, qualquer que seja o espaço institucional venção, os profissionais de saúde aplicam esses saberesaonde venha se desenvolvendo, ou a situações de e instrumentos e, pronto, produz-se saúde”.9:19determinados clientes que exigem mais do que as Essa formulação quase automática não é detécnicas convencionais de enfermagem oferecem todo falsa, é certamente incompleta, pois em se tra-como alternativas de solução. Isso acontece porque tando da assistência à saúde, é preciso fazer algumasentendemos a enfermagem como um trabalho de considerações como: “a direção inversa também énatureza humanística, cujo objeto é o ser humano verdadeira – o modo como aplicamos e construímosem sua realidade de vida, requerendo, portanto, tecnologias e conhecimentos científicos, determinauma atenção individualizada, capaz de atender às limites para o que podemos enxergar como necessi-suas necessidades, quaisquer que sejam elas.4 dades de intervenção em saúde [...], nem tudo o que A Drª Elvira Felice de Souza, uma enfer- é importante para o bem estar pode ser traduzido emeira que introduziu as técnicas de enfermagem operado como conhecimento técnico [...], e ainda,de forma sistematizada e que contribuiu para o nunca, quando assistimos à saúde de outras pessoas,crescimento desse saber pela sua transformação mesmo estando na condição de profissionais, nossaem tecnologia, afirma que “A motivação maior em presença na frente do outro se resume ao papel detrabalhar com técnicas na minha trajetória profis- um simples aplicador de conhecimentos; somossional foi porque, no meu entender, uma profissão sempre alguém que, percebamos ou não, está res-só é valorizada e reconhecida pela sociedade quan- pondendo a perguntas do tipo: o que é bom parado utiliza seus próprios meios para atingir um fim. mim? Como devo ser? Como pode ser a vida?”.9:20Considerando a Enfermagem como arte e ciência, a Tecnologia, então, não é só a aplicação detecnologia põe a ciência em prática e para que isto ciência, não é simplesmente um modo de fazer,aconteça, devem-se ter a ciência, por conseguinte mas é também uma decisão que os profissionais deda tecnologia, as técnicas devem ser cada vez mais saúde devem repensar, ao utilizarem tecnologias, jáaperfeiçoadas. No momento, embora se conceitue que, a partir daí, constroem mediações, escolhen-tecnologia em Enfermagem, como a aplicação sis- do, dentro de certas possibilidades, o que devemtemática de conhecimentos científicos à facilitação querer, ser e fazer.9do processo de melhor atender o ser humano, aprópria origem da palavra techné − arte aplicada −já está introduzindo a um conceito mais amplo, o TECNOLOGIAS DO CUIDADOde utilização de conhecimentos científicos, ou não, Discutir tecnologia não é discutir equipamen-em situações ou problemas de enfermagem. Neste to e nem o moderno e o novo, mas discutir o pro-momento a arte pode ser entendida como tecnolo- ceder eficaz de determinados saberes, procurandogia em enfermagem. No meu entender, a tecnolo- dessa forma, construir procedimentos de interven-gia e a técnica no setor da saúde foram evoluindo ção nos processos da saúde e da doença, do normalgraças às pesquisas desenvolvidas ultimamente e do patológico, da vida e da morte, que produzampelos vários cursos de mestrado e doutorado, pois o efeito desejado.10leva o profissional mais próximo das necessidades Diante do cuidado à saúde, temos que nosindividuais do ser humano, permitindo a ele, o responsabilizar por boa parte da qualidade da as-ajuste adequado para cada caso, principalmente se sistência que ofertamos, colocando todas as opçõesauxiliado pela observação acurada, pois permite tecnológicas de que dispomos em termos de conhe-tornar visível o invisível”.8:132-3 cimento e de saber, a serviço do usuário. Respeitá-lo Assim, tecnologias do cuidado são concei- como ser humano e cidadão, trabalhando no sentidotuadas como “todas as técnicas, procedimentos, de incluí-lo no conjunto de respostas à saúde, comconhecimentos utilizados pelo enfermeiro no direito e garantia de assistência. Devemos disporcuidado”.8:140 de tudo que temos para defender a vida, como pos- Quando pensamos na assistência à saúde, vem- suidores do que melhor a tecnologia em saúde nosnos de imediato à mente a aplicação de tecnologias fornece que é o nosso saber, o nosso conhecimentopara o bem estar físico e mental das pessoas. Usamos para não ficarmos com a idéia de que tecnologia éo raciocínio lógico de que a “ciência produz o conhe- sinônimo de equipamento tecnológico.10cimento sobre a saúde, a tecnologia transforma esse Como profissionais comprometidos com oconhecimento em saberes e instrumentos para a inter- cuidado, faz-se necessário construir uma relaçãoTexto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.
  • - 182 - Koerich MS, Backes DS, Scortegagna HM, Wall ML, Veronese AM, Zeferino MT, et al.com o ser humano atendido por nós, usando múlti- Dentre essas diferentes estratégias e estandoplas opções tecnológicas para enfrentar os diferentes cientes da existência de várias tecnologias do cuidadoproblemas de saúde. na saúde, não podemos deixar de abordar a infor- O trabalho em saúde não pode ser expresso mática, responsável pela produção, muito rápida,nos equipamentos e nos saberes tecnológicos es- de mudanças no mundo. Essa mudança repousatruturados, pois suas ações mais estratégicas con- no deslocamento do paradigma industrial para ofiguram-se em processos de intervenção, operando tecnológico, forçando a substituição de valorescomo tecnologias de relações, de encontros, de enraizados há décadas e a incorporação de novossubjetividades, para além dos saberes tecnológicos princípios para orientar a civilização global. Umestruturados. Por isso as tecnologias envolvidas no dos fatores deste processo de transformação globaltrabalho em saúde, podem ser classificadas como: é a Tecnologia da Informática, abrangendo desde aleves, que são as tecnologias de relações do tipo produção de computadores até as formas de geração,produção de vínculo, autonomização, acolhimen- armazenamento, veículo, processamento e reprodu-to, gestão como uma forma de governar processos ção de informação e conhecimento.12de trabalho; leve-duras, como no caso dos saberes O crescente avanço científico e tecnológicobem estruturados que operam no trabalho em na área da saúde cria a necessidade dos profissionaissaúde, como a clínica médica, a psicanalítica, a epi- dessa área buscarem intensiva atualização. Assim,demiológica, o taylorismo e duras, como no caso a utilização da informática na Enfermagem, sede equipamentos tecnológicos do tipo máquinas, constitui em suporte que impulsiona o rápidonormas, estruturas organizacionais.6 acesso às informações e ao conhecimento expan- Essas três categorias tecnológicas estão es- dido mundialmente.12treitamente inter-relacionadas de modo que o tra- Para o cuidado em enfermagem destacamosbalho vivo em ato, ou seja, aquele produzido pelo as tecnologias leves, ou seja, tecnologias de relação,profissional a partir do seu conhecimento, além de de acesso, acolhimento, produção de vínculo, deproduzir tecnologias leves pode se desdobrar em encontros de subjetividades, levando a autonomiza-tecnologias duras e/ou leve-duras.11 ção. O acesso aos serviços de saúde é um direito do Portanto, os três grupos de expressões tecno- cidadão e os técnicos da saúde deverão lançar mãológicas são produtos do trabalho vivo e o que faz de todas as tecnologias disponíveis para diminuir oa diferença é a intencionalidade na produção de sofrimento da população. O acolhimento é a relaçãobens/produtos. Espera-se que em saúde, a produção humanizada, acolhedora, que as instituições e osde bens/relações tenha prioridade, embora esteja trabalhadores devem estabelecer com os usuários.também comprometida com o desenvolvimento do Sendo o acolhimento indispensável no processo deconhecimento estruturado, lembrando que o traba- criação de vínculo e no próprio processo terapêuti-lho vivo em ato na área da saúde se tornaria inviável co, que deve visar a autonomização do usuário.10sem o apoio de materiais do tipo equipamento. Por fim destacamos o saber da enferma- Entendemos que no processo de trabalho em gem como tecnologia, associando esta ao modosaúde há um encontro do profissional com o usuá- moderno de viver, já que vivemos num mundorio, no qual expressamos nossas intencionalidades, tecnológico. O que está em jogo, hoje, é comoconhecimentos e representações, como um modo conduzir esse saber, tentando fazer com que ocorrade sentir e elaborar necessidades de saúde para o da forma mais eficiente, digna e ética e ao menormomento do trabalho. custo humano e político.8 O ato de cuidar é a alma dos serviços de A concepção de tecnologia inclui os processossaúde, pois o objeto da saúde não é a cura, ou a concretizados a partir da experiência cotidiana e dapromoção e proteção da saúde, mas a produção do pesquisa, para o desenvolvimento de um conjuntocuidado, por meio do qual se acredita ser possível de atividades produzidas e controladas pelos seresatingir a cura e a saúde, que são de fato os objeti- humanos. Elas podem ser veiculadas como artefatosvos a que se quer chegar.6 Utilizam-se diferentes ou como saberes e conhecimentos, sistematizados eestratégias para produzir saúde, que vão desde o com controle de cada passo do processo. A tecno-cuidado individualizado até o cuidado coletivo logia, portanto, serve para gerar conhecimentos acom grupos de usuários.11 serem socializados, para dominar processos e pro- Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.
  • Tecnologias de cuidado em saúde e enfermagem e suas perspectivas... - 183 -dutos e transformar a utilização empírica, de modo A responsabilidade só tem sentido em relaçãoa torná-la uma abordagem cientifica. Pela tecnologia a um sujeito que se percebe, que reflete sobre sitambém se apresenta uma proposição ou explicação mesmo e contesta sua própria ação. Portanto, se ode um modo de fazer enfermagem.8 conceito de sujeito não tem lugar como princípio científico uma vez que está na esfera da reflexãoFILOSOFANDO SOBRE TECNOLOGIA E filosófica, embora o cientista possa “sentir-se res- ponsável” como cidadão, ele é irresponsável porCUIDADO profissão, uma vez que seu trabalho pode produzir Mantendo-nos nesse exercício reflexivo, po- vida ou morte, sujeição ou libertação.14demos pensar na necessidade de intervenção ética, Vemos assim, que o problema da ciência hojeuma vez que em seu dia-a-dia os profissionais da se mostra como carência de consciência reflexiva,saúde são co-responsáveis pelo desenvolvimento da com necessidade de intervenção ética, trazendo paraciência, além de freqüentes utilizadores de tecnolo- a filosofia, a missão de interpor caminhos que con-gias. Assim, esses profissionais, enquanto membros duzam ao desenvolvimento científico responsável.da civilização do desenvolvimento tecnológico são A partir dos anos 70, com o surgimento dotambém convocados à responsabilidade ética, a neologismo “bioética” (ética da vida), esta preocu-qual se torna um imperativo moral a ser seguido pação com o avanço tecnológico, sua influênciapor eles, como princípio. sobre a qualidade de vida das pessoas e os riscos Para a filosofia, o ato de pensar constitui um para a continuidade da vida no planeta, passaraminstrumento de liberdade e de verdade, porém, não a adquirir sentido e importância. Então, tendo emé suficiente pensar e ter idéias. O filósofo é alguém vista o excesso de poder e a onipotência da tecno-que se interroga sobre o ato de saber, procura res- ciência e da biotecnociência, o fenômeno da vidaponder aos desafios e contradições de sua época e passa a ser o grande desafio da bioética para o mundo“precisa comunicar o que tenta constituir sob forma tecnológico. Isto acontece porque, sua influênciade um saber”.13:218 O saber trava estreita relação com sobre a qualidade de vida das pessoas remete a uma liberdade. E, assim, o desenvolvimento do saber universo de problemas morais e à emergência decientífico foi se constituindo historicamente como novos direitos e deveres para com a vida.uma forma de libertação. A Bioética, balizada em princípios que devem Como processo histórico, para que o progresso reger a prática dos profissionais da saúde, entende ada ciência fosse possível, era preciso que o conheci- vida como um valor e nos coloca, a todos os seres hu-mento científico se colocasse como um conhecimen- manos, como responsáveis pela sua continuidade.to amoral, sem ligação com a religião ou filosofia, ou A responsabilidade, como princípio bioéti-seja, que implicasse em “uma disjunção entre ciência co, teorizada por Max Weber e, atualmente pore consciência no sentido moral do termo”.14:27 Hans Jonas, constitui uma das reflexões mais As idéias de René Descartes reafirmaram essa promissoras e necessárias no seio da reflexãonecessidade disjuntiva ao propor dois campos de filosófica. Não se trata de pressupor a bondadeconhecimento totalmente distintos, de um lado o e a perfeição do homem que, sendo responsável,problema do sujeito, do homem que reflete sobre si procurará agir para o bem, mas sim daquele quemesmo, como sendo da filosofia e de outro, dos ob- se conscientiza das conseqüências previsíveis ejetos que são oferecidos ao conhecimento científico. imputáveis à sua própria ação.Assim, a idéia de que apenas a objetividade científica O termo responsabilidade indica a capacidadepoderia refletir a realidade (pela observação e expe- individual de assumir antecipadamente pelo que vairimentação), provocou uma ruptura decisiva entre fazer, ou seja, ter consciência de todas as conseqüên-a reflexividade filosófica e a ciência.14 cias das suas próprias ações e omissões. É um termo No entanto, na atualidade, ao conhecimento que implica dever perante o frágil e o vulnerável,cientifico se apresenta um problema moral nasci- não como mera consciência passiva, mas como odo da grande quantidade de poderes que vieram dever fazer de alguém em resposta ao dever ser.15da ciência e, diante dos quais, o cientista se diz Mediante estas colocações, torna-se necessárioimpotente. Afinal, ele é ou não responsável pelas refletir sobre os seguintes questionamentos: comodecisões que envolvem riscos e possibilidades de trazer a sabedoria necessária ao agir tecnológico?uso destrutivo da tecnologia?Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.
  • - 184 - Koerich MS, Backes DS, Scortegagna HM, Wall ML, Veronese AM, Zeferino MT, et al.Qual a dimensão da nossa responsabilidade, enquan- social e nas relações sociais, devemos sim lançarto agentes e produtores da técnica? sobre elas um “olhar crítico” no que se refere ao A responsabilidade para com o futuro exige impacto que as mesmas podem causar.prudência e renúncia às possibilidades catastróficas Este é um tema que ainda suscita muita re-do uso imprudente da tecnologia. Com certeza flexão, apesar de a tecnologia estar, hoje, cada vezaí pulsa a verdadeira sabedoria de uma ética do mais inserida nas muitas formas de relações entre osfuturo, a qual assume uma tarefa reflexiva em seres e, destes, com o ambiente. O desafio está emrelação à tecnologia, não por idealismo, mas por promover e/ou adequar a inserção da tecnologia nauma questão de sobrevivência, por saber da possi- prática em saúde, de forma a contemplar as deman-bilidade real de impossibilidade do futuro. Não se das sociais da contemporaneidade e refletir sobre astrata de impor um limite ao conhecimento, mas a questões éticas que permeiam a utilização das tecno-certo tipo de conhecimento, que pode colocar em logias frente a intersubjetividade viva no momentoperigo a continuidade da vida. assistencial que extrapola o tecnológico. Torna-se cada vez mais necessário o alertapara o bom uso da tecnologia, que tem tornado a REFERÊNCIASvida cotidiana mais prazerosa, menos complicada, 1 Kneller GF. A ciência como atividade humana. Rioporém não menos frágil. de Janeiro (RJ): Zahar; 1980. É imprescindível a reflexão ética sobre a di- 2 Castoriadis C. A instituição e o imaginário: primeiramensão da nossa responsabilidade, enquanto agen- abordagem. In: Castoriadis C. A instituição imagináriates e produtores da técnica, mas também enquanto da sociedade. 3a ed. Rio de Janeiro (RJ): Paz e Terra;profissionais da saúde que, mediante utilização de 1987. p.139-97.tecnologias em associação com atitudes, gestos, 3 Japiassu H, Marcondes D. Dicionário básico depalavras, experiências e intuições, tomam para si filosofia. Rio de Janeiro (RJ): Jorge Zahar; 1990.a tarefa de cuidar. 4 Mendes IAC, Leite JL, Trevizan MA, Trezza MCSF, Santos RM. A produção tecnológica e a interface comCONSIDERAÇÕES FINAIS a Enfermagem. Rev. Bras. Enferm. 2002 Set-Out; 55 (5): 556-60. A tecnologia como expressão do avanço da 5 Merhy EE. Em busca do tempo perdido: a micropolíticaciência tem acompanhado a evolução da história da do trabalho vivo em saúde. In: Merhy EEE, Onockohumanidade mostrando-se cada vez mais extraordi- R, organizadores. Praxis en salud un desafio para lonária e abrangente, se fazendo presente em diversas público. Buenos Aires (AR): Lugar Editorial; 1997.áreas do conhecimento. Mas, em virtude de sua p.71-112.rápida evolução e de seu constante aprimoramento, 6 Merhy EE. Saúde: cartografia do trabalho vivo emtem sido difícil acompanhar o ritmo das mudanças, ato. São Paulo (SP): Hucitec; 2002.adequando-se a estas na mesma proporção. Conside- 7 Meier MJ. Tecnologia em enfermagem: orando essas questões é que, da mesma forma como desenvolvimento de um conceito [tese]. Florianópolisaceitamos algumas tecnologias já incorporadas ao (SC): UFSC/PEN; 2004.nosso cotidiano, sem as quais não saberíamos mais 8 Nietsche EA, Leopardi MT. O saber da enfermagemviver, vemos com certa apreensão novas tendências, como tecnologia: a produção de enfermeirosquestionando quais as possíveis interferências em brasileiros. Texto Contexto Enferm. 2000 Jan-Abr;nosso padrão de vida e de saúde. 9 (1): 129-52. 9 Ayres JRCM. Tão longe, tão perto: o cuidado como Na área da saúde, a utilização da tecnologia desafio para o pensar e o fazer nas práticas de saúde.nos remete a uma gama infinita de possibilidades In: Saeki T, Souza MCBM, organizadores. Anais doe negar esta questão seria mero reducionismo de 7o Encontro de Pesquisadores em Saúde Mental e 6onossa parte. Por outro lado, aceitá-la passivamen- Encontro de Especialistas em Enfermagem Psiquiátrica;te, sem questionamentos, nos faz aderir às novas 2002 Mar 25-8; São Paulo, Brasil. São Paulo (SP): USP/tendências e, conseqüentemente, as suas possíveis Universidade de Ribeirão Preto; 2002. p.13-26.influências em nosso “bem-viver”. Isso não significa 10 Merhy EE. Em busca da qualidade dos serviços deque devamos questionar a intenção benéfica de sua saúde: os serviços de porta aberta para a saúde e oaplicabilidade, mas considerando o crescente avanço modelo tecno-assistencial em defesa da vida (ou comona área tecnológica e suas implicações no cenário aproveitar os ruídos do cotidiano dos serviços de saúde Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.
  • Tecnologias de cuidado em saúde e enfermagem e suas perspectivas... - 185 - e colegiadamente reorganizar o processo de trabalho aprendizagem. Texto Contexto Enferm. 2000 Jan- na busca da qualidade das ações de saúde). In: Cecílio Abr; 9 (1): 79-92. LCO, organizador. Inventando a mudança na saúde. 13 Japiassu H. Interrogando a filosofia. In: Stein E, Boni 2a ed. São Paulo: Hucitec; 1997. p.117-25 LA, organizadores. Dialética e liberdade. Petrópolis11 Trentini M, Gonçalves LHT. Pequenos grupos de (RJ): Vozes; 1993. convergência: um método no desenvolvimento de 14 Morin E. Ciência e consciência da complexidade. tecnologias. Texto Contexto Enferm. 2000 Jan-Abr; In: Morin E, Moigne J-LL. A inteligência da 9 (1): 63-78. complexidade. São Paulo (SP): Peirópolis; 2000.12 Dal Sasso GTM, Barbosa SFF. Perspectivas futuras 15 Jonas H. El Princípio de responsabilidad: ensayo de à informática em enfermagem: aplicabilidade una ética para la civilización tecnológica. Barcelona dos ambientes hipermídia no processo ensino- (ES): Herder; 1995.Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 178-85.