Coppe sala interativa(30 09 2011)

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Coppe sala interativa(30 09 2011)

  1. 1. 1SALA INTERATIVA: BOAS IDEIAS E UM FAZER DIFERENTEAnna Fernanda Paiva -Bianca Panisset -Edmond Rubim de Araujo - Fernanda SarmentoMarina Henriques - Mônica de M. Couto - Pedro Cariello Botelho - Renato Gil AmaralPROJETO FINAL SUBMETIDO AO CORPO DOCENTE DOS PROGRAMAS DEPÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIODE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARAOBTENÇÃO DO GRAU DE ESPECIALISTA EM GESTÃO DO CONHECIMENTOE INTELIGÊNCIA EMPRESARIALAprovado por:__________________________________________Membro da banca, titulação__________________________________________Membro da banca, titulação__________________________________________Membro da banca, titulaçãoRIO DE JANEIRO, RJ - BRASILAGOSTO, 2011
  2. 2. 2SALA INTERATIVA: BOAS IDEIAS E UM FAZER DIFERENTEAnna Fernanda Paiva -Bianca Panisset -Edmond Rubim de Araujo - Fernanda SarmentoMarina Henriques - Mônica de M. Couto - Pedro Cariello Botelho - Renato Gil AmaralPROJETO FINAL SUBMETIDO AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃODOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA DAUNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOSREQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DEESPECIALISTA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO E INTELIGÊNCIAEMPRESARIALCOUTO, Monica; SARMENTO, Fernanda; PAIVA, Anna Fernanda;PANISSET, Bianca; ARAUJO, Edmond; HENRIQUES, Marina;BOTELHO, Pedro; AMARAL, Renato.Sala de Aula Interativa/ Monica de Menezes Couto; Fernanda d‘AvilaMelo Sarmento; Anna Fernanda Gomes Bernardo de Paiva/ BiancaTherezinha Carvalho Panisset/Edmond Rubim de Araújo/ MarinaHenriques/ Pedro Cariello Botelho/ Renato Gil Amaral - Rio de Janeiro:UFRJ/COPPE [2010]II, 192p. ; 29,7 cmOrientador: André PereiraEspecialização (Projeto Final) – UFRJ/COPPE/ Programa deEngenharia de Produção, 2010.Referências Bibliográficas: p. 54-561. Inovação pedagógica. 2. Construção coletiva do conhecimento. 3.Aproximação dos alunos ao campo da Ciência e Tecnologia. I. PEREIRA,André. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE, Programa deEngenharia de Produção. III Título
  3. 3. 3RESUMOO projeto Sala Interativa pretende orientar a construção de um ambiente deaprendizagem interativo, replicável em distintos espaços. É uma iniciativa de carátercomplementar à aprendizagem dos educandos do Ensino Médio promovendo uma maioraproximação do campo da Ciência e da Tecnologia, apoiada em uma dinâmica deestímulo à curiosidade, expressão de ideias e aprendizagem colaborativa.Palavras-chave: Sala Interativa, Inovação, EducaçãoABSTRACTThe project ―Sala Interativa‖ (Interactive Room) intends to guide the construction of aninteractive learning environment, replicable in different spaces. It is an initiative of acomplementary learning of high school students promoting a deeper approach to thefield of Science and Technology, supported by a dynamic stimulus to curiosity,expression of ideas and collaborative learning.Keywords: Interactive Room, Innovation, Education
  4. 4. 4“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-opara que descobrisse o mar.Viajaram para o sul.Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas deareia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. Efoi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficoumudo de beleza.E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando,pediu ao pai:- Me ajuda a olhar!"Eduardo Galeano - O livro dos Abraços
  5. 5. 5Conteúdo1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 72. ESTUDO DO AMBIENTE E CONTEXTO PEDAGÓGICO................................ 203. A HISTÓRIA DO PROJETO (E DE TANTOS OUTROS...) ................................ 293.1) Considerações gerais ........................................................................................... 293.2) Entrevista com Professor Aranha ........................................................................ 333.3) Entrevista com a Professora Maria Lúcia Horta.................................................. 363.4) Resultados e histórias de sucesso ........................................................................ 374. A ESTRATÉGIA .................................................................................................... 394.1) PESQUISA 1 – Estudo a partir dos Objetivos (Foco na questão pedagógica) .. 404.2) PESQUISA 2 – Estudo a partir da Inovação de Valor (foco na percepção docliente e viabilidade do negócio) ................................................................................ 434.2.1) A nova curva de valor................................................................................... 454.2.2 O novo modelo de negócio ............................................................................ 545. JUNTANDO AS PEÇAS........................................................................................ 595.1) Como tudo isso se conjuga? ................................................................................ 596. A SALA NA PRÁTICA.......................................................................................... 636.1) Alguns comentários iniciais ................................................................................ 636.2) Funcionamento Pedagógico................................................................................. 646.2.1) Criando condições para aprendizagem ......................................................... 646.2.1) Funcionamento dos módulos ........................................................................ 676.3) Estratégias de Ocupação do Espaço .................................................................... 746.3.1 Os padrões aplicáveis..................................................................................... 806.3.2 A relação com o espaço.................................................................................. 906.3.3 Resumindo as influências arquitetônicas ....................................................... 946.4) Mais padrões: ambientes e comportamentos para boas idéias .......................... 1016.4.1) O possível adjacente ................................................................................... 102
  6. 6. 66.4.2) Redes líquidas............................................................................................. 1046.4.3) A intuição lenta........................................................................................... 1066.4.4) Serendipidade.............................................................................................. 1076.4.5) Erro ............................................................................................................. 1076.4.6) Exaptação.................................................................................................... 1086.4.7) Plataformas ................................................................................................. 1096.4.8) Resumindo influências de criação de ambiente inovador........................... 1106.5) Refletindo sobre todas as influências ................................................................ 1117. O PROJETO PILOTO........................................................................................... 1127.1) BMG piloto........................................................................................................ 1127.2) Plano de Gerenciamento do Projeto .................................................................. 1197.2.1) Introdução ................................................................................................... 1197.2.2 Objetivos ..................................................................................................... 1217.2.3 Resultado Esperado...................................................................................... 1237.2.4 Escopo do Projeto......................................................................................... 1247.2.5 Equipe de Planejamento de Projeto.............................................................. 1257.2.6 Estrutura Analítica do Projeto (EAP)........................................................... 1267.2.7 Dicionário EAP ............................................................................................ 1277.2.8 Comunicações .............................................................................................. 1417.2.9 Orçamento.................................................................................................... 1437.2.10 Sumario de Custos do Projeto.................................................................... 1447.2.11 Riscos do Projeto Piloto............................................................................. 1447.2.12 Matriz de Responsabilidades do Projeto Piloto.......................................... 1467.2.13 Verificação da Qualidade do Projeto ......................................................... 1478. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................ 1479. ANEXOS............................................................................................................... 15010. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................. 245
  7. 7. 71. INTRODUÇÃOA expressão ―Sociedade do Conhecimento‖ é recorrentemente utilizada paradescrever a atual conjuntura mundial. Todas as mudanças que percebemos nas esferascultural, econômica e social desde o industrialismo apontam para uma nova dinâmicadas relações humanas e comerciais. TOFFLER (1980) descreve este momento comosendo ―a terceira onda‖.A primeira onda descrita por TOFFLER (1980) seria a desencadeada peladescoberta da agricultura. A partir deste evento, segundo o autor, o homem abandonauma vida migratória em pequenos grupos, passa a viver de forma sedentária em aldeias,colônias e desenvolve todo um novo estilo de vida através do cultivo da terra. Emresumo, ―a terra era a base da economia, da vida, da cultura, da estrutura da família e dapolítica. Em todas elas a vida era organizada ao redor da aldeia. [...] a economia eradescentralizada [...] a comunidade produzia a maioria de todas as suas necessidades‖(TOFFLER, 1980:35)As pessoas viviam do cultivo da terra, através de um lento e artesanal modo deprodução. Não havia tecnologias desenvolvidas para transportar essas mercadorias oupara realizar o controle de qualidade das mesmas. Culturalmente, as mudanças eraminsignificantes ao longo do tempo, uma vez que, além de a educação ser restrita apoucos e ficar sob tutela exclusivamente religiosa, não existiam meios de comunicaçãocomo os que conhecemos hoje, e a disseminação da informação era precária.No fim do século XVII, com a Revolução Industrial na Europa, emerge emalguns locais a segunda onda. Caracterizada pelo industrialismo e a urbanização, elatrouxe consigo a sistematização da produção (e conseqüente padronização dosprodutos), a criação de diversos meios de comunicação (individuais ou de massa) quepermitiram uma maior troca cultural e a transição para um modelo de educação sobgrande influência da revolução burguesa e seus princípios de universalidade.Apesar destes inquestionáveis ganhos, a segunda onda estabeleceu uma granderuptura quando ―separou violentamente dois aspectos de nossas vidas que até entãosempre tinham sido um [...]. As duas metades da vida humana que a Segunda Ondaseparou foram produção e consumo‖ (TOFFLER, 1980:50). O que o autor pontua é que
  8. 8. 8na primeira onda o grande volume de tudo que se era produzido era consumido pelospróprios produtores, e apenas um volume marginal de produtos era vendido, barganhadoou trocado. De forma oposta, durante a segunda onda, a maior parte de tudo que eraproduzido (comida, mercadorias, serviços) passou a ser destinado à venda. Ou seja, aspessoas abandonam o papel do agricultor auto-suficiente e migram para a condição deoperário que depende inteiramente dos itens produzidos por outrem.A questão da padronização citada anteriormente e essa separação absoluta entrea produção e o consumo servem de linha guia para os sistemas produtivos industriais.Assim, a separação da linha de montagem em pequenas atividades repetitivas, a fim deobter a maior produtividade possível do trabalhador, reforçava estes pontos. Logo, aoprescindir de seu conhecimento, de sua cultura, de seu pensamento sistêmico, otrabalhador aos poucos foi mecanizando sua atividade e embotando sua capacidadecriativa.O mais familiar princípio da Segunda Onda é a padronização.Todo mundo sabe que as sociedades industriais produzemmilhões de produtos idênticos. Poucas pessoas, entretanto, já sedetiveram para notar que, apenas o mercado se tornou importante,nós fizemos mais do que simplesmente padronizar garrafas deCoca-Cola [...]. Nós aplicamos o mesmo princípio a muitas outrascoisas. (TOFFLER, 1980:59)Neste cenário, a sociedade urbana passou a sofrer a intervenção cada vez maiordo Estado para estabelecer a escola elementar universal, laica, gratuita e obrigatória. Arelação entre educação e bem-estar social, estabilidade, progresso e capacidade detransformação passou a ser enfatizada.A Terceira Onda está situada, segundo o autor, aproximadamente a partir dadécada de 1950. Esta onda é caracterizada por ter o conhecimento como principal fatorprodutivo. Essa ―economia do conhecimento‖ trouxe mudanças relevantes para osistema econômico, uma vez que abandonou o foco no trabalho em si (o que acarretouem perda de valor para mercadorias industrializadas) e passou a ser baseada na maneiracomo o conhecimento é gerado e utilizado (GORZ, 2005).
  9. 9. 9CAVALCANTI e colaboradores (2001) compartilham de visão semelhante. Paraeles:A constatação de que conhecimento é hoje o principal fator deprodução tem conseqüências nas atividades econômicas. [...] Masum dos maiores impulsionadores dessas grandes mudanças a queestamos assistindo é a confluência de diferentes tecnologias [...]Esta convergência é um traço essencial da nova economia e é aresponsável pela criação de diversos produtos e serviçosinovadores que estão modificando de modo irreversível a maneiracomo os negócios são concebidos e gerenciados.(CAVALCANTI; GOMES; PEREIRA, 2001:29)CASTELLS (1997 apud CONTRERA, 2001) é um dos autores que estuda arelação entre as novas tecnologias, a comunicação e a sociedade, apresentando umaforma peculiar de descrever esse momento. No seu entender, trata-se de um:Novo sistema tecnológico, econômico e social. Uma economiaem que a produtividade não depende da quantidade de fatores deprodução (capital, trabalho, recursos naturais), mas sim deaplicação de conhecimentos e informação para gestão, produção edistribuição, tanto nos processos como nos produtos.(CASTELLS, 1997 apud CONTRERA, 2001:59)A nova realidade se conjuga com o aumento na velocidade de transmissão deinformações e de obsolescência de antigas tecnologias, reforçando a importância daimaterialidade neste novo cenário. Para RIFKIN (2001) este momento deveria serdenominado ―a era do acesso‖. Para ele é mais importante ter acesso e ser capaz de lidarcom um grande volume de informações do que possuir algo físico. No seu entender:Em um mundo de produção customizada, de inovação eatualizações contínuas e de ciclos de vida de produto cada vezmais breves, tudo se torna quase imediatamente desatualizado.Ter, guardar e acumular, em uma economia em que a mudança
  10. 10. 10em si é a única constante, faz cada vez menos sentido. (RIFKIN,2001:5)Entretanto, não foram apenas os fatores econômicos que entraram emtransformação profunda. As novas tecnologias de informação e comunicação impactamde forma sem precedentes na maneira pela qual o homem se comunica e constrói idéias.Para TOFFLER (1980):Enquanto o nosso ambiente se convulsiona com mudanças – eenquanto nossos empregos, lares, igrejas e escolas e arranjospolíticos sentem o impacto da Terceira Onda – o mar deinformação em volta de nós também muda. (TOFFLER,1980:162)Com isso, o aprendizado começou a deixar de se caracterizar pela simplesaquisição ou transferência de conteúdo, e passou a ter como prerrogativa a interação doeducando com o conteúdo. ARANHA (2009) é um dos autores que compartilha destavisão. No seu entender:A relação pedagógica como construção conjunta baseia-se em umnovo paradigma que vai além da idéia que existe um alunoconsumidor, passivo de saberes. (ARANHA, 2009: 220)Embora boa parte da sociedade já viva sob esta nova dinâmica nas relações, omodelo educacional presente nas escolas sofreu pequena alteração. O que se percebe é arepetição da velha fórmula, pura e simples transmissão de informações, fatos eacontecimentos. Assim, o que outrora fora um modelo inovador e adequado, sinônimode progresso, ao se manter inalterado através do tempo, tornou-se uma obsoletaferramenta de educação, ineficiente na capacitação de nossos jovens para lidar com ocomplexo mundo que vivemos.Paulo Freire é um dos autores que insiste em criticar o ensino bancário – aqueleonde se deposita informação e conhecimento na cabeça do educando, como se ela fosse
  11. 11. 11vazia. Para ele "...ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades parasua própria produção ou a sua construção" (FREIRE, 2003, p. 47).Edgar Morin em seu livro ―Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro‖explora a complexidade do ser humano, diante da qual o ensino bancário não faz sentidopara o aprendizado, como destacado no trecho abaixo:O ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico,cultural, social, histórico. Esta unidade complexa da naturezahumana é totalmente desintegrada na educação por meio dasdisciplinas, tendo-se tornado impossível aprender o que significaser humano. É preciso restaurá-la, de modo que cada um, ondequer que se encontre, tome conhecimento e consciência, aomesmo tempo, de sua identidade complexa e de sua identidadecomum a todos os outros humanos. Desse modo, a condiçãohumana deveria ser o objeto essência de todo o ensino. (MORIN,2000: 15)Portanto, na sociedade que está se organizando atualmente, o principal recursoeconômico passa a ser a informação e a capacidade de gerar conhecimento a partir dela.O homem deve ser capaz de usar o conhecimento para gerar valor e inovação, emqualquer setor da sociedade, ou seja, os parâmetros de geração de riqueza estãomudando, como afirmam Cavalcanti e colaboradores (2001):Se antes o que gerava riqueza e poder era o domínio do capital, daterra e do trabalho, hoje a realidade é outra. Segundo aOrganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico(OCDE), ligada à ONU, mais de 55% da riqueza mundial advêmdo conhecimento e dos denominados bens ou produtosintangíveis, como softwares, patentes, royalties, serviços deconsultoria e bens culturais como filmes, músicas eentretenimento em geral. (CAVALCANTI; GOMES; PEREIRA,2001:.21)
  12. 12. 12A inovação, entretanto, pode ser dividida em duas etapas principais: a primeira éo momento de idealizar, conceber um conceito novo; a segunda diz respeito àcapacidade de executar esta nova idéia, mais especificamente, à capacidade de torná-lacomercialmente viável. As empresas e as pessoas na Sociedade do Conhecimentodevem ser instigadas e provocadas a se tornarem capazes de utilizar o conhecimentopara gerar inovação.Para SENGE (2009) uma nova invenção só se torna inovação quando pode sermultiplicada com custo atrativo. Ele exemplifica este conceito comentando a invençãodo avião, cujo desdobramento em inovação através da aviação comercial se deu apenastrinta anos depois. Esse conceito é reforçado por BROWN (2010), que afirma que édada muita ênfase à primeira metade da inovação (a fase de ter idéias) e pouca ounenhuma atenção é dada à parte da execução da mesma, segundo ele:Tenho visto inúmeros exemplos de boas idéias que nuncaconseguiram se firmar devido à execução insatisfatória. A maiorianem chega ao mercado e aquelas que chegam acabam apinhandoos estoques de lojas de eletroeletrônicos e supermercados.(BROWN, 2010:105).Entretanto, a realidade em relação ao conhecimento das pessoas sobre o ―fazeracontecer‖ é muito aquém do que poderia ser esperado. Este é um dos desafios dohomem contemporâneo, como assinalam BOSSIDY e CHARAN (2005):Mas a despeito de tudo que se diz sobre execução, as pessoas malsabem o que isso significa. Quando estamos ensinando sobre otema, primeiramente pedimos às pessoas para defini-lo. Elasacham que sabem e, em geral, começam bem. ―É fazeracontecer‖, elas dizem. [...] Então, perguntamos como fazeracontecer, e o diálogo logo esmorece. Não importa se são alunosou executivos do alto escalão, fica logo claro – para eles e paranós – que eles não têm a menor idéia do que significa executar.(BOSSIDY; CHARAN, 2005:30).
  13. 13. 13Assim, quando se fala em inovação não se deve restringir ao conceito deestímulo à criatividade. A capacidade de execução e de materialização de idéias deveser valorizada também. Dessa forma, entre o conhecimento puro e a inovação reside ocampo do conhecimento aplicado, ou seja, o estudo das tecnologias que irão viabilizaras criações. Neste sentido STEINER (2006) afirma:Quando nos referimos ao conhecimento, sua geração e seu usopela sociedade, estamos falando de uma variedade de atividadesque vão desde a geração do conhecimento puro (ciência) eaplicado (tecnologia) até a capacidade de, a partir dele, produzirriqueza (inovação). Devemos lembrar ainda que é fundamentalque o cidadão possa usar o conhecimento de forma útil eprodutiva. Portanto, educação de qualidade em todos os níveis éessencial. (STEINER, 2006:75).Neste sentido, uma vez que a inovação é um importante diferencial competitivo,falar em formar mais pessoas em carreiras ligadas à tecnologia, especialmente na áreada engenharia, ganha uma caráter estratégico no desenvolvimento de qualquer país.Na contramão desta tendência, a carência de profissionais formados nas áreastecnológicas é crescente no Mundo. Grayley (2010) assinala que a diretora-geral daUnesco, Irina Bokova, lembrou que nos últimos 150 anos, a engenharia e a tecnologiatransformam o mundo. Para ela, o uso da engenharia pode fazer a diferença nos paísesem desenvolvimento.Os avanços na engenharia tem sido fundamental para o progressohumano, desde a invenção da roda. Principalemnte nos últimoscento e cinquenta anos, a engenharia e a tecnologia têmtransformado o mundo em que vivemos, contribuindosignificativamente para uma expectativa de vida mais longa emelhor qualidade de vida para uma grande parte da população domundial. No entanto, os melhores cuidados de saúde, moradia,alimentação, transportes, comunicações, e muitos outrosbeneficios trazidos pela engenharia são distribuídos de forma
  14. 14. 14desigual ao redor do mundo. Milhões de pessoas não têm águapotável e saneamento adequado, não tem acesso a centrosmédicos e algumas até precisam viajar muitos quilômetros a pé aolongo de estradas de chão todos os dias para chegar ao trabalho ouescola1(UNESCO, 2010:4)Os jovens também parecem ignorar esta enorme demanda mundial por mão deobra qualificada nos campos da ciência aplicada. Muitos deles não se sentem atraídospela carreira de engenharia. O relatório "Engenharia: Temas, Desafios e Oportunidadespara o Desenvolvimento" compilado pela UNESCO com ajuda de mais de 120especialistas do mundo, aponta para um cenário crítico no qual a queda de matrículasem cursos de engenharia tornou-se um problema mundial, que se reflete no Brasil, comoretratado na citação abaixo:A engenharia como profissão enfrenta um número relativamentebaixo de engenheiros, estima-se que existam apenas 550.000 napopulação economicamente ativa – aproximadamente 6engenheiros por 1.000 habitantes. [...] Apesar da escassez deengenheiros no mercado de trabalho - um mercado que exigeprofissionais para a construção, infra-estrutura, expansãoindustrial e de serviços - não observa-se aumento no interesse dosjovens por esta importante profissão. De fato, as estatísticasmostram que o número de alunos está aumentando nas áreas deciências humanas, mas não em estudos técnicos, o que significa1Tradução dos autores. Original: ―Advances in engineering have been central to human progress eversince the invention of the wheel. In the past hundred and fifty years in particular, engineering andtechnology have transformed the world we live in, contributing to signifi cantly longer life expectancyand enhanced quality of life for large numbers of the world‘s population. Yet improved healthcare,housing, nutrition, transport, communications, and the many other benefits engineering brings aredistributed unevenly throughout the world. Millions of people do not have clean drinking water andproper sanitation, they do not have access to a medical centre, they may travel many miles on foot alongunmade tracks every day to get to work or school‖
  15. 15. 15que há uma demanda elevada por profissionais técnicos2.(UNESCO, 2010:238)Reforçando, como o Brasil é um país ainda carente de infraestrutura básica,extremamente pautado na exportação de commodities e com déficit já existente entre ademanda e oferta de profissionais da área, o fomento à formação em tecnologia eengenharia surge com grande importância. Ricardo Gattass, superintendente da Área deUniversidades da FINEP, entrevistado pra a revista da FINEP afirmou que ―Odesenvolvimento das engenharias é fator altamente estratégico para o progresso doBrasil [...] Sem eles, não há como implementar nenhum projeto de desenvolvimentonacional‖ (GATTASS apud TELLES, 2011:12).A mesma reportagem ressalta alguns dados colhidos durante levantamentorealizado entre os anos de 2001 a 2005 que apontam que ―a participação do Brasil napesquisa em engenharia no mundo é de apenas 1,4%, contra 28,1% dos Estados Unidos,10,3% do Japão e 8,6% da China‖. (TELLES, 2011:12).O relatório da UNESCO (2010) ressalta ainda que o Brasil é um dos paísescotados para assumir papel de liderança nos próximos anos, mas, para que possa liberartodo este potencial, seu desenvolvimento é imperativo. Assim, levando-se emconsideração a correlação entre engenharia e o desenvolvimento de uma nação, faz-senecessário um diagnóstico e o desenvolvimento de soluções eficientes para sanar estadeficiência. A situação torna-se mais crítica ao analisarmos que, mesmo quandocomparado aos outros países emergentes, o Brasil vem apresentando resultados abaixoda média. O tema é de grande relevância e a comparação também foi debatida norelatório da UNESCO:O Brasil possui 1.325 cursos de engenharia com 300.000estudantes de engenharia matriculados, o que equivale a 7,75% de2Tradução dos autores. Original: ―Engineering as a profession faces a relatively low number of engineers,estimated at only 550,000 in the economically active population – about 6 engineers per 1,000 people.[…] Despite the shortage of engineers in the labour market – a market that demands professionals forinfrastructure construction and industrial and services expansion – there is no observed increase in youthinterest for this most important profession. Indeed, statistics show that the number of students isincreasing in areas of social studies but not in technical studies, meaning that technical professionals arein extreme demand‖.
  16. 16. 16todos os universitários e forma 25.000 engenheiros por ano. Em2005, por volta de 30.000 engenheiros se formaram, mas estenúmero é três vezes menor que a Coreia do Sul, cuja população éum quarto da brasileira. (UNESCO, 2010:238)3A necessidade de engenheiros no Brasil é confirmada por Marcos Túlio de Melo,presidente do CONFEA (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia).Ao ser entrevistado por COSTA (2011) Marcos Túlio afirmou que: ―Estão faltandoengenheiros no mercado de trabalho e faltarão mais ainda [...] o apagão de mão de obrapoderá trazer graves conseqüências para a economia brasileira‖ (COSTA, 2011:s/n). Odéficit de engenheiros calculado é de vinte mil profissionais, com previsão de aumentodevido aos programas federais de desenvolvimento, à exploração do pré-sal e ao fortecrescimento do setor de construção civil alavancado pelos grandes eventos esportivosque o Brasil irá sediar (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016).O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) também ressaltou anecessidade de profissionais da área em estudo divulgado em março deste ano,mencionado por LOPES (2011). Baseando-se neste estudo ele afirma que: ―a demandapor engenheiros deve crescer, até 2020, entre 5,1% e 13% dependendo do crescimentoda economia. Isso significa que, até lá, serão necessários entre 600 mil e 1,15 milhão deengenheiros.‖ (LOPES, 2011: s/n).Como visto, portanto, a importância da inovação tecnológica hoje no mundo e opapel do conhecimento e da formação e qualificação profissional, sobretudo para paísesemergentes, está em pauta para discussão. Segundo o estudo da UNESCO ("Engenharia:Temas, Desafios e Oportunidades para o Desenvolvimento") já comentado, uma daspossíveis razões para o desinteresse dos jovens é a percepção da engenharia como sendoum assunto chato, difícil e extremamente teórico, mal remunerado em relação aoesforço empreendido e com impactos negativos no meio ambiente. Os jovens, portanto,não são capazes de entender o papel do engenheiro no desenvolvimento da sociedade e3Tradução dos autores. Original: ―Brazil has 1,325 engineering courses with 300,000 engineeringstudents, equivalent to 7.75 per cent of all university students, and graduates 25,000 engineers per year. In2005, about 30,000 engineers graduated, but even this number is three times smaller than for SouthKorea, which has a population one quarter of the size of Brazil.‖
  17. 17. 17transformação social através da tecnologia. Será que existiriam outras possíveis causas aserem combatidas?Uma das causas que devem ser levadas em consideração está relacionada com ainadequação das propostas educacionais com a realidade na qual os alunos estãoinseridos. Os atuais modelos educativos não estimulam os jovens a desvendar o campodas Ciências da Natureza, Matemática e das Tecnologias. Como colocado no relatórioda UNESCO, essas disciplinas poderiam se tornar mais atrativas ―através datransformação dos currículos e da pedagogia com o uso de informações e experiênciasem mais atividades, projetos e aprendizagem baseada em problemas, experimentação eaplicação e abordagens menos abstratas que levam à desistência e ao desinteresse dosalunos‖ (UNESCO, 2010:31)4.Como possível sintoma desta problemática no Brasil, pode-se apontar os baixosíndices de desempenho dos estudantes em Ciências e Matemática obtidos em algumasavaliações como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o Sistema de Avaliaçãoda Educação Básica (SAEB-MEC) e o ―Program for International Student Assessment‖(PISA-OECD), no qual o Brasil ficou entre as últimas colocações em todos asdisciplinas, conforme indicado na Tabela 1, especialmente quando avaliamos odesempenho em Matemática (58º de 66 países) na edição de 2009.Cabe ressaltar, entretanto, que despertar o interesse por estas disciplinas não éum papel exclusivo do ensino formal: outros meios além da escola podem ser utilizadospara despertar o gosto e o interesse dos alunos. Essas alternativas, contudo, ainda nãotêm conseguido a penetração adequada. PIMENTEL (2011) comenta em suareportagem a pesquisa realizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em parceriacom a UNESCO em junho e julho de 2010. A pesquisa revelou que 36,8% dosbrasileiros não freqüentam eventos científicos porque não há espaços dessa natureza naslocalidades onde vivem.Ainda de acordo com os dados divulgados, apenas 8,3% já visitaram algummuseu ou centro de ciência e tecnologia e menos de 5% dos entrevistados já teriam4Tradução dos autores. Original: ―[..] can be made more interesting through the transformation ofcurricula and pedagogy using such information and experience in more activity-, project- and problem-based learning, just-in-time approaches and hands-on application, and less formulaic approaches that turnstudents off‖
  18. 18. 18participado da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, evento organizado pelogoverno federal cuja finalidade é exibir experiências científicas e tecnológicas deinstitutos de pesquisa, universidades e escolas (ensino fundamental e médio).Tabela 1 - Ranking PISA 2009.Adaptado de: PISA (2009)Entretanto, cabe ressaltar algumas iniciativas que estimulam a aproximação dosjovens do campo da Ciência e da Tecnologia que já acontecem há muitos anos como,por exemplo, os projetos apoiados pelo programa ―Ação Ciência de Todos‖, que sedesenvolve através do convênio de cooperação técnico-financeira entre o Ministério daCiência e Tecnologia e a financiadora de estudos e projetos, FINEP5.Outra iniciativa existente é o ―Programa Jovem Cientista‖ que estimula talentosna ciência e na tecnologia e é promovido pelo Conselho Nacional de DesenvolvimentoCientífico e Tecnológico (CNPq) em parceria com a Fundação Roberto Marinho, aGerdau e a General Eletric. Segundo informações divulgadas no site oficial da5Informações retiradas do documento/relatório interno cedido pela Professora Maria Lúcia Horta, chefedo Departamento de Ciências Humanas, Sociais e da Vida da FINEP – Financiadora de Estudos eProjetos – Ministério da Ciência e Tecnologia.
  19. 19. 19iniciativa6, o programa já possui 30 anos de história e teve mais de 15 mil trabalhosinscritos, além de ter premiado 152 estudantes. Anualmente ele mobiliza 25 mil escolasdo Ensino Médio e envolve mais de 2 mil instituições de pesquisa e ensino da ciênciaem seu processo de divulgação. Em 2010, recebeu 2.158 trabalhos de pesquisa, sendo1.925 de estudantes do Ensino Médio.Outra iniciativa, o Projeto USP vai à escola é descrito em sua página online7como ―uma exposição composta por uma série de objetos e painéis eletrônicosinterativos e luminosos e por material biológico que pode ser observado emmicroscópio‖. Idealizada pelo Grupo de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CEPOF) doInstituto de Física de São Carlos em conjunto com o Centro de Estudos do GenomaHumano (CEGH), do Instituto de Biociências da USP, seu objetivo é percorrer asescolas de Ensino Médio da grande São Paulo e de cidades do entorno de São Carlosreproduzindo no espaço escolar a situação vivida em museus de ciência.Os objetos instrucionais são interativos e abordam conteúdos de óptica e debiologia, com a intenção de motivar os alunos para o aprendizado destes conteúdoscientíficos. A exposição é realizada em uma única sala (espaços diversos são utilizadospara este fim: bibliotecas, laboratórios, sala de vídeo, entre outros) e dura de três a cincodias em cada escola.Os alunos são organizados em grupos de 35 (aproximadamente o tamanho deuma classe) e visitam a exposição durante 45 minutos em média, interagindo com omaterial exposto. Na equipe de suporte ficam quatro mediadores (graduandos ou pós-graduandos de Ciências Biológicas e Física) que estimulam a observação e interaçãocom os objetos e questionam os visitantes sobre aspectos interessantes dos mesmos.Em paralelo, os professores de Biologia e de Física das escolas visitadasrealizam um treinamento de 8 horas, a fim de conhecer o conteúdo exposto. Durante acapacitação são entregues apostilas contendo informações teóricas sobre os conceitos esugestões de abordagem dos assuntos em sala de aula.Desta forma, alinhados com os desafios de inovação trazidos pela Sociedade doConhecimento, com a demanda de engenheiros por parte do mercado mundial e6http://www.jovemcientista.org.br/index.php Acesso em: 25 de Junho de 2011 às 14:017http://genoma.ib.usp.br/educacao/projetos_usp_escola.html Acesso em: 25 de Junho de 2011 às 14:05
  20. 20. 20nacional, cientes da necessidade de rever as propostas educacionais tradicionais e com aoportunidade de envolver o aluno com o tema ciência e tecnologia fora de seu ambienteformal de ensino, este trabalho visa desenvolver um projeto de ensino de Física paraalunos do Ensino Médio.De forma mais específica, a proposta que apresentamos neste projeto é a de umambiente de aprendizagem que complemente a formação de Física obtida pelo estudanteregular inscrito em uma instituição de Ensino Médio. O projeto ―Sala Interativa‖pretende orientar a construção de um ambiente de aprendizagem interativo, replicávelem distintos espaços, escolares e não escolares. O objetivo é promover uma maioraproximação do campo da Ciência e da Tecnologia, apoiada em uma dinâmica deestímulo à curiosidade, problematização, expressão de idéias e aprendizagemcolaborativa.2. ESTUDO DO AMBIENTE E CONTEXTO PEDAGÓGICOA partir do panorama apresentado na introdução foi possível evidenciar queexiste uma demanda por inovação, tanto para resolver problemas, como para criaralternativas sustentáveis nos âmbitos social, econômico, ambiental e político. Na área deEducação esta necessidade também é real, especialmente em função de as escolasmanterem o mesmo formato de ensino desde a segunda onda de TOFFLER (1980)comentada anteriormente. PETERS (2004) sugere que essa reinvenção deveria ser abase para as demais mudanças. No seu entender:Estamos em um ponto de inflexão. Um curto período de tempo noqual estamos reimaginando tudo. Economia e comércio. Asorganizações em geral. Política. Guerras. Saúde. Isto é:parecemos estar reimaginando tudo – exceto o sistema escolar,que deveria (teoricamente) servir de base para, ou até mesmoguiar, o resto. (PETERS, 2004:278)Para que o Brasil, país em desenvolvimento, possa atingir um potencialcompetitivo no mundo globalizado e acelerado, será necessário contar com a quantidadeadequada de profissionais de áreas reconhecidamente promotoras de inovação. Asprofissões que frequentemente são apontadas por especialistas, neste sentido, são as quese encontram no campo da Ciência e Tecnologia.
  21. 21. 21De certa forma, é justamente o esforço de formação de mais engenheiros quecompleta o quadro que distingue a América Latina da Ásia emergente (INOVAENGENHARIA, 2006). Complementando informações anteriores referentes ao relatórioda UNESCO e buscando alguns dados mais recentes, encontramos em reportagem darevista Época online, números que comprovam que o Brasil forma anualmente cerca dequarenta mil profissionais na área, enquanto a Coréia do Sul garante noventa milengenheiros e a China chega a formar seiscentos e cinqüenta mil profissionais, entretecnólogos e engenheiros (ÉPOCA ONLINE, 2011). Assim, mesmo guardadas asproporções populacionais, a China forma percentualmente o dobro de profissionais queo Brasil considerando o número total de formados dividido por sua população total. ACoréia do Sul, por sua vez, chega a obter um percentual quase nove vezes maior deformação de profissionais versus população total que o Brasil, conforme por serobservado no quadro que se segue.Tabela 2 – Cruzamento de dados de formação de profissionais e dados populaçãototalPopulaçãoTotalProfissionaisFormados% profissionaisformados/populaçãototalBrasil 193.733.800 40.000 0,021%China 1.331.460.000 650.000 0,049%Coréia do Sul 48.747.000 90.000 0,185%Fonte: Os autores: dados de formação de profissionais (ÉPOCA ONLINE, 2011) e dados de populaçãototal (Banco Mundial, Indicadores do Desenvolvimento Mundial8)Esta situação é difícil de reverter a curto prazo, especialmente porque o Brasilpossui uma proporção percentualmente pequena de sua população entre 18 e 24 anos naUniversidade (independente do curso considerado): cerca de 10% contra mais de 80%nos EUA e na Coréia do Sul. A França chega a contar com mais de 50% dos jovens naUniversidade e mesmo países latino americanos como Argentina, Equador, Costa Rica eVenezuela contam com mais de 20% (INOVA ENGENHARIA, 2006).Sendo assim, a educação ganha cada vez mais destaque como protagonista deum novo cenário com crescimento econômico. O pano de fundo pode ser caracterizadocomo um ambiente de geração e disseminação de conhecimento em grande escala,8= Dados do site foram atualizados em: 26 de abr de 2011 Disponível em:http://data.worldbank.org/brazilian-portuguese?cid=GPDptbr_WDI Acesso em 26/05/2011 às 00:24
  22. 22. 22fundado no amplo acesso às tecnologias de informação e comunicação, nodesenvolvimento de competências profissionais e humanas adequadas às necessidadesda sociedade atual. Por esta razão, é possível identificar a necessidade de criação de umespaço de aprendizagem diferente daquele em que os jovens brasileiros são, em geral,formados atualmente.Observando escolas públicas e privadas no Brasil e no exterior, pode-se dizerque a maioria delas ainda vive/sobrevive coberta por uma cúpula de vidro imagináriaem que muitos educadores ficam do lado de dentro assistindo às tsunamis das mudançasexternas sem alterar em nada a rotina em suas práticas no ambiente escolar. O estranhoé perceber que, quando do lado de fora, em suas casas e outros ambientes que não sejama escola, estes mesmos educadores convivem com inúmeras conseqüências dasmudanças ocorridas no mundo e já têm incorporadas muitas delas em suas vidaspessoais.Os pontos apresentados até aqui mostram a escola, sob o ponto de vista doaluno, como um lugar em que o conhecimento é descolado de sua rotina, um local noqual é difícil dar sentido à vida, condição fundamental para qualquer ser humano e, porconseguinte, qualquer projeto humanitário.Todo este cenário facilita a compreensão das razões que tornam cada vez maisdifícil provocar o aluno de Ensino Médio a encantar-se com o conhecimento,principalmente nas áreas das ciências aplicadas.Cabe pontuar que pouca coisa no ambiente escolar tradicional atende aos jovensatualmente cursando o Ensino Médio, para o qual o projeto aqui apresentado foipensado. Assim, uma pergunta que surge necessariamente antes da elaboração desteprojeto é: quem é esse jovem do Ensino Médio?Segundo o MEC, a idade adequada para este nível de escolaridade é de 15 a 17anos (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 2000:6). Assim, podemosconsiderar que, apesar dos desvios de escolarização líquida (índice que mostra quantosestudantes frequentam a série considerada ―correta‖ pelo MEC em relação à sua idade,ou seja, quando não há distorção idade/série), esta é uma informação importante para acompreensão deste jovem, que pode ser conceituado de forma ampla dentro da chamadageração Y.
  23. 23. 23Geração Y (ou Millenials) é o nome dado ao grupo nascido entre 1980 e 2000(ZEMKE; RAINES; FILIPCZAK, 2000). Esses jovens são frequentementecaracterizados por já terem nascido em um mundo com computador e, maisrecentemente, com internet. Em função disso, sabem lidar melhor com grandesquantidades de informação e são pesquisadores por natureza. Além disso, cabe ressaltarque encontrar significado para a própria vida é uma característica pulsante destageração.Assim, como citado na introdução, o modelo tradicional de ensino não estápreparado para este perfil e muitas vezes afasta o educando de alguns princípios básicosnecessários à sua aprendizagem (e que fazem parte de seu dia a dia no contato com atecnologia) como a curiosidade, a livre expressão de idéias e a colaboração.Levando-se em conta que a ―educação emancipadora‖ preconizada por FREIRE(2005) é aquela que desenvolve o sujeito autônomo, consideramos que uma educaçãoemancipadora na formação para a ciência e a tecnologia se faça necessária.HERNANDEZ (2007), citando os pensamentos de Bell Hooks e Sonia Nietosugere: ―uma educação para indivíduos em transição, que construam e participem deexperiências vivenciadas de aprendizagem, pelas quais aprendam a resolver questõesque possam dar sentido ao mundo em que vivem, de suas relações com os outros econsigo mesmo‖ (HERNANDEZ, 2007:15). Estes pensamentos podem sercomplementados com a metáfora sugerida por Tião Rocha, educador do Vale doJequitinhonha que há 12 anos desenvolve uma educação ―sem escolas‖, em sua palestrano I Encontro Internacional de Educação9: ele propõe, além do uso das TIC‘s –Tecnologias da Informação e Comunicação –, o uso mais animado das TAC‘s –Tecnologias da Aprendizagem e da Convivência.Se deixarmos de lado a questão pedagógica, mesmo sob o ponto de vista doespaço físico e a maneira de ocupá-lo, suas dimensões, o desenho arquitetônico e adistribuição do mobiliário das escolas de hoje, constata-se que são idênticos aos das9I Encontro Internacional sobre Educação – Arte e Analfabetismo Funcional. Seminário aberto aopúblico realizado nos dias 1 e 2 de dezembro de 2008 no Auditório Gilberto Freyre (Palácio GustavoCapanema - Rua da Imprensa 16, Centro – Rio de Janeiro / Brasil). Tião participou da Mesa III:Quebrando Modelos – Interações Horizontais, no dia 01 de dezembro as 15:00.
  24. 24. 24escolas da era industrial e produzem uma percepção de um ambiente em que seususuários ficam passivamente recebendo informações, sem poder de escolha. Nestesentido HERNANDEZ (2007) ressalta em sua epígrafe a clássica frase do Diretor dasBibliotecas da Academia de Ciências da China:Quando as pessoas estão sentadas em cadeiras tradicionais,pensam de modo tradicional. Se o desejo for o de promovermudanças, é necessário remover o lugar onde estão sentadas.(HERNANDEZ, 2007:11)Estes espaços a que nos referimos, quase inalterados desde a sua criação, hojesão ocupados por jovens multitarefas, dinâmicos e sedentos por desafios. Se traçarmos operfil desta geração digital, é possível encontrar prós e contras deste novo tipo decomportamento que é reflexo de uma época que, com sua velocidade e constantesinovações, intensificou em grande medida o imediatismo natural dos adolescentes ejovens em geral. O costume de estar a apenas alguns ―cliques‖ da entrega de produtos,conteúdos e sistemas dificulta o engajamento e o investimento de um tempo um poucomaior a um único tema.Em contrapartida, TAPSCOTT (2010) entrevistou cerca de dez mil jovens paraescrever o livro ―A Hora da Geração Digital‖ e constatou que eles trazem consigo novasformas de pensar, como por exemplo, a valorização da liberdade de escolha e expressão,o gosto pela customização e colaboração, o desejo por buscar novas informações e aimportância dada à integridade de pessoas e empresas. Segundo MATTAR (2010), osjovens - aqueles que nasceram em 1980 ou depois, ou seja, pertencentes à já citadageração Y, possuem, entre outras, as seguintes características:Habilidade para ler imagens visuais – são comunicadoresvisuais intuitivos; habilidades espaciais/visuais e de integraçãoentre o virtual e o físico;Descoberta indutiva – aprendem melhor por descoberta do queouvindo; desdobramento da atenção – são capazes de mudar suaatenção rapidamente de uma tarefa para outra, e podem escolhernão prestar atenção em coisas que não lhes interessam;
  25. 25. 25Tempo de resposta rápido – são capazes de responderrapidamente e esperam respostas rápidas como retorno.(MATTAR, 2010:12)O quadro de estilos de aprendizagem - novo milênio e milênio anterior, propostopor DEDE (apud MATTAR, 2010) apresenta as diferenças mais significativas a seremanalisadas:Tabela 3 - Estilos de aprendizagem do novo milênio versus milênio anteriorEstilos de aprendizagem do novo milênio Estilos de aprendizagem do milênio anteriorFluência em múltiplas mídias; valoriza cadauma em função dos tipos de comunicação,atividades, experiências e expressões que elaestimula.Centra-se no trabalho com uma mídia única,mais adequada ao estilo e às preferências doindivíduo.Aprendizado baseado em experiências depesquisa, peneira e síntese coletiva, em vezda localização e absorção das informaçõesem alguma fonte individual melhor; prefereaprendizado comunal em experiênciasdiversificadas, tácitas e situadas; valoriza oconhecimento distribuído por umacomunidade em contexto, assim como oconhecimento de um indivíduo.Integração individual de fontes de informaçãoexplícitas e divergentes.Aprendizado ativo baseado em experiência(real e simulada) que inclui oportunidadesfrequentes para reflexão (por exemplo,incluindo experiências na simulação VirtualUniversity, em um curso sobre liderança emUniversidade);valoriza estruturas dereferência bicêntricas (em que é possívelenxergar os objetos por dentro e por fora) eimersivas, que infundam orientação ereflexão no aprendizado por fazer.Experiências de aprendizagem que separamação e experiência em fases distintas.
  26. 26. 26Expressão por meio de teias não lineares eassociativas de representações em vez dehistórias lineares (por exemplo, criar umasimulação e uma página Web para expressara compreensão em vez de escrever umartigo); usa representações envolvendosimulações ricamente associadas e situadas.Usa multimídia ramificada, mas altamentehierárquica.Codesign de experiências de aprendizadopersonalizadas para necessidades epreferências individuais.Enfatiza a seleção de uma varianteprecustomizada de uma gama de serviçosoferecidos.Adaptado de: Quadro 1.2 – Estilos de aprendizagem – novo milênio e milênio anterior - MATTAR, João,2010: 13)Ao serem indagados por um dos autores deste projeto em entrevista informalsobre as formas que consideravam mais interessantes para aprender, os adolescentes doEnsino Médio de cinco turmas diferentes – duas de um CIEP e três de uma escolaparticular – consideraram a aprendizagem em rede e a convergência das mídias como ocaminho que poderia gerar maior interesse deles pela aprendizagem.Em oposição a isso, o educador da atualidade, na maioria dos casos, ainda seencontra apenas como transmissor de informações, fatos e acontecimentos. Embora oideal seja uma educação não fragmentada, ou seja, um ensino sem disciplinascompartimentando o conhecimento, como defende Edgar Morin (2004), seria muitodifícil enfrentar uma mudança absolutamente radical. Um possível caminho é fazê-lalentamente, começando, por exemplo, por uma postura mediadora do educador, atuaçãobem diferente do arquetípico ―professor detentor de todo conhecimento‖. Agindo destaforma e conectando o conteúdo aos temas da atualidade, poderá contribuir com omovimento do educando no sentido de descobrir que componentes curriculares comoFísica, Química, Biologia e Matemática nos ajudam a descrever o mundo em quevivemos, a conhecer e desvendar as tecnologias existentes, além de servir de base para oaparecimento de tecnologias futuras.Em certas ocasiões o professor não tem os recursos necessários para desenvolveratividades que propiciem isto aos alunos. Outras vezes, a precária formação docentedificulta o acesso a situações e leituras que façam – ele mesmo - repensar sua práxis,
  27. 27. 27assim como adotar uma postura mais investigativa para encontrar caminhos possíveis.Mesmo diante de alguma adversidade, o educador não pode desconsiderar a suacapacidade de questionar, indagar as teorias e práticas, a fim de manter-se em contínuoaprendizado.Diariamente as pessoas assistem e participam de acontecimentos e mudanças noentorno em que vivem, adaptam-se às alterações sociais e afetivas, às facilidades edificuldades em reorganizar idéias e a dar novo significado a experiências e conceitos.Ou seja, a interação com o meio, a interação com outra pessoa... Todos essesmovimentos são bastante naturais para o ser humano. A grande mudança ocorre nosmeios de comunicação e difusão, que possibilitam que a interatividade não estejacircunscrita apenas na troca um a um, ou de um sujeito com uma máquina, antes ainda,eles permitem a participação dos indivíduos e da sociedade na produção de conteúdos eprodutos. A interatividade passa de um conceito antes restrito ao mundo da informáticae dos computadores pessoais para o status de existir como um hábito irreversível davida.Portanto, podemos perceber o empoderamento do ―nós‖, como uma sociedadeintegrada e com grande fluxo de informação, na qual o indivíduo ganha força através docoletivo, e, consequentemente, recebe estímulo a sair de sua passividade e atuar naconcretização de seus anseios.O educador precisa vivenciar a interatividade com os educandos e propor aconstrução coletiva do conhecimento, ao invés de querer transmiti-lo unilateralmente.Em sala de aula, ele precisa ser mais do que instrutor, treinador, parceiro, conselheiro,guia, facilitador, colaborador. Deve formular problemas, provocar situações, arquitetarpercursos, mobilizar inteligências múltiplas e coletivas na experiência do conhecimento.O educando deve experimentar a criação do conhecimento enquanto participa, interfere,modifica. É a oportunidade que o educando tem de deixar o lugar da recepção passivade onde ouve, olha, copia e presta contas, para se envolver com a proposição doeducador.Não existe grau zero de conhecimento; uma pessoa não é umaentidade isolada. O cérebro é um órgão que constrói o mundo e apedagogia deveria incorporar os saberes que organizam ascircunstâncias dessa construção. Isso implica uma aprendizagem
  28. 28. 28contextualizada, que deve trazer ao educando o mundo e toda suabeleza, mas também as incertezas, paradoxos, as polaridadessociais e constantes mudanças. Uma aprendizagem consequentedeve levar o educando não só a entender o que aprendeu, maspossibilitar-lhe oportunidades para criar, dentro de seu universode atuação. (SOUZA; DEPRESBITERIS; MACHADO, 2004:18)O conceito de interatividade, portanto, vai além da simples iniciativa de investirem uma sala de aula com computadores ligados à internet. SILVA (2010) defende queantes disso (ou pelo menos em paralelo), é preciso mudar a forma já cristalizada detransmissão da informação. Afinal, seria simplista imaginar que o fato de oferecercomputadores de última geração resolveria todas as questões. A inovação essencial paraa mudança no aprender é a pedagógica. Oferecer computadores sem mudar a forma deusá-los surtirá pouco ou nenhum efeito.Alguns estabelecimentos educacionais compram equipamentos de realidadevirtual, carteiras conectadas ao computador do professor e à rede, entre outros gadgetseletrônicos. Entretanto, caso essas ferramentas sejam utilizadas para realizar as mesmasfunções de ―transmissão de informação professor-aluno‖, nada mudará. O maisimportante não é a tecnologia das ferramentas, mas um novo estilo de pedagogia quepreza pela participação, cooperação e multiplicidade de conexões entre todos osenvolvidos no processo comunicacional de construção do conhecimento (SILVA,2010). As ferramentas tecnológicas são ótimos potencializadores deste processo, masnão garantem por si só nenhuma interatividade. Nesse sentido, VILLAS-BOAS ecolaboradores (2009) afirmam:A educação em Ciências deve também ser objeto de açõesinovadoras sob o ponto de vista pedagógico, complementares aoensino formal, capazes de contribuir para o aprimoramento daformação continuada dos educadores de Ensino Médio.(VILLAS-BOAS, 2009:5)Com isso criam-se as condições para que os estudantes vivam um processoeducacional baseado na experimentação, ou seja, atividades que despertem para aaplicabilidade do conhecimento tecnológico produzido pelo campo das ciênciasaplicadas.
  29. 29. 29Os comentários sobre as demandas da atualidade, a situação das escolas, doseducandos e dos educadores, os assuntos emergentes e currículos, as necessidades deprofissionais das áreas de Ciência e Tecnologia, a discussão das propostas educacionaisexistentes versus pedagogias desejáveis, entre outros temas tratados neste estudoreforçam o entusiasmo dos autores pela criação de um ambiente de aprendizagem emque curiosidade, interações em diversos níveis, diálogos, expressões de idéias, o uso demúltiplas linguagens e a aprendizagem colaborativa sejam os elementos-chave daproposta.Para os autores, um lugar ideal para aprender pode ser descrito da seguinteforma: gente reunida, problemas desafiadores o bastante para estimulá-los (semexageros para não desanimá-los) e um mediador que entenda o papel que lhe cabe comofacilitador da aprendizagem, problematizando situações e conceitos, valorizando ainvestigação, o compartilhamento das dúvidas e das soluções possíveis, entendendo queos equívocos são naturais, esperados e até desejados, pois oferecem oportunidades denovas buscas e aprendizagens. Um ambiente com tempo para formular hipóteses e quenão tenha compromisso com um programa oficial, uma vez que o conteúdo será maisinteressante caso se relacione às experiências da vida e não exclusivamente com o livrodidático.Toda essa atividade intelectual deve ocorrer em um local que permita o trânsitolivre, a autonomia, a escolha pelo modo de aprender e de sistematizar o conhecimentoconstruído. Um espaço que respeite o ritmo de cada um e mobilize o grupo em favor depropostas coletivas de produção, de utilização do tempo e do espaço, de distribuição detarefas, de compartilhamento de idéias de socialização daquilo que se conhece.3. A HISTÓRIA DO PROJETO (E DE TANTOS OUTROS...)3.1) Considerações geraisAo pensar o ambiente de aprendizagem que é apresentado neste projeto, foilevado em conta o desejo dos integrantes do grupo em relação à educação, ou seja, antesmesmo de atender às demandas acadêmicas ou dos propósitos de empreendedorismo einovação, considerou-se a importância de que o desejo de uma educação original e feliz,
  30. 30. 30sem comprometer a qualidade, fosse contemplado, para que mais ambientes como estepossam se disseminar, ―contaminar‖ os sistemas de ensino e, em um intervalo de temponão tão longo, seja possível a existência de escolas nas quais se aprende a pensar,compartilhar, criar e colaborar com o bem estar coletivo e o desenvolvimentosustentável em todos os seus âmbitos. Com um pouco de ousadia, pode-se dizer que estemesmo ambiente pode ser implementado inclusive nas organizações.Podemos e devemos inovar o modo como conduzimos a aprendizagem e, comisso, ir modificando gradativamente o nível de exigência e criticidade dos consumidoresdos serviços de educação, sejam eles públicos ou privados, como no princípio dacircularidade, de MORIN (2004) – em que o indivíduo é ao mesmo tempo produto eprodutor, causador e afetado. A melhora da educação leva à melhora dos sujeitos, quepor sua vez leva à melhora ainda mais significativa da educação, e, como conseqüência,o ambiente e o sistema de ensino melhoram.Na entrada da Escola da Ponte, em Portugal, existe um cartaz com a fotografiada escola e uma frase atribuída à Clarice Lispector: ―Mude, mas comece devagar,porque a direção é mais importante do que a velocidade” (Anexo 1 pag.150). De certaforma, esta frase reflete também o espírito deste trabalho: investir na mudançaorientando-se por onde se quer chegar e por quais motivos. Entre o desejo de mudançana Educação e o que podemos oferecer para iniciá-la está o ambiente de aprendizagemque chamaremos de Sala Interativa.Este projeto teve sua origem no estudo preliminar para a criação de uma ―sala deaula do futuro‖ realizado pelo Instituto Gênesis, da PUC-Rio de Janeiro junto a algunsparceiros de cooperação técnica: Fundação Planetário da Gávea, Secretaria de Educaçãodo Estado do Rio de Janeiro, Departamento de Educação da PUC – Rio de Janeiro eNúcleo Avançado em Educação – NAVE, do Instituto Oi Futuro.Em novembro de 2010, uma versão ainda em fase de construção foi apresentadaem um Workshop promovido pelo Instituto Gênesis da PUC-RJ10, sob orientação do10O Instituto Gênesis, o Planetário, a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, oDepartamento de Educação PUC-Rio e Oi Futuro, realizaram, em 18/11/2010, o Worshop Sala de AulaInterativa. O objetivo do evento foi expor novos mecanismos existentes para complementar o ensino.
  31. 31. 31Professor Engenheiro José Alberto Sampaio Aranha. Este material embrionário foiutilizado como ponto de partida para o trabalho aqui desenvolvido. Desta forma, alémde serem atendidas as exigências acadêmicas às quais estamos submetidos para aconclusão da pós-graduação em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial,seria possível desenvolver uma proposta executável de um ambiente de aprendizageminovador.O recorte do tema Educação e Tecnologia fez emergir um diagnóstico queindicava o déficit progressivo de carreiras da área das Ciências Exatas, em especial aEngenharia, que são reconhecidamente promotoras de inovação e que era parte damotivação do projeto original. Para desenhar os primeiros esboços da ―Sala de aula dofuturo‖, levou-se em conta a hipótese de que uma das causas do desinteresse dos jovenspor estas carreiras poderia estar no baixo desempenho de estudantes do Ensino Médio.Este argumento foi reforçado pela reportagem da Revista Inovação em Pauta, n°6 - ano 2009, publicação da FINEP – Financiadora de Estudos e Projetos, trazida porum dos integrantes do grupo após o surgimento da discussão nas aulas de orientação doMBKM.Assim, apesar de não estar mais diretamente relacionado ao projeto inicial (Salade Aula do Futuro), o projeto ―Sala interativa‖ surgiu a partir da mesma demanda eatenderá à mesma necessidade de despertar o interesse dos alunos nas áreas de ciência etecnologia. Para viabilizar o projeto, foram definidos alguns pontos importantes para odesenvolvimento posterior da proposta:- o objetivo geral é a aproximação dos estudantes do campo da Ciência eTecnologia;- o ambiente de aprendizagem é complementar à Educação Básica, atendendopreferencialmente estudantes do Ensino Médio;- há a possibilidade de ser implementado em ambientes escolares e não escolarespara visitação pública com agendamento previsto;Local: Centro Loyola de Fé e Cultura/PUC-Rio (Estrada da Gávea, nº 1 - Gávea – RJ). Entre ospalestrantes constavam: Prof. José Alberto Sampaio Aranha/PUC-Rio, Prof. Luíz Humberto Villwock, oProf. José Eduardo A. Fiates, Prof. Paulo Reis, Prof. Rique Nitzsche e Mônica Couto.
  32. 32. 32- os conteúdos disponíveis para exploração e discussão pertencem à área deFísica;- as dinâmicas de utilização do ambiente são orientadas por um conjunto deinovações pedagógicas renováveis a partir da experimentação, registro e avaliação.Foi feita também uma busca por informações sobre outras iniciativas e, entre asescolas que já trabalham de forma inovadora, observou-se que os alunos do NúcleoAvançado em Educação – NAVE, do Instituto Oi Futuro (que tem um modeloeducacional diferenciado fortemente apoiado no uso das tecnologias), tiveram umdesempenho superior ao das escolas estaduais de Ensino Médio nos resultados de 2010do SAERJ - Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro – comodemonstram os dados nas tabelas de percentual de acertos abaixo:Tabela 4- Resultado Língua Portuguesa SAERJ - Sistema de Avaliação daEducação do Estado do Rio de Janeiro.LínguaPortuguesaPercentual de acertos de todasas escolas de Ensino MédioRegularPercentual de acertosdo NAVE/RJ1ª série 62,2% 88,3%2ª série 44,6% 70,0%3ª série 55,8% 79,5%Fonte: Dados fornecidos pela Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro e cedidos pelo NAVEpara nosso trabalho.Tabela 5 - Resultado Matemática SAERJ - Sistema de Avaliação da Educação doEstado do Rio de Janeiro.Matemática Percentual de acertos de todasas escolas de Ensino RegularPercentual de acertosdo NAVE/RJ1ª série 33,2% 66,7%2ª série 62,1% 93,4%3ª série 49,9% 70,1%Fonte: Dados fornecidos pela Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro e cedidos pelo NAVEpara nosso trabalho.
  33. 33. 33Assim, apesar de ainda incompleto, o diagnóstico e as relações entre umapedagogia diferenciada, desempenho dos alunos e motivação com as disciplinas deciência aplicada já começava a surgir.3.2) Entrevista com Professor Aranha11Durante o processo de elaboração do projeto houve a necessidade de contatar oProfessor Engenheiro José Alberto Sampaio Aranha para obter mais esclarecimentossobre o projeto original e avaliar se o percurso pretendido estava alinhado com osobjetivos gerais: aproximar os estudantes do campo da Ciência e Tecnologia e promoverum ciclo permanente de inovação pedagógica.O diretor do Instituto Gênesis, incubadora de empresas da PUC – RJ, Prof.Aranha, além de dar orientações quanto ao formato modular do projeto, apresentou umasérie de iniciativas, já em andamento, similares a esta proposta. Dentre elas, comentousobre as Praças do Conhecimento, projeto da Prefeitura do Rio de Janeiro que pretendeoportunizar o acesso à cultura e à educação profissionalizante em áreas devulnerabilidade social.As praças formadas por dois edifícios devem ocupar, em média,área de 1,5 mil m². O prédio maior terá três pavimentos, ondeficarão a biblioteca digital, as salas de aula, o laboratório e o setorde administração. No outro edifício, de desenho circular, seráabrigada a sala de cinema. Os dois prédios serão interligados poruma rampa. Já na área externa, haverá uma pista de skate e umespaço para recreação. Destinado principalmente aos adolescentesdos bairros carentes, o novo equipamento oferecerá cursosprofissionalizantes nas áreas de tecnologia da informação eprodução gráfica, com treinamentos sobre design gráfico, webdesign, computação gráfica, produção de vídeo e fotografia, entreoutros. O objetivo é facilitar o ingresso desses jovens no mercadode trabalho. (ROCHA, 2010: s/n)11O Professor Aranha recebeu os integrantes Renato Gil Amaral e Mônica de Menezes Couto, no dia 30de março de 2011, às 18:00 , na sede do Instituto Gênesis – PUC-Rio para uma entrevista sobre o ProjetoSala de Aula Interativa.
  34. 34. 34Segundo o professor Aranha, o problema da resistência na aptidão para Físicaestá na maneira de o professor transmitir o conhecimento, portanto é essencial promoverum novo estilo de pedagogia sustentado por uma modalidade comunicacional que supõeinteratividade, isto é, participação, cooperação, multiplicidade de conexões entreinformações e atores envolvidos.Durante a entrevista informal ele ressaltou ainda que o grande desafio doprofessor reside em modificar sua comunicação em sala de aula e na educação, e issosignifica modificar sua autoria enquanto docente e inventar um novo modelo deeducação, desmistificando a tecnologia e fomentando a criatividade e a inovação. Paraele, isso só pode ser feito através de provocações, ou seja, instigando o aluno e nãoapenas passando conteúdo, para que as pessoas a se sintam estimuladas a buscar coisasnovas.Ele também comentou sobre a mudança da Era Industrial para a Era doConhecimento, citada previamente na introdução deste trabalho. Com relação àsmudanças percebidas durante esse período, o professor Aranha acredita que existemduas grandes variáveis:A) A relação do homem com o trabalho - depois dos anos 2000, a ―geraçãoY‖, começou a entrar no mercado e isso mudou drasticamente a relação do homem como trabalho. O homem não trabalha mais por trabalhar, ele quer também bem-estar. NessaEra do Conhecimento é preciso criar ambientes de inovação que atendam às constantesmudanças desse sistema. As pessoas precisam pensar em como planejar e fazer gestãoda vida profissional e ao mesmo tempo ter prazer no que estão fazendo.B) A relação do homem com a natureza - De acordo com o Professor Aranha,o ser humano tinha maior capacidade de observação, quando tinha mais contato com anatureza, pois, entendendo a Natureza, consegue-se entender os conceitos, e em geral, ohomem está se afastando disso. Da mesma forma, está se afastando de seussemelhantes, por isso, é importante mudar esse modelo. É preciso observar de umamaneira diferente, perceber o outro, interagir, comunicar e negociar o tempo inteiro. Ogrande desafio é criar ambientes de inovação em que as pessoas trabalhem em grupos econstruam pontes ao invés de muros entre eles.
  35. 35. 35Aranha alertou sobre o decréscimo de engenheiros no Mundo, a ociosidade dasvagas nas Escolas de Engenharia e a evasão das pessoas no Curso de Engenharia (cercade 50% não terminam o Curso), além de comentar sobre a necessidade de criar umPrograma para criar mais vagas em Engenharia, ocasião em que mencionou iniciativas,como o REENGE (REENGENHARIA DO ENSINO DE ENGENHARIA) e oPRODENGE (PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO DAS ENGENHARIAS)―O REENGE tem como principal objetivo reestruturar o ensinosuperior, incentivando a realização de diferentes experiências deensino como implantação de módulos de aprendizagem virtual,utilização de recursos computacionais, atividades de pesquisa edesenvolvimento experimental, na constante atualização deprofissionais. A principal motivação para a reformulação doscurrículos de Engenharia foi a rapidez dos avanços tecnológicos ea crescente informatização dos meios de produção. Busca-seportanto formar engenheiros com uma visão mais sistêmica e comuma sólida formação básica.O PRODENGE (Programa deDesenvolvimento das Engenharias), resulta de um interesse doGoverno Federal, através da FINEP (Financiadora de Estudos eProjetos), com o apoio do CNPq (Conselho Nacional deDesenvolvimento Científico e Tecnológico), SESU (Secretaria deEducação Superior) e CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamentode Pessoal de Nível Superior), em tornar o Brasil maiscompetitivo, através de seus engenheiros e empresas.‖ (REENGE,2011:s/n)Finalmente, o Professor Aranha relatou que já é possível perceber no Brasil essapreocupação em criar ambientes propícios para a inovação em grupo. Segundo ele, oBrasil começou a investir em ciência a partir da formação de doutores, após esta fase,começamos a vivenciar a tecnologia e a discutir a questão de patentes e de propriedadeintelectual, que são processos que se caracterizam por um trabalho individual. Ressaltoutambém que não adianta o grupo elaborar o Projeto da Sala Interativa e o mesmo ficarguardado. É necessário que o Projeto se transforme em um bem ou em um serviço e queas pessoas o utilizem, para que se caracterize como uma inovação que permite umarelação social, ou seja, aproveitamento em escala.
  36. 36. 36Nesse contexto, recomendou que o grupo de pesquisa do Projeto Sala Interativacumprisse etapas importantes, a saber:1º) Trabalhar o Modelo (nova proposta pedagógica)2º) Estruturar o Projeto ―Piloto‖;3º) Verificar como se manifesta na prática a Sala de Aula Interativa;4º) Construir um empreendimento para implantar em várias escolas.3.3) Entrevista com a Professora Maria Lúcia Horta12O quarto ponto colocado pelo Professor Aranha foi ao encontro de outrasopiniões de especialistas no assunto. Em entrevista com a Professora Maria LúciaHorta, do Departamento de Ciências Humanas, Sociais e da Vida da FINEP, o fatoridentificado pela professora como mais problemático é a escala em que estas iniciativaspodem acontecer. Muitas vezes existem iniciativas interessantes, mas não é possívelaplicá-las em larga escala e beneficiar uma quantidade mais representativa de alunos e,com isso, interferir nas políticas públicas. Ela afirmou também que é necessário investirmais em áreas “hard”, ou seja, aquelas que correspondem às carreiras das CiênciasExatas. Comentou, ainda, que o custo e o tempo para a formação nesta área são maioresdo que nas demais e talvez isso também colabore pela busca, por parte dos jovens, porcarreiras nas áreas sociais.Além disso, foi colocado que qualquer iniciativa de projetos de Ciência,Tecnologia e Educação com o Ensino Médio como público-alvo é válida. Ela reforça,entretanto, que, de acordo com a experiência da FINEP referente aos projetosfinanciados, os que obtiveram melhores resultados foram aqueles em que havia maiorinteração dos educandos com os materiais e com os educadores, ou seja, aqueles em queos alunos podiam experimentar, criar, ter mais autonomia.12A Professora Maria Lúcia Horta recebeu Mônica de Menezes Couto no dia 14 de Fevereiro de 2011, às10:00 , na sede da FINEP, para uma entrevista sobre as iniciativas já existentes, e apoiadas por este órgãofinanciador, relacionadas à aproximação e envolvimento de estudantes do Ensino Médio do campo daCiência e Tecnologia.
  37. 37. 373.4) Resultados e histórias de sucessoComo já citado anteriormente, existem, no Brasil e no mundo, diversasiniciativas a favor de uma educação menos bancária, com modelos inovadores. Essesempreendimentos vêm trazendo resultados com relação à postura dos alunos em sala deaula, aumento no nível de aprendizado, qualidade no rendimento das aulas, aumento donível de aprovação, dentre outros impactos positivos.Em continuação a alguns exemplos já citados na introdução, uma outra iniciativaque vale ser citada é o projeto Ensino Médio Inovador (EMI, 2011), que possui cincopontos centrais: acréscimo de 200 horas na carga horária do Ensino Médio a cada ano;escolha de grade (o aluno pode escolher 20% da sua grade curricular, dentro deatividades oferecidas pela escola); atividades experimentais (são enfatizadas práticascomo viagens, aulas em laboratórios e oficinas); valorização da leitura; e garantia daformação cultural do aluno.Os recursos são oriundos do Governo Federal que repassa às Escolas peloPrograma Dinheiro Direto na Escola, após a aprovação dos Planos de AçõesPedagógicas apresentados pelas secretarias estaduais de educação. Uma parte dessaverba é destinada para a melhoria da infraestrutura das escolas selecionadas para o EMIe para viagens de estudantes a lugares como museus, exposições etc. O governoestadual fica responsável pela capacitação pedagógica dos professores e pelo pagamentoda gratificação dos professores.O relatório ―As desigualdades na Escolarização no Brasil‖, do Conselho deDesenvolvimento Econômico e Social (CDES, 2010), ressalta a importância dessePrograma, mostrando que apenas 51% dos jovens de 15 a 17 anos cursam o EnsinoMédio. ―Entre os mais ricos, eles são 78%. Já entre os 20% mais pobres, 32%‖. (CDES,2010:33)Outra iniciativa que vem ocorrendo desde 1986 é o PROVOC – Programa deVocação Científica, criado pela FIOCRUZ que já envolveu cerca de 330 pesquisadoresem orientação acadêmica de mais de 900 alunos do Ensino Médio. Ao todo, são 22escolas públicas e privadas que têm participado do processo de implantação econsolidação da iniciação científica do Ensino Médio. Além disso, mais de 40
  38. 38. 38profissionais estão mobilizados de forma permanente no acompanhamento pedagógico.Hoje em dia, o PROVOC é uma experiência institucional que ultrapassa o campus daFIOCRUZ do Rio de Janeiro, atuando também nas unidades da FIOCRUZ de Recife,Salvador e Belo Horizonte, além de o Programa ter se difundido para outras áreas deconhecimento (química, física, matemática e informática) e para outras instituições(PUC, CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, CENPES/Petrobras – Centro dePesquisa e Desenvolvimento Leopoldo Miguez de Mello e IMPA/MCT – Instituto deMatemática Pura e Aplicada).Segundo FERREIRA (2003), em seu artigo ―Concepções da iniciação científicano Ensino Médio: Uma proposta de pesquisa‖, a participação de profissionaisgabaritados na orientação de alunos têm sido muito importante para a preparação dosmesmos para os cursos de graduação, como vemos no trecho abaixo:A ampla e abrangente participação de pesquisadores derenomadas instituições científicas, como orientadores de iniciaçãocientífica de jovens que ainda nem sequer fizeram suas escolhasprofissionais, tem sido fundamental para discutir a superação demodelos arcaicos de formação. (...) O aluno do Provoc pareceestar melhor preparado para ingressas nos cursos de graduação.(FERREIRA, 2003:117)Outro programa que escolhemos Apresentar é o ―Mão na Massa‖, trazido daFrança para o Brasil (São Paulo) em 2001 em cooperação entre as Academias deCiências dos dois países. Incentivar o ensino de ciências no ensino fundamental é oobjetivo principal do Programa. Atualmente, o projeto ocorre também no Rio deJaneiro, em São Carlos e em Ribeirão Preto e atende jovens e adultos, tendo como baseo investimento freqüente na formação de docentes. Durante os encontros, os professoresutilizam atividades experimentais que propiciam o desenvolvimento da linguagem orale escrita (DCC, 2011).Em 2001 60 professores desenvolveram o projeto com 1.940 alunos da 1ª a 4ªsérie em 3 escolas com sucesso, o que permitiu que o projeto se expandisse com êxitopara outras escolas em 2002. Hoje são 28 escolas da rede municipal de São Pauloatendidas, implicando em 500 professores e mais de 18 mil alunos.
  39. 39. 39O projeto acaba por promover um movimento de reorientação curricular naescola: alguns professores da rede estadual em São Paulo apontaram mudanças napostura em sala de aula e passaram a atuar como mediadores junto aos estudantes,atuando de forma mais ativa. Segundo eles, houve melhoria na qualidade das aulas, oque permitiu que incluíssem aspectos interdisciplinares.Com isso, apontamos o sucesso e o saldo obtidos em iniciativas similares ereforçamos nossa segurança de que o projeto Sala Interativa alcançará os resultadosalmejados.4. A ESTRATÉGIAApós o diagnóstico, estudo do ambiente e levantamento de informações atravésde entrevistas e revisão bibliográfica, estabeleceu-se a estratégia de criação da sala deaula, ou seja, a definição de como seria a abordagem de todas as questões levantadas noinício do trabalho.Um dos principais pontos de conflito era o fato de ser almejada pelo grupo umainovação real, ou seja, o estabelecimento de diretrizes radicalmente diferentes do atualmodelo de sala de aula, e, ao mesmo tempo, a compreensão de que existia a necessidadede criar um ambiente de aprendizagem que não fosse absolutamente paradoxal à sala deaula tradicional, já que, de certo modo, como uma atividade complementar à gradetradicional, a sala de aula interativa deveria conviver com a ―antiga sala de aula‖,complementando-a e enriquecendo-a.Deste modo, optou-se por fazer dois movimentos em seqüência: o primeiroexplorou um percurso no sentido de estabelecer os parâmetros da sala de aulaabsolutamente ideal com base nos objetivos do trabalho. Ou seja, partindo dos objetivosgerais do projeto, definiu-se objetivos específicos e, por fim, atividades (metodologias)que deveriam ser realizadas neste ambiente para alcançar os resultados pretendidos.Neste período o grupo trabalhou com o cenário ideal como princípio de sua jornada depesquisa, e se baseou em princípios pedagógicos para estabelecer as diretrizes.O outro segmento do grupo partiu para a construção de um novo modelo denegócio, estabelecendo uma inovação de valor também levando em conta os objetivosdo projeto, mas, considerando, principalmente, a percepção de valor do cliente, ou seja,dos estudantes e a viabilidade do negócio. Para isso, foram utilizados os modelos doslivros ―Business Model Generation‖ e ―A estratégia do Oceano Azul‖.
  40. 40. 40De certa forma, o objetivo desse caminho era, conforme colocado pelo ProfessorAranha, trabalharmos primeiramente o modelo, ou seja, a nova proposta pedagógica,para apenas depois estruturarmos o projeto em si.Após a realização dessas pesquisas, cujo resultado pode ser visto a seguir, foramreunidas todas as percepções e buscou-se a interseção entre necessidades (de melhoria,de ruptura, de continuidade, entre outros) para finalmente estabelecer o que era precisoem termos físicos, espaciais e pedagógicos, para que as interações necessáriasocorressem.O objetivo do trabalho foi montar um modelo de negócio viável e replicável,através de um documento que permita a qualquer interessado iniciar seu próprio projetode Sala Interativa, o Manual do Agente de Mudança (Anexo 3).4.1) PESQUISA 1 – Estudo a partir dos Objetivos (Foco na questão pedagógica)Para a construção dos objetivos gerais e específicos e das metodologias, foinecessária a estruturação de dois instrumentos de visualização da proposta: um mapaconceitual (Anexo 2), para identificar o ―conceito‖ da Sala Interativa e fornecer àquelesque desejarem implementá-la uma visão do todo; e a relação de objetivos gerais/específicos e das metodologias, que seguem abaixo:A.1- Objetivos da Sala de Aula InterativaA.1.1- Objetivos Gerais:- Aproximar os estudantes do campo da ciência e tecnologia;- Promover um ciclo permanente de inovação pedagógica.A.1.2- Objetivos específicos:- Complementar o ensino formal na Área de Ciências da Natureza, Matemática esuas tecnologias, com recorte em Física;- Estabelecer conexões entre aprendizagem e a vida cotidiana;- Estimular a curiosidade e a criatividade;
  41. 41. 41- Desmistificar a tecnologia;- Desenvolver o ―pensamento complexo‖ (conceito de pensamento complexo deEdgar Morin)13- Provocar a livre expressão de ideias em múltiplas linguagens;- Valorizar a diversidade cultural;- Incentivar o intercâmbio entre sujeitos com interesses distintos;- Promover o desenvolvimento da autonomia dos usuários da sala no seuprocesso de aprendizagem;- Promover a aprendizagem colaborativa;- Estimular a formação de redes de aprendizagem;- Desenvolver a inteligência coletiva;- Exercitar o uso das TICs no processo de aprendizagem;- Despertar vocações nos usuários da sala;- Desenvolver a capacidade investigativa dos usuários da sala;- Incentivar a sistematização dos conhecimentos;- Desenvolver e aplicar as potencialidades do trabalho em rede;- Promover a interação entre educandos e educadores em torno de um objetivocomum;- Contribuir com a pesquisa em Educação;- Fornecer dados significativos sobre o desenvolvimento dos educandos emtorno de conteúdos das áreas de conhecimento contempladas.A.1.3 – MetodologiasAs metodologias são as propostas de utilização da sala que permitirão ocumprimento dos objetivos a partir das atividades desenvolvidas. Optou-se porestabelecer uma forte ligação com a forma de ocupação e a distribuição de objetos deaprendizagem em função dos princípios pedagógicos adotados. Ou seja, as atividades doambiente serão incorporadas ao projeto arquitetônico e, de acordo com os recursosoferecidos, proporcionarão maior ou menor grau de interatividade.13Refere-se ao pensador Edgar Morin e o seu conceito de pensamento complexo: ―A complexidade é umtecido (complexus: aquilo que é tecido em conjunto) cujos constituintes heterogêneos e contraditóriosencontram-se inseparavelmente associados‖. (MORIN apud SILVA, 2010: 18)
  42. 42. 42Para atender aos propósitos da sala a ser criada, considerou-se que os usuários(educandos e educadores) ficarão imersos em um ambiente no qual é possível criar,investigar, dialogar, compartilhar e aprender durante a permanência na sala.Organizado em módulos, que se caracterizam pelas possibilidades de exploraçãoe tipo de intervenção a ser realizada pelo educando, o espaço permitirá odesenvolvimento de competências diversas, em especial, capacidade colaborativa eautonomia. São eles:M1 - Módulo de diálogo e convergência (Arena) – Este é o espaço maisimportante da sala, porque é neste local que as ideias são estimuladas, a curiosidade éprovocada, as conclusões são expostas, os desafios são propostos, os conceitos sãoapresentados, entre outras atividades de problematização, mediação, diálogo, exposição,compartilhamento, colaboração;M2 - Módulo de atividades – distribuição espacial de objetos de aprendizagemvoltados para funções diversas:Função a – investigação, pesquisa,consulta, simulação, e atividades deexploração. Os objetos de aprendizagem podem ser: games, computadoresconectados (rede e internet), pequena biblioteca, acesso aos projetos do acervo;Função b - sistematização dos conhecimentos elaborados, estruturaçãode projetos e elaboração de hipóteses a serem apresentadas no M1-Módulo deDiálogo e Convergência. Os objetos de aprendizagem oferecidos permitirão aprodução em diferentes plataformas, e a disseminação na rede e em outrossuportes de difusão do conhecimento das produções ocorridas.Função c - fruição – mais contemplativa, permite o contato com osconhecimentos já publicados em diferentes linguagens. Composto pordispositivos de vídeo e áudio individuais, entre outros dispositivos que permitema apreciação de conteúdo já elaborado previamente.
  43. 43. 434.2) PESQUISA 2 – Estudo a partir da Inovação de Valor (foco na percepção docliente e viabilidade do negócio)Com base em todos os aspectos mapeados – a necessidade de engenheiros, afalta de interesse dos alunos em ciências aplicadas, as falhas do atual sistemaeducacional e conseqüente desempenho escolar insatisfatório, entre outros – optou-sepor criar um novo modelo de negócio para as aulas de Física do Ensino Médio.Inicialmente pode soar estranho abordarmos o assunto escola com um olharbusiness, especialmente quando a intenção principal é atingir o ensino público com oprojeto. Entretanto, ao incorporar uma visão de negócios à idealização do projeto, épossível trazer a preocupação que o ensino traga valor a todos os seus stakeholders, ouseja, o aluno, o professor, a sociedade, o mercado, entre outros. Afinal, este é oprincípio fundamental ao pensar um modelo de negócio inovador: criar valor para todosos envolvidos, como colocado por OSTERWALDER e PIGNEUR: ―Atualmente ainovação em modelos de negócio está relacionada a criação de valor, para as empresas,para os clientes e para a sociedade.‖ (OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010: 5)14Para este trabalho será utilizado o modelo do livro ―Business Model Generation‖em combinação com a metodologia do livro ―A Estratégia do Oceano Azul‖15.Selecionamos o modelo do Business Model Generation (BMG) por ser de fácilentendimento para qualquer pessoa, mesmo que não tenha estudado administração.Nele, nove blocos simplificam o funcionamento de um negócio para que seja possívelatingir um resultado inovador e viável, através de uma linguagem que pode sercompartilhada por todos os envolvidos, e, portanto facilitar a co-criação.14Tradução dos autores. Original: ―Ultimately, business model innovation is about creating value, forcompanies, customers, and society. It is about replacing outdated models.‖15O livro dos autores Autores: Chan Kim e Renée Mauborgne (2005) apresenta uma nova maneira depensar sobre estratégia, resultando em uma criação de novos espaços (o oceano azul) e uma separação daconcorrência (o oceano vermelho). Os autores estudaram 150 ganhadores e perdedores em 30 indústriasdiferentes e viram que explicações tradicionais não explicavam o método dos ganhadores. O que elesacharam é que empresas que criam novos nichos, fazendo da concorrência um fator irrelevante,encontram um outro caminho para o crescimento. O livro ensina como colocar em prática essa estratégia.
  44. 44. 44Figura 1 - Business Model GenerationAdaptado de: OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010: 18-19Esse conceito pode se tornar uma linguagem compartilhada quepermite que você facilmente descreva e manipule modelos denegócio para criar novas alternativas estratégicas. Sem essalinguagem compartilhada é difícil desafiar sistematicamentesuposições sobre um modelo de negócio inovando de forma bemsucedida. Nós acreditamos que um modelo de negócio pode sermelhor descrito através de nove blocos básicos [...] Os noveblocos cobrem as quatro principais área de um negócio: clientes,oferta, infra-estrutura e viabilidade financeira. O modelo denegócio é como um diagrama para implementar a estratégiaatravessando as estruturas, os processos e os sistemas.16(OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010: 5-15)Associamos o uso do BMG à estratégia do Oceano Azul porque ela permite umaanálise crítica e objetiva do modelo anterior, ao mesmo tempo que facilita a criação de16Tradução dos autores. Original: This concept can become a shared language that allows you to easilydescribe and manipulate business models to create new strategic alternatives. Without such a sharedlanguage it is difficult to systematically challenge assumptions about one‘s business model and innovatesuccessfully. We believe a business model can best be described through nine basic building blocks […].The nine blocks cover the four main areas of a business: customers, offer, infrastructure, and financialviability. The business model is like a blueprint for a strategy to be implemented through organizationalstructures, processes, and systems.
  45. 45. 45uma nova curva de valor. Ou seja, apesar de permitir que você inicie a análise a partirde um modelo já ultrapassado, ela convida-o a ir além, criando seus próprios atributosrelevantes, através da inovação de valor. Isso é: não apenas cria-se uma forma deexecução diferenciada, como também um conceito completamente novo para o modelode negócio.Nesse sentido, a inovação de valor é mais do que inovação. Éestratégia que abarca todo o sistema de atividades da empresa. Ainovação de valor exige que a empresa reoriente todo o sistemapara empreender um salto no valor, para os compradores e paraela própria. Na falta dessa abordagem holística, a inovaçãocontinuará fora do núcleo da estratégia. (KIM; MAUBORGNE.2005: 17)Este formato (BMG + Oceano Azul) é extremamente interessante, pois aomesmo tempo que mantém um quadro geral para todos, relembra-nos de aspectosimportantes como o público-alvo, e permite ir além do status quo. Afinal, é ―como opioneiro na fabricação de automóveis, Henry Ford disse certa vez, ―Se eu perguntasseaos meus clientes o que queriam, eles responderiam, um cavalo rápido‖.‖(OSTERWALDER; PIGNEUR, 2010: 128)174.2.1) A nova curva de valorPara executar a metodologia de análise proposta por KIM e MAUBORGNE(2005) e construir a curva de valor baseada na estratégia do Oceano Azul, optamos porcomparar as salas de aula convencionais de escolas públicas e particulares e o ambientede aprendizagem inovador proposto no projeto. Para isso, realizamos os seguintespassos:1) Definição de atributos para as salas tradicionais e execução da curva paraestes modelos;17Tradução dos autores. Original: ―as pioneering automaker Henry Ford once said, ―If I had asked mycustomers what they wanted, they would have told me ‗a faster horse‖.‖
  46. 46. 462) Análise dos atributos e, seguindo a metodologia, avaliação das açõesapropriadas para cada um dos atributos: Elevar, Eliminar e Reduzir, alémde Criar novos atributos;3) Atribuição de notas e realização da curva de valor da Sala Interativa.Figura 2- Metodologia da inovação de valor.Adaptado de: KIM; MAUBORGNE, 2005:29A) AtributosConforme já comentado, foram definidos ―atributos‖ e uma escala de 0 a 5 (zeroa cinco) que avalia a intensidade que os mesmos aparecem em cada um dos ambientesanalisados. São eles:1- Participação do aluno: refere-se aos níveis de autonomia do educando emseu processo de aprendizagem. Entende-se por autonomia o conjunto deações realizadas pelo educando na gestão de seu processo de aprendizagem.Estas ações prevêem desde a escolha do objeto de estudo, dos recursos eobjetos de aprendizagem, do tempo de dedicação aos temas, das parcerias detrabalho, da construção de sua rota de busca/investigação e das formas de―publicar‖ aquilo que construiu ao longo do processo. Em outras palavras,desejamos que o aluno seja autor de seu próprio aprendizado. A esserespeito, podemos destacar o excelente quadro comparativo elaborado por
  47. 47. 47RICARDO (2009), inicialmente elaborado para salas virtuais e adaptadopelos autores para salas de aula presenciais:Tabela 6 - Aula Centrada na Autoria x Sala de Aula ReativaSala de Aula Centrada na Autoria Sala de Aula ReativaAluno Criativo Aluno DepósitoLiberdade InterdiçãoCriação ReproduçãoDiálogo MonólogoImprevisível ControleInteratividade ReatividadeEstímulo PuniçãoProdução CópiaAutonomia DependênciaIdentidade HomogeneizaçãoCooperatividade CompetitividadeLegitimidade MarginalidadeAdaptado de: RICARDO, 2009: 72Através da Tabela 6 podemos refletir sobre os desdobramentos do atributoparticipação do aluno e contemplar a profundidade das mudanças necessáriasna dinâmica da aula para atender a este atributo;;2- Participação do professor: refere-se aos níveis de intervenção do educadorno processo vivenciado pelo educando no ambiente proposto. O desejável éque aconteça uma transição de uma condição mais instrucionista da sala deaula convencional para uma condição de mediação/facilitação daaprendizagem. Sendo assim, quanto menor a nota atribuída, mais próxima doideal de mediação almejada;3- Foco único de atenção: refere-se aos níveis de dinamismo da aproximaçãodo aluno ao objeto de estudo/assunto, ou seja, trata-se de analisar se a aula émais expositiva, com um foco único de atenção, ou se é voltada para a
  48. 48. 48aprendizagem colaborativa, autodidatismo, dentre alternativas, em oposiçãoà aula que se caracteriza pela relação ―um para muitos‖. Assim, àsemelhança da participação do professor, quanto menor a nota, mais próximode um ensino colaborativo e com múltiplos objetos de aprendizagem.4- Abordagem baseada exclusivamente no livro didático: refere-se ao graude utilização do livro didático como fio condutor da apresentação dosconteúdos.5- Uso de tecnologia e infraestrutura no/do ambiente: refere-se aos níveis dequalidade, adequação e diversidade na disponibilidade e uso de recursostecnológicos e de infraestrutura no ambiente;6- Prova: refere-se à frequência do uso da prova como único instrumento deavaliação;7- Ocupação múltipla do espaço: refere-se aos níveis de utilização do espaçodisponível em relação à composição de um ambiente modular, criandomúltiplas áreas de trabalho;8- Estímulo à tentativa: refere-se aos níveis de estímulo à experimentação sema preocupação com o erro, considerando que o erro é mais uma oportunidadede aprendizagem e revisão de conceitos;9- Abordagem flexível de conteúdo: refere-se aos níveis de utilização desituações didáticas apoiadas no conceito de aprendizagem significativa paraconceituar, explicar e gerar interesse nos diversos temas que devem serabordados durante a aula;10- Avaliação Emancipadora: Refere-se ao uso de dispositivos de avaliaçãobaseados no conceito de educação emancipadora, ou seja, aquela quepromove a autonomia do aluno. Para isso, caberá um estudo da populaçãoque frequentará este ambiente para que, junto com todos os envolvidos,sejam estabelecidos os dispositivos e instrumentos de avaliação. Obs.: não se

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