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A percepção do corpo proprio e o ser surdo

  1. 1. A percepção do corpo próprio e o “ser surdo” A percepção do corpo próprio e o “ser surdo” Rodrigo Rosso Marques*ResumoO presente artigo apresenta uma nova forma de ver a pessoa surda, não se encontran-do, portanto, nem no paradigma da deficiência, no qual a medicina se manifesta,tampouco na teoria das representações, que fecunda a cultura para constituir o su-jeito. O artigo eleva ao pedestal a magnitude de ser e olha a pessoa como ela mesmanas suas potencialidades. Através das leituras de Maurice Merleau-Ponty, concebe ocorpo como investigação primeira na constituição do ser, evidenciando especificidadesinerentes que emergem no mundo da vida como aspectos culturais. A investigaçãoremete ao olhar centrado às coisas mesmas, ao corpo mesmo, não como objeto decomparação ou objeto de representação, mas sim como ele mesmo na sua integridadee expressão.Palavras-chave: Diferença (Filosofia). Fenomenologia. Pessoa surda.* Doutor em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor do Centro de Ciências Humanas da Universidade do Vale do Itajaí. Professor do Centro de Educação a Distância – CEAD da Universidade do Estado de Santa Catarina – Udesc.PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007 75
  2. 2. Rodrigo Rosso Marques Perception of one’s own body and the hearing impaired personAbstractThis article presents a new perspective on the hearing impaired person, which is notfound either in the paradigm of the disabled, where medical issues are dominant, or inthe theory of representations, which focuses on cultural issues. The paper emphasizesthe magnitude of being and seeing the person as oneself in his or her potentialities.Through readings of Maurice Merleau-Ponty, it conceives of the body as a primaryelement in the investigation of the constitution of being, revealing inherent specifi-cities that emerge in life as cultural factors. The investigation turns to the focus onthings themselves, the body itself, not as an object for comparison, or an object ofrepresentation, but as itself in its integrity and expression.Key words: Difference (Philosophy). Phenomenology. Hearing impaired person.76 PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007
  3. 3. A percepção do corpo próprio e o “ser surdo” Atrelado à ideia da constituição do ser, comparece como um desafioapreciar o corpo da pessoa surda como um constituinte de sua essência de SerSurdo. Eu poderia apegar-me ao extremo da cultura para explicar a experiênciadessa evidência do ser, mas isso não me traria as respostas que procuro, tantoporque a experiência que eu reverto em constituinte de mim, em princípio,exige de mim algo que possa acatar a exigência do objeto com o qual adquirouma nova experiência. Nessa convicção, “[...] considero meu corpo, que é meu ponto de vistasobre o mundo, como um dos objetos desse mundo. A consciência que eutinha de me olhar como meio de conhecer, recalco-a e trato meus olhos comofragmentos da matéria” (MERLEAU-PONTY, 1999. p. 108). A investigação do que proporciona a experiência de ser surdo me parecemais sustentável do que as “representações” que ela produz; o que confere apossibilidade de construir estas experiências, só podemos descrever a partir deuma observação do corpo, a “experiência visual” passa a ser apenas um entreos vários aspectos e, mesmo assim, ela mesma se desprende em diversas partesa serem investigadas. Pois “[...] só posso compreender a função do corpo vivorealizando-a eu mesmo e na medida em que sou um corpo que se levanta emdireção ao mundo” (MERLEAU-PONTY, 1999. p. 114). Por exemplo, poderia descrever nessa mesma experiência visual de modosdistintos, de um lado, a rapidez de reflexo com que as pessoas surdas olhamos movimentos, como uma pessoa passando por trás é identificada pela suasombra ou pelo reflexo no vidro de uma janela, ou mesmo pela observaçãoda direção do olhar de outra pessoa. De outro modo, poderíamos identificarnuma conversa em língua de sinais, diversos aspectos ao mesmo tempo, comoa indagação do movimento da cabeça, a mão que faz o sinal, a direção do olharque define a pessoa. Aqui se admira a abrangência do olhar fixo a um ponto, que,simultaneamente, “junta” todas essas partes e produz um entendimento. Aindaoutro exemplo é o inquietante movimento quando estamos concentrados, umaárvore oscilando do lado de fora, um ventilador de teto entre nós e a lâmpadaintriga-nos e fere nossa tranquilidade. Na realidade, os próprios reflexos nunca são processos cegos: eles se ajustam a um “sentido” da situação, exprimem nossa orientação para um “meio de comportamento” tanto quanto a açãoPONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007 77
  4. 4. Rodrigo Rosso Marques do “meio geográfico” sobre nós. Eles desenham, a distancia, a estrutura do objeto, sem esperar suas estimulações pontuais. É essa presença global da situação que dá um sentido aos estímulos parciais e que os faz contar, valer ou existir para o organismo. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 118) Há muitas partes da experiência visual, mas mesmo assim ela ainda éapenas uma “parte entre as partes” na constituição do ser, não há de se pensarcomo poderia entender essas habilidades descritas acima sem que se destaquemas outras “partes” subentendidas. Ainda que minha percepção seja rápida nomovimento de detecção, eu dependo do ângulo de alcance dos meus olhos, paradepois, por este ângulo, estabelecer o limite através do movimento de minhacabeça, e também do meu tronco, explorando, de certa forma, a “experiênciavisual”; não depende apenas de meu globo ocular na sua abrangência, mastambém do movimento que executo, da flexibilidade e da disponibilidade domeu corpo. Ainda há a exterioridade, que também promove interferências nomeu campo de visão e “altera” a minha experiência visual, porque o corpo é oveículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a ummeio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamenteneles (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 122). Vamos ainda explorar mais um pouco nosso corpo de pessoa surda, vamosàs partes, vamos analisar os possíveis, temos o tátil como fonte tradutora dossons, podemos sentir o motor do carro em funcionamento, sua constância queo diferencia do seu estado de repouso; igualmente, este mesmo tátil que mediz o “ligado/desligado” do motor também me acusa de uma “irregularidade”quando sua vibração se “altera” por uma descarga avariada. De outro modo,posso sentir a aceleração pelo contínuo e crescente vibrar através de minhasmãos, pernas e pés. Este tátil ainda pode nos surpreender, quando vemos umapessoa surda num clube e percebemos em seus movimentos o acompanhar dadiferenciação dos sons como a continuidade de uma música lenta, que denotaum tom com leves, altos e baixos movimentos contínuos, ou numa músicaritmada, cujos passos acompanham perfeitamente as batidas dos movimentos,levando todo o corpo a ritmar com movimentos próprios de cada dança. Para osincrédulos, tal destreza seria impossível sem a habilidade de ouvir e reconheceros sons, porém compreende-se que outras “partes” que, se subentende, estãopresentes e permitem que tal evento aconteça. Mas como isso seria possível?78 PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007
  5. 5. A percepção do corpo próprio e o “ser surdo” Como posso perceber objetos enquanto manejáveis, embora não possa mais manejá-los? É preciso que o manejável tenha deixado de ser aquilo que manejo atualmente para tornar-se aquilo que se pode manejar, tenha deixado de ser um manejável para mim e tenha se tornado um manejável em si. Correlativamente, é preciso que meu corpo seja apreendido não apenas em uma experiência instantânea, singular, plena, ainda mais sob um aspecto de generalidade e como um ser impessoal. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 123) Obcecado por esta experiência na qual voltamos a nós mesmos nainvestigação do nosso corpo, percebemos e evidenciamos as diferenças quenele se destacam, e ainda encontramos a expressividade de nosso semblantequando detalhamos informações linguísticas, seja por um movimento da cabeçacomo negação ou afirmação, seja pelo inflar das bochechas como intensidade, omovimento das sobrancelhas como indagação, os lábios imitando movimentosde motor. Poder-se-ia se tratar apenas de um campo da Linguística no qualpodem ser esmeros aspectos gramaticais, mas sem o qual não teriam sentidose, por outro lado, esse corpo atuante não tivesse uma predisponibilidade paratal, desenvolvida e diferenciada a partir de algo que nos exige uma resposta ecujo mundo costumeiro suscita intenções habituais. Tanto assim, apresenta-se também a flexibilidade de minhas mãos ebraços. Com eles, posso, através de inúmeras configurações da mão e dosmovimentos, tanto expressar significados como representá-los ou desenhá-los no espaço em frente a meu corpo; posso, em minha mente, criar váriosespaços simultaneamente, como uma casa de vários cômodos e entre estes memovimentar, sair do sofá e abrir uma torneira na cozinha. Crio estas imagens naminha mente e as reproduzo em minhas mãos; em cada espaço, em cada pontoque indico há uma referência que lhe concede um significado. Merleau-Pontyaporta uma explanação mais bem definida quando expressa: É nesse sentido que nosso corpo é comparável a uma obra de arte. Ele é um nó de significações vivas e não a lei de um certo número de termos co-variantes. Uma certa experiência do tátil do braço significaPONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007 79
  6. 6. Rodrigo Rosso Marques uma certa experiência tátil do antebraço e dos ombros, um certo aspecto visual do mesmo braço, não que as diferentes percepções táteis, as percepções táteis e as percepções visuais participem todas de um mesmo braço inteligível, como as visões perspectivas de um cubo da idéia do cubo, mas porque o braço visto e o braço tocado, como os diferentes segmentos do braço, fazem, em conjunto, um mesmo gesto. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 210) Posso, ainda, criar um cenário da natureza e com as mãos, o corpo e aexpressão, conferir-lhe movimentos como o rio, cuja água escorre em direçãoa um declive, ou o vento que acaricia as flores e flutua as folhas, e posso aindadar mais vida a esse cenário inserindo uma ave planando sobre o anil ou umpeixe ao embalo das águas. O corpo está entrelaçado nesse cenário e é parteintegrante dele na sua completude; neste momento, não é apenas o corpo físico,mas a transposição de um espetáculo que se anuncia. Nesse período, trato do corpo em si, o acalento de potencialidades apartir dele mesmo. Enquanto executo minha investigação, ele se apresentapara mim como um objeto desconhecido, pronto a me mostrar as infindáveisfaçanhas capazes de me surpreender. Dada minha condição de pessoa surda,pode de outras apresentações de meu corpo atender às exigências antes apenaspensadas para as pessoas não surdas. Por isso, quando menciono a questão deentendimento do corpo, faço minhas as palavras de Merleau-Ponty de que devehaver na apresentação do corpo próprio algo que torne impensável sua ausênciaou sua variação (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 135). Esse desconhecido corpo meu que se apresenta só me pode mostrar suasfaçanhas a partir do encontro dele com as barreiras que surgem e impedem queele faça algo natural a ele mesmo. Partindo deste contraste, é nele que identificoas potencialidades que nos diferenciam das pessoas não surdas, porque é nelasque meu corpo se mostra diferente através da presença e da ausência, e lheconstitui a genuína condição de ser surdo. Dessa forma, o meu corpo presente neste mundo, e que se comunica comele permanentemente, destaca-se como horizonte latente de nossa experiência,presente sem cessar, ele também, antes de todo pensamento determinante(CARMO, 2002, p. 82). Abordando a questão das potencialidades do80 PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007
  7. 7. A percepção do corpo próprio e o “ser surdo”nosso corpo, torna-se pertinente abalroar a posição que nos estigmatiza nainferioridade quando estamos sendo rotulados como “deficientes”. Mas voltandoao princípio de investigação primeira, na descoberta da essência na pessoasurda, entendemos que, para alguns estudiosos, a questão do corpo poderiaredirecionar as teorias patológicas de recuperação e correção, mas, longe disso,a proposta de Merleau-Ponty aborda a questão do corpo como constituinte decaracterísticas próprias, indo muito além de uma interpretação mecanicista. Merleau-Ponty atribui uma importância especial ao corpo, como expressoem Carmo (2002, p. 81): Para que se perceba a importância que ele atribui ao tema, basta olharmos para o esquema da sua obra Fenomenologia da Percepção: na primeira parte pensa o corpo iniciando-se pela sensação; na segunda parte, as análises levam à investigação no mundo percebido, passando pela sexualidade, motricidade e linguagem, para finalmente, na terceira parte, alcançar a discussão sobre a consciência, a temporalidade e a liberdade. Percebe-se como Merleau-Ponty realiza uma concepção do corpo comoum todo, o que nos possibilita pensar a pessoa surda na sua completude comopessoa, e não apenas considerando sua característica cultural. Outro ponto importante que solicita atenção é o corpo da pessoa surda,pois expõe propriedades inerentes a ela, como, por exemplo, a interpretaçãovisual, o desejo de estar com outro semelhante surdo, o tato mais aguçado, aLíngua de Sinais, entre outras características que as distinguem das pessoasnão surdas. Seria isso que Merleau-Ponty descreve como limitações corpóreassuperadas por um novo significado? (CARMO, 2002, p. 81). Essas novas significações corpóreas podem ser consideradas comosubstâncias primeiras advindas fora de nossa consciência, partindo da construçãode novas significações e novas causas em consonância com o mundo percebido.Segundo Carmo, Merleau-Ponty expressa que o corpo: [...] tampouco está na dependência do poder soberano da consciência; em vez disso, ele exerce um papel de mediador por excelência, já que nos põe em permanente contato com o mundo e marca a presença do mundo em nós. (CARMO, 2002, p. 81)PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007 81
  8. 8. Rodrigo Rosso Marques Isso contrasta também com a questão de deficiência, pois se o corpo écapaz de superar limitações através da construção de outras significações, entãonão há o porquê de considerá-lo “deficiente”, uma vez que, modificando-se,supre as necessidades ditas “faltantes”, reagindo de forma diferente em relação aomeio. Então, já não se trata de um corpo deficiente, mas de um corpo diferente. A questão da deficiência está subjugada às teorias patológicas, levando auma análise mecanicista do corpo e de sua devida “correção”, ignorando umaconcepção de corpo, mutante, flexível, que estabelece autonomia de significaçõesconstituintes de sua essencialidade. Percebe-se que o estereótipo de deficiência advém do julgamento dequem não faz parte dela, não vivencia a comunidade à qual atribui a sentença,pois para estes sujeitos de determinada comunidade, considerando o caso daspessoas surdas, a questão da surdez não tem aspecto significativo na vida dapessoa surda, pois todos partilham de especificidades em comum. Quando as pessoas surdas se encontram, elas podem conversar em Línguade Sinais ou em sua língua materna; segundo suas experiências, conversamsobre coisas que partilham e lhes são comuns, sejam elas familiares, sejamsociais, culturais, econômicas, políticas, mas, em especial, é na apresentaçãodas estratégias que utilizaram para realizar determinado fim que identificamosas significações, aquilo que lhes confere a essência de pessoa surda. Müller (2001, p. 199), em menção ao corpo: Se nosso corpo está investido de esquemas corporais – na forma dos quais promovemos o desdobramento temporal de nossa própria extensão e do espaço à nossa volta, então não podemos nivelá-lo às demais ocorrências expressivas do espaço. Se o fizermos, estaremos reduzindo o corpo expressivo ao corpo constituído, estaremos outra vez substituindo o corpo efetivo pelo corpo já concebido ou representado como uma parte do universo das coisas – em-si. Do ponto de vista da nossa existência, de quem efetivamente vive a implicação espaço-temporal de si e do mundo, o corpo expressivo é mais que um fenômeno expressivo dentre outros. [...] Porém, em que sentido podemos admitir que o corpo seja a origem de toda e qualquer forma de expressão no espaço? Em que sentido podemos admitir que o corpo exprima as coisas por meio82 PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007
  9. 9. A percepção do corpo próprio e o “ser surdo” das “mãos e dos olhos”? Qual a relação que devemos admitir entre o corpo expressivo e as coisas mundanas? Tendo levantado alguns aspectos que forneçam um entendimento acercada essência, num sentido epistemológico, temos a seguinte definição: segundoChauí (2003), as essências são o conteúdo que a própria razão oferece a simesma para doar sentido, pois a razão transcendental é doadora de sentido, osentido é a única realidade existente para a razão e, pelo dicionário de Ximenes(2000), aquilo que constitui a natureza (substância) de uma coisa. Portanto, é o entendimento da constituição do corpo através daFenomenologia da percepção de Merleau-Ponty que nos permite investigar asespecificidades das pessoas, pois, de outra forma, cairíamos numa atitude derepresentação cultural, ou seja, faríamos uma confusão generalizada com oconceito de identidade. Não poderia deixar de explicitar a associação das especificidades do corpocom a questão da essência como apresentado acima, pois é nele que nós, pessoassurdas, nos apresentamos ao mundo de forma não comum às pessoas surdas;a ignorância no assunto, muitas vezes, conduziu-nos a uma interpretaçãopejorativa e subjacente. As línguas de sinais, por exemplo, foram e continuamsendo para muitas pessoas uma espécie de mímica, apesar de já ter seu statuslinguístico comprovado com as pesquisas iniciais de Stokoe (1978) na década de1960. Os sinais são considerados não recomendados, e comparados a “caretas”e sem significado. Sentir a vibração das ondas sonoras, a expressão “física” dosom também foi considerado algo como uma tentativa desesperada de “ouvir”aquilo que as pessoas ouvintes ouviam. É interessante isso. As pessoas surdas sãoobrigadas, através da vibração do som, a identificar as significações entendidaspelas pessoas não surdas. Mas nunca se perguntou ou, talvez, nunca se pensouque significações, interpretações ou mesmo emoções essa atitude despertounas pessoas surdas e quais as funções advindas daí. Ou, por exemplo, somosobrigados a entender o significado de uma determinada palavra, que postaem alto volume nos expõe a “fisicalidade”;1 uma característica produzida emmovimentos curtos, alternados, verticais, contínuos e, dependendo da palavra,esses movimentos podem inverter aleatoriamente esses aspectos, bem comoexpandi-los ou diminuí-los. Podem ainda provocar prazer, paz, lembranças,mas também podem provocar irritações, impotências e revoltas. Muitosoutros aspectos estariam sujeitos à submissão pelas imposições que cerceavamPONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007 83
  10. 10. Rodrigo Rosso Marquesa tentativa maçante de se perceber apenas um aspecto que não outro a não serda pessoa não surda, ou, mais especificamente, a percepção da fisicalidade estácondicionada à decodificação da palavra através do som. A ausência deste ato perceptivo deixa passar despercebido umconhecimento sobre o enigmático “mundo do silêncio” ou “mundo dos surdos”,local onde corpos se expressam, pessoas se reconhecem; [...] é a experiência revelada sob o espaço objetivo, no qual finalmente o corpo toma lugar; uma espacialidade primordial da qual a primeira é apenas o invólucro e que se confunde com o próprio ser do corpo, Ser Corpo, nós o vimos; é estar atado a um certo mundo, e nosso corpo não está primeiramente no espaço: ele é o espaço. (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 205) Através da atitude fenomenológica nos estudos sobre o corpo, podemosperceber a pessoa surda na sua condição de sujeito cognoscente, ativo,participativo, atuante, militante, é o Ser em questão, não mais aquele dedeveria ser, mas aquele que é, pois, como disse Merleau-Ponty (1999, p. 208),“[...] não estou diante do meu corpo, estou no meu corpo, ou antes, sou meucorpo”. Dessa forma, concluo com ele que, se, refletindo sobre a essência dasubjetividade, eu a encontro ligada à essência do corpo e à essência do mundo, éporque minha existência como subjetividade é uma, a mesma existência minhacomo corpo e com a existência do mundo, e porque finalmente o sujeito que sou,concretamente tomado, é inseparável deste corpo-aqui e deste mundo-aqui. “Omundo e o corpo ontológicos que reconhecemos no coração do sujeito não sãoo mundo em idéia ou o corpo em idéia, é o próprio mundo contraído em umaapreensão global, são o próprio corpo como corpo cognoscente” (MERLEAU-PONTY, 1999, p. 547). Percebo, então, que a caracterização das pessoas surdas parte estereotipadaà percepção do outro deixou marcas e prejuízos que até então tenta-seresgatar na história. As teorias da representação tentaram esse resgate, porémchocaram-se com o “corpo deficiente”, cujo privilégio da medicina na busca da“perfeição”classificou às representações culturais a tentativa de encobrir possíveisdesvios considerados como deficientes. Foi partindo desse conflito que busquei na Fenomenologia uma respostaque desse a estes pensamentos uma forma coerente, que oportunizasse uma84 PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007
  11. 11. A percepção do corpo próprio e o “ser surdo”construção e um desenvolvimento possível para a pessoa surda, ou seja, queno reconhecimento do ser a cultura não seja uma cegueira e a medicina seabstenha de tentar corrigir o corpo da pessoa surda e, em vez disso, investigue-o,descobrindo novas potencialidades, viabilizando, através da tecnologia, a criaçãode novas estratégias que atendam às necessidades das pessoas surdas.Nota1 Entenda-se aqui a fisicalidade como a expressão física do som.ReferênciasCARMO, Paulo Sérgio do. Merleau-Ponty: uma introdução. São Paulo: EDUC,2002.CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003.MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes,1999.MÜLLER, Marcos José. Merleau-Ponty: acerca da expressão. Porto Alegre:EDIPUCRS, 2001.STOKOE, W.C. Sign Language Structure. Silver Spring: Linstok Press. 1978.XIMENES, Sérgio. Dicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. São Paulo: Ediouro,2000.Rodrigo Rosso MarquesE-mail: rodrigorossomarques@hotmail.com Recebido em: 4/3/2009 Aprovado em: 5/5/2009PONTO DE VISTA, Florianópolis, n. 9, p. 75-85, 2007 85

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