Inteligência coletiva, espiritualidade e renovação do laço social
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Inteligência coletiva, espiritualidade e renovação do laço social

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Monografia apresentada no segundo semestre de 2011.

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Inteligência coletiva, espiritualidade e renovação do laço social Inteligência coletiva, espiritualidade e renovação do laço social Document Transcript

  • UNIVERSIDADE FUMECFACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS, SOCIAIS E DA SAÚDE - FCH FRANCISCO EDUARDO VORCARO MACHADOINTELIGÊNCIA COLETIVA, ESPIRITUALIDADE E RENOVAÇÃO DO LAÇO SOCIAL Belo Horizonte 2011
  • FRANCISCO EDUARDO VORCARO MACHADOINTELIGÊNCIA COLETIVA, ESPIRITUALIDADE E RENOVAÇÃO DO LAÇO SOCIAL Monografia apresentada à UNIVERSIDADE FUMEC como requisito parcial para obtenção do certificado de graduação em jornalismo. Orientadora: Prof.ªAstréia Soares Belo Horizonte 2011
  • AGRADECIMENTOS Agradeço meu pai e minha mãe, por todo apoio ao longo de minha vida.Agradeço minha namorada pelo carinho especial que me deu durante a pesquisa,agradeço meus amigos pelos momentos de descontração, essenciais para manutenção doequilíbrio. Agradeço, principalmente, minha orientadora Astréia, por tornar a pesquisapossível.
  • RESUMO Esse estudo aborda a relação entre ciência e religião, dois sistemas explicativosda realidade. Como delimitação para essa questão, analisa dois discursos diferentes eaponta suas similitudes. O primeiro é o Espiritismo kardecista, um discurso religiososurgido no século XIX na França, que tenta utilizar elementos do pensamento cientificocomo forma de validação. O segundo é o discurso contemporâneo, tido comocientifico, de Pierre Lévy sobre as potencialidades da internet, que por seu turnoapresenta traços de religiosidade. A pesquisa foi realizada a partir da analise documental sobre esses doisdiscursos, e a titulo de considerações finais foram encontrados três pontos em comumentre os dois, que são; a renovação do laço social defendida por Lévy em acordo com oavanço moral defendido por Kardec. A inteligência coletiva de Pierre Lévy em acordocom o avanço intelectual de Kardec, e a ética individual como método para se alcançaros dois primeiros pontos.Palavras-chave: Discurso cientifico. Discurso religioso. Cibercultura. Espiritismo.
  • ABSTRACT The present study compares two types of speeches, one is the religious speechand the other is scientific speech. These two speeches are used to interpret reality, andwe try to point similarities in them. As a method of work we analyze two specificspeeches, one is the religious speech of Allan Kardec´s spiritualism, created in the XIXcentury in France, which tries to use elements of science as a form of validation. Theother one is the scientific speech of Pierre Lévy, about the new possibilities the internetprovides to society, which uses by its turn, elements of religion. The research was made analyzing documents of these two kinds of speech, andas conclusion we highlight three points in common; the renovation of social bonds byLévy in accord with moral advancement by Kardec, the collective intelligence of Lévyin accord with intellectual advancement by Kardec, and ethics as a way of achieving thetwo first points, present in both speeches.Keyword: Scientific speech, Religious speech. Cyberculture. Spiritualism
  • SUMÁRIOINTRODUÇÃO...............................................................................................................71 – BREVE HISTÓRICO DO ESPIRITISMO.............................................................91.1 – Espiritualismo e correntes do Espiritismo..............................................................111.2 –Allan Kardec, o fundador de uma doutrina.............................................................181.3 - Kardecismo no Brasil e suas Formas de Difusão....................................................192 – DOIS DISCURSOS SOBRE A POSSIBILIDADE DE EVOLUÇÃOHUMANA.......................................................................................................................242.1- Surgimento da Internet, discurso contemporâneo e discurso espírita......................263 - O CENÁRIO ESPÍRITA NA INTERNET............................................................363.1 – Estudo virtual do Espiritismo.................................................................................374 - CONCLUSÃO..........................................................................................................46REFERÊNCIAS.............................................................................................................49
  • 7 INTRODUÇÃO Esta monografia aborda a relação entre religião e ciência, dois grandes sistemasexplicativos da realidade que são referencias ainda no século XXI, com o objetivo deapontar conexões entre estes sistemas e a forma como os processos comunicativoslidam com eles. Toma como referência a dicotomia que se estabelece na fundação da doutrinaespírita kardecista, ou seja, no chamado Espiritismo, que surge no Século XIX e éfundado pelo Francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, que adota o nome de AllanKardec para assinar seus trabalhos sobre sua doutrina. O Espiritismo pretende ser umareligião, e por isto assume características de um discurso mítico, porém se valendo dosrecursos da ciência moderna, que lhe dá como legado características do discursoracionalista e cientificista. Esta dicotomia marca a história do Espiritismo e do Espiritismo no Brasil,inclusive dividindo seus dirigentes e seguidores, ao mesmo tempo em que pode terestimulado a comunidade espírita a encontrar um caminho de unificação das duasposturas. Mito e Ciência são trazidos, portanto, do universo mais amplo da reflexãoepistemológica na modernidade para o contexto mais restrito da doutrina espírita. Ainda que discursos racionalistas sobre a ciência muitas vezes defendam apossibilidade de se alcançar uma razão pura, “descontaminada” das crenças, ritos emistificações, estes dois pólos da consciência humana acabam por se encontrar emdiferentes perspectivas religiosas e filosóficas. Não nos cabe aqui, no espaço e tempo destinados a uma monografia, verificar avalidade destas perspectivas. Contudo, queremos apontar certas similitudes presentestanto no discurso de Allan Kardec sobre as possibilidades de evolução espiritual do serhumano, quanto no projeto ideal de sociedade postulado por Pierre Lévy, que passa emgrande parte pela conquista de uma forma de inteligência coletiva que o advento daInternet possibilita e potencializa. Esta monografia, portanto, foi elaborada a partir de pesquisa documental sobre odiscurso religioso, sobre o discurso científico e também, mais especificamente, sobre odiscurso de Kardec e o discurso de Lévy. Também foram utilizadas algumas fontesonline, como sites e artigos presentes na web. Para apresentar os resultados da pesquisa, tal como nos propusemos, vamos
  • 8apresentar no primeiro capitulo um breve histórico do Espiritismo, focando nascaracterísticas do discurso religioso em geral, das diversas correntes espiritualistas, quepor seu turno possuem pontos de interseção com o Espiritismo. A seguir nosso focopassa a ser o Espiritismo kardecista, propriamente dito, e sua difusão no Brasil. No segundo capítulo, mostraremos algumas características do discurso cientificopositivista e o pensamento de autores pós modernos com suas criticas ao primeiro. Parafinalizar esse capítulo iremos relacionar o pensamento de Allan Kardec com opensamento de Pierre Lévy, tentando indicar os possíveis pontos em comum. No terceiro capítulo apresentamos uma análise sobre o portal da FederaçãoEspírita Brasileira, reconhecida como órgão representativo maior dessa doutrina, noBrasil. A título de considerações finais da pesquisa que deu origem a esta monografia,podemos dizer que em uma comparação entre o discurso espírita kardecista e o discursocontemporâneo, de Pierre Lévy, sobre Internet, foram encontrados três pontos deinterseção, que são a renovação do laço social, presente na obra de Pierre Lévy,em conjunto com o avanço moral preconizado por Allan Kardec; a inteligência coletivade Lévy em conjunto com o avanço intelectual de Kardec e a idéia da ética individualcomo método para se alcançar os dois primeiros pontos.
  • 9 1- BREVE HISTÓRICO DO ESPIRITISMO Neste capítulo pretendemos apresentar um breve histórico do Espiritismo, dandoênfase aos aspectos que adquire com sua difusão no Brasil. Um aspecto muito relevantepara introduzir a discussão sobre o espiritismo, em um trabalho de conclusão de curso,reside na dicotomia que se estabelece entre o discurso religioso e o discurso científico,tal como tomam forma na civilização ocidental. Estes discursos mantêm formas deintercessão ao longo da história do pensamento ocidental, possivelmente estabelecendovínculos com os sistemas de comunicação, ou seja, criando interfaces entre perspectivasmísticas, científicas e técnicas, tal como se desenham na sociedade contemporânea. Destacamos o papel relevante da comunicação neste contexto uma vez que ohomo sapiens se distinguiu dos outros animais, em um primeiro momento, pela suacapacidade intelectual de comunicação. Com a possibilidade de gravar conhecimentosna memória e propagar esses conhecimentos através de representações simbólicas, elepode desenvolver a linguagem e construir suas próprias representações mundo. De acordo com Flusser (2007), a comunicação humana é um processo artificial,ela se baseia na descoberta e assimilação de novas ferramentas, técnicas, símbolos ecódigos. Para ele, essa artificialidade nem sempre é consciente. Nós assimilamos eincorporamos a comunicação de tal forma, que ela se transforma em uma segundanatureza. Dentro de sua argumentação, Flusser (2007) diz que; A comunicação humana tece o véu do mundo codificado, o véu da arte, da ciência, da filosofia e da religião, ao redor de nós, e o tece com pontos cada vez mais apertados [...] Em suma, o homem comunica-se com outros; é um “animal político”, não pelo fato de ser um animal social, mas sim porque é um animal solitário, incapaz de viver na solidão. (FLUSSER, 2007, p.91) Concordando com Flusser (2007), podemos perceber a comunicação humanacomo um elemento de articulação entre diferentes discursos, inclusive os da religião eda ciência que, de um modo geral aparecem separados em alguns estudosepistemológicos. Contudo, podemos dizer que tanto religião quanto ciência têm emcomum a possibilidade de serem compreendidos como formas de interpretação domundo e de sua história. Esta pode ser, inclusive, uma trilha pela qual podemosentender as ligações recorrente que vemos entre o discurso científico e o espiritualista,principalmente o Espiritismo kardecista, que se apresenta como uma doutrina que
  • 10pretende ser ao mesmo tempo religiosa, filosófica e cientifica. Essa é uma das características do Espiritismo de Allan Kardec, que quer serreconhecida como uma doutrina cujos princípios fundamentais se valem da ciênciamoderna para dar um caráter racional aos seus princípios, colocando-se como umaperspectiva religiosa distinta das demais, de cunho tradicional e místico. Busca, assim,incorporar elementos da ciência dos séculos XV e XVI, como o positivismo, empirismoe evolucionismo, como pano de fundo por meio do qual o Espiritismo prometeuoferecer uma visão racional dos mundos natural e sobrenatural. Os paradigmas daciência moderna e as descobertas da ciência se tornaram elementos importantes dadoutrina espírita que adota critérios de validação dos fenômenos espirituais, aceitadescobertas científicas e se pauta por explicações que quer acreditar serem lógicas eracionais. Com certa pretensão de doutrina de síntese entre religião e ciência, oEspiritismo quer se configurar como uma perspectiva moderna da evolução humana,que supere os antigos cânones religiosos. A história da religião, tradicionalmente, se baseou na distinção entre as esferasdo sagrado e do profano, duas partes que se opõem uma à outra. Esta dicotomia vaicolocar do lado do sagrado as crenças, mitos, magia, fenômenos ligados à religião, quese distinguem das manifestações naturais por sua dimensão extraordinária. Portanto,seria da ordem do profano os fatos naturais, que são, também, objetos da ciênciamoderna. O Espiritismo, por seu turno, evoca a ciência, ou melhor, a racionalidadecientífica, na sua pretensão de explicar, dentro de um único quadro de referência, o quese entende por natural e sobrenatural. Mircea Eliade (2001) apresenta o conceito de hierofania para falar damanifestação do sagrado, tal como é experimentado pelos homens das sociedadesarcaicas que tendem a viver as experiências sagradas na natureza como um todo. Associedades primitivas estão, por assim dizer, imersas no sagrado, que se traduz, muitasvezes, nos ritos. Ao contrário, os homens modernos vivem em um mundodessacralizado, mas que se mantém impregnado de valores religiosos. A dessacralizaçãoseria, portanto, a experiência não religiosa, profana, dos sujeitos modernos. Para Eliade (2001), a significação religiosa representa um elemento absoluto,que têm o poder de substituir a desorientação por um ponto de apoio. Quando o sagradose manifesta por uma hierofania, o homem religioso tem uma “revelação da realidadeabsoluta”, essa manifestação do aspecto divino equivale para ele como uma ruptura como que já conhece, e atribui ao objeto ou local do acontecimento divino, um valor que ele
  • 11não possuía antes, e que seria perdido fora de contexto. A dimensão sagrada tradicional tem uma única explicação do mundo que dásentido à existência humana e se baseia na fé em um Deus, no cosmos, em umarealidade superior que funda toda a natureza e unifica os opostos como morte eressurreição. No mundo moderno, o sagrado já não organiza sozinhos as relações eacontecimentos da vida humana e passa a concorrer com outras esferas, dentre elas aesfera científica, mas também a política, social e, inclusive, a midiática. Nestas sociedades os ritos, ou seja, ações que acontecem em tempo e espaçodistintos do da vida cotidiana, não são exclusivamente religiosos, passando a assumircaracterísticas seculares e profanas. Como uma metáfora dos ritos religiosos, podemoscitar como exemplo de ritos profanos da contemporaneidade assistir o capítulo final deuma novela, a decisão de um campeonato, etc. que assumem um papel de ritualidadesprofanas que, evidentemente, não correspondem exatamente aos ritos religiosostradicionais, mas podem ser vistos como uma forma de ressemantização daquelaspráticas. Na verdade, as sociedades modernas que fazem proliferar a crença nopensamento científico continuam presenciando práticas de caráter ritualístico, assimcomo convivem com a presença de mitos e tabus. Nas sociedades urbanascontemporâneas estes fenômenos são reforçados pela mídia que negligencia ou expõecertas visões de mundo, quer sejam originadas do campo religioso ou científico. Poristo, parece-nos interessante pensar a relação entre Espiritismo e as tesescontemporâneas sobre mídia e comunicação, principalmente por ser uma doutrinareligiosa que quer sintetizar religião e ciência e desmistificar ritos sagrados e profanospor meio da evolução crescente do conhecimento entre os homens modernos. Alémdisso, o campo religioso, em geral, vem se apropriando das possibilidades disponíveisnos espaços midiáticos para a divulgação e permanência de seus discursos e práticas.1.1 - Espiritualismo e Correntes do Espiritismo Antes de entender o Espiritismo propriamente dito, da forma elaborada porAllan Kardec no século XIX, é necessário conhecer o espiritualismo, focando em seuhistórico, suas ramificações milenares e também, na diferença etimológica em relaçãoao Espiritismo.
  • 12 O espiritualismo pressupõe a existência de um principio imaterial, distinto detudo aquilo que é material. Portanto encontra-se em oposição ao materialismo. Deacordo com essa visão, qualquer pessoa que acredite existir qualquer coisa além damatéria seria espiritualista. Sendo assim, para os que seguem uma linha de raciocíniomaterialista todas as emoções, sentimentos e respostas psicológicas, de qualquerindividuo, têm sua origem, e podem ser explicados por fenômenos materiais, comofenômenos químicos, físicos ou biológicos que ocorrem no cérebro ou no organismohumano (KARDEC, 2009a). Para os espiritualistas, então, o princípio básico de suacrença está na existência de uma alma imaterial em cada ser humano. Portanto, todas asreligiões ou doutrinas que acreditam nisso podem ser consideradas espiritualistas.Grande parte dessas correntes também acredita em forças universais e imateriais eoutras acreditam, também, em uma ou várias consciências superiores, denominadasDeuses ou Deus. O termo Espiritismo, de acordo com Kardec, difere do espiritualismo por admitirque espíritos de pessoas que já morreram possam entrar em contato com seres humanosvivos (KARDEC, 2009b). De um modo geral, podemos entender que o que caracteriza o Espiritismo e osespíritas é a crença na existência dos espíritos e em suas comunicações com o mundoinvisível. Tal perspectiva esta explícita no Livro dos Espíritos (KARDEC, 2009a).Entretanto, existem várias correntes bastante distintas, como a Umbanda e o Budismo,por exemplo, que acreditam nesses dois preceitos. Contudo, nem todos os espíritaskardecistas aceitam ser classificados na mesma categoria que esses, estabelecendodiferenças de correntes. Na Grécia antiga, mais de três séculos antes de Cristo, Sócrates e Platão jáenunciavam em sua doutrina conceitos como a distinção entre o principio material eimaterial, representado pela encarnação de uma alma no corpo de um homem, oprincipio da reencarnação e os diferentes graus de materialização e desmaterialização daalma. Para Platão, viver para o corpo, como fazem as maiorias dos homens, é viverpara algo que está destinado a morrer, ao contrário disso, viver para a alma é viver paraalgo eterno. É uma vida devotada a purificar a alma por meio do desapego corpóreo. Elediz que se nesta vida o justo e o bom são vitimas de um opressor injusto, se chegam aoponto de terem seus corpos violados, podendo até mesmo perder definitivamente ocorpo, eles perdem apenas o que é mortal, ao passo que salvam suas almas para a
  • 13eternidade (REALE, 1997). Por isso a importância de se preocupar principalmente com o que diz respeito àalma, já que, da mesma forma que nosso corpo físico carrega as marcas dos acidentes edos cuidados tomados com ele, a alma irá carregar os traços de nosso caráter. Tal visão,provavelmente, levou Sócrates a defender que era mais importante receber do quecometer uma injustiça. Um ponto importante na filosofia platônica, para este estudo, trata do destino daalma após a separação do corpo. Como não conseguiu utilizar apenas o logos pararesponder essa questão, Platão valeu-se também dos mitos, apesar de dizer que eles nãodevessem ser tomados ao pé da letra, e sim como uma alusão ao transcendente. Platãodiz que o homem está na terra como passagem, e que essa existência terrena é umaprovação. Para ele a verdadeira vida está no além, no Hades. Lá, a alma é julgada porseu senso de justiça, pelas injustiças cometidas e por suas virtudes e seus vícios. Para osjuízes do Hades, todas as almas eram julgadas da mesma forma, não importando seeram reis e rainhas ou os mais rebaixados servos (REALE, 1997). Portanto, para Platão: E é necessário que com essas crenças façamos como um encantamento a nós mesmos: e é por isso que desde muito tempo me ocupo com esse mito. Por esse motivo deve ter muita confiança com respeito à sua alma o homem que durante a sua vida, renunciou aos prazeres e aos adornos do corpo, considerando-os coisas que não lhe dizem respeito e pensando que só fazem mal; e ao contrário, preocupou-se com as alegrias do aprender e, tendo ornado a sua alma não com ornamentos exóticos, mas com ornamentos que lhe são próprios, isto é, de sabedoria, justiça, fortaleza, liberdade e verdade, assim espera a hora de tomar o caminho do Hades, pronto para partir quando o destino o chamar. (PLATÃO apud REALE, 1997, P. 195). Sobre a reencarnação Platão desenvolveu um modelo em Fédon, no qual diz queas almas que devotaram uma vida inteira aos prazeres e impulsos corporais, nomomento da morte não conseguem separar-se totalmente de seu corpo, já que esse setorna quase conatural (REALE, 1997). Assim, essas almas, com medo do Hades, vagamentre os sepulcros, até que os desejos corpóreos as atraem para o corpo de outroshomens e até mesmo de animais. Na Índia podemos encontrar o Hinduísmo, uma das religiões mais antigas domundo, que embora não tenha uma data especifica que marque seu inicio, tem registros
  • 14arqueológicos que datam de mais de 4.000 anos atrás. O hinduísmo, como foidenominado por estudiosos ocidentais no século XIX, é conhecido por seus seguidorescomo sanatana dharma, que significa “lei eterna” ou “ensinamento perpétuo”. Cerca dedois terços dos 700 milhões de Hindus vivem na Índia e em países vizinhos, como oPaquistão, embora possamos encontrar seguidores dessa crença em vários países domundo, como por exemplo, na Inglaterra e Estados Unidos (GARNERI, 1998). O Hinduísmo é uma religião prática e flexível, podendo ser adaptada à realidadede seus devotos. Alguns podem realizar cultos e práticas religiosas todos os dias, outrospodem se abster de participar de qualquer cerimônia formal. Contudo, algumas crençassão comuns a todos os seguidores, por exemplo, a lei de reencarnação. Os hindusacreditam que após a morte do corpo físico o espírito terá que reencarnar em um corpohumano ou animal. O ciclo de morte e renascimento é conhecido com samsara. Oobjetivo da prática hindu é se libertar desse ciclo, atingindo a iluminação espiritual,conhecida como Moksha, ou a salvação. Para isso, os hinduístas devem ter uma vidadevotada à bondade, renascendo em formas mais adiantadas, se aproximando assim, dailuminação ou salvação. Os hindus vivem de acordo com o código de conduta ética chamado de dharma,que prega essencialmente a bondade. Praticando os ideais do dharma o seguidor dessesensinamentos terá um bom carma, que é um tipo de lei de “ação e reação”, ou seja,pratique o mal e o mal virá para você em retribuição, pratique o bem e colha bons frutosem sua vida presente e futura. No Budismo, que hoje está difundido por grande parte do globo, a crença nosespíritos, na reencarnação e no carma também é amplamente estudada. Allan Wallace(2001), monge budista de origem americana e tradutor oficial do Dalai Lama, diz que noTibete é muito comum fazer oferendas aos espíritos dos desencarnados. Ele diz que essaé a primeira ação realizada quando os monges iniciam o retiro de meditação, e que essapratica é levada muito a sério. Para ele, a crença nos espíritos é muito difundida ao redordo mundo, em diferentes culturas, e a descrença na maior parte vem de materialistas. Para os budistas a morte não é o fim de tudo, mas apenas uma transição ou umaetapa de nosso amadurecimento espiritual. O estado natural do espírito humano não éem posse de um corpo, pelo contrário, para eles o apego ao corpo físico é apenas umafonte de sofrimento mental. Segundo o budismo, a morte é muito confusa para aquelesque se agarram à ilusão de ser apenas um corpo físico. De acordo com esta crença, apessoa após morrer pode ficar um longo período de tempo sem estar convencida de que
  • 15esta morta. Wallace (2001) diz que a pessoa despreparada assume uma forma mentalsemelhante a estar em um sonho, alimentando a ilusão de que ainda tem um corpo. Elediz que essa pessoa despreparada, ao morrer, ainda está ciente de todas as pessoas a suavolta e pode até mesmo tentar comunicar-se com elas. A lucidez seria um elementoessencial para o indivíduo encarar a “vida após a morte” com mais consciência. Para obudismo tibetano essa lucidez nos dará a oportunidade de escolhermos umareencarnação com mais sabedoria, ao invés de sermos impulsionados pela força denossos hábitos. A crença no código de ética chamado de dharma também é presente noBudismo, e assim como no Hinduísmo o significado é o mesmo. Sobre isto, éinteressante considerar as palavras de Wallace (2001); O dharma é a realidade que as palavras apontam. Gentileza amorosa, sabedoria, quietude, generosidade e virtude são o dharma. Os estudiosos acreditam com freqüência que tanto maior sua biblioteca, mais budismo eles assimilaram, porém o dharma é a realidade, não as palavras em uma página. Portanto não confie nas palavras confie no significado. (WALLACE, 2001, p. 240) A descrição da filosofia de Platão e de princípios hinduístas e budistas tem comoobjetivo realçar que a há uma crença comum na alma imaterial e na possibilidade de suareencarnação que não se restringe ao universo do Espiritismo kardecista. Podemos acrescentar aos exemplos anteriores o caso dos negros trazidos daÁfrica para servirem como escravos no Brasil, que trouxeram também um vastoconhecimento espiritualista que tem como pressuposto a existência de espíritos e da suapossibilidade de comunicação com os vivos. Durante o processo de colonização, estegrupo fez surgir uma nova religião afro-brasileira, sincrética e que agrega elementoscatólicos e indígenas. Para o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva (1994), a religiosidade surgidano Brasil, pela ação dos negros escravos, tem suas origens no catolicismo docolonizador, nas crenças indígenas que já estavam aqui e, principalmente, nas diferentesreligiões das várias etnias africanas que foram trazidas para cá. O encontro entre trêsformas de espiritualidade, no qual santos católicos se misturavam com batuquesafricanos e no qual um sacerdote, com suposto poder mágico, poderia manipular objetoscomo pedras, ervas e amuletos, fazer sacrifícios de animais, realizar rezas e invocaçõessecretas, e assim entrar em contato com os espíritos divinos de seu panteão. Poderia
  • 16também prever o futuro, promover curas mágicas através da manipulação de energiasocultas, melhorar a sorte e transformar o destino das pessoas. Essa foi, segundo Roger Bastide (1971), a ressurreição da África em territóriobrasileiro, com seus ritos, sacerdotes e até mesmo realezas. Ele diz que paracompreender as religiões afro-brasileiras nós devemos examiná-las sobre um duploaspecto: primeiramente pela dualidade estrutural entre senhores e escravos, e depoispela multiplicidade de diferentes crenças entre os negros, que estava dividida emconfrarias religiosas rivais, como a dos africanos, a dos crioulos e a dos mulatos. A ruptura entre o mundo dos símbolos e a estrutura social nativa da África, fezcom que a religião, que para Bastide (1971) subsiste como crença e sentimento, tivesseque se adaptar a uma nova realidade, criando novas formas de organização. O primeiromomento da recriação foi a aceitação e adaptação à realidade cristã permitida, já osegundo momento foi o da criação. Os filhos e filhas de santo não eram numerosos osuficiente para manter, no contexto do Brasil colonial, confrarias separadas. Portantoeles tinham que se reunir em um mesmo núcleo, à medida que as condiçõesdemográficas e as quebras de linhagens nativas africanas permitissem. Eles seorganizaram, aos poucos, e sobre categorias místicas, em sistemas de inter-relaçõeshierárquicas, no interior de um mesmo grupo, segundo a aproximação de cada um como sagrado. Finalmente, vale lembrar que o próprio Kardec admite que grande parte dosprincípios espíritas podem ser observados em várias culturas ao redor do mundo etambém em culturas antigas ou arcaicas. A existência dos Espíritos, e sua intervenção no mundo corpóreo, está atestada e demonstrada não mais como um fato excepcional, mas como um princípio geral, em Santo Agostinho, São Jerônimo, São João Crisóstomo, São Gregório Nazianzeno e tantos outros Pais da Igreja. Essa crença forma, além disso, a base de todos os sistemas religiosos. Admitiram na os mais sábios filósofos da Antigüidade: Platão, Zoroastro, Confúcio, Apuleio, Pitágoras, Apolônio de Tiana e tantos outros. Nós a encontramos nos mistérios e nos oráculos, entre os gregos, os egípcios, os hindus, os caldeus, os romanos, os persas, os chineses. Vemo-la sobreviver a todas as vicissitudes dos povos, a todas as perseguições e desafiar todas as revoluções físicas e morais da Humanidade. Mais tarde a encontramos entre os adivinhos e feiticeiros da Idade Média, nos Willis e nas Walkírias dos escandinavos, nos Elfos dos teutões, nos Leschios e nos Domeschnios Doughi dos eslavos,
  • 17 nos Ourisks e nos Brownies da Escócia, nos Poulpicans e nos Tensarpoulicts dos bretões, nos Cemis dos caraíbas, numa palavra, em toda a falange de ninfas, de gênios bons e maus, nos silfos, gnomos, fadas e duendes, com os quais todas as nações povoaram o espaço. Encontramos a prática das evocações entre os povos da Sibéria, no Kamtchatka, na Islândia, entre os indígenas da América do Norte e os aborígenes do México e do Peru, na Polinésia e até entre os estúpidos selvagens da Nova Holanda. (KARDEC, 2004a, p. 24 e 25). Contudo, foram nas diversas “manifestações” modernas que o espiritualismovoltou a ser assunto de estudo nos países de cultura judaico-cristã. É correto dizer, aocontrário do que muitos acreditam, que não foi Allan Kardec quem fundou oEspiritismo moderno, embora ele tenha sistematizado uma nova doutrina queconvencionamos chamar de Espiritismo. A data estabelecida como marco histórico do surgimento do Espiritismomoderno é 1848, quando ocorreram em Hysdesville, nos Estados Unidos, fenômenosque podemos classificar como sobrenaturais, na casa da família Fox (RIGONATTI,1986; DALLEGRAVE, 1999). Além do caso da família Fox, que marca o surgimento do movimentoespiritualista nos Estados Unidos, em meados do século XIX, em uma época marcadapelo positivismo e pela recente criação de ciências como geologia, astrologia e micro-biologia, vários fenômenos que até então eram considerados inexplicáveis, ouproduzidos artificialmente por pessoas maliciosas, começaram a ocorrer ao redor domundo e simultaneamente. Eles foram amplamente observados e divulgados pelopublico e pela mídia. A partir disso, vários grupos realizaram estudos independentessobre o assunto e a trocaram informações. Allan Kardec faz seu relato sobre estes fenômenos que surpreenderam oimaginário do Século XIX: As primeiras manifestações inteligentes ocorreram por meio de mesas se levantando e batendo, com um pé, um número determinado de pancadas e respondendo desse modo, sim e por não, segundo a convenção, a uma questão posta. [...] Obtiveram-se depois respostas mais desenvolvidas por meio das letras do alfabeto: o objeto móvel, batendo um número de pancadas correspondente ao número de ordem de cada letra, chegava assim a formular palavras e frases que respondiam às questões propostas. A precisão das
  • 18 respostas, sua correlação com a pergunta, aumentaram o espanto. O ser misterioso que assim respondia, interrogado sobre sua natureza, declarou que era um espírito ou gênio, se deu um nome e forneceu diversas informações a seu respeito. (KARDEC, 2009a, p. 12). O desenvolvimento do pensamento espiritualista na França ganha uma forçaimpressionante pelas mãos de Allan Kardec, personalidade que nos interessa emespecial neste trabalho, dentre outras coisas por ter seu nome diretamente relacionado àcorrente espiritualista que talvez seja a mais difundida no Brasil: o Espiritismo.1.2 – Allan Kardec, o fundador de uma Doutrina Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em 1804, na cidade de Lyon, na França,e adotou o pseudônimo Allan Kardec para assinar seus estudos espíritas. Para oantropólogo Emerson Giumbelli (1997), Kardec estaria longe do perfil recorrente de umlíder religioso: formou-se como educador, não teve sua vida marcada por nenhumacontecimento místico e aproximou-se dos fenômenos associados ao espiritismo comceticismo e curiosidade, declarando adotar critérios científicos em seus estudos quelevaram à construção da doutrina espírita. Allan Kardec, ao declarar que o sobrenaturalnão existe, estaria assumindo a mentalidade cientificista que marcou sua época e oEspiritismo kardecista. Segundo Doyle (2004) entidades extra-físicas de categoria moral superior teriamentrado em contato com Allan Kardec para estabelecerem comunicações regulares epermitir que ele desempenhasse uma importante missão religiosa. Kardec entãoelaborou uma série de perguntas relacionadas às diversas questões da humanidade, queeram respondidas por esses espíritos superiores. Ele tomou nota de todas as respostas, edepois de dois anos destas comunicações afirmou que suas convicções haviam mudadocompletamente, e desejava publicar todo o conteúdo obtido com essas entidades. Foiquando esses mesmos espíritos lhe disseram que os ensinamentos foram transmitidos aele justamente para serem divulgados ao mundo. Eles também lhe disseram que essamissão havia sido confiada a ele pela Providência Divina e que o livro deveria sechamar “O Livro dos Espíritos”. Esse livro foi publicado em 1856 e tornou-se obra básica da doutrina espírita debase kardecista. Seguem-se a este livro o “O Livro dos Médiuns” que tenta estabeleceras formas de comunicação entre o mundo carnal e espiritual e suas leis e condições, “O
  • 19Evangelho Segundo o Espiritismo” que apresenta o estatuto moral da doutrina, “O Céue o Inferno” que trata sobre a lei de causa e efeito, demonstrando as penas e gozos nosdois mundos estudados pela doutrina e “A Gênese, os milagres e as Predições” queabrange desde a formação do planeta até a futura evolução terrena, prevista em suaspáginas (VIVEIROS DE CASTRO, 1985). „ Em seus escritos, Kardec ressaltou que o Espiritismo não é apenas uma religião,sendo ao mesmo tempo, uma filosofia e uma ciência. Para ele, as comunicações quedisse ter com os espíritos não eram pura especulação e sim evidências cientificas. Emsuas obras é recorrente a comparação dos estudos espíritas com os estudos de outrasciências positivas. Vemos aqui um exemplo: Como meio de elaboração, o Espiritismo procedeu exatamente do mesmo modo que as ciências positivas, quer dizer, aplica o mesmo método experimental. Fatos de uma nova ordem se apresentam e não podem se explicar pelas leis conhecidas; observa-os, compara-os, analisa-os, e dos seus efeitos remontando às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz suas conseqüências e procura suas aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria preconcebida; [...] É, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência da observação, e não produto da imaginação. As ciências não tiveram progresso sério senão depois que seu estudo se baseou no método experimental; mas até esse dia, acreditou-se que esse método não era aplicável senão à matéria, ao passo que o é, igualmente, às coisas metafísicas. (KARDEC, 2008ª, p. 11 e 12). Ao mesmo tempo, podemos observar que o Espiritismo kardecista se enquadrana ideologia da ética cristã, mesmo entrando em conflito com vários dogmas da IgrejaCatólica, como por exemplo, as penas eternas após a morte, a reencarnação e a gênesedo mundo. Para os seguidores do Espiritismo, seus ensinamentos são “A TerceiraRevelação”, sendo a primeira o Velho Testamento da Bíblia e a segunda o NovoTestamento. Para eles, Jesus Cristo é um espírito superior que encarnou na terra com amissão de nos auxiliar em nossa evolução espiritual. Outros espíritos superiores queAllan Kardec disse ter contato foram Descartes, Platão e Aristóteles, dentre outros.1.3 - Kardecismo no Brasil e suas Formas de Difusão Para Emerson Giumbelli (1997), embora estudiosos brasileiros da religiãoconsiderem que o Espiritismo no Brasil assumiu um caráter mais religioso do quecientífico, dando maior ênfase aos princípios do evangelho, da caridade e da cura, essa
  • 20visão não se sustenta porque estes princípios se encontram também nas formulações deKardec e são facilmente justificáveis por meio de recursos da ciência. No Brasil, pode-se dizer que o Espiritismo teve seus antecessores nos médicosque praticavam a Homeopatia. Em especial, podemos citar o médico francês BenoîtJules Mure, que desembarcou no Rio de Janeiro no ano de 1840, e introduziu no Brasila Homeopatia (AZEVEDO, 2008). Mure procurava atender, através da criação deambulatórios, principalmente aqueles que não tinham acesso à medicina da corte. Em 1843 funda no Rio de Janeiro o Instituto Homeopático do Brasil e junto como médico português, naturalizado brasileiro, João Vicente Martins, cria ambulatóriosdestinados ao atendimento de escravos e excluídos. Esse tipo de tratamento queenvolvia a “energia vital” atraiu o interesse de personalidades como José Bonifacio,patriarca da independência. (AZEVEDO, 2008, p. 36). A relação desses médicos não é com a doutrina espírita em si, mas ao trabalharcom conceitos de cura através da energia vital, os estudiosos e praticantes dahomeopatia entenderam o que, mais tarde, Kardec introduziria em seus livros. Sobre ahomeopatia é interessante ver parte da epígrafe do estudo de Azevedo (2008) “Samuel Hahnemann, o criador da Homeopatia, definiu um processo semelhante [ao da alquimia] de liberação de energia, através da transmutação de determinados elementos pela água, método igualmente hoje questionado pelo „establishment científico‟, que, como não consegue explicar a existência de um princípio curativo numa diluição acima do número de Avogadro, preferiu colocá-lo como algo pertinente aos domínios da fé. Define-se, dentro de uma visão reducionista tecnicista clássica, que os resultados inexplicáveis simplesmente não existem, apesar das evidências nos dados experimentais.”. (AMORIN apud AZEVEDO, 2008). Em julho de 1864 Allan Kardec publica na Revista Espírita – revista dedicada àdivulgação da doutrina espírita, fundado em 1858 – artigo que, dentre outras coisas,aborda os sensíveis progressos feitos no Rio de janeiro, no que diz respeito ao avanço eestabelecimento da doutrina. Diz também que a tradução de sua brochura intitulada “OEspiritismo em sua mais simples expressão”, traduzida para português, contribui muitopara a difusão da doutrina e que a cidade conta com expressivo número derepresentantes, fervorosos e devotados. (KARDEC, 2004b, p. 289 e 290). Entre as diversas Sociedades de estudo e difusão da doutrina espírita no Brasilpodemos destacar a ação de indivíduos para a promoção da união dos espíritas
  • 21brasileiros, que se dividiram em duas formas distintas de pensamento, uma ditacientifica e a outra com cunho místico ou religioso. Os místicos supervalorizavam olado religioso da doutrina e rivalizavam com os científicos, que a entediam comociência, filosofia e moral. Essa divergência foi a maior responsável pela desunião dosespíritas no século XIX e primeira metade do XX. Em 1881 A Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade promoveu o 1°Congresso Espírita Brasileiro, na tentava de reunir todos os espíritas da capital (naépoca o Rio de Janeiro) e do país. O congresso resultou na criação do Centro de UniãoEspírita, a primeira instituição com o objetivo de unificar os espíritas no Brasil.(QUINTELLA1). Este Centro passou a ser dirigido Angeli Torteroli, que tinha umaperspectiva científica da doutrina, e alguns autores acreditam que possa ter havido umboicote por parte dos seguidores místicos. Os “representantes fervorosos e devotados do espiritismo brasileiro”, como osdenominou o próprio Kardec, investiram desde o Século XIX na criação de umaimprensa espírita. Em 1869 foi criado na Bahia o “Écho d‟Além Túmulo” por LuísOlímpio Teles de Menezes e em 1883 Augusto Elias da Silva lança o periódico espírita“O Reformador” que é, atualmente, o periódico espírita mais antigo do Brasil e o quintomais antigo do mundo. No dia 27 de dezembro de 1883, Augusto Elias da Silva se reuniu com oscontribuidores que o ajudavam no “O Reformador”, e em janeiro de 1884 é fundada aFEB – Federação Espírita Brasileira – que teve como proposta ser um campo neutropara espíritas científicos e místicos, além de atuar até os dias de hoje na divulgação dadoutrina. (QUINTELLA). Segundo Quintella, o objetivo era criar uma instituição quenão tomasse partido nem dos espíritas ditos místicos nem dos que se consideravamcientíficos. O primeiro presidente da federação foi o Marechal Ewerton Quadros. Logodepois, o periódico “O Reformador” foi transformado por Augusto Elias no órgãooficial da FEB. Após a transferência de Ewerton Quadros para o Goiás, o médicoBezerra da Menezes foi convidado a ocupar o lugar deixado pelo Marechal. A escolhade Bezerra de Menezes foi feita com o intuito de que sua “força moral” ajudasse aunificar os espíritas. Bezerra de Menezes se tornou “celebre” no meio espírita brasileiro. O médico, edeputado de família cearense, chocou a sociedade carioca com sua conversão ao1 Data de publicação não mencionada, texto disponível em: http://pt.scribd.com/doc/14004738/Mauro-Quintella-Historia-do-Espiritismo-no-Brasil
  • 22Espiritismo. Diante de uma platéia de duas mil pessoas declarou sua adesão oficial aoEspiritismo, acontecimento que tomou uma proporção ainda maior devido ao fato de tersido registrado e divulgado pela imprensa, através do telégrafo. Bezerra de Menezes,que é conhecido até hoje, por muitos espíritas como o “médico dos pobres”, havia tidoseu primeiro contato com o Espiritismo através do já mencionado “O Livro dosEspíritos” de Kardec. Mesmo com os esforços de Bezerra de Menezes em seu primeiro mandato comopresidente da FEB, no sentido de unificar as duas correntes de pensamento espírita, adesunião prevaleceu. Em abril 1894, durante a presidência de Francisco Dias da Cruz,os “espíritas científicos” abandonaram a FEB e fundaram o Centro de União Espírita dePropaganda do Brasil. Em agosto de 1895 Bezerra de Menezes volta à presidência da FEB, e com afederação sobre o comando místico do médico, inicia-se uma batalha ideológica entre aFEB e o Centro da União, com Bezerra à frente dos místicos e Angeli Torteroli à frentedos científicos. O resultado foi o fim do Centro de União em 1897, após dois anos comos dois lados publicando artigos se criticando. Em abril de 1900, Bezerra de Menezes faleceu e foi sucedido na presidência daFEB por Leopoldo Cirne, que começou uma ampla reforma nas bases da Federaçãoacreditando que seria mais importante tentar unificar espíritas científicos e místicos emuma só instituição. (QUINTELLA). Em 1904 a FEB publicou edições populares das obras de Allan Kardec e no anode 1938 é publicado, pelas mãos do médium Chico Xavier, um livro que segundoQuintella causou grande polêmica dentro do meio espírita, intitulado “Brasil, Coraçãodo Mundo, Pátria do Evangelho”, o livro exaltava, entre outras coisas que Quintellaconsidera questionável, o papel da FEB no Espiritismo brasileiro. Em 1943 dá início àsérie de livros que, segundo ele, foram ditados pelo espírito do médico desencarnadoAndré Luiz. Essa série que, supostamente, conta a “vida após a morte” já foi traduzidapara várias línguas e publicada em diversos países. Chico Xavier escreveu/psicografoumais de 400 livros, em setenta anos, que contribuíram para a difusão da doutrina. Outro fato importante para a difusão do Espiritismo no Brasil foi a criação, em1948, do departamento editorial da FEB, pelo então presidente da instituição, Wantuilde Freitas. A iniciativa foi seguida por outras editoras, e a capacidade de editoração delivros, jornais e revistas do movimento espírita foi ampliada enormemente. (SOUZA,2000, p. 11).
  • 23 Atualmente, a divulgação do Espiritismo no Brasil vem se dando por intermédiode publicações especializadas, programas de rádio, filmes de temática espírita e, maisrecentemente, pela Internet. Entretanto, a dicotomia entre o Espiritismo ser uma esferareligiosa que se faz entender por meio de um discurso mítico e sagrado ou uma esferacientífica, cujo discurso é marcado pelo racionalismo permanece como um tema quemerece reflexão. As discussões sobre a evolução humana, sobretudo nas formas contemporâneasque vemos circular a partir do surgimento e expansão do uso da informática e daInternet sugerem que vale retomar este debate, cortejando velhos e novos parâmetros, oque pretendemos fazer o capítulo seguinte.
  • 24 2 - DOIS DISCURSOS SOBRE A POSSIBILIDADE DE EVOLUÇÃO HUMANA Dentro da perspectiva social européia vigente até o surgimento do Iluminismo, omito e o sagrado eram superiores ou anteriores a todos os outros conhecimentos.Basicamente, toda a comunicação e toda construção social (no sentido de manutençãoda sociedade) era derivado do pensamento religioso. Contudo, no século XVI uma sériede acontecimentos, dentre os quais podemos citar o surgimento da imprensa, a reformaprotestante e o renascimento cultural, levaram a uma nova forma de pensar que foramem direção distinta do pensamento teológico da Igreja Católica, uma vez que os textosbíblicos pararam de ser referência para pesquisadores científicos. O modelo moderno de experimentação científica encontrou o “solo fértil” paraseu desenvolvimento nas ciências naturais, e no século XIX ela também pautou oscampos de pesquisa das ciências sociais (SOUSA SANTOS,1987, p.10). Essa correntede pensamento acabou por instituir seus próprios dogmas ou paradigmas e, de acordocom Sousa Santos (1987), esse modelo de racionalidade científica criou fronteiras parase “proteger” contra a contaminação de duas formas de pensamento classificadas comoirracionais; o senso comum e os estudos humanos, que incluem estudos históricos,filológicos, jurídicos, literários, filosóficos e teológicos. Dentro de sua argumentação, Sousa Santos defende que a característicafundamental desse pensamento é o seu modelo totalitário, já que “nega o caráterracional a todas as formas de conhecimento que não se pautarem pelos seus princípiosepistemológicos e pelas suas regras metodológicas” (SOUSA SANTOS, 1987, p.11). Apesar de no século XIX já existirem novos estudos que ligam a razão à questãode Deus e do sentimento, a visão aceita ainda era a do método positivista extremamenterigoroso. É nesse contexto, no qual o mundo era cada vez mais explicado de formaobjetiva, que crescia a angústia interna em relação à falta de explicações sobre a questãoda subjetividade. Não existia a ciência da pessoa e o “saber cientifico reduziu àmigalhas as mitologias que unem o homem ao mundo e que abriram um vazio sempoder mesmo propor uma inteligibilidade geral.” (MORIN, 1977, p. 121) A marcante ruptura que ocorreu em relação ao pensamento positivista foi oestudo que Einstein realizou e que resultou na física quântica. Através de suascontribuições na astrofísica e mecânica quântica, Einstein conseguiu provar que o rigor
  • 25das leis de Newton e a metodologia experimental positivista era suscetível à erros querelativizavam os resultados científicos. (SOUSA SANTOS, 1987) Sousa Santos (1987) nos lembra que as leis de todas as ciências naturais erambaseadas no rigor matemático. Contudo, Gödel prova através do teorema daincompletude que a própria matemática não possuía o fundamento que era atribuído aela. Até mesmo conceitos aristotélicos como potencialidade e virtualidade, que opositivismo tinha desacreditado, foram recuperados pelos novos estudos. Uma contribuição da ciência pós moderna para o pensamento contemporâneo, éa reflexão sobre a segmentação e quantificação do objeto de estudo. Essa reflexão temcomo objetivo mostrar os danos causados pela segmentação do pensamento científico,que dividido em um grande número especializações prejudicou a visão do todo. O rigor cientifico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objectivar os fenómenos, os objectualiza e os degrada, que, ao afirmar a personalidade do cientista, destrói a personalidade da natureza (SOUSA SANTOS, 1987, p. 32). Para Sousa Santos (1987), a importância maior desta teoria está em que ela não éfenômeno isolado. Faz parte de um movimento convergente, pujante, sobretudo a partirda última década, que atravessa as várias ciências da natureza e até as ciências sociais,um movimento de vocação transdisciplinar. Na perspectiva de Edgar Morin (1977), esse pensamento, que foi validadoatravés das evidências empíricas fornecidas por Einstein e outros pesquisadores, jávinha sendo elaborado culturalmente e socialmente com a metamorfose das culturas demassa, constituindo, assim, a “nova gnose”, na qual a quiromancia e o espiritismopretendem construir a ciência do futuro das pessoas. Para ele “Todas estas contribuiçõessão imersas em um banho de religiosidade, de mistério, de misticismo difuso, e seutraço comum é não separar a pessoa do cosmos.” (MORIN, 1977, p. 121). Estes autores defendem o surgimento de uma nova forma de pensar o sabercientífico em todas as áreas, embora ainda não tenha sido absorvida de formahegemônica. É importante ressaltar que essa quebra de paradigma afetou, embora deforma desigual, todas as áreas do conhecimento, inclusive a comunicação. Dentro dalógica positivista, que atingia todas as áreas do conhecimento, a comunicação deveriaser reduzida a uma questão de “estímulo e resposta”, contudo esse novo paradigma da
  • 26ciência pós moderna mostrou, até para as ciências ditas exatas, que todo estímulo e todaresposta depende de uma série de fatores subjetivos.2.1- Surgimento da Internet, discurso contemporâneo e discurso espírita O desenvolvimento da comunicação mediada por computadores deveu-se,provavelmente, à criação de duas tecnologias que foram os primeiros grandesexperimentos nesse sentido. A primeira é a MINITEL, um dispositivo criado pelacompanhia telefônica francesa no final dos anos 1970. Esse dispositivo ganhou muitapopularidade ente os franceses por uma série de motivos. Dentre os quais podemosdestacar a facilidade com que poderia ser utilizado e a forma como foi distribuída pelogoverno francês em parceria com a companhia telefônica. Contudo, o maior motivo desua popularidade foi o surgimento das salas de bate papo e da sua utilização como “tele-sexo”. Apesar da difusão de seu uso, o sistema era muito obsoleto e rudimentar, doponto de vista técnico. (CASTELLS, 1999). A outra tecnologia que antecedeu a Internet foi a ARPANET, um sistemadesenvolvido como estratégia militar em 1969. Ela foi concebida para ser um sistema decomunicação que continuaria sendo eficaz em caso de ataque nuclear. Para isso eladeveria funcionar em uma rede descentralizada e não em um servidor físico instaladoem uma central. Várias redes foram criadas baseadas na ARPANET, a maioria comobjetivos científicos e, durante a década de 80 foram agrupadas em uma única rede; aARPA-INTERNET, mais tarde conhecida como Internet. A historia da Internet foi marcada pelo surgimento da World Wide Web, ouwww, que permitiu uma maior usabilidade do sistema. Outro marco foi a fusão da mídiade massa com a comunicação mediada por computadores que, conforme nos lembraCastells (1999, p. 38), permitiu estender “o âmbito da comunicação eletrônica para todoo domínio da vida. Ainda de acordo com Castells (1999), uma das características mais marcantes donovo sistema é o fato de apresentar não somente a realidade virtual, mas a virtualidadereal. Ele explica que real é aquilo que é material ou palpável e virtual aquilo que é umarepresentação simbólica de algo real. Dessa forma, todos os meios de comunicaçãoapresentariam a realidade virtual, pois todos eles representam, por símbolos, a realidade.A diferença que a Internet apresenta é a virtualidade real, na qual representaçõessimbólicas da realidade são consideradas reais. Pierre Lévy (1999) define, em seu livro “Cibercultura”, diversos “conceitos
  • 27chave” para entender o fenômeno da Internet. É importante destacar, primeiramente, oconceito de ciberespaço como meio de comunicação. Esse tipo de meio é denominadomuitas vezes como comunicação mediada por computadores ou CMC. O termociberespaço, contudo, define não apenas o meio material e técnico decorrente daconexão entre computadores, mas também o espaço virtual das informações e os atoresque dela participam. Já por cibercultura entende-se o conjunto de praticas e formas depensamentos decorrentes do meio. Outros conceitos importantes com os quais passamos a conviver com osurgimento da Internet são o de interface e hiperdocumento. Interface refere-se a umintermediário entre o ser humano, e o meio digital. É por meio da interface queexecutamos os comandos que desejamos e recebemos de volta as informaçõesdecorrentes. Hiperdocumento é um conjunto de informações, sejam elas sonoras, visuaisou textuais e as ligações ou links entre elas. Também conhecido como hipertexto, esseconceito engloba tanto o CD-ROM como todo o ambiente da web. Para absorver asinformações contidas no hipertexto temos que navegar por ele de maneira não-linear,devido à sua estrutura. A interatividade é outro ponto importante pra entender a Internet. Ela pode sermedida pela possibilidade do usuário interferir no formato original da informação e pelapossibilidade de alterá-la, contribuir com a fonte desse conteúdo e construir novasinformações. Recuero (2009) fala sobre diversos aspectos da interação social no ambienteonline, incluindo os comportamentos ou dinâmicas praticadas entre os usuários oucomunidades desse meio. Ela divide essas dinâmicas em três grandes grupos: o primeiroela chama de “cooperação, competição e conflito”. Cooperação é a relação de apoioentre os usuários ou comunidades, com o objetivo de construir, agregar, aconselhar, etc.A competição pode ter um caráter positivo ou negativo. Em alguns casos, a competiçãotem como objetivo decidir o melhor rumo para uma comunidade ou a melhor soluçãopara um problema, então dessa forma seria apenas uma etapa da cooperação. Em outrassituações, ela tem como objetivo a imposição de um determinado ponto de vista, então,nesse caso, ela seria uma etapa do conflito. O conflito é caracterizado pela agressividadee hostilidade. Ao contrario da competição, que pode ter um aspecto positivo, o conflitotem como objetivo a “derrota da oposição”, seja ela dentro de um grupo de discussãosério ou em um blog para adolescentes. O segundo grupo, “ruptura e agregação”, é uma conseqüência, para as
  • 28comunidades online, dos três tipos de comportamento descritos acima. Um conceitoimportante que Recuero (2009) menciona é o de “conectores”, que são usuários daInternet que, por possuírem mais conexões, tem uma influência maior sobre o meio emque atuam. O último grupo é “adaptação e auto organização” que se refere acomportamentos essenciais para manutenção e conseqüente sobrevivência das redessociais em um ambiente maleável e dinâmico como o da Internet. O desenvolvimento tecnológico da Internet é relatado por alguns autores comoPierre Lévy (1999) como um grande avanço, não só para os sistemas de comunicação,mas também para a sociedade como um todo. A Internet, que é a espinha dorsal dacomunicação global mediada por computadores, oferece a possibilidade da integraçãode diversos tipos de mídias em um suporte único, o suporte digital (CASTELLS, 1999).Ela também oferece a possibilidade de integrar diversos setores da sociedade em ummesmo espaço no qual os saberes individuais podem entrar em sinergia na construçãode um conhecimento comum. De acordo com Pierre Lévy (1999), o melhor uso possível do ciberespaço é apossibilidade de colocar em sinergia saberes, imaginações e energias espirituais dos queestão conectados. A inteligência coletiva, um dos princípios da cibercultura,corresponderia à sua perspectiva espiritual e, por isto, seria sua finalidade última. Isso não é possível em um contexto em que a Internet é privilégio de poucaspessoas. Entretanto, o crescimento do acesso à Internet talvez nos permita pensar naconstrução futura de outro contexto. De acordo com Castells (1999), em 1973 havia 25 computadores ligados à rede.Ao longo da década de 1970 esse número cresceu para 256 computadores. No início dadécada de 1980, após aperfeiçoamentos significativos, a Internet estava disponível para25 redes apenas, conectando centenas de computadores e alguns milhares de usuários.Em meados da década de 1990 o número de usuários já tinha atingido a marca de 25milhões, conectados por 3,2 milhões de computadores em 44 mil redes. Segundo o chefe da União Internacional de Telecomunicações (UIT), HamadunTouré, em nota publicada no site G12. Ainda no início do ano 2000, havia 250 milhõesde usuários na Internet, já em janeiro de 2011 o número de usuários de Internet, nomundo inteiro, já tinha crescido para dois bilhões de usuários.2 Texto disponível em: http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2011/01/numero-de-usuarios-de-internet-no-mundo-alcanca-os-2-bilhoes.html
  • 29 Apesar de ter sido inicialmente desenvolvida por cientistas ligados ao poderestatal e militar americano, seu aperfeiçoamento e popularização andaram lado ao ladocom a ideologia anarquista dos primeiros hackers, ligados aos cyberpunks. Isso foiimportante para direcionar a Internet para uma perspectiva mais comunitária e, talvez,mais libertária. De acordo com Lévy (1999), os primeiro computadores que surgiram em 1945,na Inglaterra e Estados Unidos, eram calculadoras programáveis que podiam armazenarprogramas. Esse dispositivo ficou durante muito tempo reservado aos militares paracálculos científicos, contudo seu uso civil disseminou-se na década de 1960. NaCalifórnia havia um verdadeiro movimento social nascido na efervescência da“contracultura”, que tomou posse das novas possibilidades técnicas e inventou ocomputador pessoal. Segundo Lemos (2008) os cyberpunks defendem que a informação deve serlivre, o acesso aos computadores deve ser ilimitado e total. Têm como lema “Desconfiedas autoridades, lute contra o poder; coloque barulho no sistema, surfe nessa fronteira,faça você mesmo” (LEMOS, 2008, p. 187). Portanto, é difícil pensar na Internet apenas como um meio de comunicação,uma vez que ela apresenta toda uma série de relações e de valores próprios que podemse configurar em uma nova forma de cultura. A cibercultura, como um movimentocultural e social, surgiu dentro do “território” do ciberespaço, que não representa apenaso meio técnico da Internet, mas também os agentes envolvidos em sua elaboração. O ciberespaço é definido como um novo meio de comunicação, que surgiuatravés da interconexão mundial de computadores. Esse termo serviria para definir ainfra-estrutura material da comunicação digital, e também todas as informações que elaabriga, além das pessoas que navegam e contribuem com a construção desse espaço. Jáa cibercultura especifica o conjunto de técnicas intelectuais e materiais, de práticas, deatitudes, de modos de pensamento de valores que são nativas e se desenvolvem com ocrescimento do ciberespaço (LÉVY, 1999). De acordo com as análises de Pierre Lévy (2003), o caráter comunitário dociberespaço teria um papel essencial para o projeto de renovação do laço social e para ainteligência coletiva. Esse projeto, que para muitos pode parecer utópico, pretendeestimular novas práticas de relações sociais, com novas relações de trabalho, novasrelações políticas, uma nova economia e uma nova relação com o conhecimento,voltadas para o estabelecimento de uma sociedade com a oferta de possibilidades mais
  • 30justas e mais equilibradas para todos. Esses pontos defendidos por Lévy, nos permite traçar uma linha de ligação como pensamento do Espiritismo kardecista, para o qual a evolução espiritual de nossoplaneta, com uma sociedade mais justa, viria através do esclarecimento do ser humano,não apenas por meio de seu avanço moral, mas também seu avanço intelectual. Avanço moral e o avanço intelectual, segundo Allan Kardec (2009a), foramaspectos apresentados a ele por espíritos que o guiaram na sua a primeira obra. Destaforma, estes dois aspectos são apresentados na doutrina espírita como objetivo para a“evolução” dos seres humanos e da sociedade, consequentemente. Segundo Kardec, osespíritos deram a ele o ensinamento de que a moral e o intelecto não andam,necessariamente, lado a lado. Para Kardec seria exemplo deste ensinamento a existênciade indivíduos com uma inteligência aguçada, mas sem nenhum sentimento decompaixão, de amor ou de altruísmo com outras pessoas, da mesma forma que tambémpode-se encontras outros indivíduos, que embora tenham uma capacidade intelectualreduzida, em comparação com os primeiros, possuem um dom nato em ajudar opróximo. Na visão de Pierre Lévy (2003), o desenvolvimento do ciberespaço funcionacomo uma ferramenta de integração social, permitindo não apenas a absorção ecomunhão dos saberes, mas também um local para realização de ações sociais,democráticas, fraternais, educacionais ou comunitárias. Lévy (2003) defende esseespaço de ações como o que poderia vir a ser a “Democracia em tempo real”. Para ele, uma democracia na qual a única grande participação nossa é um voto,que só pode ser renovado quatro anos depois, não é uma democracia verdadeira. Paraele os grandes problemas atuais da sociedade passam pelo desarmamento, peloequilíbrio ecológico, mutações da economia e trabalho, ao desenvolvimento dos paísesdo hemisfério sul, educação, miséria e manutenção do laço social. Assuntos que parauma abordagem eficaz iriam envolver um grande número de competências e otratamento contínuo de um fluxo enorme de informações (LÉVY, 2003). Contudo o funcionamento estatal e as leis que regem a sociedade forampensados e postos em prática em um mundo muito diferente do que vemos hoje.Antigamente tudo era relativamente estável e a comunicação muito mais simples. Todaa estrutura de decisões em funcionamento nos governos atuais foi pensada de acordocom uma gestão lenta e rígida, baseada na escrita estática. Podemos novamente correlacionar o pensamento de Lévy com a doutrina
  • 31kardecista. Segundo Kardec (2009a), podemos observar que o grau de avanço espiritualde uma sociedade pode ser medido, com eficácia, pelas leis e costumes que regem suapopulação e seu governo. Leis brutais de repressão a crimes hediondos, funcionamentoburocrático da maquina estatal e utilização injusta dos recursos públicos, evidenciamuma população espiritualmente atrasada, condizente com o contexto em que vivem. Kardec acreditava que as leis sociais são criações que os próprios homensdesenvolvem para organizar sua sociedade, mas independente da época em que estáinserido, a ética para construção de uma sociedade mais humanitária é a mesma. O quemuda são as leis civis, o contexto histórico, político, econômico e cultural. Os rituais epormenores são criados exclusivamente pelos seres humanos e não por umconhecimento transcendental. Portanto, segundo o pensamento de Kardec (2009a), a “democracia em temporeal” proposta por Pierre Lévy (2003), na qual as técnicas digitais de acesso àinformação e a comunicação interativa disponível para todos os cidadãos, que reuniriamsuas forças mentais em coletivos inteligentes, para o tratamento cooperativo e paralelodas dificuldades de sua sociedade, representaria um avanço espiritual, intelectual emoral, pois para ser bem sucedido precisaria que toda a população se organizasse paradecidir os rumos políticos, econômicos, sociais e ambientais de seus coletivos. O papeldo cidadão não seria reduzido a um sim ou um não, as pessoas teriam que tomar posiçãoem frente aos problemas que surgissem, aumentando assim, a responsabilidade de todosnos rumos escolhidos. Essa não é uma solução para curto prazo, já que para a participação eficaz dapopulação inteira na democracia, todos deveriam ter a mesma oportunidade de acesso àcultura e à informação. Toda a estruturação do conhecimento humano teria que sermodificada, para atender às pessoas que hoje se encontram excluídas do acesso àeducação, e também para possibilitar que essas pessoas tivessem acesso às novas formasde organização do saber. Esse novo tipo de organização do saber, denominado por Lévy (2003) decosmopédia, se baseia essencialmente nas novas possibilidades oferecidas pelainformática, no que diz respeito à apresentação, à gestão e à acessibilidade do conteúdo.A grande inovação é a seguinte; se enciclopédia significa “círculo de conhecimento”, acosmopédia possibilita que esse conhecimento se emancipe de seu círculo tradicional,possibilita que seja desterritorializado em um espaço imaterial, que pode estar aoalcance de todos (LÉVY, 2003).
  • 32 Além disso, a enciclopédia tradicional alia texto e imagem para a exposição deseu conteúdo, enquanto a cosmopédia, ou a enciclopédia da inteligência coletiva,contém um número substancialmente superior de formas de expressão, nas palavras deLévy (2003, p. 182), podemos citar, “imagem fixa, imagem animada, som, simulaçõesinterativas, mapas interativos, sistemas especialistas, ideografias dinâmicas, realidadesvirtuais.” Pretendemos sintetizar aqui o pensamento de Pierre Lévy, que defende que ociberespaço é dotado de potencialidades tecnológicas que modificam e amplificamvárias funções cognitivas humanas. Nas suas palavras: O ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas: memória (banco de dados, hiperdocumentos, arquivos digitais de todos os tipos), imaginação (simulações), percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais) raciocínios (inteligência artificial, modelização de fenômenos complexos). Essas tecnologias intelectuais favorecem: - novas formas de acesso à informação [...] - novos estilos de raciocínio e conhecimento [...] Como essas tecnologias intelectuais, sobretudo as memórias dinâmicas, são objetivadas em documentos digitais ou programas disponíveis na rede (ou facilmente reproduzíveis e transferíveis), podem ser compartilhados entre numerosos indivíduos, e aumentam, portanto, o potencial de inteligência coletiva dos grupos humanos. (LÉVY, 1999, p.157) Sua tese pressupõe que as tecnologias intelectuais podem ser compartilhadasentre numerosos indivíduos e podem como conseqüência, “aumentar o potencial deinteligência coletiva dos grupos humanos” (LÉVY, 1999, p.157). Por outro ângulo de reflexão, encontramos a visão de Allan Kardec (2009b) paraquem a ciência é um dos recursos que o ser humano tem para promover a evoluçãosocial e espiritual através do conhecimento. Para ele; O homem foi incapaz de resolver os problemas da criação até o momento em que a chave lhes foi dada pela ciência. Foi necessário que a astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito e lhe permitisse nele mergulhar seus olhares; que, pelo poder do cálculo, pudesse determinar, com precisão rigorosa, o movimento, a posição, o volume, a natureza e o papel dos corpos celestes; que a física lhe revelasse as leis da gravidade, do calor, da luz e da eletricidade; que a química lhe ensinasse as transformações da matéria, e a
  • 33 mineralogia, os materiais que formam a crosta do globo; que a geologia lhe ensinasse a ler, nas camadas terrestres, a formação gradual desse mesmo globo. A botânica, a zoologia, a paleontologia e a antropologia deveriam iniciá-lo na filiação e na sucessão dos seres organizados; com a arqueologia, pôde seguir as marcas da Humanidade através das idades; todas as ciências, em uma palavra, completando-se umas as outras, deveriam trazer seu contingente indispensável para o conhecimento da história do mundo; na sua falta, o homem não tinha, por guia, senão as primeiras hipóteses. (KARDEC, 2008a, p. 53). O papel dos espíritos na sua relação com os seres vivos, segundo Kardec, élimitada. A ciência e a inteligência humana, que podemos deduzir ser resultado do nívelde evolução espiritual de cada um, seriam dádivas complementares: Se bastasse interrogar os Espíritos para obter a solução de todas as dificuldades cientificas, ou para fazer descobertas ou invenções lucrativas, todo ignorante poderia tornar-se sábio gratuitamente, e todo preguiço poderia se enriquecer sem trabalhar; (KARDEC, 2009b, p. 105). A Internet, como vimos, oferece a possibilidade de as pessoas estabeleceremnovas relações com o conhecimento e com a sociedade. Contudo, ela não é um recursoindependente da ação humana. Como todos os outros avanços tecnológicos na históriada humanidade, ela pode ser utilizada para quaisquer fins, dependendo, prioritariamente,das consciências individuais daqueles que a usam. Lévy (1999), diz que em geral, ele é considerado um otimista, e que isso éverdade, mas que reconhece que a Internet não irá resolver todos os problemas domundo. Ele diz apenas que as potencialidades positivas da Internet existem, e que cabe anós explorá-las. Para ele nem a salvação e nem a perdição se encontram na técnica, ele diz queesse caráter ambivalente provém das projeções que realizamos no mundo material apartir dela. Lévy (1999) identifica algumas criticas recorrentes sobre a Internet eargumentar sobre elas, podemos citar como exemplo o caso de criminosos, terroristas epedófilos utilizarem a rede para realizar suas ações. Todos esses casos são reais, maseles já existiam antes da Internet, e da mesma forma que antes eles utilizam aviões,estradas e telefones, eles agora irão utilizar a rede. Mas assim como não condenam atelefonia pelos delitos cometidos através dela, a Internet, como instrumento técnico, nãopode ser culpada pelos delitos de determinados indivíduos Lévy (1999).
  • 34 Lévy (2003) defende o aspecto da responsabilidade e do bem individual como a“ética da inteligência coletiva”, praticada pelas pessoas com um bom senso de justiça,fazendo, para isto, referência ao discurso religioso: Vimos por que e como conseguiam criar e fazer durar os coletivos humanos. Ao mostrar que a eficácia do justo consiste em manter as comunidades existindo, ou em adiar sua destruição, o texto bíblico nos fornece uma indicação capital sobre a natureza do bem em geral. O bem invoca a existência das qualidades humanas e valoriza-as (LÉVY, 2003, p. 38). Podemos deduzir desta afirmativa que, apesar dos desdobramentos positivos quea Internet possa gerar, estes só serão possíveis se atingirmos um ideal segundo o qualcada usuário assuma responsabilidade pelos seus próprios atos. Em outras palavras, pelobem e pelo mal resultante deles. É provável que, ao evocar a referência bíblica sobre obem e o mal, Pierre Lêvy esteja superando fronteiras tradicionais entre o discursocientífico e o discurso religioso ou se colocando á margem deste debate. Seu discurso évalorativo, uma vez que encerra um claro juízo de valor: Do lado do ser e da potência, os justos contribuem para a produção e manutenção de tudo que povoa o mundo humano. Graças a eles, cujos nomes jamais serão citados, as coisas caminham de fato, e são efetivamente criadas e conservadas: mães pródigas de seus cuidados, negras que redigem nas sombras, faxineiras, secretárias, operários que fazem a fábrica funcionar apesar dos planos dos engenheiros, e todos que consertam as máquinas, reconciliam os casais, rompem as barreiras da maledicência, sorriem, elogiam, ouvem, fazem com que vivamos em comum acordo. Ora Abraão é o justo por excelência. Não se contenta em fazer o bem, esforça-se ainda por conferir o maior alcance possível aos atos realizados pelos outros justos. Ao negociar com Deus conseguindo que somente dez justos salvem a cidade, ele valoriza e desdobra ao máximo o potencial de bem; chama a atenção para a bondade dos outros. A barganha de Abraão com Deus é a primeira tecnologia de otimização de efeitos, de exploração em grau máximo das menores qualidade positivas presentes em um coletivo humano. Abraão inventa a engenharia do laço social. (LÉVY, 2003, p. 39).
  • 35 Os juízos de valor presentes no trecho acima, bem como as referências a uma“barganha” entre Abrahão e Deus nos remetem ao discurso de Allan Kardec quetranscreveu em um de seus livros o discurso de um espírito que fala sobre a moral. “Amemo-nos uns aos outros e façamos a outrem o que quereríamos que nos fosse feito”. Toda a religião, toda a moral se encontram encerradas nestes dois preceitos; se fossem seguidos nesse mundo, seríeis todos perfeitos; nada mais de ódio, de divergência; direi mais ainda, nada mais de pobreza, porque do supérfluo da mesa de cada rico muitos pobres se alimentariam, e não veríeis mais, nos sombrios bairros que habitei durante minha última encarnação, pobres mulheres arrastando consigo miseráveis crianças necessitadas de tudo. (KARDEC, 2005, p.173) Comparando os dois textos somos levados a concluir que o bem resultante daação individual de cada um tem impacto direto na construção das coletividades sociais,e conseqüentemente, na integração dos diversos setores da sociedade. Os dois autorespostulam que os indivíduos, mesmo os que ocupam os mais obscuros papeis sociais sãoportadores de boas e más aptidões. Os dois autores nos autorizam a falar de umaperspectiva evolutiva da humanidade que pode ser “aumentada” com a promoção daintegração dos saberes individuais, tendo um objetivo coletivo comum que seria o derenovar os laços de solidariedade. A ética dos justos, ou a ética individual, seria o fator decisivo para essarenovação social e intelectual. O princípio norteador desta posição baseia-se na crençade que cada pessoa possui suas aptidões, seus pontos fortes e seus pontos fracos.Ninguém domina todas as áreas do conhecimento, e promover a integração dos saberesindividuais com um objetivo coletivo comum, de tornar a sociedade mais humanitária é,de acordo com Pierre Lévy (2003), uma etapa evolucionária que chega ao nossoalcance, finalmente, por meios virtuais. Em linhas gerais, esta seria a expectativa doautor com relação às possibilidades de avanços contemporâneos da humanidade.
  • 36 3 - O CENÁRIO ESPÍRITA NA INTERNET A prática da difusão de valores e ideais kardecistas não é nova, já que AllanKardec mencionou que o estatuto da “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”,publicado no final do “O Livro dos Médiuns” (2008c) devia ser adotado como ummodelo que pudesse ser aproveitado por outros grupos que desejassem seguir o mesmocaminho (KARDEC, 2008c). No Brasil, esse modelo de organização das sociedadesespíritas, aqui conhecidos com Centros ou Cenáculos Espíritas, é muito copiado, desdea segunda metade do século XIX. A FEB, ou Federação Espírita Brasileira, éreconhecida, pela maior parte dos espíritas, como a representante de seu pensamento noBrasil, além disso, ela também realiza trabalhos no sentido de formação de dirigentesespíritas e de constituição e manutenção doutrinária, legal e administrativa dos CentrosEspíritas. Ao longo de sua existência, a FEB vem tentando atingir este objetivo porintermédio da impressão de manuais e outros tipos de publicações. Entretanto, épossível que as pessoas que desejam conhecer e possivelmente seguir os ideais deKardec encontrem maior facilidade de acesso nas tecnologias digitais. Neste capítulo, nosso objetivo é o de apresentar o “Espiritismo” que estádisponível na Internet. Para isto, foram pesquisados sites espíritas que surgiram a partirdo uso da ferramenta de busca Google, com a intenção de observar recorrências eespecialidades em suas organizações e conteúdos. Foi escolhido como objeto de análiseo site da FEB. A escolha pelo site dessa instituição, que muitos consideram como arepresentante “oficial” do Kardecismo no Brasil, se recaiu no fato do Espiritismo seramplamente divulgado e comentado na Internet, e uma simples busca do Google comeste termo ter gerado 5.630.000 resultados. O termo “espírita” gerou 2.800.000resultados. Para delimitar nosso foco de análise, após pesquisa aleatória e exploratóriade sites espíritas brasileiros definiu-se pela concentração da investigação no site daFEB, por ser uma entidade federativa oficial e por reunir em seu site aspectos que sãoreproduzidos em outros portais, ou seja, a FEB e seu site são, em geral, referência paramuitos sites espíritas, os quais não nos cabe descrever aqui. Além de mapear os temas que são abordados no site escolhido, nossa intençãofoi de descrever como a web vem sendo usada pelos espíritas e de verificar se esta temsido uma ferramenta de auxílio para a divulgação de valores e idéias do Espiritismo,
  • 37como a transmissão de conhecimento e renovação dos laços sociais. Estes valores, comofoi nossa intenção ressaltar no capítulo anterior, são apresentados como perspectivascomuns tanto no discurso espírita kardecista, quando no discurso acadêmico sobre aspotencialidades da Internet que está presente, principalmente, nos textos de Pierre Lévy. O site da FEB (http://www.febnet.org.br), que é o órgão reconhecido dentro doKardecismo como representante do Espiritismo brasileiro ou sua Casa Mater, para usarum termo comum entre os espíritas, torna-se importante no contexto desta monografiapor seu caráter oficial. A história da FEB muitas vezes pode se confundir em muitospontos com a história do Espiritismo no Brasil, como já foi comentado anteriormente.3.1 - Estudo virtual do Espiritismo Em seu site, a FEB oferece ao usuário a possibilidade de fazer o download, emformato.pdf, de várias publicações espíritas como, por exemplo, todas as edições darevista “O Reformador”, do período de 2006 até 2010. Essa revista é publicadamensalmente pela própria FEB, totalizando doze edições por ano, sendo assim, no siteestão disponíveis sessenta exemplares diferentes. Além disso, o exemplar mais recenteda revista pode ser visualizado através do link “edição online”, contudo devido à faltade um exemplar impresso da revista, não foi possível verificar se ela está disponívelintegralmente no site, ou se apenas as matérias principais são publicadas online. Éinteressante ressaltar que existe um link, em destaque, para um download gratuito do“PDF Reader” da Adobe dentro do site da FEB, tornando mais fácil que as pessoas, quetiverem interesse, acessem esse conteúdo. Outro exemplo que merece destaque é o informativo “Brasil Espírita”, na ediçãoanalisada de outubro de 2011, o informativo continha três seções, além de um editorialinformativo. A primeira seção, “Movimento em ação”, fala sobre atividades espíritas,em todo o Brasil, como capacitações de trabalhadores espíritas, seminários, teatros,mostras de arte e feiras de livros, entre outros, que ocorreram há pouco tempo, ou queirão ocorrer em breve. A segunda seção, chamada “Atividades espíritas”, aparentementeé muito parecida com a primeira, e fala sobre congressos, confraternizações, palestras eseminários espíritas que ainda irão ocorrer ou já ocorreram recentemente em territórionacional. Também é possível encontrar no site da FEB as cinco obras básicas de AllanKardec para download em PDF, além dos dois livros complementares de sua autoria,chamados “Obras póstumas” e “O que é o Espiritismo?”. Podemos encontrar também a
  • 38edições integrais da “Revista Espírita”, em circulação desde 1858. O período disponívelpara download vai desde a primeira edição, de janeiro de 1858, até dezembro de 1869.Embora fosse um periódico mensal, ele foi organizado pela FEB em volumes queabrangem o período de um ano inteiro, com todos os meses em um volume, sendoassim, são doze os tomos disponíveis no site. Allan Kardec foi o responsável pelaedição e publicação do periódico desde o primeiro volume, até a data em que morreu.Segundo a FEB, na edição brasileira, os doze volumes possuem juntos, quase sete milpáginas. Todas essas publicações citadas acima constituem o fundo doutrinário básico doEspiritismo kardecista. Como foi dito antes, as cinco obras principais de Kardec guiamtodo o pensamento espírita ulterior. Até mesmo as outras obras de sua autoria, foramfeitas a partir das elucidações dos cinco primeiros livros. Portanto, partindo do fato deque todo esse material está disponível gratuitamente no site da FEB, é seguro afirmarque o conhecimento contido nessas obras está sendo difundido por essa federação. Contudo esse conhecimento pode ser de difícil entendimento para algumaspessoas, portanto o portal da FEB vai além, oferecendo acesso, também, à planos deaula para iniciação e aprofundamento no Espiritismo. É importante ressaltar aqui, que aparte principal desses planos de aulas não é disponibilizada gratuitamente pela FEB, elaoferece apenas a possibilidade que o internauta realize a compra dos volumes impressospor meio de sua livraria virtual, que também será descrita mais a frente. Contudo, umaparte do conteúdo está disponível para download gratuito, o que pode gerar certaconfusão, já que esse conteúdo gratuito pode ser o mesmo conteúdo vendido na livrariavirtual, organizado de uma forma diferente. Portanto no restante desse capítulo, iremosfocar, principalmente, no que está sendo oferecido, no site da FEB, em relação com oavanço moral e o avanço intelectual defendido por Kardec. Também gostaríamos de ressaltar que estão disponíveis no portal da FEB cincoplanos de aula diferentes: O “Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita” ou ESDE, o“Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita” ou EADE, o “Estudo e Educação daMediunidade” ou EEM, o “Departamento de Infância e Juventude” ou DIJ e por últimoos estudos de Esperanto. Na página do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, ou ESDE, encontramosa descrição completa do curso, cujo objetivo, segundo o site, é nada mais do que um“estudo metódico, contínuo e sério do Espiritismo, com programação fundamentada naCodificação Espírita”. Ainda de acordo com o site, esse curso é importante por
  • 39promover o “conhecimento espírita”, como orientação de vida, sendo que esseconhecimento englobaria tanto o aspecto intelectual quanto moral, a FEB ainda ressaltaque uma das conseqüências desse curso é a possibilidade do desenvolvimento da “féraciocinada”. Como foi dito antes, o acesso completo a esse curso só pode ser feito mediante acompra dos tomos impressos, no caso do ESDE são três volumes, vendidosseparadamente. Os dois primeiros são os programas fundamentais I e II, vendidos a R$13,50 e o terceiro chama-se programa complementar e é vendido a R$ 15,00. Oconteúdo programático desses três tomos está disponível para visualização no site daFEB, e de acordo com a descrição do próprio site, esse material seria uma reorganizaçãodidática do conteúdo presente em “O Livro dos Espíritos”. Contudo, o item “Campo Experimental de Brasília” oferece um banco de aulas,disponíveis para download gratuito. É um total de dezoito módulos diferentes, que vãodesde o contexto social, econômico, político e cultural da Europa no século XIX,quando Kardec apresentou pela primeira vez as suas idéias, até reflexões filosóficassobre questões como o “bem” e o “mal”, livre arbítrio, responsabilidade individual,progresso moral e intelectual. É possível notar, através de comparação, que essesdezoitos módulos correspondem ao conteúdo dos tomos fundamentais I e II vendidospela FEB. Nota-se, ao ler parte do material, que o plano de aulas é feito para que dirigentesde centros espíritas, ou pessoas com algum tipo de capacitação informal, possamcoordenar grupos de estudo. A FEB chega até mesmo a sugerir alguns princípiosmetodológicos como introduções para cada reunião, atividades em grupo paradesenvolvimento do conteúdo, com base nos itens do próprio material, técnicas para seconcluir o tema e reuniões e métodos de avaliação, além de sugerir também o tempo quecada reunião deve ter, o espaçamento adequado entre as reuniões e o tempo mínimoprevisto para o curso completo. O Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita, ou EADE, apresenta uma página deinformações e apresentação de conteúdo muito similar à página do ESDE. O modelo deorganização, na qual encontramos um conteúdo gratuito e um conteúdo pago, tambémfoi seguido para as páginas de “Estudo e Educação da Mediunidade” e “Departamentode Infância e Juventude”, contudo o conteúdo gratuito não é necessariamente similar aoconteúdo pago, como no caso do ESDE. O objetivo do EADE, como o próprio nome sugere, é o aprofundamento dos
  • 40estudos sobre o Espiritismo. Para isso o curso foca principalmente no que os espíritasconsideram o três aspectos da doutrina; religião, filosofia e ciência. De acordo com umacitação utilizada pelo site na conceitualização do curso, os aspectos filosóficos ecientíficos da doutrina abrem o campo para continuas investigações de caráterintelectual, que visam o aperfeiçoamento da humanidade. Já o aspecto religioso dadoutrina corresponde ao “elo que a liga ao céu”, e que, segundo o site, proporcionaria arenovação do ser humano para o seu futuro espiritual, através de reflexões sobre aimportância da melhoria moral. O site ainda vai além na descrição do curso, e diz que esse se fundamentajustamente no que da força ao Espiritismo, que seria seu aspecto filosófico, que nãocobra uma crença cega, pelo contrário quer que o homem saiba por que crê, e para issoutiliza uma linguagem clara, sem ambigüidades, que, segundo eles, fala diretamente àrazão e ao bom senso. O curso está dividido em dois bancos de aulas, um intitulado “Religião à Luz doEspiritismo” e o outro chamado de “Ciência Espírita”. O primeiro, como o nomesugere, trata do aspecto religioso da doutrina, e é sub dividido em três partes, sendo quea primeira fala da evolução do pensamento religioso ao longo da história humana,falando até mesmo de religiões não-cristãs, mas focando em Jesus como guia e modeloda humanidade. A segunda parte é um estudo espírita sobre as parábolas de Jesus,focando na importância de incorporar as lições presentes nelas às atividades cotidianas.A terceira, segundo a FEB, esclarece por que o Espiritismo é considerado o resgate daverdadeira essência do Cristianismo. O outro banco de aula, intitulado “Ciência Espírita” trata sobre o que a FEBconsidera como os aspectos científicos e filosóficos da doutrina. Organizada em umtomo único, esse banco de aulas utiliza até mesmo autores sem ligações com oEspiritismo, e que ainda de acordo com a FEB compõe o acervo da cultura humana. Deacordo com o conteúdo programático, o curso contém tópicos de estudo que vão desde“Métodos filosóficos e científicos”, até “Evidências científicas da reencarnação”,“Análise racional dos fatos espíritas”, “Estudos científicos da mediunidade” e“Pesquisas cientificas dos fatos espíritas”, entre outros. Esses tópicos, contudo, fazem parte do conteúdo pago. Na seção de aulasgratuitas, dentro do mesmo curso, encontramos alguns tópicos3 que merecem atenção3 Disponíveis em: http://www.febnet.org.br/site/estudos.php?SecPad=38&Sec=205
  • 41por realizarem uma tentativa de explicar determinados acontecimentos utilizando aelementos da fé e da ciência. Um exemplo é uma apresentação de slides que fala sobre aevolução biológica. Nele encontramos um slide com uma linha do tempo que vai desdeo “big bang” até o surgimento do Homo Habilis. É importante ressaltar, que oEspiritismo, na sua busca por “validação cientifica” se apropria de discursos dageologia, astrologia e outras disciplinas como arqueologia, biologia e química parabuscar sua concepção de “origem das coisas”. Nessa apresentação ainda encontramos aintrodução de tópicos sobre seres procariontes e eucariontes, evolução, gases presentesna atmosfera, tudo isso intercalado com discursos altamente religiosos, sobre, porexemplo, a ação de “espíritos superiores” nesses remotos períodos. Essa visão Espírita pode ser observada também, em outro texto disponível aindadentro do EADE, que trata sobre “Formação dos seres”, o texto primeiramenteapresenta a teoria criacionista do mundo. Podemos observar nesse discurso oposicionamento espírita, quando o texto fala sobre o criacionismo da seguinte forma;“combatem teorias científicas conflitantes com o fundamentalismo religioso”, ou ainda;“os que apóiam radicalmente a idéia da criação em sete dias literais, questionando ouignorando as evidências arqueológicas, físicas e químicas existentes que dizem ocontrário.”. O texto apresenta depois a visão evolucionista, que segundo o Espiritismo écientificamente aceita, para em última instância apresentar a visão espírita. Ointeressenta é que a visão espírita em nenhum momento tenta contradizer a visãoevolucionista, pelo contrário, diz que a “criação feita por Deus”, baseada nas leisnaturais, como por exemplo na lei da quimica, não diminuiria sua grandeza, e simmostraria como é o seu poder, que atua por meio de leis eternas, que ainda nãocompreendemos. O “Estudo e Educação da Mediunidade” ou EEM, segundo a FEB, fundamenta-se em uma orientação presente no livro “Obras Póstumas” de Allan Kardec, na qual dizque os indivíduos que decidirem se ocupar com as supostas comunicações com espíritosdevem ser orientados, para que estejam cientes das dificuldades que provavelmente irãoencontrar. O curso, dividido em duas partes, tem como objetivo, segundo a o site, favorecero desenvolvimento natural das “faculdades psíquicas” dos participantes por meio deatividades pedagógicas e aprofundar o estudo da mediunidade, focando nodesenvolvimento ético, moral e intelectual dos participantes. Ainda de acordo com o sitea importância do curso repousa na condição fundamental do estudo regular da
  • 42mediunidade para a formação de trabalhadores fraternos e esclarecidos, que estejambem dispostos a trabalhar com confiança e segurança em beneficio de outras pessoas. Para o “Departamento de Infância e Juventude” o objetivo principal é, de acordocom o site, de promover a “Evangelização Espírita Infanto-Juvenil”, sendo que oconhecimento do evangelho seria levado ao seu publico alvo através de situaçõespráticas da vida, favorecendo que o aluno reflita e tire suas próprias conclusões sobre otema estudado, pois essa seria, segundo a descrição, a única forma de promover oaprendizado real. O papel da educação na formação de uma sociedade renovada é destacadodentro desse curso. É ressaltado também, que o progresso social é fruto da renovaçãomoral do homem, e que os planos para uma sociedade regida por leis evoluídas e sábiassó é possível quando se trabalha para se conscientizar o homem desde sua infância.Assim a educação serviria como uma alavanca moral, impedindo que más tendências setransformem em vícios. Existe uma grande quantidade de material disponível para esse curso, sendo umtotal de vinte e dois livros a venda na loja virtual, e um total de dezoito arquivos paradownload gratuito. Esses dezoito arquivos são divididos em três grupos, cada um comseis itens, chamados de “Pré-Juventude”, “1° Ciclo de Juventude” e por último “2°Ciclo de Juventude”. O seis itens, dentro de cada um dos três grupos, possuem a mesmaestrutura de organização, sendo os seguintes sub itens, em ordem, como apresentado napágina em questão; Deus, prece, antecedentes do cristianismo, o cristianismo, oEspiritismo e conduta espírita – vivência evangélica. Para encerrar a descrição dos cinco cursos oferecidos no site FEB, iremos falarsobre o item “Esperanto”, que se distingue dos outros cursos, descritos acima, pelo fatode que, apesar de estar agrupado com os outros planos de estudo, não encontramos nosite um plano de metodologia didática ou material de estudo como nos outros, apenasinformações sobre o Esperanto e livros para download. O Esperanto, segundo o site da FEB, é uma língua planejada, e de fácilaprendizado, criada em 1887 pelo médico polonês Dr. Lázaro Luís Zamenhof, com ointuito de facilitar a comunicação entre pessoas de diferentes pátrias. Ao todoencontramos, no site da FEB, dezesseis livros disponíveis para download, dos quaisapenas dois não são de Allan Kardec ou de Chico Xavier, sendo um de autoria de Luísda Costa Porto Carreiro Neto e o outro de Yvonne A. Pereira. Como dissemos antes, há também no site, acesso a uma loja virtual da editora
  • 43FEB, que contém entre outras coisas os planos de aula completos que foram descritosacima. Na loja virtual também encontramos a informação de que a editora possui maisde 400 títulos publicados e um total de quase 40 milhões de livros vendidos. O portal daeditora e loja virtual da FEB é, aparentemente, separado do portal da instituição FEB.Além de possuir identidade visual própria, essa informação foi levantada como hipótesepelo fato de que a instituição possui extensão “.org” e a editora, e loja virtual possui aextensão “.com”. A estruturação do site da editora FEB é muito bem feita do ponto de vistatécnico e os recursos disponíveis são muito parecidos com os recursos oferecidos emoutras lojas ou livrarias virtuais. Entre esses recursos podemos citar a existência de umsistema de buscas interno, lista de livros mais vendidos, opções de pagamentos,promoções de vendas, além de diversas seções que facilitam a navegação e possibilitamque o usuário encontre livros que não conhecia antes, mas que podem ser de seuinteresse. Outro recurso oferecido pela livraria online é um Clube do Livro, quefunciona como um clube de vantagens, oferecendo desconto de 5% nas compras pelosite além do recebimento dos lançamentos “em primeira mão”. Um recurso que vale a pena destacar é a possibilidade de fazer pesquisas onlineatravés de três meios: o “Espiritismo de A a Z” mostra uma lista alfabética com diversositens em cada letra. Quando o usuário clica em um dos itens ele visualiza um trecho dealguma obra que faça elucidações sobre o assunto, tudo devidamente referenciado.Outro recurso de pesquisa online é o “Guia de Fontes Espíritas” que funciona de formasemelhante, com a lista alfabética contendo vários itens em cada letra. A diferença é queao clicar em um dos itens o usuário recebe uma lista de referências bibliográficas quetratam sobre o assunto em questão. O terceiro recurso é um índice alfabético da “Revista Espírita”, referente aosanos de 1856 até 1869. Dentro de cada letra temos uma grande diversidade de termosencontrados nas edições do periódico, dentro do período em questão. Quandopesquisamos um termo, como por exemplo, “Ação Magnética”, somos direcionadospara uma lista de assuntos relacionados, que nesse caso eram “entorpecimento e” e“propriedades especiais e”. Todos os dois assuntos tinham a citação do ano e mês queapareceram, além de links encaminhando para o PDF referente ao exemplar que contémo assunto. A FEB também disponibiliza em seu site dois livros de “Apoio à casa espírita”,para download gratuito em PDF. O primeiro contém instruções doutrinárias,
  • 44administrativas e legais para os Centros Espíritas que pretendam estruturar e manter um“Serviço Assistência e Promoção Social Espírita”, ou SAPSE, que também é o nome dolivro. De acordo com o próprio site, é um documento básico, que permite a capacitaçãodo trabalhador que ira atuar nessa área, ajudando-o a estruturar e desenvolver seutrabalho dentro do princípio da caridade. O segundo livro, chamado de “Orientação aoCentro Espírita”, oferece informações relativas à organização de centros espíritas,sugerindo atividades e reuniões a serem realizadas, além de informaçõesadministrativas, legais e doutrinárias. Há uma outra seção, que encontramos na página inicial, que iremos destacar. Elaé intitulada “Gestão de Centros Espíritas”, e oferece cursos gratuitos, realizados àdistância. Os cursos abrangem desde a organização básica de um centro espírita até otrabalho de unificação do movimento espírita. No período em que foi feita esta pesquisahavia uma aviso nesta seção informando que, em breve, haveria o lançamento de novoscursos com outros temas. É interessante ressaltar aqui que a FEB, nessa seção, destaca autilidade da Internet como método para difusão de informações pertinentes a gestão decentros espíritas, e a conseqüente divulgação dos valores éticos e intelectuais doEspiritismo. Outra seção importante no site da FEB, considerando os objetivos destamonografia é a seção Mídias Espíritas, que é dividida em quatro sub categorias. As duasprimeiras sub categorias são as de jornais e de revistas. Quando o usuário acessaqualquer uma das duas, pode visualizar uma extensa lista de publicações brasileiras einternacionais, divididas por regiões. A terceira sub categoria da seção é intituladaProgramas de TV – Online que oferece uma listagem de emissoras. A emissora queganha destaque no portal da FEB é a TVCei – Web TV do Conselho EspíritaInternacional – que também possui um portal próprio, com programação atual, listacompleta de programas, loja virtual e um sistema de mensagens instantâneas para que aspessoas que estejam acessando o site em um mesmo momento possam se corresponder àdistância. Ao todo, a FEB lista treze emissoras e programas de TV espíritas em seuportal. A última sub-categoria dentro da seção “Mídias Espíritas” é a referente aprogramas de rádio. Há uma listagem de trinta e cinco emissoras ou programas de rádioque são agrupadas por estado. O portal da FEB informa nome da rádio, a freqüência emque a rádio pode ser sintonizada, horário de transmissão de programas pela rádio, cidadee estado em que ela está localizada e site da instituição, quando disponível. A análise desse site nos permite concluir que a FEB trabalha para permitir que
  • 45os fundamentos da doutrina Espírita estejam disponíveis na web. Apesar de parte doconteúdo ser acessível apenas por meio da compra do material, está claro que até quemnão desejar, ou não puder, pagar por isso vai encontrar um grande volume deinformações no site. Também entendemos que embora esse material todo possa serimpresso e difundido por esse meio, a Internet facilita o acesso, já que permite que eleesteja “desterritorializado” em um ambiente online. Ou seja, o sujeito que pretende terconhecimento sobre a doutrina e valores espíritas e que não se sente á vontade parafreqüentar um Centro Espírita, pode ter esse contato inicial por meio da Internet.
  • 46 4 – CONCLUSÃO Nessa monografia, um de nossos objetivos foi mostrar que ao longo da históriado pensamento ocidental, a religião e a ciência, embora vistas muitas vezes comoconcepções de mundo opostas, possuem pontos de interseção, pontos esses, que deacordo com nossa visão merecem serem observados. Concordamos com Morin (1977) e Souza Santos (1987) quando afirmam queessas interseções, embora afetem todas as áreas do conhecimento, não foram absorvidosde forma hegemônica pelas academias e pela sociedade. Esses dois filósofos falam dométodo de experimentação positiva, que ao mesmo tempo em que criam barreiras contraoutras formas de pensamento mais subjetivas, não consegue explicar uma série defenômenos ou criar uma inteligibilidade geral entre as diversas áreas do conhecimentohumano. Tentamos promover essa reflexão através do pensamento do filósofo Pierre Lévye do fundador do Espiritismo, o francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, que se tornouconhecido pelo nome de Allan Kardec. Os escritos destes dois autores examinados nestamonografia foram produzidos com mais de um século de distância entre eles. O que noslevou a escolher o discurso, tido como científico, de Pierre Lévy sobre a cibercultura, eo discurso tido como religioso e espiritualista de Allan Kardec foi o fato de ambosapresentarem traços de confluência entre a ciência e a fé. Percebemos isso ao ver o discurso de Lévy, quando esse usa referências bíblicase faz alusões ao bem e ao mal para falar do projeto de renovação do laço social,inteligência coletiva e cibercultura. Percebemos também, um movimento parecido nasidéias de Kardec, porém em sentido oposto, quando esse tenta utilizar a razão e opróprio método científico para explicar questões sobre espiritualidade, sobre a evoluçãodo pensamento humano e sobre o bem e o mal. Tentamos, ao comparar o discurso dos dois, apontar três questões queconsideramos centrais em seus pensamentos, e que repousam sobre os mesmoprincípios, são elas: 1) Renovação do laço social de Lévy em conjunto com o avanço moral de Kardec. 2) A inteligência coletiva de Lévy em conjunto com o avanço intelectual de Kardec.
  • 47 3) A idéia da ética individual como método para se alcançar os dois primeiros pontos, encontrada no pensamento dos dois. Analisamos também o portal oficial da Federação Espírita Brasileira, a FEB,para verificar se estes princípios considerados fundamentais para a conduta de umseguidor do Espiritismo são difundidos pelos meios informacionais, unindo assim osideais espíritas às potencialidades do ciberespaço descritos por Lévy. Escolhemos o sitedessa instituição, pois esta possui representatividade federativa, reconhecida porinstituições regionais. Encontramos uma enorme quantidade de material disponível no portal, algunsgratuitos outros não. Entendemos, contudo, que a instituição em questão oferecegratuitamente o material básico da doutrina, que constitui a base de tudo que foielaborado depois, dentro do Espiritismo kardecista. Também acreditamos que a Internete o site em questão representam uma alternativa de acesso à esse conteúdo,possibilitando que pessoas que, por quaisquer motivos, não tivessem disponíveis, porexemplo, as cinco obras básicas de Allan Kardec, em formato impresso, possamencontrar lá as informações presentes em sua obra. Contudo uma indagação surgiu ao longo da pesquisa, através de reflexões, e queagora nós levantamos a titulo de hipótese para futuras pesquisas. A dúvida que nos atinge é se a Internet, com todos seus sofisticados recursoscognitivos, pode, de fato, apresentar novas oportunidades para pessoas de classessociais mais carentes, que possuem acesso limitado à ela, sendo que ainda existe apossibilidade de que muitas dessas pessoas não saibam utilizar os recursos de maneiraefetiva, além de existir, também, a possibilidade de que mesmo com determinadainformação disponível na Internet essas pessoas não saibam muito bem o que fazer comela, ou como “manuseá-las”, de maneira que elas mesmas possam, depois, criar novasinformações e utilizá-las para transformar sua realidade. Trazendo para essa indagação os três conceitos que utilizamos, e que tentamosidentificar como, presentes no pensamento de Lévy e Kardec, refletimos sobre apossibilidade de utilizarmos esses mesmos conceitos em ações que promovam um tipode “inclusão digital” que esteja além de apenas apresentar computadores, ligados àInternet, para pessoas possivelmente despreparadas, e que envolvam, também, medidassócio-educativas e comunitárias. Entendemos a complexidade do problema, e por isso não iremos além na
  • 48hipótese levantada, a apresentamos à titulo de reflexão para uma possível pesquisa nofuturo.
  • 49 REFERÊNCIASAZEVEDO, Luana. Um Império e duas medicinas: A Introdução da Homeopatia noBrasil em 1840. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica, 2008. Disponível em:http://www.historiaecultura.pro.br/cienciaepreconceito/producao/luanaazevedomonografia.pdf, acesso em 16 de outubro de 2011.BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. v. I. São Paulo: Pioneira, 1971.CASTELLS, Manuel. Sociedade em rede: Economia, sociedade e cultura. São Paulo:Paz e Terra. 1999.DALLEGRAVE, Geraldo E. Reencarnação. São Paulo: Loyola, 12ª edição, 1999.DOYLE, Sir Arthur Conan. A história do Espiritismo. São Paulo: Pensamento, 2004.ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. São Paulo: MartinsFontes, 1992.FLUSSER, Vilém. O mundo codificado. São Paulo: Cosac Naify, 2007.GARNERI, Anita. O que sabemos sobre Hinduísmo? São Paulo: Callis, 2ª edição,1998.GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos: uma história da condenação elegitimação do espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997. Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-93131997000200011&script=sci_arttext,acesso em 12 de outubro de 2011.KARDEC, Allan. A Gênese: Os milagres e as Predições Segundo o Espiritismo.Araras: Ide, 52ª edição, 2008a.KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Araras: Ide, 313ª edição,2005.KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Araras: Ide, 182ª edição, 2009a.KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Araras: Ide, 85ª edição, 2008c.KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Araras: Ide, 74ª edição, 2009b.
  • 50KARDEC, Allan (ORG.) Revista Espírita. n. 1858. Rio de Janeiro: FEB, 2004a.Disponível em: http://www.febnet.org.br/site/livros.php?SecPad=370&Sec=406, acessoem 08 de outubro de 2011.KARDEC, Allan (ORG.) Revista Espírita. n. 1864. Rio de Janeiro: FEB, 2004b.Disponível em: http://www.febnet.org.br/site/livros.php?SecPad=370&Sec=406, acessoem 08 de outubro de 2011.LEMOS, André. Cibercultura: Tecnologia e vida social na cultura contemporânea.Porto Alegre: Sulina, 4ª edição, 2008.LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva: Por uma antropologia do Ciberespaço. SãoPaulo: Loyola, 4ª edição, 2003.LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo. v. 2 necrose.Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.NÚMERO de usuários de internet no mundo alcança os 2 bilhões. Disponível em:http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2011/01/numero-de-usuarios-de-internet-no-mundo-alcanca-os-2-bilhoes.html, Acesso em 06 de outubro de 2011.QUINTELLA, Mauro. A História do Espiritismo no Brasil. Disponível em:http://pt.scribd.com/doc/14004738/Mauro-Quintella-Historia-do-Espiritismo-no-Brasil,Acesso em 10 de setembro de 2011.REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. v. II. São Paulo: Loyola, 1997.RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.RIGONATTI, Eliseu. O Livro dos Espíritos para a Juventude. São Paulo:Pensamento – Cultrix, 1986.SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências. Porto: Afrontamento,1996.SILVA, Vagner Gonçalves da. Camdomblé e Umbanda; Caminhos da devoçãobrasileira. São Paulo: Ática, 1994.
  • 51SOUZA, Juvanir Borges de. Primórdios do Movimento Espírita no Brasil. In: OReformador. Rio de Janeiro: FEB, abr. 2000. Disponível em:http://www.espirito.org.br/portal/download/pdf/reformador-2000-04.pdf, acesso em 08de outubro de 2011.VIVEIROS DE CASTRO, Maria Laura. O que é o Espiritismo. São Paulo: Brasiliense,2ª edição, 1985.WALLACE, B. Alan. Budismo com atitude. Rio de Janeiro: Nova Era, 2ª edição,2001.