UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
FACULDADE DE ARTES VISUAIS
MONIQUE DE JESUS VIEIRA COELHO DOS SANTOS
PRISCILA DE MACEDO PERE...
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MONIQUE DE JESUS VIEIRA COELHO DOS SANTOS
PRISCILA DE MACEDO PERE...
“Porque Surdos? Tão difícil mexer com esse público”
“Os Surdos mexeram com a gente. Vamos agora mexer com eles também pra ...
Arte contemporânea e Fotografia
Uma reflexão acerca do cotidiano dos Surdos1
CAPÍTULO I
Problema: Como ensinar arte para o...
críticos e conscientes.
A escolha deste espaço se deu principalmente pela experiência pessoal com o
público Surdo por part...
Um dos objetivos da pesquisa no Estágio Supervisionado II, além de observarmos a
prática do ensino de artes, foi sabermos ...
que estava sendo feito durante as aulas dos projetos de educação não-formal existentes na
ASG. Fazia-se apenas por fazer, ...
A escolha da linguagem fotográfica se deu após notarmos o uso frequente da
fotografia pelos Surdos em seu dia a dia. Os Su...
“Eu gosto fotografia. É fácil faz fala.
Foto é parece caderno escreve,
mas, escreve nada. É desenha com caixa, luz, ideia....
CAPÍTULO II
A Fotografia
A fotografia surgiu em 1826, sendo utilizada apenas para fins documentais, ou de
registro, da ide...
encontrará na tolice da multidão. É preciso então que ela retorne ao seu verdadeiro
dever, que é o de ser a serva das ciên...
Figura 1 - Nino Cais – Sem título – 104 x 76 cm – 2009 – Fotografia
Leo Ayres utilizou partes de seu corpo em composição c...
Figura 2. Sem título – fotografia - 2009
Figura 3. Dalton Paula. 2010
“(...) bons projetos são aqueles que geram ganhos de conhecimento e de experiência para todos os
participantes, com base n...
CAPÍTULO III
Metodologia de pesquisa
Pesquisa-ação
A pesquisa-ação é uma metodologia de pesquisa na qual o pesquisador est...
Vergara também refere-se a pesquisa-ação:
(...) Pesquisa-ação é um tipo particular de pesquisa participante e de pesquisa
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reflexão” (THIOLLENT. 2011. p. 7).
Levando em conta a crítica e a reflexividade, pensamos também no conceito de
emancipaçã...
desfavorecidas terem acesso à educação, não apenas acesso ao vigente
conhecimento etilizado, mas, sobretudo condição de co...
(...)
CAPÍTULO IV
Metodologia de ensino
Conexões - Cultural Visual e Zona de Desenvolvimento Proximal
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Utilizamos também os sinais em LIBRAS criados pelo Fotolibras2
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alguns termos técnicos referentes à fotograf...
criar: a fotografia artística. Mas, como fazê-lo em meio a tantas dificuldades de se tornar
sensível se não ouvem? Se não ...
vemos nada que realmente não tenhamos visto antes, e isso é explicado como pura
casualidade.
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assim, cotidiano.
(...) o cotidiano é plural, híbrido, miscigenado e complexo, e quanto podemos
aprender, observando, regi...
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Portanto, explicar conceitos mais abstratos...
aluno, pontuando os conhecimentos que não precisam mais repetições ou aqueles que
precisam ser frisados, repetidos, melhor...
distribuímos em panfletos, para melhor fixação, para serem usados durante as aulas práticas
e para a socialização dos mesm...
Figura 2 – Yuri Firmeza – A fortaleza - 2010
Assim, usando artistas com essas e outras propostas, conseguimos diferenciar ...
A partir do terceiro encontro, apresentamos diversas fotografias de artistas da
atualidade, que usaram em suas composições...
CAPÍTULO IV
O Surdo e a Fotografia como eixo de comunicação/expressão artística
Qual será o poder que a fotografia tem par...
Os Surdos se sentiram motivados a produzir imagens utilizando seu próprio corpo e
falaram sobre memória, cotidiano e ident...
CONCLUSÃO
Acreditamos que essa experiência trouxe um grande ganho aos alunos, enquanto
participantes, construtores crítico...
ANEXOS
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Referências Bibliográficas
BAUDELAIRE, Charles. O público moderno e a fotografia - Carta ao Sr. Diretor da
Revue française...
1990.
OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky – Aprendizado e desenvolvimento, um processo
sócio-histórico. Editora Scipione. Sã...
Arte contemporânea e Fotografia Uma reflexão acerca do cotidiano dos Surdos
Arte contemporânea e Fotografia Uma reflexão acerca do cotidiano dos Surdos
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
FACULDADE DE ARTES VISUAIS

MONIQUE DE JESUS VIEIRA COELHO DOS SANTOS
PRISCILA DE MACEDO PEREIRA E SOUZA

Arte contemporânea e Fotografia
Uma reflexão acerca do cotidiano dos Surdos

Goiânia
2011

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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS FACULDADE DE ARTES VISUAIS MONIQUE DE JESUS VIEIRA COELHO DOS SANTOS PRISCILA DE MACEDO PEREIRA E SOUZA Trabalho de Conclusão de Curso II Arte contemporânea e Fotografia Uma reflexão acerca do cotidiano dos Surdos Goiânia 2011
  2. 2. UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS FACULDADE DE ARTES VISUAIS MONIQUE DE JESUS VIEIRA COELHO DOS SANTOS PRISCILA DE MACEDO PEREIRA E SOUZA Arte contemporânea e Fotografia Uma reflexão acerca do cotidiano dos Surdos Pré-Projeto apresentado ao Curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, como requisito parcial para obtenção de grau de licenciatura em Artes Visuais, sob orientação da Professora Drª Alice Fátima Martins. Goiânia 2011
  3. 3. “Porque Surdos? Tão difícil mexer com esse público” “Os Surdos mexeram com a gente. Vamos agora mexer com eles também pra ver no que dá.” Professores e nós, pesquisadoras
  4. 4. Arte contemporânea e Fotografia Uma reflexão acerca do cotidiano dos Surdos1 CAPÍTULO I Problema: Como ensinar arte para o Surdo através da fotografia? Pelo fato do Surdo utilizar mais a visão para se comunicar, ele tem mais facilidade em lidar com imagens? Como utilizar a fotografia e as vivências dos Surdos na produção artística? Justificativa Nossas pesquisas se iniciaram no espaço da Associação dos Surdos de Goiânia (ASG) e no Centro Especial Elysio Campos (CEEC) no primeiro semestre do ano de 2010, na disciplina de Estágio Supervisionado II e III, do curso de Artes Visuais, com habilitação em Licenciatura, na Universidade Federal de Goiás. A Associação dos Surdos de Goiânia (ASG) tem a intenção de unir e prestar assistência às pessoas surdas da cidade de Goiânia e abriga o Centro Especial Elysio Campos (CEEC) – que atende desde a 1ª fase do Ensino Fundamental à Educação de Jovens e Adultos (atendendo Pessoas surdas e ouvintes). A ASG tem apoio pedagógico para as pessoas surdas que estudam em escolas regulares (fundamental, ensino médio, pré- vestibular e curso superior); atendimento sócio-psicológico, fonoaudiológico e audiométrico: curso de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), iniciação esportiva, informática, costura, serigrafia e marcenaria: funcionando em três turnos. Escolhemos como espaço de investigação a ASG, um espaço não-formal que além de apoio pedagógico, oferta aulas de arte no período vespertino onde poderíamos trabalhar e investigar questões referentes ao ensino de artes visuais para o público Surdo, discutindo conceitos, que nos ajudarão nesse processo de formação de construtores de significados, 1 Surdo (com S maiúsculo) - refere-se a uma pessoa que usa a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS - como meio principal de comunicação, identifica-se com outras pessoas Surdas. Surdo (sem S maiúsculo) - refere-se a uma pessoa que nasceu surda ou não, e não se comunica usando a LIBRAS, não se identifica com outros Surdos e não faz parte de uma comunidade Surda, assim sendo, Surdo com "s" é apenas uma surdez auditiva, e Surdo com "S" é o Surdo que tem uma linguagem e cultura própria.Fonte: Confederação Brasileira dos Surdos: http://www.cbsurdos.org.br/sobre.htm
  5. 5. críticos e conscientes. A escolha deste espaço se deu principalmente pela experiência pessoal com o público Surdo por parte de uma das pesquisadoras, Priscila de Macedo P. e Souza. No ano de 2004, com 15 anos, eu, Priscila de Macedo Pereira e Souza, iniciei meus estudos na Língua Brasileira de Sinais, apenas por curiosidade. Não fiz o curso com a intenção de me tornar intérprete e trabalhar na área. Mas, no ano de 2007, aos 18 anos, resolvi entrar no processo seletivo na cidade do Senador Canedo para o cargo de Interprete de Libras, acompanhando uma aluna Surda, da mesma idade que eu. A aluna cursava o 6º ano, 5º série. Passados três meses na escola, resolvi que deveria levar a aluna uma vez por semana a Associação dos Surdos de Goiânia, onde há outros que compartilham da Língua de Sinais. Esperava que ela se desenvolvesse melhor e mais rápido, já que vinha do interior da Bahia, não conhecendo outro surdo além da irmã, não sabendo a LIBRAS, o que dificultava a comunicação entre aluno e intérprete. Assim foi feito. A escola autorizou a saída da aluna e todas as sextas-feiras eu me dirigia até a escola, buscava a aluna para levar à Associação dos Surdos (pelo fato da mesma não conhecer a cidade, como se localizar por meio de placas, sinalizações) e ao término da aula retornava à cidade com a aluna. Das 14:00hs ás 17:00hs a aluna fazia curso básico de Libras e eu aproveitava esse tempo livre para conhecer melhor o espaço, adquirir maior contato com os Surdos que ali frequentam. Tal foi a recepção que desde então tenho freqüentado o espaço. Já fiz cursos de LIBRAS m cursos em Goiânia e já tenho muitos amigos e conhecidos Surdos. Muitos deles, já professores, tem mostrado interesse nas artes, nos espaços que abrangem as artes de alguma forma como museus, dentre outros. Esse interesse me motivou a uma pesquisa mais a fundo, pois se tratando de pessoas mais experientes, muitos já formados e trabalhando na educação, procurei me ater aos jovens e adolescentes. Como eles vêem as artes visuais? Como entendem, percebem, se expressam por meio das artes visuais? Há interesse? Essas questões me motivaram para o início dessa pesquisa.
  6. 6. Um dos objetivos da pesquisa no Estágio Supervisionado II, além de observarmos a prática do ensino de artes, foi sabermos o quanto o assunto (artes visuais) desperta o interesse por parte dos Surdos que frequentam a ASG. Percebia-se, entretanto, que poucos alunos participavam das aulas de artes, ministradas às terças e quintas-feiras, no período vespertino, horário que escolhemos para a pesquisa, no qual se concentra o maior número de Surdos no espaço como um todo. A partir dessa premissa, buscamos, através de entrevistas informais descobrir o porquê dessa ausência. Primeiramente realizamos uma oficina prática, onde discutíamos sobre arte contemporânea, arte “popular” e o grupo se mostrou interessado. Discutiam entre si sobre o assunto e sobre o trabalho um do outro. Trabalhamos com materiais simples, com a intenção de ter apenas um pretexto para conversar e conhecer melhor o grupo, saber suas necessidades e suas percepções, já que se tratava de uma experiência não-formal, ou seja, não tínhamos uma turma fixa, assim, tivemos que reuni-la com a ajuda do YouTube, do Orkut e do MSN, para divulgação da oficina. Além dos materiais diferentes, percebemos também a falta de uma reflexão sobre o Eu, Monique de Jesus Vieira Coelho dos Santos, conheci a cultura dos Surdos através de minha companheira de estágio e um Surdo conhecido em comum. Decidi fazer o estágio na associação dos Surdos de Goiânia para ter maior conhecimento das pessoas, do ambiente e da cultura dos Surdos, trazendo o assunto como tema para Trabalho de Conclusão de Curso, em parceria com Priscila de Macedo P. e Souza. Para mim, fazer desenvolver esse trabalho foi uma experiência totalmente nova, na qual tive uma sensação de desnorteamento, pois tinha pouco conhecimento a respeito da cultura dos Surdos, tendo como principal dificuldade o fato de não saber me comunicar muito bem devido ao não conhecimento da LIBRAS, dependendo da intérprete para poder prosseguir com qualquer diálogo.
  7. 7. que estava sendo feito durante as aulas dos projetos de educação não-formal existentes na ASG. Fazia-se apenas por fazer, não havendo um olhar critico a respeito do que estava sendo trabalhado, apontando então para a necessidade de arte-educadores com ênfase na aprendizagem da arte com foco na criticidade e na formação de um construtor crítico. Esta pesquisa também apontou várias questões sobre como trabalhar as artes visuais em um contexto bem amplo, diferente do que estamos habituados. Mostrou também que, os Surdos são como qualquer ouvinte, e pelo fato de não ouvirem, talvez possam ser portadores de peculiaridades, como uma percepção superior em relação às imagens, tendo uma visão mais aguçada, aprendendo na maior parte das vezes através de imagens, ações e tato. A interação, a participação, o interesse, a vontade de questionar tudo foi delirante. Foi muito rica nossa experiência e acreditamos que a deles, alunos Surdos presentes, também. Ao concluirmos esta primeira experiência, notamos que para a maioria das pessoas que freqüentavam o lugar, o fazer artístico em artes visuais se dava apenas através do desenho, pintura, escultura, entre outras linguagens tradicionais. Então sentimos a necessidade de mostrar para eles que nas artes visuais existem inúmeras possibilidades diferentes para o fazer artístico além das linguagens tradicionais que eles conhecem, podendo ser utilizado até o próprio corpo na construção de um trabalho artístico. Como começar esse trabalho? Foi observando os Surdos de perto que percebemos o quanto a visão é importante para eles. Foi observando discursos, sorrisos, percepções, questionamentos que entendemos o quanto as artes visuais e os Surdos se completam enquanto meio de reflexão, comunicação, expressividade, e tantos outros. Escolhemos a partir de então, abordar discussões sobre o cotidiano, identidade e memória, que são palavras–chave presentes no mundo dos Surdos, utilizando a fotografia como linguagem. Sentimos a necessidade de levar uma abordagem que contextualizasse o mundo deles, as vivências, de forma que não os assustasse, a ponto de não se interessarem ou se sentirem constrangidos por não saberem, não entenderem algo.
  8. 8. A escolha da linguagem fotográfica se deu após notarmos o uso frequente da fotografia pelos Surdos em seu dia a dia. Os Surdos utilizavam a fotografia apenas como forma de registro, ocorrendo o ato de fotografar apenas por fotografar não havendo reflexão acerca das imagens que eram produzidas.
  9. 9. “Eu gosto fotografia. É fácil faz fala. Foto é parece caderno escreve, mas, escreve nada. É desenha com caixa, luz, ideia. Eu gosto. Mais legal do que escreve.” Gabriel Isaac – 14 anos
  10. 10. CAPÍTULO II A Fotografia A fotografia surgiu em 1826, sendo utilizada apenas para fins documentais, ou de registro, da identificação policial, científica à informação jornalística, tendo a função de ser o espelho da realidade. Como diz Rouillé, “Ao contrário de obras de arte – destinadas a serem contempladas, expostas e admiradas -, reunidas desse modo as imagens foram sobretudo consultadas, arquivadas, utilizadas” (ROUILLÉ. 2009. p. 38). Por mais de um século a fotografia seguiu este viés documental, passando depois a ser pensada também como possibilidade de expressão. Primeiramente houve forte rejeição à fotografia como arte, até mesmo a fotografia artística não foi aceita por parte de artistas e críticos que alegavam que as provas fotográficas “não podem, em nenhuma circunstância, ser assimiladas às obras, fruto da inteligência e do estudo da arte” (ROUIILLÉ. 2009. p. 242). Para Delacroix a fotografia possui uma “incapacidade inata, que paradoxalmente provém de sua grande perfeição; sua „inflexível perspectiva, que deforma a visão dos objetos devido à exatidão‟; sua „pretensão a reproduzir tudo‟, que „ofusca‟ o olho do artista em sua „feliz impotência de perceber os infinitos detalhes‟ (DELACROIX apud ROUILLÉ. 2009. p. 243). A fotografia era rejeitada por não depender exclusivamente do olhar e da percepção humana para construção do trabalho do mesmo modo que necessitam as linguagens tradicionais, como desenho, pintura e gravura. Sendo realizada a partir de um artefato industrial, foi entendida como inferior e não digna de ser denominada uma forma de arte. Baudelaire foi extremamente crítico ao falar sobre a fotografia, como podemos ver em sua carta ao Sr. Diretor da Revue Française sobre o salão de 1859: Se for permitido à fotografia substituir a arte em qualquer uma de suas funções, ela logo será totalmente suplantada e corrompida, graças à aliança natural que
  11. 11. encontrará na tolice da multidão. É preciso então que ela retorne ao seu verdadeiro dever, que é o de ser a serva das ciências e das artes, a mais humilde das servas, como a imprensa e a estenografia, que nem criaram e nem suplantara m a literatura. Que ela enriqueça rapidamente o álbum do viajante e devolva a seus olhos a precisão que faltava a sua memória, que ela ornamente a biblioteca do naturalista, amplie os animais microscópicos, ou mesmo, que ela acrescente ensinamentos às hipóteses do astrônomo, que ela seja enfim a secretária e o guarda-notas de quem quer que precise, em sua profissão, de uma absoluta precisão material, até aí, nada melhor. Que ela salve do esquecimento as ruínas decadentes, os livros, as estampas e os manuscritos que o tempo devora, as coisas preciosas cuja forma irá desaparecer e que pedem um lugar no arquivo de nossa memória, ela terá nossa gratidão e será ovacionada. Mas se lhe for permitido usurpar o domínio do impalpável e do imaginário, de tudo aquilo que apenas tem valor porque o homem lhe acrescenta alma, então, que desgraça a nossa! (BAUDELAIRE. 1859.) Na fotografia artística, a partir dos anos 20, os artistas utilizavam várias técnicas fotográficas como montagens, colagens, fotogramas, sobreposição de imagens, o desfoque, o borrado, explorando cada vez mais o imaginário e criando imagens cada vez mais subjetivas, ganhando cada vez mais espaço no campo da Arte. O artista não utiliza somente as funções básicas do aparelho, mas intervém inserindo seu pensamento construindo novo sentido no ato de fotografar, que já não é só captar o real, mas mudá-lo de acordo com sua necessidade na criação artística. Já nos dias atuais, a fotografia não é vista somente como uma linguagem artística, mas também se torna uma ferramenta fundamental para visualização de muitos trabalhos na arte contemporânea, como no caso dos trabalhos que são efêmeros e se acabam devido à ação do tempo, ou são realizados em apenas um momento como no caso das performances (através da fotografia temos o registro deste trabalho, podendo visualizar a qualquer momento), além de instalações que usam a fotografia como parte constituinte do trabalho. Partindo da fotografia na arte contemporânea, mostramos aos alunos imagens de diversos artistas que trabalham com esta linguagem a fim de visualizarmos diferentes possibilidades de fotografia artística. Dentre os artistas que mostramos está Nino Cais, que utiliza em suas fotografias objetos que fazem parte de seu universo doméstico, que segundo Thaís Rivitti a memória de Nino associa a figura de sua avó.
  12. 12. Figura 1 - Nino Cais – Sem título – 104 x 76 cm – 2009 – Fotografia Leo Ayres utilizou partes de seu corpo em composição com o céu na construção de paisagens.
  13. 13. Figura 2. Sem título – fotografia - 2009 Figura 3. Dalton Paula. 2010
  14. 14. “(...) bons projetos são aqueles que geram ganhos de conhecimento e de experiência para todos os participantes, com base no ciclo relacionando ação e reflexão” THIOLLENT. 2011. p. 7
  15. 15. CAPÍTULO III Metodologia de pesquisa Pesquisa-ação A pesquisa-ação é uma metodologia de pesquisa na qual o pesquisador está envolvido no problema que detectou e participa da construção da solução desse mesmo problema. Como Hugues Dionne em seu livro A Pesquisa Ação para Desenvolvimento Local nos informa: A pesquisa-ação se desenvolveu para responder a problemas concretos. Nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, era preciso modificar profundamente certos comportamentos, [...] (DIONNE. 2007. p. 26-27) Com certeza a ação é mais útil para a vida prática e bem vinda do que simplesmente tecermos teorias. A mudança de fato só acontece se houver sujeitos participantes e ativos no processo. Isso ficou claro no nosso primeiro estágio, quando os alunos apenas nos observavam no espaço deles. Éramos visitantes, observando, anotando e discutindo sem real aproximação. Quando realizamos a oficina com diferentes materiais, no primeiro semestre de 2010, no estágio II, tudo se tornou mais claro, com relação a percepções sobre, por exemplo, o que é arte? do que se tratam as artes visuais? Além de outros questionamentos que vieram à tona quando deixamos o campo da teoria e nos aprofundamos na prática, com a intenção de que eles reagissem e nos contassem seus questionamentos, seus anseios com relação às artes e tudo que a cerca. Como afirma Lewin, (...) o desenvolvimento da ciência acontece na ação e pela ação. A implicação do pesquisador, sua permanente presença no campo pesquisado, é central e no procedimento. A preocupação com a ação não deve fazer esquecer a relevância da teoria. [...] A pesquisa se assemelha ao homem de ação confrontado com as situações concretas e particulares; o pesquisador elabora seu questionamento (objeto, suporte teórico, problemática) no próprio coração da ação. (LEWIS. 1946. p. 34-46)
  16. 16. Vergara também refere-se a pesquisa-ação: (...) Pesquisa-ação é um tipo particular de pesquisa participante e de pesquisa aplicada que supõe intervenção participativa na realidade social. Quanto aos fins é, portanto, intervencionista. (VERGARA. 2007. p. 49) Na pesquisa-ação existe um diálogo, assim, entre pesquisadores e sujeitos da pesquisa, trocando experiências, informações, conseguem encontrar a solução de um problema detectado e, promovendo mudanças, criar estratégias, com o objetivo de transformar os sujeitos e resolver o problema em questão. (...) orientando para analisar problemas reais e para buscar soluções, tendo em vista transformações úteis para a população (a curto e médioprazo) (THIOLLENT. 2011. p. 2). Segundo Ernest Stringer (apud THIOLLENT), a participação é mais efetiva no processo de pesquisa-ação quando: (...) Possibilita significado nível e envolvimento; * Capacita as pessoas na realização de tarefas; * Dá apoio às pessoas para aprenderem a agir com autonomia; * Fortalece planos e atividade que as pessoas são capazes de realizar sozinhas; * Lida mais diretamente com as pessoas do que por intermédio de representantes ou agentes (THIOLLENT. 2011. p. 4). Pensando na palavra emancipação, a qual Thiollent fala, é que percebemos a importância de transformá-los, incitá-los à mudança, à formação de pensadores críticos. Mas, como afirma Thiollent, não uma crítica no plano das idéias, mas que seja prolongada em nível das práticas do dia-a-dia. Fazer com que reflitam sobre o fazer fotográfico, assim sendo incitados a construir um conhecimento próprio, uma idéia própria, uma composição deles, desenvolvendo maior autonomia perante seu próprio trabalho. Thiollent acrescenta, “bons projetos são aqueles que geram ganhos de conhecimento e de experiência para todos os participantes, com base no ciclo relacionando ação e
  17. 17. reflexão” (THIOLLENT. 2011. p. 7). Levando em conta a crítica e a reflexividade, pensamos também no conceito de emancipação. Fazer com que os Surdos da Associação dos Surdos de Goiânia consigam, de forma satisfatória, adquirirem essa emancipação, estimulando sua autonomia, liberdade e auto-realização perante a arte que produzirão, é de extrema importância para concluirmos essa pesquisa. Deixar marcas de forma que possamos entender nossa ação como transformadora, e não apenas como um simples “ensinar fotografia”. Com este projeto, esperamos instigá-los e estimulá-los a serem pesquisadores, a serem participantes desde já. É o que afirma Thiollent, (...) essa busca se concretiza quando as pessoas conseguem superar os obstáculos ligados a sua condição e alcançam níveis de conhecimento mais elevados a partir dos quais poderão exercer atividades desafiadoras (...) (THIOLLENT. 2011. p. 8). Mas porque tratamos a fotografia artística como desafiadora para o Surdo? Não são como nós? Ouvintes, os dito normais? Sim. São. Mas, sentimentos, idéias, conceitos abstratos, o subjetivo não é tão fácil de entender quando tratamos de uma linguagem extremamente visual na qual precisamos nos expressar usando as mãos (LIBRAS – Linguagem Brasileira de Sinais), o rosto (Expressões faciais) e todo o corpo (Expressões corporais) e que, se aquele que transmite essas idéias não conseguir, de forma satisfatória explicar, passar esses conhecimentos, de forma alguma o Surdo poderá compreender tais conhecimentos. O Surdo se torna limitado por falta de profissionais que realmente estejam preparados para tais conhecimentos. E nós como arte-educadoras, estamos sendo desafiadas a transmitir, instigar esses mesmos Surdos a entenderem, a refletirem sobre conceitos subjetivos como identidade, memória, poéticas. Assim sendo, concordamos com Thiollent: (...) Uma ação educacional com propósito emancipatório é um desafio às leis de reprodução social, gerando transformações sociais a partir do fato de as camadas
  18. 18. desfavorecidas terem acesso à educação, não apenas acesso ao vigente conhecimento etilizado, mas, sobretudo condição de construir conhecimentos novos, em termos de conteúdos, formas e usos (THIOLLENT. 2011. p. 8). A universidade pública está “ameaçada e muita gente perdeu o ânimo, deixando de atuar em projetos audaciosos e conformando-se no cumprimento de exigências de avaliação ou de sobrevivência” (THIOLLENT. 2011. p. 9). E nós, resolvemos trabalhar com esse grupo específico como um desafio que ainda não foi visto como tal, na cidade de Goiânia, e que, precisava ser iniciado, precisava ser cutucado. E de certa forma, precisava ser pensado. “Precisamos recuperar idéias mais ousadas para enfrentar os desafios intelectuais e da vida cotidiana. É animadora a possibilidade de se produzir conhecimento crítico a ser compartilhado com atores sociais por de meio de” um trabalho de estágio vinculado ao projeto de final de curso, por exemplo (THIOLLENT. 2011. p. 9-10). Talvez não conseguiremos solucionar esse problema apenas no campo da teoria, mas, poderemos construir essa mesma solução a partir das experiências com o grupo, nas aulas teórico-práticas e, com o aparato tecnológico, no qual usaremos câmeras fotográficas, celulares, notebook, date-show, computadores e a internet. E é essa metodologia que se associa à crítica, á reflexividade e à emancipação, que queremos, de que tanto precisamos. E foi pensando nessa mudança de olhares e discursos presentes no nosso espaço, na ASG, que escolhemos seguir usando o processo da pesquisa- ação.
  19. 19. (...)
  20. 20. CAPÍTULO IV Metodologia de ensino Conexões - Cultural Visual e Zona de Desenvolvimento Proximal Proposta de oficina de fotografia artística para o público Surdo Oficina “Corpo Visível” Através do estágio IV realizamos na Associação dos Surdos de Goiânia na modalidade de ensino não-formal uma oficina de fotografia no período vespertino, como estratégia para alcançar Surdos adolescentes e jovens, público especifico deste período, que procura o espaço para apoio escolar, socialização, dentre outros motivos. O supervisor que nos acompanhou nesse estágio foi o Instrutor de LIBRAS Rodrigo Nascimento Guedes, que tem nos acompanhado desde 2010, nos estágios II e III. Os Surdos usam a linguagem visual para se comunicar, ver o mundo. Usam as mãos, expressões faciais, corporais. Usam todos esses elementos em suas fotografias, em suas performances. Mas, qual o porquê de fotografarem tanto? Apenas como registro? Alguns, poucos, se preocupam com significados, conceitos, composições. O ato de fotografar é tão mecânico e naturalizado que se perdeu o sentido de fotografar. Perguntamo-nos também “o que fotografar? Quando fotografar? Será que refletimos sobre o que fotografamos ou só registramos?”, essas e outras questões não são particulares apenas aos Surdos, mas, a todos nós. A partir destes e outros questionamentos, optamos por realizar uma oficina utilizando a fotografia como linguagem geradora de reflexões sobre arte contemporânea, o corpo e o espaço, tendo como auxilio imagens fotográficas realizadas por artistas da atualidade.
  21. 21. Utilizamos também os sinais em LIBRAS criados pelo Fotolibras2 , para ensinar alguns termos técnicos referentes à fotografia, que não estavam presentes no vocabulário dos atores da oficina, como por ex: fotografia horizontal, vertical, etc. Desenvolvemos um trabalho usando as seguintes palavras-chave: cotidiano, identidade, fotografia e arte contemporânea, nos orientamos pelo conceito de Sturken e Cartwright apud Hernandez que dizem que, (...) representação é o uso de linguagem e imagens para criar significado sobre o mundo que nos rodeia (...) (HERNANDEZ. 2005. p. 137). Com esse foco, desenvolvemos nossa pesquisa na ASG: criando uma poética para o ato de fotografar, para o ato de representar algo por meio da fotografia, tendo como referencial o cotidiano dos Surdos. Como ensinar, transformar o olhar dos Surdos, de forma que se tornem sensíveis ao porque de fotografarem, ao porque de fotografarem certos motivos, e o que esses motivos revelam para eles, autores. Hernandez ainda diz que, (...) Como formas culturais (pintura, fotografia, cinema, televisão), os sistemas de representação nos permitem construir e interpretar significados dando sentido ao mundo, transformando-o histórica e socialmente (Louro apud Hernandez). Sob esta perspectiva, a representação não é vista como um espelho ou reflexo da realidade, mas como um modo de mediar à compreensão de idéias e sentidos, de processos simbólicos (HERNANDEZ. 2005. p. 137). Assim, a fotografia foi um instrumento para mediar esse olhar sensível para o mundo, fazendo uma ponte para o conhecimento de uma nova arte, uma nova forma de 2 O FotoLibras é um projeto de fotografia participativa com surdos que objetiva utilizar a fotografia como meio de expressão e comunicação, aumentando a visibilidade e a inclusão da comunidade surda na sociedade. fonte: http://www.fotolibras.org
  22. 22. criar: a fotografia artística. Mas, como fazê-lo em meio a tantas dificuldades de se tornar sensível se não ouvem? Se não sentem a emoção de um tom de voz, na leitura de uma poesia, em uma música, numa explicação como a que estamos acostumados a ouvir numa aula, de poéticas visuais, onde todos entram em uma espécie de nirvana artístico? Por meio de expressões, mímicas, classificadores, sinais, gestos soltos como que fazendo desenhos no ar, tudo isso chamamos de comunicação total. E é essa comunicação que nos auxiliou a transmitir tudo isso: sonhos, sentimentos, “o abstrato” como os Surdos costumam nomear tudo aquilo que é difícil, se não impossível explicar. Foi com a ajuda do projeto FotoLibras que conseguimos sinais contextualizados, e levamos para nossas aulas teóricas, dia-a-dia em sala de aula, para melhor compreensão dos conceitos utilizados que não eram usuais do nosso público em questão. (...) Na cultura visual, é necessário pensar a aprendizagem como uma relação entre a construção da subjetividade individual e a construção social e política da compreensão (HERNANDEZ. 2005. p. 141). Em seu livro Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho, Hernández nota que os alunos devem estabelecer relações com seu conhecimento básico para que possam realizar transferências que lhes possibilitem continuar aprendendo. Na ASG temos feito exatamente isso: trabalhar uma ferramenta que lhes sejam familiar, a fotografia, mas, levar um conhecimento mais profundo e reflexivo sobre o tema, possibilitando os atores a continuar aprendendo e perceberem esse aprendizado. Por sua vez Vygotsky estabelece, no texto sobre Imaginação e seu desenvolvimento na infância, que a imaginação só acontece quando fazemos combinações de elementos e imagens que já existem na nossa consciência, assim, a imaginação constitui um enigma insolúvel. Assim, existem duas diferentes imaginações, a imaginação reprodutora, que é a própria memória, e a imaginação criadora, que para muitos psicólogos, é nela que “surgem novas combinações desses elementos, mas, que não são novos em si” (VYGOTSKY. 1998. p. 109). Assim, acreditam que a imaginação não pode criar elementos novos, mas combinações novas com aquilo que já existe na memória. Assim como nos sonhos não
  23. 23. vemos nada que realmente não tenhamos visto antes, e isso é explicado como pura casualidade. Mas, assim sendo, o Surdo dotado de inteligência, capacidade de abstrair idéias e de criar, mesmo que associando aquilo que ele já conhece, precisa estar em contato com outras pessoas, Surdas ou não, que possam lhe acrescentar. Seria o Surdo incapaz de aprender sozinho? Não. Mas, com uma comunicação sendo visual, a maioria dos Surdos que frequentam a ASG não são fluentes na Língua Portuguesa, sendo a LIBRAS sua L1 (primeira língua, ou língua materna), preferem a mesma, muitas vezes repudiando a língua portuguesa por ser cheia de regras e de difícil ou lento aprendizado, assim, desconhecem muitas conjugações, e não conseguem informações claras e satisfatórias sobre o assunto da pesquisa, fotografia artística/contemporânea, por exemplo. Como se desenvolveriam sozinhos? Assim, nós, fizemos essa mediação do conhecimento teórico e prático, facilitando o conhecimento, a informação desse mesmo conhecimento, com a ajuda de metodologias que realmente interessam nesse contexto. Observamos que como Vygotsky afirma, “o ser humano constitui-se enquanto tal na sua relação com o outro social”. Assim, juntos, os Surdos socializam a LIBRAS, informações de jornais, acontecimentos, comemorações, dentre outros, mas, somente entre eles (realidade da ASG), mas, outros conhecimentos, como os científicos, especialidades como artes cênicas, palestras sobre saúde, sexualidade, drogas, fotografia e artes visuais, no caso, ainda não acontecem, não são ensinadas por eles, os próprios Surdos. Eles ainda não dominam, não possuem esses conhecimentos a ponto de informar aos outros de forma satisfatória assim como um ouvinte, com a ajuda de um intérprete o faz, com facilidade no meio deles. Assim, entendemos que levando esse conhecimento fazendo relações com o que eles já dominam, conseguiremos realizar essa ponte de forma mais rápida e de forma com que eles, aprendam, e possam de fato, ensinar outros Surdos, ser multiplicadores. A LIBRAS ajuda, e muito, nesse processo de compreensão dos conceitos utilizados durante os encontros. Como por exemplo, o sinal usado para a palavra cotidiano, é usado o sinal que se refere a dia-a-dia ou a dia-dia-dia-dia. Com a configuração de “D”, o sinal remete à palavra dia, assim, repetida, vira dia-dia-dia-dia. Assim a idéia de cotidiano aparece claramente, quando explicamos sobre o percurso, o que fazem, como numa rotina,
  24. 24. assim, cotidiano. (...) o cotidiano é plural, híbrido, miscigenado e complexo, e quanto podemos aprender, observando, registrando e refletindo sobre os acontecidos e vividos nesse cotidiano (...) (GARCIA. 2003. p. 252). A própria linguagem, nos dá esse suporte, para usar o sinal, ou criar novos, se assim, não conhecerem, ou por se tratar da inexistência do sinal, já que a língua é uma língua viva, e muda, perde e renova seus sinais sempre. Vygotsky explica esse processo, (...) sua postulação para as relações entre pensamento e linguagem também inclui a idéia de duas trajetórias genéticas separadas, que num determinado momento do desenvolvimento se unem, dando origem a um processo qualitativamente diferente (VYGOTSKY apud LA TAILLE. 1992. p. 30). Vygotsky ainda diz que a utilização da linguagem favorece processos de abstração e generalização. A LIBRAS, na maioria dos sinais, é formada por sinais semelhantes, ou que remetem ao seu significado, ou até mesmo classificadores, que são uma forma de mímica usada, por exemplo, para falar de uma pessoa andando (dois dedos se movendo fazendo menção de uma pessoa andando) e se diferencia de um carro em movimento (os mesmos dois dedos, mas, mais inclinados, como se fossem um carrinho de brinquedo). Ou, por exemplo, o sinal de Varal fotográfico, que utiliza um sinal na LIBRAS (fotografia) e um classificador como auxilio para a palavra varal:
  25. 25. Imagem 1 – Sinal contextualizado à oficina de fotografia – “Varal Fotográfico” Portanto, explicar conceitos mais abstratos são fáceis e ao mesmo tempo um desafio, já que os sinais precisam estar co-relacionados com expressões faciais e corporais. Por exemplo, para se explicar o conceito de identidade, usamos o suporte que os Surdos mais utilizam: exemplos práticos, como histórias. “Por exemplo, minha tia é homossexual, eu sou heterossexual. Assim, a minha tia tem uma identidade, e eu tenho outra, porque temos escolhas sexuais diferentes, entenderam?”. Mas, deve-se dar até 5 exemplos diferentes, porque se for apenas 1 ou 2 estaríamos limitando o conceito em questão, mas, com mais de 4 ou 5 exemplos, você consegue explicar o conceito e fazê-lo usar com outros exemplos, em outros momentos. Assim o Surdo passa a dominar aquele conceito que se torna agora parte de seu vocabulário comum. De acordo com Vygotsky, o ser humano possui níveis de desenvolvimento real e potencial. O nível de desenvolvimento real é aquele referente àquilo que o ser humano consegue realizar sozinho, que já aprendeu e domina, processos mentais já estabelecidos, funções já amadurecidas. E o nível de desenvolvimento potencial o ser humano é capaz de fazer mediante a ajuda de outro ser humano, mostrando assim maior indicativo do desenvolvimento mental do que aquilo que esse mesmo ser humano consegue fazer sozinho. Assim, Vygotsky denomina de zona de desenvolvimento proximal a distância entre esses dois níveis de desenvolvimento (OLIVEIRA. 2005. p. 58). Então fazemos essa avaliação encontro por encontro, observando a zona de desenvolvimento proximal de cada
  26. 26. aluno, pontuando os conhecimentos que não precisam mais repetições ou aqueles que precisam ser frisados, repetidos, melhor explicados, se levamos mais imagens de um conceito ou de outro, e assim, podemos construir pontes, mediar novos conhecimentos. (...) Apresentar exemplos retirados da cultura que nos cerca tem a função de fazer com que se aprenda a interpretá-los a partir de diferentes pontos de vista, favorecendo a tomada de consciência dos alunos sobre si mesmos e sobre o mundo (HERNANDEZ. 2000. p. 180). Usamos imagens e temas que dialogaram com o cotidiano dos alunos, fazendo com que vissem outros ângulos, outros conceitos que faziam conexões com os conceitos já conhecidos fazendo com que se desenvolvessem, e porque não, conseguissem a emancipação enquanto seres críticos, reflexivos. Essa busca se concretiza quando as pessoas conseguem superar os obstáculos ligados a sua condição e alcançam níveis de conhecimento mais elevados a partir dos quais poderão exercer atividades desafiadoras. Quando Hernandez traz o exemplo dos três projetos, observamos uma semelhança quando diz, Podemos organizar o que dizem, mas não é simples avançar em seu conhecimento sobre a arte. A percepção e a observação não são suficientes. Precisam de novos conhecimentos (HERNANDEZ. 2000. p. 186). Hernandez responde nossas questões exatamente sobre isso: seria muita arrogância levar conhecimentos, parecendo assim o aluno vazio? Mas, como não ser assim se de fato não sabem o suficiente, ou estão alicerçados num senso comum de fotografia? Encontramos a resposta com Vygotsky e Hernandez, usando exatamente o que já conhecem e a partir desse conhecimento, ampliando os horizontes. Enfim, ensinamos novos sinais em LIBRAS, referente aos termos fotográficos que foram utilizados durante a oficina, em seguida colamos os novos sinais acima do quadro e
  27. 27. distribuímos em panfletos, para melhor fixação, para serem usados durante as aulas práticas e para a socialização dos mesmos entre outros Surdos que não participavam da oficina. Nos dois primeiros dias cadastramos os alunos no Flickr, uma rede social para gerenciamento e compartilhamento de fotografias, para socialização dos alunos com a comunidade “fotográfica”, por assim dizer. Também com o propósito de compartilharmos os resultados de cada dia de aula, assim cada um teria a chance de visualizar os trabalhos dos outros. Marcamos um cronograma de forma que nos encontraríamos todas as sextas-feiras e sábados. Do dia 06 de Março a 10 de Junho, das 14hs as 15hs. Nas sextas teríamos aulas teóricas, por conta da sala que conseguimos reservar para o uso do notebook e das cadeiras, para a apresentação das imagens das obras dos artistas, resultados das aulas práticas e conversas. Aos sábados usamos todo o espaço da ASG para a prática, que consistia em fotografar, de acordo com a temática do dia. Iniciamos nossos exercícios discutindo sobre a fotografia de registro. Mostramos semelhanças e diferenças da fotografia documental e artística usando imagens de alguns artistas como Yuri Firmeza em sua obra “A fortaleza“ onde temos duas fotografias do próprio artista expostas uma ao lado da outra, sendo que uma ele aparece criança na varanda de sua avó, e na outra ele aparece adulto no mesmo lugar, depois de muitos anos, repetindo a mesma pose, com o mesmo tipo de roupa, nos fazendo ver as mudanças que ocorreram na cidade com o passar do tempo, além das mudanças em seu próprio corpo. Explicamos que a primeira fotografia foi realizada com o propósito de registro, o artista mais tarde apropriou-se dela, repetindo-a, colocando em comparação com a primeira, com fim artístico, nos falando de memória e uma preocupação em retornar aquele local, trazendo assim um resgate da sua própria identidade.
  28. 28. Figura 2 – Yuri Firmeza – A fortaleza - 2010 Assim, usando artistas com essas e outras propostas, conseguimos diferenciar e apontar semelhanças entre fotografia de registro/documental e artística. Logo após o segundo encontro, apresentamos algumas técnicas básicas para se fotografar: enquadramento, luz e sombra, mergulho, contra-mergulho, perspectiva, ângulo e composição. Mostramos imagens fotográficas de jornais e revistas, para melhor compreensão e análise. Levamos “janelas” feitas de papel para exercícios sem a câmera, solicitando aos alunos observarem as linhas existentes no espaço da ASG buscando o melhor enquadramento. Na prática, os alunos deveriam fazer a fotografia de registro, o que não foi muito difícil por se identificaram com o instrumento (câmera digital e celular), pois já o fazem cotidianamente. No inicio tremiam ao fotografarem, mas, rapidamente, conseguiram boas fotografias.
  29. 29. A partir do terceiro encontro, apresentamos diversas fotografias de artistas da atualidade, que usaram em suas composições os conceitos de cotidiano e identidade. A idéia de utilizar o corpo como motivo partiu de nossas observações no cotidiano das aulas. Notamos que das imagens fotográficas dos artistas que mostramos, os alunos sentiam maior interesse naquelas que tinham o corpo em evidência e causavam a eles algum estranhamento. Talvez porque o Surdo utilize o corpo para se comunicar, tende a tê-lo como símbolo muito importante da sua identidade e dê maior atenção a isso. Com relação às palavras usadas (identidade, cotidiano, composição e outras), a explanação não foi tão fácil. No inicio ficamos em dúvida quanto a real abstração e entendimento do tema por parte dos alunos. Alguns de fato ainda viam a fotografia artística como “muito difícil”, ficaram ansiosos, um pouco nervosos, mas, tiveram a coragem necessária para tentar fazê-lo. Foi através de imagens que conseguimos explicar o que é fotografia artística e sua diferença da fotografia utilizada como registro, o que há por trás dela, e o que ela nos transmite. Partindo das imagens, usando-as como referencial estético, os alunos conseguiram formular suas próprias idéias, alguns nos surpreendendo mais que outros, mas, todos se superaram e se surpreenderam.
  30. 30. CAPÍTULO IV O Surdo e a Fotografia como eixo de comunicação/expressão artística Qual será o poder que a fotografia tem para os Surdos, já que têm uma orientação mais visual do mundo? Nada mais natural que os Surdos falem de si mesmos através de imagens produzidas por eles. Não existem limites, obstáculos quanto à linguagem, já que podem falar através dessas mesmas imagens, sendo elas um meio de comunicação universal. Assim, os Surdos poderão ter autonomia para se expressar, falar da surdez, ou não, sobre como é ser Surdo, quem sabe. Instigar cada um deles a buscar sua forma singular de expressar o que sentem e de reinventar o mundo com imagens, com a fotografia: esses foram os propósitos que nos moveram. (...) As percepções, as emoções, os sentimentos, as idéias, como matéria-prima da arte são encontradas no emaranhado da experiência humana. Emergem de colisões e conflitos da vida e, como elementos altamente complexos da experiência humana, são difíceis de ser expressados (MARTINS. 1990. p. 62). Como diz Hernandez, a intenção não é centrar-se no significado das imagens, mas em como significam. Assim, desenvolvendo a temática da fotografia artística, queríamos propor algo que tivesse relevância e influência, de fato, na vida dos envolvidos, dos atores da nossa pesquisa. Quando Hernandez fala da escola como um espaço de prazer onde vale a pena estar, porque nele somos desafiados, confrontados e questionados, porque nele se entra em crise e exigências são feitas, permitindo percorrer o caminho da flexibilidade, da surpresa e do risco, concordamos que assim seja em qualquer lugar onde a intenção seja o aprendizado. Aprender com prazer é sempre mais interessante, é sempre melhor (HERNANDEZ. 2007).
  31. 31. Os Surdos se sentiram motivados a produzir imagens utilizando seu próprio corpo e falaram sobre memória, cotidiano e identidade. Das fotografias realizadas pelos alunos, nota-se um diálogo da arte com suas próprias vidas. Através das imagens mostradas em aula, os alunos aprenderam e absorveram a idéia de fotografia artística, conseguindo realizar seu próprio processo de criação no qual dialogam com diversos artistas da atualidade. Como Nino Cais, alguns alunos optaram por utilizar objetos que fazem parte de seu universo na construção dos trabalhos. criativas e expressivas
  32. 32. CONCLUSÃO Acreditamos que essa experiência trouxe um grande ganho aos alunos, enquanto participantes, construtores críticos de conhecimento, observando, apontando, discutindo sobre os conhecimentos, informações e artistas mostrados em sala de aula; enquanto fotógrafos, refletindo sobre sua prática, construindo idéias, poéticas, reflexões sobre seu cotidiano; enquanto Surdos, com uma identidade e cultura próprias, singulares e dotada de muitas visualidades, percepções e reações. A comunidade (Funcionários, pais, professores) que viu o resultado (exposição dos trabalhos) dos alunos, se surpreendeu em saber que os Surdos foram capazes de se expressar através da fotografia e com total satisfação enquanto idéia, técnica, composição. Nós, enquanto estagiárias, pesquisadoras, futuras arte-educadoras, que experienciamos ensinar, apresentar conceitos, idéias, que para nós, pareciam impossíveis de explicar, mas que deveriam ser apenas sentidos e percebidos, tivemos que planejar, montar estratégias que nos auxiliassem para tal troca de aprendizagem, de conhecimentos, de percepções, de mudança de olhares.
  33. 33. ANEXOS
  34. 34. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  35. 35. Referências Bibliográficas BAUDELAIRE, Charles. O público moderno e a fotografia - Carta ao Sr. Diretor da Revue française sobre o Salão de 1859 [20/06/1859]. 1959. Tradução e comentários: Ronaldo Entler, 2007. Disponível em: http://www.entler.com.br/textos/baudelaire2.html. Acesso em: 02 de Junho de 2011. DIONNE, Hugues. A Pesquisa Ação para o Desenvolvimento local. Trad. Michael Thiollent. p. 26-27. Editora Líber. Brasília. 2007. FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Artigo: Pesquisa-Ação. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/21496/1/Pesquisa-Acao/pagina1.html. Acesso em: 18 de Maio de 2011, as 15:40. FOTOLIBRAS. Disponivel em: Fonte: http://www.fotolibras.org/. Acesso em: 03 de Junho de 2011. GARCIA, Regina Leite (org.). Souza, Maria Izabel Porto de. Método: Pesquisa com o cotidiano. Editora DP&A. Rio de Janeiro. 2003. HERNÁNDEZ, Fernando. & OLIVEIRA, Marilda (Orgs.). A formação do professor e o ensino das artes visuais. Editora UFSM. Santa Maria. 2005. ___________________. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Tradução Jussara Haubert Rodrigues. Editora Artmed. Porto Alegre. 2000. ___________________. Catadores da cultura visual, proposta para a compreensão crítica e performativa das representações da cultura visual. Editora Mediação. Porto Alegre. 2007. LA TAILLE, Yves de. 1951 – Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussões. Yves de La Taille, Marta Kohl de Oliveira, Heloysa Dantas. Editora Summus. São Paulo. 1992. LEWIN, K. A pesquisa-ação e os problemas das minorias. Journal of Social Issues, v. 2, P. 34-46. 1946. MARTINS, Raimundo. O valor educacional da arte. Porto Arte: Revista do Instituto de Artes, Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ano 1, nº. 1, P. 62-65.
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