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Watchman nee   a verdadeira vida cristã (tradução)
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  • 1. A VERDADEIRA VIDA CRISTÃ "Não mais eu... mas Cristo" Watchman Nee
  • 2. Tradução do italiano: Daniela Raffo Baixado da Internet de esnips Em quarta-feira, 29 de agosto de 2007, 15:05:14 Terminado de traduzir em terça-feira, 11 de dezembro de 2007,12:57:29 Disponível em http://digilander.iol.it/camminocristiano/2
  • 3. CAPÍTULO 1 – O SANGUE DE CRISTO Em que consiste a verdadeira vida cristã? Faremos bem em considerar esta questãodesde o início. O objetivo destes estudos é demonstrar quanto ela é diferente da vida damaior partes dos cristãos. De fato, uma meditação da Palavra escrita de Deus —porexemplo, o Sermão da Montanha— deveria impulsionar-nos a nos perguntar se umasemelhante vida tenha sido jamais vivida sobre a terra, aparte do Filho de Deus mesmo.A resposta encontra-se justamente nesta última afirmação. O apóstolo Paulo nos dá a sua definição da vida cristã na carta aos Gálatas, nocapítulo 2, versículo 20: "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, masCristo vive em mim". O apóstolo, aqui, não expõe uma maneira de viver particular, umcristianismo de alto nível, mas apresenta simplesmente aquilo que Deus pede de cadacristão. Deus nos revela em sua Palavra que Ele tem somente uma resposta para cadanecessidade humana: seu Filho Jesus Cristo. Em cada relação dEle conosco Ele operacolocando-nos aparte e pondo Cristo em nosso lugar. O Filho de Deus morreu em nosso lugar para o nosso perdão, e vive, em nosso lugar,para a nossa liberação. Podemos assim falar de duas substituições: um Substituto sobrea Cruz que nos procura o perdão, e um Substituto dentro de nós, que nos assegura avitória. Nos ajudará enormemente e ficaremos protegidos de muitas confusões, se noslembrarmos sempre deste fato: Deus resolverá todos os nossos problemas de uma únicaforma, ou seja, com a revelação sempre mais profunda do seu Filho. O NOSSO DUPLO PROBLEMA: OS PECADOS E O PECADO Tomaremos como ponto de partida pelo nosso estudo sobre a verdadeira vida cristã ogrande ensino que nos é apresentado nos primeiros oito capítulos da epístola aosRomanos, e enfrentaremos nosso projeto desde um ponto de vista prático. Será útil, dequalquer forma, ressaltar a divisão natural desta seção bíblica em duas partes, econsiderarmos aquelas que emerjam nos temas tratados em cada uma delas. Os primeiros oito capítulos da carta aos Romanos constituem um todo em si mesmo.Os primeiros quatro, junto com os versículos 1-11 do quinto, formam a primeira parte, eos outros três capítulos e meio (5:12 – 8:39) formam a segunda parte deste conjunto.Uma leitura atenta nos mostrará que o argumento tratado na primeira metade édiferente daquele tratado na segunda. Por exemplo, na primeira metade podemos relevaro uso preponderante da palavra "pecados", em plural. Na segunda metade, ao contrário,já não é mais assim, porque enquanto a palavra "pecados" aparece somente uma vez, apalavra "pecado", em singular, repete-se muitas vezes e si constitui no principal tematratado. Por que acontece isto? Porque na primeira parte trata-se dos pecados que eu tenho cometido diante de Deus,pecados numerosos e que podem ser contados; enquanto na segunda, o pecado éexaminado como o princípio que opera em mim. Qualquer seja o número de pecado queeu tenha cometido, aquilo que age em mim é sempre o mesmo princípio de pecado. Eupreciso de perdão pelos meus pecados, mas necessito também ser liberado do poder dopecado. O perdão diz respeito a minha consciência, a liberação concerne a minha vida.Posso receber o perdão de todos os meus pecados, mas, a causa do "meu" pecado, nãoencontro paz duradoura no meu espírito. Quando a luz de Deus penetrou pela primeira vez em meu coração, meu primeirodesejo foi o de ser perdoado, porque compreendi que tinha pecado diante dEle; masdepois de ter recebido o perdão dos pecados fiz um novo descobrimento, aquele dopecado, e percebi que não somente havia pecado diante de Deus, mas que dentro demim existe alguma coisa injusta. Descobri a minha natureza de pecador. Existe em mim uma tendência natural para opecado, um poder superior que me arrasta ao pecado. Quando esta força maléfica semanifesta, eu peco. Posso procurar de receber o perdão, mas ainda assim continuareipecando. A minha vida continua então num círculo viçoso: peco, sou perdoado, porémvolto pecar. Alegro-me considerando a bênção do perdão de Deus, mas preciso dealguma coisa a mais: eu preciso da liberação. Necessito do perdão por aquilo que eu fiz,mas preciso também de ser liberado daquilo que eu sou. 3
  • 4. O DUPLO REMÉDIO DE DEUS: O SANGUE E A CRUZ Portanto, os oito primeiros capítulos da Epístola aos Romanos nos apresentam doisaspectos da salvação: primeiro o perdão dos nossos pecados, e depois a liberação dopecado. Porém agora, levando em conta este fato, devemos considerar mais umadiferença. Na primeira parte de Romanos 1-8 (versículos de 1:1 até 5:11) menciona-se duasvezes o sangue de Jesus, no versículo 3:25 e no versículo 5:9. Na segunda parte(versículos de 5:12 até 8:38) é introduzida, no versículo 6:6, uma nova idéia, quandonos é dito que nós fomos "crucificados" com Cristo. O tema tratado na primeira seçãoconcentra-se sobre aquele aspecto da obra do Senhor Jesus, que é representado pelo"sangue" vertido pela nossa justificação através da "remissão dos pecados". Estaterminologia já não é utilizada na segunda seção, onde o tema se concentra sobre oaspecto de sua obra, representado pela "Cruz", ou seja, pela nossa união com Cristo emsua morte, em sua sepultura e em sua ressurreição. Esta distinção tem um grande valor.Veremos assim que o sangue tem a ver com o que temos feito, enquanto que a Cruzrefere-se ao que somos. O sangue cancela nossos pecados, ao passo que a Cruz seocupa da origem de nossa natureza pecaminosa. Este último aspecto será a substânciade nossa meditação, nos capítulos que se seguem. O PROBLEMA DOS NOSSOS PECADOS Comecemos, então, a considerar o sangue precioso do Senhor Jesus Cristo e o seuvalor para nós, em quanto cancela os nossos pecados e nos justifica diante dos olhos deDeus. Este aspecto é apresentado nos seguintes passos: "todos pecaram" (Rm 3:23). "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nósainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue,seremos por ele salvos da ira" (Rm 5:8-9). "Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em CristoJesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar asua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; parademonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificadordaquele que tem fé em Jesus." (Rm 3:24-26). Mais adiante no curso do nosso estudo mostraremos a verdadeira natureza da queda esobre como sermos salvos. Aqui lembraremos, simplesmente, que o pecado se reveloucomo um ato de desobediência a Deus (Rm 5:19). Devemos lembrar agora que adesobediência é imediatamente seguida da culpa. O pecado manifesta-se, então, como uma desobediência, e cria uma separação entreDeus e o homem, a continuação do qual o homem é expulso longe de Deus. Deus nãopode ter mais comunhão com ele, porque tem penetrado um obstáculo ao qual aEscritura dá o nome de "pecado". Assim Deus estabelece, antes que nada, que "todosestão debaixo do pecado" (Rm 3:9), sendo então que o pecado, que de agora em dianteconstitui um obstáculo à comunhão do homem com Deus, dá origem no homem a umsentido de culpa pelo distanciamento de Deus. Então o homem, seguindo a suaconsciência redescoberta, diz: "Pequei" (Lc 15:18). Porém isto não é tudo, porque opecado fornece também uma razão para o adversário acusar o homem diante de Deus,enquanto o nosso sentido de culpa lhe dá a razão para acusar-nos em nosso coração,convertendo-o assim, finalmente, no "acusador dos irmãos" (Ap 12:10), que lhes diz:"Vocês pecaram". Era necessário, então, que o Senhor Jesus, para introduzir-nos novamente no planode Deus, cumprisse a sua obra no que respeita a estes três aspectos: o pecado, a culpa ea acusação de Satanás contra nós. Precisava-se, antes que nada, que os nossos pecadosfossem cancelados, e isto foi cumprido pelo precioso sangue de Cristo. Necessitava-se,depois, que a nossa culpa fosse perdoada, e que a nossa consciência fosse tranqüilizadamediante a revelação do valor daquele sangue. Finalmente, era necessário enfrentar osataques no inimigo e responder as suas acusações. Nos é mostrado, nas Escrituras, queo sangue de Cristo age eficazmente nestas três direções: para Deus, para o homem epara Satanás. Se quisermos avançar, devemos absolutamente apropriar-nos das virtudes daquelesangue. Esta é a primeira condição essencial. Devemos ter uma consciência fundamentaldo fato que o Senhor Jesus morreu na Cruz em nosso lugar, e uma clara compreensão daeficácia do seu sangue em cancelar nossos pecados.4
  • 5. Se não temos esta consciência, não podemos dizer que estejamos encaminhados emnossa via. Examinaremos estes três temas mais de perto. PRIMEIRAMENTE O SANGUE TEM VALOR DIANTE DE DEUS O sangue foi vertido pela expiação e é ligado à nossa posição diante de Deus. Paranão cair sob juízo, precisamos do perdão pelos pecados que temos cometido, e os nossospecados nos são perdoados não porque Deus feche seus olhos ao mal que temoscometido, mas porque Ele vê o sangue do seu Filho. O sangue não é, então,primariamente "para nós" mas "para Deus". Se eu desejo conhecer o valor do sanguepara mim, devo aceitar tudo aquilo que ele significa para Deus; se eu não conheço ovalor que o sangue tem para Deus, não conhecerei nunca o valor que ele tem para mim.Somente quando o Espírito Santo tenha me revelado o preço que Deus atribui ao sanguede Cristo, penetrará em mim o benefício de sua virtude e compreenderei o seu preciosovalor para mim. Mas o primeiro aspecto do sangue é para Deus. Na Antiga e na NovaAliança, a palavra "sangue", usada em conexão com a idéia de expiação, é adotada masde cem vezes, e é sempre apresentada como de grande valor diante de Deus. Existe no calendário do Antigo Testamento um dia que se encontra em estreita relaçãocom o argumento dos nossos pecados: é o Dia da Expiação. Nada explica este problemados pecados tão bem quanto a descrição deste dia. No capítulo 16 de Levítico lemos que,no Dia da Expiação, o sangue era tomado das ofertas pelos pecados e levado no LugarSantíssimo para ser aspergido sete vezes diante do Eterno. É necessário compreenderisto muito claramente. Naquele dia, o sacrifício pelos pecados era oferecido publicamenteno átrio do Tabernáculo. Tudo era feito abertamente e podia ser visto por todos. mas oSenhor tinha ordenado severamente que ninguém entrasse no Tabernáculo, a exceção doSumo Sacerdote. Ele só tomava o sangue depois de ter entrado no Lugar Santíssimo erealizava a aspersão diante do Senhor. Por quê? Porque ele era figura do Senhor Jesusem sua obra redentora: "Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdote dos bens futuros, por ummaior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, Nempor sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez nosantuário, havendo efetuado uma eterna redenção" (Hb 9:11-12). Assim sendo, ninguémsenão o Sumo Sacerdote podia se aproximar e penetrar no Santuário. Alem disso, eleentrava para cumprir um único gesto: apresentar a Deus o sangue como uma ofertaaceitável, na qual Deus podia ter satisfação. Era uma transação entre o Sumo Sacerdotee Deus no segredo do Lugar Santíssimo, longe dos olhares dos homens que deviamresultar beneficiados. O Senhor o requeria assim. O sangue é, então, o primeiro lugarnão "para nós", mas "para Ele". Já antes achamos descrita a efusão do sangue docordeiro pascual no Egito para o resgate de Israel. "E aquele sangue vos será por sinalnas casas em que estiverdes; vendo eu sangue, passarei por cima de vós, e não haveráentre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do Egito" (Êx 12:13). Aquela éainda, penso, uma das figuras mais claras da nossa redenção que possamos achar noAntigo Testamento. O sangue era colocado sobre as ombreiras e na verga das portas,enquanto o carne dos cordeiros era comido no interior das casas. E Deus disse: "vendoeu sangue, passarei por cima de vós". Temos aqui uma outra ilustração do fato que o sangue não deve ser apresentado aohomem, mas a Deus, porque o sangue era colocado no exterior da casa e aqueles quecelebravam a festa no interior não podiam vê-lo. DEUS É SATISFEITO A santidade de Deus e a justiça de Deus requerem que uma vida sem pecado sejaentregue pelo homem. A vida está no sangue e aquele sangue deve ser vertido por mima causa dos meus pecados. É Deus quem o reclama, Deus é Aquele que pede que osangue seja oferecido, para satisfazer a sua justiça; é Ele mesmo que declara: "vendo eusangue, passarei por cima de vós". O sangue de Cristo satisfaz plenamente a Deus. Gostaria aqui de dar uma palavra aos meus mais jovens irmãos no Senhor, porque éneste ponto que achamos, com freqüência, dificuldades. Antes de acreditar em Cristo,talvez nunca tenhamos sido turbados pelas nossas consciências, até que a Palavra deDeus não começou despertá-la. A nossa consciência estava morta e Deus não pode fazernada com aqueles cuja consciência está morta. Porém mais tarde, quando cremos, anossa consciência acordada tornou-se extremamente sensível e isto pode constituir-senum verdadeiro problema para nós. O sentimento do pecado e da culpa pode tornar-setão grande e tão terrível, que pode até chegar a paralisar-nos, fazendo-nos perder devista a verdadeira eficácia do sangue. Nos parece, então, que os nossos pecados sejam 5
  • 6. muito reais, e qualquer pecado em particular pode atormentar-nos tão freqüentementeque pode fazer-nos acreditar que os nossos pecados sejam maiores que o sangue deCristo. Ora, todas as nossas dificuldades provêm disto: provar a sentir o valor do sanguee estimar subjetivamente o que ele significa para nós. Mas não podemos fazer isto,porque não é assim que se fazem as coisas. É Deus quem, antes que nada, deve ver osangue. Depois, nós devemos aceitar em seguida o valor que Deus lhe dá. somenteentão compreenderemos o valor que tem para nós. Se, ao contrário, tratamos de avaliá-lo segundo o nosso modo de pensar, não obteremos nada, ficaremos no escuro. É umaquestão de fé na Palavra de Deus, devemos acreditar que o sangue de Cristo é preciosodiante de Deus, porque Ele disse que assim era. "Sabendo que não foi com coisascorruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da sua vã maneira de viver quepor tradição recebestes dos seus pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como deum cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo foiconhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempospor amor de vós" (1 Pe 1:18-20). Se Deus pode aceitar o sangue de Cristo como umaexpiação dos nossos pecados e como preço da nossa redenção, podemos estar segurosque a dívida ficou paga. Se Deus está satisfeito com o sangue, quer dizer que o sangue éaceitável. O valor que nós atribuímos ao sangue deve se corresponder com o que Deuslhe atribui, nem mais nem menos. Não pode certamente ser mais alto, mas também nãodeve ser mas baixo. Lembremos que Deus é Santo e justo, e que um Deus justo e santotem o direito de declarar que o sangue de Cristo O tem agradado o satisfeitoplenamente. A VIA PELA QUAL O CRENTE VAI A DEUS O sangue de Jesus satisfez Deus, mas deve satisfazer também a nós. Existe, então,um segundo valor, que é para o homem, em quanto que purifica a nossa consciência.Meditando sobre a Epístola aos Hebreus achamos aquilo que o sangue fez. Ele conseguiupara nós "corações purificados da má consciência" (Hb 10:22). Isto é muito importante. Consideremos atentamente o que está escrito. O autor nãonos diz somente que o sangue do Senhor Jesus purifica o nosso coração; não pára nestadeclaração. É um erro relacionar o coração com o sangue desta maneira. Assim demonstramosnão compreender a esfera na qual opera o sangue, quando apregoamos: "Senhor,purifica o meu coração do pecado com o Teu sangue"; o coração, Deus diz, é "enganoso"e "perverso" (Jr 17:9). Deus deve então fazer alguma coisa mais eficaz que purificá-lo: Ele deve nos dar umcoração novo. Nós nunca pensaremos em lavar e passar o ferro numa roupa que seja para jogarfora. Como veremos mais adiante, a "carne" é demasiadamente corrupta para serpurificada: ela deve ser crucificada. A obra de Deus em nós deve ser uma coisa completamente nova: "E dar-vos-ei umcoração novo, e porei dentro de vós um espírito novo" (Ez 36:26). Não, eu não acho nenhum versículo no qual seja declarado que o sangue de Cristopurifica o coração. A sua obra não é subjetiva neste sentido, mas inteiramente objetiva,diante de Deus. É verdade que a obra da purificação do sangue, segundo Hebreus 10,toca nosso coração, mas é em relação com a nossa consciência. "...tendo os coraçõespurificados da má consciência" (Hb 10:22): o que significa isto? Significa que umobstáculo foi introduzido entre eu e Deus, criando em mim uma má consciência queadvirto a cada vez que tento me aproximar dEle. Ela me lembra constantemente abarreira que foi criada entre Ele e eu. Porém agora, a obra do sangue precioso eliminouaquela barreira, e Deus me fez conhecer este fato mediante a sua Palavra. Devido a que eu cri e aceitei Jesus, a minha consciência foi purificada e o meu sentidode culpa desapareceu; já não tenho uma má consciência diante de Deus. Cada um de nós sabe quanto é precioso ter, em nossa relação com Deus, umaconsciência pura de cada mácula de pecado. Sim, um coração cheio de fé e umaconsciência limpa de todas as acusações são duas coisas essenciais para nós, e umaacompanha a outra. Quando perdemos a paz da consciência, a nossa fé naufraga, esentimos em seguida que não podemos nos aproximar de Deus. mas para podercontinuar a caminhar com Deus devemos conhecer sempre o valor atual do sangue. Deustem uma contabilidade muito precisa, e é pelo sangue de Cristo que nós podemos, acada dia, cada hora e cada minuto, nos aproximar dEle. O sangue não perde nunca a suaeficácia como nossa base de acesso ao trono da graça, e nós confiamos inteiramente6
  • 7. nisso. Então, quando entramos no Lugar Santíssimo, sobre qual fundamento além dosangue ousaremos nos apoiar? Eu preciso me fazer esta pergunta: procuro verdadeiramente ir a Deus através dosangue, ou me confio em qualquer outra coisa? O que entendo quando digo: "através dosangue"? Quero dizer, simplesmente, que eu reconheço os meus pecados, que necessitopurificação e expiação, e que me aproximo de Deus apoiando-me só em seus méritos, enunca confiando nas minhas próprias forças. Nunca, por exemplo, fundando-me no fatode ter sido particularmente amável ou paciente durante o dia, ou de ter feito qualquercoisa pelo Senhor nesta manhã. Devo me aproximar de Deus sempre pela via do sanguede seu Filho. A tentação, para muitos de nós, quando queremos nos achegar a Deus, é ade pensar que, já que Deus tem agido em nós, nos fez conhecer alguma coisa de maissobre Ele e nos abriu os olhos acerca de lições mais profundas a respeito da Cruz, temcolocado assim diante de nós novas normas de vida, e que somente nos submetendo aelas poderemos ter uma consciência pura diante dEle. Não! Uma consciência pura não está nunca baseada sobre uma vitória que tenhamosconseguido; ela só pode ser estabelecida sobre a obra que o Senhor Jesus cumpriuvertendo o seu sangue. Posso errar, mas tenho a impressão muito forte que alguns de nós temos, às vezes,sentimentos como estes: "Hoje eu fui mais amável; hoje eu agi melhor; esta manhã li aPalavra de Deus de forma mais recolhida, então posso orar melhor!", ou, ainda: "Hoje eutive algumas dificuldades com a minha família, comecei o dia de péssimo humor, semjeito, e agora não me sinto tão cômodo assim; parece que alguma coisa não está indobem; não posso, porém, me aproximar de Deus". Qual é, afinal, a base sobre a qual vocês se aproximam de Deus? Vão a Ele sobre ofundamento incerto dos seus sentimentos, pensando que hoje conseguiram fazer algumacoisa para Ele? Ou vocês se apóiam sobre um fundamento muito mais seguro, ou seja,sobre o fato que o sangue foi vertido e que, vendo esse sangue, Deus está satisfeito?Naturalmente, se tivesse sido possível conceber que a virtude do sangue pudesse sermudada, a base sobre a qual nos aproximamos de Deus seria menos digna de confiança.Porém, a virtude do sangue nunca mudou e nunca mudará. Podemos, então, nos achegarsempre a Deus com certeza, e esta segurança a obtemos através do sangue, e nuncapelos nossos méritos pessoais. Qualquer seja a medida dos nossos méritos de hoje, deontem ou de anteontem, apenas nos chegamos com plena consciência ao lugar trêsvezes santo, é preciso imediatamente que nos apoiemos sobre o terreno seguro e únicodo sangue vertido. Se o nosso dia foi bom ou ruim, se pecamos a sabendas ou não, ofundamento sobre o qual nos aproximamos a Deus é o mesmo: o sangue de Cristo. Ofato de este sangue ser agradável a Deus permanece a única base sobre a qual podemosentrar em sua presença; não existem outras. Como em muitas outras etapas da nossa experiência cristã, este fato do acesso aDeus se compõe de duas fases, uma inicial e uma sucessiva. A primeira estárepresentada em Efésios 2, e a segunda em Hebreus 10. No início, a nossa posiçãodiante de Deus é assegurada pelo sangue, porque nós fomos "aproximados pelo sanguede Cristo" (Ef 2:13). E imediatamente a base do nosso contínuo acesso a Deus subsisteainda no sangue; portanto o apóstolo nos exorta assim: "Tendo, pois, irmãos, ousadiapara entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, (...) Cheguemo-nos" (Hb 10:19,22).Para começar fui re-aproximado pelo sangue, e a continuação, nesta nova relação comDeus devo sempre recorrer ao sangue. Não que eu tenha sido salvado sobre uma certabase e que depois mantenha a minha comunhão com Deus sobre uma outra base. Vocêsdirão: "Isto é muito simples; é o ABC do Evangelho". Sim, porém é um fato que muitosde nós nos temos distanciado deste ABC. Temos pensado de ter feito progressos e de tê-lo assim superado, mas nunca poderemos fazer isto. Não, eu me aproximei de Deus aprimeira vez através do sangue, e a cada vez que me apresento a Ele é pelo mesmomeio. Até o fim será assim, sempre e unicamente sobre a base do sangue de Cristo. Isto não significa de maneira alguma que devamos viver uma vida despreocupada; defato, estudaremos mais tarde um outro aspecto da morte de Cristo, que mostrará avocês uma coisa completamente diferente. Porém de momento, contentemo-nos com osangue que está conosco e nos é suficiente. Podemos ser fracos, mas considerando anossa debilidade não ficaremos mais fortes. Nem também não tentando de sentir a nossamiséria e fazendo penitência nos tornaremos mais santos. Não encontraremos nenhumaajuda neste sentido. Tenhamos então a coragem de encostar-nos em Deus confiando nosangue, e digamos: "Senhor, eu não conheço bem o valor do sangue, mas sei que osangue tem Te satisfeito, portanto, o sangue me basta, e é o meu único refúgio. Vejo 7
  • 8. agora que, tenha eu realizados progressos ou não, tenha eu melhorado ou não, nãoposso nunca me apresentar diante de Ti senão sobre o fundamento do precioso sangue".Então a nossa consciência ficará verdadeiramente livre diante de Deus. nenhumaconsciência poderá nunca ser purificada fora do sangue. É o sangue que nos dásegurança diante de Deus; "De outra maneira, teriam deixado de se oferecer, porque,purificados uma vez os ministrantes, nunca mais teriam consciência de pecado", esta é apoderosa expressão de Hebreus 10:2. Somos purificados de cada pecado; podemos fazereco com Paulo às palavras de Davi: "Bem-aventurado o homem a quem o Senhor nãoimputa o pecado" (Romanos 4:8). A VITÓRIA SOBRE O ACUSADOR Depois de tudo que já temos considerado, podemos agora enfrentar o inimigo, porqueexiste ainda um outro aspecto da virtude do sangue, aquele que nos resguarda deSatanás. A atividade mais viva de Satanás neste tempo consiste em ser o acusador doscrentes: "...porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nossoDeus os acusava de dia e de noite" (Apocalipse 12:10). É nesta ação sua que o nosso Senhor o enfrenta com o seu particular ministério deSumo Sacerdote, "por meio do seu próprio sangue" (Hb 9:12). Qual é, então, a obra do sangue contra Satanás? Ela consiste em colocar a Deus departe do homem, contra Satanás. A queda produziu no homem uma condição que tempermitido o adversário entrar em contato com ele, com o resultado de forçar Deus a seretirar. O homem está agora fora do Jardim do Éden, já não pode ver mais a glória deDeus: "...todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3:23), porque,inteiramente, o homem transformou-se num estranho para Deus. Como conseqüência doque o homem tem feito, existe agora alguma coisa nele que impede Deus de defendê-lo,até que o obstáculo seja removido. Mas o sangue de Cristo tirou esta barreira; restituiu ohomem a Deus e Deus ao homem. O homem está agora sob a proteção divina, e devidoa que Deus o acompanha, Ele pode sem temor enfrentar Satanás. Vocês se lembrarão daquele versículo da primeira epístola de João, e esta é atradução que eu prefiro: "O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de cada pecado" (1Jo 1:7). Não é exatamente "todos os pecados", no sentido geral, mas de cada pecado,cada um detalhadamente. O que significa isto? É uma coisa maravilhosa! Deus está na luz, e se caminhamos com Ele na luz, tudo fica exposto e descobertodiante desta luz, e assim Deus pode ver tudo perfeitamente, enquanto o sangue deCristo pode purificar-nos de cada pecado. Que purificação! Isto não significa que eu nãoconheça profundamente a mim mesmo, ou que Deus não me reconheça perfeitamente.Não é que eu procure escondê-Lhe alguma coisa, nem que tente de não vê-Lo. Não,acontece que Ele é a luz, que também eu estou na luz e que ali o sangue precioso mepurifica de cada pecado. O sangue tem condições de fazer isto! Alguém, oprimido pela sua debilidade, poderia ser tentado a pensar que existempecados imperdoáveis. Lembremo-nos então destas palavras: "O sangue de Jesus Cristo,seu Filho, nos purifica de cada pecado". Grandes pecados, pequenos pecados, pecadosque podem parecer tão pretos e pecados que não nos parecem tão graves, pecados queeu acredito possam ser perdoados e pecados que achamos imperdoáveis, sim, todos ospecados, conscientes ou inconscientes, tanto aqueles de que eu me lembro como aquelesque já esqueci, estão contidos nestas palavras: "cada pecado". "O sangue de JesusCristo, seu Filho, nos purifica de cada pecado". E pode fazê-lo porque em primeiro lugarsatisfaz o Pai. E se Deus, que vê todos os nossos pecados à luz, pode perdoá-los graças ao sangue,qual fundamento de acusação resta a Satanás? Ele pode nos acusar diante de Deus,porém, "se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8:31). Deus lhe mostra o sangue de seu Filho dileto e esta é a resposta suficiente à qualSatanás não pode replicar de maneira alguma. "Quem intentará acusação contra osescolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quemmorreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, etambém intercede por nós." (Rm 8:33-34). Temos ainda, no obstante, a necessidade dereconhecer a eficácia absoluta do sangue precioso. "Mas, vindo Cristo, o sumo sacerdotedos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é,não desta criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue,entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção." (Hb 9:11-12).8
  • 9. Ele foi Redentor uma vez, e agora, quase dois mil anos depois, é Sumo Sacerdote eAdvogado. Ele está na presença de Deus e é a "propiciação pelos nossos pecados" (1 Jo2:1). Notemos bem as palavras de Hebreus 9:14: "Quanto mais o sangue de Cristo (...)purificará as suas consciências...". Estas palavras sublinham a eficácia perfeita do seuministério, que é suficiente perante Deus. Qual deverá ser a nossa postura a respeito deSatanás? Esta pergunta é importante porque o inimigo nos acusa não somente diante deDeus, mas também em nossas próprias consciências: "Você pecou e continua a pecar.Você é fraco, e Deus não pode fazer nada por você". Estas são as armas das quais seserve Satanás. Então somos tentados de olhar dentro de nós, para tratar de achar em nós mesmos,em nossos sentimentos ou em nossa conduta, uma razão para acreditar que Satanásestá errado; ou então somos tentados a reconhecer a nossa debilidade e, indo até ooutro extremo, de abandonar-nos ao desencorajamento e à desesperação. A acusaçãoconverte-se assim em uma arma de Satanás, a mais forte e eficaz. Ele nos mostranossos pecados e procura acusar-nos diante de Deus, e se não reconhecemos a fraquezadas suas acusações, caímos em seguida em desespero. Ora, a razão pela qual aceitamostão facilmente as acusações de Satanás é que esperamos ainda achar alguma justiça emnós. Mas o fundamento de nossa esperança é falso e assim o adversário alcançou seuobjetivo, que consiste em fazer-nos olhar para a direção errada, dando-lhe assim o modode nos deixar sem forças para resistir. Porém, se temos aprendido a não confiar nacarne, não ficaremos surpresos quando cairmos em algum pecado, porque a naturezaprópria da carne é o pecado. Compreendem o que quero dizer? Porque não conseguimosainda conhecer a nossa verdadeira natureza, nem ver o impotente que somos, temosainda alguma confiança em nós mesmos, e somos ainda esmagados pelas acusações deSatanás. Deus tem o poder de regularizar a questão dos nossos pecados, mas nada podefazer por um homem que está sob acusação, até que este homem não colocacompletamente a sua confiança no sangue de Cristo. O sangue fala em seu favor, porémo homem dá ouvidos a Satanás. Cristo é o nosso advogado, mas nós, os acusados, nossentamos ao lado do nosso acusador. Não compreendemos que somos dignos somentede morte; que, como veremos em seguida, só podemos ser crucificados de todas asmaneiras. Não temos ainda compreendido que somente Deus pode responder aoacusador e que já o fez com o sangue precioso de seu Filho. A nossa salvação consisteem voltar o nosso olhar ao Senhor Jesus, e em ver que o sangue do Cordeiro temenfrentado toda a situação gerada pelo nosso pecado, e a tem resolvido. Este é o fundamento seguro com o qual podemos contar. Não deveremos nuncaprocurar responder a Satanás com a nossa boa conduta, mas sempre com o sangue deJesus. Sim, somos pecadores, mas —louvado seja Deus!—, o sangue nos purifica de cadapecado. Deus olha para o sangue pelo qual seu Filho respondeu a acusação, e Satanásnão tem mais base para nos atacar. A nossa fé no precioso sangue e a nossa recusa deabandonar esta segura posição podem, sozinhas, reduzir ao silencio as acusações deSatanás e pô-lo em fuga. "Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre osmortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós." (Rm 8:33-34). E assim será até o fim: "E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra doseu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte" (Ap 12:11). Que liberaçãopara nós discernirmos melhor o valor que tem, aos olhos de Deus, o sangue precioso deseu Filho dileto! CAPÍTULO 2 – A CRUZ DE CRISTO Temos visto que os oito primeiros capítulos da epístola aos Romanos podem serdivididos em duas partes. Foi-nos mostrado, na primeira parte, que o sangue age segundo o que temos feito;enquanto, na segunda parte, veremos que a Cruz1 age segundo o que nós somos. 1 O autor aqui, e através deste estudo, usa o termo "a Cruz" num sentido particular. Muitosleitores conhecerão bem o uso da expressão "a Cruz" para significar, em primeiro lugar, a inteiraobra redentora cumprida historicamente na morte, sepultura, ressurreição e ascensão do SenhorJesus (Fp 2:8-9); e, em segundo lugar, num sentido mais amplo, a união dos crentes com Eleatravés da graça (Romanos 6:4; Efésios 2:5-6). Desde o ponto de vista de Deus, neste uso dotermo, a função de "o sangue" em relação ao perdão dos pecados (como tratado no capítulo 9
  • 10. Precisamos do sangue de Jesus para o perdão; e precisamos da Cruz para ser liberados.Tratamos brevemente nas páginas precedentes o primeiro aspecto e nos deteremosagora no segundo; porém, antes de fazê-lo, consideraremos ainda algum outro passoimportante, referente em toda esta seção que sublinha a diferença entre o tema tratadoe os pensamentos seguidos nestas duas partes. OUTRA DISTINÇÃO Dois aspectos da ressurreição são mencionados nas duas partes, com referências aoscapítulos 4 e 6. na epístola aos Romanos, 4:25, a ressurreição do Senhor Jesus estáligada à nossa justificação: "O qual (Jesus) por nossos pecados foi entregue, eressuscitou para nossa justificação." O tema em vista neste fragmento é a nossa posiçãodiante de Deus. mas em Romanos 6:4 a nossa ressurreição nos é mostrada como o domde uma nova vida, com vistas a um caminho santificado: "...para que, como Cristo foiressuscitado (...) assim andemos nós também em novidade de vida". A palavra que estáaqui diante de nós tem a ver com o nosso caminho diante de Deus. Por outra parte, sefala da paz nos capítulos 5 e 8. Romanos 5 fala da paz com Deus que é o fruto dajustificação mediante a fé em seu sangue: "Tendo sido, pois, justificados pela fé, temospaz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5:1). Isto significa que havendo eurecebido o perdão pelos meus pecados, Deus já não mais será para mim causa de terrore de angústia. Eu, que era inimigo de Deus, fui "reconciliado com Ele pela morte de seuFilho" (Rm 5:10). Porém, em seguida, me lembro que estou por mim mesmo sujeito agrande tormento. Existe ainda incerteza em mim, porque há no fundo do meu "eu"alguma coisa que me empurra a pecar. Tenho a paz com Deus, mas não tenho a pazcomigo mesmo. Existe, de fato, a guerra no meu coração. Há uma descrição muito claraem Romanos 7, onde a carne e o espírito desencadearam um conflito mortal em mim.Mas partindo daqui, a Palavra nos conduz ao capítulo 8, à paz interior pelo caminhosegundo o Espírito. "Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito évida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita àlei de Deus, nem, em verdade, o pode ser" (Rm 8:6-7). Prosseguindo ainda no nosso estudo, vemos que a primeira metade da segunda seçãotrata em geral da questão da justificação. Veja por exemplo: "Sendo justificadosgratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deuspropôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pelaremissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração dasua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que temfé em Jesus." (Romanos 3:24-26). E ainda: "Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua félhe é imputada como justiça (...) Mas também por nós, a quem será tomado em conta,os que cremos naquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus nosso Senhor; o qualpor nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação." (Romanos4:5,24-25). A segunda metade da seção tratada, pelo contrário, tem como sujeito principal ointerrogativo correspondente à santificação. De fato, em Romanos 6:19 e 22 diz: "...poisque, assim como apresentastes os seus membros para servirem à imundícia, e àmaldade para maldade, assim apresentai agora os seus membros para servirem à justiçapara santificação (...) Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes oseu fruto para santificação, e por fim a vida eterna". Então, quando conhecemos apreciosa verdade da justificação pela fé, conhecemos somente a metade. Temosresolvido somente o problema de nossa posição diante de Deus mas, à medida queavançamos no conhecimento, Deus tem alguma coisa a mais para nos oferecer; ou seja,a solução do problema de nossa conduta. O desenvolvimento do pensamento, nestescapítulos da epístola aos Romanos, sublinha a importância deste ponto. O segundo passoé o resultado do primeiro e se nós ficamos no primeiro teremos uma vida cristã aindaimperfeita, ou por debaixo do normal.precedente), é claramente incluída (com tudo que se segue neste estudo) como uma parte da obrada Cruz. Neste e nos seguintes capítulos, contudo, o autor foi constrangido, por falta de um termoalternativo, a utilizar "a Cruz" num sentido doutrinário muito mais particular e limitado, a fim detraçar uma útil distinção entre a substituição e a identificação, como sendo, de um ponto de vistahumano, dois aspectos separados da doutrina da redenção. Portanto, o nome do inteiro e usado por uma das partes. O leitor deverá ter presente isto nostextos que se segue (N. do E.).10
  • 11. Como podemos, então, viver uma vida cristã normal? Como poderemos fazer? Épreciso, naturalmente, começar por resolver o perdão dos pecados; é necessária ajustificação e a paz com Deus: isto constitui um fundamento indispensável. Porém, umavez estabelecida esta base como o nosso primeiro ato de fé em Cristo, fica claro, do queprecede, que devemos avançar para alguma coisa a mais. Assim vemos que o sanguetem efeito sobre os nossos pecados. O Senhor Jesus os levou em nosso lugar sobre aCruz, como nosso substituto, e assim obteve o perdão para nós, a justificação e areconciliação. Mas devemos, agora, dar um passo adiante no conhecimento do plano deDeus para compreender como age sobre o princípio do pecado que há em nós. O sanguepode cancelar os meus pecados, mas não pode suprimir meu "velho homem". É precisoque a Cruz o faça morrer. O sangue deixa os pecados de lado, mas é necessária a Cruzpara pôr de lado o pecador. Acharemos raramente a palavra "pecador" nos primeiros quatro capítulos da epístolaaos Romanos, porque não são os pecadores o alvo principal, mas o pecado que têmcometido. A palavra "pecador" aparece pela primeira vez no capítulo 5, e é importanteobservar como é introduzida a idéia do pecador. Diz-se neste capítulo que o pecador éassim porque nasceu pecador, e não porque cometeu pecados. A diferença é importante.É verdade que amiúde, para convencer o homem da rua de que é um pecador, o servodo Senhor utiliza a instância bem conhecida de Romanos 3:23, onde diz que "todospecaram"; mas o uso deste texto não está estritamente de acordo com as Escrituras. Osversículos que são utilizados assim comumente podem, às vezes, pôr em perigo aintegração e conduzir a uma conclusão errada. De fato, a epístola aos Romanos nãoensina que sejamos pecadores porque cometemos pecados, senão que cometemospecado porque somos pecadores. Somos pecadores por natureza, antes que pelo nossocomportamento. Como declara Romanos 5:19: "pela desobediência de um só homem,muitos foram feitos pecadores". Como nos convertemos em pecadores? Peladesobediência de Adão. Nós não nos convertemos em pecadores por aquilo que fizemos,mas a causa daquilo que Adão fez e daquilo em que se converteu. Eu falo inglês, masisso não me converte num inglês. Eu sou em verdade chinês. Assim, o capítulo 3 chamaa nossa atenção para o que temos feito. "Todos pecaram", mas não é porque pecamosque nos convertemos em pecadores. Um dia fiz esta pergunta a uma aula de escolares:"Quem é um pecador?" A resposta imediata deles foi: "Aquele que peca". Sim, aqueleque peca é um pecador, mas o fato de que peca é simplesmente a prova de que ele já éum pecador, não é a causa. Aquele que peca é um pecador, porém também é verdadeque aquele que não peca, mas pertence à raça de Adão, é igualmente um pecador eprecisa de redenção. Vocês me seguem? Existem maus pecadores e também bons;existem pecadores "morais" e pecadores "corruptos"; porém todos são igualmentepecadores. Nós pensamos, às vezes, que se não tivéssemos feito certas coisas, tudo iriamelhor; mas o mal está escondido muito mais profundamente que naquilo que nós temoscometido: está dentro de nós. Um chinês pode ter nascido em América e ser incapaz defalar uma palavra em chinês, mas isto não evita que fique chinês pelo fato de que ele échinês. É o nascimento, a origem o que conta. Assim, eu sou um pecador porque nasciem Adão. Não é pela minha conduta, mas pela minha herança, pela minha ascendência.Não sou um pecador porque peco, mas peco porque desço de uma cepa malvada. Eupeco porque sou um pecador. Nós nos inclinamos a pensar que aquilo que temoscometido é muito mau, porém que nós mesmos não somos tão maus. No entanto, oSenhor quer nos fazer compreender que a nossa natureza é malvada, fundamentalmentemalvada. A raiz do mal é o pecado; é necessário agir sobre ele. Os nossos pecados sãolavados pelo sangue, porém quanto a nós mesmos, devemos morrer sobre a Cruz. Osangue nos assegura o perdão para tudo o que temos feito; a Cruz nos assegura aliberação daquilo que somos. A CONDIÇÃO NATURAL DO HOMEM Temos assim chegado a Romanos 5:12: "Portanto, como por um homem entrou opecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos oshomens por isso que todos pecaram." Nesta grande passagem, a graça é colocada em contraste com o pecado, e aobediência de Cristo é oposta à desobediência de Adão. Este fragmento fica no início dasegunda parte da carta aos Romanos (de 5:12 até 8:3) de que, agora, nos ocuparemosmais particularmente, e o tema que aqui é tratado conduz de uma conclusão que será abase de todas as meditações que seguirão. Qual é esta conclusão? A achamos noversículo 19, citado acima: "Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos 11
  • 12. foram feitos pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos". OEspírito de Deus busca aqui mostrar-nos como éramos antes e no que nos convertemosdepois. No inicio de nossa vida cristã estamos preocupados com as nossas ações e não com anossa natureza; estamos entristecidos mais com aquilo que temos feito que com aquiloque somos. Imaginamos que se pudéssemos só reparar certas ações, poderíamos serbons cristãos e nos esforçamos, então, para mudar nossa maneira de agir. Mas oresultado não é o que esperamos. Reparamos, desalentados, que o mal não provémsomente das dificuldades exteriores, mas que há, em efeito, uma causa mais grave emnosso interior. Desejamos que o Senhor goste de nós, mas achamos em nós algumacoisa que não deseja gostar dEle. Buscamos de sermos humildes, mas há alguma coisaem nossa natureza que rejeita a humildade. Desejamos amar, mas não há amor em nós.Sorrimos e procuramos aparecer muito amáveis, mas intimamente nos sentimos muitolonge da verdadeira bondade. Porém tentamos corrigir o nosso exterior, mais reparamosquão profundas são as raízes do mal. Então, vamos ao Senhor e lhe dizemos: "Senhor,agora vejo! Não é só que faço o mal; eu mesmo sou malvado". A conclusão de Romanos 5:19 começa a iluminar o nosso coração. Somos pecadores.Somos membros de uma raça de criaturas que, pela sua constituição, são muitodiferentes daquilo que Deus tinha planejado. A causa da queda, uma mudançafundamental si produziu no caráter de Adão, que o converteu num pecador, num homemincapaz, por natureza, de gostar a Deus; o parecido que nós temos com a família não ésimplesmente superficial, senão que abrange inteiramente a nossa natureza interior.Fomos "constituídos pecadores". Como chegamos a isto? "Pela desobediência de um só",diz o apóstolo. Permitam-me ilustrar este fato com uma analogia. O meu nome é Nee. É um nomechinês muito comum. Como eu o recebi? Não fui eu que o escolhi. Não examinei a listade nomes chineses para eleger este. O fato que o meu nome seja Nee não depende emnada de mim, e meu pai era Nee porque meu avô era Nee, etc... Se eu atuo como umNee sou um Nee, e se não atuo como um Nee, igualmente sou um Nee. Se eu virassePresidente da República China serei Nee, e se me tornasse mendigo ainda seria Nee.Nada do que eu faça ou deixe de fazer poderá me converter numa outra coisa que nãoseja Nee. Nós somos pecadores não a causa de nós mesmos, mas por causa de Adão. Eusou pecador não porque peco individualmente, mas porque eu estava em Adão quandoele pecou. Porque desço de Adão, sou uma parte dele. E, ainda mais, não posso fazernada para mudar isso. Nem sequer melhorando a minha conduta posso fazer de mimmesmo outra coisa que não seja uma parte de Adão, ou seja, um pecador. Um dia na China, eu falava sobre isto e fiz esta afirmação: "Nós todos pecamos emAdão". Um homem disse: "Não entendo". Eu tentarei então de me explicar deste modo:"Todos os chineses têm a sua origem em Huang-Ti. Quatro mil anos atrás, entrou emguerra com Si-Iu. Seu inimigo era fortíssimo, porém, Huang-Ti venceu Si-Iu e o matou.Depois disso, Huang-Ti fundou a nação chinesa. Ora, onde nós estaríamos se Huang-Tinão tivesse vencido e matado seu inimigo, mas tivesse sido morto ele mesmo? Ondeestariam vocês?" "Eu não existiria", disse o meu interlocutor. "Ah, não! Huang-Ti podiamorrer sua morte, porém vocês podiam de qualquer jeito viver as suas vidas"."Impossível!", gritou aquele homem. "Se ele tivesse morrido, eu nunca poderia tervivido, porque é dele que eu recebi a vida, de sua descendência". Vemos nós a unidade da vida humana? A nossa vida vem de Adão. Se seu avô fossemorto na idade de três anos, onde estariam vocês? Teriam morrido nele! A sua existênciaestá ligada à dele. Ora, exatamente da mesma maneira a existência de cada um devocês está ligada à de Adão. Ninguém pode dizer: "Eu nunca estive no Éden", porquevirtualmente nós estávamos lá quando Adão cedeu às palavras da serpente. Estamos,então, todos implicados no pecado de Adão, e a causa do nosso nascimento em Adãoherdamos dele todo aquilo em que ele se converteu como conseqüência do seu pecado,ou seja, a natureza de Adão, que é a natureza do pecador. Temos recebido dele a nossaexistência física e, como sua vida se converteu numa vida de pecado, numa naturezapecaminosa, a natureza que nós temos dele é também pecaminosa. Assim, como jádissemos, o mal é a nossa herança, não somente no nosso agir. A menos que possamosmudar o nosso nascimento, não há liberação para nós. Mas é precisamente nesta direçãoque acharemos a solução do nosso problema, porque é exatamente assim que Deus ofez. COMO EM ADÃO, ASSIM EM CRISTO12
  • 13. Em Romanos 5:12-21 não si fala somente de Adão; também se fala do Senhor Jesus."Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte,assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram". Em Adãorecebemos tudo o que é de Adão; em Cristo recebemos tudo o que é de Cristo. As expressões "em Adão" e "em Cristo" são suficientemente entendidas pelos cristãose, a risco de me repetir, gostaria de sublinhar ainda com uma demonstração o significadohereditário e racial da expressão "em Cristo". Esta demonstração encontra-se na cartaaos Hebreus. Vocês se lembram que, na 1° parte desta carta, o autor trata dedemonstrar que Melquisedeque é maior que Levi? Recordarão que o argumento parademonstrar é que o sacerdócio de Cristo é maior que aquele de Arão, que pertencia àtribo de Levi. Ora, para demonstrar isto, o autor deve provar que o sacerdócio deMelquisedeque é maior do que aquele de Levi, pela simples razão que o sacerdócio deCristo é "segundo a ordem de Melquisedeque". É bem notório que o nosso Senhor surgiuda tribo da Judá, acerca da qual Moisés nada disse que concernisse ao sacerdócio. E acoisa é ainda mais evidente se surge, a semelhança de Melquisedeque, um outroSacerdote que foi feito tal não em teor de uma lei de prescrições humanas, mas emvirtude do poder de uma vida indissolúvel; porque lhe é rendido este testemunho: "Tu éssacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque" (Hb 7:17). Ao contrário, osacerdócio de Arão foi, naturalmente, segundo a ordem de Levi. Se o autor pode nosdemonstrar que Melquisedeque, aos olhos de Deus, é maior que Levi, ele conseguiu oseu objetivo e o prova de maneira notável. No capítulo 7 dos Hebreus se diz que Abraão, um dia, voltando da batalha dos Reis(Gênesis 14), ofereceu a décima parte do seu botim a Melquisedeque e foi por eleabençoado. Se Abraão ofereceu a décima parte a Melquisedeque, significa que Levi eramenos importante que Melquisedeque. Por quê? O fato de que Abraão fez a ofertasignifica também que Isaque, "em Abraão", ofereceu a Melquisedeque. Mas se isso eraverdade, então também Jacó "em Abraão", o que, pela sua vez, significa que tambémLevi "em Abraão" fez a sua oferta a Melquisedeque. Ora, sem contradição, o inferior éabençoado pelo superior (Hebreus 7:7). Levi está numa posição inferior à deMelquisedeque, e portanto o sacerdócio de Arão é inferior àquele do Senhor Jesus. Levi,na época da batalha dos Reis, não tinha sido ainda nem sequer concebido, porém jáestava "nos lombos de seu pai (Abraão)" e, por assim dizer, através de Abraão ele"pagou dízimos" (Hebreus 7:9-10). Este é de fato o exato significado do termo "em Cristo". Abraão, como cabeça da família da fé, inclui em si mesmo a inteira família. Quandoele fez a sua oferta a Melquisedeque, a inteira família fez aquela oferta nele. Eles nãoofereceram separadamente como indivíduos, mas estavam nele, portanto ao fazer a suaoferta ele incluiu em si a sua descendência. Assim, nos é apresentada uma novapossibilidade. Em Adão todos estamos perdidos. Através da desobediência de um homemnós fomos todos constituídos pecadores. Por meio dele entrou o pecado e, através dopecado, a morte; e através de toda a raça o pecado reinou, daquele dia em diante, paraa morte. Mas agora um raio de luz foi jogado sobre a cena. Através da obediência de umOutro nós podemos ser constituídos justos. Onde o pecado abundou, a graçasuperabundou, e como o pecado reinou dando a morte, assim pode a graça reinaratravés da justiça, dando a vida eterna por meio de Jesus Cristo nosso Senhor (Rm5:19-21). A nossa desesperança está em Adão; a nossa esperança, em Cristo. O MEIO DIVINO DA LIBERAÇÃO Deus deseja certamente que esta consideração nos conduza à liberação prática dopecado. Paulo o mostra muito claramente quando inicia o capítulo 6 de sua carta aosRomanos com esta pergunta: "Que diremos pois? Permaneceremos no pecado?" todo seuser se rebela diante do pensamento de uma tal possibilidade. "De modo nenhum!",exclama. Como poderia um Deus Santo estar satisfeito de ter filhos impuros eencadeados ao pecado? Assim, "como viveremos ainda nele (no pecado)?" (Rm 6:1-2).Deus tem, então, providenciado um meio poderoso e eficaz para liberar-nos do domíniodo pecado. Mas é esse o nosso problema; nascemos pecadores, como podemos eliminara nossa herança de pecado? Se somos nascidos em Adão, como poderemos sair deAdão? Deixem-me dizê-lo em seguida, o sangue de Cristo não pode nos fazer sair deAdão. Solo nos resta um único meio. Já que entramos na raça de Adão através donascimento, só poderemos sair através da morte. Para pôr fim a nossa naturezapecaminosa é necessário pôr fim a nossa vida. A escravidão do pecado veio pelonascimento; a liberação do pecado vem com a morte —e é esse precisamente o meio de 13
  • 14. liberação que Deus dispus. A morte é o segredo da liberação. "Nós, que estamos mortospara o pecado..." (Rm 6:1). Mas como podemos morrer? Muitos de nós, talvez, temos realizado enormes esforçospara livrar-nos deste estado de pecado, só para achá-lo ainda mas tenaz. Qual será,então, a saída? Não certamente tratando de matar-se, senão somente com oreconhecimento de que Deus tem resolvido o nosso problema "em Cristo". Isto éretomado na declaração sucessiva do apóstolo Paulo: "...todos quantos fomos batizadosem Jesus Cristo fomos batizados na sua morte" (Rm 6:3). Todavia se Deus temprovidenciado a nossa morte "em Jesus Cristo", é necessário que nós sejamos "nEle"para que isto seja verdade; e isto parece um problema tão difícil. Como podemos sercolocados "em Cristo"? Também aqui Deus vem em nosso auxílio. De fato, nós nãopossuímos meio algum de assumir a nossa posição em Cristo, porém, e o que é maisimportante, não temos a necessidade de procurar fazê-lo, porque já estamos "emCristo". Isso que nós não podíamos fazer por nós mesmos, Deus tem realizado por nós.Ele nos colocou em Cristo. Lembrem de 1 Coríntios 1:30. Acredito que este seja um dosmais preciosos versículos de todo o Novo Testamento: "Vós sois dele, em Jesus Cristo".Como? Por meio dEle: "...o qual para nós foi feito por Deus" Louvado seja Deus! Não nos deu a preocupação de procurarmos um meio para sermos"em Cristo". Não precisamos predispor a nossa nova posição. Deus o tem feito por nós; enão somente tem predisposto a nossa posição em Cristo, mas também a cumpriu.Estamos já em Cristo; não temos, então, necessidade de esforçar-nos para estar nEle.Este é um fato divino, e foi cumprido. Ora, se isto é verdade, então se seguem algumascoisas. Na demonstração de Hebreus 7, que temos já considerado, vimos que "emAbraão" todo Israel —e portanto Levi, que ainda não tinha nascido— ofereceu o dizimo aMelquisedeque. Não ofereceram separada ou individualmente, mas estavam em Abraãoquando ele ofereceu, e a sua oferta abrangeu toda a sua progênie. Esta, então, é averdadeira figura de nós mesmos "em Cristo". Quando o Senhor Jesus esteve na Cruz,todos nós morremos —não separadamente, porque não tínhamos ainda nascido—, masmorremos nEle porque já éramos nEle. "Um morreu por todos, logo todos morreram" (2Coríntios 5:14). Quando Ele foi crucificado, todos nós fomos crucificados, lá, com Ele.Freqüentemente, quando se predica nas cidades chinesas, é necessário usar exemplosmuito simples para verdades divinas muito profundas. Lembro-me que um dia peguei umlivro, coloquei nele um pedacinho de papel, e disse àquelas pessoas tão símplices:"Agora prestem muita atenção. Pego um pedacinho de papel. Ele tem uma identidadecompletamente diferente da do livro. Neste momento não o necessito, e o guardo dentrodo livro. Agora faço alguma coisa com este livro. O envio para Xangai. Não envio opedacinho de papel, porém o pedacinho de papel foi colocado dentro do livro. O queacontece com o pedacinho de papel? Poderá o livro ir para Xangai e o pedacinho de papelque está dentro dele ficar aqui? Pode o pedacinho de papel levar uma sorte diferente àdo livro, se está dentro dele? Não! Aonde vá o livro, lá irá igualmente o pedacinho depapel. Se deixar cair o livro no rio, também o pedacinho de papel cairá nele, e se euvolto pegá-lo rapidamente, salvarei também o pedacinho de papel, porque ele estádentro do livro. Assim, "vós sois dele (de Deus), em Jesus Cristo". O Senhor Deus mesmo nos colocou em Cristo, e o que Ele fez a Jesus Cristo, Ele o fezà humanidade toda. O nosso destino está ligado ao dele. Aquilo que Ele atravessou, nóso atravessamos também, porque "estar em Cristo" quer dizer estar identificados com Eleem sua morte e ressurreição. Ele foi crucificado; então, o que será de nós? Pediremos aDeus para que nos crucifique a nós também? Nunca! Já que Cristo foi crucificado, todosnós fomos já crucificados nEle; e como a sua crucifixão já aconteceu, a nossa não podeainda estar no futuro. Duvido que vocês possam achar no Novo Testamento um únicotexto no qual se diga que a nossa crucifixão ainda deve acontecer. Todas as referências a ela estão na forma "aoristo", do verbo grego que indica aquiloque aconteceu "uma vez para sempre", aquilo que aconteceu "eternamente no passado"(veja Rm 6:6; Gl 2:20; 5:24; 6:14). E como ninguém pode matar-se por meio da Cruz,porque é materialmente impossível, assim também sob o ponto de vista espiritual, Deusnão nos pede para nos crucificar a nós mesmos. Já fomos crucificados quando Cristo foicrucificado, porque Deus nos colocou nEle. O fato de que estejamos mortos em Cristonão é simplesmente uma posição doutrinária, mas uma realidade eterna e inegável. O QUE A SUA MORTE E RESSURREIÇÃO REPRESENTAM E ABRANGEM O Senhor Jesus, quando morreu na Cruz, verteu seu sangue; doava assim a sua vidasem pecado para expiar os nossos pecados e satisfazer a justiça e santidade de Deus.14
  • 15. somente o Filho de Deus podia cumprir esta obra. Nenhum homem pode ter parte nela.As Escrituras nunca tem falado que nós tenhamos vertido o nosso sangue com Cristo. Emsua obra expiatória diante de Deus, foi sozinho; mais ninguém poderia participar. Mas oSenhor não morreu somente para verter o seu sangue; Ele morreu para que nóspudéssemos morrer. Ele morreu como o nosso representante. Em sua morte, Ele abraçatodos nós, vocês e eu. Adotamos amiúde os termos "justificação" e "identificação" para descrever estes doisaspectos da morte de Cristo. Na maior parte dos casos, a palavra "identificação" é exata. Mas "identificação"poderia fazer pensar que a iniciativa seja nossa: que seja eu que me esforço emidentificar-me com o Senhor. Reconheço que o termo é apropriado, mas deveria seradotado mais além. É melhor começar pelo fato que o Senhor me incluiu em sua morte.É a morte inclusiva do Senhor o que me dá o modo de me identificar; não sou eu que meidentifico por ser incluído em sua morte. O que importa é que Deus tem me incluído emCristo. Isto é uma coisa que Deus realizou. Por esta razão, aquelas duas palavras doNovo Testamento, "em Cristo", são sempre tão preciosas ao meu coração. A morte doSenhor Jesus nos abraça, nos liga. A ressurreição do Senhor Jesus é igualmenteinclusiva. Nós paramos no primeiro capítulo da primeira epístola aos Coríntios, paraestabelecer o fato de que estamos "em Jesus Cristo". Agora iremos até o fim dessamesma epístola, para ver mais profundamente o que significa isto. Em 1 Coríntios15:45-47, dois nomes ou títulos são adotados para indicar o Senhor Jesus. Ele échamado "o último Adão" e ainda "o segundo homem". As Escrituras não falam dElecomo do segundo Adão, mas como "o último Adão"; elas não falam nunca dEle como doúltimo homem, mas como "o segundo homem". É preciso sublinhar esta distinção,porque ela confirma uma cada de grande valore. Como último Adão, Cristo abrange em sitoda a humanidade; como segundo homem se converte na cabeça de uma nova raça.Achamos aqui, então, uma dupla união, uma relativa à sua morte e a outra à suaressurreição. Em primeiro lugar, a sua união com a raça como "o último Adão" iniciou-sehistoricamente em Belém para terminar na Cruz e no túmulo. Por ela Ele recolheu em simesmo tudo o que havia em Adão para levá-lo a juízo e à morte. Em segundo lugar, anossa união com Ele como "segundo homem" inicia da ressurreição para terminar naeternidade —ou seja, para não acabar nunca—, porque tendo em sua morte deixado delado o primeiro homem, no qual o desígnio de Deus não se cumpriu, Ele ressurgiu comoCabeça de uma nova raça de homens, na qual aquele desígnio será finalmenteplenamente realizado. Assim, quando o Senhor Jesus foi crucificado na Cruz, o foi como oúltimo Adão. Tudo o que estava no primeiro Adão foi recolhido e destruído com Ele.Também nós. Como último Adão, Ele cancelou a velha raça; e como segundo homem,introduziu a nova raça. Em sua ressurreição Ele avança como o segundo homem, etambém aqui nós estamos compreendidos. "Porque, se fomos plantados juntamente comele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição" (Rm 6:5). Nós morremos nEle quando era o último Adão; vivemos nEle agora que é o segundohomem. A Cruz é assim o poder de Deus que nos faz passar de Adão a Cristo. CAPÍTULO 3 – O CAMINHO PARA IR ALÉM: SABER A nossa velha vida terminou sobre a Cruz;a nossa nova vida começa na Ressurreição."Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eisque tudo se fez novo" (2 Coríntios 5:17). A Cruz dá um fim à primeira criação, e damorte surge uma nova criação em Cristo, o segundo homem. Se formos "em Adão", tudoaquilo que há em Adão nos é forçosamente transmitido; tudo se faz nossoinvoluntariamente, porque não devemos fazer nada para nos apropriarmos disso. Nãotemos necessidade de tomar uma decisão para irar-nos, ou para cometer qualquer outropecado, porque tudo nos chega espontaneamente, queiramos ou não. Do mesmo jeito,se formos "em Cristo", tudo aquilo que é "em Cristo" é nosso pela graça, sem esforçoalgum de nossa parte, mas sobre a base da simples fé. Porém dizer que tudo o que precisamos é nosso "em Cristo" por pura graça, ainda queseja verdade, pode parecer impossível de se atuar na prática. Como acontece isso navida? Como pode converter-se em real em nossa própria experiência? Estudando os capítulos 6, 7 e 8 da epístola aos Romanos, veremos que existem quatrocondições necessárias para uma vida cristã normal. Elas são: 1) Saber; 2) Considerar; 3)Confiar em Deus; 4) Caminhar segundo o Espírito; na ordem em que são apresentadas. 15
  • 16. Se nós desejamos viver aquela vida, deveremos aceitar e submeter-nos a estas quatrocondições, não cumprir somente uma ou duas, ou três, senão todas, as quatro. Ao passoque estudemos cada uma delas, confiemo-nos no Senhor para que Ele ilumine a nossainteligência com o seu Santo Espírito e peçamos agora o Seu auxílio para realizar oprimeiro grande passo, examinando a primeira condição: Saber. A NOSSA MORTE COM CRISTO É UM FATO HISTÓRICO O passo que está agora diante de nós está em Romanos 6:1-11: "Que diremos pois?Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, queestamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? Ou não sabeis que todosquantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?..." Nestesversículos fica claramente demonstrado que em sua morte o Senhor Jesus foi o nossorepresentante e que incluiu todos nós. Em sua morte todos nós morremos. Ninguémpode progredir espiritualmente se não compreende isto. Como não poderemos serjustificados se não vemos que Ele carregou os nossos pecados na Cruz, assim tambémnão poderemos realizar a santificação se não temos assumido que nós morremos na Cruzcom Ele. Não somente os nossos pecados foram colocados sobre Ele, mas nós mesmosfomos colocados dentro dEle. Como vocês receberam o perdão? Porque vocês compreenderam que o Senhor Jesusmorreu como seu substituto, e que levou sobre Ele os seus pecados e que o Seu sanguefoi vertido para lavar as suas iniqüidades. Quando viram que os seus pecados foramcancelados sobre a Cruz, o que fizeram? Dizeram: "Senhor Jesus, te suplico, vem morrerpelos meus pecados?" Não, não Lhe pediram nada; vocês simplesmente agradeceram.Não Lhe pediram de morrer por vocês, porque entenderam que Ele já o tinha feito. Ora, se é verdade que vocês já receberam o perdão, é também verdade que foramliberados. A obra foi cumprida. Não é necessário mais pedir, mas somente louvar. Deusnos colocou a todos em Cristo para que, mediante sua crucifixão, nós fossemoscrucificados com Ele. Não temos, então, mais necessidade de pedir: "Eu sou uma criatura tão malvada,Senhor, te rogo, crucifica-me". Isto não seria justo. Vocês não pediram, antes, pelosseus pecados; por que pedir, agora, por vocês mesmos? Os seus pecados foramcancelados pelo sangue de Cristo, e a sua natureza foi renovada com a sua Cruz. É umfato cumprido. Tudo quanto resta é louvar ao Senhor, porque quando Cristo morreuvocês também morreram; morreram nEle. Louvem-No por isso tudo, e vivam em sua luz!"Então creram nas suas palavras, e cantaram os seus louvores" (Salmo 106:12). Acreditam na morte de Cristo? Naturalmente que vocês acreditam. Mas a mesmaSanta Escritura que nos diz que Ele morreu por nós, diz também que nós morremos comEle. Voltemos ler: "Cristo morreu por nós" (Rm 5:8). Esta primeira asserção ésuficientemente clara; as seguintes o serão menos? "O nosso homem velho foi com elecrucificado" (Rm 6:6). "Já morremos com Cristo" (Rm 6:8). Quando fomos crucificados com Ele? Qual é a data da crucifixão do nosso velhohomem? Será amanhã? Foi ontem? Ou talvez hoje? Para responder estas perguntastalvez seja útil ler a declaração de Paulo sob uma outra forma: "Cristo foi crucificado com(ou seja, ao mesmo tempo) o nosso velho homem". Alguns de vocês chegaram aquijunto com alguém. Vocês fizeram o caminho juntos até aqui. Podem dizer: "O meu amigoveio aqui comigo", mas também poderiam dizer: "Eu vim aqui com o meu amigo", osignificado é o mesmo. Se um de vocês tivesse chegado aqui três dias atrás e o outrotivesse chegado somente hoje, vocês já não poderiam falar assim; porém, como vocêschegaram juntos, podem expressar o fato de um modo ou de outro, sendo os doisigualmente verdadeiros, porque as duas afirmações expressam a mesma realidade.Assim também no fato histórico podemos dizer, com o máximo respeito, porém com amesma exatidão: "Eu fui crucificado quando Cristo foi crucificado", ou então "Cristo foicrucificado quando eu fui crucificado", porque não são dois acontecimentos separados nahistória, mas um só 2. Cristo foi crucificado! Pode ser então de outra forma para mim? Ese Ele foi crucificado quase dois mil anos atrás, e eu com Ele, posso dizer que a minhacrucifixão acontecerá amanhã? A sua pode ser no passado e a minha no presente ou nofuturo? Que o Senhor seja louvado! Quando Ele morria sobre a Cruz, eu morri com Ele.Não somente Ele morria no meu lugar, mas me levou com Ele sobre a Cruz, a fim que,enquanto Ele morria, eu mesmo morresse com Ele. E se eu acredito na morte do Senhor 2 A expressão "com Ele" de Rm 6:6 inclui, naturalmente, um sentido doutrinário e um sentidohistórico (ou temporal). Só no sentido histórico a afirmação é reversível (W.N.).16
  • 17. Jesus, posso crer na minha própria morte com a mesma certeza com a que acredito nadEle. Porque vocês acreditam que o Senhor morreu? Sobre que coisa baseiam a sua fé? Eporque sentem que morreu? Não! Vocês nunca sentiram isso. Vocês acreditam porque aPalavra de Deus diz isso. Quando o Senhor Jesus foi crucificado, dois malfeitores foramcrucificados ao mesmo tempo. Vocês não têm a mínima dúvida que eles tenham sidocrucificados com Ele, porque as Escrituras o afirmam claramente. Acreditam na morte doSenhor Jesus e acreditam na morte dos dois ladrões com Ele. Ora, o que pensam da suaprópria morte? A sua crucifixão é mais do que a deles. Eles foram crucificados junto como Senhor, mas sobre cruzes diferentes, enquanto vocês estavam nEle que Ele morreu.Como podem sabê-lo? Podem saber porque Deus o disse, e esta é uma razão suficiente.Isso não depende dos seus sentimentos. Se sentem que Cristo morreu, Ele morreu; e senão sentem que Ele tenha morrido, ainda assim Ele morreu; e se não sentem de estarmortos com Ele, ainda assim vocês estão igualmente mortos com Ele. Estes são fatos deordem divina: que Cristo morreu é um fato; que os dois malfeitores morreram, é umfato; e que vocês morreram e também um fato. Permitam-me dizer: Vocês estão mortos!Acabou para vocês. Estão fora. O "eu" que odeiam está sobre a Cruz com Cristo. E"aquele que está morto está justificado do pecado" (Rm 6:7). Este é o Evangelho para oscrentes. Não chegaremos nunca a realizar a nossa crucifixão com a nossa vontade, nempelos nossos esforços, mas somente aceitando aquilo que o Senhor Jesus cumpriu sobrea Cruz. É necessário que os nossos olhos sejam abertos sobre a obra cumprida sobre oCalvário. Talvez, algum de vocês, antes da conversão, tenha tentado obter a salvaçãopor si mesmo. Liam a Bíblia, pregavam, iam à Igreja, davam esmolas. Depois, um dia, osseus olhos foram abertos e viram que a salvação perfeita já tinha sido conquistada paravocês sobre a Cruz. A aceitaram simplesmente e agradeceram a Deus, e a paz e o gozoinundaram seus corações. E agora a boa notícia é que a sua santificação foi feita possívelexatamente sobre as mesmas bases. É-vos oferecida a liberação do pecado com omesmo dom de graça com o qual receberam o perdão dos seus pecados. Porque a viaque Deus segue para liberar-nos do pecado é completamente diferente da via do homem.A via do homem consiste em suprimir o pecado, tentando vencê-lo; a via de Deusconsiste em pôr aparte o pecador. Muitos cristãos se lamentam de suas debilidades,pensando que se fossem mais fortes tudo daria certo. A idéia que não podemos viveruma vida santa a causa de nossas debilidades, e que mais alguma coisa nos é exigida,conduz todo mundo naturalmente ao falso conceito de um meio de liberação. Seestivermos preocupados pela força do pecado que nos domina e pela nossa incapacidadede combatê-lo, concluiremos logicamente que para vencê-lo deveremos ter mais força."Se somente eu fosse mais forte...", dissemos, "poderia dominar os meus acessos decólera", e pedimos ao Senhor para fortificar-nos, a fim que possamos controlar a nossanatureza. Mas este é um erro grave; isto não é cristianismo. Os meios pelos quais Deus noslibera do pecado não consistem no fazer-nos mais fortes, senão no fazer-nos mais fracos.É certamente um modo bastante singular para nos conduzir à vitória, vocês dirão, porémé este o meio de que Deus se serve. O Senhor nos arrancou do poder do pecado não fortificando o nosso velho homem,mas crucificando-o; não o ajudando a conseguir qualquer coisa, mas colocando-o fora decombate. Talvez vocês tenham tentado durante anos, em vão, exercer um controle sobrevocês mesmos, e talvez esta seja ainda hoje a sua experiência, mas quando vejam averdade reconhecerão que são completamente incapazes de fazer qualquer coisa e que,afastando vocês, Deus cumpriu tudo, Ele mesmo no seu Filho. Esta revelação põe fim àslutas e a todos os esforços humanos. O PRIMEIRO PASSO: "SABENDO QUE..." A verdadeira vida cristã deve começar com o "saber" de forma clara e definitiva, o quenão consiste em ter simplesmente uma certa vaga consciência da verdade, nem nacompreensão de qualquer doutrina importante. Não si trata de um conhecimentointelectual, mas é preciso que os olhos de nosso coração se abram para ver o que temosem Cristo. Como sabem que os seus pecados foram perdoados? É porque o seu pastor vos disse?Não, vocês sabem. Semelhante conhecimento nos vem somente por revelação divina.Sem dúvida, o fato do perdão dos pecados encontra-se na Bíblia, mas para que aEscritura se convertesse para vocês na palavra viva de Deus, Ele vos tem dado "em seuconhecimento o espírito de sabedoria e de revelação" (Efésios 1:17). O que vocês 17
  • 18. precisavam era conhecer Cristo daquele modo, e sempre é assim. Chega um momento, arespeito de qualquer novo conhecimento de Cristo, que quando o "conhecem" em seuscorações, o "vêem" em seu espírito. Uma luz brilhou dentro de vocês e estão plenamentepersuadidos desse fato. Aquilo que é verdade no que respeita ao perdão dos pecados,não é menos verdadeiro quanto à liberação do pecado. Uma vez que a luz de Deusesclareceu seu coração, vocês se vêem "em Cristo". Não é porque qualquer um tenhafalado para vocês, nem simplesmente porque Romanos 6 o diz. Há alguma coisa maisprofunda. Vocês sabem porque o Espírito Santo o revelou a vocês. Podem até não senti-lo ou não compreendê-lo, porém o sabem, porque o têm visto. Uma vez que vocêstenham se visto em Cristo, nada poderá abalar a sua certeza de semelhante realidadeabençoada. Se pedirem a diversos crentes que tenham começado a viver a verdadeira vida cristã,que lhes falem das experiências que os têm guiado, alguns falarão de uma experiênciaespecial, e os outros, de uma outra. Cada um falará o caminho particular que terárecorrido e citará um passo das Escrituras para apoiar as suas afirmações; a pesar disso,muitos crentes apóiam-se em suas experiências pessoais e em seus fragmentos favoritospara combater outros crentes. O fato é que, se os crentes podem alcançar uma vidacristã mais profunda por caminhos diferentes, nós não devemos considerar asexperiências ou as doutrinas que eles sublinham como reciprocamente exclusivas senão,antes bem, como complementárias. Uma coisa é verdade: todas as experiênciasverdadeiras e preciosas aos olhos de Deus devem nascer de uma nova descoberta dosignificado da pessoa e da obra do Senhor Jesus. Esta é a base decisiva e segura. Aqui neste passo, o apóstolo faz depender todas as coisas deste descobrimento."Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo dopecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado" (Rm 6:6). A REVELAÇÃO DIVINA É A BASE ESSENCIAL DA CONSCIÊNCIA O primeiro passo que, então, deveremos dar, será pedir ao Senhor um conhecimentoatravés da revelação —não uma revelação de nós mesmos, mas da obra perfeita doSenhor Jesus na Cruz-. Hudson Taylor, o fundador da missão na China (China InlandMission) conheceu a verdadeira vida cristã, e chegou a ela na seguinte maneira. Vocêslembrarão como ele fala do problema que o atormentou por longo tempo, de como "viverem Cristo", como transferir a si mesmo o suco da videira que há nEle. Porque sabia quea vida de Cristo devia se expandir através dele, porém sentia que não a possuía ainda; eentão ele viu claramente que devia estar "em Cristo". "Compreendi", escreveu a sua irmãem 1869 desde Chinkiang, "que se somente tivesse podido demorar em Cristo, tudo teriadado certo, mas não podia". Mais ele se esforçava para entrar na vida verdadeira, mais ele se sentia deslizar fora,por assim dizer, até que um dia a luz brilhou em seu coração, a revelação aconteceu eele viu. Assim ele descreve este fato: "Penso que o segredo esteja aqui: não como eupossa fazer para trazer o suco da videira e transferi-lo em mim, ma em me lembrar queJesus é a videira, a raiz, o tronco, os galhos, os sarmentos, as folhas, as flores, o fruto,ou seja, tudo". Então, citando as palavras de um amigo que o havia ajudado, continua assim: "Nãodevo fazer de mim um galho. O Senhor Jesus me disse que eu sou um galho. Eu souuma parte dEle, e só devo acreditar e agir em conseqüência. Fazia muito tempo que eutinha visto isto na Bíblia, mas só agora o creio como uma verdade viva". Acontece como se alguma coisa que sempre foi verdadeira, de improviso se convertaem tal de um modo novo, para ele pessoalmente, e assim escrevia ainda para a suairmã: "Não sei até que ponto conseguirei me fazer compreender acerca deste tema,porque não há nada de novo, nem de estranho, nem de maravilhoso —e ainda assimtudo é novo! Numa palavra: "então eu era cego, e agora eu vejo...". Eu estou morto esepultado com Cristo —é verdade, e sou também ressurreto e ascendido... Deus meconsidera assim e me pede para me considerar assim... Oh! A alegria de conhecer estaverdade. Eu peço para que os olhos de tua inteligência sejam iluminados, e tu possasconhecer e gostar as riquezas que nos são liberalmente doadas em Cristo" 3 Oh, que alegria vermos que estamos em Cristo! Imaginem como pode ser cômicotentar de entrar num lugar onde já estamos. Pensem que absurdo seria pedir parasermos introduzidos. Se reconhecêssemos que já estamos dentro, não faríamos esforçoalgum para entrarmos. Se temos uma revelação mais profunda, as nossas orações serão 3 Estas citações foram extraídas de "Hudson Taylor e a Missão interna na China".18
  • 19. mais louvores que pedidos. Pedimos muito para nós mesmos, porque estamos cegos arespeito do que Deus tem realizado para nós. Lembro-me de uma conversação que tive um dia em Xangai com um irmão que estavamuito preocupado com o seu estado espiritual. Ele me dizia: "Existem tantos crentes quetêm uma vida bela e santa. Eu tenho vergonha de mim mesmo. Me chamo cristão, masquando me confronto com os outros, sinto que não o sou para nada. Gostaria conheceresta vida crucificada, esta vida de ressurreição, mas não a conheço e não vejo meioalgum para chegar até ela". Havia um outro irmão presente e os dois nos entretivemospor mais duas horas com este homem, tentando lhe fazer compreender que não poderiater obtido nada fora de Cristo, mas em vão. O nosso amigo disse: "A melhor coisa queum homem pode fazer é orar". "Mas se Deus já nos tem dado tudo, o que podenecessitar pedir?", perguntamos. "Mas não tem me dado tudo", respondeu o homem,"porque eu continuo a me irar e a cometer toda espécie de erros; e por isso que devoorar mais". "E assim", dissemos nós, "você recebeu o que pediu?" "Lamento dizer, porém, que emverdade não tenho recebido nada de nada", replicou ele. Nos esforçamos, então, parafazê-lo compreender que, não tendo absolutamente a certeza de sua justificação, nãopodia fazer mais nada, nem sequer pela sua santificação. Neste ponto, apareceu um terceiro irmão que o Senhor usava muito. Sobre a mesahavia uma garrafa térmica; o irmão a pegou e lhe perguntou: "O que é isto?" "Umtermo". "Bem, suponha por um instante que esta garrafa possa orar, e então comece apedir: —Senhor, eu desejo tanto ser um termo. Você não poderia fazer de mim umagarrafa térmica? Senhor, faze-me a graça de eu me converter num termo. Faze-o, eu teimploro! —, o que você diria disto?" "Acredito que nem sequer uma garrafa térmica possa ser tão louca", respondeu onosso amigo, "é uma bobagem orar assim: ela já é um termo!" "É isso exatamente o quevocê está fazendo", respondeu-lhe então o nosso irmão. "Deus colocou você em Cristo,já faz tempo. Não pode, então, dizer hoje: Quero morrer; quero ser crucificado; queroter a vida e a ressurreição. O Senhor olha para você e simplesmente te diz: Você já estámorto! Você já tem nova vida! toda a maneira de você orar é tão absurda quanto à dagarrafa térmica. Você já não precisa pedir ao Senhor para que faça alguma coisa porvocê; só deve pedir ter os olhos abertos para ver que Ele cumpriu tudo". Este é o ponto essencial. Não precisamos esforçar-nos para morrer, não necessitamosesperar pela nossa morte, nós já estamos mortos. Temos somente necessidade dereconhecer o que o Senhor tem feito por nós, e louvá-lo por isto. A luz iluminou aquelehomem, que com lágrimas nos olhos disse: "Ah, eu te louvo por aquilo que fizeste pormim, porque já me colocaste em Cristo! Tudo o que é dEle é meu!" A revelação veio epela fé pode ser firmado; se vocês tivessem encontrado esse irmão mais tarde, teriamconstatado a mudança que tinha ocorrido nele! A CRUZ NA RAIZ DO NOSSO PROBLEMA Permitam-me recordá-lhes ainda a natureza fundamental da obra cumprida peloSenhor sobre a Cruz. Acredito que não possa insistir demasiadamente sobre este ponto,porque é necessário que o examinemos. Suponhamos que o governo de seu país quisesse resolver radicalmente o problema doálcool e decidir a aplicação de proibições em todo o país; como poderá ser aplicada, naprática, uma decisão semelhante? Que ajuda poderemos aportar nós? Se fossemosprocurando, por todo o país, em todas partes, nas lojas, todas as garrafas de vinho, decerveja ou de licores, para seqüestrá-las e destruí-las, isto resolveria o problema?Certamente não. Poderemos limpar o país de cada gota de álcool, mas por detrás daquelas garrafas debebidas alcoólicas estão as fábricas que as produzem, e se nós destruímos só as garrafase deixamos as fábricas, a produção continuará, e não haverá uma solução definitiva parao problema. Não, as fábricas, os bares e as destilarias devem ser fechados em todo opaís para pôr fim, de uma vez para sempre, a este problema do alcoolismo. Nós somos a fábrica; as nossas ações são os produtos. O sangue de Cristo temregularizado o problema dos produtos, vale dizer, dos nossos pecados. A questão daquiloque temos feito fica assim resolvida, mas Deus parará por aqui? O que há da questão doque somos? Somos nós que temos produzido os nossos pecados. Foram afastados, mas oque acontecerá conosco? Acreditam vocês que o Senhor queira nos purificar de todos osnossos pecados e deixe em nossas mãos o assunto de livrar-nos desta fábrica quesomos, produtora de pecados? Acreditam que Ele deseje separar os produtos, deixando a 19
  • 20. nós a responsabilidade da fonte da produção? Fazer estas perguntas significa járesponder a elas. Deus não tem realizado o trabalho pela metade, abandonando o resto.Não, Ele suspendeu os produtos, e também destruiu a fonte de onde provinham. A obra cumprida por Cristo chegou realmente até a raiz do nosso problema e oresolveu. Para o Senhor não existem meios termos. Ele assumiu provisões completaspara que o domínio do pecado fosse completamente destruído. "Sabendo isto", dissePaulo, "que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecadoseja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado" (Rm 6:6). "Sabendo isto!" Sim,mas... Vocês sabem mesmo? "Ou não sabeis?" (Rm 6:3). Que o Senhor, em sua graça,abra os nossos olhos! CAPÍTULO 4 – O CAMINHO PARA IR ALÉM: FAZER DE CONTA DE ESTAR MORTOS Toquemos agora um tema sobre o qual existe uma certa confusão de pensamentoentre os filhos de Deus. Vamos deter-nos sobre tudo nas palavras de Romanos 6:6: "Sabendo isto, que onosso homem velho foi com ele crucificado". O tempo deste verbo é dos mais preciosos, porque localiza o fato exatamente nopassado. Este fato é definitivo, cumprido de uma vez por todas. A coisa foi feita e nãopode ser anulada. O nosso velho homem foi crucificado de uma vez por todas, e nuncamais pode ser tirado da Cruz. Eis aqui o que devemos saber. Quando sabemos isto, o que mais temos a fazer? Voltemos a ler novamente nossotexto. O seguinte passo encontra-se no versículo 11: "Assim também vós considerai-voscomo mortos para o pecado". Estas palavras são claramente a continuação natural doversículo 6. Vamos lê-las de novo juntos: "Sabendo isto, que o nosso homem velho foicom ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamosmais ao pecado (...) Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, masvivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor". Esta é a ordem natural. Uma vez quesabemos que o nosso velho homem foi crucificado em Cristo, o passo seguinte éconsiderá-lo como morto. Apesar disso, apresentando a verdade de nossa união comCristo, demasiadas vezes foi colocado o acento sobre este segundo ponto —considerar-nos como mortos—, como se fosse o ponto de partida, enquanto a ênfase deveria melhorser colocada sobre o "saber-nos mortos". A Palavra de Deus mostra claramente que"saber" deve preceder a "reconhecer-se". "Sabendo que... façam de conta que..." o fatode "considerar-se" deve estar baseado sobre uma revelação divina, de outra forma a fénão terá fundamento sobre o que se apoiar. Quando sabemos, então espontaneamentenos consideramos como mortos. Assim, tratando este argumento, não será preciso remarcar demasiadamente aexigência de considerar-nos mortos. Fomos demasiado tentados a nos considerar semantes saber. Se não temos recebido primeiro uma revelação do fato pelo Espírito etentamos considerar-nos, nos veremos arrastados em todo tipo de dificuldade. Quandochegue a tentação, começaremos a repetir febrilmente: "Eu estou morto, estou morto,estou morto!" Mas pelo mesmo esforço acabaremos por irritar-nos; e então dizemos:"Isto não serve de nada. Romanos 6:11 não pode ser realizado". E devemos admitir queo versículo 11 não pode ser compreendido sem o versículo 6. Chegaremos, então, à seguinte conclusão: até não sabermos que o estar mortos comCristo é um fato, mais nos esforçaremos para nos considerarmos assim, e mais intensoserá o conflito, e mais segura a queda. Durante anos após a minha conversão eu fui ensinado a me considerar como mortoem Cristo. Eu tentei fazê-lo desde 1920 até 1927. Mais me reconhecia morto para opecado, mais me manifestava vivo. Não podia simplesmente acreditar-me morto, e nãopodia procurar a morte. Quando procurei ajuda dos outros, me disseram para lerRomanos 6:11, e mais eu lia esse versículo, tentando aplicá-lo a mim mesmo, mais amorte parecia se distanciar; eu não conseguir chegar. Estava intensamente desejoso deobedecer àquele ensino, de considerar-me morto, mas não conseguia compreender porque não podia conseguir. Devo confessar que este pensamento atormentou-me porlongos meses. Disse ao Senhor: "Se eu não consigo compreender claramente, se nãoconsigo chegar a ver esta verdade fundamental, não farei mais nada. Não maispredicarei; não poderei mais te servir; devo, antes que nada, ser iluminado sobre estascoisas".20
  • 21. Durante meses continuei a minha busca, às vezes jejuei, mas sem nenhum resultado. Lembro-me de uma manhã: foi uma manhã tão real que nunca poderei esquecê-la. Euestava em meu escritório, sentado em minha escrivaninha, lendo a Palavra de Deus eorando, e disse: "Senhor, abri os meus olhos!" Então, num raio de luz, vi. Vi a minhaunião com Cristo. Vi que eu estava nEle e que quando Ele morreu, também eu morri. Vique a questão da minha morte era um fato do passado e não do futuro, e que eu tinhamorrido verdadeiramente como Ele, porque eu estava nEle quando Ele morreu. A luztinha finalmente esclarecido as minhas trevas e mi iluminava completamente. Estagrande revelação inundou-me de tal gozo que pulei da minha cadeira e gritei: "O Senhorseja louvado, eu estou morto!" Desci as escadas à carreira e me deparei com um dosmeus irmãos que ajudavam na cozinha; eu o peguei do braço e lhe disse: "Irmão, vocêsabe que eu estou morto?" Devo admitir que a sua expressão foi de estupefação. "O quevocê quer dizer?", perguntou-me. Continuei: "Você não sabe que Cristo morreu? Nãosabe que eu morri com Ele? Não sabe que a minha morte é um fato tão verdadeiroquanto à dEle?" Oh, eu estava tão seguro! Tinha vontade de correr por todas as ruas deXangai e proclamar a todos a minha nova descoberta. Daquele dia, nunca mais duvidei,nem por um único instante, da importância definitiva destas palavras: "Já estoucrucificado com Cristo" (Gl 2:20). Não quero dizer que não devamos pô-las em prática. Existem certas aplicações destamorte que consideraremos por um instante, mas temos aqui, antes que qualquer coisa, ofundamento. Eu fui crucificado: este é um fato cumprido. Qual é, então, o segredo que nos conduz a considerar-nos como mortos? Para dizê-lonuma palavra, é uma revelação. É uma revelação do próprio Deus. "Não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus" (Mt 16:17);Ef 1:17-18). É necessário que os nossos olhos se abram a esta realidade da nossa uniãocom Cristo; isto é mais que conhecê-la como uma doutrina. Uma semelhante revelaçãonão tem nada de vago ou indefinido. Quase todos nós podemos nos lembrar do dia emque vimos claramente que Cristo morreu por nós; e deveremos estar igualmente segurosdo momento no qual vimos que estamos mortos com Cristo. Isto não deve ser nebulosoou incerto, mas bem preciso, porque é sobre esta base que avançaremos. Não é meconsiderando morto que eu o serei. Mas é porque já estou morto —porque vejo o queDeus tem feito de mim em Cristo— que posso mi considerar morto. Este é o modo justode considerar-se. Não se trata de fazê-lo para chegar à morte, mas considerar-se mortopara avançarmos. O SEGUNDO PASSO: ASSIM, VOCÊS CONSIDEREM-SE COMO... O que significa "considerar-se como"? "Considerar-se" significa, em grego, levar ascontas, fazer a contabilidade. Fazer contas é a única coisa no mundo que nós sereshumanos podemos fazer com precisão. Um pintor pinta uma paisagem. Pode fazê-lo comprecisão matemática? O historiador pode garantir a exatidão absoluta de um tema, ou, ogeógrafo, a fidelidade precisa de um mapa? Podem chegar a fazer as melhoresaproximações. Também na conversação de todos os dias, quando tentamos contar umincidente com a melhor intenção de honestidade e fidelidade, somos incapazes de narrarcom perfeita exatidão. É tão fácil exagerar ou diminuir os fatos, dizer uma palavra a maisou uma a menos. O que pode fazer o homem que seja essencialmente digno deconfiança? A aritmética! Nela não há lugar para erros. Uma cadeira mais uma cadeirasomam duas cadeiras. Isto é verdade tanto em Londres como em São Paulo. Emboravocês vão para o Oeste ou para o Leste, será sempre a mesma coisa. Em tudo o mundo, em todas as épocas, um mais um são dois. Um e um são dois noscéus, sobre a terra e no inferno. Por que Deus disse para nos considerarmos mortos? Porque estamos mortos.Prossigamos a analogia com a contabilidade. Suponhamos que eu tenha R$ 800 no bolso,o que escreverei no meu livro de contas? Posso escrever R$ 700 ou R$ 900? Não!Deverei escrever no meu livro aquilo que realmente tenho no bolso. Levar acontabilidade significa reconhecer os fatos, não é fantasia. Assim, porque eu realmentemorri, Deus me diz para me considerar morto. Deus não poderia pedir-me paraconsiderar-me morto se eu estivesse ainda vivo. Para uma similar ginástica mental, apalavra "considerar-se" não seria apropriada; deveria, melhor, dizer: "não seconsiderar". Considerar-se não é uma forma de pretensão. Isso não significa que se eutenho somente R$ 600 no bolso, reportando erroneamente R$ 700 no meu livro decontabilidade, conseguirei de um modo ou outro compensar a diferença. Para nada! Senão tenho mais que R$ 600, e trato de me persuadir repetindo: "Tenho R$ 700; tenho R$ 21
  • 22. 700; tenho R$ 700", vocês acreditam que este esforço da mente conseguirá aumentar asoma que tenho no bolso? De jeito nenhum! Nenhum esforço de persuasão poderá trocar R$ 600 em R$ 700. Deforma similar, não pode registrar-se falso e fazê-lo aparecer como verdadeiro. Mas, se daoutra parte, é um fato que eu tenho R$ 700 no bolso, posso, com absoluta certeza,registrar R$ 700 no meu livro. Deus nos pede para nos considerarmos mortos, nãoporque morramos se nos consideramos assim, senão porque já estamos realmentemortos. Ele nunca nos pediu para acreditar em uma coisa que não seja verdadeira. Dizemos que a revelação nos conduz naturalmente a considerar-nos mortos; mas nãodevemos perder de vista que é uma ordem que nos é dada: "Fazei de conta, considera-vos". É uma atitude definitiva para assumir. Deus nos pede para que façamos as contas eregistremos: "Estou morto", e de ficarmos firmes ali. Por quê? Porque é um fato. Quandoo Senhor Jesus foi colocado na Cruz, eu estava com Ele. Por isso reconheço que éverdade. Reconheço e confirmo que morri nEle. Paulo diz: "Considerai-vos como mortospara o pecado e como vivos para Deus". Como é isto possível? "Em Jesus Cristo". Nãoesqueçamos nunca que isto é verdade sempre e somente em Cristo. Se olharem paravocês mesmos, pensarão que não estão mortos; é uma questão de fé não em vocês, masnEle. Olhem para o Senhor e reconheçam aquilo que Ele tem realizado. "Senhor, eu creioem Ti. Me afirmo em Ti". Permaneçamos neste estado de fé em cada momento da nossavida. CONSIDERAR-SE PELA FÉ Os primeiros quatro capítulos e meio da carta aos Romanos falam de fé, de fé e de fé.Somos justificados pela fé em Cristo (Rm 3:28-5:1). A justiça, o perdão dos nossospecados, a paz com Deus, tudo nos chega pela fé e sem a fé na obra perfeita de JesusCristo, não se pode obter nada. Mas na segunda parte da carta aos Romanos, nãoachamos mais repetida a mesma teoria da fé, e poderia parecer, a primeira vista, que aênfase fosse colocada sobre outras coisas. Porém, não é assim, porque onde falta apalavra "fé" e "crer" achamos, em seu lugar, a palavra "considerai-vos"; e "considerar-se" e "crer" praticamente têm o mesmo significado. O que é a fé? A fé é a aceitação de um fato de Deus. Ela sempre tem seu fundamentono passado. O que diz respeito ao futuro é esperança mais que fé; ainda que sejaverdade que a fé tem como objetivo e fim o futuro, como vemos em Hebreus 11. Talvezpor esta razão a palavra aqui escolhida é "considerar-se". Este é um termo que se refereexclusivamente ao passado: a tudo aquilo que vemos cumprido no passado, e não comoum acontecimento que deva se repetir no futuro. Este é o tipo de fé que descreve Marcosem 11:24: "Tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebereis, e tê-lo-eis". O queaqui se afirma é que se acreditamos de ter já obtido aquilo que pedimos (em Cristo,naturalmente), nos será concedido. Crer que o poderemos obter, ou que o obteremosnão é fé no sentido aqui entendido. Crer que já o obtivemos, eis a verdadeira fé. A fé,neste sentido, apóia-se sobre o que já foi cumprido no passado. Aqueles que dizem:"Deus pode", ou bem "Deu poderia", ou ainda "Deu deve" e "se Deus quiser", nãoacreditam nada. A fé afirma sempre: "Deus o fez". Quando é, então, que eu tenho fé para tudo o que concerne à minha crucifixão? Nãocertamente quando digo: "Deus pode" ou "se Deus quiser", ou "Ele deve crucificar-me",mas quando afirmo, com alegria: "Deus seja louvado, eu fui crucificado em Cristo!" Em Romanos 3, vemos como o Senhor Jesus carregou os nossos pecados até morrerem nosso lugar, como o nosso substituto, para que nós sejamos perdoados. EmRomanos 6 nos vemos incluídos na morte com a qual Cristo cumpriu a nossa liberação.Quando nos foi revelado o primeiro fato, acreditamos nEle para a nossa justificação.Agora Deus nos pede para reconhecer o segundo fato para a nossa liberação. Assim,praticamente, na segunda parte da carta aos Romanos, "considerar-se" tomou o lugar de"crer". O sentido é o mesmo, e a ênfase não é diferente. Como entramos na vida cristãnormal, a vivemos progressivamente pela fé numa realidade divina: em Cristo e em suaCruz. AS TENTAÇÕES E AS QUEDAS, DESAFIO À FÉ As duas maiores realidades da história para nós são, então, estas: todos os nossospecados foram cancelados pelo sangue, e nós mesmos fomos relacionados com a Cruz.Mas o que há, entretanto, com o problema da tentação? Qual deve ser o nosso22
  • 23. comportamento quando, depois de ter visto e crido nestes fatos, achamos que em nósressurgem os velhos desejos? O que acontece se nos iramos ou coisa pior? Não provaráisto que tudo o que dissemos era falso? Lembremos que uma das maneiras principais que o maligno sempre utiliza é a de nosfazer duvidar dos fatos divinos (Pensemos em Gênesis 3:4). Depois de ter visto, pelarevelação do Espírito de Deus, que estamos verdadeiramente mortos em Cristo, e que otemos reconhecido, o inimigo virá com as suas insinuações: "Há alguma coisa que seagita interiormente. O que é? Pode dizer que isso está morto?" No momento em que esteataque aconteça, qual será a nossa resposta? É justamente este o ponto crucial.Acreditamos nos fatos tangíveis, de domínio natural, os quais claramente se explicamaos olhos de todos, ou bem acreditamos na realidade invisível do domínio espiritual, aqual não pode nem se tocar, nem se provar com a ciência? Devemos vigiar atentamente. É indispensável lembrar o que foi estabelecido naPalavra de Deus, e saber o que não está ali. De que modo Deus declara que a liberaçãoaconteceu? Não nos foi dito que a natureza do pecado que há em nós tenha sidodestruída. Se nos apoiamos sobre isto, nos acharemos sobre uma base completamenteerrada, e na falsa posição do homem de quem falamos precedentemente, o qual, apesarde possuir no bolso R$ 600, procura registrar no livro R$ 700. Não, o pecado não foierradicado, está dentro de nós e, se a ocasião se apresenta, triunfa sobre nós fazendo-nos cometer novos pecados, conscientemente ou inconscientemente. E por isto quesempre teremos necessidade de saber como opera o precioso sangue de Cristo. Mas existe a diferença entre o problema do pecado e o dos pecados. Sabemos queDeus trata de maneira direta no que respeita aos pecados cometidos: Ele cancela sualembrança por meio do sangue. Entretanto, quando se trata do princípio do pecado e denos livrar do seu poder, vemos que Ele o faz de forma indireta. Não coloca aparte opecado, mas o pecador. Nosso velho homem foi crucificado com Cristo; por isto o corpo,que antes era instrumento do pecado, ficou inoperante (Romanos 6:6) 4. O pecado, oantigo padrão, está sempre perto, mas o escravo que o serve foi morto, assim foiliberado de seus ataques e seus membros não são mais utilizados. A mão do jogador éinoperante, a língua do blasfemador é inativa, e estes membros foram desarmados,liberados e ocupados pelo Senhor "como instrumentos de justiça" (Rm 6:13). Podemos então dizer que "liberação do pecado" é uma definição mas escritural que"vitória sobre o pecado". As expressões "liberados do pecado" e "mortos para o pecado"de Romanos 6:7 e 11 implicam a liberação de um poder ainda bem presente e muitoreal, e não de uma coisa que já não existe mais. O pecado está sempre ali, porém nós conhecemos a liberação do seu poder, numamedida que cresce dia a dia. Esta liberdade é tão real que João pode escrever francamente: "Aquele que é nascidode Deus não peca habitualmente... não pode continuar no pecado" (1 Jo 3:9).Semelhante declaração, se mal compreendida, pode induzir-nos a erro. João não diz comisto que o pecado não existe mais para nós e que não cometeremos mais pecados. Dizque o pecado não está na natureza daqueles que nasceram de Deus. A vida de Cristo foiimplantada em nós pelo novo nascimento, e esta nova natureza é liberada do poder dopecado. Contudo, existe uma grande diferença entre a natureza e o comportamentoprático de uma coisa, como existe uma grande diferença entre a natureza da vida queestá em nós e o nosso comportamento. Para ilustrar este pensamento (ainda que oexemplo seja inadequado), podemos dizer que a madeira não pode afundar na água,porque isso seria contrário à natureza; porém, na prática podemos ver que isso podechegar acontecer se uma mão a mantém debaixo da água. O comportamento é um fato,assim como os pecados em nossa vida são fatos históricos; mas a natureza é tambémum fato, e o novo nascimento que recebemos em Cristo é igualmente um fato. Aqueleque está "em Cristo" não pode pecar; aquele que está "em Adão" pode pecar e pecarácada vez que Satanás tenha a oportunidade de exercer seu poder sobre ele. Devemos,então, escolher os fatos sobre os que queremos basear-nos e sobre os que queremosviver: ou a realidade tangível de nossas experiências cotidianas, ou os fatos maispoderosos de que agora fazemos parte "em Cristo". O poder de sua ressurreição é nosso,e todo o poder de Deus está operando em nossa salvação. "O evangelho... é o poder deDeus para salvação de todo aquele que crê" (Rm 1:16). Mas tudo depende agora da 4 O verbo grego "katargeo", traduzido como "destruído" em Rm 6:6 não significa "anulado" mas"colocado fora de ação", "deixado inoperante". Ele provém da raiz grega "argos", Que significa"inativo" ou "inoperante", "inútil", e é a palavra traduzida como "ociosos" em Mateus 20:3 e 6 paradistinguir os trabalhadores desocupados dos que estavam na praza do mercado. 23
  • 24. medida com que se manifeste como real e verdadeira a obra de Deus em nossa própriahistória. "A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que nãose vêem" (Hebreus 11:1). "As (coisas) que se não vêem são eternas" (2 Coríntios 4:18).Penso que todos sabem que Hebreus 11:1 é a única definição de fé que temos no NovoTestamento e, ainda mais, em todas as Escrituras. É muito importante quecompreendamos realmente essa definição. Vocês estão acostumados à versão comumque descreve a fé como "certeza das coisas esperadas". Porém, o termo grego tem osentido de uma ação, e não somente de um estado interior, de uma "certeza". Confessoque demorei anos para achar a expressão que, em nossa língua, deixasse claro e precisoo termo. Mas a nova versão de J. N. Darby é particularmente feliz nesta tradução: "a fé éa apropriação das coisas que esperamos". Como nos "apropriaremos" de alguma coisa? O fazemos a cada dia. Não podemosviver neste mundo sem fazê-lo. Conhecem a diferença que existe entre "objeto" e"apropriação"? Um objeto é uma coisa que está diante de mim. Para me apropriar dele,devo ter uma faculdade ou um poder que o faça real para mim. Vejamos um exemplosimples. Por meio de nossos sentidos podemos escolher coisas que existem no reino danatureza e fazê-las entrar em nossa consciência. A vista e o ouvido, por exemplo, sãoduas de minhas faculdades que me permitem de apropriar-me da luz e do som. Existemas cores: o vermelho, o amarelo, o verde, o azul, o roxo; estas cores são coisas reais.Mas se fecho os olhos não são mais reais, elas já não são nada para mim. Com a faculdade da vista tenho o poder de "apropriar-me" deles. A realidade está nopoder; o amarelo é amarelo para mim. Não é somente que a cor existe, mas que eutenho o poder a apropriar-me dela. Tenho o poder de fazer verdade para mim esta cor, ede ter realmente consciência. Isto é o que significa "apropriação" ou "possessão". Se eu fosse cego, não poderia distinguir as cores, e se fosse surdo não poderia nuncadesfrutar da música. Apesar disso, as cores e a música são coisas completamente reais;a sua realidade não está sujeita à minha capacidade ou incapacidade de apreciá-las. Ora,consideramos assim as coisas que, ainda que invisíveis, são eternas e, em conseqüência,reais. Evidentemente não podemos nos apropriar ou tomar posse das coisas divinas pormeio dos nossos sentidos naturais, mas existe uma faculdade com a qual podemos nosapropriar das "coisas que se esperam", das coisas de Cristo: a fé. A fé faz reais para mima realidade de Cristo. Milhares e milhares de pessoas lêem Romanos 6:6: "o nossohomem velho foi crucificado com ele". Pela fé esta é uma grande verdade e realidade;pelo simples arrazoamento mental fica a dúvida e pode não ser verdade, porque falta aluz espiritual. Lembremos ainda que estamos aqui lidando não com promessas, mas com fatos. Aspromessas de Deus nos são reveladas mediante o seu Espírito, para possamos confiarnelas. Mas os fatos são fatos, e permanecem fatos, quer acreditemos, quer não. Se nãocremos para nada na Cruz, ainda assim ela permanece verdadeira, mas não tem valorpara nós. A fé não faz reais as coisas em si, mas a fé pode "tomar posse" delas e torná-las reais em nossa experiência. É necessário considerar como uma invenção diabólica aquilo que contradiz a verdadeda Palavra de Deus, porque, embora não seja um fato real para os nossos sentidos, Deusestabeleceu uma realidade maior, diante da qual todo acabará por inclinar-se. Eu fiz, umdia, uma experiência que, se não é aplicável à nossa questão em todos os seusparticulares, pode ilustrar este princípio. Alguns anos atrás eu enfermei. Tive durante seis noites uma febre fortíssima que meimpedia de dormir. Finalmente o Senhor me deu sobre as Escrituras uma palavraparticular de cura que me fez esperar que os sintomas do mal desapareceriamimediatamente. Ao contrário, meus olhos não queriam fechar-se e uma agitação molestaenchia meu ser. A temperatura cresceu ainda mais, as minhas pulsações eram maisfreqüentes e a cabeça me doía terrivelmente. O médico me atormentava: "Cadê apromessa de Deus? Cadê a sua fé? O que há de suas orações?" Assim fui tentado paralevar novamente a minha situação em oração, mas essa não foi ouvida, e em vez dissome viram à mente estas palavras da Escritura: "A tua palavra é a verdade" (João 17:17).Se a Palavra de Deus é verdade, pensei, o que significam todos estes sintomas? Sãosomente invenções! Então, respondendo ao inimigo, declarei: "Esta insônia é umamentira, esta dor de cabeça é uma mentira, esta febre é uma mentira, este pulsoacelerado é uma mentira. Diante do que Deus me disse, todos os sintomas daenfermidade não são mais que invenções de parte tua, e a Palavra de Deus é a verdade24
  • 25. para mim". Cinco minutos depois adormeci e durmi, e na manhã seguinte, quandoacordei, estava bem. É evidente que num fato pessoal como este eu pude errar ao interpretar o que Deusqueria me dizer; mas no que se refere ao fato da Cruz não pode haver qualquer dúvida.Devemos acreditar em Deus, por muito que os argumentos de Satanás possam parecer-nos convincentes. Um hábil mentiroso não age somente com as palavras, mas também com oscomportamentos e as ações; pode passar facilmente tanto uma moeda falsa quanto umamentira. O diabo é um hábil mentiroso, e nós não devemos esperar que as suas mentirasse limitem às palavras. Ele recorre a sinais, sentimentos e enganos no esforço de esfriar a nossa fé na Palavrade Deus. Fique bem claro que não contesto a realidade da "carne". Teremos muito paradizer sobre este tema no curso do nosso estudo. Mas aqui se trata do que pode nos fazervacilar da nossa posição em Cristo, a qual nos foi revelada. Devido a que temos aceitadode estarmos mortos com Cristo como um fato cumprido, Satanás fará de tudo para nosconvencer, valendo-se das nossas experiências cotidianas, que não morremoscompletamente, mas estamos bem vivos ainda. Devemos então escolher. Acreditaremosnas mentiras de Satanás ou na verdade de Deus? Nos deixaremos levar pelas aparênciaso ficaremos firmes no q d disse? Eu sou W. Nee. Eu sei que sou W. Nee. É um fato sobre o qual não tenho dúvidas.Poderei perder a memória e esquecer que sou W. Nee, ou ainda sonhar que sou umaoutra pessoa. Porém, quaisquer sejam meus sentimentos, enquanto durmo sou W. Nee,e quando estou desperto sou W. Nee. Se me lembro, sou W. Nee, e se mi esqueço,igualmente sou W. Nee. Mas naturalmente, se pretendo ser uma outra pessoa, tudo será muito mais diferente.Se tentasse de me apresentar como o Sr. C..., deverei repetir-me a cada minuto: "Vocêé o Sr. C..., Lembra, não esqueça que é o Sr. C...", e apesar de todos os meus esforços,é muito provável que não fique muito seguro de conservar esta personalidade; pensoque se alguém me chamasse: "Sr. Nee!" eu responderia em seguida ao meu nomeverdadeiro. A lealdade triunfaria sobre a ficção, e tudo quanto eu tiver feito parasustentar uma personalidade cairia no momento crucial da prova. Mas eu sou W. Nee,não tenho portanto nenhuma dificuldade em considerar-me W. Nee. É um fato, umarealidade e nada de quanto eu faça ou deixe de fazer a pode mudar. Sendo assim, quer eu o sinta ou não, eu estou morto com Cristo. Como posso estarseguro? Porque Cristo morreu e: "se um morreu por todos, logo todos morreram" (2Coríntios 5:14). Que eu possa prová-lo ou que possa tentar de provar o contrário, o fatopersiste igualmente. Enquanto defenda este fato, Satanás não pode me vencer.Lembremos que os seus ataques são sempre dirigidos à nossa segurança. Se podeconseguir nos fazer duvidar da Palavra de Deus, ele terá conseguido seu objetivo e nostem na mão; mas se ficarmos firmes na certeza de quanto Deus tem estabelecido,seguros que Ele não pode trair sua obra ou sua palavra, pouco importam, então, astáticas de Satanás; poderemos muito bem rir dele. Se alguém tentasse me convencerque eu não sou W. Nee, eu poderia rir com razão. "Andamos por fé, e não por vista" (2 Coríntios 5:7). Talvez vocês se lembrem daexperiência destes três personagens: a Ação, a Fé e a Experiência em "O peregrino". Elescaminhavam juntos sobre o fio de um muro. A Ação avança resolutamente sem olharpara trás. A Fé a segue e tudo vai bem enquanto mantém os olhos fixos sobre a Ação;porém apenas se preocupa com a Experiência e se volta para ver como essa esta indo,perde o equilíbrio e cai, arrastando consigo a pobre Experiência. Cada tentação começa com olhar dentro de nós mesmos, considerando as aparênciase tirando o olhar do Senhor. A Fé encontra sempre uma montanha, considerando asaparências de evidências que parecem contradizer a Palavra de Deus, uma montanha decontradições no domínio dos fatos concretos. Assim, ou a fé, ou a montanha, uma dasduas deve ceder. Ambas não podem subsistir juntas. O que é mais triste é que amiúde amontanha fica e a fé vai embora. Isto não deve acontecer. Se recorremos aos nossossentidos para descobrir a verdade, veremos que as mentiras de Satanás estãofreqüentemente de acordo com as nossas experiências; porém se nos negarmos a nosdeixar convencer de tudo o que contradiz a Palavra de Deus, e se mantemos firme anossa fé nEle sozinho, veremos que as mentiras de Satanás se dissolverão e a nossaexperiência entrará progressivamente em harmonia com a Palavra de Deus. Para alcançar este resultado é necessário que nos ocupemos de Cristo de modo queEle vá se fazendo mais vivo em nós, na vida de todos os dias. Em cada ocasião o vemos 25
  • 26. como a verdadeira justiça, a verdadeira santidade, a verdadeira vida da ressurreição emnós. Aquilo que vemos nEle de maneira objetiva, age em nós de maneira subjetiva —porém real—, a fim que se manifeste em nós naquela precisa circunstância. Esta é a marca da maturidade. Isto quer dizer Paulo quando escreve aos gálatas:"Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formadoem vós" (Gl 4:19). A fé assimila as obras de Deus; e a fé é sempre a assimilação dascoisas eternas, de tudo aquilo que é eternamente verdadeiro. PERMANECER NELE Ainda que já nos demoramos bastante neste tema, existe uma outra coisa que podenos ajudar a entender mais claramente. As Escrituras declaram que "estamos verdadeiramente mortos", mas não dizem queestejamos mortos em nós mesmos. Procuraremos em vão a morte em nós mesmos; éjustamente aqui que não a acharemos. Estamos mortos não em nós mesmos, mas emCristo. Fomos crucificados com Ele porque estávamos nEle. Conhecemos bem as palavras do Senhor Jesus: "Permanecei em mim, e eupermanecerei em vós" (João 15:4). Meditemos nelas um instante. Elas nos recordam, emprimeiro lugar, ainda mais uma vez, que não devemos lutar para entrar "em Cristo". Nãonos é pedido entrar nEle, porque já estamos ali; mas nos é pedido de permanecer ondefomos colocados. É obra de Deus, Ele mesmo nos colocou em Cristo; nós devemossomente permanecer nEle. De fato, estas palavras colocam em nós um princípio divino, ode que Deus cumpriu a obra em Cristo e não em nós individualmente. A morte e aressurreição do Filho de Deus que nos incluem a todos, foram completadas plenamente,na plenitude dos tempos, fora de nós. É a história de Cristo a que deve converter-se naexperiência do crente, e nós não temos experiências espirituais fora dEle. As Escriturasnos dizem que fomos crucificados com Ele, com fomos vivificados, ressuscitados esentados com Deus nos lugares celestiais (Rm 6:6, Ef 2:5-6, Cl 2:10). Esta não ésimplesmente uma obra que deve ser completada em nós (ainda que seja assim,naturalmente), mas uma obra que já foi cumprida em união com Ele. Vemos nas Escrituras que nenhuma experiência existe por si mesma. O que Deuscompletou em seu desígnio de graça é a associação com Cristo. O que Deus cumpriu emCristo, o cumpriu no cristão; o que cumpriu na cabeça, o cumpriu também nos membros.É então um erro pensar que podemos alcançar qualquer experiência espiritualsimplesmente por nós mesmos, fora de Cristo. Deus não deseja que nós adquiramosnada exclusivamente pessoal em nossa experiência. Ele não fará nada neste sentido,nem por vocês, nem por mim. Toda a experiência espiritual do crente está já em Cristo(ver o fim do capítulo 5). Ela já foi vivenciada por Cristo. O que chamamos de "nossa"experiência é somente o nosso ingresso em sua história e em suas experiências. Seria estranho que uma vara de videira dê uvas brancas, enquanto uma outra varaproduza uvas verdes, e ainda uma outra, pretas; que cada galho produzisse um fruto desim mesmo, sem ter relação com a videira. Isto é impossível, inconcebível. É a videiraque determina a natureza dos galhos. E ainda assim, alguns cristãos procuram asexperiências simplesmente como experiências. Pensam na crucifixão como em umacontecimento, na ressurreição como em um outro acontecimento, na ascensão como emum outro ainda, sem nunca perceber que tudo isso está ligado a uma Pessoa. Somentequando o Senhor abre os nossos olhos para ver a Pessoa, nós podemos ververdadeiramente. Toda a verdadeira experiência espiritual significa que tomamos um dato cumprido emCristo e que começamos a fazer parte dele; tudo o que não provém dEle neste modo éuma experiência destinada a se dissolver muito pronto. Eu tive esta revelação em Cristo;então, Deus seja louvado, ela é minha! A possuo, Senhor, porque está em Ti. Que coisagrande é o conhecer a realidade de Cristo como fundamento da nossa experiência! Assim, o princípio fundamental sobre o qual Deus nos dirige em nossas experiências,não consiste em dar-nos coisas. Não consiste em nos fazer passar por um certo caminhopara colocar em nós, como resultado, alguma coisa que possamos chamar de "nossaexperiência". Deus não cumpriu em nós uma obra que nos permitirá dizer: "Eu morri emCristo no passado março", ou "Eu ressuscitei em 1º de janeiro de 1937", nem "Quarta-feira passada pedi uma experiência precisa e a obtive". Não, não é assim. Eu não procuroa experiência em si mesma, neste tempo de graça. A noção de tempo não pode conduziro meu pensamento quando considero a história do espírito. Mas, dirá alguém, o quedevemos pensar das crises que muitos de nós têm atravessado? É verdade, alguns denós temos atravessado verdadeiras crises em suas vidas. George Muller, por exemplo,26
  • 27. pode dizer, dobrando-se até o chão: "Houve um dia em que George Muller morreu". Oque significa isso? Não, não duvidamos da realidade das experiências espirituais queatravessamos, nem da importância das crises pelas quais Deus nos conduz em nossocaminho com Ele; já ressaltamos a necessidade de sermos bem precisos sobre o motivocentral das crises que atravessamos em nossas vidas. Porém o fato que nos interessa éque Deus não nos dá experiências simplesmente individuais. Tudo aquilo queexperimentamos é somente a entrada naquilo que Deus já cumpriu. É a "realização" notempo das coisas eternas. A história de Cristo se converte em nossa história espiritual;nós não temos a nossa história separada da dEle. Toda a obra que nos abrange não éassim feita em nós, senão em Cristo. Ele não separa a obra que cumpre no individuodaquele cumprida sobre a Cruz. Nem a vida eterna nos é entregue separadamente; avida está no Filho e "quem tem o Filho tem a vida" (1 Jo 5:12): Deus cumpriu todo emseu Filho e nos colocou nEle; nós estamos incorporados em Cristo. Ora, o pontoimportante nisso tudo é o valor prático e real da aplicação da fé que diz: "Deus mecolocou em Cristo, portanto, tudo aquilo que é verdade dEle é verdade de mim. Eu queropermanecer nEle". Satanás procura sem parar de nos fazer desviar da nossa posição emCristo, de ter-nos fora dEle, de nos convencer que estamos longe, e com tentações,erros, sofrimentos, provas, nos fazer cruelmente sentir que não estamos em Cristo. Onosso primeiro pensamento é que, se estivéssemos em Cristo, não estaríamos nesseestado de debilidade, e portanto, a julgar pelo que estamos passando, devemos estarseparados dEle; assim começamos a orar: "Senhor, coloca-me em Cristo". Não! Deus nospede para "permanecer" em Cristo; este é o caminho da liberdade. Por quê? Porque istoabre a Deus a via para intervir em nossa vida e cumprir a sua obra em nós. Isto permitea ação do seu poder divino, o poder da ressurreição (Rm 6:4 - 9:10), a fim que asrealidades que se encontram em Cristo se tornem progressivamente as realidades danossa experiência cotidiana, e porque lá, onde primeiro "reinava o pecado" (Rm 5:21),podemos constatar com alegria que já não somos mais "escravos do pecado" (Rm 6:6). Quando nos apoiamos firmemente sobre a base daquilo que Cristo é para nós,achamos que tudo o que é verdade dEle, transforma-se em verdade em nós, em nossavida. Se, ao contrário, voltarmos sobre a base daquilo que somos que de nossa velhanatureza, repetimos as mesmas experiências de desconforto e escravidão (ver capítulo6). Se estamos em Cristo, temos tudo; se voltamos onde estávamos antes, já não temosnada. Amiúde nos colocamos no ponto errado para achar a morte em nós mesmos. Ela estáem Cristo. Nós não temos que olhar em nós para ver que estamos bem vivos para opecado; porém, no momento em que fixamos o olhar por cima de nós, no Senhor, Deusvê que a morte opera aqui, mas que a "novidade de vida" opera em nós. Estamos "vivosem Deus" (Rm 6:4-11). "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós". Estas palavras testemunham duascoisas: um mandamento acompanhado de uma promessa. Isto significa que há na obrade Deus um aspecto objetivo e um subjetivo, e que o aspecto subjetivo depende doobjetivo; o "Eu permanecerei em vós" é a conseqüência do "permanecei em mim".Devemos estar atentos a não preocupar-nos demasiado com a parte subjetiva, para nãovoltar-nos de mais em nós mesmos. Devemos afirmar-nos na parte objetiva "permaneceiem mim", deixando que Deus se ocupe da parte subjetiva. Isto é o que Ele começou afazer. Podemos parangonar tudo isto com a luz elétrica. Vocês estão num quarto ondeescurece, o dia declina. Desejariam ter luz para poder ler. Há uma luminária sobre amesa. O que vocês farão? Olharão fixo para que ela ligue? Ou pegarão um pano parapoli-la? Não, vocês se levantarão, cruzarão a habitação até o interruptor e então ligarãoa luz. A vossa atenção vá até a fonte da energia e quando fazemos o necessário, a luzbrilhará no quarto. Assim é no nosso caminho com o Senhor: a nossa atenção deve estarfixa em Cristo. "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós". Esta é uma ordemdivina. A fé nos fatos objetivos transforma estes fatos verdadeiros subjetivamente. Comodiz o apóstolo Paulo: "Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelhoa glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem..." (2Coríntios 3:18). O mesmo princípio é verdadeiro no que diz respeito ao fruto da nossavida: "quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto" (João 15:5). Nós não devemostentar produzir fruto, nem concentrar a nossa mente em nossos produtos. O quedevemos fazer é manter firme o nosso olhar sobre Ele. E enquanto o fazemos, Ele é fielpara cumprir a sua Palavra em nós. 27
  • 28. Como permanecer nEle? "Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão deseu Filho Jesus Cristo nosso Senhor" (1 Coríntios 1:9). Era assunto de Deus colocar-nosnEle e Ele o fez. Assim, estamos nEle! Não voltamos sobre o nosso ser particular. Nãoolhamos mais a nós mesmos, como se não estivéssemos em Cristo. Olhamos para Jesuscom a certeza que estamos nEle. Permanecemos nEle. Repousamos sobre o fato queDeus nos colocou em seu Filho, a avançamos com a confiança que Ele cumprirá a suaobra em nós. É Ele que realiza em nós a gloriosa promessa de que "o pecado não terádomínio sobre vós" (Rm 6:14). CAPÍTULO 5 – O PODER DE SEPARAÇÃO DA CRUZ O Reino deste mundo não é o Reino de Deus. Ele estabeleceu um sistema universal,um universo de Sua criação que devia ter como cabeça Cristo, seu Filho. "Porque neleforam criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejamtronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por elee para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele."(Colossenses 1:16-17). Mas Satanás, operando através da carne do homem, estabeleceuem vez disso um sistema rival, que as Escrituras chamam "o mundo", um sistema noqual estamos envolvidos e sobre o qual ele domina, porque se converteu no "príncipedeste mundo" (João 12:31). DUAS CRIAÇÕES Assim, por obra de Satanás, a primeira criação se converteu na velha criação, que jánão tem interesse para o Senhor. O interesse de Deus está agora concentrado nasegunda e nova criação, um novo reino e um novo mundo, no qual nada da velhacriação, do antigo reino do antigo mundo poderá ser transferido. É necessário agoraconsiderar dois reinos rivais, e ver a qual deles nós pertencemos. Em verdade, o apóstolo Paulo não nos deixa dúvidas de qual destes dois domíniosseja, hoje, o nosso. Ele diz que Deus, na redenção, "nos tirou da potestade das trevas, enos transportou para o reino do Filho do seu amor" (Colossenses 1:12-13). A nossacidadania de agora em diante pertence a este reino. Mas para nos fazer entrar nele, Deus deve cumprir em nós alguma coisa nova. Devefazer de nós novas criaturas. Não podemos pertencer ao novo reino sem sermos criadosde novo. "O que é nascido da carne é carne" (João 3:6), e "carne e o sangue não podemherdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção" (1 Coríntios 15:50). Sejaqual for o nível de seu desenvolvimento, de sua cultura ou de seu valor, a carnepermanece sempre carne. A nossa possibilidade de pertencer ao novo reino dependa dacriação à qual pertencemos. Somos da velha ou da nova? Nascemos da carne ou doEspírito? A condição definitiva para pertencer ao novo mundo depende da nossa origem.Não depende "do bom ou do mau", mas "da carne e do Espírito". Aquele que nasceu dacarne é carne, e nunca será outra coisa. Aquilo que pertence à velha natureza nãopoderá jamais passar para a nova... desde que compreendemos realmente o que Deusprocura, ou seja, alguma coisa profundamente nova para Ele sozinho, vemos claramenteque nós não podemos aportar, neste novo nascimento, nenhum elemento da antiganatureza. Deus queria nos ter para si mesmo, mas não podia nos fazer entrar em seu planoassim como nós éramos; então, antes que nada nos fez morrer por meio da Cruz deCristo, e depois, com a sua ressurreição, nos deu nova vida. "Assim que, se alguém estáem Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2Coríntios 5:17). Sendo agora novas criaturas, com uma nova natureza e um conjunto de novasfaculdades, podemos entrar no novo reino e no novo mundo. A Cruz foi o meio pelo qualDeus se serviu para pôr fim às "velhas coisas", deixando inteiramente de lado o nosso"velho homem", e a ressurreição é o meio pelo qual Deus nos deu tudo aquilo quenecessitávamos para viver neste novo mundo. "De sorte que fomos sepultados com elepelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pelaglória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida" (Rm 6:4). A grande negação do universo é a Cruz, porque por meio dela Deus cancelou tudoaquilo que não era dEle: o fato mais positivo no universo é a ressurreição, porque por elaDeus deu existência a tudo aquilo que desejava ter no novo mundo. Assim, aressurreição é a fonte do novo nascimento. É uma bênção ver que a Cruz dá fim a todo28
  • 29. aquilo que pertencia ao primeiro regime e que a ressurreição introduz aquilo que seadapta ao segundo. Tudo o que teve inicio antes da ressurreição deve ser cancelado. Aressurreição é o novo ponto de partida de Deus. Estamos agora diante da presença de dois mundos, o antigo e o novo. Sobre o antigoSatanás exerce soberania absoluta. Vocês podem ser homens bons na velha natureza,mas enquanto permaneçam estarão sob uma sentença de morte, porque nada do velhopode passar para o novo. Através da Cruz, Deus declara que tudo aquilo que é da velhanatureza deve morrer. Nada do que esteve no primeiro Adão pode ultrapassar a Cruz;tudo acaba lá. Quanto antes o vejamos, melhor será, porque através da Cruz Deus abriua via para liberar-nos desta velha natureza. Ele reuniu tudo aquilo que era de Adão napessoa de seu Filho e o crucificou; tudo o que era de Adão foi, portanto, destruído nEle.Assim Deus proclamou diante de todo o universo: "por meio da Cruz destruí todosaqueles a não são meus; vocês que pertencem à velha natureza estão compreendidosnesta obra: também vocês foram crucificados com Cristo!" Ninguém pode fugir a esteveredicto. Isto nos leva à questão do batismo. "Ou, porventura, ignorais que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomosbatizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte..." (Rm6:3-4). Devemos agora nos perguntar o que significam estas palavras. Nas Escrituras o batismo está associado à salvação: "Quem crer e for batizado serásalvo" (Marcos 16:16). Não podemos falar, segundo as Escrituras, de "regeneração pelobatismo", mas podemos falar de "salvação pelo batismo". O que é a salvação? Ela estáem relação não com os nossos pecados nem com o poder do pecado, mas com o cosmos,vale dizer, com o sistema deste mundo. Nós estamos no sistema do mundo satânico.Estar salvos significa sair deste sistema para entrar naquele de Deus. Pela Cruz do Senhor Jesus Cristo, diz Paulo: "o mundo está crucificado para mim e eupara o mundo" (Gálatas 6:14). Este é o tema desenvolvido por Pedro quando fala dasoito pessoas que "se salvaram através da água" (1 Pedro 3:20). Entrando na arca, Noé eos seus saíram, pela fé, deste velho mundo corrupto para passar a um novo mundo. Acoisa essencial não é que foram pessoalmente salvos do dilúvio, mas que saíram destesistema corrupto. Esta é a salvação. Pedro continua a seguir: "...que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo..." (versículo21). Em outras palavras, por este aspecto da Cruz que está representado pelo batismo,vocês são liberados deste presente mundo malvado, e o confirmam com a sua imersãona água. Este é o batismo "em sua morte", que põe fim a uma criação; mas é também obatismo "em Jesus Cristo" que faz uma nova criatura (Romanos 6:3). Vocês entram naágua e o seu mundo, simbolicamente, desce com vocês. Vocês ressurgem em Cristo,porém o seu mundo permanece submergido. "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo,tu e a tua casa. E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em suacasa. E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; elogo foi batizado, ele e todos os seus" (Atos 16:31-33). Com este ato o carcereiro e osque estavam com ele deram testemunho diante de Deus, ao seu povo e às potenciasespirituais que estavam realmente salvos de um mundo condenado. Como resultado,lemos, se alegraram grandemente porque "haviam acreditado em Deus". Portanto está claro que o batismo não é uma simples questão relativa a um copo deágua ou a um batistério. É uma coisa muito maior, ligada à morte e à ressurreição donosso Senhor Jesus Cristo, tendo em vista dois mundos. Todos os que têm trabalhadoem países pagãos conhecem quão tremendas discussões são provocadas pelo batismo. A SEPULTURA SIGNIFICA UM FIM Pedro continua no ponto que citamos acima e descreve o batismo como "a indagaçãode uma boa consciência para com Deus" (1 Pedro 3:21). Ora, nós não podemosresponder se não há alguém que nos fale. Se Deus não nos tivesse falado nada, nãoteríamos nada para responder. Mas Deus falou; nos falou com a Cruz. Com ela nos disseque o seu juízo está sobre nós, sobre a velha natureza e sobre o antigo reino. A Cruz nãoconcerne somente a Cristo pessoalmente; ela não é uma Cruz "individual". É uma Cruzque nos abraça a todos, uma Cruz "corporativa", uma Cruz que inclui você e eu. Deusnos colocou a todos em seu Filho e nos crucificou com Ele. No último Adão cancelouaquilo que estava no primeiro Adão. Qual será agora a minha resposta à sentença que Deus pronunciou sobre a velhacriação? Respondo, pedindo o batismo. Por quê? Em Romanos 6:4, Paulo explica que 29
  • 30. batismo significa sepultura: "De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo namorte". O batismo, evidentemente, está associado à morte e à ressurreição, ainda quenão seja, em si mesmo, nem morte nem ressurreição: é uma sepultura. Mas, quem estáqualificado para ser sepultado? Somente aqueles que estão mortos! Se, então, eu peçode ser batizado, declaro que estou morto, vale dizer, bom somente para o túmulo. Infelizmente, certas pessoas foram adestradas para considerar a tumba como ummeio para morrer: elas procuram morrer fazendo-se sepultar! Permitam-me dizerformalmente que, se os nossos olhos não foram abertos por Deus para ver que jáestamos mortos em Cristo e que fomos sepultados com Ele, não temos direito de sermosbatizados. A razão pela qual descemos na água é que temos reconhecido de sermos, aosolhos de Deus, já mortos. A isto nós rendemos testemunho. A pergunta de Deus é clara esimples: "Cristo morreu e Eu incluí você neste fato. O que você tem a dizer a esterespeito?" Qual será a minha resposta? "Senhor, eu creio que Tu cumpriste a crucifixão.Eu digo sim à morte e à sepultura à qual me ligas". Ele me consignou à morte e à tumba;quando eu Lhe peço de ser batizado, declaro publicamente o meu consenso com estefato. Uma mulher da China, havendo perdido seu marido, enlouqueceu da dor e refutou-sedecididamente a sepultá-lo. Durante quinze dias ele permaneceu na casa. "Não", falava amulher, "Ele não está morto; eu falo com ele todas as noites". Ela não queria sepultá-loporque, coitadinha, não acreditava que estivesse morto. Quando consentimos quesepultem os nossos seres queridos? Até que tenhamos a mínima esperança de queestejam ainda vivos, não teremos nunca o pensamento de sepultá-los. Assim, em quemomento eu pedirei pelo batismo? Quando eu veja que os caminhos de Deus sãoperfeitos e que eu mereci a morte; e quando acredite realmente que Deus já mecrucificou. Quando eu esteja bem persuadido, diante de Deus, que estouverdadeiramente morto, solicitarei ser batizado. Direi: "Deus seja louvado, eu estouverdadeiramente morto! Senhor, Tu me deixaste morto; é hora que eu seja sepultado!" Na China temos dois serviços de socorro, uma "Cruz Vermelha" e uma "Cruz Azul". Aprimeira assiste aqueles que foram feridos em combate, mas que estão ainda vivos, eleva a eles ajuda e cura. A segunda se ocupa das vítimas que sucumbem pela fome, ainundação ou a guerra, e dá a eles sepultura. Deus age, a nosso respeito, por meio daCruz de Cristo, de forma mais severa que a da "Cruz Vermelha". Ele não si esforça parareparar a velha criação. Os sobreviventes mesmos são condenados à morte e aosepultamento, a fim que revivam numa nova vida. Deus cumpriu a obra da crucifixão, eassim agora estamos entre o número dos mortos; mas devemos aceitar isto e submeter-nos à obra da "Cruz Azul", que leva a termo a obra da morte com o sepultamento. Existeum mundo velho e um mundo novo e entre os dois há uma tumba. Deus me crucificou,mas eu devo consentir em ser colocado no túmulo. O meu batismo confirma a sentençade Deus, que caiu sobre mim por meio da Cruz do seu Filho. Isso confirma a minhaseparação do antigo mundo, e testifica que agora pertenço ao novo. O batismo não é,então, uma pequena coisa. Significa para mim uma clara e consciente ruptura com ovelho modo de viver. É aqui o significado de Romanos 6:2: "Nós, que estamos mortospara o pecado, como viveremos ainda nele?". Paulo diz, em realidade: "Se desejamcontinuar a viver no velho mundo, para que se batizam? Não deveriam nunca serbatizados se desejam continuar a viver no antigo reino." Somente quando estejamospersuadidos disto, estaremos prontos a preparar o terreno para a nova criação,consentindo em sepultar a velha. Em Romanos 6:5, escrevendo ainda para aqueles que "fomos batizados" (versículo 3),Paulo mostra que "fomos convertidos numa mesma planta com Cristo por uma mortesimilar à dEle". Porque, por meio do batismo, reconhecemos que Deus estabeleceu umaunião íntima entre nós e Cristo graças à morte e a ressurreição. Um dia procureisublinhar esta verdade a um irmão crente. Estávamos juntos bebendo chá, e eu pegueium pedacinho de açúcar e o coloquei em minha xícara. Depois de alguns instantes,perguntei: "Pode me dizer agora cadê o açúcar e cadê o chá?". "Não", respondeu ele,"você os misturou, um se perdeu no outro e já não podem mais ser separados". Foi umafigura simples, mais o ajudou a ver o caráter íntimo e decisivo da nossa união com Cristona morte. Deus nos colocou lá e o que Deus cumpre não pode ser anulado. O que implica, de fato, esta união? O real significado do batismo é que na Cruz fomos"batizados" na morte histórica de Cristo, de forma que sua morte se converteu na nossa.A nossa morte e a sua estão assim tão profundamente identificadas que é impossíveldistingui-las. É a este "batismo" histórico, a esta união com Deus que Ele mesmocumpriu, que nós damos o nosso consenso enquanto descemos às águas do batismo. O30
  • 31. testemunho público que rendemos hoje com o batismo demonstra a nossa aceitação dofato que a morte de Cristo, dois mil anos atrás, foi uma morte tão poderosa e tãoprofunda que pode nos levar nela, destruindo em nós tudo aquilo que não é de Deus. A RESSURREIÇÃO EM NOVIDADE DE VIDA "Se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também oseremos na da sua ressurreição" (Rm 6:5). No que diz respeito à ressurreição o símbolo é diferente, porque há um novo elementointroduzido. Eu sou "batizado em Sua morte", mas não entro na mesma forma em suaressurreição, porque (Deus seja louvado!) a sua ressurreição entra em mim para me darnova vida. Na morte do Senhor a ênfase está colocada sobre "eu em Cristo" somente. Naressurreição, ainda que isto permaneça verdadeiro, um novo acento é colocado sobre"Cristo em mim". Como pode Cristo me fazer participar de sua vida de ressurreição?Como é que eu recebo esta nova vida? Creio que Paulo apresente um ótimo exemplocom as palavras que adota: "convertidos numa mesma coisa com Ele", "convertidos numcom Ele" (tradução literal do texto original), porque as palavras traduzidas em"convertidos numa mesma coisa com Ele" têm em grego o sentido de "enxertada" 5, edescrevem maravilhosamente a imagem da vida de Cristo que vem a nós com aressurreição. Visitei um dia, em Fukin, um homem proprietário de um pomar de "Long-Ien" 6.Possuía algumas centenas de hectares de terra e perto de trezentas árvores frutíferas.Perguntei-lhe se aquelas árvores tinham sido enxertadas ou eram plantas naturais. "Vocêacha", me disse, "que eu desperdiçaria a minha terra não cultivando plantas enxertadas?Que valor poder esperar de obter com árvores naturais?". Pedi-lhe, então, que meexplicasse o procedimento do enxerto, o que ele fiz de boa vontade. "Quando uma árvore tem atingido uma certa altura, corto o topo e faço o enxerto",me disse. Depois, assinalando uma árvore, continuou: "Vê aquela árvore? Eu a chamo deárvore-pai, porque todos os enxertos necessários para as outras árvores precedemdesta. Se as outras árvores tivessem sido abandonadas simplesmente ao seudesenvolvimento natural, os seus frutos seriam menores e estariam constituídosprincipalmente de uma casca grossa e sementes. Esta árvore, da qual eu tiro os enxertospara todas as outras, produz um fruto gostoso, grosso como uma ameixa, com umasuperfície fina, de pequena semente, e naturalmente todas as árvores enxertadasproduzem o mesmo fruto". "Como é que isso pode acontecer?", perguntei. "Pegosimplesmente um pouco da natureza desta árvore para transmiti-la aos outros",explicou-me. "Faço um corte na árvore selvagem e insiro nela um elemento daquela boa.Então a amarro e a deixo crescer". "Mas como cresce?" perguntei. "Não sei", respondeu,"mas cresce". A continuação me mostrou uma arvore que produzia frutos pequenos,miseráveis, de um velho tronco, por debaixo do enxerto, enquanto um gostoso esuculento fruto crescia do novo tronco, acima do enxerto. "Eu deixei os velhos brotoscom seu fruto inútil para mostrar a diferença", disse. "Destes pode se apreciar o valor do enxerto. Você entende agora a razão pela qualnão cultivo senão árvores enxertadas?" Como pode uma árvore produzir o fruto de uma outra? Como pode uma árvoreselvagem produzir bons frutos? Somente com o enxerto. Somente se se transplanta nelea vida de uma árvore boa. Mas se um homem pode enxertar o galho de uma árvorenuma outra árvore, Deus não pode tomar a vida de seu Filho e enxertá-la em nós? Uma mulher chinesa queimou-se gravemente os braços e foi transportada no hospital.Para evitar uma forte contração dos tecidos após a cicatrização é necessário enxertar umpedaço de pele nova sobre a parte afetada, mas o médico tentava em vão transplantar apele da mulher mesma nos braços. A causa da idade e de uma má alimentação, otransplante da própria pele demonstrou ser demasiado fraco e não "afixava". 5 Do grego "sumphutos", "plantado e crescido com Ele", "convertidos numa mesma coisa com".A palavra é utilizada no grego clássico no sentido de "enxertada". Na esplêndida ilustração quevimos, penso que a analogia de "enxertado" não seja expressa demasiado exatamente, por quantonão é prudente dizer, fora de qualquer precisão, que Cristo foi "enxertado" na velha cepa. Mas qualpalavra pode descrever adequadamente o milagre da nova criação? (Ed.). 6 O "Long-Ien" (Euforia Longana) é uma árvore originaria da China. Seu fruto é grande comoum damasco e tem uma noz redonda, uma casca similar a papel seco, marrom claro, polpadeliciosa, branca, similar à uva. Se come fresco ou seco, e os chineses o apreciam pelo ser valornutritivo (Ed.). 31
  • 32. Uma enfermeira estrangeira ofereceu então um pedaço de pele e a operação foi umsucesso. A pele nova se grudou à velha e a mulher deixou o hospital com os braçosperfeitamente curados; permaneceu, porém, sobre os seus braços amarelos uma seçãode pele branca estrangeira, para lembrá-la da história passada. Vocês perguntarão comopodia a pele de um outro crescer sobre os braços daquela mulher? Eu não sei, só sei queaconteceu. Se um cirurgião deste mundo pode enxertar um fragmento de pele de um serhumano para transplantá-lo em outro, o Divino Cirurgião não poderá transplantar a vidade seu Filho em mim? Eu não sei como Ele faz. "O vento assopra onde quer, e ouves asua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que énascido do Espírito" (João 3:8). Nós não podemos fazer nada e não temos nada a fazerpara contribuir, porque com a ressurreição Deus já fez tudo. Deus já cumpriu tudo. Existe uma única vida fecunda no mundo, e essa foi enxertadaem milhões de outras vidas. Nós a chamamos "novo nascimento". O novo nascimento é ainfusão de uma vida que eu não possuía antes. Não é uma transformação da minha vidanatural, é uma outra vida, inteiramente nova, absolutamente divina e que setransformou em minha vida. Deus deu fim à velha criação com a Cruz de seu Filho, para poder introduzir, com aressurreição, uma nova criação em Cristo. Ele fechou a porta ao antigo reino de trevas eme fez entrar no reino de seu amado Filho. Eu exulto pelo fato que tudo foi cumprido;que, pela Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, este velho mundo foi crucificado em mim, eeu fui crucificado para o mundo" (Gl 6:14). O meu batismo é o testemunho público queeu rendo deste fato. "Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se fazconfissão para a salvação" (Rm 10:10). CAPÍTULO 6 – O CAMINHO PARA IR ALÉM: APRESENTAR-SE A DEUS O nosso estudo nos conduziu ao ponto em que podemos considerar a verdadeiranatureza da consagração. Temos diante dos olhos a segunda metade do capítulo sextoda carta aos Romanos, do versículo 12 até o fim. Em Romanos 6:12-13 lemos: "Nãoreine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suasconcupiscências; nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado porinstrumentos de iniqüidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e osvossos membros a Deus, como instrumentos de justiça". A palavra chave, nesteparágrafo é "apresentar-se", e volta aparecer cinco vezes no capítulo, nos versículos 13,16 e 19 7. Esta palavra "apresentar" é considerada por muitos com um sentido de consagração,sem levar em conta cuidadosamente o seu significado. Evidentemente significa isto, masnão no sentido no qual estamos acostumados a compreendê-la. Não se trata daconsagração ao Senhor do nosso "velho homem" com os seus instintos e recursos, a suasagacidade natural, a nossa força e outros dons para que Ele os utilize. Isto estáclaramente manifestado no versículo 13. Notamos a expressão "como vivos dentremortos". Paulo diz: "doem-se a vocês mesmos a Deus como mortos vivificados". Isto nosindica o ponto onde começa a consagração. Porque do que aqui se trata não é daconsagração de alguma coisa que pertence à velha criação, mas somente de aquilo que,através da morte, passou à ressurreição. O "apresentar" aqui expressado é o resultadodo conhecimento que tenho do fato que o meu velho homem foi crucificado. Saber,reconhecer, apresentar-se a Deus: esta é a ordem divina. Quando reconheço com certeza que fui crucificado com Ele, me reconheçoespontaneamente como morto (versículos 6 e 11); e quando sei que ressuscitei com Ele 7 Dois verbos gregos, "paristano" e "paristemi" são traduzidos como "dar" na versão revisada(original), enquanto a versão antiga diz "oferecer". "Paristemi" é utilizado freqüentemente comeste significado, por exemplo em Rm 12:1; 2 Co 11:2; Cl 1:22,28; Lc 2:22, onde se refere àapresentação de Jesus no Templo. Ambos verbos têm um sentido de ação, pelo qual a versãorevista é a que deve preferir-se. "oferecer" contém antes bem uma idéia passiva de abandono quetem muita influência sobre o pensamento evangélico, mas que não está em harmonia com ocontexto que temos aqui em Romanos (Ed.). Tanto na ARA como na PJFA a palavra é traduzida como "apresentar". Nas outras passagensmencionadas acima também, em todas, tem a mesma tradução (N. do T.).32
  • 33. dos mortos, analogamente, reconheço de estar "vivo para Deus em Cristo Jesus"(versículos 9 e 11), porque os dois aspectos da Cruz, o da morte e o da ressurreição,devem ser aceitos por fé. Quando cheguei a este ponto, o me dar a mim mesmo a Deusé uma conseqüência natural. Na ressurreição Ele é a fonte da minha vida, é a minhavida; assim posso doá-Lhe tudo, porque tudo é dEle, nada é meu. Porém se não passoatravés da morte, não tenho nada para consagrar a Ele, e não há nada em mim queDeus possa aceitar, porque Ele condenou sobre a Cruz tudo aquilo que pertence ao"velho homem". A morte eliminou tudo aquilo que não pode ser consagrado e só aressurreição permite a consagração. Dar-me a Deus significa, de agora em diante, queconsidero a minha vida inteira como pertencente ao Senhor. O TERCEIRO PASSO: "APRESENTAI-VOS..." Observemos que este "apresentar-se" concerne aos membros do nosso corpo, daquelecorpo que, como vimos, está agora fora de ação no que diz respeito ao pecado. "Apresentai-vos a Deus... e os vossos membros...", diz Paulo, e ainda: "assimapresentai agora os vossos membros" (Rm 6:13,19). Deus me pede de considerar todosos meus membros, todas as minhas faculdades como pertencentes inteiramente a Ele. É uma grande coisa descobrir que não pertenço mais a mim mesmo, mas que soudEle. Se os R$ 500 que tenho no bolso são meus, eu posso dispor deles livremente. Masse pertencem a uma outra pessoa que os confiou a mim, não posso pensar em gastá-lospara comprar qualquer coisa que eu deseje, tratarei de não gastá-los. A verdadeira vidacristã começa com saber isso. Quantos de nós sabemos que, pela ressurreição de Cristo,estamos vivos "para Deus" e não para nós mesmos? Quantos de nós não ousamos usar opróprio tempo, o próprio dinheiro ou os próprios talentos para nós mesmos, porquetemos compreendido que pertencemos ao Senhor e não mais a nós mesmos? Quantos denós temos um senso tão forte de pertencermos a um Outro, que não ousamos pegar R$100 do nosso dinheiro, nem uma hora de nosso tempo, nem algumas das próprias forçasfísicas e mentais? Uma vez, um irmão chinês viajava em trem e se achou num compartimento junto comtrês incrédulos que queriam jogar cartas para matar o tempo. Como faltava um quartojogador para a partida, convidaram o irmão para unir-se a eles. "Lamento rejeitar", dissea eles, "mas não posso ter parte no jogo, porque não trouxe comigo as minhas mãos"."O que você quer dizer?" perguntaram desconcertados os viajantes. "Estas duas mãosnão me pertencem", respondeu, e explicou a eles a mudança de proprietário que tinhaacontecido nEle. Este irmão considerava os membros de seu corpo como pertencentestotalmente ao Senhor. Esta é a verdadeira santidade. Paulo diz: "Apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça parasantificação" (Rm 6:19). Façam um ato definitivo: "Apresentai-vos a Deus". SEPARADO PARA O SENHOR O que é a santidade? Muitas pessoas pensam que se torna santo extirpando tudoaquilo que existe de mau no homem. Não, nos tornamos santos sendo separados para oserviço do Senhor. Nos tempos do Antigo Testamento, quando um homem tinha sidopré-selecionado por Deus para ser inteiramente seu, era ungido com óleo publicamente,e declarado "santificado". Desde esse momento era considerado como colocado de ladopara o Senhor. Da mesma maneira, os animais ou as coisas materiais, um cordeiro, ou oouro do Templo, podiam ser santificados, não eliminando qualquer coisa que houvesse demau neles, ma pondo-os aparte exclusivamente para o Senhor. Santidade no sentidohebraico significa alguma coisa separada, e toda a verdadeira santidade é santidade"para o Senhor" (Êxodo 28:36). Eu me dou inteiramente a Cristo: eis a santidade. Entregar-me a mim mesmo a Deus significa que reconheço ser inteiramente Seu.Este donativo de mim mesmo é um ato definitivo, tão definitivo quanto o fato de"considerar-me como...". Deve haver um dia, em minha vida, em que eu coloquei asminhas próprias mãos nas dEle, e a partir daquele dia eu lhe pertenço: pertenço a Ele enão mais a mim mesmo. Existem, apesar disso, muitos missionários que não sãoverdadeiramente consagrados a Deus, no verdadeiro sentido que consideramos acima.Tem "consagrado", como costumam dizer, alguma coisa bem diferente, ou seja, suasqualidades naturais, não crucificadas, para serem usadas na obra de Deus; mas esta nãoé a verdadeira consagração. A que coisa devemos, então, nos consagrar? Não à obracristã, mas à vontade de Deus, para ser e fazer tudo aquilo que Ele quer de nós. Davi tinha em seu exercito muitos homens fortes. Alguns eram generais e outros,soldados, segundo as tarefas que o rei tinha assinado para eles. Devemos preparar-nos 33
  • 34. para sermos generais ou soldados, cumprindo o nosso serviço exatamente como Deusquer, e não segundo a nossa escolha. Se somos crentes, Deus tem traçado um caminhopara nós, uma "carreira", como a chama Paulo em 2 Timóteo 4:7. Não somente ocaminho de Paulo, mas aquele de cada crente foi claramente assinalado por Deus, e é deimportância extrema conhecer o caminho que Deus traçou para cada um de nós etransitar nele. "Senhor, eu me dou a Ti com este único desejo, de conhecer bem ocaminho que traçaste para mim, para andar por ele". Eis o verdadeiro donativo de nósmesmos. Se, no fim de nossa vida, poderemos dizer como Paulo: "acabei a carreira",seremos verdadeiramente abençoados. Por outra parte, não há nada mais tremendo quealcançar o fim da própria existência e perceber ter andado por um caminho errado.Temos somente uma vida para viver aqui embaixo e somos livres de fazer o quedesejamos, mas se procuramos a nossa própria satisfação, não poderemos nuncaglorificar a Deus com a nossa vida. Um dia ouvi um pio crente dizer: "Eu não quero nadapara mim mesmo; desejo que tudo seja para o Senhor". Existe alguma coisa quedesejemos fora de Deus, ou todos os nossos desejos estão concentrados em Suavontade? Podemos realmente confessar que a vontade de Deus é "boa, aceitável eperfeita" para nós (Rm 12:2)? De fato, é de nossa vontade que aqui estamos falando. Esta minha vontade forte,prepotente, deve ser colocada sobre a Cruz e é necessário que eu me entregueinteiramente a mim mesmo ao Senhor. Não podemos pedir a um alfaiate deconfeccionar-nos um vestido se não lhe damos o tecido, nem a um construtor de fazer-nos uma casa se não lhe procuramos o material necessário; também não podemosesperar do Senhor que viva a Sua vida em nós, se não Lhe entregarmos a nossa vidapara que Ele nos faça permanecer. Sem reservas, sem contestações, devemos dar-nosao Senhor dia após dia, até que Ele faça de nós o que Ele deseja. "Apresentai-vos aDeus" (Rm 6:13). SERVO OU ESCRAVO? Se nos damos sem reservas a Deus, muitas modificações acontecerão em nossa vida,em nossa família, em nosso trabalho, em nossas relações de igreja e nas nossas opiniõespessoais. Deus não permitirá que subsista nada de nós mesmos. Os seus dedos tocarãoponto por ponto tudo aquilo que não provém dEle e nos dirá: "Isto deve desaparecer".Estamos prontos para isso? É uma loucura resistir a Deus e é sempre sábio submeter-sea Ele. Reconheçamos que muitos de nós temos ainda contrastes com o Senhor. Ele queruma coisa, enquanto nós queremos outra. Existem coisas que nós não ousamos sondar,pelas quais não nos atrevemos a orar, às quais não ousamos nem sequer pensar pormedo de perder a nossa paz. Podemos assim subtrair-nos a certos problemas, mas istonos faz evadir a vontade de Deus. É sempre tão fácil evadir-nos de Sua vontade, masque precioso é que voltemos a colocar-nos em Suas mãos para que Ele possa agir emnós como Ele deseja! Como é precioso sermos conscientes de pertencermos ao Senhor e não a nósmesmos! Não existe nada de mais precioso no mundo! É isso que nos dá a certeza deSua presença contínua e a razão é clara. Devo, antes que nada, ter a certeza depertencer a Deus para ter, a seguir, consciência de Sua presença em mim. Quando sintoque Lhe pertenço, não posso mais fazer nada em meu interesse pessoal, porque sou deSua exclusiva propriedade. "Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servospara lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte,ou da obediência para a justiça?" (Rm 6:16). A palavra "servo" é, de fato, muitoapropriada. A encontramos repetidamente nesta segunda parte de Romanos 6. Qual é a diferença entre um servo e um escravo? Um servo pode servir um outro, maso direito de propriedade não passa àquele outro. Se um servo gosta do seu patrão ele oserve, mas se não gosta, pode desligar-se dele e procurar um outro patrão. Como eu meconverti em escravo do Senhor? Eu fui comprado por Ele e me entreguei a Ele. Emvirtude da redenção eu sou propriedade de Deus, mas para ser seu escravo devo doar-me voluntariamente a Ele, porque Ele nunca vai me constranger. O que mais nosentristece hoje é que muitos cristãos têm idéias demasiado restritas a respeito do queDeus exige deles. Com quanta leviandade dizem: "Senhor, eu estou pronto para tudo".Sabemos que Deus nos pede a nossa própria vida? Há sonhos prediletos, fortesvontades, relações preciosas, um trabalho muito amado que devem ser abandonados;porém, se nos negamos a desapegar-nos inteiramente, não podemos doar-nos a Deus.porque Deus tomará a sua palavra, ainda quando vocês não a cumpram seriamente.34
  • 35. O que fez o Senhor quando o rapaz da Galiléia lhe entregou seu pão? O partiu. Deuspartirá sempre o que Lhe é oferecido. Ele rompe aquilo que pega, mas depois de tê-lorompido o abençoa e o adota para responder às necessidades dos outros. Depois quevocês tenham se entregado ao Senhor, Ele começará partir o que vocês Lhe ofereceram.Tudo parece então andar mal e vocês protestam e acreditam ver erros nas vias de Deus.Mas desta forma serão somente um vaso quebrado, sem utilidade alguma para o mundo,pois se distanciaram demasiado dEle e assim não pode servir-se de vocês. Não estãomais de acordo com o mundo e, ao mesmo tempo, estão em contraste com Deus. Esta éa tragédia de muitos crentes. O donativo de mim mesmo ao Senhor deve ser um ato inicial e fundamental. A seguir,dia após dia, devo continuar no oferecimento de mim mesmo, sem achar injusta a formada qual Ele se serve de mim; mas aceitando com agradecimento também aquilo peloqual a carne se rebela. Eu sou do Senhor e não considero mais a minha vida comoprópria, mas de propriedade e direito dEle. Este é o comportamento interior que Deusexige, e mantê-lo é a verdadeira consagração. "Eu não me consagro para ser um missionário ou um predicador; me consagro a Deuspara fazer a Sua vontade, lá onde eu estou, seja na escola, no trabalho ou no escritório,seja na cozinha aceitando tudo aquilo que Ele me confia como o melhor, porque somenteaquilo que é bom pode ser a parte daqueles que são inteiramente dEle. Esperamos sersempre conscientes de não pertencemos mais a nós mesmos, mas ao Senhor. CAPÍTULO 7 – O DESÍGNIO ETERNO Temos constatado que para viver a verdadeira vida cristã necessitamos revelação, fé,consagração. Mas se não vemos o objetivo que Deus tem se fixado, nãocompreenderemos nunca claramente como estas experiências sejam necessárias paraconduzir-nos a este fim. Portanto, antes de considerar mais profundamente a questão daexperiência interna, prestemos atenção principalmente sobre o grande ponto divino queestá diante de nós. Qual é o desígnio de Deus na criação? E qual é seu desígnio na redenção? Pode serresumido em duas frases, e cada uma trata de uma das duas partes em que dividimos acarta aos Romanos: "a glória de Deus" (Rm 3:23) e "a glória dos filhos de Deus" (Rm8:21). Lemos em Rm 3:23: "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória deDeus". O fim que Deus tinha previsto para o homem era a glória, mas o pecadoobstaculizou este desígnio e impediu o homem de alcançar a glória de Deus. Quandopensamos no pecado, pensamos instintivamente no juízo que produziu; o associamosinvariavelmente à condena e ao inferno. O pensamento do homem gira sempre em voltado castigo que terá aquele que pecar; mas o pensamento de Deus está sempre voltado àglória que o homem perderá se pecar. O resultado do pecado é que nós somos privados da glória de Deus; o resultado daredenção é que estamos de novo no caminho para a glória. O objetivo de Deus naredenção é a glória, a glória, a glória. O PRIMOGÊNITO DE MUITOS IRMÃOS Esta consideração nos conduz ao capítulo 8 de Romanos, onde o tema é desenvolvidodesde o versículo 16 ao 18 e ainda nos versículos 29 e 30. Paulo diz: "O mesmo Espíritotestifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somoslogo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que comele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Porque para mim tenhopor certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória queem nós há de ser revelada" (Rm 8:16-18). E ainda: "Porque os que dantes conheceutambém os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que eleseja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou;e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes tambémglorificou" (Rm 8:29-30). Qual foi o objetivo de Deus? Foi que seu Filho Jesus Cristofosse o primogênito de muitos irmãos, devendo ser todos feitos conforme à sua imagem.Como realiza Deus seu plano? "Aos que chamou a estes também justificou; e aos quejustificou a estes também glorificou". O desígnio de Deus na criação e na redenção foi,portanto, fazer de Cristo o Filho primogênito de muitos filhos glorificados. Talvez isto nãosignifica grande coisa, no princípio, para muitos de nós, porém detenhamo-nos a refletiratentamente. 35
  • 36. Em João 1:14 nos é dito que o Senhor Jesus é o único Filho de Deus: "E o Verbo sefez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai,cheio de graça e de verdade". O fato que Ele fosse o Filho unigênito de Deus significa queEle não tinha outros filhos, mas somente esse. Ele está perto do Pai desde a eternidade.Porém, nos é dito, Deus não estava satisfeito com que Cristo fosse seu único filho:desejava sim que Ele fosse seu primogênito. Como pode um filho único converter-se numprimogênito? A resposta é simples. Necessita que o pai tenha outros filhos, e então ofilho único se converterá em primogênito. O desígnio de Deus na criação e na redenção foi o de ter muitos filhos. Ele os desejoue não podia se sentir satisfeito sem nós. Um tempo atrás eu fiz uma visita ao Sr. GeorgeCutting, o autor de um opúsculo bem conhecido: "Segurança, certeza e gozo". Quandofui introduzido na presença daquele santo homem, de idade de 93 anos, ele pegou aminha mão na dele e me disse com seu tom tranqüilo e firme: "Irmão, você sabe que eunão posso fazer nada sem Ele? E sabe que Ele não pode fazer sem mim?" Lendo a história do filho pródigo, a maior parte dos leitores permanece impressionadapor todas as dificuldades que ele achou; eles concentram o pensamento nos momentospenosos que ele deveu atravessar. Mas este não é o objetivo da parábola. "Meu filhoestava perdido e achou-se", eis o centro essencial do conto. Não é importante o que ofilho sofreu, mas aquilo que o Pai tem perdido. É Ele quem sofre; é Ele quem perde. Seuma ovelha é perdida, quem sofre a perda? O pastor. Se uma moeda é perdida, quemsofre a perda? A dona. Se um filho é perdido, quem suporta a perda? O pai. Eis aexplicação do capítulo 15 de Lucas. O Senhor Jesus era o Filho unigênito e enquanto era unigênito não tinha irmãos. Maso Pai envia o Filho, a fim que o unigênito se converta em primogênito, e o Filho diletotenha muitos irmãos. Temos aqui toda a história da Encarnação e da Cruz; aquiachamos, enfim, o cumprimento do desígnio de Deus que é conduzir muitos filhos àglória (Hebreus 2:10). Em Romanos 8:29 lemos: "muitos irmãos"; em Hebreus 2:10: "muitos filhos". Desdeo ponto de vista do Senhor Jesus, esses são "irmãos"; desde o ponto de vista de Deus,são "filhos". Os dois termos, em seu contexto, sugerem a idéia da maturidade. Deusprocura filhos adultos, mas não fica por aqui. Porque não quer que seus filhos vivamnuma garagem, ou no campo; Ele os quer em sua morada; Ele quer que pertençam àsua glória. Esta é a explicação de Romanos 8:10: "Aos que chamou a estes tambémjustificou; e aos que justificou a estes também glorificou". O estado de filho —a plenaexpressão de seu Filho— é que o fim de Deus seja alcançado em muitos filhos. E comopode ser alcançado este fim? Justificando-os e glorificando-os. Em cada Sua ação arespeito deles, tem sempre presente este fim. Ele quer filhos maduros e responsáveiscom Ele em Sua glória. Fez tudo o que era necessário para que o céu fosse enchido defilhos glorificados. Tal foi o Seu desígnio na redenção da humanidade. O GRÃO DE TRIGO Mas como pode o Filho unigênito de Deus se converter em Seu Filho primogênito? Istoestá explicado em João 12:24: "Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo,caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto". A quemrepresenta este grão de trigo? Ele representa o Senhor Jesus. Em todo o universo, Deusnão possuía senão um único "grão de trigo"; não tinha um segundo. Deus colocou estegrão de trigo em terra; Ele morreu e na ressurreição o grão único tornou-se o grãoprimogênito; porque deste único grão nasceram muitos outros. No que diz respeito à sua divindade, o Senhor Jesus fica sozinho: "o Filho unigênito deDeus". Existe porém um outro sentido no qual, da ressurreição e durante toda aeternidade, Ele é também o primogênito e sua vida, partindo daquele momento, seencontra em muitos irmãos. Porque nós que somos nascidos do Espírito nos tornamos,por isso, em "participantes da natureza divina" (2 Pedro 1:4). Não porém de nósmesmos, mas, como veremos dentro de pouco, só porque isso depende de Deus emvirtude da nossa posição "em Cristo". Nós temos "recebido o espírito de adoção de filhos,pelo qual clamamos: Aba! Pai! O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito quesomos filhos de Deus" (Rm 8:15-16). É pela encarnação e a Cruz que o Senhor Jesusrendeu isso possível. Assim o coração paterno de Deus ficou satisfeito, porque pelaobediência de seu Filho até a morte, o Pai conseguiu muitos filhos. O primeiro e o vigésimo capítulo de João são, a este respeito, muito preciosos. Noinício de seu Evangelho, João nos fala de Jesus como do Filho unigênito que veio do ladodo Pai (João 1:14). No fim do seu Evangelho, João nos lembra que o Senhor Jesus,36
  • 37. depois de sua morte e ressurreição, disse a Maria Madalena: "Vai para meus irmãos, edize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus" (Jo 20:17). Atéaqui, neste Evangelho, o Senhor tinha dito freqüentemente: "o Pai" ou bem "meu Pai";ora, na ressurreição, Ele agrega: "o vosso Pai". É o Filho maior, o primogênito quem fala.Graças à sua morte e à sua ressurreição, muitos irmãos foram introduzidos na família deDeus; por isso, no mesmo versículo, Ele os chama "meus irmãos". Assim fazendo Eleafirma que "não me envergonho de chamá-los meus irmãos" (Hebreus 2:11). A ESCOLHA QUE ADÃO DEVEU ENFRENTAR Deus tinha plantado um grande número de árvores no jardim do Éden mas, "no meiodo jardim", num lugar de particular evidência, tinha plantado duas árvores: a árvore davida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Adão, criado inocente, não tinhaconhecimento do bem e do mal. Imaginemos um homem adulto, de uns trinta anos porexemplo, que não tenha nenhuma noção do bem e do mal, nem faculdade alguma paradiscernir! Não diremos que um homem assim não está desenvolvido? Bem, é mesmoexatamente o que era Adão. Deus o fez entrar no jardim e lhe disse, em substância: "Ojardim está cheio de árvores de fruta e você pode comer, livremente, o fruto de cadaárvore do jardim. No meio do jardim existe uma árvore chamada árvore doconhecimento do bem e do mal; não coma o seu fruto, porque no dia que o coma,certamente você morrerá". O que significam, então, estas duas árvores? Adão foi criado,por assim dizer, moralmente neutro; nem pecador, nem santo, mas inocente. Deus ocolocou diante destas duas árvores para que ele pudesse livremente exercer a suaescolha. Podia escolher a árvore da vida, ou bem podia escolher a árvore doconhecimento do bem e do mal. Ora, o conhecimento do bem e do mal, ainda que proibido a Adão, não era mau em simesmo. Não o conhecendo, Adão estava num certo sentido limitado, porque era incapazde decidir por si mesmo as conseqüências morais de seus atos. O discernimento do beme do mal não residia nele, mas em Deus somente, e a única linha de ação a seguir porAdão enquanto estava frente ao problema, era apresentá-lo a Deus. Adão no jardimrepresenta uma vida completamente dependente de Deus. Estas duas árvoressimbolizavam dois princípios profundos; elas representavam duas ordens de vida; adivina e a humana. A árvore da vida é Deus mesmo porque Deus é a vida. Ele o é naforma mais elevada, é a fonte e o fim. E o fruto, qual é? É o nosso Senhor Jesus Cristo.Ninguém pode comer a árvore, mas pode comer o fruto. Ninguém pode receber Deuscomo Deus, mas podemos receber o Senhor Jesus. O fruto é a parte comestível, a parteda árvore que pode ser recebida. Assim, posso então dizer, com o devido respeito: oSenhor Jesus é verdadeiramente Deus sob uma forma que pode ser recebida. Em Cristonós podemos receber Deus. Se Adão tivesse escolhido a árvore da vida, teria tido parte na vida de Deus, teriaentão se tornado num "filho" de Deus, porque teria tido nele uma vida derivada de Deus.Teríamos a vida de Deus em união com o homem; uma raça de homens que têm em simesmos a vida de Deus e que vivem numa contínua dependência de Deus para manteressa vida. Em vez disso, Adão, tomando o fruto da árvore do conhecimento do bem e domal, desenvolveu a própria humanidade, sobre uma linha natural fora de Deus. Eletornou-se auto-suficiente, conquistou em si mesmo a possibilidade de exercer um juízoindependente, mas não teve em si a vida de Deus. Essa foi a alternativa colocada diante dele. Escolhendo o caminho da obediência, ocaminho do Espírito, podia tornar-se um "filho" de Deus, recebendo a sua vida de Deus;em vez disso, seguindo o curso natural, pode dar o último toque à sua estrutura,permanecendo aquilo que era, tornando-se um ser autônomo, agindo e julgando fora deDeus. A história da humanidade é o resultado da escolha de Adão. A ESCOLHA DE ADÃO, RAZÃO DA CRUZ Adão escolheu a árvore do conhecimento do bem e do mal, colocando-se de tal formadobre uma base de independência. Assim fazendo tornou-se (como aparecem hoje oshomens aos próprios olhos) num homem "plenamente evoluído". Ele pode dispor de suainteligência, pode assumir pessoalmente as suas próprias decisões, pode prosseguir ouparar. Partindo deste ponto, a sua "inteligência foi aberta" (Gênesis 3:6). Mas aconseqüência de seu ato foi para ele a morte mais que a vida, porque essa escolhasignificou uma cumplicidade com Satanás e o colocou sob o juízo de Deus. Eis por que aseguir lhe foi proibido o acesso à árvore da vida. 37
  • 38. Duas ordens de vida tinham sido propostas a Adão: aquela da vida divina, emdependência de Deus, e aquela da vida humana, com seus recursos "independentes". Aescolha desta última, realizada por Adão, foi "pecado" porque ele se aliou com Satanáspara opor-se ao desígnio eterno de Deus. Isto ele fez escolhendo desenvolver a suahumanidade para se tornar talvez um homem muito diferente, aliás, um homem"perfeito" desde o seu ponto de vista, porém longe de Deus. Mas o fim devia ser a morte,porque não tinha em si a vida divina, necessária à realização do desígnio de Deus em suaexistência, e porque ele tinha preferido se tornar, com "a independência", um agente doinimigo. É assim que em Adão todos nós nos convertemos em pecadores, dominadoscomo ele por Satanás, sujeitos como ele à lei do pecado e da morte e merecendo, comoele, a cólera divina. Aqui vemos a razão divina da morte e da ressurreição do Senhor Jesus. Vemos,também, a razão divina da verdadeira consagração, da necessidade de considerar-noscomo mortos para o pecado, mas como vivos para Deus em Jesus Cristo, e deapresentar-nos a Deus como vivificados, feitos vivos dos mortos que éramos. Devemos irtodos à Cruz, porque aquilo que está em nós é por natureza uma vida egoísta em vez deuma vida divina; assim Deus deveu ajuntar tudo o que havia em Adão e deixá-lo de lado.O nosso "velho homem" foi crucificado. Deus nos colocou a todos em Cristo e o crucificoucomo o último Adão, assim tudo o que era de Adão foi cancelado. Depois, Cristoressuscitou sob uma nova forma, tendo ainda um corpo, mas no espírito e não mais nacarne. "O último Adão em espírito vivificante" (1 Coríntios 15:45). O Senhor Jesus temagora um corpo ressuscitado, um corpo espiritual, um corpo glorioso e, como não estámais na carne, pode ser agora recebido por todos; "quem de mim se alimenta, tambémviverá por mim" (João 6:57), disse Jesus. Os judeus indignavam-se diante do pensamento de comer sua carne e de beber o seusangue, e de fato não podiam recebê-lo então porque ainda estava literalmente presentena carne. Agora que está no Espírito, cada um de nós pode recebê-Lo; e é participandode sua ressurreição que nos convertemos em filhos de Deus. "Mas, a todos quantos oreceberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seunome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade dohomem, mas de Deus" (João 1:12-13). Deus não está operando na reformação de nossa vida. O seu objetivo não é o de levara nossa vida até um grau de afinamento, porque isto significaria colocar esta vida sobreum plano inteiramente errado. Sobre tal plano Deus não poderia, agora, levar o homemè glória. Ele deve criar um novo homem; um homem nascido de novo, nascido de Deus.A regeneração e a justificação vão a passos juntos. QUEM TEM O FILHO TEM A VIDA Existem diversos graus da vida. A vida humana se encontra entre a vida dos animaisinferiores e a vida de Deus. É impossível superar o abismo que nos separa do grausuperior, tanto como do grau inferior, e a distância que nos separa da vida de Deus éinfinitamente maior que aquela que nos separa da vida dos animais inferiores. Fiz uma visita, um dia, a um crente que estava em cama com uma doença, e a quemeu chamarei de "Sr. Wong" (ainda que este não seja o seu verdadeiro nome). Era umhomem muito culto, doutor em filosofia, estimado em toda a China pelos seus princípiosmorais muito elevados, e tinha estado por bastante tempo empenhado na obra cristã.Não acreditava na necessidade de regeneração, anunciava unicamente um Evangelho"social". Quando entrei em casa do Sr. Wong, seu cachorro preferido estava deitado aolado dele. Depois de ter falado com ele das coisas de Deus e da natureza de Sua obra emnós, indiquei o seu cão e perguntei como se chamava. "Se chama Fido", me disse. "Fidoé o seu nome ou sobrenome?" repliquei. "É o seu nome simplesmente", respondeu ele."Você quer dizer que é o seu nome de batismo? Posso então chamá-lo Fido Wong?"insisti. "Certamente não!", exclamou ele. "Mas ele vive em sua família", agreguei ainda,"por que não o chamam Fido Wong?". Depois, indicando suas duas filhas, perguntei: "Assuas filhas são as senhoritas Wong?". "Sim". "Então, por que não posso chamar o vossocachorro de Senhor Wong?". O doutor riu e eu continuei: "Você vê aonde eu querochegar?" As suas filhas nasceram em sua família e portanto levam seu nome porque vocêmesmo comunicou a elas a sua vida. O seu cão pode ser inteligentíssimo, bem educado,fiel, pode ter todas as boas qualidades sob cada ponto de vista, mas a pergunta não é: Éum cachorro bom ou mau? a pergunta é simplesmente: É um cão? Não precisa ser maupara ser excluído de sua família, é suficiente que seja um cachorro. O mesmo princípiopode se aplicar à sua relação com Deus. a coisa importante não é que você seja um38
  • 39. homem mais ou menos bom, mais ou menos ruim, mas simplesmente Você é umhomem?. Se a sua vida se encontra num plano inferior ao da vida de Deus, você nãopode pertencer à família de Deus. Durante toda a sua vida o seu objetivo foi o detransformar homens maus em homens bons por meio de sua predicação; porém oshomens, como tais, sejam bons ou maus, não podem ter com Deus nenhuma relaçãovital. A única esperança para nós homens é a de receber o Filho de Deus e quando orecebemos sua vida em nós nos transforma em filhos de Deus". O doutor viu a verdade ese converteu naquele dia num membro da família de Deus, recebendo o Filho em seupróprio coração. Aquilo que possuímos hoje em Cristo é mais do que Adão perdeu. Adão foi somenteum homem desenvolvido. Permaneceu neste plano e não teve jamais a vida de Deus.Porém nós que recebemos o Filho de Deus, recebemos não somente o perdão dospecados, mas também a vida divina, prefigurada no jardim do Éden com a árvore davida. Recebemos pelo novo nascimento, aquele que Adão perdeu, porque temos umavida que ele nunca teve. TODOS NASCERAM DE UM HOMEM SÓ Deus quer dos filhos que sejam co-herdeiros com Cristo na glória; este é o Seuobjetivo. Mas como poderá alcançá-lo? Leiamos Hebreus 2:10-11: "Porque convinha queaquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitosfilhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles. Porque, assim oque santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não seenvergonha de lhes chamar irmãos" Temos diante de nós dois protagonistas, ou seja: "muitos filhos" e "o príncipe dasalvação deles"; ou, em outros termos, "aquele que santifica" e "os que sãosantificados". Mas é dito que são "todos nascidos de um só". O Senhor Jesus, comohomem, trouxe a sua vida de Deus.; num sentido diferente, mas não menos real, nósrecebemos a nossa nova vida de Deus. Ele foi "concebido pelo Espírito Santo" (Mateus1:20), e nós somos "nascidos do Espírito", "nascidos de Deus". Assim,diz Deus, nósnascemos de Um só. A preposição "de" em grego exprime a idéia de "nascidos de". OFilho primogênito e os numerosos outros filhos são todos (ainda que em um sentidodiferente) "nascidos" da única fonte de vida. Percebemos hoje que temos a mesma vida que Deus possui? A vida que Ele tem nocéu é a vida que nos deu aqui embaixo, sobre a terra. É o precioso "dom de Deus" (Rm6:25). É graças a esta verdade que podemos viver, desde agora, uma vida de santidade,porque esta não é a nossa própria vida que foi mudada, mas a vida de Deus que nos foidada. Vocês perceberam que nesta consideração do desígnio eterno, tudo quanto concerneao pecado desapareceu? Na existe mais lugar para isso. O pecado entrou com Adão nomundo e então, quando foi cancelado, como devia ser, nós fomos re-conduzidos aoponto onde estava Adão. Mas considerando novamente o desígnio de Deus —abrindo-seassim o acesso à árvore da vida—, a redenção nos foi entregue em medida maior do queAdão a tenha possuído. Essa nos fez partícipes da vida de Deus mesmo. CAPÍTULO 8 – O ESPÍRITO SANTO Falamos do desígnio de Deus como da razão e da explicação de todas as vias de Deusque se referem a nós. Antes de retomar o nosso estudo sobre as fases da experiênciacristã como nos a apresenta Paulo em sua carta aos Romanos, precisamos considerarainda um fator que se encontra no centro de todas as nossas experiências e que é opoder da verdadeira vida e do serviço cristão. Estou me referindo à presença pessoal eao ministério do Espírito Santo de Deus. Tomemos ainda, como ponto de partida, dois versículos de Romanos, extraídos decada uma das nossas duas seções: "O amor de Deus está derramado em nossoscorações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5:5). "Se alguém não tem o Espíritode Cristo, esse tal não é dele" (Rm 8:9). Deus não confia seus dons ao acaso, e não os distribui de forma arbitrária. Eles sãoentregues gratuitamente a todos, mas sobre uma base bem definida. Deusverdadeiramente "nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiaisem Cristo" (Efésios 1:3). Mas, a fim que estas bênçãos que são nossas em Cristo o sejamem nossa experiência, devemos saber sobre que base podemos obtê-las. 39
  • 40. Quando estudamos o dom do Espírito Santo, é bom considerá-lo sob dois aspectos: oEspírito derramado sobre nós e o Espírito que permanece em nós. O objetivo que nospropomos é o de compreender sobre qual base este duplo dom do Espírito Santo pode setornar nosso. Sem dúvida fazemos bem em distinguir assim entre as manifestaçõesexternas e internas de sua ação, e a medida que procederemos, acharemos útil estadistinção. De qualquer forma, se o comparamos, chegaremos inevitavelmente àconclusão que a atividade interior do Espírito Santo é a mais preciosa. Mas, assimfalando, não queremos diminuir o valor de sus atividade externa, porque Deus doa aosseus filhos somente coisas excelentes. Certamente somos induzidos a negligenciar o verdadeiro valor dos nossos privilégios,com motivo de sua extrema abundância. Os santos do Antigo Testamento, os quaisforam menos favorecidos que nós, sabiam apreciar mais o valor dos dons do Espíritoderramado sobre eles. Naqueles tempos, era um dom entregue unicamente a algumeleito, principalmente aos sacerdotes, os juizes, os reis e os profetas, enquanto hoje é adote de cada filho de Deus. Pensemos nisso! Nós que somos somente nulidades,podemos ter o mesmo Espírito Santo que permaneceu em Moisés, o amigo de Deus, emDavi o rei armadíssimo, em Elias, o poderoso profeta. Recebendo o dom do Espírito Santo, derramado sobre nós, alcançamos o grau deservos escolhidos de Deus na dispensação do Antigo Testamento. Apenas vemos o valordeste dom de Deus, e compreendemos também a imensa necessidade de possuí-lo,perguntamos em seguida: "Como posso receber o Espírito Santo de forma de serabastado de seus dons e ser consagrado ao serviço de Deus? Sobre que base foientregue o Espírito Santo aos Seus filhos?" A EFUSÃO DO ESPÍRITO Antes que nada tomemos o livro dos Atos dos Apóstolos, 2:32-36, e consideremosbrevemente este parágrafo: (32) Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas. (33) De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessado Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis. (34) Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio diz: Disse o Senhor ao meuSenhor: Assenta-te à minha direita, (35) Até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés. (36) Saiba, pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vóscrucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo. Deixemos de lado, por um instante, os versículos 34 e 35 (que são uma citação doSalmo 110 e constituem um parêntese), e consideremos juntos os versículos 33 e 36para poder discernir melhor a força do discurso de Pedro, não levando em conta o início.Pedro declara, no versículo 33, que o Senhor Jesus foi "exaltado pela destra de Deus".Qual foi o resultado? Recebeu do Pai o Espírito Santo que tinha sido prometido. O queveio depois? O prodígio do Pentecoste! O resultado de sua ascensão foi "isto que vós agora vedes e ouvis". Sobre qual base, então, foi entregue o Espírito Santo pela primeira vez ao SenhorJesus, a fim que o derramasse sobre seu povo? Fui o fato de sua ascensão ao céu. Estepasso esclarece completamente que o Espírito Santo foi derramado porque o SenhorJesus foi exaltado. A efusão do Espírito Santo não tem nenhuma relação com seusméritos, nem com os meus, mas unicamente com os méritos do Senhor Jesus. Não nos interessa considerar aquilo que somos, mas somente o que "Ele é". Ele églorificado; por isso o Espírito foi derramado. Porque o Senhor Jesus morreu sobre aCruz, eu recebi o perdão dos meus pecados; porque o Senhor Jesus ressuscitou dosmortos, eu recebi a nova vida; porque o Senhor Jesus foi elevado à destra do Pai, eurecebi o Espírito que Ele espalhou. Tudo foi a cauda dEle; nada a causa de mim. Aremissão dos pecados não está baseada sobre méritos humanos, mas sobre a crucifixãodo Senhor; e o revestimento do Espírito Santo não está baseado em méritos humanos,mas sobre a exaltação do Senhor. O Espírito Santo não foi derramado sobre vocês ousobre mim para demonstrar como somos grandes, mas para mostrar a grandeza do Filhode Deus. Agora tomemos o versículo 36. Há aqui uma palavra que deve atrair a nossa atenção:a palavra "pois". Quando usamos geralmente esta palavra? Não para introduzir umadeclaração; mas como conseqüência de uma declaração que já foi formulada. Suautilização se refere sempre a alguma coisa que já foi mencionada. Ora, de que foiprecedido este "pois" no nosso texto? Com que coisa está relacionado? Não pode estar40
  • 41. ligado logicamente ao versículo 34 nem ao 35, mas está claramente ligado ao versículo33. Pedro faz menção da efusão do Espírito sobre os discípulos; "isto que vós agoravedes e ouvis" e agrega: "Saiba, pois com certeza toda a casa de Israel que a esseJesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo". Pedro, em substância, disseaos seu ouvintes: "Esta efusão do Espírito, da qual vocês foram testemunhas com seusolhos e ouvidos, é a prova de que Jesus de Nazaré, a quem vocês crucificaram, é agoraSenhor e Cristo". O Espírito Santo foi derramado sobre a terra para demonstrar aquiloque aconteceu nos céus, a ascensão de Jesus de Nazaré à destra de Deus Pai. O fato doPentecoste prova a soberania de Jesus Cristo. Havia um jovem chamado José que era ternamente amado pelo seu pai. Um diachegou ao pai a notícia de que seu filho tinha morrido, e por muitos anos Jacó chorou amorte de José. Mas José não tinha morrido; havia, pelo contrário, obtido uma posição deglória e poder. Depois de ter chorado por anos o filho morto, chega de improviso a Jacó anotícia que não só José estava vivo, mas ocupava também uma posição muito elevadano Egito. No princípio pareceu-lhe uma coisa incrível. Era demasiado belo para serverdade. Mas finalmente se persuadiu da veracidade da notícia. E como foi possível fazê-lo acreditar? Saiu, e viu os carros que José tinha lhe enviado do Egito. O que representam esses carros? Prefiguram certamente o Espírito Santo, enviadocomo prova de que o Filho de Deus está na glória, para transportar também nós. Comosabemos que Jesus de Nazaré, crucificado dois mil anos atrás por homens malvados, nãomorreu simplesmente como mártir, mas está sentado à destra do Pai, na glória? Comopodemos ter a certeza que é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis? Podemos ter estacerteza incontestável, porque Ele derramou o seu Espírito sobre nós. Aleluia! Jesus é oSenhor! Jesus é o Cristo! Jesus de Nazaré é de vez o Senhor e o Cristo! A ascensão do Senhor Jesus é a base sobre a qual foi enviado o Espírito Santo. Épossível, então, que o Senhor Jesus tenha sido glorificado e que vocês não tenhamrecebido o Espírito? Sobre que base tiveram o perdão dos seus pecados? E por queoraram com tanta seriedade, ou por que leram a Bíblia de uma ponta até a outra, ou porque assistiram regularmente à Igreja? É pelos seus méritos? Não! Um milhão de vezesnão! Sobre que base os seus pecados foram perdoados? "Sem derramamento de sanguenão há remissão" (Hebreus 9:22). O único meio de perdão é o derramamento do sangue;e como o sangue precioso foi vertido, os seus pecados estão perdoados. Ora, o princípio pelo qual estamos revestidos do Espírito Santo é exatamente omesmo pelo qual recebemos o perdão dos pecados. O Senhor foi crucificado e por issofomos perdoados; o Senhor foi glorificado e por isso o Espírito Santo foi derramado sobrenós. Será possível que o Filho de Deus tenha vertido seu sangue e que os pecados devocês, amados filhos de Deus, não tenham sido perdoados? Jamais! Então, é possívelque o Filho de Deus tenha sido glorificado e que vocês não tenham recebido o seu SantoEspírito? Jamais! Mas talvez algum dirá: "Eu estou de acordo com isso todo, mas nunca tive estaexperiência. Posso adotar uma atitude serena e declarar que possuo tudo, quando seiperfeitamente de não ter nada?". Não, não devemos contentar-nos com umconhecimento objetivo da verdade. Temos absolutamente necessidade de umconhecimento subjetivo; mas teremos tal experiência somente na medida em querepousemos sobre as realidades divinas. Os feitos de Deus e a obra por Ele cumprida,constituem o fundamento de nossa vida. Retornemos um momento ao fato da justificação. Como fomos justificados? Não écertamente procurando fazer alguma coisa, mas aceitando simplesmente o fato que oSenhor já cumpriu, Ele mesmo, tudo. Nós recebemos o Espírito Santo exatamente damesma forma, não contando com as nossas boas ações, mas tendo fé absoluta naquilo eo Senhor tem já realizado. Se não tivemos esta experiência, devemos pedir a Deus somente uma revelação destefato eterno, que o batismo do Espírito Santo é o dom do Senhor glorificado para a suaIgreja. Quando tenhamos compreendido isto, cessará todo esforço, e a nossa oraçãomudará em louvor. Uma revelação daquilo que o Senhor cumpriu para o mundo deu fimaos nossos esforços para achar o perdão dos pecados; da mesma forma, uma revelaçãodaquilo que o Senhor tem feito pela sua Igreja, porá fim a cada esforço nosso para obtero batismo do Espírito Santo. Se nos esforçamos é porque não temos compreendido aobra de Cristo. Mas uma vez que a tivermos entendido, a fé jorrará dos nossos coraçõese a medida que acreditamos, a experiência da vida nova si efetuará. Faz um tempo um jovem, novo crente de somente cinco semanas, e que tinha sidoantes um violento opositor do Evangelho, assistiu a uma série de reuniões que eu 41
  • 42. presidia em Xangai. Depois de uma destas reuniões, na qual eu tinha falado sobre otema que nos ocupamos agora, foi a sua casa e começou orar intensamente: "Senhor, euquero o poder do Espírito Santo. Já que Tu és agora glorificado, não desejas derramar oteu Espírito sobre mim?". Depois se corrigiu: "Oh, não, Senhor, não é isso!". Erecomeçou a orar: "Senhor Jesus, nós estamos unidos numa mesma vida, Tu e eu, e oPai nos prometeu duas coisas: a glória para Ti e o Espírito para mim. Tu, Senhor, tensrecebido a glória; portanto, não é possível que eu não tenha recebido o Espírito. Senhor,eu te louvo. Tu tens já recebido a glória, e eu o Espírito". Daquele dia, o poder doEspírito entrou na consciência daquele jovem. A FÉ É AINDA A CHAVE Como no perdão, a vinda do Espírito Santo sobre nós é inteiramente uma questão defé. Apenas vemos o Senhor Jesus sobre a Cruz, sabemos que os nossos pecados sãoperdoados, e apenas vemos o Senhor Jesus sobre o Trono, sabemos que o Espírito Santofoi derramado sobre nós. A base sobre a qual recebemos o revestimento do EspíritoSanto não consiste nas nossas orações, nem no jejum, nem na esperança, masunicamente na ascensão de Cristo ao Trono. Aqueles que insistem sobre a esperançaorganizando "reuniões de esperança", somente erram, porque o dom não está reservadoa "algum privilegiado", mas é para todos, sendo que não foi acordado sobre a basedaquilo que somos, mas sobre a base daquilo que é Cristo. O Espírito foi derramado paraprovar a Sua bondade e a Sua grandeza, não a nossa. Temos recebido o perdão porqueCristo foi crucificado: fomos revestidos do poder do Alto, porque Ele foi glorificado. Sópelo Seu mérito possuímos tudo. Suponhamos que um incrédulo expresse o desejo deser salvo. Depois de lhe ter explicado o caminho da salvação, oramos com ele.Suponhamos agora que ele ore assim: "Senhor Jesus, eu acredito que Tu morreste pormim e que pode cancelar todos os meus pecados. Eu creio verdadeiramente que vás meperdoar". Vocês têm a certeza de que aquele homem é salvo? Quando terão a certeza de queele seja realmente nascido de novo? Não será quando ore: "Senhor, eu acredito que Tudesejas perdoar os meus pecados", mas quando diga: "Senhor, eu te agradeço porqueTu perdoaste os meus pecados. Tu morreste por mim; e por isso os meus pecados estãocancelados". Nós acreditamos que uma pessoa seja salva quando sua oração setransforma em louvor, quando cessa de pedir ao Senhor que a perdoe, e o louva porqueEle já o fez quando o sangue foi vertido. Podem também orar da mesma forma durante anos, sem nunca realizar a experiênciado Espírito Santo; porém, quando cessem de suplicar ao Senhor para que derrame o seuEspírito sobre vocês, louvando-O em vez disso com plena fé, tendo já recebido o Espírito,porque o Senhor Jesus já foi glorificado, descobrirão que o seu problema já foi resolvido.Deus seja louvado! Nenhum de seus filhos necessita desfalecer, nem esperar para que oEspírito lhe seja entregue. Jesus não deve ser feito Senhor; Ele já é o Senhor! Assim,não devo esperar para receber o Espírito: eu já o recebi! É toda uma questão de fé, quenos chega pela revelação. Assim que os nossos olhos são abertos para ver que o Espíritojá foi derramado, porque Jesus já foi glorificado, a oração muda em nossos corações emlouvor. Todas as bênçãos espirituais nos são entregues sobre uma base bem determinada. Osdons de Deus nos são oferecidos gratuitamente, mas de nossa parte devemos respondera certas condições para receber aqueles dons. Existe um passo, na Palavra de Deus, quenos mostra claramente quais são as condições de nossa parte para poder receber o domdo Espírito Santo: "Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós sejabatizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis odom do Espírito Santo. Porque a promessa vos pertence a vós, a vossos filhos, e a todosos que estão longe: a quantos o Senhor nosso Deus chamar" (Atos 2:38-39). Quatro coisas são mencionadas neste passo: o arrependimento, o batismo, o perdão eo Espírito Santo. As primeiras duas são condições, as últimas duas são dons. Quais sãoas condições impostas para termos o perdão dos pecados?. Segundo a Palavra são duas:o arrependimento e o batismo. A primeira condição é o arrependimento, que significa uma mudança de pensamento.Antes pensava que pecar fosse agradável, mas agora mudei de pensamento a esserespeito; outras vezes achava que o mundo era atraente, mas agora compreendo masclaramente o que é; antes pensava que teria sido uma coisa piedosa me converter numcrente, mas agora penso tudo o oposto. Houve uma época em que eu achava certascoisas deliciosas, agora as vejo com desgosto; havia outras que julgava de nenhum42
  • 43. valor, agora as observo e as considero como as mais preciosas. Nenhuma vida pode serrealmente transformada, se não passa por uma semelhante conversão de pensamento. A segunda condição é o batismo. O batismo é a expressão externa da fé interna.Assim que eu acredito sinceramente em meu coração que eu estou morto com Cristo,que fui sepultado e ressurreto com Ele, então peço o batismo. Por meio dele declaropublicamente aquilo em que creio com todo o meu coração. O batismo é a fé em ação. O perdão dos pecados é, então, submetido a duas condições fixadas por Deus: oarrependimento e a fé expressada publicamente. Estão arrependidos? Deram testemunhode sua união com o Senhor? Receberam então a remissão dos pecados e o dom doEspírito Santo? Vocês dizem ter recebido somente o primeiro destes dons e não osegundo. Contudo, amigo meu, Deus ofereceu dois dons se você cumpriu com estas duascondições. Por que você pegou um só? O que você faz com o segundo? Supunham que eu entre numa livraria e que escolha um livro em dois volumes pelopreço de R$ 500, que pague o preço inteiro, mas saia da loja com um volume só,deixando o segundo sobre o balcão. Reparando na distração, o que eu deveria fazer,segundo vocês? Deveria voltar à livraria para pegar o volume que completa a obra semminimamente pensar em pagar o que eu já paguei. Explicaria simplesmente ao lojista deter já pago os dois volumes e lhe pediria para me entregar o segundo volume; assim,sairia feliz da loja com meu livro debaixo do braço, sem ter pago nenhum suplemento.Nem fariam também vocês o mesmo numa situação análoga? Mas vocês estão nessa mesma condição. Se já cumpriram as condições, têm o direitoa receber os dois dons e não somente um. Vocês já retiraram o primeiro, por que nãopegam em seguida também o outro? Digam ao Senhor: "Senhor, eu me submeti àscondições necessárias para receber a remissão dos pecados e o dom do Espírito Santo,mas, em minha ignorância, somente peguei o perdão dos pecados. Agora venho a Ti parareceber o dom do Teu Santo Espírito e te agradeço e te louvo por isso". A DIFERENÇA DA EXPERIÊNCIA Talvez vocês se perguntem: "Como saberei que o Espírito Santo desceu sobre mim?"Eu não posso dizer como vocês saberão. A Palavra de Deus não nos descreve a sensaçãoe a emoção que experimentaram os discípulos naquele momento, no dia de Pentecoste.Nós não sabemos exatamente o que sentiram, mas sabemos que seus sentimentos e seucomportamento foram uma coisa fora do comum, porque quem os viu disse que estavambêbados. Quando o Espírito Santo desce sobre os filhos de Deus, acontecem coisas que omundo não sabe explicar-se. Podem ser manifestações sobrenaturais, ainda que nãosejam mas que um sentimento perturbador da presença de Deus. Nós não podemos,nem devemos nunca descrever as formas particulares dos fenômenos que acompanhama experiência, mas uma coisa é verdade: que todos aqueles sobre quem desce o EspíritoSanto, o sentem infalivelmente. Enquanto o Espírito Santo descia sobre os discípulos em Pentecoste, houve algumacoisa extraordinária na sua conduta, e Pedro deu uma prova àqueles que estavampresentes com uma poderosa explicação extraída da Palavra de Deus. Eis aqui, emsubstância, o que ele disse: "Assim que o Espírito Santo desce sobre os crentes, algunsprofetizam, outros têm sonhos, outros, visões. Isto é o que Deus declarou por boca doprofeta Joel". Mas Pedro profetizou? Em realidade não no senso que entendia Joel. Oscento e vinte profetizaram e tiveram visões? Isto não foi dito. Tiveram sonhos? Comopoderiam tê-los quando estavam todos acordados? O que queria dizer então Pedrocitando um parágrafo que parece ter pouco a ver com respeito ao advento? Nofragmento citado (Joel 2:28-29) se diz que a efusão do Espírito será acompanhada deprofecias, sonhos e visões, enquanto estas demonstrações parecem faltar no dia dePentecoste. Por outra parte, a profecia de Joel não fala de "um som, como de um vento veementee impetuoso" nem de "línguas repartidas, como que de fogo", como sinais queacompanhassem a efusão do Espírito Santo; contudo, estas coisas se manifestaram "nasala de cima". E onde se menciona, no profeta Joel, o falar em línguas? Ainda assim, emPentecoste, o fizeram. O que queria dizer então Pedro? Imaginemos enquanto cita a Palavra de Deus paraprovar que a experiência do Pentecoste é a efusão do Espírito anunciado por Joel,enquanto nem um único signo visível dos mencionados pelo profeta foi manifestado. Oque o livro menciona os discípulos não o experimentaram e o que eles experimentaram olivro não o menciona! A citação feita no discurso de Pedro parece desmentir suademonstração antes que confirmá-la. Qual é a explicação deste mistério? 43
  • 44. Lembremos que Pedro mesmo falava sob o controle do Espírito Santo. O livro de Atosdos Apóstolos foi escrito sob a inspiração do Espírito Santo e nem uma única palavra foiescrita ao acaso. Na existe nenhum erro, mas uma harmonia perfeita. Notematentamente que Pedro não disse: "O que vocês vêem e ouvem é a mostra daquilo quefoi dito pelo profeta Joel" (At 2:16). Não se trata do cumprimento, mas de umaexperiência da mesma ordem. "Isto é o que foi dito" quer dizer: "o que vocês vêem eouvem é da mesma ordem do que foi predito". Quando se trata de um cumprimento,cada experiência se repete e a profecia é profecia, os sonhos são sonhos, as visões sãovisões; mas quando Pedro diz "Isto é o que foi dito", não significa que aquilo que foianunciado se repita exatamente igual agora, mas que a experiência atual é da mesmaordem à da profecia antiga. "Isto" é como "aquilo"; "isto" é o equivalente de "aquilo";"isto" é "aquilo". O que fica em evidência pelo Espírito Santo por meio de Pedro é adiversidade das experiências. Os signos externos podem ser inumeráveis e diversos edevemos admitir que, talvez, sejam estranhos; mas o Espírito é Um, e é o Senhor (1Coríntios 12:4-6). Qual foi a experiência de R. A. Torrey quando o Espírito Santo desceu sobre ele,depois de anos de ministério? Deixemos que ele mesmo o diga em suas própriaspalavras: "Lembro perfeitamente o lugar onde estava ajoelhado em meu escritório... Era ummomento muito tranqüilo, um dos momentos de maior calma que eu tenha conhecido...Então Deus me disse, simplesmente, não de forma audível, mas dentro de meu coração:o Espírito está em você. Agora vá a predicar. Já o tinha dito em 1 João 5:13-14, masentão não conhecia bem a minha Bíblia como a conheço agora e Deus teve piedade daminha ignorância e falou diretamente a minha alma... Fui a predicar e depois daqueledia, até hoje, fui um servo novo... Algum tempo depois desta experiência (não melembro bem de quando), enquanto eu estava sentado em meu quarto...improvisamente... comecei a gritar (não estou habituado a semelhantes manifestações enão tenho um temperamento barulhento), mas gritei como o mais entusiasta dosmetodistas: Glória a Deus, glória a Deus, glória a Deus!, sem poder parar... Mas não foiaquele o momento em que fui imerso no Espírito Santo. Fui imerso no Espírito Santo noinstante em que o recebi com a simples fé na Palavra de Deus" 8. As manifestações externas, no caso de Torrey, não foram as mesmas descritas porJoel e por Pedro, mas "isto é aquilo". Não é uma imitação, ainda assim é a mesma coisa. E o que sentiu D. L. Moody, como se comportou quando o Espírito Santo desceu sobreele? "Eu gritava sem repouso a Deus para que me enriquecesse com o Seu Espírito. Então,um dia, em Nova Iorque —que dia!—, não posso descrevê-lo e falo disso raramente; éuma experiência quase demasiado sagrada para falar dela. Paulo teve uma experiênciada qual não falou durante quatorze anos. Posso somente dizer que Deus se revelou amim, e eu tive uma semelhante consciência de Seu amor que tive de pedi-Lhe de deter aSua mão. Continuei a predicar. Os sermões não eram diferentes, não apresentavamnovas verdades; porém centenas de pessoas se convertiam. Eu não gostaria de voltaraonde estava antes de ter tido esta experiência abençoada, ainda que me oferecessem omundo inteiro —não seria senão um minúsculo peso sobre a balança" 9. As manifestações externas que acompanharam a experiência de Moody não secorrespondem exatamente com a descrição de Joel ou com a de Pedro ou que a deTorrey, mas quem poderia duvidar que "esta" experiência de Moody não foi senão omesmo que "aquela" experimentada pelos discípulos em Pentecoste? Não foi a mesmamanifestação, mas a essência a certamente a mesma. E qual foi a experiência do grande Charles Finney, quando o poder do Espírito Santodesceu sobre ele? "Recebi um poderoso batismo do Espírito Santo, sem nenhuma particular espera, semter havido antes a mínima idéia que uma tal coisa fosse para mim, sem a lembrança deter jamais ouvido alguém falar disso sobre a terra; o Espírito Santo desceu sobre mim detal forma que me pareceu que penetrou o corpo e a alma. Nenhuma palavra poderiaexpressar o amor maravilhoso que se espalhou em meu coração. Chorei de gozo e deamor" 10.8 "O Espírito Santo – Quem é e o que faz", de R. A. Torrey, D. D. pp. 198-9.9 A vida de L. D. Moody e seu filho W. R. Moody.10 Autobiografia de Charles Finney, capítulo 2.44
  • 45. A experiência de Finney não foi certamente uma reprodução do Pentecoste, nem aexperiência de Torrey, nem a de Moody; mas "esta" certamente foi "aquela". Conquanto o Espírito Santo foi derramado sobre os filhos de Deus, as suasexperiências são muitos diferentes umas das outras. Alguns recebem uma nova visão;outros conhecem uma nova liberdade para conquistar as almas; outros proclamam aPalavra de Deus com nova energia, outros ainda são cheios de gozo celestial ou deentusiasmo desbordante. "Isto", e "isto" e "isto"... é "aquilo"! louvemos o Senhor porcada nova experiência que está em relação com a exaltação de Cristo, da qual se possaverdadeiramente dizer que "isto" é uma evidência de "aquilo". Não há nada deestereotipado nas vias de Deus com respeito a seus filhos. Não devemos, então, com asnossas prevenções e preconceitos, encerrar dentro de um compartimento fechado a obrado Espírito, tanto em nossas vidas como nas vidas dos outros. Isto se aplica tambémàqueles que exigem particulares manifestações do Espírito, como o "falar em línguas"como prova da vinda do Espírito sobre eles, e àqueles que negam a existência dequalquer manifestação. Devemos deixar a Deus a liberdade de agir como Ele quer, e dedar a expressão que deseja às obras que cumpre. Ele é o Senhor, portanto não está emnós Lhe impormos a nossa vontade. Alegremo-nos que Jesus está no Trono e louvemo-Lo porque, desde o momento desua glorificação, o Espírito foi derramado sobre todos nós. Quando o contemplamos láencima, e aceitamos a realidade divina em toda a sua simplicidade de fé, Oreconheceremos com tal segurança em nossos corações que ousaremos proclamar comconfiança: "isto" é "aquilo". A PERMANÊNCIA DO ESPÍRITO EM NÓS Nos deteremos, agora, no segundo aspecto do dom do Espírito Santo que, comoveremos no próximo capítulo, é mais particularmente o tema de Romanos 8. É do quefalamos, do Espírito que permanece em nós. "Se é que o Espírito de Deus habita emvós..." (Rm 8:9). "Se o Espírito daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habitaem vós..." (Rm 8:11). No que diz respeito à efusão do Espírito, tanto como no que concerne à presença doEspírito em nós, se queremos conhecer na prática o que é nosso de fato, necessitamos,antes que nada, da revelação divina. Quando vemos, objetivamente, Cristo como o Senhor glorioso —ou seja, comoelevado sobre o trono do céu—, experimentamos o poder do Espírito sobre nós. Quandovemos a Cristo nosso Senhor, subjetivamente —ou seja, como Senhor real de nossa vida—, conhecemos o poder do Espírito sobre nós. O remédio oferecido por Paulo aos crentesde Corinto contra a debilidade espiritual era a revelação do Espírito que permaneceneles. É importante observar que os crentes de Corinto estavam preocupados com ossinais visíveis das efusões do Espírito Santo, e faziam grande caso às "línguas" e aosmilagres, enquanto ao mesmo tempo a sua conduta estava cheia de contradições econstituía uma ofensa ao nome do Senhor. Eles tinham sem dúvida recebido o EspíritoSanto, mas não tinham conquistado a maturidade espiritual; e o remédio que Deusoferecia a eles para esta carência é exatamente o mesmo que hoje oferece à sua Igrejapara o mesmo inconveniente. Em sua carta Paulo escrevia: "Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que oEspírito de Deus habita em vós?" (1 Coríntios 3:16). Para outros crentes ele pedia a seuscorações fossem iluminados "...para que saibais..." (Efésios 1:18). O conhecimento dosfatos divinos era necessário aos crentes de então, e não o é menos para os crentes dehoje. Temos necessidade que os olhos de nossa inteligência se abram, a fim quesaibamos que Deus mesmo, com Seu Espírito Santo, veio a morar em nossos corações.Deus, então, está presente neles por meio do Espírito, e Cristo não está menos presente.Assim, se o Espírito Santo habita em nossos corações, também o Pai e o Filho habitam.Esta não é uma simples teoria ou uma doutrina, é uma preciosa, abençoada realidade.Talvez agora tenhamos compreendido que o Espírito mora realmente em nossoscorações, mas sabemos que Ele é uma pessoa? Temos entendido que possuir o Espíritoem nós significa ter em nós o Deus vivo? Para muitos crentes o Espírito Santo é completamente irreal. Eles o consideram comouma simples influência, boa sem dúvida, mas nada mais que uma influência. Em seupensamento confundem mais ou menos a consciência com o Espírito, como "algumacoisa" que os adverte e repreende quando tem agido errado, e que se esforça emmostrá-lhes como podem ser bons. A dificuldade para os crentes de Corinto não consistiano fato que o Espírito não habitasse neles, mas em não perceber a Sua presença. Assim, 45
  • 46. não compreendiam a grandeza de Aquele que tinha vindo morar em seus corações; porisso Paulo escreveu a eles: "Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espíritode Deus habita em vós?". Sim, aqui estava o remédio contra a sua falta deespiritualidade: simplesmente "saber" quem era Aquele que habitava neles. O TESOURO NO VASO DE BARRO Sabem, meus queridos amigos, que o Espírito que mora em vocês é Deus mesmo?Oh, se os nossos olhos se abrissem para ver a grandeza do dom de Deus! Oh, sepudéssemos compreender a riqueza dos recursos escondidos em nossos corações! Eupoderia gritar de júbilo diante do pensamento que "O Espírito que habita em mim não éuma simples influência, mas uma pessoa viva; é Deus mesmo! O Deus infinito está emmeu coração!". Eu me sinto incapaz de fazê-lhes compreender a alegria gloriosa destedescobrimento, que o Espírito Santo que mora em meu coração é uma pessoa. Possosomente repetir: "É uma pessoa!" Oh, amigos meus, gostaria de dizer cem vezes: "OEspírito de Deus que está em mim é uma pessoa! Eu sou somente um vaso de barro,mas levo um tesouro inestimável: o Senhor da glória! Todas as penas e os tormentos dosfilhos de Deus cessariam se seus olhos se abrissem para ver a grandeza do tesouroescondido em seus corações. Sabem que em seu coração estão todos os recursosnecessários para responder às exigências de todas as circunstâncias nas quais podem seencontrar? Sabem que é suficiente poder para remover a cidade onde moram? Sabemque é suficiente poder para incendiar o universo? Deixem-me dizê-lo mais uma vez —e odigo com o respeito mais profundo—: vocês nasceram de novo para o Espírito de Deus,levam a Deus em seu coração!" Ainda todas as leviandades dos filhos de Deus cairiam se eles compreendessem agrandeza do tesouro que foi colocado neles. Se vocês têm somente R$ 2 no bolso,podem caminhar alegremente pela rua e conversar com o coração ligeiro. De fato, nãolhes importaria perder seu dinheiro, porque tem bem pouco valor. Mas se levam R$100.000, o seu comportamento será completamente diferente, porque a situação serámuito diferente. Estarão muito contentes, mas não passearão distraidamente pela rua;de tanto em tanto deixarão deslizar sua mão sobre o vosso tesouro para assegurar-seque existe sempre, e prosseguirão com satisfação no caminho. Nos tempos do Antigo Testamento, existiam centenas de tendas no campo de Israel,mas uma dessas era diferente das outras. Dentro das tendas comuns cada um podiafazer o que desejava —comer ou jejuar, trabalhar ou repousar, ser felizes ou estartristes, ser barulhentos ou silenciosos-. Mas a outra tenda inspirava reverência e temor.Os filhos de Israel podiam entrar nas tendas comuns ou sair delas, falandobarulhentamente e rindo com alegria, mas quando se aproximavam daquela particulartenda, instintivamente caminhavam com respeito, e assim que se achavam diante delaabaixavam a testa num silencio solene. Ninguém podia tocá-la impunemente. Se umhomem ou um animal ousavam fazê-lo, a morte era a punição segura. O que havia departicular naquela tenda? Ela era o templo do Deus vivo. A tenda em si mesma não tinha nada de extraordinário, estava construídaexteriormente com material ordinário como as outras, mas o Deus Altíssimo a tinhaescolhido para fazer sua morada. Vocês compreendem o que aconteceu no momento da nossa conversão? Deus entrouem nosso coração para fazer seu templo. No tempo de Salomão Deus habitava num templo feito de pedra; hoje Ele mora numtemplo formado de crentes vivos. Quando nos persuadamos verdadeiramente que Deustem feito do nosso coração a sua habitação, qual sentimento de profunda reverênciaencherá a nossa vida! Todas as leviandades, todas as frivolidades desaparecerão assimcomo toda busca de satisfação pessoal, quando saibamos que somos o templo de Deus eque seu Espírito mora em nós. Estão convencidos que para onde vão, sempre, levamcom vocês o Espírito Santo de Deus? Não levam somente a Bíblia, e nem um ricoensinamento sobre Deus, mas Deus mesmo. A razão pela qual muitos crentes não conhecem o poder do Espírito em suas vidas,ainda que Ele more realmente em seus corações, é que são desrespeitosos.Desrespeitam porque seus olhos não foram ainda abertos para constatar a sua presença.A realidade existe, mas eles não a vêem. Como é que certos crentes vivem uma vida devitória, enquanto outros conhecem somente derrotas? A definição não reside no fato dapresença ou da ausência do Espírito (porque Ele habita no coração de cada filho deDeus), mas no fato que os primeiros reconhecem possuí-Lo e os outros, não. A revelação46
  • 47. explícita do fato que o Espírito habita em seus corações pode revolucionar a vida de cadacrente. A SOBERANIA ABSOLUTA DE CRISTO "Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, oqual possuís da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes compradospor preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo" (1 Coríntios 6:19-20). Estes versículos nos conduzem agora um passo adiante, porque ao nossoconhecimento de sermos a morada de Deus, deve necessariamente seguir o nossoabandono total nEle. Quando vemos que somos o templo de Deus, reconhecemosimediatamente que já não pertencemos mais a nós mesmos. A consagração seguirá àrevelação. A diferença entre os crentes vitoriosos e aqueles que ficam na derrota não édevida ao fato que os primeiros têm o Espírito e ou outros não, mas ao fato que osprimeiros sabem que Ele habita neles enquanto os outros ainda o ignoram: emconseqüência, os uns reconhecem a Deus seu direito, ao passo que os segundos sesentem ainda donos de si mesmos. A revelação é o primeiro passo rumo à santidade, e a consagração é o segundo. Devechegar um dia em nossa vida tão preciso quanto o dia de nossa conversão, no qualabandonemos cada direito sobre nós mesmos para submeter-nos à soberania absoluta deJesus Cristo. Deus pode provar a realidade de nossa consagração com manifestaçõespráticas mas, aconteça isso ou não, dever haver um dia em que, sem reservas,abandonemos a Ele tudo: nós mesmos, a nossa família, os nossos bens, os nossosassuntos e o nosso tempo. Tudo o que nós somos, tudo o que temos, é agora dEle, semreservas, inteiramente à sua disposição. Daquele dia não somos mais donos de nósmesmos, mas somente mordomos, administradores. Até que a soberania de Jesus Cristonão seja estabelecida em nosso coração, o Espírito não pode agir eficazmente em nós.Não pode dirigir a nossa vida até que não tenhamos confiado em suas mãos todocontrole sobre ela. Se não lhe entregamos plena autoridade sobre nossa vida, Ele podeestar presente, mas sem poder. A ação do Espírito está obstaculizada. Vivemos para oSenhor ou para nós mesmos? Esta pergunta é talvez demasiado genérica; permitam-meentão, ser mais preciso. Existe alguma coisa que Deus vos pede e que vocês Lherejeitam? Há algum ponto de atrito entre vocês e Deus? Somente quando cada contrasteseja eliminado e o Espírito Santo tenha recebido plena liberdade de ação, Ele poderáreproduzir a vida de Cristo em cada crente. Um amigo americano, que chamaremos Paulo e que agora está com o Senhor,acariciava desde a sua juventude o sonho de ser chamado, um dia, "doutor" Paulo. Muitojovem ainda, sonhava com o momento de entrar na Universidade e imaginava a simesmo, primeiro estudante e depois conseguindo se laurear em filosofia. Finalmenteteria chegado o dia em que todos o teriam saudado como "doutor Paulo". O Senhor o salvou e o chamou a predicar o Evangelho e muito rapidamente foi pastorde uma grande igreja. Contemporaneamente tinha terminado seus estudos no primeironível e se preparava para se doutorar mas, apesar dos brilhantes resultados obtidos nosestudos e o sucesso que tinha em seu ministério, não estava satisfeito. Ele era umcrente, mas a sua vida não se parecia com a de Cristo; tinha o Espírito de Deus nele,mas não gozava de sua presença nem experimentava seu poder. Dizia a si mesmo: "Soupredicador do Evangelho e pastor de uma Igreja. Recomendo aos meus ouvintes amar aPalavra de Deus, mas eu mesmo não a amo realmente. Os exorto a orar mas eu mesmonão encontro prazer em orar. Os exorto a viver uma vida santa, mas a minha vida não ésanta. Os aviso contra as tentações e o amor pelo mundo, mas ainda evitando-oexteriormente existe, no fundo de meu coração, um desejo muito forte por isso". Nesteestado de ânimo ele gritou ao Senhor para conduzi-lo a conhecer o poder do Espírito quemorava nele, mas embora orasse por meses não teve nenhuma resposta. Então jejuou esuplicou ao Senhor que lhe mostrasse se existia algum obstáculo em sua vida. Esta vez aresposta não demorou e foi a seguinte: "Eu desejo que você conheça o poder de meuEspírito, mas seu coração está apegado alguma coisa que eu não gosto. Abandonou-se amim, mas não completamente; você reteve uma coisa para você e acaricia ainda aambição de ser doutor". Talvez nem vocês, nem eu atribuiríamos demasiadaimportância ao fato de sermos chamados "doutor Paulo" antes que "senhor Paulo", maspara ele representava a vida mesma. O tinha sonhado desde a infância e tinha estudado por isso durante toda a juventude,com grande custo e esforço, e agora quase tinha alcançado, porque faltavam menos dedois meses para se doutorar. Ele se pus, então, a discutir com o Senhor: "É um 47
  • 48. inconveniente para mim ser doutor em filosofia? Não haverá mais glória para Teu nomese em vez de senhor Paulo existe um doutor Paulo a predicar o Evangelho?". Porém Deusnão muda de opinião e todos os argumentos do senhor Paulo não podiam modificar suadecisão. Todas as vezes que orava sobre este assunto recebia a mesma resposta.Quando viu que todas as discussões eram vãs, recorreu a uma espécie de compromissocom o Senhor. Prometeu servi-lo indo aqui e lá, fazer isto e aquilo, se Ele lhe concedessesomente se tornar doutor; mas o Senhor também não aceitou isso. E durante todo estetempo o senhor Paulo tinha uma sede sempre crescente da plenitude do Espírito. Esteestado de coisas continuou até o dia precedente ao último exame. Era uma sábado e o senhor Paulo dispunha-se a preparar seu sermão. Apesar do seuempenho não tinha nenhuma inspiração. Estava a ponto de alcançar o objetivo de suavida, mas Deus lhe mostrou claramente que devia escolher entre o poder que teriapodido dar-lhe o título de doutor e aquele que teria podido dar-lhe o Espírito de Deus.aquela noite se rendeu. "Senhor", disse, "eu estou pronto a ser simplesmente Paulo peloresto de minha vida, mas necessário conhecer o poder de teu Espírito em minha vida".Levantou-se do oratório e escreveu uma carta aos seus examinadores, pedindo serdispensado do exame da seguinte segunda-feira, explicando o motivo. Depois deitoudormir muito feliz, mas sem ter consciência de ter realizado uma experiência singular. Amanhã depois disse à assembléia que, pela primeira vez depois de seis anos deministério, não tinha um sermão para predicar e explicou a causa. O Senhor abençoouaquele testemunho público mais abundantemente que todos os seus sermões preparadoscom cuidado e daquele momento se serviu dele de uma forma completamente nova. Aoconhecer a separação completa do mundo não já como uma coisa externa, mas comouma profunda realidade interna, o gozo da presença e do poder do Espírito converteram-se em sua experiência cotidiana. Deus nos pede para regular as controvérsias que temos com Ele. Para o senhor Paulotratava-se de uma forte ambição, mas para nós pode ser alguma coisa muito diferente.Geralmente o abandono absoluto de nós mesmos ao Senhor depende de um único pontoparticular, e Deus nos pede justamente aquela coisa. Ele a quer porque deve possuir-noscompletamente. Fique muito impressionado com a autobiografia que escreveu um grandechefe político: "Eu não desejo nada para mim mesmo, desejo tudo para o meu país". Seum homem pode chegar a desejar que todo seja para seu país e nada para si mesmo,não podemos nós dizer ao nosso Deus: "Senhor, eu não quero nada para mim, mas tudopara Ti. Eu quero aquilo que Tu desejas, e não quero nada fora de tua vontade". Até quenão assumamos o nosso lugar de servos, Ele não poder tomar seu lugar de Senhor. Elenão nos chama para consagrar-nos a Sua causa, mas nos pede que nos abandonemossem condições à Sua vontade. Estamos prontos para fazer isto? Um outro amigo meu, como o senhor Paulo, tinha uma desarmonia com o Senhor.Antes de sua conversão tinha se apaixonado por uma jovem, e desde o momento em quefoi salvo tentou conduzi-la ao Senhor que ele amava, mas ela não quis saber de coisasespirituais. O Senhor mostrou ao meu amigo que a relação com esta jovem não era boae devia necessariamente acabar, mas ele estava profundamente apaixonado e quis queisso acontecesse, ainda que continuasse a servir o Senhor e a conduzir almas a Ele.Entretanto tornou-se sempre mais consciente e viva nele a necessidade de santidade, eeste sentimento começou a marcar para ele o início de dias negros. Ele pedia a plenitudedo Espírito para ser capaz de viver uma vida santa, mas parecia que o Senhor ignorassecontinuamente seu pedido. Uma manhã foi chamado a predicar numa outra cidade e seu tema foi o versículo 25do Salmo 73: "A quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu desejealém de ti". Quando ele voltou foi a uma reunião de oração, no curso da qual, sem saber,naturalmente, que ele tinha pregado esse mesmo dia sobre o mesmo versículo, umairmã leu o versículo, e acabou fazendo esta pergunta: "Podemos nós verdadeiramentedizer: "e na terra não há quem eu deseje além de ti?". Havia uma força nestas palavrasque foram diretamente ao seu coração, e ele deveu confessar de não poder dizer, comtotal sinceridade, de não desejar sobre a terra nem no céu outros senão o Senhor.Compreendeu imediatamente que, para ele, tudo dependia da sua obediência à renúnciada jovem que amava. Para outros, talvez, uma renúncia similar não teria sido difícil, porém para ele foimuito duro, ela representava tudo para ele. Começou, então, a discutir com o Senhor:"Senhor, irei ao Tibet a trabalhar para Ti, se me permites casar com aquela jovem". Maso Senhor pareceu importar-se muito mais de sua relação com aquela jovem do que comsua partida ao Tibet. A diferença prolongou-se por muitos meses e, como o rapaz orava48
  • 49. novamente pela plenitude do Espírito, o Senhor colocou novamente seu dedo na chaga.Porém um dia o Senhor triunfou, e o jovem, alçando os olhos a Ele, disse: "Senhor, euposso agora verdadeiramente dizer: "na terra não há quem eu deseje além de ti". Estefoi para ele o início de uma nova vida. Existe uma grande diferença entre um pecador perdoado e um pecador impenitente, eexiste uma grande diferença entre um crente consagrado e um crente indiferente. Queirao Senhor conduzir a cada um de nós a um pleno reconhecimento de sua senhoria. Se nosabandonamos completam a Ele e pedimos o poder do Espírito que habita em nós,podemos simplesmente olhar para cima e agradecer o Senhor por aquilo que já temcumprido. Podemos agradecê-Lhe com confiança porque a glória de Deus já encheu seutemplo. "Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita emvós, proveniente de Deus?" (1 Coríntios 6:19). CAPÍTULO 9 – O SIGNIFICADO E O VALOR DO SÉTIMO CAPÍTULO DA CARTA AOS ROMANOS Devemos agora voltar à carta aos Romanos. Nos detivemos no fim do capítulo 6 paraconsiderar dois temas ligados àquele estudo, ou seja, o desígnio eterno de Deus, que é arazão e o objetivo de nosso caminho com Ele, e o Espírito Santo em quem achamos aforça e os recursos necessários para perseguir este fim. Chegamos agora ao sétimocapítulo, um capítulo que muitos consideram quase supérfluo. Talvez seria assim, se oscrentes tivessem compreendido que a antiga criação foi realmente colocada de lado pelaCruz de Cristo, e que uma nova criação completamente nova foi introduzida mediante asua ressurreição. Se tivéssemos chegado ao ponto de "saber" realmente isto, de"reconhecer" isto, e de "apresentar nós mesmos" sobre este fundamento, então, talveznão teríamos necessidade do sétimo capítulo de Romanos Outros sentiram que este capítulo não está em seu lugar. O teriam colocado entre oquinto e o sexto. Depois Del capítulo 6 tudo é tão perfeito, tão claro, tão límpido; e entãoeste derrubamento e este grito: "Miserável homem que eu sou!". Pode se ver uma viradapior que essa? Porém, alguns pensam que Paulo descreve aqui a sua experiênciaprecedente à conversão, e o seu insucesso em observar as leis do bom israelita.Precisamos admitir efetivamente que algumas das coisas aqui descritas não entram naexperiência "cristã", e ainda muitos cristãos têm estas tristes experiências. Qual é,então, o ensino deste capítulo? O capítulo 6 nos fala da liberação do pecado. O capítulo 7 trata da liberação da lei. Nocapítulo 6, Paulo nos ensina como podemos ser libertos do pecado, e concluímos que étudo de que necessitamos. O capítulo 7 nos ensina que a liberação do pecado não é tudo,e que temos também necessidade de conhecer a liberação da lei. Se não formoscompletamente libertos da lei, não poderemos nunca conhecer a plena liberação dopecado. Mas qual é a diferença entre a liberdade do pecado e a liberdade da lei? Nóscompreendemos bem o valor da primeira, mas nem sempre compreendemos qual é anecessidade da segunda. Para entender isto devemos, antes que nada, perguntar-nos oque é a lei e qual seja o seu valor especial para nós. A CARNE E A DERROTA DO HOMEM Romanos 7 é uma lição nova para aprender. É o descobrimento do fato que eu estou"na carne" (Rm 7:5), que eu "sou carnal" (Rm 7:14) e que "eu sei que em mim, isto é,na minha carne, não habita bem algum" (Rm 7:18). Isto vai além das considerações dopecado, porque tem a ver também com o problema de agradar a Deus. Não se trata aquido pecado sob as suas diversas formas, mas do homem em seu estado carnal. Esteúltimo inclui o outro, mas nos conduz também a um grau avançado porque nos fazconhecer que no domínio do pecado somos totalmente impotentes e que "os que estãona carne não podem agradar a Deus" (Rm 8:8). Como chegamos, então, a esteconhecimento? Por meio da lei. Regressemos agora um instante sobre nossos passos para procurar poder descreveraquilo que, provavelmente, tenham experimentado muitos de nós. Muitos cristãos sãoverdadeiramente salvos, e apesar disso estão ainda amarrados às ligaduras do pecado. Naturalmente não vivem continuamente sob o domínio do pecado, mas existem certospecados particulares que os atacam de contínuo, e no final eles cedem sempre. Mas, umdia, ouvem a mensagem completa do Evangelho, compreendem que o Senhor Jesus nãosomente morreu para purificar-nos pó pecado, mas que quando morreu, incluiu todos 49
  • 50. nós pecadores em sua morte; assim não somente os nossos pecados foram cancelados,mas nós mesmos fomos crucificados. Seus olhos foram abertos, eles experimentaram sercrucificados com Cristo. Duas coisas vêm após esta revelação. Em primeiro lugar opecador reconhece de estar morto e ter ressuscitado com seu Senhor; em segundo lugar,ouvindo o apelo que Deus lhe dirige, e reconhecendo de não ter mais direito algum sobresi mesmo, se apresenta a Deus como um morto que voltou viver. Este é o início de umabela vida cristã plena de gratidão ao Senhor. Mas a seguir começa a pensar: "Eu morri com Cristo e ressuscitei com Ele, me dei aEle para sempre. Agora devo fazer alguma coisa para Ele, porque Ele fez tudo por mim.Eu desejaria agradá-Lo e fazer a Sua vontade". Assim, depois do passo da consagração,ele tenta de conhecer a vontade do Senhor para obedecê-Lo. Então, faz um estranhodescobrimento. Pensava de poder cumprir a vontade de Deus, porque acreditava que oamava, mas, pouco a pouco se persuade que não o ama sempre. Tenta, as vezes, umaclara resistência à vontade divina e, freqüentemente, quando se esforça para cumpri-la,se encontra na impossibilidade de fazê-lo. Começa então a duvidar de sua experiência.Se pergunta: "Será que verdadeiramente tive uma revelação? Sim. Percebi realmente?Sim. Me entreguei em verdade ao Senhor? Sim. Terei talvez renegado da minhaconsagração? Não. Então, de onde provém a dificuldade?" E, mais o homem tenta fazer avontade de Deus, mais parece se distanciar. Acaba então por concluir que nunca amouverdadeiramente a vontade de Deus. Começará então a orar para ter o desejo e o poderde cumpri-la. Confessa a sua desobediência e promete não desobedecer mais. Mas,apenas volta se levantar, depois de ter orado, recai ainda uma vez; antes de chegar àvitória é consciente da derrota. Ele se diz então: "Talvez a minha última decisão não foisuficientemente firme. Esta vez desejo ser absolutamente forte". Tenta concentrar toda asua força de vontade para alcançar a obediência, mas somente para achar uma maiorderrota, a qual deverá seguir uma nova escolha. Ecoarão então em seu coração aspalavras de Paulo: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bemalgum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não façoo bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico" (Rm 7:18-19). O QUE ENSINA A LEI Muitos crentes se encontram de repente lançados na experiência de Romanos 7, semcompreender o motivo. Eles imaginam que Romanos 6 seja absolutamente suficiente.Porque o aceitaram, pensam que já não pode existir mais perigo de quedas, e a suamaior surpresa é a de encontrar-se na frente Romanos 7. Como se explica isto? Acontece, principalmente, que um ponto está bem claro para nós, ou seja, que amorte com Cristo, como descrita em Romanos 6, é plenamente suficiente para respondera cada nossa necessidade. É a explicação desta morte, com todo aquilo que se segue nocapítulo 6, que está agora incompleta em nós. Ignoramos ainda a verdade descrita nocapítulo 7. De fato, este capítulo está destinado a explicar-nos e avivar em nós adeclaração feita em Romanos 6:14: "o pecado não terá domínio sobre vós, porquantonão estais debaixo da lei, mas debaixo da graça". Estamos em dificuldades porque nãoconhecemos bem ainda a liberação da lei. Qual é então o significado da lei? a graçasignifica que Deus faz alguma coisa para mim; a lei significa que eu faço alguma coisapara o Senhor. Deus tem exigências de santidade e de justiça às quais sou chamado aresponder: esta é a lei. Ora, se a lei significa que Deus me pede para cumprir certascoisas, a liberação da lei significa que fui dispensado, porque proveu Ele mesmo. A lei éuma exigência de parte de Deus que eu devo cumprir; a liberação da lei significa que fuiisento do cumprimento, porque, pela Sua graça, cumpriu Ele mesmo o que esperava demim. Eu (ou seja, o homem "carnal" de Romanos 7:14) não necessito fazer nada para oSenhor: esta é a liberação da lei. A dificuldade de Romanos 7 consiste no fato que ohomem com a sua natureza pecaminosa se esforça para fazer alguma coisa para oSenhor. Se procurarmos gostar a Deus por este meio, nos colocamos sob a lei, e aexperiência de Romanos 7 se converte na nossa. Enquanto procuramos compreenderisso, deve ficar bem claro, desde o princípio, que o erro não está na lei. Paulo diz: "a leié santa, e o mandamento santo, justo e bom" (Rm 7:12). Não há nada de mau na lei,mas existe alguma coisa decididamente malvada em mim. As exigências da lei sãojustas, mas o homem a quem é imposto o dever de cumpri-las é injusto. A dificuldadenão reside no fato que as exigências da lei sejam injustas, mas no fato que eu souincapaz de cumpri-las. Seria natural que o governo me impusesse uma taxa de R$50.000, mas seria injusto se eu tivesse somente R$ 50 para pagá-lo.50
  • 51. Eu sou um homem "vendido sob o pecado" (Rm 7:14). O pecado domina sobre mim.Em verdade, enquanto me deixa em paz posso parecer um homem bom. Mas quando meé pedido fazer alguma coisa, então a minha natureza de pecado se manifesta. Suponhamos que tenham um servo doente e que ele fique simplesmente sentado semfazer nada; a sua indisposição não será vista. Se não faz nada em todo o dia, será poucoútil, em verdade, mas não causará dano algum. Mas se vocês lhe pedem: "Vamos, nãoperca mais tempo, levante e faça algo", então as dificuldades começarão. Alçando-se,fará cair a cadeira, tropeçará num banquinho, quebrará um vaso precioso apenas otoque. Se não lhe pedem para fazer nada, a sua enfermidade não se manifestará; masdesde o momento em que vocês lhe dêem uma ordem, a sua indisposição será evidente.As ordens eram justas, mas o homem não estava em condições de executá-las. Estavadoente tanto quando estava sentado como quando trabalhava, mas quando lhe foi pedidode servir foi revelado o seu estado de saúde. Nós somos todos pecadores por natureza. Se Deus não nos pede nada, todo pareceandar bem, mas apenas Ele exige alguma coisa de nós, é a ocasião para demonstrar anossa miserável natureza. A lei deixa em evidência a nossa debilidade. Enquanto ficotranqüilo, pareço em perfeito estado, mas apenas se apresenta a exigência de cumpriralguma coisa, não existe em mim a possibilidade de fazê-lo. Uma lei santa e justa nãopode ser respeitada e cumprida por um homem pecador. No momento em que essehomem deva observá-la escrupulosamente, se manifestará plenamente a suaincapacidade e seu estado de pecado. Deus sabe quem eu sou; Ele sabe que da cabeça aos pés estou cheio de pecado; Elesabe que sou a debilidade em pessoa, que não posso fazer nada. O problema é que eunão o sei. Admito, sim, que todos os homens são pecadores, e que, em conseqüência,também eu sou pecador, mas penso de não ser tão malvado quanto os outros. Deus nosdeve conduzir ao ponto no qual possamos ver que somos profundamente fracos eimpotentes. Podemos reconhecer isto sem acreditá-lo completamente; assim Deus devefazer alguma coisa para nos convencer. Sem a lei não teremos nunca conhecido a medida de nossa debilidade. Paulo chegou acompreendê-lo. Ele nos mostra claramente quando diz em Romanos 7:7: "eu nãoconheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei nãodissesse: Não cobiçarás". Qualquer tenha sido a sua experiência a respeito dos outrosmandamentos, foi o décimo (que traduzido literalmente significa: "Não desejarás") o queo fez conhecer a sua verdadeira natureza. Aqui ele percebeu a sua total incapacidade! Mais nos esforçamos em observar a lei, mais a nossa debilidade se manifestará eafundaremos mais profundamente em Romanos 7, enquanto não fiquemos plenamenteconvencidos de nossa desastrosa debilidade. Deus sabia tudo isso, mas nós oignorávamos, e por isso Ele deve conduzir-nos através de experiências dolorosas até quereconheçamos esta verdade. Devemos ter a prova incontestável de nossa debilidade. Por isto Deus nos deu a lei. Assim podemos dizer, com respeito, que Deus não nosdeu a lei para que a observemos, mas para que a transgredíssemos. Ele sabia bem eéramos incapazes de cumpri-la. Nós somos tão malvados que Ele não nos pede nenhumfavor nem espera nenhum serviço. Nunca homem algum conseguiu agradar a Deus pormeio Deus da lei. No Novo Testamento não está escrito de observar a lei, mas é dito quea lei foi dada para que houvesse transgressão. "Sobreveio, porém, a lei para que aofensa abundasse" (Rm 5:20). A lei nos foi dada para fazer-nos conhecer que éramostransgressores! Sem dúvida alguma, eu sou um pecador em Adão, mas "eu não conhecio pecado senão pela lei... porquanto onde não há lei está morto o pecado... mas assimque veio o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri" (Rm 7:7-9). Por meio da lei serevela a nossa verdadeira natureza. Apesar de tudo, somos tão orgulhosos e nos cremostão fortes que Deus deve fazer-nos atravessar uma prova para mostrar-nos quão fracossomos. Quando finalmente o percebemos, confessamos: "Eu sou um pecador da cabeçaaos pés, e não posso próprio fazer nada por mim mesmo para gostar a Deus". Não, a lei não foi entregue com a esperança que nós pudéssemos observá-la. Ela foidada com a plena certeza que seria violada; e quando a transgredimos tão plenamente aponto de ficarmos convencidos de nossa extrema miséria, a lei alcançou seu objetivo. Elafoi o nosso pedagogo (aio) para conduzir-nos a Cristo, a fim que Ele mesmo a cumprissepor nós. "A lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela féfôssemos justificados" (Gálatas 3:24). CRISTO, ATÉ A LEI 51
  • 52. Vimos em Romanos 6 como Deus nos liberou do pecado; depois, em Romanos 7 comonos libera da lei. No cap 6, a liberação do pecado está explicada com a figura de umpatrão e o ser escravo; no capítulo 7, a liberação da lei está mostrada com a figura dedois maridos e de uma única esposa. A relação entre o pecado e o pecador é aquela do patrão e o escravo; a relação entrea lei e o pecador é aquela do marido e a mulher. Consideremos, antes que nada, este texto: "Ou ignorais, irmãos (pois falo aos queconhecem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que ele vive?Porque a mulher casada está ligada pela lei a seu marido enquanto ele viver; mas, se elemorrer, ela está livre da lei do marido. De sorte que, enquanto viver o marido, seráchamada adúltera, se for de outro homem; mas, se ele morrer, ela está livre da lei, eassim não será adúltera se for de outro marido. Assim também vós, meus irmãos, fostesmortos quanto à lei mediante o corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, àquele queressurgiu dentre os mortos a fim de que demos fruto para Deus" (Rm 7:1-4). Nesta figura que ilustra a nossa liberação da lei, há uma única mulher, enquanto hádois maridos. A esposa está numa posição muito difícil, porque não pode ser mulhersenão de um só dos dois, e desgraçadamente está unida àquele menos agradável dosdois. Não nos enganemos, o homem ao qual ela está ligada é um homem bom e se aquiexiste uma dificuldade, é porque o marido e a mulher não foram feitos o um para aoutra. Ele é um homem muito meticuloso, correto no modo mais elevado; ela, aocontrário, é completamente desprezível. Nele tudo é definido e preciso, nela tudo édesordenado e abandonado. Ele deseja que todo esteja em seu lugar; ela deixa as coisasassim mesmo, onde caem. Como poderá haver harmonia numa tal casa? E depois, o marido e tão exigente! Sempre reclama de alguma coisa à mulher. Eninguém pode dizer que esteja errado, porque como marido tem o direito de ser lei,tanto mais que suas reclamações são perfeitamente legítimas. Não existe nada de mauneste homem, não há nada de errado em suas exigências; mas o problema é que nãotem a mulher justa para satisfazê-lo. São dois seres que não poderão se entender nunca:as suas naturezas são demasiadamente contrastantes. A pobre mulher encontra-se assimnuma grande angústia. Ela é plenamente cônscia de continuamente cometer falhas;porém vivendo com semelhante marido, parece que todo o que ela faz esteja errado.Que esperanças há para ela? Se somente estivesse casada com outro homem, talveztodo iria melhor. Ele não seria menos exigente que este marido, mas saberia ajudá-lamais. Ela estaria feliz de desposá-lo, mas seu marido ainda está vivo. Como poderiafazer? Ela está "ligada pela lei a seu marido enquanto ele viver" e, a menos que elemorra, não pode legitimamente casar que o outro homem. Esta figura não é minha, mas do apóstolo Paulo. O primeiro marido representa a lei, osegundo, Cristo; e nós somos a mulher. As exigências da lei são infinitas, mas nãooferecem nenhuma ajuda para serem cumpridas. As exigências do Senhor Jesus sãoigualmente grandes, sim, e ainda maiores (Mateus 5:21-48), mas o que nos pede Elemesmo o tem realizado em nós. A lei nos dá ordens e nos deixa incapazes de obedecê-las; Cristo nos dá ordens, mas Ele mesmo já cumpriu as suas prescrições. Não devemos surpreender-nos se a mulher deseja liberar-se do primeiro marido paraunir-se com este outro homem! A sua única esperança de liberação está na morte doprimeiro marido; mas ele está firmemente apegado à vida. Não existe nenhumapossibilidade de que morra. "Até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til seomitirá da lei, sem que tudo seja cumprido" (Mateus 5:18). A lei existe para toda a eternidade. Mas se a lei não desaparecerá nunca, como possoeu estar unido a Cristo? Como posso desposar meu segundo marido, se o meu primeirose recusa energicamente a morrer? Não há mais que uma saída. Se ele não quer morrer,posso morrer eu, e se eu morro a ligação do matrimônio será rompida. Este éexatamente o meio pelo qual Deus nos libera da lei. O ponto mais importante a notar emRomanos 7 é a passagem do versículo 3 ao versículo 4. Nos versículos 1 a 3 nos foimostrado que o marido deve morrer, mas no versículo 4, em realidade vemos que é amulher quem morre. A lei não acaba, sou eu que morro e pela morte sou liberado da lei.Entendamos bem, com claridade, que a lei não passará nunca. As exigências justas deDeus existem sempre e se eu vivo devo responder a estas exigências; mas se morro a leiperde os seus direitos sobre mim. Ela não pode me seguir além do túmulo. Assim exatamente o mesmo princípio tem cumprido a nossa liberação da lei e a nossaliberação do pecado. Quando eu morri, o meu velho patrão, o pecado, continua a viver,mas o poder que tem sobre seu escravo chega até o túmulo e ali acaba. Pode meempurrar a fazer cem coisas enquanto eu tenho vida, mas quando estou morto me52
  • 53. chama em vão. Agora estou livre de sua tirania. É a mesma coisa à respeito da lei.Enquanto a mulher vive está ligada ao marido, mas, pela sua morte, o vínculo domatrimônio é revogado, e ela é "liberada da lei do marido". A lei pode ainda ter as suasexigências, mas já não tem mais o poder de as impor a ela. Agora surge a pergunta vital: "Como posso morrer?" É aqui si vê tudo o valor preciosoda obra do nosso Senhor: "Assim também vós, meus irmãos, fostes mortos quanto à leimediante o corpo de Cristo" (Rm 7:4). Quando Cristo morreu, seu corpo foi destruído, ecomo Deus nos colocou nEle, também eu fui destruído. Quando Ele foi crucificado, eu fuicrucificado com Ele. Diante de Deus, a sua morte incluía a minha. Sobre o monte doCalvário isso foi cumprido de uma vez e para sempre. O marido da mulher é talvez muitoforte e cheio de vida, mas se ela morre, não poderá mais lhe impor as suas exigências;elas não terão mais poder sobre ela. A morte a libertou de todos os direitos do marido.Nós estávamos no Senhor Jesus quando Ele morreu; sua morte, que incluiu a nossa, nosliberou para sempre da lei. Mas não é tudo. O nosso Senhor não ficou no sepulcro. Noterceiro dia Ele ressuscitou; e como nós ainda estamos nEle, ressuscitamos também nós.O corpo do Senhor Jesus fala não somente de sua morte, mas de sua ressurreição,porque a sua ressurreição foi uma ressurreição corpórea. Assim, "pelo corpo de Cristo"nós estamos não somente "mortos para a lei", mas vivos para Deus. Unindo-nos a Cristo, Deus não tinha só um objetivo negativo: tinha um gloriosamentepositivo. "Assim também vós... fostes mortos quanto à lei... para pertencerdes a outro"(Rm 7:4). A morte dissolveu a ligação do primeiro matrimônio, de forma que a mulher,empurrada à desesperação pelas contínuas exigências do primeiro marido, que nuncateria alçado um dedo para ajudá-la, está finalmente livre para desposar este outrohomem, que para cada coisa que lhe peça, dará a ela a força necessária para cumpri-la. E qual será o resultado desta nova união? "A fim de que demos fruto para Deus" (Rm7:1-4). No corpo de Cristo, esta mulher insensata e pecadora está morta, mas como elase uniu a Ele em sua morte, está da mesma forma ligada a Ele em sua ressurreição, e nopoder da vida ressurreta leva frutos a Deus. A vida ressuscitada do Senhor nela acapacita para responder em tudo o que a santidade de Deus exige da lei. A lei de Deusnão foi anulada, antes bem é perfeitamente cumprida, porque o Senhor ressurreto viveagora sua vida na lei e a sua vida é sempre agradável ao Pai. O que acontece quandouma mulher se casa? Ela deixa de levar seu nome de nascimento e toma o de seumarido; e herda não somente o nome, mas também seus bens. Tudo aquilo que pertencea ele pertence igualmente a ela. A mesma coisa acontece quando nós nos unimos aCristo; todo o que é dEle passa também a ser nosso e, com seus recursos infinitos anossa disposição, seremos capazes de responder a todos seus pedidos. O FIM DE NÓS MESMOS É O PRINCÍPIO DE DEUS EM NÓS Depois de ter definido o aspecto doutrinal do problema, devemos agora chegar àsaplicações práticas, detendo-nos ainda um pouco sobre a parte negativa dasexperiências, para conservar a parte positiva do próximo capítulo. O que significa, navida de cada dia, sermos liberados da lei? Significa que, agora, eu não tenho mais nada afazer para agradar a Deus, mas me esforçarei cada vez mais para agradecê-Lhe. "Quedoutrina!", exclamarão vocês: "Que tremenda heresia! Não é mesmo isso o que vocêquer dizer!" Lembremo-nos que se eu tento de agradar a Deus "na carne", me colocoimediatamente sob a lei. Eu transgredi a lei; a lei pronunciou a sentença de morte; asentença teve a sua execução e agora, mediante a morte do meu "eu" carnal, fuiliberado de todos os seus tentáculos. Existe ainda uma lei de Deus, e existe, agora,verdadeiramente, um "mandamento novo", que é infinitamente mais severo que aqueleantigo, mas —Deus seja louvado!—, estas exigências estão satisfeitas porque Cristo ascumpriu; é Cristo quem produz em mim aquilo que é agradável a Deus. "(Eu) vim...(para) cumprir (a lei)". Estas foram suas palavras (Mateus 5:17). É assim que Paulo, apoiando-se sobre a certeza da ressurreição, pode escrever:"Efetuai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tantoo querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Filipenses 2:12-13). "É Deus que opera em vós". Liberação da lei não significa para nada que sejamosdispensados do cumprimento da vontade de Deus. Isso não significa certamente queviveremos sem lei. Ao contrário! O que significa agora é que nós estamos livres doesforço de cumpri-la por nós mesmos. Plenamente convencidos da incapacidade deobedecê-la, cessamos todo esforço de agradar a Deus sobre a base do nosso velho 53
  • 54. homem. Chegados, finalmente, o ponto de desconfiar das nossas capacidades, colocamostoda a nossa confiança no Senhor, para que Ele manifeste a Sua vida ressurreta em nós. Permitam-me ilustrar isto com uma cena da realidade de meu país. Na China, certoscarregadores conseguem levantar sacolas com pesos de 120 kg, outros chegam até 250kg. Vem um homem que tem a força para levantar 120 kg, e se encontra diante de umpeso de 250 kg. Ele sabe perfeitamente que não poderá levantá-lo, e se é esperto dirá:"Eu não posso nem sequer tentar". Mas a tentação de provar faz parte da naturezahumana, assim, ainda sabendo de sua incapacidade, ele tenta de levantar aquele peso.Quando eu era um rapaz me divertia amiúde observando dez ou vinte destes homensenquanto se esforçavam para demonstrar entre eles a sua força, ainda sabendo de nãopoder superar o limite; acabavam por ceder passo aos mais fortes, os que tinham acapacidade necessária. Também nós devemos abandonar o antes possível as nossas tentativas de fazer ascoisas sozinhos, porque enquanto monopolizarmos o trabalho, não deixamos espaço parao Espírito Santo. Mas se dizemos: "Senhor, eu não posso fazer isto e confio em Ti, paraque Tu o faças por mim", acharemos uma força superior à nossa que age por nós. Em 1923 encontrei um célebre evangelista do Canadá. Num discurso, eu tinha faladoalguma coisa sobre o tema de que estamos nos ocupando. Enquanto voltávamos juntos àsua casa, depois da reunião, ele observou: "É raro, em nossos dias, que alguém fale deRomanos 7; é bom que este argumento seja lembrado. O dia em que eu fui liberto da lei,foi como se para mim tivesse descido o céu na terra. Depois de anos de vida cristã, eufazia ainda todos os meus esforços para agradar a Deus, mas mais tentava de fazê-lo,menos conseguia. Considerava a Deus como a pessoa mais exigente do universo e mesentia impotente para corresponder os seus mínimos requerimentos. Improvisamente,um dia, enquanto lia Romanos 7, se fez a luz no meu espírito e vi que, não somente euestava livre do pecado, mas também da lei. Na minha maravilha, me levantei de um puloque exclamei: "Senhor, então é verdade que Tu não exiges nada de mim? Então nãopreciso fazer nada para Ti!" As exigências de Deus não mudaram, mas nós continuamos sempre naimpossibilidade de satisfazê-las. Deus seja louvado! Ele é o legislador e aquele queobedece no meu coração. Ele que deu a lei e também Ele que a observa. Ele faz ospedidos, mas Ele mesmo os responde. O meu amigo podia verdadeiramente pular e gritar de alegria, quando entendeu quenão tinha mais nada a fazer, e todos aqueles que fazem este descobrimentoexperimentarão o mesmo alívio. Enquanto nos esforcemos para fazer alguma coisa, Deusnão pode agir em nós. E justamente a causa dos nossos esforços que caímos e voltamoscair. Deus quer nos mostrar que não sabemos que não podemos fazer nada por nósmesmos, e até que o reconheçamos plenamente, os nossos desapontos e as nossasdesilusões não cessarão. Um irmão que tentava de chegar à vitória lutando, me fez, um dia, esta confissão: "Eunão sei por que sou tão fraco". Eu respondi: "O seu mal é que você é demasiado fracopara cumprir a vontade de Deus, mas não é bastante fraco para não tentar de fazê-la.Você não é ainda bastante débil. Quando seja reduzido a uma debilidade extrema, e sejapersuadido de sua absoluta incapacidade, então Deus fará tudo". Nós todos precisamosde chegar no ponto de dizer finalmente: "Senhor, sou incapaz de fazer a mínima coisapara Ti, mas confio em Ti, para que Tu faças cada coisa em mim". Me achava, um dia, na China, com uma vintena de outros irmãos, numa casa cujainstalação do banheiro era insuficiente; íamos então, cada manhã, a mergulhar no marna praia vizinha. Um dia, um irmão, enquanto nadava, sofreu uma câimbra e eu o visubitamente desaparecer sob as águas; fiz então um sinal a um outro irmão, hábilnadador, para que se precipitasse em sua ajuda. Mas, ante o meu grande estupor, elenão se mexeu. Comecei a me preocupar seriamente e lhe gritei: "Não vê que o homemestá se afogando?", e os outros irmãos, angustiados como eu, gritavam também eles atodo volume. Mas o bom nadador não se mexia. Calmo e tranqüilo, ele estava imóvelcom o ar de quem se recusa a fazer uma coisa desagradável. Entanto, a voz do pobreirmão que se afogava era cada vez mais fraca, e seus esforços diminuíam. Eu pensei, emmeu coração: "Este homem não tem coração! Pode deixar se afogar um irmão sob seunariz sem socorrê-lo!" Mas, no momento em que o irmão desapareceu sob as ondas, em poucas e rápidasbraçadas o destemido nadador aproximou-se dele e os dois estiveram pronto a salvosobre a praia. Apenas tive a ocasião, declarei-lhe os meus sentimentos: "Nunca vi umcrente que pensasse em si mesmo como você. Pense um pouco no sofrimento que você54
  • 55. poderia ter evitado àquele irmão se tivesse pensado menos em você mesmo e maisnele". Mas o nadador sabia melhor que eu o que era preciso fazer. "Se eu tivesse melançado antes", me disse, "ele teria se pendurado de mim, e os dois teríamos nosafogado. Um homem que se afoga pode ser salvo somente quando está completamexausto, e já não pode fazer esforços para se salvar a si mesmo". Vocês percebem? Nós paramos de tentar fazer uma coisa, Deus a pega em sua mão.Ele compreende que estamos no extremo de nossos recursos e que não podemos fazermais nada por nós mesmos. Deus condenou tudo aquilo que fazia parte da velha criação,e o encravou sobre a Cruz. A carne não presta para nada! Deus disse que é digna só demorte. Se acreditarmos nisto, verdadeiramente devemos confirmar a sentença de Deus,abandonando todo esforço de vontade para agradá-Lo. Porque cada tentativa nossa decumprir com a Sua vontade é uma desmentida que opomos àquilo que Ele declarou coma Cruz; ou seja, que somos completamente impotentes para fazê-lo. Guardando a lei pensamos de devê-la cumprir, mas devemos lembrar-nos que, pormuito que a lei seja perfeitamente boa em si mesma, já não o é quando aplicada apessoas que não podem observá-la. O "miserável" de Romanos 7 se esforçava paracumprir ele mesmo o mandamento da lei, e essa era a causa do seu tormento. O repetido uso do pronome "eu" neste capítulo nos deve fazer compreender a causada falha. "Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico" (Rm7:19). Havia um erro fundamental de conceito no pensamento deste homem. Eleimaginava que Deus lhe pedisse de observar a lei, e então tentava naturalmente de fazê-lo. qual era o resultado? Longe de fazer o que era agradável a Deus, achou-se tentandocumprir o que lhe desagradava. Em seu próprio esforço para cumprir a vontade de Deus,fazia exatamente o contrário daquilo que sabia ser essa vontade. GRAÇAS SEJAM DADAS A DEUS! Romanos 6 se ocupa do "corpo do pecado", Romanos 7 do "corpo da morte" (Rm 6:6;7:24). No capítulo 6 todo o argumento é o pecado, no capítulo 7, a morte. Que diferençaexiste entre o corpo do pecado e o corpo da morte? No que concerne ao pecado (ou sejatudo o que desgosta a Deus), eu tenho um corpo de pecado, vale dizer, um corpoapegado ativamente ao pecado. Mas no que concerne à lei de Deus (ou seja aquiloexpressa a vontade de Deus), eu tenho um corpo de morte. Toda a minha atividade quetem a ver com o pecado faz do meu corpo um corpo de pecado; o meu falho no que dizrespeito à vontade de Deus faz do meu corpo um corpo de morte. Pela minha natureza,aceito tudo aquilo que é mau, tudo aquilo que é mundano e de Satanás, e rejeito tudoaquilo que pertence à santidade, ao céu, a Deus. O que significa a morte? Poderemoscompreendê-lo com a ajuda de um fragmento bem conhecido da primeira epístola aosCoríntios: "Por causa disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos quedormem" (1 Co 11:30). A morte é a debilidade chegada ao seu limite extremo:debilidade, enfermidade, morte. A morte significa debilidade absoluta: ela significa quesão fracos a ponto de não poder ficar mais fracos. O fato que eu tenha um corpo demorte, no que diz respeito à vontade de Deus, significa que sou tão débil quando devoservi-Lo, tão profundamente débil, que tenho caído no abandono mais terrível."Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" se lamentaPaulo (Rm 7:24); e é bom quando um homem emite semelhante brado. Não há nadamais doce aos ouvidos do Senhor. Este é o grito mais espiritual e mais coerente com asEscrituras. Efetua-se somente no momento em que já não pode se fazer mais nada erenuncia, então, a tomar qualquer outra resolução. Até aquele momento, depois de cadafracasso, decidia de forma diferente, redobrando sempre a sua força de vontade. Até quedescobre que todo esforço é em vão, e grita com desesperação: "Miserável de mim!"Como um homem que acorda sobressaltado com a casa em chamas, ele grita parareceber ajuda, porque chegou a ponto de desesperar de si mesmo. Desesperaram de vocês mesmos, ou ainda acham que consagrando mais tempo àleitura da Palavra de Deus e à oração serão melhores crentes? A leitura da Palavra deDeus e a oração são necessárias, não queremos diminuir seu valor, mas é um erroacreditar que por meio delas alcançaremos a vitória. Nosso socorro está nAquele que é oobjeto de nossa leitura e de nossa oração. A nossa confiança deve ser colocada somenteem Cristo. Graças a Deus "o homem miserável" não deplora simplesmente sua miséria;faz uma boa pergunta: "Quem me livrará?" Quem? Até aqui ele esperou alguma coisa, agora ele coloca a sua esperança numapessoa. Ate aqui tinha tentado por si mesmo a solução de seu problema; agora olha alémdele mesmo para achar um salvador. Não confia mais em seus esforços pessoais; todas 55
  • 56. as suas esperanças estão agora depositadas em Outro. Como recebemos o perdão dospecados? Foi pela leitura, pela oração, pelas esmolas ou por alguma outra coisa? Não,nos voltamos para a Cruz e acreditamos em tudo o que fez o Senhor Jesus. A liberaçãodo pecado se converte em nossa segundo o mesmo princípio, e não acontecediferentemente no que concerne a agradar de Deus. Para receber o perdão olhamos aCristo sobre a Cruz; para sermos liberados do pecado e para poder cumprir a vontade deDeus, olhamos o Cristo em nosso coração. O nosso perdão depende daquilo que Elecumpriu para nós; a nossa liberação, de aquilo que Ele fará em nós. Mas no que dizrespeito a estes benefícios, devemos nos apoiar inteiramente nEle sozinho. Desde oprincípio até o fim, Ele é o único a fazer tudo. Na época em que foi escrita a epístola aos Romanos, o castigo que era infligido a umassassino era particular e terrível. O cadáver da vítima era amarrado ao corpo vivo domatador, cabeça com cabeça, mãos com mãos, pés com pés, e o vivo ficava ligado aomorto até sua própria morte. O assassino podia ir aonde queria, mas para onde fosselevava o corpo de sua vítima. Podemos imaginar uma punição mais horrível? Aindaassim, esta é a imagem que Paulo utiliza. Ele se vê ligado a um corpo morto, o seupróprio "corpo de morte", do qual não pode se livrar. Em qualquer lugar que ele estejaestá paralisado a causa deste horrível fardo. No fim já não pode mais suportá-lo e grita:"Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?". E então, um,relâmpago de luz, o grito de desespero se transforma num cântico de louvor. Achou aresposta para seu problema. "Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor!" (Rm 7:25).Sabemos que a justificação nos chega pelo Senhor Jesus, que não nos pede nenhumacolaboração, mas pensamos que a santificação depende de nossos próprios esforços.Sabemos que obtemos o perdão colocando toda a nossa fé no Senhor; porém,acreditamos que obteremos a liberação fazendo também nós alguma coisa. Tememos, senão fazemos nada, não chegar a nenhum lugar. Depois da experiência da salvação, onosso velho costume de "fazer" alguma coisa aflora, e recomeçamos os nossos esforçoshumanos. Então a Palavra de Deus nos diz novamente: "Está consumado" (João 19:30). Elecumpriu tudo sobre a Cruz pelo nosso perdão, e deseja cumprir tudo em nós para aliberação. É, sempre e em tudo, Ele quem atua. "É Deus quem opera em vós" (Filipenses2:13). As primeiras palavras de um homem liberado são muito importantes: "Eu dougraças a Deus". Se alguém nos der um copo de água, agradeceríamos a ele, não aalguma outra pessoa. Por que motivo Paulo diz: "Graças a Deus"? Porque foi Deus quemcumpriu tudo. Se Paulo tivesse feito alguma coisa, teria falado: "Obrigado, Paulo"; mastinha compreendido que Paulo era um "miserável" e que somente Deus podia liberá-lo desua aflição; disse então: "Eu dou graças a Deus". Deus quer cumprir tudo porque toda aglória deve ir para Ele. Se nós colaborássemos na obra, teríamos parte da glória; mastoda a glória deve ir a Deus, porque completou toda a obra desde o princípio até o fim. Se nos detivéssemos aqui, tudo aquilo que temos falado neste capítulo poderiaparecer negativo e privado de sentido prático, como se a vida cristã consistisse emsentar-se tranqüilamente à espera de algum milagre. Ela está, em verdade, bem longedisso. Todos os que a vivem realmente sabem que é uma questão de fé, muito positiva emuito ativa em Cristo, e um princípio de vida inteiramente novo: a lei do espírito da vida.Consideremos agora os efeitos que este novo princípio de vida produz em nós. CAPÍTULO 10 – O CAMINHO DO PROGRESSO: CAMINHAR SEGUNDO O ESPÍRITO Chegamos ao oitavo capítulo da epístola aos Romanos. Mas antes de iniciarmos o estudo, poderemos resumir o conteúdo da segunda seçãoem que dividimos a carta, do capítulo 5:12 até o fim do capítulo 8, em duas expressões,cada uma contendo dois elementos em oposição e que remarcam um aspecto da vidacristã. Estas são: Romanos 5:12 a 6:23 = "em Adão" e "em Cristo" Romanos 7:1 a 8:39 = "na carne" e "no Espírito". É muito importante que compreendamos a relação que existe entre estes quatrotermos. Os dois primeiros são "objetivos", e explicam a nossa posição, primeiramentecomo éramos segundo a natureza, depois como somos agora pela fé na obra redentorade Cristo. Os outros dois termos são "subjetivos" e se relacionam com o nosso caminho,ou seja, com a nossa vida prática.56
  • 57. As Escrituras nos mostram claramente que os dois primeiros termos são somente umaparte da verdade, e os outros dois são necessários para completá-la. Nós pensamos queseja suficiente estar "em Cristo", mas já aprendemos que é necessário caminhar também"no Espírito" (Rm 8:9). O uso freqüente da palavra "Espírito" na primeira parte deRomanos 8 serve para sublinhar esta outra importante lição da vida cristã. A CARNE E O ESPÍRITO A carne está ligada a Adão, o Espírito está ligado a Cristo. Deixaremos de lado aquestão de saber se estamos em Adão ou em Cristo, que já foi discutida, e nosperguntaremos: Como vivo eu, na carne ou no Espírito? Viver na carne é fazer alguma coisa "que provém" de mim mesmo e de Adão. É porextrair a minha força da velha fonte de vida que herdei dele, que provo nas minhasexperiências todas as disposições para o pecado de Adão, das quais conhecemos bem osefeitos. Ora, é a mesma coisa para aqueles que estão em Cristo. Para experimentar emminha vida aquilo que é verdadeiramente meu, se estou nEle, devo saber o que querdizer caminhar no Espírito. O fato que a minha velha natureza tenha sido crucificada comCristo é já um fato do passado, enquanto é uma realidade do presente que eu sejaabençoado com "todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo" (Ef 1:3). Seeu não vivo no Espírito, a minha vida estará em contraste com o fato que estou "emCristo", mas devo também compreender que o meu velho caráter é ainda demasiadoforte. Como pode ser este dilema? É que eu aceitei a verdade somente de forma "objetiva",enquanto o que é verdadeiro objetivamente deve também converter-se em verdadeirosubjetivamente; e isso acontecerá na medida em que eu vivo no Espírito. Não somente estou "em Cristo", mas Cristo está em mim. E da mesma forma que ohomem não pode fisicamente viver e trabalhar na água, mas somente no ar, assim,espiritualmente, Cristo habita e se manifesta não na "carne", mas somente no "espírito".Porque, se eu vivo "segundo a carne", me persuado que aquilo que é meu em Cristoestá, por assim dizer, suspendido em mim. Ainda que, na realidade, eu esteja em Cristo,se vivo na carne, vale dizer em minha natureza e segundo a minha própria vontade,acharei com dor que se manifesta ainda em mim a natureza de Adão. Se desejarverdadeiramente conhecer tudo aquilo que está em Cristo, devo aprender a viver noEspírito. Viver no Espírito significa que confio no Espírito Santo para que cumpra em mimaquilo que eu não posso fazer por mim mesmo. Esta vida é completamente diferentedaquela que eu viveria naturalmente por mim mesmo. Cada vez que enfrento um novopedido do Senhor, olho para Ele a fim de que cumpra Ele mesmo o que pretende emmim. Não devo tentar, mas crer; não lutar, mas somente repousar nEle. Se tenho umcaráter irritável, pensamentos impuros, uma língua demasiado comprida, ou um espíritocrítico, não tentarei de me transformar com um esforço que me pareça apropriado, aocontrário, considerando-me como morto em Cristo para todas estas coisas, esperarei doEspírito de Deus a calma, a pureza, a humildade, a doçura de que preciso. Isto significa:"Estai quietos, e vede o livramento do Senhor, que ele hoje vos fará" (Êx 14:13). Muitos de vocês tiveram sem dúvida uma experiência semelhante: lhes foi pedido devisitar um amigo muito pouco simpático, mas se confiaram com o Senhor a fim queajudasse vocês a cumprir com este dever. Falaram com Ele, antes de sair de casa, quepor vocês mesmos caminhariam inevitavelmente rumo ao fracasso e Lhe pediram tudoaquilo que era necessário para esse encontro. Depois, para sua surpresa, não sesentiram irritados para nada, ainda que seu amigo não tivesse sido amável. No regresso,repensando, se alegraram de terem permanecido tão calmos e procuraram umaexplicação. É esta a explicação: o Espírito Santo guiou vocês nesta ação. Apesar de tudo, realizamos esta experiência somente uma vez cada tanto, quando eladeveria ser contínua. Quando o Espírito Santo toma a nossa vida em suas mãos, nãodevemos opor-nos. Não se trata de apertar os dentes, pensando que assim estamosmagnificamente controlados e conseguimos uma gloriosa vitória. Não! Onde há umaverdadeira vitória, não foram os esforço humanos os que a conseguiram, mas o Senhor. O objetivo da tentação é sempre o de conduzir-nos a fazer alguma coisa. Durante osprimeiros três meses da guerra da China contra Japão, perdemos um grande número detanques e assim foi impossível enfrentar os tanques japoneses até que não foi aplicada atática seguinte. Um de nossos melhores atiradores, apostado, devia tirar um único tiro defuzil contra um tanque japonês. Depois de um intervalo de tempo bastante longo, esteprimeiro tiro devia ser seguido por um segundo, depois, um outro silencio, mais um tiro, 57
  • 58. até que o capitão do tanque, ansioso para descobrir a posição inimiga, tirasse fora dotanque a cabeça, para dar uma olhada em volta. O disparo seguinte, executado comprecisão, devia pôr fim aos seus dias. Enquanto ele ficava al reparo estava seguro. A estratagema foi planejada com oobjetivo de fazê-lo sair. Da mesma maneira, as tentações de Satanás não têm porprimeiro escopo fazer-nos cometer alguma coisa particularmente pecaminosa, massimplesmente induzir-nos a agir com as nossas próprias faculdades; mas apenasdeixamos o nosso reparo para agir desse modo, ele já tem a vitória sobre nós. Enquanto permanecemos quietos e não deixamos o refúgio de Cristo para voltar aodomínio do nosso "eu", ele não pode nos atacar. O caminho da vitória que Deus nos procura exclui tudo aquilo que queremos fazer pornos mesmos, ou seja, tudo aquilo que está fora de Cristo. Isto porque, apena damos umpasso, coremos o perigo a causa de nossas inclinações naturais que nos empurram nafalsa direção. Onde devemos então procurar auxílio? Leiamos Gálatas 5:17: "Porque acarne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne". Em outras palavras, a lutacontra a carne não é assunto nosso, mas do Espírito Santo, porque existe já essa taloposição entre eles; e é o Espírito, não nós, a combater e triunfar sobre a carne. Qual é oresultado? "Para que não façais o que quereis". Penso que amiúde não alcançamos a compreender o profundo significado da últimaparte deste parágrafo. Consideremos atentamente o que isso significa. O que "faríamosnós naturalmente"? Nos lançaríamos numa linha de ação ditada pelos nossos própriosinstintos, fora de vontade de Deus. Em vez disso, a recusa de agir por nós mesmospermite ao Espírito Santo dominar a carne que nos tiraniza, portanto não fazemos aquiloque estaríamos inclinados a realizar por natureza. Ao invés de proceder pela via indicadapelas nossas inclinações naturais, acharemos o nosso gozo em permanecer em seu planoperfeito. Porém, temos esta ordem bem concreta: "Andai em Espírito, e não cumprireis aconcupiscência da carne" (Gálatas 5:16). Se vivermos no Espírito, se caminhamos pela féem Cristo ressuscitado, podemos realmente "permanecer separados", enquanto oEspírito reporta cada dia novas vitórias sobre a carne. Nos foi entregue para queassumíssemos este encargo. A nossa vitória consiste em esconder-nos em Cristo, e emconfiar com simples, mas absoluta certeza em seu Espírito Santo, para que supere asnossas paixões carnais com seus novos desejos. A Cruz foi entregue para nos procurar asalvação; o Espírito nos é dado para colocar esta salvação em nós. O Cristo ressuscitadoe ascendido no céu é o fundamento de nossa salvação; o Cristo que mora em nossoscorações pelo Espírito é seu poder, o que o faz efetivo. CRISTO, A NOVA VIDA "Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor!". Esta exclamação de Paulo éfundamentalmente a mesma que a que ele expressa em outros termos em Gálatas 2:20e que tomamos como objeto de nosso estudo: "...e vivo, não mais eu, mas Cristo viveem mim". Vimos o lugar proeminente que tem a palavra "eu" em todo o capítulo 7 dacarta aos Romanos, que culmina num grito de angústia: "Miserável homem que sou!".Depois, eis o grito da liberação: ""Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor!".Está claro que a revelação que teve o apóstolo é esta: a verdadeira vida cristã quepodemos viver é somente a vida de Cristo. Nós pensamos na vida cristã como uma "vidamudada", mas não é assim. Deus não nos oferece uma "vida mudada", mas uma "vidasubstituída": Cristo em nós é o substituto. "...E vivo, não mais eu, mas Cristo vive emmim". Esta vida não é alguma coisa que nós devamos produzir em nós mesmos. É a vidamesma de Cristo que se reproduz em nós. Quantos cristãos crêem na "reprodução"naquele sentido, como numa esperança mais profunda que a regeneração? Aregeneração significa que a vida de Cristo é gerada em nós pelo Espírito Santo, em nossonovo nascimento. A "reprodução" vai além: ela significa que esta nova vida cresce, sedesenvolve progressivamente em nós até que a figura mesma de Cristo começa a sereproduzir em nossa vida. Isto entende Paulo quando diz de sofrer as dores de parto "atéque Cristo seja formado em vós" (Gálatas 4:19). Permitam-me ilustrar este conceito com uma outra história. Um dia eu estava emAmérica, numa casa onde vivia um casal de crentes, os que me pediram de orar por eles.Perguntei a causa de sua dificuldade. "Oh, senhor Nee, estamos atravessando ummomento difícil", confessaram, "nos irritamos com tanta facilidade a causa das crianças;nestas últimas semanas nos temos irado várias vezes por dia. Estamos verdadeiramente58
  • 59. desonrando o Senhor. Você quer Lhe pedir de nos dar mais paciência?" "Essa é a únicacoisa que não posso fazer", respondi. "O que você quer dizer?", perguntaram. "Querodizer que uma coisa é verdade", repliquei, "que Deus não responderá a essa oração".Então eles murmuraram com estupor: "Você acha que temos ido tão longe dEle que Elenão esteja mais disposto a ouvir o que Lhe pedimos" "Não, não é isso para nada, masgostaria de saber se Deus respondeu?" "Não". "Sabem por quê? Porque vocês nãoprecisam de paciência". Os olhos da mulher cintilaram e exclamou: "O que você querdizer? Que não necessitamos de paciência enquanto discutimos o dia todo! O que vocêquer dizer verdadeiramente?" "Não é paciência que necessitam", respondi ainda eu, "éde Cristo". Deus não me dará humildade, ou paciência, ou santidade, ou outra coisa como donsisolados de Sua graça. Ele não despedaça em pedacinhos a sua graça para distribuí-laem pequenas doses, dando uma medida de paciência a quem está impaciente, um poucode amor para quem não tem amor, um pouco de humildade para quem é orgulhoso, emquantidade suficiente para cada um, e de forma que possamos operar como possuindouma espécie de depósito a disposição. Ele nos fez um único dom que responde a todas asnossas necessidades: seu Filho Jesus Cristo; e quando olho para Ele para que viva Suavida em mim, Ele será humilde, paciente, cheio de amor e tudo aquilo de que eu tereinecessidade, em meu lugar. Ele é tudo que eu não posso, mas devo ser. Lembrem-se dapalavra da primeira epístola de João: "Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está emseu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida"(1 Jo 5:11-12). A vida de Deus não nos foi entregue como um objeto separado; a vida de Deus nos éentregue em seu Filho. É "a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 6:23). Anossa relação com Cristo é a nossa relação com a vida. E uma experiência abençoada a de descobrir a diferença que existe entre as "graças"cristãs e o próprio Cristo, de conhecer a diferença entre a humildade e Cristo, entre apaciência e Cristo, entre o amor e Cristo. Lembrem ainda aquilo que foi dito na primeiraepístola aos Coríntios, 1:30: "Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, ejustiça, e santificação, e redenção". A noção corrente de santificação requer que cadaponto de vista seja feito santo. Mas essa não é a santidade, mas o fruto da santidade. A santidade é Cristo. É o Senhor Jesus em nós, essa é a santidade. Tudo estácompreendido nEle: o amor, a humildade, a paciência, a força, o domínio de si. Hoje eutenho necessidade de paciência: Ele é a nossa paciência. Amanhã terei necessidade depureza: Ele é a nossa pureza. Ele é a resposta a todas as nossas necessidades. Por issoPaulo fala do "fruto do Espírito" como de um único fruto (Gálatas 5:22) e não de muitosfrutos, como se fossem dons separados. Deus nos deu seu Santo Espírito, e quandonecessitamos amor, o fruto do Espírito é amor; quando precisamos alegria, o fruto doEspírito será alegria. E sempre verdade. Pouco importa a nossa necessidade pessoal, e ascentenas de coisas que nos faltam. Deus tem uma resposta, mas uma resposta suficientepara todo: seu Filho Jesus Cristo, que é a resposta a todas as necessidades de todos oshomens. Como podemos nós conhecer mais a fundo a santidade deste modo? Somente atravésde uma maior consciência de nossas necessidades. Certos crentes têm medo dedescobrir a sua insuficiência e assim não crescem nunca. O crescimento "na graça" é aúnica maneira na qual podemos crescer, e a graça, como já dissemos, é Deus mesmoque age em lugar de nós. Todos nós temos o mesmo Cristo morando em nós, mas arevelação de uma nova necessidade nos conduzirá espontaneamente a confiar a Ele esteponto particular, para que Ele viva sua santa vida em nós. Uma maior capacidade é oresultado de um conhecimento maior dos recursos de Deus. Um novo abandono implicauma maior confiança em Cristo e assim realizamos uma nova conquista: "Cristo: minhavida" é o segredo do desenvolvimento. Falamos dos nossos esforços e de nossa fé; da diferença que existe entre estas duasposições. Acreditem, é a mesma diferença que existe entre o céu e o inferno. Esta não ésomente uma frase bonita, é a exata realidade! "Senhor, eu não posso fazer isso, então não tentarei mais fazê-lo". Este é o ponto emque a maior parte de nós cai. "Senhor, eu não posso, portanto me remito e Ti nisto". Nosrecusamos assim a agir, contamos exclusivamente com Ele para que Ele mesmo faca ascoisas; nos inserimos assim, plena y jubilosamente, na ação que Ele começou. Isto não significa passividade, antes bem, é uma vida mais ativa que confia noSenhor, trazendo dEle a vida, inserindo-nos nEle, deixando que Ele viva sua vida em nós,enquanto prosseguimos em Seu nome. 59
  • 60. A LEI DO ESPÍRITO DA VIDA "Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que nãoandam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, emCristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte" (Romanos 8:1-2). Neste capítulo 8 Paulo nos apresenta detalhadamente a parte positiva da vida doEspírito: "nenhuma condenação há", começa declarando, e esta declaração pode, numprimeiro momento, parecer fora de lugar. De fato a condena foi tirada com o sangue deJesus, graças ao qual temos a paz com Deus, e somos salvos da ira (Romanos 5:1 – 9).Mas existem duas espécies de condenas, aquela diante de Deus e aquela diante de mimmesmo. (Já vimos que, do mesmo modo, existem duas formas de paz). Esta segundacondena pode talvez parecer-nos mais terrível que a primeira. Quando vejo que o sanguede Cristo satisfez a Deus, eu sei que meus pecados são perdoados e que não há maiscondena para mim. Porém posso ainda conhecer a derrota e o sentimento de umacondena interior muito real a este respeito, como o mostra Romanos 7. Mas, se aprendi aviver em Cristo, que é a minha vida, conheço então o segredo da vitória e, Deus sejalouvado, "nenhuma condenação há", porque "a inclinação do Espírito é vida e paz" (Rm8:6), e essa se converte em minha experiência, na medida em que aprendo a caminharsegundo o Espírito; se em meu coração reina a paz, não posso sentir-me condenado esomente me resta louvar Aquele que me conduz de vitória em vitória. Mas de onde me vem este sentimento de condenação? Não será da consciência deminha derrota e do conhecimento da minha impotência para remediá-lo? Antes de verque Cristo é a minha vida, eu realizava esforços com o sentimento constante de minhaincapacidade. A minha limitação obstaculizava meus passos e me sentia inábil para cadaobra. Gritava sem trégua: "Não posso fazer isto, não posso fazer aquilo!". Apesar detodos os meus esforços, eu via que não podia "agradar a Deus" (Rm 8:8). Mas comCristo, não pode se dizer: "Eu não posso"; diz-se: "Posso todas as coisas em Cristo queme fortalece" (Filipenses 4:13). Como podia Paulo ousar tanto? Sobre o que se baseava para poder declarar que jáestava liberado de todas as limitações e que podia fazer tudo? Eis a resposta: "Porque alei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte" (Rm 8:2).Por que não existe mais condena? "Porque...", diz Paulo, há uma razão para isso; há umarazão muito precisa que justifica sua afirmação. E esta razão é que existe uma leichamada "a lei do Espírito da vida", que se manifestou mais forte que uma outra leichamada "a lei do pecado e da morte". O que são estas duas leis? Como operam? E qualé a definição entre o pecado e a lei do pecado, entre a morte e a lei da morte?Perguntemo-nos antes que nada: O que é uma lei? Para falar claro, uma lei é a repetiçãode um fato observado, até o ponto em que é provada a sua repetição sem exceção.Poderemos defini-la, mais simplesmente, como uma coisa que se repete sempre de novo.Todas as vezes que volta aparecer, reaparece sempre do mesmo modo. Tomemos doisexemplos para explicar esta definição; um das leis humanas, o outro das leis naturais.Na Inglaterra, por exemplo, se eu dirigisse um carro sobre o lado direito da rua, seriaarrestado pela policia local. Por quê? Porque infringiria a lei do país. É uma coisa que serepete infalivelmente. Ou, todos conhecemos a lei da gravidade. Se deixar cair meu lençoem Londres, cairá por terra; é o efeito da gravidade. Mas a mesma coisa acontecerá se ofazer em Paris, em Nova Iorque ou em Hong-Kong; é o mesmo fato que se repete. Poucoimporta onde o deixo cair, a gravidade tem o mesmo efeito em todas as partes do globoterrestre. Em qualquer lugar onde existam as mesmas condições, os mesmos efeitos serepetem. Existe, então, uma lei de gravidade dos corpos. Ora, qual é a lei do pecado e damorte? Se alguém me faz uma observação pouco amável, me sinto imediatamenteferido. Esta não é uma lei, é o pecado. Mas se diversas pessoas me fazem observaçõesdescorteses, e eu reajo sempre do mesmo modo, posso discernir então uma lei em mim,uma lei do pecado. Como a lei da gravidade, também esta lei é constante, se repetesempre da mesma forma. Assim é o mesmo com a lei da morte. Dizemos que a morte éa debilidade física em seu limite extremo. A debilidade consiste em dizer "não posso".Ora, se quando me esforço para agradar a Deus num determinado modo, sento que nãoposso fazê-lo, e se tento de obedecer em uma outra ocasião e volto experimentar serincapaz, discerno uma lei que atua em mim. Não é somente o pecado que está em mim,mas uma lei do pecado; e não é somente a morte que está em mim, mas uma lei demorte. Assim sendo, não somente a gravidade é uma lei no sentido que é constante e nãoadmite exceções; mas, a diferença da lei da rua, é uma lei "natural", e não é portanto60
  • 61. objeto de discussões e de decisões, mas simplesmente de descobrimento. A lei existe, eo lenço cai "naturalmente" por terra sozinho, sem ajuda alguma de minha parte. E a "lei"definida em Romanos 7:23 é exatamente da mesma natureza. É uma lei de pecado e demorte em oposição àquilo que é bom, e que paralisa o homem que desejaria realizar obem. Ele peca "naturalmente" segundo a "lei do pecado" que está em seus membros. Eledeseja ser diferente, mas a lei que está nele é implacável e nenhuma vontade humanapode resisti-la. Isto me conduz, então, a perguntar: "Como posso ser liberado da lei dopecado e da morte?" Necessito conhecer a liberação do pecado, e ainda mais, a liberaçãoda morte; mas, sobre tudo, necessito ser liberto da lei do pecado e da morte. Comoposso ser liberado da repetição constante de minhas quedas e de minha fraqueza? Para responder a esta pergunta prosseguiremos ainda com nossos dois exemplos. Um dos pesos mais graves que tivemos na China, em outros tempos, foi a taxa "likin",uma lei à qual ninguém podia se subtrair; ela provinha da dinastia Chin, e tinhapermanecido em vigor até quase os nossos tempos. Essa taxa era aplicada aostransportes internos de mercadorias, em todas as províncias do Império; existiamnumerosas barreiras para a revisão, e os funcionários adeptos gozavam de amplospoderes. Assim, os impostos sobre as mercadorias que atravessavam muitas províncias,podiam resultar enormes. Mas, alguns anos atrás, uma segunda lei foi promulgada,suprimindo a lei "likin". Podem imaginar o alívio que foi para aqueles que tanto tinhamsofrido sob a antiga lei! Não havia mais necessidade de esperar, ou de pensar ou desuplicar; a nova lei tinha aparecido, liberando-nos daquela antiga. Não era maisnecessário pensar antecipadamente no que era preciso dizer, caso ter de enfrentar umarrecadador do "likin". Isso que acontece pela lei do país sucede também pela lei natural. Como pode seranulada a lei da gravidade? No que concerte ao meu lenço, esta lei funciona à perfeição,fazendo-o cair por terra; mas somente preciso mantê-lo sujeito em minha mão para queele não caia. Por quê? A lei existe sempre. Eu não mudo nada da lei da gravidade; defato, não posso fazer nada contra ela. Então por que meu lenço não cai no chão? Poruma força que o impede. A lei permanece, mas existe uma outra lei que é superior, agee triunfa sobre aquela, e é a lei da vida. A gravidade pode exercer todo seu poder, mas olenço não cairá porque uma outra lei age contra a lei da gravidade para mantê-lo em seulugar. Todos nós, alguma vez, vimos uma árvore que antes foi uma pequena sementecaída entre as pedras do chão, e depois cresceu até levantar as pedras, pela força davida que estava nela. Isto nós o chamamos de triunfo de uma lei sobre a outra. De forma similar, Deus nos libera de uma lei, introduzindo em nós uma outra lei. A leido pecado e da morte subsiste sempre, mas Deus colocou em operação uma outra lei: alei do Espírito da vida de Jesus Cristo, e esta lei é tão potente como para liberar-nos dalei do pecado e da morte. Porque há uma lei de vida em justiça. A vida de ressurreiçãoque está nEle encontrou-se frente a morte em todos seus aspectos e triunfou sobre ela."E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo aoperação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre osmortos, e pondo-o à sua direita nos céus" (Ef 1:19-20). O Senhor Jesus mora em nossos corações na pessoa do Espírito Santo e se, confiandonEle, o deixamos em liberdade para agir, veremos que a sua nova lei de vida nos liberada antiga lei. Aprenderemos o que significa ser sustentados não pelas nossasinadequadas forças, mas pelo "poder de Deus" (1 Pedro 1:5). A MANIFESTAÇÃO DA LEI DA VIDA Devemos tentar de encontrar o sentido prático de tudo isto. Temos falado,precedentemente, da questão de nossa vontade em relação com as coisas de Deus. Oscristãos, incluso os mais velhos, não aplicam essa parte importante que já expliquei emsuas vidas. Este é um dos tormentos de Paulo em Romanos 7. A sua vontade era boa,mas todas as suas ações a desmentiam, e todas as decisões que tomava para agradar aDeus não faziam outra coisa senão conduzi-lo a uma escuridão mais profunda. "Eudesejaria fazer o bem", mas, "sou carnal, vendido ao pecado". Eis aqui o ponto vital.Como um carro sem gasolina, o qual é necessário empurrar e que se detém apenaslivrado a si mesmo, muitos cristãos tentam avançar com suas forças de vontade, eacham que nada é mais áspero e cansativo na vida cristã. Alguns se esforçam paracumprir boas ações porque outros as realizam, ainda admitindo que não fazem sentidopara eles. Esforçam-se em querer ser aquilo que não são, e isto é mais penoso que tratarde fazer subir água por uma pendente. Porque, depois de tudo, o ponto máximo a que 61
  • 62. pode chegar a vontade é a uma boa disposição. "Na verdade, o espírito está pronto, masa carne é fraca" (Mateus 26:41). Se nós devemos realizar tantos esforços em nossa vida cristã, significa simplesmenteque não somos verdadeiramente cristãos. Não fazemos nenhum esforço para falar emnossa língua materna. De fato, devemos recorrer à nossa força de vontade somente nascoisas que não fazemos espontaneamente. Poderemos consegui-lo, talvez, por um certotempo, mas a lei do pecado e da morte se assenhoreará no final. Podemos dizer: "Eu tenho a vontade e agirei bem durante duas semanas". Masdeveremos em seguida confessar: "Não sei como fazê-lo". Não, se sou, já não precisotentar de sê-lo. Se desejo sê-lo é porque reconheço que não o sou. Vocês perguntarão: "Por que os homens cumprem seus esforços de vontade paraagradar a Deus?". Pode haver duas razões para isto. Ou não têm nunca experimentado onovo nascimento, e neste caso não têm a vida operante neles; ou, se nasceram de novoe têm neles esta vida, não aprenderam a confiar nesta nova força. Esta falta deconsciência os conduz sempre à derrota e ao pecado, de modo que acabarão por duvidarda possibilidade de uma vida melhor. Mas se faltamos à fé, não quer dizer que a débil vida que experimentemos alguma vezrepresente tudo aquilo que Deus nos deu. Romanos 6:23 declara que "o dom gratuito deDeus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor"; e em Romanos 8:2 aprendemosque "a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus" veio em nossa ajuda. Assim, Romanos8:2 não nos fala de um novo dom, mas da vida já apresentada em Romanos 6:23. Emoutras palavras, se trata de uma nova revelação daquilo que já possuímos. Sinto que nãoposso remarcar suficientemente esta verdade. Não é uma coisa que devemos esperar damão de Deus, mas é um novo conhecimento da obra já cumprida em Cristo, porque aspalavras: "te livrou" estão em tempo passado. Se eu entendo bem isto e coloco a minhafé em Cristo, não é absolutamente necessário que repita a experiência de Romanos 7,seja a respeito dos esforços inúteis e das contínuas quedas, seja no que concerne àinfrutífera explicação de minha vontade carnal. Se abandonarmos a nossa força de vontade e confiamos nEle, nós nunca cairemos enão seremos surpreendidos, mas entraremos no domínio de uma lei diversa, a lei doEspírito da vida. Porque Deus não nos deu somente a vida, mas uma lei de vida. E comoa lei da gravidade é uma lei natural e não o produto de legislações humanas, assim a leida vida é uma "lei natural", similar ao princípio da lei que regula as batidas do coração,ou que controla os movimentos de nossas pálpebras. Nós não precisamos pensar emnossos olhos, nem decidir a freqüente das batidas das pálpebras para mantê-los limpos;e muito menos de aplicar a nossa vontade para o bom funcionamento de nosso coração.Em efeito, não conseguiremos senão complicações. Não, enquanto o coração tem vida,age espontaneamente. A nossa vontade só pode complicar a lei da vida. Eu conheci estarealidade, um dia, da seguinte maneira. Sofria freqüentemente de insônia. Depois de muitas noites transcorridas sem dormir,depois de muito ter orado neste aspecto, esgotados todos os meus recursos, acabei porconfessar a Deus que devia haver algum erro em mim, e Lhe pedi que o mostrasse.Disse a Deus: "Peço uma explicação"; e a sua resposta foi: "Acredita nas leis danatureza". O sono é uma lei como à da fome, e percebi que, se não estava preocupadode saber se eu tinha ou não fome, também não deveria ter-me atormentado pela minhainsônia. Eu havia procurado ajudar a natureza e essa é a armadilha na qual caem amaioria daqueles que enfrentam a insônia. Mas desde aquele momento coloquei a minhaconfiança não somente em Deus, mas também na lei natural de Deus; em pouco tempoconsegui dormir bem. Não devemos nós ler a Bíblia? Evidentemente que devemos lê-la, de outra forma anossa vida espiritual se ressentiria. Mas isto não significa que devemos esforçar-nos paralê-la. Existe em nós uma nova lei que nos dá a fome pela Palavra. Então, uma meia horaserá mais eficaz que cinco horas de leitura forçada. E é o mesmo com a liberalidade nooferecer os nossos dons, as predicações, os testemunhos. A predicação forçada pode sero anúncio do Evangelho expressado com calor, enquanto o coração permanece frio, e nóssabemos o que significa um "amor frio". Se deixarmos viver em nós a nova lei, seremos menos cônscios da antiga. Ela aindaexiste, mas não domina mais e nós não estamos mais sob a sua influência. Por isso oSenhor diz em Mateus 6: "Olhai para as aves... Considerai como crescem os lírios...". sefosse possível perguntar às aves se elas não têm medo da lei da gravidade, o queresponderiam? Diriam simplesmente: "Nós nem conhecemos o nome de Newton. Nãoconhecemos sua lei. Voamos porque a lei de nossa vida é voar". Não somente têm nelas62
  • 63. uma vida que tem o poder de voar, mas a lei desta vida faz que essas criaturas sejamcapazes de vencer espontaneamente a lei da gravidade. Ainda assim, a gravidadepermanece. Se vocês se levantam cedo uma manhã de intenso frio, e a neve cobre osolo, e se acham um pássaro morto no pátio, lembrarão imediatamente desta lei. Masenquanto as aves têm vida, vencem a lei da gravidade pela força natural que está nelas. Deus foi realmente bom para nós. Nos deu a nova lei do Espírito e "voar", para nós,não e mais uma questão de nossa vontade, mas de Sua vida. Vocês imaginam quãoárduo trabalho seria o de querer transformar um cristão impaciente num cristãopaciente? Seria suficiente pedi-lhe um pouco de paciência para enfermá-lo de exaustão.Mas Deus nunca nos pediu para esforçar-nos para ser o que não somos por natureza,nem para tentar, com a força do pensamento, acrescentar nossa estatura espiritual. Aextremada solicitude pode diminuir o nível espiritual de um homem, mas certamentenunca o tem elevado. "Não estejais apreensivos", nos disse o Senhor; "Considerai oslírios, como crescem" (Lc 12:22,26). Ele coloca nossa atenção sobre a Sua vida que estáem nós. Oh! Se pudéssemos apreciar esta vida nova que é nossa! Que maravilhoso descobrimento! Ele pode fazer completamente novo um homem,porque opera tanto nas coisas pequenas como nas grandes. Falava, um dia, com um amigo meu, crente, e ele me diz: "Veja, eu acredito que seum quer viver para a lei do Espírito da vida, acabará verdadeiramente educado". "O quevocê quer dizer?", perguntei. Ele respondeu: "Esta lei tem o poder de fazer de umhomem, um gentil-homem perfeito". Alguém disse com desprezo: "Vocês não podemrepreender estas pessoas pelos seus modos de agir; vêm do campo e não tiverampossibilidade de educação". Mas a verdadeira pergunta é: "Têm eles a vida do Senhordentro deles? Porque, eu digo, esta vida pode dizer a eles: A sua voz é demasiado forte,ou bem esse riso está fora de lugar, ou ainda a razão pela qual você fez essaobservação não foi boa". Em cada particular, o Espírito da vida pode ensinar como agir eproduzir neles uma verdadeira educação. Não existe um semelhante poder na educaçãonormal. Ainda assim, o meu amigo era um educador! Mas é verdade. Tomemos por exemplo o conversar. Você é uma pessoa que falademais? Quando se encontra em sociedade, pensa: "O que devo fazer? Eu sou crente ese desejo glorificar o nome do Senhor devo falar menos. Hoje deverei me controlar". Edurante uma ou duas horas conseguem fazê-lo, até que, com um pretexto ou outro,esquecendo da proposta, perdem o controle e, antes de saber onde estão, encontram-semais uma vez em dificuldades por causa de sua língua. Sim, estamos seguros que anossa vontade será inútil neste caso. Se eu exortasse vocês a exercitar sua vontade aeste respeito, seria como oferecê-lhes a vã religião do mundo, e não a vida de JesusCristo. Porque, observemos ainda: uma pessoa charlatã fica assim ainda quandopermanece calada durante um dia inteiro; porque uma lei "natural" a domina e a impelea falar; exatamente como uma macieira será sempre uma macieira, produza maçãs ounão. Mas, convertidos em crentes, descobrimos em nós uma nova lei, a lei do Espírito davida, que vence todas as outras, e que já nos liberou da "lei" da conversa. Seacreditarmos na Palavra de Deus e obedecemos à nova lei, ela nos dirá quando devemosparar, ou se não devemos nem sequer começar, e nos dará a força para fazê-lo. Sobreesta base podem visitar seus amigos, ficar duas ou três horas, ou ainda dois ou três dias,sem nenhuma dificuldade. À volta agradecerão a Deus pela sua nova lei de vida. Esta vida espontânea é a vida cristã. Ela se manifesta em amor para aqueles que nãosão amáveis, para o irmão que naturalmente não desejam amar e que, em verdade, nãopoderiam amar. Porque esta lei age sobre a base das possibilidades que o Senhordiscerne nestes irmãos. "Senhor, Tu vês quem pode ser amado e o amas. Ama-o agora, te rogo, através demim!". Esta lei produz uma verdadeira vida, um caráter moral sincero e leal. Existedemasiada hipocrisia na vida dos cristãos, demasiada comédia. Nada prejudica tanto aeficácia do testemunho cristão quanto a pretensão dos filhos de Deus de querer pareceraquilo que realmente não são, porque o homem da rua acaba por penetrar nestedisfarce, e nos reconhece por aquilo que somos. Vice-versa, a ficção cede o lugar àrealidade, quando confiamos sinceramente na lei da vida. O QUARTO PASSO: "CAMINHAR SEGUNDO O ESPÍRITO" "Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne, Deusenviando o seu próprio Filho em semelhança da carne do pecado, e por causa do pecado,na carne condenou o pecado. Para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, quenão andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rm 8:3-4). 63
  • 64. Cada leitor atento a estes versículos verá que emergem duas coisas. Em primeirolugar se diz o que o Senhor Jesus fez por nós, depois o que o Espírito quer fazer em nós."A carne é fraca", e como conseqüência não podemos "segundo a carne" cumprir ajustiça da lei. Prestemos atenção que aqui não se trata de nossa salvação, mas do fatode agradar a Deus. A causa de nossa incapacidade Deus operou duas coisas. Primeiroveio para resolver o centro de nosso problema. Ele enviou seu Filho na carne, para quemorresse a causa do pecado, e assim tem "condenado o pecado na carne". Isto significaque Ele fez morrer, em Sua pessoa, tudo aquilo que em nós pertencia à velha criação,seja que o chamemos "o nosso velho homem", ou "a carne" ou "o eu" carnal. Deusdestruiu assim a raiz mesma do mal, eliminando a causa de nossa debilidade. Este foi oprimeiro passo. Mas a "prescrição da lei" devia ainda ser cumprida "em nós". Como podia aconteceristo? Mediante a nova intervenção do Espírito Santo que mora em nós. Ele foi enviadopara ocupar-se do aspecto interior deste problema, e pode fazê-lo, como nos é explicado,se "caminhamos segundo o Espírito". O que significa "caminhar segundo o Espírito"? Significa duas coisas. Primeiro, não éuma obra, é um caminho. Deus seja louvado! Os esforços desesperados, extenuantes,que eu me impunha quando tentava agradar a Deus na carne deixaram lugar ao repousoe à alegria, na dependência de "sua eficácia, que opera em mim poderosamente"(Colossenses 1:29). Por isso Paulo opõe as "obras" da carne com o "fruto" do Espírito(Gálatas 5:19-22). Além disso, "caminhar segundo" implica submissão. Caminhar segundo a carnesignifica que eu cedo às exigências da carne, e os versículos que seguem (Rm 8:5-8)mostram claramente aonde isto me conduz. A carne só pode me deixar em conflito comDeus. Caminhar segundo o Espírito é estar submetidos ao Espírito. Existe uma coisa quenão permite o homem de caminhar segundo o Espírito, e consiste em sermosindependentes do Senhor. É preciso que eu me submeta ao Espírito Santo. É Ele quem deve ter a iniciativa emminha vida. Somente se me dedico a obedecê-Lo verei a "lei do Espírito da vida" agirplenamente, e a "justiça prescrita da lei" (tudo aquilo que me esforcei a fazer paraagradar a Deus) cumprida perfeitamente não mais por mim, mas em mim. "Pois todos osque são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus" (Rm 8:14). Conhecemos todas as palavras de bênção expressas em 2 Coríntios 13:14: "A graçado Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam comtodos vós". O amor de Deus é a fonte de todas as bênçãos espirituais; a graça do SenhorJesus colocou estas riquezas espirituais a nossa disposição; e a comunhão do EspíritoSanto é o meio pelo qual elas nos foram entregues. O amor é uma coisa escondida no coração de Deus; a graça é este amor expresso eoferecido em Seu Filho; a comunhão é o dom desta graça por meio do Espírito. O que oPai determinou a nosso respeito, o Filho o cumpriu para nós, e agora o Espírito Santo no-lo comunica. Assim, quando descobrimos algo do que o Senhor Jesus conquistou com suaCruz, tentamos de tomá-lo na forma que Deus nos indicou, e com um comportamento defirme submissão e obediência ao Espírito Santo, mantemos o nosso coraçãocompletamente aberto, a fim que possamos recebê-lo. É este o mistério do EspíritoSanto. Ele veio por este preciso objetivo, para cumprir em nós aquilo que já é nossoatravés da obra perfeita de Cristo. Nós aprendemos na China que, quando se deseja conduzir uma alma a Cristo, énecessário ser muito claros, e ir bem fundo no assunto, porque é difícil poder ter depois aajuda de outros crentes. Assim, procuramos sempre fazer compreender bem a cada novocrente que, quando pediu ao Senhor de perdoar seus pecados e de entrar em sua vida,seu coração se converteu na habitação de uma pessoa viva. O Espírito Santo de Deusestá agora nele, para abri-lhe as Escrituras, a fim de achar nelas a Jesus Cristo, paradirigir suas orações, para governar sua vida e para reproduzir nele o caráter de seuSenhor. Lembro-me que, perto do fim de um verão, fui transcorrer um prolongado período derepouso na montanha. Era difícil achar lá uma habitação regular, então devi adaptar-mea dormir numa casa e almoçar e jantar em outra; nesta última habitavam um operário esua esposa. Durante as primeiras duas semanas de minhas férias, não falei aos meus hóspedes doEvangelho; porém um dia, finalmente, se me apresentou a ocasião de falar do SenhorJesus. Eles estavam bem dispostos a escutar e a andar a Ele, com uma fé simples, para64
  • 65. receber o perdão dos pecados. Realizaram o novo nascimento, e uma luz e um gozo novoentrou em suas vidas, porque a sua conversão era verdadeiramente sincera. Dei-me com todo cuidado a fazer conhecer a eles claramente o que tinha acontecido;depois chegou o frio e eu devi regressar a Xangai. Durante os meses invernais, o homem estava costumado a beber vinho nas comidas,e era inclinado a fazê-lo em excesso. Depois de minha partida, quando voltou o frio, ovinho reapareceu em sua mesa. Como estava habituado a fazer, o marido inclinou acabeça para agradecer a Deus pela comida; mas as palavras não vinham. Depois de umaou duas tentativas vãs, voltou-se à mulher e lhe perguntou: "O que há que não vá? Porque não podemos orar, hoje? Pega a Bíblia e vejamos o que diz de beber". Eu tinhadeixado a eles um exemplar das Sagradas Escrituras mas, ainda que a mulher soubesseler, não conhecia ainda a Palavra e assim ela voltava as páginas sem achar a resposta aessa pergunta. Eles não sabiam ainda como consultar o livro de Deus, e era para elesimpossível consultar um enviado de Deus, estando eu a muitos quilômetros longe deles,e podiam transcorrer meses antes que nos encontrássemos de novo. "Bebe entretantoteu vinho", disse a mulher. "Falaremos disto ao irmão Nee na primeira ocasião". Porém,o marido reconheceu que não podia agradecer ao Senhor por aquele vinho. "Tira ele damesa", disse no fim; e quando ela assim o fez, pediram juntos a bênção do Senhor paraa sua comida. Quando, mais tarde, o homem pode vir a me encontrar em Xangai, me contou ahistória. Servindo-se de uma expressão comum em chinês, ele me disse: "Irmão Nee, oPatrão Residente não me permitiu beber!" "Muito bem, irmão", respondi. "Obedeçasempre ao Patrão Residente". Muitos de nós sabemos que Cristo é a vida. Acreditamos que o Espírito Santo de Deusresida em nós, mas este fato não tem muito efeito em nosso modo de comportar-nos. Apergunta fundamental, então, é esta: "O conhecemos como uma Pessoa viva ou oconhecemos como Patrão?" CAPÍTULO 11 – UM ÚNICO CORPO EM CRISTO Antes de tocar o nosso último importante tema, queremos deter o nosso pensamentosobre o caminho recorrido, para resumir as etapas passadas. Tentamos mostrarsimplesmente e explicar claramente algumas das experiências que atravessamhabitualmente os cristãos. Mas é evidente que os novos descobrimentos que realizamos,a medida que procedemos como nosso Senhor, são numerosos e devemos velar contra atentação de simplificar além da medida a obra de Deus. Isto poderia induzir-nos numagrande confusão. Alguns filhos de Deus acreditam que a salvação, que para eles compreendeigualmente a questão de viver uma vida santa, reside inteiramente no saber apreciar ovalor do sangue de Cristo. Têm razão de insistir sobre a necessidade de vigiar para estarem regra com Deus a respeito de certos pecados conhecidos, assim como sobre aeficácia contínua do sangue de Cristo que cancela os pecados que cometemos; mas elespensam também que aquele sangue cumpre tudo. Eles acreditam numa santidade quesignifica simplesmente a separação do homem de seu passado; eles crêem que,cancelando o que o homem cometeu, sobre a base do sangue vertido, Deus separa estehomem do mundo a fim que Lhe pertença e que esta seja a santidade; e de detêm aqui.Eles ficam então deste lado das exigências fundamentais de Deus e, em conseqüência,dos recursos abundantes que Ele tem provido. Espero que, neste ponto, tenhamospercebido claramente como este modo de interpretar é incompleto. Existem outros que vão mais longe e reconhecem que Deus os têm incluído na mortede seu Filho sobre a Cruz, a fim que seu velho homem seja crucificado em Cristo, e elessejam libertos do pecado e da lei. Estes têm uma fé real no Senhor porque gloriam-seem Jesus Cristo e cessaram de colocar sua confiança na carne (Filipenses 3:3). Deus temneles um fundamento claro, sobre o qual pode edificar. E desta posição de partida muitoschegaram além, e reconheceram que a consagração —adotando esta palavra em seuverdadeiro sentido— significa abandonar-se sem reservas nas mãos do Senhor parasegui-Lo. Tudo isto representa somente os primeiros passos, partindo dos quais teremosalcançado outras fases da experiência preparada por Deus para nós, e que muitosconhecem. É sempre essencialmente necessário recordar-nos que cada passo, ainda querepresente um fragmento precioso da verdade, não é para nada, em si mesmo, a inteira 65
  • 66. verdade. Nós experimentamos todos eles como o fruto da obra de Cristo sobre a Cruz, enão podemos ignorar nem um sequer. UMA PORTA E UM CAMINHO Reconhecemos que existe um certo número de essas fases na vida e na experiênciado crente, e observaremos agora outro fato: ainda que estas fases não sejam semprenecessariamente experimentadas numa ordem fixa e precisa, elas parecem porém estarmarcadas de pontos e características que se repetem. Quais são estas características?Existe, antes que nada, a revelação. Como já vimos, a revelação precede sempre a fé e aexperiência. Com sua Palavra Deus abre nossos olhos à verdade de um fato queconcerne seu Filho e depois, se nos apropriarmos dele pela fé, esse fato se converte emreal em nossa vida. Nós temos então: 1) A revelação — que é objetiva. 2) A experiência — que é subjetiva. Observamos, a seguir, que uma semelhante experiência toma habitualmente a duplaforma de uma crise, seguida de um aperfeiçoamento contínuo. É muito útil compreenderisto sob a figura com que John Bunyan nos apresenta a "porta estreita" pela qualCristiano entrou no "caminho estreito". O Senhor Jesus falou desta porta e desta via queconduz à vida. "Porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, epoucos há que a encontrem" (Mateus 7:14); e a experiência confirma as suas palavras.Temos então: 1) A revelação 2) A experiência: a. Uma porta estreita (a crise) b. Um caminho estreito (sucessivo) Tomemos agora algum dos temas que examinamos, e vejamos como este quadro nosajuda a compreendê-los. Começaremos com a nossa justificação e o nosso novo nascimento. Tudo isto começacom a revelação do Senhor Jesus em sua obra de expiação dos nossos pecados sobre aCruz. Esta revelação será seguida da crise do arrependimento e de fé (a porta estreita),pela qual somos inicialmente acercados a Deus. "Mas agora em Cristo Jesus, vós, queantes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto" (Ef 2:13). Este primeiropasso nos conduz a um estado de constante amizade com Ele (a via estreita), pela qualnos é garantido cada dia, sempre mediante seu sangue precioso, o acesso à vida."Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus (...)cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os coraçõespurificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa" (Hebreus 10:19,22).Quando chegamos à liberação do pecado, temos ainda três passos: a obra de revelaçãocumprida pelo Espírito Santo, ou seja, o "saber" de Romanos 6:6; a crise de fé, o"considerai-vos como mortos" de Romanos 6:11; e o contínuo e sucessivo progresso naconsagração, ou seja: "apresenta-vos" a Deus (Romanos 6:13), sobre o fundamento deum caminho em novidade de vida. Consideremos então o dom do Espírito Santo. Também isso começa com uma "visão" nova do Senhor Jesus, elevado sobre o tronoque acaba com a dupla experiência do Espírito derramado sobre nós, e do Espírito quemora em nós. E finalmente, chegando ao problema de agradar a Deus, nos encontramosainda com a necessidade de luz espiritual, a fim que possamos compreender o valor daobra da Cruz a respeito da "carne", toda a vida egoísta do homem. Se aceitarmos estaobra por fé, entramos na experiência da "porta estreita": "Dou graças a Deus por JesusCristo nosso Senhor" (Rm 7:25); com a qual começamos por cessar de "fazer" eaceitamos por fé a ação poderosa da vida de Cristo para satisfazer em nós as exigênciaspráticas de Deus. É desde aqui que entramos no "caminho estreito", uma via deobediência ao Espírito. "Não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Rm8:4). O exemplo não é idêntico em cada caso e devemos prestar atenção a não impor aoEspírito Santo um plano de ação rígido; mas talvez cada experiência nova poderáapresentar-se a nós, mais ou menos, segundo estes lineamentos. Será certamentenecessário que nossos olhos se abram desde o princípio sobre os novos aspectos deCristo e de sua obra completada; a fé abrirá depois a porta para o novo caminho.Lembrem-se também que a nossa subdivisão da experiência cristã em seus diversosaspectos (a justificação, o novo nascimento, o dom do Espírito, a liberação, asantificação), foi feita para que compreendamos tudo mais claramente. Isto não significa66
  • 67. que estas etapas devam absolutamente seguir-se umas as outras sempre numa ordempré-estabelecida. De fato, nos é dada desde o princípio uma apresentação completa deCristo e de sua Cruz, podemos entrar em possessão de experiências muito ricas desde oprimeiro dia de nossa vida cristã, mesmo que seu significado mais profundo não nos sejaainda revelado, porque o será mais tarde. Que possa toda a predicação do Evangelho serrealizada assim. Uma coisa é verdadeira: a revelação precede sempre a fé. Ver e crer são doisprincípios que regulam a vida cristã. Quando nós vemos alguma coisa que Deus cumpriuem Cristo, respondemos naturalmente: "Obrigado, Senhor", e a fé se segueespontaneamente. A revelação é sempre a obra do Espírito Santo, que nos é entregue afim que, acompanhando-nos e fazendo-nos compreender as Escrituras, nos guie em todaa verdade: "Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda averdade" (João 16:13). Contemos com Ele porque está aqui para isto; e quando devamossuperar dificuldades como a falta de compreensão ou a falta de fé, levemo-lasdiretamente ao Senhor, dizendo: "Senhor, abre meus olhos. Senhor, ajuda-me em minhaincredulidade". Não seremos nunca desapontados. OS QUATRO ASPECTOS DA OBRA DE CRISTO SOBRE A CRUZ Estamos agora em condições de avançar um passo, para considerar a grandeza e aprofundidade infinita da obra da Cruz do Senhor Jesus. À luz da experiência cristã, e como objetivo de analisar esta obra, nos resultará talvez útil reconhecer quatro aspectos daobra redentora de Deus. Mas, enquanto o fazemos, é necessário ter bem presente que aCruz de Cristo é uma única obra divina e não uma seqüência de obras. Um dia, naJudéia, dois mil anos atrás, o Senhor Jesus morreu e ressuscitou e está agora "exaltadopela destra de Deus" (Atos 2:33). A obra foi cumprida e não há necessidade de serrepetida, nem pode ser agregado nada a ela. Dos quatro aspectos da Cruz que agora mencionaremos, já examinamos trêsdetalhadamente. O último será estudado nos capítulos seguintes do nosso estudo. Podemos entretanto resumi-los brevemente deste modo: 1) O sangue de Cristo que age a respeito dos pecados e da culpa. 2) A Cruz de Cristo que age a respeito do pecado, da carne e do homem natural. 3) A vida de Cristo, que se transmite ao homem, o regenera e o fortifica. 4) A ação da morte, no homem natural, a fim que a vida que habita nele possa manifestar-se progressivamente. Os primeiros destes aspectos têm o caráter de reparação. Eles estão ligados àdemolição da obra de Satanás, e à destruição do pecado do homem. Os dois últimos sãopositivos e se relacionam mas diretamente com o cumprimento do desígnio de Deus. Osdois primeiros são necessários para recuperar o que Adão tinha perdido em sua queda;os dois últimos devem fazer-nos entrar em possessão e levar a nós aquilo que Adãonunca teve. Vemos assim que tudo aquilo que o Senhor cumpriu em sua morte e em suaressurreição compreende ao mesmo tempo uma obra que proveu a redenção do homeme uma obra que rendeu possível o cumprimento do desígnio de Deus. Nos detivemos bastante, nos capítulos precedentes, sobre dois aspectos da morte deCristo, representados pelo sangue vertido para os pecados e a culpa, e pela Cruz erigidaa causa do pecado e da carne. Em nosso estudo sobre o desígnio de Deus consideramosbrevemente o terceiro aspecto, aquele que Cristo prefigurou na espiga de grão; noúltimo capítulo, considerando a Cristo como a nossa vida, fomos conduzidos aexperimentar alguma coisa de sua realização prática. Antes, porém, de chegar ao quartoaspecto, que chamarei "carregar a Cruz", devemos dizer alguma coisa a mais sobre estequarto aspecto, vale dizer, sobre a ação da vida de ressurreição de Cristo no transmitir-se ao homem, no dar-lhe força para o serviço de Deus. Falamos já do desígnio de Deus na criação, e dissemos que ele compreendia muitomais que aquilo que Adão pode jamais degustar. Qual era este desígnio? Deus desejavauma espécie de homens, cada um dos quais recebesse como dom um espírito, por meiodo qual fosse possível a comunhão com Ele, que é Espírito. Esta raça, possuindo a vidaprópria de Deus, devia cooperar com Ele no cumprimento de Seu plano eterno,dominando todas as rebeliões possíveis do inimigo e destruindo suas obras malvadas.Este era o grande plano de Deus. Como poderá, agora, ser realizado? A resposta estáainda na morte do Senhor Jesus. Essa é uma morte poderosa, que vai muito além daconquista de uma posição perdida; porque por ela não somente os pecados e o velhohomem foram eliminados, mas foi introduzida alguma coisa infinitamente maior edefinitiva. 67
  • 68. O AMOR DE CRISTO É necessário agora ter diante de nós dois parágrafos da Palavra de Deus, um extraídode Gênesis 2 e o outro de Efésios 5. Considerados juntos, têm enorme importância parao nosso estudo. "Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; etomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; e da costela que oSENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão:Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher,porquanto do homem foi tomada" (Gn 2:21-23). "Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a simesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pelapalavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisasemelhante, mas santa e irrepreensível" (Ef 5:25-27). Temos, em Efésios 5, o único capítulo da Bíblia que nos explica a passagem deGênesis 2. Aquele da carta aos Efésios é certamente muito importante, se refletimos umpouco. Estou me referindo ao que contém estas palavras: "Cristo amou a igreja". Há aquialguma coisa infinitamente preciosa. Fomos ensinados a considerar-nos como pecadores que têm a necessidade de serresgatados. Por muitas gerações este ensino impregnou o nosso espírito, e nosagradecemos o Senhor por isto, porque é o nosso princípio; mas não é o que Deuspretendia que se realizasse no final. Deus nos fala aqui mais bem de uma "igrejagloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível".Demasiado amiúde pensamos na Igreja simplesmente como um conjunto de "pecadoressalvos". Ela é isso, e nós consideramos os dois termos como equivalente, como se elafosse como isto; mas a Igreja é muito mais que isto. Pecadores salvos: nesta expressãotemos todo o velho transfundo do pecado e da queda; mas, aos olhos de Deus, a Igreja éuma criação divina em seu Filho. O primeiro termo é essencialmente individual; osegundo nos apresenta um corpo constituído. O primeiro nos mostra um fato negativoque pertence ao passado; o segundo, um fato positivo que tende ao futuro. O "desígnioeterno" está na mente de Deus desde toda a eternidade, tem a ver com seu Filho e temcomo fim que o Filho tenha um corpo para manifestar sua vida. Visto desde estaperspectiva —ou seja aquela do coração de Deus—, a Igreja é alguma coisa que supera opecado e não foi mais tocada por ele. Temos assim, na epístola aos efésios, um aspecto da morte do Senhor Jesus que nãoencontramos expresso tão claramente em nenhum outro texto. Na carta aos Romanos,as coisas são consideradas desde o ponto de vista do homem e de sua queda, e partindoda frase "Cristo morreu pelos ímpios", pecadores, inimigos, somos conduzidosprogressivamente (Romanos 5:6-10) ao "amor de Cristo" (Romanos 8:35). Ao contrário,na epístola aos Efésios o ponto de vista é o de Deus, "antes da criação do mundo"(Efésios 1:4), e o coração do Evangelho é: "Cristo amou a igreja, e a si mesmo seentregou por ela" (Efésios 5:25). Assim, em Romanos temos "nós pecamos" e amensagem diz respeito ao amor de Deus pelos pecadores (Romanos 5:8), enquanto emEfésios temos: "Cristo amou" e o amor que aqui encontramos é o do esposo pela esposa.Este parágrafo não tem a ver com a expiação do pecado, mas com a criação da Igreja,da qual nos é dito: "e a si mesmo se entregou por ela". Existe assim na morte do Senhor Jesus um aspecto inteiramente positivo, no qual ficaem evidência o amor pela sua Igreja, e onde não figura diretamente a questão do pecadoe dos pecadores. Para melhor ressaltar este aspecto, Paulo adota como ilustrações o fatode Gênesis 2. Mas este é um dos parágrafos mas belos da Palavra de Deus; e se osnossos olhos foram abertos para vê-lo, seremos certamente impulsionados à adoração. Partindo de Gênesis 3, das "vestes de pele" até o sacrifício de Abel, e daí através detodo o Antigo Testamento, acharemos numerosos símbolos que representam a morte doSenhor Jesus sob o seu aspecto de expiação pelo pecado; ainda assim, o apóstolo não serefere aqui a nenhum desses tipos de sua morte, mas unicamente a este de Gênesis 2.Observemos bem e lembremos que o pecado aparece só em Gênesis 3. Há, no AntigoTestamento, um símbolo da morte de Cristo que não tem nada a ver com o pecado,porque não segue a queda, mas a precede, e está aqui em Gênesis 2. Detenhamo-nosneste ponto por um instante. Podemos dizer que Deus fez cair sobre Adão um profundo sono porque Eva tinhacometido um grave pecado? É o que encontramos aqui? Certamente que não, porque Evanão tinha ainda sido criada. Não existia ainda nenhuma exigência moral, de fato, nenhum68
  • 69. problema. Não, Adão foi adormecido com a intenção bem determinada de tirar algumacoisa dele para formar um outro ser como ele. Seu sono não foi causado por nenhumpecado de Eva, mas para a sua existência. Eis o que nos ensina este fragmento. Estaexperiência de Adão tinha como objetivo a criação de Eva, como uma coisa determinadapelo conselho divino. Deus queria uma "ishah". Ele fez cair o sono sobre o homem (ish),pegou uma de suas costelas, fez uma "ishah" (mulher) e a apresentou ao homem. Este éo quadro que Deus nos apresenta. Ele preanuncia um aspecto da morte do Senhor Jesus,que não se refere à expiação do pecado, mas que corresponde àquilo que é dito sobre osono de Adão, neste capítulo. Deus me livre de afirmar que o Senhor Jesus não morreu com vista à expiação. Deusseja louvado! Ele morreu mesmo com este objetivo. Mas devemos lembrar-nos que hojesomos o objeto da situação de que se fala em Efésios 5, e não daquela de Gênesis 2. Aepístola aos Efésios foi escrita depois da queda, para homens que tinham sofrido porcausa dela; e aqui achamos não somente o desígnio de Deus na criação, mas também ascicatrizes da queda, pois de outra forma não teria sido necessário mencionar as"máculas" e "rugas". Porque estamos ainda sobre esta terra e a queda é um fatohistórico, é necessária a redenção (Ef 1:7). Mas devemos sempre considerar a redenção como uma instrução, uma medida de"emergência" que se fez necessária a causa de uma ruptura catastrófica na linha diretado desígnio de Deus. A redenção é tão grande, tão maravilhosa, que ocupa um imensolugar em nossa visão, mas Deus nos diz para não considerarmos a redenção como umacoisa única, como se o homem tivesse sido criado para ser resgatado. A queda foirealmente um trágico derrubamento no desígnio de Deus, e a expiação uma reparaçãoabençoada, pela qual os nossos pecados foram cancelados, e nós fomos restabelecidosem nossa posição perante Deus; mas, uma vez cumprida esta obra, falta ainda umaoutra para ser realizada, porque somos conduzidos a possuir o que Adão nuncaconheceu, para dar ao Senhor aquilo que Seu coração almeja. Porque Deus nuncaabandonou o desígnio representado por aquela linha perfeita. Adão nunca entrou empossessão da vida de Deus, como é prefigurada na árvore da vida. Mas a causa da obraúnica que o Senhor Jesus cumpriu em sua morte e ressurreição (e devemos aindaressaltar que tudo isso é uma única obra), a sua vida foi entregue para ser nossa pela fé,e nós recebemos mais do que Adão tinha jamais possuído. O verdadeiro desígnio deDeus se cumpre em nós quando recebemos Cristo como nossa vida. Deus fez cair Adão num sono profundo. Lembremos que é dito aos crentes que elesadormecem, e não que morrem. Por quê? Porque lá, onde é mencionada a morte,apresenta-se sempre no fundo o pecado. Em Gênesis 3 se diz que o pecado entrou nomundo e através do pecado entrou a morte; mas o sono de Adão precedeu tudo isto.Assim a figura que temos aqui do Senhor Jesus é diferente de todas as outras figuras doAntigo Testamento. Quando se trata do pecado e da expiação, é preciso imolar umcordeiro ou um bezerro; mas aqui Adão não foi colocado na morte, senão somenteadormecido para voltar acordar. Assim ele figura uma morte que não é imputável aopecado, mas que tem como objetivo o desenvolvimento na ressurreição. Devemosobservar que Eva não foi criada como uma entidade diferente, com uma criaçãoseparada, paralela à de Adão. Adão dormia e Eva foi tirada dele. Nesta mesma formaDeus criou a Igreja. O "segundo homem" de Deus acordou de seu "sono", e sua Igreja foicriada nEle para tomar a vida dEle, e manifestar a vida da ressurreição. Deus tem um Filho, o seu Unigênito; e deseja que este Filho tenha irmãos. Ele devemudar a sua qualidade de Filho único por aquela de Primogênito para que, em vez de umFilho único, Deus tenha muitos filhos. Uma espiga de grão morreu e muitos grãosgerminarão. O primeiro grãozinho foi, uma vez, o único grãozinho; agora se converteuno primeiro de muitos grãozinhos. O Senhor Jesus depôs sua vida e essa vida emergiuem muitas vidas. Estas são as figuras bíblicas que utilizamos até aqui, em nosso estudo,para demonstrar esta verdade. Ora, na figura de Eva o singular tomará o lugar do plural.O fruto da Cruz é uma única pessoa: uma Esposa para o Filho. "Cristo amou a igreja, e asi mesmo se entregou por ela". UM ÚNICO SACRIFÍCIO VIVENTE Dizemos que a epístola aos Efésios, no capítulo 5, nos apresenta um aspecto da mortede Cristo que, numa certa medida, é diferente daquilo que estudamos na carta aosRomanos. Ainda assim, este aspecto é o ponto essencial ao qual tende o nosso estudodesta carta e a ele este estudo nos conduz, como veremos em seguida, porque aredenção nos volta a levar ao desígnio original de Deus. No capítulo 8 da epístola aos 69
  • 70. Romanos, Paulo nos fala de Cristo como do Filho primogênito entre muitos "filhos deDeus" que o Espírito conduz (Romanos 8:4). "Porque os que dantes conheceu, tambémos predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja oprimogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aosque chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou"(Rm 8:29-30). Vemos aqui que a justificação nos conduz à glória, uma glória que seexpressa não em um ou em outro indivíduo separado, mas em uma pluralidade, numconjunto corpóreo, que ao mesmo tempo manifesta a imagem de "Um" só. E este motivode nossa redenção nos é apresentado a seguir, como vimos, no "amor de Cristo" pelosseus, que é o objeto dos últimos versículos do capítulo: "Quem nos separará do amor deCristo? a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou operigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o diatodo; fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisassomos mais que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nema morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras,nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nospoderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 8:35-39). Mas o que está aqui implícito, neste oitavo capítulo, converte-se em explícito quandochegamos ao capítulo 12, cujo tema é precisamente o Corpo de Cristo. Depois dos oito primeiros capítulos da carta aos Romanos, que estudamos, segue-seum parêntese no qual Paulo, antes de resumir o objeto dos primeiros capítulos, começa afalar das vias soberanas de Deus a respeito de Israel. Assim, de acordo com o objeto deque nos ocupamos agora, o argumento do capítulo 12 segue-se ao do capítulo 8, e nãoao do capítulo 11. Podemos mui simplesmente resumir a mensagem destes capítulos como se segue: osnossos pecados foram perdoados (capítulo 5); nós morremos com Cristo (capítulo 6);somos por natureza completamente incapazes (capítulo 7); portanto confiamos noEspírito que mora em nós (capítulo 8). Depois disto, as conseqüências: "nós formamosum só corpo em Cristo" (capítulo 12). Eis o resultado lógico de tudo o que tem precedido,e o ponto chave para onde tudo converge. Este capítulo 12 aos Romanos, como aqueles que o seguem, contém ensinos de ordemprática para a nossa vida. Paulo nos introduz com um novo apelo à consagração. Nocapítulo 6:13, diz: "mas apresentai-vos a Deus, como redivivos dentre os mortos, e osvossos membros a Deus, como instrumentos de justiça". Mas agora, no capítulo 12:1, oacento é um pouco diferente: "Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, queapresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é ovosso culto racional". Este novo apelo à consagração está dirigido a nós como "irmãos",re-ligando-nos no pensamento, aos "muitos irmãos" do capítulo 8:29. É um apelo quenos pede de realizar todos juntos um passo de fé, que nos incita a apresentar nossoscorpos como um "sacrifício vivo" a Deus. Isto ultrapassa o que é puramente individual,porque implica a participação num todo. A "apresentação" é pessoal, mas o sacrifício écoletivo; é um único sacrifício. O serviço consciente a Deus é um serviço paracumprirmos juntos. Não devemos nunca pensar que nosso trabalho não seja necessário,porque ainda que só contribuísse ao único serviço, Deus estaria satisfeito. E através dumserviço deste tipo, nós discernimos "qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade deDeus" (Rm 12:2); ou bem, em outros termos, percebemos o lugar que ocupamos nodesígnio eterno de Deus, em Jesus Cristo. Assim o apelo de Paulo dirigido a "cada umdentre vós" (12:3), deve ser entendido à luz desta nova realidade divina, que "assimnós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros"(Rm 12:5) e, sobre este fundamento, seguem-se os ensinos práticos. O instrumento por meio do qual o Senhor Jesus pode revelar-se a esta geração não éo indivíduo, mas o corpo. Certamente Deus destinou a cada um uma "medida de fé"(12:3); mas sozinho e isolado, o homem não poderá nunca cumprir o desígnio de Deus.É necessário um corpo inteiro para alcançar a estatura perfeita de Cristo e paramanifestar sua glória. Assim, em Romanos 12:3-6, Paulo extrai da figura do corpohumano a lição de nossa inteira dependência. Os cristãos singulares não são o corpo,eles são os membros do corpo. No corpo humano "os membros não têm todos a mesmafunção": a orelha não pode acreditar de ser um olho; a oração, por fervorosa que seja,não poderá nunca obter a visão para o ouvido, porém, todo o corpo vê por meio do olho.Assim, falando em sentido figurado, eu posso ter somente o dom do ouvido, mas podereiver por meio de outros que têm o dom da vista; ou talvez eu possa caminhar, mas nãotrabalhar; e então recebo ajuda das mãos. Um comportamento demasiado comum a70
  • 71. respeito das coisas do Senhor é o de pensar: "O que eu sou, sou; e o que não sou, nãosou; e posso muito bem fazer menos"; mas em Cristo as coisas que não sabemos, outrosas conhecem e por meio deles nós podemos conhecê-las e rejubilar-nos. Permitam-me remarcar o fato que este não é o único pensamento reconfortante: é umelemento vital da vida dos filhos de Deus. não podemos fazer a menos uns pelos outros.Por isto a comunhão na oração é tão importante. A oração conjunta incrementa o Corpo,como se vê claramente em Mateus 18:19-20: "Também vos digo que, se dois de vósconcordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meuPai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aíestou eu no meio deles". Pode não ser suficiente que eu confie sozinho no Senhor; énecessário que confie nEle junto com os outros. É necessário que aprenda a dizer: "Painosso" sobre o fundamento da unidade com o Corpo, porque não servirei para nada sema ajuda do Corpo. No que faz ao serviço isto é ainda mais evidente. Sozinho, eu, nãoposso servir o Senhor com eficácia, e Ele não me poupará nenhuma dificuldade para mefazer ver isso. Ele porá fim a todas as coisas, permitirá que as portas se fechem e medeixará bater em vão a cabeça contra a parede, até que eu tenha aprendido quenecessito do auxílio do Corpo tanto como o do Senhor. Porque a vida de Cristo é a vidado Corpo, e os seus dons nos acordaram para que cooperemos com a edificação doCorpo. O Corpo não é uma imagem, é um fato. A Bíblia não diz que a Igreja seja similar a um corpo, mas que ela é o "Corpo deCristo". Nós, que somos muitos, formamos um só corpo em Cristo e somos todosmembros os uns dos outros. Todos os membros reunidos são um único Corpo porquetodos participam de sua vida, como se Ele se subdividisse entre seus membros. Euestava, um dia, com um grupo de crentes chineses que tinham dificuldade paracompreender como o Corpo pudesse ser um, quando aqueles que o compõem são tantoshomens e mulheres distantes e separados. Um domingo eu estava a ponto de partir opão para a Ceia do Senhor, mas antes atraí a atenção deles sobre aquele pão. A seguir,depois que ele foi distribuído e comido, fiz observar a eles que, ainda tendo-o repartidotodo entre todos eles, continuava a ser um pão e não muitos pães: o pão havia sidodividido, mas Cristo não é dividido nem sequer no sentido em que o pão tinha sido. Elecontinua a ser um único Espírito em nós, e nós somos todos "um" nEle. Este é o verdadeiro oposto da condição natural do homem. Em Adão eu possuo a vidade Adão, mas essa vida é essencialmente individual. Não existe nenhuma união ouirmandade com o pecado, mas somente interesse pessoal e desconfiança respeito aosoutros. Mas quando avanço com o Senhor, não demoro em descobrir que o problema domeu pecado e de minha força natural deve ser resolvido, mas que ainda existe um outroproblema, o da minha vida individual, daquela vida que é auto-suficiente e nãoreconhece sua necessidade de união com o Corpo. Posso ter achado a solução dosproblemas do pecado e da carne e permanecer um teimoso individualista. Desejosantidade e vitória e conseguir muito fruto para mim pessoalmente, à margem dastentativas mais puras; mas semelhante comportamento ignora o Corpo, e não pode darsatisfação a Deus. Ele deve então agir em mim também nisto, de outro modo eu ficareiem oposição a Sua vontade. Deus não me censura por ser um indivíduo, mas condena omeu individualismo. A Sua maior dor não é a divisão e a denominação externa que dividea Sua Igreja, mas nossos próprios corações individualistas. Sim, é necessário que a Cruz realize sua obra em mim, lembrando-me que estoumorto em Cristo para a velha vida independente que herdei de Adão, e que naressurreição me converti não somente num crente individual em Cristo, mas nummembro do Seu Corpo. Existe uma grande diferença entre estas duas coisas. Quandotenha compreendido isto deverei logo acabar de vez com a minha independência edeverei procurar irmandade. A vida de Cristo em mim me impelirá rumo à vida do Cristonos outros. Não poderei mais continuar um caminho individual. O ciúme desaparecerá, arivalidade cairá, a obra privada cessará. Os meus interesses, as minhas ambições, asminhas preferências, tudo isso desaparecerá. Pouco importará quem entre nós cumpriráa obra. Tudo quanto importará será que o Corpo cresça. Eu disse: "quando tenhaentendido isto..." É exatamente o que é necessário: "Ver o Corpo de Cristo como umaoutra grande realidade divina; ter assimilado em nosso espírito, por revelação celestial,que nós que somos muitos, formamos um só corpo em Cristo". Somente o Espírito podefazer-nos compreender completamente este significado, mas quando o faz transtorna anossa vida e o nosso trabalho. MAIS QUE VENCEDORES EM VIRTUDE DE CRISTO 71
  • 72. Nós conhecemos somente a história depois da queda. Deus a vê desde o princípio.Havia alguma coisa em seu desígnio antes da queda e, no futuro, esta realidade seráplenamente cumprida. Deus sabia todo acerca do pecado e da redenção; ainda assim,em seu grande plano com vistas a Igreja, que nos foi apresentado em Gênesis 2, opecado não aparece para nada. É como se (falando em termos limitados) Deus tivessepulado com o pensamento toda a história da redenção, e visse agora a Igreja naeternidade futura, tendo um ministério e uma história (futura), completamente fora dopecado e inteiramente de Deus. É o Corpo de Cristo na glória, sem nenhuma referênciaao homem caído, mas referente só ao homem que é a imagem do Filho do Homemglorificado. Esta é a Igreja que satisfaz o coração de Deus e que chegou à soberania. Em Efésios 5 nos encontramos de cheio na história da redenção, porém, pela suagraça, temos ainda diante o eterno desígnio de Deus, expresso na afirmação que "Elenos dará uma Igreja gloriosa". Agora observamos que a Igreja (contaminada pela queda) tem necessidade de serpreparada com a água da vida e com a Palavra que purifica para ser apresentada a Cristoem sua glória. Porque existem nela defeitos aos quais é preciso remediar e feridas que énecessário curar. Ainda assim, quão preciosa é a promessa e como são ricas de graça aspalavras que a descrevem: "sem mácula" (as cicatrizes do pecado), cuja própria históriaé esquecida; "sem ruga" (as marcas da idade e do tempo perdido), que são canceladasporque tudo foi agora reparado e tudo é novo; "irrepreensível", de forma que nemSatanás, nem os homens podem achar nela nenhuma base de acusação. Eis aqui aonde temos chegado. O tempo corre para a fim, e o poder de Satanás émaior do que nunca. Nós devemos lutar contra os anjos, as potestades, os dominadoresdeste mundo de trevas (Romanos 8:38; Efésios 6:12), os quais estão decididos acombater e destruir a obra de Deus em nós, tentando por todos os médios de acusar oseleitos de Deus. Sozinhos não poderemos afrontar semelhantes adversários; mas o quenão podemos fazer sozinhos, pode fazê-lo a Igreja. O pecado, a fé em nós mesmos e oindividualismo foram os golpes mestres que Satanás levou ao coração do plano de Deuspara o homem; porém, na Cruz, Deus anulou seus efeitos. Quando depositamos a nossafé naquilo que Ele tem cumprido —em "Deus que justifica" e em "Jesus cruz que morreu"(Romanos 8:33-34)—, formamos uma barreira contra a qual as portas do inferno nãopoderão prevalecer. Nós, a Igreja, somos "mais que vencedores, por aquele que nosamou" (Romanos 8:37). CAPÍTULO 12 – A CRUZ E A VIDA DA ALMA Deus tem plenamente provido à nossa redenção por meio da Cruz de Cristo, mas nãose deteve nisto somente. Na Cruz também segurou, contra toda possibilidade de falha, odesígnio eterno do qual Paulo fala em Efésios 3:9-11: "...e demonstrar a todos qual sejaa dispensação do mistério que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou,para que agora seja manifestada, por meio da igreja, aos principados e potestades nasregiões celestes, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor". Dizemos que da obra da Cruz resultaram duas conseqüências, ligadas diretamente aocumprimento deste plano em nós. De uma parte, mediante esta obra, a vida de Cristo foientregue para encontrar sua expressão em nós, por meio do Espírito Santo que mora emnós. Por outra parte, ela fez possível aquilo que chamamos "carregar a cruz"; vale dizer,a nossa cooperação na ação do dia-a-dia de sua morte, para que esta nova vida sejamanifestada em nós, de forma que o "homem natural" seja progressivamente conduzidoao lugar que deve ocupar em submissão ao Espírito Santo. Estas duas conseqüências sãoclaramente dois aspectos, um positivo e o outro negativo, da mesma obra. Está claro quenos referimos particularmente ao problema do proceder em uma vida vivenciada para oSenhor. Até aqui, estudando a vida cristã, nos detivemos nas crises que constituem seuinício. Nos ocuparemos agora especialmente do caminho do discípulo, tendo maisclaramente em vista seu adestramento para ser um servo de Deus. Dele tem dito oSenhor Jesus: "Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo"(Lucas 14:27). Devemos então examinar o que é um homem natural e que significa "levar a cruz".Para compreendê-lo é preciso voltar mais uma vez ao Gênesis, e considerar como Deusqueria que fosse o homem, quando o criou, e como seu plano foi obstaculizado.Poderemos, deste modo, compreender os princípios em base aos quais fomos feitosaptos para viver novamente em harmonia com este plano.72
  • 73. A VERDADEIRA NATUREZA DA QUEDA Se tivermos somente uma revelação limitada do plano de Deus, não podemos menosque perceber a importância atribuída à palavra "homem". Nós diremos com o salmista:"O que é o homem, para que te lembres dele?" (Salmo 8:4). A Bíblia nos mostraclaramente que aquilo que Deus deseja sobretudo é um homem, um homem segundoSeu coração. Deus cria, então, um homem. Nós aprendemos de Gênesis 2:7 que Adão foi criado"alma vivente", dotado de um espírito com que podia comunicar-se com Deus, e de umcorpo físico para estar em contacto com a natureza material. (Diversos fragmentos doNovo Testamento, como 1 Tessalonicenses 5:23 e Hebreus 4:12, confirmam esta tríplicenatureza do ser humano). Por meio de seu espírito, Adão estava em contacto com omundo espiritual de Deus; através de seu corpo estava em contacto com o mundo físicodas coisas materiais. Ele reunia em si estes dois aspectos da ação criadora de Deus e seconvertia, assim, numa personalidade, uma entidade vivente no mundo, auto-determinada e com a faculdade da livre escolha. Considerado em seu conjunto, ele eraentão um ser consciente de si e capaz de expressar-se por si mesmo, uma "almavivente" Vimos já que Adão foi criado perfeito; com isto queremos dizer que não tinhaimperfeições, porque foi criado por Deus, mas não tinha ainda sido "convertido" emperfeito. Ainda necessitava de um último retoque: Deus não havia cumprido tudo o quetinha intenção de fazer em Adão. Ele tinha alguma coisa a mais em vista, porém tudoisso estava então suspenso. Deus havia procedido ao cumprimento de Seu plano criandoo homem, mas seu plano ia além do homem, porque devia assegurar a Deus todos osseus direitos no universo, graças a um instrumento: o homem mesmo. Mas como podia ohomem ser o instrumento do plano de Deus? Unicamente com uma cooperação derivantede uma união vivente com Deus. Deus procurou ter sobre a terra não somente uma raçade homens do mesmo sangue, mas uma raça em cujo membro residisse a Sua vida. Umaraça como essa devia superar a queda de Satanás e efetivar tudo aquilo que Deus tinhano coração. Isto era o que Deus tinha em vista na criação do homem. Vimos, também, que Adão foi criado neutro. Ele tinha uma espírito que o capacitavapara estar em comunhão com Deus; mas como homem ele não estava ainda, por assimdizer, definitivamente orientado; tinha o poder e a faculdade de escolher, porém podia,se o desejasse, tender para o lado oposto. O fim de Deus para o homem era "o estado defilho", ou, em outras palavras, a demonstração de sua vida nos seres humanos. Esta vidadivina estava representada no jardim do Éden pela árvore da vida, a qual produzia umfruto que o homem podia receber, aceitar, comer. Se Adão, criado neutro, tivesse seencaminhado voluntariamente nesta via e, escolhendo depender de Deus, tivesserecebido o fruto da árvore da vida (que representava a vida mesma de Deus), Deus teriasua vida em comunhão com os homens; Ele teria obtido filhos espirituais. Mas se, aocontrário, Adão se tivesse voltado para a árvore do conhecimento do bem e do mal, teriaestado, em conseqüência, "livre" para desenvolver-se, segundo seus próprios instintos,fora de Deus. Porém, como esta última escolha implicava cumplicidade com Satanás,Adão encontrou-se assim na impossibilidade de alcançar o fim a que Deus o tinhadestinado. A ALMA HUMANA Agora conhecemos o caminho escolhido por Adão. Achando-se entre as duas árvorescedeu a Satanás e pegou o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Istodeterminou a orientação do seu desenvolvimento. Daquele momento em diante, eledispus de uma consciência; "ele conhecia". Mas —e aqui chegamos ao ponto— o fruto daárvore do conhecimento do bem e do mal fez do primeiro homem um ser sobre-desenvolvido em sua alma. A emoção foi tocada, porque o fruto era desejável aos olhos,e ele "desejou"; a mente, com sua possibilidade de arrazoar, se desenvolveu porque elefoi feito "inteligente"; e a sua vontade fortificou-se de forma de poder sempre, no futuro,decidir seu caminho. O fruto serviu para a apertura e desenvolvimento da alma, de formaque o homem não foi mas somente uma alma vivente, mas daí em diante viveu segundoa sua alma. O homem não possui então mais simplesmente uma alma, mas daquele diaem diante, a alma, com seu poder indispensável de livre escolha, tomou o lugar doespírito como força animadora do homem. Devemos fazer aqui uma distinção entre asduas coisas, porque a diferença é muito importante. Deus não se opõe ao fato —que éuma realidade em Suas intenções— de que nós tenhamos uma alma como aquela que foi 73
  • 74. dada a Adão. Mas o plano que Deus nos assinou é o de desenvolver alguma coisa. Existe,hoje, algo no homem que não deriva simplesmente da existência de sua alma, mas dofato que ele vive segundo a sua alma. Isto é o que Satanás introduziu por meio daqueda. Ele empurrou o homem a empenhar-se num caminho onde sua alma ter-se-iadesenvolvido a ponto tal de converter-se na fonte mesma de sua vida. Devemos, porém, prestar atenção. Para remediar isto, não é necessário que nósprocuremos anular todo aquilo que está na alma. Ninguém pode fazer isto. Se hoje aCruz age verdadeiramente em nós, isto não significa que fiquemos inertes, insensíveis,sem caráter. Nós possuímos ainda uma alma e todas as vezes que recebemos algumacoisa de Deus, ela nos resultará útil, mas como um instrumento, uma faculdadesubmetida exclusivamente a Deus. Todavia, o interrogante é o seguinte: no queconcerne à alma, ficamos nos limites fixados por Deus, ou seja, nos termos que Eleestabeleceu no princípio no jardim do Éden, ou nos saímos destes limites? O que Deus está fazendo agora é o trabalho do vinhateiro quando constrói uma sebeem volta da vinha. Existe, em nossa alma, um desenvolvimento indisciplinado, umcrescimento desregulado que deve ser controlado. É necessário que Deus elimine tudoisto. É necessário que os nossos olhos sejam abertos a estes aspectos da ação de Deusem nós. Por um lado, o Senhor procura deixar-nos em condições de viver a vida de seuFilho. Por outra parte, Ele prossegue uma ação direta em nosso coração, para destruir osoutros recursos naturais que são o fruto do conhecimento. A cada dia aprendemos estasduas lições: um acréscimo da vida de seu Filho, e uma limitação, até a extinção, da outravida da alma. Estas duas ações continuam sem trégua, porque o Senhor deseja umdesenvolvimento perfeito da vida de seu Filho em nós, com o objetivo de revelar a Simesmo; e por este meio nos re-conduz, naquilo que concerne a nossa alma, ao ponto departida de Adão. Paulo disse a este respeito: "pois nós, que vivemos, estamos sempreentregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifesteem nossa carne mortal" (2 Coríntios 4:11). O que significa isto? Quer dizer simplesmente que eu não empreenderei nada semconfiar-me a Deus. Não acharei nenhuma capacidade em mim mesmo. Não dareinenhum passo porque não tenho o poder de dá-lo. Embora tenha em mim aquele poderque herdei, não o usarei; não colocarei fé alguma em mim mesmo. Tomando o fruto,Adão se converteu em possuidor de um poder de agir autonomamente; contudo, de umpoder que, mantendo-o independente de Deus, o colocou diretamente nas mãos deSatanás. Nós perdemos este poder de atuar quando chegamos a conhecer o Senhor. Elenos libera e descobrimos que agora nos resulta impossível agir segundo as nossaspróprias iniciativas. Nós devemos viver pela força de UM OUTRO; devemos receber tudodEle. Meus queridos amigos, eu creio que conhecemos nós mesmos até um certo ponto;mas demasiado freqüentemente não trememos por aquilo que somos. Podemos dizer,com uma espécie de condescendência para com Deus: "Se o Senhor não quer isto, eunão posso fazê-lo", mas, em realidade, o nosso subconsciente afirma que podemos agirmuito bem por nós mesmos, também quando o Senhor não no-lo pede e nem nos dá aforça para fazê-lo. Somos, demasiado amiúde, impulsionados a atuar, a pensar, adecidir, a manifestar a nossa força independentemente dEle. Muitos cristãos entre nóshoje em dia são seres sobre-desenvolvidos na alma. Somos demasiado grandes em nósmesmos; estamos "dominados pela nossa alma". Quando nos encontramos neste estado, a vida do Filho de Deus está limitada em nós,e quase que obstaculizada em sua ação. A ENERGIA NATURAL NA OBRA DE DEUS A força e a energia da alma se encontram em todos nós. Aqueles que estiveram naescola do Senhor rejeitam aceitar este princípio como um princípio de vida; desistem deviver segundo ele; não desejam ser dominados e não lhe permitem de ser a fonte desuas forças na obra de Deus. Mas aqueles que não foram instruídos por Deus confiamnelas; as utilizam, pensam que isso seja a força. Tomemos, antes que nada, um exemplo evidente. Muitos são aqueles dentre nós queno passado arrazoaram desta forma: "Eis um homem de caráter amável, bom, dotado deuma inteligência clara, de um caráter seguro, que possui excelentes aptidõesorganizativas". Em nosso íntimo pensamos: "Se este homem fosse crente, quantariqueza receberia a Igreja! Se somente pertencesse ao Senhor, que valor representariapara a Sua causa!"74
  • 75. Porém, reflitamos um instante. Onde conseguiu este homem o seu bom caráter? Deonde lhe vêm estas atitudes de bom organizador e a sua segurança de ação? Não donovo nascimento, porque ele não é ainda nascido de novo. Sabemos que todos nóssomos nascidos da carne; portanto, é necessário nascer de novo. Mas o Senhor Jesusdisse, a este propósito, em João 3:6, que "o que é nascido da carne é carne". Tudoaquilo que provém não do novo nascimento, senão da natureza, é carne, e somente podedar glória ao homem, nunca a Deus. Esta declaração é amarga, mas verdadeira. Falamos do poder da alma ou energia natural. O que é esta energia natural? Ésimplesmente o que posso fazer, o que eu posso de mim mesmo, o que eu herdei emdons e recursos naturais. Não existe ninguém entre nós que possua esta força da alma, ea nossa primeira grande necessidade é a de reconhecer sua natureza real. Tomemos por exemplo a inteligência humana. Eu posso ter por natureza umpensamento e um razoamento claro, bem estabelecido. Antes de meu novo nascimento,eu possuo por natureza, como alguma coisa que se desenvolveu em mim normalmentedesde o meu nascimento natural. Mas a dificuldade surge aqui. Eu me converti, nasci denovo, uma obra profunda atuou em meu espírito, uma união essencial foi estabelecidacom o Pai em meu espírito. Existem então duas coisas em mim: eu estou unido a Deus,com uma ligação que se estabeleceu em meu espírito, mas ao mesmo tempo carregoalguma coisa em mim que deriva ainda do meu nascimento natural. O que devo fazercom isto? A tendência natural é esta: eu exercia antes a minha inteligente com grande interessena história, nos feitos, na química, nos problemas deste mundo, na literatura, na poesia.Consagrava todo o meu pensamento a alcançar aquilo que havia de melhor nestesestudos. Agora, os meus desejos mudaram, e eu utilizo hoje a minha mente, exatamenteda mesma forma, nas coisas de Deus. Tenho então mudado o objeto do meu interesse,mas não mudei o meu método de trabalho. Eis a solução do problema. Os meusinteresses foram completamente mudados (Deus seja louvado por isto!), mas agora,para estudar a epístola aos Coríntios e aos Efésios, realizo o mesmo empenho que antesadotava para estudar história ou geografia. Mas este engenho não pertence à novacriação, e Deus não pode ficar satisfeito somente com esta mudança de interesse. Adificuldade para muitos de nós reside no fato que mudamos a direção rumo a qualestavam voltadas as nossas energias, sem ter mudado a fonte destas energias. Veremos que existe uma quantidade de coisas deste estilo que transferimos dodomínio natural para o serviço do Senhor. Consideremos o dom da eloqüência. Existemhomens que são oradores natos; eles podem apresentar um tema de forma convincente.Eles se convertem e nós, sem perguntar-nos qual seja a posição deles a respeito dascoisas espirituais, os colocamos sobre um púlpito e os convertemos em predicadores. Osencorajamos para usar seus dons naturais para a predicação do Evangelho, e isto é aindauma mudança do objeto, conservando a mesma fonte de energia. Esquecemos que,quando se trata dos recursos necessários para tratar das coisas de Deus, não é maisquestão de valor efetivo, mas de origem; é necessário ver de qual fonte obtemos asnossas energias. Não se trata daquilo que fazemos, antes bem dos recursos queutilizamos e de quem dirige estas energias. O homem apto para ser utilizado por Deus,pode muito bem ser eloqüente, mas existe o signo da Cruz sobre essa eloqüência, e nomodo como a usa é evidente a marca da ação do Espírito de Deus. Nós não pensamossuficientemente na fonte de nossas energias, e pensamos demasiado no objetivo ao qualestão dirigidas, esquecendo que, para o Senhor, o fim não justifica os meios. O exemplo que se segue nos permitirá provar a verdade destes pensamentos. O senhor A. é um excelente orador; pode falar com grande facilidade, de formaconvincente sobre qualquer argumento, mas para as coisas práticas da vida não temnenhuma aptidão. O senhor B., ao contrário, é um orador mísero; não sabe nem sequerse expressar com clareza, e gira sempre em volta do seu argumento sem nunca atingiruma conclusão; porém, é um organizador cheio de recursos, competente em muitoscampos; um homem prático. Estes dois homens se convertem e são verdadeiros crentes.Suponhamos agora que eu peça aos dois de tomar a palavra numa reunião, e que os doisaceitem. O que acontecerá? Eu pedi a mesma coisa aos dois homens, mas qual dos dois,segundo vocês, se preparará mais seriamente em oração? Certamente o senhor B. Porquê? Porque é ciente de sua incapacidade oratória e sabe que não possui nenhumrecurso natural sobre o qual se apoiar. Assim orará: "Senhor, se Tu não me dás acapacidade de fazê-lo, eu não poderei falar de Ti". Sem dúvida o senhor A. orará 75
  • 76. também, mas talvez não na mesma forma que o senhor B., porque ele sabe que possueos recursos naturais. Suponhamos agora que eu peça a eles não de falar, mas de solucionar muitosproblemas de caráter prático na reunião. O que acontecerá então? A sua posiçãorecíproca estará exatamente invertida. Agora será o sr A. quem orará intensamentesabendo bem de não ter nenhuma capacidade organizativa. Também o senhor B. orará,seguramente, mas não com a mesma insistência, porque, ainda reconhecendo ternecessidade de Deus, não tem a mesma consciência de incapacidade do senhor A. pelascoisas práticas. Vêem a diferença entre os dons naturais e os dons espirituais? Tudo aquilo que podemos fazer sem oração e sem uma constante dependênciacompleta em Deus provém daquela fonte de vida natural que está em relação com acarne. É necessário compreender isto muito claramente. Certamente isto não significaque sejam qualificados para um particular trabalho somente aqueles que não têm osdons naturais para cumpri-lo. O ponto a ressaltar é este: quer nós possuamos donsnaturais ou não, é necessário que conheçamos a obra da Cruz, o que significa a morte detudo aquilo que é natural e a nossa dependência completa no Deus da ressurreição.Invejamos demasiado facilmente o nosso próximo que tem algum dom natural,esquecendo que, se possuirmos nós mesmos algum dom, fora da ação da Cruz, elepoderia facilmente ser um obstáculo àquilo que Deus tenta de manifestar em nós. Pouco tempo depois de minha conversão fui predicar o Evangelho nas favelas. Tinharecebido uma boa instrução e conhecia bem as Escrituras; me considerava, então, bempreparado e capaz de ensinar à gente do campo, entre os quais havia muitas mulheresanalfabetas. Mas, depois de algumas visitas, percebi que, apesar de sua ignorância,essas mulheres tinham um conhecimento íntimo do Senhor. Eu conhecia bem o livro queelas liam com dificuldade, mas elas conheciam bem Aquele de quem falava o livro. Eutinha uma riqueza na carne; elas tinham uma riqueza no espírito. Quantos cristãos hojetentam de ensinar aos outros, como eu fazia então, confiando maiormente na força desua sabedoria humana! Achei, um dia, um jovem irmão –jovem quanto aos anos, mas com um conhecimentoprofundo do Senhor. O Senhor o tinha conduzido através de muitas provas. Durante anossa conversação lhe perguntei: "Irmão, o que o Senhor tem te ensinado realmentenestes dias?". Ele respondeu: "Uma única coisa: que não posso fazer nada sem Ele"."Você quer dizer que verdadeiramente não pode fazer nada?", perguntei ainda. "Bem,não", replicou ele, "eu posso fazer muitas coisas! Mas é isto justamente o meu problema.Sabe, sempre tive tanta confiança em mim mesmo! Sei muito bem que posso fazer umaquantidade de coisas". Então perguntei: "O que você quer dizer então, quando diz quenão pode fazer nada sem Ele?" Ele respondeu: "O Senhor me mostrou que posso fazerqualquer coisa, mas que Ele declarou: "Sem mim nada podeis fazer". O resultado então éque tudo o que fiz e posso fazer ainda sem Ele não vale nada!" É necessário chegar a esta compreensão. Eu não quero dizer que não se possam fazermuitas coisas: de fato, podemos. Nós podemos organizar reuniões, edificar igrejas,podemos ir até os confins da terra e fundar missões e podemos acreditar de obter fruto;mas lembremos a palavra do Senhor: "Toda planta que meu Pai celestial não plantouserá arrancada" (Mateus 156:13). Deus é o único autor legítimo do universo. "Noprincípio, criou Deus os céus e a terra" (Gênesis 1:1), e o seu Santo Espírito é o únicoverdadeiro criador em nossos corações. Tudo aquilo que vocês ou eu possamos projetare pôr em obra sem Ele tem a marca da carne e não alcançará nunca o domínio doEspírito, apesar de toda a seriedade com que invoquemos as bênçãos de Deus para onosso esforço. Este estado de coisas pode se prolongar por anos e então poderemospensar em cumprir um avanço aqui, um melhoramento lá, e talvez levar tudo sobre umplano melhor; mas não poderemos fazer nada de tudo isto. A origem de uma coisa determina seu destino, e o que é "da carne" na origem nãopoderá nunca se converter em espiritual, apesar de qualquer "aperfeiçoamento". O quenasceu da carne é carne e nunca poderá ser outra coisa. Tudo aquilo que podemoscumprir por nós mesmos é "nada" aos olhos de Deus, e devemos aceitar a Suadesaprovação e reconhecer que é mesmo "nada"! "A carne para nada aproveita" (João6:63). Somente aquilo que provém do Alto pode subsistir. Nós não podemos compreender esta verdade, pelo simples fato que a sentimos dizer.É necessário que Deus nos ensine o que significa, colocando seu dedo sobre uma coisaque Ele vê e dizendo-nos: "Isto é natural; isto tem sua fonte na velha criação e não temorigem em Mim, e portanto não pode subsistir". Até o momento em que Deus não76
  • 77. intervenha desse modo, nós poderemos estar de acordo com o princípio, mas nãopoderemos compreendê-lo realmente. Poderemos aprovar esta verdade, e tambémjubilar-nos, mas não teremos verdadeiramente horror de nós mesmos. Um dia chegaráno qual Deus abrirá os nossos olhos. De frente a uma situação particular deveremosreconhecer como de uma revelação: "Isto é sujo, é impuro; Senhor, eu vejo!" Estapalavra "pureza" é uma palavra preciosa. Eu a relaciono sempre com o Espírito. A purezarepresenta uma coisa que é absolutamente do Espírito. A impureza significa confusão.Quando Deus abre os nossos olhos e nos mostra que a vida natural é uma coisa que Elenão poderá jamais utilizar em sua obra, percebemos que não podemos mais seguircertas doutrinas. Sentimos horror da impureza que existe em nós; mas quando estamosprevenidos acerca disto, Deus começa sua obra de liberação. Em seguida veremos como Deus proveu para esta liberação; mas devemos deter-nosainda sobre o fato da revelação. A LUZ DE DEUS E O CONHECIMENTO É evidente que se alguém está decidido a servir ao Senhor com todo seu coração,sentirá a necessidade de luz. Somente quando foi escolhido por Deus, e tenta aproximar-se dEle, sente quanto seja necessária esta luz. Existe em nós uma necessidade profundade luz para conhecer o pensamento de Deus, para discernir aquilo que é do Espírito doque é da alma; para discernir aquilo que é divino daquilo que é simplesmente humano;para discernir aquilo que é verdadeiramente celestial daquilo que é terreno; paradistinguir a diferença entre as coisas espirituais e as carnais; para saber se é realmenteDeus quem está dirigindo-nos ou se caminhamos detrás de nossos sentimentos, nossasimpressões e nossas imaginações. Quando tenhamos chegado ao ponto em que desejemos seguir a Deus em cada coisa,reconheceremos que a luz é a coisa mais necessária na vida cristã. Quando me encontrocom irmãos e irmãs mais jovens, uma pergunta se repete sempre: "Como faço parasaber se estou caminhando no Espírito? Como posso discernir se o impulso que existe emmim provém do Espírito Santo, ou dos meus sentimentos?" Parece que este problemaseja a base da preocupação geral, mais alguns foram além. Tentam escavar nelesmesmos, analisar-se, e fazendo isso entram numa escravidão mais profunda. Estecomportamento é verdadeiramente perigoso para a vida cristã, porque não se poderájamais prevenir a consciência interna através da árida senda da auto-análise. Não está escrito em parte nenhuma da Palavra de Deus que devamos examinar oestado interior.11 Isto nos conduzirá somente à dúvida, ao desequilíbrio, à desesperação. É verdade quedevemos conhecer nós mesmos, que devemos saber o que acontece dentro de nós. Nãotemos o direito de repousar num paraíso de loucos, nem de andar por uma falsa sendasem saber que está errada, nem de ter uma vontade dirigida para o mal, pensando queseja a vontade de Deus. mas este conhecimento de nós mesmos não pode vir olhandodentro de nós e analisando os nossos sentimentos, nossos objetivos e tudo aquilo que sepassa em nós, para tentar de compreender se caminhamos na carne ou no Espírito. Temos nos Salmos muitos versículos que iluminam este tema. O primeiro encontra-seno Salmo 36:9: "na tua luz vemos a luz". Eu penso que este seja um dos versículos maisbonitos do Antigo Testamento. Há aqui duas luzes. Existe "tua luz", e quando entramosnesta luz, nós "vemos a luz". Há uma diferença entre estas duas luzes. Podemos dizer que a primeira é objetiva e asegunda é subjetiva. A primeira luz é a que pertence a Deus e que é derramada sobrenós; a segunda, é o conhecimento que recebemos daquela luz. "Na tua luz vemos a luz";conheceremos alguma coisa; teremos certeza, veremos. Nenhum exame interior poderánunca conduzir-nos a esta clareza. Não, é quando a luz nos vem de Deus que vemos. Isto parece tão simples. Se quisermos estar seguros que o nosso rosto está limpo, oque fazemos? O apalpamos cuidadosamente com as mãos? Certamente não! Pegaremosum espelho e nos olharemos à luz. Nesta luz tudo ficará claro. Nós não veremos jamaistocando ou analisando. A revelação vem somente da luz de Deus que penetra em nós. E11 Parece que existam duas exceções: uma se encontra em 1 Coríntios 11:28-31 e a outra em 2Coríntios 13:5. A primeira citação exorta a examinar a nós mesmos para ver se reconhecemos oCorpo do Senhor ou não, e isto em relação com a Ceia do Senhor, e não com um conhecimento desi mesmos. No segundo fragmento, Paulo nos ordena severamente de examinar-nos paracompreender se estamos ou não "na fé". Trata-se de saber se uma fé fundamental existe em nós,se efetivamente somos cristãos. Isto não tem nenhuma relação com o caminho do dia-a-dia noEspírito, nem com o conhecimento de nós mesmos (Nota do autor, W.N.). 77
  • 78. quando entrou em nós não é mais necessário perguntar se uma coisa é boa ou ruim: osabemos. Lembrem também daquilo que escreveu o autor do Salmo 139:23: "Sonda-me, óDeus, e conhece o meu coração". Percebem, em verdade, o que significa este pedido?Não significa certamente que eu investigo a mim mesmo. "Sonda-me", significa "Tuinvestiga-me!" É desta forma que nos chega a luz. É preciso que Deus entre em mimpara investigar-me, não cabe a mim fazê-lo. Mas isto não quer dizer que eu devaavançar cegamente, sem me preocupar do meu verdadeiro estado. Não é este o ponto. Oque importa é isto: enquanto os meus exames de consciência me digam que muitascoisas devem ser reparadas, eles não irão nunca debaixo da superfície. O verdadeiroconhecimento de mim mesmo não vem do meu investigar-me, mas de que Deus meinvestigue. Talvez vocês perguntem: "O que significa, de modo prático, ver a luz? Como se poderealizar? Como podemos ver a luz pela sua luz?" Aqui o salmista vem ainda em nossaajuda: "A exposição das tuas palavras dá luz; dá entendimento aos simples" (Salmo139:130). Nas coisas espirituais somos todos "simples". Nós dependemos de Deus quenos dá a inteligência, e a necessitamos, particularmente no que concerte a nossaverdadeira natureza. E a Palavra de Deus opera sempre oportunamente. No NovoTestamento, o versículo que afirma isto da maneira mais eficaz se encontra na epístolaaos Hebreus: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquerespada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas,e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura algumaencoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele aquem havemos de prestar contas" (Hebreus 4:12-13). Sim, é a palavra de Deus, a penetrante Escritura da verdade que responde a todos osnossos interrogantes. É ela que discerne os nossos motivos e define para nós suaverdadeira fonte, na alma e no Espírito. Com isto, penso que agora poderemos passar doaspecto doutrinário do problema ao seu aspecto prático. A maior parte de nós, estouseguro, deseja ter uma vida íntegra diante de Deus. Nos aperfeiçoamos e nãodiscernimos nada demasiado irreparável em nós. Procedendo ainda, reconhecemos averdade daquela asserção: "As tuas palavras são uma revelação que nos ilumina". Deusutilizou um dos seus servos para colocar-nos de frente à sua Palavra, e esta Palavrapenetrou em nosso coração. Ou talvez nos tenhamos colocado diante de Deus,esperando que Ele falasse e de repente, em nosso pensamento, ou ainda na página queestava diante de nós, a sua Palavra nos alcançou com poder. Então vemos alguma coisaque não tínhamos observado antes. Nos sentimos culpados. Sabemos exatamente o quehá de errado em nós, e alçamos o nosso olhar ao Senhor para confessá-lo: "Senhor, euvejo. Há impureza. Há confusão. Como eu estava cego! E pensar que por tantos anospermaneci neste erro, sem jamais percebê-lo!" A luz entra em nós e então vemos a luz.A luz de Deus se reflete em nós e é verdade que cada conhecimento de nós mesmos noschega deste modo. Pode ser também que certas revelações não nos cheguem sempre das Escrituras.Alguns de nós conhecemos santos que tinham um semelhante conhecimento do Senhor,e orando ou falando com eles, na luz de Deus que deles se irradiava, achamos algumacoisa que não tínhamos jamais imaginado antes. Eu conheci uma destas pessoas queestá agora com o Senhor, e a lembrança que conservei dela é a de uma crente"iluminada". Bastava que entrasse em seu quarto para ter imediatamente consciência dapresença de Deus. Naquele tempo eu era muito jovem, tinham se passado somente doisanos de minha conversão e tinha uma quantidade de projetos, de belíssimospensamentos, de planos para apresentar à aprovação do Senhor, cem coisas que euachava seriam maravilhosas se pudessem ser realizadas. Fui diante dela com todas aquelas coisas, para tentar persuadi-la e explicá-lhe queprecisava fazer isto ou aquilo. Antes que eu pudesse falar, ela me disse somente algumapalavra, da forma mais natural. Então, a luz brilhou e eu me senti imediatamenteconfuso. Todo o meu desejo de "fazer" e o meu projetar se revelaram somente naturais,cheios de humanidade. Então aconteceu uma coisa. Fui levado ao ponto de ter que dizer:"Senhor, meus pensamentos estão baseados somente em atividades humanas, mas háaqui alguém que, ao contrario, não se preocupa com nada; ensina-me a imitá-la". Elatinha só uma razão de ser, um único desejo, e era para Deus. Sobre a primeira página desua Bíblia estava escrita esta frase: "Senhor, eu não quero nada para mim mesma". Sim,vivia somente para o Senhor. Quando encontrem uma pessoa que age assim, acharão78
  • 79. sempre que ela está imersa na luz, e que aquela luz ilumina os outros. Aquele é overdadeiro testemunho.12 A luz obedece a uma única lei: aclara as coisas onde penetra. Esta é a única condiçãoque impõe. Nós podemos rejeitá-la; é a única coisa que ela teme. Mas se nos abrimos enos abandonamos a Deus, Ele se revelará. As dificuldades acontecem quando temos emnós zonas fechadas, ângulos hermeticamente cerrados em nosso coração, ondepensamos com orgulho ter a razão. A nossa derrota consiste então menos no fato de queerramos que em não saber que erramos. O erro pode ser uma questão de força natural;a ignorância é questão de luz. Podem ver a força natural nos outros, mas eles não podemvê-la em si mesmos. Oh, como temos necessidade de sermos sinceros e humildes, e deabrir-nos diante de Deus! Aqueles que são abertos, podem ver. Deus é luz, e nós nãopodemos viver em sua luz e permanecer fechados. Repetimos ainda com o salmista:"Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem" (Salmo 43:3). Nós agradecemos a Deus porque hoje mais que antes o pecado é colocado diante daconsciência dos cristãos. Em muitos lugares os olhos dos crentes foram abertos para verque a vitória sobre o pecado é importante na vida cristã; e em conseqüência muitoscaminhamos mais perto de Deus para procurar nEle a liberação. Louvamos o Senhor porcada movimento que nos aproxima mais dEle, por cada movimento que nos reconduz auma verdadeira santidade diante de Deus. Contudo, ainda não é suficiente. Existe umacoisa que deve ser curada e é a vida mesma do homem, não somente seus pecados. Nocentro do problema está a energia de sua alma, a força que o move. Fazer alguma coisado pecado ou ainda da carne em suas manifestações naturais é continuar a permanecerna superfície, não alcançar a raiz da questão. Adão não fez entrar o mundo no pecadocometendo assassinato. Isto aconteceu depois. Adão deixou entrar o pecado escolhendoter uma alma desenvolvida a ponto de poder caminhar sozinho, independente de Deus.Quando, ao contrário, Deus cria para Sua glória uma raça de homens que será oinstrumento de que se servirá para cumprir seu plano no universo, esta raça constituiráum povo cuja vida, cujo próprio alento dependerá dEle. Ele será para eles "a árvore davida". A necessidade que eu sinto sempre mais forte em mim mesmo é a de crer que todosnós, como filhos de Deus, devemos pedi-Lhe a verdadeira revelação de nós mesmos.Repito, não entendo com isso examinar-nos continuamente a nós mesmos, perguntando-nos: "Isto é da alma ou do Espírito?". Isto não nos conduzirá a nada; é somenteescuridão. Não, as Escrituras nos mostram como os santos chegaram a um conhecimentodeles mesmos. Foi sempre por uma luz proveniente de Deus, e essa luz é Deus mesmo.Isaias, Ezequiel, Daniel, Pedro, Paulo, João, todos eles chegaram a um conhecimento desi mesmos porque o Senhor fez resplandecer sua luz sobre eles e aquela luz produziurevelação e conhecimento (Is 6:5; Ez 1:28; Dn 10:8; Lc 22:61-62; At 9:3-5; Ap 1:17). Nós não conheceremos nunca suficiente como o pecado seja odioso e como a nossanatureza seja enganosa até que Deus não nos tenha iluminado com a Sua luz. Eu nãofalo de uma sensação, mas de uma revelação interior do Senhor mesmo, através de suaPalavra. Esta irrupção da luz divina faz por nós o que a doutrina sozinha não poderájamais fazer. Cristo é a nossa luz; e é a Palavra vivente. Quando lemos a Escritura, esta vida nElenos traz a revelação. "E a vida era a luz dos homens" (João 1:4). Uma semelhante luzpode não penetrar de repente por completo, mas gradualmente; mas ela será sempremais clara e penetrante, até que vejamos a luz de Deus e toda a confiança em nósdesapareça. Porque a luz é o que há de mais puro no mundo. Ela purifica, esteriliza,elimina o que não deve existir. Em sua claridade "a divisão de juntas e medulas"converte-se num fato para nós e cessa de ser um ensino. Experimentamos temor etremor a medida que compreendemos a corrupção da natureza humana, o odioso denosso "eu", e a verdadeira ameaça que para a obra de Deus tem a vida de nossa alma ea energia não controlada pelo seu Espírito Santo. Como nunca antes, vemos agoraquanto é necessário da ação severa de Deus em nós, se Ele deve utilizar-nos, e sabemosque sem Ele somos servos completamente inúteis. Mas aqui a cruz, em seu significado mais amplo, vem ainda em nossa ajuda eprocuraremos agora compreender um aspecto de sua obra que toca e resolve o problema 12 Este é uma das muitas referências do autor à defunta Miss Margaret B. Barber da Eremita daPagoda, de Foochow (Ed.). 79
  • 80. de nossa alma. Porque somente uma compreensão completa da Cruz pode conduzir-nosàquela posição de dependência que o Senhor Jesus voluntariamente aceitou quandodisse: "Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e omeu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que meenviou" (João 5:30). CAPÍTULO 13 – O CAMINHO DO PROGRESSO: CARREGAR A CRUZ Várias vezes, no capítulo precedente, tocamos o argumento do serviço para o Senhor.Como agora examinaremos a solução que Deus deu ao problema da vida da alma, serábom aproximar-nos a este problema considerando, antes que nada, os princípios quegovernam este processo. Deus fixou leis espirituais que dirigem o nosso trabalho paraEle, e das quais não pode se desviar nenhum daqueles que pretendem servi-Lo. A baseda nossa salvação, bem o sabemos, é o fato da morte e ressurreição do Senhor, mas ascondições de nosso serviço não são menos precisas. Da mesma forma que o fato damorte e ressurreição do Senhor é a base sobre a qual somos aceitos por Deus, assimtambém o princípio da morte e da ressurreição é a base de nossa vida e do nosso serviçopara Ele. Se é assim, se o Filho do homem, para cumprir sua obra deveu atravessar a morte e aressurreição (como símbolo e como princípio), poderia ser diferente para nós?Certamente nenhum servo de Deus poderá nunca servi-Lo sem conhecer ele mesmo aação deste princípio em sua vida. Isto está fora de discussão. O Senhor demonstrou isto bem claramente aos seus discípulos, antes de deixá-los. Eleestava morto e ressuscitado, e então disse a eles de esperá-Lo em Jerusalém para seremrevestidos de poder. O que é este poder do Espírito Santo, este "poder do alto" de queEle falava? Nada menos que a virtude de sua morte, de sua ressurreição e de suaascensão; para adotar uma outra figura, o Espírito Santo é o vaso, dentro do qual sãodepositados todos os valores da morte, ressurreição e exaltação do Senhor para quepossam ser distribuídos. É o Espírito quem "contém" estes valores e os entrega aoshomens. É esta a razão pela qual o Espírito Santo não podia ser entregue antes que oSenhor tivesse sido glorificado. Somente então pôde descer sobre os homens e mulherespara que fossem Suas testemunhas; porque sem o valor da morte e da ressurreição deCristo, este testemunho não é possível. Se observarmos no Antigo Testamento, acharemos o mesmo princípio. Gostaria delembrar a vocês um fragmento bem conhecido do capítulo 17 de Números. O ministériode Arão tinha sido objetado. Uma discussão havia se levantado entre o povo: Arão tinhasido verdadeiramente escolhido por Deus? Reinava uma certa desconfiança a esserespeito, e diziam: "Nós não sabemos se este homem foi verdadeiramente designado porDeus". Deus quis então provar quem era seu servo e quem não o era. Como fez? Dozevaras mortas, portando cada uma um nome, foram colocadas perante o Eterno, noSantuário, diante da arca do testemunho, e ali permaneceram durante toda uma noite.Na manhã seguinte o Eterno indicou o servo que foi escolhido por meio da vara que tinhagerminado, florescido e produzido fruto. Todos conhecemos o significado destaexperiência. A vara de amêndoas que germina fala da ressurreição. São a morte e aressurreição que provam o ministério que Deus reconhece. Sem este reconhecimento nósnão temos nenhum valor. O germinar da vara de Arão demonstrou que ele estava najusta posição; Deus reconhecerá como seus servos somente àqueles que alcançaram aressurreição através da morte. Vimos que a morte do Senhor age de diversas formas. Sabemos como nos levou areceber o perdão dos nossos pecados, e que sem a aspersão do sangue não há remissão.Depois, vimos como a sua morte atua para liberar-nos do domínio do pecado, e que onosso velho homem foi crucificado com Ele a fim que nós não sirvamos mais o pecado. Aseguir, foi apresentado o problema da vontade do "eu", e a nossa necessidade deconsagração ficou evidente; compreendemos, então, que a morte não agiu em nós paraceder o lugar a um espírito disposto a abandonar a própria vontade e obedecer somenteo Senhor. Isto constitui, em verdade, um ponto de partida para o nosso serviço, mas nãotoca ainda o centro da questão. Pode ainda subsistir em nós uma falta de conhecimentodo significado da alma. Depois um outro fragmento foi apresentado em Romanos 7, onde se examina oproblema da santidade da vida, de uma santidade pessoal e viva. Ali achamos umverdadeiro homem de Deus que, procurando com sua justiça agradar a Deus, se colocasob a lei e a lei lhe revela o que ele é. Ele tenta agradar a Deus operando seu esforço80
  • 81. humano, e a Cruz o deve conduzir a ponto de fazê-lhe dizer: "Não posso fazer isto; nãoposso satisfazer a Deus com as minhas próprias forças; posso somente confiar que oEspírito Santo o faça em mim". Eu acredito que algum de vocês tenha atravessado águas profundas antes deaprender esta verdade e de descobrir o valor da morte do Senhor que age assim. Porém, observem: existe ainda uma grande diferença entre "a carne" de que falaRomanos 7 em relação com a santidade de vida, e a ação das energias naturais da vidada alma no serviço do Senhor. Mas quando tenhamos conhecido aquilo de que falamosatravés de nossa experiência, ficará ainda uma outra esfera na qual deverá atuar amorte do Senhor, para que possamos ser-Lhe úteis em Seu serviço. Embora tenhamosrealizado todas estas experiências, o Senhor não poderá ainda contar conosco até queoutras obras tenham sido completadas em nós. Quantos servos do Senhor foram utilizados por Ele, como diz uma expressão chinesa,para construir quatro metros de muro, mas somente porque depois eles mesmosdestroem cinco metros! Nós somos utilizados num sentido mas, ao mesmo tempo,demolimos o nosso trabalho e, às vezes, também o de outros, porque existe ainda emnós alguma coisa que não foi tocada pelo Senhor. Devemos então ver como o Senhorestabeleceu agir com a alma e depois, mais particularmente, como isto tenha a ver comnosso serviço para Ele. A OBRA SUBJETIVA DA CRUZ Consideremos quatro fragmentos dos Evangelhos. Esses são: "Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque euvim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contrasua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem ama o pai oua mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais doque a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim,não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, poramor de mim, acha-la-á" (Mateus 10:34-39). "E dizia abertamente estas palavras. E Pedro o tomou à parte, e começou arepreendê-lo. Mas ele, virando-se, e olhando para os seus discípulos, repreendeu aPedro, dizendo: Retira-te de diante de mim, Satanás; porque não compreendes as coisasque são de Deus, mas as que são dos homens. E chamando a si a multidão, com os seusdiscípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome asua cruz, e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas,qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará"(Marcos 8:32-35). "Lembrai-vos da mulher de Ló. Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á, equalquer que a perder, salva-la-á. Digo-vos que naquela noite estarão dois numa cama;um será tomado, e outro será deixado" (Lucas 17:32-34). "Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, nãomorrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida perdê-la-á, equem neste mundo odeia a sua vida, guarda-la-á para a vida eterna. Se alguém meserve, siga-me, e onde eu estiver, ali estará também o meu servo. E, se alguém meservir, meu Pai o honrará" (João 12:24-26). Estes quatro fragmentos têm um tema em comum. Em cada um deles, o Senhor falada atividade da alma humana e em cada um deles, põe em evidência um aspecto ou umamanifestação diversa da vida da alma. Nestes versículos Ele declara muito claramenteque o problema da alma do homem pode ser resolvido de um único modo: o de levarcada dia nossa Cruz para segui-Lo. Como já vimos, a vida da alma ou vida natural, de que falamos, é uma coisa que vaialém do que se diz nos versículos que se referem ao velho homem ou a carne.Procuramos demonstrar claramente que, no que diz respeito ao nosso velho homem,Deus remarca o que Ele cumpriu, de uma vez por todas, crucificando-nos com Cristosobre a Cruz. Vimos que três vezes na epístola aos Gálatas o fato da crucifixão élembrado como um fato cumprido; e em Romanos 6:6 nos diz claramente que "nossovelho homem foi crucificado", ou seja que, se o tempo do verbo tem um significado,poderia ser parafraseado desta forma: "Nosso velho homem foi, definitivamente e parasempre, crucificado". É um fato cumprido que nós devemos tomar por revelação divina eapropriar-nos dele, portanto, pela fé. Mas existe um outro aspecto da Cruz, o que está indicado na expressão "levar cadadia a cruz", que agora está diante de nós. Eu fui colocado sobre a Cruz, agora a devo 81
  • 82. carregar; e "levar a cruz" é um fato interno. Entendemos isto quando falamos da obrasubjetiva da Cruz. É um contínuo progredir; é seguir o Senhor, passo a passo. É o fatoque agora está perante nós, no que concerne a alma, e, como dissemos, a ênfase não émais a mesma que quando se tratava do velho homem. Não nos é falado aqui da"crucifixão da alma mesma", no sentido que os nossos dons e as nossas faculdadesnaturais, a nossa personalidade e individualidade devam ser totalmente deixadas delado. Se assim fosse, não poderia ser-nos dito, como em Hebreus 10:39, que "devemoster fé para salvar a alma", e ainda "Alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossasalmas" (1 Pedro 1:9), ou bem "Na vossa paciência possuí as vossas almas" (Lucas21:19). Não, não é neste sentido que perdemos as nossas almas, porque isto seriaperder completamente a nossa experiência individual. A alma está sempre ali com seusdons naturais, mas a Cruz deve fazer passar estes dons através da morte; deve colocarsobre estes dons naturais a marca da morte do Cristo, para restituí-los a seguir, comoagradará a Deus, na gloriosa ressurreição. Neste sentido, quando Paulo escreve aos Filipenses, ele expressa o desejo de"conhecê-lo (a Jesus Cristo), e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suasaflições, sendo feito conforme à sua morte" (Fp 3:10). O símbolo da morte está sempresobre a alma, para guiá-la à submissão do Espírito, para que não afirme jamais a própriaindependência. Só a Cruz, operando assim, pode produzir um homem da estatura dePaulo, eliminando cada valor aos seus recursos naturais (Filipenses 3) e às própriasforças, de forma tal de levá-lo a escrever aos Coríntios: "E eu, irmãos, quando fui terconvosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavrasou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e estecrucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. Aminha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas desabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fénão se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus" (1 Coríntios 2:1-5). A alma é a sede dos sentimentos e nós sabemos bem qual influência eles têm sobrenossas decisões e ações. Não há nada de deliberadamente malvado neles, entendamo-nos, mas contudo —por exemplo— fazem crescer em nós uma afeição natural a respeitode uma outra pessoa que, não regulada pelo Espírito, pode ter uma influência nefastasobre toda a nossa línea de conduta. Assim, no primeiro dos quatro fragmentos quetranscrevemos, o Senhor nos diz: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não édigno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim."(Mateus 10:37). Observem que o fato de seguir o Senhor no caminho da Cruz nos é mostrado como oúnico e verdadeiro caminho, a única via pela qual devemos seguir o Senhor. E o que sesegue imediatamente? "Quem achar a sua vida13 perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim,acha-la-á" (Mateus 10: 39). Existe para nós, naquela sugestão sutil dos sentimentos, o segredo perigo de desviar-se do caminho de Deus; e a chave de tudo é a alma. A Cruz deve agir nisto: eu devo"perder" a minha alma no sentido que o Senhor atribui a estas palavras, e quetrataremos de explicar. Alguns de nós sabemos muito bem o que significa perder a própria alma. Nãopodemos mais consentir ligeiramente aos seus desejos; não podemos mais lhe darimportância, nem satisfazê-la: esta é a "perda" da alma. Atravessamos experiênciasdolorosas para chegar a desencorajar suas exigências. Ainda assim, devemos confessar,freqüentemente, que não existe um pecado bem definido que nos impeça seguir oSenhor até o fim. Somos obstaculizados, às vezes, por um amor segredo, por umaafeição completamente natural, que nos faz desviar deste caminho. Sim, a afeiçãonatural exerce uma grande influência sobre nossa vida, e a Cruz deve penetrá-la ecumprir sua obra purificadora. Releiamos as palavras que citamos no capítulo 8 de Marcos. Acredito que este seja umdos fragmentos mais importantes: O Senhor tinha apenas anunciado aos seus discípulos, em Cesaréia de Filipos, que Eledevia morrer por mão dos anciãos dos judeus, e Pedro, impulsionado pelo seu amor pelo13 As nossas traduções têm quase sempre, neste versículo, a palavra "vida" (Diodati, Riveduta). Otexto grego utiliza sempre "psiche" que significa, literalmente, "alma", como afirma o autor (Notado Tradutor original).Nas versões em português (Atualizada, Fiel) também acontece o mesmo uso de palavras (Nota daTradutora do italiano).82
  • 83. Mestre, alçou-se para protestar dizendo: "Senhor, não faças isto; tem piedade de ti; istonão te acontecerá nunca". O amor pelo Senhor o incentivou a suplicá-Lhe para pouparSua vida; e o Senhor deveu repreendê-lo, como teria repreendido Satanás, porque nãotinha o sentido das coisas de Deus, mas daquelas dos homens. E então, à multidão quese ajuntava em volta dEle, repetiu, mais uma vez, estas palavras: "Se alguém quiser virapós mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque qualquer quequiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor demim e do evangelho, esse a salvará" (Marcos 8:34-35). Toda a questão permanece ainda a da alma, e aqui, de forma particular, ela põe derelevo seu desejo de conservação. Existe aquela sugestão sutil que diz: "Se me fossepermitido viver eu faria qualquer coisa, estaria prestes a tudo; mas é necessário que euconserve a vida!". É como se a alma gritasse, em sua desesperação: "Ir à Cruz? Sercrucificado? Mas isto e verdadeiramente demais! Tem piedade de ti mesmo; conserva-te!Pensa de verdade que deve ir contra você mesmo para caminhar com Deus?" Alguns denós sabemos bem que para caminhar com Deus é amiúde necessário andar contra a vozda alma, da nossa ou da dos outros, deixar que a Cruz reduza ao silêncio seu instinto deconservação. Tenho talvez medo da vontade de Deus? A querida e santa mulher que já mencionei eque teve uma tão grande influência no curso de minha vida, me fez muitas vezes estapergunta: "Você está de acordo com a vontade de Deus?" Esta é uma perguntaformidável. Ela não me perguntava: "Você faz a vontade de Deus?", mas indagavasempre: "Você gosta da vontade de Deus?" Não conheço pergunta que penetre maisprofundamente que esta. Lembro que um dia ela tinha dificuldade com o Senhor arespeito de uma certa coisa. Sabia o que o Senhor lhe pedia, e em seu íntimo desejavaobedecê-Lo, mas lhe resultava difícil, e a ouvi orar assim: "Senhor, te confesso queaquilo que me pedes não me agrada, mas não liga para o meu gosto. Espera só umpouco, Senhor, e serei eu que aceitarei o que Te agrada". Ela não queria que o Senhor fosse condescendente com ela e ajustasse as própriasexigências às dela. Ela desejava somente fazer a vontade de Deus. Muitas vezesacontece que alcançamos o ponto de abandonar ao Senhor coisas que retemos boas epreciosas, sim, até mesmo as coisas de Deus, a fim que a Sua vontade se cumpra. Apreocupação que Pedro tinha pelo seu Senhor provinha de seu amor natural por Ele.Talvez pensemos que Pedro, pelo grande afeto que nutria pelo seu Senhor, podia sepermitir de repreendê-Lo. Somente um grande amor pode empurrar alguém a ousartanto. Sim, acreditamos que compreendemos a Pedro; mas se tivermos o espírito puro,livre daquele conjunto de sentimentos da alma, não cairemos no erro de Pedro;reconheceremos mais prontamente onde se manifesta a vontade de Deus, eencontraremos somente nela o gozo verdadeiro de nosso coração. O Senhor fala ainda do problema da alma no capítulo 17 de Lucas, e desta vez emrelação com sua volta. Falando do "dia em que o Filho do homem será manifestado", Eleestabelece um paralelo entre aquele dia e "o dia em que Ló saiu de Sodoma" (versículos29-30). Pouco depois fala do "arrebatamento dos santos" com estas palavras, repetidasduas vezes: "Um será tomado, e outro será deixado" (versículos 34-35). Mas, entre asua citação da chamada de Ló fora de Sodoma e esta alusão à reunião dos santos emvolta dEle, o Senhor pronuncia estas palavras incisivas: "Naquele dia, quem estiver notelhado, tendo as suas alfaias em casa, não desça a tomá-las; e, da mesma sorte, o queestiver no campo não volte para trás. Lembrai-vos da mulher de Ló" (Lucas 17:31-32). "Lembrai-vos da mulher de Ló" por quê? Porque "qualquer que procurar salvar a suavida, perdê-la-á, e qualquer que a perder, salva-la-á". Se não erro, este é o únicoversículo do Novo Testamento que fala de nossa resposta à chamada do arrebatamento.Talvez pensemos que quando chegue o Filho do homem seremos reunidos ao redor dEleautomaticamente, por assim dizer, porque limos em 1 Coríntios 15:51-52: "todosseremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a últimatrombeta..." Ora, de qualquer modo podemos conciliar estes dois fragmentos: o de Lucasdeveria pelo menos fazer-nos deter para refletir; porque ressalta com força o fato queum será tomado e outro será deixado. Trata-se da reação que teremos, quando chegue achamada para partir, e é sobre este ponto que somos exortados com tanta pressão paraestar prontos (confrontar Mateus 24:42): "Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora háde vir o vosso Senhor". Há, com certeza, uma razão para isto. Está claro que este apelo não produzirá emnós, no último momento, uma mudança miraculosa sem relação com o fato que eutenha, em maior ou menor medida, caminhado a minha vida com o Senhor. Não, naquele 83
  • 84. momento conheceremos qual terá sido o verdadeiro tesouro de nosso coração. Se foi oSenhor, não nos voltaremos a olhar para trás. Uma olhada para trás decidirá tudo. Émais fácil apegar-se maiormente aos dons de Deus que ao Doador mesmo; e, euagregaria, a obra de Deus que a Deus mesmo. Permitam-me que faça um exemplo. Neste momento (1938, N.T.), estou escrevendoum livro. Terminei os primeiros oito capítulos e ainda restam para escrever outros nove,pelos quais me sinto seriamente empenhado diante do Senhor. Mas se o apelo "subi maisum pouco" ressoasse e a minha resposta fosse: "E o que acontecerá com meu livro?",poderia ouvir a Deus me dizer: "Muito bem, fica ali para terminá-lo!". As coisas precisasque fazemos aqui, "na casa", podem ser suficientes para manter-nos aqui embaixo, comoum prego que nos fixa à terra. É sempre questão de viver com a alma ou com o Espírito. Aqui, no fragmento de Lucas, a vida da alma está descrita como estando empenhadanas coisas da terra —e, vejamos bem—, coisas que em si não importam. O Senhormenciona atividades perfeitamente legitimas —casar-se, semear, comer, vender—, nasquais não há nada de essencialmente mau. Ma existe o fato de estarmos ocupados aponto de empenhar nosso coração, e isto é suficiente para manter-nos aqui embaixo. Omeio para fugir deste perigo consiste em perder a própria alma. Isto é maravilhosamenteilustrado no ato que Pedro cumpre quando reconhece o Senhor ressurreto, sobre amargem do lago. Ainda que, com os outros discípulos, tivesse voltado às suas antigasocupações, não pensava mas no barco nem nas redes miraculosamente cheias de peixes. Quando ouviu o grito de João "É o Senhor!", lemos que "pulou na água" para correr aJesus. Este é o verdadeiro desapego. A pergunta é sempre a mesma: "Onde está o meucoração?" A Cruz deve produzir em nós um desprendimento espiritual de todas as coisase de todas as pessoas que não sejam o Senhor mesmo. Mas, ainda assim, temos examinado até agora somente os aspectos externos daatividade da alma. A alma que deixa livres seus sentimentos, a alma que afirma a si mesma procurandocontrolar as coisas, a alma que se preocupa das coisas da terra; estas são pequenascoisas que não tocam ainda o verdadeiro núcleo da questão. Existe alguma coisa maisprofunda ainda que tentarei agora de explicar. A CRUZ E A ABUNDÂNCIA DOS FRUTOS Leiamos novamente João 12:24-25: "Na verdade, na verdade vos digo que, se o grãode trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quemama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guarda-la-á para avida eterna". Temos aqui a obra interior da Cruz, da qual já falamos —a perda da alma,ligada e comparada com esse aspecto da morte do Senhor Jesus que vimos prefiguradono grão de trigo, ou seja, sua morte com vista ao acréscimo. O objetivo é o fruto, muitofruto. Há um grão de trigo que contém a vida, e não permanece sozinho. Tem o poder detransmitir a sua vida a outros, mas para fazer isto deverá descer à morte. Conhecemosassim o caminho seguido pelo Senhor Jesus. Entrou na morte e, como vimos, sua vidaressurgiu em muitas outras vidas. O Filho foi morto, e ressuscitou como o primogênito de"muitos filhos". Ele deixou sua vida para que nós pudéssemos recebê-la. É neste aspectode sua morte que nós somos chamados a morrer. É aqui que Ele nos mostra claramenteo valor de nossa conformidade com sua morte, por meio da qual nós perdemos a nossavida natural a fim que, pelo poder de sua ressurreição, podamos converter-nos emmananciais de vida mostrando aos outros a nova vida de Deus que está em nós. É este osegredo do ministério, o caminho para chegar verdadeiramente a produzir frutoabundante para o Senhor. Como diz Paulo: "E assim nós, que vivemos, estamos sempreentregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também nanossa carne mortal. De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida" (2Coríntios 4:11-12). Chegamos ao coração do problema. Em nós, que recebemos a Cristo, existe uma vidanova. Todos nós temos este bem precioso, este tesouro em vaso de barro. Deus sejalouvado pela realidade de Sua vida em nós! Mas por que esta vida tem uma expressãotão mísera? Por que nos sucede de "permanecer sozinhos"? Por que esta vida nãotransborda para comunicar-se aos outros? Por que é tão pouco aparente, embora emnossas vidas individuais? A razão pela qual existem tão poucos sinais desta vida, aindaque ela esteja presente em nós, é que a nossa alma envolve e limita esta vida (como apragana envolve o grão de trigo), de modo que ela não pode manifestar-se. Nós vivemosde nossa vida; trabalhamos e servimos com os nossos próprios recursos naturais; nós84
  • 85. não vivemos de Deus. É a alma que impede a explosão da vida. Vamos perdê-la;renunciemos a ela: este é o caminho para a plenitude. UMA NOITE ESCURA – UMA MANHÃ DE RESSURREIÇÃO Voltamos assim à vara de amêndoas que foi colocada durante uma noite no santuário—numa noite escura, na qual não podia se enxergar nada—, e eis que na manhãseguinte tinha germinado. Temos aqui a figura da morte e da ressurreição, da vidaoferecida e da vida recebida. Assim o ministério é manifestado. Mas, como acontece istopraticamente? Como posso reconhecer que Deus age em mim deste modo? É necessário, antes que nada, ter bem em claro um ponto importante: a alma, comsuas reservas de energias e de recursos naturais, continuará conosco até a morte. Atéaquele momento, será necessário que a cruz opere em nós sem descanso, dia após dia,para absorver profundamente esta fonte natural. Esta é a condição permanente deserviço exposta por Jesus nestas palavras: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se asi mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me" (Marcos 8:34). Nós não podemos jamaissubtrair-nos a esta condição, porque quem o faz "não é digno de mim" (Mateus 10:38),"não pode ser meu discípulo" (Lucas 14:27). A morte e a ressurreição devempermanecer constantemente em nós como a causa da perda da alma e da afirmação doEspírito de Deus. Ainda assim, aqui pode haver uma crise, que uma vez experimentada esuperada está em condições de transformar toda a nossa vida e a nossa forma de serviro Senhor. Existe uma porta estreita através da qual podemos entrar num caminhocompletamente novo. Jacó atravessou uma crise similar em Peniel. Era o "homemnatural" em Jacó que tentava de alcançar o fim de Deus. Jacó sabia bem que Deus tinhadito: "o maior servirá ao menor" (Gênesis 25:23), contudo se esforçava para realizaraquele desígnio com a própria inteligência e os próprios recursos naturais. Deus deveuparalisar em Jacó as forças naturais e o fez quando tocou o nervo de sua coxa. Jacócontinuou a caminhar, porém mancando. Converteu-se num Jacó diferente, como indicaa mudança em seu nome. Ele tinha conservado as suas pernas e podia utilizá-las, mas asua força tinha sido eliminada, e ele continuou a mancar, a causa de uma lesão da qualnunca pôde curar-se completamente. Deus deve conduzir-nos a um ponto —não possodizer como, mas sei que o fará— onde, através de uma experiência escura e profunda, anossa força natural será afastada e enfraquecida de forma definitiva, de forma que nãoousaremos mas ter confiança em nós mesmos. Como alguns de nós Ele deveu agir deforma muito estranha e fazer-nos passar por caminhos difíceis e dolorosos, paraconduzir-nos àquela condição. Chegamos, finalmente, a um momento no qual não temosmais prazer em fazer uma obra cristã, no qual temos quase medo de fazer qualquercoisa no nome do Senhor. Mas é justamente aqui que, afinal, Deus pode começar autilizar-nos. Posso dizer que durante um ano, depois da minha conversão, tinha a paixão depredicar. Resultava-me impossível ficar calado. Era como se uma força interior meempurrasse adiante e eu devia obedecer. Predicar se converteu em minha verdadeira vida. O Senhor pode, em sua graça,permitir-nos de continuar assim por um tempo indeterminado, recebendo incluso umacerta medida de bênçãos, até que chega o dia em que a energia natural que impulsionavocês diminui, e desde então, já não trabalham mais porque se agradam, mas porque oSenhor se agrada. Antes desta experiência, vocês predicavam a causa da satisfação queachavam em servir o Senhor daquela forma; e ainda assim, talvez o Senhor nãoconseguia empurrar vocês a realizar alguma coisa que Ele desejava fosse feita. Vocêsagiam segundo os seus impulsos naturais, que são muito mutáveis porque dependem deseu temperamento. Quando as emoções dirigem vocês no caminho do Senhor, entãoagem com todas as suas forças em Sua obra; porém, se os sentimentos dirigem vocêspara outra parte, serão relutantes em prosseguir adiante, ainda que o dever os chame.Não são maleáveis nas mãos do Senhor. Ele deve, portanto, enfraquecer em vocês estastendências preferenciais, baseadas no prazer ou no desprazer, até que vocês realizemuma determinada coisa porque Ele o deseja, e não porque vocês se agradam. Gostem ounão, o farão igualmente. Ainda que não tenham satisfação em predicar ou em fazer estaou aquela obra para o Senhor, a cumprirão. A realizarão exclusivamente porque é avontade de Deus, sem levar em conta se dará gozo a vocês ou não. A verdadeirafelicidade que experimentam ao cumprir a Sua vontade é mais profunda que suasvolúveis emoções. Deus vai conduzir vocês até o ponto em que Ele não precise senãoexpressar um desejo para que vocês respondam imediatamente. 85
  • 86. Este é a postura do Servo de que fala o Salmo 40, nos versículos 7 e 8: "Então disse:Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade,ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração". Mas semelhante espírito nãoestá naturalmente em nenhum de nós. Manifesta-se somente quando a nossa alma, queé a sede de nossas energias, de nossa vontade e dos nossos sentimentos naturais, tenhasido atraída à Cruz sob a lei do Senhor. Ele deseja achar em nós esta disposição para oserviço. O caminho para alcançá-la pode ser longo ou pode se chegar num instante:Deus tem seus caminhos e nós devemos respeitá-los. Todos os verdadeiros servos de Deus devem conhecer, num momento dado, estadebilidade sem remédio, pela qual não serão mais os que antes foram. É necessário quese estabeleça em vocês aquele sentimento pelo qual, de agora em diante, terãorealmente medo de vocês mesmos. Terão medo de agir segundo os impulsos de suaalma, porque sabem que remorsos experimentarão perante Deus, em seu coração, seassim fizerem. Tiveram a experiência de ter sobre vocês a mão do Deus do amor quecorrige, do Deus que "vos trata como filhos" (Hebreus 12:7). Seu Espírito mesmo dátestemunho em seu espírito desta ligação de filiação, como da herança e da glória quesão nossas "se sofremos com Ele" (Romanos 8:16-17), e a resposta de nosso espírito aoPai, é: "Aba, Pai!" Mas, quando estas experiências foram realmente vivenciadas por vocês, encontram-sesobre uma base nova que chamamos "base de ressurreição". Pode ser que a morte tenha produzido uma crise em sua vida natural, mas quando atenham superado, compreenderão que Deus libertou vocês com a ressurreição e queaquilo que tinham perdido é restituído, ainda que numa natureza diferente. O princípioda vida está operando agora em vocês, como uma coisa que os conduz, lhes dá força, osenche de uma vida nova e divina. De agora em diante aquilo que tenham perdido serádevolvido, mas revestido de uma nova força, porque está para sempre sob o controle doscéus. Permitam-me que exponha de novo tudo isto de uma forma mais clara. Se quisermosser homens e mulheres espirituais, não temos necessidade de cortar-nos as mãos ou ospés: podemos ainda conservar intacto o nosso corpo. Do mesmo modo, podemosconservar a nossa alma, com o uso pleno de suas faculdades; mas ela não é mais ainspiradora de nossa vida. Não vivemos mais nela traindo a nossa razão de vida. Autilizamos, somente. Se o corpo se converter na base de nossa vida, viveremos como asbestas. Se a alma se transforma na base de nossas vidas, viveremos como rebeldes efujões diante de Deus —inteligentes, cultos, espertos sem dúvida alguma, mas estranhosà vida de Deus. porém, quando cheguemos a viver nossa vida no Espírito e pelo Espírito,ainda que continuemos a usar as faculdades de nossa alma, tanto como utilizamos asnossas forças físicas, elas estão agora ao serviço do Espírito; e quando estamos nestascondições, Deus pode servir-Se de nós com eficácia. A dificuldade para muitos de nós é aquela noite escura. O Senhor, em Sua graça, mecolocou aparte, uma vez em minha vida, por muitos meses, e me deixou,espiritualmente, numa escuridão absoluta. Foi quase como se me tivesse abandonado,como se tudo tivesse acabado. Depois, pouco a pouco, me devolveu aquilo que pareciater desaparecido. Nós temos sempre a tentação de querer ajudar a Deus, retomando ascoisas por nós mesmos, mas lembremos que é necessário transcorrer uma noite inteirano santuário, uma completa noite na escuridão. Ninguém pode apressar o fim; Deus sabeo que faz. Desejaríamos viver a morte e a ressurreição no espaço de uma hora. Retrocedemosdiante o pensamento de que Deus possa afastar-nos por um tempo tão longo; nãopodemos suportar a espera. E eu não posso dizer quanto tempo passará, mas penso quepodemos estar seguros que será um período bem definido no qual Ele terá vocês assim.Parecerá que nada aconteça, que tudo aquilo que vocês apreciam esquiva suas mãos.Terão a impressão de estar detrás de um muro sem saída. Parecerá que todos os outrossejam abençoados e ativos, e que vocês tenham sido ultrapassados e esquecidos.Fiquem tranqüilos. Tudo está nas trevas, mas somente por uma noite. Deve ser umanoite completa, mas isso é tudo. Verão depois que isso tudo redundará numa gloriosaressurreição, e nada poderá medir a diferença entre o que era antes e o que será depois. Estava eu, uma noite, jantando com um jovem irmão ao qual o Senhor tinha faladodeste problema da energia natural. Ele me disse: "Que experiência abençoada saber queo Senhor tem achado e tocado você daquela forma decisiva, e saber que, depois daqueleencontro, as nossas forças partiram".86
  • 87. Havia diante de nós, na mesa, um prato com bolachas; eu peguei uma e a parti emduas partes como para comê-la. Depois, voltando unir os dois pedaços com cuidado,disse: "Parece de novo como antes, porém, já não será mais o mesmo, verdade? Quandoa sua força é partida, só resta abandonar-se sempre mais ao mínimo toque de Deus". É assim, o Senhor sabe o que faz com os seus, e não sobra nenhum aspecto de nossavida para o qual Ele não provê com a sua Cruz, a fim que a glória do Filho sejamanifestada nos filhos. Os discípulos que percorreram esta via podem plenamente ecoar-se das palavras do apóstolo Paulo, que podia dizer de ter servido o Senhor "em meuespírito, no evangelho de seu Filho" (Romanos 1:9). Eles aprenderam, como ele, o segredo de um semelhante ministério. "...nós, queservimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos nacarne" (Filipenses 3:3). Poucos podem ter uma vida mais ativa que a do apóstolo Paulo. Em sua carta aosRomanos, ele lembra de ter predicado o Evangelho desde Jerusalém até o Ilírico (Rm15:19), e afirma estar pronto para ir até Roma (1:10) e dali, se possível, até a Espanha(15:24-28). Contudo, neste serviço que abraça todo o mundo mediterrâneo, seu coraçãoestá fixado sobre um único objetivo: a exaltação dAquele que o fez possível. "De sorteque tenho glória em Jesus Cristo nas coisas que pertencem a Deus. Porque não ousareidizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios,por palavra e por obras" (Rm 15:17-18). Isto é serviço espiritual. Queira o Senhor fazer de cada um de nós, tão profundamente como o era Paulo, "umescravo de Jesus Cristo". CAPÍTULO 14 – O OBJETIVO DO EVANGELHO Tomaremos como ponto de partida, para este último capítulo, um episódio dosEvangelhos que tem lugar à sombra mesma da Cruz, um episódio que, em seus detalhes,é histórico e profético ao mesmo tempo. "E, estando ele em Betânia, assentado à mesa,em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher, que trazia um vaso de alabastro, comungüento de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso, lho derramou sobre acabeça (...) Jesus, porém, disse: (...) Em verdade vos digo que, em todas as partes domundo onde este evangelho for pregado, também o que ela fez será contado para suamemória" (Marcos 14:3,6,9). O Senhor quis então que a história de Maria, que o ungiu com nardo de grande preço,acompanhasse sempre a predicação do Evangelho; que o que Maria tinha feito estivessesempre unido ao que o Senhor fez. Esta é a sua ordem. O que quis nos ensinar com isto? Sem dúvida todos nós conhecemos muito bem a história de Maria. Dos detalhes que João provê no capítulo 12 de seu Evangelho, onde o fato acontecenão muito depois da volta à vida de seu irmão Lázaro, podemos compreender que afamília não é tão rica. As irmãs deviam realizar elas mesmas o serviço da casa; devido aque está escrito que naquela festa "Marta servia" (João 12:2, confrontar com Lucas10:4)14, podemos pensar que cada centavo tivesse valor para eles. Ainda assim, uma dasirmãs, Maria, que guardava entre seus pertences mais prezados um vaso de alabastrocontendo um perfume de preço de trezentos denários, o ofereceu, completamente, aoSenhor. Segundo a apreciação comum, este dom era demasiado excessivo; era como darao Senhor mais do que lhe fosse devido. Por isto Judas, junto com outros discípulos,tomou a iniciativa de expressar a desaprovação de todos, julgando o ato de Maria comoum desperdiço de dinheiro. DESPERDIÇO "Mas alguns houve que em si mesmos se indignaram e disseram: Para que se fez estedesperdício do bálsamo? Pois podia ser vendido por mais de trezentos denários que sedariam aos pobres. E bramavam contra ela" (Marcos 14:4-5). Estas palavras nosconduzem àquilo do que, penso eu, o Senhor quer que reflitamos juntos, ou seja, quesignifica o termo "desperdiço". O que é um desperdiço? Desperdiçar significa, entre outras coisas, dar além donecessário. Se R$ 1 é suficiente para pagar um objeto e vocês entregam R$ 100, isto édesperdiçar. Se alcançam 2 g e vocês usam 1 kg, também isto é um desperdiço. Se três 14 O autor segue aqui a crença comum que "a casa de Simão o leproso" fosse a habitação deMaria, Marta e Lázaro; e que Simão fosse um parente deles (Nota do Editor). 87
  • 88. dias bastam para terminar bem um serviço e vocês usam cinco dias ou uma semana, éum desperdiço. Desperdiçar quer dizer dar demasiado para demasiado pouco. Se alguémrecebe mais do que pensa que seja justo, aquilo que lhe foi entregue de mais édesperdiçado. Mas lembremo-nos que estamos tratando um argumento que o Senhordisse que devia ser difundido como o Evangelho, em qualquer lugar onde o Evangelhoseja predicado. Por quê? Porque Ele quer que a predicação do Evangelho produza algumacoisa similar à ação de Maria, vale dizer, homens e mulheres que venham paradesperdiçar-se com Ele. Este é o resultado que Ele procura. É necessário considerar este fato de desperdiçar-se com o Senhor sob dois aspectos: ode Judas (João 12:4-6) e o dos outros discípulos (Mateus 26:8-9), e para o nosso escopoatual confrontaremos com histórias paralelas. Os doze discípulos julgaram o gesto de Maria como um desperdiço. Para Judas, quenão tinha jamais chamado a Jesus de "Senhor", evidentemente tudo aquilo que lhe eraoferecido era desperdiçado. Não somente o ungüento era um desperdiço, mas também aágua o teria sido. Judas representa aqui o mundo. Aos olhos do mundo o serviço do Senhor e a entregade nós mesmos a Ele, para Seu serviço, são um desperdiço. Ele nunca foi amado, nuncateve um lugar nos corações do mundo. Muitos dizem: "Este homem poderia ter uma boaposição no mundo se não fosse um crente!". Se um homem tem talentos naturais de umcerto valor aos olhos do mundo, é considerado uma vergonha de sua parte servir aoSenhor. Pensa-se que um semelhante homem valha demasiado como para dedicar-se aEle. "Que desperdiço de vida útil", se dirá. Permitam-me contar uma experiência pessoal. Em 1929, eu voltei de Xangai aFoochow, a minha cidade natal. Um dia, enquanto caminhava na rua apoiado numabengala, a causa de minha grande debilidade e má saúde, encontrei um dos meus velhosprofessores da Universidade. Ele me convidou a uma casa de chá, e nos sentamos.Olhando-me da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, me disse: "Escuta, durante os seusestudos tínhamos muita estima de você, e esperávamos que teria feito grandes coisas.Você quer me dizer que isto é tudo o que você conseguiu fazer?" Me fez esta perguntacortante, fixando-me com seus olhos penetrantes. Devo confessar que, ouvindo-o, o meuprimeiro impulso foi o de me declarar vencido e chorar. A minha carreira, a minha saúde,tudo estava perdido, e agora o velho professor que tinha me ensinado direito naUniversidade estava ali, diante de mim, e me perguntava: "Você ainda está no mesmoponto, sem nenhum sucesso, sem nenhum progresso, sem nada de valor?" Mas um instante depois —e devo dizer que aquela foi a primeira vez em minha vida—conheceu realmente o que significava o "Espírito de poder" sobre ele. O pensamento deter podido dar a minha vida pelo meu Senhor enchia a minha alma de energia. Aquiloque estava sobre mim naquele momento não era nada menos que o Espírito do poder.Pude alçar novamente os olhos e sem reticência alguma disse: "Senhor, eu te agradeço!Esta é a melhor coisa possível: sei que escolhi o caminho certo". Aos olhos do meu velhoprofessor parecia uma perda total o fato de servir o Senhor; mas este é o verdadeiroobjetivo do Evangelho: conduzir cada um de nós a uma reta apreciação de seu valor. Judas predicou, então, que aquilo era um desperdiço. "Nós teríamos podido fazerdaquele dinheiro um melhor uso, utilizando-o de uma outra forma. Existem tantospobres! Por que não dá-lo melhor a uma obra de caridade, cumprir uma obra social paraajudar os pobres de maneira prática? Por que desperdiçá-lo sobre os pés de Jesus?"(veja João 12:4-6). O mundo arrazoa sempre assim: "Não pode achar uma forma melhor de utilizar suavida? Não pode fazer alguma coisa melhor para você? É demasiado audaz entregar-seassim, inteiramente, ao Senhor". Mas se o Senhor é digno, como pode ser um desperdiço? Ele é digno de ser servido assim. Ele é digno de me ter como um prisioneiro; Ele édigno de que eu viva unicamente para Ele. Ele é digno! Pouco importa o que o mundopensa. O Senhor disse: "Não andeis ansiosos". Então, não nos inquietemos. Os homenspodem dizer o que querem, mas nós podemos confiarmos nestas palavras do Senhor:"Ela fez uma boa ação; nem todas as verdadeiras obras são realizadas para os pobres;cada verdadeira obra é feita para mim". Quando nossos olhos se abriram ao valor donosso Senhor Jesus, nada é demasiado bom para Ele. Mas não queremos prolongar-nos demasiado sobre Judas. Tentemos compreender ocomportamento dos outros discípulos, porque as suas reações nos tocam mais queaquelas de Judas. Nós não nos inquietamos tanto com o que diz o mundo; podemossuportá-lo, mas damos uma grande importância àquilo que dizem outros cristãos que88
  • 89. deveriam entender. Contudo achamos que os outros discípulos expressam o mesmopensamento que Judas; não se limitavam a dizê-lo, mas se mostraram vivamentecontrariados e indignados pelo fato. "E os seus discípulos, vendo isto, indignaram-se,dizendo: Por que é este desperdício? Pois este ungüento podia vender-se por grandepreço, e dar-se o dinheiro aos pobres" (Mateus 26:8-9). Sabemos que existe um comportamento mental demasiado comum que faz dizer aoscristãos: "Tentem obter o máximo resultado com o mínimo preço". Isto porém não épara nada aquilo de que estivemos falando, que é muito mais profundo. Um exemplo nosajudará a compreender melhor. Nunca disseram a vocês "Quanta gente poderia ocupar-se deste ou daquele serviço. Poderiam ajudar neste ou naquele grupo. Por que não sãoativos?" Falando assim se tem em vista somente a utilidade. Tudo deveria ser utilizado afundo do modo comumente retido mais útil. Alguns se preocuparam porque certosamados servos de Deus não pareciam suficientemente ativos. Pensavam que teriampodido realizar muito mais tentando de introduzir-se em algum ambiente, e obtendoconsideração e influência em determinados círculos. Teriam assim podido ser úteis emmodo mais eficaz. Já falei de uma irmã que conheci muitos anos atrás e que, penso, foi a pessoa quemaiormente tenha me ajudado. Ela foi um verdadeiro instrumento nas mãos do Senhordurante todo o tempo em que eu estive em contato com ela, ainda que nem sempre opercebesse. A minha preocupação era: "Ela não é útil!" Eu me repetia continuamente:"Por que não vá a algum lugar a organizar reuniões, a fazer alguma coisa? Ele desperdiçaa vida vivendo naquela favela onde nunca sucede nada!". Algumas vezes, quando iavisitá-la, estava tentado a repreendê-la. Eu dizia: "Ninguém conhece o Senhor comovocê. Vive realmente a Palavra de Deus. Não vê quanto há para fazer lá fora? Por quenão faz alguma coisa? É uma perda de tempo, uma perda de energia, uma perda dedinheiro, uma perda de tudo ficar ali sem fazer nada!" Não, irmãos, esta não é a primeira coisa que se deve fazer para o Senhor. Ele quercertamente que vocês e eu sejamos úteis. Deus me livre de predicar a inatividade, ou deaprovar um comportamento de indiferença no que diz respeito às necessidades domundo. Como Jesus disse: "O Evangelho será predicado em todo o mundo". Mastentemos compreender aquilo que é essencial. Pensando novamente nisso hoje,compreendo quanto o Senhor usava aquela cara irmã por falar conosco, os jovens,enquanto nos preparávamos em sua escola para a obra do Evangelho. Não podereijamais agradecer o suficiente ao Senhor por ela e pela influência que sua vida exerceu naminha. Qual é, então, o segredo? É claramente este: que aprovando o ato cumprido por Mariaem Betânia, o Senhor Jesus estabelecia o princípio fundamental de cada serviço: oferecera Ele tudo o que vocês têm, o seu inteiro ser; e se isto é tudo o que Ele permite vocês defazerem, é suficiente. Não é necessário ver, como primeira coisa, se "os pobres" foramsocorridos ou não, isto virá depois; mas, antes que nada é preciso se perguntar: "OSenhor está satisfeito?" Podemos predicar num grande número de reuniões, organizar numerosos convênios,tomar parte de muitas campanhas de evangelização. Estamos certamente em condiçõesde fazê-lo. Podemos trabalhar e ser utilizados plenamente; mas o Senhor não se ocupa muito denosso empenho incessante em Sua obra; não é este seu primeiro desejo. O serviço doSenhor não pode ser misturado com resultados tangíveis. Não, amigos meus, o que oSenhor considera de nós, acima de tudo, é se nos ajuelhamos aos seus pés para ungir asua cabeça. Qualquer seja o nosso "vaso de alabastro", a coisa mais preciosa, aquela quenos é mais cara no mundo —até, permitam-me dizer, a manifestação de uma vida queprocede da Cruz—, entreguemos tudo isto ao Senhor. Para muitos, também entre aqueles que deveriam compreender, isto poderá parecerum desperdiço; mas é o que o Senhor procura acima de tudo. Muito freqüentemente oentregar-se a Ele será um serviço sem fatiga, mas Ele se reserva o direito de suspendero serviço por um tempo, para fazer-nos compreender se estamos apegados ao serviço oua Ele mesmo. SERVIR POR PRAZER AO SENHOR "Em verdade vos digo que, em todas as partes do mundo onde este evangelho forpregado, também o que ela fez será contado para sua memória" (Marcos 14:9). Por que o Senhor disse isto? Porque o Evangelho deve produzir isto. Este é o objetivodo Evangelho. 89
  • 90. O Evangelho não existe simplesmente para socorrer os pecadores. Graças ao Senhor,aos pecadores lhes será provido, mas a sua salvação será, por assim dizer, umsubproduto do Evangelho, e não seu principal objetivo. O Evangelho é predicado, em primeiro lugar, a fim que o Senhor seja glorificado. Eu temo que nós coloquemos demasiada ênfase sobre o bem dos pecadores, e quenão apreciemos suficientemente o verdadeiro objetivo que o Senhor quer alcançar.Temos em mente qual seria a sorte dos pecadores se não existisse o Evangelho, masesta não é a consideração essencial. Sim, graças a Deus, o pecador tem a sua parte.Deus responde a suas necessidades e o enche de bênçãos, mas esta não é a coisa maisimportante. Em primeiro lugar está o fato que cada coisa deveria tender à glória do Filhode Deus. Somente quando Ele é glorificado nós somos justificados e os pecadores sãoperdoados. Nunca achei nem uma única pessoa que tivesse obedecido ao Senhor e nãotivesse sido jamais satisfeita em cada uma de suas necessidades. É impossível. A nossasatisfação está inevitavelmente ligada àquilo que nós fazemos para obedecer ao Senhor.Mas é necessário lembrar-se que Ele não estará nunca satisfeito se nós não nos"desperdiçamos" para Ele. Alguma vez deram demasiado ao Senhor? Posso fazer umaconfidência? Uma lição que algum de nós aprendeu é que, no serviço do Senhor, oprincípio do "desperdiço" é o princípio do poder. O princípio que determina a verdadeirautilidade é o princípio do gasto supérfluo. A verdadeira utilidade mede-se nas mãos deDeus em termos de "perda". Mais acreditam poder fazer, mais utilizam os seus talentosaté o extremo limite (e às vezes ultrapassando esses limites) para poder fazê-lo, e maispercebem que estão aplicando os princípios do mundo e não os do Senhor. Os caminhosde Deus a nosso respeito convergem para estabelecer em nós este outro princípio: quenosso serviço para Ele depende da nossa dedicação a Ele. Isto não significa de modoalgum que não devam fazer nada; mas o que deve ser prioritário deve ser o Senhor, nãoa Sua obra. É necessário que cheguemos às aplicações práticas. Vocês talvez digam: "Eu deixeiuma certa posição, abandonei um serviço, renunciei a certas possibilidades de um futurobrilhante, para seguir o Senhor. Eu procuro agora servi-Lo. Às vezes parece que Ele meouve, e às vezes me faz esperar uma resposta precisa. Às vezes me utiliza, mas às vezesparece ignorar-me. Quando isto acontece, me comparo com alguma outra pessoa queestá ocupada numa grande organização. Também ela tinha um futuro brilhante, mas nãorenunciou. Ela continua e serve o Senhor. Vê almas salvas e o Senhor abençoa seuministério. Tem sucesso, não material, mas espiritual, e eu penso amiúde que parecemais cristã que eu; tem um ar tão satisfeito, tão feliz. No final, o que ganhei? Ela nãoconhece dificuldades, eu não tenho outra coisa. Nunca seguiu este caminho, mas aindaassim possui muitas das coisas que hoje os cristãos consideram como uma riquezaespiritual, enquanto eu sou sempre assaltado de toda sorte de complicações. O quesignifica tudo isto? Estou desperdiçando a minha vida? Terei verdadeiramente dadodemais?" Eis aí, então, o nosso problema. Vocês pensam que, se tivessem seguido o caminhodo outro irmão, que se se tivessem consagrado o suficiente para suportar as dificuldades,o suficiente para que o Senhor se serva de vocês, mas não o suficiente como para queEle possa imobilizá-los, tudo iria perfeitamente bem. Mas seria verdadeiramente assim?Vocês sabem muitíssimo bem que não é assim não. Tirem seu olhar daquele outro homem. Olhem para o seu Senhor e perguntem-seainda o que há de maior valor do que Ele. Ele pede que o princípio do "desperdiço" seja oque nos governe: "Ela fez isto para mim". O coração de Deus se enche de verdadeirogozo quando, como diz o mundo, nos "desperdiçamos" para Ele. Parece que damos demasiado sem receber nada; mas este é o segredo para agradar aDeus. Meus queridos amigos, o que procuramos nós? Procuramos, como os discípulos, serutilizados? Eles queriam que cada um daqueles trezentos denários tivessem uma plenautilidade. Eles buscavam um "útil" para o Senhor que pudesse ser demonstrado comcifras e reportes. O Senhor deseja sentir-nos dizer: "Senhor, eu não me ocupo destascoisas. Se posso somente ser agradável a Ti, isso é suficiente para mim". A UNIÃO ANTECIPADA "Jesus, porém, disse: Deixai-a, por que a molestais? Ela fez-me boa obra. Porquesempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas amim nem sempre me tendes. Esta fez o que podia; antecipou-se a ungir o meu corpopara a sepultura" (Marcos 14:6-8).90
  • 91. O Senhor Jesus, com este termo "antecipado", levanta uma questão de tempo; e esteelemento não pode ter uma nova aplicação hoje, porque é tão importante para nós comoo foi então para Maria. Saibamos todos que no século futuro seremos chamados a umaobra maior, e não a inatividade. "Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel,sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor" (Mateus 25:21), confrontar comMateus 24:47: "Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens" e Lucas19:17: "Bem está, servo bom, porque no mínimo foste fiel, sobre dez cidades terásautoridade". Sim, haverá um serviço maior, porque a construção da casa de Deusprosseguirá, justamente como na história continuou a preocupação pelos pobres. Ospobres estiveram sempre com os discípulos, mas estes não tiveram sempre o Senhor. Esta ação de Maria, esta unção de Jesus com o perfume de nardo precioso, devia sercumprida com antecipação, porque uma semelhante ocasião não se teria maisapresentado. Eu acredito que naquele dia amaremos todos o Senhor, como não o temosamado jamais neste período de nossa vida; porém penso que existirá uma maior bênçãopara aqueles que tiveram entregado tudo a Ele, hoje, desde agora. Quando o vejamosface a face, estou seguro que todos romperemos nossos vasos e verteremos seuconteúdo aos seus pés. Mas hoje, o que fazemos hoje? Tempo depois de Maria ter quebrado o vaso de alabastro e derramado o perfumesobre a cabeça de Jesus, algumas mulheres saíram bem cedo para ungir o corpo doSenhor. O fizeram? Conseguiram cumprir seu projeto naquele primeiro dia da semana?Não, houve uma única pessoa que pôde ungir o Senhor, Maria, que o havia ungidoantecipadamente. As outras mulheres nunca o puderam fazer, pois Ele tinharessuscitado. Acredito que, da mesma forma, a escolha do momento possa ter a máximaimportância também para nós, e que a primeira pergunta a fazer-nos seja esta: "O queposso fazer hoje para o Senhor?" Nossos olhos foram abertos sobre o precioso valor daqueles que servimos? Chegamosa compreender que somente aquilo que nos é mais querido, mais caro, mais precioso, édigno dEle? Chegamos a entender que trabalhar para os pobres, trabalhar para o bem domundo, trabalhar para as almas dos homens, para o bem eterno dos pecadores —coisastodas necessárias e úteis— são bem feitas somente se estão em seu justo lugar? Em simesmas não têm valor algum se confrontadas com aquilo que é feito para o Senhor. É necessário que o Senhor abra nossos olhos sobre aquilo que Ele significa para nós.Se existe no mundo algum precioso tesouro de arte, e se eu pago o elevado preço que seexige por ele, sejam R$ 1000, R$ 10.000 ou até R$ 1.000.000, alguém ousará dizer queé um desperdiço? A idéia do desperdiço penetra em nosso modo de pensar só quandoavaliamos em menos o real valor de nosso Senhor. Todo se resume nesta pergunta:"Que valor tem o Senhor para nós, agora?". Se nós não lhe atribuirmos muito, é evidenteque tudo aquilo que Lhe oferecemos, também as pequenas coisas, nos parecerá um"desperdiço" insensato. Mas quando Ele é realmente precioso para a nossa alma, nadaserá demasiado caro, nada será demasiado precioso para Ele; tudo aquilo quepossuímos, nosso tesouro mais prezado, nosso tesouro sem preço, o depositaremos aosseus pés, e não nos envergonharemos jamais de tê-lo feito. O Senhor disse a Maria: "Ela fez o que podia". O que significa isto? Significa que elaofereceu tudo, sem guardar nada para o futuro. Ela derramou sobre Ele tudo aquilo quetinha; por isso, na manhã da ressurreição, não tinha nenhuma razão para chorar suaextravagância. E o Senhor estará contente de nós somente quando tenhamos feito "oque está em nosso poder". Lembrem-se que com isto não entendo gastar as nossasforças e energias para tentar fazer alguma coisa para Ele. O que o Senhor Jesus procuraem nós é uma vida depositada aos seus pés; em vista de sua morte e sepultura e de umdia futuro. A sua sepultura estava já em vista, aquele dia, na casa de Betânia. Hoje estáem vista sua coroação no dia em que será aclamado na glória como o Ungido, o Cristo deDeus. sim, naquele dia derramaremos tudo o que teremos sobre Ele. Unjamo-Lo,portanto, hoje, não com o óleo material mas com algo mais precioso, com alguma coisaque provenha diretamente de nosso coração. Aquilo que é somente externo e superficial não pode ter lugar aqui. Foi deixado delado por meio da Cruz e nós aceitamos o juízo de Deus sobre isso e experimentamos oefeito de sua supressão. Aquilo que Deus nos pede agora está representado pelo vaso dealabastro: alguma coisa extraída do profundo, folhada, cinzelada e esculpida; algumacoisa que é para nós tão valiosa porque o é também para o Senhor, que nos é preciosacomo a Maria era precioso seu vaso e que não ousamos quebrar. Vem de nosso coração,do mais profundo de nosso ser; e vamos com ele ao Senhor, o quebramos para derramaro conteúdo em seus pés e Lhe dizemos: "bem, Senhor, estamos aqui com todo o nosso 91
  • 92. ser. Todo é Teu, porque Tu és digno". Assim o Senhor tem aquilo que deseja. Possa Elereceber hoje uma semelhante unção de nós. FRAGRÂNCIA "E encheu-se a casa do cheiro do ungüento" (João 12:3). Desde o momento em quefoi rompido aquele vaso e o Senhor Jesus foi ungido, a casa foi invadida do perfume maisdoce. Todos podiam senti-lo, e ninguém podia ignorá-lo. O que significa isto? Quando vocês encontram um cristão que realmente tem sofrido, alguém que tenhaatravessado com o Senhor experiências que tenham ultrapassado seus limites, e que, aoinvés de tentar ser liberado para ser "útil", se deixou fazer prisioneiro dEle, aprendendoassim a encontrar sua satisfação somente no Senhor, imediatamente percebem algumacoisa; a nossa sensibilidade espiritual perceberá em seguida um doce perfume de Cristo.Alguma coisa, naquela vida, foi quebrada, triturada, e por isso vocês sentem afragrância. O perfume que encheu a casa de Betânia naquele dia continua a encher hojea Igreja; a fragrância de Maria não desaparece nunca. Foi suficiente um único golpe pararomper o vaso para o Senhor, mas este gesto, aquela dedicação ilimitada de si e doperfume daquela unção, permanecem até hoje. Nós falamos aqui daquilo que somos não do que fazemos ou predicamos. Talveztenham pedido ao Senhor que se sirva de vocês durante muito tempo, de forma quepossam levar aos outros alguma coisa dEle. Naquela oração não pediram o dom dapredicação ou do ensino, mas o de poder levar em seu contato com outros, alguma coisade Deus, da presença de Deus, depois de ter colocado tudo o que possuiam de maisprezado aos pés do Senhor Jesus. Mas uma vez que chegaram a este ponto, vocês podem parecer bem utilizados ounão, numa forma externa, mas o Senhor começará a utilizar vocês para suscitar emoutros o desejo dEle. Os outros sentirão em vocês o perfume de Cristo; até o menosligado a estas coisas estará em condições de discerni-lo. Cada um perceberá que há aquium que caminha com o Senhor, que sofreu, que não agiu por si mesmo, que aprendeu oque significa submeter tudo a Ele. Uma vida deste gênero suscita impressões, asimpressões produzem desejos e o desejo impulsiona os homens a buscar, até que sejamintroduzidos pela revelação divina, na plenitude da vida em Cristo. Deus não nos colocou aqui com o primeiro objetivo de trabalhar ou de predicar paraEle. A primeira razão pela qual Ele nos coloca aqui é para que nós suscitemos fome nosoutros. Isto é, depois de tudo, o que prepara o fundamento da predicação. Se vocês apresentam um gostoso doce diante de pessoas que voltam de um bomalmoço, qual será sua reação? Elas comentarão, admirarão seu magnífico aspecto, seinteressarão pela receita, pensarão no preço, mas não o comerão! Porém, se elastivessem verdadeiramente fome, não passaria muito tempo antes que o doce tenhacompletamente desaparecido. Assim é com as coisas do Espírito. Nenhuma obraverdadeira poderá ser iniciada numa vida, se antes que nada não é suscitada nela averdadeira necessidade. Mas como pode isto ser feito? Nós não podemos suscitar pelaforça um apetite espiritual nos outros; não podemos constrangê-los a ter fome. A fomedeve se produzir espontaneamente, e só pode acontecer através daqueles que levam emsi a marca de Deus. Gosto de pensar nas palavras daquela mulher "importante" de Suném. Falando doprofeta que havia hospedado sem ainda conhecê-lo, disse: "Eis que tenho observado queeste que sempre passa por nós é um santo homem de Deus" (2 Reis 4:9). O queproduziu esta impressão nela não foi o que tinha feito ou o que tinha falado o profetaEliseu, mas aquilo que ele era. Em sua forma simples de pensar, ela havia podidoperceber alguma coisa; tinha enxergado. O que vêem os outros em nós? Podemos deixarmuitos tipos de impressões; podemos deixar a impressão de que somos inteligentes, quesomos cultos, que somos isto ou aquilo. A impressão que deixava Eliseu era umaimpressão de Deus mesmo. A influência que podemos ter sobre os outros depende de uma única coisa, da obraque cumpriu a Cruz em nós, pela confirmação da vontade de Deus. Ela pede que eutente de obedecer somente o Senhor, sem me preocupar daquilo que vai me custar. Airmã de que falei antes encontrou-se, um dia, numa situação muito difícil, que podia lhecustar tudo. Eu estava perto dela, naquele momento, e nos ajoelhamos para orar, que osolhos úmidos. Alçando o olhar para o céu, ela disse: "Senhor, estou pronta para deixarquebrantar meu coração para satisfazer o teu". Falar assim, de coração partido, poderiaser para muitos de nós só um lance de puro sentimentalismo, mas para ela, na situaçãoem que estava, queria dizer exatamente isso.92
  • 93. Deve haver alguma coisa —um consentimento à entrega de nós mesmos no quebrar ovaso e verter tudo o conteúdo para Ele— que permita ao perfume de Cristo se expandir ese reproduzir em outras vidas; uma consciência da necessidade deles que os impulsionea procurar e conhecer o Senhor. Isto me parece ser o centro de tudo. O Evangelho tem por único objetivo criar em nós, pecadores, uma disposição quesatisfaça o coração de nosso Deus. Para que isto aconteça, nós viemos a Ele com tudoaquilo que temos, com tudo o que somos —sim, com tudo o que mais amamos de nossasexperiências espirituais— e Lhe dizemos: "Senhor, eu estou pronto para abandonar tudoisto por Ti; não pela tua obra, não pelos teus filhos, não por outras coisa, mas por Ti,somente para Ti". Oh, sermos desperdiçados nEle! É uma coisa abençoada sermos desperdiçados para oSenhor. Muitas pessoas eminentes, no mundo cristão, não sabem nada disto. Muitos denós fomos utilizados plenamente, talvez demais, mas não sabemos o que quer dizersermos desperdiçados em Deus. Gostamos de estar sempre "ocupados"; o Senhor poderia preferir alguma vez ter-nosem prisão. Nós vemos tudo em termos de viagens apostólicas; Deus se digna ter seusmaiores embaixadores acorrentados. "Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo, e por meio denós difunde em todo lugar o cheiro do seu conhecimento" (2 Coríntios 2:14). "E encheu-se a casa do cheiro do bálsamo" (João 12:3). Que o Senhor nos dê a graça de saber sempre como agradá-Lo. Quando, como Paulo,prefiramos este escopo supremo (2 Coríntios 5:9), o Evangelho terá alcançado seuobjetivo. 93
  • 94. ÍNDICECAPÍTULO 1 – O SANGUE DE CRISTO..................................................................3 O nosso duplo problema: os pecados e o pecado O duplo remédio de Deus: o sangue e a cruz O problema dos nossos pecados Primeiramente o sangue tem valor diante de Deus Deus é satisfeito A via pela qual o crente vai a Deus A vitória sobre o acusadorCAPÍTULO 2 – A CRUZ DE CRISTO.......................................................................9 Outra distinção A condição natural do homem Como em Adão, assim em Cristo O meio divino da liberação O que a sua morte e ressurreição representam e abrangemCAPÍTULO 3 – O CAMINHO PARA IR ALÉM: SABER............................................15 A nossa morte com Cristo é um fato histórico O primeiro passo: "sabendo que..." A revelação divina é a base essencial da consciência A cruz na raiz do nosso problemaCAPÍTULO 4 – O CAMINHO PARA IR ALÉM: FAZER DE CONTA DE ESTAR MORTOS........................................................................................................19 O segundo passo: assim, vocês considerem-se como... Considerar-se pela fé As tentações e as quedas, desafio à fé Permanecer nEleCAPÍTULO 5 – O PODER DI SEPARAÇÃO DA CRUZ.............................................26 Duas criações A sepultura significa um fim A ressurreição em novidade de vidaCAPÍTULO 6 – O CAMINHO PARA IR ALÉM: APRESENTAR-SE A DEUS................31 O terceiro passo: "apresentai-vos..." Separado para o Senhor Servo ou escravo?CAPÍTULO 7 – O DESÍGNIO ETERNO..................................................................33 O primogênito de muitos irmãos O grão de trigo A escolha que Adão deveu enfrentar A escolha de Adão, razão da cruz Quem tem o Filho tem a vida Todos nasceram de um homem sóCAPÍTULO 8 – O ESPÍRITO SANTO....................................................................37 A efusão do Espírito A fé é ainda a chave A diferença da experiência A permanência do Espírito em nós O tesouro no vaso de barro A soberania absoluta de CristoCAPÍTULO 9 – O SIGNIFICADO E O VALOR DO SÉTIMO CAPÍTULO DA CARTA AOS ROMANOS...................................................................................46 A carne e a derrota do homem O que ensina a lei Cristo, até a lei O fim de nós mesmos é o princípio de Deus em nós Graças sejam dadas a Deus!CAPÍTULO 10 – O CAMINHO DO PROGRESSO: CAMINHAR SEGUNDO O ESPÍRITO......................................................................................................54 A carne e o Espírito Cristo, a nova vida A lei do Espírito da vida94
  • 95. A manifestação da lei da vida O quarto passo: "caminhar segundo o Espírito"CAPÍTULO 11 – UM ÚNICO CORPO EM CRISTO..................................................62 Uma porta e um caminho Os quatro aspectos da obra de Cristo sobre a cruz O amor de Cristo Um único sacrifício vivente Mais que vencedores em virtude de CristoCAPÍTULO 12 – A CRUZ E A VIDA DA ALMA.......................................................69 A verdadeira natureza da queda A alma humana A energia natural na obra de Deus A luz de Deus e o conhecimentoCAPÍTULO 13 – O CAMINHO DO PROGRESSO: CARREGAR A CRUZ.....................76 A obra subjetiva da cruz A cruz e a abundância dos frutos Uma noite escura – uma manhã de ressurreiçãoCAPÍTULO 14 – O OBJETIVO DO EVANGELHO....................................................82 Desperdiço Servir por prazer ao Senhor A união antecipada Fragrância 95

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