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Desenvolvimento: um conceito com múltiplos sentidos

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  • 1. Gestão Estratégica do Suprimento e o Impacto noCI1202 Desempenho das Empresas BrasileirasDesenvolvimento: Um Conceito com Múltiplos SentidosMaria Raquel Ferreira Grassi e Lucas Amaral Lauriano - FDC – Núcleo Petrobras de Sustentabilidade Introdução nessas áreas. A necessidade de definição de rumos para o desenvolvimento dos países, em especial dos países latino-americanos, contexto no qual estamosA preender o que significa dizer desenvolvimento,subdesenvolvimento ou desenvolvimento sustentável é inseridos, vem da percepção de que o modelo atual de desenvolvimento não é suficiente, e não consegue alavancar consigo questões econômicas, sociais emuito mais do que refletir sobre os processos econômicos ambientais de maneira sustentável e sustentada.e sociais em curso, é compreender que os diferentesinteresses de classes sociais distintas coexistem e lutam, Nesse sentido, a Comissão Econômica para Américaem certo sentido, por espaço e significação. Latina - CEPAL - foi bastante influente na definição de um paradigma de desenvolvimento para a região. MaisEste Caderno de Ideias busca mostrar como o conceito interessante do que sua criação, é a capacidade do órgãode desenvolvimento pode ser encarado, de acordo com de se adaptar às novas realidades internas dos países.variáveis temporais, regionais ou até mesmo vieses teóricos.Pretende-se ainda realizar algumas reflexões sobre as A CEPAL influenciou o pensamento do desenvolvimentoRelações Internacionais e sobre o papel das organizações na região, com a formulação de “[...] um corpo analíticono tão aclamado desenvolvimento sustentável. específico, aplicável a condições históricas próprias da periferia latino-americana.” (BIELSCHOWSKY, 2000,A produção desse material se enquadra como material p.16). A abordagem Cepalina se adapta ao contextode apoio a ser utilizado nas discussões do Projeto de latino-americano ao longo do tempo, situação muito raraDesenvolvimento de Pesquisadores do Núcleo Petrobras quando se fala em arcabouços teóricos. Nas Relaçõesde Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral. Internacionais, por exemplo, há uma dificuldade muitoNa próxima seção o conceito de desenvolvimento grande das teorias mainstream de se adaptarem a novosserá atrelado às formulações de desenvolvimento e contextos e situações, apesar de conseguirem explicardesenvolvimento econômico para a América Latina, satisfatoriamente os eventos internacionais.considerando o papel central que Celso Furtado e a De acordo com Celso Furtado, no pós-Segunda GuerraCepal tiveram nesse processo. Na seção três será Mundial, a reconstrução dos países da Europa foimostrado o conceito de desenvolvimento sustentável confundida com desenvolvimento. A reconstrução dasob o viés neomarxista, considerando as relações ordem passa a ser o objetivo, dando abertura paraassimétricas entre as classes sociais. Já na seção quatro que abordagens progressistas do desenvolvimentoalgumas considerações finais serão feitas. ganhassem força. Muitas vezes o desenvolvimento é compreendido como sinônimo de industrialização. Nesse sentido, quanto mais industrializado um país, mas desenvolvido ele é. Em uma concepção mais recente de As formulações de Celso Furtado, [...] as teorias de desenvolvimento são esquemasDesenvolvimento e a Cepal explicativos dos processos sociais em que a assimilação de novas técnicas e o consequente aumento de produtividade conduzem à melhoriaO conceito de desenvolvimento está constantemente do bem-estar de uma população com crescentesendo discutido pelos cientistas políticos, sociais, homogeneização social. (FURTADO, 1992 apudanalistas internacionais e outros profissionais que atuam MALUF, 2000, p.40-41)
  • 2. De fato, a relação direita e causal entre desenvolvimento de condições que melhorassem o entorno de suaseconômico e diminuição da desigualdade ocorre atividades.corriqueiramente, o que não é comprovado pelas Com a percepção de que somente o desenvolvimentopesquisas e estatísticas. Na verdade, existe uma relação econômico das organizações, governos e populaçõesinversa: quanto mais desigual uma sociedade, menos não bastava para a diminuição do gap entre os países,os pobres ganham com o crescimento econômico. chegou-se à conclusão de que a modernização é(MALUF, 2000) apenas uma parte da solução. Mesmo com incrementosEm uma perspectiva mais ampla, esse tipo de significativos no PIB de latino-americanos - a médiapensamento enxerga o desenvolvimento de maneira do crescimento econômico da região entre 1945 eextremamente positivista e progressista, na medida 1954 foi de 5,8% -, a pobreza e a miséria continuavamem que os países subdesenvolvidos necessitam exacerbadas. Celso Furtado definiu o pensamento como “mau desenvolvimento”, e não uma etapa anterior aopassar pela fase de modernização para chegar ao desenvolvimento de fato.patamar de outros países, já desenvolvidos. Existeuma relação entre a modernidade e desenvolvimento, A abordagem cepalina é interessante pelo fato de possuircom a conotação positiva dada pelo progresso. um enfoque histórico-estruturalista, que, ao mesmoO desenvolvimento nada mais é do que uma das tempo em que reconhece a relação de centro-periferia,possibilidades da modernidade. Quanto maior o adapta-se ao longo do tempo. Em seus estudos, asprogresso, mais moderno e desenvolvido é o país. áreas temáticas são a análise da inserção internacionalDiversas abordagens destacam a mesma ideia, e dos condicionantes estruturais internos, temas muitoa de que bastariam o crescimento econômico e a visionários para a época em que os estudos da Comissãoindustrialização para o vencimento de desigualdades começaram. Como já foi enfatizado, nas Relaçõesinternas dos países. O subdesenvolvimento, nesse Internacionais, somente com o fim da Guerra Fria é que houve espaço para a discussão de fatores internoscontexto, seria uma variante do desenvolvimento, no enquanto influenciadores dos rumos dos Estados. Atéqual o aumento da produtividade e incorporação de então, o enfoque estruturalista era tido como a-histórico.novas técnicas não gerava heterogeneidade. Assim, pensar que mesmo 30 anos antes, no auge daNas Relações Internacionais, o pensamento de que fatores bipolaridade do Sistema Internacional e a desconfiançaexternos determinam o comportamento dos atores é muito dos Estados Unidos, essas questões já faziam parte daforte praticamente durante todo o período da Guerra-Fria, discussão é no mínimo impressionante.no qual a abordagem Realista foi muito difundida. Nessa Da mesma forma, como veremos mais à frente, oconcepção, os fatores internos estão subjugados aos conceito de desenvolvimento sustentável só se consolidafatores externos, e os Estados são vistos como “bolas de efetivamente no final da década de 80, em coerência combilhar”, unitários e unifacetados. O Realismo dentro das toda a reestruturação do cenário internacional.Relações Internacionais, assim como essa perspectivado desenvolvimento, reflete a realidade de um mundo A Cepal tentava então retirar a universalidade do chamado desenvolvimento da época, que desconsiderava asbipolar. Entender que fatores internos, como escolhas realidades de cada região. Em seus mais de 50 anospolíticas e condições iniciais, impactam na trajetória dos de história, cinco fases acompanham o desenvolvimentopaíses ao longo do tempo não fazia parte das principais da América Latina:discussões sobre o assunto.O pensamento evolucionista gera ainda impactos a. Origens e anos 1950: industrialização.profundos na maneira como as organizações atuam b. Anos 1960: “reformas para desobstruir anas mais diversas regiões. Enquanto em países industrialização”.industrializados há um mercado consumidor propício c. Anos 1970: reorientação dos “estilos” depara a comercialização de produtos com alto valor desenvolvimento na direção da homogeneizaçãoagregado, nos países menos desenvolvidos, em um social e na direção da industrialização pró-patamar mais baixo de desenvolvimento, não há exportadora.condições para tal. O pensamento de que a solução épuramente tecnológica leva em consideração apenas d. Anos 1980: superação do problema douma faceta do que hoje chamamos de desenvolvimento endividamento externo, via “ajuste com crescimento”.sustentável. As organizações inseridas nesses paísesmenos desenvolvidos logo perceberão que a questão e. Anos 1990: transformação produtiva comtecnológica deveria estar agregada a um pacote equidade. (BIELSCHOWSKY, 1998, p.18) Caderno de Ideias - Nova Lima - 2012 - CI 1202 2
  • 3. Não cabe aqui a discussão profunda sobre cada uma não é reconhecer que diversos fatores específicos dedessas etapas, mas vale ressaltar o papel central que cada unidade de análise influenciam em seus rumos,Celso Furtado teve na formação do embasamento e sim negar que esse processo deve ser enxergadoestruturalista da Cepal. Seus livros sobre história da com o mínimo de rigor científico, como muitas vezeseconomia brasileira e latino-americana, de 1957 e 1970, propõe os pós-estruturalistas. Mais uma vez realizandorespectivamente, são os textos que retratam a história uma interface com as Relações Internacionais, a teoriaeconômica da região mais lidos no mundo. Ainda, na pós-estruturalista mais difundida, o Desconstrutivismoobra “Desenvolvimento e subdesenvolvimento”, o autor recebe as mesmas críticas e chega a ser completamentedestaca a necessidade de se levar em consideração as desacreditada por boa parte da academia.peculiaridades da realidade latino-americana quando O mesmo problema com as teorias pós-modernistas ése fala em desenvolvimento. (BIELSCHOWSKY, 2000, encarado pelas organizações. Por mais que algumasp.22-23) empresas adotem estruturas internas bastanteFurtado nos mostra que o “[o] fenômeno do flexíveis, há certo estruturalismo na maneira comosubdesenvolvimento se apresenta sob várias formas e os processos ocorrem nas organizações em geral, eem diferentes estágios (...) Como fenômeno específico uma concepção muito distante de uma estrutura nãoque é, o subdesenvovlimento requer esforço de é vista como produtiva.teorização autônomo” (BIELSCHOWSKY, 2000, p.23) Muitas vezes o pós-modernismo e estruturalismoA Cepal e Celso Furtado tiveram contribuições negam qualquer tipo de coletividade, o que impediriasignificativas para a compreensão do desenvolvimento a formulação de um paradigma mais ou menosnos países da América Latina, força essa que não é parcimonioso que poderia ser adaptado a diversastão clara em análises atuais. Celso Furtado chama realidades. Em termos metodológicos, é favorável umainda atenção para os problemas mais específicos do paradigma de desenvolvimento imbuído em um contextoBrasil, relacionados com a pobreza e desigualdade de modernização sem, contudo, que seja esquecido que,social, criticando o quadro de desenvolvimento imitativo nesse processo, não basta olhar somente para o cenáriorealizado em nosso país e ressaltando a necessidade de internacional. É preciso analisar as característicasconsiderar as especificidades de cada contexto. internas de cada país, levando-as em consideração quando se fala em desenvolvimento. Assim, é umaEm uma perspectiva mais crítica, talvez a Cepal tenha questão “[...] de considerar a articulação das diferençastido essa força pela peculiaridade de sua abordagem sociais e atacar falsas homogeneizações, em lugarao perceber a individualidade da região naquela época, de rejeitar toda e qualquer ideia (sic) de coletividade.”o que hoje já é considerado algo normal nas análises (MALUF, 2000, p.51)internacionais. As críticas às abordagens tradicionais dedesenvolvimento se ampliaram no período pós-Guerra- Nesse contexto, às vezes é questionado se tem sentidoFria, no qual houve a inclusão de temas diversos na a homogeneização clássica da academia, e mesmo daagenda de discussão dos países, e a consequente Cepal, ao analisar todos os países da América Latinaascensão de abordagens, como o feminismo, pós- como um bloco homogêneo. Essa é uma discussãocolonialismo e pós-modernismo, consideradas muitas muito profunda para a proposta, mas é importante discutirvezes como “antimodernas”. (MALUF, 2000). Apesar as generalizações e suas consequências em estudos,de essas vertentes já existirem antes, somente com pesquisas e até mesmo grade curricular das instituiçõeso fim da bipolaridade houve espaço para que essas de ensino. Ao mesmo tempo, certo grau de generalizaçãoideias se propagassem efetivamente. “Escobar (1984, é necessário para que ocorram progressos analíticos1995), um dos principais representantes dessa vertente e teóricos, pensando em progresso da maneira mais[antimoderna], sugere “dizer não ao desenvolvimento” positivista possível, em coerência com as bases dacom base numa abordagem pós-estruturalista e em ciência. A percepção de desenvolvimento ainda está emelementos buscados diretamente em Foucault.” (MALUF, curso e aprimoramento. O que alguns temem é que, para2000, p.47) que haja o aperfeiçoamento dessa percepção, mais erros sejam cometidos e os problemas, sejam eles ambientais,Dizer não ao estruturalismo e positivismo de maneira econômicos, sociais, políticos, regionais ou mundiais,extrema é negar a própria ciência e, portanto, não deveria persistam por muito mais tempo.ser discutido pela academia, em uma visão extremamentecrítica. É necessário reconhecer a complexidade da Um assunto sobre o qual não foi focada a atenção, masrealidade, a subjetividade de determinadas questões que também é interessante, é a mudança da percepçãoe o caráter sui generis do contexto de cada país sem, de desenvolvimento ocorrida no Banco Mundial. No póscontudo, perder as raízes do rigor científico. O problema 2ª Guerra essa visão era progressista, enquanto nos anos Caderno de Ideias - Nova Lima - 2012 - CI 1202 3
  • 4. 90 o conceito de desenvolvimento passou a ser atrelado desenvolvimento”. Em uma perspectiva capitalista, nãoao conceito de governança, ou “boa’ governança, como era interessante para os países desenvolvidos que adefinido pelo Banco Mundial, que, segundo Carrion e equidade total fosse alcançada, já que isso significariaSantos (2011), consiste em um processo complexo maior competição e ainda perda significativa dede tomada de decisão que anteciparia e ultrapassaria influência, considerando que a população de diversoso governo. Noções como democracia, participação países é muito maior que a dos Estados Unidos e paísese transparência são alguns dos pontos constituintes europeus, por exemplo. Dessa forma, uma perspectivadessa percepção. de desenvolvimento que estivesse apenas preocupada com a diminuição parcial dos problemas sociais não era de se espantar. No campo das Relações Internacionais, após o fim da 2ª GM, houve a ascensão do Realismo como paradigma Desenvolvimento dominante. Nessa perspectiva, os Estados são atores unitários, egoístas e que, em última análise, estão sempre Sustentável e a preocupados com sua própria segurança e acúmulo de Ambiência Capitalista da poder. A percepção de que o poder e recursos podem ser medidos e acumulados infinitamente já demonstra a Globalização mesma ideia do capitalismo. No auge do mundo bipolar, a hegemonia do Realismo, advinda das bases do Realismo Político, era clara. A cooperação para o desenvolvimento,O conceito de desenvolvimento sustentável tem passado quando ocorria, era traduzida como uma estratégia, sejapor transformações ao longo das últimas décadas. dos EUA ou da URSS, de influenciar as regiões, obtendoAparentemente, chegou-se a um conceito hegemônico, assim mais poder.aquele definido pelo Relatório Nosso Futuro Comum, de As organizações, nesse contexto, não se questionavam1987: o desenvolvimento sustentável seria então sobre seu papel nesse desenvolvimento, já que [...] o desenvolvimento que satisfaz as todo o pensamento vigente obscurecia os impactos necessidades presentes, sem comprometer a ambientais e sociais negativos que suas atividades capacidade das gerações futuras de suprir suas poderiam trazer. Algumas organizações já possuíam próprias necessidades. (WCED, 1986) certo grau de consciência, mas, como essa noção ainda era muito incipiente, o que ocorria eram casos esporádicos de filantropia, com o surgimento modestoÉ interessante observar a trajetória desse conceito até da Responsabilidade Social Corporativa.a sua forma atual, e ainda perceber os motivos pelos Dessa forma, por mais que houvesse alguns conceitos dequais esse foi o conceito “vencedor” dentre tantos outros desenvolvimento que levavam em consideração questõesformulados. É necessário ainda frisar que esse conceito que iriam além da economia, eles eram abafados pelosurgiu em um ambiente de discussão internacional, poderio das duas grandes potências. A própria ONU,o que gera uma interface direta com as Relações criada em 1948, não estava isenta dessa influência,Internacionais. especialmente quando consideramos que seus principaisO desenvolvimento entendido como uma forma de patrocinadores sempre foram as grandes potências.progresso possui suas raízes no século XIX, com o Uma tentativa marcante contra-hegemônica foram ostriunfo do capitalismo enquanto ideologia. No século intentos da Cepal, na formulação de um arcabouçoXX, após a 1ª Grande Guerra Mundial, ascensão teórico estruturalista que levava em consideração asdo Nazismo e do Fascismo, ficou constatado que o especificidades históricas da América Latina. Contudo,progresso nem sempre trazia vantagens, gerando esse esforço é muito localizado e não ganha força noassim a chamada crise do progresso, nos anos 30. Sistema internacional como um todo. De maneira geral,(CASTORIADIS, 1987). a ausência de crescimento em países “em vias deApós a 2ª Guerra Mundial (GM) e a reconstrução desenvolvimento” ocorria devido puramente à ausênciada Europa, gerou-se a ilusão de que o crescimento de crescimento econômico. Bastaria apenas instalar eeconômico traria o progresso e, consequentemente, o importar máquinas para que o problema fosse resolvido.desenvolvimento. Até então, considerava-se que apenas (CASTORIADIS, 1987)o crescimento econômico seria suficiente para diminuir Rapidamente foi percebido que os obstáculos doo gap entre os países desenvolvidos e os “em via de crescimento na verdade demandariam mudanças nas Caderno de Ideias - Nova Lima - 2012 - CI 1202 4
  • 5. estruturas sociais, “[...] as atitudes, a mentalidade, as ao desenvolvimento. Em 71 houve a publicação designificações, os valores e a organização psíquica dos Georgescu-Roegen, considerada o marco da economiaseres humanos.” (CASTORIADIS, 1987) A formulação de ecológica, e, em 76, Ignacy Sachs formulou o conceitonovos conceitos para o desenvolvimento, que incluíssem de ecodesenvolvimento, conceito este imbuído em umatambém questões sociais, era necessária. crítica às relações globais entre países desenvolvidos e os “em via de desenvolvimento”. Além disso, críticasNessa época, as questões ambientais também passaram mais radicais foram feitas em 74 e 75, com a declaraçãoa chamar mais atenção. Até então, os recursos naturais de Cocoyok e o relatório de Dag-Hammarskjöld,eram dados, e por isso utilizados sem limitação. Com a respectivamente. (MOREIRA, 1996, p.245) Em 1987percepção de que isso era uma falácia, que os recursos surge o conceito que hoje, na visão de alguns autores,eram finitos e que seu uso indiscriminado causaria danos é hegemônico.aos próprios países desenvolvidos, a questão passoua ser foco das discussões. Contudo, em um sistema Obviamente existiram outras tentativas de definiçãocapitalista, como fazer com que ambientes, recursos de desenvolvimento, como o “congelamento doe reservas naturais passassem a ter importância? A crescimento”, ou o “crescimento zero”, mas não haverávaloração foi a resposta encontrada, por mais incoerente prolongamento nesses eventos, pois não faz parte doque isso possa ser considerado por alguns autores, escopo da análise. O importante é ressaltar que todasincluindo Castoriadis (1987). De acordo com o mesmo, essas tentativas foram movimentos contra-hegemônicos,não é possível valorar quanto custa uma calota polar, quando comparados àquele proposto no Relatório Nossopor exemplo, simplesmente porque recursos naturais Futuro Comum. Algumas dessas opções podem ser atémensurados são uma abstração autoritária. De qualquer mesmo consideradas subalternas, tentativas tão fracasforma, isso gera o chamado capitalismo ecológico, isto que acabam não possuindo força para se tornarem deé, a transformação do meio biofísico, considerado pelo fato contra-hegemônicas.marxismo clássico como dado, em algo que pode ser Analisando o conceito hegemônico de desenvolvimentomedido e valorado. sustentável, algumas características vêm à tona e nosAs técnicas de valoração são atualmente muito ajudam a compreender, dentro da lógica de poder, outilizadas pelas organizações, seja por pressões porquê da prevalência do conceito. Primeiramente, égovernamentais, da sociedade ou por ter interesse em preciso frisar o caráter internacional do conceito. Criadoconsiderar os impactos ambientais negativos de suas em encontros internacionais, sob a égide da ONU, umações. As técnicas têm sido apuradas nos últimos anos, conceito como este não poderia vir carregado de críticasmas ainda não estão isentas de críticas. Um estudo àqueles que financiam a própria instituição. Assim,bastante difundido na atualidade é o The Economics of a definição ampla e parcimoniosa é preferível. AlémEcosystems and Biodiversity (TEEB), que busca medir disso, não há críticas à distribuição de riquezas, e aindaquanto o impacto negativo ambiental das organizações estimula o crescimento, já que é preciso satisfazer asvale em termos monetários. (TEEB, 2012) A metodologia necessidades das gerações, e homogeneiza o estilo detem se espalhado por diversas regiões do globo, e vida de todos os povos. Feitas essas considerações,aparentemente o Brasil está prestes a receber sua é possível perceber a fraqueza de aplicabilidade doprópria versão do estudo. conceito. Afinal, quais são as necessidades atuais? Quais são as necessidades futuras? As próximasA valoração é uma opção bastante lógica quando as gerações suecas são as mesmas que as sudanesas?relações de poder são consideradas. Em um sistema Tal indeterminação abre espaço para discussão ecapitalista, com hegemonias baseadas em poderio conflito, mas outros conceitos que vão contra o conceitoeconômico e político, nada mais natural do que, quando hegemônico, na atualidade, são subalternos e, porincluídos novos temas na agenda, esses temas sigam o definição, não chegam a ameaçá-lo. Quando o conceitomesmo raciocínio daqueles que estão no poder. Para a hegemônico é considerado muito fraco pela instituiçãoformulação de um conceito de desenvolvimento deveria que almeja aplicá-lo, são criados instrumentos ehaver então a preocupação com as questões ambientais, ferramentas complementares à formulação hegemônica.debate esse iniciado na década de 60 e 70, mas uma Dessa forma, o que ocorre é o fortalecimento do conceitopreocupação que surge pela percepção de que os hegemônico ao longo do tempo.recursos naturais seriam, no longo prazo, um problemapara a acumulação capitalista. (MOREIRA, 1996) As organizações de fato têm percebido a dificuldade de operacionalizar o conceito de sustentabilidade eO conceito de desenvolvimento sustentável é então implementá-lo efetivamente em suas gestões, processosum processo, iniciado com as percepções de que as e produtos. Nesse contexto, as organizações, quandoquestões econômicas somente não conseguiriam levar desejam tangibilizar a sustentabilidade em seus Caderno de Ideias - Nova Lima - 2012 - CI 1202 5
  • 6. processos, corriqueiramente recorrem à abordagem em desenvolvimento sustentável, é necessário analisardenominada Triple Bottom Line, criada em 1994 por o conceito mais a fundo, considerando sua criação,John Elkington. De maneira superficial, a abordagem por quem, para que e por que foi estabelecido dessadiz que, para que a sustentabilidade seja alcançada, é maneira. Ainda é preciso compreender que a mudançanecessário que a organização se preocupe com questões do planeta como um todo para a sustentabilidade nãoambientais, sociais e econômicas. (ELKINGTON, 1998; ocorrerá com uma mudança drástica no sistema, e simELKINGTON, 2004). É um conceito mais operacional, por uma mudança dentro do próprio capitalismo.alinhado com o conceito hegemônico, parcimonioso e Da mesma maneira que o feminismo, a sustentabilidadesem críticas profundas ao sistema, até porque estamos já está em progresso, mas sem grandes alardes, dentrofalando de organizações capitalistas. das amarras e imposições impostas pelo sistemaO conceito definido em 1987 é ainda hegemônico por hegemônico. Observando a situação por outro ângulo,ser considerado, hoje, um ponto de partida para a a vertente teórica sociológica do interacionismoaplicabilidade da sustentabilidade. É estranho como simbólico também traz concepções interessantesque, a partir do momento em que houve essa definição, para o tema. Traduzido nas Relações Internacionaishá também a tentativa de ocultar tentativas de definição como Construtivismo, a teoria considera que osanteriores. Tal fato também é muito visto nas Relações atores internacionais são também atores sociais, comInternacionais. Os EUA, considerados hoje a hegemonia interesses, identidades e percepções da realidade emmundial, mudam os rumos sobre como o passado constante interação no Sistema Internacional. Assim,é recontado, apagando, omitindo ou distorcendo a realidade, para os construtivistas, é construída. Odeterminados acontecimentos, de maneira a satisfazer conceito de sustentabilidade foi claramente construídoos seus interesses. com a interação do hegêmona e os movimentos contra-hegemônicos. Por mais que exista uma relaçãoA própria discussão acerca da sustentabilidade nos assimétrica de poder nessa relação, as percepçõesfaz refletir sobre a apropriação do não material, a da realidade são moldadas, ao menos em parte,apropriação privada do conhecimento. Qual é a nessas interações. Berger e Luckmann contribuemimportância de compreender qual é o conceito de para essa corrente com suas colocações acerca dadesenvolvimento sustentável hegemônico? Pois isso realidade objetiva e subjetiva. Castoriadis (1982 apudmostra as relações de poder que estão por trás desse MOREIRA, 1996) afirma que a realidade é construídaprocesso, e as expectativas daqueles que cunham o pela instituição imaginária da sociedade. Assim, umatermo com sua utilização. Dessa forma, por mais que as vez que a sustentabilidade e a natureza são aceitasquestões ambientais e sociais também passem a fazer nesse contexto, a própria natureza humana deve serparte das discussões acerca do tema, é essencial termos ressignificada. (MOREIRA, 1996, p.249)em mente que existe uma razão muito clara para que Chegamos então à conclusão de que a ideia de que aelas fossem incluídas: a lógica de poder. natureza e o mundo biofísico não podem ser consideradas Além disso, compreender o que se entende por como dados, e que a valoração ambiental deixa issodesenvolvimento sustentável é necessário para evitar evidente. Por mais que ambas as teorias - Neomarxismoa chamada “nebulosa ambientalista”, situação na e Construtivismo / Interacionismo Simbólico - possuamqual há uma generalização ilusória do grupo social muitas divergências, é possível também observar pontosdos ambientalistas, por exemplo. É muito comum em que não são contraditórios, como o exposto.enxergarmos um grupo homogêneo, supostamente Enxergar a sustentabilidade sem possuir uma percepçãocom um caminho único. Contudo, existem divergências crítica e apurada dos diversos interesses por trásinternas que diferenciam seus indivíduos de maneira desse processo é minimizar a questão. As Relaçõessignificativa. Ora, da mesma maneira que existem grupos Internacionais levam em consideração uma gama depolíticos de direita e de esquerda, existem ambientalistas fatores econômicos, sociais, ambientais e políticos quemais conservadores, e outros mais extremistas. Isso, ampliam a visão dos decision-makers, sendo assimapesar de ser trivial, raramente é levado em consideração importante ferramenta para a área de desenvolvimento.pelos meios midiáticos e opinião pública. Além disso, em um contexto de realidade construída, asEm um mundo cada vez mais interconectado, com organizações influenciam na sociedade ao seu redor,relações múltiplas e um sistema internacional unipolar assim como a sociedade também molda o comportamentocom a presença de diversas potências e potências- das organizações. Essa percepção, agregada à ideiamédias, as informações são tantas que a realidade parece de desenvolvimento sustentável, começa a fazer partepassar à nossa frente, em uma velocidade na qual não da realidade objetiva das nações, e o sistema pode sepodemos acompanhar. Nesse contexto, quando se fala ressignificar, caso esse movimento continue. Caderno de Ideias - Nova Lima - 2012 - CI 1202 6
  • 7. Considerações Finais MOREIRA, Roberto José. Economia Política da Sustentabilidade: uma perspectiva neomarxista. 1996 TEEB. The Economics of Ecosystems and Biodiversity.Este caderno de ideias apenas sumariza as questões 2012. Disponível em: <http://www.teebweb.org/> Acessoprincipais relacionadas ao desenvolvimento sustentável. em: 2 fev. 2012.São três eixos transversais considerados no trabalho: a WCED. Our Common Future. 1986. Disponível em:evolução do conceito; as relações internacionais e sua <http://www.un-documents.net/ocf-02.htm#I> Acessorelação nesse movimento e o papel das organizações, em: 30 out. 2011.enxergando-as como atores importantes para odesenvolvimento sustentável.Apesar de terem sido apresentados poucos aspectosque relacionem o contexto interno das organizações, éinteressante observar que estas não atuam isoladamente,e sim em constante interação com o cenário externo,mesmo em um cenário de bipolaridade como o daGuerra-Fria.A continuação desse trabalho prevê um enfoque maislocalizado na trajetória da Responsabilidade SocialCorporativa, e como este se relaciona com o contextointernacional e a sustentabilidade, mais recentemente. Referências:BIELSCHOWSKY, Ricardo. Cinquenta anos dep e n s a m e n t o n a C E PA L - u m a r e s e n h a . I n :BIELSCHOWSKY, R. (org.) Cinquenta anos depensamento na CEPAL. R. Janeiro: Ed. Record, vol. 1,13-68. 2000.CARRION, Rosinha da Silva Machado; SANTOS,Claire Gomes dos. Reflexões sobre a Governança daCooperação Internacional para o Desenvolvimento.Revista de Geopolítica, v. 2, p. 24-42, 2011.CORNELIUS, Castoriadis. As Encruzilhadas do LabirintoII: Os Domínios do Homem, 1987.ELKINGTON, John. Cannibals With Forks - The triplebottom line of 21st century business, New SocietyPublishers, Oxford. 1998.ELKINGTON, John. Enter The Triple Bottom Line. 2004.Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/12906958/Relatorio-Brundtland-Nosso-Futuro-Comum-Em-Portugues> Acesso em: 1º dez. 2011.FURTADO, Celso. Em Busca de um Novo Modelo.2002.M A L U F, R e n a t o S . A t r i b u i n d o s e n t i d o ( s ) a odesenvolvimento econômico. In: Estudos Sociedade eAgricultura. 15, p.53-86. 2000. Caderno de Ideias - Nova Lima - 2012 - CI 1202 7