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Wittgenstein. tractatus logico philosophicus (português)
 

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    Wittgenstein. tractatus logico philosophicus (português) Wittgenstein. tractatus logico philosophicus (português) Document Transcript

    • Obra publicadacom a colaboração daUNIVERSIDADE DE SÃO PAULOREITOR: Prof. Dr. Luís ANTÔNIO DA GAMA E SILVAVICE-REITOR em exercício:Prof. Dr. HÉLIO LOURENÇO DE OLIVEIRATrac tatusLogico-PhilosophicusEsta obra, como diz o Prof. JOSÉ ARTHURGIANNOTTI ao abrir a excelente introdução queescreveu para esta edição, não é fácil. Adverteainda, seguindo o próprio autor — extrava-gante figura que BERTRAND RUSSELL delineiaem Retratos de memória e outros ensaios (trad.de Brenno Silveira, Comp. Editora Nacional,e. Paulo, 1958) — que qualquer explicaçãoexterior ao texto é do domínio do que deveser calado, o que poderia constranger todoaquele que, embora especializado em históriada lógica moderna, tivesse a veleidade de fazerqualquer comentário sóbre este livro. Isso,aliás, aconteceu ao próprio RUSSELL que, anuin-do em escrever a apresentação que a editôraReclam exigia para a publicação do Tractatus,recebeu dê WITTGENSTEIN esta curiosa resposta:"Muito obrigado por seu manuscrito. Nãoestou muitas vezes de acórdo com ele, tantonos trechos em que V. me critica como na-queles em que pretende meramente tornarclaras minhas. opiniões. Mas não faz mal. Ofuturo nos julgará. Ou não — e se ele se calar,já será um julgamento."Quase cinqüentenário, o livro de WITTGEN-STEIN é marco, dos mais importantes, na his-tória da lógica moderna. Não sentimos diantedele aquela distância, diz o Prof. GIANNOTTI,peculiar aos textos clássicos, que demandammais árdua e progressiva aproximação. Nãoobstante, é um clássico e aos clássicos é prin-cipalmente dedicada esta coleção. É talvezmenos distante que outros, em virtude daimportância que assumiu no "ambiente de eu-foria" que se seguiu à publicação dos Principiade RUSSELL e de WHITEHEAD, em 1910. É,no entanto, uma obra de grande importânciana evolução do pensamento lógico. É certo,como afirma o Prof. GIANNOTTI, que "a uni-dade que permitia conceber a lógica como umsistema total, revelou-se ilusória" no evolverdas três últimas décadas do nosso século.(continua na outra dobra)EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULOCOMISSÃO EDITORIAL:Presidente — Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri(Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras). Mem-bros: Prof. Dr. A. Brito da Cunha (Faculdade deFilosofia, Ciências e Letras), Prof. Dr. Carlos daSilva Lacaz (Faculdade de Medicina), Prof. Dr.Miguel Reale (Faculdade de Direito), e Prof. Dr.Pérsio de Souza Santos (Escola Politécnica).
    • LUDWIG WITTGENSTEIN13IBL OTECA UNIVERSITÁRIASérie 1.. — FilosofiaVolume 10Direção:Dr. CRUZ COSTA(da Universidade de Sdo Paulo)TractatusLogico-PhilosophieusTradução e apresentação deJosÉ ARTHUR GIANNOTTICOMPANHIA EDITORA NACIONALEDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO8.10 PAULO
    • Direitos para a língua portuguésa adquiridos pelaCOMPANHIA EDITORA NACIONALRua dos Gusmões, 639 — São Paulo 2, SPTftulo original:Logisch-Philosophische Abhandlungpublicado em 1921 na revista de OatwaldAnnalen der NaturphilesephieNo ano seguinte foi publicada a primeira ediçãoinglêsa, bilíngüe, com o título Tractatua Logic°.Philoaephicua. Esta tradução segue o texto ale-mão da última edição inglêsa.O ROUTLEDGE & KEGAN PAUL LTD 1961capa denus/cisco G. SOLERA19 88Ingresso no BrasilSUMÁRIOIntrodução 1Prefdcio 53Tractatus Logico-Philosophicus 55Notas à tradução 131Glossdrio 135Índice remissivo 137
    • INTRODUÇÃOA leitura do Tractatus, apesar das enormes dificuldadesque oferece, fecha-se sôbre si mesma; se o que pode serexpresso o pode ser com clareza, como nos adverte seu autor,qualquer explicação exterior ao texto penetra nos domíniosdo que enfim deve ser calado. Sabemos que o livro não éum manual; dirige-se, sem intermediários, a um públicofamiliarizado com os principais problemas da lógica moderna.Sendo sua publicação recente (1921), não sentimos diantedele aquela distAncia peculiar aos textos clássicos que demandauma aproximação árdua e progressiva. Nessas condições, .como juntar-lhe uma introdução feita nos moldes tradicionais,revelando as articulações mestras de seu pensamento ? Todaanálise seria redundante, correndo o risco de encaminhar oleitor numa direção que, mesmo correta, não seria a única.É sintomático o que aconteceu com a apresentação feitapor Russell. Este anuíra em escrever a introdução que aBditóra Reclam exigia para a publicação do livro. Quando,porém, Wittgenstein recebe os originais, não pode escondersua decepção. Numa carta de 4 de abril de 1920, escreve:"Muito obrigado por seu manuscrito. Não estou muitas emuitas vêzes de acórdo com êle, tanto nos trechos em quevocê me critica como naqueles em que pretende meramentetornar claras minhas *opiniões. Mas não faz mal. O futuronos julgará. Ou não — e se êle se calar, já será um julga-mento". Na carta posterior (6 de maio) Wittgenstein, entre-tanto, vai mais longe: "Você ficará zangado comigo quandolhe contar o seguinte: sua introdução não será impressa eprovàvelmente por isso mesmo meu livro também não. Quandome defrontei com a tradução alemã de sua introdução, nãopude decidir-me a publicá-la com meu trabalho. A finurade seu estilo inglês perdera-se — evidentemente — na tra-
    • dução, restando apenas superficialidade e malentendido.Enviei então o trabalho e sua introdução para a Reclam,escrevendo-lhes que não queria a introdução impressa, jáque apenas servia de orientação a respeito de meu trabalho.É, pois, altamente provável que por isso a Reclam não oaceite (embora até agora não tenha recebido resposta algu-ma)" % &mente um ano depois é que o Tractatus aparece,na revista de Ostwald, Anais de filosofia natural, publicadaem Leipzig pela Editara Unesma G.M.B.H. No entanto, atradução inglêsa, publicada no ano seguinte, traz uma intro-dução de Bertrand. Russell, datada de maio de 1922. É difícilacreditar que o texto seja o mesmo. Sabemos apenas queWittgenstein, já resvalando para o misticismo, desinteressara-se por seu trabalho, não revendo com o devido cuidado otexto inglês, ao contrário do que afirma o tradutor.Convém lembrar, todavia, que a formulação de grandeparte dos problemas colocados pelo Tractatus depende deuma situação histórica que as últimas descobertas da lógicamatemática alteram sobremaneira. Devemos em particularter presente que Wittgenstein trabalhou no ambiente deeuforia que se seguiu à publicação dos Principia de Russelle Whitehead, muito antes, portanto, do• impacto provocadopela obra de Gõdel, que teve, como um de seus efeitos, avirtude de isolar o cálculo proposicional dos outros cálculosmatemáticos. Sendo decidfvel e completo, não possui umaestruturação suficientemente rica, capaz de dar conta dacomplexidade, por exemplo, do sistema da aritmética ou dageometria. dra, Wittgenstein elege o cálculo das proposiçõescomo padrão de inteligibilidade de todos os sistemas formais,postulando, em conseqüência, uma unidade entre Ales quemais tarde se revelou ilusória. Além do mais, essa ,unidadelhe permite conceber a lógica como um sistema total, aocontrário da dispersão dos sistemas particulares predomi-nantes na lógica contemporânea. É evidente que nessas con-dições os problemas da semântica, os problemas que dizemrespeito às relações do sistema com o mundo, haveriam deser propostos de uma forma muito meti ambiciosa do quehoje estamos acostumados a propor. Dal a riqueza doTractatus, dal em compensação seu dogmatismo, que por(1) Sehrtften von Ludwig Wittgenstein, vol. 1, pp. 276-8, SuhrkarapVerlag, Frankfurt, 1960.certo desnorteará aquele que não o abordar de uma perspec-tiva crítica que só a história pode oferecer. ConsiderandoAsse provável estranhamento é que fomos levados a preparara longa introdução que se segue. Correndo o risco de impa-,cientar o leitor com um texto relativamente grande, pretende-mos apenas reconstruir os principais problemas semânticostais como Wittgenstein os encontrou. Com a publicação dosinéditos anteriores ao Tractatus, estamos, ademais, em con-dições de traçar sua evolução desde o ponto de partida, comFrege e Russell, até o momento em que se formulam suasprincipais teses. Retornando, pois, às origens, esboçando umagenealogia de seus conceitos básicos, nada mais pretendemosdo que familiarizar o leitor com certas questões lógicas queo formalismo moderno tem em geral negligenciado. Condu-zido até a fronteira dêsse livro, o leitor deverá, sAzinho econtando •com seus próprios recursos, penetrar então numterreno em que impera, absoluta, a palavra de Wittgenstein.— As inovações de Frege.A obra de Gottlob Frege ocupa sem dúvida um dospontos mais altos na história da lógica, podendo apenas sercomparada com a de Aristóteles ou a de Leibniz; mas,apesar disso, ou talvez por isso mesmo, sua penetração foilenta e penosa.. Basta lembrar que sõmente hoje é que sepublica um volume reunindo seus artigos dispersos em re-vistasalemãs, de acesso dificílimo. Seu primeiro livro é de1879 — Begriffschrift: Eine der arithmetischen neOgebildeteFormelsprache de8 reinen 1)enkfkns (Ideografia: uma linguagemformal do pensamento puro imitada da linguagem da aritmé-Uca) que não• teve a mínima repercussão. Em 1884 publicaGrundktgen (ler Arithmetik: Eine logisch-mathematische Uneer-suchung itber deu Begriff der Zahl (Fundamentos da aritmética:ur¥ investigação lógico-matemdtica sôbre o conceito de númMero)(2).Depois de uma intensa participação nas revistas da época,publica em 1893 sua obra máxima em dois volumes:Grundgesetze der A.ritionetik (Princípios da aritmética).(2) }b1 uma tradução inglésa publicada por Basil Blackwell, Oxford,1959:(3) Cf. a coletânea feita por Peter Geach e Max Black: Translationsfrom the Philosophical Writings of Gottlob Frege, Basil Blackwell,Oxford, 1952.2
    • Propós-se como principal tarefa formalizar a aritmética,a fim de estabelecer uma passagem contínua entre a lógicae a matemática. Mas, para isso foi preciso tanto encontraruma definição lógica dos principais conceitos aritméticos, emparticular o de número, como refundir os conceitos lógicosfundamentais. Tarefa árdua, que implicava uma reformageral da visão da lógica e da matemática.Um de seus pontos de partida consistiu em precisar eestender o conceito matemático de função. Segundo as antigasdefinições, uma função de x seria uma expressão matemáticacontendo x, uma fórmula em que a letra x aparecesse. Éevidente a insuficiência de uma definição de tal ordem, quenão distingue entre forma e conteúdo, sinal e coisa assina-lada, etc. Frege, ao contrário, visa, de um lado à conexão(Zusammengehõrigkeit) que, por exemplo, a função numéricaestabelece entre uma série de números e, de outro, à necessi-dade de a expressão vir a ser completada, a exigência de serjustaposta a outros térmos para poder significar algumacoisa. Por isso, "a expressão de uma função carece de comple-mento (ergãnzungsbedürftig), sendo insatisfeita (ungesãttigt)"(4).Convém distinguir na função o argumento, que nãopertence a ela mas lhe advém para formar um todo, o lugardo argumento e. o valor que obtém quando a variável é substi-tuída por uma constante. Na história da matemática, dizFrege, assistimos a uma ampliação cada vez maior dos tipospossíveis de argumento, bastando lembrar na aritmética aintrodução de funções com números complexos e, ademais,algumas tentativas de empregar a noção de função operandoentre palavras. A reforma de Frege vai mais longe: faz comque expressões da forma E2 = 4 e E > 2, cujos valóres, porexemplo, variam de O a 3, possam ser consideradas funções.De fato, essas expressões se apresentam de modo incompleto,possuindo sentido tão-sómente quando um dosnúmeros possí-veis vier a ocupar o lugar do argumento. E feita a substi-tuição, obteremos os seguintes resultados: 0 2 = 4, 12 = 4,22 = 4, 32 = 4, e 0 > 2, 1 > 2, 2 > 2, 3 > 2; expressõesque, em geral, são falsas, a não ser duas exceções, uma paracada série. Pois bem, a grande novidade de Frege é pensarE2 = 4 e E > O como funções cujos valôres sejam, em lugarde números, os valôres verdadeiro ou falso. Désse modo,(4) Grundgesetze, I, p. 5.4expressões = 4 e 3> 2 denotariam o verdadeiro, en-quanto ás outras denotariam o falso. Com isto se introduza noção de valor de verdade, uma das maiores conquistasdo pensamento lógico contemporàneo.Como distinguir, porém, 22 = 4 e 3 > 2, se ambas possuema mesma denotação (Bedeutung) verdadeira ? Graças a seusentido (Sinn), à forma de comunicar alguma coisa indepen-dentemente de seus valôres de verdade, isto é, da relaçãocom o valor falso ou o valor verdadeiro. De sorte que Fregeé conduzido a distinguir nitidamente a denotação de umnome, isto é, o objeto significado, da maneira pela qual ésteobjeto é logicamente apresentado. Daí poder dizer: o nomeexprime (ausdrfcekt) seu sentido e denota (bedeutet) sua deno-tação.Uma teoria da função não depende da exata distinçãoentre sentido e denotação; tanto é assim que ésses conceitossèrnente aparecem nas últimas obras de Frege, quando ateoria da função já estava terminada; o mesmo não acontece,todavia, com o estudo do nome, das expressões que podemaparecer como argumento das funções. Vejamos como se dáessa ligação.A expressão 2x é ambígua, na medida em que designavários números conforme forem dados valôres a x: É maior,porém, a ambigüidade de expressões do tipo 2x = y, sobre-tudo porque fazem intervir a complicada noção de igualdade.No Begrzifsehrift Frege a interpreta como sinal a unir símbolosdiferentes postos pelo mesmo objeto. Mas a introdução danoção de sentido, leva-o a reformular esta primeira teoriainsuficiente, passando a igualdade a representar a ligação dedois sentidos diferentes que se reportam ao mesmo objetodenotado. Podemos dizer que "Scott" equivale a "o autorde Waverley" porque éstes dois sentidos diferentes se re-portam ao mesmo objeto.Nem todos os nomes, porém, possuem denotação. "Ocorpo mais distante da terra", "Bucéfalo", "Aquiles" sãopalavras inteligíveis a que, entretanto, não corresponde objetoalgum. A primeira tornamse significante graças à composiçãode nomes denotativos, mas a própria composição não deveeo ipso possuir denotação própria. As ,outras são nomesde figuras lendárias, cujo sentido se apreende consultandoos. poetas ou um bom dicionário. Além do mais, há, uma5
    • certa imbricação entre sentido e denotação: quando menciono"o sentido da expressão o autor de Waverley" transformei"o autor de Waverley" na denotação da frase inteira. Istoquer dizer que existem denotações oblíquas (ungeraden) queanteriormente foram sentidos.A indeterminação do sentido e da denotação é comumnas línguas correntes; a linguagem artificial, porém, deveevitá-la, cada nome havendo de possuir sentido e denotaçãoprecisos. Ambas as línguas, contudo, apresentam a mesmaestrutura ternária; primeiro, a camada material dos sinaisfalados ou escritos; segundo, o véu dos sentidos e, finalmente,o conjunto* de objetos denotados. Concepção de extremaimportância por causa de seu alcance teórico e de suas reper-cussões históricas. Assim é que está na base da teoria feno-menológica da linguagem, a única doutrina que atualmentetem condições de resistir à avalanche da semiótica behavi-orista que, ao contrário das teses de Frege e de Husseri,distingue na linguagem apenas a camada de sinais e os objetosdenotados. O ato da palavra vincular-se-ia diretamente àscoisas sem necessitar da camada ideal das significações, redu-zindo-se, portanto, ao esquema do reflexo condicionado.A comparação das expressões de tipo 2x e 2x = y revelaainda outra distinção fundamental, agora no que respeita aseus valóres: os da primeira são números e os da segundasão valóres de verdade. Dado isso, é DOSSIVel a derfflittãológica do conceito que o identifica à função cujos valôressão sempre valôres de verdade. Dêsse modo, o conceito apre-senta uma estrutura incompleta, nomeadamente predicativa,a tal ponto que tudo o que não possuir tal caráter é transfor-mado em objeto. Entre os conceitos e os nomes surge, pois,uma clivagem que separa, de um lado, as expressões com-pletas (os nomes na sua acepção mais ampla), a que corres-,ponde tôda sorte de,objetividade, e de outro, as expressõesincompletadas que dizem respeito a objetos em geral. gde notar que essa clivagem é lógicamente definida e substituia divisão aristotélica entre sujeito e predicado; consideradapor Frege de natureza psicológica(ó) : tóda expressãopleta, graças à transformação quer do sujeito quer do predi-cado em variável, forma um conceito, desde que seus valóressejam sempre ou o verdadeiro ou o falso.(5) Translations from Philosophieal Writings of Gottlob Frege, p. 3.6Isso pôsto, seguem-se conseqüências as mais imprevisí-veis. Primeiramente é preciso distinguir a relação que umargumento mantém com a função (relação subter, ou e nanotação de Peano), da relação que um conteúdo mantémcom outro mais extenso (relação sub ou de inclusão)( 6). Aantiga noção filosófica de subsunção, a relação que o con-ceito mantém com seus elementos, entendida na base darelação entre predicado e sujeito, dá lugar a duas noçõestotalmente distintas que revolucionam a teoria do juízo.Assim é que "Sócrates é mortal", onde o argumento "Sócrates"satisfaz a função "... é mortal", não pode mais ser postano mesmo nível, como fazia a silogística tradicional, com aproposição "Todos os homens são mortais", em que doisconceitos são relacionados em virtude de suas respectivasextensões. Do mesmo modo, a relação de parte e todo aque, desde Aristóteles, estava subordinada a noção de con-ceito, perde importância para a lógica em vista de sua ambi-güidade. Os diagramas de Euler constituem apenas umaanalogia imperfeita das verdadeiras relações que as propo-,sições no silogismo mantêm entre si(7).Em segundo lugar, a própria extensão passa por umareforma radical, deixando de constituir na coleção de objetosque caem sob o conceito, para vir a ser determinada por umapropriedade do próprio conceito; firma-sei por conseguinte, aabsoluta anterioridade da intensão sôbre a extensão. Aqui épreciso recorrer à importantíssima distinção entre proprie-dades (Eigenschaften) e marcas características (Merkmale) deum conceito, estas sendo propriedades das coisas que caemsob o conceito, aquelas, propriedades do próprio conceito,ou melhor conceitos de conceitos ou conceitos de segundaordem. Cumpre não confundir, por exemplo, "retangular"como propriedade dos objetos que caem sob o conceito "triân-gulo retângulo" com a propriedade expressa pela frase "nãoha triângulos retangulares acutângulos" que se refere direta-mente à característica do conceito em questão de não possuirsob si conceito algum(8). Em outras palavras, é preciso nãoconfundir as qualidades dos objetos cujos nomes são argu-mento do conceito com as propriedades do próprio conceito.(6) Ibid., p. 94.(7) Ibid., p. 106.(8) Grundlagen, § 53; Translations, p. 51.7
    • A extensão figura entre as segundas, pois consiste na proprie-dade de o conceito dispor sob sua égide tantos e tais objetos.Além do mais, a introdução de conceitos de segundaordem resolve uma série de dificuldades que o simbolismomatemático havia levantado: 1) a classe nula, cuja compre-ensão se torna difícil de um ponto de vista extensional, namedida em que afirma a existência de uma coleção que nãopossui elementos, passa a corresponder à propriedade peculiara certos conceitos, como "é um decaedro regular", de nãoterem nada sob si; 2) o membro de uma classe não se con-funde com a classe de um único elemento, pois o primeiroé um elemento da classe enquanto que a última é determi-nada pela propriedade de certos conceitos serem predicadosde um único elemento; 3) a existência dos objetos matemáticos passa a ser determinada por um conceito de segundaordem, de modo que se torna totalmente independente dasformas da sensibilidade, ao contrário do que errôneamentepensava o kantismo; 4) finalmente o número cardinal recebeuma definição satisfatória, baseada na propriedade de os con-ceitos possuírem sob si determinada quantidade de objetos.No entanto, a clivagem radical entre coisas e conceitos,que se estriba no caráter predicativo dêsses últimos, não se,faz sem dificuldades. Contra ela se levanta a seguinte objeçãoque o lógico Kerry apontou: o conceito também pode surgircomo sujeito, como na proposição "o conceito de número éde segunda ordem". A resposta de Frege(°) reafirma: 1), hátêrmos que só podem ocorrer como sujeitos, isto é, como.nomes; 2) podemos ainda ter um conceito subordinado aoutro, mas, neste caso, estamos operando com o nome e nãoCom o próprio conceito. No exemplo acima, o predicado "desegunda ordem" seria dito do nome "conceito de número".Apesar de esta .solução estar de acôrdo com nossos hábitosatuais, moldados pelo neopositivismo que tanto insistiu nadiferença entre língua objetal e metalíngua, ela não dá contado fato de a predicação se fazer sôbre o objeto nomeado pelosujeito e não sôbre o próprio nome sujeito. Além do mais,é preciso salientar outra dificuldade apontada pelo primeiroRussell(9: o caráter predicativo do conceito dificilmente secoaduna com a situação de sujeito. E é o próprio Frege quem(9) Translations, pp. 42 e seg.(10) Cf. Principies, p. 507.8reafirma no artigo contra Kerry: "o comportamento doconceito é essencialmente predicativo, mesmo quando se fazalguma asserção sôbre êle, de modo que s6 pode ser substi-tuído por outro conceito, nunca por um objeto"("). Veremosmais tarde como o debate se aprofunda; por ora nos cabeapenas observar que o problema da transformação do con-ceito em objeto, ou o problema da nominalização, como ochamam os fenomenólogos, translada o conceito para outronível, o que não se faz sem dificuldades do ponto de vistalógico.O conceito justaposto a seu objeto constitui a propo-sição, forma expressiva do pensamento (Gedanke). A que seidentifica êsse pensamento, ao sentido ou à denotação ? Éevidente que a denotação de uma proposição, não se alteraquando substituímos uma de suas partes por mitra, de mesma&notação, a despeito das possíveis modificações de sentido.Se substituirmos o sujeito da proposição "A estréia, da manhãé iluminada pelo sol" por "estréia dá tarde", obteremos semdúvida um pensamento diferente que, contudo, mantém adenotação anterior.. Tudo indica, portanto, que pensamentoe sentido de uma proposição são a mesma coisa.. O que há,porém, de ser a denotação inalterável que permanece nasduas proposições, na que tem corno sujeito "a estréia datarde" e na outra que tem como sujeito "a estréia da manhã"?O que é de comum a ambas é..apenas o valor de verdadeverdadeiro, de modo que não há outra solução possível senãotomá-lo como a. denotação, Assim sendo, o pensamento é osentido da proposição e um valor. de verdade a sua deno-taçao(iz). Em lugar de referir-se aos fatos ou a uma. con-junção de coisas, a proposição passa a denotar um objetoideal constituído pelo valor verdadeiro ou pelo valor &1,13n.Uma tradição que remonta a Aristóteles quebra-se pela pri-meira vez.Nem tôdas as proposições possuem a mesma estruturasimples, Não nos cabe, todavia, entrara no pormenor, exami-nando como Frege analisa as sentenças mais complexasfim de comprovar a viabilidade de sua interpretação. Fixemo-nos apenas em suas conseqüências filosóficas. Somos emgeral levados a pensar a relação do pensamento com a ver-(11) Tranelatione, p. 50.(12) Ibid., p. 62.9
    • dade como aquela que vincula o sujeito à, predicação. Naproposição "S é P", P é dito da denotação de S, de sorteque, ao afirmar "`S é P é verdadeiro" temos o predicado"é verdadeiro" reportando-se à. denotação (um fato, porexemplo) do sujeito proposicional. Esta solução ingénua,todavia, não leva em conta a inexistência de uma diferençasignificativa entre a asserção "S P" ("5 é um número primo")e a asserção 2 é P é verdadeiro" (5 é um número primoé verdadeiro"). Graças a ela o sujeito e o predicado, enten-didos num sentido lógico, devem ser elementos do pensa-mento a permanecerem, no que respeita ao conhecimento,sempre no mesmo nível. Sua combinação produz apenaspensamentos que ~ente se referem a uma objetividadesem, contudo, saltarem para ela, como se fôsse possfyel, pelosimples jógo das proposições e suas partes, passar db pensa-mento para seu valor de verdade. Este não pode fazer partedo pensamento, tampouco, digamos, como o sol, na medidaem que não constituem sentidos mas objetos(").Tôdas as proposições declarativas simples possuem, des-tarte, duas denotações possíveis: a veracidade e a falsidade.Como tais, nos são perfeitamente inteligíveis sem que sejapreciso eleger um dos valóres de verdade. O juízo consisteprecisamente nesta eleição, no reconhecimento da verdadede um pensamento(14), na quebra da indiferença em que aproposição se apresentava no mero enunciado. Como tantosoutros lógicos que lhe são contemporâneos, Frege distingueo conteúdo do juízo (beurteilbarer Inhalt), o pensamentosimplesmente apreendido, da asserção que assevera sua ver-dade. Já o Begriffschrift separa o conteúdo (a mortalidadede Sócrates) da proposição (Sócrates é mortal); o primeiroé representado por um traço horizontal ( — ) diante da sen-tença, a segunda, a asseveração désse mesmo conteúdo (Éverdade que Sócrates é mortal), é representada pelo traçotraço vertical junto ao traço de conteúdo ( ).No entanto, como fugir a uma determinação psicológicado conteúdo ? A fenomenologia de Husserl tentou resolvera questão recorrendo à intencionalidade: a cada ato de juizoenquanto processo mental corresponde um conteúdo obje-tivo, visado pelo ato, mas que não partilha necessàriamente(13) Ibid., p. 64.(14) Grundgesetze, p. 9.10de sua natureza psicológica. É preciso não confundir, emsuma, a percepção psicológica da mesa com a própria mesacomo objeto do mundo. É evidente, porém, que esta soluçãonão teria cabimento para Frege, porquanto pressupõe umaanálise da consciência que se faz extralágicamente.Foi precisamente com o intento de expurgar os últimostraços de psicologismo que Frege refunde sua primeira teoriada asserção. Os Grundlagen retomavam expressamente o prin-cípio de abstração de Hume("): o conteúdo do juízo resultade um processo que passa de conceitos menos extensos aoutros mais abstratos. Tomemos, por exemplo, "x é para-lelo a a" e façamos com que seja substituído por "a direçãoda reta a", de sorte que a situação descrita pelo conceitode paralelismo venha a ser descrita pelo conceito "ter a mesmadireção de a". No juízo "b é paralelo a a" tem lugar, pois,uma dissociação geradora da equação "a direção de b é igualà direção de a", *conteúdo do primeiro juizo. É evidenteque tal processo pressupõe uma atividade intelectual queopera a passagem de um a outro conceito. A primeira vista,esta brecha para o psicologismo pode parecer desimportantemas, na medida em que a definição de número como conceitode segunda ordem demanda esta forma de abstração, elaatinge os próprios fundamentos do logicismo que Frege pre-tendia estabelecer.Exemplifiquemos: um conjunto A qualquer correspondea um determinado conceito, a saber, "x é apóstolo de Cristo",e outro conjunto B, também corresponde a outro conceito:"x é cavaleiro da Távola Redonda". É possível estabelecerentre os conjuntos uma relação biunívoca, de modo a quepossamos dizer que ambos possuem o mesmo número. Oprincípio de abstração destaca esta propriedade de possuiro mesmo número, que no caso diz respeito tanto aos apóstolosde Cristo como aos cavaleiros da Távola Redonda, paraformar um conceito à parte que determina o número doze.Tínhamos, no inicio, dois conceitos, um referindo aos após-tolos, outro aos cavaleiros, que passam a ser substituídospelo conceito "x tem o mesmo número que z", definindouma propriedade dos conceitos iniciais, isto é, um conceitode segunda ordem. O número doze nasce assim da abstração(15) Grundiagen, § 63.11
    • de uma propriedade muito peculiar de certos conceitossubsumirem sempre o mesmo número de elementos.Além de recorrer a uma atividade intelectual para explicara geração do conceito de segunda ordem, esta solução setorna ainda mais insatisfatória na medida em que o númerodoze, a que corresponde o nôvo conceito, constitui um objetosingular cujo estatuto é difícil de precisar nos têrmos dadefinição por abstração. De que maneira um conceito desegunda ordem vem a ser um objeto singular como o número ?Para resolver esta dificuldade Frege introduz, a partirde 1891, o conceito de percurso de valor (Wertverlauf) que,de um modo geral, designará a extensão de um conceito qual-quer, inclusive a de um conceito de segunda ordem. Masa prioridade do ponto de vista intensional não permite queessa extensão, ou melhor, a classe determinada pelo conceito,seja formada pela enumeração dos elementos que a compõem,dos elementos subsumidos pelo conceite, porquanto istoequivaleria a privilegiar os objetos em detrimento do con-ceito. Como resolver esta enorme dificuldade ? Como reco-nhecer numa multiplicidade uma singularidade, processo indis-pensável para fundar ldgicamente a teoria dos números -car-dinais, sem adotar a perspectiva da extensão ?Suponhamos duas funções f(x) e g (x); se reconhecermosalgo em comum entre elas, chamaremos éste algo percursode valor de ambas as funções. "Devemos admitir como umalei fundamental da lógica o direito que temos então de reco-nhecer assim algo em comum às duas funções e, por conse-guinte, transformar uma equivalência, válida geralmente,numa equação (identidade));(16) . Conforme o exemplo acima,na proposição "para todo x, x é apóstolo de Cristo biimplica xé cavaleiro da Távola Redonda" verificamos uma equiva-lência entre as duas funções precisamente no aspecto parti-cular de ambas denotarem o mesmo número de elementos.Frege considera como lei lógica fundamental, em que se fundatàcitamente as lógicas de Leibniz e de Boole, a possibilidadede passarmos da equivalência sob um aspecto para a identi-dade sob todos os aspectos, introduzindo para as funções igua-(16) Grundgesetze, II, § 154, p. 181, e para a definição formal § 9,p. 14; Cf. o pormenorizado estudo de Jules VUILLEMIN: "Léliminationdes définitions par abstraction chez Frege", Revue philosophique, n.° 1,janeiro-março 1966.ladas um nôvO objeto e um símbolo correspondente. Noexemplo, teremos então o número doze e o sinal "12".A descoberta desta lei abre horizontes inteiramenteinéditos, já que redunda na constituição de novos objetosa partir de juizos analíticos. Haveria melhor refutação deKant que nunca descobriu nesses juízos qualquer papel consti-tutivo ? No entanto, apesar de sua importância filosófica,esta lei apenas introduz o conceito de percurso de valor, indi-cando um Avo objeto, sem contudo estabelecer os critériosde sua identificação. A cada função passa a corresponderum objeto (a classe) que é igual a outros objetos determi-nados pelas funções equivalentes, e cada objeto passa a serdesignado por um nome; como, porém, encontrar a denotaçãoprecisa do nome ? Na verdade quando tratamos de númerospequenos e de conceitos não muito complexos, a intuiçãonos fornece os recursos necessários para discernir quais osobjetos que caem• sob o conceito e quais os que não caem.No entanto, ainda que ésse recurso intuitivo fôsse lógica-mente válido, éle nos abandona logo que examinamos o casodo número zero ou da classe nula. Além do mais, qual é opercurso de valor de uma função como x2 = 1 ?A solução encontrada por Frege reduz, graças à intro-dução de uma função muito particular, os percursos de valoraos valôres de verdade. Seu exame pormenorizado( 17) fogeaos estreitos horizontes desta introdução. Cabe-nos apenasencaminhá-la para apontar suas conseqüências filosóficas maisimediatas.Seja definida a função — do seguinte modo: — é ver-dadeiro se 0 fór verdadeiro, — 0 é falso se á não fôr verda-deiro. Assim sendo, peksto que 22 = 4 é verdadeiro — (22 = 4)é verdadeiro, mas — (23 = 4) é falso da mesma maneiraque — 2 também o é, pois neste último caso, 2 não sendoverdadeiro, ou melhor, não lhe cabendo valor de verdadealgum, concluímos, em virtude da amplitude da segundaparte da definição, que — 2 é falso(18). Este último exemplomostra que a função — serve para transformar qualquercoisa em conceito (numa função proposicional, ha linguagemmoderna), numa função cujos valôres sempre são valôres de(17) Cf. Grundgesetze, 10, pp. 16 e seg.; RUSSELL, Principies,§ 484, pp. 511 e seg.; VUILLEMIN, op. cit.(18) Grundgesetze, p. 19.12
    • verdade. No entanto, dada a função —, ainda não sabemoscomo fixar o objeto individual. Basta, porém, fixar arbitrà-riamente um dos valôres, tomando por falso, por exemplo,o percurso de valor do conceito "x não é idêntico a si mesmo"para, postas as denotações, reconhecermos inteiramente onôvo objeto.Ainda que esta rápida exposição seja incompleta, nãosendo compreensível para quem não estiver familiarizadocom o assunto, basta para mostrar que Frege, em seus últimosescritos, substitui o conteúdo do juizo gerado pela abstraçãoe, por conseguinte, fundado na psicologia, pela função —,cujas propriedades dependem de uma estrutura lógicamentedefinida. Acresce ainda que, fixando arbitràriamente a deno-tação do falso a fim de precisar a denotação de cada percursode valor, Frege situa o problema da relação entre as expressõese a denotação e, de modo mais geral, entre linguagem e mundo,estritamente em têrmos dos valôres de verdade, o que semdúvida prepara o terreno para Wittgenstein e Carnap.Frege já publicara o primeiro volume dos Grundgesetzee prepara o segundo quando recebe uma carta de Russell,datada de 16 de junho de 1902, em que êste lhe comunicaa descoberta de uma antinomia relativa à noção de classe,que punha em xeque a noção de percurso de valor. Na suaforma mais simples, a antinomia pode ser expressa da seguintemaneira: seja w a classe de tôdas as classes que não sejammembros de si mesmas, de modo que para todo x, podemosdizer que x pertence a w é equivalente a x não pertence a x;ora, x é uma variável que pode inclusive ser substituída por w,de sorte que obtemos a proposição contraditória w pertencea w é idêntico a w não pertence a w. Não foi pequeno o choquede Frege que, desanimado, responde aos 22 do mesmo mês:"parece-me pois que a transformação de uma igualdade numaigualdade de percursos de valor (§ 9 de meus Princípios)não é mais permitida, pois minha lei V (§ 20, p. 36)(19) éfalsa, e que minhas introduções no § 31 não bastam paraassegurar em todos os casos uma denotação às minhas conexõesde simbolos"(9. Em outras palavras, a descoberta da anti-(19) A lei diz que, sendo dois objetos iguais, tudo o que se atribuiao primeiro também será atribuído ao segundo, o que não acontece quandoos objetos forem diferentes.(20) HANS-DIETER SLuGA, "Frege und die Typentheorie", in Logikund Logikkalkül, Verlag Karl Alber, pp. 205, 206.nornia de Russell delimita o âmbito da lei fundamental deFrege que validava a passagem da equivalência para a identi-dade com a respectiva criação de novos objetos. Há certasexpressões, como a "classe de tôdas as classes que não secontêm a si mesmas" a que não deve corresponder percursode valor algum, isto é, um objeto real.Não é verdadeira a lenda que narra o desespêro de Fregecom o conseqüente abandono de suas investigações lógicas.É, possível verificar que, na sua correspondência com Russelle no próprio apêndice apôsto ao segundo volume dos Prin-cípios, procurava insistentemente a solução para os para-doxos. Contudo, não atinou com ela e, anos mais tarde,quando Russell lhe comunica o princípio da teoria dos tipos,o velho mestre cansado já não mais estava em condições deatribuir-lhe a devida importância. Outros haveriam de con-tinuar seu trabalho.II — Os caminhos tortuosos de Russell.É impressionante a capacidade renovadora de Russell;durante mais de meio século que se dedicou às investigaçõeslógicas, sempre estêve pronto para recomeçar desde o início,conforme iam exigindo o desenvolvimento do cálculo lógicoe o aprofundamento das questões filosóficas ligadas a êle.Sob êsse aspecto é exemplo do filósofo assistemático, cujopercurso das idéias estêve marcado pela evolução dos pro-blemas de seu tempo. Em seus escritos, até mesmo nos Prin-cipia Mathematica, nunca alcançou a precisão conceituai ea sistemática de Frege. Temos neste sentido o testemunhoprecioso, de GÕdel, que numa homenagem a Russell não he-sitou em afirmar dêste último livro: "É lamentável que estaprimeira apresentação completa e compreensiva da lógicamatemática e de suas derivações matemáticas seja tão insu-ficiente a respeito da precisão de seus fundamentos (contidos*1 — *21 dos Principia), que representa em relação a Fregeum considerável passo para trás. O que falta, sobretudo, éum estudo preciso da sintaxe do formalismo"(21). No en-tanto, convém contrabalançar esta opinião desfavorável deG/Wel lembrando que as investigações de Russell cobrem(21) The Philosophy of Bertrand Russell, Tudor Publishing Com-pany, Nova York, p. 126.14 15
    • todo o campo tradicionalmente demarcado pela filosofia doconhecimento; a falta de precisão é ao menos compensadapela amplitude de sua problemática.Foi paulatinamente que Russell passou a dar impor-tância a Frege. Se o corpo dos Principies quase o ignora,já o primeiro apêndice trata de estabelecer um confrontocom êle. É aí que enuncia os principais pontos de diver-gência: a) Frege não pensa que haja uma contradição nanoção de um conceito que não possa tornar-se sujeito lógico;b) acredita que, se o têrmo a ocorrer numa proposição, aproposição sempre pode ser analisada em a e na asserçãosôbre êle; c) não leva em consideração as contradições queenvolve a noção de classe de uma classe. Examinemos porme-norizadamente essas questões na ordem em que foram enume-radas:a) O primeiro ponto nos leva a retomar a dificuldadelevantada por Kerry.Há certos exemplos da nominalização do conceito quenos conduzem diretamente a uma contradição: ao afirmarmos"o conceito de cavalo não é conceito" estamos negando ocaráter predicativo do conceito exatamente no momento emque o denominamos conceito(22). Vimos que a solução deFrege implica em distinguir o conceito enquanto predicadoe o conceito nominalizado enquanto sujeito, o qual se refere,pelo fato de ser sujeito, a uma certa forma de objetividade.É óbvio que o realismo enraizado de Russell e a utilizaçãosistemática do lema de Occam procurariam evitar a todocusto uma resposta de tal ordem. É nesse sentido que prefereidentificar o conceito como predicado ao conceito como su-jeito, em que pêse às diferenças evidentes que, descuradaspela lógica, são tratadas como problemas psicológicos oumeramente gramaticais. Negando tudo o que pudesse asse-melhar-se à substancia segunda de Aristóteles, a lógica nãohá, pois, de distinguir "é" de "ser", "humano" de "humani-dade", etc. Feita esta identificação, como manter, porém,a separação entre têrmo e conceito ? No que implica umnúcleo significativo passar do predicado para o sujeito evice-versa, sem sofrer a mínima alteração que importe à ló-gica ? Não há dúvida de que há têrmos, como os nomes(22) Principies, § 49, p. 46.16próprios, que só podem ser tomados como sujeitos; e Russellestá de acôrdo em ampliar o emprêgo do nome próprio, fa-zendo-o designar pontos num espaço não-euclidiano, perso-nagens *fictícios de um romance, etc. Mas é preciso levarem consideração que certos conceitos, em particular os adje-tivos, já que os verbos podem ser interpretados como merasrelações, designam coisas, de sorte que, sem perderem suanatureza conceituai e predicativa, adquirem uma funçãoaparentemente privativa do nome próprio. E a existênciadàs descrições revela a importância dêsses conceitos designa-dores, capazes de, graças à uma peculiar vinculação comcertos têrmos(23), estabelecerem uma relação mais ampla entrea linguagem e o mundo.Este problema da denotação tem, para o primeiro Russell,um campo muito mais restrito do que para Frege, Osto quesurge independentemente da problemática do sentido. Parao último filósofo, todos os nomes, inclusive a proposiçãoenquanto nome, apresentam uma face denotativa; para oprimeiro, ao contrário, ~ente certos predicados, aliados acertas palavras-chaves, importam uma relação com a objeti-vidade. nelas as outras partes da proposição, excetuando-seèbviamente os nomes próprios, estabelecem relações que seconsomem únicamente no plano do discurso.Um conceito denota quando, ocorrendo numa proposição,esta não diz respeito ao conceito, mas a respeito do têrmovinculado, de uma certa maneira, a êsse conceito(24). É oque acontece, por exemplo, quando digo: "encontrei umhomem". Como se dá essa passagem do nível do discursopara o nível da coisa ? O nome próprio designa diretamenteuma coisa ou uma pessoa, mesmo quando é pronunciadoisoladamente. Mas na proposição o atributo também é ditoda coisa sujeito, implicando, no discurso, um relacionamentocom o ser. É a partir dessa propriedade da predicação queRussell elabora sua primeira teoria da denotação: "A noãode denotação pode ser obtida por uma espécie de gêneselógica das proposições sujeito-predicado, das quais parecemais ou menos dependente"(25). Sem todavia explicitar ograu e a natureza dessa dependência, Russell forma uma série(23) Ibid., § 56.(24) Ibid., § 56, p. 53.(25) Ibid., § 57, p. 54.17
    • de frases denotativas, explorando as significações correlatasque o atributo certamente possui. Daí a idéia de uma consti-`tuição das expressões denotativas a partir da denotação maissimples; estranha idéia para quem, como nós, nos acostuma-mos aos processos de construção exclusivamente formais esintáticos, deixando de lado as correlações propostas pelosconceitos que se aliam a um conceito originário. Parece estra-nhável estabelecer um parentesco de conteúdos, mas estaidéia evidentemente ainda pode vir a desempenhar um papelrelevante na crítica ao formalismo da lógica contemporânea.As proposições mais simples são aquelas em que umatributo é dito de um têrmo-sujeito, tais como: "A é", "Aé uno", "A é humano". A essas proposições podemos corre-lacionar outras, diferentes quanto à forma, próximas, con-tudo, no que respeita ao significado: "A é uma entidade","A é uma unidade", "A é um homem", "A tem humani-dade" e assim por diante. A última proposição exprimenitidamente a relação de um membro com sua classe e deve,por conseguinte, ser excluída das frases denotativas própria-mente ditas. Examinemos "A é humano" e "A é um homem".Talvez a diferença seja meramente verbal, convém, entre-tanto, distinguir o predicado e o conceito a que uma classeestá associada(26), o qual passaremos a denominar conceito-classe (class-concept). Distingue-se obviamente do conceitode classe como é "humanidade". Cabe então a pergunta:"um homem" é um conceito ou um tèrmo ? Rigorosamentefalando, nem um nem outro, "mas uma certa espécie de corre-lação entre certos têrmos, nomeadamente daqueles que sãohumanos"(27). Sob a aparência unitária das palavras "umhomem" se esconde, pois, uma reunião de têrmos sob formadisjuntiva: trata-se dêste homem, ou daquele, ou daqueleoutro, etc.(26). Com isto se revela a natureza da frase deno-tativa: é formada graças à junção do conceito-classe e deuma palavra, no nosso exemplo "um", que coloca o primeiroem relação com uma multiplicidade de objetos reunidos numaunidade segundo a forma indicada pela segunda(29). O mesmoacontece, pois, com "todos os homens", "cada homem",(26) Ibid., § 58, p. 56.(27) Ibid., § 57, p. 54.(28) Ibid., § 60, p. 59.(29) Ibid., § 57, p. 62."algum homem", "o homem", etc., tildas apresentando aoespírito uma determinada reunião de objetos, obtida con-forme um modo peculiar de congraçamento de seus membros.A mesma relação objetivamente, originária do conceito classe,dirige-se diferentemente a uma soma de objetos, denotando-osde uma forma particular.8) Russell interpreta o vínculo que se dá entre a hipó-tese e a conseqüência da demonstração como uma relaçãoindefinível a que dá o nome de implicação formal. No en-tanto, o paradoxo de Lewis Carrol mostra a inoperânciadesta relação quando se trata de destacar a conclusão e afirmarsua veracidade de per si. De fato, se tivermos "H implica T"e pretendemos obter a verdade de 7 unicamente a partirda implicação, cairíamos sob o jugo de um processo reite-rante que nunca lograria afirmar apenas 21. Graças à impli-cação, somente seria legítimo dizer que "Se S implica 7",então T", que por sua vez é uma implicação mais complexado que a primeira. É por isso que Frege e Russell reconhecema necessidade de uma regra paralela de destacamento, emparticular o modus ponens, cuja função é precisamente assertara verdade de T a partir da implicação "H implica T"(39).Russell, no entanto, ainda não compreendera a importânciadessa regra, contentando-se em tomá,-ia como um dos exemplosdas limitações essenciais do formalismo(31).Toda a dificuldade se concentra, por conseguinte, nanoção de implicação. Em seu debate com Frege, recusa firme-mente partir dos valores de verdade que, a seu ver, nadaacrescentam à compreensão do juízo em geral( 32). E no corpodo tratado descobrimos o porquê de sua insuficiência: "Se pimplica q, se p é verdadeiro, então q é verdadeiro, isto é, averdade de p implica a verdade de q, portanto se q é falso,então p é falso, isto é, a falsidade de q implica a falsidadede p". Dêsse modo, a verdade e a falsidade nos dão apenasnovas implicações, mas não uma definição da implicação"(33),argumento que evidentemente confunde os vários planos dalinguagem, situando a implicação no absoluto. Como nessaépoca nem Scheffer nem Nicod haviam demonstrado a possi-(30) Ibid., § 38, p. 35.(31) Ibid., § 18, p. 16.(32) Ibid., § 478, p. 503.(33) Ibid., § 16, pp. 14-15.18 .19
    • bilidade da definição cruzada dos conectivos lógicos e a re-dução de todos êles a um só, resultado obtido muito maistarde, não foi difícil a Russell tomar a implicação como inde-finível.O caráter formal da matemática faz, contudo, com quea implicação material somente possa operar em casos muitoparticulares. "Na matemática assertamos que, se uma certaasserção p é verdadeira para uma entidade x ou para umconjunto de entidades x, y, z( . . .) então alguma outra asser-ção q é verdadeira para tais entidades. Assertamos umarelação entre as asserções p e q, que chamo implicação for-mal"(34). Tomemos um exemplo: "Para todos os valôresde x, se x fôr um triângulo eqüiângulo, x é um triânguloeqüilátero", esta fórmula, que interpreta a proposição cor-rente "Todos os triângulos eqüiláteros são eqüiângulos",afirma que as duas asserções "é um triângulo eqüilátero" e"é um triângulo eqüiângulo" são ditas da entidade x, oumelhor, das várias entidades representadas por x. Como,entretanto, explicar a implicação formal ? Quais são suasrelações com a material ?Antes de tudo é preciso salientar que a implicação formalsupõe a análise interna da proposição. Ora, essa análisedifere totalmente em Frege e em Russell. Para o primeiroa unidade proposieional sempre se resolve num térmo e numconceito ou, conforme as expressões do segundo, num térmoe numa asserção. Esta última palavra designa a parte res-tante da proposição depois de subtraído o térmo-sujeito, deforma que possui um significado totalmente diferente daqueleque o toma como a asseveração do conteúdo proposicional.Para ambos os filósofos, todavia, a proposição configurauma unidade, uma maneira peculiar de totalização de seuselementos. Mas enquanto Frege acredita que a junção dotêrmo e do conceito a recompõe, Russell nega que isto sempreocorra. Na verdade, em tôdas as proposições de forma sujeito-predicado, a unidade imediatamente se• refaz tão logo umtêrmo ocupe o lugar do argumento da função. Isto, porém,não acontece em todos os casos de proposições mais com-plexas. A redução da sentença "todos os homens são mortais"em seus elementos essenciais redunda em afirmar que "paratodo x, se x é homem, então x é mortal"; a saber, dois con-(34) Ibid., § 5, p. 5.20°eitos ou asserções, no vocabulário de Russell, são ditos dapseudovariável x. A recomposição da unidade proposicionalprimitiva, entretanto, esbarra na seguinte dificuldade: aosubstituirmos o primeiro x por uma constante, Sócrates, porexemplo, não temos garantia de que a segunda ocorrênciada variável deva ser substituída pela mesma constante. Dadoisso, Russell é levado a distinguir asserção e função proposi-cional, a primeira sendo constituída pelo resto da proposiçãode que se tirou o têrmo, a segunda sendo formada por êssemesmo resto tomado, todavia, na sua qualidade de parteda unidade funcional. A resolução em têrmo e asserção nãoassegura que as partes restantes da proposição não se reduzama um simples agregado de membros justapostos; só a funçãoproposicional, função cujo valor sempre é uma proposição,garante a peculiaríssima unidade que toda proposição possui(35).Descobrimos no fundo desta separação o mesmo precon-ceito de Russell, responsável pela identificação do predicadocomo tal e do predicado como sujeito. O problema do âmbitode variação de uma variável foi, na história da lógica, resol-vido de maneiras diferentes. A admissão de substâncias segun-das, por Aristóteles, delimitava imediatamente todos os argu-mentos da função "x é homem", seu campo de variação nãoindo além das pessoas reais ou possíveis. Embora negandotais substâncias, Frege também caminha no sentido de esta-belecer certas limitações no domínio das variáveis, aceitandovários tipos de variabilidade e, por conseguinte, sedimentandoos conceitos em ordens diferentes( 35). Russell, entretanto,mantém uma variabilidade indiscriminada, postulando que"tôdas as funções que não podem ser valôres de variáveisde uma função de primeira ordem não são entidades masfalsas abstrações"(37), o que implica em afirmar que o predi-cado que não puder ser identificado com um sujeito é umaabstração desprovida de sentido. Isto redunda em negar apossibilidade de conceitos de segunda ordem e, por conse-guinte, o balizamento das variáveis. Daí precisar atribuir à,proposição o papel desempenhado por ésse balizamento, desorte que ela passa a possuir uma unidade totalizante queo têrmo e o conceito (a asserção) nem sempre são capazesde reproduzir.(35) Ibid., § 137, p. 441, ,§ 482, p. 508.(36) Ibid., § 482, pp. 508-9.(37) Ibid., § 482, p. 509.21
    • A asserção, a função proposicional e a implicação material,entendida como relação originária, configuram, portanto, trêsnoções primitivas. As duas últimas explicam a implicaçãoformal: no exemplo anterior, a unidade do argumento que.substitui as várias ocorrências de x é garantida pela unidadeda proposição singular em que êle se inscreve. Colocadoésse ponto de partida, a implicação formal se resume numaclasse, num feixe de implicações materiais(38). Todo o pêsoda variação cai, dêsse modo, sôbre a implicação material;"Para todos os x, se x é homem, então x é mortal" é umaproposição gerada por sentenças singulares do tipo "Se Sócratesé homem, então Sócrates é mortal".Finalmente convém mencionar a frustrada tentativa dedefinir a proposição a partir dêsse conceito absoluto de impli-cação, já que o Tractatus se ocupa dela explicitamente(39).Tôda proposição implica a si mesma e o que não é propo-sição não implica nada. Daí: " `p é uma proposição equivalea dizer que `p implica p ", definição puramente matemáticaque não deve ser confundida com a definição filosófica, cujaformulação sempre supõe a análise de uma idéia em suaspartes constituintes(").c) "A principal dificuldade que surge a respeito da teoriadas classes acima [a de Frege] é a espécie de entidade queo percurso (range) possa ser. A razão que me levou, contraminha inclinação, a adotar o ponto de vista extensional sôbreas classes foi a necessidade de descobrir alguma entidadedeterminada para uma função proposicional dada e a mesmapara alguma função proposicional equivalente. Assim, x éhomem é equivalente (suponhamos) a x é um bípede sempenas, e pretendemos descobrir alguma entidade que é deter-minada do mesmo modo por ambas as funções proposicionais.A única entidade singular que fui capaz de descobrir foi aclasse como una — exceto a classe derivada (também comouna) formada pelas funções proposicionais equivalentes a umadas funções proposicionais dadas"(41). Sendo esta últimaclasse derivada e mais complexa, escapa à discussão dasnoções primitivas. Nada mais resta, portanto, do que postular(38) Ibid., § 42, p. 38.(39) Cf. 5.5351.(40) Principies, § 16, p. 15.(41) Ibid., § 486, p. 513.a existência de um todo constituído pela reunião de indi-víduos, denominado classe.Vimos que o próprio Frege, logo que soube do paradoxoformado pela noção de classe de classe, reconhecera a necessi-dade de impor certas limitações a essa passagem da equiva-lência das funções para o percurso de valôres. A polêmicado primeiro Russell contra Frege, entretanto, não se dirigeapenas no sentido de estabelecer essas limitações, mas sobre-tudo no sentido de averiguar o tipo de existência compatívelcom a noção de classe. Em que medida uma entidade podeser ao mesmo tempo una e múltipla ? A que entidade corres-ponde a classe nula ? Como distinguir a classe formada porum elemento de seu próprio elemento ? Perguntas tradicio-nais, muito mais ligadas à problemática da ontologia formaldo que aos problemas suscitados pela construção de um cálculológico-aritmético.Nos primeiros textos, Russell(42) concebe a classe essencial-mente como a conjunção numérica de têrmos, assumindoobviamente uma perspectiva extensional. Mas com a intro-dução de classes infinitas já se coloca na ótica da intensiona-lidade, embora tais distinções de ponto de vista sejam consi-deradas de fundo meramente psicológico: a impossibilidadede se obter uma classe infinita pela conjunção numérica detêrmos é interpretada apenas como obstáculo ligado à natu-reza do espírito humano, incapaz de contar o infinito(43).É para satisfazer interêsses práticos que se deve, pois, recorrera conceitos-classes, fazendo as classes corresponderem a seusplurais. Estudamos, na teoria da denotação, como ao predi-cado se associa um conceito-classe que, unido a uma sériede palavras quantificadoras ("um", "todo", "algum", etc.)passa a denotar objetos reunidos de uma certa forma. Afrase denotativa "todos os homens", por exemplo "denotauma coleção de indivíduos humanos ligados pela conjunção e,coleção cuja unidade, todavia, não possui a mesma integraçãode uma totalidade. A classe é, pois, essencialmente múltipla,sendo a classe nula e a classe una ficções matemàticamenteúteis, determinadas por conceitos-classes, a que nenhumaentidade há de corresponder"(44).(42) Cf. Ibid., cap. VI.(43) Ibid., § 71, p. 68.(44) Ibid., § 79, pp. 80-1.22 23
    • No entanto, já o apêndice A dos Principies reformulaesta teoria simplista. Russell se defrontara com o seguinteargumento de Frege que parecia comprovar a exclusividadedo ponto de vista intensional: se a fôr uma classe de maisde um têrmo, e se a fôr idêntica à, classe cujo único têrmo é a,então ser um têrmo de a é a mesma coisa do que ser umtêrmo da classe cujo único têrmo é a, pois a é o único têrmode a(45). Tudo gira em tôrno da unidade da classe e da classeuna; feita a identificação de ambas, surge imediatamente oparadoxo de atribuir uma multiplicação à unidade e vice-versa. Russell entrevê duas possibilidades para sua solução:1) a coleção de mais do que um têrmo não é idêntica à coleçãocujo único têrmo é a; 2) não há uma coleção de um têrmono caso de uma coleção de muitos têrmos, mas a coleção éestritamente múltipla. O primeiro caminho é trilhado porFrege, que considera o percurso de valor uma única unidadeformada pela passagem da equivalência à identidade, — osegundo é reafirmado pelo próprio Russell.A primitiva teoria das classes obedecia a um princípiológico, cuja formulação, contudo(46), não aparecia no corpoda obra. O princípio é o seguinte: uma pluralidade de têrmosnão é um sujeito lógico quando um número é assertado dela;tais proposições não têm um sentido emas muitos — o queequivale a destruir a unidade visível do sujeito enquantotêrmo em proveito da multiplicidade de sua denotação. Oargumento de Frege, porém, demanda uma redução em seuâmbito. "O sujeito de uma proposição pode não ser um têrmosingular, afirma Russell em seu apêndice contra Frege, maspode essencialmente ser formado por múltiplos têrmos; êsteé o caso de tôdas as proposições que assertam números alémde O e 1. Mas os predicados, conceitos-classes ou relaçõesque podem ocorrer nas proposições que possuem sujeitosplurais são diferentes (com algumas exceções) daqueles quepodem ocorrer nas proposições que possuem têrmos singularescomo sujeitos. Embora a classe seja múltipla e não una,há identidade e diversidade entre as classes, de sorte queas classes podem ser contadas como se fossem unidades ge-nuínas. Neste sentido podemos falar de uma classe e dasclasses que são membros de uma classe de classe. Um deve(45) Ibid., § 487, p. 513.(46) Cf. Ibid.,• § 70, p. 69, nota.24ser tomado, entretanto, como sendo algo diferente quandoé assertado de uma classe e quando é assertado de um têrmo;há um sentido de um que é utilizável quando se refere a umtêrmo e outro quando se refere a uma classe, embora hajatambém um têrmo geral aplicável a ambos os casos. A dou-trina básica sôbre a qual tudo se assenta é que o sujeito deuma proposição pode ser plural e que tais sujeitos pluraissão o que as classes significam quando possuem mais de umtérmo"(47). Permanece a mesma exigência do têrmo-sujeitopoder denotar uma multiplicidade de objetos, mas Russellagora reconhece a possibilidade de se tomar essa multiplici-dade como uma unidade legítima do ponto de vista matemá-tico, em que pêse à destruição da univocidade do sentidoda palavra "um". Só assim se evita o paradoxo das classes,pois na proposição "x pertence a x", a unidade do primeiro xnão é dita da mesma maneira do que a unidade do segundo.Logo em seguida encontramos uma explicitação do próprioRussell: "conforme o ponto de vista defendido aqui seránecessário, para cada variável, indicar se o campo de signi-ficação consiste em têrmos, classe, classe de classes e assimpor diante"(48), o que implica uma estratificação dos objetosque prenuncia a teoria dos tipos. Em lugar da estratificaçãodos conceitos, defendida por Frege, temos agora uma estra-tificação dos objetos lógicos e, por conseguinte, a destruiçãoda unidade postulada pelo têrmo sujeito. Dêsse modo, paula-tinamente o problema da objetividade correspondente aotêrmo passa a vincular-se ao problema da edificação de umsistema formal, desvencilhando-se dos dados fornecidos pelaintuição para ligar-se ao contexto lógico. Está aberto o ca-minho que desembocará na doutrina dos Principia, em quea classe e as constantes lógicas serão concebidas como símbolosincompletos cuja significação está na mais estreita depen-dência do sistema.III — Alguns aspectos semânticos dos Principia.No prefácio à segunda edição dos Principies, fazendocomo de hábito o inventário dos caminhos percorridos porseu próprio pensamento, Russell comenta: "eu partilhava(47) Ibid., § 490, pp. 516-7.(48) Ibid., § 492, p. 518.25
    • com Prege a crença na realidade platónica dos números que,na minha imaginação, povoavam o reino intemporal do Ser.Era uma fé confortável que mais tarde abandonei"( 49). Poucoa pouco vai reduzindo-se o número de objetos necessáriospara a construção da lógica e da matemática; e conformese processa esta redução, palavras que anteriormente designa-vam um objeto autônomo, possuindo sentido completo, passama designar e a significar na estrita dependência do contexto.O lema de Occam está em pleno funcionamento. Os Prin-cipies, ao definir o térmo(50), assegurava a cada palavra certosentido, transformando tudo o que pode ser objeto de pensa-mento ou ser contado como unidade num termo indepen-dente. Na doutrina posterior, todavia, êste princípio se tornafalso; se tôda palavra contribui para o sentido da proposição,pois, se assim não fôsse, não seria pronunciada ou escrita,não precisa ipso facto possuir sentido(51). Muitas vêzes afunção da palavra se resume apenas em auxiliar a formaçãode um sentido que só vem a ser percebido numa totalidademais ampla.O passo mais decisivo nessa direção foi dado pelo impor-tíssimo artigo, publicado em 1905, intitulado "On deno-ting". Já observamos como a teoria da denotação é essencialpara a compreensão da natureza da classe; é evidente que,ao chegar à primeira solução completa e satisfatória para oproblema, tôda a teoria da significação e da verdade haveriade ser reformulada.Antes de tudo, Russell estabelece a distinção entreacquaintance, saber das coisas tais como nos são apresentadas,e knowledge about, conhecimento obtido por frases denota-tivas tais como "a revolução da Terra em volta do Sol","o atual rei da Inglaterra", etc. Os exemplos mostram suaimportância: a denotação, denotando pela forma, estabeleceuma ponte entre o conhecimento imediato e o mediato.Toma, em seguida, três expressões fundamentais: 1) anoção de variável; 2) o símbolo C(x) que representa umafunção proposicional em que x é variável; 3) a proposição"C(x) é sempre verdadeiro" da qual se deriva "C(x) é algumasvêzes verdadeiro", equivalente a "Não é verdade que `C(x)(49) Ibid., p. X.(50) Ibid., cap. IV.(51) Ibid., p. X.é sempre valso é sempre verdadeiro". Como se vê, tratade solucionar o problema da denotação, isto é, da correlaçãode certas expressões com seus significados, por meio das noçõesde falso e de verdadeiro. Dado isso, os quantificadores en-contram desde logo sua interpretação:C (todo) significa "C(x) é sempre verdadeiro"C (nenhum) significa " `C(x) é falso é sempre verdadeiro"C (alguns) significa "É falso que ‘C(x) é falso é sempreverdadeiro".A solução mais inovadora, entretanto, aparece na reduçãodo artigo "o". A proposição "O pai de Carlos II foi executado"resolve-se em "Não é sempre falso de x que x gerou Carlos IIe x foi executado e se y gerou Carlos II, então y é idênticoa x é sempre verdadeiro". Em outras palavras, devemossubstituir a frase "o pai de Carlos II", que na qualidade desujeito poderia alimentar a ilusão de que constituiria umnome, por uma função proposicional "x gerou Carlos II",para em seguida garantir a unicidade deste x estabelecendoque, se um outro y também gerou Carlos II, então y éigual a x.Esta interpretação das frases denotativas evita, primeira-, mente, atribuir a expressões tais como "o atual rei de França","o quadrado redondo", ao aparecerem como sujeito, certaobjetividade que deve logo ser negada quando se enunciauma frase negativa: "O atual rei da França não existe";resultado que dbviamente infringe o princípio de contra-dição. Além do mais, a despeito do caráter esdrúxulo dasolução proposta, ela resolve todos os problemas com que sedefrontava Frege, economizando ainda a distinção entre osentido e a denotação e reduzindo o número de objetos primi-tivos necessários, na medida em que tais nomes complexospassam a ser interpretados como descrições. Por que isolaro sentido quando êsse sentido nunca vem designado a nãoser pela denotação de uma expressão em que êle não surgecomo sentido ? O princípio do terceiro excluído obriga a queou "A é B" ou "A não é B" seja verdadeiro, de sorte queteremos O atual rei de França é calvo é verdadeiro" ou" O atual rei de França não é calvo é verdadeiro"; masse enumeramos tôdas as coisas calvas e tôdas as que não osão, por certo não encontraremos entre os membros dessas26 27
    • classes exclusivas o atual rei de França. Ora, basta traduzira proposição conforme a solução proposta para que o para-doxo desapareça. Temos duas interpretações possíveis: 1) "Éfalso que haja uma entidade que agora é o atual rei de Françae não é calvo", que é evidentemente verdadeira; 2) "Existeuma entidade que é o atual rei de França e não é calvo",óbviamente falsa. Na primeira, a descrição faz parte de umaproposição que por sua vez faz parte da proposição que seinicia com "É falso ...", sendo pois tomada numa ocorrênciasecundária; na segunda, a descrição se inscreve numa pro-posição autônoma, por conseguinte, numa ocorrência pri-mária(52).Ambas as soluções, a de Frege e a de Russell, conduzem,portanto, a resultados contrários ao senso comum e a intui-ções mobilizadas no ato de enunciar. Se uma descrição éum nome, a própria proposição declarativa se torna o nomede um valor de verdade; mas para que a proposição designeum fato, as descrições devem ser reduzidas a um complexode funções proposicionais. Ou de um lado ou de outro a in-tuição se rompe, cedendo lugar à construção formal. É denotar que, do ponto de vista sintático, atualmente se consi-deram válidas as duas soluções; a eleição de uma delas sótem relevância, destarte, para a compreensão das relaçõesentre a linguagem e o mundo.Resta-nos finalmente examinar a questão dos paradoxos.É sabido que a solução evolui desde os Principies até os Prin-cipia, envolvendo delicados processos de cálculo, cuja análiseescapa a nossos propósitos. Cabe-nos, entretanto, examinarcertos pressupostos semânticos da teoria dos tipos que inegà-velmente estão na raiz da investigação de Wittgenstein.Na base de todo paradoxo Russell descobre um círculovicioso que sempre nasce quando se forma uma, coleção queao menos tem um de seus membros definido pela própria.coleção. O conjunto de tôdas as proposições, por exemplo,deverá conter a proposição particular "Tôdas as proposiçõessão verdadeiras ou falsas", cujo sentido por sua vez envolvea totalidade das proposições. De um modo mais geral pode-mos dizer que surge um paradoxo quando uma função proposi-cional tem um argumento cujo sentido depende da função(52) "On Denoting", in Logic and Knowledge, p. 41 e seg., GeorgeAllen & Unwin, Londres; Cf. Principia I, pp. 30 e seg.; 66 e seg.28como um todo. E para evitá-lo, Russell passa a considerartais totalidades como desprovidas de sentido. Daí o prin-cípio chamado do círculo vicioso: tudo o que envolve a tota-lidade de uma coleção não deve pertencer a essa coleção(53).Suas conseqüências são drásticas, em particular no querespeita às noções lógicas prdpriamente ditas. Tomemoscomo exemplo a proposição "p é falso" e consideremos ocaso em que "Para todos os p, p é falso". Esta última sen-tença é evidentemente falsa, de forma que teremos: " Paratodos os p, p é falso é falso", onde a expressão "Para todosos p, p é falso" é argumento da função "p é falso", O prin-cípio do círculo vicioso nos obriga a tomar esta última função"é falso" num sentido diferente da primeira função que apa-rece no interior do argumento. Isto nos leva a perceber que,paralelamente à sedimentação dos objetos em vários níveis,necessária para que se estabeleça a hierarquia dos tipos,ocorre uma sedimentação das noções lógicas: obtemos váriasformas de falsidade, de verdade, assim como de todos osconectivos como "ou", "e", "se ... então", "não", etc.Importa considerar particularmente a primeira espéciede verdade e falsidade, pois implica uma teoria geral dojuízo. "O universo é constituído de objetos que possuemvárias qualidades e mantém várias relações entre si. Algunsdos objetos que correm no universo são complexos. Quandoum objeto é complexo, é constituído por partes inter-rela-cionadas. Consideremos um objeto composto de duas partesa e b mantendo entre si a relação R. O objeto complexo a–na-relação–R–com–b pode ser capaz de ser percebido, e quandoé percebido, o é como um objeto. A atenção deve mostrarque é complexo; julgamos então que a e b estão na relação R.Tal juízo, derivado da percepção graças à mera atenção,pode ser chamado juízo de percepção. Éste juízo de per-cepção, considerado como uma ocorrência atual, é uma rela-ção de quatro têrmos: a, b, R, e o percebedor. A percepção,ao contrário, é uma relação de dois têrmos: a em relação Rcom b e o percebedor. Já que um objeto da percepção nãopode deixar de ser algo, não podemos perceber a–na–relação-R–com–b a não ser que a esteja na relação R com b. Assimsendo, um juízo de percepção, de acôrdo com a definição,deve ser verdadeiro. Isto não significa que, num juízo que(53) Principia, I, 37.29
    • nos parece ser de percepção, estejamos seguros de não incorrer-mos em êrro, pôsto que podemos errar ao pensar que nossojuízo foi derivado meramente da análise do que foi perce-bido. Mas se nosso juízo assim se derivou, então deve serverdadeiro. De fato, podemos definir verdade sempre quese diga respeito a tais juízos, consistindo no fato de que háum complexo correspondendo ao pensamento discursivo que éo juízo. Isto é, ao julgarmos `a–em–relação–R–com–b, nossojuízo é dito verdadeiro quando há o complexo a–em–relação-R–com–b e dito falso quando isto não ocorre. Esta é a defi-nição de verdade em relação a juízos dessa espécie"(54). Dêssemodo, o juízo não tem um único objeto, a proposição, masse defronta com objetos entrelaçados por uma relação emque o sujeito aparece como um dos têrmos. "Isto é ver-melho", por exemplo, se resolve em três tèrmos: a mente,isto, e o vermelho —. de modo que até mesmo uma propo-sição da forma sujeito-predicado se transforma numa rela-ção. Nada mais natural assim do que considerar a proposiçãocomo um térmo incompleto, cujo complemento se oculta naação do sujeito. Tôda proposição se completa ~ente quandointegra no seu sentido o ato de julgar(55).Segue-se daí a determinação do complexo como todoobjeto da forma "a–está–em–relação–R–com–b", ou "a–tem-a–qualidade–q", ou "a–ou–b–ou–c–estão–na–relação–S", a sa-ber, tudo o que ocorre no universo sem ser simples(56).Cumpre finalmente mencionar a hierarquia das funçõese das proposições. Examinemos mais de perto a primeira.O tipo lógico é considerado como a coleção dos argumentospara os quais uma função tem valor. Quando numa expressãosurge uma variável aparente, o domínio dos valôres dessavariável forma o tipo. Além do mais, o próprio princípiodo círculo vicioso pode ser expresso em têrmos de variáveis:tudo o que contém uma variável aparente não pode vir‘ aser valor dessa variável. Dado isso, a expressão que contémuma variável aparente deve ser de tipo superior àquêle queordena os possíveis valôres da variável(57).(54) Ibid., p. 43.(55) Ibid., p. 44.(56) Ibid., p. 44.(57) "Mathematical Logic", in Logic and Knowledge, p. 75.A hierarquia dos tipos segue-se imediatatnente. As maissimples proposições desprovidas de variáveis são da forma:"Isto é vermelho", "Sócrates é mortal", etc., isto é, proposi-ções predicativas que dizem respeito às coisas. Se substi-.tuímos essas coisas por variáveis obteremos funções proposi:cionais que, quando generalizadas, geram novas proposições.A essas funções ou a essas proposições generalizadas chama-mos de primeira ordem; a totalidade dos argumentos daprimeira constitui o primeiro tipo. As funções proposicionaisoperam pois como matrizes, sendo as da primeira ordem daseguinte forma: 4,(x), *(x, y), x(x , y, z . .). Cumpre aindaestabelecer que as funções de primeira ordem que não contêmuma função como variável aparente são chamadas de funçõespredicativas.Transformemos, em seguida, as funções de primeiraordem em variáveis. Pelo mesmo processo de generalizaçãoobteremos proposições em que funções surgem como variá-veis aparentes, o que dá origem a proposições de segundaordem cujos argumentos formam o segundo tipo lógico. Eassim por diante.Esta estratificação dos objetos não é paralela a umaestratificação das funções proposicionais. A primeira restriçãoprovém do axioma da redutibilidade, axioma que se faz neces-sário ao funcionamento da teoria mas que, em virtude deseu caráter não-formal, foi recusado por grande parte doslógicos contemporâneos que se ocuparam da questão. Afirmaque, dada uma função proposicional de qualquer ordem,sempre existe uma função predicativa, formalmente equiva-lente à primeira — definindo-se equivalência formal pelo fatode ambas as proposições possuírem o mesmo valor de verdade.Um exemplo nos fará melhor compreender seu propósito. Aproposição "Napoleão tem tôdas as qualidades que fazemum grande general" é de segunda ordem, pois toma comoum todo as qualidades, os predicados, que fazem um grandegeneral. Graças ao axioma, podemos afirmar que existe umpredicado de Napoleão equivalente a essa função de segundaordem. No caso, sua construção é fácil: a classe dos grandesgenerais é finita e podemos eleger de cada .um de seus membrosuma propriedade característica, por exemplo, a data de nasci-mento, e compor uma função complexa disjuntiva, vinculandotôdas as propriedades determinantes (x nasceu em tal data,ou y nasceu nesta outra data, ou ...), função que por sua30 31
    • vez é de primeira ordem e tem Napoleão corno um de seusargumentos(58).A segunda restrição possui apenas caráter prático, mas,ligando-se à teoria das classes, tem importância considerávelpara a elaboração da teoria da verdade. Abandonando tôdapreocupação ontológica, Russell chega finalmente a umateoria das classes conseqüente, em que estas são tomadascomo símbolos incompletos, exclusivamente definidos pelouso, aparecendo como artifícios de natureza lingüística, masque não devem necessàriamente denotar uma objetividadedeterminada.O ponto de partida é uma definição precisa da extensio-nalidade. Já dissemos de passagem que duas funções sãoequivalentes quando possuem o mesmo valor de verdade eformalmente equivalentes quando são equivalentes para todosos seus argumentos possíveis. Assim é que "x é homem" éformalmente equivalente a "x é um bípede sem penas". Alémdo mais, uma função de função é dita extensional quando seusvalôres de verdade, para qualquer argumento, são os mesmospara qualquer argumento formalmente equivalente, isto é,f(çx) é uma função extensional de ox se, substituindo (1,xpela função formalmente equivalente 4,x, f (0x) será equiva-lente a f (4,x). Exemplificando: a função " x é homem implica`x é mortal é uma função extensional da função "x é mortal",pois se substituímos essa função por outra que lhe é formal-mente equivalente, por exemplo, "x é um bípede sem penas",os valóres de verdade da função total não são alterados.Em contraposição, dizemos que uma função de função é inten-sional quando não fôr extensional. É o que acontece, porexemplo, com a função "A acredita que x é homem implica`x é mortal ", porquanto A pode nunca ter considerado apossibilidade de que os bípedes sem penas possam ser mor-tais(59)."Quando duas funções são formalmente equivalentespodemos dizer que têm a mesma extensão. Nessa definição,estamos concordando estritamente com o costume. Nãoadmitimos, porém, que haja uma coisa tal como a extensão,apenas definimos a frase inteira ter a mesma extensão. Pode-mos então dizer que uma função extensional de uma função(58) Principia, I, p. 56.(59) pp. 73, 73.32é aquela cuja verdade ou falsidade depende ~ente da ex-tensão de seus argumentos. Neste caso, é conveniente encarara proposição como concernindo à extensão. Já que as funçõesextensionais são muitas e importantes, é natural olhar aextensão como um objeto, chamado classe, que se supõeser o sujeito de tôdas as sentenças equivalentes sôbre as váriasfunções formalmente equivalentes. Désse modo, se disser-mos, por exemplo, há doze apóstolos, é natural tomar estasentença como atribuindo a propriedade de ser doze a umacerta coleção de homens, nomeadamente daqueles que foramos apóstolos, ao invés de atribuir a propriedade de ser satis-feita por doze argumentos à função x era um apóstolo. Estavisão é encorajada pelo sentimento de que existe algo queé idêntico no caso de as duas funções terem a mesma extensão.Se, além do mais, tomarmos certos problemas simples como`quantas combinações é possível fazer com n coisas pareceà primeira vista necessário que cada combinação fôsse umobjeto singular que pudesse ser contado como uno. Isto,no entanto, não é preciso de um ponto de vista técnico, enão vemos razão para supor que seja filesdficamente verda-deiro"(60).Pretendendo mostrar a necessidade de um tratamentoparticular das funções extensionais, Russell estabelece umafórmula para reduzir tôdas as funções a funções extensionais,processo que não convém examinar por aqui. Basta porémlembrar, primeiramente, que a função da função passa aser substituída por uma função derivada que tem por argu-mento, em vez da função (ta, a classe determinada por elaou pelas outras funções formalmente equivalentes. Em se-gundo lugar, para que esta função derivada seja sempre signifi-cativa para argumentos de qualquer tipo é necessário e sufi-ciente que o axioma da redutibilidade garanta a existênciade uma função predicativa equivalente a (fix, de sorte que afunção derivada que tem as classes como argumentos nãoapenas substitui qualquer função por uma função exten-sional mas ainda, remove pràticamente a necessidade de consi-derar as diferenças de tipo entre as funções cujos argumentossão do mesmo tipo. Esta conseqüência equivale a uma simpli-ficação na hierarquia dos tipos, de sorte que tudo se passacomo se não considerássemos senão funções predicativas(61).(60) Ibid., p. 74.(61) Ibid., p. 75.33
    • Convém examinar essa doutrina à luz dos correspon-dentes textos de Frege. O ponto de partida é o mesmo: apassagem formal das funções para o substrato da identi-dade. Mas essa passagem tem agora o caráter prático, deconveniéncia, não respondendo a nenhum imperativo teórico.Além do mais, operando como função de função, ao invésda função de Frege, Russell mostra que importa apenas definiras condições de seu uso e da substituição de seus argumentos,sem dar a menor atenção a um possível substrato ontológico.Nessas condições, falar do objeto formado pela classe nãoé mais do que uma concessão ao uso corrente das expressõesmatemáticas e um artifício para facilitar o discurso: a funçãoderivada que a introduz é definida de tal forma que sempreserá possível substituir a objetividade inoportuna por umaexpressão que se reporta a indivíduos. Em virtude dessecaráter vicário da noção de classe, esta não pode estabeleceruma propriedade geral de uma função, não pode ter a espes-sura de um conceito de segunda ordem, como em Frege; seela é propriedade, o é de uma coleção de objetos que, todavia,continuam a estar sob o signo da multiplicidade. Do pontode vista do cálculo ambos os caminhos se equivalem, poisambos terminam por garantir a definição de número cardinalcomo classe de classe (Russell) ou propriedade de uma pro-priedade (Frege). &mente, graças a uma astuciosa cons-trução simbólica, a objetividade discutível da classe comounidade é excluída do campo dos legítimos problemas mate-máticos. Mais uma vez o princípio de Occam devasta osobjetos da ontologia formal, mais uma vez se reduz o nú-mero de objetos necessários e das frases cujo significado sedá no imediato.IV — Os primeiros passos de Wittgenstein.É conhecida a diversidade de interesses do jovem Wittgens-tein. Nos fins de 1911, porém, tendo lido os Principies ofMathematics, apaixona-se pela filosofia da matemática edecide abandonar de vez seus estudos de engenharia. ProcuraFrege em Iena que, segundo consta, o aconselha a trabalharcom Russell. Assim é que, no início do ano seguinte, se ma-tricula na Universidade de Cambridge. Em pouco tempo seestabelece íntima colaboração entre o professor no apogeude sua carreira filosófica e o aluno cujo gênio despertavanuma súbita erupção; colaboração amiga, extremamente fértilpara ambos, mas que não deixou de ser permeada de inci-dentes que desde logo demonstravam as diferenças profundasde temperamento filosófico. Já em março de 1913 Wittgens-tein, de visita a Viena, escreve a Russell marcando sua posi-ção: "( . ) posso agora exprimir exatamente minha objeçãoà sua teoria do juízo: creio ser óbvio que da proposição Ajulga que (digamos) a esteja na relação R com b, se fôr corre-tamente analisada, as proposições a R b .v. a R b devemseguir diretamente, sem o emprêgo de qualquer outra premissa.Essa condição não é cumprida por sua teoria"(62). Qual éo alcance dessa objeção ? O que significa dizer que a com-preensão de uma sentença implica em recorrer ao princípiodo terceiro excluído ? Uma explicação mais pormenorizadaencontra-se nas "Notas sôbre a lógica"( 63), série de observa-ções redigidas em setembro de 1913, cuja cópia foi entregueao próprio Russell. O exame das idéias fundamentais dessasnotas revela uma polêmica explícita contra Frege e Russelle, em embrião, algumas das descobertas básicas posteriores.Com isto, o elo entre os três pensadores se faz sem soluçãode continuidade, de maneira a nos conduzir a apreender aovivo o surgimento do Tractatus.Depois de salientar o caráter descritivo da filosofia,depois de lembrar como esta se resolve em lógica e metafí-sica, Wittgenstein inicia o confronto com seus grandes mestres:"Frege diz proposições são nomes; Russell diz proposiçõescorrespondem a complexos. Ambos estão errados, sendo espe-cialmente falsa a sentença proposições são nomes de com-plexos. Fatos não podem ser nomeados. A falsa assunçãode que proposições são nomes nos conduz a acreditar quehaja objetos lógicos, pois o sentido das proposições haveriade ser tais coisas"(64). O horror à ontologia formal balizaa pergunta sôbre as relações que a linguagem mantém como mundo. Que objetos poderiam ser aquêles a que corres-ponderiam as constantes lógicas ? O pressuposto empiristaeliminaria, pois, desde logo, a análise da proposição proposta(62) Schriften, I, p. 261.(63) Embora por comodidade continuemos a citar a edição alemã,o leitor poderá também encontrar êsse texto, escrito primitivamente eminglês nos Notebooks — 1914-1916, Apêndice I, B. Blackwell, Oxford,1961.(64) Schriften, I, p. 189.34 36
    • por Frege, análise que transforma a Xrerdade e a falsidadeem objetos denotados pelas proposições. O que o leva, entre-tanto, a abandonar a solução de Russell ? Não há dúvidade que introduzir a mente como parte constitutiva do sen-tido da proposição é uma brecha para o psicologismo, masWittgenstein por certo não se contentaria com argumentosde tal ordem geral e filosófica. A oposição, como veremos,nasce de questões técnicas, em particular da análise muitooriginal das condições de inteligibilidade da proposição.É um dado evidente e inquestionável que compreendemosuma proposição antes de precisarmos decidir a respeito desua veracidade ou falsidade. O que isto significa do pontode vista lógico? A resposta clássica distingue a proposiçãomeramente enunciada da proposição assertada, a simplesformulação do sentido, da aceitação de sua verdade ou desua falsidade. Não há dúvida de que Wittgenstein tambémdistingue (sense, Sinn) da denotação (meaning, Bedeutung),mas o que importa é explicitar as condições lógicas, estreita-mente ligadas à problemática da verdade, ao invés de reafir-mar a autonomia do sentido sem prover as condições de suadeterminação. O que implica entendermos uma, sentençaantes de conhecermos sua verdade ou falsidade ( Isto deum prisma essencialmente lógico, de suas próprias condiçõesde verdade? "Nem o sentido nem a denotação de uma pro-posição são uma coisa. Essas palavras são símbolos incom-pletos. É claro que entendemos proposições sem conhecerse são verdadeiras ou falsas. Mas sõmente podemos conhecera denotação de uma proposição quando sabemos se é verda-deira ou falsa. O que compreendemos é o sentido da propo-sição. Para compreender a proposição p não basta saberque p implica `p é verdadeiro, devemos saber ainda que pimplica `p é falso. Isto mostra a bipolaridade da proposição.Compreendemos uma proposição se compreendemos seus cons-tituintes e suas formas. Se conhecemos a denotação de ae de `b e sabemos que xRy significa para todos os x e y,então também compreendemos `aRb. Compreendo a propo-sição `aRb quando sei que ou o fato aRb ou o fato não aRbcorresponde a ela, mas isto não deve ser confundido com afalsa opinião de que compreendo `aRb quando sei que `aRbou não aRb ocorre"(65).(65) Ibid., pp. 189-191.A afirmação doe que nem o sentido liem a denotaçãosão coisas opõe uma barreira ao formalismo de Frege; nãohá objetos lógicos e o fato é a referência indicada pela prepo-sição. Mas nesse ato de visar, a proposição mobiliza doispólos (o verdadeiro e o falso) que demarcam sua própriainteligibilidade. Se dissermos, por exemplo, "a casa é ver-melha", a expressão como tal acrescida de todos os seus signi-ficados implícitos quer dizer " a casa vermelha é verda-deiro o que importa também em afirmar que a casa não évermelha é falso". Dentro das possibilidades desdobradaspelo princípio do terceiro excluído em relação à proposição p,O sentido de p equivale a restringir o campo dessas possibi-lidades, em tomar a verdade de uma parte em detrimentode todo o resto. Daí o sentido, a despeito de mobilizar tôdasas possibilidades implicadas pelo princípio do terceiro excluído,não se confundir com éle, que simplesmente afirma tais posei- .bilidades contraditórias sem atribuir-lhes pêso algum e semestabelecer entre elas níveis diferentes. A imagem utilizadaé reveladora: uma mancha preta no papel determina umconjunto de fatos (pontos) positivos e, por conseguinte, todosos outros fatos (pontos) negativos, que estão fora da mancha;a afirmação de um é a exclusão de outro e vice-versa. Desorte que tanto o sentido como a denotação de uma sen-tença, tais como aparecem intuitivamente no enunciado, sãoincompletos, na medida em que a proposição afirmativa jáestabelece lógicamente a negação de sua contraditória e ofato denotado positivamente já implica na exclusão do fatonegativo e vice-versa(66). Sob êsse aspecto Wittgensteinpode então dizer "a característica de minha teoria é que: ptem a mesma denotação que não—p"(67).Na proposição "aRb" consideram-se em geral três inde-finíveis, os nomes "a" e "b", cada um denotando um objeto,e a forma "xRy". Não se questiona o caráter indefiníveldos nomes; como, porém, interpretar a forma ? Antiga-mente havia a tendência de pensá-la sempre segundo a predi-cação de um atributo a um sujeito; hoje, ao contrário, tudoé reduzido a relações. A teoria de Russell é um impulso pode-roso nesse sentido. Qual é, porém, o exato significado daforma da proposição ?(66) Ibid., p. 193, Cf. Tractatus, 4.063.(67) Schriften, I, p. 189.36 37
    • Cabe primeiramente desconfiar das indicações sugeridaspelos signos isolados tanto falados como escritos. As nota-ções de Frege e de Russell, por exemplo, escondem a verda-deira natureza da linguagem(68). "Símbolos não são o queparecem ser. Em aRb"R parece um substantivo, emboranão o seja. O que simboliza em aRb é que R ocorre entre`a e V. De modo que R não é indefinível em aRb. Igual-mente em `,px, `<p parece um substantivo, embora não o seja:em parece igual a `‹p, mas não o é. Esta é a pri-meira coisa que indica que pode não haver constantes lógicas.A razão contra elas é a generalidade da lógica: a lógica nãopode tratar de um conjunto especial de coisas"(69). É denotar que esta desconfiança contra o sinal é básica, pois indi-cará a Wittgenstein o caminho para reformular tanto a rela-ção do predicado com o sujeito como o próprio estatuto dosujeito em sua qualidade de substância.Em segundo lugar, a axiomatização cumpre menos doque promete na busca dos indefiníveis. Construindo seussistemas axiomáticos, Frege e Russell necessitaram admitircertas constantes lógicas como primitivas, a negação e aimplicação, por exemplo, todos os outros conectivos sendodefinidos a partir delas. Ora, a simples possibilidade de par-tirmos de outros conectivos, tomados como primitivos, e dedefinir em seguida a negação e a implicação, sugere seu caráterderivado. "A possibilidade de definições cruzadas dos indefi-níveis na velha lógica mostra por si mesma que êstes nãosão prdpriamente indefiníveis e, mais conclusivamente, quenão denotam relações. Os indefiníveis lógicos não podemser predicados ou relações, porque proposições, possuindosentido, não podem ter predicados ou relações. Nem são`não e ou, como juízo, análogos a predicados e relações,pois não introduzem nada de nõvo"(70).Percebemos logo o alcance dessas objeções. A formada proposição não se identifica com uma constante lógica,porquanto isto seria restringir demasiadamente as ambiçõesabsolutistas da lógica. Se uma constante lógica denotasseum objeto, êste seria um entre muitos, e a generalidade indis-cutível da lógica desapareceria; se constituísse um indefi-(68) Ibid., p. 207.(69) Ibid., p. 205.(70) Ibid., p. 209.nível, sua indefinibilidade dependeria dos interésses parti-culares de cada sistema axiomático. Mas numa época comoa nossa, em que o absoluto é pôsto em xeque em todos ossentidos, em que medida Wittgenstein o recuperará precisa-mente no campo da lógica, onde tem sofrido os ataques maisdevastadores ?"A forma da proposição pode ser simbolizada da seguintemaneira: consideremos símbolos da forma xRy aos quaiscorrespondem primàriamente pares de objetos, dentre osquais um tem o nome x e o outro o nome y. Os x e os yestão em várias relações mútuas e, entre outras, a relação Restá incluída em algumas e em outras não. Determino õsentido de xRy estabelecendo a regra: quando os fatos secomportam (behave) com referência a xRy tal que a deno-tação de x está na relação R com o sentido de y, digoentão que ésses fatos são `de mesmo sentido (gleichsinnig)que a proposição xRy; no caso contrário, `de sentido oposto(entgegengesetzt). Correlaciono os fatos ao símbolo xRy, divi-dindo-os em aquêles de mesmo sentido e os de sentido oposto.A esta correlação corresponde a correlação do nome e dadenotação. Ambas são psicológicas. Dêsse modo, compre-. endo a forma xRy quando sei que discrimina o comporta-mento de x e de y conforme estejam ou não na relação R.Por êsse meio extraio dentre tôdas as possíveis relações arelação R, da mesma maneira que, por meio do nome, extraiosua denotação dentre tôdas as coisas possíveis"("). Essateoria explora a qualidade de a proposição ser também umfato, e como tal urna estrutura articulada. Na verdade, aescrita ou a notação simbólica podem sugerir o contrário,levando-nos a pensar a proposição como um conjunto departes justapostas. Se, porém, não nos enganarmos com asaparências, descobrimos que as proposições possuem umaarticulação interna que as torna símbolos de outros fatosque possuem a mesma articulação(72), de sorte que o símboloé símbolo de algo porque dos dois fatos possuem a mesmaestrutura. É preciso, porém, não pensar a referência do signoao significado nem nos têrmos da nominação nem como umarelação qualquer. O érro fundamental de Frege consistiuem reduzir essa referência a um mesmo tipo, fazendo com(71) Ibid., p. 203.(72) Ibid., p. 211.38 39
    • que nomes e proposições se reportassem do mesmo modo aobjetividades peculiares; a linguagem torna-se uma maneirade nomear coisas e fatos. Russell caminha na mesma direção,mas a interpreta como relação, transformando a linguagemnum modo geral de relacionamento com o mundo. Ambosdesconhecem a especificidade da nominação e da proposição.Feita, porém, essa imprescindível diferenciação, Wittgensteinretoma a lição de Russell, descobrindo na sentença e no fatosignificado uma lacuna que a expressão imediata não podecobrir: o sentido p implica uma referência a p, o fato posi-tivo se insere num contexto de fatos negativos. Daí o rela-cionamento da língua com a realidade depender de umacerta "isomorfia" oculta, cada proposição desempenhando opapel de uma régua que se apõe aos fatos e separando-os,graças a êsse gesto, em dois campos, o daqueles que se colo-cam no mesmo sentido do que ela, o daqueles que se colocamem sentido contrário(73). O sentido da proposição age comoum guarda a encaminhar o fluxo do trânsito para um ladoe para o outro.Como, entretanto, alcançar esta forma em sua purezalógica ? "Se numa proposição convertermos todos os inde-finíveis em variáveis, permanece a classe de- proposições quenão incluem tôdas as proposições, embora inclua um tipointeiro. Se transformarmos um constituinte da proposiçãoço(a) numa variável, existe então a classe ji [(3x) . cpx = p].Esta classe ainda depende em geral do que, por uma con-venção arbitrdria entendemos por `Çox. Mas se transformar-mos em variáveis todos esses símbolos cuja significação (signi-ficance) era arbitràriamente determinada, ainda permanecetal classe. Agora, porém, não mais depende de convençãoalguma, apenas da natureza do símbolo `‘px . Isto corres-ponde a um tipo lógico"(74). A comparação deste texto coma proposição 3.315 do Tractatus nos leva a compreender aestreita dependência que Wittgenstein vè entre a forma eo tipo lógicos. Ao lembrarmos que Russell define o tipo comoo domínio de significação (significance) de uma função pro-posicional, isto é, a coleção de argumentos para os quais adita função tem valor, torna-se evidente que a forma lógicaé uma extensão do tipo, obtida por meio da variação eidé-(73) Ibid., p. 197.(74) Ibid., p. 223.tica das partes constituintes da função(75). A função básicanão é reflexionante, isto é, nenhum de seus argumentosdepende, para alcançar sua individualidade, da própria funçãoa que serve de cumprimento, e o mesmo acontece com aproposição. Partindo dêsse fundamento, que permanece inques-tionável, Wittgenstein o leva ao limite máximo, variandoem todos os sentidos esta forma irreflexiva. O acesso a elanos é dado pela própria variação, mas seu estatuto lógico,em virtude precisamente dessa irreflexibilidade, torna-se di-fícil de precisar. Como dizer algo desse absoluto respeitandoos limites da irreflexão ? Por isso a forma lógica não sesitua no plano das coisas ditas. Na medida em que entrea expressão e o fato deve haver algo em comum, precisa-mente a forma lógica, a expressão da forma, isto é, outrofato que tem com ela também algo em comum, apenas areitera. Diante dessa monotonia improdutiva das expressõesda forma, cabe-nos tão-sdmente apreendê-la. De sorte quea inutilidade da teoria dos tipos custa nem mais nem menosdo que a indizibilidade de tudo a que a lógica concerne.Dado isso, Wittgenstein passa a examinar questõesmenos gerais. Estudaremos apenas três, aquelas que tratamdiretamente de suas relações com Frege e Russell.Em primeiro lugar, o sinal da asserção desaparece, por-que êste se confunde com o enunciado. Separar a proposiçãoenunciada da proposição assertada implicava em situar alógica exclusivamente no domínio das proposições verdadeiras.Ora, para Wittgenstein importa a estrutura bipolar da pro-posição, antes da eleição de um valor determinado. "Umaproposição não pode possivelmente assertar de si mesma queé verdadeira. A asserção é meramente psicológica. Há apenasproposições inassertadas. Juízos, mandamentos e questões,todos se situam no mesmo nível, todos possuem em comuma forma proposicional, e isto é apenas o que nos interessa.(75) Ao receber os manuscritos do Tractatua, Russell escreve aWittgenstein pedindo-lhe uma série de informações, dentre elas uma sôbreo assunto em questão. Wittgenstein responde, retomando o texto deRussell e complementando-o: " A teoria do tipo, a meu ver, é a teoriado simbolismo correto: um símbolo simples não deve ser usado para ex- primir algo complexo: mais geralmente, um símbolo deve ter a mesmaestrutura que sua denotação (meaning) . Isto é exatamente o que se podedizer. Você não pode prescrever a um símbolo o que lhe é permitidoexpressar. Tudo o que um símbolo pode expressar lhe é permitido"(Schriften, I, p. 275).40
    • A lógica se interessa apenas por proposições inassertadaa"(76).Total revolução nos domínios da lógica, que se extende assimmuito além das proposições apofânticas, numa completasubversão dos limites traçados por Aristóteles.Convém, em segundo lugar, examinar a forma da pro-posição "A julga p". A crítica com que nos defrontamosjá é um comêço da doutrina defendida posteriormente, quandoo valor de todas as proposições complexas dependerá dosvalôres de verdade das proposições elementares. De acôrdocom a interpretação dada à noção de sentido, deve ser com-pletada do seguinte modo: "A julga que `p é verdadeiro e`não-p é falso"(77). "A proposição A julga p consiste nonome próprio A, na proposição p com seus dois pólos, e Ase relacionando com ambos êsses pólos numa certa maneira.Esta ôbviamente não é uma relação no sentido ordinário.nela teoria correta do juízo deve tornar impossível julgarque esta mesa caneteia (penhonders) o livro (A teoria deRussell não satisfaz a éste requisito)"( 78). A teoria do juízodeve evitar juízos absurdos, e isto só se obtém quando foremenquadrados em sua própria bipolaridade.Trata-se, como se vé, de corrigir a doutrina de Russell,inspirando-se na nova interpretação da problemática do sen-tido. Ainda permanece o sujeito A, mas êste sujeito já serelaciona com a proposição de uma forma diferente daquelaque vincula as partes da sentença. No Tractatus, todavia,quando a noção de figuração ampliará o conceito de formalógica, o sujeito A será substituído pela própria proposição p;"A julga p resolvendo-se em "p julga p"( 79). O primeiro pé um modélo proposicional do segundo p, de sorte que aconsciência se afasta para os limites do mundo, os estadosde consciência referentes à proposição passam a constituiroutra expressão em que ela pode revestir-se. A tese da radicalextensionalidade das proposições pode então ser adotada semencontrar qualquer obstáculo.Finalmente, cabe examinar a crítica à teoria do com-plexo. Segundo Wittgenstein, o fato é sempre imaginado(76) Ibid., p. 195; Cf. Tractatus, 4.442.(77) Schriften, I, p. 197.(78) Ibid., p. 195.(79) Cf. 5.542.por Russell como um complexo espacial e, como os complexosespaciais são constituídos de coisas e de relações, todos osmodos diferentes de complexidade são reduzidos a um s6(80).A relação entre os fatos e suas partes constitutivas e a rela-ção que opera entre um fato e outro que se segue a partirdo primeiro, por exemplo, são postas no mesmo plano. Apesarda semelhança que realmente existe entre ambas, expressapela fórmula (pa. D . a = a, não há razão alguma paraidentificá-las. Em suma, a teoria dos complexos resulta deuma extrapolação indevida da teoria das relações. Dadoisso, Wittgenstein passa a expor sua própria teoria. "nelasentença sôbre complexos pode resolver-se na soma lógicada sentença sôbre os constituintes e na sentença sóbre a pro-posição que descreve o complexo inteiramente. Como, emcada caso, a resolução há de ser feita, é uma questão impor-tante, mas sua resposta não é incondicionalmente necessáriapara a construção da lógica. Repetindo: cada proposiçãoque parece ser sôbre complexos pode ser analisada numaproposição sôbre seus constituintes e sôbre a proposição quedescreve o complexo perfeitamente, isto é, a proposição queequivale a dizer que o complexo existe"(81). Este enunciado,que reaparece no Tractatus(82) constitui uma das peças essen-ciais para o estabelecimento do atomismo lógico, defendidopor Wittgenstein em seus primeiros escritos. No entanto,apesar de sua importância, não tem encontrado entre oscomentadores uma interpretação convincente. Qual é a pro-posição que descreve completamente o complexo ? Sementrar em pormenores, convém lembrar que esta ou estas pro-posições que apanham o complexo na sua totalidade surgemno lugar que o sujeito ocupava na teoria de Russell, devendo,portanto, possuir a mesma estrutura do complexo. O queimporta é salientar que o complexo para Wittgenstein nãoapenas se reduz ao simples, graças a um único processo dedissolução, mas na sua totalidade não pode ser tratado comosimples, não deve possuir a cómoda propriedade de, sendocomposto, poder ser tomado como a unidade(83).(80) Schriften, I, p. 197.(81) Ibid., p. 205.(82) Cf. 2.0201.(83) Schriften, I, p. 205.42 43
    • V --- Na direção do Tractatus.As "Notas sôbre a lógica" dividem-se em cinco partes:I — Bipolaridade das proposições. Sentido e Denotação. Ver-dade e Falsidade; II — Andlise das proposições atómicas.Indefiníveis gerais, predicados, etc.; III — Andlise das pro-posições moleculares: funções – a, b(84); Andlise das propo-sições-gerais. Princípios do simbolismo • O que o símbolo signi-fica. Fatos por fatos. O plano é obviamente simples: par-tindo de uma nova teoria do sentido e da denotação, de umlado, cabe analisar a estrutura interna da proposição atéchegar aos elementos simples e indefiníveis; de outro, exa-minar como as proposições complexas se compõem e, depoisde estudar o problema das proposições universais, chegaraos princípios básicos do simbolismo.À primeira vista ésse plano foi abandonado pelo Tractatus,cuja composição se escande segundo as sete proposições funda-mentais: 1) O mundo é tudo o que ocorre. 2) O que ocorre,o fato, é o subsistir de estados de coisas. 3) Pensamento éa figuração lógica dos fatos. 4) O pensamento é a propo-sição significativa. 5) A proposição é uma função de ver-dade das proposições elementares. 6) A forma geral da funçãode verdade é [.f), Na)]. Esta é a forma geral da proposição.7) O que não se pode falar, deve-se calara No entanto, adespeito das discrepâncias evidentes, não é difícil mostrarque os dois escritos obedecem à mesma inspiração; ~enteo Tractatus ampliou sobremaneira a primeira parte das "Notassôbre a lógica", desenvolvendo pormenorizadamente as con-dições lógicas da significação.Num texto anterior vimos, em que pêse à importânciada resolução do complexo em simples, que "sua resposta nãoé incondicionalmente necessária para a construção da lógica".Désse modo, é preciso postular a existência dos elementossimples, sem contudo se deter nas fórmulas possíveis de reso-lução, cujo estudo fica além dos estreitos limites do forma-lismo lógico. Atitude fundamentalmente anti-empirista, emque a simplicidade nada tem a ver com a realidade perce-bida, como fizeram crer os neopositivistas, porquanto a lógicase interroga desde o início a propósito das condições de possi-(84) Na notação inicial a, b indica verdadeiro e falso.44bilidade, colocando-se numa perspectiva transcendental. Seo Tractatus se inicia pela análise do mundo, éste mundo,os fatos, os estados de coisas e os objetos são conceitos for-mais, cuja determinação se faz unicamente para fixar a deter-minabilidade do sentido das proposições. Todos ésses passossão dados unicamente do ponto de vista da necessidade quepossui a língua de ter uma realidade a que se referir. Noentanto, a problemática do sentido também sofre radicalampliação, na „medida em que as proposições passam a cons-tituir caso especial dos vários tipos de modelos, de figurações,que construímos do mundo. Por que um conceito de talmonta não merece uma proposição especial ? Simplesmente_porque a figuração ainda é fato, embora seja fato de outrofato. Assim sendo, as duas proposições iniciais do Tractatusse ocupam dos fatos, de sua resolução e de sua construção,assim como de um fato especial, construído por nós, e quepossui a virtude de simbolizar outro. Sómente na terceira,surge a definição da proposição como revestimento concretodo pensamento, daquele elemento lógico comum a tôdas asfigurações. Em seguida, a linha das "Notas sôbre a lógica"torna-se aparente no Tractatus; êste passa a examinar aresolução da proposição em seus elementos simples e as formaspossíveis de composição e dependência, na base dos valôresde verdade das proposições elementares. No final, a propo-sição 7, no seu laconismo dramático, retoma a problemáticageral do simbolismo, reafirmando incisivamente a diferençaentre o dizer e o mostrar.Existe, porém, uma dificuldade de que o próprioWittgenstein se deu conta. Para mostrar o que deve sermostrado além do discurso, para indicar a indizibilidade dasformas lógicas é preciso falar, ainda que a fala seja absurda.E o Tractatus é essa linguagem absurda que há de ser abolidano final, quando o discurso se enquadrar nos estreitos limitesda figuração do mundo. Obra de passagem, não cabe atri-buir-lhe demasiada importância.Continuamos, entretanto, a estudá-lo, a analisar umapor uma suas proposições como /se elas dissessem algo. Nãoé então para duvidar dêste seu princípio básico que eliminada língua tóda sorte de reflexão ? Acresce ainda que nenhumalinguagem matemática obedece rigorosamente a estratifi-cação dos tipos, estabelecida por Russell e levada aos últimoslimites por Wittgenstein. E o próprio desenvolvimento da45
    • lógica moderna cada vez mais nos convence de que a teoriados tipos foi uma solução artificial, gerada por uma con-cepção absolutista da matemática, que hoje dificilmenteencontra guarida, principalmente quando o método, axiomá-tico perdeu a auréola de que se revestia no início do, século.Mas admitir a reflexão no seio do discurso, a possibilidadede o predicado tornar-se sujeito e nesse processo sua denotaçãoadquirir a unidade e a espessura de uma certa objetividade,tem como conseqüência, não apenas recair no enrêdo dosparadoxos, mas, sobretudo, recolocar a problemática da filo-sofia da linguagem em termos diferentes daqueles em queWittgenstein e os neopositivistas colocaram. Não há maisa separação radical e absoluta entre o discurso e o real, demodo que os caminhos de Frege e de Husserl voltam a terviabilidade. A não ser que, conduzidos pelo próprio Wittgens-tein, enveredemos por uma concepção fragmentada e utili-tarista da linguagem, como acontece em suas últimas obras,em que a significação é determinada pelo uso e seu alcanceé descoberto pelo emprêgo sistemático de certos jogos lingüís-ticos.Convém ainda lembrar que a teoria da significação desen-volvida no Tractatus pressupõe a decidibilidade de tôdas asproposições, isto é, que sempre possamos dizer de uma sen-tença corretamente formada se é falsa ou verdadeira. Naraiz da objeção de Wittgenstein contra a teoria do juízo deRussell encontra-se o pressuposto de que sempre será possíveldeterminar o valor de verdade da proposição. Ora, em 1931Gôdel mostrou que proposições aritméticas elementares nãopodiam ser demonstradas na base de um sistema axiomáticocompleto, não sendo pois possível decidir-se de sua verdadeou falsidade, utilizando unicamente processos postos à dispo-sição pelo sistema. O princípio em que Wittgenstein assen-tara o Tractatus cai por terra; ~ente o cálculo proposi-cional e outros cálculos menores que, todavia, não esgotama complexidade do discurso matemático, estão em condiçãode aproximar a significação dos valóres de verdade.Se o desenvolvimento da lógica matemática pôs em xequecertos fundamentos do Tractatus, o que nos leva a relê-loe a reeditá-lo ? Seguramente não é apenas por sua impor-tância histórica, nem pela riqueza das idéias que encontra-mos em seu interior. Ainda que sejamos atraídos pela belezade sua arquitetônica, o que importa, assim o cremos, é aradicalidade de suas posições. O problema do conhecimentose assentava, na filosofia tradicional, sobretudo nas relaçõesentre a consciência e a realidade. É fácil verificar que a re-flexão sôbre a consciência cedeu lugar à reflexão sôbre a língua.Nesta direção, Wittgenstein deu um dos primeiros passosdecisivos, e talvez ninguém tenha colocado a questão da lin-guagem e do mundo em termos tão radicais.Devo expressar aqui meus agradecimentos pela atenciosaleitura de meu texto que fizeram os professôres ANDRtS R.RAGGIO , e FRANCISCO COSTA FELIX, assim como pela cuida-dosa revisão de ALMIR DE OLIVEIRA AGUIAR.Universidade de São Paulosetembro de 196846 47
    • TRACTATUSLOGICO-PHILO SOPHICUS
    • TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUSA memória deDAVID H. PINSENTMote: . . . e tudo o que se sabe,que não seja apenas rumor ouvido,pode ser dito em três palavras.KÜRNBERGER
    • PREFÁCIOTalvez êste livro ~ente seja compreendido por quemjá tenha cogitado por si próprio os pensamentos aqui expressos,ou ao menos cogitado pensamentos semelhantes. Não é,pois, um manual. Terá alcançado seu objetivo se agradara quem o ler com atenção.Trata de problemas filosóficos e mostra, creio eu, queo questionar dêsses problemas repousa na má compreensãoda lógica de nossa linguagem. Poder-se-ia apanhar todo osentido do livro com estas palavras: em geral o que podeser dito, o pode ser claramente, mas o que não se pode falardeve-se calar.Pretende, portanto, estabelecer um limite ao pensar, oumelhor, não ao pensar mas à expressão do pensamento, por-quanto para traçar um limite ao pensar deveríamos poderpensar ambos os lados dêsse limite (de sorte que deveríamospensar o que não pode ser pensado).O limite será, pois, traçado úricamente no interior dalíngua; tudo o que fica além dêle será simplesmente absurdo.Não quero julgar até onde meus esforços coincidem comos de outros filósofos. Por certo o que escrevi não pretendeser original no pormenor; por isso não dou fonte alguma,pôsto que me é indiferente se o que pensei já foi pensado poralguém antes de mim.Quero apenas mencionar que devo grande parte do estí-mulo a meus pensamentos às grandiosas obras de Frege eaos trabalhos de meu amigo Sr. Bertrand Russell.53
    • Caso meu trabalho tenha valor, êle será duplo. Primeira-mente porque exprime pensamentos, valor que será tantomaior quanto melhor os pensamentos- forem expressos. Nistoestou consciente de estar muito aquém do possível, simples-mente porque minhas fôrças são poucas para cumprir a tarefa.Possam outros vir e fazer melhor.No entanto, a verdade dos pensamentos comunicadosaqui me parece intocável e definitiva, de modo que pensoter resolvido os problemas no que é essencial. Se não meengano, o segundo valor désse trabalho é mostrar quão poucose consegue quando se resolvem tais problemas..L. W.Viena, 19181(*) O mundo é tudo o que ocorre. 1.1 O mundo é a totalidade dos fatos, não dascoisas. 1.11 O mundo é determinado pelos fatos e por istoconsistir em todos os fatos. 1.12 A totalidade dos fatos determina, pois, o queocorre e também tudo que não ocorre. 1.13 Os fatos, no espaço lógico, são o mundo. 1.2 O mundo se resolve em fatos. 1.21 Algo pode ocorrer ou não ocorrer e todo o restopermanecer na mesma.•2 O que ocorre, o fato, é o subsistir dos estadosde coisas. 2.01 O estado de coisas é uma ligação de objetos(coisas). 2.011 É essencial para a coisa poder ser parte consti-tuinte der estado de coisas.Nada é acidental na lógica: se uma coisa puder2.012aparecer num estado de coisas, a possibilidade doestado de coisas já deve estar antecipada nela.. 2.0121 Parece, por assim dizer, acidental que à coisa,.que poderia subsistir sózinha e para si, viesse ajus-tar-se em seguida uma situação.Se as coisas podem aparecer em estados decoisas, então isto já. deve estar nelas.(*) Os algarismos que enumeram as proposições isoladas indicamo pèso lógico dessas proposições, a importância que adquirem em minhaexposição. As proposições n.1, n.2, n.3, etc. constituem observações, àproposição n.° n; es proposições n.fnl, n.m2, etc., observações à propo-sição n.° n.m, e assim por diante.54 55
    • (Algo lógico não pode ser meramente-possível.A lógica trata de cada possibilidade e tôdas as possi-bilidades são fatos quê lhe pertencem.)Assim como não podemos pensar objetos espa-ciais fora do espaço, os temporais fora do tempo,assim não podemos pensar nenhum objeto fora dapossibilidade de sua ligação com outros.Se posso pensar o objeto ligando-o ao estadode coisas, não posso então pensá-lo fora da possil)i-?idade dessa ligação.2.0122 A coisa é autônoma enquanto puder aparecerem tôdas as situações possíveis, mas esta forma deautonomia é uma forma de conexão com o estadode coisas, uma forma de heteronomia. (É impossívelpalavras comparecerem de dois modos diferentes,sôzinhas e na proposição.) 2.0123 Se conheço o objeto, também conheço tôdas aspossibilidades de seu aparecer em estados de coisas.(Cada uma dessas possibilidades deve estar nanatureza do objeto.) •Não é possível posteriormente encontrar novapossibilidade.2.01231 Para conhecer um objeto não devo com efeitoconhecer suas propriedades externas — mas tôdasas internas. 2.0124 Ao serem dados todos os objetos, dão-se tam-bém todos os possíveis estados de coisas.2.013 Cada coisa está como num espaço de estadosde coisas possíveis. Posso pensar êste espaço vazio,mas não a. coisa sem o espaço.2.0131 O objeto espacial deve estar no espaço infinito.(O ponto no espaço é lugar do argumento.)A mancha no campo visual não deve, pois, servermelha, mas deve ter uma côr; tem, por assimdizer, uma espacialidade colorida em volta de si.O som deve possuir uma altura, o objeto do tato,uma dureza, e assim por diante.2.014 Os objetos contêm a possibilidade de tôdas assituações.562.0141 A possibilidade de seu aparecer nos estados decoisas é a forma dos objetos. 2.02 O objeto é simples.2.0201 Cada asserção sôbre complexos deixa-se dividirnuma asserção sôbre suas partes constitutivas enaquelas proposições que descrevem inteiramentetais complexos. 2.021 Os objetos formam a substância do mundo.Por isso não podem ser compostos.2.0211 Se o mundo não possuísse substância, para umaproposição ter sentido dependeria de outra propo-sição ser verdadeira. 2.0212 Seria, pois, impossível traçar uma figuração domundo (verdadeira ou falsa).2.022 É claro que um mundo, pensado muito diferentedo real, deve possuir algo — uma forma — comumcom éste mundo real. 2.023 Esta forma fixa consiste precisamente em objetos.2.0231 A substância do mundo pode determinar apenasuma forma, mas não propriedades materiais; já queestas são primeiramente representadas pelas propo-sições — primeiramente formadas pela configuraçãodos objetos. 2.0232 Aproximadamente falando: os objetos são des-providos de côr.2.0233 Dois objetos de mesma forma lógica — abstraindosuas propriedades externas — se diferenciam umdo outro apenas por serem distintos.2.02331 Ou uma coisa possui propriedades que nenhumaoutra possui e dêsse modo é possível sem mais separá-la de outras por uma descrição e referir-se a ela;ou, ao contrário, existem várias coisas que possuemtôdas suas propriedades em comum, sendo entãoimpossível em geral indicar uma delas.Se a coisa não se distingue por nada, não possoentão distingui-la, pois do contrário estaria distin-guida.57
    • 2.0632.12.112.122.132.1312.142.1412.152.1512.15112.15122.151212.15132.15142.15152.024 Substância é o que subsiste independentementedo que ocorre.2.025 Ela é forma e conteúdo.• 2.0251 Espaço, tempo e côr (coloridade) são formasdos objetos.2.026 Só se houver objetos, pode haver forma fixado mundo.2.027 O fixo, o subsistente e o objeto são um só.2.0271 O objeto é o fixo, o subsistente; a configuraçãoé o mutável, o instável.2.0272 A configuração dos objetos forma o estado decoisas.2.03 No estado de coisas os objetos se ligam uns aosoutros como elos de uma cadeia.2.031 No estado de coisas os objetos estão uns emrelação aos outros de um modo determinado.2.032 O modo pelo qual os objetos se vinculam noestado de coisas constitui a estrutura do estado decoisas.2.033 A forma é a possibilidade da estrutura.2.034 A estrutura do fato é constituída pelas estru-turas dos estados de coisas.2.04 A- totalidade dos subsistentes estados de coisasé o mundo.2.05 A totalidade dos subsistentes estados de coisasdetermina também quais estados de coisas nãosubsistem.• 2.06 A subsistência e a não-subsistência dos estadosde coisas é a realidade.(Chamamos de fato positivo à subsistência deestados de coisas e de negativo à não-subsistência&les.)2.061 Os estados de coisaasão independentes uns dosoutros.2.062 Da subsistência ou da não-subsistência de umestado de coisas não é possível concluir a subsistênciaou a não-subsistência de outro.A realidade inteira é o mundo.Fazemo-nos -figurações dos fatos.A figuração presénta a situação no espaço ló-gico, a subsistência e a não-subsistência de estadosde coisas.A figuração é um modêlo da realidade.Na figuração, seus elementos correspondem aosobjetos.Os elementos da figuração substituem nela osobjetos.A figuração consiste em que seus elementosestão uns em relação aos outros de um modo deter-minado.A figuração é um fato.Os elementos da figuração estando uns em rela-ção aos outros de um modo determinado, isto repre-senta as coisas estando umas em relação às outras.Esta vinculação dos elementos da figuraçãochama-se sua estrutura e a possibilidade dela, suaforma de afiguração.A forma de afiguração é a possibilidade de queas coisas estejam umas em relação às outras comoos elementos da figuração.A figuração enlaça-se com a realidade; destemodo: estendendo-se para ela.É como padrão de medida que se aplica à reali-dade.Sómente os pontos mais exteriores das linhasdivisórias tocam o objeto a ser medido.Segundo essa concepção, também pertence àfiguração a forma afigurante que precisamente atorna figuração.A relação afigurante consiste nas coordenaçõesdos elementos da figuração e das coisas.Estas coordenações são, por assim dizer, an-tenas dos elementos da figuração, com as quaisesta toca a realidade.•58 59
    • 2.16 Os fatos, para serem figuração, devem ter algoem comum com o que é afigurado.2.161 Deve haver algo idêntico na figuração e noafigurado a fim de que um possa ser a figuração dooutro.2.17 O que a figuração deve ter em comum com arealidade para poder afigurar à sua maneira —correta ou falsamente — é sua forma de afiguração. 2.171 A figuração pode afigurar qualquer realidadecuja forma ela possui.A figuração espacial, tudo o que é espacial; acolorida, tudo que é colorido, etc. 2.172 Sua forma de afiguração, contudo, a figuraçãonão pode afigurar; apenas a exibe.2.173 A figuração representa seu objeto de fora (seuponto de vista é sua forma de representação), porisso a figuração representa seu objeto correta oufalsamente. 2.174 A figuração não pode, porém, colocar-se forade sua forma de representação.2.18 O que cada figuração, de forma qualquer, devesempre ter em comum com a realidade para poderafigurá-la em geral — correta ou falsamente — éa forma lógica, isto é, a forma da realidade.2.181 Se a forma da afiguração é a forma lógica, afiguração chama-se lógica. 2.182 T6da figuração também é lógica. (No entanto,nem tôda figuração é, por exemplo, espacial.)2.19 A figuração lógica pode afigurar o mundo.2.2 A figuração tem em comum com ó afiguradoa forma lógica da afiguração.2.201 A figuração afigura a realidade, pois representauma possibilidade da subsistência e da não-subsis-tência de estados de coisas.2.202 A figuração representa uma situação possível noespaço lógico.2.203 A figuração contém a possibilidade da situação,a qual ela representa.602.21 A figuração concorda ou não com a realidade,é correta ou incorreta, verdadeira ou falsa.2.22 A figuração representa o que representa, inde-pendentemente de sua verdade ou falsidade, pormeio da forma da afiguração.2.221 O que a figuração representa é o seu sentido.2.222 Na concordância ou na discordância de seusentido com a realidade consiste sua verdade ousua falsidade.2.223 Para reconhecer se uma figuração é verdadeiraou falsa devemos compará-la com a realidade.2.224 Não é possível reconhecer apenas pela figuraçãose ela é verdadeira ou falsa.2.225 Não existe uma figuração a priori verdadeira.3 Pensamento é a figuração lógica dos fatos.3.001 "Um estado de coisas é pensável" significa:podemos construir-nos uma figuração dèle.3.01 A totalidade dos pensamentos verdadeiros 11figuração do mundo.3.02 O pensamento contém a possibilidade da situa-ção que êle pensa. O que é pensável também épossível.3.03 Não podemos pensar nada ilógico, porquanto,do contrário, deveríamos pensar ilógicamente.3.031 Já foi dito por alguém que Deus poderia criartudo, salvo o que contrariasse as leis lógicas. Istoporque não podemos dizer como pareceria um mundo"ilógico".3.032 Representar na linguagem algo que "contrarie asleis lógicas" é tão pouco possível como representar,na geometria, por meio de suas coordenadas, umafigura que contrarie as leis do espaço; ou, então,dar as coordenadas de um ponto inexistente.3.0321 Podemos perfeitamente representar um estadode coisas espacial contrário às leis da física, nunca,porém, contrário às leis da geometria.3.04 Um pensamento correto a priori seria aquélecuja possibilidade condicionasse sua verdade.61
    • 3.05 Dêsse modo, s6 poderíamos conhecer a priorique um pensamento é verdadeiro se a verdade délefôsse reconhecível a partir do próprio pensamento(sem objeto de comparação).3.1 Na proposição o pensamento se exprime sen-sível e perceptivelmente.3.11 Utilizamos o signo sensível e perceptível (signosonoro ou escrito, etc.) da proposição como projeçãoda situação possível.-O método de projeção é o pensar do sentidoda proposição.3.12 Chamo signo proposicional o signo pelo qualexprimimos o pensamento. E a proposição é o signoproposicional em sua relação projetiva com o mundo. 3.13 A proposição pertence tudo que pertence àprojeção, não, porém, o que é projetado.Portanto, a possibilidade do que é projetado,não, porém, êste último.A proposição, portanto, náo contém seu sen-tido, mas a possibilidade de exprimi-lo.("O conteúdo da proposição" quer dizer o con-teúdo da proposição significativa.)Está contida na proposição a forma de seusentido, não, porém, seu conteúdo.3.14 O signo proposicional consiste em que seuselementos, as palavras, estão relacionados uns aosoutros de maneira determinada.O signo proposicional é um fato.3.141 A proposição não é uma mistura de palavras.(Do mesmo modo que o tema musical não é umamistura de sons.)A proposição é articulada. 3.142 Sómente fatos podem exprimir um sentido, umaclasse de nomes não o pode.3.143 Que um signo proposicional seja um fato, istoé velado pela forma comum de expressão, escritaou impressa.Na proposição impressa, por exemplo, o signoproposicional não parece essencialmente diferente dapalavra.(Foi assim possível a Frege chamar à proposiçãode nome composto.)3.1431 A essência do signo proposicional se torna muitoclara quando, em vez de o pensarmos compostode signos escritos, o pensamos composto de objetosespaciais (tais , como mesas, cadeiras, livros).A posição espacial oposta dessas coisas exprime,pois, o sentido da proposição. 3.1432 Não: "O signo complexo aRb diz que a por Rse relaciona com b", mas: que "a" por um certo Rse relaciona com "b", isto quer dizer que aRb. 3.144 É possível descrever situações, impossível noentanto nomed-las.(Os nomes são como pontos, as proposições,flechas; possuem sentido.)3.2 Nas proposições os pensamentos podem serexpressos de tal modo que aos objetos dos pensa-mentos correspondam elementos do signo proposi-cional. 3.201 A Asses elementos chamo de "signos simples" eà proposição, "completamente analisada". 3.202 Os signos simples empregados nas proposiçõessão chamados nomes. 3.203 O nome denota o objeto. O objeto é sua deno-tação. ("A" é o mesmo signo que "A".)3.21 À configuração dos signos simples no signo pro-posicional corresponde a configuração dos objetosna situação. 3.22 Na proposição o nome substitui o objeto.3.221 Posso nomear apenas objetos. Os signos ossubstituem. Posso apenas falar sôbre êles, nãoposso, porém, enunciá-los. Uma proposição podeapenas dizer como uma coisa é, mas não o que é. 3.23 Postular a possibilidade de signos simples épostular a determinabilidade do sentido.62 63
    • . 3.24 A proposição que trata de um complexo acha-se numa relação interna com a proposição que tratadas partes constituintes dêle.O complexo s6 pode ser dado por sua descrição,e esta concordará ou não concordará com êle. Aproposição que se ocupa de um complexo inexis-tente não será absurda, mas simplesmente falsa.Que um elemento proposicional designa umcomplexo, isto pode ser visto graças a uma indeter-minabilidade na proposição na qual êle aparece.Sabemos por esta proposição que nem tudo estádeterminado. (A designação da universalidade jácontém, com efeito, uma protofiguração.)A reunião dos símbolos de um complexo emum símbolo simples pode ser expressa por umadefinição. 3.25 Existe apenas uma e uma única análise completada proposição.3.251 A proposição exprime o que é expresso de ummodo determinado e dado claramente: A proposiçãoé articulada. 3.26 O nome não é para ser desmembrado ademaispor uma definição: é um signo primitivo.• 3.261 Cada signo definido designa por sôbre os signospelos quais é definido, e as definições mostram ocaminho.Dóis signos, um signo primitivo e outro defi-nido por signos primitivos, não podem designar pelamesma maneira. Nomes não podem ser decompostospor definições. (Nenhum signo isolado e autônomopossui denotação.)3.262 O que no signo não vem expresso é indicadopela aplicação. O que os signos escondem, a aplica-ção exprime.3.263 As denotações dos signos, primitivos podem seresclarecidas por elucidações. Elucidações são propo.,sições que contêm os signos primitivos. Só podem,portanto, ser entendidas quando já se conhecem asdenotações dêsses signos.3.3 S6 a proposição possui sentido; só em conexãocom a proposição um nome tem denotação. 3.31 A cada parte da proposição que caracteriza umsentido chamo de expressão (símbolo).(A própria proposição é uma expressão.)A expressão é tudo que, sendo essencial parao sentido da proposição, as proposições podem terem comum entre si.A expressão caracteriza uma forma e um con-teúdo.3.311 A expressão pressupõe as formas de tôdas asproposições nas quais pode aparecer. Constitui amarca característica comum a uma classe de pro-posições. 3.312 Representa-se, pois, por intermédio da formageral das proposições que a caracteriza.E assim a expressão será, nesta forma, constantee todo o resto, variável.3.313 A expressão será representada por uma variável,cujos valôres são as proposições que contém .a expres-são.(No caso limite, a variável torna-se constante,a expressão, a proposição.)A uma tal variável chamo de "variável proposi-cional".3.314 A expressão tem denotação apenas na propo-sição. Cada variável pode ser concebida como va-riável proposicional.(A variável nome também.)3.315 Se transformarmos uma parte constituinte deuma proposição numa variável, existe então umaclasse de proposições constituída por todos os va-lôres da proposição variável assim resultante. Estaclasse ainda depende em geral do que nós, segundoum ajuste arbitrário, chamamos partes da proposi-ção. Se, no entanto, transformarmos todos aquêlessignos, cujas denotações foram determinadas arbi-tràriamente, em variáveis, ainda continua a existir65
    • aquela classe. Esta, porém, não mais depende dequalquer ajuste, mas -ànicamente da natureza daproposição. Corresponde a uma forma lógica — auma protofiguração lógica. 3.316 Fixam-se os valôres que a variável proposi-cional deve tomar.A fixação dos valôres é a variável.3.317 A fixação dos valôres das variáveis proposicio-nais consiste na indicação das proposições, as quaistêm como marca característica comum a variável.A fixação é uma descrição dessas proposições.A fixação se ocupará, pois, finitamente dossímbolos, não se ocupando de sua denotação.E para a fixação é essencial ser apenas umadescrição de símbolos, nada assertando sôbre o designado.Como se dá a descrição da proposição é ines-sencial.3.318 Concebo a proposição — do mesmo modo queFrege e Russell — como função das expressões quenela estão contidas.3.32 O signo é o que no símbolo é sensivelmenteperceptível.3.321 Dois símbolos diferentes podem ter, pois, emcomum o mesmo signo (escrito ou sonoro, etc.) —designam dêsse modo de diferentes maneiras.3.322 A marca característica comum a dois objetosnunca pode indicar que os designamos com o mesmosigno, embora com diferentes modos de,designação;porquanto o signo, sem dúvida, é arbitrário. Pode-ríamos, portanto, escolher dois signos diferentes, eonde permaneceria o que é comum na designação ?3.323 Na linguagem Corrente amiúde acontece que amesma palavra designa de modos diferentes — per-tencendopois, a símbolos diferentes — ou aindaduas palavras, que designam de modos diferentes,são empregadas na proposição superficialmente damesma maneira.66Assim a palavra "é" aparece como cópula,como sinal de igualdade e expressão da existência;"existir", enquanto verbo intransitivo do mesmomodo que "ir"; "idêntico", enquanto adjetivo: fala-mos a respeito de algo, mas também de que algoacontece.(Na proposição "Rosa é rosa" ("Grün ist grün")— onde a primeira palavra é nome de pessoa e aúltima é adjetivo — ambas as palavras não têmapenas denotações diferentes, mas constituem sím-bolos diferentes.)3.324 Nasceu, assim, as confusões mais fundamentais(de que tôda a filosofia está plena).3.325 Para evitar ésses erros devemos usar uma lin-guagem simbólica que os exclua, pois esta não empre-gará superficialmente o mesmo signo para símbolosdiferentes, e não empregará signos, que designam demaneira diversa, do mesmo modo. Uma linguagemsimbólica, portanto, que obedeça à gramática lógica— à sintase lógica.(A ideografia de Frege, ou a de Russell, constituiuma tal linguagem que, no entanto, não eliminatodos os erros.) 3.326 Para reconhecer o símbolo no signo deve-seatentar para seu uso significativo.3.327 O signo determina uma forma lógica ~entejunto de sua utilização lógico-sintática.3.328 Se um signo não tem serventia, então êle é des-provido de denotação. Ëste é o sentido do lema deOccam.(Se tudo se passa como se um signo tivessedenotação, então êle a terá.)3.33 Na sintaxe lógica a denotação de um signo nãohá de desempenhar papel algum, a sintaxe deveelaborar-se sem que surja a preocupação com a deno-tação, devendo pressupor apenas a descrição dasexpressões.3.331 Feita esta observação, consideremos a Theoryof types de Russell: o êrro dóste se revela quando,67
    • ao elaborar as regras dos signos, teve de apelar paraa denotação asses signos.3.332 Nenhuma proposição pode assertar algo sôbresi mesma, pois o signo proposicional não pode estarcontido em si mesmo (aí está tôda a Theory of types).3.333 Uma função por isso não pode ser seu próprioargumento, pois o signo da função já contém aprotofiguração de seu argumento, e não contém asi própria.Tomemos, por exemplo, a função F(fx) podendoser seu próprio argumento; haveria então uma pro-posição "F(F(fx))", em que a função externa F e.a interna F teriam denotações diferentes; a internatendo como forma yo(fx), a externa, 4,(T,(fx)). Ambasas funções têm em comum apenas a letra "F" quenada designa.Isto se torna claro logo que, em vez de "F(F(u))",escrevemos "(3o) : F(g)u) . çu = Fu".Isto liquida o paradoxo de Russell.3.334 As regras da sintaxe lógica devem ser enten-didas de per si, desde que se saiba apenas comocada signo designa.3.34 A proposição possui traços essenciais e aciden-tais.Acidentais são os traços que derivam da ma-neira particular de produzir o signo proposicional;essenciais, aquéles que sózinhos tornam a proposiçãocapaz de exprimir seu sentido.3.341 É pois essencial na proposição o que é comuma tôdas as proposições que podem exprimir o mesmosentido.E do mesmo modo é em geral essencial nosímbolo o que é comum a todos os símbolos quepodem preencher o mesmo fim.3.3411 Seria então possível dizer: o nome autêntico éaquilo que todos os símbolos que designam o objetotêm em comum. Daí resultaria paulatinamente quenenhuma composição é essencial para o nome.3.342 Há com efeito em nossa notação algo arbitrário,mas o seguinte não o é: se determinarmos algo arbi-trariamente, então algo a mais deve ocorrer. (Istodepende da essência da notação.)3.3421 Um modo particular de designação pode serdesimportante, mas é sempre importante que sejaum modo possível de designação. Esta é a situaçãona filosofia em geral: o singular se manifesta repeti-damente como desimportante, mas a possibilidadede cada singular nos dá um esclarecimento sôbre a• essência do mundo.3.343 Definições são regras para a tradução de umalinguagem a outra. Cada linguagem simbólica corretadeve deixar-se traduzir numa outra segundo taisregras: isto é tudo o que elas têm em comum.3.344 O que designa no símbolo é o que é comum atodos os símbolos pelos quais o primeiro pode sersubstituído de acôrdo com as regras da sintaxelógica.3.3441 É possível, por exemplo, exprimir do seguintemodo o que é comum a tôdas as notações para asfunções de verdade: é-lhes comum, por exemplo,poderem ser substituídas pela notação "-p" ("não p")e "p v q" ("p ou g").(Com isso se indica a maneira pela qual umanotação especialmente possível nos pode dar escla-recimentos gerais.)3.3442 O signo do complexo não se divide pela análisearbitrariamente, de modo que sua divisão fôsse dife-rente em cada construção proposicional.3.4 A proposição determina um lugar no espaçológico. A existência dêsse espaço lógico é assegu-rada apenas pela existência das partes constitutivas,pela existência das proposições significativas. 3.41 O signo proposicional e as coordenadas lógicas:é isto o lugar lógico.3.411 O lugar geométrico e o lógico concordam emque ambos consistem na possibilidade de uma exis-tência.68 69
    • 3.42 Se bem que a proposição deva determinar apenasum lugar do espaço lógico, o espaço lógico inteirojá deve ser dado por ela.(Em caso contrário, novos elementos — emcoordenação — sempre se introduziriam por meioda negação, da soma lógica, do produto lógico, etc.)(O andaime lógico em volta da, figuração deter-mina o espaço lógico. A proposição apanha o espaçológico inteiro.)3.5 O signo proposicional empregado e pensado éo pensamento.4 O pensamento é a proposição significativa.A totalidade das proposições é a linguagem.O homem possui a capacidade de construirlinguagens nas quais cada sentido se deixa exprimir,sem contudo pressentir como e o que cada palavradenota. — Assim se fala sem saber como os sonssingulares são produzidos.A linguagem corrente forma parte do organismohumano e não é menos complicada do que èle.É humanamente impossível de imediato apre-ender dela a lógica da linguagem.A linguagem veda o pensamento; do mesmomodo, não é possível concluir, da forma exterior daveste, a forma do pensamento vestido por ela, por-quanto a forma exterior da veste não foi feita como intuito de deixar conhecer a forma do corpo.Os acôrdos silenciosos para entender a linguagemcorrente são enormemente complicados.A maioria das proposições e questões escritassôbre temas filosóficos não são falsas mas absurdas.Por isso não podemos em geral responder a questõesdessa espécie, apenas estabelecer seu caráter absurdo.A maioria das questões e das proposições dos filó-sofos se apóiam, pois, no nosso desentendimento dalógica da linguagem.(São questões da seguinte espécie: o bem émais ou menos idêntico do que a beleza ?)Não é, pois, de admirar que os mais profundosproblemas não constituam própriamente problemas.70• 4.0031 Tôda filosofia é "crítica da linguagem". (Porcerto, não no sentido de Mauthner). O mérito deRussell é ter mostrado que a forma aparentementelógica da proposição não deve ser sua forma real.4.01 A proposição é figuração da realidade.A proposição é modêlo da realidade tal como apensamos.4.011 À primeira vista, a proposição — em particulartal como está impressa no papel — não parece serfiguração da realidade de que trata. Mas tampoucoa escrita musical parece à primeira vista ser figu-ração da música, e nossa escrita fonética (letras),figuração da linguagem falada.No entanto, essas linguagens simbólicas se mani-festam, também no sentido comum, como figuraçõesdo que representam.4.012 É óbvio que percebemos como figuração umaproposição da forma "aRb". Aqui o signo é óbvia-mente um símile do designado.4.013 E quando entramos no que é essencial dessafiguratividade vemos que ela não é perturbada poraparentes irregularidades (como o emprégo de # ede I, na escrita musical).Porquanto também essas irregularidades afigu-ram o que devem expressar, apenas de outra maneira.4.014 O disco da vitrola, o pensamento e a escritamusicais, as ondas sonoras estão uns em relação aosoutros no mesmo relacionamento existente entre alinguagem e o mundo.A todos é comum a construção lógica.(Como na estória dos dois jovens, seus doiscavalos e seus lírios. Num certo sentido, todos sãoum.)4.0141 Que exista uma regra geral por meio da qualo músico possa apreender a sinfonia a partir dapartitura, regra por meio da qual se possa derivara sinfonia das linhas do disco e ainda, segundo aprimeira regra, de nôvo derivar a partitura; nistoconsiste prôpriamente a semelhança interna dessas714.0014.002• 4.003
    • figuras aparentemente tão diversas. E essa regraé a lei de projeção que projeta a sinfonia na lin-guagem musical. É a regra da tradução da linguagemmusical para a linguagem do disco.4.015 A possibilidade de todos êsses símiles, a figu-ratividade inteira de nosso modo de expressão, seapóia na lógica da afiguração.4.016 Para compreender a essência da proposição,convém pensar na escrita hieroglífica que afiguraos fatos que descreve.E dela provém o alfabeto sem perder o que éessencial na afiguração.4.02 Isto se vê ao entendermos o sentido do signoproposicional sem que êle nos tenha sido explicado.4.021 A proposição é figuração da realidade; poisconheço a situação representada por ela quandoentendo a proposição. E entendo a proposição semque o sentido me seja explicado.• 4.022 A proposição mostra seu sentido.A proposição mostra, se fôr verdadeira, comoalgo está. E diz que isto está assim.4.023 Por meio da proposição a realidade deve serfixada enquanto sim ou enquanto não.Por isso deve ser completamente descrita porela.A proposição é a descrição de um estado decoisas.Assim como a descrição de um objeto se dásegundo suas propriedades externas, a proposiçãodescreve a realidade segundo suas propriedadesinternas.A: proposição constrói o mundo com a ajudade andaimes lógicos, e por isso é possível, na propo-sição, também se ver, caso ela fôr verdadeira, comotudo que é lógico está. Pode-se de uma proposição .falsa tirar conclusões.4.024 Compreender uma proposição é saber o queocorre, caso ela fôr verdadeira.72(É possível, pois, compreendê-la sem saber seé verdadeira.)Ela será compreendida, caso se compreendasuas partes constituintes.4.025 A tradução de uma linguagem para outra não sedá como se se traduzisse cada proposição de umanuma proposição da outra, mas ~ente as partesda proposição são traduzidas.(E o dicionário não traduz apenas substantivos,mas ainda verbos, adjetivos, conectivos, etc.; etrata-os todos de modo igual.)4.026 As denotações dos signos simples (das palavras)nos devem ser explicadas para que as compreendamos.Com as proposições, no entanto, compreendemo-nos a nós mesmos.4.027 Está na essência da proposição poder comunicar-nos um nóvo sentido.4.03 Uma proposição deve comunicar nôvo sentidocom velhas expressões.• A proposição nos comunica uma situação, desorte que deve estar essencialmente vinculada a ela.E a vinculação consiste precisamente em queela é sua figuração lógica.A proposição só asserta algo enquanto é figu-ração.4.031 Uma situação é justaposta à proposição, porassim dizer, por tentativas.É possível dizer diretamente: esta proposiçãorepresenta esta ou aquela situação, em vez de estaproposição tem êste ou aquêle sentido.• 4.0311 Um nome presenta uma coisa, outro, outracoisa, e estão ligados entre si de tal modo que otodo — como quadro vivo (ein lebendes Bild)—presentaoestadodecoisas.4.0312 A possibilidade da proposição se estriba no prin-cípio da substituição dos objetos por meio de signos.Meu pensamento basilar é que as "constanteslógicas" nada substituem; que a lógica dos fatosnão se deixa substituir.73
    • 4.032 A proposição é urna figuração da situação única-mente enquanto fôr lógicamente articulada.(Também a proposição Ambulo é composta, poissua raiz com outra desinência nos dá outro sentido,o mesmo acontecendo se esta desinência estiver comoutra raiz.) . 4.04 Tanto se distinguirá na proposição quanto nasituação que ela representa.Ambos devem possuir a mesma multiplicidadelógica (matemática). (Cf. a mecânica de Hertz apropósito dos modelos dinâmicos.)4.041 Esta multiplicidade matemática não pode natu-ralmente ser de nôvo afigurada. Ao afigurar não épossível colocar-se fora dela.4.0411 Se quiséssemos, por exemplo, exprimir o que éexpresso por "(x) fx" apondo um índice junto a"fx", a saber: "Univ. fx", isto não bastaria — nãosaberíamos o que foi universalizado. Se quiséssemosindicá-lo por um índice "a" — tal como "Azar,isto também não bastaria — não conheceríamos oescopo da designação da universalidade.Se quiséssemos tentar graças à introdução deuma marca no lugar do argumento — por exemplo:"(A, A) . F(A, A)" —, isto também não bastaria,pois não poderíamos fixar a identidade das variá-veis. E assim por diante.Todos ésses modos de designação não bastam,porquanto não possuem a necessária multiplicidadematemática.4.0412 Pelo mesmo motivo não basta a explicaçãoidealista da visão das relações espaciais por meia,de "óculos espaciais", já que êstes não podem explicara multiplicidade que essas relações possuem. 4.05 Compara-se a realidade com a proposição.4.06 Sõmente por isso a proposição pode ser verda-deira ou falsa, quando ela é uma figuração da reali-dade.4.061 Se não se observar que uma proposição possuisentido independente dos fatos, então fàcilmente seacredita que o verdadeiro e o falso são relaçõeseqüiponderantes entre signos e designado.Seria então possível dizer, por exemplo, que "p"designa segundo a modalidade do verdadeiro o que"-p", segundo a modalidade do falso, etc.4.062 Não seria possível fazer-se entender com propo-sições falsas assim como se féz até agora com verda-deiras; desde que se soubesse que são mentadasfalsamente ? Não! Porquanto uma proposição éverdadeira se a situação é tal como dizemos porseu intermédio, e se com "p" mentássemose se a situação fôsse tal como a mentamos, então"p" não seria falso na nova concepção mas verda-deiro. 4.0621 É importante, porém, que os signos "p" e "-p"possam dizer a mesma coisa, pois isto mostra que.o signo a nada corresponde na realidade.A negação aparecer numa proposição não émarca característica de seu sentido = p).As proposições "p" e "-p" têm sentido oposto,mas a elas corresponde uma e a mesma realidade.4.063 Afiguremo-nos um exemplo para esclarecer oconceito de verdade: dada uma mancha preta numpapel branco; pode-se descrever a forma da manchaindicando para cada ponto dela se é branco ou prêto.Ao fato de que um ponto seja prêto correspondeum fato positivo; de que um ponto seja branco(não-prêto) corresponde um fato negativo. Se designoum ponto da superfície (um valor de verdade, segundoFrege), então isto corresponde à assunção estabele-cida pelo julgamento, etc., etc.Para poder dizer que um ponto é prêto oubranco antes devo saber quando lhe chamo de brancoe quando de prêto — para poder dizer "p" é verda-deiro (ou falso) devo ter determinado em que condi-ções chamo "p" verdadeiro e, dêsse modo, deter-mino o sentido da proposição.74 75
    • símile falha apenas no ponto seguinte: pode-mos indicar um ponto do papel sem saber o queseja branco e o que seja prêto; uma proposiçãosem sentido, porém, não corresponde a nada, poisnão designa coisa alguma (valor de verdade) cujaspropriedades fôssem chamadas "falsas" ou "verda-deiras" — o verbo de uma proposição não é "éverdadeiro" ou "é falso", como acreditava Frege,mas o verbo já deve conter o que "é verdadeiro". 4.064 Cada proposição jd deve possuir um sentido;a afirmação não lho pode dar pois afirma precisa-mente o sentido. E o mesmo vale para a negação, etc. 4.0641 É possível dizer: a negação já se reporta aolugar lógico determinado pela proposição negada.A proposição negadora determina outro lugarlógico do que a negada.A proposição negadora determina um lugar lógicocom a ajuda do lugar lógico da proposição negada,quando descreve aquêle permanecendo fora dêste.Poder negar de nôvo a proposição negada mostraque o que é negado já é uma proposição, não sendoa mera preparação de uma proposição.4.1 A proposição representa a subsistência e anão-subsistência dos estados de coisas.4.11 A totalidade das proposições verdadeiras é tôdaa ciência da natureza (ou a totalidade das ciênciasnaturais).4.111 A filosofia não é ciência da natureza.(A palavra "filosofia" deve denotar alguma coisaque se coloca acima ou abaixo mas não ao lado dasciências naturais.)4.112 A finalidade da filosofia é o esclarecimentológico dos pensamentos.A filosofia não é teoria mas atividade.Uma obra filosófica consiste essencialmente emcomentários.A filosofia não resulta em "proposições filosó-ficas" mas em tornar claras as proposições.76A filosofia deve tomar os pensamentos que, porassim dizer, são vagos e obscuros e torná-los clarose bem delimitados.4.1121 A psicologia não é mais aparentada h, filosofiado que qualquer outra ciência natural.A teoria do-conhecimento é a filosofia da psico-logia.Não corresponde meu estudo sôbre a linguagemsimbólica ao estudo dos processos do pensamento,os quais os filósofos consideram tão essencial paraa filosofia da lógica ? Eles apenas se confundem namaior parte com investigações psicológicas inessen-ciais, existindo um perigo análogo para meu método.4.1122 A teoria de Darwin não tem mais a ver com• a filosofia do que qualquer outra hipótese das ciênciasnaturais.4.113 A filosofia delimita o domínio contestável dasciências naturais.4.114 Deve delimitar o pensável e com isso o impen-sável.Deve demarcar o impensável do interior pormeio do pensável.4.115 Denotará o indizível, representando claramenteo dizível.4.116 Tudo em geral o que pode ser pensado o podeclaramente. Tudo o que se deixa exprimir, deixa-se claramente.4.12 A proposição pode representar a realidade in-teira, não pode, porém, representar o que ela deveter em comum com a realidade para poder repre-sentá-la — a forma lógica.Para podermos representar a forma lógica seriapreciso nos colocar, com a proposição, fora da lógica;a saber, fora do mundo.4.121 A proposição não pode representar a formalógica, esta espelha-se naquela.Não é possível representar o que se espelhana linguagem.77
    • O que .ge exprime na linguagem não podemosexpressar por meio dela.A proposição mostra a forma lógica da reali-dade.Ela a exibe.4.1211 Dêsse modo, a proposição "fa" mostra que oobjeto a aparece em seu sentido, duas proposições"fa" e "ga" que em ambas se trata do mesmo objeto.Se duas proposições se contradizem, isto é mos-trado por sua estrutura; do mesmo modo, quandouma se segue da outra. E assim por diante. 4.1212 O que pode ser mostrado não pode ser dito.4.1213 Agora compreendemos nosso sentimento de queestamos de posse de uma concepção lógica correta~ente quando tudo esteja conforme em nossa lin-guagem simbólica.4.122 Podemos em certo sentido falar de proprie-dades formais de objetos e estados de coisas, emparticular de propriedades da estrutura dos fatos, eno mesmo sentido de relações formais e de relaçõesde estruturas.(Em lugar de propriedade da estrutura falotambém de "propriedade interna"; em lugar derelação de estruturas, "relação interna".Introduzo essas expressões para mostrar o funda-mento da confusão, muito difundida no meio dosfilósofos, entre relações internas e relações própria-mente ditas (externas).)A subsistência de tais propriedades e de taisrelações internas não pode ser, todavia, afirmadapor proposições, mas se mostra nas proposições que,apresentam os estados de coisas e os objetos emquestão.4.1221 A uma propriedade interna de um fato podemosainda chamar de traço dêsse fato. (No sentido emque falamos, por exemplo, de traços faciais.) 4.123 Uma propriedade é interna quando fôr impen-sável que seu objeto não a possua.78(Esta côr azul e aquela estão na relação internade mais claro. e eo ipso mais escuro. É impensávelêstes dois objetos não estarem nesta relação.)(Ao emprêgo impreciso das palavras "proprie-dade" e "relação" corresponde aqui o emprêgoimpreciso da palavra "objeto".)4.124 A subsistência de uma propriedade interna deuma situação possível não se expressa por umaproposição mas, na proposição que a representa, poruma propriedade interna desta proposição.Seria, pois, absurdo tanto imputar como nãoimputar à proposição uma propriedade formal.4.1241 Não se podem distinguir as formas umas dasoutras dizendo que uma tem esta propriedade eaquela, outra, pois isto pressupõe que teria sentidoassertar ambas propriedades de ambas as formas.4.125 A subsistência de uma relação interna entresituações possíveis exprime-se lingülsticamente pormeio de uma relação interna entre as proposiçõesque as representam. 4.1251 Isto liquida a disputa "se tôdas as relações sãointernas ou externas". 4.1252 Às séries ordenadas por relações internas chamode séries formais.A série dos números não se ordena segundouma relação externa, mas segundo uma relaçãointerna.Da mesma maneira, a série de proposições"aRb","(3x) : aRx . xRb","(3x, y) : aRx . xRy . yRb", e assim por diante.(Estando b numa dessas relações com a, chamo-lhe de sucessor de a.)4.126 No mesmo sentido em que falamos de proprie-dades formais, podemos também nos referir a con-ceitos formais.(Introduzo essa expressão com o intuito dedeslindar a confusão dos conceitos formais com os79
    • conceitos autênticos, que perpassa tôda a velhalógica.)Não é possível exprimir por uma proposição quealgo caia sob um conceito formal como um objetoMe. Isto se mostra, porém, no signo dêsse próprioobjeto. (O nome mostra que designa um objeto,os signos numéricos, que designam um número, etc.)Os conceitos formais não podem, pois, comoos conceitos própriamente ditos, ser representadospor uma função.Porquanto suas marcas características, as pro-priedades formais, não se representam por funções.A expressão da propriedade formal é um traçode certos símbolos.O signo das marcas características de um con-ceito formal é um traço próprio a todos os símbolos,cujas denotações caem sob o conceito.A expressão do conceito formal é uma variávelproposicional, em que apenas êste traço próprio éconstante.4.127 A variável proposicional designa o conceito for-mal, e seus valôres, os objetos que caem sob êsseconceito.4.1271 Cada variável é signo de um conceito formal.Porquanto cada variável representa uma formaconstante que todos os seus valôres possuem, e quepode ser concebida como a propriedade formal dêssesvalôres.4.1272 De sorte que a variável nome "x" é o signoapropriado ao pseudoconceito objeto.Sempre que a palavra "objeto" ("coisa", etc.)-,fôr corretamente empregada, será expressa na ideo-grafia pela variável nome.Por exemplo, na proposição "Há dois objetosque ...", por "(3x, y) ..."Sempre, contudo, que fôr empregada de outramaneira, a saber, como palavra de um conceitoprópriamente dito, nascem pseudoproposições absur-das.Não se pode dizer, por exemplo, "Há objetos"como se diz "Há livros". Nem tampouco "Há 100objetos" ou "Há X0 objetos".E é absurdo falar do número de todos os objetos.O mesmo vale para as palavras "complexo","fato", "função", "número", etc.Tôdas designam conceitos formais e são repre-sentadas na ideografia por variáveis e não por fun-ções ou classes. (Como Frege e Russell acreditavam.)Expressões como "1 é um número", "Há apenasum zero" e tôdas as outras semelhantes são absurdas.(É, pois, absurdo dizer "Há apenas um 1", tantoquanto seria absurdo dizer: 2 -I- 2 é às 3 Lhorasigual a 4.)4.12721 O conceito formal já está dado com um objetoque cai sob éle. Não se pode, portanto, introduzircomo conceitos fundamentais objetos de um con-ceito formal e ainda o próprio conceito formal. Nãose pode, por exemplo, introduzir o conceito de fun-ção e ainda funções especiais (como Russell) naqualidade de conceitos fundamentais; ou tambémo conceito de número e números determinados.4.1273 Se quisermos exprimir, na ideografia, a propo-sição universal: "b é sucessor de a", precisamos deuma expressão para o têrmo geral da série formal:aRb ; (3x) : aRx . xRb ; (3x, y) : aRx . xRy . yRb, .. .Só é possível exprimir o têrmo universal de umasérie formal por meio de uma variável, pois o con-ceito: membro de uma série formal, é um conceitoformal. (A isso desatentaram Frege e Russell; amaneira pela qual pretendem exprimir proposiçõesuniversais, como a mencionada, é por isso falsa,contendo um circulus vitiosus.)Podemos determinar o têrmo universal da sérieformal dando seu primeiro têrmo e a forma geralda operação que gera o têrmo seguinte a partir daproposição precedente.4.1274 É absurda a pergunta pela existência de umconceito formal, pois não há proposição que possarespondê-la.80 8.1
    • (Não é possível, por exemplo, perguntar: "Háproposições sujeito-predicado inanalisáveis ?")4.128 As formas lógicas são anuméricas.De sorte que não há na lógica números exce-lentes, não havendo monismo ou dualismo filosó-ficos, etc.4.2 O sentido de uma proposição é sua concordânciaou sua discordância com a possibilidade da subsis-tência ou não-subsistência de estados de coisas.4.21 A proposição mais simples, a proposição ele-mentar, afirma a subsistência de um estado decoisas. 4.211 É um signo da proposição elementar que ne-nhuma outra possa estar em contradição com ela.4.224.2211 Ainda que o mundo fôsse infinitamente com-plexo, de modo que cada fato fôsse constituído pormuitos estados de coisas ao infinito e cada estadode coisas composto por muitos objetos ao infinito,mesmo assim deveria haver objetos e estados decoisas. 4.23 O nome só aparece na proposição em conexãocom proposições elementares. 4.24 Os nomes são os símbolos mais simples, indico-os por letras singulares ("x", "y", "z").Escrevo as proposições elementares como fun-ção dos nomes, com a seguinte forma: "fx", "fp(x, y)",etc.Ou indico-as por meio das letras p, q, r.4.241 Se emprego dois signos numa única e mesmadenotação, isto vem expresso quando introduzo entreambos o signo "="."a = b" equivale pois a: o signo "a" é substi-tuível pelo signo "b".(Se introduzo por meio de uma equação umAvo signo "b", determinando que deve substituirum signo "a" já conhecido, então escrevo a equação— definição — (como Russell) na forma "a = b Def.".A definição é uma regra a propósito de signos.)4.242 Expressões de forma "a = b" são, pois, recursosde representação; nada dizem a respeito da deno-tação dos signos "a", "b".4.243 Podemos compreender dois nomes sem saber sedesignam a mesma coisa ou duas coisas diferentes ?— Podemos compreender uma proposição em quedois nomes aparecem sem saber se denotam o mesmoou o diverso ?Conhecendo a denotação de uma palavra inglêsae de outra alemã de mesma denotação, não me épossível ignorar que ambas possuem a mesma deno-tação, não me é possível não traduzi-las uma pelaoutra.Expressões como "a = a" ou destas derivadasnão são nem proposições elementares nem signossignificativos. (Isto será mostrado mais tarde.)4.25 Se a proposição elementar fôr verdadeira, oestado de coisas subsiste; se fôr falsa, o estado decoisas não subsiste.4.26 A indicação de tôdas as proposições elementaresverdadeiras descreve o mundo completamente. Omundo é completamente descrito pela indicação detôdas as proposições elementares mais a indicaçãode quais são as verdadeiras e quais as falsas. 4.27 A respeito da subsistência e da não-subsistênciade n estados de coisas dá-seK. = E ) possibilidades.vooA proposição elementar é constituída de nomes.É uma conexão, um encadeamento de nomes.4.221 É óbvio que, graças à análise da proposição,devemos chegar a proposições elementares que con-sistam de nomes numa vinculação imediata.Pergunta-se aqui como se dá o vínculo proposi-cional.82 83
    • É possível tôdas as combinações de estados decoisas subsistirem e outras não subsistirem.4.28 A essas combinações correspondem assim muitaspossibilidades de verdade — e falsidade — de nproposições elementares.4.3 As possibilidades de verdade das proposiçõeselementares denotam as possibilidades da subsis-tência e da não-subsistência de estados de coisas.4.31 Podemos representar as possibilidades de ver-dade do seguinte modo ("V" denota "verdadeiro","F" denota "falso". As séries de "V" e "F" sob asérie das proposições elementares denotam suas possi-bilidades de verdade num simbolismo fàcilmentecompreensível):.4.4 A proposição é a expressão da concordância eda discordância com as possibilidades de verdade-das proposições elementares.4.41 As possibilidades d verdade das proposiçõeselementares são as condiOes da verdade e falsidadedas proposições.4.411 É de antemão provável que a introdução deproposições elementares seja fundamental para acompreensão de todos os outros modos de proposi-ção. A compreensão das proposições universais, comefeito, depende palpdvelmente da das proposiçõeselementares.4.42 No que respeita à concordância ou à discor-dância de uma proposição com as possibilidades deverdade de n proposições .elementares háicn (K„E = L„ possibilidadesK:)4.43 A concordância com as possibilidades de ver-dade podemos exprimi-la apondo-lhe no esquema ainsígnia "V" (verdadeiro).A falta dessa insígnia denota a discordância.4.431 A expressão da concordância e da discordânciacom as possibilidades de verdade das proposiçõeselementares exprime as condições de verdade daproposição.A proposição é expressão de suas condições deverdade.(Por isso Frege agiu corretamente ao tomá-lasdesde logo como explicação dos signos de sua ideo-grafia. Sómente a explicação do conceito de ver-dade em Frege é falsa: f óssem realmente "o verda-deiro" e "o falso" os objetos e os argumentos emetc., então, segundo a determinação de Frege,o sentido de "-p" não estaria determinado demodo algum.)4.44 O signo que surge por meio da aposição dessainsígnia "V" às possibilidades de verdade é umsigno proposicional.4.441 É claro que nenhum objeto (ou complexo deobjetos) corresponde ao complexo de signos "F" ou"V"; tampouco como às linhas horizontais ouverticais ou aos parênteses. — Não há "objetoslógicos".Algo análogo vale naturalmente para todos ossignos que exprimem a mesma coisa que os esquemasde "V" e "F".P 4 r pV V V V V VF V V F V ,V F V V FV V F , F FF F VV FV F FF F F84 85
    • 4.442 Por exemplo:V V VF V VV FF F V"é um signo proposicional.(O "traço de juízo" "1—", introduzido por Frege,do ponto de vista lógico carece inteiramente dedenotação; indica em Frege (e Russell) que taisautores tomam como verdadeiras as proposições assimdesignadas. "1—" pertence tão pouco à construçãoda proposição como, por exemplo, a numeração `dasproposições. Uma proposição não pode, de formaalguma, assertar de si mesma que é verdadeira.)Se as séries de possibilidades de verdade foremfixadas de vez no esquema, por meio de uma regrade combinação, a última coluna por si só já exprimeas condições de verdade. Ao escrevermos esta colunacomo série, o signo proposicional será o seguinte:("VV–V) (p, q)", ou de modo mais nítido "(VVFV)(p, g)".(O número de posições no interior dos parên-teses da esquerda está determinado pelo número detêrmos dos da direita) 4.45 Para n proposições elementares há L„ grupospossíveis de condições de verdade.Os grupos de condições de verdade que perten-cem às possibilidades de verdade de um númerode proposições elementares ordenam-se numa série. 4.46 Entre os grupos possíveis de condições de ver-dade há dois casos extremos.No primeiro caso a proposição é verdadeirapara tôdas as condições de verdade das proposiçõeselementares. Dizemos então que as condições deverdade são tautológicas.No segundo caso a proposição é falsa paratôdas as condições de verdade: as condições deverdade são contraditórias.No primeiro caso chamamos à proposição detautologia, no segundo, contradição. 4.461 A proposição mostra o que diz, a tautologia ea contradição que não dizem nada.A tautologia não possui condições de verdadepois é verdadeira sob qualquer condição; a contra-dição sob nenhuma condição é verdadeira.A tautologia e a contradição são vazias desentido.(Como o ponto de onde duas flechas partemem direções opostas.)(Nada sei, por exemplo, a respeito do tempose sei que chove ou não chove.)4.4611 A tautologia e a contradição não são, porém,absurdas; pertencem ao simbolismo do mesmo modoque "O" pertence ao simbolismo da aritmética.4.462 A tautologia e a contradição não são figuraçõesda realidade. Não representam nenhuma situaçãopossível, porquanto aquela permite tôdas as situa-ções possíveis, esta, nenhuma.Na tautologia as condições de concordância como mundo — as relações representativas — cance-lam-se umas às outras, pois não se põem em relaçãorepresentativa com a realidade. 4.463 As condições de verdade determinam- o campoaberto aos fatos pela proposição.(A proposição, a figuração, o modèlo são, numsentido negativo, como um corpo sólido que limitaa liberdade de movimento de outro; no sentidopositivo, como um espaço limitado por uma subs-tância sólida onde um corpo pode ter lugar.)A tautologia deixa inteiramente realidade oespaço lógico — infinito —; a contradição preencheo espaço lógico inteiro, não deixando à realidadeponto algum. Nenhuma delas pode, por conse-guinte, determinar a realidade de um modo qualquer. 4.464 É certa a verdade da tautologia, da proposiçãoé possível e da contradição impossível.86 87
    • (Certo, possível, impossível: temos aqui a indi-cação da gradação que precisamos para a teoriada probabilidade.)O produto lógico de uma tautologia e de umaproposição diz o mesmo que a proposição. O pro-duto é, pois, idêntico à proposição, porquanto nãose pode alterar o essencial do símbolo sem alterarseu sentido.• 4.466 A uma determinada união lógica de signoscorresponde uma determinada união da denotaçãodêles; cada união arbitrdria corresponde apenas asignos desunidos.Isto quer dizer que proposições, verdadeiraspara qualquer situação, não podem ser em geraluniões de signos, pois, caso contrário, apenas deter-minadas uniões de objetas poderiam a elas corres-ponder.(E a nenhuma união lógica corresponde ne-nhuma união de objetos.)Tautologia e contradição são casos-limites daunião de signos, a saber, sua dissolução.4.4661 Por certo na tautologia e na contradição ossignos ainda estão ligados uns aos outros, isto é,relacionam-se entre si, mas estas relações são despro-vidas de denotação, são inessenciais para o símbolo.4.5 Agora parece possível estabelecer a forma maisgeral da proposição, isto é, estabelecer uma descri-ção das proposições numa linguagem simbólica qual-quer, de tal modo que cada um dos sentidos possí-veis poderia ser expresso por um símbolo adequadoà descrição e cada símbolo adequado à descriçãopoderia exprimir um sentido, se as denotações dosnomes fôssem convenientemente escolhidas.É claro que, descrevendo a forma mais geral,de uma proposição, admente o que é essencial deveser descrito — caso contrário não seria a mais geral.Prova-se a existência de uma forma geral daproposição porque não deve haver proposição alguma-cuja forma não seja antes pressuposta (isto é, cons-truída). A forma geral da proposição é: isto estádo seguinte modo.884.51 Supondo que tôdas as proposições elementaresme sejam dadas, surge a pergunta: quais são asproposições que posso formar a partir delas ? Eestas são tôdas as proposições e assim elas são limi-tadas.4.52 As proposições são tudo o que se segue da tota-lidade das proposições elementares (sem dúvida por-que se parte da totalidade de tidas elas). (Num certosentido é possível dizer que tôdas as proposiçõessão generalizações das proposições elementares.)4.53 A forma geral da proposição é uma variável.5 A proposição é uma função de verdade dasproposições elementares.(A proposição elementar é uma função de ver-dade de si mesma.)5.01 As proposições elementares são os argumentosde verdade da proposição.5.02 É fácil confundir argumentos de uma funçãocom índices de nomes. Conheço em particular adenotação de um signo que a contém tanto peloargumento como pelo. índice.No sinal de Russell "±c", por exemplo, "a"é um índice que indica valer o signo inteiro paraa soma de números cardinais. Esta designação,porém, se apóia num ajuste arbitrário, de sorteque seria possível em vez de "±," escolher outrosigno simples; em ",,,p", entretanto, "p" não éíndice algum, mas argumento: o sentido de "—p"não pode ser compreendido sem que antes o sentidode "p" o seja. (No nome Julius Caesar, "Julius"é índice. Éste é sempre parte da descrição do objetocujos nomes vinculamos a èle. Por exemplo, o Caesarda gente juliana.)A confusão entre argumento e índice constitui,se não me engano, a base da teoria de Frege a res-peito da denotação das proposições e das funções.Para Frege, as proposições da lógica seriam nomes,e seus argumentos, os índices dêsses nomes.89
    • 5.1 As funções de verdade se ordenam em séries.Ëste é o fundamento da teoria da probabili-dade.5.101 As funções de verdade de todos os números deproposições elementares inscrevem-se no seguinteesquema :(V V V V) (p, q) Tautologia (Se p, então p; e se q, então q) (pjp • qjq)(F V V V) (p, q) em palavras: Não ambos p e q. . q))(V F V V) (p, q) em palavras: Se q, então p. (qjp)(V V F V) (p, q) em palavras: Se p, então q. (pDq)(V V V F) (p, q) em palavras: ,p ou q. (p v q)(F F V V) (p, q) em palavras: Não q. (--,q)(F V F V) (p, q) em palavras: Não p. (-p)(F V V F) (p, q) em palavras: p ou q mas não ambos. (p.,-,q: v(V F F V) (P, g) em palavras: Se p, então q; e se q, então p. (pmq)(V F V F) (p, q) em palavras: p(V V F F) (p, q) em palavras: q(F F F V) (p, q) em palavras: Nem p nem q. ou (plq)(F F V F) (p, q) em palavras: P e não q. (2)."-4)(F V F F) (p, q) em palavras: q e não p.(V F F F) (p, q) em palavras: q e p. (q . p)(F F F F) (p, q) Contradição (p e não p; e q e não q.) (p.;--p.q.,,,q)A essas possibilidades de verdade de seus argu-mentos de verdade, que confirmam as proposições,chamo de seus fundamentos de verdade.5.11 Se os foildamentos de verdade comuns a umnúmero de proposições, também forem fundamentosde verdade de uma proposição determinada, dize-mos então que a verdade dessa proposição se segueda verdade daquelas outras.5.12 Em particular a verdade de uma proposição "p"segue-se da de outra "q" se todos os fundamentosde verdade da segunda forem fundamentos de ver-dade da primeira.5.121 Os fundamentos de verdade de uma estão con-tidos nos da outra; assim, p segue-se de q.5.122 Se p segue-se de q, o sentido de "p" está con-tido no sentido de "q".5.123 Se um deus criasse um mundo em que certas pro-posições fôssem verdadeiras, criaria do mesmo modoum mundo com o qual concordariam tôdas suasproposições conseqüentes. E assim similarmente nãopoderia criar um mundo em que a proposição "p"fôsse verdadeira, sem criar todos os objetos dela.5.124 A proposição afirma cada proposição que delase segue.5.1241 "p .q" é uma das proposições que afirmam "p"e ao mesmo tempo uma das proposições que afir-mam "q".Duas proposições são opostas uma à outra senão existir qualquer proposição significativa queafirme ambas.Cada proposição que contradiz a outra, nega-a.5.13 Que a verdade de uma proposição segue-se daverdade de outras vemos a partir da estrutura dasproposições.5.131 Se a verdade de uma proposição segue-se da ver-dade de outras, isto se exprime nas relações queas formas dessas proposições mantêm entre si; enão precisamos com efeito colocá-las primeiro na-quelas relações, unindo-as com outra proposição,porquanto essas relações são internas e subsistemenquanto aquelas proposições subsistirem, e porqueelas subsistem.5.1311 Se pois de p v q e de inferimos q, a relaçãoentre as formas das proposições "p v q" e ",--,p"se oculta em virtude da maneira de simbolizar.Se em lugar de "p v q", escrevemos, por exemplo,"plq . I •plq" e em lugar de ",,,p" "pip" (plq = nemp nem q), logo se torna clara a conexão interna.De (x).fx pode-se inferir fa; isto mostra quea universalidade já está presente no símbolo "(x).fx"5.132 Se p segue-se de q, posso então inferir de q, p;deduzir p de q.O modo de inferência há de ser captado apenasde ambas as proposições.90 91
    • &mente elas podem justificar a inferência."Regras de inferência" que — como em Fregee Russell — devem justificar a inferência são vaziasde sentido e seriam supérfluas.5.133 Tôda dedução se dá a priori.5.134 De uma proposição elementar nenhuma outrapode ser deduzida.5.135 De modo algum é possível inferir da subsis-tência de uma situação qualquer a subsistência deuma situação inteiramente diferente dela. 5.136 Não há nexo causal que justifique tal inferência. 5.1361 Não podemos inferir os acontecimentos do futuroa partir daqueles do presente.É superstição a crença no nexo causal.5.1362 A liberdade da vontade consiste em não poderconhecer agora as ações futuras. S6 poderíamosconhecê-las se a causalidade fôsse uma necessidadeinterna, como a inferência lógica. A conexão entreo conhecer e o conhecido é a mesma da necessidadelógica.("A sabe que p ocorre" é vazia de sentido se pfôr uma tautologia.)5.1363 Sendo uma proposição óbvia para nós, não sesegue que seja verdadeira; por conseguinte, a obvie-dade não é justificativa para nossa crença em suaverdade. 5.14 Se uma proposição segue-se de outra, esta dizmais do que aquela, aquela menos do que esta. 5.141 Se p segue-se de q e q de p, ambas são pois umaúnica e mesma proposição. 5.142 A tautologia segue-se de tôdas as proposições:não diz nada.5.143 A contradição é algo comum às proposições, eque nenhuma proposição tem em comum com outra.A tautologia é o que é comum a tôdas as proposi-ções que não têm nada em comum entre si.92A contradição desaparece, por assim dizer, porfora, a tautologia, por dentro de tôdas as proposi-ções.A contradição é o limite externo das proposi-ções, a tautologia, seu centro dessubstancializado.5.15 Seja V, o número dos fundamentos de verçiadeda proposição "r", V„ o número daqueles funda-mentos de verdade da proposição "s" que ao mesmotempo são fundamentos de verdade de "r"; chama-mos então à relação: V„ : V,. de medida de pro-babilidade que a proposição "r" tem em relação àproposição "s".5.151 Seja num esquema como o de cima, no nú-mero 5.101, V, o número de "V" da proposição r;V„ o número daqueles "V" na proposição s queestão na mesma coluna com os "V" da proposi-ção r. A proposição r tem em relação à proposição sa probabilidade V„ 5.1511 Não há: nenhum objeto particular próprio àsproposições probabilísticas.5.152 Chamamos mfituamente independentes as pro-posições que não têm em comum com outras qual-quer argumento de verdade.Duas proposições elementares têm entre si aprobabilidade —1 •2Se p segue-se de q, a proposição "q" tem em rela-ção à proposição "p" a probabilidade 1. A certezada inferência lógica é o caso-limite da probabili-dade.(Aplicação à tautologia e à contradição.)5.153 Uma proposição não é nem provável nem impro-vável. Um acontecimento se dá ou não se dá, nãohá meio-têrmo.5.154 Suponhamos que numa urna estejam tantasbolas brancas quantas pretas (e nenhuma a mais).Tiro uma bola depois da outra e as reponho de nôvona urna. Posso, então, estabelecer pela experiênciaque o número das bolas pretas tiradas e o das bolas93
    • brancas tiradas se aproximam progressivamente umdo outro.•Isto não é, portanto, um fato matemático.Se disser agora: é igualmente provável quetirarei uma bola branca como uma preta, isso querdizer: tôdas as circunstâncias que me são conhe-cidas (incluindo as leis da natureza tomadas hipotè-ticamente) não conferem a um acontecimento ne-nhuma probabilidade a mais do que a outro. Asaber, estão — como se compreende fàcilmente apartir das explicações acima — numa relação deprobabilidade de 2 •O que verifiquei pela experiência é que ambosos acontecimentos independem das circunstânciasdas quais não tenho conhecimento mais próximo.5.155 A unidade das proposições probabilisticas é aseguinte: as circunstâncias — de que, aliás, nãotenho conhecimento mais amplo — conferem a umdeterminado acontecimento tal e tal grau de proba-bilidade.5.156 Dêsse modo, a probabilidade é uma generali-zação.Envolve uma descrição geral de uma formaproposicional.Só na falta de certeza precisamos de proba-bilidade. Quando não conhecemos um fato com-pletamente, mas ao menos sabemos algo a respeitode sua forma.(Uma proposição pode, com efeito, ser uma figu-ração incompleta de uma certa situação, entretantosempre é uma figuração completa.)A proposição probabilistica é como se fôsse umextrato de outras proposições. 5.2 As estruturas, das proposições mantêm entre sirelações internas.5.21 Podemos trazer essas relações internas para nossomodo de expressão, representando uma proposiçãocomo resultado de uma operação que a produz deoutras proposições (as bases da operação).94 5.22 A operação é a expressão de uma relação entreas estruturas do resultado e de suas bases.5.23 Operação é o que deve acontecer com umaproposição a fim de gerar outra a partir dela.5.231 E isso naturalmente dependerá de suas proprie-dades formais, da semelhança interna de suas formas.5.232 A relação interna que ordena uma série equivaleà operação que produz um têrmo a partir de outro.5.233 A operação só pode ter lugar pela primeira vezonde uma proposição nasce de outra de modo lógica-mente denotativo; onde começa, portanto, a cons-trução lógica da proposição.5.234 As funções de verdade das proposições elemen-tares resultam de operações que têm como bases asproposições elementares. (A essa operação chamode operação-verdade.)5.2341 O sentido de uma função de verdade de p éfunção do sentido de p.Negação, soma lógica, multiplicação lógica, etc.,etc., são operações.(A negação inverte o sentido da proposição.)5.24 A operação mostra-se numa variável; mostracomo de uma forma de proposições se pode chegara outra.Torna expressa a diferença de formas,(E o que é comum às bases e ao resultado daoperação são precisamente essas bases.)5.241 A operação não designa forma alguma, masapenas a diferença de formas.5.242 A mesma operação que produz "q" de "p",produz também de "q", "r" e assim por diante.Isto só pode ser expresso porque "p", "q", "r", etc.,são variáveis que tornam expressas de um modogeral certas relações formais.5.25 A realização de uma operação não caracterizao sentido de uma proposição.95
    • A operação nada asserta além de seu resultadoe isto depende das bases dessa operação.(Operações e funções não devem ser confundidas.)5.251 Uma função não pode ser seu próprio argu-mento; no entanto, o resultado de uma operaçãopode muito bem ser sua própria base.5.252 &alente assim é possível o progresso de umtêrmo a outro na série formal (de tipo a tipo nahierarquia de Russell e Whitehead). (Russell eWhitehead não admitiram a possibilidade desse pro-gresso mas fizeram dêle uso repetido.).5.2521 À aplicação progressiva de urna operação sôbreseu próprio resultado chamo sua aplicação sucessiva.("O O O a" resulta de três aplicações sucessivasde "OE" sôbre "a").Em sentido semelhante falo da aplicação suces-siva de muitas operações sôbre um número de propo-sições.5.2522 O têrmo geral de uma seqüência formal a,O a, O O a, . . . escrevo por isso do seguinte modo:"[a, x, Ox]". Esta expressão entre colchêtes é umavariável. O primeiro têrmo da expressão do colchêteé o início da série formal, o segundo a forma deum têrmo qualquer x da série e o terceiro a formadaquele têrmo da série que segue imediatamente a x. 5.2523 O conceito de aplicação sucessiva de operaçãoequivale ao conceito "e assim por diante". 5.253 Urna operação pode anular o efeito de outra.Operações podem suprimir-se mütuamente. 5.254 A operação pode desaparecer (por exemplo, anegação em = p). 5.3 Tôdas as proposições resultam de operações-verdades sôbre as proposições elementares.A operação-verdade é o modo pelo qual a funçãode verdade nasce das proposições elementares.Do mesmo modo que das proposições elemen-tares nasce sua função de verdade, das funções deverdade nasce uma nova, de acôrdo com a essência96da operação-verdade. Cada operação-verdade repro-duz a partir de funções de verdade de proposiçõeselementares uma função de verdade de proposiçõeselementares, a saber, uma proposição. O resultadode cada operação-verdade realizada com resultadosde operações-verdades sôbre proposições elementaresé de nôvo o resultado de uma operação-verdadesôbre proposições elementares.Tôda proposição resulta de operações-verdadessôbre proposições elementares.5.31 Os esquemas do n.° 4.31 possuem também deno-tação quando "p", "q", "r", etc., não são proposi-ções elementares.É fácil verificar que o signo proposicional non.° 4.2 exprime uma função de verdade de proposi-ções elementares ainda quando "p" e "q" são fun-ções de verdade de proposições elementares.5.32 Tôdas as funções de verdade resultam da apli-cação sucessiva de um número finito de operaçõesverdades sôbre proposições elementares. 5.4 Aqui se evidencia que não há "objetos lógicos","constantes lógicas" (no sentido de Frege e- Russell).5.41 Porquanto: todos os resultados de operações-verdades sôbre funções de verdade são idênticos,são urna e a mesma função de verdade de proposi-ções elementares. 5.42 É óbvio que v, D, etc., não são relações nosentido de direita e esquerda.A possibilidade de definição cruzada dos "signosprimitivos" de Frege e Russell já mostra que nãosão primitivos e que não designam relação alguma.evidente que "D", que definimos por ".-"e "v", é idêntico ao que serve para definir "v" coma ajuda de e que êste "v" é idêntico ao pri-meiro. E assim por diante.5.43 Que de um fato p outros ao infinito seguir-se-ão,nomeadamente . etc., é difícil, noinício, de se acreditar. E não é menos extraordi-97
    • nário o número infinito de proposições da lógica(da matemática) seguir:se de meia dúzia de "prin-cípios".Tôdas as proposições da lógica dizem, porém,o mesmo; a saber, nada.5.44 As funções de verdade não são funções mate-riais.Já que, por exemplo, é possível gerar umaafirmação por meio da dupla negação, estará a nega-ção — seja qual fôr o sentido — incluída na afirma-ção ? nega —p ou afirma p, ou ambos ?A proposição não trata a negação comoum objeto; a possibilidade da negação, entretanto,já está antecipada na afirmação.E se houvesse um objeto chamado entãodeveria dizer outra coisa do que "p". Por-quanto uma proposição trataria de enquantoa outra não. 5.441 Êste desaparecimento das aparentes constanteslógicas se dá se ",-,,(3x) . ,,,fx" diz a mesma coisaque "(x) fx" ou "(3x) . fx . x = a", o mesmo que5.442 Caso ,uma proposição nos seja dada, com eladão-se os resultados de tôdas as operações-verdadesque a têm como base.5.45 Se houvesse signos lógicos primitivos, uma ló-gica correta deveria esclarecer suas posições, rela-tivas umas às outras, e justificar sua existência.Deve tornar-se clara a construção da lógica a partirde seus signos primitivos.5.451 Se a lógica possuísse conceitos básicos, êstesdeveriam ser independentes uns dos outros. Admi-tido um conceito básico, deveria Ne ser admitidoem tôdas as vinculações em que em geral aparece.Não é possível, portanto, primeiramente admiti-lonuma conexão para em seguida admiti-lo em outra.Por exemplo, admitida a negação, devemos entendê-la tanto nas proposições de forma "—p", como nasproposições tais que "—(p v q)", "(3x) . ,--fx", etc.Não podemos introduzi-la primeiro para uma classede casos, em seguida para outra: permaneceria duvi-doso se sua denotação seria a mesma em ambos oscasos, não havendo motivo de utilizar para êssescasos o mesmo modo de vincular os signos.(Em resumo, para a introdução de signos primi-tivos vale, mutatis mutandis, o que Frege (nos Prin-cípios da Aritmética) disse a propósito da introduçãode signos por meio de definições.)5.452 A introdução de um nôvo recurso no simbolismoda lógica sempre há de ser um acontecimento plenode conseqüências. Nenhum recurso nôvo há de serintroduzido na lógica — entre parênteses ou à mar-gem — por assim dizer, com cara inocente.(Aparecem nos Principia Mathematica de Russelle Whitehead definições e princípios em palavras.Por que de repente palavras ? Isto demanda umajustificação, que falta e deve faltar, pois o procedi-mento não é de fato permitido.)Se todavia a introdução de nôvo recurso seprovou necessária, deve-se perguntar imediatamente:onde êsse recurso deve ser sempre empregado ? Sualocalização na lógica deve ser esclarecida.5.453 Todos os números da lógica devem deixar-sejustificar.Ou .melhor, deve evidenciar-se que não há nú-meros na lógica.Não há número excelente.5.454 Não há na lógica um lado a lado, pois não háclassificação.Não pode haver na lógica o mais geral ou omais especial.5.4541 A solução dos problemas lógicos deve ser sim-ples, já que êstes colocam o padrão daJimplicidade.Os homens sempre tiveram o pressentimentoque deveria haver um domínio de questões cujasrespostas — a priori — fôssem simétricas e unidasa uma construção acabada e regular.Um domínio em que vale a sentença: simplexsigillum veri.98
    • 5.46 Caso se introduzam corretamente os signos lógi-cos, então já se introduz o sentido de tôdas as suascombinações; portanto, não apenas "p v q" mas tam-bém ",-,(pv,--,q)", etc., etc. Já se teria introduzido,pois, o efeito de tôdas as combinações meramente-possíveis de parênteses. E assim estaria claroque os signos primitivos própriamente universaisnão seriam "p v q", "(3x) . fx" mas a forma maisgeral de suas combinações.5.461 Muito denota o fato aparentemente desimpor-tante de que as pseudo-relações lógicas como v ouprecisem de parênteses — ao contrário das rela-ções reais.A utilização de parênteses junto a esses pseudo-signos primitivos já indica que não são signos primi-tivos reais. E ninguém acreditará porventura queos parênteses possuam denotação autônoma.5.4611 Os signos das operações lógicas são pontuações.5.47 É claro que tudo o que se diz de antemão sôbrea forma de tôdas as proposições deve ser dito aomenos uma vez.Na proposição elementar já estão contidas tôdasas operações lógicas. Porquanto "fa" diz o mesmoque "(3x) . fx . x = a".Onde há composição já há argumento e função,e onde estão éstes já estão tôdas as constantes lógicas.Poder-se-ia dizer: uma constante lógica é aquiloque tôdas as proposições, conforme sua natureza,possuem em comum.Isto é, porém, a forma proposicional geral.5.471 A forma proposicional geral é a essência daproposição.5.4711 Dar a essência da proposição quer dizer dar aessência de t6das as descrições e, por conseguinte,a essência do mundo.5.472 A descrição da forma proposicional mais geralé a descrição de um e um só signo primitivo universalda lógica.5.473 A lógica deve cuidar de si mesma.Um signo possível também deve poder designar.Tudo o que na lógica é possível também é permi-tido. ("Sócrates é idêntico" não diz nada, pois nãohá propriedade que se chame "idêntico". A propo-sição é absurda porque não encontramos uma deter-minação arbitrária, e não porque o símbolo em sie para si não fôsse permitido.)Em certo sentido, não podemos errar na lógica.5.4731 O óbvio de que Russell tanto fala só pode tor-nar-se prescindível porque a própria linguagem impedeos erros lógicos. — Que a lógica seja a priori con-siste em que nada ilógico pode ser pensado.5.4732 Não podemos dar a um signo um sentido incor-reto.5.47321 O lema de Occam não é por certo uma regraarbitrária, ou que se justifique por seus resultadospráticos; diz apenas que unidades de signos desne-cessárias nada designam.Signos que preenchem uma finalidade são lógi-camente equivalentes, os que preenchem nenhumasão ldgicamente desprovidos de denotação.5.4733 Frege diz: cada proposição formada legitima-mente deve ter um sentido; eu digo : cada propo-sição possível é legitimamente formada e, se nãotiver sentido, isto só é possível porque não empresta-mos denotação a algumas de suas partes consti-tuintes.(Ainda que acreditemos tê-lo feito.)Dêsse modo, "Sócrates é idêntico" não diz nada,porque não emprestamos à palavra "idêntico" comoadjetivo denotação alguma. Quando aparece comosigno de igualdade, ela simboliza de maneira total-mente diversa — é outra a relação designadora —,de sorte que o símbolo, em ambos os casos, é inteira-mente diferente; ambos os símbolos apenas têm,por acidente, o signo em comum. 5.474 O número das operações básicas necessáriasdepende apenas de nossa notação.100 101
    • 5.475 Trata-se apenas de formar um sistema de signoscom número determinado de dimensões — com umamultiplicidade matemática determinada.5.476 É claro que não se discute aqui o número deconceitos fundamentais que devem ser designados,mas a expressão de uma regra. 5.5 Cada função de verdade resulta da aplicaçãosucessiva da operação ( – – – – V) , ) sôbreproposições elementares.Esta operação nega tôdas as proposições nointerior dos parênteses da direita, e a chamo negaçãodessas proposições.5.501 Uma expressão nos parênteses cujos têrmossejam proposições — quando é indiferente a seqüênciados têrmos nos parênteses — indico por meio deum signo da forma "( )" . "E" é uma variável cujosvalôres são os têrmos da expressão entre parênteses,e o traço sôbre a variável indica que esta substituinos parênteses todos os seus valôres.(Se, por exemplo, E tem 3 valôres P, Q, I?,= ,Q,R)•)Serão fixados os valôres das variáveis.A fixação é a descrição das proposições que avariável substitui.É inessencial como se dá a descrição dos têrmosda expressão entre parênteses.Podemos distinguir três maneiras de descrever:1) Enumeração direta; neste caso podemos, emlugar das variáveis, colocar simplesmente seus valôresconstantes. 2), Indicação de uma função fx cujosvalôres, para todos os valôres de x, constituam asproposições a serem descritas. 3) Indicação de umalei formal segundo a qual cada proposição é formada;neste caso os têrmos da expressão entre parêntesessão todos os têrmos de uma série formal. 5.502 Escrevo pois "N(W em lugar de "((E , • • • • )".N( ) é a negação de todos os valôres da va-riável proposicional5.503 Evidentemente é fácil exprimir como proposi-ções podem formar-se graças a esta operação e comoproposições não têm de ser formadas graças a ela;e isto também pode encontrar uma expressão exata. 5.51 Se E tiver apenas um valor, N( - = (não p),se tiver dois valôres, N(( ) = (nem p nem q).5.511 Como é possível a lógica, que tudo abrange eespelha o mundo, precisar de tais artifícios e mani-pulações especiais ? Sômente porque tudo isto estáligado a uma rêde infinitamente fina, ao grandeespelho.5.512 "–p" é verdadeiro se "p" fôr falso. Portanto,numa proposição verdadeira ",,p", "p" é uma falsaproposição. Como lhe é possível fazer o traço "","concordar com a realidade ?O que é negado em "–p" não é maso que é comum a todos os signos dessa notaçãoque negam p.Dêsse modo, a regra comum pela qual se for-mam ",■,p", , , etc.,etc. (ao infinito). E o que é comum espelha a nega-ção.5.513 Poder-se-ia dizer: O que é comum a todos ossímbolos que afirmam tanto p como q é a proposi-ção "p .q". O que é comum a todos os símbolosque afirmam p ou q, é a proposição "p v q".E assim se pode dizer: Duas proposições sãoopostas mútuamente se nada possuem em comum;e: cada proposição tem apenas um negativo, poishá apenas uma proposição que se situa inteiramentefora dela.E na própria notação de Russell é evidenteque "q: p v diz a mesma coisa que "q" e que"p v não diz nada.5.514 Fixada uma notação, há nela uma regra pelaqual são formadas tôdas as proposições negadorasde p, uma regra pela qual são formadas tôdas as192 103
    • proposições afirmadoras de p, uma regra pela qualsão formadas tôdas as proposições afirmadoras de pou q, e assim por diante. Essas regras são equiva-lentes aos símbolos e nelas espelha-se o seu sentido.5.515 É preciso indicar que, em nossos símbolos, oque é ligado mutuamente por "v", " . ", etc., deveser proposições.E isto ocorre, pois o símbolo "p" e "q" jápressupõem "v", etc. Se o signo "p" em "p v q"não substituir um signo complexo, não pode possuirsentido sózinho; mas então também os signos "p v p","p .p", que têm o mesmo sentido, que "p", nãoteriam sentido. Se entretanto "p v p" não tiversentido, então do mesmo modo "p v q" não terásentido.5.5151 Deve o signo da proposição negativa ser for-mado por meio do signo da positiva ? Por que nãose poderia exprimir a proposição negativa por umfato negativo ? (Do seguinte modo: se "a" não serelacionar de modo determinado com "b", isto po-deria exprimir que aRb não ocorre.)Mas também aqui a proposição negativa seforma indiretamente pela positiva.A proposição positiva deve pressupor a exis-tência da proposição negativa e vice-versa.5.52 Sejam os valôres de E todos os valôres deuma função fx para todos os valôres de x, entãoN() = —(3x) • fx.5.521 Separo o conceito todo das funções de verdade.Frege e Russell introduziram a universalidadeem ligação com o produto lógico ou a soma lógicae, asse modo, tornou-se difícil entender as propo-sições "( 3x) . fx" e "(x) . fx", em que ambas asidéias permanecem ocultas.5.522 É peculiar à designação da universalidade:1) referir-se a uma protofiguração lógica; 2) salientaras constantes.1045.523 A designação da universalidade aparece comoargumento.5.524 Caso os objetos estejam dados, nos estarãodados todos os objetos.Caso as proposições elementares estejam dadas,já nos estão dadas tôdas as proposições elementares.5.525 É incorreto interpretar a proposição "(3x) fx"— como Russell o faz — pelas palavras: "fx épossível".Certeza, possibilidade e impossibilidade de umasituação não se expressam por meio de uma pro-posição mas por ser a expressão uma tautologia,uma proposição significativa ou uma contradição.Aquéle caso precedente a que sempre se háde apelar já deve estar no próprio dmbolo.5.526 É possível descrever o mundo completamentepor meio de proposições perfeitamente universali-zadas, a saber, sem que de antemão um nome fôssecoordenado a um objeto.Para chegar-se ao modo de expressão habitualdeve-se simplesmente, depois de uma expressão "hánm e um único x tal que . .", dizer: e èste x é a.5.5261 Uma proposição perfeitamente universalizada é,como qualquer outra proposição, composta. (Istose mostra quando, em "( 3x, <p) . çox" devemos men-cionar separadamente ",p" e "x". Ambos se corre-lacionam independentemente com o mundo, comona proposição que não foi universalizada.)Característica de um símbolo composto : temalgo em comum com outro símbolo.5.5262 A verdade ou a falsidade de cada proposiçãoaltera em algo a construção geral do mundo. E ocampo que se deixa para sua construção por meioda totalidade das proposições elementares é precisa-mente aquéle que as proposições inteiramente univer-salizadas delimitam.(Se uma proposição elementar fôr verdadeira,sempre haverá por isso mais uma proposição ele-mentar verdadeira.)105
    • 5.53 Exprimo a igualdade de objetos pela igualdadede signos e não graças ao auxílio de um signo deigualdade. E a diversidade dos objetos por meioda diversidade de signos.5.5301 É óbvio que a identidade não é uma relação entreobjetos. Isto se torna muito claro quando se consi-dera, por exemplo, a proposição "(x) : fx .D .x = a".A proposição diz meramente que apenas a satisfaza função f, mas não diz que ~ente as coisas quemantêm uma certa relação com a satisfazem afunção f.Poder-se-ia sem dúvida dizer que ~ente a man-tém esta relação com a, mas para exprimi-lo precisa-mos do signo da igualdade.5.5302 A definição dada por Russell de " =" não ésuficiente, pois, segundo ela, não é possível dizerque dois objetos possuem em comum tôdas as pro-priedades. (Ainda que esta proposição não sejacorreta, possui sentido.)5.5303 Falando grosso modo: dizer de dois objetos quesão idênticos é absurdo, e de um único que é idênticoconsigo mesmo por certo não diz nada. 5.531 Não escrevo pois "f(a, b) . a = b" mas "f(a, a)(ou "f(b, b)"). Não escrevo "f(a, b)" . = b", mas"f(a, b)". 5.532 E anMogamente: não "(3x, y) f(x, y) . x= y",mas "(3x) . f(x, x)"; não "(3x, y) . f(x, y) . = y",mas "(3x, y) • f(x, •(Dêsse modo, em vez da fórmula de Russell"(3x, y) . f(x, y)", temos "(3x, y) . f(x, y) . v . (3x) .• f(x, x)").5.5321 Em vez de "(x) : fx J x = a" escrevemos, porexemplo, "(3x) . fx D . fa: —(3x; y) • fx • fy".E a proposição "sómente um x satisfaz f( )" será"(3x) . fx : y) • fx • fy"•5.533 O signo da igualdade não é, pois, parte essencialda ideografia.5.534 Vemos então que pseudoproposições como:"a=a", "a=b.b=c.Da=c","(x).x=x","( 3x) . x =a", etc., não se deixam inscrever demodo algum numa ideografia correta.5.535 Desaparecem assim todos os problemas ligadosa tais pseudoproposições.Todos os problemas que encerra o axiom ofinfinity de Russell aqui se resolvem.O axiom of infinity quer dizer, em têrmos dalinguagem, que existem infinitamente muitos nomescom denotação diferente.5.5351 Existem certos casos em que se é tentado ausar expressões da forma: "a = a", ou "p D p" eoutras. E isto com efeito acontece quando se devefalar da protofiguração: proposição, coisa, etc.Russell, nos Principies of mathematics transpôs oabsurdo "p é uma proposição" no símbolo "p 3 p",tomando-o como hipótese diante de certas proposi-ções a fim de que os lugares dos argumentos destassó pudessem ser ocupados por proposições.(Já é um absurdo colocar diante de uma pro-posição a hipótese p 3 p para assegurar aos argu-mentos forma correta, porque a hipótese estabelecidapara uma não-proposição enquanto argumento nãose torna falsa mas absurda; além do mais, a própriaproposição se torna absurda para argumentos degênero incorreto, de sorte que se conserva tantoboa como má diante dos argumentos incorretos,assim como a hipótese sem sentido empregada paraêsse fim.)5.5352 Do mesmo modo, pretendeu-se exprimir "Nãoexiste coisa alguma" por meio de "—( 3x) . x = x".Ainda, porém, que isto fôsse uma proposição — estanão seria verdadeira se, com efeito, "houvesse coisas"que todavia não fôssem idênticas consigo mesmas ?5.54 Na forma geral da proposição, ,a proposiçãoaparece na proposição apenas como base das opera-ções-verdades. 5.541 À primeira vista parece que seria possível umaproposição aparecer numa outra de outro modo.106 107
    • Em particular em certas formas proposicionaisdairpsicologia tais como "A acredita que p ocorre"ou "A pensa p", etc.Nelas parece superficialmente que a proposi-ção p se relaciona, de um certo modo, com umobjeto A.(E na moderna teoria do conhecimento (Russell,Moore, etc.) essas proposições são assim concebidas.)5.542 É claro porém que "A acredita que p", "Apensa p", "A diz p" são da forma "p diz p". Nãose trata aqui da coordenação de um fato e um objeto,mas da coordenação de fatos por meio da coordena-ção de seus objetos.5.5421 Isto mostra que a alma — o sujeito, etc. —tal como é compreendida atualmente pela psicologiasuperficial, é um disparate.Uma alma composta não seria mais alma.5.5422 A explicação correta da forma da proposição"A julga p" deve indicar ser impossível julgar umabsurdo. (A teoria de Russell não satisfaz essacondição.)5.5423 Perceber um complexo quer dizer perceber quesuas partes constituintes estão em relação entre side um certo modo.Isto também explica por que é possível ver afigura de duas maneiras como um cubo; e todosos fenômenos parecidos. Porquanto vemos realmentedois fatos diferentes.(Primeiro vejo a partir dos vértices a, e sóligeiramente a partir de b; a aparece na frente; evice-versa.)1085.55 t)evemos agora a priori responder à perguntaa respeito de tôdas as formas possíveis de proposi-ções elementares.A proposição elementar constitui-se de nomes.Pôsto que não podemos dar o número de nomes comdenotação diferente, não podemos também dar acomposição das proposições elementares.5.551 É nossa proposição básica: cada questão queem geral se deixa decidir pela lógica, deve sem maisdeixar-se decidir.(E se chegarmos à condição de precisar olharo mundo para responder a tais problemas, isto mos-traria que enveredamos por pistas bàsicamentefalsas.)5.552 A "experiência" que precisamos para compre-ender a lógica, não é a de que algo está do seguintemodo, mas a de que algo é; esta, porém, não é umaexperiência.A lógica está antes de qualquer experiência —de que algo é assim.Désse modo está antes do Como mas não antesdo Que. 5.5521 E se não fôsse assim como poderíamos aplicara lógica ? Poder-se-ia dizer: se houvesse uma lógicaainda que não houvesse um mundo, como poderiahaver uma lógica já que há um mundo ?5.553 Russell disse que havia relações simples entrediversos números de coisas (individuais). Mas entreque números ? E como isto há de ser decidido ? —Por meio da experiência ?(Não existe um número excelente.) 5.554 A indicação daquelas formas especiais seria com-pletamente arbitrária.5.5541 Há de se revelar a priori se, por exemplo, possochegar à condição de ter de designar alguma coisacom um signo de uma relação de 27 têrmos ?5.5542 Devemos, pois, fazer em geral tal pergunta ?Podemos estabelecer uma forma em signos e nãosaber se a ela poderia corresponder alguma coisa ?109
    • Tem sentido a questão: O que deve ser a fimde que algo possa ocorrer ? 5.555 É claro que temos da proposição elementar umconceito independente de sua forma lógica particular.Onde é possível formar símbolos de acôrdo comum sistema, o importante do ponto de vista lógicoé o próprio sistema, não o símbolo singular.Como seria também possível que, na lógica,tivesse que me ocupar de .formas que posso inventar ?No entanto, devo ocupar-me com o que me tornapossível inventá-las.5.556 Não pode haver hierarquia de formas das pro-posições elementares. Podemos pressupor ~enteo que nós próprios construímos.5.5561 A realidade empírica é limitada pela totalidadedos objetos. O limite reaparece na totalidade dasproposições elementares.As hierarquias são e devem ser independentesda realidade.5.5562 Por motivos puramente lógicos sabemos quedeve haver proposições elementares; dèsse modo,isto deve ser conhecido por todo aquèle que com-preende as proposições na sua forma não-analisada.5.5563 Tôdas as proposições de nossa linguagem correntesão, de fato, tais como são, perfeitamente ordenadasde um ponto de vista lógico. — Tudo o que fôrmais simples e que devemos aqui admitir não ésímile da verdade mas a própria verdade plena.(Nossos problemas não são abstratos mas talvezos mais concretos que existem.) 5.557 A aplicação da lógica decide que proposiçõeselementares existem.O que está na aplicação a lógica não pode ante-cipar.É claro: a lógica não há de colidir com suaaplicação.Mas a lógica deve referir-se à, sua aplicação.Dèsse modo, a lógica e sua aplicação não devemsobrepor-se uma à, outra.5.5571 Se não posso indicar a priori as proposiçõeselementares, querer indicá-las deve redundar numpatente absurdo. 5.6 Os limites de minha linguagem denotam os limitesde meu mundo.5.61 A lógica preenche o mundo, os limites do mundosão também seus limites.Não podemos pois dizer na lógica: isto e istoexistem no mundo, aquilo não.Porquanto se pressuporia aparentemente queexcluímos certas possibilidades, o que não podeocorrer pois, do contrário, a lógica deveria colocar-se além dos limites do mundo, como se pudesseconsiderar ésses limites também do outro lado.Não podemos pensar o que não podemos pensar,por isso também não podemos dizer o que não pode-mos pensar.5.62 Esta observação dá a chave para decidir daquestão: até onde o solipsismo é uma verdade.O que o solipsismo nomeadamente acha é intei-ramente correto, mas isto se mostra em vez de deixar-se dizer.Que o mundo é o meu mundo, isto se mostraporque os limites da linguagem (da linguagem que~ente eu compreendo) denotam os limites de meumundo.5.621 O mundo e a vida são um só.5.63 Sou meu mundo. (O microcosmos.)5.631 O sujeito representante e pensante não existe.Se escrevesse um livro: O mundo tal como en-contro, deveria reportar-me a meu corpo e dizerquais membros estão sob minha vontade e quaisnão estão, etc. — isto é particularmente um métodopara isolar o sujeito, ou melhor, para indicar quenão existe sujeito num sentido importante: délesdzinho não é possível tratar neste livro.5.632 O sujeito não pertence ao mundo mas é limitedo mundo.
    • 5.633 Onde no mundo se há de notar um sujeito meta-físico ?Tu dizes que aqui se está inteiramente comodiante do 81ho e do campo visual, mas tu não vêsrealmente o 61ho.E não há coisa no campo visual que leve à con-clusão de que ela é vista por um 61ho.5.6331 O campo visual não tem nomeadamente umaforma como esta:5.634 Isto se liga a que nenhuma parte de nossa expe-riência é a priori.Tudo o que vemos poderia ser diferente.Tudo o que podemos em geral descrever poderiaser diferente.Não há a priori uma ordem das coisas.5.64 Por aqui se vê que o solipsismo, levado às últi-mas conseqüências, coincide com o realismo puro.O eu do solipsismo reduz-se a um ponto sem exten-são, a realidade permanecendo coordenada a êle.5.641 Tem, portanto, sentido real falar-se, na filosofia,do eu de um ponto de vista não-psicológico.O eu penetra na filosofia porque o "mundo émeu mundo".O eu filosófico não é o homem, nem o corpohumano, nem a alma humana de que se ocupa apsicologia, mas o sujeito metafísico, o limite — nãosendo pois parte do mundo.6 A forma geral da função de verdade é[P, E, N(E)iEsta é a forma geral da proposição.6.001 Isto nada mais diz do que: cada proposiçãoresulta da aplicação sucessiva da operação NOsôbre as proposições elementares.6.002 Dada a forma geral de como construir umaproposição, com isto já está dada a forma geralde como é possível gerar outra, por meio de umaoperação, partindo-se de uma proposição.6.01 A forma geral da operação 12(-n) é pois:[, (F?) ( = [77, , N(E)l).Esta é a forma mais geral da transposição deuma proposição para outra.6.02 Chegamos assim aos números. Defino:x = 0°x Def. e052Px = 52P+1x Def.Segundo essa regra de signos, escrevemos poisa série:x, 0x, 00x, 05252x, . .como: go,x, go+1+1,x, go-1-14-1+1,x,Em vez de "[x, 12fl" escrevo, portanto,“opx,E defino: •0+11 = 1 Def.O -I- 1 -I- 1 = 2 Def.0 -I- 1 -F. 1 + 1 = 3 Def.(e assim por diante)6.021 O número é o expoente de uma operação.6.022 O conceito de número nada mais é do que écomum a todos os números, a forma geral do número.O conceito número é a variável número.E o conceito da igualdade entre os números éa forma geral de tôdas as igualdades especiais entreos números.6.03 A forma geral dos números inteiros é: [0,6.031 A teoria das classes é inteiramente supérfluapara a matemática.Isto está ligado a que a universalidade de queprecisamos na matemática não é a acidental.6.1 As proposições da lógica são tautologias.&HO-112 113
    • 6.11 As proposições da lógica, portanto, não dizemnada. (São as proposições analíticas.)6.111 São sempre falsas as teorias que fazem umaproposição da lógica aparecer com conteúdo. Poder-se-ia, por exemplo, acreditar que as palavras "ver-dadeiro" e "falso" designassem duas propriedadesentre outras, de sorte que pareceria um fato extra-ordinário que cada proposição possuísse uma dessaspropriedades. Isto não parece, de modo algum,evidente; é tão pouco evidente como, por exemplo,o é a proposição "Tôdas as rosas são ou amarelasou vermelhas", ainda que fôsse verdadeira. Essaproposição toma, com efeito, o caráter de uma pro-posição das ciências naturais e isto é sintoma segurode que foi falsamente concebida.6.112 A explicação correta das proposições lógicasdeve conferir-lhe uma posição peculiar entre tôdasas proposições.6.113 É marca característica e particular das propo-sições lógicas que se possa conhecer apenas pelosímbolo quando são verdadeiras, e este fato contémem si tôda a filosofia da lógica. Assim, é um dosfatos mais importantes que a verdade ou a falsi-dade das proposições não-lógicas não é conhecidaÚnicamente na proposição.6.12 As proposições da lógica são tautologias; istomostra as propriedades (lógicas) formais da linguagem,do mundo.Suas partes constituintes, ao se vincularem dessamaneira, produzem uma tautologia, e isto caracterizaa lógica de suas partes constituintes.As proposições devem possuir determinadas pro-priedades de estrutura a fim de que, vinculadas deum determinado modo, produzam uma tautologia.Se produzem uma tautologia ligando-se dessa ma-neira, isto mostra que possuem tais propriedadesde estrutura.6.1201 Por exemplo: a proposição "p" e a "-p" naconexão ",-,(p.,,,p)" produzem uma tautologia, oque mostra que se contradizem entre si. As propo-.114sições "p J q", "p" e "q", ligadas entre si na forma"(P J q) • (p) : (q)", oduzem uma tautologia,o que mostra que q segue de p e pD q. Que"(x) . fx : : fa" seja uma tautologia, mostra quefa se segue de (x) . fx, etc., etc. 6.1202 É claro que, em vez da tautologia, é possívelempregar a contradição para os mesmos fins.6.1203 Para reconhecer uma tautologia como tal, noscasos em que na tautologia não aparece qualquerdesignação da generalidade, é possível utilizar oseguinte método intuitivo: em vez de "p", "q","r", etc., escrevo "VpF", "VqF", "VrF", etc. Ascombinações de verdade são expressas por chaves: ,"-„V p F V q F,e a coordenação da verdade ou da falsidade da pro-posição total e as combinações de verdade, dos argu-mentos de verdade, por meio de traços, do modoseguinte:Éste signo representaria, por exemplo, a proposição"p J q". Vou verificar, por exemplo, se a proposi-ção ,--,(p.r-,p) (lei da contradição) é uma tautologia.A forma ",,,E" será, escrita em nossa notação:V„V F"F115
    • De modo que a proposiçãoFserá:A forma "E . n" :Vq FFVEm lugar de "q" coloquemos "p" e examinemos aconexão dos V e F mais exteriores com os maisinteriores; logo verificamos que a verdade da propo-sição total coordena-se com tôdas as combinaçõesde verdade de seus argumentos, enquanto que suafalsidade, com nenhuma das combinações de ver-dade.6.121 As proposições da lógica demonstram as pro-priedades lógicas das proposições, pois se ligam emproposições que não dizem nada.É possível chamar a êsse método de método-nulo. Na proposição lógica as proposições são le-vadas a se equilibrarem mütuamente, de modo quea situação de equilíbrio indica como tais proposiçõesdevem ser constituídas de um ponto de vista lógico.6.122 Donde resulta ser possível viver sem as propo-sições lógicas, já que podemos reconhecer, graças àmera inspeção dessas proposições, suas propriedades,formais numa notação correspondente.6.1221 Se, por exemplo, duas proposições "p" e "q"geram, na conexão p D q, uma tautologia, é claroentão que q se segue de p.Que, por exemplo, "q" segue-se de "p D q . p",vemos graças ao exame de ambas as proposições,mas podemos mostrá-lo ligando-as em "pDq.p:D: q"e mostrando que esta última forma uma tautologia.6.1222 Isso ilumina a questão: porque as proposiçõeslógicas não podem ser confirmadas pela experiêncianem refutadas por ela. Não só uma proposição dalógica não pode ser refutada por uma experiênciapossível, mas também não há de ser confirmadapor ela.6.1223 E assim se torna claro porque muitas vêzessentimos como se as "verdades lógicas" fôssem pos-tuladas por nós; podemos com efeito postulá-lasenquanto podemos postular uma notação satisfa-tória.6.1224 Agora se torna claro porque a lógica foi cha-mada teoria das formas e das inferências.6.123 É claro que as leis lógicas não devem elas pró-prias depender de outras leis lógicas.(Não há, como Russell imaginou, para cadatype uma certa lei da contradição, mas basta uma,desde que não se aplique a si mesma.)6.1231 O sintoma da proposição lógica não é a validadeuniversal.Ser universal quer dizer apenas: valer paratôdas as coisas de modo acidental. Uma proposiçãonão universalizada pode ser tautologia tanto comouma proposição universalizada.6.1232 A validade lógica universal pode ser chamadaessencial, em oposição àquela acidental, como a daproposição: "Todos os homens são mortais". Pro-posições como o axiom of reducibility de Russellnão são proposições lógicas, o que esclarece nossosentimento de que, quando verdadeiras, só o podemser graças a um acaso favorável.116 117
    • 6.1233 É plausível pensar um mundo em que nãovalha o axiom of reducibility; de sorte que se tornaclaro que a lógica nada tem a ver com a questão denosso mundo ser realmente assim ou não.6.124 As proposições lógicas descrevem os andaimesdo mundo, ou melhor, os representam. Não "tratam"de nada. Pressupõem que os nomes possuam deno-tação e as proposições elementares, sentido. E talé sua vinculação com o mundo. É claro que issodeve indicar alguma coisa a respeito do mundo,que certas vinculações de símbolos — que essencial-mente possuem um caráter determinado — sãotautologias. E aqui está o que é decisivo. Dissemosque, nos símbolos que usamos, muito era arbitrário,muito não o era. E na lógica apenas isso se exprime;o que quer dizer que na lógica nós não exprimimos oque queremos com a ajuda de signos, mas que anatureza dos signos naturalmente necessários, na ló-gica, asserta-se a si própria. Ao conhecermos asintaxe lógica de uma linguagem simbólica qualquer,já estão dadas tidas as proposições da lógica.6.125 É possível, e isto também de acôrdo com avelha concepção da lógica, dar prèviamente umadescrição de «idas as proposições lógicas "verdadeiras".6.1251 Nunca poderá haver, pois, surpresas na lógica.6.126 É possível calcular se uma proposição pertenceà lógica calculando as propriedades lógicas dosímbolo.E é o que fazemos ao "provar" uma proposiçãológica. Porquanto, sem nos preocuparmos com osentido e a denotação, formamos a proposição lógicaa partir de outras meramente segundo as regras dossignos.A prova das proposições lógicas consiste emfazermos com que sejam geradas a partir de outrasproposições lógicas graças à aplicação sucessiva decertas operações, que das primeiras tautologiasreproduzem outras. (E, com efeito, de uma tauto-logia seguem-se apenas tautologias.)Éste modo de mostrar que suas proposiçõessão tautologias é, sem dúvida, para a lógica, inteira-mente inessencial. Exatamente porque as proposi-ções de que parte a prova já devem mostrar, semprova, que são tautologias.6.1261 Na lógica, processo e resultado são equivalentes.(Por isso não há nenhuma surpresa.)6.1262 A prova na lógica é apenas um expediente mecâ-nico para facilitar o reconhecimento da tautologiaonde ela é complicada.6.1263 Seria, pois, extraordinário poder provar lógica-mente uma proposição significativa a partir de outra,e ainda uma proposição lógica. É claro desde logoque a prova lógica de uma proposição significativae a prova no lógica devem ser coisas inteiramentediferentes.6.1264 A proposição significativa asserta algo e suaprova mostra que é assim; na lógica cada propo-sição está sob a forma de uma prova.Cada proposição da lógica é um modus ponensrepresentado num signo. (E não é possível exprimiro modus ponens por meio de uma proposição.)6.1265 Sempre se pode conceber a lógica de tal modoque cada proposição seja sua própria prova.6.127 Tôdas as proposições da lógica são eqüiponde-rantes, não existem entre elas princípios essenciaise proposições derivadas.Cada tautologia, ela própria, mostra que é umatautologia.6.1271 É claro que o número dos princípios lógicos éarbitrário, pois se poderia derivar a lógica de umúnico princípio, por exemplo, formando meramenteo produto lógico dos princípios de Frege. (Fregetalvez dissesse que ésses princípios não seriam maistransparentes de modo imediato. Seria extraordi-nário, porém, que um pensador tão exato comoFrege tomasse, como critério de uma proposiçãológica, seu grau de transparência.)118 119
    • 6.13 A lógica não é teoria, mas figuração especulardo mundo.A lógica é transeendental.6.2 A matemática é um método lógico.As proposições da matemática são equações e,portanto, pseudoproposições.6.21 A proposição da matemática não exprime pensa-mentos.6.211 Na vida, não é da proposição matemática queprecisamos, usamo-la apenas para inferir, de propo-sições que não pertencem à matemática, outras queigualmente não pertencem a ela.(Na filosofia, a questão "para que precisamosefetivamente de tal palavra ou de tal proposição"sempre conduz a valiosas visualizações.)6.22 A lógica do mundo que as proposições lógicasmostram nas tautologias, a matemática a mostranas equações.6.23 Se duas expressões estiverem ligadas pelo signode igualdade, isto quer dizer que são mútuamentesubstituíveis. Quando, porém, isto vier a ocorrer,deve mostrar-se nas próprias expressões.Caracteriza a forma lógica de duas expressõesserem mutuamente substituíveis.6.231 É propriedade da afirmação poder ser conce-bida como dupla negação.É propriedade de "1 -I- 1 + 1 ± 1" poder serconcebida como "(1 -I- 1) ± (1 + 1)".6.232 Frege diz que ambas as expressões têm a mesmadenotação mas sentido diverso.É essencial para a equação, entretanto, ela nãoser necessária para mostrar que ambas as expressões,ligadas pelo signo de igualdade, possuam a mesma,denotação, pois isto se vê a partir de ambas asexpressões.6.2321 E que as proposições da matemática possam serprovadas, nada mais quer dizer que sua correçãoé reconhecida sem precisar comparar o que elas ex-primem com os fatos, do ponto de vista de suacorreção.6.2322 Não se afirma a identidade da denotação deduas expressões, pois, para poder afirmar algo arespeito de sua denotação, devo conhecer essa deno-tação e, ao conhecê-la, já sei se denota a mesmacoisa ou algo diferente.6.2323 A equação revela apenas o ponto de vista doqual considero ambas as expressões, a saber, o pontode vista da igualdade de sua denotação.6.233 A pergunta se é preciso a intuição para resolverproblemas matemáticos deve ser respondida consi-derando que a própria linguagem fornece a intuiçãonecessária. 6.2331 O processo de calcular faz intervir precisamenteessa intuição.O cálculo não é experimento. 6.234 A matemática é um método da lógica.6.2341 O que é essencial para o método matemático .étrabalhar com equações. E dêsse método dependeparticularmente que cada • proposição da matemá-tica deve ser compreendida de per si. 6.24 O método pelo qual a matemática chega àsequações é o da substituição.Porquanto a equação exprime o caráter substi-tutivo das duas expressões, de sorte que passamosde um número de equações para uma nova equação,substituindo expressões por outras, de acôrdo comas equações.É desta maneira então que se desdobra a prova6.241de 2 X 2 = 4(2 v )µx = 12 P>qg x Def.£12x2,x = (&22)2x = (02)1+1,x = 92,22,x == 21+1, gi+vx = (2,)),(0,2)x =SlSZSlSZx== 21+1+1+1,x = 94,x6.3 A investigação da lógica denota a investigaçãode tôda a legalidade. Fora dela tudo é acidente.120 121
    • 6.81 A assim chamada lei da indução não pode, emcaso algum, ser uma lei lógica, pois é patentementeuma proposição significativa. — De sorte que nemmesmo pode ser uma lei a priori. 6.32 A lei da causalidade não é lei mas forma deuma lei.6.321 "Lei de causalidade" é um nome genérico. Eassim como dizemos, na mecânica, que existem leismínimas — por exemplo, a de ação menor — existemna física leis de causalidade, leis da forma da causa-lidade.6.3211 Já se teve, com efeito, um pressentimento deque era preciso uma "lei de ação mínima" antesde se saber exatamente o que rezava. (Aqui comosempre, o que é certo a priori se revela como algopuramente lógico.)6.33 Não acreditamos a priori numa lei da conser-vação, mas conhecemos a priori a possibilidade deuma forma lógica.6.34 Tôdas aquelas proposições, como o princípio derazão suficiente, o de continuidade na natureza, odo mínimo esforço na natureza, etc., etc., tôdas sãovisualizações a priori a respeito da possibilidade deenformar proposições da ciência. 6.341 A mecânica newtoniana, por exemplo, conduza descrição do universo a uma forma unificada.Tomemos uma superfície branca e sobre ela manchaspretas irregulares. Dizemos então: seja qual fôra figuração que faço, sempre posso aproximar-mequanto quiser de sua descrição, se cubro a super-fície com uma rêde quadriculada suficientementefina de modo a poder dizer de cada quadrado seé branco ou prêto. Conduzi dessa maneira a des-crição da superfície a uma forma unificada. Essaforma é qualquer, pois teria empregado com o mesmosucesso uma rêde feita em triângulos ou em hexá-gonos. É possível que a descrição com auxílio deuma rêde em triângulos fôsse mais simples, isto é,com uma grossa rêde em triângulos poderíamos terobtido uma descrição mais precisa das manchas doquê com outra mais fina e quadriculada (ou vice-versa), e assim por diante. Às diversas rêdes corres-pondem diversos sistemas de descrever o mundo.A mecânica determina uma forma de descrição domundo, pois diz : tôdas as proposições da descriçãodo mundo devem ser obtidas de um número deproposições dadas — os axiomas mecânicos — se-gundo um modo dado. Com isto provê as pedraspara a construção do edifício científico, dizendo:sejam quais forem os edifícios que pretendas levan-tar, deves construí-los com estas e apenas estaspedras.(Assim como se escreve qualquer número como sistema numérico, com o sistema da mecânicadeve-se poder escrever qualquer proposição dafísica.)6.342 Vemos assim a posição oposta da lógica e damecânica. (Poder-se-ia também fazer a rêde com-posta de figuras diversas, como de triângulos e hexá-gonos.) Que uma figuração como a mencionadaacima seja descrita por uma rêde de uma formadada, não asserta nada a respeito da figuração.(Porquanto isso vale para cada figuração dessaespécie.) Caracteriza, porém, a figuração poder sercompletamente descrita por uma determinada rêdede determinada finura.Do mesmo modo, nada asserta a respeito domundo poder ser descrito pela mecânica newto-niana; asserta, entretanto, poder ser descrito porela tal como precisamente vem a ser. Também dizalgo a respeito do mundo poder ser descrito, poruma mecânica, de maneira mais simples, do que poroutra.6.343 A mecânica é uma tentativa de construir, con-forme um plano único, tôdas as proposições verda-deiras que precisamos para a descrição do mundo. 6.3431 Através de todo o aparato lógico, as leis físicasainda falam de objetos do mundo. 6.3432 Não devemos nos esquecer de que a descriçãodo mundo feita pela mecânica é sempre inteira-122 123
    • Mente geral. Nunca trata, por exemplo, de umponto material determinado, mas finitamente de qual-quer um. •6.35 Embora as manchas em nossa figuração sejamfiguras geométricas, a geometria evidentemente nadatem a dizer sôbre sua forma efetiva e sôbre suacondição. A rêde, porém, é puramente geométrica,tôdas as suas propriedades podem ser dadas a priori.Leis como o princípio de razão suficiente, etc.,tratam da rêde, não, porém, do que ela descreve.6.36 Se houvesse uma lei da causalidade, seria doseguinte teor: "há leis naturais".No entanto, ôbviamente isto não se pode dizer:mostra-se.6.361 Segundo as expressões de Hertz, poder-se-iadizer: apenas as conexões em conformidade com alei são pensáveis.6.3611 Não podemos comparar nenhum processo como "decurso do tempo" (êsse decurso não existe),apenas com outro processo — em particular, como andar de um cronômetro.Por isso a descrição do curso temporal só épossível porque nos apoiamos em outro processo.É análogo o que acontece com o espaço. Quandose diz, por exemplo, que nenhum de dois aconteci-mentos (mutuamente exclusivos) tem lugar, porquenão há nenhuma causa que leve um a realizar-seao invés do outro, na realidade trata-se apenas daimpossibilidade de descrever um dentre os doisacontecimentos quando não há uma assimetria qual-quer. Desde que haja tal assimetria, podemos tomá-la como causa do vir-a-ser de um e do não vir-a-serdo outro.6.36111 O problema kantiano da mão direita e da mãoesquerda que não se cobrem já surge no plano eaté mesmo num espaço unidimensional, onde duasfiguras congruentes a e b não se cobrem a não serque se movam fora dêsse espaço. A mão esquerdae a direita são de fato perfeitamente congruentes.E nada tem a ver com isso a impossibilidade defazer com que se cubram.o X xbSeria possível vestir a luva direita na mãoesquerda se a girássemos num espaço quadridimen-sional.6.362 O que pode ser descrito pode acontecer e oque a lei da causalidade há de excluir não podeser descrito.6.363 O processo da indução consiste em aceitar alei mais simples que possa estar conforme com nossaexperiência. 6.3631 Éste processo todavia não tem fundamentológico, mas apenas psicológico.É claro que não há razão alguma para acreditarque o caso mais simples realmente ocorrerá. 6.36311 Que o sol se levante amanhã, é uma hipótese,e isto quer dizer: não sabemos se se levantará.6.37 Não há obrigação para algo acontecer depoisde alguma coisa ter acontecido. Não há necessi-dade que não seja lógica. 6.371 Na base de tôda moderna visão do mundo estáa ilusão de que as assim chamadas leis naturais sejamesclarecimentos a propósito dos fenômenos naturais.6.372 Colocam-se assim diante das leis naturais comodiante de algo intangível, como os antigos diantede Deus e do destino.E ambos têm e não têm razão. Os antigos,entretanto, eram tanto mais claros quanto maisreconheciam um claro término, enquanto os novossistemas devem parecê-lo quando tudo estiver expli-cado. 6.373 O mundo independe de minha vontade. 6.374 Se acontecesse tudo o que desejássemos, istoseria, por assim dizer, uma graça do destino, já124 125
    • que não há vinculação lógica entre vontade e mundo;e, suposta uma vinculaçã,o física, não podemos querê-la de n8vo. 6.375 Havendo ~ente uma necessidade lógica, sóhá uma impossibilidade lógica.6.3751 Que, por exemplo, duas côres estejam concomi-tantemente no mesmo lugar do campo visual éimpossível, e por certo lógicamente impossível, por-quanto isto se exclui em virtude da estrutura lógicada côr.Consideremos como essa contradição se repre-senta na física. Aproximadamente do seguinte modo:uma partícula não pode ao mesmo tempo possuirduas velocidades; quer dizer que ela não pode estarconcomitantemente em dois lugares, o que significaque partículas, que estão em diferentes lugares nummesmo tempo, não podem ser idênticas.(É claro que o produto lógico de duas proposi-ções elementares não pode ser nem uma tautologianem uma contradição. A asserção de que um pontodo campo visual tem, ao mesmo tempo, duas côresdiferentes é uma contradição.)6.4 Tôdas as proposições têm igual valor.6.41 O sentido do mundo deve estar fora dêle. Nomundo tudo é como é e acontece como acontece:Mie não há valor — e se houvesse, o valor não teriavalor.Se houver um valor que tenha valor, entãodeve permanecer fora de todos os acontecimentos edo ser-peculiar, pois todos os acontecimentos e oser-peculiar são acidentais.O que o faz não-acidental não pode estar nomundo pois, no caso contrário, isto seria de nôvoacidental.Deve estar fora do mundo.6.42 Por isso não pode haver proposições da ética.Proposições não podem exprimir nada além.1266.421 É claro que a ética não se deixa exprimir.A ética é transcendental.(Ética e estética são um só.)O primeiro pensamento para estabelecer uma6.422lei ética da forma "tu deves . ." consiste em: Eo que se daria se eu não fizesse isso ? No entanto,é claro que a ética nada tem a ver com castigo erecompensa no sentido comum. Essa questão a res-peito das conseqüências de uma ação deve ser insigni-ficante. — No mínimo essas conseqüências não serãoacontecimentos. Algo, porém, deve estar correto nacolocação da questão. Por certo deve existir umaespécie de recompensa ética e de castigo ético quedevem, todavia, estar na própria ação.(Mas também é claro que a recompensa deveter algo agradável, o castigo, algo desagradável.)No que respeita à vontade como portador do6.423que é ético, nada pode ser dito.A vontade como fenômeno apenas interessa à,psicologia.6.43 Se querer o bem ou querer o mal muda o mundo,isto só poderá mudar os limites do mundo, nunca osfatos; nunca o que pode ser expresso pela linguagem.Em suma, por isso o mundo deve em geraltornar-se outro. Deve, por assim dizer, crescer oudiminuir como um todo.O mundo dos felizes é diferente do mundo dosinfelizes.6.431 Também como na morte, o mundo não se alteramas acaba.6.4311 A morte não é acontecimento da vida. Não sevive a morte.Se por eternidade não se entender a duraçãoinfinita do tempo mas a atemporalidade, vive eter-namente quem vive no presente.Nossa vida está privada de fim como nossocampo visual, de limite.127
    • 6.4312 A imortalidade temporal da alma humana, asaber, seu continuar a viver eternamente aindadepois da morte, não está de maneira alguma asse-gurada; além do mais, essa assunção não cumprenada do que sempre se quis lograr com ela. Algumenigma será resolvido por ter eu continuado a vivereternamente ? Não é a vida eterna tão enigmáticacomo a presente ? A solução do enigma da vida nóespaço e no tempo reside fora do espaço e do tempo.(Não são problemas de ciência natural a seremresolvidos.)6.432 Como é o mundo é perfeitamente indiferentepara o que está além. Deus não se manifesta nomundo.6.4321 Os fatos fazem todos parte da tarefa mas nãoda solução.6.44 O que é místico não é como o mundo é masque êle seja.6.45 A intuição do mundo sub specie aeterni é aintuição dêle como um todo limitado.É místico o sentimento do mundo como umtodo limitado.6.5 Para uma resposta inexprimível é inexprimívela pergunta.O enigma não existe.Se uma questão pode ser colocada, poderá tam-bém ser respondida.6.51 O cepticismo não é irrefutável mas patente-mente absurdo, quando pretende duvidar onde nãocabe perguntar.A dúvida, pois, só existe onde existe uma ques-tão, uma questão apenas onde existe uma resposta,e esta ~ente onde algo pode ser dito.6.52 Sentimos que, mesmo que tôdas as possíveisquestões científicas fôssem respondidas, nossos pro-blemas vitais não teriam sido tocados. Sem dúvida,não cabe mais pergunta alguma, e esta é precisa-mente a resposta.1286.521 Observa-se a solução dos problemas da vida nodesaparecimento dêsses problemas.(Esta não é a razão por que os homens, paraos quais o sentido da vida se tornou claro depoisde um longo duvidar, não podem mais dizer emque consiste êsse sentido ?)6.522 Existe com certeza o indizível. Isto se mostra,é o que é místico.6.53 O método correto em filosofia seria própria-mente: nada dizer a não ser o que pode ser dito,isto é, proposições das ciências naturais — algo,portanto, que nada tem a haver com a filosofia; esempre que alguém quisesse dizer algo a respeitoda metafísica, demonstrar-lhe que não conferiu deno-tação a certos signos de suas proposições. Paraoutrem êsse método não seria satisfatório — êlenão teria o sentimento de que lhe estaríamos ensi-nando filosofia — mas seria o único método estrita-mente correto.6.54 Minhas proposições se elucidam do seguintemodo: quem me entende, por fim as reconhecerácomo absurdas, quando graças a elas — por elas —tiver escalado para além delas. (É preciso por assimdizer jogar fora a escada depois de ter subidojporela.)Deve-se vencer essas proposições para ver omundo corretamente.O que não se pode falar, deve-se calar.129
    • NOTAS A TRADUÇÃO(*)— Convém observar que a formulação do sistema de numeraçãodas proposições é matemàticamente insuficiente; não explica, por exemplo,a proposição 2.001, cujo sentido no entanto se apreende fàcilmente pelocontexto.2 — Estado de coisas: Sachverhalt, etimoldgicamente "como ascoisas se comportam entre si" (cf. Introdução, p. 39). Tivemos o cuidadode traduzir sich verhalten por "está em relação", vinculando désse modoestado ao verbo estar. RUSSELL indagara de WITTGENSTEIN a respeitoda diferença entre estado de coisa e fato (Tatsache). A respostaé a seguinte: "Sachverhalt é o que corresponde à proposição elementarquando verdadeira. Tatsache, o que corresponde ao produto lógico deproposições elementares quando êsse produto é verdadeiro. A razão pelaqual introduzo Tatsache antes de introduzir Sachverhalt demandaria umalonga explicação" (Schriften, I, p. 275). Baseado nessa informação, RUSSELLescreveu no prefácio da edição inglêsa (p. 9): "Os fatos que não são com-postos de outros fatos é o que o Sr. WITTGENSTEIN chama Sachverhalt,enquanto que o fato constituído por dois ou mais fatos, é chamadoTatsache. Assim, por exemplo, Sócrates é sábio é Sachverhalt e tambémTatsache, enquanto Sócrates é sábio e Platão foi seu aluno é Tatsachemas não Sachverhalt". Basta, porém, confrontar a proposição 5.5571para nos convencermos da falsidade da interpretação de RUSSELL. Éde notar que o problema dos elementos simples da realidade está estreita-mente ligado ao problema das proposições elementares, devendo, por-tanto, ser colocado juntamente com a proposição 5.55.2.0121 (3) — Meramente-possível: nur-rnõglich, neologismo queserve para indicar que a noção de possibilidade, em WITTGENSTEIN, nãose confunde com a possibilidade desvencilhada dos fatos.2.0251 — Coloridade: Fárbigkeit, indicando que não se trata simples-mente da côr, mas da possibilidade de os objetos serem coloridos.(5) A nuraeraeão das notas segue a nunlerag9 clg Tracfatas.131
    • 2.06 — Realidade: Wirklichkeit, a língua alemã possui Realitãt eWirklichkeit, esta última palavra indicando a realidade efetiva. O con-texto, no entanto, basta para indicar que sentido WITTGENSTEIN dá aésse têrmo, de modo que não foi preciso carregar a tradução com duaspalavras para um único significado.2.1 — Figuração: Bild, apesar do caráter ativo de "figuração",inexistente em Bild, preferimos essa palavra ao invés do têrmo neutro"imagem", tendo em vista ser ela a única capaz de indicar todos os ma-tizes do texto alemão.3.24 (3) — O mesmo prefixo ur foi traduzido diferentemente emUrbild (protofiguração) e Urzeichen (signo primitivo), e a isso fomos le-vados porque uma protofiguração é uma parte de um fato que, somenteao ser completado, adquire uma função figurativa, enquanto o signo pri-mitivo é um signo completo, que serve de ponto de partida para a cons-trução do edifício simbólico.3.261 — A tradução freqüente dêsse über é "por meio de" (a tra-dução inglêsa emprega a palavra latina via). Adotamos a tradução "porsôbre", para nos manter fiel a um texto que diz expressamente que asdefinições apenas mostram o caminho cujo alcance vai além dos membrosda expressão definidora. Convém lembrar que uma proposição elementaré constituída de nomes designando objetos, ligados Uns aos outros comoelos de uma cadeia. Essa possibilidade de vinculação, inscrita na próprianatureza do objeto, faz com que o nome não designe um elemento autô-nomo, mas um elemento que se comporta como um ponto sempre prestesa se reunir a outro. Dèsse modo, os objetos designados pelos nomes possuema mesma estrutura que a função proposicional no nível da linguagem;na proposição fa, f e a são igualmente incompletos. É por isso que ossignos da expressão definidora designam além de suas partes copresentes,sendo essencial, na designação, a necessidade de o símbolo vincular-se aoutro, o que é sistemàticamente ocultado pelo processo de notação.4.003 — É preciso ter sempre presente que "absurdo" (unainnig)está além de tôda figuração possível. É absurda, pois, a proposição quediz respeito à estrutura interna da própria figuração ou à natureza dosfatos como tais, porquanto, a figuração afigura a maneira de os objetosformarem os fatos, nunca revelando sua dimensão ontológica. É, porém,desprovida de sentido (sinnlos) tôda proposição que, fazendo parte dosimbolismo, deixa de afigurar na medida em que não estabelece os limitesnecessários à constituição do sentido (cf. 4.461).4.0031 — MAUTHNER, Fritz (1849-1923), crítico e filósofo alemãoque trabalhou particularmente na filosofia da linguagem. Sob certosaspectos seu pensamento se aproxima do logicismo de RUSSELL, mas suacrítica da linguagem se orienta no sentido de privilegiar a dimensão esté-tica da palavra em detrimento da dimensão própriamente epistemológica.4.022 (2) — E diz que isto está assim: "Und er sagt, dass es sich soverhãlt"; essa expressão liga-se inegàvelmente à forma geral da propo-sição: "Es verhãlt sich so und so" (cf. 4.5), que traduzimos por "isto estádo seguinte modo".Devemos notar a referência à situação, ao conjunto de estados decoisas, tanto no sentido da expressão como no emprêgo do verbo sichverhalten.4.0311 — Esta é a única ocasião em que Bild não pode ser tradu-zida por figuraçao, pois está a indicar um quadro formado por pessoasvivas, representando uma cena.4.04 — Cf. HERTZ, The Principies of Mechanics, trad. de D. E.Jones e J. T. Walley, Londres, Nova York, 1899. A filiação de certasidéias de WITTGENSTEIN provenientes do físico Hertz foi estudada porJames GRIFFIN, Wittgensteins Logical Atomis, Oxford University Press,pp. 99 e segs. HERTZ de fato considera a elaboração de uma teoria físicacomo a construção de um modêlo da realidade que tenha com ela algoem comum, ambos possuindo a mesma multiplicidade, o mesmo númerode coordenadas.4.466 — Cada união arbitrária: "jede beliebige Verbindung". OProf. Andrés R. RAGGIO nos lembrou que "jede beliebige" é uma expressãofreqüentemente usada na linguagem matemática para indicar "um qual-quer"; e de fato, a distributividade de cada conferiria às várias uniõesarbitrárias uma forma lógica que parece incompatível com o sentido dotexto, em particular com o que segue no parágrafo posterior. No entanto,para não evitar outras interpretações possíveis, preferimos traduzir jedepor cada e escrever esta nota.5.2521 — Na notação de FREGE, E indica uma variável em geral.5.555 — O axioma da infinidade de RUSSELL formula-se da seguintemaneira: se n fôr um número cardinal indutivo qualquer, existe ao menosuma classe de indivíduos que tem n elementos. Número cardinal indu-tivo é o número cardinal visto da óptica de sua geração a partir de certosaxiomas, dentre os quais está o princípio de indução finita (se uma proprie-dade p pertence a zero e, pertencendo a n fôr possível demonstrar quepertence a n+1, então p pertence a todos os números), princípio cujafunção é garantir que, para todo o conjunto de números, um número eseu sucessor possam possuir certas propriedades em comum. Suponhamosum universo de apenas 9 indivíduos; como um número não pode ter mais132 133
    • de um sucessor, o sucessor de 9 seria 10, uma classe vazia, que por issoseria também igual ao sucessor de 10, também uma classe vazia. Paraevitar êsse paradoxo é que surge o axioma da infinidade, garantindo aexistência das classes correspondentes a cada número n. Isto pôsto, onúmero de objetos do mundo não é um número indutivo (cf. RUSSELL,Introduction to Mathematical Philosophy, cap. XII).GLOSSÁRIOabbilden — afigurarAbbildung — afiguraçãoabhãngig — heterônomo, depen-denteAllgemeinheit — universalidade,generalidadeAngabe — indicaçãoArgumentstelle — lugar do argu-mentoaufweisen — exibirAusdruck — expressãoausgezeichnet — preeminenteAussage — asserçãoaussagen — assertaraussprechen — enunciarBedeutung — denotaçãobedeutungslos — sem denotaçãobedeutungsvoll — denotativoBegriff — conceitoRegriffsschrift — ideografiaBegriffswort — palavra-conceitoBereich — escopoBestandteil — parte constituintebestehen — subsistirBestehen — subsistênciaBeweis — provabezeichnen — designarbezeichnend — designativoBild — figuraçãoBildhtiftigkeit — figuratividadedarstellen — representarDing — coisaErkenntnistheorie epistemologiaErscheinung — fenómenoExistenz — existênciaFall (Was der Fall ist) — o queocorrefolgen — seguirfolgern — deduzirFolgern — deduçãofordern — postularForderung — postuladoGedanke — pensamentoGefüge — construçãoGegenstand — objetogeschehen — acontecerGesetzmassigkeit — conformidadeà leiGlaube — crençaGleichnis — símileKonfiguration — configuraçãoMannigfaltigkeit — multiplicidadeMerkmal — marca característica134 135
    • Naturerscheinung — fenómeno na-turalnennen — nomearTatsache — fatoNichtsatz — não-proposição Umgangsprache — linguagem cor-renteObjekt — objeto Umstand — circunstânciaOrt — lugar Unding — disparateunsagbar — indizívelreden — falarReihe — sérieUnsinn — absurdo (o)unsinnig — absurdoUrbild — protofiguraçãoÍNDICE REMISSIVOSache — coisaUrteil — juízourteilen — julgarSachlage — situaçãoSachverhalt — estado de coisassagen — dizerSatz — proposiçãoSatzzeichen — signo proposicionalUrzeichen — signo primitivoverhalten (sich) — estar em rela-ção, estar, relacionar-seAbsurdas, proposições lógicas nãosão, 4.4611Absurdo (Unsinn)exemplos de, 5.5303, 5.5351 (2)impossível de julgar, 5.5422geometria é, 6.35 (1)intuições, princípios científicoscomo, 6.34nenhuma parte da experiênciaé, 5.634o da lógica consiste em, 5.4731Satz vom Grunde — princípio devollstdndig — completo Acidente, na lógica nada é, 2.012 possibilidade de uma forma ló-razão suficiente vorstellen presentar Afiguração, lógica de, 4.015 (ver gica como, 6.33Scheinung — aparênciaschliessen — inferir, concluirSch,luss — inferência, conclusãoZeichen — signoZeichensprache — linguagem sim-também: Forma de afigu-ração)Afirmação, possui propriedadelógica de, 6.231 (1)sempre se revela como algopuramente lógico, 6.3211toda dedução é, 5.133Argumentoselbstandig — autônomoSinn — sentidobólicazeigen — mostrarAlfabeto, provém da, 4.16 (2)Alma, 5.5421 (ver também: Su-lugar e universalidade, 4.0411(2)uma função não pode ser seusinnlos — vazio de sentido zerfallen — resolver jeito) próprio, 3.333 (1)sinnvoll — significativo zerglidern — desmembrar Ambigiiidade, no emprêgo da Argumentos de verdade, pro-So-Sein — ser-peculiarspiegeln — espelhar&elle — posição, localizaçãoSymbol — símbolozerlegen — dividirZufall — acidenteZusammenhang — coerência, co-nexãopalavra "propriedade" e ou-tras, 4.123 (3)"Ambulo", proposição composta,4.032 (2)Análise de proposições, 2.0201,posições elementares são, 5.01Asserçãoe dedutibilidade, 5.124 (1)não pode dar um sentido, 4.0643.201, 3.25, 4.221 (1)Andaime, lógico, 3.42 (3), 4.023Axioma da redutibilidade,6.1232, 6.1233(5), 6.124Aplicação, sucessiva Cálculodefinida, 5.2521 (1). das propriedades lógicas doequivalente a "e assim por símbolo, 6.126 (1)diante", 5.2523A prioricritério de tal pensamento, 3.04não é um experimento, 6.2331 (2)Campo aberto, definido, 4.463Caráter próprio, 2.02331N. B.: Os números entre parênteses referem-se aos parágrafos.Éste índice foi organizado por Arley R. Moreno, tendo como ponto de partida oíndice da edição inglêsa, elaborado por Mas Black.136 137
    • Causalidade, lei decomo limite do descritível, 6.362é forma de uma lei, 6.32, 6.321,6.361Causalidade: não há nexo causal,5.136, 5.1361 (2)Cepticismo, 6.51 (1)Certezacomo caso-limite da probabili-dade, 5.152 (3)da verdade tautológica, 4.464 (1)oposta à possibilidade e impos-sibilidade, 4.464 (2)Ciências naturaisnão incluem a filosofia, 4.111são a totalidade das proposiçõesverdadeiras, 4.11Clareza: tudo pode ser pensadoe dito claramente, 4.116Classes, teoria dassupérflua para a matemática,6.031 (1)Coisas (ver: Objetos)"Complexo", conceito formal,4.1272 (7, 8)Complexo(s)asserções sôbre, são divisíveis,2.0201dado sômente por sua descri-ção, 3.24 (2)e definição, 3.24 (4)percepção de, 5.5423 (1)proposições que tratam de, emrelação interna com as quetratam das partes consti-tuintes, 3.24 (1)Compreensãode nomes, 4.243de proposições, 4.02, 4.024de proposições universais, de-pende da de proposições ele-mentares, 4.411de sinónimos, 4.243de todas proposições, dependeda de proposições elementa-res, 4.411Conceito formalcomo idéia primitiva, 4.12721definido, 4.126 (1)exemplos de, 4.1272 (7, 8)expresso por variáveis, 4.126 (8),4.127marcas características do, 4.126(5, 7)oposto a conceito autêntico,4.126 (2)questões sôbre existência de,4.127sempre dado com o objeto como qual é aplicado, 4.12721Condições de verdadede proposições, e possibilidadede verdade de proposiçõeselementares, 4.41exprimidas, 4.442 (4)grupos de, podem ser ordenadosem série, 4.45relação das, com as possibili-dades de verdade, 4.431 (1)simbolismo para, 4.43Configuração de objetos, 2.0272,3.21(ver também: Estrutura)Constante: expressão como,3.312 (2)Constante(s) lógica(s)apenas uma delas, 5.47 (4),5.472desaparecimento de, 5.441nada substituem, 4.0312 (2)não há nenhuma, 5.4Construção, lógica, 4.014 (2),5.45, 5.5262Contradição (ver também: Ne-gação)caso-limite da união de signos,4.466 (4)definida, 4.46 (4)é algo comum às proposições,5.143não é figuração da realidade,4.462 (1)Coordenadas lógicas, determi-nam o lugar lógico, 3.41CSrestrutura lógica da, 6.3751 (1)forma dos objetos, 2.0251Correspondênciada configuração dos signos sim-ples e dos objetos, 3.21entre objetos e elementos dafiguração, 2.13Dedução, é a priori, 5.133Dedutibilidadee conteúdo relativo, 5.14e estrutura, 5.13e identidade, 5.141e obviedade, 5.1363em relação com as formas dasproposições, ilustrada, 5.1311(1)Definiçãoatua por sôbre os signos, 3.261(1)como desmembramento, 3.26como regra para tradução, 3.343da reunião de símbolos de umcomplexo, 3.24 (4)de "análise completa" (da pro-posição), 3.201de "aplicação sucessiva",5.2521 (1)de "campo aberto", 4.463de "conceito formal", 4.126 (1)de "contradição", 4.46 (4)de "estrutura" (do estado decoisas), 2.032de "expressão", 3.31 (1)de "figuração lógica", 2.181de "forma", 2.033de "forma da afiguração", 2.151de "forma de um objeto",2.0141de "fundamentos de verdade",5.101 (2)de "lugar lógico", 3.41de "medida de probabilidade",5.15de "negação" (no sentido denegação simultânea), 5.5 (2)de "nome", 3.202de "número", 6.022 (2)de números, 6.02de "operação", 5.23de "operações de verdade",5.234de "possibilidades de verdade",4.3de "proposições independentes",5.152 (1)de "série formal", 4.1252 (1)de "signo", 3.32de "signo proposicional", 3.12de "signo simples", 3.201de "sucessor", 4.1252 (4)de "tautologia", 4.46 (4)de "traço", 4.1221de "variável proposicional",3.313 (3)e recursos de representação,4.242regras para, 5.451 (2)significação da, 4.241 (3)Denotaçãode signos primitivos, 3.263dos nomes, 3.3Descriçãoda realidade por uma proposi-ção, 4.023 (2)de expressões, 3.33de proposições, 3.317 (2)de situações, 3.144de um estado de coisas por umaproposição, 4.023 (3)de um objeto, 4.023 (4)do complexo, 3.24 (2)do universo, 6.341Descrições, sistemas de, 6.341Designação, métodos de, 3.322Destino, e os antigos, 6.372 (1)Deus, 6.432, 6.372 (1)Dizerpor proposições, 4.022 (2)possibilidade de não, o que nãopodemos pensar, 5.61 (4)"É", sentido de, 3.323 (2)Elucidação dos signos primiti-vos, 3.263138 139
    • Equaçõescomo exprimindo o carátersubstitutivo, 6.24 (2)não é necessária para exprimiruma denotação, 6.232 (2)revela um ponto de vista, 6.2323Eqiiiprobabilidade, 5.154 (3)Espaçocongruência no, 6.36111figuras geométricas não podemcontradizer leis do, 3.032forma dos objetos, 2.0251lógico (ver: Espaço lógico)objetos espaciais devem estarno, 2.0131 (1)objetos espaciais são impensá-veis fora do, 2.0121 (4)simetria no, 6.3611 (3)(campo) visual, 2.0131 (2)Espaço lógico (ver também: Lu-gar lógico)afiguração representa a situa-ção no, 2.11, 2.202cada coisa está num, 2.013dado por tôda proposição,3.42 (1)e o mundo, 1.13fatos no, 1.13lugar no, determinado pelaproposição, 3.4Essênciada afiguração, 4.016da afiguratividade, 4.013de proposições, 3.341, 4.027,4.03, 4.016, 4.5 (2), 5.471do mundo, 5.4711do símbolo, 3.341 (2), 3.343,4.465e forma proposicional geral,5.471e notação, 3.342Estado(s) de coisas (Sachverhalt)combinações de, 4.27 (1)estrutura do, 2.032possibilidade de ocorrência dascoisas em, 2.0121 (2)possibilidade do, 2.012, 2.0124possível infinitude do, 4.2211relação com a proposição, 4.1relação com a proposição ele-mentar, 4.21, 4.25relação com o fato, 2são ligações de objetos, 2.01,2.03são môtuamente independentes,2.061, 2.062, 4.27 (2)Estética, ética e, 6.421 (3)Estruturaconexão da, com operação, 5.22de estado de coisas, 2.032, 2.034de figuração, 2.15 (2)de proposições, e dedução, 5.13de proposições, mantêm rela-ções internas, 5.2e forma, 2.033e propriedade interna, 4.122 (2)propriedades da, e tautologia,6.12 (3)relações lógicas mostradas pela,4.1211 (2)Eternidade, 6.4311Ética, 6.421, 6.422Eu, o não-psicológico, 5.641Evidência própria (ver também:Óbvio)de proposições matemáticas,6.2341descartada na lógica, 5.4731não é critério de proposiçõeslógicas, 6.1271Existênciade estados de coisas, 2.11, 4.1de lugar lógico, 3.4Expoente, de uma operação, 6.21Expressão (expressões)a proposição é uma função das,3.318definição do têrmo, 3.31 (1)representada por uma variável,3.313 (1)tem denotação apenas numaproposição, 3.314 (1)"Fato", um conceito formal,4.1272 (7, 8)Fato(s) (Tatsachen) (ver também:Situações e Estados de coisas)e figurações, 2.1, 2.11existência de, 2compõem o mundo, 1.1, 1.2independência mútua de, 1.21negativo, 2.06 (2)o mundo se resolve em, 1.2requeridos para exprimir umsentido, 3.142totalidade dos, 1.11Figuração (figurações)construída por nós, 2.1e espaço lógico, 2.11enlaçada com a realidade, 2.151,2.1511, 2.201, 2.21forma de representação de, 2.15incluem forma afigurante, 2.1513lógicadefinição de, 2.181pensamento é, 3proposições enquanto, 4.03 (3)nenhuma é verdadeira a priori,2.224, 2.225possibilidade de, requer subs-tância, 2.0211, 2.0212proposições como, da realidade,4.021proposições são, 4.012representa seu sentido, 2.221são comparadas com a reali-dade, 2.223são fatos, 2.14, 2.141são modelos da realidade, 2.12,4.01têm forma de representação emcomum com a realidade, 2.16,2.171Filosofiadelimita a ciência natural, 4.113delimita o pensável, 4.114e a teoria de DARWIN, 4.1122é cheia de confusões, 3.324é uma atividade, não umateoria, 4.112 (2)geralmente consiste em propo-sições absurdas, 4.003importância da possibilidadeem, 3.3421método correto da, 6.53não é ciência natural, 4.111não está em relação especialcom a psicologia, 4.1121 (1)perigo de confusão com psico-logia, 4.1121 (3)representa o dizível, 4.115resulta em comentários, 4.112(3)seu objeto é o esclarecimentológico de pensamentos, 4.112(1)torna proposições claras, 4.112(4)valor de questões sôbre pro-pósito do simbolismo em,6.211 (1)Forma(s) (ver também: Possibi-lidade)da afiguração,definição da, 2.151exibida, 2.172função da, na figuração, 2.22da realidade, 2.18de expressões, 3.31 (4)caracterizada pela possibili-dade de substituição, 6.23de funções, 3.333 (2)de objetos, 2.0141, 2.0233,2.0251de proposições, 3.311de uma mancha, 4.06hde valôres de uma variável,4.12,71 (2)•do mundo consiste em objetos,2.022-3e possibilidade de estrutura,2.033e substância, 2.025geral da proposição,e operações de verdade, 5.54é uma variável, 4.53geral, das proposições, 4.5, 5.47lógica, 2.18 (ver também: Pro-tofiguração)de proposições, 4.0031determinada por um signo,3.327e variável, 3.315não pode ser representada naproposição, 4.12, 4.121 (1)não se lhes pode atribuirpropriedades, 4.1241140 141
    • Forma afigurante, pertence àfiguração, 2.1513Formal, igualado com lógico,6.12 (1)Formas lógicas, são anuméricas,4.128 (1)Frege, 3.143, 3.318, 3.325, 4.063(1), 4.1272 (8), 4.1273, 4.4431,5.02 (3), 5.132 (4), 5.42,5.451, 5.4733 (1), 5.521,6.1271, 6.232 (1)Freqüência, de ocorrência defatos, 5.154 (1)Funçãodistinta de operação, 5.25 (3)e composição, 5.47 (3)não pode apresentar conceitosformais, 4.126 (4)não pode ser seu próprio argu-mento, 3.333, 5.251proposição elementar é uma,de nomes, 4.24 (2)proposição é uma, de expres-sões, 3.318Função (funções) de verdadede duas variáveis, 5.101 (1)e operações de verdade, 5.3(2, 3)forma geral de, 6 (1)introdução do têrmo, 5não são funções materiais, 5.44(1)notações para, 3.3441podem ser ordenadas em séries,5.1 (1)resulta da aplicação sucessivada negação, 5.5 (1)são resultados de operações,5.234Fundamentos de verdadecomo medida da probabilidade,5.15, 5.151definição de, 5.101 (2)e dedução, 5.11, 5.12, 5.121Futuro, desconhecimento do,5.1361 (1), 5.1362 (1)Geometria, como tt priori, 6.35(1)Gramática lógica, 3.325 (1)(ver também: Sintaxe lógica)Hertz, 4.04 (2), 6.361Idealistas, sua explicação davisão das relações espaciais,4.0412Idéias primitivas, conceitos for-mais como, 4.12721Identidadecrítica à definição de RUSSELLde, 5.5302de signos denotativos, 3.203expressão de, 5.53, 5.531, 5.532,5.5321não é uma propriedade, 5.473(2)não é uma relação entre objetos,5.5301 (1)não se afirma, 6.2322signo de,não é parte essencial, 5.533,6.232 (2)seu sentido, 4.241 (2)Igualdade, sentido do signo de,6.23 (1)Imortalidade, 6.4312 (1)Independência, de proposições,definição de, 5.152 (1)índice (de um nome)confundido com argumento,5.02 (3)exposição de, 5.02Indizível, o, e filosofia, 4.115Induçãocomo aceitação da lei maissimples, 6.363tem apenas fundamento psico-lógico, 6.3631 (1)Indução, lei denão é a priori, 6.31não é uma lei lógica, 6.31Inferência"leis de", sem sentido, 5.132 (4)Lei da ação mínima, 6.3211Lei formal, enquanto determi-nando séries formais, 5.501(6)Leis da natureza, não esclarecemos fenômenos naturais, 6.371Leis físicas, referem-se a objetosdo mundo, 6.3431Lema de Occam, 3.328, 5.47321(1)Liberdade da vontade, 5.1362(1)Linguagem (ver também: Lin-guagem corrente)"crítica da", 4.0031é a totalidade das proposições,4.001fornece intuição, 6.233limites da minha, 5.6lógica da, 4.002 (3), 4.003 (1)tradução da, 3.343veda o pensamento, 4.002 (4)Linguagem coloquial (ver: Lin-guagem corrente)Linguagem correnteambigüidade da, 3.323necessidade de acordos com-plexos, 4.002 (5)tão complicada como o orga-nismo humano, 4.002 (2)tôdas as proposições da, sãoperfeitamente ordenadas,5.5563Lógica (ver também: Proposiçõeslógicas)aplicação da, 5.5521, 5.557cada proposição da, é sua pró-pria prova, 6.1265cálculo em, 6.121 (1)das partes constituintes, carac-terizada pela tautologia, 6.12(2)de fatos, não pode ser substi-tuída, 4.0312 (2)é a priori, 5.4541 (2), 5.4731,5.551 (1)é figuração especular do mundo,6.13 (1)é mecânica, 6.342é transcendental, 6.13 (2)igualada a formal, 6.12 (1)impossibilidade de descrever omundo na, 5.61 (2)impossibilidade de pensar algoque contrarie a, 3.03, 3.032,5.4731investigação da, e sua denota-ção, 6.3irrelevância do monismo e dua-lismo para a, 4.128 (2)leis da, não dependem deoutras leis, 6.123 (1)"método-nulo" na, 6.121 (2)nada é acidental na, 2.012não é ciência natural, 6.111não há classificação na, 5.454(1)não há números na, 5.453 (2)não há proposições derivadasna, 6.127 (1)não há surprêsas na, 6.1251não pode ultrapassar os limitesdo mundo, 5.61 (3)não podemos errar na, 5.473 (3)ocupação da, com possibilida-des, 2.0121 (3), 5.555 (3)papel da postulação na, 6.1223porque foi chamada teoria dasformas, 6.1224possibilidade na, 5.473 (2)precede qualquer experiência,5.552 (2)princípios da, seu número éarbitrário, 6.1271problemas de, são concretos,5.5563 (2)processo e resultado equiva-lentes na, 6.1261proposições da, nada dizem,5.43 (2)prova na, 6.126 (24), 6.1262recursos em, 5.452, 5.511simplicidade da, 5.4541suas proposições são tautologias,6.1, 6.22tôda filosofia da, 6.113toda questão decidível pela,deve sem mais deixar-se de-cidir, 5.551 (1)tudo abrange e espelha omundo, 5.511tudo é acidente fora da, 6.3142 143
    • Lugar geométrico, e possibili-dade, 3.411Lugar lógico (ver também: Es-paço lógico)a negação determina o, 4.0641a proposição determina apenasum, 3.42 (1)relação do, com signo proposi-cional e coordenadas lógicas,3.41Mão direita e esquerda, pro-blema kantiano da, 6.36111Matemáticaé um método lógico, 6.2 (1),6.234intuição na, lugar da, 6.233método de a, trabalhar comequações, 6.2341não há universalidade acidentalna, 6.031 (2)não tem necessidade da teoriadas classes, 6.031 (1)proposições da,mostram a lógica do mundo,6.22não exprimem pensamentos,6.21são equações, 6.2 (2)thdas são compreendidas deper si, 6.2341utilizadas na inferência, 6.211provas em, significado das,6.2321utiliza método de substituição,6.24 (1)Mauthner, 4.0031Mecânicanatureza da, 6.343relação da, com a lógica, 6.342sua generalidade, 6.3432Mecânica newtoniana, 6.341,6.342 (2)"Método-nulo", em lógica,6.121 (2)Microcosmos, o, 5.63Místico, o, 6.44, 6.45, 6.522Modelos dinâmicos, 4.04 (2)Modus ponens, 6.1264 (2)Morte, 6.431, 6.4311Mostrara forma lógica, 4.121 (4)a universalidade, 5.1311 (2)de operações, 5.24 (1)de sentido, 4.022exclui o dizível, 4.1212exemplos de, 4.1211, 6.12,6.1201, 6.127 (2), 6.36 (2)lógica do mundo, 6.22o indizível, 6.522o que o conceito formal abrange,4.126 (3)o que diz, por proposição,4.461 (1)o que no solipsismo é correto,5.62 (2)por estrutura, 4.1211 (2)por tautologias e contradições,4.461 (1)que as propriedades internassubsistem, 4.122 (4)que o mundo é meu mundo,5.62 (3)que uma proposição segue deoutra, 4.1211 (2)requerido pela forma de afigu-ração, 2.172Multiplicidadee número de dimensões dossignos, 5.475e símbolo de multiplicidade,4.0411 (3)não pode ser afigurada, 4.041o mesmo na proposição e nasituação representada, 4.04Mundo, meueu sou, 5.63limites do, 5.62 (3)Mundocompletamente descrito pelatotalidade das proposiçõeselementares verdadeiras, 4.26conexão do, com proposiçõeslógicas, 6.124é a totalidade de fatos, nãodas coisas, 1.1é a totalidade dos estados decoisas, 2.04e a vida formam uma unidade,5.621e o espaço lógico, 1.13e o que ocorre, 1essência do, revelada pela possi-bilidade, 3.3421é tôda realidade 2.063•independente de minha vontade,6.373, 6.374informação sóbre, dada pelasimplicidade de descrição,6.342 (2)limites do, 5.61 (1)lógica do, mostrada em tautolo-gia e equações, 6.22objetos são sua substância, 2.021os nomes não são necessáriospara a descrição do, 5.526o sujeito não pertence ao, 5.632propriedades lógicas do, 6.12,6.124relação projetiva de signos pro-posicionais com o, 3.12resolve-se em fatos, 1.2sentido do, 6.41 (1)sua forma consiste em objetos,2.023Necessidade, apenas lógica, 6.37Negaçãoatravés do que é comum atodos símbolos de negação,5.512 (2)como determinando o lugar ló-gico, 4.0641é uma operação, 5.2341 (2)introduzida, 5.5 (2)inverte o sentido, 5.2341 (3)possibilidade da, antecipada naafirmação, 5.44 (3)requer apenas uma definição,5.451simbolização da, 5.502sua ocorrência não caracterizao sentido, 4.0621 (2)Negação, signo dea nada corresponde na reali-dade, 4.0621não se refere a um objeto, 5.44(4)Nome(s)apenas têm denotação no con-texto da proposição, 3.3como ocorrem nas proposições,4.23índice de, 5.02 (1)não podem exprimir sentido,3.142não podem ser definidos, 3.261(2)não possuem composição essen-cial, 3.3411não são analisáveis, 3.26o "autêntico", 3.3411parecem pontos, 3.144 (2)proposição elementar é umaconexão de, 4.22são dispensáveis para descrevero mundo, 5.526são símbolos simples, 4.24 (1)são signos primitivos, 3.26são signos simples, 3.202variável, 3,314 (2)Notação (ver também: Lingua-gem)arbitrariedade da, 3.342essência da, 3.342Númeroconceito de, 6.022conceito de igualdade de, 6.022(3)forma geral de, 6.022 (1), 6.03"Número", um conceito formal,4.1272 (7, 8)Númeroscomo expoentes de operação,6.021definições de, 6.02ordenados por relação interna,4.1252 (2)O que ocorre (Was der Fall ist)e mundo, 1é o subsistir dos estados decoisas, 2e substância, 2.024igualado ao fato, 2144 145
    • Óbvio, e dedução, 5.1363"Objeto", um pseudoconceito,4.1272 (1)Objetosconfiguração de, 3.21determinam os limites da reali-dade empírica, 5.5561 (1)é absurdo falar de sua exis-tência, 4.1272 (5)é absurdo falar de seu número,4.1272 (6)e possibilidade, 2.014forma de, 2.0141independência de, 2.0122marca característica dos, nãosão mostradas por similari-dade dos signos, 3.322não podem ser enunciados, 3.221não têm côr, 2.0232ocorrência em estados de coisasde, 2.012, 2.0123podem apenas ser nomeados,3.221possibilidade de conexão dos,com outros objetos, 2.0121 (4)possível infinitude de, 4.2211são a forma fixa do mundo,2.023, 2.026são denotados por nomes, 3.203,3.22são simples, 2.02são substância do mundo, 2.021se dados, todos são dados,5.524 (1)"Objetos lógicos", não existem,4.441, 5.4"Óculos espaciais", 4.0412Operação (operações)aplicação sucessiva de, 5.2521,5.2523base da, 5.21, 5.24 (3), 5.25(2), 5.251conexão com estrutura, 5.22,6.002definição de, 5.23depende de propriedades for-mais, 5.231distinta das funções, 5.25 (3)exemplos de, 5.2341 (2)expoente de, 6.021mostrada numa variável, 5.24(1)nada assertam, 5.25 (2)não são relações, 5.42 (1)número de, básicas dependeapenas de nossa notação,5.474pode anular o efeito, 5.253,5.254realização de, não caracterizao sentido, 5.25 (1)resultado de, pode ser sua pró-pria base, 5.251signos de, são pontuações, 5.4611torna expressa a diferença deformas, 5.24 (2), 5.241Operações-verdadedefinição de, 5.234e funções de verdade, 5.3 (2, 3)Palavras, não podem ocorrersimultâneamente nas e foradas proposições, 2.0122Paradoxo de Russell, 3.333 (4)Parênteses, sua importância,5.461Pensamentoa priori, critério de, 3.04como figuração lógica, 3como método de projeção, 3.11(2)contém possibilidade da situa-ção, 3.02 (1)é aplicado a signo proposicional,3.5é a proposição significativa, 4expresso em proposições, 3.2expresso por signos, 3.1forma do, 4.002 (4)vedado pela linguagem, 4.002(4)Pensável (pensáveis)apenas conexões conformes coma lei são, 6.361é delimitado pela filosofia,4.114é figurável, 3.001é possível, 3.02Possibilidade, 2.0122-3de conexão de coisas, 2.0121 (4)de estrutura é forma, 2.033de projeção, 3.13 (2)de proposições, 4.0312 (1)de situações, 2.014, 2.202, 2.203expressão de, 5.525 (2)de modo de designar, 3.3421e essência do mundo, 3.3421e estado de coisas, 2.012, 2.0124e forma de afiguração, 2.151e tudo que precisa ser tradu-zido, 4.025 (1)Proposição (preposições)análise de, 3.201, 3.25, 4.221(1)apanha todo espaço lógico,3.42 (3)cada, determina um lugar ló-gico, 3.42como configurações de objetos,2.0231como figurações lógicas, 4.01 (1)como funções de expressões,3.318como modelos da realidade, 4.01(2)completamente universalizadas,5.526 (1)compreensão de, 4.024conteúdo da, 3.13 (4)determina espaço lógico, que édado por ela, 3.42 (1)diz como, não o que uma coisaé, 3.221elementar (elementares)campo deixado pelas, 5.5262(1)composição de, não pode serdada, 5.55 (2)conceito de, 5.555 (1)constitui-se de nomes, 4.22,5.55 (2)contém todas operações ló-gicas, 5.47 (2)formas de, não há hierarquiade, 5.556formas possíveis de, 5.55importância de, para enten-der outros modos de propo-sições, 4.411indicação de valôres de ver-dade das, descreve o mun-do, 4.26lógicamente independentes,5.134não pode contradizer outrasproposições elementares,4.211não podem ser indicadas apriori, 5.5571puros fundamentos lógicospara seu ser, 5.5562relação da, com estados decoisas, 4.21, 4.25relação das, com possibili-dades de verdade de ou-tras proposições, 4.4relação das, com tautologiae contradição, 6.3751 (3)são argumentos de verdadeda proposição, 5.01se dadas, todas já são dadas,5.524 (2)simbolização de, 4.24 (2, 3)e possibilidades de verdade deproposições elementares, 4.4expressão de pensamentos nas,3.2forma aparentementelógica das,4.0forma geral de, 5.47 (5)forma mais geral das, 4.5, 6formas de, da psicologia, 5.541,5.542lógicas (ver: Proposições ló-gicas)mostra o que diz, 4.401 (1)mostra seu sentido, 4.022não pode adquirir sentido porasserção, 4.064não pode afirmar sua própriaverdade, 4.442 (3)não pode assertar nada sôbresi mesma, 3.332não pode representar forma ló-gica, 4.12 (1), 4.124negação da, 4.0641nelas nomes substituem os ob-jetos, 3.22nem provável nem improvávelem si mesma, 5.153146 147
    • número de possibilidades das,de concordância com possibi-lidades de verdade de propo-sições elementares, 4.42, 4.45(1)oposição de, 5.513 (2)o que é comum a, ilustraçãodo, 5.513 (1)o que elas dizem, 4.022 (2)parecem flechas, 3.144 (2)precisa apenas de "sim" ou"não" para fixar a realidade,4.023 (1)pressuposições de, 5.5151 (3)primitivas ("princípios"), 5.43(1)probabilísticas, não possuemobjeto especial, 5.1511relação de, com signo proposi-cional, 3.12são articuladas, 3.141 (2), 3.251,4.032 (1)são comparadas com a reali-dade, 4.05são compostas, 4.032 (2),5.5261 (1)são descrições de um estadode coisas; 4.023 (3)são expressões, 3.31 (2)são expressões de sua condiçãode verdade, 4.431 (2)são figurações da realidade,4.021são funções de verdade de pro-posições elementares, 5 (1)são generalizações de proposi-ções elementares, 4.52são sempre figurações completas,5.156 (4)seguem de proposições elemen-tares, 4.52sentido da, idêntico ao produtológico da tautologia, 4.465significativasconteúdo de, 3.13 (4,5)são pensamentos, 4sôbre complexos, 3.24subsistência e não-subsistênciade estados de coisas repre-sentadas por, 4.1têm proposições elementares co-mo argumentos de verdade,5.01têm sentido independente dosfatos, 4.061têm tôdas igual valor, 6.4têm valor de verdade quandosão figurações da realidade,4.06traços acidentais de, 3.34traços essenciais de, 3.34Proposições analíticas, as pro-posições da lógica são, 6.11Proposições lógicascomo formas de prova, 6.1264(1)como modus ponens, 6.1264 (2)descrevem os andaimes do mun-do, 6.124dispensáveis, 6.122e relação com o mundo, 6.124não se distinguem por validadeuniversal, 6.1231 (1)não são confirmadas pela expe-riência, 6.1222são eqüiponderantes, 6.127 (1)sua verdade é discernível ape-nas no símbolo, 6.113têm posição especial entre tôdasproposições, 6.112"tratam" de nada, 6.124,Propriedade, como impensável einterna, 4.123Propriedade essencial, de umacoisa, poder ser parte consti-tuinte de um estado de coisas,2.011Propriedade externa, 2.01231,2.0233 (ver também: Proprie-dade interna)Propriedades formaisdos valôres da variável, 4.1271e tautologias, 6.12exposição de, 4.122 (1)expressa por traços de símbolos,4.126 (6)reconhecimento de, 6.122Propriedade(s) interna(s) (vertambém: Propriedades formais)conhecimento de, como neces-sário para conhecimento deobjetos, 2.01231de uma proposição, descrevema realidade, 4.023 (4)de uma situação possível, 4.124(1), 4.125e estrutura, 4.122 (2)é impensável, 4.123 (1)e traço, 4.1221sua subsistência é mostrada,4.122 (4)Propriedades lógicas das pro-posições, demonstradas pelastautologias, 5.121Protofiguraçãoe designação da universalidade,3.24 (3), 5.522e forma lógica, 3.315e variável, 3.315exemplos de, 3.333 (1), 5.5351(1)Prova,de 2X2, 6.241de proposição denotativa opostaà prova em lógica, 6.1262em lógica, um expediente me-cânico, 6.1263Pseudoconceito, 4.1272 (1)Pseudoproposições, 5.535 (1)Psicologia, e filosofia, 4.1121Realidadecomo subsistência de estado decoisas, 2.06 (1)completamente descrita por pro-posição, 4.023 (2)descrita por propriedades inter-nas da proposição, 4.023 (4)empírica, limitada pela totali-dade dos objetos, 5.5661 (1)enlaçada com figurações, 2.1511,2.15121figuração comparada com, 2.21,2.223figuração é modêlo da, 2.12forma de, 2.18não figurada por tautologia econtradição, 4.462proposição como figuração da,4.01 (1), 4.021proposições comparadas com,4.05total, é o mundo, 2.063traços lógicos da, 4.023 (5)Recursos, em lógica, 5.452Regras, como equivalentes a sím-bolos, 5.514Relações internasda proposição que trata de umcomplexo com a proposiçãoque trata das partes consti-tuintes, 3.24 (1)e dedução, 5.131e definição de séries formais,4.1252 (1)entre estruturas de proposições,5.2equivalentes a operações, 5.232"Rosa é Rosa", 3.323 (3)Russell, 3.318, 3.325, 3.331, 3.333,Semelhança interna, 4.0141Sentidoapenas proposições têm, 3.3caracterizado por expressões,3.31 (1)conexão do, com o método deprojeção, 3.11 (2)de funções de verdade comouma função, 5.2341 (1)proposição e coisa como, 5.5351 4.0031, 4.12721, 4.1.272 (8),(1)proposições matemáticas são,4.1273, 4.241 (3), 5025.132 (4), 5.252, 5.4,(2),5.42,6.2 (2) 5A52 (2), 5.5302, 5.535, 5.541surgem do uso de pseudocon-ceitos, 4.1272 (4)(4), 5.5422, 5,553 (1),(2), 6.12326.123148 149
    • de proposiçõesapenas a forma do, contidana proposição, 3.13 (5)contido no sentido de outrasproposições, 5.122determinação do, 4.063 (2)e possibilidades de existênciade estados de coisas, 4.2expresso por posição espacial,3.1431 (2)independente dos fatos,4.061 (1)invertido pela negação,5.2¡341 (3)do signo proposicional, nãonecessita explanação, 4.02,4.021e dedução, 5.122expressável apenas por fatos,3.142igualada com representação desituações, 4.031 (2)não pode ser sustentado porasserção, 4.064nôvo, comunicado, 4.03 (1)objetos que ocorrem no,4.1211 (1)oposto, 4.0621 (3)o que a figuração representa éseu, 2.221postulado da determinabilidadedo, 3.23requer substância, 2.011Série formal (séries formais)definidas, 4.1252 (1)de funções de verdade, 5.1 (1)exemplo de, 4.45 (2)precisa de uma variável, 4.1273progresso de um têrmo a outrona, 5.252representação do têrmo geralde, 5.2522têrmo geral de, 4.1273 (2)Signo(s)aplicação do, 3.262complexo, 3.1432como determinando uma formalógica, 3.327como parte perceptível do sím-bolo, 3.11, 3.32como símile do designado, 4.012e símbolo, 3.326equivalência de, 5.47321 (2)identidade da denotação dos,3.203não pode receber sentido incor-reto, 5.4732não usado, 3.328 (1)o mesmo, pode pertencer a sím-bolos diferentes, 3.321possível, 5.473 (2)primitivo (ver: Signos primiti-vos)proposicional (ver: Signo pro-posicional)simples, 3.201, 3.202Signo de asserção, sem deno-tação, 4.442 (2)Signos primitivosda lógicacomo formas de combinações,5.46precisam ser esclarecidos, 5.45diferente significação dos,3.261 (2)elucidação de sua denotação,3.263nomes são, 3.26regras de definição aplicadas a,5.451 (2)Símbolo(s)como equivalente a regras, 5.541composto, características do,5.5261 (2)de complexos, definidos, 3.24 (4)diferença de, 3.323 (3)diferente, pode ter signo comum,3.321e signos, 3.326igualados a expressões, 3.31o que designa no, 3.344pressuposições de, 5.5151 (3)são traços essenciais, 3.34signo é a parte perceptível do,3.32Símiles, 4.015Simplicidade de objetos, 2.02,2.021Sintaxe lógicadenotação dos signos não desem-penha nenhum papel na, 3.33e regras para substituição, 3.334implica tôda proposição lógica,6.124necessidade de ser utilizada,3.325 (1)regras da, 3.334Situações (Sachlage)conexão da coisa com, 2.0122podem ser descritas mas nãonomeadas, 3.144 (1)possibilidade de, 2.014"S6crates é idêntico", 5.473(2), 5.4733 (3)Solipsismocoincide com realismo, 5.64correto em intensão, 5.62Substânciado mundo, identificada com osobjetos, 2.021é forma e conteúdo, 2.025subsiste independente do queocorre, 2.024Sucessor, definição de, 4.1252 (4)Sujeitoe o corpo, 5.631 (2)é limite do mundo, 5.632,5.641 (3)não existe, 5.5421 (1)não pertence ao mundo, 5.632Superstição, 5.1361 (2)Tautologia(s)compartilhada por proposições,5.143 (1)definição de, 4.46 (4)derivação da tautologia de,6.126 (3)é caso-limite de união de sig-nos, 4.466 (4)é proposição analítica, 6.11e propriedade de estrutura,6.12 (3)é sem sentido, 4.461 (3)é verdade certa, 4.464 (1)método para reconhecer, 6.1203mostra a lógica do mundo, 6.22mostra que é uma tautologia,6.127 (2)não diz nada, 4.461 (1), 5.142,6.11não é absurda, 4.4611não é figuração da realidade,4.462não tem condições de verdade,4.461 (2)probabilidade de, 5.152 (4)produto lógico de, é uma pro-posição, 4.465proposições da lógica são, 6.1segue-se de tôda proposição,5.142uma proposição particular podeser, 6.1231 (2)usada na demonstração de pro-priedades lógicas, 6.121Tempo"decurso" de, 6.3611 (1)forma dos objetos, 2.0251objetos temporais são impen-sáveis fora de, 2.0121 (4)seqüência de processos no,6.3611 (1, 2)Teoria de Darwin, irrelevantepara a filosofia, 4.1122Teoria do conhecimento, comorelacionada com psicologia efilosofia, 4.1121 (2)Teoria dos tipos, 3.331, 3.333,5.252, 6.123 (2)Totalidade de estado de coisas,2.05Traço, explicado, 4.1221Traços de símbolos, expressampropriedade formal, 4.126 (6)Traduçãocomo critério de "o que écomum" nas linguagens, 3.343e projeção, 4.0141Universalidadeacidental, 6.031 (2), 6.1232conceito de, separado de funçãode verdade, 5.521como designada, 4.0411 (1)como presente, 5.1311 (2)1505
    • designação de,aparece como argumento,5.523refere-se a uma protofigura-ção lógica, 5.522salienta as constantes, 5.522essencialnecessária na matemática,6.031 (2)oposta à validade acidental,6.1232sua designação contém umaprotofiguração, 3.24 (3),5.522Valor, 6.4, 6.41Variável (variáveis) (ver tam-bém: Variável proposicional)expressão apresentada por, 3.313como nome, que é signo parapseudoconceito objeto,4.1272 (1)determinação de valôres de,3.317é nome também, 3.314 (2)é signo de conceitos formais,4.1271forma de, 4.1271 (2)forma geral proposicional é uma,4.53na expressão de têrmo geralde uma seqüência, 5.2522necessária para expressar o têrmo universal da série for-.1.)1al, 4.1273 (1)pode ser encarada como va-riável proposicional, 3.314proposicional (ver: Variável pro-posicional)proposicional geral, 5.242utilizada para operações, 5.24(1)valôres de, 3.315, 5.501 (6)Variável proposicionaldefinição de, 3.313 (3)determinação dos valôres de,3.316exprime um conceito formal,4.126 (8)relação da, com forma lógica,3.315símbolo traço para, 5.501tôda variável pode ser conce-bida como, 3.314Vazio(s) de sentido (Sinnlos)distinto de absurdo, 4.461 (3),4.4611exemplos de, 4.1272 (9),4.1274, 5.1362 (2)"regras de inferência" são,5.132 (4)tautologia e contradição são,4.461 (3)Verdadeconceito de, contribuição falsade FREGE, 4.431 (3)conceito de, exposição do, 4.063e falsidade, não são relaçõeseqüiponderantes, 4.061não é propriedade, 6.111sua conexão com a naturezafigurativa da proposição, 4.06Vínculo proposicional(Satzverband), 4.221Visão, campo de, 5.633 (2, 3),5.6331Vontade, 6.423, 6.43Whitehead, 5.452 (2), 5.252LUDWIG WITTGENSTEIN nasceu em Viena em1889 e faleceu em Cambridge, (mia 1951, ondeensinou. Pretendia, como conta Ruagzu, nosRetratos de memória, tornar-se engenheiro ef6ra para Manchester com 6sse objetivo. Inte-ressado no estudo dos fundamentos da mate-mática, entrou em contato com RUSSELL. "Era— escreve RUSSELL - um tipo esquisito esuas idéias me pareciam estranhas, de modoque durante todo um período letivo não mefoi possível decidir se êle era um homem degênio ou simplesmente um excêntrico. Ao ter-minar o seu primeiro ano em Cambridge, veioa mim e 13ediu-me: "Poderia fazer a finezade dizer-me se sou ou não um completo idiota ?"Respondi: "Meu caro amigo, não sei. Porque - Ine pergunta ?" Replicou-me: "Porque,caso seja um completo idiota, me dedicareià aeronáutica; caso contrário, tornar-me-ei filó-sofo." Disse-lhe que escrevesse algo, duranteas férias, sôbre algum tema filosófico, e queeu lhe diria, então, se era ou não um com-pleto idiota. No início do ano letivo, trouxe-meo resultado daquilo que eu sugerira. Apósler apenas uma frase, disse-lhe: "Não, V, nãodeve tornar-se aeronauta." Não era fácil lidarcom êle. Tinha manias. Certa vez, depois dehoras de silêncio, Russzu, perguntara-lhe seêle estava pensando em problemas de lógicaou em seus peados. "Ém ambas as coisas",foi a resposta. Herdara do pai uma grandefortuna, mas desfez-se dela, alegando (o quetalvez seja uma verdade) que o dinheiro cons-tituía apenas uma amolação para o filósofo.Foi mestre-escola num lugarejo, Trattenbach,de onde escrevia a RUSSELL, que "os homensde Trattenbach são perversos", a que RUSSELLrespondera: "Todos os homens são perversos."O lógico WITTGENSTEIN a isso dera esta res-posta: "É verdade, mas os homens de Tratten-bach são mais perversos do que os homens dequalquer outro lugar" . .. "Era um homemque impressionava imensamente", diz aindaRUSSELL, pois "possuía, em grau absoluta-mente extraordinário, ardor, penetração e pu-reza intelectual."É a obra dêsse homem excêntrico masdotado de grande penetração e pureza, quea Biblioteca Universitária ora apresenta aosleitores de língua portuguêsa.152 J. • CRUZ COSTA