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BIBLIA AVE MARIA BIBLIA AVE MARIA Document Transcript

  • INTRODUÇÃO GERAL A BÍBLIA. -- "Nós não sentimos necessidade de conceito e vocábulo esses tomados da própriaapoios e alianças, tendo em mãos, para nosso Bíblia.conforto, os livros sagrados" (1Mac 12,9). Assim, O Antigo Testamento consta dos livrosem 154 a.C, em nome de toda a nação, da qual seguintes, comumente agrupados em quatroera chefe, escrevia Jonatas Macabeu ao rei de classes:Esparta. Nessas suas palavras, já se apresenta V Pentateuco ou cinco livros de Moisés:o termo usual, o valor singular e o emprego Gênesis, Êxodo, Levítico, Números,prático da obra cuja versão apresentamos. Do Deuteronômio.termo: os livros -- no texto grego um neutro 2° Livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Reis,plural tà biblía -- em nossa língua, através do Crônicas, Esdras e- Neemias, Tobias, Judite,latim vulgar, formou-se o feminino singular: a Ester, Macabeus.Bíblia. 3? Livros didáticos ou poéticos: Jó, Salmos, Outros sinônimos, encontramo-los Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos,freqüentemente na própria Bíblia: a Escritura ou Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus,as Escrituras, as santas Escrituras, e mais filho de Sirac).raramente, as sagradas Letras. A Bíblia, 4° Livros proféticos: Isaías, Jeremias,portanto, não é um livro só, mas muitos, uma Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Dozecoletânea, cuja unidade consiste no argumento profetas menores, isto é: Amós, Oséias, Joel,comum e na origem sobre-humana. Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, E de "livros santos" que a Bíblia se compõe, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.porque dentro de sua grande variedade elescoincidem em tratar de religião, tendo um No Novo Testamento, o primeiro e maisobjetivo essencialmente religioso. Com mais conspícuo lugar compete aos quatrorazão ainda chamam-se "livros santos" ou Evangelhos: segundo Mateus, Marcos, Lucas,"sagrados" porque, como ensina a fé, tanto João. Seguem-se: um livro histórico, os Atosjudaica como cristã, não foram escritos por mero dos Apóstolos; catorze epístolas de S. Paulo:talento humano, mas sob a influência de aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas,inspiração divina especial. aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, Ê desta origem sobrenatural que a Bíblia uma a Tito, a Filemon, aos Hebreus; seterecebe a sua dignidade de "livro por excelência" epístolas chamadas católicas, ou canónicas:e o seu lugar único na vida dos povos que uma de Tiago, duas de Pedro, três de João,tiveram o primado na civilização. Ela é, com uma de Judas; finalmente, um livro profético, oefeito, o fundamento e o alimento da fé para Apocalipse.todos os povos cristãos, e nenhum outro livro no O elenco oficial dos livros sagrados chama-semundo pode ser a ela comparado, nem de cânon, no sentido de norma. Expusemos aqui olonge, seja pelo número de tiragens de edições, cânon católico, formado já no séc. IV nas cartasquer manuscritas, quer impressas, seja pela pontifícias e nos concílios provinciais da África,influência sobre a vida individual e pública, sobre sancionado depois solenemente pelos concíliosa literatura e as artes figurativas. Qualquer fiel ecumênicos de Florença (1441) e de Trentosinceramente apegado à sua religião tem-na, por (1546) e confirmado pelo Concílio Vaticano Iassim dizer, constantemente em mão, como (1870). Para a integridade do cânon não importaJonatas o apontava, para nela encontrar a ordem dos livros, porque, exceto o primeiroconforto em todas as vicissitudes da vida. lugar reservado constantemente, no Antigo Testamento, ao Pentateuco e no Novo, aos DIVISÃO E NÚMERO DE LIVROS. -- CÂNON. -- Com Evangelhos, no restante diferem muito entre sio nome de Bíblia, pois, compreendem-se os os manuscritos, os autores, os catálogos oficiaislivros sagrados da religião cujo centro é Jesus de igrejas e de seitas.Cristo. Partindo deste ponto de convergência, aBíblia divide-se em duas séries desiguais, aprimeira, anterior a Jesus Cristo, a segunda,posterior. A primeira chama-se AntigoTestamento, a segunda Novo Testamento,
  • Os livros históricos mais extensos do Antigo babilónico (séc. VI a.C). Dois livros, o segundoTestamento, Samuel-Reis e Crônicas, na dos Macabeus e a Sabedoria, foram escritosantiquíssima versão grega (dos LXX, veja originariamente em grego. Dos livros de Judite,abaixo), por razões práticas foram divididos em Tobias, Baruc, Eclesiástico e parte também dedois; além disso, considerando Samuel e Reis Daniel e Ester, perdeu-se, como no caso docomo uma obra só, chegou-se a contar 4 livros Evangelho de Mateus, o texto original, hebraicodos Reis e dois das Crônicas, costume esse ou aramaico, sendo substituído pela versãoque se estendeu aos latinos e dura ainda em grega.parte entre nós. No texto hebraico, adotada Essas diferenças lingüísticas não deixaram desemelhante divisão, conhecem-se dois livros de exercer a sua influência sobre a extensão doSamuel, dois dos Reis, dois das Crônicas. cânon dos livros sagrados. Enquanto os judeusEsdras e Neemias são chamados também de disseminados no mundo greco-romano nãoprimeiro e segundo de Esdras. Também dos tinham dificuldades em introduzir os livrosMacabeus contam-se dois livros, que na redigidos em grego, os judeus da Palestina nãorealidade são duas obras perfeitamente queriam conformar-se com isso. Além disso, foi-distintas. Na Vulgata, a Carta de Jeremias se formando entre eles a opinião de que, depoisconstitui o último cap. (6?) de Baruc. Tudo bem de Esdras (séc. V a.C), faltando ou sendo incertocalculado, o Antigo Testamento consta de o dom profético (veja IMac 4,46; 14,41), nemquarenta e seis livros, o Novo, de vinte e sete. sequer admitiam pudessem ser escritos livros Por razões igualmente práticas, desde os inspirados por Deus. Por isso, quando nos finsprimeiros séculos da nossa era, cada livro foi do séc. I d.C, os doutores da Sinagoga fixaram odividido em seções de várias extensões, cânon das Sagradas Escrituras, foram excluídosconforme sistemas bastante diversos para até os livros escritos em hebraico depois daquelalugares e épocas. Para eliminar os época, como o Eclesiástico. Daí resultou uminconvenientes dessas antigas divisões e cânon hebraico em que faltam sete livros:facilitar o estudo uniforme, no início do séc. XIII, Tobias, Judite, os dois dos Macabeus,na Universidade de Paris, Estêvão Langton Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e a Carta de(depois cardeal) introduziu a divisão em Jeremias, e mais algumas partes de Ester e decapítulos de extensão mediana, que depois, Daniel.pela sua utilidade prática, propagou-se em O veredito dos doutores hebreus não deixoutodas as escolas e em todas as edições, e é de repercutir na Igreja cristã. Enquanto no usoainda hoje de uso universal, agora comum se difundia o cânon mais pleno,insubstituível. concretizado na versão dos LXX, empregada e Mais tarde, no séc. XVI, os mesmos capítulos recomendada pelos apóstolos, alguns escritoresforam divididos em versículos numerados (por (Melitão de Sardes, Sto. Atanásio de Alexandria,Sante Pagnini, para o Antigo Testamento S. Gregório de Nazianzo, entre os gregos; Sto.[1528], por Roberto Estêvão, para o Novo Hilário de Poitiers, Rufino de Aquilêia e[1550]), tendo sido também essa numeração, principalmente S. Jerônimo, entre os latinos)pela comodidade das citações, aceita logo e adotaram o cânon mais restrito dos hebreus, e,perdura até agora em toda parte. Entende-se, devido à autoridade desses antigos doutoresentretanto, que essas divisões são apenas de cristãos, toda hesitação entre os católicos não foivalor prático, não científico. eliminada senão pelo sagrado Concílio de Trento (1546). No entanto, em virtude de tais vozes LÍNGUAS ORIENTAIS E CÂNONES DIVERSOS. -- O discordantes da crença comum, chegou-se aNovo Testamento inteiro foi escrito em grego; fazer distinção entre "livros reconhecidos"só o Evangelho de Mateus, conforme (homologúmenos), admitidos por todos (os dotestemunhos de antigos, teve uma primeira cânon hebraico), e "livros controversos"redação em aramaico, a qual, porém, se perdeu (antilogúmenos), não admitidos por todos, os oitosem deixar vestígios; em lugar dela temos uma acima enumerados, constantes do cânon cristão.tradução, ou melhor, uma redação grega. Na terminologia moderna, os primeiros se Quanto ao Antigo Testamento, temos três chamam protocanônicos, os segundosidiomas originais. A maior parte foi escrita e deuterocanônicos, ou seja, canónicos dechegou até nós em língua hebraica. Alguns primeira e de segunda época, à medida que acapítulos dos livros de Esdras e de Daniel, e um unanimidade a seu respeito foi alcançada logoversículo de Jeremias, estão em aramaico, que no começo ou só mais tarde. Entende-se, porém,foi o idioma falado na Palestina depois do exílio que, com esses vocábulos, não se queria
  • distinguir o valor ou a autoridade das duas mesmo havemos de acreditar que os Livros dacategorias de livros, e sim lembrar somente um Escritura ensinam com certeza, fielmente e semfato histórico e servir para maior brevidade e erro a verdade relativa à nossa salvação, queclareza no tratamento destas matérias. Deus quis fosse consignada nas sagradasAnalogamente, no Novo Testamento, por outras Letras. Por isso, toda Escritura divinamenterazões, porém, alguns livros nem sempre foram inspirada é útil para ensinar, para argüir, paraadmitidos, e nem em todas as Igrejas, entre as corrigir, para instruir na justiça: a fim de que odivinas Escrituras; tais como a Epístola aos homem de Deus seja perfeito, experimentado emHebreus, a de Tiago, a segunda de Pedro, a todas as boas obras (2Tim 3,16-17 gr.).segunda e terceira de João, a de Judas e oApocalipse; aos quais, por isso, também se Mas como Deus na Sagrada Escritura falouaplicou a designação de deuterocanônicos, no por meio de homens e à maneira humana, osentido explicado. intérprete da Sagrada Escritura, para saber o Tudo o que foi dito até aqui vale para os que Ele quis nos comunicar, deve investigar comautores católicos. Compreende-se que os atenção o que os hagiógrafos realmentehebreus rejeitem, em sua totalidade, o Novo quiseram significar e aprouve a Deus manifestarTestamento, além dos deuterocanônicos do por meio das palavras deles.Antigo. Os protestantes ocupam uma posição Para descobrir a intenção dos hagiógrafos,de meio termo. No Novo Testamento, depois devem-se ter em conta, entre outras coisas,das primeiras incertezas de seus fundadores também os gêneros literários. A verdade éadmitiram integralmente e sem distinção o proposta e expressa de modos diferentes,Cânon católico. No An-tigo Testamento, ao segundo se trata de textos históricos de váriasinvés, seguindo o cânon mais restrito dos espécies, ou de textos proféticos ou poéticos ouhebreus, rejeitam, como fora da série dos livros ainda de outros modos de expressão. Ê preciso,sagrados, sob o nome de "apócrifos", os que então, que o intérprete busque o sentido que onós chamamos deuterocanônicos. hagiógrafo -- em determinadas circunstâncias, Para os católicos, os apócrifos são certos segundo as condições do seu tempo e da sualivros antigos, semelhantes a livros bíblicos, cultura -- pretendeu exprimir e de fato exprimiuquer do Novo, quer do Antigo Testamento, o usando os gêneros literários então em voga.mais das vezes atribuídos a personagens Para entender retamente o que o autor sagradobíblicas, mas não inspirados, como os livros quis afirmar por escrito, deve-se atender bemcanónicos, e nem sempre escritos por pessoas quer aos modos peculiares de sentir, dizer oufidedignas, nem de doutrina segura. Os narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, querapócrifos do Antigo Testamento .são chamados àqueles que na mesma época costumavam"pseudo-epígrafos" pelos protestantes. empregar-se nos intercâmbios humanos. Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e INSPIRAÇÃO E INTERPRETAÇÃO. -- "As coisas interpretada com a ajuda do mesmo Espírito quereveladas por Deus, que se encontram e levou à sua redação, ao investigarmos o sentidomanifestam na Sagrada Escritura, foram bem exato dos textos sagrados, não devemosescritas por inspiração do Espírito Santo. De atender menos ao conteúdo e à unidade de todafato, a Igreja, por fé apostólica, considera como a Escritura, tendo em conta a Tradição viva desagrados e canônicos os livros inteiros tanto do toda a6 Igreja e a analogia da fé. Cabe aosAntigo como do Novo Testamento, com todas exegetas, de harmonia com estas regras,as suas partes, porque, tendo sido escritos por trabalhar para entender e expor maisinspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; J2Tim profundamente o sentido da Escritura, para que,3,16; 2Pdr 1,19-21; 3,15 --16), têm a Deus por graças a este estudo de algum modoautor e como tais foram confiados à própria preparatório, chegue a termo o juízo da Igreja.Igreja. Todavia, para escrever os Livros Com efeito, tudo quanto diz respeito àsagrados, Deus escolheu homens, que utilizou interpretação da Escritura está sujeito ao juízona posse das faculdades e capacidades que último da Igreja, que tem o divino mandato etinham, para que, agindo Deus neles e por meio ministério de guardar e interpretar a palavra dedeles, pusessem por escrito, como verdadeiros Deus.autores, tudo aquilo e só aquilo que Elequisesse. Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a Portanto? como tudo quanto afirmam os admirável condescendência da eternaautores inspirados ou hagiógrafos se deve ter Sabedoria, para nos levar a conhecer a inefávelcomo afirmado pelo Espírito Santo, por isso benignidade de Deus e a grande acomodação View slide
  • que usou nas palavras, tomando desde as primeiras cópias até à invenção daantecipadamente cuidado da nossa natureza imprensa (séc. XV), era moralmente impossível(S. João Crisóstomo). que dois exemplares de um mesmo livro, ao menos os mais extensos, fossem exatamente As palavras de Deus, expressas em línguas iguais, e Deus, que: preservou de todo erro oshumanas, tornaram-se intimamente originais dos livros sagrados, não quis obrigar-sesemelhantes à linguagem humana, como a milhares de milagres que seriam necessáriosoutrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne para que se conservassem intactas as cópias.da fraqueza humana, se tornou semelhante aos Bastava conservar inalterada a substância dohomens". (Dei Verbum, 11-13). depósito da fé contido nos livros sagrados. E para tanto foi magnificamente providenciado, A inspiração bíblica, segundo o conceito como precisamente nos ensina a historia docatólico, não é uma moção mecânica, nem um texto.ditado, como se o autor humano fosse passivoe nada de próprio assentasse no livro inspirado. Os textos originais da Bíblia, em particular osNão; a força inspiradora age no homem de do Novo Testamento, são comprovados pormaneira digna dele, condizente com sua tamanha abundância e antigüidade denatureza de criatura inteligente e livre. Antes de documentos, que também sob o aspecto datudo, a inspiração é uma luz intelectual, que, ou transmissão textual a Bíblia mantém o seudescobre ao homem aquilo que antes ignorava primado, o seu lugar eminente na literatura(e então tem-se a revelação), ou com novo mundial. Confrontada aos mais célebresesplendor lhe apresenta aquilo que já sabia. monumentos da literatura profana, tais como asSob a sua ação, a inteligência humana não é obras-primas da literatura grega e latina, elaperturbada, não perde a consciência de si, brilha como o sol entre as estrelas. As obras decomo afirmavam os antigos acerca dos oráculos autores gregos e latinos, não raramente, nospagãos; pelo contrário, é mais do que nunca chegaram num único manuscrito, e as maislúcida e inteligente. Nem a vontade é arrastada afortunadas gloriam-se de algumas dezenasà força contra a sua inclinação; antes, mais do deles; os manuscritos do Novo Testamento,que nunca livre, segue dócil e porém, contam-se às centenas e aos milhares.espontaneamente o impulso divino. A ação Deles possuímos ainda códices inteiros eminspiradora estende-se a todas as faculdades pergaminho, do século IV; com fragmentos dedo homem, a todas as suas ações empregadas papiros podemos remontar aos séculos III e II,ao escrever, até à redação completa; mas a isto é, a menos de um ou dois séculos da mortetodas e a cada uma toca e dirige segundo a dos autores, enquanto que para Cícero e Virgílionatureza de cada uma e segundo a parte que a distância das cópias mais antigas é de cincotomam no trabalho complexo de escrever. Daí ou seis séculos, para Homero de um milênio ese segue que a inspiração não suprime nem mais. O testemunho da transmissão direta dosatenua a personalidade do escritor humano, e códices gregos é reforçado quer pornos vários livros da Bíblia pode-se ver refletida antiquíssimas versões -- já no séc. II, como aa índole e o estilo de cada autor. antiga versão latina --, quer pelas abundantes citações de escritores cristãos, a partir do séc. II. Ora, nesses antiquíssimos testemunhos TEXTOS E VERSÕES. -- "Todos os Padres e encontramos a máxima parte do texto dasDoutores tiveram firmíssima persuasão" -- modernas versões. Verdade é que a própriaescreve Leão XIII na citada encíclica quantidade de manuscritos (além de versões eProvidentissimus -- "de que as divinas citações) ocasionou, pela razão já dita, umEscrituras, quais saíram da pena dos autores número proporcionado de variantes, ou seja, desagrados, são inteiramente isentas de qualquer alterações; pretende-se que no Novoerro". Mas será que todas nos chegaram tais Testamento inteiro, em 150.000 palavras, haja"quais saíram da pena dos autores sagrados?" 200.000 variantes, mas na maioria são minúciasNenhum autógrafo, nem sequer do último dos que não atingem absolutamente o sentido.autores inspirados, chegou até nós, como Ademais, a riqueza de documentação oferece àtambém o de nenhum escritor da antigüidade crítica meios mais eficientes para precisar o textoprofana; só possuímos deles cópias remotas. original. Segundo o cálculo de juízes tãoOra, os copistas não tiveram a assistência do competentes como os críticos Westcott e Hort,Espírito Santo como os hagiógrafos, e enquanto sete oitavos de todo o Novo Testamento sãocopiavam à mão, era natural que se transmitidos, concordemente, sem variantes, porintroduzissem no texto alterações de várias todas as testemunhas. Quanto às variantes,espécies. No longo período de 1500-3000 anos, somente a milésima parte atinge o sentido e só View slide
  • umas vinte assumem verdadeira importância. acima foi dito. Entra aqui o testemunho --Nenhuma atinge a alguma verdade de fé. precioso pelo fato e pela época -- do neto doAuxiliados pela crítica textual podemos concluir, autor do Eclesiástico, o qual, no prólogo de suacom os supracitados críticos, que o texto tradução da obra do avô, assevera ter ido aogenuíno do Novo Testamento é assegurado não Egito pelo ano XXXVIII do rei Evérgetes (cercasó na substância, mas também em quase todos de 132 a.C.) e ali já ter encontrado traduzidosos minuciosos particulares. em grego, a Lei (Pentateuco), os Profetas e os Quanto ao Antigo Testamento, as coisas outros Escritos, isto é, as três partes em que osapresentam-se um pouco diversamente. Antes judeus dividem a sua Bíblia,das recentes descobertas junto ao mar Morto Assim, a versão grega dos LXX tem para nós(1947), os códices hebraicos conhecidos, não valor de um manuscrito hebraico do séc. III a.C.anteriores aos séculos VIII-X d.C, dependiam ou mais antigo, representando um tipo de textotodos de uma recensão ou arquétipo do fim do sensivelmente diferente, como o demonstra umséc. I d.C, posterior, portanto, a cinco ou mais confronto com o texto corrente na Palestina. Elaséculos dos originais. Dessa fonte temos o texto é para nós, portanto, o instrumento principal paraconsonântico, isto é, só as consoantes das a emenda crítica do texto hebraico. È, contudo,palavras hebraicas, segundo o uso das línguas um instrumento de emprego freqüentementesemíticas, de não escreverem as vogais. delicado. Além de, por causa das divergênciasSomente por volta do séc. VII d.C, para facilitar dos tradutores, alguns literais e até servis, outrosa leitura e para uso didático, foram inventados mais livres, não termos um critério geral paraos sinais vocálicos e inseridos no texto, quando remontar da tradução grega ao original hebraico,o hebraico tinha cessado há séculos (pelo séc. o próprio texto dos LXX, através de tantasIV a.C), de ser idioma falado. No longo período vicissitudes de séculos, chegou-nos emdo séc. I ao X d.C, o texto hebraico foi objeto manuscritos com tão grande número dedos mais minuciosos e diligentes cuidados da variantes que nem sempre é fácil, entre essaparte dos rabinos, chamados massoretas (de selva de variantes, descobrir o texto genuíno.massorá = tradição). Ê ao trabalho infatigável Causaram enorme confusão, sem o querer,deles que se deve a conservação inalterável do três recensões feitas no séc. III e difundidastexto e dos manuscritos tão uniformes que não largamente na Igreja grega. Um século depois,apresentam senão raríssimas variantes e de um ótimo perito e testemunha ocular dos fatos,leve monta. Também as antigas versões, com S. Jerônimo (Prefação às Crônicas) escreve:uma só exceção, quer as gregas do séc. "Alexandria com todo o Egito, nos seus LXXII (Áquila, Símaco, Teodocião, dos quais louva a obra de Hesíquio; de Constantinopla atécontudo não nos chegaram senão fragmentos), Antioquia usam-se os exemplares do mártirquer a siríaca, chamada Pechitta, o Targum Luciano; as províncias situadas entre essas duasaramaico (também chamado paráfrase regiões lêem os códices palestinenses,caldaica), e a latina de S. Jerônimo, sendo elaborados por Orígenes e divulgados portodas posteriores à recensão do séc. I, e dela Eusébio e Pânfilo; de modo que todo o orbe sedependentes raras vezes supõem forma diversa debate entre esta tríplice variedade". Felizmentedo texto hebraico normal (massorético). nos foi conservado em poucos manuscritos, Tanto mais preciosa, em tais circunstâncias, sobretudo no famoso Vaticano 1209 (assinaladoé para nós a antiga versão grega, feita no Egito com a sigla B), um texto anterior àquelas(mais exatamente, em Alexandria, motivo por recensões e por elas tomado por base, o queque também é chamada "alexandrina") entre os facilita o trabalho do crítico em busca da formaséc. primitiva.III e II a.C Considerada até os tempos Todavia, o exame atento e consciencioso nosmodernos como obra coletiva de setenta e dois revela que também o texto hebraico usado peladoutos hebreus vindos para isso de Jerusalém, vetusta versão grega já estava bem afastado daa pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C), primitiva pureza e integridade, e que a maioriacomo narra uma pseudocarta de Aristéia, das alterações agora deploradas no textocontinua ainda a chamar-se a versão dos massorético, já existiam nos séculos imediatosSetenta ou os Setenta (LXX). Na realidade, ao exílio babilónico. Faltando o apoio dos LXXcomo mostra o exame interno, os tradutores para emendar um texto corrompido, não nosforam muitos, traduzindo quem este, quem resta senão o recurso à crítica interna, ou seja, àaquele livro, em épocas diversas, até que, reconstituição conjetural. A legitimidade e areunidas as traduções, formou-se um A. medida da aplicação destes critérios no AntigoTestamento totalmente grego, mais amplo do Testamento, provam-nos alguns capítulos que,que o hebraico massorético, segundo o que nos próprios livros canónicos, nos foram
  • transmitidos em dois exemplares diversos. falando, seja sinônimo da versão de S. Jerônimo,Como., por exemplo, o salmo 18 (Vulgata 17), denominando-se o todo pela parte principal ereproduzido em 2Rs 22 e, no próprio Saltério, o mais extensa.salmo 14 (Vulgata 13) repetido com o número53 (Vulgata 52). So tocante ao Pentateuco, O VALOR DA VULGATA. -- Entre os tradutoresalém disso, temos como reforço o texto antigos da Bíblia, S. Jerônimo foi o último noconservado entre os samaritanos, pertencente a tempo, embora o primeiro pelo mérito: não sóum tipo mais antigo que o massorético, por se ter podido valer dos trabalhos dos seusabstração feita de certos acréscimos e antecessores, mas sobretudo porque, pelaadaptações em favor do culto deles no monte prática constante, adquiriu domínio tal dasGarizim (veja Jo 4,20). O arcaísmo do línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego), quePentateuco samaritano reflete-se até na forma entre os antigos cristãos não se conhece igual.de, escritura que eles ainda adotam. Trata-se Acrescente-se um conhecimento igualmentedum descendente direto da primitiva escrita único da literatura exegética, tanto judaica comohebraica, mais próxima das origens fenícias (e cristã. Com uma bagagem de cultura literáriaportanto também de nosso alfabeto), do que o incomum, com ótima preparação e excelentesalfabeto em uso há séculos entre os hebreus. critérios, pôs mãos. ao árduo trabalho. ComeçouDe fato, a hodierna escrita hebraica (chamada, por corrigir (em Roma, em 384, a convite dopela forma geral das letras, quadrada) deriva do papa S. Dâmaso) os Evangelhos latinos,ramo aramaico do alfabeto adotado por eles na auxiliado para isso pelos melhores códicesépoca persa (cerca do séc. V a.C.) em lugar da gregos. Transferindo-se depois para a Palestinaantiga, na qual anteriormente foram escritos os (386), com o intuito de levar uma vida delivros sagrados. No exame crítico do texto ascetismo e de estudo, estendeu o mesmooriginal, esta mudança de alfabeto deve ser trabalho de paciente revisão, baseado no originallevada em conta. Ê o primeiro estudo a ser feito grego, aos livros do Antigo Testamento; mas,por todo bom tradutor ou intérprete da Bíblia, tendo terminado uma parte deles, sobretudo oscomo de qualquer outro livro: certificar-se da Salmos, que passaram depois à Vulgata,leitura genuína, isto é, das palavras exatas compreendeu que prestaria um serviço muitoescritas pelo autor. "O primeiro cuidado de melhor à Igreja, fazendo uma nova versãoquem quer entender a divina Escritura diretamente do texto hebraico. E sem esmorecer[sentencia Sto. Agostinho no seu magistral De diante das ingentes dificuldades, e sem seDoctrina Christiana, 1. II, c. 21] deve ser o de cansar no longo e áspero caminho, a ela secorrigir os códices". Traduzido em linguagem dedicou com admirável constância pelo espaçomoderna pelo Pontífice Leão XIII, na encíclica de uns quinze anos, de 390 a 404, até oProvidentissimus Deus, este preceito soa acabamento feliz da obra. Não traduziu os livrosassim: "Examinada com todo cuidado a leitura pela ordem que têm no cânon. Começou com osgenuína do texto, quando for o caso, passar-se- livros de Samuel, aos quais antepôs o conhecidoá a sondar e expor o sentido" do texto sagrado. Prólogo galeato, que é como que o programa de toda a sua versão. Passou depois aos Salmos, A VULGATA, -- Vulgata, por antonomásia, aos Profetas, a Jó, a Esdras e às Crônicas, aoschamase a versão latina em uso na Igreja três livros atribuídos a Salomão (Provérbios,latina. Ela é, em sua máxima parte, obra de S. Ecle-siastes, Cânticos). Em seguida, passandoJerônimo, doutor da Igreja (cerca de 350-420), para o início, pôs mãos ao Pentateuco, epois resulta da união de três categorias de prosseguindo por Josué, Juízes e Rute, terminoulivros: V livros que ele traduziu diretamente do com Ester. Não traduziu todos os livros com atexto original: todos os protocanônicos do mesma aplicação. Com maior cuidado traduziu eAntigo Testamento, com exceção dos Salmos, corrigiu (como se exprime ele mesmo) osmais Tobias e Judite; 2°- os livros de uma antiga primeiros livros, isto é, Samuel e Reis; os trêsversão latina por ele revista e corrigida à luz do livros ditos de Salomão concluiu-os em apenastexto grego: os Salmos, do Antigo Testamento; três dias; o de Tobias, num dia; o de Judite,ao certo os Evangelhos e provavelmente o numa noite. Destas e de outras causas resultarestante do Novo Testamento; 3° cinco certa desigualdade entre os vários livros, edeuterocanônicos do Antigo Testamento, que também na unidade fundamental da versão. Emtinham ficado na antiga versão latina, não geral, tendo-se formado uma idéia clara do quetocados por S. Jerônimo, a saber: os dois dos queria dizer o autor sagrado, procurou produzi-laMacabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc com a mesma clareza em latim, cuidando mais(com a Carta de Jeremias). Não é, portanto, do sentido do que da letra, sem menosprezar ainexato dizer que o termo Vulgata, comumente exigência da boa latinida-de. Guiado por esses
  • critérios, conseguiu imprimir à sua tradução, de primeiros passos para uma edição crítica damodo geral, uma propriedade de sentido e uma Vulgata; no entanto, outros a corrompiam aindabeleza de expressão tais, que só se apreciam mais, corrigindo-a a bel-prazer com o textoplenamente quando comparadas com as hebraico; outros ainda mais radicalmente,versões rivais gregas ou latinas, em geral segundo o caminho aberto pela reformarudemente literárias e bárbaras e, portanto, protestante, a repudiavam. Estes fatostambém obscuras. Todavia, também S. motivaram a intervenção doJerônimo, especialmente nos primeiros livros Concílio de Trento na importante questão.traduzidos, às mais das vezes por veneração à Na sessão IV (8 de abril de 1546) o Tridentino,palavra divina, não se afasta de um duro depois de haver definido o cânon das divinasliteralismo e por amor à clareza não foge de Escrituras, como dissemos, para enfrentar astermos e construções vulgares; nos seus desordens introduzidas no uso dos livrosescritos originais brilha muito mais pela sagrados, decretou que a Vulgata, venerada pelalinguagem e pelo estilo. antigüidade e pelo uso diuturno da Igreja, fosse considerada versão autêntica e, além disso, VICISSITUDES E ESTADO ATUAL. -- Ás traduções fosse impressa com a máxima correção. Ade S. Jerônimo não encontraram imediatamente execução da segunda parte deste decreto, isto é,no mundo latino a acolhida que mereciam. A a edição correta da Vulgata, foi confiada pelopropagação, devido em parte às dificuldades da próprio Concílio à Santa Sé. Os Sumosépoca, foi lenta, mas em constante progresso, Pontífices, desde Pio IV até Clemente VIII,de sorte que dois séculos depois Sto. Isidoro de nomearam para esse fim quatro comissõesSevilha (+ 636) pôde escrever que ela já estava sucessivas, cujos trabalhos, não obstante asem uso em toda a Igreja do Ocidente, e mais numerosas dificuldades e várias vicissitudes,tarde o renascimento carolíngio consagrou-lhe terminaram com a edição oficial vaticana que,definitivamente o triunfo sobre as antigas sobre a base lançada por Sixto V, foi publicadaversões latinas. Formou-se assim, entre o séc. por Clemente VIII em 1592, chamando-se, porV e o IX, a versão que, propriamente é isso, sixto-clementina; a essa, a qual sechamada Vulgata: fundo jeronimiano com seguiram outras duas reedições vaticanas emalgumas partes da antiga latina, como 1593 e em 1598, tiveram que se conformar todasevidenciamos acima. No curso dos séculos, as edições subseqüentes em qualquer parte doporém, transmitindo-se em exemplares mundo, até aos nossos dias.manuscritos, perdeu, ora mais, ora menos, dasua primitiva pureza, seja por causa dos A autenticidade da Vulgata, primordial decretocopistas, seja por infiltrações de antigas Tridentino, foi muitas vezes mal compreendida.versões. Não faltaram, de vez em quando, Antes de tudo, com este privilégio conferido àdoutos e zelosos varões para opor-se à invasão Vulgata, de ser a única versão autêntica, ocorruptora, emendando o texto corrente a fim de Concílio não entendeu colocá-la acima dosreconduzi-lo à primitiva integridade. Digna de textos originais, nem diminuir o valor intrínsecomemória pelo valor dos resultados e pela das outras versões, sobretudo das antigas, masinfluência eficaz a revisão efetuada por Alcuíno também das modernas, como declaram(801), ordenada por Carlos Magno. Mas nem expressamente as atas do concílio. O decretosequer esta escapou à rápida degeneração, põe diante da Vulgata somente as outrasnem impediu que se formassem outros tipos de versões em língua latina; o resto (seja texto,textos, sobretudo na Espanha e na Itália. sejam versões em outras línguas) não éQuando, no séc. XIII, afluíam à Universidade de alcançado pelo decreto. Em relação às versõesParis estudantes de toda a Europa, trazendo latinas afora a Vulgata, portanto, o decreto écada qual o seu texto bíblico, sentiu-se a negativo; não lhes confere o valor reservado ànecessidade, para uso escolar, de uniformizar Vulgata, mas não as rejeita nem as condena.os textos muitas vezes discordantes entre si; e Todo o peso do decreto, portanto, se concentraisso foi feito, enxertando-se sobre o fundo sobre o caráter positivo reconhecido à Vulgata;alcuiniano as variantes dos outros. Originou-se de autêntica.daí um texto de valor discutível que, todavia,graças à enorme influência exercida pelacélebre Universidade, teve grande sucesso e AVE-MARIApropagou-se por toda a "Europa, primeiro em A Bíblia “Ave Maria” é uma versão da Bíbliacópias manuscritas, e depois, inventada a arte cristã publicada pela Editora Ave Maria emtipográfica, também nas edições impressas. Só 1959, traduzida do grego e hebraico, por mongesna primeira metade do séc. XVI deram-se os beneditinos de Maredsous (Bélgica). Foi
  • considerada uma das melhores traduções domundo na época e em sua primeira edição teveuma tiragem de 42.000 exemplares. É uma dastraduções mais populares no Brasil. Compoucas notas de rodapé, tem uma linguagemcoloquial, porém sem prejuízo para acompreensão dos aspectos históricos eculturais. Na década de 50 publicaram a Bíbliacatólica do Brasil, cuja tradução, supervisionadapelo frei João José Pedreira de Castro, vice-presidente da LEB – Liga de Estudos Bíblicos –e fundador do Centro Bíblico de São Paulo, foifeita a partir da versão francesa dos mongesbeneditinos, de Maredsous, Bélgica, umatradução direta do hebraico, grego e aramaico. Com uma linguagem popular, que tornou sualeitura bastante acessível, a Bíblia Ave-Mariaencontra-se agora ONLINE!
  • ANTIGO TESTAMENTO Nos relatos do Antigo Testamento por exemplo, de quem narra ospresenciamos a história do povo hebreu pormenores do adultério e do homicídiodurante quase dois mil anos, desde a (2Sam 11). Mas ao lado do escândalovinda de Abraão à Palestina até a aparece a correção. Que há de maisinstalação da dinastia dos Hasmoneus edificante do que a santa ousadia de(cerca dos séc. XX-II a.C): história essa em Natan em lançar à face de seu soberanoconexão, ora maior ora menor, ora direta o duplo delito, do que o arrependimentoora indiretamente, com a dos povos e a humilde confissão de Davi, o perdãovizinhos, sobretudo dos grandes da culpa, seguido da execução dumimpérios, entre os quais a Palestina jazia castigo da parte de Deus? (2Sam 12).como ponte: ao sul, o Egito; ao norte, Outras vezes o pecado é censurado maissucessivamente, Babilônia, a Assíria, a abertamente (Gên 38,9-10). Só osPérsia e a Síria. Constituíam eles outros fariseus poderiam escandalizar-se comtantos centros de civilização, que se tais narrativas, motivos de ensinamento!irradiava entre os povos submetidos ou Além disso, quão poucos são eles emvizinhos, formando uma vasta unidade comparação com tantos exemplos decultural. No meio dessa civilização nobres virtudes! São apenas sombrascomum movia-se o povo de Israel, humanas a dar maior realce às luzessofrendo a sua influência. Nas artes e na divinas da história sagrada. As nãoindústria, Israel jamais desenvolveu uma poucas cenas de sangue que ela relata,civilização própria; ficou devedor ao não passam dum reflexo daquelesestrangeiro, como também a sua língua e tempos rudes e ferozes. Também osliteratura trazem o cunho da origem anais de outros povos orientais estãocomum ou do prestígio de outros povos repletos delas, distinguindo-se os dossocialmente mais evoluídos. No entanto, hebreus até por um maior senso dea ausência de originalidade e humanitarismo; os reis de Israel gozavamindependência de civilização material, de fama universal de clemência (lRspõe em muito maior relevo o valor das 20,31).instituições religiosas e morais, A relativa brandura dos hebreuselementos básicos da civilização genuína derivava da legislação que Deus lhes derae completa que foram glória exclusiva por intermédio de Moisés. A pena dedesse povo eleito. morte é aplicada mais raramente do que no código de Hamurabi, e quase só por VALOR DA INTERPRETAÇÃO. — O Antigo meio de apedrejamento. Reconhece a leiTestamento é uma obra de talião, em voga nos costumes dosverdadeiramente divina porque inspirada povos, mas a mitiga (Êx 21, 23125.28-por Deus e porque nos apresenta, pode- 32). Assim em outras asperezasse dizer, em cada uma de suas páginas, a (vingança do sangue) ou relaxamento deação de Deus sobre os homens. Ao costumes (poligamia, divórcio) a lei,mesmo tempo, porém, é uma obra encontrando costumes inveterados eprofundamente humana, porque não podendo desarraigá-los totalmente,destinada aos homens, fala uma intervém para os refrear e regulamentarlinguagem humana e nos apresenta, na (cf. Mt 19,8). Doutra parte, impõe ossua história, os homens tais quais são, deveres de humanitarismo também paracom suas deficiências e rebeldias contra com o próprio adversário (Êx 23,4-5) eos desígnios divinos. Não costuma estabelece a medida da mútuaencobrir as faltas dos seus heróis; Davi, benevolência, com o preceito: "Amarás o
  • teu próximo como a ti mesmo" (Lev fatos históricos e às pessoas desse19,18), donde a norma: "Não faças aos "drama" divino, que no Novooutros o que não te agrada" (Tob 4,16). Testamento recebem a sua conclusão. OsPara com os estrangeiros, as viúvas, os apóstolos e o próprio Jesus (Mt 12,40;órfãos, em suma, os mais necessitados, Jo3,14;6,32) indicaram-nos algumasrecomenda considerações especiais (ÊX dessas imagens antecipadas que, a22,21-23; Dt passim). Muitas vezes o exemplo de S. Paulo, costumam chamar-próprio Deus, especialmente pela se tipos ou figuras; o objeto por elaspregação dos profetas, faz-se seu vislumbrando chama-se antítipo ouadvogado e protetor. Contra o abuso da figurado. Daí se segue que no Antigoescravidão, praga da sociedade antiga, a Testamento, além do sentido daslei mosaica, além de múltiplas restrições palavras chamado verbal ou literal, há(Êx 21,1-11; Lev 25,39-45; Dt 15,12-18), que reconhecer um sentido das coisas,já defende o princípio de igualdade dos chamado real ou típico, e às vezes menoshomens perante Deus (Lev 25,42). Nada felizmente, místico e alegórico. Entredisso se encontra em outros códigos estas duas categorias de sentido háorientais, sem falar na genuína doutrina conexão, mas ao mesmo tempo grandereligiosa, própria do Antigo Testamento, diferença. O sentido literal (que pode serque também ê fator autêntico de próprio ou impróprio, isto é, metafórico)verdadeira civilização. Por outro lado, as não pode faltar em nenhum dito dasuas mais nobres eminências o Antigo Escritura e acha-se freqüentemente semTestamento as atinge nos seus profetas, o típico, do qual é fundamentofiguras grandiosas de poetas e de heróis. necessário. O típico, ao invés, jamais Em comparação com a sublime pode disjungir-se do literal e não existedoutrina evangélica, a lei antiga, em toda parte, mas tão-somente ondeevidentemente, é bem imperfeita; para há verdadeira semelhança e relação comaqueles tempos e povos antigos, porém, algo de análogo no Novo Testamento.era uma lei santa, que trazia em si os A autêntica originalidade do Antigogermes de um pleno aperfeiçoamento. Testamento consiste na sua doutrinaEra uma instituição religiosa preparatória religiosa e moral, cujo centro ocupa-o apara um regulamento definitivo, que idéia do monoteísmo. Na expressãodevia ser trazido pelo Messias, por Cristo. artística do pensamento, porém, nãoS. Paulo, com razão (Gál 3,24), comparou difere muito dos produtos das línguas ea lei mosaica ao pedagogo, que conduz literaturas irmãs, em particular daos discípulos à escala do Mestre, de acádica e da fenícia (ugarítica). A línguaCristo. As próprias falhas do Antigo hebraica, bastante parca de conjunçõesTestamento levavam a desejar o Senhor subordinativas, costuma exprimir-se eme Salvador, cujo advento fora anunciado proposições breves coordenadas com apelos profetas. simples aditiva: e . . . e . . . Resulta daí Observa-se, puis, um progresso vital certa dureza e monotonia, sobretudo nado Antigo ao Novo Testamento, como do parte narrativa, que as versões modernasembrião que se desenvolve num devem atenuar, ligando e construindo àorganismo perfeito. Deste caráter do nossa maneira usual.Antigo Testamento e desta sua relação O estilo hebraico é imaginoso ecom o Novo, deriva uma conseqüência concreto; exprime-se com metáforasimportante para a sua correta ousadas e imagens exuberantes,interpretação, pois as suas instituições apresentando as coisas abstratas edeviam ter alguma semelhança com as espirituais com termos realistas capazesdo Novo; eram as suas imagens de chocar nossos costumes e gostos maisantecipadas. Analogamente quanto aos refinados. Em particular fala de Deus e
  • de suas ações em termos de atividade leitor não se admire disso, nem se deixehumana: mãos, olhos, ouvidos levar a erro. Sob a aparência muitas(antropomorfismo), ficar sentido, vezes áspera, oculta-se sempre umcomover-se, arrepender-se pensamento nobre e puro.(antropopatismos), e semelhantes. Que o
  • O PENTATEUCO O primeiro lugar de ordem e de honra antiga e para a história especial do povoentre os livros do Antigo Testamento hebreu.ocupa-o aquele que os gregos chamaram Quem ê o autor do Pentateuco? DesdePentateuco, isto é, obra em cinco tomos. a mais remota antigüidade foiPara os hebreus é a "tora", ou seja, a lei, considerado seu autor o próprio Moisés,nome tomado da matéria central. o protagonista dos últimos quatro livros.Também os hebreus o dividiram nos Já nos livros posteriores da Bíblia citam-mesmos cinco livros que os gregos, se-lhe várias sentenças com a fórmula:distinguindo--os com a palavra inicial. Nós "Está escrito na lei de Moisés", ou "nousamos exclusivamente os nomes livro de Moisés", ou "no volume da lei deimpostos pelos gregos, que de maneira Moisés". Assim, para não falar do livro degraciosa lhes caracterizaram o conteúdo: Josué, que é a continuação imediata eGênesis, Êxodo, Levítico, Números, como que o complemento do PentateucoDeuteronômio. De jato, o Gênesis narra (Jos 8,31;23,6), em lRs 2,3; 2Rs 14,6;as origens do universo e do gênero 2Crôn 23,18;25,4;35,12; Esdr 3,2;6,18; Nehumano até à formação paulatina do 8,1; 10,34; 13,1; Bar 2,2; Dan 9,11 etc. Ospovo de Israel na sua estada no Egito. O Evangelhos nos apresentam a convicçãoÊxodo narra a saída dos israelitas do de que Moisés é autor da lei, difundida eEgito, conduzidos por Moisés aos pés do radicada entre os judeus; o próprio Jesus,Sinai, para aí receberem de Deus a sua lei bem como os apóstolos admitem-na e areligiosa e civil e se constituírem, por confirmam (veja Mt 8,4; Mc 12,26; Lcmeio de um pacto sagrado 20,37; Jo 5,46; At 3,32;15,21; Rom 10,5("testamento"), em peculiar "povo de etc.). Entre as testemunhas eloqüentes daDeus (Javê)". O Levítico regula o culto fé judaica figuram Fílon, José Flávio, ereligioso à maneira de ritual, dirigido com maior crédito e ressonância oespecialmente aos levitas, que formavam Talmud (tratado Baba batra, f. 14,15);o clero consagrado ao serviço do entre os cristãos, os Padres da Igreja sãosantuário. Os Números recebem o nome unânimes em reconhecer Moisés autordos recenseamentos do povo contidos na do Pentateuco.primeira parte, estendendo-se, depois, Não contraria essa atribuição o fato deem referir fatos e providências legislativas que de Moisés se fale sempre em terceiracorrespondentes a cerca de quarenta pessoa; Xenofonte e Júlio César (paraanos de vida nômade no deserto da falar só em nomes célebres), fizeram openínsula sinaítica. No Deuteronômio, ou mesmo. Nem suscita a menor dificuldadesegunda lei, emanada pelo fim da jornada a grande antigüidade de Moisés (cerca dono deserto, Moisés retoma a legislação século xiv a.C), pois agora sabemos porprecedente para adaptá-la às novas documentos originais recentementecondições de vida sedentária, em que o descobertos, que naquela época, não só apovo viria a se encontrar com a conquista escrita já era conhecida desde séculos,iminente da Palestina. mas até o próprio alfabeto fenicio- Neste rápido apanhado aparece num só hebraico já fora inventado. Nemlance tanto a unidade como a variedade derrogam esta convicção universal ado Pentateuco, bem como a sua opinião de alguns, já na Idade Média, deimportância fundamental para a religião que um outro trecho breve, como os oito
  • últimos versículos do Deuteronômio, que de Esdras (século v a.C). Com taisnarram a morte de Moisés, tenha sido conclusões, nada mais resta a Moisés doacrescentado mais tarde ao Pentateuco. Pentateuco, exceto um ou outroSó nos tempos modernos é que surgiram fragmento, como o Decálogo (Êx 20),dúvidas e negações radicais. incorporado pelos primeiros A partir do século xvin vem-se fazendo colecionadores das antigas memórias (J E)pesquisas perspicazes em três sentidos: à própria obra.composição, autor, idade do Pentateuco. Esta teoria, que se estriba, em boaA composição: é fruto ou não da união de parte, no princípio filosófico da evoluçãovários documentos ou de mais escritos aplicado à religião e à história do povooriginariamente distintos? O autor: de hebreu, se bem que tenha encontrado aquem são as partes individuais ou os maior aceitação entre os protestantes,documentos, quem as reuniu num todo, teve na própria Alemanha, fortesou seja, de quem é a redação definitiva opositores entre os críticos de primeirado atual Pentateuco? A idade: quando ordem, especialmente no que concerneviveu cada um dos autores e redatores? às datas atribuídas aos supostosSão três questões distintas entre si, mas documentos, que, se na verdade é otão conexas que podem e habitualmente ponto mais revolucionário, é também osão tratadas como um tema comum: a mais vulnerável de todo o sistema. Paraquestão mosaica. Para responder a tais desmenti-lo neste ponto, surgiram noquestões elaboraram-se, no século xix, século xx novas escolas; novasvários sistemas; mas prevaleceu sobre orientações emergiram do solo, com astodos, no fim do século, o defendido por escavações no Oriente, importantíssimosK. H. Graf (1866) e aperfeiçoado por J. documentos, tais como o código deWellhausen (1876-78). Ele distingue no Hamurabi, rei de Babilônia, os arquivosPentateuco quatro autores ou escritores dos heteus, ou hititas, em Bogazkõy, nadiferentes: dois narradores denominados Ásia Menor, e os poemas ugaríticospelo uso diferente do nome de Deus, um descobertos em Ras Shamra, no litoral da¡avista (abreviado }), o outro eloísta (E), Síria, para só mencionar os principais. Elesaos quais se deve a maior parte dos fatos trazem à luz costumes, instituições e ritosreferidos no Gênesis, Êxodo, Números; análogos aos do Pentateuco de temposum deuteronomista (D), autor quase até mais antigos de Moisés, e que osexclusivo do Deuteronômio; e um tratado críticos julgavam próprios de época maispresbiteral (P) ou código sacerdotal, que recente, e nos revelam fatos que secompreende todo o Levítico e muitas refletem na vida dos patriarcas (Gên 12,partes narrativas de Gênesis, Êxodo e fim), com matizes que poucos séculosNúmeros. Esses os documentos. Para as atrás teria sido impossível imaginar.respectivas datas, segundo a supracitada Conseqüentemente, a brilhanteescola, o código sacerdotal (P) seria concepção arquitetada por Wellhausenposterior ao profeta Ezequiel (primeira acha-se em plena dissolução. Resistemetade do século vi a.C), o Deuteronômio ainda tenazmente a análiseteria sido composto pouco antes da documentária, ou seja, a distinção dereforma religiosa de Josias, ou seja, pelo quatro (ou mais) fontes, de cuja fusãoano de 621 a.C, o eloísta e o ¡avista teria resultado o Pentateuco.seriam mais antigos (século viu e ix). A Remetendo, para mais amplasunião de todos esses escritos no atual explicações, a tratados especializados dePentateuco ter-se-ia realizado no tempo introdução bíblica, ou a comentários mais
  • desenvolvidos, exporemos aqui os fatos Eloim 6 Javé. Na tradução, a Vulgata nemobjetivos, sobre os quais se quer sempre conserva a distinção.fundamentar a prova da estrutura O emprego alternado dos dois nomescompósita do Pentateuco, para indicar divinos não é casual; nem é sem motivodepois uma via de solução, e mostrar que cessa em Êx 6, predominando depoiscomo esses fatos, quando reduzidos ao quase exclusivamente Javé; isso estáseu justo valor, não impedem que Moisés manifestamente em relação com o que aípossa ser verdadeiramente chamado se lê; às gerações precedentes Deus seautor do Pentateuco. A exposição que revelava como Sadai, pois desconheciamsegue auxiliará o leitor a formar-se uma o nome sagrado de Javé, revelado pelacompreensão mais clara destes livros. primeira vez a Moisés (veja também Êx Nomes divinos. — Para exprimir a idéia 3,13-15,). Compreende-se, pois, porquede Deus, a língua hebraica dispõe de nas narrativas precedentes o nome usadomuitos termos. O mais freqüente (1.440 seja Eloim. Mas, como explicar a presençavezes no Pentateuco, mais de 6.800 em de Javé em tantas partes do Gênesis?toda a Bíblia) é "Javé" (ou "Jeová", Depois de Astruc viu-se aqui a provasegundo uma pseudo pronúncia tangível de duas fontes ou dois autoresintroduzida entre os séculos xvi e xix), diferentes, chamados um eloísta (sigla E),nome próprio, pessoal. " Elohim" (975 outro javista (sigla J). Veremos se comvezes no Pentateuco, cerca de 2.500 na razão.Bíblia) é nome de natureza, como se Língua e estilo. — No entanto, estão jádisséssemos: a divindade; todos concordes que o argumento dosgramaticalmente plural (a forma singular, nomes divinos, por si só, não é suficiente" eloah", é poética e existe só 2 vezes no para se distinguirem solidamente fontesPentateuco), quanto ao sentido é singular ou autores. Este argumento por isso é"El", de igual valor, mas arcaico e poético, acompanhado de provas subsidiárias.46 vezes no Pentateuco; " Adonai" = Com efeito, observam eles, à alternaçãoSenhor, 17 vezes; "Saddai" = o dos nomes divinos acha-se associada a eOnipotente (?), 9 vezes; " Elion" = o semelhantes mudanças de vocábulos eAltíssimo, 6 vezes. À questão mosaica construções. Por exemplo, o ato criadorinteressam principalmente os dois em Gên 1 exprime-se com "bara ", em 2primeiros. Foi observado (e o primeiro a com "yasar"; os habitantes da Palestinadar pelo fato foi o médico católico francês antes dos hebreus são chamados (íJean Astruc em 1756) que no Gênesis e "cananeus" por J, amor eus" por E; ano início do Êxodo capítulos inteiros serva, "sifha" por J, * amah" por E; oempregam exclusivamente, ou quase, o patriarca Jacó só em J toma o nome denome Javé; outros, ao invés, com a Israel. A diversidade prolonga-se além domesma exclusividade e constância rezam Gênesis; o monte onde foi promulgada aEloim. Assim, por exemplo, em Gên 1, lê- lei, em J chamava-se "Sinai", em E "Ho-se 33 vezes Eloim, e nunca Javé; em Gên reb"; o sogro de Moisés, em J tem o nome4, uma vez Eloim e 10 vezes Javé (em 2-3 de "Raguel", em E de "Jetro", e assim pordiga-se de passagem, estão juntos Javé e diante, igualmente, mudando os nomesEloim); em Gên 10,16 nenhum Eloim, 36 divinos, muda o estilo. J é mais abundanteJavé (com 2 Adonai); em Gên 17, ao invés, e minucioso; condescendente e popular,7 Eloim, 1 Javé; em Gên 24 nenhum não evita os mais chocantesEloim, 19 Javé; em Gên 30-35 contra 32 antropomorfismos; vivaz e dramático, tem um colorido poético, fascinante. E é
  • mais seco, anedótico, um pouco permitir a ereção de um altar emdescuidado. qualquer lugar, memorável por alguma Observando-se a diversidade de estilo, intervenção divina, e aí imolar vítimasdescobrem-se mais duas fontes ou sagradas. Lev 17,3-9 não admiteautores: um segundo eloísta que, nas nenhuma matança de animal longe dopartes legislativas, ocupa-se de altar, sobre o qual deve ser derramado opreferência do culto religioso, donde foi sangue, sendo este altar, em união com ochamado sacerdote e autor do "código tabernáculo sagrado, o único para todos.sacerdotal" (P); e na seção narrativa ele Em Dt 12,1-28, segundo a interpretaçãoaprecia as estatísticas, anotações comum e óbvia, únicos são o templo e ocronológicas, fórmulas esquemáticas altar, e fora deles não é permitido(exemplo seja a narração da criação, Gên oferecer sacrifícios a Deus. Permite-se, no1), a linguagem precisa e quase pedante entanto, que se matem animais emdo jurista. E, enfim, o pregador que qualquer lugar, para o uso comum,escreveu o Deuteronômio (D) num estilo derramando-lhes o sangue por terra, açãoamplo, parenético, cheio de afeto declarada profana e não mais sagrada.humanitário e de suave insinuação. A esta variedade de leis corresponde — Os duplicados. — Para provar a observa-se — a prática na história,pluralidade de autores do Pentateuco conforme vem narrada pela própriasurge um terceiro argumento, mais Bíblia. De fato, vemos nos livros dos Juízesvalioso do que os dois antecedentes. (6,24-28; 13,15-23), de Samuel (ISam 6,Certos acontecimentos — diz-se — e não 9.17;9,12; 2Sam 15,7-12;24,18-25), dospoucas leis, ocorrem duas e até três vezes Reis (IRs 3,2-4; 15,14 etc.), altares erigidosem forma pouco diversa. Assim, a criação e sacrifícios oferecidos quase por todado mundo é narrada duas vezes (Gên 1,1- parte, segundo as circunstâncias, em2,3 e 2, 4-24); duas vezes Agar é expulsa harmonia com a lei do Êxodo. Mas, emda casa de Abraão (16 e 21); duas vezes 2Rs 22,23, lemos que o rei Josias noacha-se em perigo a honestidade de Sara sétimo ano de seu reinado (621 a.C.),(12 e 20) e uma terceira a de Rebeca (26); tendo-se encontrado como que poras duas genealogias de Caim (4) e de Set acaso, no templo, um exemplar da lei, fez(5) têm em comum a maior parte dos dela uma aplicação imediata, quenomes; no dilúvio (6-8) são entrelaçadas corresponde exatamente às prescriçõesduas narrações distintas. Duas vezes é do Deuteronômio, particularmente acercarepetida a vocação de Moisés (Êx 3 e 6), a da unicidade do santuário e do altar.queda do maná e a pousada das co- Trata-se da chamada reforma de Josias,dornizes no deserto (Êx 16 e Núm 11), a precedida, um século antes, por umaprova junto às águas de Meribá (Êx 17 e tentativa de Ezequias no mesmo sentidoNúm 20). O preceito das três solenidades (2Rs 17,22; 2Crôn 32,12; Is 36,7).anuais é repetido até cinco vezes (Êx Esses os fatos. A supradita escola crítica23,14-19;34,23-26; Lev 23; Núm 28; Dt tira daqui as conseqüências que temos16). visto: o Deuteronômio, o primeiro a Variações nas leis. — Entre os ostentar a lei do altar único, foi compostoduplicados legais, especial atenção no século vil a.C, pouco antes da reformareclamam os que introduzem uma de Josias. O Levítico, que já supõe essa lei,modificação. A mais célebre e mais grave bem como todo o código sacerdotal aode tais modificações diz respeito ao lugar qual pertence, é posterior a Josias e aodo culto (templo e altar). Êx 20,24 parece exílio, acrescentado pouco depois. Os
  • dois escritos narrativos, o javis-ta e o repetido na eloísta (um "duplicado"eloísta, que já circulavam separadamente, análogo aos do Pentateuco) sem outrao primeiro desde o século ix na Judéia, o variante, ou quase, senão justamentesegundo desde o século viu no reino de esses nomes divinos. Ora, assim comoIsrael, refletem a prática mais antiga. ninguém duvida que os salmos assim Essas conseqüências sustentam-se? repetidos, por exemplo, 13 e 52 sejam doSerá que os fatos acima mencionados, mesmo autor, assim também não estáreduzidos aos seus justos limites, não provado que seções ¡avistas e eloístas nocomportam outra explicação? A solução Pentateuco devam pertencer a autoresda questão da autenticidade mosaica do diferentes.Pentateuco depende da resposta a esses A língua e o estilo não dependemdois quesitos. unicamente do autor, mas também do Partindo do primeiro argumento, o dos assunto e do gênero literário. Santonomes divinos, afirmamos antes de mais Agostinho ditava os seus trabalhosnada que nem sempre esteve ao arbítrio dogmáticos de modo diverso dos seusdo escritor usar Javé ou Eloim; o matiz sermões populares. O Deuteronômio, quesutil de sentido e a associação diferente é a promulgação oral de uma lei, emde idéias contidas nos dois nomes, levam, reunião pública, não pode ter o estiloem dadas circunstâncias, a usar um com lapidar de um código gravado em tábuas,exclusão de outro, e em certas nem as disposições rituais do códigoconstruções o uso, sem razão aparente, sacerdotal têm que se amoldar às leisligou-se exclusivamente a um ou ao civis do código da aliança (Êx cc. 21-23). Aoutro. Ê daí que se diz: " is Elohim" = variedade, por maior que seja, não sehomem de Deus, mas "debar Jahvé" = opõe à unicidade substancial do autor.palavra do Senhor, e não o contrário. O Além disso, não está excluído, comocritério dos nomes divinos, portanto, está veremos, o emprego de fontes e desujeito à cautela. Além disso, será que colaboradores que também deixam a suaestamos certos de que os nomes divinos, marca na obra definitivamente concluída.como figuram no texto atual, são Distinguimos duas espécies dosoriginais, isto é, remontam ao próprio chamados duplicados: duas vezes ocorreautor? um fato semelhante (duplicado real), ou A tese crítica o supõe, e é para ela duas vezes narra-se o mesmo fatoindispensável. Há, porém, boas razões (duplicado literário); para a questão depara duvidar. A alternação dos nomes unicidade ou pluralidade de autor,divinos não é particularidade do somente a segunda espécie tem valor.Pentateuco: constata-se também em Ora, que, por exemplo, a beleza de Saraoutros livros da Bíblia, especialmente no tenha excitado duas vezes, em duasSaltério, onde os primeiros quarenta e os cidades diversas, a cobiça de um déspotaúltimos sessenta salmos usam quase oriental (Gên 12 e 20) nada tem deexclusivamente Javé, ao passo que os improvável. Ê também positivamentedemais cinqüenta, do meio, empregam verossímil que em quarenta anos mais degeralmente Eloim. Ora (e isto é de uma vez se tenha verificado a passagemimportância capital), pode-se demonstrar das codornizes nas suas migraçõescom vários argumentos que também através do deserto (Êx 16; Núm 11); estesnaqueles salmos, agora eloísticos, são duplicados reais. Cumpre examinar,originalmente no lugar de Eloim havia assim, caso por caso. Para a repetição emJavé. Mais de um salmo da seção javista é que o mesmo ato não pareça admissível,
  • isto é, em se tratando de verdadeiros (talvez também, parcialmente, porduplicados literários, tem valor a solução escrito) às gerações do povo de Israel,que delinearemos mais adiante. cujas memórias o grande legislador teria É insito em toda lei, civil ou religiosa registrado, deixando às narrações o seuque, permanecendo inalterados os matiz original. Um exemplo claro destepontos fundamentais, em muitos outros gênero temo-lo no capítulo 14 (expediçãoesteja sujeita a variações com o decorrer de Abraão e encontro com Mel-quisedec),do tempo e as mudanças de de características tão individuais, que acircunstâncias. Nem a lei mosaica podia crítica o atribui a uma fonte especial, nãoescapar a essa necessidade quase vital. pertencente a nenhuma das quatroMas o próprio texto apresenta a razão habituais. No tocante aos quatro livrosdas variações observadas no Pentateuco. posteriores, que versam exatamenteDesde a primeira legislação no Sinai sobre os tempos de Moisés, já indicamos(código da aliança) e a segunda, às as razões que explicam asmargens do Jordão, o Deuteronômio, particularidades estilísticas de doispassam-se cerca de quarenta anos, e, o grandes documentos legislativos, oque mais importa, o povo de Israel, no fim Código sacerdotal e o Deuteronômio.desse período, encontra-se prestes a Outra hipótese, baseada na analogia dosofrer uma profunda transformação, ao Saltério, é a seguinte: o Pentateuco,passar da vida nômade ou pastoril, à composto inteiramente por Moisés, partesedentária e agrícola. Impunha-sef baseado em suas recordações, parte emportanto, uma adaptação do antigo documentos fornecidos pela tradição edireito às novas condições. Da não pela casta sacerdotal, propagou-se naobservância rigorosa, durante séculos, da sociedade hebraica, e, durante alei deuteronômica sobre a unicidade do transmissão, sofrendo modificações naaltar, não prova de per si que não forma, em nada insólitas na transcriçãoexistisse. De resto, um ou outro de obras literárias, chegou, com o tempo,acréscimo ou modificação pode ter-se a receber, em dois pontos diversos daintroduzido com o tempo nas leis área israelita, por exemplo, no reino demosaicas sem derrogar ou diminuir a Efraim e no reino de Judá, duas formaspaternidade de Moisés do Pentateuco. um tanto diferentes; em uma delas, entre A escola crítica, portanto, não provou, outras coisas, o primitivo nome de Javécontra o testemunho claro da própria foi substituído por Eloim. Mais tarde (noBíblia, a sua tese de que o Pentateuco em reinado de Ezequias ou Josias), quando senada pertence a Moisés. Das sentiu a necessidade ou a oportunidadediscrepâncias, quaisquer sejam, de de unificar as duas recensões, um redatorvocabulário, de estilo, de leis, dão-se fundiu-as, extraindo ora desta oraoutras explicações conciliáveis com a daquela, muitas vezes contentando-seautenticidade mosaica. No Gênesis, por com justaposições, sem alterar as feiçõesexemplo, não se lhe opõe a distinção de próprias de cada uma. Destarte explicar--fontes, pois trata-se de acontecimentos se-iam os fenômenos que levaram aanteriores a Moisés, transmitidos, ao acreditar na existência de fontes diversas.menos em grande parte, oralmente
  • INTRODUÇÃO AO GENESIS do homem sobre a terra. A Bíblia não é contrária a resultados certos de tais O Gênesis narra as primeiras ciências, também porque as listasorigens do mundo, do gênero humano, genealógicas do Gênesis poderiamdo povo hebreu, tudo relacionado com ser incompletas, ou seja, comDeus, com sua revelação, com seu omissões de elos intermediários.culto. Deus cria o universo, revela-se Do nascimento de Abraão àaos primeiros homens, Deus escolhe descida dos israelitas ao Egito -- 290uma família (Abraão e sua anos -- (Gên 21,5 + 25,26 + 47,28), adescendência), para no seio dela cronologia respectiva é mais ouconservar e desenvolver os germes da menos certa. Para a cronologiaprimitiva revelação e a verdadeira absoluta (baseada na era vulgar) ter-religião, no intuito de preparar a solene se-ia um ponto fixo no sincronismo derevelação do Sinai, narrada no Êxodo. Abraão com Hamurabi, o célebre rei A criação do céu e da terra (1,1-2,3), da Babilônia, cujo famoso código deé como que o prólogo do grandioso leis foi descoberto em 1902. Adrama, que se divide em duas partes, identificação, porém, de Amrafel, reie tem por protagonistas os cinco de Senaar (Gên 14,1), com Hamurabigrandes patriarcas: Adão e Noé, da Babilônia, é hoje mais do quepatriarcas do gênero humano; Abraão, duvidosa; tampouco a data doIsaac e Jacó, patriarcas do povo reinado deste último estáhebreu. definitivamente fixada; atualmente O todo ê enquadrado pelo autor tende-se a colocar-Ihe o início porsagrado em dez tábuas genealógicas volta de 1728 a.C. Tomando como(2,4; 5,1; 6,9; 10,1; 11,10; 11,27; ponto de partida a data em que os25,12; 25,19;36, 1;37,2) dispostas de israelitas saíram do Egito sob o faraótal modo que, após ter registrado os Menefta pelo ano de 1200 a.C, eramos secundários da propagação remontando o curso dos séculos comhumana, volta a narrar difusamente os os dados da própria Bíblia (Ex 12, 40destinos do ramo patriarcal, isto é, da e passagens acima citadas), Abraãodescendência eleita, portadora da teria nascido por volta de 1900 a.C,revelação divina e da verdadeira mas não é certo qual seja o faraó doreligião. Êxodo. O Gênesis abrange na sua narração Muitas páginas do Gênesis têmuma longa série de séculos, e correspondência nos monumentoscolocando (no tronco principal das babilónicos e egípcios: nos primeiros,suas genealogias) ao lado dos nomes a história primitiva, isto é, ostambém números de anos, forneceria primeiros 11 capítulos; nos egípcios,os elementos de uma cronologia. o resto, especialmente a história deInfelizmente as cifras não parecem José (37-50). Com os dois primeirosbem conservadas, porque nos capítulos (a criação) têm algo denúmeros dos capítulos 5 e 11 os três semelhante vários poemastextos independentes: o hebraico, o babilónicos entre si discordantes esamaritano e o grego divergem entre que são uma fantasiosa mitologia desi. Baseando-se sobre o seu texto, os crasso politeísmo; quão mais sublimegregos do império bizantino colocavam pela nobreza de pensamento é aa criação do homem 5.508 anos a.C. prosa simples da Bíblia! Também aOs hebreus ainda usam uma era que tradição babilônica conhece dez reis,no mesmo período conta 3.760 anos. como Gên 5, dez patriarcas, de vidaAs ciência antropológicas exigem um longuíssima antes do dilúvio. Estetempo assaz maior para a existência cataclisma foi narrado em muitas
  • lendas babilônicas, uma das quais foiinserida no romanesco poema"Gilgames", assim chamado por causado herói protagonista. Os pontos decontato com a narração bíblica (Gên 7;8) são numerosos e típicos. A narraçãoda torre de Babel (Gên 11,1-9) é todatecida de elementos babilônicos; masum paralelo exato não foi aindaencontrado na literatura cuneiforme.Nada ainda se encontrou nessaliteratura de verdadeiramente análogoà narração do paraíso terrestre e daqueda do homem (Gên 3). Nos monumentos egípcios temosrepresentadas muitas cenassemelhantes às narradas no Gên cc.12,37-50.
  • INTRODUÇÃO AO ÊXODO O segundo livro do Pentateuco toma o 17), reside a verdadeira prerrogativa donome de Êxodo da saída dos hebreus do povo de Israel; nada de semelhante seEgito, onde, depois dos bons tempos de encontra em nenhum outro povo. Citam-José, passaram a sofrer a mais dura se, é certo, da literatura egípcia, certasescravidão. Esse acontecimento, porém, desculpas espirituais como: "Não cometinada mais foi do que o prelúdio de jatos injustiça, não roubei, não matei etc., oumuito mais importantes na vida dos filhos da babilônia, os esconjuros, onde sede Israel, os quais, de um conglomerado pergunta se o exorcizado ultrajou algumade famílias que eram, recuperando a divindade, se desprezou pai e mãe, seliberdade, conquistaram verdadeira mentiu ou praticou obscenidades etc. Masunidade de nação independente e não há proporção entre os protestos dereceberam uma legislação especial, uma um particular para evitar o castigoforma de vida moral e religiosa, pelas (finalidade daquelas fórmulas rituais) e aquais se distinguiram de todos os outros autoridade soberana que impõe a lei apovos da terra. todo um povo. Entre os próprios egípcios e Com toda facilidade compreender-se-á babilônios, nada há de correspondente, naa importância deste livro, sobretudo em se legislação, àquelas fórmulas cerimoniais.pensando que, se a história civil das O decálogo de Moisés não tem rivais nonações, mormente as antigas, acha-se mundo.intimamente vinculada à religião e essa à Pelas razões citadas, osmoral, isto jamais foi tão verídico como a acontecimentos narrados no Êxodorespeito dos hebreus. As leis contidas no tiveram um eco enorme na memória dasÊxodo formam a essência da vida civil e tribos israelitas. Em quase todas asreligiosa do povo eleito. páginas do Antigo Testamento são Ê bem verdade que, de todas essas recordadas a libertação da escravidão doleis, e especialmente as do chamado Egito, a prodigiosa passagem do marcódigo da aliança (21-23), foram Vermelho, os golpes tremendos com osencontradas analogias notáveis no código quais foi dominada a tenaz oposição dode Hamurabi (rei babilônico, que viveu opressor egípcio, as grandiosasalguns séculos anteriormente a Moisés), manifestações divinas no Sinai, o sustentoque foi descoberto, traduzido e publicado milagroso de povo tão numeroso nopelo dominicano Pe. Scheil, em 1902. De deserto. Daí Israel deduzia os motivostais analogias não se infere, porém, em mais fortes para ser grato e fiel a Deus, eabsoluto, como pretendem alguns, a conservar uma confiança inabalável nadependência do código mosaico do sua providência soberana e nos seusbabilônico. Elas têm sua explicação próprios destinos.adequada nos fatores comuns às duas A cronologia do Êxodo, ou seja, o anosociedades, israelita e babilônica, tão em que os hebreus saíram do Egito, estápróximas no tempo, no lugar e também na naturalmente ligada à história desse país.origem, pois os patriarcas do povo hebreu Mas, já que a Bíblia não fornece os nomesprocediam do vale do Tigre. dos dois faraós, o da opressão (1,8;2,23) e Realmente, na legislação decretada no o da saída (14,5), duas opiniões diversasSinai, nem tudo foi criado desde a raiz; se equilibraram entre os doutos, commuitos usos e costumes já introduzidos na autoridade e número de defensores quaseprática social foram confirmados pela iguais. Para uns, o opressor seria Totmésaprovação divina. De resto, também nas III (1500--1450) e o outro Amenofis IIfamosas leis romanas das doze tábuas (1447-1420), da XVIII dinastia; paradescobrem-se semelhanças com o código outros, no entanto, Ramsés II (1292--mosaico, sem que ocorra a alguém o 1225), da XIX dinastia, teria oprimido ospensamento de querer estabelecer um hebreus, e seu sucessor, Menefta (1225-parentesco entre as primeiras e o 1215), tê-los-ia libertado. A segundasegundo. Providências semelhantes opinião, que estabelece o século XIII a.C.surgem espontaneamente de para o Êxodo, parece-nos mais condizentenecessidades sociais do gênero. No com o texto (1,11) e mais coerente comdecálogo, porém, e na doutrina religiosa outros dados da história sagrada eque lhe forma a base inconcussa (20,2- profana.
  • INTRODUÇÃO AO LEVÍTICO Este livro traz o nome de Levítico, por festivos: solenidades anuais e o sábadotratar quase exclusivamente dos deveres (23).sacerdotais. Poder-se-ia compará-lo a um 5- Determinações diversas: lâmpadasritual. no santuário e pães da apresentação Com exceção de dois trechos históricos (24,1-9); pena para o blasfemador(8 a 10;24,10-23), compõe-se (24,10-23); prescrições para o anointeiramente de leis que visam à sabático e jubileu (25); promessas esantificação individual e nacional. ameaças relativas a observância da leiSantificação, de per si ritual e exterior, (26); votos e dízimos (27).que, porém, simboliza e promove certa O sacrifício, o ato mais sagrado dasantidade interior e moral. Toda a religião, isto é, oferecer a Deus vítimas,matéria pode ser dividida em cinco animais ou vegetais, não foi instituídopartes: por Moisés, mas remonta às próprias 1- Leis relativas aos sacrifícios (1-7). origens da humanidade (Gên 4,3-4).Os sacrifícios são de cinco espécies; duas Moisés encontrou o seu uso estabelecidoséries de leis: V série — o rito de cada e arraigado entre todos os povos. Nassacrifício (1-5), holocausto (1), oblação tabuinhas recentemente descobertas emde vegetais (2), sacrifício salutar (3), Ras Shamra (antiga Ugarit), na Feníciasacrifício expiatório (4), sacrifício de setentrional, anteriores alguns séculos areparação (5). 2? série — direitos e Moisés, são mencionadas espéciesdeveres dos sacerdotes em cada espécie idênticas de sacrifícios, até mesmo comde sacrifícios (6-7). nomes iguais (afinidade das duas línguas) 2- Consagração dos sacerdotes (8-9). aos do Pentateuco. Moisés, com suasNadab e Abiú são punidos por terem leis, só regulamentou e consagrou aousurpado um ofício sagrado (10-1-7). culto do verdadeiro Deus um cerimonialVárias prescrições para os sacerdotes já praticado, deixando ainda toda essa(10,8-20). legislação dos sacrifícios separada das condições essenciais do pacto celebrado 3- Leis sobre a pureza legal (11-16): entre Deus e o seu povo (Êx 19,23).dos alimentos (11), da puérpera (12), Nesse sentido deve-se entender aqueleda lepra nas pessoas (13,1-46; 14,1- protesto do próprio Deus contra os32), nas vestes (13,47-59) e casas judeus, por boca de Jeremias (7,22-23):(14-33-57); sobre a gonorréia (15). "Em matéria de sacrifícios e holocaustos,Rito para o dia solene de expiação (16). eu nada disse e nada ordenei aos vossos 4- Leis sobre a santidade (17-23): a) pais ao tirá-los do Egito; dei-lhesdo povo (17-20); matança dos animais, somente esta ordem: — Escutai a minhauso do sangue, unicidade do santuário voz; eu serei vosso Deus e vós sereis o(17); prescrições que regulam os atos meu povo —" cf. Êx 19,5).sexuais (18); várias prescrições religiosas Nada, portanto, impede atribuir-se aoe morais (19); punição para os próprio Moisés a legislação cerimonial dotransgressores (20); b) dos sacerdotes: Levítico, embora seja óbvio que não anúpcias e luto (21,1-15); irregularidades tenha escrito toda de uma vez e se tenha(21,16-24); impureza cerimonial (22,1- servido, para a fixar, da obra de algum16; qualidades das vítimas (22, 17-30); sacerdote ou levita de profissão. Nem seconclusão (22,31-33); c) dos dias exclui que algumas destas leis tenham
  • recebido em tempos posterioresmodificações e acréscimos. Devemos observar ainda, que todasessas leis cerimoniais foram ab-rogadasdepois de Jesus Cristo. Entretanto, ossacrifícios da antiga lei haviamprefigurado o seu sublime sacrifício nacruz, no qual, único e perfeito sacrifício,te-ve cumprimento toda a variedade dossacrifícios do Antigo Testamento. Oumelhor, como nos ensina S. Paulo (Hebr9,9; 10,10), os sacrifícios levíticosrecebiam sua principal eficácia de aplacara Deus daquele valor figurativo, pois que"é impossível que, por si só, o sangue dostouros e dos cabritos cancele ospecados" (Hebr 10,4). Considerados noseu significado típico e simbólico, os ritosescritos no Levítico continuam econtinuarão a ser instrutivos.
  • INTRODUÇÃO AOS NÚMEROS O quarto livro do Pentateuco recebeu o serpente de bronze (21, 1-9); vitória sobrenome de Números (em grego Arith-moi, que os amorreus e conquista de Basan (21,10-aqui tem o sentido de "recenseamentos") por 35).causa dos "recenseamentos" (1,1-4,26), que 3a Parte. Na margem oriental do Jordão:são próprios deste livro e que lhe dão a sua cerca de cinco meses. A matéria destafeição particular. Contém, além disso, alguns parte, mais por ordem lógica do que porfatos que se ligam imediatamente aos ordem do texto, pode ser assim agrupada:acontecimentos narrados no Êxodo, e leis 1) Últimos encontros com os povos dasemelhantes às do Levítico. Pode ser dividido Trans Jordânia; Balaão e seus vaticíniosfacilmente, de acordo com os lugares e (22-24); prostituição a Beelfegor (25);tempos, em três partes: no Sinai (1,1-10,10); guerra santa contra os ma-dianitas e leisviagens através do deserto (10,11-21,35); na sobre a divisão dos despojos (31); lista dasmargem oriental do Jordão (22-36). etapas (33). 1a Parte. No Sinai: disposições para a 2) Grupo de leis: herança (27,1-11),partida: 20 dias. festas e sacrifícios (28-29), votos (30). 1) Recenseamento das tribos e respectivas 3) Disposições para a ocupação daposições no acampamento (1-2). terra prometida. Segundo recenseamento 2) Os levitas: seu destino e recenseamento (26); nomeação de Josué (27,12-23).(3); divisão por famílias e por ofícios (4). Distribuição da Transjordânia (32); normas 3) Leis: banimento dos impuros, para a ocupação e distribuição darestituições, ciúmes (5), nazireato, bênção CisJordânia (33,50-34,12); designação daslitúrgica (6). cidades levíticas e de refúgio (35); 4) Últimos fatos: donativos dos chefes das disposições para manter inalterada atribos ao santuário (7), consagração dos levitas primitiva distribuição (36).(8), segunda Páscoa (9,1-14), sinais para a A julgar pelo resumo, o presente livropartida e para a parada, as trombetas (9,15- compreende um período de cerca de trinta10,10). e oito anos e meio. Sobre a maior parte desse período (os trinta e oito anos no2a Parte. Viagem através do deserto: deserto) narra-nos apenas uns poucos 1) Do Sinai a Cades: partida e ordem de fatos, mas muito notáveis pelo significadomarcha (10,11-36), murmuração do povo, as religioso, como a serpente de bronze, acodornizes (11), a lepra de Maria, irmã de sedição de Coré, os vaticínios de Balaão, aMoisés (12). água brotada da rocha; fatos dos quais os 2) Parada em Cades: missão dos doze apóstolos no Novo Testamento tiraramexploradores (13) e queixas do povo (14); leis utilíssimas lições (ICor 10,1-11; Hebr 3,12-sobre as oblações e primícias, sobre o sábado 19; Jo 3,14-15). No centro do dramae os filactérios (15); sedição de Coré, Datan e acham-se dois fatos semelhantes entre si,Abirão, e sua punição (16) e confirmação do duas sedições do povo contra Moisés,sacerdócio na família de Arão (17); relações executor das ordens divinas; a primeiraentre sacerdotes e levitas, emolumentos de (14), originada pela repugnância emuns e de outros (18); a água lustral (19); empreender a conquista da Palestina; asedição do povo por falta de água (20,1-13). segunda (20), por falta de água. 3) De Cades ao Jordão: os edomitas negam Conseqüência ou punição da primeira foi apassagem pelas suas terras; morte de Arão longa demora da nação inteira no deserto(20,14-29); queixas do povo e castigo, a da península sinaítica; a segunda deixou a
  • mais profunda impressão na consciêncianacional e na literatura posterior (cf. SI80;94;105), envolvendo o próprio Moisés, quepor um instante duvidou da clemência divina epor isso teve de deixar a outros o remate desua obra, a conquista de Canaã (cf. Dt 32). O livro dos Números é importante para aliteratura porque, entre outras coisas, nosconservou fragmentos de antiquíssimoscânticos populares (21; 23; 24), com aindicação de coleções já existentes, como "oLivro das guerras de Javé" (21,14), do qual nãose tem outra menção.
  • INTRODUÇÃO AO DEUTERONÔMIO (7), benefícios de Deus, censura daO quinto e último livro do Pentateuco foichamado Deuteronômio, isto é, infidelidade anterior de Israel, promessas e ameaças (8-11). Leis especiais: 1)"segunda lei", talvez porque assim tenha Deveres religiosos. Unicidade dosido traduzida, embora inexatamentepelos LXX, uma frase hebraica em 17,18. santuário e disposições relativas (12, 1- 28); contra a apostasia (12,29-13-18);No entanto, convém-lhe perfeitamente alimentos e dízimos (14); ano da remissãoesse nome. O livro não é uma simplesrepetição da legislação contida nos livros (15); as três grandes solenidades anuais (16,1-17). 2) Direito público. Juízesprecedentes, mas além de leis novas, (16,18-17,13), rei (17,14-20),oferece complementos, esclarecimentos emodificações às primeiras. É, de certo sacerdotes (18,1-8), profetas (18,9-22); homicídio involuntário (19), guerra (20),modo, uma segunda lei, promulgada no homicídio por mão desconhecida (21,1-fim da longa peregrinação dos israelitas,paralela à lei dada no Sinai e destinada a 9). 3) Direito familiar e privado. Grande variedade; os pontos principais são:regular mais de perto a vida do povo matrimônio (21,10-14;22,13-23,1) eescolhido, no solo da Terra Prometida àqual eles estavam para chegar e dela filhos (21,15-20), o divórcio (20,1-4), levirato (25,5-10), deveres detomar posse definitiva. Não é, porém, humanidade (22,1-12;23,16-20;24,6-simples enumeração de leis edeterminações; o que caracteriza esse 25,4), honestidade (25,11-19), votos (23,22-24), primícias e dízimos (26).livro, o que lhe constitui a alma, é umardente sabor oratório. O hagiógrafo nosfaz ouvir um Moisés que exorta, encoraja, 3ª parte: 3o e 4o discursos: ordem de promulgar a lei em Siquém, maldiçõesinvectiva; inculca a observância das leis, a para os transgressores (27), ameaças ecomeçar dos grandes princípios morais;apela para os mais poderosos motivos, promessas (28). Exortação à observância da lei, com a recordação dos fatosevoca a glória do passado, a missão históricos, das promessas e das ameaçashistórica de Israel, os triunfos do porvir.Na mente do autor sagrado temos o (29-30).testamento definitivo, que o grande guia elegislador deixa ao povo de Deus às 4ª parte. Apêndice histórico. Últimasvésperas da sua morte. Pelo estilo, o disposições de Moisés, nomeação de Josué, seu sucessor (31); cântico deDeuteronômio é um discurso, ou melhor, Moisés (32), bênção das doze tribos (33),vários discursos, dirigidos por Moisés aosisraelitas. Deduz--se daí a divisão do livro morte de Moisés (34).em quatro partes: Amor de Deus, beneficência, alegria no cumprimento do dever, eis as principais1a parte: 1o discurso (14): olhar características do Deuteronômio,retrospectivo aos fatos acontecidos princípios inculcados e repetidos comdesde a partida do Horeb até às últimasconquistas da TransJordânia (1-3); solicitude incansável. Por isso, perpassa-o um sopro ardente de sincera e profundaexortação geral à observância da lei (4,1- piedade para com Deus e uma ternura40). simpática pelo homem, que edifica e comove. Há páginas que se aproximam da2a parte: — 2o discurso: renovação da sublimidade divina dos ensinamentoslei 4,44-26,19). Princípios gerais: oDecálogo (5), o culto e o amor ao único evangélicos, mais do que quaisquer outras.Deus verdadeiro (6), guerra à idolatria
  • LIVROS HISTÓRICOS Entre os vários gêneros literários da Bíblia, a contra o jugo dos selêucidas e a reconquistahistória, por sua extenção, ocupa o primeiro da soberania política (séc. ii a.C).lugar. Esse fato já prova quanto a história A série dos livros históricos Josué-Reis,fosse cultivada pelo antigo povo de Israel. O considerados como grupo autônomo, osfato é confirmado pelas fontes de que logo hebreus chamam-nos "Profetas anteriores",falaremos. E comparando, sob esse aspecto, a formando com os "Profetas posteriores"Bíblia com a literatura dos demais povos do (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os DozeOriente antigo, notaremos o lugar preeminente menores) a segunda classe ("os Profetas") dae singular que cabe aos Livros Sagrados. A sua Bíblia tripartida. Os livros históricosabundante literatura histórica que os egípcios e contidos na série Crônicas-Macabeusos assírio-babilônios, os dois povos mais recebem apreciações diversas dos hebreus. Apoderosos e evoluídos da antigüidade, nos maioria deles admitem no seu cânone astransmitiram, consiste quase toda em Crônicas, Esdras-Neemias e Ester, masdocumentos, tais como as inscrições dos colocam-nos, com os restantes Livrossoberanos, onde se narram com intenção e Sagrados, na terceira classe dos "Escritos".estilo laudatórios, as façanhas dos mesmos. Essa divisão é antiga (atesta-a já S.Mais tarde, entre os babilónicos, surge o Jerônimo no "Prólogo Galeato" ou prefação àgênero, menos oficial e mais literário, da sua tradução de Samuel e Reisj, não, porém,crônica que registra, ano por ano, os primitiva. Nos manuscritos da antiquíssimaacontecimentos mais importantes. Nenhum tradução grega dos LXX, e nas listaspovo, porém, nos legou, como os israelitas, (cânones) das igrejas ou escritores cristãos,uma série de escritos que, reunidos, formam os livros das Crônicas e, com diferença decomo que uma história nacional desde as ordem, os outros, são anexados aosorigens até os tempos do cristianismo; precedentes Reis com o título comum detampouco quadros históricos de períodos "histórias". Os dois dos Macabeus nas Bíbliasparticulares comparáveis aos dos Juízes e de latinas apareciam habitualmente no fim doSamuel. Antigo Testamento, mas a conveniência da Rigorosamente falando, devia figurar entre matéria e razões práticas persuadem-nos,os livros históricos grande parte do seguindo, além disso, o exemplo de tradutoresPentateuco, assinaladamente o Gênesis; estas modernos católicos, a não separá--los dopartes, porém, devido à sua estreita relação grupo dos outros livros de caráter narrativo, ecom a legislação mosaica, formam um só o leitor os encontrará, quase em ordemcorpo com o nome de lei. cronológica, depois de Judite. Os escritos históricos da Bíblia propriamenteditos Livros históricos, pela matéria e pelos Quase todos os livros históricos da Bíbliacaracteres internos, são divididos em três indicam, ainda que parcamente, uma ou maiscategorias: fontes escritas donde tiraram o material e às V Josué, Juízes, Rute, Samuel e Reis quais remetem o leitor para maiores e maisrelatam a história do povo de Israel desde a amplas informações (Num 21,14 o livro dasconquista da Palestina até o exílio na Babilônia batalhas do Senhor; ib., 27 os poetas).(586 a.C.); Tornam-se mais freqüentes nos livros 2- as Crônicas e Esdras-Neemias retomam seguintes, especialmente nos Reis e Crônicas.essa mesma história sob pontos de vista Desde os primeiros tempos da monarquiaparticulares desde o reino de Davi (as idades (2Sam 8,16), entre outros oficiais do reiprecedentes, desde as origens do homem, encontramos um "monitor" ou "chanceler"estão, como que resumidas, no princípio 1Crôn encarregado de registrar os acontecimentos1-9 em tábuas genealógicas) até à formação do reino (cf. 1Rs 11,41). Daí o encontrarem-seda sociedade judaica depois do retorno do freqüentemente alusões a tais memórias dosexílio (cerca de 430 a.C.); reis de Judá e de Israel desde 1Rs 14,19-29 3? os livros de Tobias, Judite e Ester até 2Rs 24,5. O autor das Crônicas citailustram alguns episódios notáveis dos últimos escritos de vários profetas: Samuel, Natan,séculos (VII-V a.C); nos dois livros dos Gad (1Crôn 29,29), Aia, Ado (2Crôn 9,29),Macabeus narra-se a resistência dos judeus Semeia, Jeú, Hozai (ib. 12,15; 20,34;33,19). O primeiro deles provavelmente é o livro
  • canônico de Samuel; os outros se perderam, de outrem; 2° que não pretendaexcetuando-se, talvez} alguma parte responsabilizar-se pelo conteúdo da citação,incorporada aos livros canónicos dos Reis. mas deixá-lo no seu valor original. Para apreciar devidamente os livros Comparando-se as passagens paralelas dos históricos do Antigo Testamento é mister levarlivros das Crônicas e dos Reis — quer os Reis em conta a finalidade dos autores sagrados,tenham servido de fonte ao redator das bem como o espírito que os animava aoCrônicas ou quer ambos haurissem duma fonte escreverem seus livros. Os escritores bíblicoscomum — observamos que a fonte geralmente não pretendem escrever história propriamenteé transcrita literalmente conforme os hábitos da dita, nem narrar para satisfazer a sede dehistoriografia semítica, numa época que não saber. Eles querem evidenciar a mão de Deusconhecia os direitos de propriedade literária. no dirigir a sociedade humana segundo asNesse caso, o autor sagrado, apropriando-se altas finalidades de sua Providência,das palavras da fonte, torna-as expressão do especialmente de acordo com a religião e comseu próprio pensamento e, através do carisma a salvação do gênero humano. A suada inspiração divina, que não se opõe ao uso historiografia é religiosa e não profana. Daí ade fontes profanas, imprime-lhe o selo da sua escolha, sensível de modo especial, nos livrosinfalibilidade. dos Reis e das Crônicas, de poucos fatos Pode acontecer que o autor sagrado julgue dentre a enorme quantidade deútil citar um documento como notícia acontecimentos que, mesmo limitando-se àinteressante deixando, porém, quanto à Palestina, decorreram nos largos temposexatidão dos fatos, a responsabilidade pela abrangidos pela sua narrativa; enquanto seafirmação ao autor primitivo. Isto pode-se atribui um papel importante aos profetas,sempre admitir no caso de citação explícita, ministros e porta-vozes de Deus, junto do seuisto é, com a expressa designação da fonte, povo. Segue-se que não devemos esperar doscomo nas cartas citadas em Esdras 4,7-16; hagiógrafos um quadro completo daIMac 12,5-23; 2Mac 11,16-38. Não havendo sociedade israelita da época. Apesar dissoindicação da fonte, e, portanto, quando a oferecem sempre excelente material para acitação é implícita, requer-se maior reconstrução da história profana, completandocircunspecção. Para se afirmar que o autor os dados transmitidos pelos documentossagrado não garante a verdade do que refere, extra-bíblicos, principalmente as inscriçõesa Pontifícia Comissão Bíblica (13 de fev. de cuneiformes dos reis assírios e babilónicos,1905) exige duas condições, duas provas com onde se registram muitos fatos e personagensargumentos sólidos: V que o autor inspirado dos livros dos Reis.realmente cite um documento ou uma palavra
  • INTRODUÇÃO A JOSUÉ O livro de Josué toma o nome do coincidiram com o fim do reinado deprotagonista dos fatos nele contidos. Ramsés III (1198-1167) e de seus fracosMoisés, libertando o povo da escravidão sucessores. Duas indicações do própriodos egípcios, organizou-o na península do livro de Josué estariam a favor dessa data:Sinai e o conduziu até às margens do não existe indício algum duma dominaçãoJordão. Para continuar a mesma missão dos egípcios na Palestina; pelo contrário,de Moisés, sucede-lhe Josué. Tinha na encontramos firmemente estabelecidos esua frente duas tarefas: ocupar a terra de fortalecidos os filisteus (13,2-3), dois fatosCanaã ou Terra Prometida, expulsando os explicados pela decadência do Egito sob aantigos habitantes, e dividir o país entre as dinastia (XX) dos Ramésidas.várias tribos de Israel. O livro de Josué é a O relato do glorioso passado visa à umanarração, ora pormenorizada e viva, ora dupla finalidade: evidenciar a fidelidadeesquematizada, desta grande empresa. divina no cumprimento das suasDaí a divisão lógica do livro em duas promessas (vide 21,43) e agir sobre opartes: ocupação da Terra Prometida e povo como um estímulo a repelir osua partilha; segue-se um apêndice sobre desânimo no tempo da provação e aos últimos fatos de Josué. confiar fielmente no serviço do Senhor. Os fatos aqui resumidos abrangem um O livro de Josué foi considerado pelasperíodo de cerca de 30 anos, como se escolas críticas do século XIX, intimamentepode inferir de dois indícios oferecidos pelo ligado ao Pentateuco. Os mesmospróprio livro. Josué, sendo quase da documentos do Pentateuco teriam servidomesma idade de Caleb (Num 13,6-8; para a sua compilação, que seria obra de14,6-38), tinha, no tempo do Êxodo, vários autores sucessivos, e cuja últimaaproximadamente 40 anos (Jos 14, 7); redação teria visto a luz por volta dosmorreu com 110 anos. Tendo em conta os séculos V ou IV a.C.40 anos passados no deserto, resulta que Hoje, a dita crítica modificou bastante aempreendeu a ocupação da Palestina aos sua hipótese; começa-se, também por80 anos, sobrevivendo mais trinta. parte da maioria dos racionalistas, a Cronologicamente, esses 30 anos considerar o livro de Josué como um livrocoincidiram com a época de el-Amarna se, independente; reconhece-se que a suaconforme alguns, colocarmos o Êxodo no composição é diferente da composição doreinado de Amenófis II; se, conforme Pentateuco, formando um conjunto distintooutros, o colocarmos no de Menefta, então e bastante harmônico. É uma espécie de
  • retorno ao que a tradição judaica e cristã seus relatos são confirmados, em muitossempre defenderam. pontos, pelos documentos oficiais Apesar dessas concessões, entretanto, encontrados em el-Amarna, a oriente donão se deixa de impugnar, embora sem Egito, bem como pelas escavações feitassólido fundamento, a unidade do livro e a na Palestina desde 1902 especialmentesua origem antiga. É verdade que se em Jericó, Betel, Gezer e Laquis, que nosencontram alguns trechos de estilo revelaram vestígios da invasão dosdiferente, certas expressões e algumas israelitas, ou pouco antes.repetições discordantes do corpo do livro,mas para explicar isso seria suficientesupor um único autor que tenhaaproveitado documentos parciais. Da unidade do livro não se pode fa-cilmente chegar à determinação concreta esegura nem da data de origem nem doautor. Alguns indícios levariam a concluirque o livro é anterior ao tempo de Isaías(cf. 8,28 com Is 10,28), de Salomão(16,10 com 1Rs 9,16), de Davi (15,63com 2Sam 5,6-9). Não faltam,entretanto, dificuldades em contrário, quepodem, porém, ser adequadamentesolucionadas. Uma das principais é arepetição da fórmula: "até o dia de hoje"(4,9;5,9;6,25;7,26;8,29;9,27;10,27;13,13;14,14;15,63;16,10;22,3.17),que faz supor se tenha passado um longoperíodo de tempo entre os fatos e a com-posição do livro. Mas, os trinta anos de-corridos entre estes fatos e a morte deJosué são espaço de tempo suficientepara legitimar tais expressões. A origem antiga do livro de Josué e o fimque o autor sagrado se propôs contribuempara fortalecer a autoridade do livro. Os
  • INTRODUÇÃO AOS JUÍZES Juízes foram chamadas certas sepultura, sem especificar opersonagens insignes que, depois da empreendimento; ao passo que dosmorte de Josué até à constituição do maiores narra a história com maisreino — isto é, desde o século XII ao XI particularidades, segundo um esquemaa.C. — libertaram, em várias fixo, que comporta quatro momentos: ocircunstâncias, o povo de Israel dos pecado do povo (práticas ido-látricas), oinimigos. castigo (dominação estrangeira), o Não formaram uma série ininterrupta, arrependimento e a libertação por obra demas eram chamados pelo Senhor um juiz.segundo as necessidades. Eram uma Esse esquema está em perfeitaespécie de "ditadores" que, cumprida a harmonia com o pensamento dominantemissão libertadora, continuavam a (2,11-19) da introdução especial (2,6 ■—exercer autoridade sobre o povo pelo 3,6) ao corpo do livro, que defende a teseresto da vida. Não dominavam sobre segundo a qual Israel foi feliz enquanto setodo o povo, mas só nas tribos que manteve fiel ao Senhor, e infeliz quandolibertavam i do inimigo; desta forma não se apartou dele. Com isto dá-nos aé impossível que alguns juízes conhecer a finalidade do autor: afastarexercitassem ao mesmo tempo sua eficazmente os israelitas do cultofunção. idolátrico. O livro dos Juízes narra as empresas Destarte o corpo da obra resultadesses beneméritos libertadores do composto, com sua própria introdução, àpovo eleito. Em vez de uma história qual foi anteposta outra introdução geralpropriamente dita, da época, é uma (1,1-2,5) e foram acrescentados doiscoleção de memórias dos diversos apêndices (17—18 e 19—221).heróis. São doze ao todo, classificados Não é fácil precisar a data dos dois fatosem maiores e menores, não tanto pela narrados nesses apêndices; há, contudo,diferente importância dos razões sérias para admitir que ambos seempreendimentos e dos heróis, quanto deram nos primeiros tempos dos juízes,pelo modo de serem apresentados. Dos pois no episódio dos dani-tas aparecemenores, o autor contenta-se com citar como sacerdote um neto de Moisés (Jzo nome, alguma notícia da família, a 18,30) e um neto de Arão éduração de sua atividade e o lugar da contemporâneo de outro episódio. A
  • cronologia do corpo do livro é uma das fatos de máxima importância e que umdificuldades mais laboriosas que escritor menos escrupuloso teria ampliadopossam ocupar os intérpretes e entre as a seu bel-prazer.soluções propostas não há nenhuma Quando foi composto o livro? Com boaque satisfaça plenamente. Como quer verossimilhança pode-se crer que foi nosque seja, sem entrar em discussões primeiros anos do reinado de Saul. Cominúteis, basta recordar que segundo lRs efeito, quatro vezes observa-se nos6,1, entre o Êxodo e a construção do apêndices que os inconvenientes narradostemplo (4° ano do reinado de Salomão) aconteceram quando "em Israel não haviapassaram 480 anos. Portanto, se desse rei e cada um fazia o que lhe agradava".número subtrairmos 4 anos de Tal coisa só podia ter sido escrita nosSalomão, 40 de Davi e outros tantos de primeiros tempos da monarquia, quandoSaul (At 13,21), e ainda 70 anos que se gozava dos seus bons efeitos e aindadecorreram desde o Êxodo à primeira não pesavam gravames que sobreviriamopressão, restariam ainda 330 anos mais tarde.para o período dos Juízes. Esseresultado estaria suficientemente deacordo com o que disse Jefté ao rei deAmon (11,26). Somando-se, porém,todos os tempos das opressões e osdos domínios dos juízes, obtêm-se 410anos. Deve-se, portanto, admitir que oautor relatou números aproximados. A parte principal (2,6—16,31) é obrade um só autor, como prova o esquemadelineado e fielmente seguido em todaa narração. O autor, porém, não podiater sido testemunha de tudo o quenarra, já que sua história abrange umperíodo de quase dois séculos. Serviu-se, portanto, de documentospreexistentes e de tradições orais. Asua fidelidade às várias fontes semanifesta na concisão com que narra
  • INTRODUÇÃO A RUTE A comovente história de Rute, que dá o Superado o obstáculo pela desistênciatítulo a este opúsculo, é um edílio pela deste parente, Booz desposa Rute, quesuavidade e pelo ambiente campestre; um o torna pai de Obed, de quem nasceupequeno drama pela variedade e Isaí (Jessé), pai, por sua vez, dovivacidade das cenas. Apenas um terço de grande rei Davi, antepassado dotodo o livro pertence ao gênero narrativo, Messias.sendo o resto, diálogo. Dessa relação com Davi, provém a Os quatro capítulos em que se costuma importância do opúsculo, bem como odividi-lo são como quatro atos no drama; seu lugar no cânon, entre Juízes epodemos assim resumi-los: Samuel, ao primeiro dos quais pertence 1. Em companhia da sogra que volta à pela época dos acontecimentospátria. Rute, jovem moabita, viúva sem narrados (Rut 1,1), e com o segundo sefilhos, de um hebreu que emigrara de relaciona pela fundação da dinastia da-Belém, não abandona a sogra que, depois vídica, cf. ISam 16; 2Sam 2-8. É aqui,da morte do marido e dos filhos, deseja portanto, que as Bíblias gregas evoltar ao torrão natal. latinas o inserem; os hebreus, antigamente, também o colocavam 2. A respigadura. Para o sustento aqui, e só na Idade Média, devido aopróprio e o da sogra, Rute vai respigar uso litúrgico, foi colocado, juntamenteatrás dos segadores, conquistando com os com os outros quatro opúsculos (Cânt,seus encantos e suas virtudes a afeição Ecl, Lam, Est)t entre os componentesde Booz, rico proprietário, parente de seu da última das três partes na qual elessogro. dividem os Livros Sagrados. 3. A noite passada na eira. Por Além desta importância histórica,conselho da sogra, que pensa em casá-la Rute oferece numerosos e preciososcom Booz, Rute passa uma noite junto de ensinamentos. A protagonista é umBooz na eira da colheita e aproveita a modelo de piedade filial, de dócilocasião para lembrar ao mesmo o dever obediência para com a sogra, dede desposar a viúva do parente falecido espírito de sacrifício no cumprimentosem filhos. destes seus deveres. Na sua história 4. As núpcias de Booz com Rute. O sobressai o papel da divina Providênciaconvite de Rute agrada a Booz, mas há que, por caminhos inesperados, premiaoutro parente com direito de precedência. a virtude de Rute, dando-lhe uma
  • posição social elevada. Além disso, sob o dúvida correu muito tempo entre osaspecto religioso, é digno de nota como acontecimentos e sua narração (cf.esta estrangeira, que deixa a pátria e os 4,7). A linguagem, afora algumasconcidadãos para não abandonar a sogra particularidades, é da boa época dahebréia, não somente é recebida na monarquia; o estilo, simples e polido, averdadeira fé para fazer parte do povo de beleza da narrativa, a pintura viva dosDeus, mas também teve a honra de ser caracteres e dos costumes colocaminscrita na genealogia do Messias (Mt 1,5). Rute entre os melhores modelos de O autor de Rute nos é totalmente prosa narrativa do Antigo Testamento.desconhecido. O tempo em que foi escrito, Em Rute temos a amenidade da noveladeve-se deduzir do próprio livro. Sem unida à singela veracidade histórica.
  • INTRODUÇÃO A SAMUEL O livro de Samuel, dividido pelos gregos e 3a parte. Davi, fundador da dinastia (2Sampelos latinos — não pelos hebreus — em dois, 2-24)recebe o nome do santo profeta, cujas gestasconstituem os seus primeiros capítulos, e cuja 1) Rei de Judá em Hebron (2,1-7); guerraação o dominam inteiramente. A matéria civil entre os dois partidos, progressos de Davitratada divide-se marcadamente em três (2,8-3,5); assassínio de Abner (3,6-39) e departes, segundo as três personagens que Isboset (4).governam sucessivamente o povo de Israel: 2) Rei de todos os israelitas em JerusalémSamuel, Saul e Davi. (5,1-16); vitória sobre os filisteus (5,17-25); 1ª parte. Samuel, o último Juiz transladação da arca para Sião (6); promessa 1) Nascimento de Samuel (1,1-2,10); sua messiânica (7); conquistas no exterior (8);juventude a serviço do templo; reprovação do favores ao filho de Jônatas (9).sacerdote Heli e de seus filhos (2,11-3,21). 3) Desordens domésticas. Guerra amonita 2) Primeira guerra filistéia; derrota, captura (10); duplo pecado de Davi (11);da arca, morte de Heli e de seus filhos (4). arrependimento de Davi (12); incesto de AmnonRetorno da arca santa (5-7,2). (13,1-22); vingança de Absalão (13,23-36); 3) Judicatura de Samuel: reforma religiosa, seu exílio e repatriação (13,37-14,33).segunda guerra filistéia, vitória; governo de 4) Revolta de Absalão (15,1-12); fuga deSamuel (7,3-17). Davi (15,13-16,14) e entrada de Absalão em 4) Mau governo dos filhos de Samuel. O Jerusalém (16,15-17,23); guerra civil (17,24-povo pede um rei (8); Saul é ungido e 18,8); morte de Absalão e luto de Davi (18,9-proclamado rei (9-10). Vitória sobre os 19,8). Davi retorna à capital (19,9-43); aamonitas (11). Samuel abdica e despede-se rebelião de Seba é dominada (20,1-22);do povo (12). governo (20,23-26). 2ª parte. Saul, primeiro rei 5) Diversos episódios. Cessa a fome, dando 1) Terceira guerra filistéia; desobediência satisfação aos gabaonitas (21,1--14). Heroísmode Saul; audácias de seu filho Jonatas; vitórias. de alguns homens contra os filisteus (21,15-22).Sumário do reinado de Saul (13-14). Cântico triunfal de Davi (22). Ultimas palavras de 2) Vitória sobre os amalecitas, e outra Davi (23,1-7). Os heróis campeões (23, 8-39).desobediência de Saul, que é por isso Recenseamento do reino; a peste; ereção de umreprovado (15). altar sobre o Sião (24). 3) Samuel unge secretamente rei a Davi, Todos esses acontecimentos encheram oque é chamado à corte de Saul, assaltado por período de cerca de um século e meio,mania furiosa (16). aproximadamente os anos 1120-970 a.C, um 4) Quarta guerra filistéia. Davi vai ao lapso de história israelita isento de todaacampamento e mata o gigante Golias (17,1- interferência quer do Egito, quer da Assíria e da54). Amizade de Jonatas com Davi e inveja de Babilônia.Saul para com o mesmo (17,55-18,9). Ao escrever o livro, o autor sagrado tem por finalidade mostrar-nos as vias providenciais pelas 5) Saul procura matar Davi, o qual foge da quais foi estabelecida no povo de Deus acorte (18,10-19,17); vai ter com Samuel, monarquia e a dinastia davídica, de cuja ceparenova com Jônatas o pacto de amizade devia nascer o Messias, cujas glórias ter-lhe-ia(19,18-21,1). perpetuado. Em Samuel apresenta-nos o modelo 6) Davi anda errante por vários lugares do ministro fiel de Deus, em Davi o tipo de(21,2-22,5); Saul mata os sacerdotes fautores magnanimidade aliada a uma sincera piedade.de Davi (22,6-23). Davi em Ceila (23,1-13);em Zif salva-se de grave perigo (23,14-28);em Engadi poupa a vida a Saul (24); ofendidopor Nabal, é aplacado por Abigail, que depoisdesposa (25); novamente poupa a vida a Saul(26); vive entre os filisteus (27). 7) Quinta guerra filistéia. Saul consulta anigromante de Endor (28). Davi. afastadopelos filisteus (29), vence os amalecitas (30).Saul morre no campo de batalha (31) e Davipranteia a sua perda (2Sam 1).
  • INTRODUÇÃO AOS REIS Aos livros de Samuel, que narram a fundação profana, cabendo a primazia à assírio-da monarquia hebraica seguem-se Reis, cuja babilônica, que aqui se nos apresenta com tãohistória continua até sua queda sob os assaltos grande riqueza, não igualada para nenhumdos poderosos impérios da Assíria e da outro livro do Antigo Testamento.Babilônia, isto é, desde os últimos dias de Davi Não nos foi transmitido quem seja o autor de{cerca de 970 a.C) até à tomada de Jerusalém Reis nem a data da sua existência; seu nomeem 587 a.C, uma duração de cerca de quatro permanecerá provavelmente para sempreséculos. A cisão política e religiosa, que se ignorado, ao passo que a idade pode serseguiu à ascensão ao trono do segundo sucessor deduzida do próprio livro. Se os últimos quatrode Davi, cindiu a nação em dois reinos rivais, o vv. (2Rs 25,27-30) não são um apêndice oude Israel e o de Judá, e findou com o acréscimo posterior, como em si é possível,desaparecimento do primeiro na luta com a sem, contudo, parecer provável, o autor teriaAssíria (721 a.C), delimitando este lapso de terminado a sua obra entre os anos 560 (37- datempo em três períodos, com reflexos análogos prisão de Joiaquin) e 538 a.C, que marca o fimna composição da obra. do exílio babilónico, porque não faz nunca O livro é escrito à base de um esquema alusão ou referência a este grandesimples e transparente, sobretudo na segunda e acontecimento.maior parte, daquela dos reinos separados. Seuenredo é formado pelas notícias sobre cada um É visível o caráter essencialmente religiosodos reis, quer de Judá, quer de Israel, redigido desta história dos reis. Numerososcom um cunho uniforme e distribuído em três ensinamentos de doutrina e vida religiosa estãopartes: 1) Introdução: sincronização do outro contidos especialmente na atividade dosreino com o rei contemporâneo, duração do profetas, que ocupam continuamente o centroreinado no momento e para os reis de Judá da cena, e nas reflexões do autor sagradotambém os anos de idade à elevação ao trono e sobre o procedimento dos reis e dos povos, quenome da rainha-mãe. 2) Corpo: qualidades freqüentemente rematam o quadro. Cumpremorais relativamente à religião e ao culto não deixar de notar o impressionante fato demosaico, e breves referências a algum fato mais que, enquanto no reino cismático de Israelrelevante. 3) Epílogo: envio para notícias mais houve em apenas dois séculos (c. 930-730amplas, aos "anais dos reis" (de Judá ou de a.C), nada menos de oito mudanças deIsrael, segundo o caso), morte e sepultura. dinastia, no vizinho e politicamente mais fraco Nas linhas deste traçado, inserem-se os mais reino de Judá dominou, por mais de 4 séculosamplos e minuciosos relatos de coisas (c. 1010-586 a.C), constante e invariavelmenteconcernentes à religião e a atividade dos a descendência de Davi, embora não faltassemprofetas, entre os quais avultam as grandiosas as violências e os contrastes a partir do exteriorfiguras de Elias e Eliseu. O interesse religioso, (intromissões de Atália, de Necao, desobre o qual se fixa o olhar do autor sagrado, Nabucodonosor). Verificava-se assim amanifesta-se, inclusive nos poucos promessa divina feita a Davi por boca doacontecimentos políticos narrados com profeta Natan (2Sam 7), anúncio e penhor doabundância de pormenores fora do comum, como reino do Messias, filho de Davi por excelênciaas ações de Acab (lRs cc. 20-22), a ascensão de (Lc 1,32), insigne pedra miliar na preparação daJeú ao trono (2Rs 9,1-7), o cerco e libertação de salvação humana.Jerusalém do exército de Senaquerib (2Rs 18,13-19, 37). Essas notícias mais abundantes formamo fundo do livro, ao passo que os esquemáticosperfis dos reis, donde lhe vem o título usual,constituem-lhe como que a moldura e o enredo.As primeiras, o autor hauriu-as das histórias dosprofetas, transmitidas, por escrito ou de viva voz,pelos discípulos dos mesmos. Nos segundos, istoé, na mencionada moldura, devemos ver umtrabalho mais pessoal do redator final, baseadopor certo em bons documentos. O valor histórico do livro dos Reis éincontestável. Garantido pela inspiração divina, éconfirmado por documentos paralelos da história
  • INTRODUÇÃO ÀS CRÔNICAS Samuel e Reis receberam uma obra coletiva: assim as importantesparalela nas Crônicas. Nas Bíblias genealogias, que eram verdadeiroshebraicas constituem os mesmos uma documentos oficiais para provar osó livro e tem o título equivalente ao direito que todo o levita tinha denosso termo "anais". Ê aquilo que nos exercer os atos de culto; assim, asReis se lê tantas vezes no epílogo dos minuciosas normas litúrgicas, asrespectivos reinados. Seguindo uma amplas descrições de solenidadessugestão de S. Jerônimo (no "prólogo (da Páscoa, sobretudo), com ogalea-to" ou prefácio aos livros de número das vítimas imoladas, semSamuel e Reis), os modernos dão faltar sequer as várias exceções aocomumente a esta obra o nome de rito legítimo, e todos os trabalhos"Crônicas". Na versão grega dos LXX executados no próprio edifício, desdeacha-se dividida em dois livros e os preparativos feitos por Davi até àintitula-se Paralipômenos, que restauração de Josias.significa "coisas omitidas"; Paralela, mas subordinada a estasubentende-se, nos livros dos Reis. idéia principal, desenvolve-se outra, aEste título com a respectiva divisão da dinastia davídica. A famíliaintroduziu-se na Igreja latina. davídica é a única depositária do poder legítimo sobre todo o Israel. Os A narração das Crônicas, seus membros, portanto, são osexcetuando-se as genealogias dos principais servos de Javê, e os reisnove primeiros capítulos e a alusão ao que dela descendem têm como deverdecreto de Ciro nos dois últimos vv., primordial o cuidado do templo, poisabrange o mesmo espaço de tempo a sua autoridade régia é um reflexode Samuel e Reis. Distingue-se deles, da autoridade divina, que brilha noporém, pela extensão da matéria, templo. Todavia, a distinção entre opois, de um lado, restringe-se ao reino poder régio e o sacerdotal é radical: ode Judá e, de outro, acrescenta rei não deve usurpar funçõesmuitas notícias relativas ao culto sacerdotais. O monarca é realmentedivino. o primeiro servo do templo, mas é oNa verdade, a grande idéia central de primeiro servo "externo", fora dotoda a obra é o templo. O templo, recinto sagrado.único lugar destinado ao culto legítimo Destas duas grandes idéiasno Deus de Israel, é o centro vital de basilares, tomadas em conjunto,Jerusalém; Jerusalém é o centro de explica-se por que o autor se estendatodo o Judá, que é a parte fiel do povo tanto na citação das genealogias deeleito. Destarte toda a vida de Israel Levi e de Judá (à qual pertencia apalpita em torno do templo, o qual não família de Davi) e por que seé considerado como simples edifício desinteresse do reino do norte, quematerial, fosse embora simbólico, mas constituía a parte mais numerosa docomo verdadeiro fator de unidade povo eleito. Este reino rebelara-sereligiosa e nacional para todo Israel, contra a dinastia davídica e rejeitaramediante o único culto legítimo, o culto do templo de Jerusalém,exercido somente pelos descendentes fabricando para si os bezerros dede Levi. Donde o cuidado especial, a ouro. Por isso, depois de narrar a suainsistência, dir-se--ia, com que o autor defecção, o autor alija-o do esquemadesce a certas particularidades que a de sua obra.nós, tão afastados da sua época, nos Ê evidente, e em mais de umaparecem supérfluas, mas que então passagem (1Crôn 10,13-20,1 etc.),constituíam o fundamento da vida que o autor supõe conhecida a
  • história que narra, ao passo que,excetuadas as particularidadeslitúrgicas, raríssimos são os fatos quenarra com exclusividade. Destesfatos, porém, um há que, em 1880,recebeu esplêndida confirmação dasdescobertas arqueológicas (cf. 2Crôn32, 30). Quanto às freqüentesdivergências entre as cifras deCrônicas e Reis, cumpre recordar queos números, no texto hebraico, têmmuitas vezes contra si umacomponente desfavorável; e muitomais em Crônicas, que natransmissão manuscrita são dos livrosmais corrompidos e mal conservadosde toda a Bíblia. Literariamente, Crônicas são umproduto da decadência. O materiallinguístico situa-o entre as obras maistardias da Bíblia hebraica. O fraseadotortuoso, duro e insistente, étestemunho de uma época em que ohebraico já não era a língua comum,mas ia cedendo lugar ao aramaico.
  • INTRODUÇÃO A ESDRAS No texto hebraico e na versão dos LXX, 1. Regresso, sob as ordens de ZOROBABEL,Esdras e Neemias constituem um só livro, no tempo de Ciro (no 537 a.C.) e reconstruçãocom o título comum de Esdras. Mas já no do templo (Esd 1-6).tempo de Orígenes (inícios do séc. III) eram Decreto de Ciro permitindo a reconstruçãodivididos em dois. Na Vulgata latina são do templo (1); elenco dos judeus queintitulados I e II de Esdras. Desde épocas regressaram guiados por Zorobabel (2).longínquas, porém, chamam-se habitualmente Ereção do altar (3,1-6) e início da construçãoEsdras e Neemias, nomes tomados da do templo (3,7-13); obstáculos da parte dosprincipal personagem de cada um deles. adversários e suspensão dos trabalhos (4,1-5). Com o título de 3? de Esdras, as Bíblias Obstáculos opostos mais tarde pelos inimigoslatinas (1 Esdras nas gregas) contam com um à reconstrução da cidade (4,6-24).livro composto de 9 capítulos, e que Prosseguimento da construção do templo,apresenta versão diferente daquela dos dois término e inauguração entre grandesúltimos capítulos das Crônicas, de todo o solenidades (5-6).Esdras (com a transposição de 4,7-24 no fim 2. Retorno sob a direção de ESDRAS, nodo c. 1) e de Neemias 8,1-12. Além disso, tem sétimo ano de Artaxerxes, e reforma dosde próprio a longa descrição (3,1-5,6, antes costumes (Esd 7,10).de Esdras 2) de uma disputa literária entre Esdras obtém de Artaxerxes rescritotrês pagens da corte de Dario, o terceiro dos favorável (7); preparativos para a volta (8,1-quais, Zorobabel, tendo saído vencedor, 30); partida e chegada a Jerusalém (8,31-36).obteve do rei todas as facilidades para Deploração da desordem dos matrimôniosreconduzir à pátria os seus compatriotas mistos (9), que são suprimidos (10,1-17). Roljudeus. Por causa desse relato não canônico, dos culpados (10, 18-44).isto é, não inspirado, todo o livro foi colocado 3. Regresso de NEEMIAS, no vigésimo anopela Igreja católica entre os apócrifos. de Artaxerxes, reconstrução da cidade e O livro canónico de Esdras-Neemias restauração religiosa (Ne 1-13).descreve a volta dos judeus do exílio Tendo recebido notícias alarmantes,babilónico e a restauração religiosa, e, em Neemias obtém do rei permissão para ir aparte, também a política da sua comunidade. Jerusalém (1,1-2,10); inspeção das muralhas e Por sua própria natureza divide-se em três decisão de reconstruí-las (2, 11-20); elencopartes, em cujo centro estão as três dos que restauraram alguma parte delas (3);personagens que encabeçam o movimento. oposição e insídias de Sanabalat e outros inimigos (4). Extirpação da desordem
  • econômico-social (5). Novas insídias dosinimigos; apesar delas, a muralha é terminada(6). Recenseamento do povo: elenco dosrepatriados (7,6-57 = Esdr 2,1-55). Leiturapública da lei mosaica e festa dosTabernáculos (8). Confissão pública epenitência (9); solene renovação da aliançacom Deus (10). Medidas para repovoarJerusalém (11,1-24); outras cidadesrepovoadas (11,25-36). Lista dos sacerdotes elevitas (12,1-26). Dedicação das muralhas deJerusalém (12,27--42). Regulamentação dasofertas sagradas e dos matrimônios mistos(12,43-13, 14.23-31); medidas para aobservância do sábado, no ano trigésimosegundo de Artaxerxes (13,15-22). Os fatos aqui narrados abrangem o períodode um século aproximadamente (537-432a.C.), período importantíssimo para a históriado povo eleito e da religião em geral. O autornão pretende, porém, deixar-nos uma históriacompleta daquele período memorável, masdescreve-nos apenas os fatos principais,agrupados mais segundo uma ordem lógicado que segundo a sucessão cronológica.
  • INTRODUÇÃO A TOBIASSemelhante ao livro de Rute pela rivais, de resto, irmãos) Sinaíticosuavidade de cenas domésticas, (atualmente no Museu Britânico) eTobias supera-o pela variedade e Vaticano (grego 1209, conhecidoentrelaçamento de acontecimentos e com a sigla B) do séc. IV. A redaçãopela riqueza de ensinamentos morais. do Sinaítico difunde-se mais naO livro de Tobias foi escrito em narração, valendo-se de umahebraico ou aramaico. Encontraram- expressão mais vulgar, de coloridose fragmentos em ambas as línguas mais semítico; a do Vaticano é mais(1952) nas grutas próximas do mar sucinta e de grecidade mais pura.Morto. S. Jerônimo verteu-o para o Existe grande discordância entre oslatim, servindo--se de uma redação doutos em determinar qual das duasaramaica, e assim foi inserido na esteja mais próxima do originalVulgata. A versão grega dos LXX semítico; mas atualmente vaideriva do texto original, seguindo prevalecendo a opinião em favor daoutra via; dessas duas fontes, a grega redação sinaítica, a qual tem pore a latina, surgiram todas as outras seguidora fiel a antiga versão latina eversões chegadas até nós. por aliados os fragmentos semíticosA primeira e mais palpável diferença encontrados às margens do marentre essas duas versões é que na Morto.Vulgata toda a narração, desde o Discutiu-se também se o livro deprincípio, desenvolve-se em terceira Tobias seria uma história verdadeirapessoa, ao passo que no grego o ou uma novela com finalidade moral.preâmbulo (1,1-2,6) ê narrado por Não obstaria ao ensinamento daTobias na primeira pessoa. Na Igreja católica considerá-lo, emVulgata é mais abundante o abstrato, uma narração de livreelemento parenético, no grego invenção (Encíclica Divino afilanteprevalece o biográfico. Na Vulgata, Spiritu). Mas, se por um lado, parecepai e filho têm o mesmo nome: manifesta a intenção do autor, emTobias; no grego, ao invés, o pai vista do cuidado que emprega emchama-se Tobit, ou mais referir nomes de pessoas e lugares, ecorretamente, Tobi, e somente o circunstâncias pormenorizadas, defilho, Tobias. narrar fatos realmente ocorridos,A própria versão grega, porém, doutro lado, porém, às razõeschegou-nos em três formas ou aduzidas contra a historicidade dosredações, duas principais e completas fatos narrados, como anacronismose uma secundária e incompleta. As de pessoas e algumaduas principais têm os seus pseudoqualificação, responde-serepresentantes mais antigos e facilmente que, faltando-nos o textoautorizados, respectivamente, nos original, os erros podem provir dedois re-putadíssimos códices (aqui traduções incorretas ou de falhas de
  • copistas. O maravilhoso que ressaltano livro pode criar dificuldadessomente para quem, por princípio,nega-se a admitir o sobrenatural. Istoposto, nada nos veda queretenhamos a estrita historicidade deTobias, ou pelo menos com algunsescritores católicos, admitamos umamplo fundo histórico com acessóriosembele-zadores.A primeira documentação dos fatosnarrados neste livro deve ter sido,indubitavelmente, o testemunho dosdois protagonistas, Tobi e Tobias, enada obsta que tenha sido escrita poreles; contudo, tampouco estáprovado, nem mesmo pelo empregoda primeira pessoa em 1-3, que elessejam os autores do nosso livro; umescritor posterior pode muito bemter-se servido daquilo que elesdeixaram dito ou escrito.Judeus e protestantes nãoreconhecem o livro de Tobias comocanónico, isto é, inspirado,relegando-o entre os "Apócrifos".Mas a Igreja católica, tanto latinacomo oriental, recebeu-o desde oprincípio no cânone das divinasEscrituras, não obstante a opiniãocontrária de alguns Padres daantiguidade. Com isso a Igrejaoferece-nos para instrução umdelicioso modelo de prosa narrativa,"pleno de ensinamentos religiosos emorais" (S. Beda). Nele, virtudesdomésticas e sociais, sobretudo oexercício de uma generosabeneficiência, e a paternalprovidência de Deus para com os seusservos fiéis fulgem numa luz tão vivaquão suave.
  • INTRODUÇÃO A ESTER É provável que desde o séc. V a.C. PLUTARCO, Vida de Artaxerxes, I),(cf. 2Mac 15-27), os hebreus tenham forma abreviada ou carinhosa decelebrado a festa chamada "purim", Hsajarsu. O caráter efeminado deem memória da eliminação do perigo ambos os monarcas, como no-lo dãode exílio decretado contra os seus a conhecer os escritores profanos,antepassados durante a dominação condiz admiravelmente com o que sepersa. O livro de Ester narra os fatos reflete no livro de Ester.que deram origem a essa festa, Ambos entregues aos prazeres,mostrando a providência especial ambos dominados pela influência deusada por Deus com o seu povo cortesãos e de mulheres, as históriaseleito, naquela ocasião tão crítica. dos seus reinados são tecidas de Duas redações nos chegaram deste intrigas, de amores ilícitos e tambémlivro: a hebraica e a grega dos LXX, de crueldades. Sobre Xerxes veja-secom a única diferença, entre si, de HERÓDOTO, Histórias, IX, 108-110. Aque a grega, além da versão fiel do respeito de Artaxerxes II, Plutarco, nahebraico, contém mais seis seções, vida do mesmo, carrega as tintasque, tomadas em conjunto, igualam sobre a sua moleza e volubilidade ea dois terços do livro hebraico. afirma que no seu gineceu O rei da Pérsia, sob o qual se sustentava tantas mulheres quantosdesenrolam esses acontecimentos, é eram os dias do ano (24,3;27,1-3; cf.chamado Ahasveros no texto Est 2,1-4.12-14).hebraico (donde "Assuero" na Esta é já uma das provas daVulgata), transcrição imperfeita do verdade histórica do livro. Outrasnome persa Hsarjarsa, que os gregos são: o conhecimento exato dostranscreveram como Xerxes. A versão costumes persas, a descrição precisagrega, ao invés, traz constantemente do palácio real em Susa, confirmada"Artaxerxes" no livro inteiro. Daqui as por escavações recentes, a narraçãodivergências em torno da pessoa do cheia de vida, colorido erei assim denominado. Hoje, a particularizada, a ausência de todoopinião mais comum e provável anacronismo, a reiterada referênciasustenta que seja Xerxes I, o qual aos anais oficiais do reinoreinou de 485 a 465 a.C. e ê (2,23;6,10,2); o próprio fato daconhecido sobretudo por sua celebração da festa dos purim, desdecampanha infeliz contra a Grécia. tempos imemoriais, como foi ditoNão perdeu, porém, a sua boa acima, fato que, sem dúvida, deveprobabilidade a opinião dos antigos, sua origem a algum eventoassinaladamente de Eusébio e S. extraordinário na vida da naçãoJerônimo, de que se trata, ao invés, hebraica; e não se tem provas parade Artaxerxes II, chamado o Mnemon indicar outro qualquer, a não ser(405-365 a.C.), que antes de subir ao exatamente o que vem narrado nestetrono tinha o nome de Arsu (v. livro.
  • Pode-se ter como provável que,sobre um fundo comum, oral ouescrito, foram inicialmente redigidas:a narração hebraica atual e umaredação grega mais ampla; feitadepois a tradução grega da narraçãohebraica, passou ela a ser adotada,inserindo-se as seções excedentes daredação grega, isto é, as seçõesdeuterocanônicas. Assim chegou-se aatual versão grega, ao que parece,por obra do Lisímaco. No que tange ao gênero literário,já S. Jerônimo notava grandediferença entre as duas redações,hebraica e grega, diferença que temsuas raízes profundas nos costumesestilísticos das respectivas literaturas. Mas, seja qual for o modo depensar em torno disso, nenhuma dasduas composições do livro de Estertem por finalidade única recordar aorigem da festa de purim, e simtambém, e mesmopreponderantemente, mostrar oscuidados que Deus teve por seu povonaquele terrível transe da suahistória sob a dominação persa; ebastaria isso, sem dúvida, para levar-nos a apreciá-lo altamente. Costuma-se lamentar sobre o livroo nacionalismo acanhado dosprotagonistas hebreus e a sua durezapara com os adversários. Decerto, osseus sentimentos e atos estão assazafastados da abertura de coração emansidão do espírito cristão. Mas,cumpre julgar os homens pelo seutempo. Em todas as épocas, até nostempos modernos, acontecem casosde crueldades Incompreensíveis.
  • INTRODUÇÃO AO I MACABEUS O título de I ou II Macabeus deve facilmente em três partes,ser tomado em sentido totalmente correspondendo cada uma aodiferente de I ou II Samuel, ou Reis governo respectivamente dos trêsou Crônicas. Nestes últimos, que irmãos Macabeus.formam uma única obra literária, a Do epílogo pode-se deduzir que odivisão em dois livros é artificial, autor, cujo nome e profissão searbitrária e nada original, ao passo desconhecem, escreveu o livro noque os dois livros dos Macabeus são tempo de João Hircano (134-103duas obras originariamente distintas. a.C); isto é, em tempos não muitoTomam o nome de Judas, apelidado afastados da ocorrência dosMacabeu, figura central da história acontecimentos narrados; sendo,que narram (1Mac 2,4). O objeto portanto, muito provável que tenhacomum dos dois livros é a libertação tido acesso a fontes e a testemunhasda nação judaica do jugo dos se- diretas. Cita doze documentoslêucidas, os soberanos gregos do oficiais por extenso: cartas entremais vasto dos reinos surgidos após a chefes de estado (12,5-23; 14,20-23),divisão do império de Alexandre indultos dos reis (10,17-45; 11,30-37;Magno. O primeiro livro abrange um 13,36-40; 15,2-29), documentos cujaperíodo de 41 anos (175-135 a.C), ou exatidão estilística e diplomática foiseja, desde o início do reinado de recentemente demonstradaAntíoco IV Epifanes (175-163) até ao mediante o confronto com papiros eassassínio de Simão, chefe do novo inscrições daquela época.estado judaico (135 a.C). O segundo Outra prova da exatidão do autorinicia-se um pouco antes, desde os sagrado são as freqüentes datasúltimos dias de Seleuco IV Filópator, precisas de cada acontecimentopredecessor de Antíoco Epifanes, (1,10.54.59; 2, 70; 4,52; 6,20.49;mas vai somente até a morte de 7,1.43; 9,3.54 etc.) Conta os anosNicanor, general do rei se-lêucida, no segundo a era dos gregos (cf. 1,10),ano 161 a.C, pouco tempo antes da outrora dita dos Selêucidas, quemorte heróica de Judas Macebeu, começava oficialmente no ano 312abrangendo assim um período de a.C; mas para os acontecimentoscerca de 15 anos. Em extensão de especificamente judaicos emprega o otempo, o l livro alcança quase o início do ano no equinócio datriplo do 2°, mas na narração do primavera (cf. 4,52; 10,21); o queperíodo comum é quase um quarto demonstra que toma as datas demais breve (IMac 1-7; 2Mac desde documentos oficiais, de fontes de4,7 até o fim). O seu conteúdo, primeira ordem. Tudo isso nos leva adepois de expostas, à guisa de concluir quão importante seja o valorintrodução, as causas e as origens da histórico deste livro.insurreição judaica, divide-se
  • A obra revela a índole da antigaliteratura hebraica, em estilo simplese conciso, elegante e nervoso noconjunto, mas, às vezes, se alongaem lamentações, descrições e júbilosde colorido poético (cf.1,25-28.37-40; 2,7-13; 3,3-9.45; 14,4-15),também essas recolhidas, comreservas embora, das fontes orais ouescritas, das quais o autor se serviu.Escreveu em hebraico, mas ooriginal, que são Jerônimo aindaconseguiu ter em mãos, perdeu-se;para nós ocupa-Ihe o lugar umaantiquíssima versão grega. O espírito que perpassa toda anarração é um apego fervoroso àreligião tradicional e à santa lei deDeus, com cordial adesão à dinastiasacerdotal que havia restituído aliberdade religiosa e civil ao povohebreu. A intervenção divina énotória e marcante através do livrointeiro. Não obstante, nunca se lê onome de Deus ou Senhor. Emsubstituição, o autor sagradoemprega uma dúzia de vezes ovocábulo "Céu" (note-seespecialmente em 4,24, a antífonaou estribilho tão freqüente nosSalmos e em outros livros: 2Crôn5,13; 7,3; 20,21; Jer 33,11; Esdr 3,11;Dan 3, 89). É uma forma de religiosorespeito para com o augusto nomede Deus, que passou também para alinguagem do Novo Testamento. Emconjunto, pelas suas eminentesqualidades históricas, literárias ereligiosas, este livro é tido comjustiça como uma pérola do cânoncatólico da Sagrada Escritura.
  • INTRODUÇÃO AO II MACABEUS O segundo livro dos Macabeus, leva-nos a crer que as tenha escritoconforme, testemunho do próprio quando ainda vivas as testemunhasautor (2,23), é o resumo de uma oculares dos fatos, e que, portanto,obra mais vasta, composta de cinco sua obra tenha sido escrita noslivros, que não chegou até nós, e de últimos 20 anos do séc. II a.C.autoria de Jasão de Cirene, autor, de Ignoramos também o autor doresto, completamente desconhecido, resumo, isto é, do presente livro.como desconhecidas nos são as Reve-la-se-nos ele como homem decaracterísticas de sua obra. índole piedosa, zeloso da sua fé e doPodemos, todavia, compreender seu templo, amante das memóriasperfeitamente que um historiador de pátrias e profundo conhecedor dacerta importância pudesse surgir de retórica grega (cf. especialmente oCirene, na África do norte, porque prólogo e o epílogo), muito estudadanão ignoramos que no séc. I a.C. naquela época.existia ali uma florescente Faltam-nos provas para afirmarcomunidade judaica. As informações que toda a obra original tenha suaque Jasão possuía — segundo o que parte representativa no compêndiopodemos deduzir do resumo fiel — também e, em que relação estejam,especialmente as notícias minuciosas quanto à extensão, as duas obras.e exatas sobre certas Parece que o autor do resumo nãoparticularidades da história dos seguiu um critério constante deSelêucidas, informações precisas composição.sobre títulos, cargos etc, nos levam a Quanto ao conteúdo, a obra relatacrer que tenha consultado arquivos essencialmente os feitos de Judaspalestinenses e ouvido boas Macabeu, precedidos, porém, detestemunhas. É sabido, com efeito, uma longa apresentação dasque os judeus cultos da época condições em que surgiu a revolta, e,costumavam empreender tais antes ainda, de duas ou três cartasviagens e pesquisas. Memórias de judeus de Jerusalém aos do Egito,escritas já haviam sido recolhidas por documentos que não têm por fonteJudas Macabeu (2,14); e, por Jasão e. que talvez nem mesmoocasião das festas da Dedicação e de tenham sido apostos ao livro peloNicanor, não deviam faltar os autor do resumo, mas são dehabituais rolos narrativos para uso autenticidade comprovada."litúrgico". As interessantes cartas No tocante à inspiração, o livrodos cc. 9 e 11, agora ilustradas por oferece possibilidades especiais dedescobertas papirológicas, provêm observação, além de no prólogo e node arquivos. epílogo, na abundância de citações A exatidão das notícias, que Jasão documentadas. Quanto a estas,só poderá ter recolhido por via oral, aplica-se o princípio comum em tais
  • casos: o autor garante que odocumento foi realmente escrito, enas circunstâncias em que ele ocoloca; pelo simples fato de citá-lo,porém, não lhe garante o conteúdo(S TO A GOSTINHO , A Orósio contra osPriscilianos, 9). Isto é, essesdocumentos não são em siinspirados, ao passo que é inspiradaa sua inserção no texto sagrado. Oresto do texto está nas condiçõescostumeiras dos livros históricos;inspirado é o texto grego, não,porém, a obra de Jasão, que elecompendia. O livro não erageralmente reconhecido comosagrado pelos judeus palestinenses,que consideravam encerrado ocânon no tempo dos Macabeus. Masera tido como tal em Alexandria,bem como os demaisdeuterocanônicos, e nesta qualidadepassou à Igreja. O livro contém ensinamentos já nopróprio espírito com que foi escrito,espírito de entusiasmo pelaliberdade do povo, de fé naprovidência divina, de piedade.Diretamente, e com palavras deprofunda convicção religiosa, sãoensinados, de modo particular,alguns pontos: a ressurreição dacarne (cf. especialmente 7,11;12,43-44; 14,46), a eficácia dosacrifício e da oração pelos defuntose da oração dos santos por aquelesque ainda militam na terra (12,43-45; 15,12-16), a existência dosanjos e suas intervenções, tambémcom efeitos miraculosos, em auxíliodo povo de Deus, nos momentosmais críticos.
  • LIVROS POÉTICOSOs Salmos, Jó e os Provérbios, nas Bíblias hebraicas, formam um grupo à parte, com a denominação de Livrospoéticos. No uso comum, cristão e moderno, porém, acrescenta-se-lhes também o Eclesiastes, o Cântico dosCânticos, o livro da Sabedoria e o Eclesiástico ou Jesus de Sirac; e é freqüente entre os Padres gregos bem comoentre os autores modernos, estender a todos o nome de Livros poéticos. E com razão; pois o Cântico dos Cânticos e oEclesiástico são escritos em versos como os Provérbios. O Eclesiastes e o livro da Sabedoria possuem, outrossim,forma poética, embora menos rigorosa. Trata-se, portanto, de um elemento comum a todos esses livros.São também chamados livros didáticos ou sapienciais, por falarem muito de sabedoria. Mas o título de sapienciais éreservado especialmente aos últimos cinco livros (Prov, Ecl, Cânt, Sab e Eclo); os salmos são na máxima parte degênero lírico, sem, todavia, lhes faltar o elemento didático; o gênero do Cântico dos Cânticos é exclusivamente olírico. De resto, lírico e didático são os dois gêneros de poesia cultivada pelos hebreus.O que caracteriza toda a poesia hebraica é o chamado paralelismo. Ordinariamente, o verso compõe-se de doismembros ou hemistiquios, o segundo dos quais forma certa simetria com o primei-do, ora repetindo com outraspalavras o conceito (paralelismo sinonímico), como, por exemplo:"Quando Israel saiu do Egito, e a casa de Jacó do meio dum povo bárbaro, Deus consagrou ao seu serviço o povo deJudá, e estabeleceu em Israel o seu império; (SI 113,1-2); ora destacando o mesmo conceito por meio de contrastes(paralelismo antitético), como, por exetriplo: "Um filho sábio é a alegria de seu pai, porém um filho insensato é atristeza de sua mãe" (Prov 10,1). O segundo hemistiquio não é, às vezes, a repetição, e sim o complemento doprimeiro (paralelismo sintético ou progressivo), como, por exemplo: "Com a minha voz clamei ao Senhor, e eleouviu-me do seu santo monte" (SI 3,5).A observância dos paralelismos ajuda a compreensão do verso, visto que a segunda parte repete e, muitas vezes,esclarece obscuridades ou figuras contidas no primeiro hemistiquio. Por exemplo: Sab 33,6 o "sopro da boca" deDeus não é senão a sua "palavra", o "fiat" da criação (cf. v. 9); SI 71,1 "o filho do rei" não é pessoa diversa do "rei" doprimeiro hemistiquio. Deve-se notar de maneira especial que freqüentes vezes os dois hemistiquios paralelosapresentam cada um uma parte e aspecto da idéia, e unidos formam um só conceito. Destarte o citado Prov 10,1quer significar que o filho sábio é a glória dos pais, ao passo que o insensato causa-lhes tristeza. Assim no SI 91,3proclamar pela manhã a bondade de Deus, e pela tarde a sua fidelidade tem o sentido de: exaltar dia e noite aliberalidade constante de Deus.Muito se disputou nos últimos tempos se o verso hebraico tenha um determinado ritmo e qual, sem contudo se terchegado a um acordo entre os estudiosos a respeito. Mais solidamente provadas parecem estas normas: 1° O verso,ou melhor dito, o hemistiquio hebraico, deve ter um determinado número de sílabas acentuadas, nada mais. 2o Onúmero de sílabas acentuadas varia de duas a cinco em cada hemistiquio. 3° Quando o hemistiquio possui cincoacentos, ordinariamente entre o terceiro e o quarto interpõe-se uma cesura, resultando assim um ritmo elegíaco(com dois períodos de comprimento desigual). 4° Entre as duas sílabas acentuadas estão em geral uma, duas ou trêsnão acentuadas. Portanto, o número de sílabas num verso ou hemistiquio ê indeterminado, mas conservado dentrode certos limites.A observação exata desse ritmo é de grande utilidade para a pontuação, isto é, a divisão entre os hemistiquios etambém entre os versículos, que não raro são mal distinguidos, inclusive na divisão massorética, introduzida pelosmestres hebreus, e geralmente seguida, como se pode ver em Jó 15,23-24.31-32; 16,7-8; 19,14-15, ou nos SI 16,3-4;30,11-12;39 7-9; 64.2-4 etc. Conseqüência dessa atenção às exigências do ritmo é a restituição da composição dopoeta sagrado a toda a sua natural beleza e a projeção de uma luz intensa para a compreensão do seu pensamento,animado pelo sopro divino.
  • INTRODUÇÃO A JÓO livro, que recebe o título de Jó, do nome de um protagonista, pode ser considerado com toda justiça umdos mais belos poemas da literatura mundial. Tema apaixonante, drama a um só tempo profundamentehumano e divinamente sublime, é desenvolvido com tal riqueza de colorido, vigor de afeto e tantosartifícios de forma, que ê permitido afirmar que nele o idioma hebraico exauriu a sua facúndia, e a arte, oseu estilo.Na verdade, a ação é simples. Um homem de proceder irrepreensível é alvo de infortúnios de toda sorte,ao ponto de não lhe restarem senão poucas carnes semicorrompidas a cobrir-lhe o esqueleto. Alguns deseus amigos, vindos para consolá-lo, vêem nesse cúmulo de sofrimentos a prova tangível de gravíssimospecados, pelos quais ele o teria merecido, e o exprobam. Jó, paciente, protesta a sua inocência, sem,porém, conseguir vencer os preconceitos dos seus acusadores. O próprio Deus parece surdo aos bradosdilacerantes do infeliz Jó, cujo espírito é torturado ainda mais do que a sua carne. Contudo, sua fé nabondade da própria causa e na justiça de Deus não desfalece, e, superada a prova, Deus intervém paradefendê-lo e para restituir-lhe a antiga prosperidade. A conclusão é que, embora por uma misteriosa esábia disposição divina, às vezes também os justos sofrem sem culpa nenhuma; e que, finalmente, Deusrecompensa a virtude desconhecida pelos homens.O objetivo do livro é a discussão, concretizada num fato, em tomo da razão e da origem ontológica da dor.A discussão, desenvolvida em forma de diálogo entre Jó e seus amigos, e em versos de esmerada feitura,constitui a parte principal e como que o corpo da obra, o poema propriamente dito (3-41). Precede aintrodução em prosa (1-2) e encerra-o um epílogo, também em prosa (42), à guisa de coroamento.Esse o grandioso drama, no qual uma rara profundidade de sentimentos, unida a uma incomparável belezaliterária, mantém-se até ao toque final.A diferença entre o Jó paciente e resignado (1-2) e o Jó queixoso e agressivo (3-31) explica-se pelos gênerosliterários diferentes das seções. Os discursos de Eliú (32-37) podem ter sido inseridos posteriormente, paracompletar o assunto, deixado sem solução nos capítulos anteriores. O mesmo se diga quanto à teofania(38-41).Quem foi o autor desta obra maravilhosa? Ante o silêncio completo do próprio texto, as conjeturas nãotem conta. Um dos grandes profetas pré-exílicos? Estariam a seu favor o estilo e a linguagem. Um dossábios doutores da lei pós-exílicos? O assunto e o modo de dialogar justificariam essa suposição. Seja comofor, o autor foi um dos grandes representantes da língua e do pensamento do povo hebraico.Da natureza poética do livro se segue que não se deve insistir na veracidade histórica de cada passo dadiscussão. Além disso, a própria índole do diálogo supõe que o autor não tenha querido aprovar todas asidéias expressas pelos interlocutores. A chave da composição conexa está em 42,1-8: Jó, embora tendo umconceito elevado de Deus, pecou por presunção e violência; aos seus amigos, pelo contrário, faltou oconceito adequado de Deus e de sua Providência.O prólogo e o epílogo são ficções literárias. Discute-se a historicidade da pessoa de Jó; a opinião maisplausível é a de que também seja uma personagem fictícia, pois o objetivo da obra não é contar a históriade um sofredor, e sim, oferecer uma solução e um consolo a todos os que sofrem. A cena passa-se nasfronteiras entre a Idumêia e a Arábia. A antigüidade cristã venerava a terra de Jó nas vizinhanças deCarnaim, hoje Cheh Saad, na Batanéia (cf. IMac 5,26), onde subsistem reminiscências na toponomásticalocal.Jó raras vezes é mencionado no resto da Sagrada Escritura. Em Ez 14, 14.20 é posto entre os homensrenomados pela sua justiça e virtude. Em Tob 2,12-15 (segundo a Vulgata) e em Tg 5,11 é proposto comoexemplo de paciência heróica. Com efeito, a paciência de Jó tornou-se proverbial. Se hoje, à luz da doutrinaevangélica, encontramos motivos de conforto bem mais eficazes do que os que Jó podia encontrar na luzimperfeita da razão e mesmo da antiga lei, tanto mais valem a sua heróica resignação e constância sob opeso de tamanhas desgraças.
  • INTRODUÇÃO AOS SALMOSÉ uso vindo das Bíblias gregas e latinas, chamar Salmos aos cânticos sagrados que os hebreus, e também osgregos e os latinos, bem como as nossas antigas vulgarizações, com mais propriedade intitulam hinos. Sãopoesias religiosas de argumentos variados, o mais das vezes orações ou louvores a Deus.A coleção desses hinos, chamada, por analogia, Saltério, nas Bíblias hebraicas divide-se em cinco livros,separados entre si pela doxologia ou aclamação ("Bendito seja o Senhor" etc.), que se lê no final dos salmos41,72,89,106. Mas é divisão recente, introduzida, ao que parece, por volta do séc. III a.C. Em tempos maisremotos, compunha-se de três grandes coletâneas, que se distinguem pelo emprego dos nomes parainvocar a divindade. A V (salmos 1-40) e a y (91-150) empregam Senhor (hebr. "Javé"), a 2? (41-88), Deus(hebr. "Eloim").Distinguem-sé ainda pelos nomes dos autores, que cada salmo traz no cabeçalho. Na 1, quase todos ossalmos, exceto 1,2,32, são intitulados de Davi; na 2* são três séries, intituladas, respectivamente, dos filhosde Coré, ou coreí-tas, de Davi e de Asaf; na 3- quase todos os salmos são anônimos. Com os títulos, variatambém o teor geral do argumento.Os salmos atribuídos a Davi são, em máxima parte, pedidos de auxílio em todas as aflições, de modoespecial nas enfermidades e nas perseguições. Os cantos dos filhos de Coré, conforme sua condição delevitas (cf. Núm 16,1), têm por tema central o culto, o templo, a cidade santa. Os de Asaf são cânticosnacionais ou didáticos, que celebram o triunfo ou deploram as derrotas de todo o povo, ou têm por fimensinar verdades morais. A coleção anônima compõe-se na maioria de hinos de louvor ou de ações degraças ao Senhor. Nela sobressai também uma coletânea partícula} de salmos breves, chamados graduais(119-133), de índole levítica.Do exposto infere-se que a atual coleção de salmos ou Saltério, foi se formando aos poucos, desde ostempos de Davi (cerca de 1000 a.C.) até depois de Neemias (cerca de 400 a.C). Em todo esse longo período,em todas as gerações, os piedosos poetas, inspirados porDeus, transfundiram nos salmos os seus santos afetos, suas fervorosas súplicas, os transportes de sua almaprofundamente religiosa. Destarte, recolhendo o Saltério o eco de todo um povo e de tantos séculos, era,por natureza, apto a se tornar, como de fato se tornou, o livro de orações, o manual de piedade, primeiropara a Sinagoga israelita, depois para toda a Igreja cristã.Muito importantes, relativamente aos nossos conceitos, são dois vocábulos que raramente aparecem nostítulos, mas são freqüentes no texto dos Salmos: "tefilã = súplica" e tehilã = louvor". É assim que sãodesignados os gêneros mais freqüentes dos Salmos. No primeiro, na súplica, que compreende mais de umterço de todo o Saltério, um indivíduo ou (mais raramente) a nação, assaltado por males de toda a espécie,recorre a Deus para deles se livrar. Destarte, na sua abundância e variedade, os salmos oferecem modelosde oração para todas as circunstâncias da vida humana. O outro gênero, de louvor ou hino a Deus, eraindicado de maneira especial para o culto público nas funções religiosas do templo e está concentradosobretudo nos livros IV e V. Em menor número são os salmos didáticos ou sapienciais e morais, cheios dosmais diversos ensinamentos para a vida, e os salmos históricos, que rememoram, para exaltação de Deusou ação de graças, ou para ilustração dos pósteros, os grandes acontecimentos da vida nacional. Restamainda salmos que escapam a qualquer categoria, tão grande é a variedade desta nobilíssima antologia depoesia religiosa.Para melhor lhe saborear toda a beleza e experimentar a eficácia, esforce-se o leitor por se apossar dossentimentos e afetos expressos pelo texto sagrado. Se alguma passagem, como nos chamados salmosimprecatorios (58-69; 83; 109), parece dura e chocante para almas acostumadas à suavidade evangélica (cf.Mt 5,43), lembremos o zelo puro pela justiça e honra de Deus que animava os autores sagrados (cf. 5,11;69,10; 139,21), e poderemos manifestar para com o pecado todo o rigor da antiga lei, ao passo quereservaremos toda a caridade e a misericórdia da nova lei para o pecador.
  • INTRODUÇÃO AOS PROVÉRBIOSEntre os hebreus, como em todas as nações, eram correntes os provérbiosvulgares, patrimônio comum da sabedoria popular. Por exemplo: "Dosmaliciosos procede a malícia" (1Sam 24,14) ou: "Tal mãe, tal filha" (Ez 16,44). 5Bem superior a este gênero popular eleva-se o provérbio douto, o "masar dossábios, fruto da reflexão, digamos, filosófica. Ê uma sentença breve econceituosa que, sob forma sutil e freqüentemente figurada, ditaensinamentos úteis para a vida. Sua origem e nome parece ter sido asemelhança ou comparação (tal o sentido primitivo da palavra "masal";exemplos: 26,1-2), passada, portanto, para o sentido de comparação ousemelhança abreviada (p. ex., 25,25-26) para a antítese (10,1-5) e, enfim, parao dito sentencioso em geral. Na sua expressão mais pura, consta de duasfrases ou hemistíquios paralelos, o segundo dos quais corresponde aoprimeiro numa das diversas maneiras de paralelismo poético. É a forma comque se expressava comumente a filosofia elementar e prática dos hebreus,conhecida com o nome de "Sabedoria". Os escritos em que foi consignadaformam a literatura propriamente sapiencial, que podemos chamar de poesiagnómica.Composto em grande parte desses ditos, em forma de masal, é deles quetoma nome o presente livro dos Provérbios. O argumento e a finalidade estãoclaramente expostos nos versos iniciais (1,1-6).Observando-se com atenção, notar-se-á sem dificuldade que o fundo ou corpodo livro é formado por duas coleções de sentenças salomônicas (10,1-22, 16 e25-29), às quais os capítulos 1-9 servem de introdução e que as outrascoleções menores constituem, às vezes, como que apêndices. Esta a razão porque o livro, tomando o nome do autor principal, é chamado, no título (1,1), ecom ele na linguagem eclesiástica, Provérbios (ou sentenças) de Salomão.Este breve esboço pode dar uma idéia da riqueza e da variedade que este livroapresenta sob o duplo aspecto da matéria e da forma. Pode-se dizer que àvida toda da antiga sociedade israelita é passada revista, analisada, julgadasegundo uma moral toda impregnada de bom senso e praticidade. As fontesdesta moral são a experiência e a religião. Da experiência, mestra da vida, oautor sagrado tira lições práticas, ou recolhe simplesmente os fatos (20,4). Areligião, ainda que não seja sistematicamente exposta, quer nos seusfundamentos dogmáticos, quer nas suas práticas cultuais (em geral osProvérbios não querem ser uma exposição sistemática da moral, mas simditames práticos), todavia é sempre pressuposta, ou, é posta como base detoda a moral (1,7;9,10; 14,2 etc.) e declarada fonte de toda a verdadeirafelicidade (14,26-27; 15,16). Muitas e muitas vezes são inculcados nesta obra
  • os grandes fundamentos de uma moral íntima, forte e convicta, como, p. ex., ade que Deus tudo vê (5,21; 15,3-11), tudo toma em consideração até os maisrecônditos sentimentos do coração (16,2; 17,3), tudo governa (20,12-24;22,2;29,13) e tudo pode (19,21;21, 30); que longe de Deus não pode haverbem (15,29), que entregar-se a ele é encontrar a força, a sabedoria, a alegria(3,5; 16,20; 18,10 etc). Quanta eficácia na simplicidade da expressão domotivo tão freqüentemente repetido para afastar do vício: "desagrada a Deus,Deus o abomina" (3,32; 11,1-20; 12,22;24,18 etc.)!É com razão, portanto, que a Igreja considera os Provérbios uma pérola entreos livros inspirados por Deus. Evidentemente, não podemos esperar encontrarnos ditos do Sábio toda a sublime elevação da moral evangélica, mas são-lheuma boa preparação, e não raro muito se lhe aproximam. Razão por quefreqüentemente os apóstolos e o próprio Jesus Cristo repetiram formalmenteos Provérbios (Jo 7,38; Rom 12, 20; Tg 4,6) ou os seus ensinamentos (cf. Lc14,10 com Prov 25,7; 1Pdr 4,8 e Tg 5,20 com Prov 10,12).
  • INTRODUÇÃO AO ECLESIASTESSingular entre todos os livros do Antigo Testamento é, sob diversos aspectos, o presente. Seu título, Eclesiastes, é atradução grega do nome hebraico, que no próprio texto designa-lhe o nome, isto é, Cohelet, particípio (feminino) doverbo "cahal", cujo significado é "reunir, convocar". É porque em grego "ecclesiastes" significa também "orador quefala na assembléia", certo tempo acreditou-se que esse livro fosse um discurso, um sermão feito ao povo israelita emassembléia pública. Mas, na realidade, o presente opúsculo nada tem de oratório, e deve ser incluído no gênero defilosofia fragmentária, que, com o título de "Pensamentos", é conhecida também nas literaturas profanas, antigas emodernas.Dada essa índole geral do livro, não causará maravilha o fato de não se encontrar nele uma ordem estritamente lógicano desenvolvimento das idéias. Os intérpretes também discordam entre si na divisão das diversas matérias.O Eclesiastes é misto de reflexões em prosa e de sentenças em versos. São seis ordens de reflexões intercaladas porcinco grupos de sentenças, com um prólogo que precede o corpo da obra e um epílogo que o encerra. O argumentogeral da reflexão é a vaidade das coisas humanas; a insensatez da excessiva solicitude pelos bens terrestres,marcadamente as riquezas e os prazeres; a moderação em todas as coisas, quer na busca do bem-estar e da própriavirtude, quer na fruição das alegrias que Deus difundiu na vida presente.O livro todo é matizado de suave colorido de serena melancolia e profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, oque o torna poderosamente simpático. Sua doutrina valeu-lhe a tacha de cético e epicureu, mas não passa dejulgamento superficial e errôneo. Não obstante Cohelet deplore em muitos pontos a ignorância humana, causa de nãopoucas aflições, e a impotência da razão para solucionar os mais cruciantes problemas da vida e para dar a felicidadeplena, não nega, todavia, a possibilidade de chegar a certo conhecimento de muitas coisas, e, sobretudo, tem uma féinabalável em Deus e na sua ação no universo e na sociedade humana. Convidando-nos a gozar dos bens desta vidacom a devida moderação, honestidade e gratidão para com o Doador, bem longe está de pôr o fim da existência noprazer, e ensina também uma virtude, se bem que nem toda a virtude. Sua moral não é perfeita, como tampouco o eraa lei antiga (Hebr 7,19), mas ê sadia e proporcionada aos tempos do autor. Ainda hoje ela é capaz de inspirarmagnânimos propósitos a um coração cristão.A linguagem e o estilo do Eclesiastes distinguem-se entre todas as páginas do Antigo Testamento pelos vocábulos econstruções de uma era bastante tardia, e formam como que a transição entre o hebraico da era clássica e o doTalmude (sêc. II-V d.C). Muito se discutiu sobre quem seja o autor. Pode-se ao certo, dizer que foi um mestre desabedoria popular (12,9), e que Cohelet foi seu nome literário ou acadêmico, e não próprio.Outra questão ainda debatida é se na composição do livro além de Cohelet tenham tomado parte outras mãos(unidade ou pluralidade de autores). Pode-se facilmente conceder que o epílogo (12,9-14) tenha sido acrescentadopelo editor do livro, presumivelmente um discípulo do próprio Cohelet. Mas será necessário, para explicar a variedadee às vezes o choque de sentimentos que se notam em todo o livro (cf. p. ex., 2,15-17 com 7,19-24;3,6-19;7,2-4 com 2,2e 8,15;8,10-13;11,9), supor, como o fazem alguns modernos, que no opúsculo, radicalmente pessimista e deleitoso deCohelet, outros, como, p. ex., um sábio ou piedoso fiel, tenham inserido sentenças morais, a fim de temperar-lhe acrueza? Não parece; o gênero literário dos "Pensamentos" e o humor pessoal de Cohelet, levado a refletir sobre osvários aspectos das coisas humanas e a passar de um a outro afeto, bastam para dar uma explicação adequada aosvários matizes que no Eclesiastes se alternam ou temperam, aumentando-lhe o valor e a atração. Ademais um mesmoé o estilo, tão característico no livro inteiro; mesmo é o Espírito, que lhe garante cada palavra.
  • INTRODUÇÃO AO CÂNTICO DOS CÂNTICOSO Cântico, ou, como de costume se traduz literalmente do hebraico, o Cântico dos Cânticos, apresenta-se-nos naestrutura de pequeno poema, entre o lírico e o dramático, no colorido de um idílio e com o teor de um cântico deamor, qualidades essas que lhe conferem um lugar todo particular nas Sagradas Escrituras, ao passo que pelaelegância literária deve ser posto entre as mais preciosas páginas da pura poesia hebraica. Se, porém, cantassepropriamente amores profanos, não teria sido por certo jamais inserido entre os livros inspirados das Escrituras. Foi,portanto, tradição constante e unânime da Sinagoga judaica, como o é da Igreja cristã, que no Cântico, sob a alegoriade amores profanos, celebrase o amor mútuo entre Deus e seu povo, entre Deus e o fiel piedoso. Somente oracionalismo moderno tentou despojá-lo dessa auréola divina, reduzindo-o a um eco de simples amores profanos.Com essa atitude, porém, ele levantou para si uma barreira que lhe impede a reta compreensão do livro.A alegoria, admitida comumente por cristãos e judeus, não foi, porém, interpretada de igual maneira, e há muitos ediversos sistemas de interpretação. Destas, a que se segue parece, a um só tempo, a mais simples e a que melhorcorresponde aos dados intrínsecos do livro e às condições históricas do antigo Israel.A ação do Cântico é uma parábola e um contraste: uma parábola de fundo idílico, e um contraste entre duas vidas,entre dois amores. Uma ingênua pastorinha, alcunhada a Sulamita (6,12; 7,1), ama intensa e ternamente um jovempastor, seu coetâneo e conterrâneo, pelo qual é cordialmente correspondida no amor: os dois protagonistas sãochamados, no texto, "amado" e "amiga" respectivamente (só em 4,8-9, "irmã" ou "esposa"), mas pelo uso comumtambém "esposo" e "esposa". O afeto mútuo ê estreitado pelo arroubo comum diante da vida inocente dos campos eante o encanto da natureza virgem. Ê o idílio.Com esta vida simples e pura, contrasta a vida da cidade com suas comodidades, a corte com suas seduções, um reipotentado (simbolizado aqui e ali por Salomão, o mais rico e faustoso monarca que a história de Israel conheceu), oqual desejaria atrair a jovem pastora ao seu amor, à honra de ser sua consorte. Mas a generosa donzela recusadesdenhosamente as ofertas do rico soberano e sente-se satisfeita com a vida simples dos campos, desejandopermanecer para sempre fiel ao seu pastor, único objeto dos seus castos amores.Isso tudo entremostra a alma de Israel posta em risco entre a fidelidade à sua religião austera e os deslumbrantesesplendores da civilização pagã; entremostra toda alma fiel, atraída pelos amores antagônicos de Deus e do mundo.De fato, embora o povo de Israel, pela sua doutrina religiosa e moral, superasse incomparavelmente qualquer outropovo da antigüidade, é, todavia, inegável que, na civilização material e em poderio político, ficava muito aquém dospoderosos impérios vizinhos do Egito, da Assíria, da Grécia, com os quais a sua história o colocou num contato quasecontínuo. Essa esmagadora superioridade das nações pagãs podia ser um escândalo para as almas fracas, podia, pelomenos, perturbar as almas piedosas, e debilitar, se não abalar, o seu apego a Deus, à religião avita. Dão--no-lo aentender não poucas páginas da Sagrada Escritura, como Dt 17,14-20; 2Rs 18,17-37; Jer 2,18; Bar 6; IMac 1,12-15. Opróprio Salomão, que promoveu mais do que qualquer outro a cultura civil em Israel e imitou o fausto e a moleza dascortes orientais (lRs 10, 14-11,13), e foi, sem dúvida, um sério perigo para a religião. A fim de fortalecer os espíritos noamor ao culto severo dos antepassados, e para precavê-los contra a sedução da deslumbrante civilização pagã, oCântico descreve, nos seus castos e jucundos amores da Sulamita para com seu amado, a felicidade do povo eleito nafidelidade ao seu Deus.
  • INTRODUÇÃO À SABEDORIAEntre todos os livros didáticos do Antigo Testamento, o presente traz por excelência o título de Sabedoria porque canta maislongamente e com acentos mais sublimes do que qualquer outro o elogio da verdadeira sabedoria, que tem por objeto averdadeira religião e a virtude, mas o seu princípio no próprio Deus. Este conceito liga, como fio de ouro, numa maravilhosaunidade, as variedades notáveis das cinco partes, sensivelmente iguais, que compõem o livro.1- Admoestação a praticar a justiça e a religião, e como motivo para assim agir, a oposição entre a sorte final dos bons e dosmaus, prêmio dos justos e castigo dos ímpios na vida futura (1-5).2- Elogio da Sabedoria pelas suas qualidades intrínsecas e pelos bens que proporciona ao espírito humano. Fala Salomão (6-9).3- Qualidades da Sabedoria patenteadas na história sagrada; bens que a Sabedoria trouxe aos patriarcas desde Adão atéMoisés (10-12).4- Origem, insensatez e imoralidade da idolatria (13-15): animismo (13,1--9); fetichismo (13,10-14,11); divinização de homens(14,12-20); corrupção profunda (14,21-31); a religião de Israel e o politeísmo egípcio (15).Ao tomar e desenvolver o seu argumento, o autor sagrado teve por finalidade imediata confirmar na fé e na prática da santareligião os judeus do Egito, sustentá-los nas opressões, que por causa dela deviam sofrer, e preservá-los da sedução, que sobreeles podia exercer a brilhante civilização pagã sob a dinastia grega dos Ptolomeus.Com efeito, não pode haver dúvidas de que o livro foi escrito primitivamente em grego, idioma usado pelos judeus do Egito,especialmente em Alexandria, nos últimos séculos que precedem a era vulgar. Nota-se nele não só o colorido grego da língua edo estilo, mas também o reflexo das escolas filosóficas e dos costumes da douta Grécia pagã.Estes reflexos indicam aproximadamente a época em que viveu o autor, fá que no seu tempo (como se releva de 2,10-3,4; 5,1) osjudeus tinham que sofrer bastante, quer da parte dos pagãos, quer dos seus correligionários apóstatas, podemos precisar estaépoca um pouco melhor. Ê historicamente fundado o fato de que nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e PtolomeuDionísio (80-52 a.C.) tiveram lugar no Egito sublevações populares contra os judeus.O livro, portanto, deve ter sido escrito entre os anos 100 e 50 a, C.Autores houve que pretenderam baixar a idade até à época romana (30 a. C.) e na antigüidade algum escritor, segundo S.Jerônimo (Praef. aos liv. de Salom.), atribuiu-o a Fílon hebreu (cerca de 20 a. C. — 40 d. C.). Mas o livro da Sabedoria versa comdemasiada insistência e predileção sobre fatos e costumes especificamente egípcios, para se poder referi-los a povos e soberanoscuja sede não se achava no Egito. Além disso não se pode afirmar que os romanos houvessem "tiranizado o povo de Deus"(15,14) antes de Vespasiano e de Tito (70 d. C.). Também as doutrinas e o estilo diferem notavelmente dos de Fílon. Pode-se, istosim, colocar o autor do presente livro entre os primeiros e mais ilustres mestres daquela escola judaica de Alexandria, da qualFílon foi mais tarde o astro mais luminoso.Verdade é que nos cc. 7-9 o autor fala e escreve como se fora Salomão, rei de Israel, que reinou em Jerusalém no séc. X a. C. (cf.lRs 3,5-12) e por isso nos códices gregos o livro tem ordinariamente o título de Sabedoria de Salomão. Mas isto é um inócuoartifício literário empregado nas antigas literaturas, uma espécie de prosopopéia, visando a dar ao discurso maior atração eeficácia, tomando para tanto o tom de insigne personagem antiga.Este artifício humano nada tira à autoridade divina do livro, isto é, à sua inspiração, que é assegurada não só pelo magistério daIgreja, mas também pelo uso que do presente livro fizeram os autores do Novo Testamento, os quais, se o não citaramnominalmente, apropriaram-se de pensamentos e construções que lhe são próprios. Confrontem-se por exemplo, principalmente,Sab 12. 12-22 com Rom 9,19-23; Sab 9,15 com 2Cor 5,4; Sab 3,5-6 com lPdr 1,6-7; Sab 7,25-26 com Hebr 1,3; Sab 7 em geral comJo 1.
  • INTRODUÇÃO AO ECLESIÁSTICOO presente livro, que na Igreja latina, desde o fim dos primórdios (por exemplo, desde S. Cipriano até ao séc. III)passou a chamar-se o Eclesiástico por excelência, porque o mais notável dos livros lidos nas igrejas para instrução doscatecúmenos ou dos neocristãos, é o mais extenso e o mais rico de ensinamentos entre os livros do AntigoTestamento. Entre os gregos tem o nome de Sabedoria de Jesus, filho de Sirac, ou simplesmente Sirac, do nome deseu autor. No texto original hebraico, segundo testemunho de S. Jerônimo (Prefácio aos livros de Salomão),confirmado por citações de rabinos, chamava-se como o correspondente livro de Salomão, Provérbios do filho deSirac (cf. 50,27). Mas entre os hebreus era também conhecido, como na versão siríaca, sob o titulo de Sabedoria,comum entre os gregos.Efetivamente, o Eclesiástico (como o chamaremos, segundo o nosso uso) toma o argumento e a divisão da Sabedoria.Distinguem-se nele dez partes, começando todas com o elogio da Sabedoria ou com um hino a Deus, autor de toda asabedoria; seguem-se dois pequenos apêndices.No fim da 10a parte (50,27), como pós-escrito, o autor dá-nos o seu nome: Jesus, filho de Eleazar, filho de Sirac. Otradutor grego, que certamente andava bem informado, acrescentou-lhe a terra natal: jerosolimitano. Sirá (em grego"Sirac” ) parece mais o sobrenome de família do que de avô; daí o dizer-se muitas vezes sirácida. O tempo em queviveu nos é indicado por duas datas aproximativas. No próprio livro (c. 50), Sirac nos descreve Simão, filho de Onias, osumo sacerdote, com cores tais, que demonstra muito bem tê-lo visto e admirado ocularmente no exercício de suassagradas funções. Dos dois sumos pontífices que trouxeram este nome, o primeiro dos quais viveu por volta do ano300 a.C, e o segundo um século mais tarde, deve-se por certo entender o segundo. Com efeito, o tradutor grego, queno prólogo à sua tradução declara-se neto do autor, informa-nos ter ido ao Egito por volta do ano 38 do reinado doPtolomeu Evérgetes. Ora, visto que dos dois Ptolomeus que tiveram o nome de Evérgetes (I, 247-222; II, 171-117 a.C.)só o II alcançou e superou o ano trigésimo oitavo de reinado (iniciado em 171 a.C.), assim aquela data leva-nos ao ano132 a.C. Entre este e a época de Simão II (219-199 a.C.) passam-se exatamente duas gerações, que são as queintercorrem entre avô e neto. Jesus, filho de Sirac, viveu, portanto, entre os séc. III e II a.C, e deve ter escrito o seulivro entre os anos 200 e 180 a.C.Escreveu em hebraico, mas o texto original, visto por S. Jerônimo (Prefação acima mencionada) e muitas vezes citadopor escritores judeus da Idade Média, havia séculos estava perdido, até que entre 1896 e 1900 foram encontradoscerca de dois terços do mesmo (3,8--16, 26;30-33;35-fim, além de poucos trechos intermediários) num escaninho deuma velha sinagoga no Cairo em fragmentos de cinco manuscritos diversos. Porém encontra-se num estado formalbem menos satisfatório do que o texto hebraico dos livros protocanônicos. Amanuenses e recenseadores permitiram-se muito mais liberdade ou negligência com o livro de Sirac do que com as Escrituras do cânone hebraico. Por issomaior valor do que de ordinário têm também as duas antigas versões independentes, a grega e a siríaca,especialmente a primeira.O livro foi traduzido para o grego pelo neto do próprio autor, pelo fim do séc. II a.C, como, aliás, ele mesmo nosinforma no prólogo da sua versão.Este prólogo é importante, não só porque nos oferece as datas da composição e da tradução do livro, mas aindaporque nos mostra como no séc. II a.C. os livros sagrados do Antigo Testamento já se distinguiam, entre os judeus, nastrês ordens que passaram a ser depois tradicionais: lei (Pentateuco), profetas e escritos, e como cada uma dessasordens estava traduzida, ao menos em boa parte, para o grego. Da versão grega do Eclesiástico, além do texto comume mais castiço, que se encontra no códice Vaticano 1209 (B), publicado por ordem de Sixto V (1587), eram correntestambém, códices dos quais ainda restam, com não poucas edições da primeira parte (1-26). Com base num dessescódices foi feita a tradução latina da Vulgata.Bíblia Vulgata Ed. 36.
  • O PROFETISMOCom os profetas, o Antigo Testamento alcança o ápice, seja como valor espiritual absoluto, seja como preparação parao Novo Testamento. Os profetas eram homens que Deus investia diretamente do seu espírito para uma missãoespiritual no seio do seu povo, em tempos de perigo ou de necessidade religiosa e moral. Tornavam-se assim, guiasespirituais do povo de Israel, pelo mesmo título com que outrora os juízes suscitados por Deus, eram os chefespolíticos e militares, os libertadores no tempo de aflição.Embora tenha havido pessoas dotadas de espírito profético desde as origens do povo hebreu (cf. Gên 20,7; Núm11,25-26; Dt 34,10), contudo, somente a partir de Samuel esses homens inspirados por Deus e por ele enviados aopovo sucedem-se com tal freqüência, que chegam a formar uma cadeia ininterrupta durante cerca de seis séculos(aproximadamente desde 1050 a 450 a.C). Cf. 1Sam 3,1.Considerando o exercício do ministério profético, este longo intervalo de tempo divide-se em dois períodossensivelmente iguais. Nos três primeiros séculos, isto é, até por volta de 750 a.C. temos os profetas de ação, como,por exemplo, Elias (1Rs—2Rs 2), que pregam energicamente, mas não escrevem, ao passo que os profetas escritoresviveram todos nos séculos seguintes: são os profetas cujos vaticínios ou mensagens nos foram transmitidos porescrito. Estes últimos costuma-se dividi-los, com base na extensão de seus escritos, em duas categorias: ProfetasMaiores e Menores. Os primeiros são, por ordem cronológica, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel (sobre este último,porém, confronte-se a introdução ao seu livro. Os Menores, em número de doze, foram por algum tempo reunidosnum só volume, em ordem aproximadamente cronológica, ou, ao menos, na que era julgada tal.Objeto da pregação tanto dos profetas de ação como dos escritores, era defender a pureza do monoteísmo ¡avistacontra as contaminações ou infiltrações idolátricas, concitar o povo à santidade dos costumes, exigida pela lei divina,combater as desordens sociais, principalmente a opressão dos humildes, opor-se ao formalismo religioso, inculcandoo primado do espírito interior sobre os ritos externos, anunciar a cada cidadão e a toda a nação os tremendos castigosde Deus, em conseqüência das culpas cometidas, como também oferecer a perspectiva de um futuro melhor, fruto doarrependimento, porvir radioso, o mais das vezes compendiado em termos esperançosos e genéricos de paz e desalvação.Nesta ordem de idéias, própria dos profetas escritores, apresenta-se-nos a majestosa e cativante figura de umdescendente de Davi, mediante o qual se realizarão as venturosas promessas. Ele é o Salvador dos povos, orestaurador da religião e da justiça, o soberano de um reino eterno de paz. Os profetas designam-no com diversosnomes ou títulos: Emanuel, Servo de Javé, Rebento de Davi, Davi por antonomásia, Germe divino etc. Somente umavez (Dan 9,26) é denominado com o apelativo de Masiah f ou Messias, que mais tarde se tornará termo técnico epessoal. Compreende-se, assim, como os apóstolos citem freqüentemente no Novo Testamento os vaticínios dosprofetas para provar aos judeus que o Messias que eles preanunciaram é o seu Mestre, Jesus de Nazaré.Esse prenúncio constitui o ponto alto da missão dos profetas. Mas não se limita a isso, como, tampouco, à predição dofuturo em geral, se limitaria a missão própria dos profetas, como erroneamente poder-se-ia deduzir deste vocábulovernáculo, derivado do grego. Em hebraico, o termo correspondente é "nabi", que, propriamente, significa um arauto(da divindade), um mensageiro. Os profetas eram, pois os porta-vozes de Javé, que transmitiam ao povo aquilo queDeus lhes ordenava transmitir; eram os pregoeiros da mensagem divina à nação ou aos indivíduos. O termo maiscomum para indicar a mensagem divina era também o mais amplo: "a palavra de Javé", que no seu objeto desconhecelimites.Deus, portanto, falava aos profetas, os quais, por sua vez, transmitiam sua palavra aos homens. De que maneira e porquais caminhos chegava a palavra divina a esses espíritos de eleição, é um segredo da mística sobrenatural. Em muitoscasos, porém, eles mesmos no-lo revelam em seus escritos. Assim, descrevem-nos as visões com que foramfavorecidos (Is 6; Jer 1,11-19; Ez 1-6; Am 7-8; Zac 1-6), mediante uma ação sobrenatural, exercida quer sobre ossentidos exteriores, quer sobre a imaginação e as faculdades interiores. Outras vezes era uma voz que lhes falava, demaneira semelhante, seja sensivelmente, seja mediante uma ação interior. O objeto da revelação podia apresentar-se-lhes na sua realidade direta, como em Is 6, ou por meio de símbolos, como em Am 7-8. Outras vezes a lição erasugerida pela observação de um fato sensível, como em Jer 18. Na maioria das vezes, porém, havia uma iluminaçãodireta da mente do profeta. Sempre, porém, este percebia que Deus lhe falava, e era da indesmoronável convicção daorigem divina do seu mandato que hauria uma força sobre-humana, capaz de vencer qualquer obstáculo (cf. Is 50,4-8;Jer 1,17-19;20,7-12; Ez 3,8-9; Am 3,7-8;7, 12-17).A mensagem divina era comunicada, em geral, mediante a pregação (cf. Jer 7,1-15); outras vezes, mediante uma açãosimbólica, realizada publicamente, com a finalidade de causar maior impressão sobre o povo (Is 20; Jer 13; 19; Ez 4-5).Já no segundo período, as mensagens proféticas passavam mui freqüentemente da pregação viva para o escrito (cf.Jer 36) e então assumiam facilmente forma mais literária, geralmente mais concisa e muitas vezes eram exaradas ourefundidas em formas poéticas mais apuradas, que juntavam à fascinação da beleza poética a vantagem de imprimirmais facilmente a palavra divina na memória. Ê até provável que, unindo ao verso a melodia, muitos desses poemasfossem cantados pelas praças e ruas, por zelosos discípulos dos profetas, para fins de propaganda.
  • Ao passarem, pois, da pregação oral para a escrita, esses "homens de Deus" (título honroso, reservado porantonomásia aos profetas; cf. 1Sam 2,27;9,6; 1Rs 13,1; 17,18; 2Rs 4,7 etc.) recebiam um carisma especial deinspiração, que conferia a seus escritos o valor de livros sagrados, dignos de ser inseridos no cânon das Escriturasdivinas. Essa inspiração recebe esse caráter específico do seu termo, a escrita, que faz com que a palavra seja fixa,duradoura e imutável, o que a expressão oral não é. Na sua natureza de oráculo divino não difere, porém, dainspiração profética comum. É por isso que os teólogos, como Sto. Tomás de Aquino (Suma Teológica, 2?-2?, q. 171-178) costumavam tratar da inspiração bíblica juntamente com o carisma profético, e os antigos Padres chamavamfreqüentemente "profeta" a qualquer escritor bíblico, porque inspirado.O profetismo ergue-se, portanto, paralelo à lei e, juntamente com ela, sustém o edifício sagrado da religião hebraica,quer em função social no seio do povo de Israel, quer como monumento literário no Livro divino, a Bíblia. Daí a razãopor que em linguagem bíblica, de modo especial no Novo Testamento, é de uso corrente o binômio "Lei e Profetas"para indicar todo o Antigo Testamento (cf. Is 2,3; 2Mac 15,9; Mt 11,13; Lc 24, 27 etc.)O profetismo era uma instituição divina em Israel, prevista e aprovada pela lei (Dt 18,15-20). O profeta, porém,recebia diretamente de Deus a investidura de sua missão, independente da aprovação da autoridade civil ou dosacerdócio (cf. 1Rs 18,16-18; Jer 1,17-19; Am 7,10-17). Testemunha de que Deus lhe tinha falado e de que o enviava,era o profeta mesmo, e devia ser acreditado na sua palavra. Garantia suficiente da sua sinceridade e da sua vocaçãodivina, era sua pureza de vida e de doutrina, ou, em alguns casos, a realização de seu vaticínio (Dt 13,1-3; 18,21-22).Foi assim que já no limiar do Novo Testamento apresentaram-se às turbas de Israel, João Batista e Jesus de Nazaré.Continuação e coroamento da antiga mensagem profética foi a mensagem evangélica.Bíblia Vulgata Ed.36
  • INTRODUÇÃO A ISAÍASNas Bíblias de língua hebraica e latina, o livro de Isaías costuma figurar em primeiro lugar na série dos livros profé-ticos. Não tanto por ser o mais antigo entre os Profetas Maiores ou por ser o livro ao qual empresta o nome um dosmais extensos, mas sobretudo porque excede a todos os outros pela quantidade e grandiosidade dos vaticíniosmessiânicos.Julga-se que o profeta Isaías tenha nascido em Jerusalém, de família nobre, pois encontramo-lo continuamente emcontato com a corte e com pessoas influentes do reino. Era casado e tinha pelo menos dois filhos, aos quais deunomes proféticos (7,3;8,3), como, aliás, era o seu próprio nome, cujo significado é "Javé salva". No ano 738 foichamado ao ministério profético mediante uma célebre visão (cap. 6), que teve imensa repercussão na teologia e naliturgia. A partir de então vemo-lo ao lado dos reis de Judá, Acaz e Ezequias, animando-os na dura crise que atra-vessava a nação, assegurando-lhes a proteção divina em virtude das promessas feitas a Davi. Após o ano 700 perde-mo-lo de vista.Relativamente às condições políticas, morais e religiosas de Jerusalém e de Judá nos tempos de Isaías, temos notíciasabundantes em 2Rs 15-20 e 2Crôn 26-32, além das reflexões do presente livro. O longo e benéfico reinado de Azariasou Ozias (cf. 2Rs 15,1), que tão grandemente favoreceu a agricultura e o comércio no reino, trouxe com aprosperidade também o luxo e a despreocupação, fatores de corrupção e conseqüentes desventuras. As baixas ca-madas populacionais eram descuidadas, oprimidas pelos ricos e potentados. A prática da religião exteriorizava-se emnumerosos atos públicos de culto, em funções litúrgicas, mas era destituída de sincero sentimento interior e de vidamoral correspondente. Pior ainda, ao lado da legítima religião monoteísta, do javismo puro, vicejavam práticas abo-minadas pela lei, e até mesmo atos de idolatria, especialmente depois que o crescente poderio assírio prestigiou oscultos babilônicos, favorecendo-lhes a penetração entre as populações palestinenses. O reinado de Ezequias promo-veu uma ação enérgica e salutar contra essas aberrações. Mas as suas sábias reformas não tiveram grande duraçãonem penetraram totalmente na sociedade judaica. Durante o reinado de seu degenerado filho e sucessor, Manasses,grassou mais do que nunca a corrupção na religião e nos costumes. À propagação do mal opôs-se em vão a voz enér-gica dos profetas; não eram atendidos. Chaga tão maligna só podia ser curada com um tratamento radical. E eis osprofetas, especialmente Isaías, a anunciar os castigos divinos, que se sucederiam implacáveis, até quase o aniquila*mento da nação culpada. Mas do terrível cadinho sairá um pequeno resto, completamente purificado, germe sagradode um povo novo. E a nação ressurgida e transformada gozará de paz sem fim e de bem-estar invejável. Esta, emlinhas gerais, a mensagem do profeta.Instrumento da catástrofe, humanamente tão terrível, mas ao mesmo tempo, por disposição divina, tão salutar, deviaser o poderoso monarca do vizinho setentrião, primeiro o assírio, depois o babilônico. Contra a ameaçadora arrancadado temível colosso ergue-se o Egito, seja para defender a própria independência, seja pela saudosa ambição dedominar, como outrora, a Palestina e parte da Síria. Espremidos entre os dois poderosos contendores, os pequenosestados do Oriente Próximo viam-se na contingência de se arranjarem como podiam. Daí a formação, particularmenteem Jerusalém, de dois partidos opostos, um propenso a negociar com a Assíria, outro a formar com a oposiçãoencabeçada pelo Egito. Isaías, em nome de Deus, pregava a neutralidade, combatia toda a esperança fundamentadanos homens e incitava a pôr toda a confiança em Javé, fundador e protetor da nação. A esta política, ao mesmo tempoprudente e corajosa naquelas circunstâncias, o profeta animava o rei Ezequias, mesmo depois que, com a queda doreino de Efraim (queda da Samaria em 721 a.C.) o perigo para o reino de Judá, menor e mais fraco, apresentava-semais ameaçador. Graças a essa política, o pequeno reino saiu ainda incólume da tempestade (701 a.C), naufragandoem novo embate somente após mais de um século (587).Bíblia Vulgata Ed.36
  • INTRODUÇÃO A JEREMIASJeremias é o mais simpático dos profetas e também aquele de quem possuímos notícias mais abundantes, quasetodas transmitidas por seu próprio livro.Nascido por volta do ano 646 a.C, em Anatot, nas proximidades de Jerusalém, de família sacerdotal e já predestinadoao ministério profético (Jer 1,5), no décimo terceiro ano do reinado de Josias (626 a.C.) foi chamado por Deus e porele enviado a levar a sua mensagem aos reinos e às nações, mensagem em que predominam as ameaças e as ruínas,mas que é rica também de promessas de restauração (1,9-10). Apesar da relutância por parte de sua índolebonachona e um pouco tímida, o jovem Jeremias respondeu ao apelo divino com generoso espírito de sacrifício,acrescido em face das oposições que lhe foram preditas (1,17-19) e do celibato que lhe foi imposto por expressaordem divina.Sua atividade desenvolveu-se nos momentos mais críticos da nação judaica, num período dos mais convulsionados doantigo Oriente semítico. Conheceu o colapso do poderio assírio e o nascimento do segundo império babilônico, quecedo iria destruir a bruxuleante chama da independência de Israel. No interior da nação, as condições religiosas esociais não eram menos inquietantes. Ao iniciar Jeremias o seu ministério, perduravam ainda os péssimos efeitos donefando reinado de Manasses, que abrira tas portas às infiltrações idolátricas na prática religiosa do povo de Israel(2Rs 21,2-6). Foi contra essas aberrações e contra o formalismo religioso que o profeta teve de bradar,principalmente nos primeiros anos de sua pregação (Jer 1-6), e não apenas nesses anos. Realmente, embora opiedoso rei Josias tivesse iniciado, a partir do ano 621, com zelo enérgico a purificação do país de todo o vestígio deidolatria, repristinando, com a concentração do culto no templo de Jerusalém, a observância da lei mosaica em todo oseu vigor, todavia, a morte trágica e prematura do próprio Josias (609 a.C.) decretou um fim rápido para essa rígidareforma. Durante este decênio, satisfeito com secundar a ação governativa, Jeremias parece conservar-se por detrásdos bastidores (nenhum discurso seu deste tempo nos foi transmitido); depois, deplorada a morte do rei com elegiasque infelizmente não chegaram até nós (2Crôn 35« 25), ele entra de novo em cena com energia ainda mais vibrante,profligando os vícios renascentes sob os sucessores de Josias, não poupando sequer os poderosos, os sacerdotes, osprofetas mendazes, aduladores do povo ou de partidos. Muitos males trouxe-lhe esta pregação desassombrada,porque os poderosos alvejados por ele não lhe pouparam violências, perseguições, vilipêndios, cárceres (Jer 20,1-3J;26,7-24;32,l--2;37;38).No plano político, encontrou-se Jeremias em idêntica posição à de Isaías (cf. p. 796). Renovava-se o contraste entreo Egito e o império oriental, nas mãos dos babilônios ou caldeus. Ante a avançada ameaçadora destes, Jeremiasrecomenda, em nome de Deus, a aceitação e a submissão aos novos senhores. Mas o forte partido da oposiçãoincitava à resistência, apoiando-se novamente no Egito, e quis abafar a voz do profeta já malvisto, lançando-o numaescura prisão (Jer 37;38), donde foi libertado, após a tomada da cidade, pelos caldeus, que, conhecedores dos seussentimentos, tomaram-no sob a sua proteção (40,1-6). Nem mesmo isto, entretanto, lhe valeu algo contra o cegofuror dos egiptófilos, que, conseguindo escapar dos caldeus, asilaram-se no Egito, arrastando consigo, à força, odesditoso profeta (43,1-7). Também ali, fiel à ordem divina, Jeremias continuou a missão de corrigir costumes epacificar os espíritos entre seus compatriotas (44).Jeremias possuía um coração extremamente sensível, e o patético, quer do amor quer do sofrimento, atinge às vezeso ápice no seu livro. A ternura de Deus para com o seu povo e a mágoa de se ver por ele incorrespondido, oesmagamento do profeta ante a ruína moral e política de sua amada nação, as alegrias pela reconciliação e o felizreflorir, fazem vibrar as cordas mais íntimas do seu coração. A alma comovida de Jeremias irrompe então emcalorosas estrofes de lirismo sublime e comovedor. Se em grandiosidade de imagens, vôos de fantasia e esplendor defraseado cede o lugar a Isaías, no que tange à espontaneidade e à intensidade de afeto, Jeremias supera a todos ospoetas hebraicos.Bíblia Vulgata Ed.36
  • INTRODUÇÃO ÀS LAMENTAÇÕESA tomada de Jerusalém, com o séquito de todas as suas dolorosas conseqüências, predita e depois descrita no livro deJeremias, não deixou de produzir no coração dos judeus piedosos a mais viva dor e o mais acerbo pranto. Ossentimentos excitados por esse terrível golpe na parte mais eleita da nação estão refletidos nas Lamentações,chamadas também em grego "Trenos" ( = cantos fúnebres), pequeno livro que, pela afinidade de matéria, nas Bíbliascristãs se acha unido ao livro de Jeremias.Compõe-se de cinco carmes elegíacos, usualmente considerados e citados como outros tantos capítulos duma só obraliterária. Além da matéria, têm em comum uma estrutura poética peculiar. No hebraico são todos alfabéticos, isto é,regulados pela ordem e pelo número das letras do alfabeto, mas de maneira diversa. Os quatro primeiros são tambémacrósticos. As iniciais de cada verso poético formam um alfabeto completo e ordenado, como em diversos salmos e naúltima seção dos Provérbios (Prov. 31,10-31).Essa estrutura artificial, que não se percebe na nossa tradução, limita todos os carmes e influi no andamento dopensamento. Inútil, portanto, esperar um desenvolvimento lógico do tema; o poeta desafoga os seus afetos segundolhe são sugeridos pelo coração dominado pela comoção, ou conforme o alfabeto lhe desperta uma idéia. Inexiste,entretanto, de carme para carme, ou no mesmo carme, aquela desordem por muitos lamentada. Não raro umainterpretação mais exata ou uma leitura correta do texto remove a causa de queixas. Os cinco carmes — ou elegias,como os chamaremos, com termo apropriado, — deploram a tremenda catástrofe nacional, cada uma sob um aspectodiferente. Na primeira, o motivo principal ê a perda dos bens morais: independência, glória, poderio, e o aviltamentoda nação; na segunda, pranteiam-se as ruínas materiais e o massacre de vidas humanas na tomada da cidade; naterceira, põe-se e se resolve o problema religioso: como permitiu Deus tão grande esfacelamento? que mais esperardele? como a salvação pode estar num sincero arrependimento e na reforma dos costumes?; na quarta deploram-seos males sofridos por todas as classes da sociedade judaica e as culpas dos principais responsáveis; a quinta, enfim, éum súplica que descreve a escravidão que se seguiu à derrota, e se destina a mover o Senhor à compaixão, e concluicom um suspiro de confiança no porvir. Também na estrutura de cada elegia não falta certa ordem e harmonia entreas diversas partes.As cinco elegias são dum só autor? Quem foi ele? A questão é muito discutida e tem sido resolvida em diversossentidos pelos autores modernos. A antigüidade, quer cristã quer judaica, atribui-as todas a Jeremias de quem nos éformalmente atestado que compôs lamentações ou cantos fúnebres por ocasião da morte de Josias, que não devem,entretanto, ser confundidas com estas elegias. Teríamos aqui uma coletânea de carmes independentes entre si,embora semelhantes, análoga à dos salmos graduais no Saltério (SI 120-134).Podemos aceitar, portanto, que as Lamentações tenham autores diferentes e desconhecidos. Todas, porém, devemser reconhecidas como igualmente inspiradas por Deus, porque fizeram sempre e sem contestação, parte do cânondas Sagradas Escrituras, tanto na Sinagoga judaica, como na Igreja cristã, embora nas listas dos Livros sagrados, comotambém no decreto do Concílio Tridentino, na maioria das vezes não sejam especificadamente nomeadas, porquesubentendidas e compreendidas com o livro de Jeremias. Esta sua qualidade eminente de Escritura inspirada faz comque a nossa ignorância acerca dos seus autores humanos nada tolha ao seu valor religioso, como palavra de Deus queê, do mesmo modo que nada tolhe à sua beleza poética, ao seu valor literário, que não é de forma alguma comum.Bíblia Vulgata Ed.36
  • INTRODUÇÃO A BARUCA respeito de Baruc, associado ao ministério de Jeremias, temos notícias seguras no livro deste profeta,especialmente nos cc. 36,43,45. Sabemos daqui que foi arrastado à viva força pelos judeus rebeldes,juntamente com Jeremias, para o Egito (Jer 43,5-7), mas do confronto de Jer 44,28 com 45,5 podemosdeduzir que mais tarde retornou à Judéia, donde pôde ir à Babilônia para consolar os exilados. Ali,efetivamente, o encontramos no início do pequeno livro que traz o seu nome.Este compõe-se de três partes, nitidamente distintas:1ª Prece pública, em prosa ritual (1, 1-3,8): a nação em peso reconhece ter merecido tantas desgraças e opróprio exílio, por causa dos pecados pessoais e dos antepassados; pede misericórdia e a cessação detantos males.2ª Elogio da sabedoria, em elevado estilo poético (3,9-4,4): na lei divina, que é concretamente a maiselevada sabedoria, está a verdadeira glória e felicidade de Israel; o exílio foi causado pelo abandono damesma; cumpre voltar à perfeita observância da lei.3ª Deplorada a amargura do exílio, anuncia-se a alegria do repatriamento (4,5-5,9), em prosa cadenciada,que, pelo fundo, recorda Is 40-66 e, pela forma, o estilo de Jeremias, oscilando, freqüentemente entre apoesia e a prosa.Como se vê, as três partes acham-se ligadas entre si pelo fundo histórico do argumento e sucedem-se emcerta ordem lógica. No tocante à qualidade literária e à composição diferenciam-se, entretanto,notavelmente, de sorte que o exame intrínseco não oferece razões decisivas que abonem a unidade deautoria de todo o livro. O testemunho extrínseco, dado no texto 1,1, para a atribuição a Baruc, valesomente para a primeira parte, a qual está tão impregnada do fracasso de Jeremias, que, negá-la aosecretário do profeta, é o que de mais irrazoável possa haver.Menos rica, mas não isenta de contatos com o livro de Jeremias, é a terceira parte. Nada nos diz a respeitoo belo poemeto central.Todas as três partes foram originariamente escritas em hebraico, entre 582 e 540 a.C, aproximadamente.Provam--no as numerosas alusões ao exílio babilônico e os diversos equívocos das antigas versões,explicáveis unicamente por uma leitura ou interpretação incorreta de uma palavra hebraica, coisa que senota igualmente em todas essas versões. O texto hebraico original, porém, foi perdido. Para nós, toma-lheo lugar a versão grega dos LXX. Em segundo lugar vem a Pessitta siríaca, que também deriva do hebraico.Na Vulgata temos uma antiga tradução latina feita à base do grego e não retocada por S. Jerônimo.Os judeus da Palestina excluíram Baruc do rol dos livros sagrados, e nisso foram seguidos também poralguns Padres da Igreja, na antigüidade, e por todos os protestantes. Acolheram-no, ao invés, os judeus dadiáspora, anexando-o ao livro de Jeremias no volume dos profetas maiores. Desta crença e costumetornou-se herdeira a Igreja cristã, razão por que vemos, desde o fim do séc. II, os Padres Atenágoras, Irineu,Clemente Alexandrino, citarem as palavras de Baruc com o nome de Jeremias. Nos cânones bíblicos dasIgrejas do Oriente e do Ocidente, nos séculos seguintes, o mais das vezes Baruc não é especificado (comotambém as Lamentações), justamente porque compreendido com Jeremias. O cânon do Tridentinonomeia-o expressamente: "Jeremias com Baruc". Destarte elimina-se qualquer dúvida acerca do caráterdivinamente inspirado deste opúsculo, tão breve quão rico de doutrina, não lhe faltando mesmo algumasraras belezas literárias.
  • INTRODUÇÃO A EZEQUIEL Ezequiel, pertencente à linhagem sacerdotal, viveu, como Jeremias, no período mais tormentoso dahistória hebraica. Em 598/97 a.C, antes de ter completado 30 anos, foi deportado de Jerusalém para a Caldeia,juntamente com a rei Joiakim (ou Jeconias) e mais dez mil pessoas entre nobres, guerreiros e artesãos.Permaneceu no exílio até à morte, ocorrida entre os anos 571 a 561 a.C. Jerusalém não fora ainda destruída, porque o rei Joiakim, tendo sucedido a seu pai Joiaquim (talvezassassinado quando o exército de Nabucodonosor se aproximava da cidade santa), rendera-se ao cabo detrês meses de assédio. Todavia, a deportação da corte e do escol da população enfraqueceu-a sobremaneira, constituindo umalição tremenda, mas infelizmente inútil. Entre a população deixada no país, sob o governo de Sedecias,nutriam-se veleidades de independência, que explodiram , em aberta rebelião no ano 588, causandofinalmente a tomada e a destruição de Jerusalém e do seu templo (Jer 37-39 e 52). Todas as visões do profeta exilado, como as de Jeremias, que permaneceu na pátria, vendo e vivendo otrágico destino da cidade santa, vinculam-se intimamente a esses acontecimentos. Ambos os profetasvêem e anunciam continuamente, em todas as formas, o futuro imediato, imersos na angústia de ver umpovo que não lhes presta ouvidos e se atira ao báratro. A própria morte da esposa de Ezequiel, lembrada pelo profeta, tornou-se um símbolo da ruína deJerusalém e do templo, ocorrida na mesma época. Não faltam, porém, alguns clarões que permitem visõeslongínquas, as quais se multiplicam e até se tornam constantes, quando aos primeiros deportados sejuntou a avalanche dos novos, trazendo gravados no espírito os horrores do cerco, do morticínio e dadeportação. Ao contrário de Jeremias, que tem páginas patéticas, transbordantes de extrema sensibilidade, Ezequielé, muitas vezes, áspero, duro, quase desapiedado. Mas as suas predições e ações simbólicas, bem como assuas mortificações voluntárias, para inclinar, se possível fora, Israel a uma conduta de fidelidade para comDeus e a uma sabedoria política, são inspiradas por um coração magnânimo e forte ao mesmo tempo,baseado na fé, na dedicação ao seu povo e no amor à pátria. Em seu estilo abundam as ações simbólicas, originais e mudas, apresentadas como narrações. As partespoéticas são raras e encontram-se quase exclusivamente nas profecias contra as nações. Ezequiel éminucioso nas descrições, preciso e até cansativo às vezes. O projeto da divisão da Terra Prometida, odesenho do novo templo e a indicação das leis ao mesmo atinentes, parecem mais obra de técnico do quede profeta. Profecias nitidamente messiânicas são os trechos: 17,22-24;34,11-16;47;48. Mas toda a terceira parte,do c. 33 em diante, é concebida em termos de expectação messiânica. Ezequiel é o primeiro representante dum novo gênero literário de mensagem profética, muitodesenvolvido, em seguida, na literatura judaica do séc. II a.C. Trata-se do gênero apocalíptico. No NovoTestamento, ele figura no livro do Apocalipse (termo grego que significa "revelação"). O próprio S. João deuao seu livro o nome de f<profecia" (Apoc 1,3), termo não muito apropriado ao caráter da obra. Eis as características principais do gênero apocalíptico: 1. A mensagem profética limita-se à predição do futuro, especialmente à era messiânica e ao fim domundo. 2. Esse futuro, ora radiante, ora pavoroso, aparece ao vidente sob a forma de cenas simbólicas em queatuam seres humanos e sobre-humanos, animais e astros, quais outras tantas figuras dos acontecimentosvindouros. 3. A intervenção freqüente de anjos, como guias e intérpretes dos cenários contemplados pelo profeta. 4. Os eventos relacionados com o fim dos tempos, quer messiânicos, quer cósmicos, revestem-se dumcolorido empolgante de convulsões cósmicas e telúricas, e isso, de tal maneira, que este motivo, emboraacessório, é considerado comumente como propriedade prevalente do estilo apocalíptico.
  • INTRODUÇÃO A DANIELA respeito de Daniel nada mais sabemos além do que nos diz este livro, pois não traz nenhuma novidade aúnica menção dele, feita no Antigo Testamento (IMac 2,60) e a igualmente única do Novo Testamento (Mt24,15).Descendente de nobre família do reino de Judá, muito jovem ainda (13,45), teria sido deportado cerca doano 605 a.C. para Babilônia e agregado aos pajens da corte do rei Nabucodonosor, com o nome de Baltasar(1,7). Desde os primeiros atos (cf. 13,45-62) revela-se senhor daquela sabedoria que constitui o fundo desua figura moral. Modelo e mártir da fidelidade à lei divina, foi enriquecido por Deus com um domextraordinário de penetração nos mistérios contidos nas visões e nos sonhos proféticos que Deus envia aele e a algumas personagens daquela época (2,17-35;4,2;5,13-16).Em virtude dessas suas capacidades, fez carreira entre os soberanos babilônios, desde Nabucodonosor atéCiro, que o honraram, confiando-lhe cargos. De dois anos destes soberanos são datadas as revelações queele teve, a última das quais (10,1) se deu no terceiro ano de Ciro. Além dessa data, nada mais sabemosdele.Nas Bíblias hebraicas o livro de Daniel tem menor extensão do que nas cristãs, e dentre estas, as latinastêm ordem um tanto diversa daquela das gregas. Em hebraico compõe-se de 12 capítulos e de 357versículos; nas versões gregas e latinas são inseridos (no c. 3) 67 versículos, que constituem a primeira dastrês partes ditas deuterocanônicas deste livro. Além disso, acrescentaram-se outras partes em doiscapítulos distintos, que em grego se acham, o mais das vezes, um no início e outro no fim; nas versõeslatinas sempre no fim.No livro a idéia central que predomina, é aquela do reino de Deus, isto é, do supremo domínio de Deussobre a natureza e sobre os eventos humanos, que culmina no estabelecimento do "reino dos santos" (osadoradores do verdadeiro Deus) sobre as ruínas dos mais poderosos impérios humanos.As observações críticas, porém, não diminuem o valor do ensinamento religioso e moral do livro. Reduz-seele a pontos de importância capital. Jamais se lê o nome divino "]avé", mas sempre El ou Eloim (tambémEloah, no singular) ou uma circunlocução "Deus do céu" (8 vezes), "o Altíssimo Deus" (5 vezes). A tendênciade todas as narrações é a de exaltar o Deus de Israel, donde resulta que somente ele é que tudo pode etudo sabe; lê nas mentes humanas e vê os acontecimentos futuros; dele é que vem todo o saber humano eem suas mãos estão os destinos dos indivíduos e dos impérios. A ele somente se deve adoração e culto, epara não transgredir sua santa lei, devemos estar prontos mesmo a morrer, se necessário.O messianismo de Daniel é sumário, de poucos elementos, mas de relevância extraordinária. É ummessianismo quase exclusivamente coletivo, isto é, visando antes a sociedade religiosa do que o seu chefe;suas características são todas de origem espiritual: cessação do pecado, triunfo da justiça, inauguração deuma eminente santidade (9,24); o reino anunciado será o "reino dos santos", que se poderia traduzirtambém por "reino de Deus", tal como foi depois anunciado na primeira pregação do Evangelho (Mc 1,14).Particularidade de Daniel é que ele anuncia a vinda desse reino, isto é, o seu início, indicando datas enúmeros cerca de 500 anos depois da queda de Jerusalém (9,24); daí o lugar de primeira ordem que ocupaeste vaticínio na demonstração da doutrina cristã.O que ele diz sobre a vida futura ou sobre a escatológica é pouco, mas este pouco assinala um progresso darevelação nessa matéria. É ele o primeiro a insinuar um despertar dos mortos no fim dos tempos, umdespertar para uma nova existência que será para uns a vida eterna e para outros a eterna condenação.Entre os primeiros, os que tiverem demonstrado zelo pela santificação própria e a dos outros gozarão deesplendor especial (12,2-3).
  • INTRODUÇÃO AOS PROFETAS MENORES OSÉIAS O profeta Oséias era natural do reino de Israel ou Efraim, como se costuma chamar. Profetizou sob oreinado de Jeroboão II e de seu sucessor, a partir da queda de Samaria e de todo o reino (721 a.C). Os três primeiros capítulos do livro de Oséias formam um conjunto todo especial. Sob a forma de dramasimbólico é-nos posta diante dos olhos a infidelidade do povo de Israel para com o seu Deus, representada,figuradamente, na infidelidade duma esposa para com seu legítimo marido; anuncia-se o seu castigo, mastambém o seu arrependimento, a sua reconciliação e, enfim, sua vida renovada e mais feliz (2,16-24; cf. 2,1-2; 3,5). Nos capítulos restantes (4-14) voltam os mesmos motivos, a saber: a culpa de Israel, principalmente aspráticas idolátricas, o culto do bezerro de Betei, as alianças com os poderosos pagãos, a Assíria e o Egito, afalta de confiança e de apelo ao único Deus; daí os castigos proporcionados às culpas. Nem faltamvislumbres dum retorno a Deus e dum futuro melhor. Nesta sucessão de quadros, o mais das vezesobscuros, pode-se notar certo progresso. No c. 1 os acontecimentos políticos que, entre 745 e 725 a.C.elevaram tantos reis ao trono e outros tantos derrubaram dele, aparecem como fatos já passados; no c. 13o castigo do povo ingrato é anunciado já como sentença irrevogável de uma destruição total do reino, e noúltimo, o 14, com cores mais ricas e suaves promete-se a salvação definitiva. No estilo de Oséias sucedem-se, em breves sentenças, pinceladas rápidas, imagens ousadas, passagensbruscas e como por saltos. Seu vocabulário ê rico, e seu estilo característico, devido, talvez, àsparticularidades do dialeto de sua região. Por estas mesmas razões o seu texto, maltratado pelos copistas,conservou-se num estado assaz deplorável. Desse complexo de causas origina-se a obscuridadedesmesurada deste livro. Escrito no reino de Israel, foi-nos conservado e transmitido por mãos judaicas,através das quais é verossímil que tenha sofrido retoques lingüísticos e talvez também algum acréscimo,como a menção do reino de Judá nalguns contextos onde menos se esperariam (cf. 5,5;6, 11). Das páginas de Oséias transparece um caráter impressionante, ardente e patético a um só tempo, massensível sobretudo às ternuras e às fogosidades do amor. Sob este aspecto é um precursor de Jeremias.Particularmente suas são as muitas reminiscências da antiga história do povo de Israel, sobretudo dopatriarca Jacó, que tornam duplamente precioso o seu livro, cuja extensão supera, em três ou quatro partesa maioria dos doze profetas menores. O método de Oséias se destaca peta descrição das relações entre Deus e Israel propostas sob a figura doamor conjugal. Ele é o primeiro profeta que recorre a esta comparação tão fecunda e repetida pelosprofetas seguintes. A bem dizer, ele insiste mais no aspecto negativo do matrimônio, nas infidelidades e nasrupturas, do que no amor propriamente dito. A descrição deste amor será reservada ao Cântico dosCânticos. A Oséias, pelo contrário, Deus faz sentir as suas amarguras de esposo traído, ameaçando eexecutando os duros castigos que o caso reclama. Tudo termina com a expectativa da reconciliação dosesposos a da restauração. JOEL O nome de Joel (hebr. Jõel = Javé é Deus) ocorre umas quinze vezes no Antigo Testamento. Discute-seaté agora a respeito da época em que teria vivido o profeta Joel; mas pouco nos adianta examinarmos suavida, pois chegaremos às mais desencontradas conclusões. Com maior atenção devemos, por isso, entregar-nos à leitura do próprio texto. Distingue-se Joel pela amplitude e vivacidade das descrições, que constituem quase toda a matéria doseu livro. Ao contrário dos grandes profetas, Joel jamais especifica as faltas censuradas por ele; contenta-secom a exortação geral: "Voltai a Deus de todo o coração" (2, 12). Além disso, jamais menciona rei ou reino.Isso induziu a maior parte dos modernos a situar o profeta numa época posterior ao exílio, à qual parecemconvir melhor as condições sociais e históricas próprias de sua mensagem. Joel conhece a dispersão do povode Israel entre as nações e descreve sumariamente os seus horrores (3,1-6). Na sua mensagem já não sedirige aos reis, mas somente aos anciãos (1,2) e aos sacerdotes (1, 13). São indícios que mostram que aorganização prê-exílica acabou, e, que, portanto, o livro não é dessa época.
  • Importante ê o (<Dia de Javé" (em nossa tradução "Dia do Senhor",), na primeira parte, referência a umcastigo grave, mas transitório. Na segunda parte, com cores sombrias e insistência, refere-se ao castigodefinitivo dos infiéis. AMOS Os críticos modernos consideram Amós, e com razão, como o primeiro dos profetas escritores (cf. Am 1,1com Os 1,1 e Is 1,1). O seu livro, por raros méritos de estilo e de substância, é realmente digno de abrir ainestimável literatura profética de Israel. Acrescentam valor às suas mensagens as humildes origens doprofeta e sua vocação, na qual brilha tanto mais intensamente a força do seu espírito sobre-humano. O profeta Amós é distinto de Amós, pai do profeta Isaías (Is 1,1: os dois nomes são de grafia diferente nohebraico). O livro fornece-nos bastante pormenores sobre sua vida. Natural de Técua, aldeia situada a uns 8km ao sul de Belém, tirava o seu sustento do pastoreio de rebanhos e do cultivo de sicómoros, cujos frutosconstituíam o alimento da gente pobre (Am 1,1;7,14). Corriam os tempos dos longos e prósperos reinadosde Ozias, em Judá (cf. 2Rs 15,2.5) e de Jeroboão II, em Israel (783-743 a.C), que davam à nação poder eriqueza de que há muito tempo não gozava. Daí que a própria religião auferia vantagens, pela abundânciadas vítimas imoladas nos altares e pela pompa dos ritos. Mas ficaram prejudicadas a moral e a piedadesincera, os costumes pioravam, e os israelitas, deslumbrados pela prosperidade, caminhavam alegres einconscientes para a ruína. Crescia, para infelicidade deles, o poderio assírio. Nesta altura, o humilde pastorde Técua sente-se chamado a pregar o arrependimento aos desavisados, revelando aos culpados os castigosiminentes. E ei-lo a percorrer, vaticinando, as cidades de Israel Enfrentou corajosamente a oposição dossacerdotes de Betel, o principal santuário do reino (Am 7,10-17); depois, não se sabe qual tenha sido o seufim. Uma tradição conservada pelo ignoto autor das "Vidas dos profetas" e acolhida no MartirológioRomano a 31 de março, narra que, ferido na têmpora com uma maçã, pelo filho do sacerdote Amasias, foilevado agonizante à própria aldeia, onde morreu pouco depois. O livro de Amós nos apresenta, mais do que qualquer outro dos profetas, uma disposição clara e umabela ordem das mensagens. O estilo simples e não obstante cheio de dignidade, a forma escorreita, a pureza e o vigor da linguagemfazem do livro de Amós um modelo de literatura hebraica. Para torná-lo mais atraente, acrescenta-se a felizcircunstância de que o texto geralmente foi bem conservado como poucos outros. Acima dos méritos literários, porém, estão a elevação de pensamento, a doutrina moral e religiosa. Omonoteísmo ético puro atinge o auge. O Deus de Israel não é somente o único verdadeiro Deus, criador egovernador de todo o Universo, mas por sua santidade essencial é também o autor e guarda zeloso de umalei moral, cuja observância ele exige de todos os povos, e pune o delito onde quer que sua onisciência odescubra. A escolha especial e gratuita do povo de Israel não é nenhum privilégio sob este aspecto (3,2;9,7-10). Para lhe tributar as honras a que tem direito, é necessária antes de mais nada a santidade decostumes, sem a qual nada valem os atos dum culto cerimonioso e os sacrifícios de numerosas vítimas (5,21-24). Amós condena a moleza, o luxo, a ambição (6,4-6;8,5-7), e também, com mais energia e maiorfreqüência, a injustiça e a crueldade para com o próximo, seja ele quem for, a opressão dos pobres. ABDIAS Com o nome de Abdias, que quer dizer "Servo de Javé", temos o mais breve escrito do AntigoTestamento: consta de um só e não longo capítulo de 21 versículos. Ê todo ele uma mensagem dirigida contra os edomitas ou idumeus, dos quais se recriminam: 1. O orgulho e a ousada confiança que depositam na posição geográfica, defendida pelos fortesbaluartes naturais de seu país (vv. 2-9). 2. Sua cumplicidade e alegria feroz a quando da desgraça dos hebreus (vv. 10-15). 3. O castigo até o aniquilamento, em contraste com a restauração de Israel em suas possessões e até nopredomínio deste sobre a Iduméia (vv. 16-21). Muito se tem discutido sobre a desgraça nacional de Israel a que se alude nos vv. 10,14; comparando-seesta passagem com SI 136,7; Ez 25,12;35,5 e Jer 49,7-18, não resta dúvida de que se trata da queda deJerusalém nas mãos dos caldeus em 587 a.C.
  • Com isso temos a época aproximada em que o autor viveu. Escreveu talvez quando os acontecimentosaos quais alude eram ainda recentes, isto é, na primeira metade do séc. VI a.C. Era, portanto, umcontemporâneo de Jeremias e de Ezequiel. Não se pode, pois, identificá-lo, como fizeram outrora judeus ecristãos, com Abdias, mordomo do rei Acab, que tanto se esforçou em favor dos profetas. JONAS Um "profeta Jonas, filho de Hamitai, nascido em Gad-Heber" (na Galiléia, cf. Jos 19,13), é mencionadoem 2Rs 14,25, referindo-se a uma predição verificada sob o reinado de Jeroboão II de Israel (783-743 a.C).Esse profeta deve ter vivido no início do séc VIII a.C, e trata-se, sem dúvida, do Jonas do presente livro. Com isso não está ainda afirmado que o próprio Jonas tenha escrito o livro que traz seu nome.Diferentemente de todos os demais livros proféticos, o presente tem a singularidade de ser apenas umanarração, e seu objeto não é a transmissão de uma mensagem profética, e sim apresenta, na prática, nanarração do acontecimento, uma elevada lição de doutrina religiosa. Propriamente, pertence ao gêneronarrativo. Duas coisas ressaltam nesta narração: a mesquinhez do espírito humano (nos temores e nas iras doprofeta) e a infinita bondade e clemência de Deus. Não menos importante é, porém, o universalismoreligioso. Temos o caso único de um profeta de Israel ser enviado a pregar a gentios, e vemos o Deus deIsrael dispensar tanto cuidado a uma nação idólatra. Pressentimos já o conceito universalista docristianismo (Rom 3,29-30; Col 3,11). Largueza de espírito e de coração da segunda parte. Outro aspecto de grande alcance na história religiosa apresenta-nos a primeira parte. No episódio deJonas saindo vivo do ventre do peixe, depois de passar três dias ali, Jesus viu uma figura de sua ressurreiçãodos mortos, prova máxima da sua divindade (Mt 12,38-40). Daí também o renome de Jonas na literatura ena arte cristã. O mesmo divino Mestre intima os ninivitas convertidos pela pregação de Jonas, a deporemcontra os judeus que não acreditam na palavra dele, que é muito mais que Jonas (Mt 12, 41; Lc 11,52). Semdúvida não é necessário mais do que isso para compreender a importância religiosa deste livro. Bastaria isto também para provar-lhe o caráter histórico? Notamos que a sua finalidade é dar uma liçãomoral quanto à largueza de espírito e à bondade de coração. Ora, um ensinamento pode ser dado também,e não em último lugar, com uma construção imaginária. O próprio divino Mestre disso nos deu o maisilustre exemplo com as suas parábolas. Seria, portanto — pode-se perguntar — o livro de Jonas umaparábola, e não o relato de fatos realmente ocorridos? É o que pensam hoje muitos, fora da Igreja católica etambém alguns de seus membros. Mas não se apresentam razões decisivas para essa afirmação. Aquilo quea obra nos conta de maravilhoso, não constitui dificuldade para quem admite, como se deve admitir, apossibilidade do milagre. O fim didático funda a possibilidade, não a necessidade de uma ficção literária. Osfatos reais têm igualmente força para instruir a mente e maior eficácia para mover a vontade. Estandoassim neste ponto as conclusões, não é de prudência cristã duvidar da realidade histórica dos fatos, levadaem conta pelo próprio Jesus. MIQUÉIAS Miquéias profetizou sob os mesmos monarcas que Isaías, exceto sob o primeiro, Osias, em cujo últimoano de reinado e de vida Isaías foi chamado ao ministério profético. Miquéias era, portanto,contemporâneo de Isaías, florescendo entre 738 e 700 a.C, mais ou menos. A idade, a terra natal, o livro deMiquéias nos são confirmados (felicidade única para um escritor bíblico) pela citação pública dum célebrevaticínio seu (3,12), feita apenas um século depois (608 a.C.) e conservada no livro canônico de Jeremias (Jer26,18). Nasceu o profeta numa obscura aldeia a sudoeste da Judeia, a atual Bet-Gibrin e parece que namesma região tenha desenvolvido o seu ministério profético (cf. 1,10-12) com feliz resultado, como se podededuzir do que lemos em Jer 26,19. Mais do que isso não sabemos a respeito dele. O autor das Vidas dosprofetas, que o dá como martirizado sob o reinado de "Jorão, filho de Acab", mostra tê-lo confundido comoutro profeta homônimo, filho de Jemla, mais antigo, pelo menos de um século (1Rs 22,9-28), e por isso nãomerece fé. O livro de Miquéias, ainda que lhe falte a bela ordem de Amós, e se aproxime antes do estilo patético deOséias, apresenta, todavia, seções bastante nítidas. O argumento dos vaticínios de Miquéias é, portanto, semelhante aos de Isaías, especialmente Is cc. 1-12.Os dois profetas têm até mesmo em comum um dos mais belos vaticínios messiânicos (Is 2,2-4 = Miq 4,1-3).
  • Em Miquéias, porém, o lado positivo da mensagem, isto é, a promessa de um futuro melhor, ocupa umlugar relativamente mais amplo. Notável é também que entre as culpas exprobradas por Miquéias aoshebreus de seu tempo, têm grande prevalência as faltas de justiça e de humanitarismo para com o próximo,os crimes contra a boa ordem social. Redunda em honra singular para o profeta e o seu livro o fato de queduas das suas mais insignes predições sejam expressamente citadas à letra, quer pelo Antigo Testamento(3,12: em Jer 26, como já foi dito), quer pelo Novo (5,1: em Mt 2,5-6; cf. Jo 7,42), e que o próprio Jesus, nainstrução aos seus apóstolos, expressou um ponto do seu programa (Mt 10,35-36) com as palavras deMiquéias (7,6). NAUM O livro do profeta Naum é a única fonte que a ele se refere. Dá-nos a conhecer tão somente a terra nataldo profeta, Elcos, lugar jamais citado em outra passagem da Bíblia. Os informantes judeus de S. Jerônimo(Prefação ao seu comentário) o situam na Galiléia. Outra tradição, menos antiga, e acolhida pelo autor dasVidas dos Profetas, localizava-o na Judéia, próximo de Eleuterópolis ou Bet-Gibrin. A época de Naum deveser posta entre a queda de Tebas, no Egito, sob as armas do assírio Assurbanípal, em 663 a.C, e a queda deNínive, sob os golpes conjugados dos babilônios e dos persas, em 612. A primeira é recontada no seu livro(3,8-10) como acontecimento passado; a segunda constitui o objeto quase único de sua mensagemprofética. Em confronto com os demais profetas menores, o conteúdo ideal de Naum não é novo, mas a todossupera em lances líricos e na expressão. Infelizmente, o texto em muitos lugares está corrompido, deixandopor vezes o sentido incerto. HABACUC Na Bíblia hebraica o nome Habacuc (Habaqquq encontra-se somente nos títulos dos cc. 1 e 3 deste livroa ele atribuído, o qual, outra notícia expressa não nos oferece, além daquela que se refere ao nome pessoaldo profeta. Resta-nos unicamente o conteúdo para deduzirmos a época em que viveu e o espírito que oanimava. O livro versa todo sobre um ponto crucial da doutrina religiosa: o problema de saber se há uma justiçaque governa o mundo e por que os bons são domina-nados pelos maus. O tema é desenvolvido em trêsseções: duas queixais em forma de diálogo e um canto final à maneira de contemplação. A mensagem de Habacuc tem em comum com a de Jeremias, o fato de pôr em discussão o problemamoral da prosperidade dos maus (Jer 12,1-3), e com a de Isaías o pensamento de que Deus se serve dasambições humanas, da tirania estrangeira, para castigar os pecados do seu povo, sem, porém, deixarimpunes os excessos dos tiranos (10,3-19). Especial em Habacuc é o grande princípio, promulgado cominsólita solenidade (2,4), de que a fonte da vida é a fé em Deus, que são Paulo fará um dos pontos básicosda sua doutrina religiosa. Na Bíblia grega o nome deste profeta é "Ambacum", e da mesma maneira está grafado o nome daquele"profeta na Judéia", que, agarrado pelos cabelos por um anjo, levou a refeição a Daniel na cova dos leões,em Babilônia (Dan 14,33-39). Por razões cronológicas, quando não por outras, as duas personagens sãoconsideradas distintas. SOFONIAS De oito dos dezesseis profetas escritores não conhecemos sequer o nome do pai, ao qual se restringe namaior parte a genealogia dos outros (Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Jonas). De Zacarias, além dopai, cita-se também o avô. Sofonias, singular entre todos, prolonga a cadeia ascendente até ao trisavô,chamado Ezequias (cf. 1,1, nota) . Pensou-se que este Ezequias se identificasse com o conhecido rei de Judá,filho de Acaz, que reinou de 720 a 690 a.C, mais ou menos. Visto que Sofonias profetizou durante o reinadode Josias, o terceiro sucessor e bisneto de Ezequias (ib.), a cronologia não opõe dificuldades insuperáveis aessa opinião. O silêncio, porém, quer da história» quer do próprio profeta em torno dessa sua relação com adinastia régia, torna-a de todo improvável. Além disso, esse nome não é raro na Bíblia. O tempo em que vaticinou Sofonias pode ser deduzido da sua mensagem. Pregando sob Josias e entreoutras coisas acusando os jerosolimitanos de perversões idólatras e práticas gentilicias em religião (1,4-6),isso deve ter acontecido antes da célebre reforma religiosa de Josias, que se iniciou em 621 a.C. (cf. 2Rs
  • 22,3-23,20). Diremos, portanto, que Sofonias exercitou o seu ministério profético pelo ano 625 a.C, quandosurgiu também o profeta Jeremias no mesmo ministério. AGEU Afora o que nos refere o seu breve escrito, que ocupa o décimo lugar na série canônica dos profetasmenores, a respeito do profeta Ageu sabemos apenas que foi contemporâneo do profeta Zacarias, com oqual compartilhou a missão de assistir os repatriados na obra de construção do templo. A atividade do profeta Ageu desenvolveu-se durante poucos meses, no segundo ano de Dario I (cf. Ag1,1;2,11), rei da Pérsia, de 521 a 485 a.C Sem valor especial quanto ao estilo ou à poesia, o escrito de Ageu recebe sua eficácia e interesse dagrande paixão do profeta pelo templo. Animada pela recordação do esplendor do antigo templo,contemplado talvez numa juventude muito remota, esta paixão é alimentada sobretudo pela certeza de quea reconstrução do templo é a premissa indispensável para um renascimento seguro da vida nacional. A issoacrescenta-se a visão sobrenatural daquilo que o novo templo é destinado a simbolizar e como que apreludiar: a gloriosa construção espiritual do futuro reino messiânico. Certo deste destino, o profetaencontra palavras inflamadas para sacudir o povo de seu letargo, torna-se ousado diante dos tímidosrepresentantes oficiais da nação e arrasta todos a um grande fervor. ZACARIAS Do profeta Zacarias (em hebr. "]avé se recordou") fala também Esdr 5,1 ;6, 14. Era filho de Baraquias (Zac 1,1.7) e neto de Ado (Zac 1,1.7; Esdr 5,1 ;6, 14), provavelmente o mesmocitado entre o$ sacerdotes que voltaram de Babilônia com Zorobabel, no ano 537 (cf. Ne 12,4). Issopareceria confirmado também pela indicação de Ne 12,16, segundo a qual um certo Zacarias era chefe dafamília sacerdotal de Ado, no tempo do sumo sacerdote Jesus, contemporâneo de Zorobabel (cf. Zac 4, 14;Ag 1,1; Esdr 3,2). Como a Ageu, coube também a Zacarias a missão de apoiar os repatriados na obra de reconstrução dotemplo. Zacarias iniciou a sua atividade profética alguns meses depois de Ageu (cf. Ag 1,1 e Zac 1,1.7), no mesmosegundo ano do rei persa Dario I (520 a.C.), mas a estendeu por mais tempo. Ao menos, pelo que se narranos oito primeiros capítulos do seu livro, alcançou-se o quarto ano do reinado do mesmo soberano (cf. Zac7,1). Pertence o livro por inteiro ao profeta do qual traz o nome? A maioria dos críticos estima a segundaparte como uma compilação, feita em época mais recente, de escritos de autores diversos e desconhecidos.Segundo alguns, os escritos seriam de origem helenista (séc. IV a.C); segundo outros, do tempo da revoltados Macabeus (175-161 a.C.) ou de ambas as épocas. Não obstante as múltiplas diferenças de argumentos, de perspectiva, de gênero literário e de estilo entrea primeira e a segunda parte, os católicos geralmente aderem hoje também à opinião tradicional queatribui todo o livro ao profeta Zacarias. O livro inteiro é perpassado por uma profunda espiritualidade. Ressalta nele a doutrina sobre os anjos,que velam pela sorte do reino de Deus e desempenham, cuidadosos, a missão de intermediários entre o céue a terra. Expondo os diversos motivos sobre o Messias e o seu reino futuro, Zacarias realça o elementointerior da santidade e o da luta contínua contra o mal até o surgimento de seu último estádio, glorioso esem fim. MALAQUIAS O último escrito profético traz na Bíblia grega o título, mais comum entre nós, de Malaquias, que emhebraico quer dizer "Anjo [ou mensageiro] de Javé", e como nome próprio se encontra alhures no textobíblico. A Bíblia hebraica intitula-o de Malaqui, que pode ser forma abreviada do precedente, ou significar,por si, "Anjo [mensageiro] meu". Para determinar a época da atividade profética de Malaquias, não estamos melhor informados;devemos contentar-nos exclusivamente com os dados fornecidos pela análise interna do seu escrito. Asemelhança, e às vezes a identidade, entre os abusos que Malaquias repreende e aqueles contra os quais
  • tiveram de lutar freqüentemente Esdras e Neemias, nos levam a supor, com bastante fundamento, quetambém o presente profeta viveu durante o período persa, numa época mais ou menos próxima da dos doisgrandes reformadores do séc. V.
  • NOVO TESTAMENTOPassando do Antigo para o Novo Testamento, principalmente se o lermos na ordem tradicional do texto,não teremos a sensação de mudar de ambiente. Sua primeira página (Mt 1,1) apresenta-nos um quadrogenealógico à maneira dos que, tão freqüentemente, encontramos nos livros históricos do AntigoTestamento. Uma genealogia que começa com Abraão, antepassado-cabeça do povo hebreu. Logo depois(Lc 3,23-38), outra cadeia genealógica se nos apresenta, a qual nos faz remontar até ao primeiro homem,esse Adão sobre o qual um capítulo inicial do Antigo Testamento chamou a nossa atenção. Teatro dosacontecimentos são as regiões, cidades e campos da Palestina. Vive-se num mundo judaico, entreinstituições e recordações da lei antiga. As personagens dessa nova história falam-nos numa linguagemcaracterística, à qual nos haviam habituado as páginas dos livros sagrados precedentes.Não mudou o ambiente, mas outro é o ar que se respira. O espetáculo dum povo, duma nação singular, queno Antigo Testamento concentrava a atenção e o interesse do leitor, alarga-se aqui e restringe-se a um sótempo, sob aspectos diversos. De um lado, o objeto das promessas divinas, a salvação que nelas se anuncia,uma vez derrubadas todas as barreiras entre os povos, já não se restringe a uma pequena parte dahumanidade, mas estende-se a todas as nações da terra. Por outro lado, a mensagem divina dirige-sediretamente a todos os povos, e cada qual, por si mesmo, aproximasse da nova aliança, assume-Ihepessoalmente as obrigações e usufrui-lhe os privilégios. A lei divina já não é escrita em tábuas de pedra,mas é impressa no coração do homem e, deste modo, torna-se ao mesmo tempo, mais humana, maissuave e mais eficaz. Ê um arauto da antiga aliança que, nestes termos, nos delineia a essência e nos dita,por primeiro, o nome do "Novo Testamento" ("Nova Aliança": Jer 31, 31-34).A religião torna-se, assim, mais íntima, mais espiritual. No Novo Testamento já não ouvimos falar deconquistas e de reinos terrenos, mas anuncia-se-nos um reino de Deus que está dentro de nós (Lc 17,21;Rom 14,17). No Antigo Testamento, o horizonte humano restringia-se ao círculo da existência terrena e davida ultraterrena não temos senão raras e vagas notícias. No Novo, ao invés, o espírito alça-secontinuamente para o céu, e as promessas melhores e as mais fortes aspirações têm por objeto a vidafutura. Na vida terrena, com o salmista (SI 38,13), o hebreu piedoso professava ser "adventício (hóspede)junto de Deus" e, por afeição ao seu Deus, pedia para ficar aí o mais possível. Os crentes do NovoTestamento sentem-se "exilados do Senhor" e anelam por "exilar-se do corpo" e chegar à pátria (2Cor 5, 6-8), para dar o eterno abraço ao Pai celeste. Característico é o título, que Deus tem, de "Adonai" (Senhor) noAntigo Testamento, e de "Pai" no Novo, onde a primeira e mais comum oração inicia-se com a suaveinvocação: "Pai nosso, que estás nos céus" (Mt 6,9).Respira-se um ar mais puro, mais suave, porque somos levados mais para o alto, para o cimo do montesagrado. O valor do homem está inteiramente nas virtudes morais, e para as próprias virtudes é proposto oideal mais sublime (Mt 5,21-48). Temos no Novo Testamento a plenitude da revelação e a perfeição damoral. Tangível, sem dúvida, no Antigo Testamento um progresso da doutrina revelada, uma purificação daespiritualidade religiosa, um melhoramento correspondente dos costumes. Esta linha de elevaçãoprogressiva, realizada por especial providência de Deus, sobretudo por meio dos profetas, alcança o seutermo, tocando o vértice, no Novo Testamento. Sazonou aqui o fruto que se vinha preparando naflorescência esplêndida das antigas Escrituras, o que vem dar ao Novo Testamento, com relação ao Antigo,uma superioridade de valor, para a nossa formação espiritual, que está em razão inversa da respectivaextensão do texto escrito e dos tempos abrangidos.O Novo Testamento compõe-se, no cânon completo e definitivo de 27 escritos distintos: 5 livros históricos(os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos), 21 Epístolas de diversos apóstolos e 1 livro de índoleprofética, o Apocalipse. Tomados em conjunto, formam, em extensão, um quinto de toda a Bíblia e umquarto apenas do Antigo Testamento. Como espaço de tempo abrangem, quando muito, cerca de umséculo: desde o nascimento de Jesus Nazareno (5 a.C.) até à morte do seu mais novo amado discípulo(cerca do ano 100 d.C.). Era o primeiro e o mais feliz dos séculos daquela longa pax romana, que,irmanando sob o cetro de um único monarca a imensa bacia mediterrânea, facilitava providencialmente a
  • propagação da Boa-nova, pregada, primeiramente, num canto das fronteiras orientais do vastíssimoimpério. Nesse variado organismo de tão numerosos povos de origens e línguas diversas, uma línguasobressaía-se sobre as demais como a língua da cultura e ainda como a mais conhecida e difundida nasrelações comerciais: a língua grega. E foi precisamente nessa língua universal que foram escritos etransmitidos até nós todos os livros do Novo Testamento (exceção apenas do Evangelho de S. Mateus).É um grego fácil, claro, temperado pelo uso da linguagem falada, adequado à inteligência até das camadasmais humildes da sociedade, às quais era dirigida, com certa predileção, a nova mensagem da salvaçãoevangélica. Nessa roupagem popular, os escritos neotestamentários difundiram-se rapidamente peloOriente inteiro, bem como pelo Ocidente, o mais das vezes escritos em papiros (cf. 2Jo 12), matéria vulgare de baixo preço, que facilmente se rasgava e muito depressa se estragava. Por esta razão, somentefragmentos nos chegaram das cópias dos três primeiros séculos, preciosos, sem dúvida, como testemunhosda autenticidade daquelas veneráveis páginas. Do IV século em diante (antigüidade esta que, no caso, é degrande valor), generalizando-se o uso do pergaminho ou pele de carneiro, matéria muito mais sólida eresistente, chegaram até nós cópias inteiras, não só de cada um dos escritos, mas também do NovoTestamento inteiro.Com a difusão e a multiplicação das cópias, o texto, como acontece com as coisas humanas, sofreu, pelasmãos dos copistas, alterações de diversas espécies, que lhe ofuscaram a pureza primitiva, sem, todavia,prejudicar-lhe a substância. Surgiram, assim, tipos diversos de texto, com discrepâncias de códices, comolamentava, já no seu tempo (pelo ano 383), S. Jerônimo, o qual, emendando a antiga versão latina, com oauxílio de bons e antigos manuscritos gregos, reproduziu, na sua Vulgata, especialmente nos Evangelhos, otexto sagrado até bem próximo da pureza original, e nesse estado passou ao uso da Igreja latina. Noimpério bizantino, prevaleceu, na idade média, um tipo de texto, no qual a união de leituras diversas, aconformação dos textos paralelos, o amaciamento das asperezas ou dificuldades, o brilho da línguafundiram-se numa composição temperada e descolorida, capaz de satisfazer as exigências de um públicoávido de um alimento espiritual fácil, de preferência à precisão exegética. Dos manuscritos tardios dessaépoca esse texto obscuro passou à imprensa do século XIV e dominou durante três séculos nos estudosbíblicos, contrapondo-se ao teor mais vetusto e austero da Vulgata latina. Daquele texto traduziram-se osLivros Sagrados nas línguas modernas com as versões do século XVI, de protestantes e de católicos.Conhecendo, depois, os doutos os manuscritos mais antigos, sobretudo o Vaticano 1209 (B), apareceu logoa superioridade do texto aí contido, e o texto bizantino, já pomposamente proclamado "texto aceito portodos" (textus ab omnibus receptus), começou a perder o crédito, até que na segunda metade do séculoXIX foi definitivamente afastado não só das edições críticas, como também das manuais e escolásticas.Críticos de grande renome, depois de longos e severos estudos, seguindo vias diversas, concordaram emaprovar um texto sensivelmente igual, tanto próximo dos mais antigos manuscritos e da Vulgata, distantedo texto outrora em vigor. Graças aos progressos da crítica moderna, podemos dar hoje o texto genuínodos Evangelhos e dos escritos apostólicos, e não somente quanto à substância, como também quanto aospormenores.CronologiaOs escritos neotestamentários abrangem, como foi dito, um século apenas. Embora seja tão breve oespaço, a cronologia dos fatos nos apresenta, por falta de dados suficientes e precisos, dificuldades eincertezas. Daí a grande variedade de opiniões entre os estudiosos. As datas que, para utilidade dosleitores, apresentamos, são as mais comumente admitidas, tendo, porém, valor apenas aproximativo.Como ponto de partida, no uso da era vulgar ou cristã, enquanto o ano 1 deveria ser o do nascimento deJesus, cumpre dizer, de fato, que, por causa de um erro inicial de cálculo cometido pelo primeiro queintroduziu essa era no cômputo das datas (o monge Dionísio, o Pequeno, no ano 525; cf. MIGNE, Patrologialatina, 67, 497-502), deve-se transportar aquele memorável e fundamental acontecimento para algunsanos atrás. Com efeito, consta, com certeza, do Evangelho (Mt 2,1-15; Lc 1,5), que Jesus nasceu antes damorte de Herodes, o Grande, que caiu (como podemos deduzir por vários fios da história profana) no iníciode abril do ano 750 de Roma, que corresponde ao 4º antes da era vulgar. Colocamos o nascimento de Jesus
  • Cristo no ano anterior (assinalado — 5), embora permanecendo incerto quantos meses se passaram desdeo seu nascimento até à morte do tirano. Outro caso grave de incerteza é a duração da vida pública de Jesus.A opinião que mais respeita os dados do texto evangélico é a que a fixa em dois anos e alguns meses. A estaatemo-nos, também nós, no seguinte quadro:ANO- 5. Nascimento de Jesus Cristo (Mt 2,1; Lc 2,1-7).+ 8. Jesus perdido e encontrado no templo aos 12 anos (Lc 2,41-51).28. Pregação de S. João Batista (Lc 3,1-3). Batismo de Jesus e início de sua vida pública (Mt 3,13-4, 17 eparalelos).30. Paixão, morte e ressurreição de Jesus; com a descida do Espírito Santo começa a pregação dosapóstolos e constitui-se a Igreja primitiva.34. Martírio de Sto. Estêvão. Conversão de Saulo (S. Paulo).37. S. Paulo, fugindo de Damasco, faz sua primeira visita a Jerusalém, hóspede de S. Pedro (At 9,23-28; Gál1,18). S. Pedro evangeliza a Judéia e a Samaria; acolhe na Igreja os gentios convertidos (At 9,31-11,18).Cristandade de Antioquia.43. Martírio de S. Tiago. S. Pedro, libertado do cárcere, "dirige-se para outro lugar (At 12,1-17),provavelmente para Roma. Dispersão dos apóstolos por toda a terra.45. Primeira viagem apostólica de S. Paulo (At 13,1-14,25).50. Concílio dos apóstolos em Jerusalém; decreto para os convertidos do gentilismo (At 15,1-31).50-52. Segunda viagem apostólica de S. Paulo, através da Ásia Menor, pela Acaia da Macedônia e da Grécia(At 15,36-18,22). Suas Epístolas aos fiéis de Tessalônica.53-57. Terceira viagem apostólica de S. Paulo, pela Ásia Menor e pela Macedônia (At 18,23-21,2). Asgrandes Epístolas aos coríntios e aos romanos.57-59. S. Paulo prisioneiro em Cesaréia da Palestina (At 21,17-26,32).60-62. S. Paulo preso em Roma (At 27,1-28,30); Epístolas do cativeiro (Col, Ef, Flp, Fim). S. Tiago, o Menor, émorto em Jerusalém.63-66. Últimas viagens apostólicas de S. Paulo. Epístolas pastorais.67. Martírio de S. Pedro e de S. Paulo em Roma.c. 90. S. João evangelista é exilado, por causa da fé, para a ilha de Patmos, onde escreve o Apocalipse (Apoc1,9-11).c. 100. S. João morre em Éfeso, depois de escrever o seu Evangelho e suas três Epístolas canônicas.Encerramento da idade apostólica e dos tempos bíblicos.
  • INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOSEvangelho, do grego evangelion, que significa "alegre notícia", "boa-nova", é como foi chamada, comvocábulo adequado, a mensagem de salvação e de redenção que Jesus Cristo trouxe ao mundo. Depois, porextensão, o mesmo vocábulo passou a designar o livro portador da narração dessa mensagem.Jesus, o verdadeiro autor, sob qualquer aspecto, do Evangelho, pregou, e não escreveu, mas a primeiraorigem do Evangelho escrito data, pode-se dizer, do primeiro dia em que o Mestre divino foi arrebatado aocéu. Ao pregarem, os apóstolos, instruindo os novos fiéis, contavam os fatos e as palavras de Jesus. Essasinstruções, tão freqüentemente repetidas, tomaram, com o tempo, uma forma que diríamos estereotipada;imprimiram-se na memória dos fiéis, que as transmitiam nas reuniões públicas ou nas conversasparticulares. Nasceu, deste modo, o primeiro regato que concorreu para formar os Evangelhos, a tradiçãoque remonta aos apóstolos. Com efeito, não tardou muito a se sentir a necessidade ou, ao menos, autilidade de se fixar e, mais largamente, propagar, com a escrita, a mensagem evangélica. S. Lucas (1,1) falade "muitos" que antes dele (pelo ano 60 d.C.) haviam resolvido escrever uma narração do "que Jesus fez eensinou" (At 1,1). Nesse "muitos" ou "vários" estão, ao certo, incluídos alguns a mais do que os nossos doisprimeiros evangelistas (Mateus e Marcos), anteriores a Lucas; mas é pelo menos duvidoso que aqueleslógia (palavras de Jesus não contidas nos Evangelhos canônicos), que o Egito, recentemente, restituiu à luzcom os seus papiros, sejam fragmentos ou restos de alguns dos escritos visados aqui pelo evangelista.Podem, porém, remontar àqueles primeiros tempos, pelo menos quanto ao núcleo, alguns evangelhos,como o chamado dos hebreus, dos ebionitas, dos doze ou dos egípcios, dos quais os Padres da Igreja,principalmente S. Jerônimo e Sto. Epifânio, nos transmitiram alguns trechos. Não assim outros evangelhos,dos quais nos chegaram quase que só os nomes (e precisamente nomes de apóstolos: de Pedro, de Tomé,de Bartolomeu etc.) os quais são todos de origem posterior (séculos II ou III d. C; cf. ALTANER, Patrologia, §9). De toda essa floração de evangelhos, quatro somente a Igreja reconheceu como inspirados por Deus edignos de serem equiparados, por autoridade inigualável, aos livros sagrados do Antigo Testamento. São osEvangelhos que, por cadeia ininterrupta de testemunhos, a qual, de elo em elo, remonta aos discípulosimediatos dos apóstolos, nos são atestados como obras dos apóstolos Mateus e João e dos discípulosMarcos e Lucas.De fato, Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, que viveu nos primeiros decênios do II século, nos cinco livrosde Esclarecimentos (ou Explicações), lembrando com quanto cuidado, na juventude, ele procuravainterrogar os discípulos dos apóstolos sobre o que tinham dito aqueles anciãos, afirma que "Marcos,intérprete de Pedro, escreveu cuidadosamente tudo o que recordava das suas instruções", que "Mateuscompôs em língua hebraica os discursos (tá lógia) *, que "o Evangelho de João foi publicado e comunicadoàs Igrejas pelo próprio João, ainda vivo". Destarte três dos nossos Evangelhos recebem já um testemunhoexplícito. Irineu, bispo de Lião, de uma geração apenas posterior a Papias, no terceiro dos livros Contra asheresias (c. 9-11), acrescentando-lhes Lucas, dá-lhes a série completa e, com energia, adverteexpressamente que, nem mais nem menos de quatro são ou podem ser os Evangelhos (ib. 11). Ou melhor,com mais exatidão, tendo em conta que a "boa-nova" é propriamente uma: a mensagem de Jesus Cristo, eque esses quatro livros são redações ou aspectos diversos daquele Evangelho único (donde o usoconstante, na Igreja, de dizer "Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus, segundo Marcos" etc), criou afeliz e expressiva locução de "Evangelho tetramorfo", isto é, "quadriforme".Pelo tempo de Irineu, como revelam estudos recentes (veja Revue bénédictine, 1928, pp. 193-214), umcatólico desconhecido, provavelmente romano, compôs, contra a serpeteante heresia de Marcião, os maisantigos prólogos aos Evangelhos com notícias inéditas sobre cada um dos evangelistas. Dentro ainda domesmo II século, narra-nos o chamado Cânon muratoriano, fragmento de um escrito a nos atestar a crençacomum da Igreja romana, a origem e difusão dos quatro Evangelhos e precisamente na ordem tradicional ecomuníssima de Mateus, Marcos, Lucas e João. Taciano, na Síria, por volta do ano 180, funde os Evangelhosnuma narração única e intitulada "diatessáron", isto é, resultante de quatro, professando deste modo, nopróprio nome da obra, o número fixo quaternário dos verdadeiros Evangelhos. O mesmo afirmam, em seusescritos, pelo mesmo tempo, no Egito, Clemente Alexandrino e, em Cartago, Tertuliano. No séculoseguinte, o III, com os escritores Origines, Hipólito, Cipriano, Vitório de Petau, com as versões latinas,coptas, siríacas, com o número crescente dos manuscritos do texto, é o coro de todas as Igrejas do Oriente
  • e do Ocidente que se forma e proclama unanimemente os quatro Evangelhos segundo Mateus, segundoMarcos, segundo Lucas e segundo João, sem se erguer uma voz sequer em contrário até ao século XIX. Queoutro escrito da antigüidade pode ostentar aprovação tão abundante, tão variada e tão próxima dasorigens?Os próprios Evangelhos, apenas consultados e examinados, apresentam um testemunho concorde com atradição. O de Mateus (para tocar aqui somente alguns passos mais notáveis) apresenta-se dirigido aosjudeus, para os persuadir, com as contínuas chamadas às profecias do Antigo Testamento, de que Jesus deNazaré é verdadeiramente o Messias prometido à nação escolhida. O de Marcos, reflexo das instruções deS. Pedro aos fiéis de Roma, é o mais entremeado de vocábulos e construções latinas, e a respeito de S.Pedro, mesmo omitindo certos fatos que mais o honram (caminhar sobre as águas, o primado, a taxa pagajuntamente com a de Jesus), sabe dizer-nos mais do que os outros evangelistas. Em Lucas, além da maiorpureza da língua e do estilo gregos, encontramos idéias, frases, relatórios (por exemplo, sobre a instituiçãoda Eucaristia, cf. Lc 22,19-20 e 1Cor 11,24-25), que se conformaram com os de S. Paulo, de quem foi,durante anos, companheiro fiel. O quarto Evangelho mostra-se-nos claramente escrito por um dos dozeque mais perto estiveram de Jesus, por alguém que sempre se acha presente nos acontecimentos, mas quenunca se nomeia e oculta-se sob a circunlocução "aquele discípulo que Jesus amava". Posto em confrontocom os outros Evangelhos, deduz-se, por exclusão, que aquele "discípulo que Jesus amava" só pode serJoão. Além disso, em muitos pontos da sua estrutura, esse Evangelho supõe claramente a narração dos trêsoutros, e está inteiramente preocupado em apresentar as provas da divindade de Jesus, posta em dúvidaou negada pelas heresias, que germinaram na Ásia Menor, como sabemos pela História Eclesiástica. Sãoprecisamente as circunstâncias e os motivos aduzidos ou supostos pelos testemunhos acima citados.Atestações externas e qualidades intrínsecas confirmam-se, portanto, e sustentam-se reciprocamente paraescoimar de qualquer dúvida ponderável a autenticidade dos quatro Evangelhos canônicos.Por que quatro, e não mais? E por que precisamente esses e não outros são os Evangelhos reconhecidos eaceitos pela Igreja? A razão verdadeira e essencial é que só esses, e não outros, foram compostos porinspiração divina e foram comunicados à Igreja como palavra de Deus escrita. Esse é o sentido claro dostestemunhos antiquíssimos acima citados. A origem apostólica, isto é, o terem por autores apóstolos(Mateus e João) ou discípulos dependentes dos apóstolos (Marcos e Lucas) era uma garantia para eles, masnão constituía o seu motivo próprio e adequado. Estabelecido, porém, o fato da inspiração divina e, porisso, da canonicidade desses quatro somente, nada impede que descubramos, para esse número, outrasrazões de conveniência, como já fêz Sto. Irineu, no lugar acima citado (III, 11), e entrevermos algumsímbolo nas próprias Escrituras divinas do Antigo e do Novo Testamento. Entre todos, célebre é um queteve imensa ressonância na literatura e nas artes: os quatro seres das quatro faces ou rostos, de homem,de leão, de touro e de águia, que sustentavam e puxavam o carro divino visto por Ezequiel (Ez 1,4-10) epelo evangelista S. João, em êxtase (Apc 4,2-7). Encontram-se, outrossim, interessantes analogias ecomparações entre cada um desses animais e um dos nossos Evangelhos, de modo que o homem se tornousímbolo de Mateus; o leão, de Marcos; o touro, de Lucas e a águia, de João. Pode-se afirmar que as suasfiguras são reproduzidas em todas as igrejas cristãs e em cada exemplar ilustrado da Bíblia.Literariamente, os Evangelhos pertencem ao gênero histórico. Não são propriamente uma história, poisconcentram toda a atenção sobre uma única pessoa: Jesus de Nazaré. Não são, tampouco, apenas umabiografia propriamente dita, pois não pretendem narrar toda a vida e atividade de seu herói, com o intuitode informação. Têm por objetivo narrar a mensagem da renovação moral e religiosa que Jesus trouxe aomundo, e mostrar a sua obra redentora em atuação. Fazem, por isso, uma seleção entre o muito quepodiam dizer e aproximam-se, destarte, do gênero dos "fatos e ditos memoráveis", mas com referênciaespecífica à finalidade mencionada.Seja qual for, porém, o modo com que se queira determinar ou não o gênero próprio dos Evangelhos, ocerto é que, do gênero histórico, eles possuem o que constitui o seu supremo e primeiro valor, a finalidadeprópria e suprema: a veracidade da relação e a realidade objetiva dos fatos registrados. Do historiadorverdadeiro e perfeito, os evangelistas possuem o amor da verdade na indagação, e a sinceridade eimparcialidade no referir. Não foram paixões políticas, nem preconceitos ideais, nem interesses pessoaisque os moveram e sustentaram ao escrever. Não há vestígios desses sentimentos, que poderiam ofuscar ojuízo sereno do escritor, em sua prosa límpida e serena. Simples e desataviado, claro e popular é o seu
  • estilo. Pessoalmente, quanto eles amam o divino Mestre, mostrá-lo-ão mais tarde ao darem por ele osangue e a vida. Ao escrever, porém, essa chama eles a conservam encerrada no coração, não permitindoque se exteriorize e lhe inflame a pena. Narram os milagres do Nazareno sem se admirarem com eles.Referem os aplausos e o entusiasmo populares, mas não compartilham das aclamações; registram, apenas,fatos, Não silenciam os insucessos do Mestre e a nenhum período de sua vida narram com tanta difusãocomo sua dolorosa e humilhante paixão. Entre tantas amarguras e ultrajes, porém, que relatampormenorizadamente, não lhes foge um só gemido de compaixão pelo inocente torturado, nem um gritosequer de indignação contra os seus cruéis crucificadores. Dir-se-ia que são impassíveis, mas é aimpassibilidade do historiador integral. E como é próprio do historiador narrar o que vê e o que ouve, o quecai sob a esfera dos seus sentidos e pode ser afirmado, os evangelistas, em seus depoimentos, jamaisultrapassam o limite dos fatos sensíveis e como tais atestados. Da própria ressurreição de Jesus, fato damaior importância por numerosas razões, eles não nos dizem quando nem como se deu, porque nenhumdeles esteve presente. Falam do sepulcro aberto encontrado vazio, porque assim o viram os discípulos e aspiedosas mulheres, falam das aparições de Jesus redivivo, porque as pessoas favorecidas com tais apariçõesafirmaram concorde e repetidamente que o tinham visto, tinham falado com ele, tinham comido e bebidoem sua companhia, depois da sua ressurreição (At 10,41). Não se poderia desejar atitude mais objetiva emais própria num puro historiador. Nada falta aos evangelistas daquilo que se pode referir aos fatos quenarram, nem que se relaciona com a imparcialidade e exatidão em os referir como haviam chegado ao seuconhecimento. Somente isto, mesmo prescindindo da assistência do Espírito Santo que os animava, confereà narração toda a garantia da verdade. Não é sem razão que o próprio termo "evangelho" tornou-se, nouso, sinônimo de verdade evidente. Nossa fé, que tem suas raízes no Evangelho, também humanamentefalando, apóia-se sobre as mais sólidas bases. Intenção sinceramente desejosa de verdade e coração dócilpara a abraçar tal qual ela é, são as disposições mais adequadas para a leitura proveitosa do Evangelho.
  • INTRODUÇÃO A MATEUSMateus (nome talvez abreviado de Matadas) exercia, antes de seu chamamento ao apostolado, a profissãode cobrador de impostos, profissão, já de per si, detestada por todos, que se tornava ainda mais antipáticaao povo judeu por favorecer, tal cobrança, a dominação romana. Os publicanos, os cobradores deimpostos, eram considerados como pecadores públicos.Mateus estava sentado à sua banca de trabalho quando foi chamado por Jesus. Levantou-se logo e oseguiu, dando adeus ao mundo com um banquete oferecido a Jesus e aos próprios colegas de profissão,"publicanos e pecadores" (Mt 9,9-10). Nas passagens paralelas de Marcos (2,14) e Lucas (2,27), pordelicada consideração, é ele chamado Levi, outro nome seu, segundo um costume freqüente entre oshebreus.A partir de então entra a fazer parte do colégio dos doze, sem que nada de importante o pusesse emevidência. No catálogo dos apóstolos é colocado invariavelmente junto a Tomé, ao qual, por sentimento dehumildade, se pospõe no seu Evangelho, lembrando o seu ofício de publicano.Depois da ascensão de Jesus, ficou algum tempo na Palestina, evangelizando seus compatriotas. A queregiões tenha depois levado a luz da fé, que ele confirma com seu sangue (se a Arábia, a Etiópia, a Pérsia oua região dos partos), não nos foi transmitido com certeza.Em ordem cronológica, S. Mateus é o primeiro evangelista, conforme resulta da tradição. Pelo testemunhode Papias (95,165), bispo de Hierápolis na Frigia, sabe-se que escreveu em aramaico "ta lógia kyriaká", masesta expressão, segundo o pensamento do próprio Papias, quando fala do Evangelho de S. Marcos,compreende não só os discursos, como também os fatos da vida de Jesus. Mateus não escreveu, portanto,uma simples coletânea dos discursos de Jesus, como afirmam, sem razão, alguns críticos, mas escreveu o"Evangelho do Senhor".O texto aramaico não chegou até nós, pois perdeu-se, quiçá, nas agitações e destruições devidas à guerrado ano 70. Cedo, porém, desde os primeiros anos do cristianismo, fêz-se a redação, ou melhor, a versãogrega do Evangelho deMateus, sem, contudo, podermos saber qual o seu autor; talvez o próprio apóstolo.Com efeito, a tradição atribui-lhe também unanimemente o texto grego; pelo menos quanto à essência, éplenamente idêntico ao texto aramaico. Os Padres apostólicos citam-no sempre, desde o início, como textosagrado e inspirado, à semelhança das outras Escrituras, e foi unicamente sobre ele que se fizeram todas asversões.Pelo que se deduz da tradição e do exame interno, Mateus escreveu o seu Evangelho na Palestina,destinando-o aos judeus convertidos e em geral aos seus compatriotas. A tese que visa a demonstrar é queJesus é o filho de Davi, prometido e esperado, o Messias, ou melhor, o verdadeiro Filho de Deus. Provar amessianidade, a divindade de Jesus Cristo, constitui, portanto, a finalidade do primeiro evangelista. E o faznão tanto referindo os milagres de Jesus, quanto fazendo notar nele a realização das antigas profecias einsistindo nas provas que Jesus deu de sua divindade.Não se pode estabelecer com certeza a data da composição do primeiro Evangelho. Pode-se, sem temoralgum de errar, estabelecer o termo inferior, abaixo do qual certamente não foi escrito. De fato, conformeo testemunho unânime e constante da tradição (não faz exceção a voz ambígua de Clemente Alexandrino)o Evangelho de Mateus deve ter sido o primeiro a ser escrito, por isso, antes do de Lucas, cuja composição,como se verá, não pode nem deve ser posposta ao ano 63 d. C. Quanto ao termo superior, as opiniões sãodivergentes: muitos dão--Ihe por data de composição o ano 50 ou mesmo antes. Deve-se, contudo, dizerque é falsa a afirmação dos racionalistas, segundo os quais teria sido escrito após o ano 70.O quadro seguinte do Evangelho de S. Mateus colocará sob nossas vistas toda a sua estrutura.
  • I parte - História da infância de Jesus Cristo. (1-2).Genealogia de Jesus (1,1-17). Seu nascimento virginal (1,18-25). Adoração dos magos (2,1-12). Fuga para oEgito (2,13-18). Volta a Nazaré (2,19-23).II parte - Vida pública de Jesus Cristo (3-25).1. Preparação para a vida pública (3,1-4,11). Pregação de João Batista (3,1-12). Batismo de Jesus (3,13-17).Tentação no deserto (4,1-11).2. Ministério de Jesus na Galileia (4,12-18,35). Jesus doutor e promul-gador da nova lei (4,12-7,29). Jesusoperador de milagres (8,1-9,34). Jesus mestre dos apóstolos (9,35-10,42). Jesus recrimina os fariseus (11-12). Expõe, com parábolas, o reino de Deus (13). Confirma a fé dos discípulos com novos milagres e fustigaa inveja dos fariseus (14,1-16,12). Promete a Pedro o primado (16,13-20), prediz sua paixão (16,21-28),transfigura-se no monte (17, 1,13) e dá instruções diversas aos apóstolos (17,14-18,35).3. Ministério na Judeia (19,25). Viagem a Jerusalém (19-20). Entrada triunfal na cidade santa e purificaçãodo templo (21,1-17). Jesus manifesta e censura os vícios dos fariseus e dos saduceus (21,18-23.39). Prediz adestruição de Jerusalém e o fim do mundo (24-25).III parte - Vida dolorosa e vida gloriosa (26-28).Preparação para a paixão (26,1-46). Paixão e morte de Jesus (26,47-27,66). Ressurreição, aparição de Jesusressuscitado, missão dos apóstolos (28).Aqui vem, no entanto, a propósito notarmos alguma coisa sobre a chamada "questão sinótica". Os trêsprimeiros Evangelhos assemelham-se mais entre si e distinguemse do quarto, segundo João, na narração davida pública de Jesus, principalmente de três modos: estendem-se mais difusamente sobre o ministério naGalileia e regiões limítrofes; para eles Jesus vai a Jerusalém uma só vez, pouco antes da paixão; referem osfatos e os discursos de Jesus em proporções quase iguais. Em João, ao contrário, predomina o ministérioexercido em Jerusalém, para onde se vê Jesus dirigir-se pelo menos cinco vezes, e os discursospreponderam sobre os fatos. Além disso, os três primeiros nos referem muitas vezes os mesmos fatos namesma ordem e até mesmo com idênticas palavras. Esta particularidade mereceu-lhes dos críticos adenominação de "Evangelhos sinóticos". A tamanha semelhança correspondem, porém, de outra parte,divergências assaz notáveis, que dão a cada um dos Evangelhos a fisionomia própria. De tudo isso o leitorencontrará confirmação com uma leitura atenta e comparativa dos sinóticos ou mesmo depois que comeles se familiarizar. Trata-se agora de explicar, ao mesmo tempo, semelhanças e disse-melhanças com umasentença harmônica sobre a origem dos Evangelhos e relações mútuas. Ê a chamada "questão sinótica". Hádois séculos apresentaram-se várias e discordantes soluções, sem ter-se chegado a uma sentençacomumente aceita. A seguinte, que leva em conta todos os dados do problema, inclusive os testemunhoshistóricos dos santos Padres, vai-se firmando sempre mais nos meios católicos.Ao Evangelho escrito precedeu o Evangelho pregado, por um período de cerca de vinte anos, durante osquais a vida de Jesus, exposta nas instruções ou catequeses dos apóstolos, foi assumindo, pela escolha eorganização do material, um esquema determinado e uniformemente repetido. Formou-se deste modouma tradição oral, que serviu de base aos escritores. Com essa tradição, confirmada, enriquecida pelaprópria experiência pessoal, Mateus compôs o seu Evangelho em aramaico. Transplantado para Roma porS. Pedro, que já na Palestina fora o seu mais eficaz formador, esse esquema de catequese oral foiliteralmente consignado por S. Marcos, em língua grega. Nessa mesma Roma, pelos anos 60-61, senãoantes, S. Lucas deve ter conhecido bem esse Evangelho grego, e serviu-se dele para escrever o seuelaborado, para o qual consultou fontes orais e escritas (Lc 1,1-4). Tendo-se propagado not Oriente delíngua grega o Evangelho de S. Marcos, dele se serviu também aquele que, qualquer que tenha sido (vejaacima), traduziu para o grego o Evangelho aramaico de S. Mateus, dando-nos, deste modo, o textocanónico do primeiro de nossos Evangelhos. Resta explicar, para dar uma razão de todos os acordos edesacordos, as coincidências, mesmo verbais, entre Mateus e Lucas, nas passagens em que Marcos nadatem que lhes corresponda. Para essas, não parecendo verossímil que Lucas tenha conhecido Mateus emgrego (pense-se, por exemplo, na história da infância e na genealogia de Jesus, tão diversas nos respectivosEvangelhos), autores católicos são inclinados a postular uma fonte comum escrita.
  • INTRODUÇÃO A MARCOSO autor do segundo Evangelho é Marcos. Unânime é o acordo sobre este ponto, não havendo notasdiscordantes nem mesmo da parte dos críticos mais radicais. Tão claro e unânime é o sufrágio da tradição,que remonta, com os mais autorizados testemunhos das Igrejas em peso, até aos últimos anos do século I,à primeira geração cristã pós--apostólica.Outro ponto certo e admitido por todos: assim como Marcos foi colaborador de Pedro na pregação doEvangelho, foi também o porta-voz e o intérprete autorizado na elaboração do Evangelho e transmitiu-nos,por meio desse texto, a catequese do príncipe dos apóstolos, tal qual ele a ensinava aos primeiros cristãos,principalmente da Igreja de Roma. Sobre isso também temos o testemunho claro e preciso da tradição.Um fragmento de Papias, bispo de Hierápolis, na Frigia, pelos anos 110--130, conservado por Eusébio nasua História Eclesiástica (liv. III, fim), afirma expressamente, referindo-se às declarações do presbíteroJoão: "Eis o que dizia o presbítero: — Marcos, tendo sido intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, não,porém, de modo ordenado, tudo o que recordava das coisas que o Senhor disse ou fez". O primeiro elo datradição não é, portanto, Papias, e sim o presbítero João, que, segundo os melhores críticos, deve-seidentificar com o apóstolo S. João. Outros elos dessa tradição temo-los nos testemunhos de Irineu, Justino,Clemente Alexandrino, Tertuliano, Origines etc., que nos relatam o pensamento autêntico das Igrejas dosprimeiros séculos.Nos Atos dos Apóstolos o futuro evangelista é chamado ora João Marcos (12, 12-25; 15,37), ora João(13,5.13), ora simplesmente Marcos (15,39), pois nessas passagens trata-se sempre da mesma pessoa,a qual, segundo um costume então em voga na Palestina, tinha, além do nome judaico, um nome greco-romano, como, por exemplo, o grande Apóstolo dos gentios, que se chamava Saulo e Paulo.Marcos devia pertencer a família bastante rica e de grande ascendente na comunidade cristã de Jerusalém.Com efeito, em sua casa "onde várias pessoas se haviam reunido para orar" (At 12, 12), refugiou-se oapóstolo Pedro quando o anjo o libertou do cárcere de Herodes. Pretendem alguns deduzir disso que acasa de Marcos deve-se identificar com o cenáculo.Marcos era primo de Barnabé (Col 4,10), levita, natural de Chipre e, quando este, juntamente com Paulo,foi designado pelos irmãos da comunidade de Antioquia para levar as esmolas à Igreja de Jerusalém, navolta levou consigo Marcos, para lhe servir de auxiliar (At 13,5) no labor da evangelização. Efetivamente,Paulo e Barnabé o levaram como colaborador na primeira viagem apostólica. Mas ao chegarem a Perga, naPanfília, Marcos separou-se dos dois missionários e achou melhor voltar a Jerusalém. Esta fraqueza einconstância de caráter não agradaram a Paulo, que se recusou a levar Marcos como companheiro nasegunda viagem missionária, pelo que o próprio Barnabé, separando-se de Paulo, foi com Marcos para ailha de Chipre, enquanto Paulo e Silas rumaram primeiro para a Síria e para a Cilicia e depois para a Grécia.Deste modo, por disposição providencial de Deus, a boa-nova difundiu-se mais largamente.Aquela nuvem passageira não diminuiu e muito menos rompeu as relações fraternas entre os doisapóstolos. Com efeito, Marcos foi depois colaborador fiel de Pedro e de Paulo. Este escrevia, de Roma,onde se achava prisioneiro, aos fiéis de Colossas (4,10): "Saúda-vos Marcos, primo de Barnabé"; e aFilemon: "Saúda-te Marcos, meu colaborador" (v. 24). Estava, pois, Marcos, nessa época, por volta do ano61-62, com Paulo. Alguns anos mais tarde, pelo ano 63-64, ele cuidava da evangelização juntamente comPedro, o qual escrevia de Babilônia ( — Roma) na sua primeira carta (5,13): "Saúda-vos meu filho Marcos",palavras que nos deixam crer que Marcos recebeu de Pedro o batismo.Deve ter deixado Roma antes da perseguição de Nero} no ano 64, pois quando Paulo aí esteve para asegunda prisão, Marcos não estava. De fato, na sua segunda epístola a Timóteo (4,11) Paulo pede-lhe quevenha a Roma e traga Marcos consigo.Antigas tradições muito autorizadas atestam que nos anos seguintes Marcos evangelizou o Egito e fundou aIgreja de Alexandria, onde morreu mártir por Jesus Cristo.Em Roma, Marcos escreveu o Evangelho, como no-lo confirma a tradição representada por Papias, Irineu,Clemente de Alexandria, Tertuliano e outros, não para os judeus, e sim para os cristãos da Igreja romana,convertidos do paganismo. Segundo Clemente de Alexandria, ele escreveu a pedido de muitos cristãos quetinham ouvido a pregação de Pedro (cf. EUSÉBIO, História Eclesiástica, Vl, 14,6). Essa notícia encontraconfirmação evidente em não poucas indicações, resultantes do exame interno do segundo Evangelho.Efetivamente, Marcos propõe-se como fim demonstrar que Jesus é verdadeiro Filho de Deus, e o fazespecialmente com a narração de muitos milagres que ele operou, sinais evidentes de que é o senhor
  • supremo da natureza, dos elementos, da vida, que tem poder para ler nos corações e no livro do futuro. Nãoinsiste sobre o seu caráter de Messias, nem cita as antigas profecias que em Jesus tiveram a suarealização, com exceção de uma só vez (1,2-3). Não relata longos discursos de Jesus nem suasdiscussões com os fariseus, nem as questões relativas ao valor da lei e ao espírito dos fariseus, coisasessas todas que não teriam impressionado o espírito dos seus leitores. Usa, porém, freqüentemente, degrecismos e traduz algumas expressões aramaicas; explica aos destinatários do seu Evangelho algumasindicações geográficas da Palestina, usos e costumes próprios dos judeus. Entre os evangelistas é ele oúnico a lembrar que Simão de Cirene era pai de Alexandre e de Rufo, membros da comunidade cristã deRoma (cf. Rom 16,13). Indícios todos estes bastante persuasivos de que o segundo Evangelho foi escrito,como afirma a tradição, em Roma, com referência particular aos cristãos romanos convertidos dopaganismo.A composição do segundo Evangelho deve ser colocada antes do ano 70, ou melhor, antes do ano 63,época em que já tinha sido publicado o Evangelho de Lucas, o qual, como já admitem também os críticosacatólicos, depende de S. Marcos. Ora, sabemos pela tradição, como foi dito ao falarmos do Evangelho deS. Mateus, que, em ordem cronológica, este Evangelho ocupa o primeiro lugar, e que teria sido escrito,provavelmente, entre os anos 50 e 54. Podemos, portanto, afirmar que Marcos escreveu o seu Evangelhodepois do ano 54 e antes do ano 61, no período em que ele devia encontrar-se em Roma, junto com oapóstolo Pedro, como seu auxiliar na fundação da Igreja de Roma.Eis um resumo esquemático do Evangelho de Marcos:Introdução. Preparação para a vida pública de Jesus (1,1-13). Pregação de João Batista (1,1-8); batismode Jesus; tentação no deserto (1,9-13).I parte - Ministério público de Jesus (1,14-10,52).1. Ministério na Galiléia. Inauguração da pregação de Jesus (1,14-45). Conflitos com os escribas e osfariseus (2,1-3,6). Milagres de Jesus; escolha dos apóstolos; parábolas (3,7-4,43). Outros milagres eepisódios do ministério de Jesus na Galiléia (4,35-7,23).2. Viagens de Jesus fora da Galiléia. À região de Tiro e de Sidônia (7,24-30); à Decápole (7,31-8,26);à região de Cesaréia de Filipe (8,27-9,29); volta à Galiléia e viagem a Jerusalém 9,30-10,52).II parte - Paixão e glorificação de Jesus (11,1-16,20).Ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém (11,1-11). Conflitos com os fariseus (11,12-12,44). Predição dadestruição de Jerusalém, e do juízo final (13). Paixão e morte (14,1-15,47). Glorificação de Jesus (16).Por este sumário pode-se notar uma característica do segundo Evangelho: a brevidade.Além disso, outra característica do Evangelho de Marcos ê a vivacidade intuitiva da narração. Seuvocabulário é mais pobre e restrito; o estilo, monótono e descuidado, reflete o modo de pensar e deexpressar-se próprios de um oriental simples e rude, bem longe da riqueza de linguagem e da perfeição doperíodo elaborado do grego clássico. A narração, entretanto, ê viva, colorida, pitoresca até nos mínimosparticulares e faz os acontecimentos reviverem ante os olhos do leitor, quais os tinha tantas vezes ouvido opróprio Marcos dos lábios do apóstolo Pedro. Nisto está a explicação da característica do segundoEvangelho. Marcos apenas reproduz e retrata a partir do natural a história evangélica, revivida e descrita poruma testemunha ocular, que tomou parte nela e que a tinha sempre presente.
  • INTRODUÇÃO A LUCASO Evangelho de S. Lucas ocupa o terceiro lugar entre os Evangelhos canônicos, e isso em ordem de lugar ede tempo também, segundo a tradição mais certa. As poucas notícias que dizem respeito à vida desteevangelista tiram-se sobretudo dos Atos dos Apóstolos, escritos por ele.Nascido em Antioquia, segundo uma antiga e autorizada tradição recolhida por Eusébio (Hist. Ecles., III, 4-6), de família pagã, grego de estirpe e por educação, possuía, além do domínio da língua grega queaprendera na infância, também uma boa cultura, como se pode ver pelos seus escritos, dedicando-se àprofissão de médico, como no-lo atesta S. Paulo (Col 4,14). Conheceu e abraçou a religião de Cristo, talvezpor obra dos primeiros pregadores do Evangelho em Antioquia (At 11,19-24).Com S. Paulo, que jamais diz tê-lo gerado para Cristo, encontramo-lo, pela primeira vez, em Trôade, nasegunda viagem missionária do grande Apóstolo, que então (pelo ano 50 d. C.) estava para fazer atravessia da Ásia, com destino à Grécia. Daí por diante, esteve quase continuamente ao seu lado(executando, nas várias ausências, missões confiadas pelo próprio Paulo), qual discípulo afeiçoado ecolaborador zeloso no ministério sagrado da palavra. "Somente Lucas está comigo", escreve tristemente oApóstolo, prisioneiro pela segunda vez, em Roma, na 2? Epístola a Timóteo (4,11) que é como que o seutestamento espiritual. Não se sabe pois com certeza onde nem até quando o evangelista viveu depois domartírio de S. Paulo.O próprio Lucas diz-nos (1,3) ter realizado indagações e ter recolhido informações a respeito dos atos e daspalavras de Jesus, justo dos que os haviam presenciado. Dentre esses informantes, sobretudo nosprimeiros capítulos do seu Evangelho, pode-se ouvir ainda a voz suave da própria mãe de Jesus. Mas oEvangelho de S. Lucas recebeu de S. Paulo, senão o primeiro impulso, certamente sua característica: auniversalidade da salvação, as portas da salvação abertas aos gentios, a inexaurível misericórdia divina, operdão dos pecados, a oração e a perseverança são os temas que de mais relevância se revestem nesteEvangelho, que, pela suavidade de afetos de que ê impregnado e péla graça da expressão, é de todos omais atraente.É também sua especialidade o prólogo de sabor clássico, com a dedicatória a um ótimo cristão de nomeTeófilo e a disposição peculiar da matéria, como se pode ver pelo sumário abaixo, no qual nos estãoindicados, em caracteres normandos, as partes peculiares de Lucas.Prólogo. - Motivo, modo e finalidade que o levaram a escrever o Evangelho (1,1-4).I parte - Infância e vida privada de Jesus (1,5-2,52).Um anjo anuncia o próximo nascimento do Precursor (1,5-25). O anjo anuncia a Maria o nascimento doSalvador, Jesus (1,26-38). Maria vai visitar Isabel (1,39-56). Nasce o Precursor e recebe o nome de João(1,57-80). Nasce e é circuncidado o Salvador (2,1-21). Jesus é oferecido no templo na purificação de Maria(2,22-39). Jesus fica perdido e é encontrado no templo (2,40-50). Sua vida oculta em Nazaré (2,51-52).II parte - Vida pública de Jesus (3,21). A preparação (3,1-4,3): João, o Precursor, prega o batismo depenitência (3,1-19). Jesus (sua genealogia, 3,23-28) é batizado por João, retira-se para o deserto e étentado pelo demônio (3, 21-4,13).O ministério: pregação e milagres (4, 14-21,38) em três regiões distintas:1. Na Galiléia (4,14-9,50), em três fases:A) Até à escolha dos apóstolos (4,14--6,11). Sermão infrutífero e perigo que corre em Nazaré (4,14-30);pregação e curas de doentes em Cafarnaum (4,31--44); pregação feita de dentro da barca de Pedro epesca milagrosa (5,1-11); cura do leproso (5,12-16) e do paralítico (5,17-26); o chamamento do publicano(Levi-Mateus), nova vida e novos costumes (5,27-39); observância do sábado (6,1-11).B) Até à missão dos apóstolos (6,12--8,56). Jesus escolhe doze e chama-os de apóstolos (6,12-16);profere-lhes o sermão ou discurso do monte (6,17-49); cura do servo do centurião (7,1-10); ressuscita o filhoda viúva de Naim (7, 11-17); recebe os discípulos de João, do qual faz o elogio (7,18-35); recebe e louva apecadora arrependida (7,36-50); as piedosas mulheres que o seguem (8,1-3); parábola do semeador (8,4-18); os parentes de Jesus (8,19-21); a tempestade acalmada (8,22-25); curas de endemoninhados (8,26-39), da hemorroíssa (8,40-48); ressuscita a filha de Jairo (8,49-56).
  • C) Até à partida da Galiléia (9,1-50). Jesus envia os apóstolos a pregar e a curar os doentes (9,1-9); compoucos pães sacia 5000 pessoas (9,10-17); responde a Pedro, (que o reconhece como Messias)predizendo a própria paixão e recomendando a abnegação de si mesmo (9,18-27); transfigura-se no monte(9, 28-36); cura um menino possesso (9,37-42); dá lição de humildade e de moderação (9,43-50).2. Em viagem para Jerusalém, na Peréia (9,51-19,28). Jesus envia os discípulos na frente e dá-lhesdiversas instruções (9,51-10,24); parábola do bom samaritano (10,25-37); em casa de Marta e Maria (10,38-42); força da oração (11,1-13); o poder de expulsar demônios (11,14-26); a verdadeira bem-aventu-rança(11,27-28); o sinal de Jonas (11, 29-36); censura os fariseus e os escribas (11,37-54); advertências àsturbas contra a vanglória, o respeito humano, a avareza, a solicitude excessiva dos bens temporais (12,1-34); vigilância (12,35-48); sinais e tempo para fazer penitência (12,49-13,9); curas em dia de sábado, o reinode Deus e sua obtenção (13, 10-14,24); disposições para seguir a Jesus (14,25-35); alegria por um pecadorconvertido (15,1-10); parábola do filho pródigo (15,11-32); do feitor infiel (16,1-18); do rico glutão (16,19-31),outros avisos (17,1-10); cura dos dez leprosos (17,11-19); preparação para a vinda do reino de Deus (17,20-37); parábolas do juiz e da viúva (18,1-8); do fariseu e do publicano (18,9-14); condições para entrar noreino de Deus (18,15-30); Jesus em Jericó prediz sua paixão (18,31-34); cura um cego (18,35-43); entra emcasa do publicano Zaqueu e converte-o (19, 1-10); parábola dos servos e das dez minas (19,11-28).3. Em Jerusalém (19,29-21,28). Jesus entra festivamente em Jerusalém (19, 2940) e chora sobre sua sorte(19,41-44); expulsa os mercadores do templo (19,45-48); responde às queixas dos invejosos (20,1-8);parábolas dos maus vinhateiros (20,9-19); o tributo a César (20,20-26); e ressurreição dos mortos (20,27-40); Davi e Cristo (20,21-44); contra a vanglória (20,45-47); o óbolo da viúva (21,1-4); Jesus prediz adestruição do templo e de Jerusalém (21,5- I 24) e, aludindo ao fim do mundo (21, 25-28), exorta à vigilância(21,29-38).III parte - Paixão e ressurreição de Jesus (22-24).Nesta parte são especiais a Lucas: a primeira distribuição do cálice na ceia pascal (22,15-17); a discussãoentre os apóstolos por causa da promessa e da missão confiada a Pedro (22,24-32); as duas espadas(22,35-38); o suor de sangue no horto (22,43-44); o olhar de Jesus a Pedro (22,61); o conciliábulo damanhã (22,66-71); Jesus no tribunal de Herodes (23,6-12); suas palavras às piedosas mulheres (23,27-31);o bom ladrão (23,39-43); aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús (24,13--35); a ascensãode Jesus ao céu (24, 44-53).Que o médico Lucas, companheiro de S. Paulo, seja o autor deste Evangelho, não pode haver dúvidanenhuma, pelo testemunho constante e unânime de todos os antigos, quer aqueles dos manuscritos ouversões do texto, quer os dos escritores de todos os quilates, tanto hereges (como Marcião) quantocatólicos, testemunhos estes confirmados pelo exame intrínseco deste Evangelho. De fato, como obra deum grego de nascimento, ele não contêm (caso único entre os Evangelhos) nenhuma palavra aramaica,nem mesmo o comuníssimo "rabi", e entre todos os escritos do Novo Testamento (exceção feita da Epístolaaos Hebreus) é o que tem a locução mais conforme ao gênio da língua grega.Escreveu Lucas o seu Evangelho antes dos Atos dos Apóstolos, que são como que a continuação daquele(At 1, 1) e, por isso, provavelmente não só antes da morte de S. Paulo (ano 67), que nos Atos é ignorada,mas também antes do fim da prisão do Apóstolo (ano 63), com a qual se encerra esse último livro. Emsuma, por volta do ano 60.
  • INTRODUÇÃO A JOÃOO quarto Evangelho, pela feição particular que o caracteriza, afasta-se dos Evangelhos sinóticos. Seu fimprincipal, como o nota o próprio autor (20,31), é fazer ressaltar a divindade de Cristo, e para tal fim convergemtanto a elevação dos discursos, reproduzidos com os mesmos milagres narrados e o prólogo admirável, que serefere ao "Verbo que se fez carne, e nós vimos a sua glória como de filho unigênito do Par (1,14).Por causa desse caráter transcendente que o reveste, os antigos Padres chamaram o quarto Evangelho comum termo próprio: Evangelho espiritual; os gregos, por sua vez, deram a João o título de Teólogo.Não é que a figura de Jesus nele delineada seja diferente da que dele traçam os sinóticos, pois, ainda que oquarto Evangelho realce mais o aspecto divino, não se descuida do seu aspecto humano e aquele seu Jesuscombina perfeitamente em tudo com o dos sinóticos.Da leitura de muitas de suas páginas, como, por exemplo, de alguns milagres como a cura do cego denascença, a ressurreição de Lázaro etc., escritas com tão admirável simplicidade e vivacidade de colorido, querevelam a testemunha ocular, surge bela, eloqüente a figura humano-divina de Jesus, todo bondade emisericórdia, como o dos sinóticos. Aí encontramos identificada a doutrina com as mesmas verdades e osmesmos preceitos, ainda que mais desenvolvida e mais elevada. Ê que cada um dos evangelistas escolheu enarrou o que da vida e dos ensinamentos do Mestre interessava ao seu objetivo, sem pretender esgotá-lo sobtodos os aspectos.Compare-se o seguinte quadro do quarto Evangelho com os que apresentamos nos três precedentes estudos.Prólogo. O Verbo divino que se faz carne (1,1-18).1-parte - Jesus manifesta sua divindade e é reconhecido pelos homens de boa vontade (1,19-4,54).Pregação de S. João Batista e seu testemunho a respeito de Jesus (1,19-35); primeiros discípulos de Jesus(1,36-51).Primeiro milagre de Jesus nas bodas de Caná (2,1-12). Em Jerusalém, Jesus purifica o templo (2,13-22); fazmilagres e muitos crêem nele (2,2325); instrui Nicodemos (3,1-21). Na Judéia com os discípulos, quebatizam; novo testemunho de João Batista (3,22-36).Colóquio com a samaritana (4,1-42) e volta à Galiléia; cura o filho de um oficial (4,43-54).II-parte - Oposição dos judeus à pregação de Jesus (5-12).Em Jerusalém: cura do paralítico (5, 1-9); os judeus são pela observância do sábado (5,10-16). As ações deJesus, Filho do Pai (Deus) e tríplice testemunho em seu favor (5,17-47).Na Galiléia, Jesus multiplica uns poucos pães para 5.000 homens (6,1-15) e em Cafarnaum profere umsermão às turbas sobre o pão que desce do céu (promessa da eucaristia; 6,16-60); defecção de muitos deseus discípulos (6, 61-7,1).Em Jerusalém, na festa dos Tabernáculos; pregação no templo e hostilidade dos judeus (7,2-52); acusação eabsolvição da mulher adúltera (7,53-8,11). Jesus é a luz do mundo (8,12-20), o Salvador e Filho de Deus(8,21-59). Cura do cego de nascença e irritação da oposição (9). O bom pastor (10,1-18). Dissensões entreos judeus (10,19-21).Em Jerusalém, na festa da Dedicação (10,22-39). Na Peréia (10,40-42), Jesus ressuscita Lázaro (11,1-46);os judeus deliberam fazê-lo morrer (11,47-57). A ceia em Betânia, seis dias antes da Páscoa (12,1-11).Ingresso triunfal em Jerusalém (os Ramos: 12,12-19); pressentimento da paixão (12,20-28); último apelo àf é (12,29-36). Causas da incredulidade dos judeus (12,37-50).III-parte - Paixão, morte e ressurreição de Jesus (13-21).Ultima ceia: Lava-pés (13,1-20); saída de Judas (13,21-32); longo sermão após a ceia (13,33-16,33);oração de Jesus ao Pai (17).No horto, Jesus é capturado (18,1-12), levado a Anás e depois a Caifás, é negado por Pedro (18,13-27).Jesus no pretório de Pilatos; primeiro interrogatório, flagelação e coroação de espinhos (18. 28-19,3).Segundo interrogatório e condenação (19,4-16).No Calvário: crucifixão e morte (19, 17-30); golpe de lança no lado de Jesus e sepultura (19,31-41);aparições de Jesus ressuscitado: à Madalena (20,1-
  • 18); aos discípulos, na ausência de Tomé (20,19-23); ainda aos discípulos, com Tomé (20,24-31); às setepessoas perto do lago de Tiberíades (21,1-14). Confirmação do primado a Pedro (21,15-19). Destino everacidade do evangelista (21, 20-25).Procurou o autor conservar-se anônimo, mas ocultou seu nome sob um véu tênue e transparente, que se intuicom toda a facilidade. Com efeito, por um exame atento resulta que o autor é judeu, que conhece, até mesmonos mínimos particulares, as instituições judaicas e os acidentes topográficos da Palestina e de Jerusalém, notempo de Cristo.Desse exame resulta ainda ser o escritor um judeu de origem, que, escrevendo em grego vulgar, revela-sejudeu no estilo, no desenrolar dos períodos, em muitas locuções próprias das línguas semíticas, no paralelismoque usa quando se lhe apresenta a ocasião e na modalidade mesma dos conceitos. Essas características —cumpre notá-lo — oferecem-nos valioso argumento para afirmar a unidade do quarto Evangelho, sem eruditosacréscimos de vários elementos hauridos de fontes diversas e também sem descontinuidade de pensamento ede finalidade, como pretenderam certos críticos, guiados por seus preconceitos apriorísticos.Resulta outrossim ser o autor um judeu que afirma com insistência, para garantir a verdade do que narra, tersido testemunha ocular dos fatos (1,14; 19, 35), como o afirma também o autor da primeira epístola atribuídaa S. João, a qual é como que a introdução e o complemento do seu Evangelho (cf. 1Jo 1, 1-3).Resulta, além disso, que o autor é um discípulo de João Batista, que se tornou um dos primeiros discípulos deJesus; que pertence ao colégio apostólico e que foi o discípulo predileto de Jesus. Coisa estranha: ele jamaisfala dos dois filhos de Zebedeu, Tiago e João. Ora, dos três discípulos que Jesus amava mais, o autor doquarto Evangelho não pode ser Pedro, pois mais de uma vez se percebe que é distinto dele. Tiago, irmão deJoão, também não pode ser, pois foi condenado à morte por Herodes Agripa (no ano 43).Todos os dados apresentados verificam-se com exatidão no apóstolo S. João, confirmando plenamente a vozautorizada da tradição. Aos testemunhos implícitos, isto é, às citações anônimas do quarto Evangelho, que seencontram nalguns Padres apostólicos e que remontam aos primeiros decênios do século II, poucos anos apóster sido escrito, unem-se os testemunhos explícitos das várias Igrejas do Oriente e do Ocidente, representadaspor nomes e documentos autorizados, como Papias, Polícrates, Irineu, Justino, Teófilo de Antioquia, oFragmento muratoriano, para falarmos somente dos mais antigos.Esse conjunto de testemunhos implícitos e explícitos ê unânime em afirmar que o quarto Evangelho foi escritopelo apóstolo João, o discípulo predileto de Jesus.Pela leitura do quarto Evangelho vemos que João já supõe conhecida pelos seus leitores a vida de Jesus,antes narrada pelos sinóticos e que ele quer completar o que aqueles escreveram. Quando o escreveu, ocristianismo já se achava amplamente difundido, de modo especial no império romano, e o clima religioso daIgreja bastante mudado em relação ao tempo em que os evangelistas escreveram os sinóticos.Na Ásia Menor tinham começado a pulular os multiformes erros do gnosticismo, que negavam a divindade deCristo e sob o rótulo aparente de ciência superior, tentavam insinuar-se nas comunidades cristãs. Paracombater esses erros sedutores e estabelecer as bases irrefragáveis da divindade de Jesus Cristo, Joãoescreve então o seu Evangelho. Com essa finalidade, ele narra muitos discursos de Jesus e alguns milagresque projetam mais luz sobre a divindade do Salvador. Não nos deve causar admiração o fato de Jesus terdirigido discursos mais elevados aos escribas e aos fariseus do que os que dirigiu às turbas da Galiléia, e queesses discursos — não referidos pelos sinóticos por não se enquadrarem com o seu escopo — proferidos àmaneira de perguntas e respostas, com sentenças curtas e pejadas de conceitos, como era então costumefazer-se entre os rabinos, tenham ficado indelevelmente impressos na mente de João, que os meditavadiariamente e repetia com freqüência, em suas catequeses aos primeiros cristãos. Reproduziu-os, por isso,fielmente no seu Evangelho, pelo menos quanto à substância, e o mais das vezes também com as própriaspalavras que o Mestre pronunciou.
  • INTRODUÇÃO AOS ATOS DOS APÓSTOLOSO título que este livro de Atos (sem artigo) dos Apóstolos (de todos os apóstolos, em geral) tem nos manuscritos do textooriginal exprime, se bem examinado, exatamente o seu conteúdo. Seus protagonistas são os dois príncipes dos apóstolos:Pedro, nos primeiros doze capítulos, e Paulo, nos dezesseis restantes. Contudo, quer nos primeiros, quer nos segundos,entrelaçam-se também ações de outros apóstolos e tanto Pedro como Paulo (embora este menos visivelmente) agem,mais do que à primeira vista pode parecer, em função do colégio apostólico, um como cabeça, outro, como pioneiro.Para melhor esclarecimento, será de muita utilidade o sumário seguinte, que apresenta a unidade orgânica compacta dolivro e o concatenamento das partes entre si, convergindo para o objeto indicado no título, e que correspondem às fasesda propagação do Evangelho.Introdução (1,1-26). Proêmio em que o autor se reporta ao seu Evangelho como para continuá-lo (1-3). Jesus dá àsúltimas instruções aos apóstolos e sobe ao céu (4-11); estes retiram-se com os outros fiéis para o cenáculo à espera doEspírito Santo (12-14); elegem Matias em substituição a Judas (15-26).1a parte (2,1-8,3). A mensagem evangélica em Jerusalém.1. Descida do Espírito Santo e inícios da Igreja (2,1-47).2. Cura do paralítico, lutas de Pedro e dos apóstolos contra o Sinédrio e primeira perseguição (3,1-4,31).3. Progresso e vida interna da Igreja, como efeito da obra e dos prodígios dos apóstolos. Ananias e Safira. Segundaperseguição (4,32-5,42).4. Eleição dos diáconos helenistas; missão de Estêvão e seu martírio; terceira perseguição com a conseqüente dispersãodos fiéis (6,1-8,3).II parte (8,4-12,25). A mensagem evangélica na Judéia e na Galiléia, na Samaria e entre os -gentios, até Antioquia.1. Missão de Filipe (confirmada por Pedro) entre os samaritanos e com o eunuco etíope (8,4-40).3. Missão de Pedro na Judéia e entre os gentios, em Cesaréia (9,31-11,18).4. A Igreja entre os gentios na Fenícia, Síria e Antioquia (11,19-30).5. Quarta perseguição, morte de Tiago, prisão e libertação de Pedro, morte do perseguidor (12,1-25).III parte (13,1-28,31). A mensagem evangélica no mundo greco-romano.1. Primeira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Menor (13,1-14,27).2. Concílio de Jerusalém, que sanciona a independência em face da lei para os gentios (15,1-34).3. Segunda viagem apostólica de Paulo: na Macedônia e na Grécia (15, 35-18,22).4. Terceira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Proconsular, na Grécia e na Macedônia, até ao Epiro (18,23--21,16).5. Prisão de Paulo em Jerusalém e mensagem ao Sinédrio (21,17-23,11).6. Prisão em Cesaréia e mensagem para Félix, Festo e Agripa (23,12-26,32).7. Viagem até Roma, prisão e mensagem aos judeus e aos gentios (27,1-28,31).Importância histórica e apologéticaGrande é, sem dúvida, a importância do livro dos Atos na história primitiva das origens cristãs, como transparece já dosumário acima. Traça Lucas um esboço compendioso, é certo, mas completo no seu gênero, da Igreja primordial na suahierarquia e na vida do dogma, da disciplina e do culto, como se desenrolava na primeira geração cristã, ainda repleta darecordação imediata dos ensinamentos, das obras e dos preceitos do Mestre divino. Temos assim, na vida e nopensamento dos primeiros seguidores de Jesus, o mais precioso reflexo e como que a contraprova da vida e dopensamento dele e de sua mensagem de salvação, qual foi ouvida de sua boca e vivida pelos seus discípulos imediatos. Ê,portanto, decisivo o valor apologético dessas resultantes históricas, confrontando-se as duas interpretações contrárias, acatólica e a racionalista, sobre a vida e o ensino de Jesus. Se o retrato que S. Lucas nos apresenta da primeira geraçãocristã na vida da Igreja é autêntico, então são insustentáveis as posições negativas da crítica racionalista contra osobrenatural que se manifesta nos Evangelhos e nos Atos, e as suas pretensas afirmações sobre uma longa evolução daprimeira tradição cristã, em sucessivas fases e formas. Não resta outra solução senão afirmar que essa tradição continua
  • viva e imutável na duas vezes milenar tradição católica. Ê daí que surgem os acirrados ataques lançados pela correnteadversária contra a autenticidade e a veracidade histórica do livro dos Atos.Autor, valor histórico, finalidade e data do livroAs questões atinentes ao autor e ao valor histórico do presente livro acham-se interligadas de modo especial.Quanto ao autor, por ser, evidentemente, o mesmo que o do terceiro Evangelho (cf. Lc 1,1-4 e At 1,1), valem as mesmasrazões já aduzidas na introdução àquele Evangelho, para identificá-lo com S. Lucas. Acrescentamos, porém, aqui umaainda mais direta e de autoridade maior. A certa altura (15,10), o próprio autor entra em cena, narrando os fatos com um"nós", que o caracteriza como testemunha ocular e participante dos acontecimentos. E, deste modo, com verbos oupronomes na primeira pessoa se nos apresenta, de vez em quando, até ao fim. São as chamadas "seções do nós" (16,10-17;20,5-15;21,1--18;27,1;28,16), tão discutidas entre os críticos, seções nas quais, como o restante do livro, apresentamidênticas particularidades de vocabulário, de estilo, de composição, de expressões características, muitas vezes únicas noNovo Testamento. O autor da obra deve ser procurado entre os companheiros de S. Paulo, mencionados como tais nosAtos (por exemplo: 20,4) ou nas Epístolas do Apóstolo, entre os quais está Lucas (Col 4,14; 2Tim 4,11; Fim 24). Excluem-se, no entanto, todos os outros por se acharem ausentes dos acontecimentos narrados em algumas dessas "seções donós", e porque de nenhum outro se sabe que tenha escrito a narração da vida inteira de Jesus como fez o autor dos Atos(1,1), dedicando-a, além disso, a um mesmo "Teófilo".Lucas busca, portanto, os fatos que narra nos Atos, na própria experiência pessoal ou segundo o seu programa traçado(Lc 1,2), nos atores e espectadores dos fatos, fontes de primeira ordem e de credibilidade insuperável. Do mesmo valorsão também alguns documentos que ele insere textualmente na narração, como o "decreto apostólico" (15, 23-29) e acarta de Lísias (23-26-30) que são uma confirmação do seu escrupuloso cuidado com a exatidão. Essa rigorosa exatidão éconfirmada pelas inscrições recentemente trazidas à luz, até nos mínimos particulares, como quanto à nomenclatura dasautoridades municipais (asiarcas, em Éfeso, 19,31; politarcas, em Tessalônica, 17,6; estrategistas, em Filipos, 16,20; o"primeiro", em Malta, 28,7).A finalidade que Lucas se propõe aparece já, como foi indicado anteriormente no título da obra, mas ainda mais naspalavras de Jesus: "E me sereis testemunhas. . . até as extremidades da terra" (1,8). Narra Lucas, nos limites consentidospor um livro destinado ao uso da época, a propagação da Igreja e suas fases sucessivas até sua extensão à capital doimpério romano, através da obra daqueles que foram em todas as fases os seus principais artífices: os apóstolos Pedro ePaulo e seus colaboradores. Em nada revela-se Lucas tendencioso em seu modo de falar. Simples, ágil e compreensivo,deixa aos próprios fatos a incumbência de indicarem as conseqüências deles resultantes. De cada uma das páginas de suanarração transparece que a finalidade é simplesmente a de relatar os acontecimentos relacionados com a vida da Igreja einformar sobre a realização das disposições de Jesus a respeito da mesma Igreja, tudo a título de edificação e deinstrução religiosa, conforme o que o próprio Lucas afirma ao se dirigir ao Teófilo do seu outro livro, o terceiro Evangelho.Finalidade idêntica para destinatário idêntico. Fixa-se como data da composição dos Atos antes do fim da prisão de doisanos que S. Paulo sofreu em Roma, como se evidencia pela conclusão mesma do livro (28,30-31), isto é, nos anos 61-63.
  • INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLAS DE SÃO PAULOA parte mais importante e mais conspícua dos escritos apostólicos são as epístolas de S.Paulo, inclusive pelo volume do texto, pois, sozinhas, constituem mais da metade dessesescritos, mas sobretudo pela profundeza e vastidão de doutrina teológica e pelaabundância de ensinamentos morais de que estão repletas.São escritos ocasionais, como costumam ser precisamente as cartas; nasceram danecessidade que o Apóstolo sentiu de intervir com a pena onde não podia chegar com avoz, a fim de apaziguar litígios, dissipar dúvidas, aconselhar, aplicar remédio ainconvenientes, dirigir e iniciar ao bem, segundo as situações originadas pela vida internadas Igrejas por ele fundadas ou dependentes, de alguma maneira, da sua pregação. Masnessas contingências é tão grande a variedade de casos e sobretudo a abundância depensamentos e de afetos que afluem à mente e ao coração de Paulo, que se pode afirmarque nas páginas inspiradas do Apóstolo se expande toda a substância da doutrina e damoral cristã.Conforme o uso dos antigos escritores, S. Paulo não escrevia de próprio punho as suascartas, mas ditava-as a algum amanuense profissional de sua confiança. Pelo menos deuma (Rom 16,22) conhecemos o nome de quem a escreveu. Paulo punha, no fim, de seupróprio punho, a assinatura, com algumas palavras de saudação ou bênção. Em toda aantiguidade oriental, as cartas começavam sempre com a fórmula estereotipada: "Fulano[remetente] e beltrano [destinatário] saudações" (temos exemplo disso em At 23,26). OApóstolo seguiu o uso corrente, mas em lugar da saudação ordinária introduziu o augúriocristão: "graça e paz", repetido também no fecho, em lugar do vulgar " ;Passe bem", e deordinário adornado com o nome de Jesus Cristo.Do uso de ditar as cartas, que tomava tempo à reflexão, costumavam derivar defeitos decomposição de que um estilista como S. Jerônimo tão freqüentemente se desculpa. Estaé a causa, pelo menos parcial, da aspereza não rara do estilo de S. Paulo, não obstantesaiba ele manejar egregiamente a língua grega do tempo. A maior parte, porém, dessaaspereza (anacolutos, elipses, hipérbatos etc.) deve-se ao turbilhão das idéias que lheafluíam à mente e à profundidade e novidade dos pensamentos que buscavam umaexpressão própria. Nem sempre ê fácil a leitura dos escritos do grande Apóstolo, mascom o estudo paciente, ruminando-os demoradamente, tira-se-lhes em abundância osuco mais substancioso e ao mesmo tempo mais delicado.As cartas de S. Paulo são dirigidas, em primeiro lugar, às Igrejas ou pessoas segundo asquais são intituladas, mas ele próprio, o grande Apóstolo, já convidava à comunicaçãodessas suas cartas de uma Igreja para outra (Col 4,16). As trocas deviam ser freqüentesentre aquelas comunidades fervorosas que ele fundara. Destarte foram-se formandovárias coleções das epístolas paulinas, que acabaram confluindo no epistolário paulinoadmitido no cânon de todas as Igrejas e que chegou até nós. Esse cânon nãocompreende a totalidade das cartas que se originam do Apóstolo. Na 1Cor 5,9 há notíciasde uma epístola anterior, cujos vestígios se perderam totalmente; entre a primeira e asegunda carta aos mesmos coríntios, intercalou-se, como opinam autores de renome,outra ainda. Além disso, a epístola aos laodicenses, mencionada em Col 4,16 não seidentifica com a dos efésios (veja Introdução a esta), deve-se dizer que também essa seperdeu.
  • INTRODUÇÃO À EPÍSTOLA AOS ROMANOSEntre todas as epístolas que nos restam do apóstolo Paulo, esta, escrita aos romanos, ocupa no consensouniversal, o lugar mais eminente. Com ampla visão, com vigor de pensamento, de estilo, ele expõe nestaepístola o Evangelho de Cristo, que, já por longos anos, vem pregando em suas viagens missionárias pelomundo greco-romano: o fiel, seja pagão seja judeu, com a fé no Evangelho participa da justiça de Deus,justiça que nele vai crescendo sem cessar, tornando-se sempre mais perfeita (cf. 1,16).Desenvolve o Apóstolo a sua tese com demonstração progressiva e bem concatenada, na qual não procede àmaneira de mestre especulativo, frio e sistemático, e sim, na própria exposição doutrinal, revela o seu caráterardente, a sua aguda sensibilidade, o seu coração que vibra de entusiasmo por Cristo, a sua inteligênciaexuberante de idéias que fluem numa seqüência rápida e como que a se atropelarem. Nada há de mais pessoaldo que as epístolas de S. Paulo.Na Epístola aos Romanos não trava polêmicas, nem pretende refutar algum erro em particular ou combater oscostumeiros judaizantes, que lhe criavam obstáculos à pregação. Parte notável da comunidade cristã de Romacompunha-se de cristãos oriundos do paganismo. Muitos dentre eles, escravos ou libertos, eram de condiçãoservil. Alguns pertenciam a classes mais elevadas. Havia, outrossim, certo número de judeus convertidos.Paulo dirige-se, por esse motivo, de modo especial aos fiéis de proveniência judaica, mas com facilidade passade um a outro grupo.Dispôs a Providência que Paulo, quando prisioneiro, apelasse para César, na presença do governador Festo (At25,12), razão por que foi remetido para Roma, algemado, onde permaneceu durante dois anos completos,dando testemunho de Cristo (At 28,30-31). Dessa forma, teve ele, juntamente com S. Pedro, a honra de serfundador da Igreja de Roma.A Epístola aos romanos foi escrita em Corinto, como se pode concluir de muitos indícios, mesmo que se nãotome em conta o c. 16. Dirigira-se o Apóstolo para essa cidade, passando pela Macedônia, depois do levanteprovocado contra ele pelos ourives efésios (At 19,21--20,1). Encontrava-se, nesse tempo, já em preparativospara seguir a Jerusalém, a fim de levar as esmolas coletadas pelas Igrejas da Acaia e pelas da Macedônia, quese destinavam aos pobres daquela comunidade cristã. Deve-se, portanto, fixar como data para essa carta o fimda terceira missão apostólica e, com toda a probabilidade, os primeiros meses do ano 57, antes da Páscoa.Não obstante haja sido negada por alguns hiper críticos, a autenticidade manifesta da Epístola aos Romanos jánão comporta discussão, pois os argumentos extrínsecos, e intrínsecos são tantos, que sua demonstraçãoalcança plena evidência.SumárioIntrodução (1,1-17). Cabeçalho (1, 1-7). Paulo e a Igreja de Roma (1,8-15). Tema da epístola: a salvação paratodos consiste em ter fé no Evangelho (1, 16-17).I parte, dogmática (1,18-11,36).I. NECESSIDADE DO EVANGELHO PARA A JUSTIFICAÇÃO (1,18-4,25).1. Sem fé em Jesus Cristo não há salvação (1,18-3,20). Os pagãos, privados da fé, descambaram, por própriaculpa, para as mais abomináveis aberrações (1,18-32). Mas os judeus, ainda que se gloriem da lei, sãopecadores como os pagãos (2,1-16); transgridem a lei e não têm o espírito da circuncisão (2,17-29).Conseqüentemente, todos os homens, tanto pagãos como judeus, são pecadores (3,1-20).2. A justificação por meio da fé em Jesus Cristo (3,21-4-25). Quem crê, é justificado gratuitamente, sem asobras da lei (3,21-31). Essa verdade foi ensinada pela lei e pelos profetas. Exemplo de Abraão, justificado pormeio da fé, e não mediante a lei, nem pela circuncisão (4,1-25).II. FRUTOS DA JUSTIFICAÇÃO (CC. 5-8),1. Paz e reconciliação com Deus e esperança certa da glória futura (5,1-11), Adão, com sua desobediência, foicausa de pecado para todos (5,12-21).2. Libertação da escravidão do pecado mediante o batismo. Mortos para o pecado, devemos viver para Deus(c 6).3. Libertação da escravidão da lei, que era ocasião de pecado para o homem privado da graça, pois ela levavaa conhecer o mal, sem que proporcionasse a força para o evitar (c. 7).4. Filiação adotiva concedida por Deus e herança certa da vida eterna (8,1-30). Hino final ao amor de Cristo(8,31-39).III. PROBLEMA DA INCREDULIDADE DOS JUDEUS (CC. 9,11) .1. Tristeza do Apóstolo (9,1-5). Deus não falhou em suas promessas, nem pode ser acusado de injustiça (9,6-18). Há um mistério em sua maneira de agir, mistério que para nós é impenetrável. Deus é senhor de seusdons (9,19-29).2. Os judeus são responsáveis por sua reprovação, porque não quiseram compreender que a salvação está nafé em Jesus Cristo, anunciado através do Evangelho (9,30-10,21).3. A reprovação dos judeus é parcial e temporária (11,1-24); também eles hão de se converter, quando tiverchegado a seu termo a conversão dos pagãos (11,25-32). Hino à sabedoria, bondade e onipotência de Deus (11,33-36).II parte, moral (cc. 12,1-15,13).1. Deveres dos cristãos em suas relações recíprocas, fundadas sobre a vontade de Deus e reguladas por ele(c. 12).2. Deveres para com as autoridades (13,1-7). O mandamento da caridade, resumo de todos os deveres sociais(13, 8-10). Exortação à vigilância (13,11-14).3. Deveres para com os cristãos fracos na fé (14,1-15,13).Epílogo: Intenção de Paulo (15,14--33). Recomendações e saudações (16, 1-24). Doxologia final (16,25-27).
  • PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOSComo hábil general, o Apóstolo procura os pontos mais estratégicos de onde, como de centros, se pudesseirradiar a luz do Evangelho. Por isso, na sua segunda viagem missionária deixa Atenas, onde a vã e soberbasabedoria humana era refratária à pregação do cristianismo, e parte para Corinto.Corinto era a capital da província romana da Acaia. Isso devido à sua admirável posição, dominadora de doismares, às letras e às artes, e sobretudo ao comércio e às riquezas que para lá afluíram da Itália e da Ásia. Eracidade muito florescente e importantíssima, freqüentada, especialmente por causa do comércio, por gente detodos os países, de todas as raças e de todas as camadas sociais. Havia também numerosos judeus quetinham aí também, como em outras cidades, pelo menos uma sinagoga. Corinto era proverbialmente conhecidapor sua corrupção moral. Na Acro corinto, ao lado do culto de Isis e de Serápis, praticava-se o culto de VênusAfrodite, que tinha aí o seu templo. Mil jovens sacerdotisas, cortesãs complacentes, eram adidas ao serviço dadeusa do prazer.No meio dessa grande população tão variada, constituída sobretudo de escravos e da plebe, Paulo deu início àsua pregação, como costumava fazer, na sinagoga dos judeus, mas entrando em graves dissensões com eles,dirigiu-se aos gentios (At 18,6). Sua pregação foi coroada de grande êxito.Na terceira viagem missionária, o Apóstolo fixou sua residência particularmente em Éfeso, capital da provínciaromana da Ásia. Mas, como um pai solícito pelas comunidades cristãs que fundara, mantinha-se sempreinformado a respeito do seu estado, procurando ir ao encontro das suas dificuldades e mantê-las no fervorprimitivo. Haviam surgido divisões entre os cristãos de Corinto: partidos mais inclinados a um do que a outropregador do Evangelho.Entretanto, uma delegação da mesma comunidade de Corinto, composta de Estéfanas, Fortunato e Acaio, foi aÉfeso, a fim de pedir a Paulo a solução de vários casos de consciência (cf. 16,17, nota).Foi esse conjunto de circunstâncias que motivou a primeira Epístola aos coríntios.Nela Paulo trata dos mais variados argumentos, começando, na primeira parte, por corrigir os abusos, para, nasegunda, responder aos quesitos que lhe foram propostos. Mas como sempre costuma fazer, eleva-se dequestões particulares a princípios e motivos gerais e sublimes, aos fundamentos da religião, ou melhor, pode-se dizer que une quase todas as questões, embora tão disparatadas, com o fio de ouro da doutrina do corpomístico, do qual Jesus é a cabeça e os cristãos são os membros.A esta epístola conferem um interesse todo particular as preciosas notícias que nos oferece acerca da vida daIgreja apostólica a respeito da celebração do ágape e dos mistérios sagrados e a respeito dos donscarismáticos. Foi escrita em Éfeso, pouco depois das festas pascais (5,7), na primavera do ano 56, ou maisprovavelmente do ano 57, poucos meses antes de o Apóstolo deixar a cidade (cf. 16,8).SumárioSaudação augurai (1,1-3) e agradecimento a Deus pelos benefícios que lhes concedeu (1,4-9).I parte - reprovação dos abusos (1, 10-6,20).1. Partidos que se formaram com relação aos diversos pregadores do Evangelho (1,10-17). Paulo pregou adoutrina da cruz com simplicidade, em oposição à sabedoria humana, que é contrária à sabedoria divina (1,18-2,11); ele a anuncia aos perfeitos e aos espirituais, e não aos carnais (2,12-3,4). Os pregadores sãocolaboradores de Deus, dispensadores dos seus mistérios, sujeitos ao juízo divino (3,5-4,5). Exorta acorresponder generosamente às fadigas dos apóstolos e ao afeto paterno dele, Paulo (4,6-13), e anuncia oenvio de Timóteo e a sua própria ida (4,14-21).2. A tolerância para com o incestuoso: censura por esse procedimento e excomunhão do escandaloso (5,1-8);como proceder com os pecadores públicos (5,9-13).3. Os litígios entre os cristãos e o recurso aos tribunais pagãos (6,1-11).4. O vício impuro (6,12-20).
  • II parte - resposta â diversas questões (cc.7-15).1. Matrimônio e celibato: legitimidade do matrimônio e direitos dos esposos (7,1-11); indissolubilidade dovínculo conjugal (7,1-14); caso de dissolução (7,15-17); circuncisão e escravidão (7,18-24); virgindade eviuvez (7,25-40).2. As carnes imoladas aos ídolos: normas a serem seguidas, tendo-se em conta os fracos na fé, para evitartodo o escândalo (c. 8); é preciso saber renunciar às coisas lícitas, às quais se tem direito (c. 9), e evitar atosidolátricos (10,1-13); casos práticos (10,14-11,1).3. Ordem nas assembléias litúrgicas: as mulheres usem o véu (11,2-16); abusos a se evitarem na celebraçãodo ágape e dos mistérios sagrados (11,17-22); a instituição da eucaristia (11,23-34).4. Os carismas e seu uso: noções gerais sobre os carismas (12,1-30); a caridade é superior a eles (12,31-13,13); deve-se preferir o dom da profecia ao da glossolalia (14,1-25); regras que se devem seguir (14,26-40).5. A ressurreição dos mortos: certeza da ressurreição de Cristo, à qual está ligada indissoluvelmente a nossaressurreição (15,1-34); o modo da ressurreição explicado com analogias tomadas das coisas materiais (15,35-49); a transformação dos corpos não é só possível, mas necessária (15,50-58).Epílogo: o Apóstolo lembra a coleta pelos pobres de Jerusalém (16,1-4); anuncia seu projeto de uma viagemà Macedônia e à Grécia (16,5-12); recomendações particulares (16,13-18); saudações (16,19-20); assinaturaautografa e votos (16,21-24).
  • SEGUNDA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOSCerca de seis meses após a primeira Epístola aos coríntios seguiu esta segunda, ocasionada pela mudança de condições naIgreja de Corinto. Como transparece de um exame atento dos textos das duas epístolas, os acontecimentos ter-se-iamdesenrolado, com toda a probabilidade, da seguinte maneira:Tendo aparecido em Corinto inovadores judaizantes, contrários ao Apóstolo, lançam a agitação no seio dessa comunidade, ePaulo vai a Corinto, numa breve visita, a fim de restabelecer a paz (12,14; 13,1-2); essa visita deixa-lhe a alma amargurada poruma ofensa que um cristão faz à sua própria pessoa (2,5;7,12).Voltando a Éfeso, ele escreve aos coríntios (2,3-4.9;7,8.12) uma carta enérgica e severa, que se perdeu (não é a 1Cor, que écalma e tranqüila).Entrementes, envia Tito com a missão de restabelecer a paz na Igreja de Corinto e conseguir um relatório fiel do seu estado edos sentimentos dos cristãos para com ele. Sobrevindo inesperadamente o violento tumulto dos ourives de Éfeso contra ele (At19,23-40), Paulo parte e, antes do tempo que ele mesmo havia estabelecido, dirige-se para Trôade, onde marcara encontro comTito. Não o tendo encontrado aí, passa para a Macedônia, onde, finalmente, encontra Tito, que lhe transmite as maisconsoladoras notícias. Assim consolado, o Apóstolo reenvia Tito a Corinto, com a finalidade de organizar a coleta em favor dospobres de Jerusalém. Entrementes escreve, talvez de Filipos, no fim de sua terceira viagem missionária, no ano de 57, aprimeira e a segunda parte da segunda epístola, que possuímos.Serenara o céu em Corinto, mas ainda havia nuvens escuras, cheias de tempestade: os judaizantes, depois da partida de Tito,haviam retomado a sua campanha de acusações e de calúnias contra Paulo, a fim de o enxovalhar e tolher-lhe a autoridade. OApóstolo foi informado prontamente a esse respeito; retoma sua epístola e, numa terceira parte, ataca os seus adversários, osfalsos apóstolos, os ministros de satanás, como ele os chama, com o máximo vigor.Esta segunda epístola aos coríntios é a mais pessoal dentre as epístolas paulinas. Nela sente-se vibrar mais intensamente osdiversos sentimentos que agitam o espírito tão sensível de Paulo. "Paulo não escreveu nada de mais eloqüente, nada de maiscomovente, de mais apaixonado do que esta epístola. A tristeza e alegria, o temor e a esperança, a ternura e o desdém vibramnela com a mesma energia" (F. PRAT).Já na primeira parte encontram-se algumas amostras polêmicas contra seus adversários, aos quais ataca depois com todas asforças, na terceira parte, talvez por causa das notícias que recebera de Corinto enquanto ditava a carta, trabalho esse que deviadurar muitos dias ou mesmo várias semanas.Não existem, pois, razões bastante plausíveis para pôr em dúvida a sua integridade, como querem alguns críticos modernos, efazer da segunda Epístola aos coríntios um mosaico variegado, formado de várias cartas escritas pelo Apóstolo.A primeira Epístola aos coríntios faz--nos reviver grande parte da vida cristã da Igreja primitiva; a segunda é uma expressãoprática da vida do Apóstolo, inteiramente consagrada à causa de Jesus Cristo e ao bem dos seus fiéis, e movido unicamente pormotivos sobrenaturais.SumárioCabeçalho e saudação (1,1-2). Ação de graças a Deus pelas consolações que lhe concedeu, para poder consolar também osoutros (1,3-11).I parte - Apologia do próprio ministério (1,12-7,16).1. Paulo defende-se da acusação de mutabilidade e de inconstância, e de habilidade demasiado humana (1,12-2,17).2. Defende-se da acusação de arrogância e de orgulho, com a glorificação do ministério apostólico (3,1-6,10).3. Exorta a corresponder ao seu amor, a evitar os vícios dos gentios (6, 11-7,16).II parte - Disposições para a coleta (8,1-9,15).1. Motivos para se mostrarem generosos (8,1-15).2. Recomenda Tito e os demais delegados (8,16-24).3. Grandes benefícios provenientes da esmola (9,1-15).III parte - Defende-se de seus adversários (10,1-13,10).1. Responde à acusação de debilidade (10,1-11).2. Responde à acusação de ambição (10,12-18).3. Depois de ter pedido desculpas, vê-se constrangido a enumerar os seus títulos de glória (11,1-12,18).4. Apreensões e inquietações (12, 19-13,10).Epílogo: Recomendações, saudações, votos finais (13,11-13).
  • EPÍSTOLA AOS GÁLATASQuem são os gálatas? Quando foi escrita a Epístola aos gálatas? São duas questões conexas, discutidas ainda em nossos dias,sem que se lhes possa dar uma solução plena e evidente.No tempo de Paulo, a palavra Galácia tinha dois sentidos: 1º etnográfico, significando a Galácia propriamente dita, habitadapelos descendentes dos gauleses que na segunda metade do século III a.C. foram levados, na sua migração, até à Ásia Menor ehaviam fixado a sua sede nas regiões sitas entre a Capadócia e o Ponto; 2° administrativo, significando a província romana daGalácia que, além da Galácia propriamente dita, compreendia também várias regiões da Ásia Menor, ao norte da Paflagônia, eparte do Ponto, ao sul da Pisídia, a Licaônia e parte da Frigia.Quem são, portanto, os destinatários da carta aos gálatas? Os gálatas propriamente ditos? Ou os gálatas da província romana daGalácia? Ou ainda exclusivamente os da parte meridional?É certo que estes últimos, os meridionais, foram evangelizados por S. Paulo na sua primeira viagem apostólica, narrada comcerta amplitude em At 13, 13-14,25, mas sem alusão alguma à enfermidade a que se refere o próprio Paulo nesta epístola (Gál4,13). Nas narrações da segunda e da terceira viagem (At 15,35-21,15), não se diz sobre a Galácia, senão que Paulo"atravessou [ou percorreu; cf. 15,41] a Frigia e a região galática" (16,6; 18,23). Qualquer seja a amplitude ou restrição que sequeira emprestar a essa expressão geográfica, nem por isso fica claro que nessa "travessia" o Apóstolo haja fundado aí novasIgrejas. Apesar disso, a maioria dos intérpretes modernos pensa que os gálatas da presente epístola sejam os setentrionais daGalácia estritamente dita. Menos numerosos, mas não de menor autoridade, são os que se decidem pela parte meridional daGalácia romana. Cf. Gál 2,1-2.O motivo da carta foi o seguinte: Alguns cristãos vindos do judaísmo e muito apegados às práticas legais, introduziram-se nasIgrejas da Galácia, sustentando que a circuncisão e outras práticas da lei eram necessárias a todos para se salvarem e seremherdeiros das promessas messiânicas (cf. At 15,1). Era distorção do genuíno Evangelho de Cristo que Paulo pregava. Aquelesturbulentos, para insinuarem com mais segurança os seus erros, afirmavam que Paulo não era verdadeiro apóstolo, por não terrecebido a missão diretamente de Cristo; que estava em desacordo com os verdadeiros apóstolos e que era um oportunista queandava à procura unicamente de favores dos homens.Sob os embates dessa violenta tempestade, a fé daquela jovem cristandade corria o perigo de naufragar miseravelmente. Paulonão tardou a vir em auxílio dos seus queridos gálatas, para sustentá-los na fé, escrevendo a epístola na qual refuta as acusaçõesque levantaram contra ele e expõe a verdadeira doutrina.O ponto fundamental dessa epístola, a inutilidade da lei para a justificação e salvação cristã, é também o objeto da primeiraparte da epístola aos romanos (cc. 1-4) e, portanto, a epístola aos gálatas está bem colocada antes e junto da dos romanos,sem prejuízo da distância de tempo existente entre uma e outra: um ano no máximo, se a presente epístola foi dirigida à Galáciasetentrional; de cerca de seis ou sete na opinião contrária mencionada acima.A autenticidade da Epístola aos gálatas, impugnada apenas por alguns críticos racionalistas radicais, não pode ser razoavelmenteposta em dúvida, tantos são os argumentos internos e os documentos que a comprovam.SumárioCabeçalho e saudações (1,1-5); o Evangelho pregado aos gálatas é o verdadeiro Evangelho de Cristo (1,6-10).I parte - apologética: Paulo reivindica a sua autoridade apostólica (1,11-2,21).1. Recebeu a sua missão diretamente de Cristo (1,11-12).2. O seu Evangelho foi aprovado por Pedro (2,1-10).3. O incidente de Antioquia: Paulo defende a sua doutrina perante Pedro (2,11-21).II parte - dogmática: a justificação obtém-se mediante a fé e não mediante as obras (3-4).Paulo demonstra essa verdade:1. pela experiência dos gálatas (3, 1-5);2. pela Sagrada Escritura: o exemplo de Abraão (3,6-14);3. pela natureza da lei e da promessa (3,15-18);4. pelo fim da lei que era como um pedagogo para conduzir os homens a Jesus Cristo (3,19-4,11). Exortação com efusão docoração (4,12-20).5. Inutilidade da lei (4,21-31).III parte - moral: (5,1-6,10).1. Deve-se conservar a liberdade que Jesus Cristo nos deu (5,1-12).2, Os fiéis devem praticar a virtude, a abnegação, a caridade, a beneficência (5,13-6,10).
  • Epílogo: Paulo retoma de próprio punho a parte polêmica e moral (6,11-16); saudações e bênção (6,17-18).
  • EPÍSTOLA AOS EFÉSIOSA Carta aos efésios não possui o desenvolvimento e o tom de uma carta íntima e familiar, como aquela aos Filipenses, nem oApóstolo combate, com o vigor e o arrojo que lhe são próprios, alguns erros particulares, como nas cartas aos gálatas e aoscoríntios. Excetuando-se algumas fórmulas convencionais, faltam a essa carta as costumeiras saudações a pessoas particulares eas notícias pessoais do Apóstolo, encontradas nas demais cartas e que não deveriam faltar numa carta dirigida à comunidade deÉfeso, onde Paulo havia trabalhado e sofrido diversos anos. Ao que parece (cf. 1,15;3,2), ela foi escrita a cristãos que o Apóstolonão conhecia pessoalmente. Por outro lado, podemos assiná-la com certeza a um determinado período da vida de S. Paulo, istoé, ao período do primeiro cativeiro romano, quando escreveu a Carta aos Colossenses. Efetivamente, possui muitos pontos decontato e grandes analogias com esta última, quer pelo tema tratado, quer pelo estilo e pelo vocabulário. Col, nalguns pontos dedoutrina, é o esboço de Ef. Querendo oferecer um quadro completo de doutrina em torno de Cristo, o Apóstolo, depois de indicar(1,10,21-22) o primado de Jesus Cristo, assunto já desenvolvido em Col 1,15-24, retoma e desenvolve amplamente dois temastratados brevemente em Col: antes de mais nada "o arcano", isto é, a universalidade da salvação, não reservada exclusivamenteaos judeus, mas oferecida também aos gentios, em Cristo Jesus, e a seguir a verdade da Igreja, corpo místico de Cristo, do qualele é a cabeça. Destas verdades, o Apóstolo deduz conseqüências práticas de ordem moral.Evidentemente, as duas cartas foram ditadas por Paulo com breve intervalo de tempo e foram confiadas ao mesmo portador,Tíquico (cf. 6,21-22; Col 4, 7,9).Cumpre, portanto, concluir que a Carta aos efésios nada mais é do que uma carta pastoral encíclica, destinada às comunidadescristãs da província da Ásia, com o objetivo de instruí-las sobre pontos importantes de doutrina. Ela deve ter tomado o nome de"Carta aos efésios" da igreja-mãe e mais ilustre, talvez porque foi entregue a esta em primeiro lugar por Tíquico. Alguns críticosmodernos pretendem ver nesta a carta que Paulo diz (em Col 4,16) ter enviado à Igreja de Laodicéia. Mas, em tal hipótese, oApóstolo, como fez em Col, teria dado suas notícias pessoais aos laodicenses e não teria deixado de acrescentar as saudações depraxe. Ademais, como explicar o título de uma carta "aos efésios", afirmado por documentos antigos, ao passo que somente oherege Marcião, segundo expressão de Tertuliano (Adv. Mare, v, 7), diz que foi escrita aos laodicenses? A carta foi escrita emRoma, pelos fins da primeira prisão romana, e não durante a primeira detenção em Cesaréia, como sustentam alguns críticosmodernos.A autenticidade de Ef, negada por alguns críticos acatólicos, é resolutamente mantida e defendida por numerosos outros críticos,também não católicos. Tem a seu favor o peso unânime dos testemunhos da antigüidade cristã inteira. Igualmente o estilo, ovocabulário, próprios do Apóstolo e, acima de tudo, a doutrina do corpo místico, a qual já emerge em cartas precedentes e émagistralmente desenvolvida em Ef, oferecem-nos a marca inconfundível de S. Paulo. Ê mister repelir decididamente a hipótese,avançada por alguns, de que Ef seja um mosaico marchetado de textos autênticos do Apóstolo e de observações de estranhos.Basta examinar o nexo lógico do pensamento, que se desenvolve progressivamente conforme o plano estabelecido, e o estilointeiramente próprio do Apóstolo.SumárioCabeçalho e saudação aos destinatários (1,1-2).I parte, dogmática: o divino arcano da nossa união com Cristo (1,3-3,21).1. Arcano decretado por Deus desde a eternidade. Ê a nossa filiação adotiva para com Deus pela nossa união em Cristo (1,3-6);Jesus Cristo nos mereceu esta filiação com o seu sangue (1,7-8); vocação dos judeus e chamada dos gentios, que o EspíritoSanto confirma com seus dons (1,9-14).2. Arcano realizado na Igreja. Jesus Cristo é a cabeça da Igreja, que é o complemento dele (1,15-23); chamada dos gentios edos judeus à salvação por meio de Cristo, que os reconcilia num só corpo e os reúne num só edifício espiritual (2,1-22).3. Arcano revelado. Paulo recebeu a missão de anunciar a universalidade da salvação em Jesus Cristo (3,1-13) e suplica a Deusque os fiéis possam compreender a sua imensa caridade (3, 14-19). Doxologia (3,20-21).II parte, moral (4,1-6,20).1. Virtude principal da vida cristã: caridade na unidade, pureza de vida (4,1-24).2. Advertências gerais a todos os cristãos (4,25-5,20).3. Deveres dos membros da família cristã (5,21-6,9).4. A armadura do cristão (6,10-20).Epílogo: missão de Tíquico (6,21-22); saudação (23-24).
  • EPÍSTOLA AOS FILIPENSESS. Paulo levou a luz do Evangelho a Filipos na sua segunda viagem missionária (anos 50-53). Depois de ter confirmado na fé asIgrejas fundadas na sua primeira missão, Paulo nutria o desejo de passar para a Bitínia, juntamente com Silas e Timóteo; masuma revelação divina conduziu-o a Trôade, onde, em visão, lhe foi mostrado um macedônio implorando o seu auxílio (At 16,9).Deus chamava-o a um novo e vasto campo de apostolado no continente europeu.Aportou em Neápolis, hoje Kavala, de onde seguiu para Filipos, acompanhado pelos seus colaboradores, aos quais se uniratambém Lucas (At 16,10). Este último, testemunha ocular, narrados com cores vivas a pregação apostólica, os frutos dasconversões, os incidentes extraordinários ocorridos, a prisão de Paulo e Silas, seus sofrimentos e a libertação milagrosa.A Igreja de Filipos perseverou sempre firme na fé afeiçoada a Paulo, e ocupou o primeiro lugar no seu coração de pai. Visitou-aoutras vezes, mais provavelmente quando, depois dos tumultos de Éfeso, passou para a Macedônia com destino à Grécia e,depois, no seu retorno (At 20,1-6), e quase certamente após a sua primeira prisão em Roma (1Tim 1,3). Paulo, que jamaisaceitou ajuda das outras Igrejas, abriu uma exceção para a Igreja de Filipos, aceitando suas ofertas (4,16; 2Cor 11, 8-9). Assimquiseram proceder os Filipenses quando tiveram notícia de que o Apóstolo se encontrava preso por Cristo, e lhe envia umrepresentante, Epafrodito, para levar-lhe os seus presentes e assisti-lo no cárcere. Recuperando-se Epafrodito de uma graveenfermidade e devendo retornar a Filipos, Paulo fê-lo portador de uma carta para essa comunidade cristã.Essa Carta aos Filipenses foge ao ciclo das demais cartas paulinas e possui uma fisionomia inconfundível. Nela, Paulo não é tantoo doutor e o mestre, quanto o pai, a entreter-se afavelmente com seus caros neófitos; comunica-lhes suas notícias, exorta-os àvirtude, propondo-lhes o exemplo de Jesus Cristo, previne-os contra os falsos irmãos e agradece-lhes a afetuosa generosidade. Éa leitura da alegria cristã a transbordar do coração de Paulo prisioneiro, desejoso de transfundi-la no coração dos seus cristãos.A autenticidade da Carta aos Filipenses é hoje admitida pela totalidade dos críticos, comprovada por todos os testemunhosextrínsecos e, acima de tudo, pelos caracteres paulinos intrínsecos, in-controvertíveis, que tornam impossível a hipótese de umafalsificação.Foi escrita durante a primeira prisão romana, conforme a opinião tradicional, e inexistem razões plausíveis para afastar-se dela afim de atribuí-la a uma suposta prisão em Éfeso. As alusões ao "pretório" (1,14) e à "casa de César" (4,22) entendem-seperfeitamente dentro da opinião tradicional. De resto (e isso parece decisivo), os Atos, que se estendem amplamente sobre osacontecimentos de Éfeso, não aludem sequer longinquamente à pretensa prisão de Paulo, que, ademais, deveria ter sidoprolongada, como se depreende da nossa carta.Filipenses tem grande valor apologético, levando-nos a apalpar o poder transcendente da mensagem de Cristo, anunciada pelosapóstolos, que em tão breve tempo transformou aqueles pagãos e os uniu a Cristo e entre si com um vínculo indissolúvel decaridade; leva-nos a conhecer o fervor daquela comunidade, que tem por fundamento a fé em Cristo Jesus e por normaconstante de vida os seus ensinamentos e os seus exemplos.
  • EPÍSTOLA AOS COLOSSENSESColossas, cidade da Frigia, situada no vale do Lico, floresceu bastante antes de Cristo; depois decaiu por causa da prevalênciadas duas cidades vizinhas: Hierápolis e Laodicéia; atualmente restam apenas poucas ruínas e, quiçá, ter-se-ia até olvidado o seunome, se a epístola de S. Paulo não a houvesse celebrizado.A Igreja de Colossas não foi fundada nem visitada pelo Apóstolo (1,4-9; 2,1). Fundou-a Epafras, "um dos vossos", um gentioconvertido à fé pelo Apóstolo (cf. 4,12 em oposição a 11), quando se encontrava em Éfeso, no decurso de sua terceira viagemapostólica.A comunidade de Colossas era formada, em grande parte, por étnico-cristãos, se bem que não faltassem convertidos entre oshebreus, numerosos no vale do Lico. Era uma comunidade fervorosa e bem instruída na fé, como resulta claramente desta carta;mas rondava-a um grande perigo proveniente de algumas doutrinas errôneas, que começavam a serpear entre os cristãos,disseminadas por falsos doutores. Paulo, informado da situação de Igreja de Colossas por Epafras, que viera visitá-lo na prisão,escreveu aos Colossenses, subordinados à sua jurisdição e muito afeiçoados a ele, com o objetivo de precavê-los contra os errosentão incipientes: culto de seres espirituais intermediários entreSumárioCabeçalho (1,1-2) e ação de graças a Deus pelos benefícios concedidos aos Filipenses (1,3-11).Corpo da carta (1,12-4,9).1. Notícias pessoais: a prisão de Paulo e a pregação do Evangelho (1,12-17); seus sentimentos (1,18-26).2. Exortação à caridade e à humildade (1,27-2,4), a exemplo de Jesus Cristo (2,5-11), e ao fervor (2,12-18).3. Missão de Timóteo e de Epafrodito (2,19-30).4. Advertências contra os judaizantes (3,1-11) e exortação à perfeição (3, 124,1) e à paz (4,2-9).Epílogo: Agradecimento pelos presentes recebidos (4,10-18) e saudações finais (4,19-23).Deus e o homem, que Paulo chama de "anjos" (2,18), como se Jesus não fora o único mediador; restrições nas comidas e nasbebidas; observância de festas anuais, de novilúnios e de sábados. Paulo alude ainda à circuncisão, talvez recomendada pelosinovadores, embora não imposta.É assaz difícil determinar a natureza desses erros combatidos por S. Paulo, mas pode-se afirmar, com toda a probabilidade, quesão derivações do judaísmo. Inexistem razões para recorrer aos germes do gnosticismo, desenvolvido mais tarde, no século II,para encontrar a origem de tais erros. Existiam, efetivamente, então, seitas judaicas fortemente propensas a um ascetismorígido e a idéias errôneas sobre as hierarquias angélicas; seitas que facilmente encontraram adeptos também na Frigia, cujoshabitantes eram inclinados a cultos mistéricos. A tais erros, o Apóstolo opõe um esplêndido quadro sintético de Jesus Cristo e dasua obra, não apenas sob o aspecto soteriológico, mas também cósmico. Jesus detém o primado sobre a criação inteira, da qualé a causa eficiente, exemplar e final, e com a redenção por ele efetuada restaura no universo a ordem querida pelo Criador.É uma das mais belas páginas do epistolário paulino, brotada do seu coração pleno de amor pelo seu Mestre: e é ainda o pontoculminante do seu pensamento em torno da obra salvífica de Jesus Cristo.A carta, segundo opinião tradicional, foi escrita em Roma por volta do fim da primeira prisão romana (ano 63), juntamente coma Carta aos efésios e o bilhete a Filêmon, e, confiada a Tíquico, o "ministro fiel" (4,7), encarregado de fazê-la chegar aosdestinatários. Deve ser descartada sem hesitação a hipótese de ter sido redigida durante uma suposta prisão em Éfeso, à qual osAtos não fazem a mínima referência. Tampouco são suficientes as razões de alguns críticos protestantes, ao lado de algunscatólicos, para atribuí-la ao tempo da prisão em Cesaréia (anos 57-59).A autenticidade da Carta aos Colossenses é hoje admitida pela quase totalidade dos críticos, inclusive protestantes eracionalistas. Ela tem, para aboná-la, o peso de toda a tradição cristã, e o próprio exame da carta, no que tange do vocabulárioe ao estilo, atesta sua origem paulina. Algumas particularidades explicam-se facilmente pela diversidade do argumento e dosconceitos a exprimir.SumárioIntrodução (1,1-14), cabeçalho (1,1--2), ação de graças a Deus pelo progresso dos Colossenses (1,3-8) e oração para o porvir(1,9-14).I parte, dogmático-polêmica (1,15-2, 23):1. Preeminência de Jesus Cristo, filho de Deus, cabeça do universo criado, cabeça da Igreja (1,15-20). Ele nos reconciliou comDeus mediante o seu sangue (1,21-24).2. Paulo é o Apóstolo dos gentios e cumpre o seu ministério também para as igrejas da Ásia (1,25-2,5).3. Contra os falsos doutores: em Cristo habita a plenitude da divindade e dele somente vem a salvação em tudo (2,6-15);conseqüências práticas para os Colossenses (2,16-23).
  • II parte, moral (3,1-4,6).1. Os cristãos, unidos e incorporados em Cristo, devem levar uma vida de virtude e de santidade (3,1-17).2. Deveres mútuos dos esposos, dos pais e dos filhos, dos escravos e dos patrões (3,18-4,1).3. Deveres de oração, especialmente por Paulo, e de apostolado (4,2-6).Epílogo: missão confiada a Tíquico (4,7-9), saudações (4,8-15), recomendações (4,16-17), assinatura autografa (4, 18).
  • PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS TESSALONICENSESCom as marcas de sangue e os vergões nos membros, produzidos pelos açoites que receberam em Filipos, Paulo e Silas,libertados do cárcere e rogados pelos magistrados a abandonarem a cidade, refugiaram-se em Tessalônica (At 16, 22-24).Tessalônica, hoje Salonica, era, por causa da posição que ocupava, importante centro comercial. Paulo pensou em fazer dela umcentro de irradiação de apostolado. Seus habitantes eram na maioria gentios, mas não faltavam também judeus, atraídos pelocomércio e pelo desejo de lucro. Paulo, de acordo com o seu costume, dirigiu-se primeiro aos seus concidadãos, que na intençãodivina deviam ser as primícias do Evangelho, e por três sábados consecutivos anunciou-lhes Jesus Cristo na sinagoga,demonstrando pelas Sagradas Escrituras que Jesus era o Messias prometido e o Filho de Deus (At 17,2-3). O fruto, nãoproporcional ao trabalho, foi escasso; poucos judeus abraçaram o cristianismo, mas em compensação, graças à pregação quePaulo e Silas continuaram por alguns meses, bom número de pagãos converteu-se à nova religião, entre eles muitos prosélitos ealgumas mulheres da nobreza (At 17,14). Os judeus mais recalcitrantes, cheios de inveja, atiçaram os elementos maisirrequietos da plebe e encenaram uma sedição contra Paulo e Silas, os quais, por esse motivo, houveram por bem abandonar acidade. A nova comunidade cristã, constituída sobretudo de gentios, estava, portanto, exposta a graves perseguições e a perigosna fé.Paulo, depois de chegar a Beréia e a Atenas, imensamente ansioso por seus caros neófitos tessalonicenses, enviou-lhes Timóteo,a fim de os sustentar e confirmar no espírito de união com Cristo: Ele, entretanto, tendo deixado Atenas, passara-se paraCorinto que devia tornar-se o principal campo de apostolado da sua segunda viagem apostólica. Aí alcançou Timóteo, já deregresso de sua missão, trazendo ao Apóstolo as mais consoladoras notícias. Os cristãos, afeiçoados a Paulo, eram fervorosos efortes na fé, mesmo no meio das perseguições. Havia, porém, alguma leve nuvem, resíduos da vida pagã antecedente, emquestões de moral, em alguns cristãos, dúvidas a respeito da sorte dos falecidos, na parusia. Paulo, não podendo, como era seudesejo, ir pessoalmente ter com os seus tessalonicenses, escreveu-lhes sua primeira epístola. Ela abre condignamente oepistolário paulino e talvez seja o primeiro escrito inspirado do Novo Testamento, se é que o Evangelho de S. Mateus já nãoestava escrito e publicado, pois coincidências surpreendentes de vocabulário e de idéias encontradas entre as partesapocalípticas das epístolas aos tessalonicenses e o assim chamado "apocalipse" de S. Mateus (Mt cc. 24-25) fazem-no supor comrazão.A carta foi escrita de Corinto, provavelmente no ano 51, ou o mais tardar no início de 52, quando Timóteo se encontrava comPaulo. De fato, como se infere da inscrição de Delfos, publicada em 1905, Galião, a cujo tribunal foi levado Paulo (At 18,11-13),chegou a Corinto como procônsul da Acaia provavelmente na primavera de 52, quando Paulo já se encontrava aí havia dezoitomeses.Sumário Cabeçalho e saudação (1,1).I parte (1,2-3,13): Paulo agradece ao Senhor pelo modo com que os tessalonicenses receberam o Evangelho, a ponto deservirem de exemplo às outras Igrejas (1,2-10); recorda o seu trabalho apostólico no meio deles, as suas fadigas para não serpesado a ninguém, a sua ternura materna para com eles (2,1-16); manifesta o desejo de revê-los, alegrando-se com as boasnotícias que recebeu por meio de Timóteo (2,17-3,13).II parte (4-5): exortação a evitar alguns vícios (4,1-12); fala da condição dos que já faleceram, à segunda vinda de Cristo (4,13-18); diz que o tempo da parusia é desconhecido e por isso é necessário conservar-se prontos (5,1-11) e conclui com algunspreceitos morais (5,12-22).Conclusão: votos e saudações, com a recomendação de fazer com que a carta seja lida "a todos os irmãos (5,23-28).
  • SEGUNDA EPÍSTOLA AOS TESSALONICENSESA primeira epístola de S. Paulo à comunidade nascente de Tessalonica atingira o seu objetivo de iluminar e consolar os cristãosacerca da sorte dos falecidos, por ocasião da vinda gloriosa de Cristo. O Apóstolo havia integrado, com autorizada precisão eclareza, os ensinamentos de sua catequese oral sobre esse ponto de doutrina. Bem depressa, porém, novas nuvens surgiram nohorizonte, ofuscando-o e perturbando as almas. Alguns cristãos, mais enfatuados e entusiastas da proximidade da parusia,difundiam essa persuasão entre os outros, procurando convidá-los, seja com algumas frases mal interpretadas da epístola de S.Paulo, seja com pretensas declarações de carismáticos, que preanunciavam a iminência da vinda gloriosa do Senhor, e tambémcom supostas epístolas do Apóstolo (2Tes 2, 1-2). Conseqüência do estado de alma que se determinara em muitos era umaplena ociosidade, abstenção do trabalho e desinteresse pelas coisas materiais, na expectativa do grande dia. Dominava,portanto, entre os cristãos de Tessalonica um erro teórico e prático, grandemente funesto. Paulo, que se mantinhaconstantemente informado do estado de sua amada cristandade, intervém com outra epístola, a fim de instruir esses neófitos epô-los de sobreaviso contra os semeadores de falsas doutrinas.SumárioCabeçalho e saudação (1,1-2).1. Ação de graças a Deus pela caridade e constância na fé dos tessalonicenses (1,3-5); justo juízo de Deus, que dará a cada umsegundo os seus méritos (1,6-12).2. O tempo da parusia é incerto, não é iminente e será precedido de sinais precursores: a apostasia e a vinda do anticristo (2,1-4). Os tessalonicenses conhecem o obstáculo que o retém. Tirado este, manifestar-se-á o homem do pecado, que será destruídopor Jesus Cristo (2,5-12). Exortação a permanecerem firmes na fé (2,13-17).3. Preceitos morais, conseqüências práticas da parte doutrinal (3,1-15).Conclusão: votos (3,16), assinatura autografa de reconhecimento (3,17), saudação final (3,18).Infelizmente, devido à falta de alguns elementos da catequese oral de Paulo, permanecemos no escuro a respeito de algunspontos de sua doutrina escatológica, que permanecerão sempre um enigma insolúvel: quem é o anticristo, qual o obstáculo queo retém etc. Completa o Apóstolo, com sua epístola, os ensinamentos do Evangelho e do Apocalipse no que diz respeito aosúltimos acontecimentos do gênero humano e à segunda vinda de Cristo.
  • EPÍSTOLAS A TITO E A TIMÓTEOAs epístolas que se seguem, uma a Tito e duas a Timóteo, inter-relacionam-se estreitamente pelo assunto, pela data e pelascaracterísticas formais de que se revestem. Daí o uso moderno de apresentá-las sempre enfeixadas, com a denominação geral de"epístolas pastorais", por versarem sobre as qualidades requeridas nos pastores da Igreja, bem como sobre os deveres que lhesincumbem no governo das comunidades cristãs que lhes são confiadas.Muitos críticos protestantes, liberais e racionalistas, puseram em dúvida, desde o início do século XIX até aos nossos dias, aautenticidade do Apóstolo dos gentios das referidas cartas. Numa modalidade um tanto diversa, críticos recentes quiseram ver nelasuma espécie de florilégio, formado com fragmentos autênticos compilados de cartas de S, Paulo. Encontram-se, todavia, citaçõesdessas cartas e alusões a elas, já nos escritos dos Padres Apostólicos, a partir do fim do século I e do início do século II. Daí pordiante a sua autenticidade aparece claramente afirmada pelos santos Padres, pelos escritores e pelos documentos eclesiásticos.Tudo isso evidencia a tradição constante da Igreja.Examinando-as com atenção, verifica-se que tudo quanto está escrito nelas concorda exatamente com o que consta, por outrasfontes acerca da vida de S. Paulo, de Timóteo e de Tito e com as condições das comunidades cristãs nos últimos anos da vida doApóstolo.Paulo encontra em Listra, por ocasião de sua primeira viagem apostólica, a Timóteo e o converte. Por ser ele filho de pai pagão e demãe judia convertida ao cristianismo, e sendo, por conseguinte, considerado judeu, ele o submeteu, no decorrer de sua segundaviagem, à circuncisão e o leva consigo através da Ásia Menor à Macedônia (At 16,1-4), e ainda, com toda a probabilidade, a Filipos ea Tessalonica. Deixa-o em Beréia (At 17,14), donde Timóteo parte para se encontrar com ele em Atenas. Envia-o em missão aTessalonica (1Tes 3,2), e ao seu regresso, o recebe em Corinto (At 18,5). Na terceira viagem apostólica encontramos Timóteo emcompanhia do Apóstolo em Éfeso (At 19,22) e na Macedônia (2Cor 1,1). Sabemos ainda que acompanhou Paulo a Trôade, na ÁsiaMenor (At 20,4). Reencontramo-lo em Roma, durante a primeira prisão de S. Paulo (Col 1,1; Flp 1,1; Fim 1). Finalmente, ei-loradicado em Éfeso (ITim 1,3), onde recebe duas cartas do Apóstolo.Quanto a Tito, grego de origem (Gál 2,3), foi também convertido por S. Paulo, de quem veio a ser fiel colaborador. Acompanhou-ona viagem a Jerusalém, por ocasião do Concílio Apostólico (Gál 2,1). Na terceira viagem missionária acompanhou o Apóstolo aÉfeso. Foi enviado a Corinto, com a incumbência de amainar as discórdias e restabelecer a paz naquela Igreja, e, com toda aprobabilidade, foi ele o portador de uma severa epístola de S. Paulo, que se perdeu. Foi encontrar-se com Paulo na Macedônia, ondeconsolou o Apóstolo com as boas notícias que trazia de Corinto (2Cor 2,13). Foi enviado novamente a essa cidade, a fim de fazer acoleta destinada aos pobres de Jerusalém (2Cor 8,16). Notícias posteriores a seu respeito não as possuímos, até que o vamosencontrar em Creta, como destinatário da epístola de Paulo.Note-se que essas indicações relativas a Timóteo e a Tito são confirmadas nas cartas pastorais. O mesmo pode-se dizer de outrasinformações de pessoas que já conhecemos através dos Atos dos Apóstolos e das demais epístolas de S. Paulo. Além disso, ascondições da Igreja descritas nas cartas pastorais, coincidem com as normas que os apóstolos observavam. Se bem que Timóteo eTito houvessem recebido a sagração episcopal, não eram, contudo, bispos, respectivamente, da Igreja de Éfeso e da de Creta, nosentido atual do vocábulo "bispo" e sim, delegados dos apóstolos, com a missão de supervisionar as referidas Igrejas por um certoperíodo de tempo. Tudo isso é reflexo do estado ainda fluido da organização e da terminologia eclesiástica, que foi lembrado apropósito dos Atos. Aparece em 1Tim 3,8.12 o termo "diácono" para indicar os adidos à administração e à beneficência (cf. At 6,1-6), mas o mesmo termo encontra-se já em Flp 1,1.O conjunto das observações precedentes constitui um poderoso sustentáculo da autenticidade das "epístolas pastorais", negadas,em geral, hoje em dia, por heterodoxos, pelo fato de apresentarem, como alegam, linguagem e estilo diversos dos escritosautênticos de S. Paulo. Observam, por exemplo, que nelas ocorrem cerca de 300 vocábulos não empregados nas epístolas doApóstolo. Todavia, devemos lembrar que a diversidade de tema e outras circunstâncias trazem naturalmente consigo variações devocabulário e aqui entra, além disso, a liberdade do autor, que não está obrigado a lançar mão sempre dos mesmos termos.Ademais, o estilo e o temperamento podem modificar-se com a idade, sendo que Paulo escreveu as pastorais, especialmente a2Tim, quando já era velho, estando próximo à morte, pela qual deu testemunho de Cristo. O estilo das pastorais é simples efamiliar, dada a índole das questões tratadas, que não são dogmáticas nem polêmicas, pelo que se assemelha ao estilo da partemoral das outras cartas de S. Paulo.Emprega-se ainda como objeção a referência (1Tim 6,20; 2Tim 2,16) a erros e conversas fúteis, próprios do gnosticismo, quesurgiram no século II. Entretanto, esses erros não são peculiares dos gnósticos do século II, pois já haviam sido difundidos pelosjudeus ou judaizantes, que preludiaram o gnosticismo. Tais erros consistem em fábulas judaicas, proibição de alimentos, hostilidadeao matrimônio com o fim de adquirir ciência superior.Feita essa introdução geral, só nos resta antepor a cada uma das três epístolas o respectivo sumário.
  • PRIMEIRA EPÍSTOLA A TIMÓTEOCabeçalho e saudação (1,1-2).Corpo da Epístola (1,3-6,19): ordens e conselhos para a boa administração da Igreja.1. Luta contra as falsas doutrinas e vãs especulações, a fim de conservar íntegra e pura a doutrina e a moral de Jesus Cristo (1,3-20).2. Regulamento para a oração pública: deve-se orar por todos os homens, a fim de que todos obtenham a salvação (2,1-7); comose deve orar (2,8); traje feminino e atitude das senhoras em família e na sociedade (2,9-15).3. Virtudes e predicados exigidos nos ministros sagrados, quer os de grau superior (3,1-7), quer os de grau subalterno(3,8-13). Grandeza admirável da Igreja (3,14-16).4. Erros contra os quais é preciso preparar-se para lhes dar combate (4,1-10). Timóteo deve mostrar-se modelo de virtude (4,11-16).5. Como devem ser tratados os homens idosos e os jovens (5,1-2); solicitude especial para com as viúvas (5,3--16); desvelosdevidos aos presbíteros (5,17-22); solicitude pelas enfermidades do próprio Timóteo (5,23-25); deveres dos servos (6,1-2).6. Alerta contra novidades doutrinais e contra o perigo das riquezas; bom uso dessas últimas (6,3-19).Epílogo: Guarda ciosa do depósito sagrado da fé (6,20-21).SEGUNDA EPÍSTOLA A TIMÓTEOCabeçalho e saudação (1,1-2); agradecimento a Deus, com elogio a Timóteo (1,3-5).Corpo da Epístola (1,6-4,18).1. Exortação à coragem e à constância. Timóteo deve professar a fé com generosidade (1,6-8), recordando os benefícios recebidos(1,9-10), o exemplo de Paulo (1,11-12) e o modelo, que é Cristo (1,13-14), e deve defender a fé contra os adversários (1,15-2,13).2. Como se deve proceder em face dos inovadores: pregar corretamente a verdade, evitando questões inúteis (2,14-26), prevenir-se contra os futuros disseminadores de escândalos (3,1-9), desmantelar o erro com o exemplo de vida santa e cumprir o própriodever solicitamente até o fim (3,10-4,8).Epílogo: diversas recomendações e notícias (4,9-18); saudações e bênção (4,19-22).EPÍSTOLA A TITOCabeçalho, com a afirmação de sua autoridade, como apóstolo de Jesus Cristo, para a salvação dos homens (1,1-4).Corpo da epístola (1,5-3,11).1. Qualidades dos presbíteros: dotes que se requerem para os que vão ser sacerdotes e vícios de que devem estar isentos (1,5-16).2. Reforma dos costumes: deveres peculiares a serem inculcados aos homens de idade, às senhoras idosas, aos jovens esposos,aos moços e aos escravos (c. 2).3. Deveres gerais dos cristãos: a submissão às autoridades constituídas, a caridade para com o próximo, a prática das boas obras;exortação para prevenir os cristãos contra as novidades vãs e contra os mestres do erro (3,1-11).Epílogo (3,12-15): recomendações, avisos (3,12-14), saudações e augúrio final (3,15).
  • EPÍSTOLA DE SÃO PAULO AOS HEBREUSEntre as catorze cartas do epistolado paulino, a que se costuma intitular “aos hebreus” é a maissingular de todas. Falta-lhe o habitual cabeçalho "Paulo apóstolo etc."; tem assunto e tom de cartasomente no último capítulo (13), no qual o remetente fala de si próprio em primeira pessoa, massem mencionar nome algum (v. 22; cf. 2Tes 3,17; 1Cor 16,21; Fim 19). No restante, ora apresentadesenvolvimento dialético de um tratado, ora o estilo oratório de uma homilia; usa, ademais, umalinguagem e um estilo todo próprio, o mais aproximado do grego clássico, entre os escritores doNovo Testamento.Também na tradição esta Carta seguiu um roteiro todo particular. Como nenhuma outra, possui amais antiga atestação, que vem do século I e se encontra na Carta de S. Clemente Romano aoscoríntios, não porém mediante citações expressas ou menção do nome do autor, mas poridentidade de pensamento ou através de frases extraídas sem modificação nenhuma, às vezesmisturadas com outras da Bíblia, e sem qualquer distinção. Ela é admitida pelos mais antigosescritores da escola alexandrina entre os escritos inspirados no Novo Testamento, mas no queconcerne ao autor, manifestam-se dúvidas e flutuações. Julga-se que tenha sido concebida por S.Paulo, mas redigida por outro, como, por exemplo, S. Lucas, ou até mesmo o já citado ClementeRomano; ou ainda que, escrita por S. Paulo em hebraico (ou aramaico), haja sido depois traduzidapor um especialista grego (E USÉBIO , História Eclesiástica, III, 38; VI, 14,25). Orígenes, o maiorescritor sobre a Bíblia, da idade antiga, depois de expor os vários elementos e juízos sobre aquestão, concluiu: "para expressar o meu parecer, diria que os pensamentos são do Apóstolo[Paulo], mas.. . quem a redigiu, só Deus o sabe" (Apud Eusébio no último lugar citado).Há muitas outras sombras na Igreja latina. Dir-se-ia que depois do citado Clemente Romano apresente epístola caiu no esquecimento. O cânon de Muratori e Vitorino de Petau (+304) fazem oelenco das epístolas de são Paulo, silenciando sobre essa aos hebreus e observam que são apenassete as que o Apóstolo dirige às igrejas inteiras (não a pessoas particulares), e assim,implicitamente, excluem-na dos Livros Sagrados. Santo Irineu, Bispo de Lião, e S. Cipriano, deCartago, jamais a citam em seus escritos. Tertuliano (séc. III) e Gregório de Elvira (séc. IV, fim)conhecem-na e citam-na com o nome de S. Barnabé. Finalmente, S. Jerônimo, ainda no séc. V,escreve que "o costume dos latinos não admite a Epístola aos hebreus entre as canônicas" (Carta,129,3; Com. a Is 6,2).Todavia, entre os gregos chegou-se logo à unanimidade em considerar a Epístola aos hebreuscomo escrito canônico e de S. Paulo, e, por influência dos Padres gregos, também os latinos, nasegunda metade do século IV e na primeira do V, convieram, bem como os sírios e outrosorientais, na mesma opinião. As vicissitudes transcorridas, porém, e a natureza do assuntoapresentam ainda aos modernos várias questões, das quais falaremos depois de termos tomadoconhecimento geral da epístola, na seguinte exposição esquemática de sua finalidade, argumentoe divisão.A Epístola aos hebreus é definida pelo seu próprio autor como "um discurso de exortação" (13,22).Exortar os seus destinatários a perseverarem firmemente na fé cristã, a não se deixarem vencerpela tentação de regressarem à fé do judaísmo incrédulo de que haviam saído; confortá-los nasdificuldades que deviam enfrentar e nas vexações que suportavam da parte de seus antigoscorreligionários; encorajá-los na luta pela aquisição dos bens que Jesus Cristo prometeu aos fiéis:tal é a finalidade que se propõe o remetente e que estabelece o argumento de seu escrito.
  • A fim de conseguir o escopo que se propôs, o autor apresenta aos leitores, na parte mais ampla esubstancial da epístola (1,1-10.18), um único tema, grandioso: a excelência da religião cristã sobrea judaica. Demonstra-a em três pontos: o fundador, o sacerdócio, o rito sacrificai, isto é, a pessoade Jesus Cristo, a sua dignidade sacerdotal, o seu sacerdócio.Dessa demonstração, ou em conexão com ela, inferem-se, na segunda partem (10,19-12,28),vários motivos complementares de perseverança na fé cristã.O último capítulo (13) contém recomendações de caráter particular.A doutrina dessa carta, como se vê, é cristocêntrica, isto é, gravita em torno da pessoa de JesusCristo e dela se irradia. Está, além disso, totalmente fundada no Antigo Testamento, interpretado àluz da revelação cristã. Tem muita analogia com a doutrina de S. Paulo. O leitor atento notará aí aocorrência freqüente de idéias, muitas vezes mesmo de expressões, já encontradas nas epístolasprecedentes do Apóstolo. Mas não lhe passarão despercebidas também diferenças de relevo ouquanto ao modo de apresentar as mesmas idéias.Por exemplo, na presente epístola (cc. 1-2) os espíritos inferiores a Jesus não têm senão um nome,um mesmo grau: "os anjos". S. Paulo distingue os principados, as potestades, as dominações, ostronos (Col 1,16; Ef 1,21). Para S. Paulo a "ressurreição" ou o "ressuscitar" de Jesus ocupa oprimeiro lugar em freqüência e em importância na economia da salvação. Em Hebreus émencionada uma única vez com um vocábulo diferente (13,20).Especial nessa epístola é, entre todos os escritos neotestamentários, a figura dominante de Jesussacerdote e vítima (4,14-10,18), tema central, amplamente desenvolvido. As outras epístolaspaulinas possuem a • esse respeito apenas duas lacônicas frases: "Cristo ê o cordeiro pascalimolado por nós" (1Cor 5,7) e "se entregou a si mesmo por nós a Deus, como oferenda e hóstia desuave odor" (Ef 5,2), e nem sequer uma vez traz a palavra "sacerdote" e "sacerdócio". Maispróxima da concepção de Hebr 9,11-12,24 é a visão do cordeiro de pé no céu "como imolado", emApoc 5,6-13.Do que vimos expondo a respeito dessa epístola surgem quatro questões: 1? Ê inspirada e parteintegrante da Sagrada Escritura? (canonicidade). — 2? Quem é seu autor? (autenticidade). — 3-Quem são os "hebreus" aos quais ele se dirige? (destinatários). — 4? Quando foi escrita? (data).1. Quanto à canonicidade ou inspiração da epístola, nenhuma dúvida podia subsistir depois doreconhecimento unânime que alcançou em tempo relativamente breve na antiga Igreja. Em todo ocaso, foi ela solenemente ratificada pelo sagrado Concílio de Trento (sessão IV, decreto de 8 deabril de 1546), que coloca nominalmente "ad Hebraeos" entre as "Escrituras canônicas" do NovoTestamento.2. No que concerne ao autor, a atribuição constante a S. Paulo na tradição oriental e o exameinterno da própria epístola dão-nos a certeza de que de algum modo ela promana do Apóstolo, eneste sentido o Tridentino coloca-a, como última, entre as "14 epístolas de Paulo Apóstolo". Comisso, porém, não se diz que ela deva ser considerada "não só concebida e inspirada, mas tambémredigida por S. Paulo na forma que chegou até nós". Assim sentenciou a Pontifícia Comissão Bíblicana Resposta de 24 de junho de 1914, no III. Pode-se, pois, atribuir a redação dela a algum doscolaboradores de Paulo no apostolado.
  • 3. Os destinatários eram cristãos oriundos do judaísmo, pois a carta, inteiramente impregnada decitações e de alusões aos Livros Sagrados do Antigo Testamento, supõe que eles tenham umperfeito conhecimento do mesmo, como não podiam ter os fiéis convertidos do gentilismo. Pelasalusões que o autor faz ao passado deles (2,3-4;6,9-10;32-34), infere-se que esses cristãos haviampertencido à primitiva comunidade de Jerusalém. Todavia, a língua em que a epístola foi redigidaleva-nos longe de uma região como a Judéia, na qual falava-se o aramaico (At 21,40).Provavelmente eram aqueles judeu-cristãos que por causa da perseguição movida à Igrejanascente (At 8,1) de Jerusalém, emigraram "até a Fenícia, Chipre e Antioquia" (ibid., 11,19),estabelecendo-se nalgumas cidades helenísticas da costa mediterrânea.4. A epístola foi escrita quando existia ainda o templo de Jerusalém e aí se celebravamregularmente os ritos que a lei mosaica prescrevia (9,6-10), pois não apresenta indício algum arespeito da destruição que lhe foi infligida por Tito e a cessação conseqüente de todo o sacrifício, anão ser um vago pressentimento de que estaria próxima a acontecer (10,25). Foi, portanto,composta antes do ano 70.
  • INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLAS CATÓLICASAo lado do grande epistolado paulino, outras sete epístolas de apóstolos (uma de Tiago,duas de Pedro, três de João e uma de Judas) constituem grupo à parte no cânon do NovoTestamento. Desde os primeiros séculos, foram denominadas, tanto em grupo comoindividualmente, católicas, isto é, "universais" provavelmente porque não são dirigidas,como as de S. Paulo, a Igrejas particulares, mas a muitas ao mesmo tempo, ou aos fiéiscristãos em geral. Fazem exceção a segunda e a terceira de S. João, porém são tão brevesque se podem considerar como apêndices da irmã maior.Entre os latinos, foram também chamadas epístolas "canônicas", talvez como protesto dafé no seu caráter de livros sagrados, que à maior parte delas foi reconhecido em era muitotardia. De fato, somente a primeira de Pedro e a primeira de João foram, desde oprincípio, consideradas sem contestações nas Igrejas como inspiradas e, portanto,canônicas. Todas as outras, umas mais outras menos, encontraram oposição em diversostempos e lugares (E USÉBIO , História Ecles., III, 25, 1-3). No Ocidente, o grupoencontra-se já constituído em sua integridade e autoridade canônica, no princípio doséculo V (Concílio Plenário da África, 393; Papa Inocêncio I, 405). Nas Igrejas orientais,não antes dos séculos VI e VILNo seio do grupo, a ordem das epístolas varia muito nos manuscritos e documentosantigos. A mais comum, já indicada acima, põe em primeiro lugar Tiago e em último,Judas. Pelo seu caráter arcaico, ainda muito próximo à literatura sapiencial do AntigoTestamento, Tiago fica muito bem à testa do grupo. Parece-nos bem não separar Judas dasegunda de Pedro, com a qual tem inúmeros pontos em comum, como se verá adiante.Desta forma, as três de João vêm a encontrar-se em contato imediato com o Apocalipse,do mesmo autor. É a ordem que parece mais lógica e que melhor favorece uma leituraordenada destes escritos apostólicos.Pelo seu conteúdo prevalentemente prático, essas epístolas traçam-nos as linhas mestrasde uma vida profundamente cristã. Não estão ausentes delas os ensinamentosdogmáticos, lavrados em fórmulas breves e incisivas. Em Tg 5,14 lemos a maisimportante alusão bíblica ao Sacramento da Unção dos Enfermos. Um dos artigos doSímbolo apostólico, a descida de Jesus Cristo ao limbo, onde se achavam os santospatriarcas, encontra o mais claro e formal testemunho da Escritura em 1Pdr 3,18--19. Omesmo Apóstolo declara-nos que a graça é uma íntima participação da natureza divina(2Pdr 1,4). São João lança o brado sublime: "Deus é amor" (1Jo 4,8) e replica com amesma sublimidade: "E nós cremos no amor" (ibid., 16). Ê ele ainda que nos dá a idéiamais exata da felicidade eterna dos eleitos: "Veremos a Deus como ele é" (ibid., 3,2). Eisum pequeno ensaio que nos exorta a pesar cada palavra destes veneráveis escritos.
  • EPÍSTOLA DE SÃO TIAGOA Epístola de Tiago distingue-se entre todas as outras epístolas apostólicas por trêscaracterísticas: 1° Sendo essencialmente moral, tem pouco de especificamente cristão e,pelo conteúdo e pela forma, marca como que a passagem do Antigo para o NovoTestamento. 2° Manuseia, porém, a língua grega com raro bom gosto e mestria. 3 ? Deestilo epistolar, tem quase somente a saudação inicial; falta-lhe a conclusão e na maiorparte usa de um tom exortativo semelhante ao dos livros sapienciais, especialmente osProvérbios e o Eclesiástico.Como para estes livros, também da Epístola presente não se deve pretender uma ordemrigorosa. As reflexões ou lições morais sucedem-se como lhas sugeria ao autor o seu zeloimpetuoso. Podem-se, todavia, reduzir a três argumentos gerais: a verdadeira alegria(1,2-25), a verdadeira religião (1,26-3,12), a verdadeira sabedoria (3,13-5,12).Fecham--nas algumas recomendações para com o próximo. Dividi-la-emos, pois, em trêspartes e um apêndice.I parte: A verdadeira alegria consiste em suportar as tribulações e tentações(1,2-8.12-18), a pobreza (1,9-11), e na prática do bem (1,19-25).II parte: A verdadeira religião consiste concretamente em evitar a ambição mundana(2,1-13); nas boas obras (2, 14-26); em refrear a língua (3,1-12).III parte: A verdadeira sabedoria consiste em refrear as paixões (3,13-4, 12); emdesprezar as riquezas (4,14-5, 6); na paciência (5,7-12).Apêndice: Ministério de assistência aos enfermos (5,13-15), de oração (5, 16-18), decorreção fraterna (5,19-20).Tanto do endereço (1,1) como do conteúdo, pejado de frases e de idéias do AntigoTestamento, transparece de modo claro que a epístola é dirigida aos judeu-cristãosdisseminados entre as populações de língua grega.O autor, que a si mesmo se denomina (1,1) "Tiago, servo de Deus e de nosso SenhorJesus Cristo" e que evidentemente goza de autoridade no seio da comunidade israelita, êcom toda a probabilidade o mesmo Tiago que conhecemos através dos Atos e dasepístolas de S. Paulo, distinto do apóstolo homônimo, filho de Zebedeu (At 12,2;17), epersonagem influente da cristandade de Jerusalém (ibid., 15,13; Gál 2,9). Ê também"irmão do Senhor" (Gál 1,19), isto é, primo de Jesus Cristo (cf. Mt 12,46-49, nota).Pela história eclesiástica, sabemos que foi bispo de Jerusalém (E USÉBIO , Hist. Ecl., II,1,2-3) e que foi morto pelos judeus, por ódio contra a fé, no ano 62 (F LÁVIO J OSEFO ,Antigüidades, XX, 9,1; H EGESIPO , apud. E USÉBIO , Hist. Ecl., II, 23).Questão bem distinta e de solução menos fácil, mas também de menor importância parao estudo da nossa epístola, é a de determinar se o seu autor deve ser identificado comaquele "Tiago, filho de Alfeu", que em todas as listas dos doze apóstolos do Senhor (Mt10,3 e paralelos; At 1,13) é colocado em nono lugar. A maior parte dos exegetascatólicos toma partido por essa identificação.No entanto, no mencionado ano do martírio do nosso autor, temos a época mais recenteem que se pode colocar a composição da epístola. Mas o caráter arcaico que frisamos e aausência de qualquer alusão à questão agitada no Concílio de Jerusalém, no ano 50 (At15,1-29), aconselham-nos a remontar a uma época bem anterior, mais ou menos ao
  • ano 48 ou 49. Seria, portanto, esta Epístola um dos primeiros escritos canônicos doNovo Testamento. A dificuldade mais forte que se costuma opor a data tão remota, —isto é, a de que o passo de 2,14-26 seja uma polêmica direta contra uma falsainterpretação da doutrina exarada por S. Paulo em Rom 4,2-5 e que, portanto, a epístolade Tiago é posterior à Epístola aos Romanos (escrita no ano 57 aproximadamente), —repousa sobre um confronto superficial e sobre uma compreensão inexata dos doistextos.
  • PRIMEIRA EPÍSTOLA DE SÃO PEDRODas muitas alusões aos sofrimentos a que eram submetidos os cristãos, pode-se deduzirque esta Epístola foi escrita em tempo de perseguição, com o fito de confortar os fiéis eincitá-los a permanecerem firmes na fé. A esta, que é a principal finalidade da epístola,juntam-se muitas recomendações e exortações a uma vida santa, digna da condição decristãos.Introdução (1,1-12): Saudações (1, 1-2) e louvor a Deus pelas grandezas da fé e dasalvação cristã (1,3-12).I parte: exortação geral a uma vida santa, digna da condição de cristãos (1,13,2,10), eem particular à caridade fraterna (1,22-25).II parte: como proceder com relação aos pagãos, especialmente para com osperseguidores (2,11-4,6): às autoridades (2,11-17); aos patrões (2.18-25); aocônjuge (3,1,17); ao próximo em geral (3,8--12); paciência, nas perseguições (3,13--22); fuga dos vícios peculiares aos gentios (4,1-6).III parte: vida interna da comunidade em vista do juízo divino (4,7-5,11): amor eauxílio mútuo (4,7-11); coragem nas perseguições (4,12-19); deveres do presbíteropara com os fiéis e vice-versa (5,1-7); vigilância para todos (5,8-11).Conclusão: saudações e votos (5. 12-14).Como destinatários da Epístola são indicados, no cabeçalho, os fiéis dispersos nas regiõessituadas no centro e ao norte da Ásia Menor e convertidos da gentilidade, em grandeparte por obra de S. Paulo. Os cristãos eram aí mais numerosos do que em outroslugares e tinham mais que sofrer, tanto da parte do povo como dos magistrados pagãos.Os vários indícios convergem para os tempos que precederam ou se seguiramimediatamente à perseguição de Nero, isto é, por volta do ano 64 d. C.O autor da epístola é, sem dúvida, S. Pedro, o príncipe dos apóstolos, que então seencontrava em Roma, e daí (cf. 5,13) escreveu aos longínquos fiéis da Ásia, emboranão tenham sido convertidos por ele (2Pdr 3,2), servindo-se de Silvano (cf. 5,12),como escrivão, e talvez também como redator da epístola, notável não só pela força dopensamento, como também porque exarada em excelente grego.Desde que se formou o cânon escriturístico do Novo Testamento, a presente Epístola foiincluída nele. Nenhuma dúvida, portanto, foi levantada contra a sua divina inspiração econseqüente canonicidade. O mesmo se deve dizer a respeito da sua autenticidade, istoê,,se teve como autor Pedro, cujo nome figura no seu cabeçalho. Não se opõe, a talautenticidade, o concurso subsidiário de um amanuense ou redator, como foi mencionadoacima com relação a Silvano.Serve, ao invés, para confirmar tal autenticidade o confronto desta epístola com osdiscursos de S. Pedro, relatados nos At 2,14-36;3,12-26; 10,34-42. A doutrina é amesma, idênticos são os conceitos, expressos até mesmo em raras e característicaslocuções, sobre a pessoa de Jesus, a sua obra redentora, o seu soberano poder e auniversalidade da salvação que ele veio trazer à terra. O autor da Epístola haure da fontedos seus conhecimentos pessoais. Alguém notou que nela se encontram maisreminiscências dos Evangelhos, do que em todas as epístolas paulinas juntas. A nossatem de comum tão somente a noção das ordens angélicas dos principados e potestades(3,22), mas, ao que parece, sem dependência direta. (cf. Col 1,16-17).
  • SEGUNDA EPÍSTOLA DE SÃO PEDROOs fiéis aos quais é dirigida esta segunda Epístola do príncipe dos apóstolos são osmesmos a que foi dirigida a primeira (cf. 3,1). Aliás, ao passo que na primeira o seuintento era encorajá-los nas perseguições desencadeadas contra eles pelos pagãos, comesta quer chamar-lhes a atenção para os inimigos internos, para erros perniciosos que,infelizmente, começavam a infiltrar-se nas comunidades cristãs. O Apóstolo, prevendopróxima a sua morte (1;13), apressa-se a prevenir os fiéis do perigo, enviando-lhes,como última recordação (1,12,15), este afetuoso escrito. Os três capítulos, em que sedivide, tratam de três argumentos distintos.C. 1. Saudação e votos (1-2); santidade de vida (3-11); firmeza na fé (12-21), quedeve ser ornato do cristão.C. 2. Os falsos mestres: insinuam doutrinas perniciosas, atraindo sobre si a perdição (1-3); antigos exemplos de pecadores terrivelmente punidos por Deus (4-9); aplicaçãoàqueles falsos doutores (10-16); o mal que fazem e sua condenação (17-21).C. 3. Refutação do erro a respeito da proximidade da parusia ou vinda do Senhor (1-3);ocasião do erro (1-4). Refutação: as três fases do mundo (5-7); o tempo ante aeternidade de Deus (8-9); aquele dia virá, mas de improviso (10); conseqüênciaspráticas (11-13).Conclusão: estejamos preparados (14); advertência sobre as epístolas de S. Paulo (15-16); votos e doxologia (17-18).Digno de nota é o c. 2 (mais 3,1-3), porque corre paralelo com a Epístola de Judas:mesmo argumento, exposto na mesma ordem, muitas idéias iguais, freqüentementeexpressas com as mesmas palavras. A dependência direta de uma epístola para com aoutra parece inegável. Menos fácil é determinar quem é que depende do outro, e asopiniões dos doutos não são unânimes. Considerando aquilo que Pedro apresenta a mais(por exemplo, Noé e o dilúvio, 2,5; cf. 1Pdr 3,20), e o que não apresenta emconfronto com Judas (por exemplo, Jud 9,14) e outras particularidades de estilo,devemos dizer (como opina a maior parte dos autores) que a 2Pdr é mais extensa emelhorada e, portanto, posterior à de Judas. Isto possui uma certa importância para asquestões da canonicidade, autenticidade e data da presente epístola.Nos séculos II e III, a 2Pdr era pouco conhecida, ao menos fora do Egito, e a suacanonicidade, ou caráter sagrado, era posta em dúvida, quando não negada. Mas noséculo IV começou a ser mais bem conhecida no Ocidente e, simultaneamente, foram-sedesvanecendo as dúvidas a respeito do seu valor de livro sagrado. Entre o IV e o Vséculo ocupou um lugar definitivo no cânon das Igrejas da Europa e da África, enquantoque na Síria continuou a ser ignorada por mais alguns séculos.O mesmo não se deu com o reconhecimento da sua autenticidade, isto é, de que S.Pedro é verdadeiramente o seu autor. S. Jerônimo não registrava senão os fatos quandoafirmava, no ano 392, que Pedro "escreveu duas epístolas denominadas católicas, asegunda das quais muitos afirmam não ser de sua autoria, porque lavrada em estilodiferente da primeira (De viris 111. c. 1). Partilhando da opinião de que ambas eramgenuínas, ele explica as diversidades de linguagem e de estilo pelo fato de S. Pedro aster ditado a dois tradutores ou redatores gregos diversos (Carta 120, a Edibia, c. 9). Éuma hipótese provável, que agrada ainda hoje a muitos dos que sustentam agenuinidade da 2Pdr, como o fazem a grande maioria dos católicos e algunsprotestantes. Os que a negam, exageram demasiadamente as diferenças entre as duas
  • epístolas e não consideram, como deveriam, a influência das fontes e das circunstâncias.O c. 2, por exemplo, sendo modelado, como ficou dito acima, sobre a epístola de Judas,é óbvio que não pode assemelhar-se à 1Pdr. Afora isso e poucas outras coisas, no restoda 2Pdr encontrar-se-á uma semelhança tal com 1Pdr e com os discursos de S. Pedronos Atos, como não se encontra em nenhum outro escrito do Novo Testamento.Por outra parte, não é necessário ir, como se pretende, além do ano 70 d.C, para situar,na história da Igreja, os aberrantes doutores de que se fala no c. 2 ou os novossentimentos em relação à "parusia" (3,4), ou a alusão às cartas de S. Paulo (3,15-16).Em poucas palavras, pode-se sustentar muito bem, até mesmo com argumentosinternos, que a 2Pdr foi mesmo ditada pelo príncipe dos apóstolos, cujo nome ela traz.Dado que o autor anuncia, também por revelação divina, como próximo o fim da suaexistência terrena (1,14), a composição da epístola pode ser colocada aproximadamenteno ano 67, cerca de três anos após a 1Pdr. O lugar em que foi escrita não é referidoexpressamente. A única hipótese provável é que tenha sido escrita em Roma, como aprimeira, pois aí S. Pedro pôs fecho, com um nobre martírio, ao seu glorioso apostolado.
  • EPÍSTOLAS DE SÃO JOÃODas três epístolas seguintes, somente a segunda e a terceira apresentam ascaracterísticas do gênero epistolar: saudações no início e no fim e alusões pessoais nomeio. A primeira parece mais uma alocução a discípulos, ou melhor, uma circular aleitores amigos. Mas a afinidade evidente e estreita de idéias, de estilo e de linguagem,que se encontra nelas, une-as todas num grupo homogêneo.P RIMEIRAÀ semelhança do quarto Evangelho, esta epístola do apóstolo predileto de Jesus pode-sedizer que é toda espiritual e teológica. Nela S. João fala de Deus com as expressões maistocantes e dos seus atributos deduz os nossos deveres morais. Combate, ao mesmotempo, os erros que então começavam a pulular a respeito da pessoa de Jesus Cristo, aoqual presta também entusiástico testemunho. O curso do pensamento ê deixado aosabor da exaltação do sentimento místico. Podem-se, porém, distinguir, além daintrodução e da conclusão, três partes ou etapas, compostas, cada uma, de trêselementos: teológico, moral e cristológico.Introdução (1,1-4): apoiado em sua própria experiência, atesta a verdade a respeito dapessoa e da obra de Jesus Cristo.I parte:1. Verdade teológica: Deus é luz- (1,5).2. Conseqüência prática: devemos "andar na luz", isto é, viver uma vida de luzespiritual, que consiste na comunhão dos santos (1,6-7) e compreende a fuga aopecado (1,8-2,2), a observância dos mandamentos (2,3-11), a fuga ao mundo (2,12-17).3. Verdade cristológica: Jesus é o verdadeiro Messias (2,18-28).II parte:1. Verdade teológica: Deus é justo (2,29).2. Conseqüência prática: dado que somos filhos de Deus, devemos praticar a justiça,evitando o pecado (3,1-10) e amando o nosso próximo (3,10-24).3. Verdade cristológica: Jesus é verdadeiro homem (4,1-6).III parte:1. Verdade teológica: Deus ê amor (4,7).2. Conseqüência prática: devemos amar-nos reciprocamente, a fim de encontrarmos noexercício da caridade a Deus e observar os seus mandamentos (5,1-4).3. Verdade cristológica: Jesus é verdadeiro Deus (5,5-12).Conclusão: oração e perseverança (5, 13-21).
  • Todo o pensamento e o estilo, tão característicos, dessa Epístola são tão semelhantesaos do quarto Evangelho, que se devem atribuir, sem hesitações, ao mesmo autor,como, aliás, o garante a própria tradição. Ê até provável (cf. 1,3; 2,14) que a epístolatenha sido escrita para acompanhar e como que apresentar o Evangelho que o autorenviou às Igrejas e às famílias cristãs.Se essa hipótese for verdadeira, fica desde já determinado, aproximativamente, o tempoe o lugar em que foi escrita a epístola, a saber: pelos fins do séc. I e em Éfeso.S EGUNDAApós as costumeiras saudações de introdução (1-3), exorta a caminhar sempre naverdade e no amor (4-6) e põe de sobreaviso contra os que disseminam erroscristológicos (7-11). Compendia, deste modo, a substância da primeira epístola.Seguem o anúncio de uma próxima visita e as saudações finais (12-13).Discute-se a respeito dos destinatários da carta: trata-se de pessoa particular ou de umacomunidade de fiéis? A segunda hipótese é mais provável.Não obstante o autor se oculte sob o nome indeterminado de "presbítero" (ou"sacerdote", revela-se, todavia, pela doutrina e pelo estilo. Toda a carta deixatransparecer a mente e o coração de S. João evangelista. Todavia, em razão de suabrevidade, demorou um pouco a tomar o seu lugar no cânon de todas as Igrejas.A dificuldade aumenta quando se trata de determinar quando e onde foi escrita. Visto,porém, que nela se combate (v. 7) o mesmo erro cristológico da primeira (1Jo 4,2),pode-se situá-la mais ou menos na mesma época e no mesmo lugar.T ERCEIRAÉ ainda mais pessoal do que a segunda. Dirigida a certo "Gaio", aliás, desconhecido,tece, após as saudações (1), louvores à sua virtude, especialmente à caridade, erecomenda-lhe os portadores do bilhete (2-8). Reprova o proceder de Diótrefes (9-10)e elogia largamente Demétrio (11-12). Anuncia uma visita para breve e encerra com assaudações (13-15).Devido ao tom familiar, particularmente no início e no fim, essa terceira epístola revela-se irmã da segunda, cujas vicissitudes na tradição e na crítica também compartilhou.Foi escrita em favor dos missionários volantes que corriam de Igreja em Igreja, levandoo conforto da sua palavra e da sua ação apostólica e conservando viva a comunhão entreas Igrejas.A epístola deve, pois ter sido escrita na década final do século I, como as suas duasirmãs.
  • EPÍSTOLA DE SÃO JUDASEstrutura simples e finalidade única encontram-se nesta breve epístola: acautelar os fiéiscontra os falsos mestres, os semeadores de doutrinas corruptas, de que fala também asegunda de S. Pedro, no c. 2. Tem um só capítulo, assim dividido, segundo o argumento:Introdução: Saudações (1-2) e motivo da epístola: os mestres ímpios (3-4).Corpo:1. Castigos divinos já infligidos aos ímpios: aos israelitas incrédulos no deserto (5); aosanjos rebeldes (6); aos sodomitas (7).2. Descrição dos Ímpios mestres, que, chafurdando-se na carne, ultrajam os espíritosangélicos (8-10); êmulos de Caim, Balaão e Coré, atiram-se a todos os vícios (11-13);espera-os, porém, um juízo terrível, já predito por Henoc (14-16).3. Admoestação a que se guardem desses tais, e como devem comportar-se com osdemais (17-23).Conclusão: glória a Deus, autor da salvação.Esta curta epístola encontrava-se, já no século II, segundo o testemunho do cânonMuratoriano (linha 68), incluída no cânon escriturístico da Igreja de Roma. Não faltou, jáentão, e mais ainda depois, quem pusesse em dúvida ou negasse principalmente suacanonicidade, como atesta S. Jerônimo (De vir. ill., IV), por causa da citação do livroapócrifo de Henoc (vv. 14-15). Prevaleceu, porém, o uso antigo e a autoridade daIgreja, segundo testemunho do mesmo S. Jerônimo, e bem cedo as oposições cessaramno Ocidente e mais tarde também no Oriente.O autor, Judas, nome muito comum, distingue-se dos homônimos contemporâneos,qualificando-se "irmão de Tiago". Quem haveria de ser esse Tiago, senão o autor daprimeira epístola católica e bispo de Jerusalém, de quem se falou à p. 1318? Porconseguinte, também o Judas da presente epístola era "irmão do Senhor", mencionadocom os outros em Mt 13,55; Mc 6,3 (no sentido já explicado em Mt 12,46-49).Assim como a respeito de Tiago, existe também a respeito de Judas, por motivosdiferentes, porém, a questão de saber se ele era também apóstolo, um dos doze,identificado com "Judas, filho de Tiago" de Lc 6,16; At 1,13. Sobre esse ponto tambémos modernos exegetas católicos não se acham de acordo.Admitida, como mais provável, a dependência de 2Pdr em relação a Judas (p. 1320),esta epístola deve ter sido escrita alguns anos antes daquela. Pode-se situar a suacomposição no ano 65, aproximadamente.Os destinatários da Epístola são saudados (v. 1) em termos tão gerais, que se podemaplicar a todos os cristãos. Mas arguindo do uso que o autor faz do Antigo Testamento ede tradições judaicas (vv. 9-14), pode-se deduzir que ele se dirige a fiéis vindos dojudaísmo, a comunidades judeu-cristãs, provavelmente da Ásia Menor. A segunda dePedro é dirigida a um público inteiramente diverso (cf. pp. 1320 e 1321). Podemosreconstituir os fatos assim: Os erros combatidos por Judas surgiram e propagaram-seprimeiramente no sudoeste da Ásia Menor (v. 4, tempo passado). Vindo a conhecê-losatravés da Epístola de Judas, e temendo que tão perniciosa propaganda se estendessetambém ao centro e ao norte da Ásia Menor, onde residiam os destinatários da sua
  • primeira epístola, Pedro, na segunda epístola, adverte-os contra uma provável difusãopróxima de tais erros no país deles (2Pdr 2,1, tempos futuros). Harmoniza-se econfirma-se deste modo tudo o que dizíamos acerca da relação genética entre as duasepístolas. Não se pode saber com certeza de onde foi enviada a epístola de Judas:provavelmente da Palestina e, talvez, até mesmo de Jerusalém.
  • INTRODUÇÃO AO APOCALIPSEFicou explicado anteriormente que este vocábulo grego, com que o próprio autorintitulou o seu livro, o último da Bíblia (segundo a ordem do cânon), significa"revelação", forma particular de "profecia" ou escrito profético. No lugar citado acimaforam expostas as características principais deste gênero literário em grau eminente nolivro ora apresentado.A natureza mesma das duas primeiras características — 1º o tema do "fim dos tempos"ou escatologia, com a sua subdivisão em duas espécies, messiânica e cósmica, nem osempre claramente distintas entre si, e 2 a linguagem simbólica, que dá azo a diversasinterpretações, — criou dificuldades aos exegetas, dando origem a grande número deopiniões diversas e, por conseguinte, à falsa reputação de que o Apocalipse é o livro maisobscuro e mais difícil da Bíblia. Para não nos perdermos neste emaranhado, fixemosalguns pontos que são mais ou menos certos, graças ao próprio tema ou à estruturaliterária do livro.1º O intento do autor é animar os cristãos à constância na fé, malgrado os assaltos e asinsídias de satanás e do mundo, pondo-lhes ante os olhos a certeza da vitória e doprêmio.2° Dirige ele a sua mensagem (como os profetas, seus predecessores) sobretudo àgeração contemporânea e às imediatamente sucessivas, e descreve o mundo de então, opaganismo dominante, com a abjeção ignominável das honras divinas prestadas aosimperadores romanos. Sem deixar de constituir alimento vital para todas as geraçõesvindouras, contudo, é principalmente contra tal politeísmo que arremete a veemência desuas palavras.3º A linguagem é simbólica, pelo que não se deve atribuir a cada pormenor umacorrespondência na realidade. Isto é próprio da alegoria. No símbolo, o que importa é asubstância, a generalidade.4º O predomínio do número 7 é evidente em todo o livro. É um número consagradodesde a primeira página da Bíblia, com a criação: 7 Igrejas e 7 espíritos (14), 7candelabros (1,12), 7 estrelas (1,16), 7 lâmpadas (4,5), 7 selos (5,1), 7 chifres e 1 olhos(5,6), 7 anjos e 1 trombetas (8,6), 7 trovões (10, 3), 7 taças e 1 pragas (15,5-7) etc.Cumpre, porém, evitar dois exageros: o de atribuir a esse número, todas as vezes que eleocorre, um valor particular, presente na realidade e o de, pela análise, ver númerossetenários que não vêm expressos. o5 Três desses setenários encadeiam-se, na segunda parte do livro — que é também amais extensa — e inserem-se uns nos outros: à ruptura dos 7 selos, aparecem setetrombetas (8,1-2) e o toque da sétima trombeta encerra um ciclo de visões e abre outrosemelhante (11,19-12,1), que culmina com o derramamento das sete taças da ira de
  • Deus (16,1). É muito provável que todos os três ciclos se refiram ao mesmo período dahistória da Igreja. Mas não é igualmente justificável concluir, apenas pela semelhança decenas e expressões, que duas visões distanciadas anunciem os mesmos acontecimentos.Com essas premissas, parece impor-se aqui, como a mais coerente e a menos espinhosa,a divisão do Apocalipse em cinco partes, desiguais em extensão, mas de igualimportância substancial, precedidas de uma breve introdução e seguidas de longoepílogo. Para se chegar a uma compreensão mais perfeita, consultem-se também asnotas do texto.SumárioExórdio: título e convite à leitura (1,1-3).I parte: mensagens às sete Igrejas da Ásia (1,413,22).Prólogo comum a todas (1,4-20), mensagem à Igreja de Éfeso (2,1-7), à de Esmirna (2,8-11), à de Pérgamo (2,12-17), à de Tiatira (2,18-19), à de Sardes (3,1-6), à de Filadélfia(3,7-13), à de Laodicéia (3,14-22). Seguem todas o mesmo esquema: Jesus Cristo êapresentado cada vez sob um título diferente (esses títulos reaparecerão depois nasegunda parte); descreve as condições morais da Igreja ou do seu chefe: repreende eencoraja. Promete o prêmio eterno aos que permanecerem constantes na fé, aosvencedores na batalha, e promete-o sob símbolos diversos, que reaparecerão tambémna última parte.II parte: vitória do monoteísmo cristão sobre o politeísmo pagão (cc. 4-19) ou, maisconcretamente, da Igreja sobre o império romano perseguidor.Esta vitória é apresentada numa série de visões que, na sua maior parte, mostram asgraves calamidades que deverão abater-se sobre a terra, para provação dos cristãos fiéise punição dos inimigos do nome de Cristo. O restante manifesta as atividades nefastasdas forças do mal e sua derrota e destruição, seguida pelo canto triunfal dos vencedores:Jesus Cristo e os seus fiéis seguidores. Tais calamidades são apresentadas sob a forma desímbolos nos quais predomina o número 7. Dir-se-ia que no conjunto, constituem umaprofecia "da morte dos perseguidores", como o estilista Lactando denominou a suarelação histórico-apologética.Visão de abertura: o cenário celeste (c. 4). O livro fechado por sete selos (c. 5). Àabertura de cada um dos quatro primeiros selos sai um cavalo de cor diferente, com umcavaleiro portador de males para os habitantes da terra (6, 1-8). Ao se abrirem o 5- e o 7-selos, vêem-se as primeiras vítimas da perseguição e lúgubres sinais do drama já emação (6,9-17).Interlúdio: os 144.000 assinalados (7, 1-8) e o repouso eterno dos justos (7, 9-17).
  • Rompido o 7° selo, saem sete trombetas empunhadas por sete anjos. Ao soar das quatroprimeiras trombetas, derrama-se igual número de desgraças sobre a terra (8,1-12); asoutras três trombetas preanunciam três grandes ais! 1- ai!, invasão de gafanhotosmortíferos (8,13-9,12); 2º ai!, um exército de cavalaria que mata a terça parte dahumanidade (9,13-20).Interlúdio: o anúncio do 3º ai! (última e decisiva fase da luta horrível) está escrito numlivro aberto, que o vidente é obrigado a devorar (c. 10); as duas testemunhas de Deuspregam durante 1.200 dias, são mortas, ressuscitam e sobem ao céu (11,1-12).Com o soar da sétima trombeta, chega o tempo do 3º ai! (11,13-19). Antes, porém,aparecem sinais terrificantes: satanás, sob a figura de enorme dragão, arrastandoconsigo a terça parte das estrelas (anjos), combate, no céu, contra os anjos bons,chefiados por S. Miguel. Satanás é derrotado, expulso do céu e lançado sobre a terra,onde começa a fazer guerra aos seguidores de Cristo (c. 12). Sai do mar uma besta de 1cabeças (13,1-10), e da terra surge outra besta com chifres (13,11-18). Ambas, sob adependência do dragão (satanás), combatem a religião de Cristo e procuram induzir oshomens a adorarem as criaturas (o dragão e a primeira besta) contra o verdadeiro Deus.Interlúdio: a falange de 144.000 virgens que acompanham o Cordeiro divino no céu(14,1-5; cf. 7,1-8). Três anjos anunciam a iminência e o resultado da luta e do juízo divinoentre bons e maus (14,6-13); outros três anjos, anunciam, sob a figura da ceifa, o final jápróximo do drama (14,14-20).Prepara-se a realização do 3º ai! com a entrega a 1 anjos de 7 pragas, encerradas em 7taças "cheias da ira de Deus" (c. 15). A uma ordem, os 7 anjos derramam sobre a terra,uma após outra, as sete taças, causando grande mortandade entre os pagãos que seobstinam na sua impiedade (c. 16).Descrição do centro e baluarte do paganismo: uma grande cidade, chamada pelo nomesimbólico de Babilônia, ou, por causa de seu crasso politeísmo, a grande meretriz.Reconhece-se facilmente nessa cidade a Roma imperial dos três primeiros séculos (c. 17).Queda, abandono e punição da ímpia cidade (18,1-8); pranto de seus amigos e cúmplices(18,9-19); gesto simbólico, que representa o seu desaparecimento definitivo (18,20-24).Festa no céu pelo castigo da "grande meretriz" (19,1-9).As duas bestas, aliadas do dragão na luta contra os seguidores de Cristo, sãomergulhadas vivas no fogo eterno; os homens, seus cúmplices, são mortos e atiradoscomo alimento aos abutres (19, 11-21).III parte: o dragão é atado durante 1000 anos; Jesus Cristo reina na sociedade humanaque ele mesmo transformou (20,1-6).IV parte: depois dos mil anos, satanás, livre dos grilhões, desencadeia seus últimos efuriosos ataques contra a Igreja de Cristo. Mas é vencido e precipitado no fogo eterno,
  • juntamente com as duas bestas (20,7-10). Os mortos ressuscitam, são julgados todossegundo as suas ações e ouvem o próprio destino eterno (20,11-14). É o fim destemundo.V parte: sorte oposta dos justos é a dos maus, por toda a eternidade (21, 1-8); felicidadeeterna dos justos, representada em dois quadros: primeiro quadro: a cidade, a Jerusalémceleste de estrutura perfeita, com os mais preciosos materiais, iluminada e cumuladapessoalmente por Deus de toda a sorte de bens (21,9-27); segundo quadro: um jardimcheio de árvores que produzem continuamente o fruto da vida, onde se gozará da visãode Deus (22,1-5).Conclusão de toda a série das visões e testemunho do autor, João (22,6-11).Epílogo: Jesus mesmo, compendiando em poucas palavras a substância do livro, atestaque foi escrito por sua ordem expressa e promete vir muito em breve; invocação esaudação (22,12-21).Segundo essa interpretação, a maior parte do livro (cc. 9-19) descreve as perseguiçõesromanas até à paz que Constantino concedeu à Igreja. Deve isto causar-nos admiração?É um fato que, pelos fins do séc. IV, que fora iniciado com a mais feroz das perseguições,o império romano já se tornara sinônimo de cristandade, terra dos cristãos, evento esserealmente digno de ser preanunciado por uma profecia, como foi mais tarde celebradopela eloqüência dos oradores. Vêm mesmo a pelo estas belas palavras de S. Leão Magno:"Enquanto esta cidade [Roma] dominava sobre todos os povos, era escrava dos erros detodos eles, e tinha em conta de grande religiosidade o não recusar nenhuma falsidade.Por essa razão, sendo grande a afoiteza com que o diabo a mantinha vinculada, tornoumais admirável o fato de a ter Cristo libertado" (Sermão I na festa de S. Pedro e S. Paulo).Nenhum outro exemplo de triunfo tão vasto e radical como esse da fé cristã conhece ahistória mundial.Dos outros sistemas de interpretação, mencionaremos apenas os dois mais célebres: ohistórico, já fora de moda, que vê representadas nas cenas do Apocalipse as personagense os fatos da história eclesiástica no volver dos séculos; e o escatológico, hoje o maisseguido, segundo o qual todas as visões e predições se referem aos últimos tempos dahistória humana, ao fim do mundo. Roma imperial, significada muito claramente nos cc.17-18, seria apenas um tipo ou figura do perseguidor da Igreja, o Anticristo.Quanto à composição do livro, convém frisar } sobretudo isto: que do início ao fim(especialmente nas visões) vêm à tona símbolos, cenas e locuções tomadas de várioslivros do Antigo Testamento, principalmente de Ezequiel e de Daniel. Poder-se-iacomparar o Apocalipse a um grandioso mosaico, cujas pedrinhas provêm do vastorepertório dos antigos autores bíblicos, mas reordenadas e dispostas segundo umharmonioso projeto, absolutamente novo e original. Esse fato, além de nos dissuadir deprocurar outras fontes fora da Bíblia para o Apocalipse; ê também um modo indireto de
  • insinuar que nos acontecimentos anunciados se realizarão decisiva e plenamente asprofecias do Antigo Testamento.Quem é o autor do Apocalipse? Ele mesmo se identifica no texto, quatro vezes pelomenos: duas na terceira pessoa (1,1-4) e duas na primeira: "Eu, João" (1,9;22,8). Seria omesmo autor do quarto Evangelho? Ao contrário do autor do Apocalipse, o evangelistajamais declina o próprio nome, mas oculta-se sempre sob a circunlocução "discípulopredileto de Jesus".Existe uma diferença, talvez mais notável ainda: o Evangelho de João é o menos judaicodos livros do Novo Testamento. Pelo menos no sentido em que "judeus" designa aíquase sempre os inimigos de Jesus. O Apocalipse, pelo contrário, pode ser chamado omais judaico porque, como ficou dito acima, é quase inteiramente uma trama de idéias,de imagens, de frases tomadas da Bíblia hebraica. Também a linguagem e o estilo deJoão são notavelmente melhores do que os do Apocalipse. Por essas razões, desde aantigüidade, alguns autores, encabeçados por S. Dionísio de Alexandria (séc. III),atribuíram o Apocalipse a outro João, que não ao apóstolo evangelista. Mas nas idéias ena linguagem teológica existem semelhanças tais e tão pessoais entre João e oApocalipse, que nos levam a optar pela identidade do autor. Mencionemos as principais:Os títulos "Verbo de Deus" (Jo 1,1; Apoc 19,13) e "Cordeiro" (Jo 1,29; Apoc 5,6 e maisvinte outras vezes) atribuídos a Jesus Cristo; "verdadeiro" como atributo de Deus (Jo17,3; Apoc 3,7); "testemunho" no campo da religião (Jo 17,19; Apoc í] 2.9); "água viva"para designar os dons (graça e glória) de Jesus Cristo (Jo 4,10; 7,38- Apoc 7,17;21,6).