Material particulado x saude
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Material particulado x saude Material particulado x saude Document Transcript

  • Investigación original / Original researchAssociação entre material particuladode queimadas e doenças respiratóriasna região sul da Amazônia brasileiraCleber Nascimento do Carmo,1 Sandra Hacon,1 Karla Maria Longo,2Saulo Freitas,2 Eliane Ignotti,3 Antonio Ponce de Leon 4 e Paulo Artaxo 5 Como citar Carmo CN, Hacon S, Longo KM, Freitas S, Ignotti E, Ponce de Leon A, et al. Associação entre material particulado de queimadas e doenças respiratórias na região sul da Amazônia brasileira. Rev Panam Salud Publica. 2010;27(1):10–6. RESUMO Objetivo. Investigar os efeitos de curto prazo da exposição ao material particulado de quei- madas da Amazônia na demanda diária de atendimento ambulatorial por doenças respiratórias de crianças e de idosos. Métodos. Estudo epidemiológico com delineamento ecológico de séries temporais. Os regis- tros diários de atendimento ambulatorial foram obtidos nas 14 unidades de saúde do municí- pio de Alta Floresta, Mato Grosso, região sul da Amazônia brasileira, no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2005. Informação sobre os níveis diários de material particulado fino foi disponibilizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Para controlar possíveis fato- res de confusão (situações nas quais uma associação não causal entre exposição e doença é ob- servada devido a uma terceira variável), foram adicionadas ao modelo variáveis referentes a tendência temporal, sazonalidade, temperatura, umidade relativa do ar, precipitação pluvio- métrica e efeitos de calendário (como ocorrência de feriados e finais de semana). Utilizou-se re- gressão de Poisson via modelos aditivos generalizados. Resultados. Um incremento de 10 µg/m3 nos níveis de exposição ao material particulado es- teve associado a aumentos de 2,9 e 2,6% nos atendimentos ambulatoriais por doenças respira- tórias de crianças no 6o e 7o dias subsequentes à exposição. Não foram encontradas associações significativas nos atendimentos de idosos. Conclusões. Os resultados sugerem que os níveis de material particulado das queimadas na Amazônia estão associados a efeitos adversos à saúde respiratória de crianças. Palavras-chave Material particulado; doenças do aparelho respiratório; ambulatório hospitalar; pré- escolar; idoso; ecossistema amazônico; Brasil.1 Fundação Oswaldo Cruz, Departamento de Ende- As regiões do planeta que mais quei- Espaciais (INPE) (4), a estimativa de des- mias. Enviar correspondência a Cleber Nasci- mam biomassa estão concentradas nos matamento na Amazônia Legal brasi- mento do Carmo no seguinte endereço: Rua Leo- poldo Bulhões 1480, sala 620, Bairro Manguinhos, países em desenvolvimento localizados leira para o período de 2007 e 2008 foi de CEP 21041-210, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: nos trópicos e subtrópicos da África, su- 11 986 km2, um crescimento de 4% em cleber@fiocruz.br, cleberdoc@yahoo.com.br. deste da Ásia e América do Sul (1, 2). A relação ao período anterior. O desmata-2 Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáti- região amazônica, por ser a maior área mento precede a fase de queimadas, com3 cos (CPTEC), São Paulo (SP) Brasil. de floresta tropical do mundo, contendo impactos diretos e indiretos sobre a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNE- MAT), Saúde Pública, Cuiabá (MT), Brasil. aproximadamente um quarto de todas as saúde humana (5).4 Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), florestas tropicais existentes no planeta, A poluição atmosférica é um preocu- Instituto de Medicina Social, Rio de Janeiro (RJ), figura entre as regiões que possuem as pante problema de saúde pública em Brasil.5 Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Fí- maiores taxas de desmatamento (3). De grandes centros urbanos, tendo como sica, São Paulo (SP), Brasil. acordo o Instituto Nacional de Pesquisas desfechos o aumento das internações10 Rev Panam Salud Publica 27(1), 2010
  • Carmo et al. • Material particulado de queimadas e doenças respiratórias Investigación originalhospitalares e o incremento na mortali- duos. Elas se depositam nos brônquios MATERIAIS E MÉTODOSdade (6–9). Em relação às queimadas em terminais e nos alvéolos, agravando pro-áreas remotas ou rurais, os poluentes ga- blemas respiratórios e podendo causar O Município de Alta Floresta localiza-sosos e o material particulado fino apre- mortes prematuras (18, 19). se no extremo norte do Estado de Matosentam efeitos diretos para o sistema res- Nos centros urbanos, a maioria dos Grosso, a 830 km de Cuiabá, a capital dopiratório, em especial para os grupos agravos respiratórios detectados no estado, no sul da Amazônia brasileira (fi-mais sensíveis (10, 11). Entretanto, os atendimento ambulatorial é de menor gura 1). Possui uma população de 51 136efeitos das queimadas sobre a saúde hu- gravidade (20) em comparação ao aten- habitantes, sendo 9% e 5% desse contin-mana têm sido pouco estudados. dimento prestado em hospitais e ser- gente formados por crianças e idosos, As grandes queimadas ocorridas em viços de emergência. Em áreas remotas respectivamente. Apresenta um índice deBornéu (1983 e 1997), Tailândia (1997), da Amazônia, o atendimento prestado desenvolvimento humano municipalIndonésia (1997), Estados Unidos (Cali- em ambulatórios muitas vezes substitui (IDH-M) de 0,779, valor similar à médiafórnia, 2003) e Brasil — Roraima (1997 e os hospitais e serviços de emergência. estadual (0,796) e um pouco acima da1998), Mato Grosso (1998), Pará (1998) e Portanto, esses atendimentos podem re- média nacional (0,766). Conta com umAcre (2005) (12) — despertaram inte- presentar com fidelidade os efeitos da hospital geral, um leito hospitalar pararesse para o problema de saúde pública. poluição do ar na saúde humana (21, 22). cada 565 habitantes, 87 leitos hospitalaresAs emissões de partículas finas decor- Assim, este estudo foi desenvolvido com conveniados ao Sistema Único de Saúderentes das queimadas representam a finalidade de analisar os efeitos da ex- (SUS) e 13 unidades básicas de saúdecerca de 60% do material particulado posição ao material particulado fino (UBS), 11 das quais do Programa Saúdeemitido para a atmosfera (13), contri- (PM2.5) oriundo das queimadas sobre os da Família (PSF), cobrindo 64% da popu-buindo de forma significativa para a al- atendimentos ambulatoriais por queixas lação. O Município de Alta Floresta vemteração da composição química da at- respiratórias em crianças e em idosos na sendo estudado desde 1992 através domosfera amazônica, com implicações região sul da Amazônia. Experimento de Grande Escala da Bios-importantes em nível local, regional eglobal, com valores que chegam a ultra-passar os limites observados em muitos FIGURA 1. Localização do Município de Alta Floresta, Estadocentros urbanos (14). Estimativas reve- de Mato Grosso, Amazônia brasileiralam que a quantidade anual de materialparticulado liberado na atmosfera porcausa de queimadas nos trópicos estáem torno de 36 a 154 Tg (15). Além dosefeitos das queimadas para o ecossis-tema amazônico, as emissões de poluen-tes contribuem para o aumento da mor-bidade respiratória nos municípios dochamado arco do desmatamento na re-gião da Amazônia brasileira (11). Diferentemente do que é observadoem ambientes urbanos, em que a po-luição atmosférica é caracterizada poruma exposição crônica, no caso das quei-madas na Amazônia brasileira há umaexposição de elevada magnitude por umperíodo médio anual de 3 a 5 meses, as-sociado a baixos índices pluviométricos.Nesse período, as concentrações de ma-terial particulado menor de 10 μmoriundo da queima de biomassa chegama 400 μg/m3 (14). Dentre os diversos poluentes libera-dos na queima de biomassa na Amazô-nia, o material particulado é o poluenteque tem sido mais estudado, através doPrograma de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (16, 17). As par-tículas finas têm um tempo de residênciana atmosfera maior do que as partículasgrossas e podem ser transportadas porgrandes distâncias, o que aumenta a suacapacidade de dispersão e, consequente- Kmmente, o seu impacto sobre os indiví-Rev Panam Salud Publica 27(1), 2010 11
  • Investigación original Carmo et al. • Material particulado de queimadas e doenças respiratóriasfera e Atmosfera da Amazônia (LBA) xos índices pluviométricos e diminui a poluente atmosférico (7, 8, 27, 28). Issopelo Grupo de Estudos de Poluição do praticamente zero nos períodos de significa que os atendimentos realizadosAr (GEPA) do Instituto de Física da Uni- chuva, foram realizadas análises inde- em um dado dia podem estar relaciona-versidade de São Paulo (IF-USP). Seu pendentes para os dois períodos. Com dos tanto à poluição do referido dianível de desmatamento e suas queimadas base nos níveis diários de material parti- como também à poluição de dias ante-vêm sendo monitorados pelo INPE. culado e totais pluviométricos, optou-se riores. Nesse sentido, optou-se por utili- O presente estudo epidemiológico, por definir o período mais crítico para a zar modelos com defasagens de até 7com delineamento ecológico, foi condu- prática de queimadas como sendo entre dias após a exposição ao poluente (7, 28).zido por meio de séries temporais com re- os meses de abril a novembro. Os efeitos estimados são riscos relati-gistros diários de atendimento ambulato- Foram calculadas estatísticas descriti- vos (RR) correspondentes a aumentos derial por doenças respiratórias de crianças vas para o PM2.5, média diária de tempe- 10 μg/m3 na exposição ao PM2.5. Paramenores de 5 anos de idade e de idosos ratura, média diária da umidade relativa uma melhor interpretação dos resulta-maiores de 64 anos nas 14 unidades de do ar, precipitação pluviométrica e aten- dos, os RR foram convertidos para au-saúde do município de Alta Floresta, no dimentos ambulatoriais por doenças res- mentos percentuais. Todas as análisesperíodo de 1° de janeiro de 2004 a 31 de piratórias em crianças e em idosos. Para foram realizadas por meio do programadezembro de 2005. Também foram utili- verificar a relação existente entre o po- estatístico R versão 2.7 (29) e da bibliotecazadas medidas de concentrações diárias luente, os fatores meteorológicos e a va- ares (30), uma coleção de rotinas parade material particulado fino e variáveis riável de desfecho foram calculados coe- análise de dados de séries temporais nometeorológicas e de calendário (como ficientes de correlação linear de Pearson. programa estatístico R. Os níveis de sig-dias da semana e feriados). Os grupos etá- O número diário de atendimentos am- nificância adotados foram de 5 e 10%.rios foram selecionados por serem os bulatoriais por doenças respiratórias foimais vulneráveis aos efeitos da poluição considerado como variável dependente e RESULTADOSatmosférica (19). Foram excluídos os re- os níveis médios diários de material par-gistros de atendimentos de urgência/ ticulado fino foram analisados como va- Durante os anos de 2004 e 2005, foramemergência em razão da ausência de riável independente. As variáveis de con- realizados 1 646 atendimentos de criançasdados sistematizados de consultas reali- trole introduzidas nos modelos foram: e 262 de idosos por todas as causas res-zadas no hospital municipal, onde se lo- dia da semana, feriados, número de dias piratórias nas 14 unidades de saúde docaliza o pronto-socorro do Município. transcorridos (desde o início do período), Município de Alta Floresta. A tabela 1 A classificação dos registros de aten- média diária de temperatura, média diá- mostra as estatísticas descritivas das va-dimentos ambulatoriais por doenças ria da umidade relativa do ar e precipi- riáveis no período do estudo. A médiarespiratórias foi feita de acordo com a tação pluviométrica, estas três últimas diária de atendimento ambulatorial porSegunda Versão da Classificação Inter- para controle de efeito meteorológico. doenças respiratórias para as crianças foinacional de Atenção Primária (ICPC-2), Para o tratamento estatístico, as con- 5,8 vezes maior do que para os idosos. Ae não como preconiza a Décima Revisão tagens diárias dos atendimentos de média aritmética diária de PM2.5 repre-da Classificação Estatística Internacional crianças e de idosos foram modeladas se- senta um indicador de exposição diáriade Doenças e Problemas Relacionados à paradamente em regressões de Poisson. à poluição atmosférica por queima deSaúde (CID-10), em razão das limitações Para estimar a associação existente entre biomassa no Município de Alta Floresta.desta última para classificar atendimen- as variações diárias nas concentrações de Verificou-se que, durante o período detos na esfera da atenção primária (23, material particulado fino e os totais diá- prática de queimadas, a concentração24). Medidas diárias de PM2.5 foram es- rios de atendimento ambulatorial por média diária de PM2.5 ultrapassou os ní-timadas por modelos matemáticos de- doenças respiratórias, foram utilizados veis de exposição de 25 μg/m3, conside-senvolvidos pelo INPE. Entre eles, um modelos aditivos generalizados (26). rados aceitáveis pela Organização Mun-modelo numérico desenvolvido pelo Esses modelos permitem que efeitos não dial da Saúde (OMS) (31).INPE (Coupled Aerosol and Tracer Trans- lineares sejam ajustados de forma ade- A análise de correlação no período deport model to the Brazilian developments quada utilizando-se funções não para- queimadas (tabela 2) indica que, além deon the Regional Atmospheric Modeling Sys- métricas. No presente caso, fez-se uso de existir uma associação linear direta entretem, CATT-BRAMS) estima a concen- funções splines, que suavizam as curvas o poluente e o desfecho, há uma corre-tração de poluentes atmosféricos deriva- de análise. Assumiu-se uma relação li- lação entre o poluente e as variáveis me-dos da queima de biomassa na região near entre os atendimentos ambulato- teorológicas. As séries temporais dosamazônica (25). O CATT-BRAMS for- riais e o material particulado fino. Para atendimentos ambulatoriais não apre-nece medidas de PM2.5 para cada pe- cada grupo etário, estimou-se o impacto sentam um comportamento sazonal con-ríodo de 3 horas. A partir desses dados, dos níveis de material particulado na de- sistente com a série diária de materialforam calculadas médias aritméticas manda por atendimento ambulatorial particulado. Contudo, o PM2.5 esteve sig-diárias da concentração de material par- em dois períodos distintos: período de nificativamente associado com maior nú-ticulado fino. Informações meteorológi- queimadas (abril a novembro) e período mero de atendimentos ambulatoriais porcas diárias (temperatura, umidade re- sem queimadas (dezembro a março). doenças respiratórias de crianças. Varia-lativa do ar e total de precipitação) As respostas biológicas da saúde hu- ções diárias de concentração de PM2.5 es-foram obtidas do Centro de Previsão do mana aos efeitos adversos da poluição tiveram estatisticamente associadas comTempo (CPTEC)/INPE. atmosférica apresentam aparentemente o aumento na demanda diária de atendi- Considerando que a magnitude das um comportamento defasado em relação mento ambulatorial de crianças, mesmoqueimadas aumenta no período de bai- ao período de exposição do indivíduo ao após controle de efeitos de confusão, isto12 Rev Panam Salud Publica 27(1), 2010
  • Carmo et al. • Material particulado de queimadas e doenças respiratórias Investigación originalTABELA 1. Estatísticas descritivas dos atendimentos ambulatoriais por doenças respiratórias em termos de admissão hospitalar (33,em crianças e idosos, variáveis meteorológicas e dados de PM2.5, Alta Floresta (MT), Brasil, 2004 37); entretanto, em termos absolutos, ae 2005a demanda por atendimento ambulatorial envolve maior número de indivíduos. Média diária Desvio-padrão Mínimo Máximo O atendimento ambulatorial por doen-Atendimentos ças respiratórias, embora possa ser consi- Crianças 2,3 2,7 0 18 derado de menor gravidade quando Idosos 0,4 0,7 0 4 comparado às internações e aos aten-Variáveis meteorológicas Temperatura (°C) 26,8 4,4 0 36,3 dimentos de emergência, é de grande Umidade relativa (%) 68,0 16,7 0 98,1 importância para a saúde pública na Precipitação (mm) 7,1 15,9 0 113,0 Amazônia. Devido à existência de muitosPM2.5 povoados distantes dos centros urbanos, Completo (731 dias) 22,8 33,2 0,1 257,4 os pacientes não têm como chegar aos Queimadas 32,9 36,6 0,1 257,4 Sem queimadas 2,5 3 0,1 15,9 hospitais e serviços de emergência por várias razões, como falta de transportea Durante 731 dias. público, problemas econômicos e nú- mero limitado de hospitais para atendi- mento da população (5).TABELA 2. Matriz de correlação de Pearson das variáveis sob estudo no período de queimadas Também é necessário considerar que o(abril a novembro), Alta Floresta (MT), Brasil, 2004 a 2005 atendimento ambulatorial tem elevada frequência em áreas remotas ou rurais PM2.5 Temperatura Umidade Precipitação Crianças Idosos da Amazônia, indicando a magnitudePM2.5 1,00 dos impactos negativos das doenças res-Temperatura 0,21a 1,00 piratórias na qualidade de vida das pes-Umidade –0,38a –0,52a 1,00 soas e de consequências econômicasPrecipitação –0,20a –0,33a 0,38a 1,00 como o absenteísmo na escola e no tra-Crianças 0,14a 0,08a –0,05 –0,11a 1,00Idosos 0,02 0,06 –0,01 –0,07 0,34a 1,00 balho (27). Essa característica da expo- sição na Amazônia pode explicar par-a P < 0,05. cialmente a diferença na magnitude do efeito ao PM2.5, mais prolongado, com impacto 6 a 7 dias após a exposição, se caracterizando mais como um efeito crô- nico. Uma hipótese é que os pacientesé, quando o modelo foi controlado por atendimento ambulatorial por doenças aguardam até uma situação mais gravevariáveis que apresentavam correlação respiratórias em crianças residentes no para procurar os serviços de saúde.tanto com o desfecho quanto com a ex- município de Alta Floresta, região do As estimativas de PM2.5 são de grandeposição. Foram encontradas associações arco do desmatamento na Amazônia interesse para a saúde pública, principal-significativas aos níveis de 5 e 10%, no brasileira. Os resultados encontrados cor- mente na Amazônia, já que são um indi-período de prática de queimadas, no 6o roboram outros achados descritos na cador de exposição à fumaça das quei-e 7o dias após a exposição ao poluente, literatura nacional (11, 32, 33) e interna- madas. O uso de estimativas de PM2.5com aumentos de 2.9% (IC95%: 0,3 a cional (34, 35). Apesar dos pequenos geradas pelo modelo CATT-BRAMS foi5,5; P = 0,031) e 2.6% (IC95%: 0,0 a 5,4; valores percentuais de incremento no crucial para este estudo. A implantaçãoP = 0,063) no número de atendimentos número diário de atendimentos ambula- de uma rede automática de monitora-ambulatoriais, respectivamente. toriais, o impacto da exposição ao PM2.5 mento de poluição do ar na Amazônia é Nenhuma associação foi evidenciada é substancial quando se considera o con- inviável, seja pelo elevado custo de ma-para o atendimento ambulatorial de ido- tingente populacional sob exposição. nutenção, seja pela falta de infraestru-sos. A representação gráfica das asso- Botelho et al. (36) verificaram uma pro- tura física e de pessoal treinado paraciações, em forma de aumentos percen- babilidade 7,3% maior de internação hos- operá-la. O uso dos dados gerados pelotuais estimados, entre os atendimentos pitalar no período de seca se comparado modelo CATT-BRAMS enfatiza a neces-ambulatoriais por doenças respiratórias ao das chuvas ao analisar atendimentos sidade de o INPE disponibilizar dadosdevido a aumentos de 10 μg/m3 na con- de urgência por doenças respiratórias diários de material particulado oriundocentração de PM2.5 e os respectivos inter- em Cuiabá, cidade também localizada na das queimadas para que outros gruposvalos de confiança são exibidos nas figu- Amazônia brasileira. Sabe-se que parte possam realizar estudos semelhantes eras 2 e 3. dos casos que demandam consulta mé- aumentar a discussão sobre o tema. dica na rede básica demandarão também Em contraste com a grande quanti-DISCUSSÃO internações hospitalares ou poderão che- dade de informações relativas à poluição gar a óbito. Sendo assim, é provável que atmosférica em áreas urbanas, há escas- Este estudo evidenciou que a expo- o incremento percentual no risco de au- sez de estudos relacionados à poluiçãosição ao material particulado fino mento na demanda diária por atendi- por queimadas. Os estudos da Amazô-oriundo da fumaça das queimadas está mentos ambulatoriais seja menor se com- nia poderiam ser comparados com osassociada ao aumento da demanda por parado ao risco verificado na literatura estudos oriundos da queima da cana-Rev Panam Salud Publica 27(1), 2010 13
  • Investigación original Carmo et al. • Material particulado de queimadas e doenças respiratórias FIGURA 2. Incremento percentual e intervalos de confiança para atendimentos ambulatoriais por doenças respi- ratórias de crianças em função do aumento de 10 μg/m3 na concentração do PM2.5 durante períodos com e sem queima de biomassa, Alta Floresta (MT), Brasil, 2004 e 2005 7,0 6,0 5,0 4,0 3,0 Incremento percentual 2,0 1,0 0,0 –1,0 –2,0 –3,0 –4,0 –5,0 –6,0 –7,0 0 1 2 3 4 5 6 7 0 1 2 3 4 5 6 7 Defasagens (em dias) Período de queima de biomassa Período sem queima de biomassa FIGURA 3. Incremento percentual e intervalos de confiança para atendimentos ambulatoriais por doenças respi- ratórias de idosos em função do aumento de 10 μg/m3 na concentração do PM2.5 durante períodos com e sem queima de biomassa, Alta Floresta (MT), Brasil, 2004 e 2005 180,0 160,0 140,0 120,0 100,0 80,0 60,0 Incremento percentual 40,0 20,0 0,0 –20,0 –40,0 –60,0 –80,0 –100,0 –120,0 –140,0 –160,0 –180,0 0 1 2 3 4 5 6 7 0 1 2 3 4 5 6 7 Defasagens (em dias) Período de queima de biomassa Período sem queima de biomassade-açúcar, realizados, principalmente, na de veículos, o que implica em compo- luição do ar, com exceção de algum par-Região Sudeste do país (32, 33). Entre- sição química diferenciada das con- ticulado biogênico na atmosfera (17).tanto, as características de exposição hu- dições de exposição da Amazônia. Outra Embora o tamanho das partículas pro-mana são diferentes, porque nas regiões importante diferença entre a Amazônia e venientes da queima de biomassa sejade queima de cana-de-açúcar também há outras áreas é que na região amazônica, conhecido como determinante para aindústrias, além da grande quantidade durante a estação chuvosa, não há po- magnitude do agravo à saúde, no Brasil a14 Rev Panam Salud Publica 27(1), 2010
  • Carmo et al. • Material particulado de queimadas e doenças respiratórias Investigación originallegislação vigente (38) não faz distinção padronização e validação de diagnósti- riam diariamente e não são correlaciona-quanto ao tamanho da partícula, assim cos. Tais limitações impossibilitaram dos com o poluente. Logo, suas conse-como não contempla as características da uma análise mais detalhada do grupo quências sobre as estimativas de efeitosexposição aguda da Amazônia. A OMS das doenças respiratórias segundo diag- encontradas seriam mínimas.estabeleceu como limite anual de expo- nósticos ou vias aéreas atingidas. Porém, Espera-se que os resultados aqui apre-sição para o PM2.5 a média de 10 μg/m3, ainda que o estudo refira-se a dados se- sentados possam contribuir para umcom uma média diária de 25 μg/m3 para cundários, a ausência de vinculação do melhor entendimento do impacto daáreas urbanas (31), sem distinguir o tipo diagnóstico ao faturamento financeiro no poluição atmosférica por queima dede emissão e o tipo de exposição (aguda nível da atenção básica torna mais rele- biomassa na saúde das pessoas, em par-ou crônica). Apesar de o período estu- vantes os achados deste estudo. Mesmo ticular crianças e idosos, residentes nadado (2004 e 2005) ter sido considerado que haja alguma discrepância em relação Amazônia brasileira.de baixa exposição, com 70% das medidas ao diagnóstico, é pouco provável que sede PM2.5 abaixo de 25 μg/m3, o limite de- refira a outro agravo não decorrente do Agradecimentos. Este estudo é parte dofinido pela OMS poderia ser usado pelas sistema respiratório (24). projeto intitulado “Avaliação dos efeitossecretarias de saúde da região Amazônica Ao analisar os registros de atendimen- da queima de biomassa na saúde humanacomo um limite de proteção à saúde hu- tos da rede pública, os dados refletem os na Amazônia brasileira”, inserido no pro-mana. O mecanismo fisiológico pulmo- atendimentos realizados pela parcela da jeto “Integração de abordagens do am-nar, combinado com o elevado nível de população que utiliza esse serviço, que biente, uso da terra e dinâmica social naexposição, poderia explicar por que em corresponde à maior parte da população Amazônia: as relações homem-ambientealguns municípios da região amazônica da região. Adicionalmente, nos estudos e o desafio da sustentabilidade — LBA2ocorre alta prevalência de doenças respi- ecológicos diários de séries temporais, Milênio”, financiado com recursos doratórias nos grupos etários mais vulnerá- fatores cuja distribuição não varia diaria- Conselho Nacional de Desenvolvimentoveis, como crianças e idosos (10). mente não representam possíveis variá- Científico e Tecnológico (CNPq), Fun- Salienta-se como limitação da quali- veis de confusão. A qualidade das infor- dação Oswaldo Cruz — PAPES IV e dodade dos registros de atendimentos am- mações de saúde e demais problemas Fundo de Apoio à Pesquisa de Matobulatoriais o fato de esses não possuírem dessa natureza na base de dados não va- Grosso (FAPEMAT). REFERÊNCIAS 1. Chand D, Guyon P, Artaxo P, Schmid O, 9. Pope CA 3rd, Burnett RT, Thun MJ, Calle EE, inpe.br/lba/site/. Acessado em 3 de fevereiro Frank GP, Rizzo LV, et al. Optical and physi- Krewski D, Ito K, et al. 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