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Clonagem, engenharia genética, organi...
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Clonagem, engenharia genética, organi...

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  • 1. Gattaca e a Nova Cosmologia HumanaClonagem, engenharia genética, organismos geneticamente modificados, Projeto GenomaHumano, terapia gênica: a moderna biotecnologia tem potencial para alterar profundamente anatureza e o próprio ser humano, e vem levantando polêmicas éticas. Os debates sobrequestões científicas costumam apresentar continuidades e descontinuidades conceituais notranscorrer da história. Descobertas ou invenções surgem carregadas de valores éticos,religiosos, bem como de aspectos econômicos, políticos e de forças sociais. Em algunsperíodos históricos, o homem teria pensado que a terra era achatada, em outros, que era ocentro do universo. Ao longo do tempo, portanto, noções e conceitos estão a todo instanteem pleno processo de mutação e são constantemente reinterpretados e mesmo reinventados,além dessas compreensões terem marcado o pensamento de várias gerações. E o cinema nãoficou indiferente a isto, como no filme que iremos analisar. Este filme apresenta umadiscussão sobre a comercialização das técnicas de manipulação genética que garantem umavida "tranqüila" e "bem-sucedida" para o ser geneticamente perfeito. O nome Gattacarelaciona-se às primeiras letras de nucleotídeos do DNA e é condizente com a discussão arespeito do destino de uma pessoa ser determinado pela sua composição genética. Otrabalho consiste na compreensão de algumas de suas instâncias representativas,problematizando as noções de determinismo biológico e cultural a eleassociadas.Transpassam o trabalho as discussões sobre “natureza humana”, representação eapropriação ideológica de modelos científicos e morais.Situa-se portanto dentro do debatehistórico entre natureza , cultura e ciência,e as suas possíveis conseqüências nosempreendimentos de uma representação da construção cosmológica ocidental.O filme se passa em um futuro, talvez bem próximo, em que as técnicas de engenhariagenética seriam capazes de orientar a produção de filhos "perfeitos". No entanto, algunscasais ainda seguem o "método tradicional" e deixam que as leis da meiose e da fecundaçãoao acaso gerem seus filhos, chamados "Inválidos". É assim que nasce o personagem principaldo filme, Vincent (talvez uma alusão a "vencedor").Vincent trabalha em uma empresa de vôosespaciais, GATTACA. Essas letras representam as bases nitrogenadas do DNA e sãosemelhantes a um trecho do DNA cortado por um tipo de enzima de restrição, que são asenzimas fundamentais para a engenharia genética, já que permitem cortar o DNA de umorganismo e inserir o DNA de outro organismo.Vincent está determinado a fazer parte de umaequipe em um vôo para Titã, uma lua de Saturno. Para isso, porém, ele tem de esconder sua"identidade genética", já que possui um problema cardíaco sério, que provocará sua morte porvolta dos 30 anos. Vincent esconde esse problema apresentando nos exames amostras dosangue e da urina de Jerome, um indivíduo geneticamente "perfeito", que, por acidente, ficouparaplégico.A sociedade de Gattaca está dividida em duas “classes sociais”, os Válidos, os “filhos daCiência”, produtos da engenharia genética e da eugenia social, e os Inválidos, os “filhos deDeus”, submetidos ao acaso da Natureza e às impurezas genéticas. Gattaca retrata umasociedade de classe cuja técnica de manipulação do código genético tornou-se práticacotidiana de controle social.No final, a trama de Gattaca sugere um drama familiar, um “filhode Deus”, nascido do acaso da Natureza, outro, produto de um planejamento genético quaseperfeito. O que se observa é que o tema da técnica de manipulação genética perpassa todoo drama policial (e familiar) de Gattaca. Apesar do mais alto controle social garantido peloregistro genético, a espécie humana continua a mesma: dividida em classes sociais e seutilizando de subterfúgios escusos e clandestinos para atingir seus interesses egoístas. Aolado dos mais sofisticados recursos de manipulação genética, que hoje estão se tornandorealidade pelos avanços da engenharia genética e da biologia molecular, assistimos a um jogode ambição e fraude, seja a de Vincent para ter acesso à corporação Gattaca e realizar seu
  • 2. sonho de tornar-se astronauta; ou do diretor Josef, de Gattaca (representado pelo escritorGore Vidal, num papel especial), que assassina outro diretor num jogo de poder.Numa sociedade de controle social quase-absoluto, os “de baixo” apelam para fraudes sutis,clandestinas, como forma de resistência individual ao totalitarismo do destino genético. Nesseambiente de resistência individual, pode-se perceber certa solidariedade entre os “de baixo”,como a atitude condescendente do faxineiro Caesar (representado por Ernest Borgnine) oupelo médico Lamar, que aparentam certa simpatia pelos ideais transgressores deVincent/Jerome.Questões EticasHá portanto, as implicações morais (o que é certo, o que é errado) das aplicações damedicina e da biotecnologia. Assim,o filme nos leva a questões do tipo: Seria ético que ospais escolhessem o sexo e outras características da criança? Uma pessoa deve ser informadase um teste genético indicar que ela poderá desenvolver uma doença incurável no futuro?Empresas e companhias de seguro têm o direito de realizar testes genéticos em seusfuncionários ou em candidatos a um emprego para detectar doenças que poderão sedesenvolver no futuro e assim impedir seu desenvolvimento profissional ? Isso já pode serfeito em relação às doenças recessivas ligadas ao cromossomo X. Nesse caso, são usadastécnicas de reprodução assistida para implantar apenas embriões femininos e heterozigotospara a doença. Mas será que esses procedimentos ficarão restritos às doenças ou aspessoas poderão se achar no direito de escolher algumas características de seus filhos, comoa cor dos olhos ou o nível de inteligência? Será que haverá então uma divisão entre os quepoderão pagar por esses testes e, em alguns casos, por sua cura, e os que não poderão?Nesse caso, haveria o risco de uma discriminação baseada no código genético de cada um.Asquestões não param: É desejável uma sociedade que controla e determina o que cada umdeve querer ou pode realizar? E quem decide esse controle? É justo discriminar e cortar oacesso ao que uma pessoa quer a partir de "imperfeições" genéticas, como ocorre comVincent, em oposição a seu irmão perfeito (Anton), que, por isso, tem todas as chances? Equal o critério de perfeição? Imperfeito é aquele que é "diferente"? Aliás, no filme aparece umpianista de seis dedos em cada mão, capaz de tocar uma peça especialmente criada paraele. Os seis dedos representam uma "imperfeição"? Será que alguém, para ser feliz, tem deser "perfeito"? No filme, descobrimos que Jerome Eugene ("eugene", em grego, significa "bonsgenes"), o amigo paraplégico de Vincent, tenta se matar por não ter vencido um concurso.Adiferença entre o que é e o que deve ser implica em que, mesmo no caso de existir umainfluência genética nas diferenças de habilidades (em termos estatísticos) entre indivíduos,qualquer pessoa deve ter o direito de desenvolver seu potencial como achar melhor. Não épossível extrair um juízo de valor a partir de uma teoria científica. Em outras palavras: valorespertencem à esfera ética e não à esfera científica, e a ciência não pode dar conta de todasas necessidades humanas, nem é a única forma de conhecer e de se relacionar com omundo.No filme , isto acontece na corporação Gattaca, mas poderia se passar num Campo deConcentração ou numa sociedade totalitária qualquer. E Vincent representa o homem - emsua luta contra o sistema, agora representado pelos imperativos categóricos da eugeniasocial. A ambição individualista de Vincent é que conduz a trama. A sua luta é contra odestino de classe – ou casta? - agora demarcado, graças ao avanço da técnica, peloestigma do destino genético. É um destino genético produzido pelo homem, mas que, namedida em que é produto de um afastamento das barreiras naturais – o domínio do código davida - numa sociedade de classe, tende a tornar-se uma “segunda natureza”. É contra essa“segunda natureza”, produzida pela manipulação técnica, que Vincent se revolta e busca umasaída individual.Em Gattaca, os proletários seriam os Inválidos, os Condenados da Terra. Apesar disso, aatitude arrogante do verdadeiro Jerome diante de um policial que o interroga, numa certa
  • 3. passagem do filme, sugere que, mesmo entre os Válidos existe uma certa hierarquia de classe- a não ser que os policiais, guardiães da Ordem genético-fascista da sociedade de Gattaca,sejam da classe dos Inválidos. Não podemos culpar a técnica em si, mas a forma social que adesenvolve e se apropria dela.Primeira Natureza X Segunda NaturezaGattaca sugere o dualismo Acaso (ligado a “primeira natureza”) versus Planejamento(imperativo da “segunda natureza”). Pode-se apreender no filme, certa nostalgia de umpassado distante em que um fio de cabelo era apenas um fio de cabelo (ou uma meralembrança afetiva), e não um registro genético capaz de denunciar a identidade de classedas pessoas, através de exame de DNA. A luta de Vincent não é apenas contra o Sistema deGattaca, mas contra si mesmo, contra seus fluidos e restos corporais capazes de denúncia-locomo Inválido. É o estranhamento assumindo proporções abismais, atingindo o próprio serorgânico do homem, objeto de uma rede controlativa, de uma “grade”, talvez uma nova formade ciberespaço, capaz de aprofundar o controle social.Mas apesar do clima totalitário, o filme expõe as falhas irremediáveis de Gattaca e do seusistema de controle. Contra a técnica que supostamente desumaniza o homem, na verdade,o diretor e roteirista Andrew Niccol sugere uma “natureza humana” recalcitrante àsimposições sistêmicas. O filme dá a entender que, apesar de suas imperfeições, Vincent temuma determinação que lhe permite vencer suas limitações, ir para o espaço (talvez umametáfora para a capacidade de escapar de suas deficiências genéticas) e até vencer seuirmão mais "perfeito" em uma aposta de natação. A força de Vincent viria então de umacapacidade de livre arbítrio, capaz de modificar seu "destino genético". Genes, afinal, não sãodestino, mas propensões. Isso quer dizer que os genes são um dos fatores que influem emnossas características. Não podemos esquecer que o ambiente - em sentido amplo, o queinclui a cultura e os fatores psicossociais - também deve ser levado em conta. Além disso, ofato de que podemos prever as conseqüências de nossas ações - inclusive em um futurodistante -, aumenta nosso poder de modificar nosso comportamento.Devemos considerar também que o problema não é a ciência, mas sim como decidimos aplicaro conhecimento científico. A pesquisa científica pode criar medicamentos que salvam vidas,mas pode também criar armas de destruição em massa. O fundamental é que a sociedadeesteja bem-informada para tomar decisões, baseadas em princípios éticos, de modo a usar aciência para melhorar a qualidade de vida dos seres humanos e para manter a saúdeambiental de nosso planeta. Cabe então à sociedade decidir seu futuro.Finalmente, é um erroinferir como as coisas devem ser a partir de como as coisas são. Independentemente dopapel do gene nas características, o que é determinado ou influenciado geneticamente não énecessariamente bom (ou mau), nem deve necessariamente ser estimulado.Questões Psico-socio-economicasÀ medida que o capitalismo busca o alargamento de seus limites, encontramos uma noçãopara ilustrar o quanto esse sistema necessita, para sua própria perpetuação, de uma formade "inclusão diferencial". Trata-se de um processo de reinvenção constante e contínua dosistema, no qual se parte da idéia "politicamente correta" de que não há mais diferenciaçõesno processo de entrada na dinâmica produtiva do mercado capitalista. Em princípio, todossão igualmente capazes de se inserir no processo competitivo. É o próprio mercado que vaiselecionar e hierarquizar.Nesse sentido, a hierarquização se dará no próprio convívio social.Nem todos estarão aptos a alcançar o que é visto como modelo ideal a ser vislumbrado nadinâmica capitalista. Considerando que a produção e o consumo são os pilares maisimportantes do sistema vigente, todos os indivíduos com necessidades especiais, como aSíndrome de Down por exemplo, serão considerados aptos a alçar vôos competitivos mais
  • 4. altos quando se revelarem capazes de se aproximar da chamada normalidade. Aqueles quenão conseguirem entrar nessa disputa inerente à lógica capitalista, poderão ser inseridos nomesmo patamar dos "invalidos" do filme Gattaca, sendo essa portanto uma forma maissofisticada de exclusão social.Autores como Deleuze nos ajudam a compreender como o sistema gera mecanismos própriospara capturar a subjetividade dos indivíduos e sobrepor suas formas e expressões. Diantedisso, o papel dos meios de comunicação de massa passa a ser fundamental na sociedadecontemporânea, denominado por diversos autores como o Quarto Poder, sobretudo emfunção de sua capacidade de produzir modos de vida e dinâmicas sociais. A mídia é umpotente disparador de processos de subjetivação, porque ela investe como ninguém nocotidiano de cada indivíduo, buscando adequar comportamentos e maneiras de pensar deacordo com os interesses do capitalismo.Trata-se de dizer que o capitalismo está sempre pronto a criar novos desejos ou a seapropriar dos fluxos que não estejam de acordo com a sua dinâmica de funcionamento. Desseponto de vista, quanto maior for a "inclusão diferencial", mais eficaz será o controle e apassividade diante do estabelecido como hegemônico. Conforme nos disse Deleuze , "nãoexiste exterior, não existem as pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser comonós, e cujo crime é não o serem" .Entre as continuidades e descontinuidades dos debates em torno controle genético , atravésda decifração do código genético e modernas formas de comunicação como a internet podeestar apontando para a idéia de que eventuais diferenças estão sendo dissipadas pelainstrumentalização científica, sufocando qualquer possibilidade de resistência à subjetividadeforjada permanentemente pelo capitalismo.Nesse sentido, poderíamos nos indagar se apenas com o desenvolvimento das informaçõesgenéticas e do prenúncio de um futuro mais sadio para a humanidade, estaríamosengendrando novos modos de existência? Ou então, o que fazer com os processos deresistência daqueles que de alguma maneira não se ajustam ou não querem se adequar àspadronizações e serializações impostas pela subjetividade capitalista?A apropriação das descobertas científicas continua sendo uma questão premente de serdiscutida nos dias de hoje. O Projeto Genoma Humano, por exemplo, vem sendo alardeado porgrande parte da mídia como o caminho para a cura da maioria dos males que afetam a saúdeda humanidade, subestimando-se a possibilidade do surgimento de efeitos colaterais. Talvezseja interessante fazer algumas ponderações necessárias para a ampliação desse debate, enada como voltar ao passado para perceber que "alguns dos males que a ciência e suasaplicações provocam nascem do desejo de fazer o bem.Trata-se, portanto, de buscar avaliar os possíveis efeitos da ciência na humanidade, que sãodiversos e muitas vezes imprevisíveis. O problema é, na maioria das vezes, esse debate semanter praticamente circunscrito à comunidade científica, que tende a se autoproclamarcomo foco de disseminação de verdades totalizantes sobre as pesquisas em andamento."Quem fala de ciências conhecendo-as em detalhe e de primeira mão? Os próprios cientistas.Também falam de ciência os professores, os jornalistas, o grande público, só que falam delonge, ou com a incontornável mediação dos cientistas. Para falar de ciência é preciso serespecialista, declara-se, de modo a bloquear de antemão qualquer pesquisa direta de campo.Esse estado de coisas seria muito chocante em política ou economia. Imaginemos um políticodizendo: Só os políticos estão aptos a falar de política, (...), ou um jornalista: Eu sou acorrente de transmissão dos políticos, aquela que explica ao público o que é preciso pensar"Se pensarmos bem,há muitas maneiras de abordar esse problema pelo aspecto da
  • 5. racionalidade humana. Pode-se negar o problema ou reduzi-lo ao domínio da lógica habitual,da normalidade e da boa adaptação social . Dessa perspectiva, corrigi-se as falhas, de modoa retornar às normas dominantes. Inversamente, pode-se considerar que essescomportamentos dependem de uma lógica diferente, que deve ser estruturada como tal. Emvez de abandoná-los à sua irracionalidade aparente, vamos então tratá-los como umamatéria do qual se podem extrair elementos essenciais à vida da humanidade, especialmenteà sua vida de desejo e às suas potencialidades criativas .Autor : Enio Ferreira

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