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Análise e crítica do livro eu sou camille desmoulins
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  • 1. ANÁLISE E CRÍTICA DO LIVRO “EU SOU CAMILLE DESMOULINS”, de Hermínio C. Miranda e Luciano dos Anjos. por Moizés MontalvãoObservação1: os grifados, sublinhados, negritos, nas citações de textos de outrosautores, são de nossa autoria. Textos [entre colchetes] são inserções explicativas, denossa autoria.Observação2: algumas citações ilustrativas são relativamente longas. A intenção émostrar claramente o pensamento do autor, evitando distorções, o que é comumocorrer com referências curtas.Observação3: alusões à reencarnação e mediunidade são inevitáveis na presenteanálise. Conseqüentemente, referências ao espiritismo também serão inevitáveis. Nãohá qualquer intento em agredir crenças, as quais respeitamos com muita seriedade.Discutimos, sim, idéias, proposições, teorias.OBJETIVO: analisar a alegação de que as recordações experienciadas por Luciano dosAnjos, sob a condução de Hermínio Miranda, demonstram um autêntico caso dereencarnação. COMENTÁRIOS INICIAISOs protagonistas da obra sob apreciação são Hermínio Correa de Miranda e Luciano dosAnjos. O evento teria ocorrido durante alguns meses, no ano de 1967 e, segundo osautores, foi gravado em fita e das gravações produziu-se o livro.Hermínio e Luciano são pessoas dotadas de elevada cultura. Hermínio domina quatro oucinco idiomas, escreveu muitos livros, nos quais mostra familiaridade com variadosassuntos. Luciano atuou como jornalista por longo tempo e também escreveu diversasobras. Portanto, estamos lidando com pessoas do mais alto gabarito, cuja formaçãointelectual é inatacável e, ao que tudo indica, são figuras ilibadas, não dadas adissimulações ou fraudes conscientes.Desse modo, as apreciações que faremos não têm por objetivo denegrir a imagem dosautores, sim avaliar a experiência de regressão que, segundo defendem, atestariaindubitavelmente um evento reencarnacionista. O objetivo deste trabalho é verificar setal declaração é suficientemente firme para ser acatada sem receios.Antes de falarmos da experiência propriamente dita, necessário se faz conhecer ametodologia utilizada, bem como a base teórica que ampara a prática regressionista, nosmoldes praticados por Hermínio Miranda. Estas estão detalhadas na obra “A Memória eo Tempo”, de autoria de Hermínio, na qual, logo no início, se lê:Regressão da memória é o processo espontâneo ou provocado, por meio do qual, oespírito encarnado ou desencarnado fica em condições de retornar ao passado, navida atual ou em existências anteriores, próximas ou remotas. Estou bem certo deque a definição proposta pressupõe aceitação de alguns dos preceitos básicos da
  • 2. doutrina espírita, organizada por Allan Kardec na segunda metade do século XIX,na França. (p. 13, 14)Aqui deparamos um dificultador: para se aceitar a definição proposta por Hermínionecessário se faz aceitar pressupostos da doutrina espírita. O que constitui umproblema e uma limitação. Hermínio Miranda assevera que a melhor maneira (e talvez aúnica aceitável) de explicar o fenômeno seja por meio da teoria espírita. Como se podever no trecho a seguir:“Os pressupostos implícitos na definição oferecida não são...invenção doespiritismo nem surgiram de revelações transcendentais revestidas de carátermístico ou dogmático, a exigir sustentação da fé cega. São princípioseminentemente lógicos que podemos aceitar sem nenhuma forma de violência àrazão e que têm sido exaustivamente pesquisados e confirmados por inúmerosinvestigadores qualificados. (...)Sugerimos, portanto, aos mais renitentes e obstinados negadores que os aceitem,provisoriamente, como hipóteses de trabalho e os submetam aos testes e aplicaçõesque julgarem necessários. Ainda que não os aceitem, porém, não há como negarque eles estão implicitamente contidos na visão integrada do fenômeno daregressão da memória. Estão, assim, embutidos na estrutura do fenômeno osseguintes conceitos fundamentais que aqui alinhamos como premissas básicas:– existência do espírito, ser consciente em evolução.– existência de um corpo energético, organizador biológico, a que chamamos deperispírito.– preexistência do espírito à sua vida na carne.– sobrevivência do espírito à morte do corpo físico.– sua permanência por algum tempo numa dimensão que escapa aos nossossentidos habituais.– seu retorno em novo corpo físico para nova existência na carne.– sua responsabilidade pessoal pelos atos praticados, no bem ou no mal. (p. 14)Essas “exigências” dificultariam ao investigador não-espírita a averiguação do caso,pelo menos dentro da abordagem realizada pelo autor. Praticantes do regressionismo,não adeptos da doutrina espírita, teriam dificuldades em acatar alguns dos quesitosespecificados, notadamente a existência do perispírito. De certo modo, o que HermínioMiranda determina é mais ou menos o seguinte: analisem a experiência de Luciano dosAnjos e constatem a evidência demonstrada da reencarnação, isso desde que o façamsegundo as suposições seguidas pela doutrina espírita.A afirmação de que os itens relacionados acima integram o fenômeno regressionistaseria, em parte, aceitável se fosse acatada aprioristicamente a idéia de que as lembrançassão autênticas reminiscências. A investigação que se pretenda ampla deve levar emconta outras hipóteses. Uma delas seria a de que as recordações sejam elaboraçõesmentais do paciente, extraídas de seus próprios conhecimentos, (conhecimentos obtidosna existência atual).Como forma de melhor compreender o assunto, consideramos conveniente distinguirtrês modalidades de regressão:
  • 3. 1. Regressão de memória (que recuperaria lembranças da existência atual);2. Regressão ao útero materno (supostas recordações da vida intra-uterina);3. Regressão a vidas passadas (alegadas lembranças de outras vidas).Contudo, Hermínio Miranda utiliza a expressão “regressão da memória”indistintamente, isto é, sem diferenciar dentre as modalidades aqui referidas. Nopresente estudo, estaremos, pois, investigando um episódio de regressão a vidaspassadas. O MÉTODOA técnica hipnótica de Hermínio, aplicada para obter lembranças de vidas passadas,conjuga passes “magnéticos” com sugestões verbais.A sugestão, por meio de comandos imperativos, na hipnose é prática consagrada. Hátécnicas de indução sem a utilização de instruções verbais – uma das principais,conhecida por letargia −, contudo, o processo hipnótico global não prescinde doscomandos ou induções por meio da voz. E é fácil compreender porque tal se dá: oobjetivo de uma sessão de hipnose é obter determinada reação, seja agir de certo modo,ou avivar a memória, ou despertar emoções. Tais objetivos se realizam direcionando amente hipnotizada com palavras adequadas.O passe, dito magnético, tem uma função específica. No espiritismo é utilizado comoforma de transmitir energia terapêutica de uma pessoa para outra. Alguns teóricosespíritas asseveram que, em realidade, o passe não transfere energia vital do agente aopaciente; em vez disso, promove o reequilíbrio da circulação energética. O processo sedaria pela interseção dos campos magnéticos dos envolvidos, conforme se vê nadeclaração de Paulo Henrique de Figueiredo, na revista Universo Espírita:“Está equivocado quem imagina a técnica do Magnetismo Animal como sendo aemissão de um fluido das mãos do médico com o poder de curar o doente eenvolvê-lo. Não é essa a teoria de Mesmer. Por conseqüência, não é a teoriaespírita.” (Universo Espírita, nº 49, p. 37) [Obs. No original consta efetivamente apalavra “médico”, porém temos a impressão de que o autor pretendia grafar“médium”]Nada obstante, a maioria dos que fazem uso do magnetismo, conforme o molde espírita,o entendem como transferência de energia. Alguns dos escritos de Kardec transmitem aidéia de cessão de energia. E este parece ser, igualmente, o pensamento de HermínioMiranda, conforme se vê no seguinte trecho de sua autoria.Magnetismo, a nosso ver, é a técnica de desdobramento provocado por meio depasses e/ou toques, enquanto a hipnose ficaria adstrita aos métodos da sugestãoverbal, transmitindo-se as instruções ordenadamente, em cadência e tom de vozadequados. Ainda mais: os dois métodos podem ser combinados, simultâneos,cabendo ao operador transmitir as instruções para o relaxamento ao mesmo tempoem que satura de energias o sensitivo, com passes apropriados.” (A Memória e oTempo. P. 81)
  • 4. Diversas escolas advogam que passes manuais podem promover benefícios variados.Sem pensar muito podemos lembrar o johrei, utilizado na Igreja Messiânica; a práticaReiki; a imposição de mãos em algumas igrejas protestantes; certos exercícios de magia,que atribuem poderes a gestos manuais, etc. Ainda que variem as explicações sobre oque seja o passe, dependendo do grupo religioso que o pratica, todos admitem que oprocedimento acarreta benefícios. A Bíblia fala da imposição de mãos, aplicadaconcomitantemente à oração, como se vê no livro bíblico de Tiago, capítulo 5:“Está doente algum de vós? Chame os anciãos da igreja, e estes orem sobre ele,ungido-o com óleo em nome do Senhor;”Também, no livro de Hebreus, capítulo 6, encontramos:“Pelo que deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até aperfeição, não lançando de novo o fundamento de arrependimento de obras mortase de fé em Deus, e o ensino sobre batismos e imposição de mãos, e sobreressurreição de mortos e juízo eterno.”A realidade, contudo, não mostra que os passes sejam dotados de poderesextraordinários, quase mágicos, como alguns supõem. Os adeptos afirmam que a técnicade passes magnéticos é praticada desde o primórdio da civilização, entre egípcios,caldeus, gregos. Contudo, a imposição de mãos na antiguidade não estava atrelada àteoria do “magnetismo animal”. O passe pode ser benéfico em diversas situações, masos efeitos salutares, inclusive terapêuticos, são resultado da sugestão positiva que oprocedimento induz.As concepções sobre o passe magnético, no caso espírita, constituem herança do médicoaustríaco Franz Anton Mesmer. Esta figura tem uma história singular. Mesmercontribuiu para erigir um dos pilares do pensamento kardecista, uma vez que a teoria do“magnetismo animal” foi inteiramente acatada por Kardec, na qual baseou expressivaparcela de seus ensinamentos.Hermínio Miranda, no livro “A Memória e o Tempo”, apresenta ilustrativa exposiçãosobre o magnetismo e sobre a hipnose, desde Mesmer até a atualidade. A explanação deHermínio é longa para ser reproduzida nesta apreciação. À medida que nossocomentário evoluir, faremos referências a ela, principalmente dos pontos queconsideramos discutíveis. Em linhas gerais, o que Hermínio apresentou está coerentecom os melhores estudos do assunto; discordamos do tratamento privilegiado − a nossover excessivo e com pouca base −, que dá à teoria do passe magnético. Recomenda-seaos interessados em acompanhar o presente estudo, a leitura dos livros citados (AMemória e o Tempo e Eu sou Camille Desmoulins).A hipótese do “magnetismo animal” não foi comprovada experimentalmente. Inexistemevidências de que haja, nos corpos vivos, algo como uma “circulação magnética”.Apesar disso, tal conjectura é cultivada por diversos segmentos religiosos. Para okardecismo, por exemplo, o magnetismo seria a canalização produtiva do “fluidouniversal”. Fluido este que permanece no campo das conjecturas, uma vez que não foidetectado por experimentos científicos. Hermínio Miranda, por outro lado, tem opiniãopeculiar a respeito:
  • 5. “Embora para muitos autores de renome, como Lewis Spence, magnetismo ehipnose sejam a mesma coisa com nomes diferentes, preferimos aqui manter adistinção para fins didáticos, embora os resultados práticos de ambos sejamidênticos ou muito semelhantes. Magnetismo, a nosso ver, é a técnica dedesdobramento provocado por meio de passes e/ou toques, enquanto a hipnoseficaria adstrita aos métodos da sugestão verbal, transmitindo-se as instruçõesordenadamente, em cadência e tom de voz adequados. Ainda mais: os dois métodospodem ser combinados, simultâneos, cabendo ao operador transmitir as instruçõespara o relaxamento ao mesmo tempo em que satura de energias o sensitivo, compasses apropriados.” (A Memória e o Tempo. P. 81)Para Hermínio Miranda, os passes permitem ao espírito “desdobrar-se”, o que significaisso? Segundo certa teoria, em algumas circunstâncias a alma (juntamente com operispírito) consegue descolar do “invólucro carnal” e realizar peripécias quenormalmente não lhe estariam acessíveis.Allan Kardec apresentou amplas considerações a respeito do fluido magnético em váriasde suas obras, o tema tinha para ele importância capital, ilustramos com a seguintedeclaração, extraída de “A Gênese”.32. – São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre os doentes, deacordo com as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e reclama tratamentoprolongado, como no magnetismo ordinário; doutras vezes é rápida, como umacorrente elétrica. ... Todas as curas desse gênero são variedades do magnetismo esó diferem pela intensidade e pela rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo:o fluido, a desempenhar o papel de agente terapêutico e cujo efeito se achasubordinado à sua qualidade e a circunstâncias especiais.33. – A ação magnética pode produzir-se de muitas maneiras:1º pelo próprio fluido do magnetizador; é o magnetismo propriamente dito, oumagnetismo humano, cuja ação se acha adstrita à força e, sobretudo, à qualidadedo fluido;2º pelo fluido dos Espíritos, atuando diretamente e sem intermediário sobre umencarnado, seja para o curar ou acalmar um sofrimento, seja para provocar o sonosonambúlico espontâneo, seja para exercer sobre o indivíduo uma influência físicaou moral qualquer. É o magnetismo espiritual, cuja qualidade está na razão diretadas qualidades do Espírito;3º pelos fluidos que os Espíritos derramam sobre o magnetizador, que serve deveículo para esse derramamento...34. – É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e podedesenvolver-se por meio do exercício; mas, a de curar instantaneamente, pelaimposição das mãos, essa é mais rara e o seu grau máximo se deve considerarexcepcional...Em “O Livro dos Médiuns” encontramos outra informação ilustrativa:131. Esta teoria nos fornece a solução de um fato bem conhecido em magnetismo,mas inexplicado até hoje: o da mudança das propriedades da água, por obra da
  • 6. vontade. O Espírito atuante é o do magnetizador, quase sempre assistido por outroEspírito. Ele opera uma transmutação por meio do fluido magnético que, comoatrás dissemos, é a substância que mais se aproxima da matéria cósmica, ouelemento universal. Ora, desde que ele pode operar uma modificação naspropriedades da água, pode também produzir um fenômeno análogo com osfluidos do organismo, donde o efeito curativo da ação magnética,convenientemente dirigida.Sabe-se que papel capital desempenha a vontade em todos os fenômenos domagnetismo. Porém, como se há de explicar a ação material de tão sutil agente? Avontade não é um ser, uma substância qualquer; não é, sequer, uma propriedadeda matéria mais etérea que exista. A vontade é atributo essencial do Espírito, istoé, do ser pensante. Com o auxílio dessa alavanca, ele atua sobre a matériaelementar e, por uma ação consecutiva, reage sobre seus compostos, cujaspropriedades íntimas vêm assim a ficar transformadas.Tanto quanto do Espírito errante, a vontade é igualmente atributo do Espíritoencarnado; daí o poder do magnetizador, poder que se sabe estar na razão diretada força de vontade. Podendo o Espírito encarnado atuar sobre a matériaelementar, pode do mesmo modo mudar-lhe as propriedades, dentro de certoslimites. Assim se explica a faculdade de cura pelo contacto e pela imposição dasmãos, faculdade que algumas pessoas possuem em grau mais ou menos elevado...Para Kardec e, parece-nos, para a maioria dos praticantes do espiritismo, o passemagnético teria efetiva aplicação terapêutica. Hermínio Miranda acrescenta-lhe outraqualidade, conforme dito, o passe teria a peculiaridade de promover o “desdobramento”do perispírito. À página 70 de “A Memória e o Tempo” Hermínio explica suaconcepção de desdobramento:(...)separação temporária e controlada entre o perispírito e o corpo físico, no serencarnado(...)Também, à página 92, lemos:“Seja pelo passe magnético, pela fixação do olhar, pela sugestão verbal ou pelosoutros processos de indução, tanto quanto pela anestesia química, o fenômenopsicossomático é o mesmo, ou seja, o desdobramento do ser em seus componentesbásicos – desprende-se o espírito com o seu corpo energético, perispiritual ou queoutro nome lhe tenha sido aplicado, enquanto o corpo físico permanece emrepouso. Como a sensibilidade está no perispírito, e não no corpo físico, este setorna insensível à dor, se o sono magnético for suficientemente profundo paraproduzir a separação adequada.”Quem conheça um pouquinho das teorias sobre a hipnose notará que a suposiçãoapresentada por Hermínio Miranda é particularíssima e traz alegações de difícil defesa.A afirmação de que a sensibilidade do corpo está no perispírito é deveras complicada.Seria intrincado obterem-se bons argumentos para amparar tal idéia. Parece que, paraHermínio Miranda, a insensibilidade tátil é conseqüência obrigatória da induçãohipnótica e seria demonstração do desdobramento. Nada menos veraz: dependendo da
  • 7. forma como for sugestionado, o paciente pode apresentar sensibilidade exacerbada, emvez de analgesia.Outra idéia confusa é a do “desacoplamento” do espírito, durante a hipnose. Talsuposição é fruto de antigas conjeturas. No passado era comum a crença de que, duranteo sono, a alma se desprendia do corpo. Os sonhos seriam a confirmação de que ofenômeno ocorria. Kardec incorporou essa primitiva idéia à doutrina que elaborou. Noentanto, os estudos sobre o sonho passam longe de tal opinião. É certo que existemagremiações propondo a capacidade de se viajar no “universo astral”. E parece queessas viagens são gratificantes, porque não poucas pessoas se dedicam a excursões daespécie. Entretanto, é fácil demonstrar que o processo se passa inteiramente na mente dopraticante. Alguns testes, relativamente simples, deixam claro o fato. No caso deregressão de Luciano dos Anjos, o desligamento do perispírito foi apresentado porHermínio como um fato inconteste. Em momento algum ele se propôs a verificar se oespírito do regredido se encontraria efetivamente fora de sua morada carnal. Adiante,quando examinarmos as regressões, falaremos mais do assunto.A nosso ver, não obstante o brilhante trabalho que o livro “A Memória e o Tempo”representa, encontramos alguns equívocos sérios no pensamento de Hermínio Miranda.À frente resumiremos os pontos principais, no título “ALGUNS PONTOSCONTROVERSOS NO PENSAMENTO DE HERMÍNIO MIRANDA.”Falemos um pouco a respeito de Franz Anton Mesmer, pois este nome está ligado aoconceito kardecista de magnetismo (conceito este que, conforme foi dito, é mantidoainda na atualidade). MESMER (1733-1815)O austríaco Franz Anton Mesmer desde tenra idade revelou pendores intelectuaisincomuns. A família esforçou-se para que ele tivesse a melhor educação possível. Oresultado do investimento certamente não frustrou os familiares, Mesmer formou-se emfilosofia, medicina e direito. Também estudou música e era versado em astrologia.Afora essas especializações, que lhe garantiriam a classificação de sábio segundo ospadrões de sua época, Mesmer estava inclinado a descobrir novas formas de praticar amedicina. Ele se interessara pela teoria de Paracelso (1493-1541), e sucessores, quepostulara a existência de um fluido universal, por meio do qual seria possível umhomem exercer influência sobre outros homens e sobre objetos inanimados. Paracelsoconquistara grande respeito em sua época e, após sua morte, diversos pesquisadoresderam continuidade às suas idéias.Também a teoria hipocrática de que a doença era resultante do desequilíbrio dos fluidosorgânicos era simpática ao médico austríaco. Por outro turno, Mesmer acompanhou otrabalho de certo sacerdote exorcista, chamado Gassner. Desse contato resultou aaceleração das cogitações do austríaco e fixou o rumo dos estudos que conduziria apartir de então. Johann Josef Gassner era um clérigo, contemporâneo de Mesmer,famoso pelas curas que obtinha por meio da expulsão de demônios dos corpos doentes.O sacerdote, durante os rituais, trajava-se escalafobeticamente e carregava um enormecrucifixo de metal. Diante de um suposto possesso, Gassner arremetia-se em direção aoinfeliz, vociferando palavras em latim e brandindo o crucifixo, como se fora uma espada
  • 8. preste a desferir um golpe. Os pacientes ficavam alucinados, a maioria caíadesacordada, outros entravam em convulsão.Alguns estudiosos da história do hipnotismo creditam a Gassner, e não a Mesmer, opioneirismo da prática hipnótica, uma vez que conseguia com muita freqüência deixarseus pacientes num estado típico dos hipnotizados.Mesmer analisou o trabalho de Gassner e concluiu que os resultados que obtinhamdevia-se à influência do crucifixo metálico. Este conduziria o fluido universal eprovocaria as curas, que, no entender de Mesmer, seriam erroneamente atribuídas aoritual de exorcismo. Contudo, nem todos os pesquisadores concordam que tenha havido um encontro entreMesmer e Gassner. Há quem diga que Mesmer conhecia o trabalho do sacerdote e delefizera apreciação positiva, ressalvando a ingenuidade do religioso em atribuir aosobrenatural o que seria meramente fenômeno magnético. Segundo se conta, aodesmerecer a possibilidade de atuação de forças demoníacas, Mesmer favoreceu adecretação, pelo papa, da censura sobre suas obras.Seja como for, o que interessa destacar é que a proposta terapêutica formulada pelomédico austríaco foi um sucesso. Diversas curas incontestes se relataram e a fama domédico cresceu admiravelmente. Esse fato despertou a curiosidade e uns e a inveja deoutros. Mesmer enfrentou reações contrárias na Austria, onde iniciara os trabalhos decura e mudou-se para Paris. Nesta cidade a popularidade da cura magnética foiacentuada, levando o médico a criar forma de atender aos pacientes em grupos.Em síntese, a teoria de Mesmer, conforme foi dito, baseava-se na existência do fluidouniversal, que seria parte constituinte de todas as coisas existentes no universo. Nosseres vivos, notadamente no homem, a perfeita saúde devia-se ao equilíbrio harmoniosodesse fluido. Quando isso não acontecia, instalava-se alguma doença. Era óbvio,portanto, que para voltar ao estado saudável, necessário se fazia rearmonizar a correntefluídica. Inicialmente, Mesmer trabalhou com imãs, acreditando que esse materialconduziria melhor o fluido universal. Depois, concluiu que algumas pessoasprivilegiadas, que chamou magnetizadores, teria o dom de obter os resultados almejadose dispensou o uso de instrumentos auxiliares. A doutrina proposta por Mesmer foiexplanada em 27 aforismos, publicados em 1779. Vejamos alguns deles:1. Existe uma influência mútua entre os corpos celestes, a Terra e os corposanimados.2. O meio desta influência é um fluido universalmente distribuído e contínuo, semnenhum vazio e de natureza incomparavelmente sutil, e por cuja natureza é capazde receber, propagar e transmitir todas as impressões de movimento.3. Esta ação recíproca é subordinada a leis mecânicas que são desconhecidas atéagora.4. Esta ação resulta em efeitos alternados que podem ser considerados como fluxoe refluxo.
  • 9. 5. Este fluxo e refluxo é mais um menos geral, mais ou menos particular, mais oumenos composto, de acordo com a natureza das causas que o determinam.6. É por esta operação (a mais universal daquelas apresentadas pela Natureza) queas proporções de atividade são estabelecidas entre os corpos celestes, a terra e aspartes eu os compõem.7. As propriedades da Matéria e dos Corpos Orgânicos dependem desta operação.8. O corpo animal experimenta os efeitos alternativos desse agente, e éimediatamente afetado pela penetração da substância nos nervos.9. É particularmente manifesto no corpo humano que o agente tem propriedadessimilares às do imã; pólos diferentes e opostos podem igualmente ser distinguidos epodem ser mudados, comunicados, anulados e reforçados; até mesmo o fenômenode oscilação é observado.10. Esta propriedade do corpo animal, que o deixa sob a influência dos corposcelestes e das ações recíprocas daqueles que o rodeiam, como demonstrado pelasua analogia com o imã, levou-me a denominá-la MAGNETISMO ANIMAL.(...)23. Se verá a partir dos efeitos, de acordo com as regras práticas que se há dedocumentar, que este princípio pode curar desordens nervosas diretamente eoutras desordens indiretamente.24. Com essa ajuda, orienta-se o médico no uso de medicamentos; ele aperfeiçoasua ação, provoca e controla as crises benéficas e tal maneira que as sujeita.25. Dando a conhecer meu método, demonstrarei, por meio de uma nova teoria dasenfermidades, a utilidade universal do princípio que aplico a elas.26. Com este conhecimento, o médico determinará confiantemente a origem, anatureza e o progresso das doenças, mesmo as mais complexas. Evitará queganhem força e terá sucesso em curá-las, sem jamais expor o paciente a efeitosperigosos ou conseqüências desastrosas, independentemente da idade, dotemperamente e sexo. Até mulheres em trabalho de parto gozarão dessesbenefícios.27. Conclusão, esta doutrina permitirá ao médico determinar o estado de saúde decada indivíduo e salvaguardá-lo de males a que estaria sujeito. A arte curativaalcançará, assim, seu estádio final de perfeição.Fontes:http://www.levir.com.br/inst-022.phphttp://web.archive.org/web/20040710162753/http://www.unbf.ca/psychology/likely/readings/mesmer.htmMesmer tinha grande estima pela teoria que elaborou. Para ele, o caminho queconduziria a medicina à excelência estava descortinado com o advento do magnetismoanimal. Lamentavelmente, passados mais de duzentos anos de promulgada a hipótese dofluido universal, este permanece tão sutil e evasivo às investigações quanto na época deMesmer. O médico afirmava que as leis que regiam o fluido universal eram, até então,
  • 10. desconhecidas. Tal afirmação pressupunha que, pelo trabalho contínuo de pesquisa,essas leis se tornariam futuramente conhecidas. Contudo, a existência de tais leispermanece nebulosamente hipotética desde que foi elaborada.Boa parte dos pacientes de Mesmer, durante a aplicação do magnetismo, entrava emconvulsão. Esse efeito era desejado e incentivado, pois, segundo o pensamento domédico, a crise acelerava a cura. Contudo, outros não convulsionavam, em vez disso,apresentavam-se como que sonolentos. Mesmer registrou essa reação, para ele diversada esperada, mas entendeu que a lassidão constituía falha do tratamento, visto que eranecessário haver crise para que a doença fosse extirpada. Tempos mais tarde, umdiscípulo de Mesmer, atuando por conta própria, passou a dar valor ao efeitosonambúlico das magnetizações. Podemos dizer que Mesmer roçou a ponta do que seriafuturamente a prática hipnótica, mas não lhe deu a devida atenção.Franz Mesmer é figura polêmica até os dias de hoje, alguns o qualificam como santo,outros, charlatão. Buscando um meio-termo, entendemos que foi um homem de seutempo. Tinha uma teoria e buscou pô-la em prática, intentando demonstrar a veracidadedo que postulava. Foi um pioneiro e, como tal, cometeu erros e acertos.Na atualidade, a teoria magnética é defendida em setores mais ligados à religiosidade,que à ciência. A hipótese do fluido universal foi perdendo força, uma vez que nenhumexperimento de cunho científico logrou confirmá-la. As teorias modernas que procuramexplicar o processo hipnótico – que é o sucedâneo do magnetismo – dispensam, pordesnecessária, a conjectura de uma força universal, pretensamente responsável pelaocorrência do fenômeno. As ExperiênciasAté o capítulo 5 de “A Memória e o Tempo” Hermínio Miranda discorre sobre ométodo, a teoria e considerações complementares, que embasam a práticaregressionista, conforme as concepções por ele defendidas. No capítulo 6 sãoapresentadas experiências objetivas de regressão.Ao falar das experiências que administrou, Hermínio tem o cuidado de esclarecer que o“esquecimento” de outras vidas é a regra. Lembranças somente as que estivessem“autorizadas”. Autorizadas por quem? Caberia a pergunta. A resposta não é dadadiretamente, podemos supor que seriam entidades espirituais, das quais se diz queacompanham atentamente o trabalho de regressão, as responsáveis por controlar o quepode ser lembrado ou não. Em outros trechos acena-se com a hipótese de que algummecanismo interno, de origem desconhecida, libere o permitido e bloqueie o proibido.Leiamos alguns trechos do livro:“Este livro começou com uma experiência de regressão na qual tivemos o relato deum processo de iniciação no antigo Egito – [a regredida afirmou ter sido sacerdotisano tempo de Ramsés II e narra o processo de iniciação de um sacerdote, cuja fase finalconsistia em passar a noite numa tumba, onde conheceria suas vidas passadas]. Comoo procedimento normal do mecanismo da memória é esquecer para reduzir a faixade atrito do ser com a sua realidade íntima... por que então, provocar lembrançasque aparentemente estariam mais seguras nos porões da memória, no quechamamos de arquivo morto?
  • 11. De fato, a regra geral é essa, sempre respeitada pelos iniciados que manipulavamtais conhecimentos e operavam os delicados controles psíquicos do ser encarnado.Note-se, porém, que a finalidade da pesquisa na memória integral não se propunhaà mera satisfação de curiosidade inconseqüente ou malsã. (...)Isso explica por que a regressão da memória era a última etapa no vestibular dainiciação. Somente aquele que houvesse demonstrado, sem a menor hesitação oudúvida, que reunia em si as condições mínimas para o aprendizado, era entãosubmetido às técnicas adequadas, a fim de ‘saber tudo o que já fora’. (...)O conhecimento das vidas anteriores é, pois, um privilégio, por certo, mas umaresponsabilidade muito grave e não deve ser buscado senão por motivos relevantes,por operadores competentes e equilibrados, por pessoas que tenham demonstradoinequivocamente as condições mínimas exigidas para suportar os impactos queusualmente causam certas revelações. Do contrário, poderão sobrevir crisesemocionais de vulto, capazes de desencadear processos de desequilíbrio mental edesajustes graves de personalidade. Aliás, não poucas perturbações emocionais sãoprovocadas por interferências de memórias anteriores no fluxo das vivênciasatuais. Disfunções psíquicas de certa gravidade podem resultar de regressõesespontâneas a memórias de outras vidas, nas quais o doente se imagina, porexemplo, um general de Napoleão ou uma condessa medieval. Seus gestos e suapostura externa podem, ao olhar desatento e cruel, parecer cômicos, mas e se elefor mesmo um general napoleônico reencarnado ou ela uma condessa poderosaque voltou para resgatar?” (A Memória e o Tempo. P. 59,60)“Aliás, essa foi sempre uma das tônicas do nosso trabalho: nada forçar, para nãoprovocar roturas, cujas conseqüências poderiam ser imprevisíveis. Se a regra geralem questões atinentes à memória é esquecer; é porque há razões bastante sólidaspara isso, como já discutimos alhures, neste livro. Já em outros casos, revelaçõesdessa natureza são recebidas com serenidade e até contribuem para explicar certasincongruências íntimas, mediante nova arrumação de conceitos.” (A Memória e oTempo. P. 255)Hermínio exibe prudência e seriedade na prática regressionista. No entanto, umaquestão preocupante daqui se depreende: supondo-se que tenha sido descoberto métodoque permita vasculhar a mente, em busca de memórias de outras vidas, quemcontrolará o uso da técnica, visto que está disponível para quem queira usá-la? A idéiade que existam entes espirituais monitorando o processo, pode ser satisfatória paraalguns, porém, muitos regressionistas induzem recordações em seus pacientes, semqualquer cogitações relativas a tais entidades, ou referências a restrições espirituais.Se Hermínio Miranda e outros são criteriosos ao induzir regressões, pode-se supor queexistam os que tão-somente a pratiquem por curiosidade ou por motivos menos nobres.Ninguém poderá impedir que essa utilização, digamos, espúria, seja buscada. Alegarque a prática desautorizada acarreta prejuízos é muito vago, uma vez que osregressionistas que não seguem os ditames referidos por Hermínio também afirmamobter resultado positivos. Lembrar ou não lembrar?
  • 12. Esta questão permanece polêmica, principalmente, no meio espírita. Mesmo semadentrarmos, por enquanto, na questão de serem ou não as lembranças autênticasrecordações, existe bastante discussão sobre a liberdade de lembrar.Quem levar ao pé da letra as recomendações de Kardec, fatalmente terá de afastar-se daprática regressionista. O codificador foi taxativo ao declarar que as lembranças estãovedadas, sendo possível conhecê-las somente em circunstâncias muito especiais e, quasesempre, de forma espontânea.Na época de Kardec, uma das objeções mais incisivas à doutrina da reencarnação era anão-reminiscência das vidas pretéritas. Os oposicionistas argumentavam: se vivemosoutras vidas, então deveríamos recordá-las. Esta objeção não foi plenamente resolvida,mas Kardec elaborou esclarecimento logicamente aceitável, afirmava ele: se aslembranças fossem franqueadas, problemas muito graves e de toda a espéciesurgiriam, oriundos dessas recordações.Em termos objetivos, a proposição de Kardec é coerente. Imaginemos a esposadescobrindo que o marido é reencarnação de quem a assassinara em outra existência? Ea mãe informada que o filho a estuprara noutra vida? E o pai sabendo que filha foraesposa anteriormente? Enfim, toda a sorte de encrencas afloraria na hipótese de haverliberação geral das lembranças. Assim, o codificador fechou as portas às recordações, sóadmitidas em situações especialíssimas.“Esquecimento do passado11. Em vão se objeta que o esquecimento constitui obstáculo a que se possaaproveitar da experiência de vidas anteriores. Havendo Deus entendido de lançarum véu sobre o passado, é que há nisso vantagem. Com efeito, a lembrança trariagravíssimos inconvenientes. (...) Em todas as circunstâncias, acarretaria inevitávelperturbação nas relações sociais. Freqüentemente, o Espírito renasce no mesmomeio em que já viveu, estabelecendo de novo relações com as mesmas pessoas, afim de reparar o mal que lhes haja feito. Se reconhecesse nelas as a quem odiara,quiçá o ódio se lhe despertaria outra vez no íntimo... Para nos melhorarmos,outorgou-nos Deus, precisamente, o de que necessitamos e nos basta: a voz daconsciência e as tendências instintivas. Priva-nos do que nos seria prejudicial. Aonascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada existência,tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes: se se vêpunido, é que praticou o mal. Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta acorrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção,porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço maisconservará.Aliás, o esquecimento ocorre apenas durante a vida corpórea. Volvendo à vidaespiritual, readquire o Espírito a lembrança do passado; nada mais há, portanto,do que uma interrupção temporária, semelhante à que se dá na vida terrestredurante o sono, a qual não obsta a que, no dia seguinte, nos recordemos do quetenhamos feito na véspera e nos dias precedentes.
  • 13. E não é somente após a morte que o Espírito recobra a lembrança do passado.Pode dizer-se que jamais a perde, pois que, como a experiência o demonstra,mesmo encarnado, adormecido o corpo, ocasião em que goza de certa liberdade, oEspírito tem consciência de seus atos anteriores; sabe por que sofre e que sofrecom justiça. A lembrança unicamente se apaga no curso da vida exterior, da vidade relação. Mas, na falta de uma recordação exata, que lhe poderia ser penosa eprejudicá-lo nas suas relações sociais, forças novas haure ele nesses instantes deemancipação da alma, se os sabe aproveitar.” (O EVANGELHO SEGUNDO OESPIRITISMO)___________________________“(...) Gravíssimos inconvenientes teria o nos lembrarmos das nossasindividualidades anteriores. (...)395. Podemos ter algumas revelações a respeito de nossas vidas anteriores?Nem sempre. Contudo, muitos sabem o que foram e o que faziam. Se se lhespermitisse dizê-lo abertamente, extraordinárias revelações fariam sobre o passado.396. Algumas pessoas julgam ter vaga recordação de um passado desconhecido,que se lhes apresenta como a imagem fugitiva de um sonho, que em vão se tentareter. Não há nisso simples ilusão?Algumas vezes, é uma impressão real; mas também, freqüentemente, não passa demera ilusão, contra a qual precisa o homem por-se em guarda, porquanto pode serefeito de superexcitada imaginação.” (O LIVRO DOS ESPÍRITOS) ___________________________“290. Perguntas sobre as existências passadas e futuras15ª Podem os Espíritos dar-nos a conhecer as nossas existências passadas?Deus algumas vezes permite que elas vos sejam reveladas, conforme o objetivo. Sefor para vossa edificação e instrução, as revelações serão verdadeiras e, nesse caso,feitas quase sempre espontaneamente e de modo inteiramente imprevisto. Ele,porém, não o permite nunca para satisfação de vã curiosidade.a) Por que é que alguns Espíritos nunca se recusam a fazer esta espécie derevelações?São Espíritos brincalhões, que se divertem à vossa custa. Em geral, deveisconsiderar falsas, ou, pelo menos, suspeitas, todas as revelações desta natureza quenão tenham um fim eminentemente sério e útil.b) Assim como não podemos conhecer a nossa individualidade anterior, segue-seque também nada podemos saber do gênero de existência que tivemos, da posiçãosocial que ocupamos, das virtudes e dos defeitos que em nós predominaram?“Não, isso pode ser revelado, porque dessas revelações podeis tirar proveito paravos melhorardes. Aliás, estudando o vosso presente, podeis vós mesmos deduzir ovosso passado.” (O LIVRO DOS MÉDIUNS)Outros autores também se pronunciam contrários às lembranças, um exemplo:
  • 14. “Se reencarnamos para ressarcir dívidas, não seria interessante guardar alembrança delas? Não haveria maior facilidade em aceitar sofrimentos edissabores que ensejam o resgate?O objetivo primordial da existência humana é a evolução. O resgate de dívidas éapenas parte do processo. Quanto ao esquecimento, funciona em nosso benefício.Seria impossível incorporar, sem perturbador embaralhamento, o rico, o pobre, onegro, o índio, o branco, o amarelo, o analfabeto, o letrado e tudo mais que jáfomos, em múltiplas encarnações. É ilustrativo que muita gente vai parar emhospitais psiquiátricos simplesmente por sofrer a pressão de pálidas lembranças,envolvendo acontecimentos pretéritos. (Reencarnação: Tudo o que você precisa Saber –Richard Simonetti)Curiosamente, Kardec afirma que as lembranças “em todas as circunstâncias,acarretaria inevitável perturbação nas relações sociais”; no entanto, para Hermínio,o esquecimento tem a finalidade de “reduzir a faixa de atrito do ser com a suarealidade íntima...”. Parece-nos que são visões distintas e, talvez, difíceis de conciliar. ALGUNS PONTOS CONTROVERSOS NO PENSAMENTO DE HERMÍNIO MIRANDAA fim de não nos alongarmos nesta exposição inicial, uma vez que o objetivo principalé a avaliação da experiência regressionista de Luciano dos Anjos, apresentaremos a listade alguns dos pontos controvertidos no discurso de Hermínio. Em seguida iniciaremos otrabalho principal, que é a avaliação da suposta reencarnação de Luciano.1. O conceito de memória defendido por Hermínio Miranda não está de acordo com asboas pesquisas sobre o assunto. Para ele, a memória é “extracerebral”, uma vez queestaria localizada não na estrutura do cérebro, sim no perispírito. Acontece que asinvestigações atuais sobre essa questão, encaminham-se mais e mais no sentido decomprovar taxativamente que a memória é resultado de complexas interações dasconexões neuronais, ou seja, fenômeno indubitavelmente cerebral. Na página 40 de “AMemória e o Tempo” é apresentada a forma esquemática do que Hermínio entende sejao funcionamento da memória. Ele trabalha com a concepção freudiana de inconsciente,a qual amplia ao seu arbítrio, para que agasalhe a suposição de que memórias de vidaspassadas estejam armazenadas nesse hipotético segmento da mente. A discussão sobre opensamento de Hermínio a esse respeito ensejaria trabalho específico. De momento,deixamos registrado que o que ele entende por memória não encontra respaldo seja napsicologia, seja na neurologia.2. A idéia de instinto apresentada por Hermínio carece de reparos. O escritor segue adefinição apresentada em “A Gênese”: “o instinto é a força oculta que solicita os seresorgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a conservação deles” eacrescenta, “todo ato maquinal é instintivo; o ato que denota reflexão, combinação,deliberação é inteligente. Um é livre, o outro não o é”. (A Memória e o Tempo, p. 42).Essas declarações contêm vários equívocos. Primeiro, o instinto não tem nada de “forçaoculta”, instinto é um impulso automatizado, que varia de espécie para espécie, cujaprincipal função é preservar o espécime contra ameaças inesperadas. Também sãoinstintivos os incitamentos biológicos que induzem à perpetuação da espécie. Outraquestão é que as declarações, tanto de Kardec, quanto de Hermínio, classificaria como
  • 15. instinto coisas que não o são, por exemplo, o hábito é um ato maquinal, mas não éinstinto.3. A possibilidade de conhecer o futuro. Logo ao início do livro “A Memória e oTempo”, Hermínio defende que seria possível “recordar” o futuro, do mesmo modo queé possível rememorar o passado. Na página 26, encontramos: “Só nos resta umainevitável conclusão, por mais que ela se choque com os nossos conceitos epreconceitos: se podemos ver hoje algo que acontece mesmo daqui a dois dias, seismeses ou trezentos anos, então é porque esses eventos já existem hoje, lá nofuturo...”. Acontece que essa convicção de Hermínio Miranda, além das discussões quepode ensejar, tanto no campo filosófico, quanto científico, entra em conflito com o quedeclarou Kardec a respeito:“Alguma coisa nos pode ser revelada sobre as nossas existências futuras?”.“Não; tudo o que a tal respeito vos disserem alguns Espíritos não passará degracejo e isso se compreende: a vossa existência futura não pode ser de antemãodeterminada, pois que será conforme a preparardes pelo vosso proceder na Terrae pelas resoluções que tomardes quando fordes Espíritos. Quanto menos tiverdesque expiar tanto mais ditosa será ela. Saber, porém, onde e como transcorrerá essaexistência, repetimo-lo, é impossível(...)”7ª Podem os Espíritos dar-nos a conhecer o futuro?Se o homem conhecesse o futuro, descuidar-se-ia do presente. É esse ainda umponto sobre o qual insistis sempre, no desejo de obter uma resposta precisa.Grande erro há nisso, porquanto a manifestação dos Espíritos não é um meio deadivinhação. Se fizerdes questão absoluta de uma resposta, recebê-la-eis de umEspírito doidivanas, temo-lo dito a todo momento.8ª Não é certo, entretanto, que, às vezes, alguns acontecimentos futuros sãoanunciados espontaneamente e com verdade pelos Espíritos?Pode dar-se que o Espírito preveja coisas que julgue conveniente revelar, ou queele tem por missão tornar conhecidas; porém, nesse terreno, ainda são mais detemer os Espíritos enganadores, que se divertem em fazer previsões. Só o conjuntodas circunstâncias permite se verifique o grau de confiança que elas merecem.9ª De que gênero são as previsões de que mais se deve desconfiar?Todas as que não tiverem um fim de utilidade geral. As predições pessoais podemquase sempre ser consideradas apócrifas. (O LIVRO DOS MÉDIUNS)4. Hermínio Miranda confunde memória com inteligência. Na página 47, lemos: “E,logicamente, quanto maior o volume de dados no banco de memória, mais vasta ebrilhante a inteligência”, e, na página 45: “Creio, pois, que se pode admitir,tranqüilamente, que inteligência é informação armazenada, ou, examinando-a soboutro aspecto, a medida do seu vigor é a amplitude da memória integral... Assimcomo Platão ampliou o conceito de aprendizado, considerando-o função darecordação, a doutrina dos espíritos amplia o conceito bergsoniano da função da
  • 16. inteligência, ou seja da memória”. A memória, sem dúvida, é suporte da inteligência,contudo uma não se confunde com a outra. Há casos de pessoas dotadas de excelentememória e de parca inteligência. Um conceito tradicional sobre a inteligência estabeleceque seja a interação de três aspectos: memória, imaginação e juízo, portanto, a memória,isoladamente não pode ser tomada pela inteligência.No que tange à Platão, quando o filósofo afirmou que “aprender é recordar”, não estavaampliando o conceito de aprendizado, conforme declara Hermínio, sim atrelando-o aconcepção reducionista. Na fase madura de seu pensamento Platão substituiu o“aprender é recordar” pela “ciência dialética”. Agora o filósofo advogava que aprendernão mais significaria recordação do que fora visto, sim, o trabalho de esmiuçar ashipóteses, desbastando-as daquilo que teriam de falso, ou desnecessário, num processocontínuo, até que se atingisse o ponto de certeza, ou pelo menos, de convicção maisfirme que a existente ao início do debate. Fiquemos por ora com as presentes objeções. Nos comentários seguintes faremosreferências a idéias de Hermínio que nos pareçam passíveis de crítica. LUCIANO DOS ANJOS ou CAMILLE DESMOULINS? Considerações iniciaisNa primeira parte da obra “Eu Sou Camille Desmoulins” encontra-se a narrativa daexperiência, acompanhadas de considerações de Hermínio Miranda. A partir da página301 estão as explanações de Luciano dos Anjos sobre o que vivenciou. (Trabalhamoscom a 1ª edição do livro, em outras impressões a numeração de páginas poderá serdiferente) Do que nos foi dado conhecer da produção escrita de Hermínio Miranda, concluímosque o autor aprecia defender opiniões controversas. Logo ao início do livro ele afirma:(lembramos que os destaques são de nossa autoria)“...o que temos nos compêndios de história...é uma espécie de imitação da vida,uma interpretação pessoal dos fatos e não os fatos em si mesmos. Vemos múmiashumanas, figuras empalhadas e cobertas pela venerável poeira histórica, e ficamosa nos perguntar como seriam realmente aquelas pessoas...Em suma, vemos cópiasde cópias de retratos e não temos meios pra checar os originais, conferir equestionar, avaliar para concluir. Ou temos?A resposta é sim, temos.A literatura espírita vem apresentando, pelo menos no decorrer do último século,respeitável acervo de depoimentos de personalidades históricas, basicamente porvia mediúnica.(...)Tanto faz a gente crer como não, o fato é que muitos espíritos têm tido aoportunidade de trazer depoimentos póstumos da maior importância. Sãoinúmeros os exemplos e podemos tomar qualquer um deles entre os de indubitávelcredibilidade, como o famoso caso de Patience Worth... A Sra. Henry H. Rogers,médium americana...manteve, durante vinte e cinco anos, equilibrado e proveitosointercâmbio com uma entidade desencarnada que se assinava Patience Worth. Este
  • 17. espírito, que se identificava com uma jovem puritana que vivera no século XVI,escreveu através da Sra. Curran obra literária de inquestionável valor...O relacionamento Sra. Curran/Patience Worth manteve-se como verdadeiromistério para certos cientistas e pesquisadores que estudaram o fenômeno.Contudo, para os que se acham informados da realidade espiritual, e a aceitam, averdade é simples e clara, como sempre: um espírito desencarnado que veio trazera contribuição do seu depoimento pessoal. (...)É possível, portanto, obter dos próprios espíritos depoimentos de suas experiênciaspessoais e retificar a História...” (Eu Sou Camille Desmoulins – p. 11,12,13)Admiramos a firmeza com que Hermínio defende tal idéia, entretanto a suposição deque a mediunidade seja capaz de “corrigir” a pesquisa histórica não se confirma. Aindaque alguns médiuns, aquinhoados com talentos incomuns, tragam informações de boaqualidade, as quais atribuem à comunicação interespiritual, estas não substituem,tampouco complementam, a investigação convencional. Se o que Hermínio afirma fossefato, as questões históricas de difícil elucidação estariam plenamente esclarecidas. Cabeindagar, qual a contribuição da mediunidade no conhecimento da origem e da cultura depovos antigos, de cuja existência se encontraram parcos indícios? Investigadores seesforçam por conhecer civilizações que podem ter sido brilhantes em realizações, dasquais pouca coisa restou que possibilite averiguação adequada. Trabalho árduo, queexige dedicação, grande dose de energia e, muitas vezes, miúdos resultados.Lamentavelmente não aparece qualquer mensagem mediúnica que auxilie os sábios naspenosas tarefas a que se dedicam. E o que dizer das línguas faladas por povos passados,das quais existem boa quantidade de escritos, mas que não puderam ser traduzidas, pormais que lingüistas se empenhem? Por que os espíritos não dão uma mãozinha? Amediunidade poderia prestar grande apoio não só à História, também a outras ciências,se possuísse a imaginada capacidade revelativa que lhe atribui Hermínio Miranda.Durante muitos anos, eruditos de diversas nacionalidades se desgastaram na decifraçãoda escrita egípcia antiga, sempre com resultados frustrantes. Não fosse o sacrifício e ogrande talento de Champollion em dominar línguas antigas, o qual empenhou-se porinteiro na desafiadora missão, provavelmente, até hoje estaríamos tentando imaginar oque os egípcios haviam registrado nos hieroglifos. A mediunidade se mantevecompletamente ausente dessa empreitada.Consideremos o médium tido como o melhor do Brasil, talvez do mundo. Chico Xavierpsicografou centenas de livros, a maioria narrativas romanceadas e poéticas, mas,alguns trazem abordagens históricas, outros discorrem sobre temas científicos. Poisnessas produções não se encontram conteúdos que enriqueçam o conhecimento noscampos desses saberes. É indiscutível que Chico possuía singular talento para a escrita,sendo que o aspecto mais forte de sua criatividade seria a poesia. Nas obras de cunhocientífico a qualidade da produção cai a olhos vistos. Vejamos, como exemplo, o livro“Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, onde o suposto espírito de HumbertoCampos apresenta piegas narrativa da história do Brasil. Provavelmente, em vidaHumberto Campos jamais assinaria produção tão ingênua, porém, no outro lado se viuconstrangido a emprestar seu nome a tal trabalho. Em linhas gerais, “Coração doMundo” constitui a visão Xicochaveriana do que teria sido a caminhada histórica denosso país, a qual teria sido realizada por meio de eventos coloridos, realizaçõesdulcíssimas, plena harmonia de propósitos, planos celestiais infalíveis, com direito a
  • 18. hostes angelicas passeando pelo cosmo, sucessão de luzes, sorrisos, alegrias infindas...tudo no intuito de defender a tese de que a nação fora vocacionada pelo Alto parapropagar a doutrina espiritista. Não se vê nas linhas do livro análise madura dosacontecimentos passados. O melhor médium do mundo, apenas produziu um relato docedo processo histórico nacional; em termos de cooperação efetiva à compreensão doseventos, nada...A obra atribuída a Patience Worth − o espírito que supostamente visitava Pearl Curran−, surpreende pela riqueza e qualidade do material originado. Pode-se dizer que é umdos pouquíssimos casos em que o resultado seja rico o suficiente para ensejar pesquisasde maior vulto. Se fosse inconteste ocorrência mediúnica, dada as singularidades equalidade dos escritos, seria circunstância única, não comparável às multiplasmensagens que pululuam pelo mundo, todas, quase sem exceção, aquém daquilo queseria esperado de contatos espirituais. Como não conhecemos estudo aprofundado arespeito de Pearl Curran, nada de mais significativo podemos dizer. Seja como for, apessoa de Patience Worth jamais foi identificada, o que leva à suspeita de que tenhasido criação da própria mente de Curran.Pelo sim, pelo não, o campo está aberto: os espíritos podem ainda se redimir dasinumeráveis comunicações pobres de conteúdo e enviar elaborações que façam jus àprocedência. Isso, além de prover de fortes argumentos a tese da comunicação entrevivos e mortos, também ajudaria no trabalho de cientistas e pesquisadores. Esperamosque aconteça... LUCIANO DOS ANJOSAo início deste estudo declaramos que votamos tanto a Hermínio Miranda, quanto aLuciano dos Anjos, o maior respeito. Ainda que discordemos das conclusões queapresentam, relativamente às regressões, isso em nada modifica o fato de os termos emalta estima, visto que são pessoas que conduzem com muita seriedade os trabalhos aosquais se dedicam.No livro, Luciano dos Anjos se encarrega de descrever as qualidades que o habilitaramcomo figura ideal para uma regressão coalhada de detalhes curiosos. No início da parteque lhe coube escrever Luciano traça sua trajetória profissional, narra peripéciasvariadas, algumas jocosas, outras arriscadas, redigidas em estilo agradável, temperadascom fino humor e entremeadas com doses de vaidade. Em meio ao relato, identificareencarnações, não só dele próprio, como de várias pessoas conhecidas. Nessasapreciações, Luciano deixa claro que, mesmo antes do encontro com Hermínio, traziaconsigo a convicção de já ter vivido na França, conforme ilustram os trechos a seguir:“Sempre acreditei, sendo espírita, que houvesse vivido na França, tanto pelo amorque lhe sentia, como, mais tarde, por uma oblíqua insinuação do querido médiumFrancisco Cândido Xavier. (...)Quando, cerca de dois anos depois, eu mesmo estive com o Chico aqui no Rio e emSão Paulo, durante a célebre campanha jornalística em defesa das memoráveismaterializações de Uberaba, através da médium Otília Diogo, discretamente tenteiobter dele o nome da personagem. Ele apenas confirmou, sorrindo, que estive lá −[na França], naquela época...
  • 19. ...o confrade Ismael Nunes Tavares...me trouxera convite da D. Chiquita...espíritaencantadora, médium de muitos recursos... vi-me pela primeira vez frente com D.Chiquita... ela me olhava espantada, denotando violentíssimo impacto. (...)− Eu conheço o senhor. Estivemos juntos, na época da Revolução Francesa. Assimque o senhor entrou eu o vi, senti isso... (Eu Sou Camille Desmoulins. P. 341, 342) Diante desse quadro, uma coisa é patente: Luciano possuía a bagagem necessária pararevivenciar existência na França, no período da Revolução. A dúvida, neste ponto, é sea idéia de que fora Camille Desmoulins, mesmo antes de iniciar as regressões comHermínio Miranda, já estaria em sua mente, ainda que de forma semi-consciente.Deixemos que o próprio Luciano diga o que pensa sobre isso:“Jamais, jamais me passou pela cabeça ser Camille Desmoulins. Mas,curiosamente, eu sentia inexplicável sabor (o termo é esse mesmo: sabor) nasraríssimas vezes em que pronunciava esse nome. Afora isso, pouco me preocupava,como já disse, com a personalidade passada que eu tinha vivido. Nunca parei parapensar muito nisso.” (Eu Sou Camille Desmoulins. P. 369) Sem querer pôr em xeque o testemunho de Luciano, é possível supor que, ao menos nosubconsciente, sua ligação com Desmoulins estivesse rascunhada. Ele declara que nãopensava muito no assunto, ou seja, não manifestava maior interesse em descobrir qualteria sido sua personalidade passada, entretanto, a própria narrativa que nos apresentamostra que havia nele viva curiosidade por identificar tal personagem. No trecho quecitamos anteriormente, vimos que pedira a Chico Xavier que o informasse, entretanto, omédium fugiu ao assunto. Mais tarde, D. Chiquita revela tê-lo conhecido durante aRevolução. Luciano também relata encontro que teve com o médium Homero LopesFogaça, o qual garantiu que o jornalista vivera na corte francesa e autorizara a “morte dealgumas pessoas”. E Luciano arremata: “Tudo isso me intrigou sobremaneira”. Ora,como jornalista − por vocação inquiridor e curioso −, era de esperar que partisse para apesquisa meticulosa de sua identidade pregressa. Luciano dos Anjos, hábilreconhecedor de personalidades pretéritas – mais adiante falaremos desse talento dojornalista −, que descobriu a identidade de André Luiz (conforme declara com muitafirmeza), ao se ver perante a notícia de que fora figura ativa na época da Revolução,quedou-se despreocupado em descobrir quem seria esse alguém... assertiva que nos soadúbia, por isso, acreditamos ser factível desconfiar que estivesse presente na mente dohomem de imprensa, ainda que de forma não clarificada, sua identificação com CamilleDesmoulins.Não vamos, porém, exaurir a dúvida a ponto de desqualificar a declaração de Lucianode que não sabia, anteriormente ao encontro com Hermínio, de sua suposta identidadepregressa. Vamos lhe conceder voto de confiança sobre o que declarou, ou seja, que atérealizar a experiência com Hermínio não sabia ter sido Camille Desmoulins.O que nos interessa deixar claro, por ora, é que Luciano dos Anjos estava previamentepreparado, e bem preparado, para lucubrar criativa recordação de vivência no período daRevolução Francesa.
  • 20. É importante destacar que o vivenciado pelo jornalista pode ser qualificado como“regressão” de boa qualidade. Mesmo se comparadas com as melhores de que temosconhecimento. Se a cotejássemos com o “caso Bridey Murphy” diríamos que aslembranças de Luciano “dão de dez a zero” nas obtidas por Virginia Tighe, aprotagonista do caso. Apesar de Bridey Murphy ter obtido repercussão muito maisampla que o caso Camille Desmoulins, em tudo é inferior a este.Morey Bernstein, que conduziu as sessões hipnóticas com Virgínia, antes desse feito,costumava praticar a hipnose para divertir-se com os amigos, como atividade efetivadedicava-se ao comércio na cidade de Pueblo, nos Estados Unidos. Gradativamente,porém, conforme relata, passou a buscar mais conhecimentos. Chegou a entrevistarJoseph Rhine e acompanhar o trabalho que o pesquisador conduzia, na Universidade deDuke. Rhine lhe passou diversas sugestões, as quais impressionaram o curioso homemde comércio. No entanto, parece que o professor não mitigou o anseio místico queBernstein trazia consigo e que o fez enveredar por outro rumo, até topar com a herançaocultista de Edgar Cayce.Cayce, por quem Hermínio demonstra grande admiração − dele faz diversas referênciasalvissareiras em “A Memória e o Tempo” −, era um sujeito meio esquisito,especializado em “leituras mediúnicas”, por meio das quais revelava vidas passadas, ostalentos e, ainda, falava da saúde dos interessados. Caía em sono dito profético e falavamuitas coisas. Após o despertamente garantia nada recordar do que dissera durante otranse. Obviamente, alguém tinha de anotar as declarações do profeta. Uma das tônicasdos vaticínios de Cayce, alcunhado “profeta dorminhoco”, era desvelar experiências deseus consulentes na lendária Atlântida. Praticamente todos os que o buscavam recebiaminformes de existências passadas no continente perdido. Escusado dizer que o discursode Cayce não casava com o explanado por Platão sobre a Atlântida; tampoucoharmonizava com afirmações de outros alegados “conhecedores” dos imaginadossegredos da ilha-continente.Na atualidade, os seguidores de Edgar Cayce dão prosseguimento ao seu trabalho,realizando o que chamam “astrologia cármica”, que conjuga a configuração astral doconsulente na data do nascimento, com perfis anteriormente estabelecidos pelo profeta.Essa “fórmula”, afirmam, mostra as potencialidades do interessado e lhe revelamaspectos de existências anteriores. Por curiosidade, encomendei um desses estudos, aopreço de R$48,00. Então, descobri muitas coisas a respeito de minhas “vidas passadas”e também sobre minhas capacidades atuais.Neste trabalho, “Cayce”, além de revelações genéricas, aplicáveis indistintamente aquem quer que seja, tipo: “você demonstra ser um indivíduo dotado de mente elevada”,assegurou que me darei bem como escritor, que tenho facilidades com idiomas e, devidoà minha existência mercuriana, possuo pendores para exercer cargos de autoridade. Diz,ainda, que minha mente é clarividente, mas não informa se se trata de capacidadeparanormal, ou de clarividência no sentido comum de “ver com clareza”. Assevera quetenho dificuldade em distinguir o que é fato e o que é ficção e muito mais.O caso é que se eu possuísse tais qualidades (e algumas ele parece ter acertado, mas nãose animem, quem atira em todas as direções acaba atingindo alguma coisa), pois então,se eu possuísse os dons que Cayce me atribuiu de pouco me valeria a “revelação”, umavez que as qualidade já seriam de meu conhecimento. Desse modo, o “trabalho” que
  • 21. poderia ser reputado profícuo realizado pelo “profeta” é o que tange às vidas passadas.Nesse segmento descobri coisas muito interessantes.Conforme informou Cayce, vivi no planeta Mercúrio. Também estive no planetaSaturno. Em minhas entrevidas morei em Urano. E, não poderia faltar, tive umaexistência como atlante, na qual fiquei em meio às disputas dos adeptos de Belial contraos asseclas da Lei do Um. Apesar de não ter informação a respeito dessas agremiações,suponho que deva considerar a experiência de alta relevância, para o quê não sei...Pensam que acabou? Nada. Acompanhei Alexandre, o grande, em suas conquistas (logoeu que detesto guerras). Também devo ter sido um viking (ele não deu certeza quanto aisso), participei da construção da pirâmide inca, vivi no Egito antigo e provavelmentehabitei nas terras que hoje constituem a Austrália. Ufa, isso é que é excursão cármica!Eram coisas semelhantes a essas que Edgar Cayce transmitia aos incautos que oprocuravam! E este foi um dos gurus que levou Morey Bernstein ao mundo mágico dasvidas passadas. Ressaltamos, Hermínio Miranda considera Cayce um grande médium...Outro caso de regressão, este mais recente, cujo relato em livro vendeu milhões deexemplares, é o apresentado por Brian Weiss, intitulado “Muitas Vidas, MuitosMestres”. Semelhantemente à Bridey Murphy, as regressões feitas por Brian Weiss emCatherine, são em muito inferiores à aventura de Luciano dos Anjos.Brian Weiss era conceituado psiquiatra quando vivenciou inusitada experiência compaciente refratária ao tratamento convencional. Segundo assevera o médico, o encontrocom Catherine o levou a descobrir autêntica panacéia. O Dr. Brian foi muito criticadopor ter deixado de lado esmerada formação, a fim de abraçar teorias de fracafundamentação. Ele deve ter tido motivo$$ para isso, o que respeitamos. Mas, não sepode deixar de constatar que no regressionismo Brian Weiss tem proferidos discursosque beiram o ridículo. Conforme se depreende da afirmação seguinte:“Avaliei o propósito terapêutico da exploração das vidas passadas de Catherine...Há nesse campo algum poder curativo muito forte, um poder que parece muitomais eficiente do que a terapia convencional ou a medicina moderna...” (MuitasVidas, Muitos Mestres)Qualificar a terapia de vidas passadas como terapeuticamente superior à medicinamoderna só mesmo na cabeça de Brian Weiss: será que se o Dr. Brian sofresse uminfarto agudo do miocárdio buscaria socorro na TVP?Podemos afirmar que a avaliação da experiência de Luciano dos Anjos significa aferirum dentre os melhores relatos regressionistas. O aspecto mais destacado na históriadessa regressão é a proclamada fidedignidade dos relatos históricos, notadamente acitação de detalhes da vida de Desmoulins, que nem mesmo estudiosos versadosconheciam. Desse assunto, Hermínio dá sua apreciação.“Fui bom aluno de história nos bancos escolares e continuei a ler história porprazer e curiosidade, nas quatro ou cinco línguas em que posso fazê-lo. No entanto,naquela primeira sessão de 19 de maio de 1967, se alguém me perguntasse minutos
  • 22. antes de seu início qual o nome completo de Camille Desmoulins, onde ele nascerae em que dia, eu só poderia responder com um honesto e bem sonante Não sei......conferimos os informes principais logo após a primeira sessão-surpresa.Realmente, tal como dissera Luciano, o homem chamava-se Lucie Simplice BenoistCamille Desmoulins, nascera em Guise, no Aisne, em 2 de março de 1760....mesmo César Burnier, autoridade em história – especialmente a da Revolução −,confessou posteriormente que também ele ignorava que Camille tivesse aquelesoutros nomes...”(Curiosa a declaração de Hermínio, “nas quatro ou cinco línguas em que posso fazê-lo”. Será que ele não sabe ao certo em quantas línguas é capaz de ler?)Grande destaque é dado à capacidade mnemônica de Luciano, que recordavaminudências da vida de Desmoulins, as quais talvez a maioria dos estudiosos nãolembrasse, conforme sucedeu com a citação do nome completo de Camille Desmoulins.O próprio César Burnier, apresentado como especialista na Revolução, confessou quedesconhecia o informe. Entretanto, saber do nome inteiro de Desmoulins não temgrande significado. Certo que é de estranhar que Burnier não o soubesse, visto que seapresentava como perito na matéria. Ainda que não recordasse, deveria ao menos saberque Desmoulins tinha vários nomes. Podemos comparar isso ao caso de estudioso dahistória do Brasil que não lembre todos os nomes pelos quais D. Pedro II foi registrado,de qualquer modo, deverá saber que o imperador possuía outros epítetos além de Pedrode Alcântara. (Para quem se interessar, a titulação completa do imperador era, Pedro deAlcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de PaulaLeocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga – ganha um doce quem o disser de umfôlego só).Modernamente, o conhecimento de minúcias das vidas de personagens históricos é tidopor secundário no aprendizado. Este tipo de informação, quando muito, demonstra acapacidade memorativa do estudioso. O mais importante é a compreensão dascircunstâncias que envolvem os fatos históricos. Por exemplo, em vez de simplesmentedecorar as datas de nascimento e o nome completo de todos os personagens daRevolução, o bom estudante esforçar-se-á por entender o porquê dos acontecimentosque ocasionaram o levante e as decorrências deles advindas.Entretanto, a dúvida permanece: a citação do nome completo de Desmoulins, bem comoda data de aniversário e o local de nascimento, podem ser consideradas relevantes paraclassificar a lembrança como autêntica recordação de vida passada?Para alguns, a resposta seria sim, e o raciocínio que ampara tal suposição pode ser dessaforma: se uma pessoa, que não é especializada em história, de repente passa a revelarmuitos detalhes da vida de algum personagem do passado, sem tê-los pesquisado, e se,além das lembranças, essa pessoa demonstrar emoções que mostram laços indeléveiscom a tal figura, então temos indícios seguros de que se trata de legítimo caso dereencarnação!Não é preciso refletir muito para perceber que esse pensamento, em termos deinvestigação científica, é de frágil sustentabilidade. Ele pode ser válido para uso em
  • 23. âmbito religioso, pois a fé acrescenta força aos pontos débeis da inferência, mas seriamuito difícil levar adiante pesquisa baseada em ditames científicos partindo de talproposta. Por isso, é preciso saber se além das boas lembranças existe algo mais a seroferecido.Contudo, é necessário considerar que as lembranças de Luciano dos Anjos não serestringiram a acertos relativos à idade, nome, endereço e questões correlatas. Ojornalista também se referiu, e corretamente, a assuntos específicos daquela época: sabiao preço de jornais; como a moeda estava dividida (neste caso, sabia mais ou menos, poiscometeu erros); o salário do trabalhador e outros. Como, então, explicar isso, semconsiderar a hipótese de legítima lembrança de vida passada? Pois é o que tentaremosapreciar nas linhas seguintes. Começaremos a analisar as reuniões, que aconteceramdurante o ano de 1967, buscando nelas elementos que nos auxiliem a entender melhor ocaso. A EXPERIÊNCIA DE LUCIANO: NOSSA INTERPRETAÇÃOA fim de facilitar o entendimento do que será exposto no decorrer deste estudo,anteciparemos nosso entendimento do que foi a experiência regressionista do jornalista.A presente apreciação, acreditamos, ficará demonstrada pelos comentários que seguirão.De antemão, é importante que os leitores conheçam a linha argumentativa queseguiremos.Entre Hermínio Miranda e Luciano dos Anjos foi firmado acordo tácito, no sentido degarimparem personalidade da qual muitos detalhes historicamente corretos pudessemser revelados. Não dizemos que tenham articulado ostensivamente o plano, se assimfosse não seria acordo tácito; afirmamos, sim, que ambos buscavam experiência cujosresultados fossem superiores ao que normalmente se obtêm nos exercíciosregressionistas. Em outras palavras, nas cogitações de cada um estava patente quepoderiam explorar criativamente as perspectivas alvissareiras que o trabalho conjuntoprometia.Explicando, ainda, de outro modo: Hermínio Miranda intuía que Luciano dos Anjosfosse capaz de recuperar lembranças comparáveis às melhores já formuladas. Ambosestavam igualmente motivados nessa busca, as perspectivas eram em tudo promissoras.Por outro turno, Luciano precisava de alguém com quem pudesse atuar em plenaharmonia, a fim de descobrir o personagem que acreditava ter sido, de cuja identidadetalvez ainda não tivesse clara consciência. A convicção, presente em cada um, de quehaviam encontrado a “pessoa certa” deve ter tomado forma após o primeiro encontro− apesar de não ser possível estabelecer com certeza quando de fato ocorreu esseprimeiro encontro, conforme veremos adiante.Em suma, Luciano estava intimamente persuadido de ter vivido na Françarevolucionária; Hermínio, certo de que era possível recuperar tais recordações. Emmomento algum, qualquer dos dois aventou a hipótese de que lembranças da espéciepudessem ser explicadas por outros mecanismos, em outras palavras: partiu-se dopressuposto de que lembrança de vidas passadas é fato. O intento da dupla, assim nosparece, era obter demonstração cabal da reencarnação, pelo reconhecimento inequívocode um vivo de identidade que assumira em existência pregressa. Por isso, neste
  • 24. comentário não abordaremos em profundidade as inconsistências da hipótese de queexistam legítimas lembranças de outras existências.A suposição que ora apresentamos não significa que enquadremos como fraudulenta aaventura de Luciano, nada disso, a aventura, cremos, foi real. A interpretação é quepede reparo. Nosso intento é deixar antevisto ao leitor o panorama que a históriadescortina. No decorrer dos comentários esse quadro ficará clarificado e devidamenteilustrado com declarações dos próprios envolvidos constantes do livro.As sessões conduzidas por Hermínio Miranda com Luciano foram em número de dez,incluído aí o primeiro encontro, que pode ser reputado como reunião preliminar. Asestas se somam mais duas, havidas após o término dos trabalhos, as quais intitularemos“especiais”. No total, foram doze encontros. Comentaremos os acontecimentos por nósjulgados de maior interesse. REUNIÃO PRIMEIRA e as dúvidas dela decorrentes UMA NOITE DE MAIO DE 1967 (p. 19-22)Deste encontro não há muito o que dizer. Teria sido a primeira vez que Luciano dosAnjos se submetia a uma sessão de hipnose com Hermínio Miranda. O resultado deixouHermínio positivamente surpreso, pois o paciente se revelou facilmente hipnotizável.Rapidamente, atingiu transe profundo, o que, na visão de Hermínio, favorece boasregressões. Destacamos a expressão “na visão de Hermínio” em virtude de haverregressionistas afirmando dispensar o transe hipnótico, estes tão-somente induziriam oscandidados ao estado de relaxamento, − o que poderia ser classificado de “pré-hipnose”−, o que é por eles considerado mais adequado para que as lembranças fluam. O registro curioso desse evento aconteceu após o despertamento. Vejamos o quesucedeu, de acordo com relato de Hermínio Miranda.“Despertou faminto, devorou rapidamente uma generosa porção de bolo e pediumais, sem a mínima cerimônia. Em seguida levantou-se, deu um passo incerto edesabou no tapete macio, como se não tivesse pernas. Na excitação do momento,havíamos sido imprudentes e precipitados – era necessário esperar alguns minutosem repouso até que seu espírito reassumisse totalmente os controles do corpo físicoantes de empreender qualquer movimentação maior. Assim como odesprendimento se realiza por etapas, também a reintegração no corpo tem seuritmo próprio e suas fases bem definidas...” (Eu Sou Camille Desmoulins. P. 21, 22)Registrem, por favor, a seqüência dos eventos: 1º) despertou; 2º) devorou porção debolo; 3º) levantou-se; 4º) desmoronou no tapete. Mais adiante destacaremosincompatibilidade entre esta narrativa e o que Luciano fala sobre tal encontro.A explicação dada por Hermínio para o episódio está concorde com a idéia que defende,de acoplamento e desacoplamento do perispírito como conseqüência do processohipnótico, e que nos parece concepção muito vaga para ser admitida; mesmo levando-seem conta as parcas explicações dadas por Hermínio, a conjetura nos parece incerta.Outros praticantes do hipnotismo não teorizam nada parecido com tal suposição. Noentanto, o motivo do tombo tem elucidação trivial e passa distante da suposição de que
  • 25. a hipnose promova o desgrudamento do espírito: tendo em conta que Luciano atingiu orelaxamento profundo e assim esteve por bom tempo, a musculatura ficoucompletamente descontraída. É compreensível, portanto, que as pernas não reagissemde pronto. Era necessário que aguardasse alguns minutos, não para que o “espíritoreassumisse o comando”, sim para que os músculos recuperassem a tonicidade. Porque buscar explicação complicada, quando se pode esclarecer o caso de forma simples esatisfatória?Conforme foi dito, o livro “Eu Sou Camille Desmoulins” foi escrito conjuntamente porHermínio Miranda e Luciano dos Anjos. Parece-nos claro que cada qual teve aliberdade de narrar os fatos da forma como entendeu e sentiu. Isso, a princípio, mostraque não houve “acerto”, para que contassem exatamente a mesma história. Em tese,trata-se de aspecto positivo, pois demonstra que o trabalho foi executado de formaespontânea, sem arranjos destinados a elidir pontos que jogassem dúvidas sobre ainterpretação que os autores apresentam. O que dissemos a respeito de um “acordotácito” entre Hermínio e Luciano, linhas atrás, não se aplica aqui.Pois bem, Hermínio declara que a primeira experiência hipnótica a que Luciano sesubmeteu, sob seu auspício, ocorreu nesta reunião de maio de 1967, na qual poucainformação útil se obteve. Neste encontro, Hermínio Miranda informa que Lucianomostrava-se cético quanto à possibilidade de ser hipnotizado. Isso porque tentara outrasvezes, com diversos operadores, sem resultados produtivos. Estava quase convicto deque não era candidato adequado para se submeter a investigações por esse processo,mas decidiu realizar nova tentativa. Qual não foi a surpresa de ambos, Lucianorapidamente entrou num sono hipnótico de excelente qualidade, conforme narraHermínio Miranda (adiante veremos que Luciano diz coisa diferente a respeito desseestado hipnótico). Entretanto, a “facilidade” que Luciano encontrou para serhipnotizado por Hermínio nos leva à seguinte indagação: por que Luciano, quemostrava-se resistente à hipnose, em diversas experiências, sob a direção de técnicosvariados, com Hermínio obteve sucesso?A resposta que nos parece mais adequada, reforça a suposição que apresentamosanteriormente, sobre Hermínio e Luciano terem encontrado um no outro a condição delevar à frente o projeto reencarnacionista que acalentavam. Luciano dos Anjos não sedeu bem com os demais operadores porque na ocasião inexistia motivo que oestimulasse a cooperar. Os praticantes da hipnose, em geral, informam que todahipnose, em verdade é uma auto-hipnose, ou seja, se o indivíduo não se sujeitar aoprocesso dificilmente poderá ser hipnotizado. Diante de Hermínio Miranda, Lucianodos Anjos se entregou à indução, tendo em vista o forte clima de confiança entre os doise o interesse mútuo pelas regressões.Precisamos, agora, nos atermos aos pontos controversos nos relatos. Em primeiraleitura, esses pontos tendem a passar despercebidos, mas se cotejamos os testemunhoselaborados pelos protagonistas, logo as divergências saltam à vista. Comecemos pelodiscurso de Hermínio Miranda.“Um grupo do qual eu participava empenhava-se em algumas experiênciasexploratórias nos abismos da memória integral. Naquela noite de maio de 1967estávamos reunidos num apartamento amplo e confortável em Copacabana. (...)
  • 26. À reunião daquela noite compareceu Luciano dos Anjos, desejoso que estava deobservar nossas experiências e debater nossos “achados”. Estávamos já habituadosa receber, seletivamente, alguns amigos que manifestavam interesse em observarnossos trabalhos. A certa altura Luciano aquiesceu em submeter-se aos testes desuscetibilidade...Luciano, que contava então 34 anos de idade, acomodou-se confortavelmente numsofá... sem ser negativa, sua atitude era de moderado ceticismo, não ante ofenômeno em si da regressão ou, mais amplamente, quanto à reencarnação... Suadúvida era quanto à sua própria suscetibilidade às induções hipnóticas oumagnéticas. Em várias tentativas anteriores, com diferentes operadores, nãoconseguira atingir nem mesmo os estados superficiais do transe anímico. Nãocustava, porém, tentar mais uma vez...Após as instruções preparatórias e os esclarecimentos de praxe, ele fechou os olhos,relaxou o corpo... enquanto os passes eram aplicados lentamente, sem tocá-lo.Diria que a indução foi fulminante. Em escassos minutos percebia-se que elemergulhara fundo no transe. (...)Despertou faminto, devorou rapidamente uma generosa porção de bolo e pediumais, sem a mínima cerimônia. Em seguida levantou-se, deu um passo incerto edesabou no tapete macio, como se não tivesse pernas. Na excitação do momento,havíamos sido imprudentes e precipitados – era necessário esperar alguns minutosem repouso até que seu espírito reassumisse totalmente os controles do corpo físicoantes de empreender qualquer movimentação maior. Assim como odesprendimento se realiza por etapas, também a reintegração no corpo tem seuritmo próprio e suas fases bem definidas, embora variáveis de pessoa para pessoa.Usualmente os primeiros músculos a se movimentarem são os das pálpebras; emseguida, os dedos das mãos ou dos pés, braços, pernas, até que todo o corpo estejanovamente sob controle da vontade. É freqüente observar nos sensitivos emdespertamento a concentração da consciência na área específica da cabeça –nenhuma outra sensação física, nem mesmo senso de orientação quanto aoposicionamento do corpo. É como se todo o ser estivesse na cabeça, fosse apenas acabeça. (Eu Sou Camille Desmoulins. P. 19-22)Neste trecho, quem relata é Hermínio Miranda. Nota-se que o autor privilegia o passe,chamado “magnético”, como principal ferramenta indutora do transe, referência algumafaz a comandos verbais, os quais constituem o procedimento comum em hipnose.Agora, vejamos o que Luciano dos Anjos tem a nos dizer de seu primeiro encontrohipnótico com Hermínio.“Quando começamos, eu e Hermínio, nossas sessões, em casa de E.V., emCopacabana, não me passara jamais pela cabeça que pudesse chegar a conclusõestão surpreendentes... Ouvindo-o falar, rapidamente, desse trabalho, sobre o qualme refiro com mais detalhes no Capítulo 3 da Segunda Parte deste livro, é que meentusiasmei e resolvi vê-lo de perto. O Hermínio contou-me as muitas pesquisas járealizadas nesse setor, algumas surpresas, diversos casos especiais, as variadasmanifestações e os excelentes benefícios muitas vezes conseguidos. Disse-me, poralto, que empregava o método do Coronel De Rochas... Falamos dos métodos
  • 27. clássicos de regressão de memória e das diferentes hipóteses que inclusive noespiritismo são levantadas para explicar a fenomenologia do processo.Recordamos o que nossos mentores espirituais nos têm ensinado nesse matéria e,por fim, marcamos o início das sessões. Confessei-lhe, com absoluta consciência darazão por que o confessava, que, lamentavelmente, não haveríamos a meu respeito,de chegar a nenhum resultado positivo, pois outras vezes eu tentara serhipnotizado e nada conseguira. Cerca de dez anos antes, em casa do Dr. AloísioGonçalves, no Jardim Botânico, eu me entregara a várias sessões e não cheguei aser hipnotizado. O máximo que se conseguiu foram alguns movimentosautomáticos de braço, mas muito pouco significativos. O Dr. Aloísio Gonçalves,meu velho amigo, é autoridade indiscutível na matéria, capaz de conduzir seusclientes, em frações de segundo, ao mais profundo sono hipnótico. Mas comigo nembastaram a água açucarada, a música, o disco visual... E o Dr. Aloísio me explicavaesperançoso, que ás vezes são precisas até setecentas (!) tentativas para seconseguir inibir o córtex de uma pessoa. (...)Uma tarde, eu e o Hermínio conversávamos em seu gabinete de trabalho... Dizia-me estar fazendo interessantes sessões de regressão da memória e me contava oscasos mais significativos. Também eu lhe dizia dos meus sucessos e fracassos,narrando-lhe exemplos maravilhosos de materializações ou fraudesgrosseiríssimas, que eu flagrava através do aparelho ótico, emissor de raiosinfravermelhos, de propriedade do cientista norte-americano Dr. AndrijaPuharich... Ficou devendo o Hermínio uma visita, à minha sessão, e ele, emretribuição, estudaria uma oportunidade de eu também conhecer a dele. Mas otempo corria e nunca cumpríamos nossos compromissos recíprocos. (...)Assim... resolvi efetivar, afinal, nosso encontro. Estávamos em setembro ououtubro do ano de 1966. Marcamos a primeira sessão para uma segunda-feira,quando Hermínio me apresentaria à Sra. E.V., em cuja casa se realizariam ostrabalhos... Quando os trabalhos com uma sensitiva terminaram, o Hermínioperguntou se eu não queria ser testado. Concordei e me deitei no sofá. Deixamos oambiente em penumbra, e o Hermínio iniciou seu trabalho... ligava o gravador,sentava-se ao lado do paciente, na poltrona, e procurava induzir-nos ao sono,enquanto fazia a imposição das mãos, segundo o método de De Rochas. Eu −conforme já disse − não tinha nenhuma esperança e me mantinha estirado, demúsculos completamente relaxados, menos por conhecimento prático do exercíciodo que por total descrédito quanto aos efeitos. Ouvia-lhe a voz monótona... Tudoconforme a boa técnica, mas já tão usado antes comigo sem qualquer resultadopositivo. Foi nessas cogitações interiores − ou quem sabe, por causa delas! − que,depois de muitos minutos (a paciência de Hermínio é chinesa), aconteceu oinesperado: perdi a consciência! O Hermínio conseguira! (...)Assim, ao lado da alegria, uma espécie de decepção me tocou: e eu? Contudo, pelomenos alguma coisa nova acabava de acontecer comigo. Restava prosseguir paravermos até onde chegaríamos. Aguardei mais uma semana e, na segunda-feiraseguinte, voltamos ao apartamento da Sra. E.V. (Eu Sou Camille Desmoulins. P.305, 306 e 352-354)
  • 28. O relato de Hermínio começa com o encontro propriamente dito; Luciano faz referênciaa contatos preliminares. Luciano estava curioso quanto ao trabalho que seu amigoconduzia e decidira acompanhar uma dessas reuniões. Só que as narrativas contêmdiscordâncias graves. Se fosse apenas questão de estilo redativo, ou mesmo aobservação de certos acontecimentos sob óticas diversas, nada de sério poderíamosobjetar. No entanto, as discrepâncias vão muito além. Primeiramente, as datas nãobatem: vários meses separam a primeira reunião informada por Luciano, do que seria omesmo encontro, relatado por Hermínio (Luciano fala em outubro de 1966; Hermínioem maio de 1967). Segundo declara Hermínio Miranda, Luciano entrou em estadohipnótico quase automaticamente; entretanto Luciano afirma que Hermínio necessitoude muita paciência, até obter resultado. Luciano não faz menção ao cômico tombo quesofreu. A queda é comentada em outro encontro, o qual não coincide com o queHermínio dele descreve. Ou ocorreram reuniões não noticiadas no texto de Hermínio,ou os autores estão falando de coisas diferentes.Vamos tabelar as informações, parafacilitar a compreensão.OS FATOSr Por HERMÍNIO Por LUCIANO DOS ANJOS OBSERVAÇÃO MIRANDAData do 1º encontro Maio de 1967,Setembro, ou outubro, deDivergência. As datas [provavelmente sexta-feira] 1966, em uma segunda-feiranão conferem (p.19) (p.353)Local do encontro Amplo e confortávelImenso apartamento, da Sra.Parece ser o mesmo apartamento, emE.V., no 6º andar do prédio,endereço Cobacabana, (não informa ode frente para o mar, (não nome do proprietário) (p.19) informa o bairro) (p. 353)Dificuldade ou Realizara várias tentativasIdem (p. 354) Relatos coincidentesfacilidade pré- sem sucesso (p.20)existente paravivenciar o transehipnóticoMétodo utilizado Passe magnético. SomentePasse magnético,Divergência. Hermíniopor Hermínio para depois do transe atingido éconcomitantemente comprivilegiaobter o transe que aplicou comando de vozcomandos verbais (p. 354) excessivamente o passe. (p. 20) Luciano noticia o uso concomitante do passe e do comando verbalResultado da Os passes obtiveramSomente após muitaDivergência. Natentativa inicial de resultado imediato,insistência, por meio deopinião de um, aatingir o estado classificado pelo operadorcomandos verbais, finalmenteindução foi rápida; ohipnótico como “indução fulminante”atingiu-se o estado hipnóticooutro afiança que (p.20) (p. 354) demorou bastante. Hermínio atribui aos passes o resultado positivo; Luciano parece conferir maior valor ao comando de vozAtitude do Mostrava-se em pânico.Muita agitação e poucaDivergência. O relatohipnotizado Respondia informação. Citou um nomeperde a coerência antedurante o processo monossilabicamente. Citoufrancês, que não ficou claroa não referência ao Necker, ministro de finançasna gravação (p. 354) nome de Necker por de Luiz XVI (p.21) Luciano, que teria sido
  • 29. a única informação consistente conforme afirma HermínioApós despertar Sentiu-se faminto, comeuO tombo no tapete, paraDivergência. bolo, tentou levantar-se eLuciano, ocorreu em outra desabou no tapete. reunião. Pode ser que os autores estejam a falar de eventos diversos. Talvez cada qual tenhaclassificado como “primeiro encontro” acontecimentos não coincidentes. Seriadiscrepância muito grande as variações de datas, caso estivessem falando dos mesmosepisódios. Se entendermos que se tratam de casos distintos, outro problema surge:significa que ocorreram encontros entre Luciano e Hermínio, que este não relatou.Nesta hipótese, fica prejudicada toda a narrativa concernente à inexperiência de Lucianono que tange às regressões e, em decorrência, toda sorte de suposições podem serlevantadas. Outro ponto que deve estar bem destacado é o resultado da indução: desde asessão inicial que Hermínio garante ter Luciano entrado em estado hipnótico quaseque imediatamente. Por outro turno, Luciano assegura de resistiu bastante até ceder.Não só nesta reunião ocorreu dificuldade para atingir o estado hipnótico, na que seriaa segunda sessão, conforme o cronograma de Luciano − que não bate com o deHermínio −, ele diz que levou entre “dez e quinze minutos” para ser vencido.Mais adiante, apresentaremos os relatos por inteiro, para que possam ser comparados.RESUMO DAS REUNIÕES, NAS NARRATIVAS DE HERMÍNIO E DE LUCIANOA fim de tentarmos entender como foi que cada protagonista vislumbrou os episódiosregressionistas, faremos nova tabulação, especificando as datas de todos os encontros, eas coincidências e discrepâncias. Talvez assim tenhamos possibilidade de compreenderos motivos que ocasionaram os desacordos narrativos. Hermínio nomeou o primeiroencontro como reunião de testes e começou a numerar as sessões a partir da 2ª, quandoos encontros passaram a ser realizados na residência do autor. No quadro, numeramoslinearmente, nominando “1ª sessão” a acontecida em maio de 1967 (no cronogramaherminiano), portanto, o que está na tabela a seguir, registrado sob o título “1ª sessão”corresponde à “sessão de testes”; a 2ª sessão corresponde à primeira de Hermínio.Assim foi feito como tentativa de parametrizar os relatos, dada a não convergências dasinformações fornecidas por um e por outro.EVENTOS PRINCIPAIS Data e localSESSÕES Conforme Conforme Conforme Conforme LUCIANO HERMÍNIO LUCIANO HERMÍNIO1ª sessão É hipnotizadoDemora a serMaio/1967 – (sexta-Setembro/outubro/1966 - rapidamente. Poucahipnotizado. Poucafeira) (3) – apart. em(segunda-feira)(3) – apart. informação útil; citouinformação útil; falouCopacabana (p.19) da Sra. E.V. (p.353) o nome de Necker (2);nome francês não sente muita fome eidentificado; não fala come bolo, emda queda. Presença seguida, tenta erguer-do Edson.(4) se e cai no tapete. (1) Nenhuma referência ao Edson (4)
  • 30. EVENTOS PRINCIPAIS Data e localSESSÕES Conforme Conforme Conforme Conforme LUCIANO HERMÍNIO LUCIANO HERMÍNIO2ª sessão Foi rapidamente aoEntra em transe após19/5/1967 (sexta-feira)Segunda-feira seguinte à transe (P. 23). Revela10 ou 15 minutos– apart. de Hermínioreunião acima – apart. da que seu nome é Lucie(p.355). Ao despertar(p.23) Sra. E.V. (p.354) Simplice Benoisttenta ficar de pé e cai Camille Desmoulins. no tapete, depois Nenhuma referênciasente muita fome e ao Edson (4) come bolo. (p.360) (1) Presença do Edson (4)3ª sessão Revela que a esposa deAfirma que Necker26/5/1967 (sexta-feira)Segunda-feira seguinte à (2) Desmoulins éfará besteira – não informareunião acima – não fala atualmente sua filha!(p.362) mudança no local dade mudança no local da (p. 47) reunião, supõe-se quereunião, supõe-se que continuasse no apart.continuasse no apart. da de Hermínio. Sra. E.V. (p. 361)4ª sessão Não faz referência àA gravação desse9/6/1967 (sexta-feira)Ocorreu na “semana perda da gravação,evento se perdeu– não informaseguinte” (p.365), na narrada por Luciano,(Hermínio gravoumudança no local dasegunda-feira (p.367) – ao contrário, afirmaoutra sessão por cima)reunião, supõe-se quenão fala de mudança no que o “tape” existe (p.(p.365). Trabalhoscontinuasse no apart.local da reunião, teria 65). Não relatasuspensos (p.367). (5)de Hermínio. continuado no apart. da suspensão dosPara Luciano, esta Sra. E.V. trabalhos. (5) seria a penúltima reunião, depois fala do último encontro em 1/9/1967, o qual, pelo cronograma de Hermínio, é o penúltimo.5ª sessão Só existe relato deSem registro. 16/6/1967 (sexta-Sem registro. Hermínio desse feira). Apart. de encontro Hermínio.6ª sessão Só existe relato deSem registro. 23/6/1967 (sexta-feira)Sem registro. Hermínio desse Apart. de Hermínio. encontro7ª sessão Só existe relato deSem registro. 7/7/1967 (sexta-feira)Sem registro. Hermínio desse Apart. de Hermínio. encontro8ª sessão Só existe relato deSem registro. 14/7/1967 (sexta-feira)Sem registro. Hermínio desse Apart. de Hermínio. encontro9ª sessão Só existe relato deSem registro 21/7/1967 (sexta-feira)Sem registro. Hermínio desse Apart. de Hermínio. encontro10ª Final das sessões deSem registro 4/8/1967 (sexta-feira)Sem registro.sessão regressão Apart. de Hermínio.11ª 1ª Sessão “especial”Último encontro1/9/1967 (sexta-feira)1/9/1967sessão (p.248) (Hermínio informa terApart. de Hermínio. Apart. de Hermínio. havido mais outra reunião).12ª 2ª Sessão “especial”Sem registro 8/9/1967 (sexta-feira)Sem registro.sessão (p.233) Apart. de Hermínio.
  • 31. Observações:1) Na queda de Luciano a seqüência dos acontecimentos está divergente: Hermínio dizque Luciano comeu o bolo e depois tombou sobre o tapete; Luciano declara que caiuno tapete e depois devorou o bolo. Além disso, a queda teria ocorrido em datasdistintas, nas versões de cada um! Pode ser considerado confusão banal, que não afetao essencial do caso. Vamos admitir que seja assim, de qualquer modo, isso demonstraque os participantes não observaram corretamente alguns dos acontecimentos, o quepode levantar suspeitas sobre a existência de outras discrepâncias que não foramanotadas.2) Segundo Hermínio, no 1º encontro Luciano referira-se vagamente ao nome deNecker; contudo, no relato de Luciano a citação a esse personagem é mais ampla eaparece no 3º encontro.3) As reuniões conduzidas por Hermínio, todas elas, são noticiadas às sextas-feiras;Luciano afirma que foram às segundas-feiras!4) O “misterioso Edson”. Segundo Luciano o referido teria participado de pelo menosdois encontros, nos quais deu sugestões e aplicou passes. Hermínio, em momentoalgum, faz menção a esta pessoa, tampouco confirma que precisava de ajuda naaplicação dos passes magnéticos!5) Ao final da 4ª sessão, no cronograma de Luciano, ele informa ter havido suspensãodos trabalhos, fato não relatado por Hermínio. O jornalista declara que precisavareavaliar se seria adequada a continuidade do experimento. Então, consultou o “alto”,recebeu mensagem mediúnica que o estimulava a seguir adiante e, a partir de então, assessões reiniciaram. Contudo, ele não descreve o que houve nas sessões seguintes, nemdiz por quanto tempo perdurou a suspensão.Luciano assevera que expõe literalmente o que consta na fita (“vamos acompanhar cadapasso, cada momento, cada gesto” – p.352). Vimos que o primeiro encontro de um e deoutro estão completamente diferentes. Se desconsiderássemos a 1ª reunião informadapor Luciano e a comparássemos os encontros seguintes, alguns pontos encaixam, porémoutras contradições permanecem e surgem novas. A verdade nua e crua é que os relatossão desarmoniosos e repletos de pontos contraditórios entre si.Se o prezado leitor sentir dificuldades em acompanhar a descrição desses desencontros,fique tranqüilo, nós também ficamos perdidinhos, e ainda não nos achamos por inteiro.O que estamos fazendo é uma tentativa de dar coerência ao que foi dito pelosenvolvidos. Caso alguém, que tenha acesso à obra, puder ajudar a esclarecer essasdúvidas, por gentileza, que o faça, pois do jeito que a coisa está a validade do relato ficaameaçada.A seguir, apresentaremos alguns dos diálogos por inteiro, bem assim as avaliações quecada um dos protagonistas realizou. Apesar de os textos serem longos, vale ser lido porquem estiver interessado em investigar o assunto. Intercalamos alguns comentários denossa autoria, entre [colchetes], em cor vermelha, a fim de facilitar a visualização dospontos controversos.
  • 32. Luciano dos Anjos descreve quatro sessões e mais uma reunião em 1/9/1967.Seguiremos a ordem por ele estabelecida e tentaremos encaixar as descrições deHermínio de forma que harmonize. Desse modo, o que Luciano diz ter sido o 1ºencontro no registro de Hermínio corresponderia à sessão preliminar, constante docapítulo 2, da primeira parte, intitulado “O Sempre e o Agora” − ao menos, assim nosparece, pois a esta altura já não temos mais convicção de coisal alguma!Alinharemos os textos de Hermínio e de Luciano lado a lado, esperando facilitar aleitura comparativa. Em algumas partes dos escritos a distância entre os parágrafos éaumentada, o que pode parecer equívoco de formatação. Contudo, assim foi feito natentativa de pôr em linha os poucos pontos similares encontrados. Quando não épossível qualquer identificação comum, os textos seguem paralelos.Lembramos que os escritos entre [colchetes e em cor vermelha] são comentários denossa autoria. RELATO DA 1ª REUNIÃOHERMÍNIO MIRANDA LUCIANO DOS ANJOS2. O SEMPRE E O AGORA p.353... Um grupo do qual eu participava empenhava- Assim, estupefato diante da sua própria história,se em algumas experiências exploratórias nos abismos resolvi efetivar, afinal, nosso encontro. [seria este,da memória integral. Naquela noite de maio de 1967 pois, o primeiro encontro] Estávamos emestávamos reunidos num apartamento amplo e setembro ou outubro do ano de 1966. Marcamos aconfortável em Copacabana. primeira sessão para uma segunda-feira, quando o Hermínio me apresentaria à Sra. E.V., em cuja[esta 1ª sessão é a única onde Hermínio não casa se realizariam os trabalhos.especifica data, as demais, todas, cairam às sextas-feiras, podemos inferir que também tenha sido o caso [Todos os encontros relatados por Lucianodesta, apesar de Luciano declarar que ocorreu em teriam ocorrido às segundas-feiras; as datasoutro dia] noticiadas por Hermínio caem todas às sextas. Observe, ainda, a enorme discrepância entre as Já não me lembro quantos seríamos – não datas: Hermínio informa que ocorreu em maiomais que doze pessoas –, homens e mulheres, jovens, de 1967, Luciano diz que foi em outubro deadultos e idosos. Diria que o nível intelectual e cultural 1966!].estaria situado razoavelmente acima da média. Aconversa era inteligente, a curiosidade sadia, o clima Ali chegando conheci, também um médiumemocional de moderada excitação ante as eternas chamado Edson, que vai, depois, ter seu pequenoatrações do desconhecido, do mistério, do ignorado. papel no desenrolar das nossas reuniões. Ele eraPara alguns de nós o fenômeno da regressão da médium já desenvolvido, experimentado,memória mantinha sua aura de mistério, mas não era aparentando certa tranqüilidade muito útil.teoricamente desconhecido ou ignorado, dado que,mesmo antes da explosão publicitária que projetara, em [este Edson, apesar de, para Luciano, ter uma1956, o livro de Morey Bernstein nas manchetes (The certa importância nesta e na reunião seguinte,Search for Bridey Murphy), estávamos familiarizados não é citado em momento algum por Hermínio.]com as famosas e inexplicavelmente esquecidaspesquisas do eminente coronel, engenheiro e Conde Quando os trabalhos com uma sensitivaAlbert de Rochas d’Aiglun, na França, aí pela primeira terminaram, o Hermínio perguntou se eu nãodécada do século XX. queria ser testado. Concordei e me deitei no sofá. Deixamos o ambiente em penumbra, e o Hermínio Além do mais, o núcleo central do grupo era iniciou seu trabalho. O apartamento era imenso. Acomposto de pessoas que estudavam com assiduidade o sala onde estávamos tinha bem uns cinqüentaespiritismo e o praticavam, procurando utilizar seus metros quadrados. O Principal ornamento era umconceitos básicos como princípios ordenadores da vida. retrato, em tamanho gigante, do falecido maridoDe há muito a prática mediúnica confirmara para nós da Sra. E.V. Uma varanda grande contornava opostulados essenciais do espiritismo, tais como a apartamento, que ocupava todo o sexto andar de
  • 33. sobrevivência do ser a doutrina das vidas sucessivas, onde se observava uma vista maravilhosa da praia.ou reencarnação. Havia, sempre, uma aragem muito fresca entrando pelas janelas. E por todas as paredes viam-se[conclui-se que não havia ânimo entre os quadros, enfeites, cortinas, etc., um mundo departicipantes para analisar criticamente questões recordações e de relíquias da longa vida da Sra.atinentes a essas matérias, a intenção era buscar E.V.eventos demonstrativos das crenças acalentadas pelogrupo] Não se ouvia ninguém, não se escutava nada, senão os ruídos que vinham lá de baixo da rua, ou À reunião daquela noite compareceu Luciano. do vento soprando de leve. O Hermínio ligava odos Anjos, desejoso que estava de observar nossas gravador, sentava-se ao lado do paciente, naexperiências e debater nossos “achados”. Estávamos já poltrona, e procurava induzir-nos ao sono,habituados a receber, seletivamente, alguns amigos que enquanto fazia a imposição das mãos, segundo omanifestavam interesse em observar nossos trabalhos. método de De Rochas.A certa altura Luciano aquiesceu em submeter-se aostestes de suscetibilidade, como sujet, ou sensitivo. [note que a imposição de mãos é aplicadaDuas técnicas predominavam nesse grupo: a da concomitantemente ao comando de voz. Nosugestão verbal, caracterizada especificamente como relato de Hermínio ele prefere destacar oshipnose, e a magnetização por meio de passes passes, como se fossem estes os que levaram olongitudinais, empregada pelo coronel de Rochas. Era paciente ao sono hipnótico]comum a utilização combinada dessas duas técnicas,ou da preferência de uma à outra, segundo a naturezado sensitivo.[nos comentários iniciais deste estudo falamos sobreas fragilidades desta concepção de Hermínio arespeito da hipnose] Eu – conforme já disse – não tinha nenhuma esperança e me mantinha estirado, de músculos Como este assunto é estudado em outros completamente relaxados, menos porescritos de minha autoria (ver, por exemplo, A conhecimento prático do exercício do que porMemória e o Tempo), escuso-me de repetir aqui total descrédito quanto aos efeitos. Ouvia-lhe aconsiderações que nos tomariam muito tempo e espaço. voz monótona... Tudo conforme a boa técnica, mas já tão usado antes comigo sem nenhum Luciano, que contava então 34 anos de idade, resultado positivo.acomodou-se confortavelmente num sofá, após livrar-se dos sapatos e afrouxar o cinto e o colarinho. Sem sernegativa, sua atitude era de moderado ceticismo, nãoante o fenômeno em si da regressão ou, maisamplamente, quanto à reencarnação, de vez que era (eé) profundo conhecedor da doutrina dos espíritos eparticipava ativamente do movimento espírita,principalmente como escritor, aproveitando-se da sua Foi nessas excogitações interiores – ou, quemexperiência como jornalista profissional. Sua dúvida sabe, por causa delas! – que, depois de muitosera quanto à sua própria suscetibilidade às induções minutos (a paciência do Hermínio é chinesa),hipnóticas ou magnéticas. Em várias tentativas aconteceu o inesperado: perdi a consciência! Oanteriores, com diferentes operadores, não conseguira Hermínio conseguira! O ciclo do processo pareciaatingir nem mesmo os estados superficiais do transe ter-se completado!anímico. Não custava, porém, tentar mais uma vez ...[no que se refere à dificuldade em atingir o transehipnótico, as narrativas coincidem plenamente.Infelizmente, é uma das poucas partes em queencontramos harmonia entre os relatos] [Note a grande discrepância entre as narrações! Após as instruções preparatórias e os Um diz que a indução foi fulminante; o outroesclarecimentos de praxe, ele fechou os olhos, relaxou afirma que o operador precisou de muitao corpo e passou a respirar regularmente, enquanto os paciência para obter o resultado!]passes eram aplicados lentamente, sem tocá-lo. Diriaque a indução foi fulminante. Em escassos minutos Do que houve, só vim a saber mais tarde, quandopercebia-se que ele mergulhara fundo no transe. o gravador foi religado e pude ouvir meu primeiro
  • 34. Pouco depois, vencendo as inibições e dificuldades diálogo com o Hermínio. Havia mais agitação dotípicas de quase todos os sensitivos nas suas que qualquer outra coisa. A certa altura, eu disse:experiências iniciais começou a responder às primeirasperguntas do magnetizador. Estava literalmente em – Você me abandonou.pânico, desconfiava de tudo e de todos, como queacuado, temendo alguma tragédia iminente e pessoal. Não sei que sentido isso tinha e muito pouco maisAs respostas eram sumárias, quase monossilábicas, foi possível ser entendido. O Hermínio ficou emrevelando extrema agitação íntima. Vivia, obviamente. dúvida e pediu a opinião do Edson, ali ao lado.um momento de grande tensão emocional e sob Este admitiu que se tratasse não do meu espírito,pressões insuportáveis, cujas origens e motivações mas de simples manifestação mediúnica, o que,recusava-se obstinadamente a revelar. Tornou-se, por em princípio, o próprio Hermínio também aceitou.conseguinte, muito difícil, senão impraticável, formularum juízo avaliador sobre aquele amontoado um tanto Embora sem segurança, concluímos, porém, que aincoerente de frases soltas. Um só elemento manifestação tinha ligação com a Sra. Isabel, queidentificador emergiu, afinal, daquele confuso estado me precedera na poltrona, cujo marido, um inglês,de espírito: a referência a Necker. Luciano em transe desencarnara em desastre de aviação e, nafalava no famoso ministro das Finanças de Luís XVI espiritualidade, estava supondo que ela onão como uma personagem embalsamada nas páginas abandonara, por casar-se em segundas núpcias.de um texto histórico, mas como alguém vivo e Ele apresentou um nome francês, que nãoatuante, cujas decisões estavam influindo ali, naquele conseguimos apurar bem na gravação. Reclamavamomento, no fluxo de relevantes acontecimentos de qualquer pressão na altura dos rins. Os dadospolíticos. pareciam encaixar-se bem e devo dize que nunca havia visto antes aquela senhora, nem lhe Esse importante elemento informativo nos conhecia a história, que só mais tarde o Hermíniolevava ao contexto da Revolução Francesa, identificava me contaria.um período histórico, mas era muito pouco para semanter sobre ele uma hipótese plausível. Era, contudo, [Neste ponto, as narrativas tomam rumosuma indicação preliminar suscetível de ser diversos. Hermínio informa que houveprudentemente explorada. Pelo menos esta especulação referência a Necker, o que levaria a pesquisa aoera válida: estaria Luciano revivendo cenas ou contexto da Revolução Francesa; Lucianosituações que testemunhara no período da Revolução declara ter proferido uma frase solta, que teriade 1789? Era cedo para tirarmos conclusões, mas, ligação com o problema de uma pessoa presentepreliminarmente, a hipótese servia para entender seu ao encontro, nada sobre a Revolução!]agitadíssimo estado emocional. Estávamos todos bemconscientes, contudo, de que a fragmentáriaexperiência suscitava mais perguntas do que as quetentara responder. Para não prolongar indevidamente suaagitação, ele foi logo despertado com palavrastranqüilizadoras. Lembro-me muito bem que aoregressar do sempre para o agora ficou ainda poralguns segundos entre uma situação e outra, já de olhosabertos, olhando-me fixamente, ainda assustado, comose buscasse decidir, com toda a rapidez possível, se euera amigo ou inimigo, se estava ali para ajudá-lo emalguma coisa, olhá-lo com indiferença ou arrastá-losumariamente para alguma masmorra infecta, ondefaria o vestibular da guilhotina. Logo, porém, meidentificou corretamente: eu era um sujeito pacífico,seu amigo pessoal, não lhe apontava nenhuma armaameaçadora. Graças a Deus, deve ter pensado com seus [este episódio do tombo no tapete Luciano obotões... situa no encontro seguinte, não neste.][no relato de Luciano, relativo à sessão seguinte,neste ponto o Edson teria interferido, aplicandopasses revigorantes. Hermínio parece desconhecer aexistência dessa pessoa...]Despertou faminto, devorou rapidamente uma generosa
  • 35. porção de bolo e pediu mais, sem a mínima cerimônia.Em seguida levantou-se, deu um passo incerto edesabou no tapete macio, como se não tivesse pernas.Na excitação do momento, havíamos sido imprudentese precipitados – era necessário esperar alguns minutosem repouso até que seu espírito reassumisse totalmenteos controles do corpo físico antes de empreenderqualquer movimentação maior. Assim como odesprendimento se realiza por etapas, também areintegração no corpo tem seu ritmo próprio e suasfases bem definidas, embora variáveis de pessoa parapessoa. Usualmente os primeiros músculos a semovimentarem são os das pálpebras; em seguida, osdedos das mãos ou dos pés, braços, pernas, até quetodo o corpo esteja novamente sob controle da vontade.É freqüente observar nos sensitivos em despertamentoa concentração da consciência na área específica dacabeça – nenhuma outra sensação física, nem mesmosenso de orientação quanto ao posicionamento docorpo. É como se todo o ser estivesse na cabeça, fosseapenas a cabeça.Conclusão imediata: Há nítido contraste entre o testemunho de Hermínio e o deLuciano: as datas não coincidem, os acontecimentos são diferentes e, até mesmo nostrechos onde se encontram alguns pontos em comum, detectamos discordâncias, como éo caso do processo hipnótico, que para um foi fácil de ser obtido e para outro custoso.Sigamos, avaliando o 2º encontro, para vermos se deparamos conformidade nosdepoimentos. RELATO DA 2ª REUNIÃOHERMÍNIO MIRANDA LUCIANO DOS ANJOS3. O AGORA QUE JÁ PASSOU p.354...De tudo isso, uma conclusão era evidente por si Assim, ao lado da alegria, uma espécie de decepção memesma: Luciano apresentava condições de tocou: e eu? Contudo, pelo menos alguma coisa novasuscetibilidade que justificavam o acabava de acontecer comigo. Restava prosseguir paraaprofundamento da pesquisa. vermos até onde chegaríamos. Aguardei mais uma semana e, na segunda-feira seguinte voltamos aoFoi o que decidimos fazer, não em reunião mais apartamento da Sra. E.V.ou menos aberta como aquela, na qualrealizamos os testes, mas sob condições que nos [se formos seguir rigorosamente o que foi dito porassegurassem o adequado grau de privacidade e Luciano, esta reunião teria acontecido em outubro desegurança para um trabalho mais amplo. A 1966, numa segunda-feira. Também o local doprimeira reunião com estas características foi encontro não confere, Hermínio noticia que foi em suamarcada para a noite de 19 de maio de 1967, em casa, para Luciano continuaram a reunir-se nomeu apartamento. apartamento da Sra. E.V.][19/5/1967 caiu numa sexta-feira. Segundo Eu estava apenas entre desanimado e curioso, enquanto oHermínio, houve mudança no local da Hermínio me consolava:reunião, no relato ao lado, Luciano afirma que -Bem em última análise, teremos conseguido comprovar,o encontro realizou-se no mesmo local mais uma vez, que nesse tipo de trabalho é possível, deanterior] permeio, surgir uma manifestação mediúnica. Nosso tempo não estará perdido nem foi gasto em vão. E sempre uma contribuição que teremos dado à pesquisa. Porém a segunda sessão nos pareceu bem melhor.
  • 36. [vê-se que ambos falam que este seria o segundo encontro]Como da primeira vez, Luciano foi rapidamente Entrei novamente no estado de inconsciência, após dezao transe. Sua primeira palavra (vento) me ou quinze minutos de indução.pareceu uma queixa quanto ao desconfortocausado pela brisa que soprava pelas janelas [os desacertos entre os dois continuam: para Hermínioabertas do décimo andar, onde estávamos. o transe foi rápido, para Luciano precisou de tempo]Levantei-me para fechá-las e retomamos odiálogo que se iniciava.O que se segue é uma transcrição desse diálogo, [Na transcrição de Hermínio − veja comentário aocom o mínimo de correções, para conservar-lhe lado − aparece Luciano inicialmente recordandoo frescor da espontaneidade e o tom de eventos de sua existência atual e depois Hermínio oautenticidade que ficou nos tapes. A primeira induz a falar do passado remoto. Luciano, não fazfala é minha. referência a esta recordação preliminar, começa já(...) dentro da rememoração de outra vida. A princípio isto[Eliminamos o trecho no qual Luciano narra não seria considerado contradição − supostamente umepisódios da vida presente, conforme o relato quis relatar toda a gravação, outro teria privilegiado ade Hermínio, uma vez que o jornalista a ele parte que julgou mais interessante. Mesmo assim,não faz referência no que diz ser a narrativa deveria Luciano ter noticiado a existência da outradesse encontro. Estas podem ser conferidas no parte, porém não vamos ser severos neste quesito. Alivro, capítulo 3, “O Agora que Já Passou”. maior dificuldade é que, mesmo nas lembrançasContudo, nesta parte omitida há uma nota relativas a existência francesa os relatos não batem.]inserida por Luciano dos Anjos, quereproduzimos a seguir] Houve, então, entre mim e o Hermínio um longo diálogo, ainda entremeado de agitação, mas muito mais“Na segunda parte deste livro o leitor substancioso, o qual passo a transcrever, ipsis litteris,encontrará, com todas as suas minúcias, o sem quaisquer correções, isto é, tal qual ficou na fitadesenrolar dessa primeira experiência, bem magnética:como toda a sintomatologia registrada antes, – que está se passando com você?durante e após o desdobramento. (Nota de – Estou vendo uma sala ...Luciano dos Anjos.)” – O que tem aí na sala? – ... uma sala muito grande ... Umas pessoas[O problema é que não encontramos, na parte conversando, em pé, em volta duma mesa. Eu estouescrita pelo jornalista, qualquer relato que parado na porta. Discutem... discutem ... com uns papéis.lembrasse o que foi descrito por Hermínio Parecem querer minha opinião. Mas não me pedem. NãoMiranda.] querem que eu fale. Estou com a mão no queixo, na porta ... parado... olhando, acompanhando, calado ...Ele se mostra um tanto agitado e diz ter medo. – Mas que local é esse? – Não. Uma sala grande ... Parece um gabinete.[provavelmente, aqui dramatiza, para dar maisênfase ao personagem que representará]Intensificamos os passes e as sugestõestranqüilizadoras. Após algum tempo em silêncio,volta a falar, com voz lenta e apagada. É aindaLuciano e está em casa. Está com dois anos e aregressão prossegue, enquanto sua voz como quese apaga num murmúrio ininteligível. Nomomento seguinte, parece tomar fôlego,assumindo imediatamente uma personalidade – Como é que você se chama?adulta, confiante, segura de si e consciente das – Não sei se devo... Não interessa isso ...circunstâncias que o envolvem, com pleno [resiste em revelar o nome. Hermínio diz que, apósdomínio do contexto em que se encontra. breve hesitação, o nome foi proferido] – Onde você se encontra no momento? – Está bem. Não é necessário que você diga.– pergunto. Qual é sua função? O que você faz aí? – Aqui. – Alguma coisa esperam de mim. – Quem é você? Como você se chama? Breve hesitação, e depois: [vê-se que o rumo dos diálogos é completamente
  • 37. – Camille. diferente][revela o nome. Observem que na narrativa ao – Sei... Vá ver então o que são os papéis?lado isso não se dá] – Eu sei o que são. – De que eles tratam? – Qual é sua idade? – Política. – 25 anos. – Quem são esses homens que estão – Onde você mora? examinando os papéis? – Paris. – Um é baixo... Os outros não distingo direito. – O que você faz aí? – Como é que chama esse homem baixo, aí? – Vim estudar. (Longa pausa. Hesitação.) Você quer evitar os nomes? – Em que ano você nasceu? – Quanto menos se fala, mais se vive. – 1760. – Exato! – Onde você nasceu? – É um perigo falar em nomes. Não se sabe o – Em Guise. dia de amanhã. – Onde é isso? – Mas, em que ano estamos, aí? A manifesta ignorância de seu – Não sei, mas posso ver a folhinha.interlocutor parece irritá-lo um pouco. Responde – Então veja.com certo enfado: – Está atrás. Não tem o ano ... – Na França! Em Aisne! – Vá até à folhinha e veja. – Você veio estudar o quê? – Advocacia. Por quê? LC-1 O interrogatório começa a incomodá-lo.Por que tanta pergunta? – Quero saber. Queria que você meinformasse essas coisas. Longa pausa. Em seguida: – Estranho! – O que você está achando estranho? – Você. Quem é você? – Sou um amigo seu. Longo silêncio. Parece buscar algo nasprofundezas da memória. – Engraçado! Acho que te conheço...Não me lembro de onde... Você não é de Guise?Você não nasceu em Guise? – Não. Acredito que não. Você sabeque vivemos uma porção de vidas? Nova pausa. – Não sei o que é isso... – Temos muitas vidas. Vivemos umaexistência, morremos e tornamos a nascer. – Por que isso? Por que essa conversa? – Se você pesquisar na sua memóriaencontrará lembranças de outras existências. – Por que isso tudo? – perguntaevidentemente irritado. – O que você quer? – O que você está fazendo aí? – Vim estudar! – Mas no momento o que você estáfazendo? – Andando... Passeando... – Onde? – Na França! Em Paris! – Em qual rua? – Saint Honoré... – Onde você mora? – Em Paris! Aqui... Como insisto em saber o nome da ruaem que fica o colégio dele, sua impaciência vai
  • 38. num crescendo. – Ora... que coisa! Por quê? – Gostaria que você me dissesse. – Não vejo razão. – Você diz que tem 25 anos. Quandovai concluir seu curso? – Agora. Este ano. – Em que ano estamos? Outra pergunta que lhe soa – ... janeiro, 1781.absolutamente imbecil. Como é que alguém com [as datas não são as mesmas, o que deixa clara que osquem conversamos não sabe o ano em que nos relatos se referem a encontros diferentes. No entanto,encontramos? Responde de má vontade: apesar das narrativas quase que totalmente – 1785. Por quê? divergentes, ambos garantem estar falando do 2º[Ver-se-á na narrativa de Luciano, ao lado, encontro!]que nenhuma das datas citadas coincidem] – 81? As coisas estão ficando mais claras para – Queria saber. Estou procurando você, agora?localizar bem a gente no tempo e no espaço. – Por quê?Você acha estranho isso tudo? – Você não está distinguindo melhor as pessoas e os objetos? Certamente tudo é estranhíssimo para – Não sei... “Eles” querem que eu dê umaele. Vejamos bem o quadro: um jovem estudante palavra de orientação. Eu sei o que eles querem.de Direito passeia em pleno ano de 1785 pela rua – Então procure saber o que aconteceu depoisSaint Honoré, em Paris, quando é interceptado disso ...por um sujeito não menos estranho que lhe – Mas eu não devo... Não devo... Sei o quedispara uma série de perguntas perfeitamente querem. Não devo.idiotas. E o pior é que ele tem a impressão de – Você está aí num momento especial da suaque conhece tal pessoa de algum lugar. O que existência; mas o que aconteceu depois disso? Qual foi oestaria acontecendo, afinal de contas? acontecimento em que você tomou parte que precipitou alguma coisa?[Há alguma coisa não bem explicada nesta – Não sei. Alguma coisa muito grave deve estarexplanação de Hermínio Miranda, vejam só: a acontecendo.narrativa indica que Luciano estivesse – Você sabe. Está tudo guardado na memóriarevivendo sua vida como Desmoulins, na do seu espírito.França. Neste caso, não seria mais ele,Luciano, quem estava presente, sim Camille, [clara indução, para que o paciente respondapoder-se-ia concluir que Luciano se apagara e conforme a teoria advogada pelo operador]fora substituído por Desmoulins (afinal elaestaria passeando pela Paris do século XVIII). – Sei, mas não devo falar. Prudência, nessasA questão é que o jornalista não responde horas, é a melhor companheira. Querem que eu fale. Euplenamente como Desmoulins, um “pedaço” de nem sei de que lado estou. . .Luciano se mantém ativo. O que ambos – Sei. Então, vamos deixar esse período aí.parecem não perceber é que Luciano tinha de Recuemos um pouco mais, na sua memória, para vocêestar presente para que o diálogo fluísse. Se a relembrar-se de fatos menos tensos, menos cheios deidentidade atual “sumisse” por completo, preocupação. Procure recordar-se do tempo em que vocêHermínio teria de manter conversação com era ainda jovem e procurava abrir caminho na vida, parauma pessoa do séc. XVIII em todos os sentidos! assim guardar uma lembrança melhor e rememorar.Peripécia que nos parece muito difícil de ser – Há um riacho... estou brincando, numa subidarealizada! O que supomos estar demonstrado ...nessa cena é o esforço de Luciano em – Quantos anos você tem?representar o que ele julgava fosse a -Uns 17 ... 18...personalidade de Camille Desmoulins. O único – Em que ano você nasceu?modo que reputamos viável de conceber-se que – Não me lembro bem ... 1721 ... Acho que éLuciano “desaparecesse” e fosse substituído isso.por Desmoulins, conforme parece nos dizer – Onde você nasceu? Em que cidade?Hermínio Miranda, seria que a conversa – Lyon.transcorre no contexto daquele período: – Procure lembrar-se. Você dispõe, nesteHermínio e Luciano/Desmoulins teriam que momento, da sua memória integral.dialogar no francês do séc. XVIII, fazendo usodos maneirismos da época. O que se pode dizer [Aqui vemos, nitidamente, Hermínio Mirandadessa suposta revivência é que a personalidade conduzindo o paciente a responder conforme a teoria
  • 39. atual estivesse recessiva, atuando em segundo da “memória integral”, por ele defendida. Aliás, aplano, mas não apagada. Desse modo, a leitura das sessões mostra que freqüentementesugestão que Hermíno nos dá torna-se Hermínio como que força o regredido a acatar osinaceitável postulados que abraça. Em vista de Luciano comungar as mesmas crenças que Hermínio Miranda não−(Vejamos bem o quadro: um jovem estudante ocorrem conflitos. Seria interessante acompanhar umde Direito passeia em pleno ano de 1785 pela trabalho hipnótico em alguém que rechaçasse essasrua Saint Honoré, em Paris, quando é suposições. Ainda assim, Luciano não respondeinterceptado por um sujeito não menos estranho placidamente ao que lhe é imposto: muito pouco daque lhe dispara uma série de perguntas suposta memória integral apregoada por Hermínio foiperfeitamente idiotas.) exibida pelo jornalista. Em outro trecho, ele insiste com o regredido: “Você sabe. Está tudo guardado naNa descrição que Luciano faz da indução que memória do seu espírito”. Porém, a resposta é pífia.]experienciou, o recesso da consciência, em vezde apagamento, fica patente. Na parte escrita – O corpo está girando... ficando leve ...por Luciano, ao lado, consta essa narrativa, – Como é que se chamava seu pai?observemos um trecho. – Antoine ... – E sua mãe?“A voz do Hermínio era poderosa, imperativa, – ...ecoava como uma imposição absolutamenteférrea. Minha ausência de controle psíquico era [lembra o nome do pai, mas não consegue dizer ototal, o clima psicológico parecia infundir-me nome da mãe! A propalada memória prodigiosa aquiuma desarmonia geral no meu sistema interior e, falha dramaticamente!]quando afinal o paroxismo do pânico meenvolveu, perdi a consciência! Seguiu-se o – Você é capaz de vê-lo, agora? Ver o seu pai?diálogo que vimos acima, o qual durou cerca de Procure lembrar-se de uma época em que ele ficou maisuma hora”. bem gravado na sua memória. A figura dele... o seu pai, em plena atividade, realizando alguma coisa que vocêApesar de ser um testemunho dramatizado, tenha presenciado.percebe-se que a consciência do paciente vai, Longa pausa.aos poucos, recolhendo-se, até que a suposta – Ele foi covarde ...personalidade de Camille tome a dianteira, – Por quê?passando Luciano a atuar subliminarmente. – Não sei direito.Não se pode esquecer que a suposição de que a – Você está fugindo às lembranças ou elas éreal personalidade do paciente possa se apagar que fogem de você?e ser substituída por outra consciência − – Não sei. .. diz que foi covarde ...mesmo que se trate de uma dita encarnação – Você vê alguém aí à sua volta?pregressa − contraria as boas teorias da – Não.hipnose, as quais postulam que o hipnotizado – Onde é que você se encontra no momento?nunca fica completamente sob o controle do – Em casa de um amigo.operador. Por isso é que os que se submetem à – Descreva o que vê.hipnose, em certos casos, rechaçam os – Uma sala grande. .. muitas janelas. .. muitas...comandos que lhe são dados: a consciência, muitas. Passadeiras, quadros.recessiva mas vigilante, não acata qualquer – Não tem mais ninguém aí?imposição. Se a sugestão significar ofensa, – Não. Estou esperando alguém.agressão, ou algo que o paciente entenda – Aguarde um pouco até que a pessoa chegue.perigoso para si, ele rejeitará.] O que você foi fazer aí? – Acho que tínhamos um encontro. Agora já – Há alguma pessoa aí perto de você? chegou. – Não. Estou sozinho. – Como é esse amigo? – Como você vê as coisas? Está bem – É uma mulher.claro o ambiente? Está escuro? Como é? – Como se chama? – Sozinho... passeando... andando... – Therese. – Você não está vendo ninguém na rua? – O que você foi discutir com ela? – Não. Não reparei. É. Tem gente por – Acho que vim pedir alguma coisa.aí. Lá longe, ali, lá... – Que é, então? – É dia, ou noite? – Está sorrindo... de branco ... Abriu a porta, – É dia. Está claro. entrou. Estou de pé, encostado na outra extremidade da – E o que você vai fazer? Somente sala, apoiado na parede, mão no queixo, olhando elapassear? chegar. Ela está rindo.
  • 40. – Só. Por quê? – Sobre o que vocês conversaram? – E depois você volta para o colégio? – Ela vem pedir por alguém. – Volto. – Procure lembrar-se, especificamente, o que é. A situação é incongruente, ridícula, – Acho que é uma chantagem o que estouabsurda e ele continua a buscar na memória a fazendo.identidade perdida do seu interlocutor. Esboça – Bem, se é uma lembrança desagradável, nãoum sorriso e repete: é necessário que você insista nela. – Conheço você. Não me lembro de – Therese. É minha amiga; ou noiva... ou irmã...onde... Você estuda onde? não sei... de um amigo meu. Não sei o que fui fazer ali. Formulo uma resposta evasiva. Que – Você, o que realizou nessa vida? Você seoutra coisa poderia dizer? dedicou mais a quê? – Estou apenas procurando conversar – Eu era homem de confiança. .. Há algumaum pouco com você. coisa que está para acontecer, que eu não sei. .. Eles Mas ele insiste: pensam que eu sei tudo. Eu sei, mas não posso dizer. – Você estuda onde? Eles sabem que eu sei. – Não estudo aqui, não. – Mas, agora que os acontecimentos já se – Hmm. passaram, você poderá recordar-se disso sem nenhuma – Você se lembra de ter-me visto em agitação, não é? Você está apenas se lembrando dessesalgum lugar, não é? acontecimentos. Você está, já, em outra existência e – Conheço você. Lembro bem. perfeitamente tranqüilo. Pode recordar-se disso sem – Descreva, então, meu tipo. afetar seu sossego. – Como você é? Por quê? É você, como – Às vezes eu tenho medo.você é... – Você está com medo? – Diga como estou vestido... qual a – Às vezes... A gente nunca sabe quando vaiminha aparência física. cair numa cilada. – Igual a mim... umas roupas... – Mas isso são fatos do passado. Você já passou(interrompe e emite uma enorme exclamação). por tudo isso, não há razão para se afligir.Ahnnnnnnnn! Engraçado! Você não é pari- – Não sei... não sei... É preciso desconfiar desiense... Não usam essas roupas aqui. todo mundo. Não sei de que lado fico. – São antigas, não é? Qual a idade que – Bem, vamos saltar por cima desse período devocê me atribui? indecisão. O que foi que aconteceu? – Isso é que eu não entendo, porque... – Preciso sobreviver ...Engraçado! Que coisa esquisita! Eu fazia idéia – Você sobreviveu, evidentemente.de um garoto, e você é um homem. Devo me – Sobreviver... que as coisas parece que vãolembrar de você com uns 10 anos... 11... um mudar. Preciso ver de que lado sopram os ventos ...garoto. Não estou entendendo bem isso. Que – Muito bem, acho que por hoje é bastante.coisa esquisita! Agora você deve estar com uns... Vamos despertar ...30 anos... Não sei... Esquisito! Ou então não évocê! É muito parecido. Muito parecido e não Antes de entrar na análise desse diálogo devosei por que eu conheço... descrever, pormenorizadamente, todos os sintomas que Está realmente perplexo. Há um me acudiram durante o processo hipnótico (oubaralhamento inexplicável, incompreensível na puramente magnético?).seqüência do tempo. Fechei os olhos e me estendi na poltrona, – Você pode identificar minha procurando relaxar todos os músculos do corpo. Até asocupação pela roupa? Um militar? Um pálpebras, procurei deixá-las como mortas. Em meusacerdote? pensamento passavam, às vezes, algumas idéias de – Não! Eu diria que é um autêntico descrédito pelo êxito; procurei afastá-lasirlandês. (Ri.) Mas que coisa engraçada essa! sistematicamente, preocupando-me, para isso, em cuidarVocê... Deixe-me ver se me lembro, meu Deus... de ouvir apenas a voz monótona do Hermínio, enquantoOnde é que eu o vi? Onde foi? (Longa pausa.) fixava o interior negro de minha própria visão.Ah! Meu Deus! Eu me lembro! Você é filho...Não... você é sobrinho... sobrinho... Ah! Eu me [Observa-se que Luciano destaca a indução verballembro! Sobrinho de uma moça, de uma moça... como ferramenta que o levou ao estado hipnótico,Como é, meu Deus? Era de uma parenta, de uma neste ponto, sequer faz menção ao passe magnético]irmã... Espera aí... Meu Deus do céu, que coisa!Você tinha... você...Você não tem...? Seu pai não Comecei, depois de dez minutos, a ficarse chama...? Você não tem uma tia... Não... um ligeiramente tonto, mas (por descuido, pois não deveria)tio que era casado... Um tio chamado... Rueben? admiti, de longe, que isso fosse normal, dada a total – Como é o meu nome? paralisação dos meus músculos e tensões.[tendões?] A – Como era o seu nome, meu Deus? tonteira, porém, foi aumentando e a respiração tornando-
  • 41. Você era... Você... Deixe-me ver... Ora... você... se cada vez mais difícil. Eu ofegava. A cabeça passou ahavia um problema na família. Seu tio veio a girar. Primeiro, devagar; depois, vertiginosamente.Paris. Agora! Seu tio veio a Paris, você era ainda Poderia parar aquele estado “crisíaco”? Não quis tentar.um garoto e ele trouxe você. Foi isso. Porque não desejava ou, talvez... porque já não pudesse.Engraçado! Que coisa! Seu tio... Rubens?Acho Ainda ouvia, ao longe, agora bem mais distante, a voz doque era Rubens Brau ... Hermínio pedindo calma, calma, calma ... As mãos então – O que ele fazia, esse tio? começaram a formigar ligeiramente; depois, mais e mais. – Ele foi arranjar um negócio de O formigamento foi subindo e, na medida emdinheiro com o Mira... Não. (Pausa.) Você que atingia outras partes do corpo, deixava as anterioresconhece o Mirabeau? anestesiadas, completamente mortas, insensíveis, Outra pergunta embaraçosa. A resposta passíveis de serem alfinetadas ou queimadas sem que meé curta e sem compromisso. desse conta disso. O formigamento, afinal, chegou ao – Sim. plexo solar, invadiu os intercostais, ganhou os peitorais – Ele esteve em Londres ... Quando foi? e, nesse instante, julguei que alguma coisa muito graveFoi uma história que eu não estou lembrando. estava acontecendo. Descontrolei-me interiormente, tiveMas havia um amigo que interferiu. Está meio medo, agitei-me ainda mais, porém... não fossem mesmoconfuso, meu Deus do céu! Está confuso, porque os estertores da desencarnação (aquele medo, é claro, sóvocê era um garoto. Como era o nome de seu podia provir da crença nessa iminência), eu teriapai, meu Deus? (E para mim:) Como é o nome desencarnado, porque não tinha mais condições dede seu pai? reagir. – Robert? – arrisco eu. Ele explode: – Robert! Ah! (Ri de satisfação. [Tem-se a impressão de que o paciente vivenciou algoDesvendou o mistério.) Era irmão do seu pai (o semelhante a uma crise histérica, desencadeada pelotio): Rueben (Ri descontraidamente, com gosto.) interesse em dramatizar a experiência hipnótica, a fimVocê tinha acabado de nascer. É... Mas como de dar maior veracidade à regressão.pode? Isso não tem sentido! Ele tinha ido a Geralmente, quando o paciente atinge o nível deLondres fazer o quê? Negócio de dinheiro. O relaxamento muscular conforme relatado, corpo eMirabeau tinha ido. E Rueben também! E você mente quedam-se inertes e agradável sensação deveio a Paris depois... Tinha uns 10 anos, não leveza predomina. Do que Luciano diz, depreende-semais que isso, com o seu tio. que seria um paciente incomum: ao mesmo tempo que – E foi aí que você me conheceu? se entrega ao comando hipnótico, a ele resiste. OutraComo é que foi essa história? questão é a sensação de morte, que diz ter – Foi com o Mirabeau. Era meu amigo. experienciado: temos dúvidas se alguém se manteriaMirabeau é meu amigo! Íntimo... E havia uma sob sugestão ante sensações tão drásticas. A nosso ver,amizade com a mulher do seu tio. LC-2 o autor quis teatralizar a experiência.]. – Mirabeau era amigo da mulher de A voz do Hermínio era poderosa, imperativa,meu tio. ecoava como uma imposição absolutamente férrea. – É. E me apresentou... não... ele esteve Minha ausência de controle psíquico era total, o climalá antes e depois voltou e você esteve lá... Um psicológico parecia infundir-me uma desarmonia geralgaroto... tinha uns 10 anos... no meu sistema interior e, quando afinal o paroxismo do – Isso foi em 1791. pânico me envolveu, perdi a consciência! Seguiu-se o – É... Noventa, talvez... Mas não tem diálogo que vimos acima, o qual durou cerca de umasentido nada disso... porque... Não tem, não hora, em seqüência do que, teve início o processo depode ter! Uma confusão total! Seu tio... Agora! retorno.Seu tio pediu não sei o quê e eu interferi junto ao Aqui, também, vale a pena conhecer suasmeu sogro. etapas. A primeira coisa que me aconteceu foi voltar a – Quem era seu sogro? ouvir a voz do Hermínio, que me mandava despertar. – Claude. Claude Etienne Laridon- Mas isto não foi tarefa muito fácil. Eu estava novamenteDuplessis... Interferi porque seu tio precisava de consciente, mas só tinha noção da própria cabeça. Doalguma coisa, não me lembro o quê. Fiz um pescoço para baixo, eu nada sentia, embora me mexessefavor. O Mirabeau pediu e eu ajudei. Mas isso é um pouco, sem agitação. Essa sensação me trouxe novoincrível! Depois... é, depois ele me apresentou a pânico. Eu não sabia o que houvera acontecido durantevocê... Era sobrinho... LC-3 aquela hora decorrida, e pensava que ainda estava tudo Pausa. Em seguida, quase em pranto, tal por começar, em plena fase inicial. O medo voltou,é o desespero para entender de maneira ordenada principalmente porque eu ouvia o Hermínio repetir:toda essa novela anacrônica: “Vamos despertar”; mas, estranhamente, sentia-me – Ó, meu Deus! Isso é tão confuso... é flutuando a uns trinta centimetros acima do sofá, semde uma confusão total... Meu Deus do céu!... capacidade de me justapor a mim mesmo outra vez. OLC-4 pânico interior cresceu, porque pensei, por um instante, – Quer dizer que você não está mais que houvesse desencarnado, que minhas duas partes não
  • 42. com 25 anos? se “colariam” mais(7). Agitei-me e confesso que falei – Não sei... Coisa esquisita! Eu julgava para o Hermínio, em tom de súplica:que... estava no colégio. Não estou. Passou a – Ajude-me, Hermínio. Eu estou passandoRevolução? Mas como? Então eu estava muito mal.recordando ali... lembrando ali... Que bobagem, O Hermínio deve ter logo compreendido todo omeu Deus do céu; e você me acompanhou até quadro e sorriu, respondendo:aqui agora? Que coisa, meu Deus. Você viu? – Não é nada, Luciano; isso vai passar. É assim – Qual foi seu papel nessa Revolução? mesmo.Que foi que você fez? O tom agora é de indisfarçável orgulho: [Evidente dramatização. Luciano apenas se imaginava – Ah... você não sabe? Engraçado... não fora do corpo. Não há qualquer indício de que asabia que você havia voltado. Que estava aqui. hipnose tenha o poder de deslocar a alma do corpo,Você não viu as coisas? Não viu o que aliás, parece-nos que em hipótese alguma talaconteceu? Agora é ... é outro! Agora acabou a descolamente seja possível, a não ser em caso de morteMonarquia. Não se pode deixar a Revolução − ainda assim, levando-se em conta a suposição de quepela metade! Não pode. Ah, vocês ingleses... exista uma alma a ser desligada, coisa da qual não seQue coisa! tem plena certeza, pois pode ser que as coisas – Mas como é mesmo seu nome? Diga. aconteçam de forma diferente da qual comumente se E ele muito solene e com novo toque de supõe. Mesmo sem adentrarmos em discussões sobre oorgulho: dualismo e o unitarismo, podemos destacar que os que – Lucile Simplice Benoist Camille admitem a existência de duas estruturas diversasDesmoulins! LC-5 coexistindo harmoniosamente durante a existência terrena − corpo e alma −, mesmo estes concebem que enquanto a vida se mantém estas estruturas são inseparáveis. Hermínio Miranda e Luciano dos Anjos,LEITURA COMPLEMENTAR não mostram teoria consistente, capaz de demonstrar[desta “leitura complementar” suprimos as como se daria esse descolamento da alma, sem que opartes que não julgamos passíveis de ente entrasse em desagregação. Eles apenas informamcomentários. Ressaltamos que no relato de que teria acontecido dessa forma e ponto final. Ora,Luciano não constam comentários tudo leva a crer que se trata de representação psíquicacomplementares] de uma crença em vez de fenômeno real!]LC1 – Advocacia Lembro-me, então, de que chamou o Edson (o Camille entrou para o Colégio Louis-le- Hermínio não é médium) e pediu-lhe que me desseGrand em outubro de 1771. Em setembro de alguns passes. O Edson começou a trabalhar. Sem me1784 colou grau como bacharel em Direito e em aperceber (não sei se teria conseguido acompanhar comomarço de 1785 conseguiu a licenciatura. Prestou ocorreu a coisa), de repente me senti em mimjuramento na Grande Câmara do Parlamento, em novamente, embora com as pernas ainda inertesParis, e não em Guise, como desejava o pai dele. anestesiadas e as mãos e o plexo formigando muito, “Seus mestres”, escreve Raoul Arnaud, numa espécie de inversão paulatina do processo, fase por“lhe haviam dito em tom profético: ‘Tu serás fase. O fato de sentir-me “dentro” de mim acalmou-me oMarcellus!’” Ele não duvidava da promessa de espírito e pude ter certeza de que não desencarnara, etriunfo que lhe era feita, e sentindo-se capaz de quase jurei, baixinho, que não tentaria outra vez deassombrar o mundo e de o dominar, via o futuro forma nenhuma. [dramatização!]abrir-se diante dele mais pleno de certezas doque de esperanças. [destaque para a informação que Luciano nos traz: Marcellus, ou melhor, Claudius “chamou o Edson (o Hermínio não é médium) e pediu-Marcellus, aristocrata, orador eloqüente, foi lhe que me desse alguns passes”. Esta miúda frase põecônsul romano em 51 a.C. Inveterado adversário grande parcela de dúvida sobre muito do que éde Júlio César, tudo fez para destruí-lo. declarado por Hermínio Miranda. Conforme atestaPrevendo, talvez, a fulminante carreira política Luciano, devido a não-mediunidade de Hermínio eledo brilhante general, propôs, em março de 49, precisava de assistente para aplicar os passes. Porémdestituí-lo do comando do Exército. Mais tarde não encontramos em lugar algum Hermínio fazendochegou mesmo a declarar guerra aberta a César, comentários sobre isso!]mas não possuía Exército preparado para isso.Em 46 – César no apogeu de seu poder – o Ao procurar levantar-me, não achei as pernas eSenado apelou ao imperador pleiteando o perdão acabei tombando, espetacularmente, do sofá, numapara Marcellus, ocasião em que Cícero cambalhota que só o tapete pôde amaciar. O Hermínio epronunciou um dos seus famosos discursos: Pro o Edson tomaram-me pelos braços e colocaram-meMarcello. César concedeu o perdão solicitado. sentado na poltrona menor enquanto me recomendavam
  • 43. Marcellus foi, portanto, um intelectual que [não] tentasse ainda ficar de pé.ambicioso e meio quixotesco. Ao que parece, eisto é mera especulação minha, a chamada Então, depois de quinze a vinte minutos, no“profecia” dos mestres de Desmoulins seria silêncio, pensando naquilo tudo, meditando no queantes uma identificação de Camille com acontecera, ainda cansado, num pequeno processoMarcellus. Para dizer de outra maneira: não seria enfisematoso, registrando aguda taquicardia, fui pouco asurpresa se me dissessem que Camille era pouco melhorando, até sair completamente daqueleMarcellus reencarnado. estado pós-hipnótico. Um outro fenômeno curioso[não obstante ressaltar que se trata de adveio logo depois. Eu devo ter queimado açúcar emsuposição especulativa, Hermínio transforma grande quantidade porque fui acometido de indescritíveluma declaração nitidamente figurativa em fome. O bolo e o cafezinho da dona da casa pareciamhipótese reencarnacionista! Os mestres de não bastar, e só de vergonha não saí para o terceiroCamille disseram “tu serás Marcellus”, avantajado pedaço. Mas, já na rua, com o Hermínio,especificando o simbolismo que aplicavam à catamos um bar onde comi um sanduíche de presuntosentença, pois se fosse alguma revelação com refrigerante. Se viesse uma feijoada ou um cozido,reencarnatória, teriam dito: “tu fostes também iriam, certamente ...Marcellus!] [É interessante comparar como Hermínio relata este É impressionante a fixação de episódio da queda, comparem:Desmoulins nos tempos romanos, especialmente “Despertou faminto, devorou rapidamente umaem torno da gigantesca figura histórica de César. generosa porção de bolo e pediu mais, sem a mínimaEle cita abundantemente os homens e os feitos cerimônia. Em seguida levantou-se, deu um passodaquela época. incerto e desabou no tapete macio, como se não tivesse Essas especulações, por mais pernas”.(versão de Hermínio)fascinantes que sejam, são meras suposições enos levariam longe demais. Não resisto, porém, Um relato lembra vagamente o outro − a queda e oao impulso de citar mais algumas delas. bolo são concordantes − mas há bastante diferenças:Supondo mesmo que Robespierre tenha sido na narrativa de Hermínio o regredido desperta, comeCatilina, como nos diz César Burnier que Marat bolo, tenta levanta e patchbum! desaba no tapete.tenha sido Sila, companheiro de Marius, e Na versão de Luciano, o patchbum! vem em primeiroDanton na personalidade de Marius, teríamos a lugar, ou seja, ele tomba, depois descansa uns vintemesma equipe da Revolução Francesa reunida minutos e então é tomado por medonha fome, que oem diferentes épocas, na Roma Antiga, onde não leva a devorar o bolo. Há um intervalo relativamentefaltaria nem mesmo Júlio César, renascido em longo entre o bolo e a queda, que Hermínio MirandaNapoleão. não narrou.[O que pode ser dito disto? Qual seria a técnicaque permitiria obter a identificação de Vejamos a seqüência de eventos, segundo Hermínio:encarnação anterior com tanta facilidade? Em 1º) despertou do transe; 2º) devorou porção de bolo; 3º)encontro que analisaremos adiante, ver-se-á levantou-se; 4º) desmoronou no tapete.essa suposta capacidade levada ao extremo.Veja no “Comentário Complementar”, abaixo Agora, vejamo-la, pela ótica de Luciano dos Anjos: 1º)desta tabela, avaliação desse “poder” os passes do Edson fizeram com que Luciano voltasseidentificativo.] a ficar dentro de si mesmo; 2º) levantou-se; 3º) desabou no tapete; 4º) descansou 20 minutos; 5º) Durante as regressões Luciano devorou o bolo.lembrou-se vagamente de uma existência emRoma, mas parece que não estávamos Pode-se alegar que essas divergências não têm grandeautorizados a ir até lá... É curioso ainda observar relevância ante a questão principal que estamos asua má vontade (de Camille Desmoulins) com analisar, ou seja, a experiência de regressão. É certorelação a Napoleão, jovem oficial que em 1789 que “o caso do bolo” não desqualificará os encontrostinha apenas 20 anos. Perguntado sobre ele, regressionistas, nem as interpretações que deles nosLuciano/Desmoulins diria apenas com um dão os envolvidos, mas há um ponto importante a sermuxoxo de desprezo: “General era Dumoriez, levado em conta: os protagonistas confundemDillon, Boyer...” Resíduo de algum remoto acontecimentos banais e deles apresentamdesacerto entre eles? interpretações divergentes, o que nos leva a supor que em situações outras, e talvez em questões de maiorLC-5 Camille importância, possam ter ocorrido deturpações difíceis de serem identificadas. Lamentavelmente, a sombra da Luciano despertou sem a mínima suspeita se torna presente]lembrança do que havia ocorrido nos trinta ou
  • 44. quarenta minutos da nossa conversa de há Vejamos, agora, o que se poderia dizer dopouco. Estava curioso por saber o que se diálogo. Não há dúvida de que a época é anterior àpassara, pois tinha a impressão de não haver Revolução Francesa, não apenas pela informação do anoconseguido alcançar o transe. Assim que tudo visto na folhinha – 1781 –, mas algo existe no climavoltou à normalidade, nossa primeira atitude foi retraído. Seria eu próprio, na personificação de Camilleconferir os poucos dados concretos de que Desmoulins? Não é possível se afirmar. Creio, mesmo,dispúnhamos. que não o fosse ainda. Perguntado pelo nome de meu[indício de que o conhecimento que Luciano já pai, respondi ser Antoine. Ora, o nome do pai de Camillepossuía sobre a Revolução foi acrescido com Desmoulins era Jean; como verificamos mais tarde. Mas,leituras ocorridos no período da experiência, à curioso: meu pai atual se chama Antônio. Teria havido,medida que “conferiam” o que fora dito sob aqui, alguma confusão nas duas figuras? Atranse, Luciano incorporava novos nacionalidade de ontem teria afrancesado o nome doconhecimento sobre a época em que acreditava meu pai hoje? É possível ... Por outro lado, Desmoulinster vivido. Mais adiante falaremos não nasceu em 1721, nem em Lyon. Mas essasdetalhadamente desta questão] informações foram ditadas com muita insegurança. Acho que é isso. Quanto à casa descrita, não está muito Verifiquei, desalentado, que, a despeito distante do sonho que tive com o Abelardo. Contudo, éda minha antiga paixão pela história, não tinha bom registrar que toda casa daquela época teria, semao meu alcance nenhuma obra de fôlego sobre a dúvida, “passadeiras”, “muitas portas”, “quadros”,Revolução Francesa ou sobre seus líderes. “muitas janelas”, etc. O nome Therese não parece ser deSalvou-nos a respeitável e competente grande significação.Enciclopédia Britânica. A primeira surpresa foi O Hermínio estava propenso, duas ou três semanasquanto ao nome – não tínhamos idéia de que depois, a admitir que não se tratava do meu próprioDesmoulins tivesse todos aqueles nomes que a espírito, mas de simples manifestação mediúnica,Britânica confirmava. Como também confirmava possível ou permissível, dadas as minhas ligaçõesque Camille nascera em Guise, no Departamento anteriores com gente da época da Revolução. Todaviade Aisne, em 1760. não é absurdo aceitar, já agora que conhecemos outras[valorização excessiva do conhecimento de um informações, tratar-se de mim mesmo, emboradetalhe da vida de Desmoulins. Em outro confundindo muito os fatos todos, devido àepisódio ver-se-á Cesar Burnier, apresentado inexperiência no processo. Ou devido a qualquer outrocomo especialista na história da Revolução, motivo que desconhecemos e que jamais conheceremos.alegando que nem ele conhecia essa (Eu Sou Camille Desmoulins. P. 355-361)informação. Mas a euforia em torno de [Luciano informa que não tem certeza, neste diálogo,conhecimento detalhado da vida de um se é a personalidade de Desmoulins se manifestando,personagem, por parte do regredido, não tem admite que poderia ser “outro” espírito tomandotanta importância como se pretende. Em carona na sua regressão. A condição que permitiria aprimeiro lugar, o fato de Hermínio, nem Cesar almas “caroneiras” se infiltrarem nas regressõesBurnier ter tal conhecimento, não significa que hipnóticas não é esclarecida pelos envolvidos. Parecemoutros estudiosos não o tenham, ou seja, o que aceitam a possibilidade sem quaisquerespecialista pode ter faltado à aula onde se ponderações, como se fora algo muito natural. Comodiscorreu sobre o nome completo de não apresentam explicações teóricas adequadas,Desmoulins. É muito provável que estudantes ficamos sem ter como opinar a respeito. A questão nosda vida do republicano revolucionário saibam parece confusa. Desse assunto, Hermínio Mirandadisso. Por outro lado, existem pessoas que se apresenta comentário que, a nosso ver, mais complicacomprazem em aprender dados numerosos que esclarece.]sobre personagens por quem nutremadmiração, sem serem grandes conhecedores “Este fenômeno ocorreu com certa freqüência emdo processo histórico. Este parece ser o caso de minhas experiências. Sempre que o sensitivo tinhaLuciano, que ao tempo em que demonstrou algo a dizer, não de sua própria elaboração mental,bom conhecimento sobre eventos da mas de origem mediúnica, espiritual, provinda deRevolução, não exibiu conhecimento crítico companheiros desencarnados ali presentes, o textodos acontecimentos relativos àquele período em aparecia diante dos olhos e era lido. Foi assim maisque se imaginara encarnado noutra vida.] uma vez.” (p. 76 – ) A hora já se adiantava e Luciano aindaprecisava ir para casa. Lemos rapidamente overbete biográfico da Britânica e ele partiu. Eraemoção suficiente para uma só noite.
  • 45. COMENTÁRIO COMPLEMENTAR: visto que os episódios narrados, como relativosao 2º encontro, são completamente diferentes, concluímos que tenham havido reuniõesque Hermínio não narrou. As implicações dessa constatação para o estudo são muitosérias, uma vez que não podemos ter segurança sobre o que sucedeu fora dos relatos quenos são apresentados. Sem dúvidas, as narrativas não guardam fidedignidade plena comos fatos. A não ser que haja explicação plausível para essa constatação, a validade daexperiência fica comprometida.No que se refere à habilidade de reconhecer reencarnações, retornamos à declaração deHermínio Miranda:Não seria surpresa se me dissessem que Camille era Marcellus reencarnado (...)Essas especulações, por mais fascinantes que sejam, são meras suposições e nos levariam longe demais.Não resisto, porém, ao impulso de citar mais algumas delas. Supondo mesmo que Robespierre tenha sidoCatilina, como nos diz César Burnier que Marat tenha sido Sila, companheiro de Marius, e Danton napersonalidade de Marius, teríamos a mesma equipe da Revolução Francesa reunida em diferentes épocas,na Roma Antiga, onde não faltaria nem mesmo Júlio César, renascido em NapoleãoDescreve-se, em diversos pontos do livro, atitude que reputamos sui generis, exibidapelos protagonistas e por alguns participantes secundários: hipotética capacidade, malexplicada, de identificar reencarnações. Hermínio é, de certo modo, ponderado aoapontar tais encarnações passadas: geralmente adverte tratar-se de suposição. JáLuciano é mais atrevido, dele encontramos declarações surpreendentes:Sei, por exemplo, que Danton, o grande tribuno francês, está aqui no Rio, em Copacabana. Sei que Mme.Stäel está em Matão. Que Frei Joseph du Tremblay, a “Eminência Parda”, é um grande médium e resideem Salvador. Que Marat viveu no Rio e foi mais uma vez cassado. O Abade Bérardier, que foi diretor dofamoso College Louis-Ie-Grand, tem consultório no Rio e é filho de um dos maiores presidentes daFederação Espírita Brasileira (FEB). O Papa Sixto V mora na Muda, aqui no Rio, bem perto de mim.Roberto Browning (pai) tem domicílio em Botafogo, também no Rio. O famoso poeta do mesmo nome,filho do precedente, é conhecido médium. O Cardeal Charles de Guise, e depois Professor CharlesBossut, almoça comigo freqüentemente.[!] Joana, a Louca, está em Uberaba. Helena Blavatsky dirigiu,até à desencarnação, um Centro Espírita em Ipanema. Carlos VII dirige um grupo, no Méier. Louis deRochefoucauld, também já desencarnado, trabalhava numa corretora de título. Hérault de Sechelles eraprocurador do Ministério da Fazenda e morava em Jacarepagua. Maria Antonieta vivia, há pouco, em SãoJosé do Rio Preto. Anna Bolena é uma psicóloga atualmente residindo em Pato Preto. Benevenuto Celini,o notável artista do cinzel, é médium da FEB, dos mais evangelizados que conheço. Lavoisier reencarnouem Minas Gerais e vive em São Paulo; como engenheiro, continua pesquisando, agora na área espírita.Elizabeth I reside num simples apartamento no Méier. Lucile Desmoulins estuda na Faculdade CelsoLisboa. E Camille Desmoulins, que é o mesmo Charles d Orléans, poeta do século XV, agora é pai deLucile.De minha parte devo afirmar, embora correndo o risco de ser acusado de pretensioso ou de ridículo, queem matéria de espiritismo filosófico, científico ou religioso concedo-me o qualifIcativo de homem sério.(P. 303,304). Não duvidamos da seriedade de Luciano, porém a indagação que fizemos antes, cabeser reprisada aqui: qual seria o mecanismo que permite a Luciano dos Anjos e a outrosidentificar encarnações com tanta facilidade?Vejamos o que se consegue com o terceiro encontro. Como se notará pela leitura, anarrativa de Hermínio é bem mais longa que a de Luciano. RELATO DA 3ª REUNIÃO
  • 46. HERMÍNIO MIRANDA LUCIANO DOS ANJOS4. O ANTES E O DEPOIS p. 361... A segunda sessão de pesquisa foi realizada em 26 de maio de1967. Vamos examiná-la a seguir, transcrevendo-a dos tapes Os sete dias que decorreram até àdo nosso arquivo. segunda-feira seguinte serviram-me para duas importantes coisas:[Hermínio nomeia este encontro como “segunda sessão”, afogar o medo e aliciar minhacontudo corresponde à terceira reunião, isso porque, curiosidade. Aliás, é sempre assimconforme vimos, a primeira vez foi classificada como“reunião de teste”] que acontece. Na hora do perigo, prometemos não repetir jamais o As primeiras impressões são ainda as da sua infância como risco que lhe deu origem; depois,Luciano. Está com 5 anos e diz que precisa ir para casa, pois se recuperamos a calma, a serenidade,encontra na rua e está ficando tarde. (Alguma escapada durante e já nos acha: mos fortalecidos paraa qual teria fugido à vigilância de sua mãe? É o que parece,pois ele se mostra um tanto assustado.) Prosseguimos com os nova experiência. E – frisemos – epasses até que ele relaxa e se acalma. Quando retoma a assim que acabamos vencendo ospalavra, sua voz é adulta e firme. medos... Por outro lado, eu tinha visto crescer meu desejo de saber quem falara por mim e por que falara; conhecer de vez, enfim, a história que se ocultava por detrás daquelas experiências. Não sei se para iludir-me ou por sentir ser óbvio, procurei convencer-me, acima de tudo, de que os mentores espirituais, meu e do Hermínio, de todos, enfim, deveriam estar atentos e prontos para ajudar-nos, se necessário. Parti, pois, resoluto para a terceira sessão. Chegamos à casa e logo iniciamos os trabalhos. Desta vez o processo transcorreu um pouco menos agitado. Conseguida a inconsciência, gravamos o seguinte diálogo, que foi muito mais demorado do que possa parecer da sua leitura, pois era intercalado de longas paradas, repetições de palavras, tautossilabismos, etc., que, evidentemente, não estão copiados abaixo. Eis como se passou a sessão: – Alguma coisa vai acontecer. – Por que você está preocupado com o que vai acontecer? Você sabe, como espírito, que esses fatos a que está se reportando, no momento, já ocorreram em sua
  • 47. existência anterior, de modo que você pode, agora, adiantar um pouco mais, no tempo, e verificar o que aconteceu e libertar-se da condição de aflição. Não há necessidade de se tornar aflito. São fatos já ocorridos. – Às vezes, não sei o que faça. É – Onde é que estou? – pergunta. preciso ter calma ... – Você mesmo pode descrever. O que você vê à sua – O que é preciso é libertar-sevolta? dessa condição. Qualquer estado de – A minha casa – diz ele, após longa pausa. Rue du desprendimento em que você entra,Theâtre Français. – Quem mais está aí na sua casa? vai logo para esse período em que – Agora estou sozinho. levou uma existência agitada. É – Com quem você mora aí? necessário que você procure – Com minha mulher. Ela deve ter saído. Estou pesquisar, na sua memória integral,deitado. Quem é você? outros fatos e não apenas esses. – Mas, às vezes, dá medo. ..[Neste ponto, os relatos coincidem, em ambos o personagemencontra-se em decúbito] vontade de fugir... mas, é preciso ter coragem e ficar ... – Novamente o baralhamento na seqüência tempo e – Onde é que você está, nono conceito de espaço físico. momento? – Você já me conhece. – Na cama. Novo e longo silêncio, e depois: – Tenho uma idéia... – Já conversamos anteriormente. [a cena parece ser a mesma, pois Ele concorda e pergunta: em ambas narrativas o – Cadê minha mulher? personagem encontra-se deitado] – Provavelmente ela saiu e não deve demorar. É preciso ter cuidado! (Começa a mostrar-se agitado.É evidente que está vivendo sob terrível pressão emocional.) – Em que você pensa?Preciso descansar. Sente aí. (Parece que a necessidade de – Amanhã... Nec... Necker...companhia é tão urgente que ele resolve ignorar suas Necker vai fazer uma besteira.perplexidades.) – Que dia é amanhã? – Vamos conversar. Fique calmo. Em que você estápensando? – Seis ... – Tudo. Nisso tudo... Às vezes penso se não seria – O que ele vai fazer?melhor largar tudo pra lá e viver para a minha família, pra meu – 28. .. 29... Qualquer dia, nãofilho. Largar tudo... Estou com dor de cabeça. LC6 importa ... E depois: – Mas não se agite fisicamente. – Preocupando todo mundo... Ah, meu Deus! Enfim, alguémtem de fazer alguma coisa. Cansado... . Deixe seu corpo tranqüilo, sem Peço-lhe que faça recuar sua memória para uma época agitação. E preciso, apenas, queem que se tenha sentido mais feliz e mais tranqüilo, a fim de você, como espírito, encare comque possamos conversar descontraidamente. Os passes maior naturalidade esses fatos econtinuam. Longo silêncio. Quando retoma a palavra, me não se agite mais por eles, porqueidentifica com indisfarçável alívio. – Ah! É você... já se passaram. – Outro dia nós conversamos... Lembra-se? – Necker está pressionando ... Isso – Lembro. Aqui mesmo. não pode dar bom resultado ... – Você conseguiu lembrar-se do tempo em que eu era – Por quê? O que pretende fazer?um garoto e achou tudo muito confuso. – E o problema dos cereais. – Nós aqui de novo... – diz ele com um sorriso. – Por que você acha que estamos aqui depois de – Mas por que você está setantos acontecimentos passados? Está confuso ainda? lembrando disso agora? Você – Não sei... apenas leu isso na história?
  • 48. – Durante sua existência você sempre foi descrente da – Não sei. . .sobrevivência do espírito? Você nunca admitiu a possibilidade – Você se lembra de ter lido ou dede o espírito sobreviver? – Bom... não. Embora dê o direito a outros de ter vivido esses episódios?acreditarem, eu respeito o ponto de vista de um Rousseau, queparece acenar com algumas hipóteses que custo, de fato, a [Interessante, aqui Hermínioaceitar. decide enfrentar a probabilidade – Acho que nem você nem seus amigos aceitam a de que Luciano tenha sehipótese da sobrevivência. – Não. Sim... Não; mais não, quase não... É difícil. Há informado por meio de leituras. Auma série de aspectos nesse problema que desanimam a gente. resposta é evasiva. O próprioOlha a vida, olha a miséria, olha o clero, a aristocracia, olha Luciano deixa em suspenso estanós... Não! possibilidade. Observa-se, na – Como é que você explica que esteja aí, lembrando- seqüência do diálogo, que ose da Revolução como uma coisa do passado? Longa pausa para pensar. Não tem a menor idéia de jornalista rapidinho muda o rumosua vida atual como Luciano, e, mais ainda, de nada que tenha da conversa. Ele parece nãoocorrido após aquele momento ali em que ele se situa, embora desejar que o agente insista nestaconversando com alguém que está em 1967, cerca de cento e questão]oitenta anos depois! A saída é pela tangente, e nem poderiadeixar de ser! – É amanhã... – Posso me lembrar. Isso não vem ao caso. – Mas você se recorda de todos os acontecimentos? Sei. Então vamos avançar sua – Claro! memória para amanhã e ver o que – Até que ponto você se recorda? aconteceu. – Tudo. Eu vivi tudo; eu vi tudo. – Eu dormi... dormi um pouco... É evidente que foge da terrível realidade da morte, e – Sim. Agora, você acordou...temos de evitar uma confrontação traumática antes de certopreparo. durante o dia, e verificou o que – Até que ponto você viveu? aconteceu. ‘ – Até agora. Daqui para a frente é uma incógnita, mas – Necker vai fazer bobagem. . .acredito que não tenham a ousadia, não tenham o topete, não – O que foi que ele fez no diatenham a coragem de mexer comigo. seguinte? . Procuro tranqüilizá-lo, mas é óbvio que ele estáentrando em pânico. O clima psicológico daquele momento é o – É uma... uma provocação. É umado temporal que se avizinha. A hora é de decisões graves. A taxação. Necker vai assinar umaRevolução, como Cronos, começava a devorar seus próprios taxação.filhos, e ele começava a temer pela sua sorte, embora aindaesperançoso de que não ousassem eliminá-lo também, como [Vimos que, no relato detantos estavam sendo. – Não teriam coragem. Já enfrentei coisa pior. Hermínio, o nome de Necker – Me conta direitinho o que se passou com você nos apareceu no primeiro encontro]últimos tempos. – Você não soube de nada? – Escuta uma coisa: depois dessa – Soube da Revolução, soube do seu papel ... existência, que voce teria vivido na – Você chegou quando? Outra pergunta embaraçosa. A resposta clara e França, você teve alguma outraobjetiva lançaria em seu espírito confusão maior do que suas existencia entre essa e a atual?inquietações do momento. Regredido ao tumultuado período – Não sei. . .do Terror, ele não tem o mínimo preparo para uma avaliação – Não sabe? Está tudo guardado naserena da situação a uma distância de quase cento e oitenta sua memória. Por que você nãoanos. A resposta é evasiva: – Preciso explicar isso mais tarde. Reservo-me o pesquisa?direito de falar sobre isso um pouco mais adiante a você.Vamos, agora, procurar despertar na sua memória todos os [Hermínio tenta arrancar defatos. Luciano uma lembrança além das E ele, cauteloso: que seriam oriundas de – Tenho você na conta de amigo, hem? Sou seu amigo. Você sabe disso. Confia em mim, não Desmoulins: ele quer saber seconfia? houvera existência outra entre
  • 49. – Espero que possa... Camille e Luciano. Novamente, o – Você está desconfiado porque vive numa época jornalista frustra o inquiridor.tumultuada, cheia de problemas, mas aqui a coisa é diferente. A observação é reconhecidamente incongruente para Observe que Hermínio insiste queele, mas parece admissível para o momento, e ele repete: tudo estaria na memória de – Espero que possa... Luciano, mas o jornalista não – Então vamos lá. Sei da Revolução, do que reage conforme o operadoraconteceu. Queria, porém, que você procurasse se recordar do deseja]que houve com você até os últimos acontecimentos. Estamos andando em círculo, mas estouconscientemente evitando um questionamento direto. – Houve um tumulto muito grande, – Até agora? – pergunta ele. – É isso que você vê... depois disso. – Não estou vendo direito. Descreva-me. – E que aconteceu com você? – Eu ainda acreditava um pouco no rei. Ainda – Eu... morri...acredito. Ainda tenho um pouco de esperança. Muito pouco.LC7 – Em que ano foi? – Em que ano estamos? – Era... Havia muita agitação. A pergunta é séria e parece apanhá-lo desprevenido. Era... era o frio... o frimário...Agora? Este ano? 1792! Este ano agora... – Em que ano foi isso? Não há como recuar agora, é preciso insistir, a fim de – Frimário.quebrar o círculo mágico que o mantém prisioneiro do tempo,estacionado quase dois séculos atrás. – Bem, mas você pode lembrar-se de acontecimentos [mês da geada, 23/11 a 22/12]que se passaram depois de 1792. Longa e perplexa pausa. – Mas no calendário nosso, – Depois de 1792? Não. Antes, você quer dizer... comum, que ano era? – Quero dizer depois... – Era o frimário ... Traidores! – Antes... Depois? Sobe o nível da agitação dele, que se observa pela Miseráveis!respiração e movimentos com a cabeça, enquanto a crise seprecipita com todo seu impacto emocional. Ele sabe a essa [Aqui, tem-se a impressão de quealtura ser impossível evitar unir as duas pontas soltas na sua Luciano não consegue fazer amemória sem passar por ali, pelo ponto cruciante da sua correlação entre o calendário daexperiência evolutiva – a guilhotina. Procuro fortalecê-lo coma intensificação dos passes e com uma prece, na qual peço para Revolução e o observado noaquele momento crítico o amparo e a proteção dos amigos restante do mundo cristão −espirituais em nome do Cristo. (calendário Juliano, se não estou – Vamos passar rapidamente por esse período – digo- enganado). Isto surpreende,lhe – e vamos a uma época em que seu espírito, perfeitamente porque para um intelectualtranqüilo, encontra-se no espaço. Calma. Tranqüilize-se. Jápassou... Calma... daquela época esse conhecimento É impressionante e dramática a crise que ele revive deveria ser relativamente simples.ali, com o corpo arqueado a emitir um som gutural Percebe-se que a dita formidávelinarticulado, como se não tivesse mais como falar por lhe faltar memória de Luciano dos Anjoso aparelho. Na realidade, apalpa a região da garganta onde não é exatamente conforme se diz]teria descido a lâmina fatal da guilhotina. Tosse e respiraespasmodicamente, como se estivesse vivendo os primeirosmomentos de suprema perplexidade no mundo póstumo, já – Mas isso tudo já se passou. Nãodecapitado. Não durou tudo mais que alguns rápidos segundos. há mais necessidade de ficar aflitoLogo ele começa a respirar em ritmo adequado, enquanto por causa disso. . .continuam os passes e as sugestões pacificadoras. – Traidores! É a ditadura... É a Sua primeira palavra, ainda balbuciante, deve refletirtambém o último pensamento coerente ao saltar a barreira da ditadura!...morte: – Um momento... um momento. – Lucile... Lucile... Depois disso... Tranqüilize-se. Chora, enquanto procuro fazê-lo seguir rumo ao – Eles sabem que eu nãofuturo, de modo a deixar para trás o momento mais agudo da concordo... Eu não concordo! ...crise da morte. Murmura algumas palavras ainda incoerentes edepois: – Lucile, você não merecia... [aparentemente, está
  • 50. Suspira. Seu corpo está relaxado e ele tem novamente teatralizando.]o controle da situação. – Foi horrível – diz ele. – Sim, mas já passou. Você entendeu agora o que – Está bem. Você foi para o mundoaconteceu com você? espiritual. E daí? Quanto tempo – Eu morri... você passou no mundo espiritual. – Morreu, mas está vivo! Seu espírito sobreviveu. – ...Está vendo? Você não está vivo? Está respirando, pensando...Então você é um espírito que sobreviveu à crise da morte.Você está bem, está calmo, perfeitamente normal. Está [Hermínio Miranda tem interesseentendendo agora? em ver a memória de Luciano – Lucile... ampliada, de modo a narrar – Lucile também está viva. Então a gente sobrevive à outros episódios de vidas passadasmorte... e também das entrevidas, porém – Eu estava quase acreditando nisso. – Mas você ainda tem dúvida? Luciano mantém-se firme na – Não. elaboração de seu acreditado – Onde está o espírito dela? Também foi a seu passado como Desmoulins. Emencontro. (Como se sabe, ela foi executada pouco depois, cerca momento algum ele incursionade uma semana.) por outras existências, a não ser – Está comigo – diz ele. superficialmente] – Bem, apesar de você ter achado absurdo, noprincípio, vamos prosseguir, vamos para a frente na suamemória. Que aconteceu depois? – E depois disso você teve alguma Longa pausa. Ele parece ordenar aquilo tudo, outra existência?examinando a soldagem das duas realidades numa só. Não – Não sei.demonstra ter ouvido minha sugestão. Parece despertar, epergunta: – Hem? Que foi? [Mesmo com insistindo Hermínio – Que aconteceu depois que você se encontrou com nada consegue, pois o interesse deLucile no espaço, como espírito? Luciano está centrado em Camille – Não me lembro bem, mas ela ficou de me encontrar. Desmoulins...]E não o encontrou? – Sim. – E para onde vocês foram? – Não sabe? Está bem. Vamos – Para o Brasil. despertar, então? – Fazer o quê? Nesse diálogo, como vimos,A resposta é breve e eloqüente, e traz em si um toque de estamos agora, em plena épocatranscendental poesia. – Viver... revolucionária A referência a – Renascer, portanto. – Renascer – confirma ele. Necker, por exemplo, é – Com que nome você renasceu? extremamente significativa. Nunca – Lucie... (Hesita e corrige:) Luciano. me demorei em grandes leituras – E Lucile? sobre Necker. – Ana Lúcia. (Sua filha.) – Ana Lúcia? Então todos estão novamente reunidos.Não é isso? Está entendendo agora? [Observemos a frase, “nunca me – Luciano – repete ele. – É. demorei em grandes leituras sobre – E você teve outra existência entre aquela que você Necker”, ela mostra, sutilmente,viveu na França e a atual? que Luciano confirma ter Havia ali um bloqueio, e para testá-lo reformulo a realizado leituras sobre apergunta: – Da existência que você teve como Camille até a em Revolução. Só que, no caso deque você renasceu no Brasil, como Luciano, há alguma Necker, não foram “grandesintermediária? leituras”...] – Não sei – é a resposta. – Sabe, sim. Seu espírito sabe. Procure buscar na Sabia, tanto quanto o Hermínio,memória. – Depois apagou-se tudo... Não me lembro. Acho que que ele fora ministro das Finançasnão. Estou bem agora. LC-8 de Luís XVI e personagem de
  • 51. – Agora você está bem. Entendeu bem o problema. grande destaque naquela época.Sabe que a morte não existe, que a gente renasce, que os Necker iria assinar, ao que seespíritos continuam juntos... Não é isso? Você tem consciênciade sua vida como Luciano agora? supõe, a taxação dos cereais. Na – Tenho. Não mudei nada... Em tudo sou igual: nas verdade ele deve ter assinadoidéias, na forma, nas vontades... muitos decretos dessa natureza e – Nos ideais também? nesse mesmo sentido. A – Também... Não mudei nada. informação, portanto, para nós, era Consegui, pois, amarrar as pontas soltas ali, ondehavia uma interrupção, um bloqueio. É como se ligasse um muito vaga, embora em relaçãoplug perdido nos imensos reservatórios da memória integral. àquela época e à pessoa que falavaRestou apenas um inexplicado “branco” de cento e quarenta por mim (se não fosse eu próprio)anos: entre a decapitação, em 1794, e o renascimento no talvez representasse ato de vitalBrasil, em 1933. Como espírito, porém, ele sabe o que se importância.passou, como se depreende da sua maneira de colocar aquestão: “Depois apagou-se tudo...”, diz ele. Pelo exercício A revolta contra a ditadura édeliberado da sua vontade, ele deve ter não “apagado” mas condizente com o pensamento debloqueado e selado num envelope mágico esse período nada Camille Desmoulins. Afinal eleagradável, provavelmente para retomá-lo um dia para reexame fora executado exatamente porque,e reordenação. Creio legítimo depreender-se isto da sua com Danton e outros, pregou aexpressão “Estou bem agora”. Donde se conclui, ainda, que moderação, a indulgência, e dissoesquecer, mesmo que temporariamente, é uma bênçãooportuníssima em situações extremamente traumáticas. É o que tinha sido acusado. Detestava ase observa na experiência diária da psiquiatria, segundo a qual ditadura. Mas sua decapitação nãoa pessoa se aliena – no seu melhor sentido etimológico de se deu no frimário. E como se veráisolar-se – sempre que a pressão de uma realidade penosa se mais tarde Camille não sabia aindatorna insuportável e acaba por romper as estruturas do que havia morrido. Contudo todosequilíbrio emocional. Observe-se ainda a sinceridade, e honestidade de sua esses aspectos acabaram sendo,autocrítica “Não mudei nada...”. Sente-se praticamente o depois, nas semanas seguintes,mesmo Desmoulins, com seus defeitos, virtudes e até a forma, devidamente explicados, ousegundo ele, ou seja, o corpo físico, o que ainda comentaremos corrigidos, quando as sessõesalhures neste livro. passaram a transcorrer em clima Outra pergunta: – Você pode se lembrar agora melhor do meu mais sereno, mas seguro, masespírito? objetivo. – Lembro. Você me ajudou... Sou grato a você. O Hermínio permanecia por – Precisávamos vencer aquela barreira, não é? enquanto sem convicção sobre a – É. Foi horrível ... Eu tive um pouco de medo. natureza do fenômeno. Ele achava – É explicável. A cena da morte ficou tremendamentemarcada no seu espírito. De modo que, quando chegava que não tínhamos ainda nada,naquele ponto, você entrava em pânico. Não tanto pela sua absolutamente nada de probante,morte, mas pela de Lucile. Mas agora tudo passou. nem a certeza de que não se tratava – Nunca perdoarei a Robespierre! de simples manifestação – Você precisa perdoá-lo, por que não? Onde está o mediúnica. Aliás, sua posição eraespírito dele? – Não sei. Ele me traiu. Matar minha mulher e meu intermédiária. Ele admitia quefilho. LC9 (Horace, o filho de Desmoulins, sobreviveu ao estivesse havendo uma conjugaçãocaótico período da Revolução.) muito interessante e rara entre a – Isso tudo é passado hoje. Provavelmente o espírito regressão da minha memória e, dedele precisa tanto de ajuda como o seu precisou, e o meu, em permeio, a manifestação de algumoutras épocas da vida. Temos de tratá-lo com carinho, fazeruma prece por ele... espírito ligado a mim desde aquele – Eu amava Lucile... tempo, por isso mesmo autorizado – E continua amando. por mim a manifestar-se naquele Ri e prossegue: momento. Às vezes esqueço que estou com ela. – Então! Você restituiu-lhe a vida. – Eu que a arrastei a isso! Ela não queria casar [Não podemos deixar de registrarcomigo. o formidável atraso da narrativa
  • 52. – Muito bem, você hoje está em paz, tem um de Luciano em relação a deconhecimento mais profundo desses problemas. Nisso acho Hermínio. Naquilo que, paraque você progrediu bastante em relação à existência anterior,em que você era materialista. Hermínio, seria o 3º encontro, – Não, no final eu tinha dúvidas. Queria acreditar em Luciano já havia revelado seualguma coisa. nome e chorava a morte da esposa – Sim, mas agora você tem certeza. amada. Para Luciano, nessa – Li um livro... Ah! Como era o nome? Livro muito reunião Hermínio Miranda aindainteressante! Eu estava preso. Ora... livro muito interessante...De Harvey. Lucile é que o levou para mim na prisão. Era... estava em dúvida se lidava comMéditations sur le Tombeau. Eu precisava de alguma coisa. autêntica manifestaçãoEstava sozinho, tinha um pouco de medo... Somos todos uns mediúnica. Se não houver outracovardes ... LC10 explicação, só podemos supor que – A morte sempre assusta quando a gente não sabe o aconteceram vários outrosque ela é. – Aquilo me animou um pouco. Eu precisava encontros, os quais não estãoacreditar em alguma coisa, no Além, numa outra vida... relatados no livro. Isto prejudica, – Está aí a prova. mesmo impede, que se possa – Coitada de Lucile! realizar avaliação adequada!] – Ela está bem hoje. Talvez a experiência tenha sidoútil ao espírito dela, como foi ao seu. De qualquer maneira não – Danton... muito mais homem que eu. – Onde está ele? Precisamos depois pesquisar para passávamos de conjecturas. Hojesaber dessas coisas. creio que o Hermínio tinha muita – Não sei. Não sei de ninguém. razão. Seu sentido crítico estava – E precisamos também mergulhar um pouco mais certo, em grande parte. Creio que,nas suas vidas anteriores a essa. na segunda sessão, tratava se de – Danton era um homem! Era meu amigo. Até o fim.Danton... Gabrielle... (Sorri.) mim mesmo, mas falando ainda – E o seu primo? tumultuadamente sobre muitos – Eu tinha tantos! fatos diferentes. A terceira sessão, – Falo do que teve também um papel na Revolução. E porém, deve ter sido, de fato, aque deve ter sofrido decepções tremendas. Qual o nome dele? manifestação mediúnica de um – Meu primo, meu Deus... (Pausa.) De quem vocêfala? espírito ligado à Revolução e a – Um parente seu, que você colocou e que teve mim.também papel preponderante nos acontecimentos, embora Quanto à quarta sessão, tambémsecundário. desse espírito, trouxe a primeira luz – Meu primo? no caminho que nos conduziria à – Seu parente. Não sei se é realmente seu primo. – Ah! Você fala de Fouquier-Tinville? Um crápula! figura de Camille Desmoulins.Primo... Não era meu primo. Primo distante. Meu pai o ajudou.Eu também. Consegui-lhe um lugar. Fouquier... Não veio me [Vimos, no relato de Hermínio,defender. Sofri uma raiva! LCl1 que a revelação sobre Camille – Sim, mas tudo isso é passado, hoje. O que houve Desmoulins ocorreu no 2ºcom a Revolução foi que ela destruiu os melhores homens quetinha e se esvaziou. encontro. Aqui, estamos na 3ª – Mas eu não merecia. Meus amigos todos me traíram reunião e Luciano ainda fala dee me abandonaram. indícios que conduzirão a – Talvez haja uma razão para isso. No estado em que Camille. Parece estar um poucose encontra, hoje, com o conhecimento mais amplo das coisas, atrasado...]você sabe que, provavelmente, é problema que veio de umaexistência anterior. – Não sei... mas não merecia. Lutei... No fundo, eu Não foi logo que se percebeu isso.não queria mal a ninguém. Quis até... Diziam que era uma Mas naquela mesma noite, recor-posição de exploração política, mas quis defender a todos, e dando os fatos e meditandome arrependi de muita coisa. Robespierre não me escutou, não seriamente sobre eles, é que sentime entendeu. Danton era muito atirado, o que atrapalhava umpouco, mas eu queria... Lucile chorava e achava também que estalar a possibilidade. E, muitoera preciso parar. Coitada! Ela era linda! Muito linda! Eu era tempo depois, numa de nossas
  • 53. apaixonado por ela. Ela também gostava de mim. últimas reuniões, eu mesmo, É fato histórico conhecido que Desmoulins tentou solicitado pelo Hermínio,parar a tenebrosa e sanguinária máquina do Terror. Era sanguedemais, mortes demais, sofrimento demais... O apelo à recapitularia os eventos daquele diaclemência, a que ele e Danton deram forma e conteúdo, e confirmaria – agora com calma eprecipitou o fim deles próprios. segurança absolutas – terem falado, – Ela também dedicou toda a vida a você. Teve uma através do meu corpo,coragem muito nobre nos últimos acontecimentos. A atitude alternadamente, eu mesmo,que ela tomou surpreendeu até os homens. – Eu não soube de mais nada. Soube depois. Ela personificando Camillemorreu... Ela disse que estaríamos juntos. Lucile... Ah! Desmoulins, e um outro espírito.Lucile... Você a conheceu? – Não devo tê-la conhecido, pois nessa época eu nãoestava em Paris. – Era uma boneca. Magrinha e linda! – E o seu filho? – Não soube. Disseram-me que ele estava bem. – Não soube da história subseqüente dele? – Não, quase não estive com Lucile depois. – Esteve sim. Decorreram aí mais de cem anos. – Não. Muito pouco. Depois... depois eu nasci. Mas aíeu não sei. – O que você fez nesse espaço de tempo, comoespírito? Tem alguma lembrança? – Não me lembro. Lembro-me antes. Até muito antes. Antesde nascer, em Guise. – Sim? Onde foi? – Antes... Onde foi exato? Não me lembro. Acho quefoi em Reims. Tenho uma vaga idéia. – O que você fazia nessa ocasião? Qual a suaocupação? – Escrevia. – Lembra do nome? – Lembro. – Pode falar? Ou não quer? – Valois. . – Como? – Não me agrada... Valois. – Não estou procurando forçar você a dizer. – Na corte... É... eu escrevia. Fiz coisas horríveis. Nacorte. Prefiro me lembrar de Camille, tentando desfazer aquilotudo. Teríamos oportunidade, mais adiante, de decifrar essemistério, quando, na última sessão de regressão, ele resolveufalar dessa personagem histórica. Por enquanto, aceitamos suasreticências. – Você agora está numa posição espiritual na qualessas coisas são colocadas na exata perspectiva. Você sabemuito bem, como ser encarnado, pelo estudo da DoutrinaEspírita, que isso tudo tem uma seqüência lógica, que os fatosvão se encadeando e que a gente vai progredindoespiritualmente e moralmente. Não é isso? – Deve ser assim... – Então os fatos do passado só interessam como lição. – Muita coisa eu corrigi como Camille. Outras,piorei. A gente não pode ser tudo ao mesmo tempo. Tinha derefazer muita coisa. Eu refiz. Podia ter feito melhor, mas...(Pausa.) Talvez um pouco de vaidade... – Esse é um problema muito sério do espírito... – Meu pai, não o vi mais também. Minha mãe...
  • 54. Madame Darrone... Não vi mais ninguém. – Provavelmente esses espíritos estão todos por aí, emrecuperação, em outras lutas, com outros problemas ... Sorri e repete um nome: Madame Darrone... – Quem é madame Darrone? – Madame Duplessis... Eu que a chamava de MadameDarrone. LC12 – Ah, sim. Sua sogra. Você sabe que ela ficou comum escrito seu? Um documento que você escreveu na prisão...uma defesa. Não sei por que razão... Embora você o tenhaatirado aos pés daqueles homens que o perseguiam, essedocumento foi parar nas mãos dela. – Não me deixaram. Onde está ela? MadameDarrone... Era linda! Lucile tinha muito dela. – Seu sogro, o que fazia? – Trabalhava na Fazenda. – Era alto funcionário lá? – Era. Fazenda Pública! – O que você foi pedir a ele em favor de um tio meu? – Ah! Um aval. – Era tio meu, ou irmão? – Tio. – Tem certeza? – Tio. – Qual o sobrenome? – Era Browning. Lembro bem. Seu tio. – Você me viu, depois, em outras ocasiões? – Deixa-me lembrar como foi. (Pausa.) Foi isso: eraum aval. O Mirabeau, você conheceu, era meu amigo. Depois,também brigamos, mas no princípio era meu amigo. Ele é queo conhecia, não e? – Provavelmente conheceu meu tio e a mim quandoera garoto. Vivi muitos anos naquela existência. Até 1866. – Fui pedir ao meu sogro... Ele tinha prestígio, tinhadinheiro... – Muito bem, Luciano. Por hoje chega. – Tenho um receio... Estou falando com você do alto. – Você vê aqui à volta? – Vejo, mas tenho medo... É que eu estou em cima.Tenho medo de ficar em cima... (Ou seja, de não retomar aocorpo físico.) – Vamos, então, retomar. Você sabe perfeitamentevoltar. Já experimentamos isso mais de uma vez. – Mas estou muito distante... Com os passes de dispersão em poucos instantes eleestava de volta ao corpo físico, na plena posse de suasfaculdades habituais. A vida sem o corpo ainda o assustava,pelo que se vê. Deve mesmo ter passado horrores no mundoespiritual...LEITURA COMPLEMENTARLC-6 – “(...) largar tudo pra lá e viver para a minha família(...)” Essa regressão parece ir encontrá-lo precisamente nomomento em que está tentando reavaliar tudo aquilo que faz evê fazer. Valeria a pena? Os riscos, a agitação, os rancores, ostumultos, as aflições, as incertezas, os temores... Há um momento na vida de Camille que parece ser
  • 55. precisamente esse. É ele um dos representantes dos cordeliersna Assembléia, mas começa a rejeitar tudo aquilo: Após essa tarefa de ódio, “escreve Arnaud, ao referir-se à sua violenta e fatal diatribe contra Brissot”, Camilleabandonou a “carreira atlética”. Não participa mais dasreuniões da Assembléia e, não tendo mais jornal, perdeu ohábito de tomar certas iniciativas. Não era visto mais com amesma freqüência nos cordeliers nem nos jacobinos. Nãoescrevia mais, não denunciava mais, não insultava mais.Parecia satisfeito em levar vida fácil, em ambiente confortável,entre a mesa bem servida e seu leito de damasco azul. Recebiaos amigos à rua do Teatro Francês, ia ao encontro deles nocafé, levava-os a Bourg-la-Reine para reuniões festivas, iajantar com Lucile e a levava aos espetáculos. Parecia que essetipo de existência fizera-o abandonar os sonhos de glória eperder o gosto pelo escândalo e o ruído. Ele próprio: Luciano/Desmoulins, me diria poucoadiante que não nascera para aquilo e sim para fazer versos.LC-7 – “(...) Ainda tenho um pouco de esperança (...)” Uma coerência não pode ser negada a Desmoulins: ade ter sido radical e dec1aradamente republicano desde oinício, mesmo quando muitos, senão todos, só podiamconceber uma estrutura política renovada, é certo, mas aindaencabeçada pelo rei. Em 1792 o sentimento de hostilidade ao rei vai numcrescendo incontrolável e em agosto o povo invade asTulherias, e toda a família real é retida como refém. Emsetembro, nova agitação de rua caça a Princesa de Lamballe,amiga pessoal da rainha, e lhe corta a cabeça, além de outroshorrores inenarráveis. No dia 21 desse mesmo mês a realeza éformalmente abolida por decreto da Convenção Nacional emsua primeira reunião. Era o começo do fim. Em novembroabre-se o processo contra o rei, que se arrasta angustiosamenteaté 21 de janeiro de 1793, data em que Luís XVI éguilhotinado às 10h22min. Que alguém tão profundamente envolvido noprocessus da Revolução como Camille Desmoulins pudesseainda admitir, em 1792, a possibilidade de manter-se o regimemonárquico constitui inequívoco testemunho de lucidezpolítica, especialmente porque Desmoulins nunca fez segredode sua aversão aos ocupantes do trono, fossem eles quaisfossem. No seu terrível libelo constante de La France Librepoucos são os reis que escapam à sua palavra causticante edemolidora, como se, no dizer de Arnaud, visse “apenas suastorpezas, rejeitando ou ignorando todas as grandezas”.Philippe, o Belo, é “um falsário, moedeiro falso, insaciável dedinheiro e de poder, um tirano (...)”. Seus três filhos esucessores são “herdeiros da sua cupidez”. Philippe de Valois– um dos seus antepassados, ao tempo em que foi o DuqueCharles d’Orléans –, “um assassino e também um moedeirofalso”, além de “ingrato, violento e insaciável publicano”.Carlos V, seu antigo avô (de Charles d’Orléans), é um débilmental, Luís XI, seu primo naquelas remotas encarnações,“parceiro de carrascos, mandava prender jovens príncipes emcelas pontudas e os retirava de lá, de três em três meses, para
  • 56. lhes arrancar, um a um, os dentes (...)”. Francisco I, “príncipeiníquio, simoníaco, déspota, insolente e orgulhoso, levou aFrança à beira do precipício pela sua imperícia, arruinou a comsuas prodigalidades e a corrompeu com seus escândalos”.Henrique II arrasta-se aos pés de sua envelhecida amante:Francisco II leva o país à bancarrota. Quem o sucede é CarlosIX, “um monstro que extermina oitocentos mil súditos e suasesposas”. Preservou apenas raras imagens históricas, como ade Luís XII, que fora seu filho, como se verá mais adianteneste livro.LC-8 – Bloqueio mental Encontramos nesse ponto um bloqueio que não foipossível vencer. Tentei algumas vezes, mas decidi não insistirmais, respeitando as razões da sua recusa, quaisquer quetenham sido. Parece legítimo supor que o período inicial, nomundo póstumo, logo em seguida à decapitação, tenha sidoextremamente penoso e alienante. Ele morria jovem, com acabeça cheia de sonhos grandiosos, o coração envolvido nasemoções profundas de verdadeira paixão pela esposa, tambémjovem, além de bonita e inteligente. Ficava ela entregue à suaprópria sorte com um filho ainda infante. Ademais, erasimplesmente caótica a conjuntura político-social. Sentia-setraído, desrespeitado, humilhado, tratado como vulgarcriminoso, caçado como um facínora por ordem expressa deum dos seus próprios amigos: o terrível Robespierre. Umespírito com essa carga emocional não teria mesmo a mínimacondição de sentir-se pacificado, lúcido e feliz no mundopóstumo. Não seria, pois, de se admirar que permanecesse porum tempo mais ou menos longo em estado de angústia e atémesmo de confusão mental. Acontece, porém, que, sob as maisterríveis pressões de acontecimentos espantosos, nossodispositivo de videoteipe continua implacavelmente afuncionar e a registrar, como temos testemunhado em inúmerasoportunidades. Além do mais, Luciano nos evidencia sualucidez pelo menos ao cabo de algum tempo, ao contar seuencontro com Lucile também na condição de Espíritodesencarnado, e a decisão que tomaram de se reencarnaremjuntos no Brasil, desta vez como pai e filha. No meu entender,portanto, ele apenas se recusa, provavelmente por prudênciaque respeitamos, a exibir o replay desse trágico período que seestendeu por cerca de século e meio.LC-9 – “Ele me traiu. Matar minha mulher e meu filho (...)” Robespierre foi implacável com todos os quesacrificou às suas ambições pessoais ou aos seus rancores. Nomesmo dia em que Camille foi guilhotinado, Lucile foi presa –5 de abril de 1794, ou, pelo calendário da Revolução, 15germinal. Nove dias após, no 24 germinal, às 6h da tarde, elafoi também executada, juntamente com o General Dillon eoutros. Horace, nascido em 6 de junho de 1792, nãocompletara ainda 2 anos de idade. Arnaud relata, comsobriedade, a melancólica cena no apartamento da famíliaDuplessis, à noite, logo após a decapitação de Lucile. Láestavam dois velhos e duas senhoras, chorando ao lado de umacriança. Eram o Sr. Desmoulins e o Sr. Duplessis, MadameDuplessis e Adèle. A criança era Horace. A família de Lucile,
  • 57. ou melhor, o que dela restou, estava agora atirada à indigência,segundo expressão do deputado Goupelleau, que conseguiu doConselho uma pensão para o filho de Camille Desmoulins.Pensão, aliás, que nunca foi paga. Tiveram de vender a amadapropriedade em Bourg-la-Reine. Os dois velhos não conseguiram sobreviver por muitotempo à dor. Madame Duplessis e Adele se incumbiram decriar e educar Horace. O menino matriculou-se, como seu pai,no Colégio Louis-le-Grand, que se chamava agora o Prytanéede Paris. Passou depois ao Santa Bárbara. Após concluir seusestudos de direito e prestar juramento, “não quis permanecernum país onde seu pai e sua mãe haviam sido guilhotinados”. Partiu para a América, “prossegue Arnaud”, instalou-se em São Domingos, onde, após ter-se casado, morreu em1825. No seu livro, publicado em 1928, Arnaud informa quea viúva de Horace, por nome Zoé Villefranche, vivia ainda “hácerca de quarenta anos”, ou seja, aí por volta de 1888, e quesuas duas filhas tiveram numerosos filhos. Por fim, mais uma severa palavra com a qual Arnaudencerra seu estudo biográfico: Como Horácio, que aceitou a condecoração do Lys(Lírio, símbolo da realeza em França), eles não devem saberexatamente como foi a vida turbulenta de Camille Desmoulinse ignoram, sem dúvida, todo o mal que nos vem dele, o poucode bem que, num momento de corajosa clarividência, eletentou fazer.LC-10 – “Somos todos uns covardes (...)” A despeito da indiferença ante a morte, queaparentava em seus escritos, “declara a EnciclopédiaBritânica”, Desmoulins demonstrou pouca coragem porocasião da sua morte, em agudo contraste com a brava e dignamorte de sua esposa uma semana após. A linguagem da Enciclopédia é sóbria e discreta,como convém. Alguns dos seus compatriotas, contudo, nãoderam esse tratamento ao episódio. Já nem recorro aqui aArnaud, cuja opinião sobre Camille conhecemos. Vejamos,contudo, Michelet, mais moderado. Era com o povo mesmo que mais contavaDesmoulins, “escreve ele, à página 807 e seguintes da EdiçãoPlêiade”. O autor do Le Vieux Cordelier sentia-se amado,bendito. Tinha consciência de ter sido a voz do povo e sua féno povo era total. Deu sobre a carreta o mais extraordinárioespetáculo, agitando-se e obstinando-se em acreditar quejamais a França poderia abandoná-lo. “Povo! Pobre povo!”,gritava ele. “Enganam-te!... Matam teus amigos!... Quem techamou à Bastilha? Quem te deu a insígnia com as coresnacionais? Eu sou Camille Desmoulins!” Contudo o espetáculo evocado parece comover opróprio autor, da mesma forma que comoveu a muitospopulares que não suportaram a trágica cena.
  • 58. Muitos fugiram, “escreve Michelet”, crendo ver aPátria arrancar seu próprio coração. Desmoulins diria, cento e setenta e três anos depois, jámergulhado na vida como Luciano, que “todos somos unscovardes (...)”. Em realidade, porém, não era só covardia, eratambém a revolta, a angústia do desespero, a frustração daimpotência, a decepção ante a indiferença do povo pelo qualele estava certo de haver lutado tanto... “O povo é ingrato eesquece depressa” – ele me diria ainda, em outra oportunidade.O problema, porém, é que ele morria ainda muito jovem,deixando entregues à sanha de seus implacáveis adversários aesposa amada e o filho infante. Deixava também seus sonhos,suas esperanças e aquilo que, a seu ver, era uma das maiorescontribuições à história da França, quiçá do mundo. Em vez deficar imortalizada no panteão da glória em bustos de bronze,sua cabeça ia rolar em poucos minutos dentro de um cestosangrento...LC-11 – “Fouquier... não veio me defender. Sofri uma raiva!” Antonie-Quentin Fouquier-Tinville foi uma figuratenebrosa. Nasceu em 1746, em Hérouel, mesmo departamentode Aisne onde nasceria, quatorze anos depois, seu primo, emsegundo grau, Camille Desmoulins. Gérard Walter entende que ele foi “apenas o lacaioobediente do governo”, o que praticamente o redime de sualonga série de horrores. Para ficarmos, contudo, ao abrigo de opiniõesextremadas, seja para agravar suas culpas, seja para exculpá-lo,vejamos o que diz dele a Enciclopédia Britânica:Ele era tão implacável e incorruptível como o próprioRobespierre; ninguém o demovia de seus propósitos, seja pelapiedade, seja pelo suborno. Sua desapaixonada impassibilidadefez dele eficaz instrumento do Terror. Não tinha eloqüênciajurídica, mas a fria obstinação, com a qual expunha suasacusações, era mais convincente do que qualquer tipo deretórica, e raramente ele deixou de conseguir uma condenação. Por isso, agüentou dezessete meses no seu posto, umverdadeiro recorde naquela época angustiante. Durou até queRobespierre fosse também preso, julgado e condenado com amesma rotineira frieza de sempre. Junto com Robespierre veioum homem que Fouquier detestava cordialmente, por nomeDumas, que, no dizer de Walter, “Robespierre transformou deobscuro advogado na própria encarnação do Terror”. O mesmoWalter diz que Fouquier “deve ter experimentado particularsatisfação em requerer contra ele (Dumas) a aplicação da lei”. Fouquier foi investido de poderes praticamenteilimitados pela Assembléia e pela Comuna. Embora as prisõesse fizessem sempre mediante decreto do Poder LegislativoRevolucionário, cabia a Fouquier o exame prévio do dossiê decada um, na sua qualidade de Acusador Público.Competia-lhe, “escreve Walter no segundo volume da Histoirede Michelet (à página 1.385 e seguintes)” dar a palavra final,
  • 59. uma vez que era quem decidia, após examinar o dossiê, se osuspeito deveria ou não ser levado ao tribunal revolucionário. Além disso, acompanhava o julgamento, ou melhor,aquele lamentável ritual que levava esse nome. Podia interferirno diálogo sempre que lhe parecesse oportuno e necessário, ouinterpelar o acusado e as testemunhas. Se o júri decidia pelaconfirmação da culpa – real ou imaginária, não importa –,cabia-lhe tomar as providências decorrentes, ou seja, pôr emação a tremenda rotina da execução pública. Gostava semprede saber se haveria bastante gente na praça para assistir aoespetáculo... Se o acusado era julgado sem culpa, o queraramente acontecia, ele tinha poderes para impedir sualibertação, mantendo-o preso como medida de segurança. Em 1º de agosto de 1794, quatro meses apósprovidenciar diligentemente o julgamento e a execução de seuprimo Camille, ele próprio foi preso. Cometera um erro fatalao propor, logo após a morte de Robespierre, seu próprio nomepara o cargo de Acusador Público na reestruturação que entãose cogitava para o Tribunal. Pensava, com isso, agradar osnovos donos do poder, mesmo porque, obviamente, gostava dasua função. Parece que os novos líderes temiam-no também,por saberem que a qualquer tempo Fouquier poderia mandá-lospara a guilhotina com a mesma dura e fria eficiência. Mas ele não foi julgado imediatamente. Nos oitomeses que ainda passou preso, escreveu suas memórias, com oobjetivo principal de justificar-se, defendendo a mesma teseque apresentaria perante o Tribunal: “Fui apenas umaengrenagem dócil e submissa à ação do mecanismo dogoverno.” O julgamento, afinal, perante o novo Tribunal durouquarenta e um dias, segundo a Britânica, ou trinta e noveconforme Walter. Fouquier portou-se com a mesma frieza desempre. Defendeu-se com notável habilidade, presença deespírito e sangue frio. Sustentou seu depoimento cominabalável firmeza perante um auditório hostil, e discutiu echicanou minuciosamente cada acusação ou testemunho. Perante a guilhotina, após ter sido insultado à vontadepela multidão enfurecida, escreve Gérard Walter... (...) esperou imperturbavelmente a queda da décimaquinta cabeça. Em seguida, subiu os degraus com passo firme,apertou a mão do carrasco (seu velho companheiro) eacomodou a sua própria (no cepo). Segundo informa César Burnier, com o apoiomediúnico de Chico Xavier, Fouquier teve uma breveencarnação de quatorze anos no Brasil, “encarcerado naimbecilidade e na paralisia”. Ao morrer, em Pedro Leopoldo,lhe teria sido concedida uma “moratória de cinqüenta anos noespaço, após o que voltará à Terra em nova jornada”. A História ficou em dúvida quanto ao engajamento deFouquier como “engrenagem obediente e submissa” do Terror,ou seja, como ele conseguiu chegar lá. Gérard Walter achapossível que tenha sido Camille Desmoulins, seu primo, quemlhe proporcionou essa oportunidade, quando de sua função deSecretário-Geral do Ministério da Justiça, ao tempo de Danton.
  • 60. Como Luclano espontaneamente confirmou essaversão, creio decidida a incerteza histórica. Não é, pois, semrazão que Desmoulins se lembraria, ainda com horror eamargura, da gelada indiferença de Fouquier pelo seu destino. Ao que parece, ele nem soube da carta que seu paiescreveu a Fouquier. Embora Camille tenha tido seusproblemas com o velho Desmoulins, pai é sempre pai!Vejamos o texto que consta do livro de Ferdinand Laboriau: Cidadão compatriota, Camille Desmoulins, meu filho, digo-o por convicçãoíntima, é um republicano puro, um republicano por sentimento,por princípios e, por assim dizer, por instinto. Ele erarepublicano na alma e por gosto antes do 14 de julho de 1789;ele o tem sido, depois, por efeito. O perfeito desinteresse e oamor à verdade, suas duas virtudes características, por miminspiradas desde o berço e por ele praticadas invariavelmente,sempre o mantiveram à altura da Revolução. Será verossímil, não será mesmo absurdo, acreditarter ele mudado de opinião e renunciado ao seu caráter, às suasafeições pela liberdade, pela sabedoria do povo, ao seusistema, ao sistema de seu coração, no momento em que o votodele, bem conhecido e pronunciado, tinha os mais brilhantessucessos; no momento em que havia combatido e vencido acabala dos Brissot; no momento em que ele desmascaravaHébert e seus aderentes, autores da mais profunda conjuração;no momento em que devia acreditar a revolução terminada ouprestes a sê-lo, e a sua República estabelecida pelas nossasvitórias sobre os inimigos dela, tanto do interior como doexterior? Bastariam essas inverossimilhanças para afastar demeu filho até a sombra de desconfiança e, entretanto, ele sofreos horrores de uma acusação tão grave, que creio caluniosa. Preso ao meu gabinete pelas minhas enfermidades,sou aqui, pelos cuidados que tomam todos em mo ocultar, oúltimo a saber deste acontecimento próprio a alarmar o maisfranco patriota. Cidadão, só te peço uma coisa, em nome da justiça eda pátria, pois o verdadeiro republicano só elas reconhece: éperscrutares por ti mesmo, e fazer perscrutar pelos jurados,toda a conduta de meu filho, e a de seu denunciante, seja elequem for; saber-se-á logo quem é o mais verdadeiramenterepublicano. A confiança que tenho na inocência dele faz-meacreditar que essa acusação será um novo triunfo tãointeressante para a República quanto para ele mesmo. Saúde e fraternidade da parte de teu compatriota econcidadão Desmoulins, que ate aqui se tem honrado de ser opai de Camille, tido como o primeiro e mais inabalávelrepublicano. O comovente apelo foi totalmente inútil, mas ninguémlhe negaria os qualificativos de eloqüente, sincero e digno.Note-se que o velho Desmoulins não invoca o grau de
  • 61. parentesco nem os favores que o tenebroso primo lhes devia. Tudo inútil. O julgamento é uma farsa dolorosa. Adespeito de seu temperamento desabrido e dos erros quecometeu, ninguém poderia negar a Camille Desmoulins anitidez de sua postura republicana, desde a primeira hora. Umadas aflitivas ironias daquela época trágica está precisamenteem haver sido Camille condenado e executado sob a acusaçãode ter traído os ideais republicanos.LC-12 – Duplessis Claude-Etienne Duplessis-Laridon era casado comAnne-Françoise Marie Boisdeveix Duplessis-Laridon, pai deduas filhas encantadoras – Anne-Louise ou Anne Lucie ou,melhor ainda, Lucile, futura Madame Desinoulins, e Adèle,com a qual Robespierre desejou se casar. O Sr. Duplessis era alto funcionário do Ministério daFazenda. Gérard Walter informa o título oficial: “Prémiercommis du Contrôle général des Finances”. Embora num deseus artigos – no número 6 de Vieux Cordelier – Camille serefira ao sogro como “le citoyen Duplessis, bon roturier, et filsd’un paysan, maréchal ferrant du village” (“o cidadãoDuplessis, bom plebeu, e filho de um campônio, ferreiro davila”), o certo é que a família tinha suas aspirações, senão ànobreza o nome Duplessis foi adotado por essa razão – pelomenos à burguesia de mais elevado status. Dizia-se maldosamente que ele devia sua confortávelposição burocrática aos encantos de sua belíssima esposa, e atéque Lucile nem era sua filha legítima. Que Madame Duplessisera bela e que tinha muitos admiradores fervorosos – inclusiveo próprio Camille Desmoulins – não há dúvida, mas seucomportamento parece irrepreensível. O problema é que seumarido era bem mais velho do que ela e não tinha o mínimogosto pelas frivolidades sociais, os saraus lítero-musicais tãoem moda naquele tempo, e, por isso, dedicava-se inteiramenteao seu trabalho e, quando em casa, encerrava-se nos seusaposentos, enquanto a Sra. Duplessis recebia amigos e amigasnos salões iluminados para uma conversa inteligente, umpouco de música e poesia. No dizer de Arnaud, era “um velhorabugento” que não entendia bem o temperamento de Lucile enem sequer fazia questão de entender. Quanto a Camille, foiainda mais hostil e resistiu à idéia de concordar com ocasamento dele com a filha. Sejamos tolerantes com o velho Duplessis. Camilleera de fato uma figura estranha. Mesmo a EnciclopédiaBritânica, que se esmera em informar sem opinar, diz isto deCamille: “Seu sucesso profissional não era grande; seusmodos, violentos, sua aparência, sem atrativos, e sua fala,prejudicada por uma penosa gagueira.” Algo aturdido quandoviu Camille a seus pés, num gesto dramático, a pedir-lhe a mãode Lucile, acabou concordando hesitantemente, com o que nãoestava de acordo Madame Duplessis. Por fim ambos cederam,já que Lucile também acabara aceitando Camille que, aprincípio, ela nem soube entender, apesar da suaimpressionante precocidade intelectual. Mesmo concordando, porém, e atribuindo à filha um
  • 62. dote sensacional de 100 mil libras (francesas), equivalente a125 mil dólares de 1967, o velho Duplessis fez questão detodas as formalidades legais e tradicionais para o casamento,como consentimento expresso e autenticado em cartório, dospais de Camille, casamento religioso (católico), tudorigorosamente segundo os costumes. Suas exigências causaram não poucos dissabores aCamille, como ainda veremos, principalmente porque o jovemrevolucionário era visceralmente anticlerical e algunssacerdotes mais formais aproveitaram-se da ocasião parasubmetê-lo a alguns vexames, exigindo abjuração de seusescritos e confissão de fé. Com o tempo, não obstante – e como foi curto essetempo! –, o Sr. Duplessis tornou-se não apenas maiscompreensivo em relação ao seu turbulento genro, mas atémesmo seu admirador. Quando, em momento de grave crisepolítica, Camille escapou para a propriedade da família, emBourg-la-Reine, o Sr. Duplessis, já nomeado oficial da GuardaNacional, declarou que defenderia militarmente qualquertentativa de seqüestro contra Camille c seus amigos aliabrigados. Já bem idoso – não consegui apurar a data de seunascimento –, sobreviveu juntamente com Madame Duplessisà filha e ao genro, ficando nas mãos do desolado casal o netoHorace, com menos de dois anos de idade.Arnaud informa que mme. Duplessis não gostava do nome domarido – Laridon –, e foi ela que o teria levado a acrescentar oDuplessis, muito mais distinto. Em algumas oportunidades, elaassinou Laridon-Duplessis, mas desde que se casou fez questãode ser unicamente Madame Duplessis. Vejamos a 4ª reunião: RELATO DA 4ª REUNIÃOHERMÍNIO MIRANDA LUCIANO DOS ANJOS5. O QUANDO E O ONDE p.365... A reunião seguinte foi realizada em 9 de junho de 1967. O Vejamos, porém, o desenrolar da quartatape guarda o diálogo que a seguir reproduzimos, com os sessão. Estamos na semana seguinte. E foicomentários habituais. quando, afinal, surgiu o acontecimento mais – Está se sentindo bem, Luciano? – pergunto eu. – importante, no quadro até aqui traçado.Onde você se encontra no momento? Lamentavelmente, não temos a gravação – A um metro mais ou menos de nós. Acima... Não dessa sessão. Tendo o Hermínio ido,posso olhar para baixo; às vezes, uma espécie de atração me naquela mesma semana, a Volta Redonda,deixa inseguro. gravou, por descuido, outra sessão em cima – Você já sabe que o processo não oferece riscos. da faixa do nosso diálogo. – Parece que vai descer e depois sobe. É claro que ele ainda experimenta algum temor em [Temos uma questão confusa aqui.afastar-se do corpo, provavelmente devido à traumatizante Luciano diz que a gravação deste encontroexperiência da decapitação. Ele próprio tenta explicar: se perdeu, Hermínio cita textualmente a – É que eu estou numa situação diferente. existência do “tape”. Apesar de que, há – Sim, é uma situação nova para o espírito. (O grande incerteza sobre se os autores estãodesprendimento consciente.) falando do mesmo encontro, tamanha a
  • 63. – Não sei se estou aqui ou ali – continua ele. (Isso é discrepância entre o que é dito por um everdadeiro também, porque nos estados superficiais a outro. Seja como for, a palavra deconsciência fica como que dividida, ou melhor, partilhada Luciano só traz mais confusão a essepelo corpo físico e pelo perispírito.) quadro já tão desordenado! – Devo ficar calmo – diz ele para se tranqüilizar. –Deus nos ajudará. É certo que na reunião de 1/9/1967, que As sugestões apropriadas são dadas. será comentada adiante, ambos – Você vai readquirir o conhecimento acumulado concordam que o gravador apresentarasobre a existência anterior e vamos desenvolver o plano que falha, mas Luciano fala aqui, neste 4ºcombinamos, segundo o qual você vai relatar desde a infância encontro, que a gravação fora realizada eessa existência, para que possamos coligir o material para um depois perdida acidentalmente, coisa datrabalho sério, um trabalho importante. qual Hermínio Miranda não faz qualquerQuando ele retoma a palavra, após nova pausa, somos menção.]surpreendidos com inexplicável fenômeno de gaguez. Falacom dificuldade, espaçando muito as palavras e hesitando Não obstante, num esforço de memóriacom um sibilado em algumas que ofereçam maior obstáculo. conseguimos recordar, em resumo, seus – Não tenho uma clareza muito grande. Prefiro que você pontos essenciais. Isto veio a ocorrerpergunte e vou localizando, senão tumultua. posteriormente, em uma de nossas Novas sugestões de relaxamento e tranqüilidade, derradeiras reuniões, enquanto me achavasimultaneamente com os passes longitudinais. Ele sabe que, inconsciente. Recapitulei, conforme jáseu espírito está preso ao corpo físico por fortes laços disse, durante novo transe e a pedido domagnéticos. Hermínio, os lances principais da sessão – Não vejo (isso) – diz ele. – Mas Deus vai nos ajudar. perdida. Declara ainda não ver os amigos espirituais que nos Logo ao estirar-me no sofá, iniciou oajudam na tarefa, mas está convicto da presença deles. Hermínio seu comando. Depois dos – Essa coragem, pelo menos, eu tive – comenta ele. minutos habituais, comecei a entrar em Damos início, pois, às perguntas. transe, de mistura com algumas imagens – Onde é que você nasceu? que me iam aflorando à mente. Antes – explica ele – eu estava nos locais e era mais Pela primeira vez eu estava vivendo umfácil e mais rápido. Agora, você tenha um pouco de paciência processo um pouco diferente dos trêsse me demoro mais, porque tenho que recordar. Agora é anteriores.diferente. Tenho tudo, tudo, tudo, na memória. Tenhapaciência. [confirma que esta é a 4ª reunião] Destaco sua observação de que nas duas sessõesanteriores – bem como naquela primeira à qual consideramos É que, antes mesmo de entrar namero teste de suscetibilidade – ele estava lá, mas agora se vê inconsciência, pude mentalizar,obrigado a recorrer aos arquivos da memória. Este ponto, de perfeitamente, enquanto se iniciava ofundamental importância, é reiterado em várias oportunidades formigamento e a insensibilidadede nossa pesquisa, como ainda veremos, mas não constitui progressiva, a seguinte cena: alguém estavanovidade, pois o mesmo fenômeno foi observado nas deitado numa cama. Parecia doente. Muitopesquisas do coronel de Rochas, conforme consta de sua mal. Eu o estava observando, meioexcelente obra Les Vies Successives, extensamente preocupado e nervoso. O ambiente era decomentada por mim no meu livro já citado A Memória e o tensão, de expectativa, de necessáriaTempo. Escuso-me, pois, de repetir aqui considerações que cautela, talvez mistério. O doente parecia,nos afastariam do nosso roteiro específico. Basta ressaltar, de vez em quando, diz-me alguma coisa.para que fique bem claro, que há uma diferença fundamental Súbito senti-o como se a cena fosse real eentre estar lá e recordar-se Por isso, na parte meramente estivesse transcorrendo naquele exatoespeculativa de meu livro, lembro que o tempo é também um momento –, alguém bateu à porta. Ele selocal, ou, para dizer de outra maneira, a memória fica na mexeu, ligeiramente, no leito e ficou deinterseção de tempo e espaço, ou ainda, conforme lemos em ouvido atento. Voltei a cabeça em direção àA Grande Síntese: “no ponto em que o onde se transforma em porta e me levantei para ir abri-la. Nesse atoquando”. de levantar, aconteceu a surpresa: a imagem Voltemos a Luciano. se evaporou completamente e só vim a – Por que você sabia antes e não sabe agora, senão saber do resto através da fita magnética.com um esforço maior? A que você atribui isso? – Eu estava no local. Agora estou aqui, lembrando-me do [Vimos, linhas atrás, que a fita se perdera.local. Entende? A não ser que eu vá lá. Mas não queria, por Aqui ela reaparece. Pode ser que Lucianoenquanto. Nasci em Guise, departamento de Aisne, na França esteja se referindo a outra fita magnética,Setentrional. Sabe onde é? Foi lá que eu, nasci. Data? Deixe pois ele informa que ao final daeu lembrar... 2 de março de 1760. experiência gravaram sessão especial, na
  • 64. Como ele enfrenta grande dificuldade para falar, qual ele, em transe, recordou os principaisadvirto-o com uma palavra de cautela: pontos deste encontro. Mas, há uma coisa – Você acha que está fazendo muito esforço para estranha aqui: a frase de Luciano nãoisso? Não podemos cansá-lo. parece referir-se à pretensa fita gravada – Não me cansa. Não sei o que é... Porque eu falo do em segunda mão. O jornalista,alto... aparentemente, esqueceu do que disse há – E tem que transmitir ao corpo. pouco e fala da fita perdida que, neste – É. Isso sim que faz... não sei por quê. ponto, não está mais perdida... Não – Descanse um pouquinho agora. À medida que queremos insistir muito nesta linha deformos progredindo no trabalho você irá aprendendo a raciocínio, para evitar sermos acusados decontrolar o processo de tal maneira que vai melhorar seu excessiva severidade na análise. Desistema de comunicação. qualquer modo, que está confuso, isso – O corpo reage, mas não sinto. Pode espetar está!](agulha) se você quiser. Pode espetar. – Mas não podemos exagerar para você não se Passei a falar como se fora o enfermo! Istocansar fisicamente. Vamos prosseguir. Então foi em Guise, é, “no lugar” do enfermo, vivendo o papelno Aisne, em 2 de março de 1760 que você nasceu. Como se do enfermo. Estava aflitíssimo e indagavachamava seu pai? se era o Dr. Richard o visitante que acabara – Jean Nicolas Benoist Desmoulins. Minha mãe? de chegar. Perguntava, nervoso, se oMarie Madeleine Godart. Hermínio era o Dr. Richard. Intensifica-se a inibição da gagueira, ou melhor, nãouma gaguez daquelas que ficam a repetir a mesma sílaba, mas [Esse Dr. Richard aparece na sessãode outro tipo, que se demora na primeira letra de cada palavra seguinte, no relato de Hermínio Miranda]e de repente solta o resto num esforço espasmódico. Assim:MMMMMM... arie MMMMM... Madeleine ... O Hermínio acabou dizendo que não, mas – O que fazia seu pai? que era “um amigo do Dr. Richard”. O – Era advogado da Corte, em Guise. espírito estava convicto de que o Hermínio – O que fazia um advogado da Corte naquele era a pessoa que batera à porta e que entraratempo? na casa. Mas ele também se dirigia a um – Meu pai era do Bailliage. Sabe o que é? Uma outro personagem que... estava sentado aojurisdição. Era Lieutenant Général. Você não entende, você seu lado’ na beira da cama e com quem, aténão conhece. É que havia uma jurisdição, entende? E os então, parecia conversar. Pe:guntou aoproblemas jurídicos da Corte, nos departamentos, eram Hermínio por ele, pois tinha sido quementregues a uma espécie de delegados. LC-13 abrira a porta ao Dr. Richard (mais – Sei. Como você falou em “tenente-general” pensei precisamente, ao “amigo” do Dr. Richard: oque ele tinha também um posto militar. Hermínio)., Insistiu para saber onqe tinha – Não. É que era um général, geral. ido essa pessoa; tinha Um recado a dar-lhe. Ou seja, a palavra general, aí, é mesmo francesa e se E, afinal, declinou o nome dela: Camilletraduz em português por geral. Desmoulins-pai era, portanto, Desmoulins. O recado era para que Camilleum magistrado da Corte em Guise. publicasse em seu jornal uma advertência – Geral, civil... Era uma divisão... – prossegue ele. – sobre nova lei que estaria prestes a serOs Lieutenants podiam ser geral, civil, ou policial. Meu pai assinada. Não me lembro se o espíritoera Lieutenant Général Civil. referiu essa lei. O Hermínio (o “amigo”. do – Sim. Vamos repousar um, pouco. (Pausa.) Ele Dr. Richard) prometeu dar o recado. Otinha fortuna própria, era homem de recursos, ou mais diálogo se prolongou ainda por algunsmodesto? minutos, acabando o espírito por xingar o – Não, meu pai tinha algum dinheiro, não muito. Hermínio, pois começou a desconfiar deMas era muito... muito... como se diz, muito seguro. Não que se tratasse de algum inimigo, simulandogostava muito de dar, mas tinha recursos, sim. ser amigo do Dr. Richard, pronto para Em outras palavras, o velho Desmoulins era um delatá-Ia. e que o Hermínio tentou saber otanto pão-duro... nome do enfermo e isso o deixou – Você tinha outros irmãos? desconfiado. Dizia, então, em meio a – Tinha. Éramos... (Conta mentalmente em voz grande ódio;baixa:) Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete ... Sete! LC-14 – Seu porco! Você quer me entregar! – Sete com você ou você e mais sete? Acabou a sessão e despertei, como de – Não. Havia uma que morreu muito pequena. hábito (embora mais prevenido e maisHenriette. Tinha 9 ou 10 anos quando morreu. Ficamos sete. preparado), sentindo os mesmos sintomas – Eram todos homens? de sempre. O Hermínio me contou, ainda – Não. (isto não aparecia na gravaçao), que o final – Você é capaz de dizer os nomes? foi horrível, pois o espírito se comportara
  • 65. – Ah, sim! Henriette Angélique morreu de um como se acabasse de ser guilhotinado!“ramo de ar”. Tinha mais Marie-Toussaint, que me chamava Achou, também, que o Impropério “porco”de Preto. teria sido silabicamente articulado em – Chamava você de Preto? Como era isso em francês? portugues, mas a idéia original do espírito – Crayon, Preto. era em francês: “Cochon.” cuja acepção – Esse espírito não foi sua irmã depois, novamente? difere um pouco da nossa, no Brasil. Vale A pergunta parece tomá-lo de surpresa. acrescentar, como vimos na Primeira Parte – Não sei. Quando morri ela ainda vivia. deste livro, que meu atual pai, Antônio dos – Por que então esse nome de Preto passou para esta vida? Anjos, viveu, como médico, na época daCurioso isso, não é? Revolução, e se chamava Dr. Richard. – Porque eu tinha os cabelos e os olhos muito pretos. Certamente, há de ser o mesmo de que Interessante que você renasceu com cabelos e olhos pretos e estamos falando aqui.ficou com o mesmo apelido. Não é isso? Analisemos, pois, o detalhe mais curioso, e Faz uma longa pausa para pensar, e acaba concluindo: que foi o ponto de partida da nossa – É a Primerose! caminhada na direção da figura Primerose é sua irmã atual.[1] revolucionária de CamilIe Desmoulins. – Bem. Depois vamos investigar isso. Vamos Antes de entrar no estado de inconsciência,prosseguir com seus irmãos. E possível que seja o mesmo era eu quem estava ali, na beira da cama,espírito, mas não queremos afirmar. conversando com o doente. Quando este se Sobe novamente o nível das suas emoções ante o manifesta, depois que caio em sonoimpacto da conexão Marie-Toussaint/Primerose e ele diz, um profundo, ele pergunta pela pessoa quetanto aflito: estava ao lado e que fora abrir a porta, – Me deu um nervoso... Marie-Toussaint identificando-a como sendo o JornalistaDesmoulins... francês CamilIe Desmoulins. Mas eu estou – Vamos prosseguir. Qual o outro irmão em certo de que quem foi abrir a porta fui eu!seguida? Como se teria, então, processado o – Armand, Anne, Lazaré e Clément. fenômeno? Talvez de forma muito simples: – E depois? antes de ficar inconsciente, eu me vi na – Lucie. encarnação passada, naquela cena – Ah, sim. Você era, então, o quarto ou o quinto? mentalizada. Ocorrida a hipnose, meu – Não, eu sou o primeiro. O mais velho. Clément era espírito se afastou e o do outro, que estavao caçula. enfermo, deitado na cama, manifestou-se – Henriette foi a que morreu com 9 ou 10 anos com através do meu corpo somatico. Assim,um golpe de ar, provavelmente uma pneumonia, como se tivemos, de início, uma visão do passado;diria hoje. Não é? depois, uma manifestação mediúnica que – É. Ramo de ar... (Parece intrigado com a confirmava a visão anterior. Essa foi, aliás,expressão, que continua a repetir.) Eu pensava que fosse conforme já disse, a explicação dada poroutra coisa. Que fosse ataque da cabeça. mim mesmo, posteriormente, durante outra – Fale-me de sua mãe. sessão. – Cuidava da casa. Coitada! Eu me esqueci muito Mas depois dessa reunião duas coisasdela... obrigaram-nos a suspender – Mas parece um nobre espírito. temporariamente nossos trabalhos: – Ela... Deixe-me lembrar. (Longa pausa.) MeuDeus! Não me lembro... Coitada! Eu estava sendo preso e não [Hermínio Miranda não relata ter havidosoube que ela morreu. Coitada! Ainda fiquei mais suspensão dos trabalhos. Passemos umapreocupado naquela hora. Ó meu Deus... Eu a esqueci muito! vista d’olhos nas datas das reuniões,Meu pai era um tanto culpado... LC-16 conforme a versão de Hermínio: – Você saiu de casa muito jovem? 1) Maio/1967 (sexta-feira) − apart. em – Saí. Acho que tinha uns 13 para 14 anos. LC-17 CopacabanaSaí para estudar em Paris. Eu queria sair de Guise. Só tinha o 2) 19/5/1967 (sexta-feira) – apart. decastelo. Hermínio – Você visitou o castelo alguma vez? 3) 26/5/1967 (sexta-feira) – apart. de – Fui em criança. Castelo histórico! Defesa da Hermínio.cidade! Mas eu não queria Guise, e depois, eu queria estudar. 4) 9/6/1967 (sexta-feira) − apart. deEu queria Paris! LC-18 Hermínio. – Onde você foi estudar? 5) 16/6/1967 (sexta-feira) − apart. de – No Clermont... Clermont, não. No Louis-le-Grand. Hermínio.Clermont era antes, o nome. 6) 23/6/1967 (sexta-feira) − apart. de – O colégio chamava-se antes Clermont, mas Hermínio.quando você foi lá era Louis-le-Grand? 7) 7/7/1967 (sexta-feira) − apart. de
  • 66. – Louis-le-Grand – confirma ele. LC-19 Hermínio. – Lá você conheceu muitas pessoas. Figuras 8) 14/7/1967 (sexta-feira) − apart. deeminentes saíram daquele colégio. Hermínio. – Rue Saint Jacques. Você sabia...? 9) 21/7/1967 (sexta-feira) − apart. de – Quais foram seus amigos lá no colégio? Hermínio. – Léon... Não me lembro o sobrenome. Léon... Ah! 10) 4/8/1967 (sexta-feira) − apart. deÓ... (Pausa.) Robespierre! (Longa pausa.) Hermínio. É evidente que a lembrança de Robespierre o 11) 1/9/1967 (sexta-feira) − apart. dedesarmoniza. É como se, ao encontrar novamente aquele Hermínio.vulto ali, na sua memória do Colégio Louis-le-Grand, 12) 8/9/1967 (sexta-feira) − apart. detropeçasse nele e perdesse o rumo. Tento contornar o Hermínio.problema que, por certo, o aflige. Conforme Luciano, a interrupção dos – Você guarda ressentimento de Robespierre, mas trabalhos teria ocorrido no 4º encontro,não é necessário isso. Você sabe, como espírito, que são mas observamos que, de acordo comacontecimentos passageiros e, de certa forma, necessários a Hermínio, não houve nada que se pareçanosso progresso espiritual. Ele provavelmente também com o que foi dito. No máximo, ocorreupassou pelas suas angústias e sofrimentos, e nem sabemos intervalo de 15 dias entre um encontro eonde ele está hoje. Você sabe? outro, o que não seria propriamente – Ele era padrinho do meu filho. Demos Horace aos interrupção (a não ser que Luciano assimseus cuidados. (Longa pausa. Faço uma pergunta que ele o considere). Mesmo assim, do 4º para o 5ºparece não ouvir. Em seguida, como se despertasse:) O que encontro, a seqüência semanal foifoi que você disse? mantida. Luciano parece falar de algo que – Vamos voltar ao período da sua infância. efetivamente não aconteceu.] Mas ele continua retido na figura de seu ex-colegade colégio. primeiro, a necessidade de o Hermínio – Robespierre já estava lá. participar de outras atividades espirituais,– Já estava no colégio quando você chegou? Era de uma nas segundas-feiras, as quais houveraturma mais adiantada do que a sua? interrompido pela ausência de– Era. companheiros em férias; segundo, porque – Mais velho do que você também? aquela última sessão, com os agônicos – Era. reflexos sobre mim próprio, das vascas de – Foi um aluno brilhante no colégio? um homem guilhotinado, reacenderam-me – Foi. as preocupações e o receio, e eu não estava, – Era estimado? de novo, muito apressado em continuar. – Não muito, porque se isolava da gente. Pensava nos meus filhos e na cautela com – Era muito introvertido, não? que devia agir, com que devia entregar-me – Era. Diziam até que ele... (Faz um muxoxo e àquelas pesquisas.conclui:) Bobagem... bobagem... Ele era muito auto-suficiente, mas era estudioso, dos melhores alunos. Era um Mas essa relação que fizemos sobre as duasapaixonado de Rousseau. Eu também, mas ele não o seguiu. fases da última sessão embora só nosNo final, não. Eu segui. ocorresse algum tempo depois – e não – Sim. Vamos falar a seu respeito. Quantos anos imediatamente, como pode o leitor tervocê esteve nesse colégio? julgado –, já naquela época me intrigara – Até... espera aí, deixa eu ver... Até 1784. E mais bastante e, passado algum tempo,um ano depois, para colar grau. espicaçara-me a curiosidade. Esta, por seu – O que você estudou? turno, acabou por recobrar-me o ânimo e a – Direito. Paris! coragem. Todavia, para não cometer – E depois que você se formou, o que foi fazer? imprudências, lembrei-me de fazer uma – Foi meu primo por parte de mamãe que arranjou coisa simplíssima: consultar o Alto sobre opara eu ser advogado (exercer). assunto. Ouvir o Plano Superior e ser – Como se chamava esse primo? aconselhado sobre a conveniência de – Era... Espere um pouco... Era Viefville Desessart. prosseguir ou não. Foi o que fiz, e em muito Cometo aqui um ato de burrose (burrice eventual, boa hora. Através de um, médium altamentenão crônica) e pergunto se não havia um general com esse evangelizado, cujo nome não quis que eunome, ao tempo de Napoleão. Lembro-me, depois, que a declinasse, indaguei aos nossos mentoresconfusão se estabeleceu entre o nome Desessart e Dessaix, espirituais sobre se valia a pena continuarmas a pergunta cretina serve para uma resposta genuinamente nas pesquisas e, no caso afirmativo, comocoerente: proceder daqui por diante. Recebi a – Napoleão quase que eu não vi. mensagem que o Hermínio já transcreveu – Sim, porque ele começou a aparecer quando a na Primeira Parte deste livro, no Capítulo O
  • 67. Revolução já havia passado. Surgiu, como se diria hoje, na Quando e o Onde, LC-24.crista da Revolução. Mas, de qualquer maneira, seu espírito Pedi, ainda, a um outro médium idênticano espaço não pôde tomar conhecimento dos acontecimentos orientação. Desta feita ao confradeposteriores porque você deve ter permanecido num período Abelardo Idalgo Magalhães. Sua mensagemde muita agitação depois da sua execução, que foi algo muito ficou perdIda. Contudo, ele conseguiucruel numa idade em que você era ainda muito jovem, cheio recordá-la, em tese. Guillon Ribeiro (meude esperanças e de vida. Não é isso? (Antes que ele se agite querido amigo da espiritualidade)novamente, apresso-me em acrescentar:) Mas isso hoje é recomendava o prosseguimento dosacontecimento passado, superado. Isso não o perturba mais, trabalhos. Assim, não me restou maisnão é mesmo? Conseguimos vencer a barreira que existia. dúvida de que a palavra de ordem eraVocê agora está calmo, tranqüilo... continuar, devendo, muito em breve, surgir, Mesmo assim ele parece recair naquele terrível ao que me era anunciado, algum fatoclima emocional, e diz: “maravilhoso, do qual eu nunca estivera – É porque... você não pode imaginar. Por mais que “tão perto” ...a gente queira ser homem, é horrível! Mas o Hébert teve mais As mensagens serviram-me de bálsamomedo do que eu! encorajador e – por que nega-lo? – – O medo diante da morte é muito natural – digo eu despertaram-me ainda mais a curiosidade.para consolá-lo. – Especialmente para você, naquela época. Levei-as ao Hermínio. Ele gostou, achou-as – Ele gritou feito um medroso! – conclui ele. muito sensatas e, por sua vez, também se – Quem é Hébert? reanimou. Marcamos o reinício dos – Hébert era um brissotista! – diz ele com evidente trabalhos e daí por diante, os fatos foramdesprezo. – Mas eu não podia... Lucile, coitada! paulatinamente se acumulando se – Você deixava muita coisa para trás e é evidente justificando, se encaixando, seque não queria morrer. comprovando, se revelando, afinal, naquele – Danton foi incrível! Desde a prisão... Incrível! Ele “maravilhoso” prometido pelo Alto e quegostava também de Lucile, mas ela não ligou! LC-20 mais não era do que meu reencontro comigo – Mas por motivos diferentes dos seus. Vocês, mesmo, na sombra do passado longínquo hápreliminarmente, não acreditavam, na sobrevivência do quase, duzentos anos, em meio à agitadaespírito. Achavam que, ao morrer, desapareciam. França revolucionária de Luís XVI e – Danton, nada! Eu tinha dúvidas... sobre Deus. encarnando a figura do jornalista CamilIeTinha dúvidas. O resto, não. Tinha dúvidas. Na prisão, eu Desmoulins! (p.365-368 – cap. 4 – 2ª parte)queria acreditar mais, precisava, porque quando senti queRobespierre não iria ter pena... nenhuma! Como é que pode?Incrível! (Está quase chorando.) Era preciso acreditar emalguma coisa. Eu queria ler. – Você me disse que leu um autor inglês... Harvey.Você se lembra do primeiro nome dele? Não conseguimoslocalizá-lo. – Harvey. Ficou na prisão (o livro). Era um escritoringlês. Hervey. – Não é Harvey, com “a”? – Não. Hervey... H-E... Era John Hervey! – Vamos procurar o livro. Você diz que o livro eraMéditations sur le Tombeau. – Méditations sur le Tombeau – repete ele. – E maisdois livros. Le Nuit, de Young. (Com grande esforço edetestável pronúncia consegue fazer-se entender, dizendo:)Edward Young (diz, Édouard Yang). LC-21 Corrijo a pronúncia no meu inglês – modéstia delado, muitíssimo melhor – e comento: – Vocês, franceses, pronunciam tudo à sua maneira. – Le Nuit... Horrível, o livro. – Qual era o terceiro? – Esses, quando me prenderam, apanhei na minhabiblioteca. O outro, tinha comprado numa livraria poucotempo antes e pedi a Lucile que me levasse na prisão.L’Immortalité. Este... deixa eu ver. Era um poeta. Erampoesias... Tinha uma capa... Você conheceu? Um livro... umpoema trágico. – Era traduzido para o francês ou você lia inglês?
  • 68. – Não, eu não sabia inglês. Muito pouco. Era aprimeira tradução para o francês. Desenterrou a filha! E oDanton também! Desenterrou Gabrielle. Coitado do Danton!Gabrielle... Você a conheceu? Conheceu Louise...? Gabriellefoi antes. Depois Louise. Gabrielle morreu. Era amiga deLucile. Muito amiga. Morreu. E Danton desenterrou. – Para quê? – Estava maluco! Completamente louco, coitado!Totalmente. Tirou do túmulo! Alucinado, coitado! – Era um homem de grandes paixões. – Foi. Gabrielle... Você conheceu? Era baixinha,bonita. Charpentier. LC-22 – Você nunca mais voltou a Guise, depois que saiude lá, com 14 anos? – Voltei. Nas férias eu não ia para lá. No verão eu iapara Bourg-la-Reine. LC-23 – Bourg-la-Reine? Que é isso? – Era a fazenda de mon beau-père (meu sogro).Bourg-la-Reine. (Está gaguejando aflitivamente.) – Onde ficava isso? – Bourg-la-Reine fica no sul de Paris. – Em que época você conheceu Lucile? Quantosanos você tinha? – Quando eu era estudante. – Como foi isso? – Foi uma felicidade grande, mas difícil! LC-24 – Ela era uma jovem de família importante e vocêum estudante mais ou menos desconhecido, daí a dificuldadepara você vencer a barreira social. – É... Foi no Luxembourg. – Numa festa? – Não, no jardim. No Jardim de Luxemburgo. Eu iasaindo do colégio e ficava passeando, e lá vi uma moça antesde Lucile. Uma moça bonita também. Uma moça. Fiz unsversos para ela, mas... Lucile, sim. Depois, Lucile... um dia...Você quer mesmo saber disso? – Vamos saber, sim, porque isso interessa à nossapesquisa. Além disso, é uma recordação agradável para você. – É! Lucile ia brincar com a irmã dela. – Ela era mais jovem que você? – Era. E com Madame Darrone. No jardim.Luxemburgo. Madame Darrone... Você a conheceu? Eu é quea chamava de Darrone... Foi um apelido que eu botei. – Qual a razão desse apelido? – Darrone é patrone. É gíria. – Argot? – Argot. Patrone... Patrone... (Experimenta apronúncia de várias maneiras, até que parece encontrar aentonação adequada.) Patrone. – Você é capaz de falar francês agora? – Oui. Patrone. Francês... não repercute bem,embaixo. (Ou seja, no corpo físico.) LC-25 – Ah, sim. Você pode pensar lá em francês quechega aqui, sai em português. É um fenômeno interessante.Está bem. Vamos continuar.[2] 3 Penso tal qual o Hermínio, quanto à linguagemutilizada durante o transe. No mais, nesse caso específico,o emprego do francês não teria acrescentado muita coisa.Eu o falo razoavelmente bem. Não me seria difícil autilização e, portanto, nada teria acrescentado á pesquisa,
  • 69. em matéria de comprovação. (Nota de Luciano dosAnjos.) – Patrone é patroa! Confunde-me tudo isso, mas eudou um jeito. E Darrone é argot (gíria). Muito boa, MadameDuplessis. Muito boa... Annette. LC-26 – Ela, levou, então, Lucile para brincar juntamentecom a outra irmã? – Ela se sentou ao meu lado e Lucile brincava comAdèle. – Adèle é a irmã? – Adelette. Adèle, Adelette. Era mais jovem.Jogavam, brincavam. Duas crianças lindas! – E você conversava com Madame Darrone... – Eu me sentei no vestido dela! Pedi desculpas. Ecomeçamos a conversar. Ela era linda também! Mas Lucileera minha Loulou... Era linda! Fréron gostava dela também. EPaul também... E Claude também... (E num sussurro:) Masela gostava de mim! Pelo que se vê, Lucile era uma criatura encantadorae tinha um séquito de admiradores; como, aliás, a Sra.Duplessis. – Como então começou o romance? Você estavaconversando com madame Darrone no parque, noLuxemburgo, e daí ficou conhecendo Lucile. – Elas chegaram... Madame Darrone me apresentou.Conversamos, e ficamos amigos. – Quantos anos você tinha aí? – 22... 23... Não mais. – E Lucile? – Garota. Uns 15 anos... – E daí você passou a freqüentar a casa deles? – Custou! Você quer saber? – Acho que é uma cena que ficou muito gravada emsua memória, porque em nossa primeira experiência você seviu numa sala com muitas janelas e estava ansioso, esperandopor alguém. Não sei se já era sua noiva ou apenas namorada.Você se lembra disso? –Sei... Vou contar. Eu inventei um pretexto. Fiz umlibreto... uma ópera. Uma ópera? Não, uma opereta. Tema?Era um romance frustrado e fui levar. Madame Darrone eLucile tocavam piano muito bem. Lucile não era Lucile.Lucile era apelido. Atenção para mais um módulo informativo daquelesa que costumo chamar de a “eletrizante trivialidade”. – Ah, o nome dela não era esse? – Não. Neste ponto ele interrompe para pedir um favor: queeu dê alguns passes a mais, o que faço imediatamente. Ecomo a conversa já se prolonga por cerca de uma hora,proponho que seja interrompida para não cansá-lo. E ele: – Pode continuar, mas devo lhe pedir uma só coisa.Só uma. Não me importa quanto tempo falemos assim, queestou bem. Não importa. Ou que você fale sobre qualquercoisa. Porque temos um compromisso. Temos que juntartudo, tudo, tudo... muito depressa. Mais duas ou três vezespoderei estar conversando com você. – Por que isso? – Porque eu sonhei... Não. Não sonhei não. Disseram-meaqui... É que confunde. Que temos que ultimar nossa tarefa
  • 70. nessas condições e prosseguir na outra, pelo menos comigo,na tarefa da vida de prisioneiro. – Isso está muito misterioso. Não estou entendendo.Você podia explicar melhor? Você diz que temos mais duasou três reuniões apenas... – Eu pediria. Porque devemos... Se você esperar um instante,vou ler para você o que vai passar. Este fenômeno ocorreu com certa freqüência emminhas experiências. Sempre que o sensitivo tinha algo adizer, não de sua própria elaboração mental, mas de origemmediúnica, espiritual, provinda de companheirosdesencarnados ali presentes, o texto aparecia diante dos olhose era lido. Foi assim mais uma vez. “Meus caros amigos: louvado seja Nosso Senhor!Que Ele vos abençoe e vos envolva com a luz do Seu amor eda Sua paz. A tarefa é grande e, sobretudo, agradável a Jesus.Por isso, possam os corações de todos os que nela se achamem trabalho ouvir e, se quiserem, aceitar nossa sugestãofraterna para que ela se desenvolva em duas etapas: essaprimeira, propriamente dita, em condições especiais com oconcurso de nossos amigos todos, (através do recurso dodesdobramento e uma segunda, em que se vejam mais livres epor conta mesma de suas próprias interpretações edeliberações. Seria um pouco cômodo a tarefa toda emcondições privilegiadas, mas hão de estar sempre assistidospor todos nós. Depois talvez sofram um pouquinho, masNosso Senhor os abençoará.” LC-27 A leitura foi feita muito pausadamente, como se otexto estivesse passando diante dos olhos do leitor, palavrapor palavra, surgindo de um lado e desaparecendo do outro. O texto não continha assinatura é certos aspectos alimencionados nos parecem obscuros até hoje, ao escrevermosisto, quatorze anos depois.Depreende-se, contudo, que atarefa fora cuidadosamente planejada e contava com amplacobertura espiritual. Lembro-me de que na época nãocompreendi muito bem a sugestão de dividir o trabalho emduas etapas. Percebo hoje, porém, que a idéia era coletarprontamente os dados nas sessões de desdobramento e, emseguida, fazer nosso próprio trabalho de pesquisa,interpretação e exposição. Sobre esta fase, embora assistidos,diziam os não-identificados mentores espirituais que nãocontássemos com a comodidade de “condiçõesprivilegiadas”, ou seja, tínhamos de fazer nossa parte. Ficou no ar a advertência sobre algum sofrimentocomo causa direta da tarefa. Isto, porém, era colocado apenascomo probabilidade, não como certeza.[3] 4 Suponho que eu saiba, hoje, de que falaram osespíritos ao referirem que iríamos sofrer um pouquinho.É problema intimamente ligado à minha família, que peçolicença para manter privado. Ou, noutra hipótese, breve,infundado e improcedente percalço com que nosdeparamos, na fase que precedeu o lançamento destelivro. (Nota de Luciano dos Anjos.) – Por isso, o tempo não tem importância – concluiLuciano –, faremos tudo como você queira. Encerramos neste ponto a sessão daquela noite, 9 dejunho de 1967. Como percebe o leitor, duas pontas ficaram
  • 71. soltas por causa da interrupção (obviamente necessária) paraleitura da comunicação de nossos amigos espirituais. Umadelas foi a narrativa de como Desmoulins conseguiuaproximar-se da família Duplessis; a outra foi a questãosuscitada pelo nome de Lucile, que segundo ele era outro.Este ponto é de extrema importância por causa dotransbordamento do nome verdadeiro dela para a existênciaatual. Veremos isso mais adiante. Considerando que Luciano apresenta relatos até a 4ª reunião e depois narra o encontroocorrido em 1/9/1967, deixaremos de fora os demais encontros relatados por HermínioMiranda e nos concentraremos neste. O ENCONTRO DE 1/9/1967 Esta é a única sessão na qual a data coincide, e sobre a qual não resta dúvida deque tanto Luciano quanto Hermínio se referem ao mesmo episódio. Achamos que destavez seria possível efetuar comparação dentro dos moldes desejados. Infelizmente, ver-se-á que os narradores tomaram rumos distintos em suas explanações e a mesmadificuldade que relatamos nos diálogos anteriores aqui também se fez presente. Para nãoalongar demasiadamente este estudo, muitas passagens dos relatos deixamos semapreciações, mesmo assim, apresentamos os escritos por inteiro, para que os leitorespossam visualizar corretamente o que foi dito pelos participantes.RELATO DE HERMÍNIO MIRANDA RELATO DE LUCIANO DOS ANJOS13. CONTRIBUIÇÃO DE CÉSAR BURNIER 6 INFORMES PERIFÉRICOS DE(p.248...) REENCARNAÇÕES PARALELASEstudaremos a seguir a contribuição de César Nesta altura devo fazer uma longa digressão.Burnier e de outros companheiros a este Trata, esta obra, do exame de provas e circunstânciasfascinante estudo. que levam à identificação de minha encarnaçãoTal como nos recomendara a comunicação anterior, na personalidade de Camille Desmoulins.mediúnica que Luciano nos lera numa das Entretanto, conforme o leitor pôde verificar – e terá desessões, havíamos decidido encerrar a fase de compreender desde logo –, durante as pesquisascoleta de dados na sua memória para dar início à surgiram variados informes periféricos, não apenassegunda fase, e que teria de consistir em sobre pessoas que conviveram comigo àquela épocacomplementar as pesquisas com informaçoes mas, também, sobre outras encarnações, minhasdocumentadas, arranjar todo o material de forma mesmo. Não obstante, tais informes são de muitacoerente e apresentá-Io racionalmente, num relato significação, alusivos ao Hermínio Corrêa de Mirandacomo este em que a história fluísse (Robert Browning), ao médium Abelardo Idalgoordenadamente, a fim de que todas as suas Magalhães (Charles Bossut), ao permanente líder CésarImplicaçoes pudessem ser apreciadas. Burnier Pessoa de Mello (Danton), ao político CarlosA notícia do nosso trabalho, contudo, circulara Lacerda (Marat), ao procurador Roberto Jauréguiberentre alguns amigos mais íntimos e houve certa (Hérault de Sechelles), ao médico Luiz Guillon Ribeirocuriosidade – sadia, por certo – em examinar de (Bérardier), ao meu pai Antônio dos Anjos (Richardperto as condições sob as quais estávamos Ansiette), à minha irmã Primerose Pinto (Marietrabalhando. Toussaint) e à minha querida filha Ana Lúcia MartinoPor essa razão combinamos para a noite de 1.° de dos Anjos (Lucile Duplessis Desmoulins). Já aludi,setembro de 1967 uma reunião de trabalho para mais ou menos demoradamente, nos capítulosestudo e debate do assunto. precedentes, a algumas dessas pessoas. Também o[as datas coincidem perfeitamente. De todos os Hermínio referiu-as. Retornarei a elas e farei arelatos, este é o único onde os testemunhos estão introdução de outras não citadas até aqui. Mas antes de
  • 72. corretamente situados no tempo] tudo cumpre deter-me nos informes que revelaramA coordenação dessa reunião ficou a cargo de minhas encarnações anteriores à de Desmoulins taisnosso amigo comum, Abelardo Idalgo Magalhães, como as de Charles d’Orleans (1391-1465), de Jean-havendo de nossa parte apenas a restriçao de que Charles e de Luís. Em seguida, alinharei uma série deteria de ser um grupo muito reduzido de pessoas, fatos e acontecimentos sobre personagens ligadas tantode absoluta confIança. Eu próprio não sabia quem a Charles d’Orléans quanto a Camille Desmoulins.viria à minha casa para essa tarefa. No dia 1.o de setembro de 1967 realizamos aCompareceu o Dr. Armando de Oliveira Assis, longa reunião de que nos fala o Hermínio, em capítuloentão vice-presidente da Federação Espírita da Primeira Parte deste livro. Como vimos, porBrasileira – FEB – (posteriormente seu lamentável descuido, o gravador nesse dia nãopresidente), pessoa de elevado conceito tanto nos funcionou. E para que os lances principais não ficassemmeios espíritas como na vida pública, no esquecidos, o Hermínio fez, logo ao término dosdesempenho de funções da maior trabalhos, nova gravação, com o testemunho dosresponsabilidade técnica e social. Veio Abelardo participantes, em especial o do César Burnier, que foi,Idalgo Magalhães, que já conhecemos. Também o no caso, com quem mais conversei durante oDr. Jayme Cerviño, médico competente e desdobramento, e quem tivera a maior ligação comigoestudioso da fenomenologia, autor de um livro já nos idos de 1789.em segunda edição, na FEB, sob o título Além do [a falha no gravador está concorde nas duasInconsciente. Veio José Salomão Mizrahy, amigo narrativas, porém Hermínio não relata ter havidoe confrade de todos nós. (Mais tarde viemos a outra gravação ao término dos trabalhos, na qualsaber que ele fora um dos destacados parentes de teria constado o testemundo de César Burnier, que é oLuciano na existência que este viveu como que assegura Luciano dos Anjos. Contraditoriamente,Charles d’Orléans... O leitor compreenderá as Hermínio joga o testemunho de Burnier para váriosreticências.) E, afinal, estava conosco um cidadão anos adiante..]mais idoso do que nós; estatura elevada, figura Anote-se, como fator importantíssimo: euimponente, que comparecia como especialista em estava sendo apresentado a ele naquela noite, naquelehistória da Revolução, com o objetivo de instante, e nunca tinha, ouvido falar nem em seu nomeformular algumas perguntas para Luciano, já em e menos ainda em seu passado reencarnatório. Notranse: Chamava-se César Burnier Pessoa de entanto ele ali estava, especialmente convidado porqueMello, advogado, alto funcionário aposentado do era, nada mais nada menos, do que o DantonMinistério da Fazenda, filho de conceituada reencarnado! E, pela lógica, tinha que ser reconhecidofamília mineira, amigo pessoal de Chico Xavier, por mim, pois fomos intimamente ligados, como, decom o qual conviveu intermitentemente por resto, a própria história o registra.dezenas de anos. César me causou profunda [Encontramos no trecho sublinhado acima a sínteseimpressão. Quando lhe apertei a mão, ao ser-lhe do pensamento falacioso de Luciano, no que tange àsapresentado, pude perceber a força do seu identificações reencarnativas. Vê-se que o jornalistamagnetismo pessoal, e por um desses palpites recorre à “lógica” como forma de ratificar ainexplicáveis, ocorreu-me – mas não o disse a inferência. Avaliemos o que ele declara, dito de outroninguém – que ele tinha algo a ver com tudo modo:aquilo que estávamos fazendo ali. O grupo secompletava, naturalmente, com Luciano e eu. 1. Luciano (travestido hipnoticamente comoAcomodados todos, e após a troca inicial de Desmoulins) reconheceu em Cesar Burnier aimpressões, fiz uma exposição sumária da reencarnação do amigo Danton;situação das pesquisas até àquele ponto, e 2. a identificação teria de acontecer, pois a própriacomentei aiguns aspectos dos “achados” história registra que ambos eram intimamentehistóricos. Respondidas algumas perguntas ligados;suplementares, Luciano foi posto em transe, como 3. Portanto, ficou provada a correta identificação dede hábito, por meio de passes, e iniciamos os que Burnier era Danton redivivo!trabalhos. Lamentavelmente, nosso gravador falhou É com esse raciocínio torto que Luciano dos Anjosnaquela noite crítica. Temos, porém, um relato pretende demonstrar a capacidade de reconhecerque César Burnier escreveu meu pedido, com reencarnações passadas. Mas, o que têm nasbase em suas notas pessoais então colhidas. declarações do jornalista, durante a sessão hipnótica, que sejam capazes de corroborar a existência de um[observa-se sensível diferença entre o que fictício mecanismo reconhecedor de encarnações?Luciano diz ter acontecido e a informação deHermínio: o jornalista fala que houve nova A resposta é: nada, absolutamente nada!gravação ao final do encontro; HermínioMiranda diz que baseou-se nas notas de Cesar Esse óbice, nenhum dos participantes do encontroBurnier, a qual foi elaborada seis anos após o parece ter percebido. O fato de Luciano dos Anjos,
  • 73. encontro!] sob hipnose, realizar afirmações que os registros históricos ratificam, apenas, e tão-somente,Ao elaborar este trabalho solicitei – e obtive – demonstra que o jornalista, quando hipnotizado,permissão de César para incorporar seu relato a exibe bons conhecimentos de eventos históricos doeste livro. período da Revolução. A inserção de declarações reencarnacionista nesse quadro é gratuita! Teria deEi-lo: haver outros elementos que permitissem supor que o discurso identificativo faz sentido e seja oriundo de“Prezado e distinto amigo Dr. Hermínio Miranda. algum dom especial com o qual o jornalista foiRio de Janeiro, 30 de março de 1973. aquinhoado. A correlação entre o discurso do regredido e a história reencarnativa de CésarGrave enfermidade me reteve durante longo Burnier, a qual é apresentada como legítima, estátempo nos hospitais do Rio, motivo por que só apoiada no vazio.]agora posso me manifestar sobre o seu esplêndidoartigo inserido na revista Reformador nº 8, de Vimos que o Hermínio quis recuar ainda mais no tempoagosto findo, e em que meu nome é citado por e investigar-me outras encarnações. Surgiram, então,mais de uma vez. aquelas personalidades já referidas, sendo que aJulgo-me, por isso mesmo, na obrigação de dar primeira e mais antiga se chamava Charles d’Orléans.testemunho de tudo quanto ocorreu durante as Quem era? Confessei-o eu mesmo e os dadossindicâncias científicas que o distinto amigo históricos, depois, confirmaram que se tratava de umrealizou, à minha frente, na faixa daquilo que duque, sobrinho do Rei Carlos VII e pai de Luís XII.denominamos ‘regressão da memória’. Poeta, casado quatro vezes, prisioneiro dos ingleses durante longos anos. Devo sublinhar, aqui, detalheDe início, confirmo, plenamente, as afirmações importantíssimo: ele era um Valois! Depois é quefeitas pelo amigo às páginas 197-206 do ganhou o ducado de Orléans e passou a chamar-seReformador de agosto. Charles d’Orléans. Ora, esse – se o leitor não esqueceu –, tinha sido, precisamente, um dos raros detalhes[Hermínio esqueceu de transcrever o que disse fornecidos pelo medium Francisco Cândido Xavierem O Reformador. Ficamos sem saber o que é sobre minha existência anterior: que, eu fora um Valois,que Cesar Burnier estaria confirmando...] escritor, e vivera na França durante o período revolucionário. Devo mencionar, também, que todas as pessoasque tomaram parte nas aludidas experiências [Luciano “ajeita” a revelação falhada de Chicoeram absolutamente desconhecidas de mim, Xavier, para que fique concorde com sua postulaçãoincluindo, entre elas, o prezado e muito distinto de ter sido Camille Desmoulins e, antes disso, umamigo, a quem fui apresentado no momento em Valois! Mas, o que Chico Xavier dissera sobre aque dei entrada no cômodo onde as pesquisas encarnação francesa de Luciano? Que ele fora umiriam ser feitas com a sua supervisão. Ê certo que “Valois, escritor”. Vamos ver o que Luciano escreveu,o jornalista L.A. (Luciano dos Anjos) – seu na terceira parte de seu escrito, sob o título “A Fortepaciente – já me havia sido apresentado quando Presença do Passado Francês”:exibi, no salão da ABI (Associação Brasileira deImprensa), o filme de longa metragem rodado por “Sempre acreditei, sendo espírita, que houvesse vividomim em Pedro Leopoldo, em 1946, tendo por na França, tanto pelo amor que lhe sentia como, maisobjetos a pessoa e a mediunidade de Chico tarde, por uma oblíqua insinuação do querido médiumXavier.* Francisco Cândido Xavier. Mas nada me autorizava a afirmá-lo positivamente. Eis que, um dia, os confrades*Sinceramente, não me recordo, ainda hoje, do Aberlardo Idalgo Magalhães, José Salomão Mizrahy eprévio encontro com Cesar Burnier. Acho que Henrique Russo Olivier vão a Uberaba, em visitanão estive na ABI naquele dia a que ele se àquele incansável medianeiro, e me trazem delerefere. (Nota de Luciano dos Anjos.) informação mais aclaradora: Chico Xavier informara- lhes que eu realmente vivera na França, na últimaMas essa apresentação não passou de um simples encarnação, durante o período revolucionário, E – eis,aperto de mão e troca de palavras amáveis. agora, um detalhe que, em princípio, parece equívoco,Ninguém, entre os componentes do seu grupo, mas que o tempo se encarregou de confirmar, como jásabia dos estudos que eu vinha fazendo desde vimos neste livro – que eu tinha sido um Valois,1940 no campo da história e com base na escritor! Ora, não era um médium qualquer quem oreencarnação, fato que eu escondia dos espíritas, afirmava, era o mais completo médium do Brasil, quiçácom exclusão do médium Xavier e de um do mundo inteiro, no campo da fenomenologiapequeno grupo de amigos, isso a conselho dos intelectual. Agora, por conseguinte, eu estava diantepróprios espíritos, conselhos e advertências da possibilidade real de entreabrir o surpreendente
  • 74. filtrados por aquele magnífico médium mineiro, livro do meu passado! Mas, quem fui eu, afinal? Oconforme mensagem em meu poder. Abelardo, o Henrique e o Salomão colocavam a mãoConclusão: minha modesta adesão às pessoas no queixo e respondiam: “Não sabemos... Ele nãoestudiosas que formavam o seu grupo foi disse.”inspirada em virtude dos meus conhecimentos dahistória francesa e, em particular, da grande Sigamos com a leitura, de modo a deixar bem claro orevolução de 1789. Não Ignorava eu, entretanto, procedimento do jornalista]que as suas experiências Consistiam nassondagens regressivas da memória. O confrade A informação, por conseguinte, era duplamente exata.que me dera essa informação acrescentara que o O que me faltou, na ocasião, foi calma (e maiorpaciente – o jornalista L.A. que lhe ‘servia de interesse, pois eu estava muito despreocupado docobaia’ (perdão pela expressão) – teria sido o assunto) para analisar e separar a informação.célebre Camille Desmoulins, da Revolução quedeu fim ao ‘direito divino dos reis’. Rejubilei-me: [Luciano “conclui” que pensara estar diante de umaCamille era alguém cujo rumo certo eu procurava única informação, mas depois percebeu que eramdesde o começo das minhas pesquisas. Nao nego duas! Desse modo, quando Chico Xavier garantiraque por várias ocasiões pensei tê-Io descoberto que Luciano fora um Valois escritor, em realidadepor palpite, jamais por indicação tácita dos estaria declarando que o jornalista tinha sido (1º) umespíritos, ou arrimado em prova que me Valois; (2º) um escritor, portanto, dois, em vez de um.convencesse categoricamente. Merasdesconfianças! Tão logo cheguei ao seu Com base em quê chegou a tal ilação? Por conta deapartamento, ouvi do prezado amigo o mais uma vírgula, que ele, estrategicamente, inseriu nacompleto relatório de todos os trabalhos mensagem verbal, a qual transformou numarealizados até então. conjunção aditiva e, com um pouco de esforço,Um possante gravador completou, durante mais converteu em duas asserções!de uma hora, todos os pormenores da suaexposição. Os amigos de Luciano, ao retornarem do encontro com o médium, apresentaram a seguinte informação:[Cesar Burnier introduz uma terceria versão dos “ele disse que você foi um Valois escritor e viveu naacontecimentos, não fala de falha alguma na França no período revolucionário”.gravação e assevera que o encontro foiregistrado normalmente pelo aparelho! Temos O caso é que depois que se descobriu a si mesmopois, em cada relato, uma visão, não só como Camille Desmoulins, Luciano ficou com umdiferente, mas conflitante!] problema a elucidar, pois a informação dada anteriormente pelo médium não fechava com aInteirei-me de tudo. Submetido o jornalista ao recém-descoberta. Camille, é certo, vivera no períodotranse hipnótico, um médico não-espírita16 revolucionário, mas não fora Valois. E agora, quemconstatou que o transe era completo: relaxamento poderá me defender? Deve ter se perguntado odos músculos, pupilas dilatadas, alterações do jornalista. Súbito, idéia luminosa o envolveu: e se ametabolismo e do ritmo cardíaco. Confesso que revelação fosse duas, embrulhadas na mesmanão esperava grande sucesso, porquanto sou embalagem? Ante esta inspiração, reservou a partebastante cético. “período revolucionário e escritor” para Desmoulins e partiu em busca do Valois que fora.16 É engano de César que, como disse de início,ele próprio desconhecia os presentes. O Dr. Só que Luciano esqueceu que a informação completaJayme Cerviño, aliás desencarnado tão jovem, dizia: “fora um Valois, escritor e vivera na França nofoi espírita militante e participou de grupos da período revolucionário”. Esta seria a imagemchamada juventude espírita, quando completa da encarnação francesa de Luciano, que eleestudante. desmembrou, para tornar o discurso de Chico Xavier coerente. Em verdade, ele deveria estar a buscar umIniciados os trabalhos, o amigo anunciou ao Valois com tais características (escritor, que tivessepaciente que havia uma visita na sala e vivido na época da Revolução). Só que para tanto,perguntou-lhe se a conhecia (pergunta habitual teria de abandonar a identidade de Camilleem todos os trabalhos desse gênero). Resposta: Desmoulins e isso ele não faria de jeito algum!‘Sim, eu a conheço. É Marius’. A adaptação reencarnatória feita por Luciano esbarraA resposta deixou os assistentes em confusão. A no próprio escrito do jornalista. Vejam o seguintemim, todavia, imensamente interessou: Marius trecho:era o nome que Lucile Desmoulins aplicava aDanton, na sua intimidade com o ardoroso Chico Xavier informara-lhes que eu realmente vivera
  • 75. convencional, de quem Camille fora secretário. na França, na última encarnação, durante o períodoEu havia lido dezenas de biografias de Danton e revolucionário... que eu tinha sido um Valois, escritor!Desmoulins. Entretanto somente numa delas – ade Hermann Wendel, à pág. 334 – encontrei essa Ora, é mais do que claro que Chico Xavier se referiracitação, colhida numa carta que Lucile escrevera a à última encarnação, portanto fora uma só vivência eFréron e na qual se queixava da lassidão de não duas!Danton, exausto pelas lutas revolucionárias eamargurado com os homens da Revolução. Lucile O médium, dissera: “Viveu na França: na últimaachava Danton muito parecido, política e encarnação, durante o período revolucionário, e quepsicologicamente, com aquele famoso político tinha sido um Valois, escritor.”romano. De um salto, depois dessa curiosa É claro que ele se referira às duas personalidades: a decitação, e depois de confirmar aos presentes o seu Desmoulins e a de d’Orléans! Na França, ambosinegável acerto, pus-me a interrogar o paciente haviam vivido − certo; na última encarnação, durante oatravés do caríssimo amigo, de cuja voz me período revolucionário –, também certo, nautilizei, porquanto, estando o paciente em rapport personalidade de Desmoullns; e tinha sido um Valoiscom você, não poderia ouvir-me de maneira escritor – certo, igualmente, na personalidade dealguma. (Outro indício do seu estado de transe.) Charles d’Orléans. Absolutamente certo, correto, exato.Incontáveis perguntas dirigi ao paciente, todas Só não sei se o Chico sabia da distinção e não quiselas capciosas, difíceis de serem respondidas em dizer, ou se ele mesmo também a ignorava. Neste caso,conjunto. sabia agora que, mais uma vez, sua mediunidade não falhara, o que, de resto, não surpreende a ninguém ...[nota-se o empenho de Burnier em valorizar a [Parece que o único que não se surpreende com esseboa memória de Luciano, diz que dirigiu ao nó indesatável é o respeitável jornalista!! É bempaciente “incontáveis perguntas”, numa conforme alguém declarou: com um pouco dereunião com pouco mais de uma hora de criatividade tudo se ajeita!]duração seria muito difícil conseguir tal feito] O leitor deve estar lembrado também que falei, no mesmo capítulo 3 desta Segunda Parte do livro, daInquiri-o quanto ao nome da velha ama-de-leite informação que me dera, o médium Homero Lopesda família de Danton (ela o acompanhou até à sua Fogaça dizendo que eu “Vivera na França, foramorte). Camille e Lucile eram comensais do membro da corte, era assim magro como hoje etribuno. Provaram muito com as pessoas que o autorizei a morte de algumas pessoas”. Estava,cercavam. A resposta não tardou: Margueritte portanto, igualmente certíssimo. Não devo deixarHariot. E a outra empregada, a que esteve passar a ocasião para assinalar que, pelo menos quantopresente ao casamento do tribuno na cour de à encarnação como Camille Desmoulins, recebi,Commerce? Danton casou-se, na segunda vez, também, por mais de uma vez, a confirmação de outrocom Louise Gelly. A resposta veio exata: Marie extraordinário médium: Divaldo Pereira Franco. SeFougerot. (Ver a biografia de Danton – autor Dr. quiserem o arremate decisivo, ei-lo: Olímpio Giffoni,Robinet, página 249.) Essa Marie Fougerot e uma médium do Grupo Ismael, da Federação Espíritaoutra doméstica – Catherine Motin – foram as Brasileira, e dos mais evangelizados que se conhecempessoas encontradas pelas autoridades – Louis (antena psíquica das raras e sublimes mensagens deThuller, juiz de Paz da Seção do Teatro Francês, Ismael à Terra), e que me confirmou, da mesmaquando esse juiz se dirigiu à residência da maneira, essa encarnação.falecida Antoinette Gabrielle Danton para fazer oarrolamento dos seus bens, na ausência de E até, a respeito dela, deu-me muitosDanton, enviado pela Convenção à Bélgica em conselhos pessoais ... Vamos adiante! Entre as vidas dedesempenho de grave missão junto de Dumoriez. Charles d’Orléans e de Camille Desmoulins, renasci;(Ver peça justificativa nº 6, intitulada ‘Apposition ainda na França, por mais duas vezes, ambas exercendodes scelles chez Danton, Le 12 Février 1793’ – um ofício que nunca, nenhum de nós, houvéramosconstante das folhas 234, do livro Danton, edição ouvido falar: vinagreiro, isto é, vendedor ambulante de1884, da autoria do Dr. Robinet17). Não contente vinagre. Vidas duras, difíceis, árduas, cheias dede todo com as respostas dadas, formulei tropeços. E foi me referindo a uma delas que aflorou,numerosas outras perguntas vazadas no mesmo nas nossas pesquisas, a figura do Cardeal CharIes deestilo. Guise, sobejamente conhecido da nossa história universal. Quem era ele? Exatamente, como já contou o17 Foi ao retomar dessa viagem que Danton Hermínio, o confrade e amigo atual Abelardo Idalgomandou desenterrar GabrieIle para se Magalhães.certificar de que ela estava mesmo morta. noepisódio a que aludiu Luciano em transe. O surgimento do nome do Abade Bossut, acontecido durante aquela mesma reunião, temO paciente, vencidos os esforços naturais, saiu-se implicações especialíssimas. Naquela mesma semana,
  • 76. esplendidamente. ninguém sabia, ainda, com precisão, de que se tratava; sequer como se escrevia o nome Bossut. Mas oO físico do jornalista L.A. é absolutamente Abelardo Idalgo Magalhães, por via de sua própriaidêntico ao de Camille Desmoulins. Seu cacoete mediunidade, chegou, mais depressa do que podíamos(ligeira gagueira ou tropeço) continua o mesmo.18 esperar, às conclusões que buscávamos. Em sua casa, no domingo daquela semana, ele recebera uma forte18 A gagueira só se verificou no estado de intuição no sentido de que consultasse o Lello Univer-transe. mesmo assim foi eliminada com o sal. Ora, nós, que já havíamos tentado a Enciclopédiatempo. Luciano não apresenta a menor Britânica, a fim de localizar o Professor Charles Bossut,dificuldade em falar em seu estado de vigília. não poderíamos supor que o LeIlo registrasse alguma coisa. Mas a intuição fora absolutamente certa. O[Burnier esforça-se por demonstrar que Abelardo me telefona e me dá notícia da suaexistiriam indícios na constituição corpórea e descoberta. Três ou quatro linhas apenas, mas onas atitudes de Luciano que o caracterizariam bastante para confirmar-se que o abade existira de fato.como Desmoulins. Porém, é fácil perceber que Posteriormente, foi mais fácil ampliar a pesquisa, naexagera: “o físico do jornalista L.A. é Biblioteca Nacional. Então, apuramos tudo sobre oabsolutamente idêntico ao de Camille”, declara assunto e os fatos começaram a casar-se de formaem sua euforia. E ressalta que a gagueira seria maravilhosa. Fatos que não poderiam ser imaginados,outra comprovação. Hermínio não vê que não poderiam ser fabricados e que estão acima daalternativa senão refrear a excessiva possibilidade humana, consciente ou subconsciente, deempolgação do visitante: em verdade, Luciano serem arrumados. Descobrimos, por exemplo, quenão é gago, exibia a gagueira apenas quando Bossut foi o primeiro tradutor, na íntegra, de Pascal,representava Camille. Na sua generosidade por sinal contra recomendação da Igreja da época, queidentificativa, Burnier acaba criando uma nova não queria o trabalho. Ora, as Iigações do Abelardovertente na doutrina da reencarnação: a de que (médium) com o Espírito Pascal são muito anteriores asos reencarnados apresentam as características nossas pesquisas. Bossut foi estudioso de assuntosfísicas e psicológicas de seus antecessores. sobre oceanografia, sobre construção de diques, deParece-nos que Kardec não veria essa idéia com represas, etc. O Abelardo veio a ser, antes dasbons olhos... Também, seria o caso de pesquisas, auditor de uma das raras firmas construtorasperguntar: e César Burnier, teria o mesmo físico de diques no país. E tanto o cardeal como o abade seque Danton? Pena que não dispomos de fotos de chamavam Charles. O Cardeal Charles de GuiseBurnier para comparação. No relato de fundara uma universidade; o Abade Bossut eraLuciano, veremos que ele comunga a mesma professor de matemática; o Abelardo lecionaidéia de Burnier, mas com algumas diferenças contabilidade. Bossut viveu, realmente, à época danos detalhes] Revolução Francesa, e teve sua condição de abade cassada. Mas, de fato, salvou-se da guilhotina, pois aPara ser leal, informo-lhe: até o dia da nossa história não registra em contrário.reunião com L.A., eu ignorava que CamilleDesmoulins chamava-se Lucie Simplice Benoist Assinale-se, ainda, que se o Abelardo não pede aoCamille Desmoulins. Esse Lucie Simplice passou Hermínio, durante aquela reunião, que me fossea ser uma novidade para mim. (Ver Enciclopédia perguntado se havia mais alguém conhecido ali na sala,Larousse, volume 6, pág. 570.) Não conheço uma toda essa história não teria surgido. Não foi, portanto,só biografia de Desmoulins que cite esse Lucie uma narrativa espontânea, mas provocada por umaSimplice que o prezado amigo descobriu na pergunta de última hora.Enciclopédia Britânica. Quanto ao César Burnier, há muito o que dizer. Repito[Conforme comentamos anteriormente, a que não o conhecia, nunca o tinha visto antes.citação do nome completo de Desmoulins foi Preveniram-me de que participaria da reunião umaexcessivamente enaltecida. Aqui observa-se pessoa muito estudiosa da história da RevoluçãoBurnier intensificando o valor dessa lembrança. Francesa e que me iria fazer algumas perguntas.Ele declara não conhecer “uma só biografia” Concordei, pois àquela altura eu já não duvidava deque cite o epíteto por inteiro. Observem: que’ em transe seria capaz de responder a qualquernenhuma uma biografia, nem umazinha sequer, indagaçao. Não me havia dito, porém, que se tratava dana qual o informe constasse! Será que faz reencarnação do Danton. Ora, Desmoulins tinha desentido tal declaração, vinda de especialista na reconhecer Danton e esse reconhecimento seria, semRevolução Francesa? Indagamos: quantas dúvida, fator decisivo de comprovaçao. Pois bem, osbiografias de Camille o declarante leu? Temos fatos ocorreram tal qual o leitor verifícou, ao ler ouma resposta do próprio Burnier: relato correspondente na Primeira Parte deste livro, sob a responsabilidade de Hermínio C. Miranda.“Eu havia lido dezenas de biografias de Danton e
  • 77. Desmoulins”. Acrescento, neste ponto, uma outra informação que não é oriunda das sessões feitas com o Hermínio, mas“dezenas” de biografias, significa de vinte para fornecida, oralmente, pelo César Burnier: além dealém, e em nenhuma delas o nome completo de Charles d’Orléans, do vinagreiro (duas vezes) e deCamille aparecia?! Uma coisa é certa, entre Camille Desmoulins. Eu teria vivido como lugar-essas mais de vinte biografias, Cesar Burnier tenente de Spartacus, líder da célebre revolta dosnão leu a que consta da Enciclopédia Britânica, Escravos em Roma, no século 71 a. C. César Burnierprovavelmente da mais popular das biografias o fora o próprio Spartacus, mui antes, e claro, deespecialista olvidou a leitura ... um tanto reencarnar como o tribuno revolucionário Georgesestranho... contudo o maior problema não está Danton.aí: as boas biografias costumam trazer informespessoais completos sobre os personagens que [É certo que dar asas à imaginação não é crime e atédescrevem. Supomos que Burnier tenha dá um certo colorido à narrativa, porém em nadaexaminado material de boa qualidade. Como ajuda a explicar a experiência...]então aceitar que em nenhum deles o nomeinteiro do revolucionário aparecesse? Até em Mas, pelo menos quanto a mim, estamos, nesse passo,biografia mixurucas a informação está presente. no terreno da mera especulação. Há quem diga, ainda,Quem quiser conferir, basta jogar o nome que ao tempo do nascente Cristianismo fui Demétrio“Camille Desmoulins” em ferramentas de referido por Emmanuel na sua obra Paulo e Estêvão.pesquisa na Internet, vão aparecer um montãode comentários citando o nome inteirinho de Particularmente, acho possível. Mas também não tenhoDesmoulins. (Atenção, antes que digam que não provas de nada. E neste livro só estamos cuidando dehavia internet na época em que as experiências matéria provada e comprovada cientificamente.3foram realizadas, esclareço: a internet não [?!] [Pena que Luciano dos Anjos não quis ampliar aexistia, no entanto as biografias existiam)] declaração, informando o que, em seu modo de ver, significa “matéria provada e comprovadaEsse fato é mais uma contribuição a favor da cientificamente”. Se ele está a se referir à suaautenticidade do depoimento obtido do seu regressão, e à conseqüente suposição de que forapaciente em estado de transe, como se não Camille Desmoulins, como matéria cientificamentebastasse aquela declaração sua de que a Sra. comprovada, então estamos diante de sériasDuplessis-Laridon, mãe de Lucile, tinha o apelido dificuldades. Ressalte-se que nem o próprio Hermíniode Madame Darrone, ‘coincidência’ Miranda ousou emitir declaração tão contundente!notabilíssima que o distinto amigo indica em seu Conforme se vê na nota acrescida por Hermínio aomagistral artigo, usando as seguintes palavras: declarado pelo jornalista]‘Cerca de dois anos depois, ao passar por uma 3livraria, em companhia de L.A. e de César Em verdade seria imprudente assegurar aBurnier – que desempenha nesta pesquisa identificação de Luciano com Demetrio sem disporimportante papel –, encontrei num velho volume de um mínimo de evidências convergentes, comoda história da Revolução a confirmação de que tantas existentes no caso Luclano/Desmoulins.Mme. Duplessis tinha o apelido de Mme. Certas conotações, no entanto, são singularmenteDarrone.’ curiosas. Segundo relato de Emmanuel, pela psicografia de Chlco Xavier, em Paulo e Estêvão,Realmente essa descoberta se deu de acordo com Demétrio era ourives, em Efeso, e tinha consideravela sua exposição de motivos. Nós nos interesse na comercialização de imagens da famosaencontrávamos juntos, por ‘acaso’, quando Diana, deusa da mitologia grega que ali se venerava.entramos na livraria (o almoço não fora A pregação da mensagem cristã, devido aocombinado previamente), onde o livro pioneirismo de Paulo de Tarso, não apenasesclarecedor foi encontrado ... Quantos ameaçava o rendoso comercio como, eventualmente,‘acasos!’. . . poderia acarretar dificuldades a “toda uma classe de homens válidos (que) ficava sem trabalho”, comoSei que o jornalista L.A. tem uma filha, registrada escreve Emmanuel, se ali viesse a implantar-se oem cartório muitos anos antes das suas pesquisas, culto sem imagens do cristianismo nascente.com o nome de Ana Lúcia, o mesmo dainfortunada Anne-Lucile Desmoulins19; sei, Demétrio viu logo o inconveniente que aquilotambém, que ambas nasceram no mesmo dia e no representava para os seus interesses pessoais e, pormesmo mês – 24 de abril. extensão, não sem certo teor de demagogia – as implicações sociais, potencialmente explosivas, ante19 Há pequeno engano de César. aqui. O nome o fantasma do desemprego. Foi o bastante parade Lucile era Anne-Louise, mas era tratada, na entrar em ação com o objetivo de mobilizar aintimidade, por Anne-Lucie ou ainda Lucile. opinião pública. Promoveu uma reunião com seus
  • 78. colegas ourives, que concordaram em aliciar eTudo isso o meu distinto amigo relatou no seu financiar arruaceiros e amotinadores quebrilhante artigo do Reformador de agosto. prontamente comecaram a espalhar boatos tendenciosos pelas ruas, fazendo crer que Paulo eA leitura da tradução da carta escrita por seus seguidores se preparavam para tomar deCamille a seu pai, carta estampada no assalto o templo sagrado de Diana e profaná-Io comReformador, constitui esplêndida prova da a destruição indiscriminada dos objetos do culto.memória regressiva do jornalista L.A.20 Como Paulo estava programado para falar no teatro20 O fenômeno parece uma combinação de local naquela noite, pequena multidão hostilmemória com vidência, pois ele “via” a carta começou a formar-se na praça principal aodiante dos olhos espirituais. entardecer, e a engrossar constantemente no correr das horas.Aliás – é bom precisar aqui –, várias foram ascartas escritas por Desmoulins ao seu progenitor – Não foi difícil manobrar a turba para umaNicolas Desmoulins –, homem de muita verdadeira caçada a Paulo e aos seus. invadiraminfluência na sua terra natal, porém muito primeiramente o teatro, mas o Apóstolo ainda nãoagarrado ao dinheiro. Em quase todas essas estava ali. Prenderam apenas Gaio e Aristarco, doismissivas Camille reclamava ajuda e revelava sua macedônios cristãos que estavam providenciandoânsia de querer subir na política. Numa dessas para que tudo estivesse preparado a tempo e horacartas, escritas com letra quase ilegível – como a para a palestra. Em seguida a multidão saiu nade 20 de setembro de 1789 –, Camille pedia que direção da pequena oficina de Áquila e Prisca, ondese lhe remetessem duas camisas e roupas. (Ver Paulo tecia suas tendas, pois vivia igualmente doEnciclopédia Larousse – volume 6, pág. 570.) humilde artesanato. Também ali não estava Paulo, mas a turba exaltada desmantelou a modesta oficinaO Café Procope ainda existe. Seu dono chamava- dos trabalhadores cristãos, atirando na rua tearesse, de fato, Lopes. Possuo ótimos slides coloridos quebrados e peças de couro. O casal foi preso.desse café. Nada mudou ali. Constatei, através deinformações seguras, que a expressão de que “A notícia espalhou-se com extrema rapidez”, narraalguém pudesse morrer de ‘ramo de ar’ era Emmanuel. “A coluna revolucionária arrebanhavacomumente usada no velho Portugal daqueles aderentes em todas as ruas, – dado seu carátertempos e tinha o significado que o meu amigo lhe festivo. Debalde acorreram soldados para conter adá, no seu artigo, isto é, o de uma crise de multidão. Os maiores esforços tornavam-se inúteis.circulação, ou estupor português.” De vez em quando Demétrio assomava uma tribuna improvisada e dirigia-se ao povo, envenenando osO longo documento preparado por César Burnier ânimos.” (Os destaques são desta transcrição.)prossegue, expondo fabuloso acervo deinformações colhidas tanto em registros históricos Aí está o homem! Se não é o precursor deconfiáveis, que ele vai citando, como no trato Desmoulíns, ou o próprio, é muito parecido ...com seus mentores espirituais, seja através dassuas próprias faculdades mediúnicas, seja com a [Malgrado o respeito que Luciano merece, o perfil devaliosa participação de seu particular amigo suas encarnações não é muito lisonjeiro. DemétrioFrancisco Cândido Xavier. era interesseiro, esperto e oportunista. Não estavaCésar não tem dúvida, assim, em identificar Luís preocupado com o culto a Diana, como dizia, sim comXVI o rei que assistiu, impotente, a queda da o risco de perder rendoso negócio, caso a mensagemBastilha, símbolo vivo e sinistro do absolutismo – pregada por Paulo prosperasse. Camille Desmoulinscomo reencarnação de Carlos V, avô do Duque também não foi lá essas coisas em termos morais:Charles d’Orléans, que em 1377 mandara ambicioso em excesso, aproveitou rara oportunidadeconstruir a Bastilha, usada, a princípio, como que lhe surgiu e desposou rica herdeira − talvez, maisfortaleza e, posteriormente, como prisão política, tarde tenha brotado sincero amor, contudo suaonde crimes tenebrosos foram· cometidos ao motivação inicial não foi sincera. Ainda quelongo dos séculos. Hermínio mostre que existem controvérsias a respeitoPara ele, César, Lucile Desmoulins foi a da real personalidade de Desmoulins, dá a entenderreencarnação de Valentina Visconti, Duquesa de que o moço não foi nenhum anjinho. E Luciano emMilão e de Orléans que antes de morrer induziu dado momento diz: “não mudei nada, continuo oseu filho Charles – o futuro Camille Desmoulins a mesmo”. O que podemos deduzir desta declaração? A– a exigir a punição dos assassinos de seu pai e resposta fica por conta de cada um]ele próprio a vingar-se de João sem Medo. Este, Se é, fazia ali um ensaio que lhe serviria, mil e sete-por sua vez, César identifica com Maximilién centos anos depois, para açular a multidãoRobespierre, como já vimos. (Aliás, até inconsciente e botá-la a caminho da Bastilha. Na
  • 79. fisicamente eles se parecem.) César descreve João Paris daquele final de século XVIII, a tribunasem Medo como “homem terrível, hipócrita e a· improvisada eram as cadeiras do Café. Foi, noquem Paris temia horrivelmente. O assassinato de Palais-Royal. Em Efeso, no primeiro século, talvezLouis (d’Orléans) ficou impune, tamanho o medo, fosse uma banqueta rústica ou um simples bloco deo terror que esse João sem Medo inspirou ao povo pedra, mas o animus revolucionário era idêntico.e ao próprio rei da França – Carlos VII”. Por outro lado, era a mesma multidão amorfa,Reunidas, assim, as personagens, só faltava sempre plástica, quando açulada por hábeisdesenrolar-se o drama, ou melhor, a tragédia que, manipuladores, que lhe dão conteúdo e sentido,afinal de contas, teve conseqüências positivas segundo suas ambições.com a derrubada do chamado “direito divino dos Vemos até um pormenor curioso – o traço artísticoreis”. É certo, contudo, que poderia ter tido as que persiste e transborda quase sempre de vida emmesmas conseqüências com muito menos, vida, manifestando-se nas suas diferentes formas deatrocidades, ou talvez nenhuma. expressão. Em Éfeso, era o ourives. Na FrançaVoltaremos ao documento de César Burnier um medieval, o guerreiro e poeta; na Françapouco mais adiante. Retomemos, agora, o relato revolucionária, o jornalista e poeta; no Brasil,sobre nossa reunião do dia 1º de setembro de jornalista e poeta com o talento adicional para o1967. desenho. Atenção, contudo, para uma ressalva: istoComo ficou dito, logo que iniciamos os trabalhos, não é história – é especulação, cujo teor pode até serLuciano já em transe identificou prontamente a verdadeiro, mas que não deve aqui ultrapassar nspresença de um de seus antigos companheiros da modestíssimas dimensões de sedutora e matizadaRevolução ou, para ser mais exato, seu amigo fantasia. (Nota de Hermínio C. Miranda.)Danton, na pessoa de César Burnier. Preferiu, nãoobstante, chamá-Io por um apelido íntimo – [Um ponto importante, relativo a esse relato sobre aMarius –, que fora colocado por Lucile artimanha de Demétrio: Hermínio atribui aDesmoulins. Aliás, como tivemos oportunidade narrativa à revelação mediúnica, provinda dede observar, Luciano nos dissera, numa das Emmannuel. Porém o texto consta da Bíblia, denossas sessões de pesquisa, que Lucile adorava onde Chico Xavier, representando Emmannuel, obotar apelidos nos amigos. Os casais Desmoulins copiou e acrescentou alguns passos, por conta de suae Danton eram quase vizinhos – viviam ali em imaginação. Tudo indica que nem Hermínio, nemtorno da cour de Commerce – e, além disso, Luciano sabiam disso.amigos íntimos que se encontravam com Para quem quiser conferir, reproduzimos abaixo ofreqüência, socialmente. O apelido invocado por texto bíblico, de onde o alegado Emmannuel extraiuLuciano, em transe, oferece dessa forma valioso a história.fator de autenticidade, mesmo porque, ali naquelasala, somente César Burnier tinha condições de ATOS [19]saber de quem se tratava. Foi como que a senha 1 E sucedeu que, enquanto Apolo estava em Corinto,identificadora, a centelha que reacendeu a chama Paulo tendo atravessado as regiões mais altas, chegou ada velha e sólida amizade, a mola que destravou Éfeso e, achando ali alguns discípulos,todo o mecanismo do reencontro. 2 perguntou-lhes: Recebestes vós o Espírito SantoLogo que Luciano disse que Marius estava quando crestes? Responderam-lhe eles: Não, nempresente ali, César aproximou-se mais, sequer ouvimos que haja Espírito Santo.visivelmente emocionado e atento. Era com ele 3 Tornou-lhes ele: Em que fostes batizados então? Emesmo... ainda que nós outros não soubéssemos eles disseram: No batismo de João.bem, de início, o que estava se passando entre 4 Mas Paulo respondeu: João administrou o batismo doeles dois. A essa altura, não eram mais César arrependimento, dizendo ao povo que cresse naqueleBurnier e Luciano dos Anjos, e sim, Georges que após ele havia de vir, isto é, em Jesus.Danton e Camille Desmoulins que se 5 Quando ouviram isso, foram batizados em nome doreencontravam, cento e setenta e quatro anos Senhor Jesus.depois que se viram pela última vez, sobre o 6 Havendo-lhes Paulo imposto as mãos, veio sobre elestablado da guilhotina, ante a multidão agitada, na o Espírito Santo, e falavam em línguas e profetizavam.place de Ia Revolution, em 5 de abril de 1793 (16 7 E eram ao todo uns doze homens.germinal pelo calendário da Revolução.) 8 Paulo, entrando na sinagoga, falou ousadamente porE o que pede Luciano a César? Dirigindo-se a espaço de três meses, discutindo e persuadindo acercamim, diz ele: do reino de Deus.– Pede ao Danton que me dê um beijo ... 9 Mas, como alguns deles se endurecessem e nãoEm verdade, Sanson, o carrasco, impediu que os obedecessem, falando mal do Caminho diante daamigos se despedissem com o clássico beijo multidão, apartou-se deles e separou os discípulos,francês. Danton, tremendo fazedor de frases, discutindo diariamente na escola de Tirano.deixou cair mais uma: 10 Durou isto por dois anos; de maneira que todos os– Que importa, se nossas cabeças se beijarão, que habitavam na Ásia, tanto judeus como gregos,
  • 80. dentro de alguns instantes; no cesto? ouviram a palavra do Senhor.Era esse o beijo que Desmoulins reencarnado 11 E Deus pelas mãos de Paulo fazia milagresestava agora a reclamar de seu amigo Danton, extraordinários,também reencarnado. Era a expressão sentimental 12 de sorte que lenços e aventais eram levados do seude um símbolo que reatava as pontas soltas de corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíamduas vidas. deles os espíritos malignos.“César curvou-se respeitosamente”, escrevi eu em 13 Ora, também alguns dos exorcistas judeus,Reformador de agosto de 1972, “e depositou o ambulantes, tentavam invocar o nome de Jesus sobre osbeijo há tanto tempo devido sobre a testa do que tinham espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vosamigo reencontrado.” Era insuportável a emoção por Jesus a quem Paulo prega.de todos os presentes, mas especialmente dos dois 14 E os que faziam isto eram sete filhos de Ceva, judeu,protagonistas que, no século XX, reatam uma um dos principais sacerdotes.amizade que floresceu tragicamente no século 15 respondendo, porém, o espírito maligno, disse: AXVIII. Jesus conheço, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?Seguiram-se as perguntas formuladas por César e 16 Então o homem, no qual estava o espírito maligno,as respostas de Luciano, conforme já vimos do saltando sobre eles, apoderou-se de dois e prevaleceurelato de Burnier há pouco transcrito. contra eles, de modo que, nus e feridos, fugiramNaquela mesma noite Luciano, em transe, daquela casa.identificou mais um amigo de outras eras, desta 17 E isto tornou-se conhecido de todos os que moravamvez na pessoa do nosso companheiro Abelardo em Éfeso, tanto judeus como gregos; e veio temor sobreIdalgo Magalhães, em quem ele já identificara todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido.também Charles de Guise, cardeal da Loraine. 18 E muitos dos que haviam crido vinham, confessandoNão era ao cardeal, porém, a quem ele se referia e revelando os seus feitos.agora e, sim, a certo Charles Bossut, que, segundo 19 Muitos também dos que tinham praticado artesele, fora seu professor de matemática nos dias de mágicas ajuntaram os seus livros e os queimaram naestudante no Colégio Louis-le-Grand. Luciano presença de todos; e, calculando o valor deles, acharamdizia que Bossut fora sacerdote católico, profundo que montava a cinqüenta mil moedas de prata.conhecedor de matemática e física e autor de 20 Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente ealguns livros didáticos, sendo de notar-se um que prevalecia.estudava as leis físicas que governam o 21 Cumpridas estas coisas, Paulo propôs, em seumovimento dos fluidos. Disse mais, que em plena espírito, ir a Jerusalém, passando pela Macedônia e pelaRevolução salvara a vida de seu antigo mestre Acaia, porque dizia: Depois de haver estado ali, é-mefornecendo-lhe um salvo-conduto providencial, necessário ver também Roma.com o qual o velho padre conseguiu escapar à 22 E, enviando à Macedônia dois dos que o auxiliavam,sanha trágica das matanças do Terror. Timóteo e Erasto, ficou ele por algum tempo na Ásia.Como sempre, isto não é posto aqui como fato 23 Por esse tempo houve um não pequeno alvoroçocientificamente demonstrado ou sacudindo provas acerca do Caminho.concretas nas mãos. Andei discutindo alhures em 24 Porque certo ourives, por nome Demétrio, que faziameus escritos (A Memória e o Tempo) o conceito da prata miniaturas do templo de Diana, proporcionavade demonstração e prova, bem como o que não pequeno negócio aos artífices,constitui prova no contexto da fenomenologia 25 os quais ele ajuntou, bem como os oficiais de obraspsíquica. Não temos, pois, provas a exibir, mas semelhantes, e disse: Senhores, vós bem sabeis quealgumas evidências são impressionantes. desta indústria nos vem a prosperidade,Foi bastante difícil, em primeiro lugar, descobrir 26 e estais vendo e ouvindo que não é só em Éfeso, masreferências históricas àquela obscura personagem em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e– o Abade Bossut. A Enciclopédia Britânica, desviado muita gente, dizendo não serem deuses os queúnica obra de consulta de que dispúnhamos ali no são feitos por mãos humanas.momento, não trazia a mínima indicação. 27 E não somente há perigo de que esta nossa profissãoLembro-me de Armando Assis e eu a caia em descrédito, mas também que o templo daprocurarmos no índice todas as grafias possíveis: grande deusa Diana seja estimado em nada, vindoBossut, Bossu, Bossy, Baussu... Nada! Só algum mesmo a ser destituída da sua majestade aquela a quemtempo depois conseguimos apurar, em livros toda a Ásia e o mundo adoram.franceses, que o homem realmente existiu. Um 28 Ao ouvirem isso, encheram-se de ira, e clamavam,dia, porém, obtive dados mais amplos sobre ele. dizendo: Grande é a Diana dos efésios!Teria sido por “acaso”? Não sei. Encontrava-me 29 A cidade encheu-se de confusão, e todos à umaem Barra Mansa – tratava de dentes com um correram ao teatro, arrebatando a Gaio e a Aristarco,primo dentista que ali exercia, com inquestionável macedônios, companheiros de Paulo na viagem.competência, sua nobre profissão – quando me vi 30 Querendo Paulo apresentar-se ao povo, os discípuloscom uma disponibilidade inesperada de tempo. não lho permitiram.Pois bem, funcionava ali no mesmo edifício onde 31 Também alguns dos asiarcas, sendo amigos dele,
  • 81. meu primo dentista tinha seu consultório Uma mandaram rogar-lhe que não se arriscasse a ir ao teatro.sessão da valiosa biblioteca pública mantida em 32 Uns, pois, gritavam de um modo, outros de outro;Barra Mansa pela prefeitura local. Entrei sem porque a assembléia estava em confusão, e a maiornenhuma idéia preconcebida e comecei a ver os parte deles nem sabia por que causa se tinham ajuntado.livros, paixão antiga e incurável. Magnífico 33 Então tiraram dentre a turba a Alexandre, a quem osacervo de obras preciosas ali estava. Logo dei judeus impeliram para a frente; e Alexandre, acenandocom velhíssimo livro francês, uma espécie de com a mão, queria apresentar uma defesa ao povo.enciclopédia cujo título e características não 34 Mas quando perceberam que ele era judeu, todos aanotei, mas que ainda deve estar em Barra Mansa. uma voz gritaram por quase duas horas: Grande é aLá estava um verbete mais ou menos extenso Diana dos efésios!sobre o nosso caríssimo Abade CharIes Bossut. 35 Havendo o escrivão conseguido apaziguar a turba,Confirmava-se ali a época em que vivera e as suas disse: Varões efésios, que homem há que não saiba queespecializaçêes culturais. Foi, realmente, notável a cidade dos efésios é a guardadora do templo damatemático e físico, ainda que obscuro, e grande deusa Diana, e da imagem que caiu de Júpiter?escrevera os livros a que Luciano se referira. Sua 36 Ora, visto que estas coisas não podem sergrande paixão foi a matemática. Nos últimos contestadas, convém que vos aquieteis e nada façaistempos de sua pobre existência caiu em estado de precipitadamente.apatia, do qual não conseguia livrar-se. Já não 37 Porque estes homens que aqui trouxestes, nem sãofalava, nem se interessava por coisa alguma. sacrílegos nem blasfemadores da nossa deusa.Alguém se lembrou de provocar nele uma reação 38 Todavia, se Demétrio e os artífices que estão comqualquer que o reanimasse. Daí a pergunta, a ele têm alguma queixa contra alguém, os tribunais estãoúnica que poderia interessá-lo: abertos e há procônsules: que se acusem uns aos outros.– Professor, qual é o quadrado de 12? 39 E se demandais alguma outra coisa, averiguar-se-áE ele, num sopro, quase sem alento: em legítima assembléia.– Cento e quarenta e quatro ... 40 Pois até corremos perigo de sermos acusados deVejamos, agora, o estranho jogo de circunstâncias sedição pelos acontecimentos de hoje, não havendoque cercam essas identificações. Partamos da motivo algum com que possamos justificar estehipótese inicial de trabalho de que são verdadeiras ajuntamento.tais identificações. 41 E, tendo dito isto, despediu a assembléia.Numa existência no século XV o cardeal deGuise, poderoso ministro de Catarina de Médicis E Jean-Paul Marat? Eis outra história não menos– que por sua vez seria uma existência anterior do fascinante de quantas tenho relacionado até aqui. Nesteespírito Robespierre –, socorre o Duque caso, cresce o fascínio, pois envolve um dos maisd’Orléans, então reencarnado na pessoa de um discutidos jornalistas da França revolucionária, cujahumílimo vendedor ambulante de vinagre, reencarnação no Brasil atraiu, igualmente, a atenção dosalvando-lhe a vida num tumulto de rua. Ao que povo, das autoridades, dos círculos políticos e culturaistudo indica, esse tumulto foi o massacre da Noite de todo o país. Por isso mesmo vejo-me no dever de mede São Bartolomeu, a 24 de agosto de 1572. alongar um pouco mais no exame da sua personalidadePosteriormente – cerca de dois séculos após –, e da sua presença nas nossas reuniões, em que pese asrevertido de uma existência de fausto e poder a referências já feitas pelo Hermínio, na Primeira parteoutra de humílima condição social, o antigo deste livro. Vamos, pois, conhecer o retorno de Jean-cardeal é agora modesto sacerdote e competente Paul Marat, o famosíssimo político e jornalista que,professor de matemática e física. O tumulto agora incediou a França, às vésperas do 14 de Julho, duranteé o da Revolução Francesa, pelo qual ele seria o período agonizante da monarquia e mesmo após suafatalmente tragado. Tinha, porém, um crédito queda, até que fosse apunhalado, dentro duma banheira,cármico. Tivera um gesto de bondade, acolhendo pela coragem e o sangue-frio de Charlotte Corday.um pobre vinagreiro em tempos outros. O Localizado Desmoulins, era natural que, en passant,vinagreiro é agora figura influente na Revolução e esbarrássemos também na figura de Marat, pois ambosum de seus ex-alunos e lhe dá um ‘salvo-conduto eram amigos (depois romperam), viveram quase osprovidencial, com o qual retribui o generoso gesto mesmos ideais e conviveram no mesmo momentode 1572. histórico, embora Desmoulins fosse bem mais moço.Mas a “novela” continua. Segundo soubemos de Aliás, daquela plêiade de revolucionários, Marat era ooutras fontes, o antigo cardeal, que foi também o mais velho de todos.Abade Bossut, obscuro mas genial matemático,voltou à carne, desta vez em 1854, na figura não Houve época em que marquei encontro com ele, nomenos genial de Henri Poincaré. O campo de seu Rio, e não pude comparecer. Era meu intento identificá-interesse? O mesmo de antes: matemática, física, lo publicamente somente depois de ouvi-lo a respeito.astronomia, a filosofia da ciência... Nasceu, ou Por isso, quando, pela primeira vez, abordei namelhor, renasceu em Nancy, deixou mais de trinta imprensa o assunto, fiz a omissão do nome dele. Maislivros e cerca de quinhentos papéis do mais alto tarde, porém, mantivemos contato e, em princípio, ele,
  • 82. valor científico. Sua paixão, porém, continuava não demonstrou nenhum receio de ser identificado,sendo a matemática, à qual deixou uma ainda que não me confirmasse nem desmentisse acontribuição internacionalmente reconhecida hipótese de ter sido, em vida anterior, o jornalistacomo do maior relevo. Tudo o que fez, foi bem francês. Achou-a, porém, interessantíssima e sefeito. Até mesmo sua linguagem era simples, entusiasmou pelo assunto. Seja como for, a ninguémcorreta e bela. Tão bom era como cientista quanto seria difícil reconhecer o mesmo espírito em duasfoi como escritor. Foi um mestre da língua personalidades. Basta ler a vida de Marat, que guardou,francesa, como diz a Britânica. Chegou, por isso, praticamente, todas as suas características, embora nãoà Academia Francesa, onde foi ocupar a cadeira tenha deixado de progredir espiritualmente, dentro dasdeixada vaga com a morte do poeta Sully inexoráveis leis evolutivas. É certo, também, quePrudhomme. Morreu em 1912, cercado de imenso voltara com inteligência, talvez ainda mais brilhante, erespeito e admiração. Em Paris, residiu à rue de um peso cultural digno, nesse particular, tanto do seuGuise, a alguns metros dos portões senhoriais da passado quanto do seu mais recente presente.família que em outros tempos fora sua. [Luciano não percebe que a “fórmula” por eleSeu primo, o não menos ilustre Raymond adotada para reconhecer encarnações éPoincaré, advogado, escritor e político eminente, completamente subjetiva. Com um pouco de paciênciachegou a ser presidente da França. Seria ele – e engenho criativo é possível encontrar similaridadesoutra especulação que podemos considerar entre duas pessoas, sejam elas quem forem. Depois,gratuita, mas possível –, seria ele a reencarnação basta destacar esses pontos em comum e esquecer asdo famoso Duque de Guise, irmão do antigo diferenças e, pronto!, temos os perfiscardeal e que agora vinha como seu primo irmão? reencarnacionistas estabelecidos. Se se pretende levarFica aberta a questão. Talvez algum dia possamos a teoria reencarnacionista a sério, esses exercícios deapurar isso ... inventividade deveriam ser descartados]E então, em vez de escrever um Who’s Who Conheci-o de perto. Foi figura invulgar, embora(Quem é Quem), escreveríamos um Who was suscitasse sempre controvertidas opiniões em todos osWho (Quem foi Quem). meios. Trata-se do político e jornalista Carlos Lacerda.E já que estamos aqui fazendo algumas conexões, Algum tempo antes da sua desencarnação, ele vinhavoltemos ao relato de César Burnier, de onde faço demonstrando público interesse pelos assuntosmais uma transcrição, de vez que ele me paranormais, bastando lembrar, por exemplo, a pequenaautorizou a utilizar com liberdade todo o material nota saída na edição de 23.3.72, pág. 10, do Jornal doque generosamente colocou à minha disposição. Brasil, sob o título “Parapsicología” – Seção Informe“Não há palpite nessas afirmações”, escreve ele, JB:na já citada carta de 30 de março de 1973 a mim. Preso ao leito, com uma basite que trouxe de Atenas,“Elas se esteiam em pesquisas sérias, estribadas o Sr. Carlos Lacerda nada mais tem podido fazer aem lastro de caráter científico. Possuo, também, não ser intensificar seus estudos sobrevárias mensagens mediúnicas recebidas por Chico parapsicologia. Numa dessas noites, em sua casa,Xavier, focando parte do apaixonante assunto. presentes os Srs. José Gueiros, Nertan Macedo eQuanto à figura de Louise Gely – falecida em Roniquito Chevalier, falando sobre a Grécia, fez1856, com 80 anos –, sou feliz em declarar que é amplas considerações sobre o movimento deela um dos meus principais mentores no campo liberdade das esculturas gregas. Ficouda minha mediunidade de colorido histórico. impressionado quando, no dia seguinte, encontrouLouise reencarnou no Brasil em 19.8.1932 e num livro de André Malraux (Psicologia da Arte)desencarnou em 31.3.1938, em Belo Horizonte. um trecho que ele e seus convidados desconheciam eFoi um menino lindo e inteligentíssimo.21 no qual o autor escreveu: “Em face da escravidãoChico Xavier, ao tempo da ‘Grande Revolução’, petrificada das figuras da Asia, o movimento dasera uma moçoila um tanto caiplra da cidade de estátuas gregas, o primeiro que os homensArras. Chamava-se Jeanne d’Arencourt. Jeanne conheceram, é o próprio símbolo da liberdade.” Oera protegida de Andréa de Taverney, Condessa Sr. Carlos Lacerda ficou vivamente impressionado,de Charny, que a introduziu na corte de Maria porque havia tratado longamente do tema, na noiteAntonieta. anterior, e depois abre esse livro e encontra[Quem milita no meio espírita talvez possa Malraux tratando do mesmo problema.esclarecer a estarrecedora dúvida, que brota da Relacionava-me bem com ele, certamente por extensãodeclaração de Burnier: será que a revelação natural do relacionamento que tivéramos, à época dasobre esta reencarnação do médium de Uberaba Revolução Francesa. Em dezembro, sempre me enviavateve a repercussão devida? Existem cumprimentos natalinos. Por volta de agosto de 1972,especulações mil sobre as vidas passadas de Carlos Lacerda voltou a exprimir, na Manchete, seuChico Xavier. Numeroso segmento no interesse pelos fenômenos supranormais. E no dia 12 deespiritismo advoga ter sido ele o própro Kardec outubro daquele ano ele regressava da Europa e mereencarnado! César Burnier não entra nesta mandava um cartão, onde dizia, dentre outras coisas:polêmica, prefere desencavar uma vida modesta, “Caro Luciano: trouxe o último livro do Arthur
  • 83. ao tempo da Revolução, na qual Chico Xavier Koestler, na tradução francesa, intitulado Les Racinesassumira a identidade de uma mulher! Ao que du Hasard, no original The Roots of Coincidence, umtudo indica, nem o próprio Chico jamais estudo fascinante sobre as relações de tudo isso com acomentou a respeito dessa suposta vivência, física e os últimos avanços científicos. Tão logo meprovavelmente, o gentil médium concluiu que desvencilhe das urgentes tarefas que aqui os dias deBurnier estaria por demais eufórico e preferiu ausência me absorvem, gostaria de vê-lo e ouvi-lo. Umesquecer o assunto !] abraço do Carlos Lacerda.”Sua permanência na corte foi muito curta. É que Vale repisar que no Brasil apenas refizemos um velhoJeanne, sem jeito e extremamente acanhada, companheirismo, voltando, ambos, tanto eu quanto ele,quebrou logo o protocolo real pisando nos pés da às mesmas lides jornalísticas, embora, é claro, haja merainha. Foi a sua felicidade. Esse acidente, faltado sempre, pelo menos nesta encarnação, o talentoafastando·a da alta nobreza, evitou-lhe a morte na iluminado que fez de Carlos Lacerda um dos homensguilhotina, mas não evitou que a lâmina desta mais brilhantes e mais conhecidos do Brasil e docortasse a cabeça do seu pai, pequeno nobre da mundo. De qualquer forma, nas minhas limitações nãoterra de Robespierre. me faltaram, também, algumas proezas, tais as que o21 O menino foi filho do próprio César leitor conheceu no Capítulo 2 da Segunda Parte desteBurnier, que ficou desesperado ao vê-lo livro. Não fosse a Doutrina Espírita – costumo repetirmorrer com 6 anos incompletos. –, também teria eu me envolvido de corpo e alma, maisJeanne era amiga de Danton. Apelou para o uma vez, na política, tal como ocorreu a Marat nestaardoroso tribuno pedindo sua ajuda junto ao última encarnação‘Incorruptível’. Danton levou-a à presença do‘todo-poderoso detentor das pulcritudes cívicas’. Logo depois que Carlos Lacerda recebeu, ao lado doDurante o trajeto, Danton recomendou-lhe: Major Rubem Vaz, o célebre tiro no pé, que originou a‘Atire-se aos pés do homem; diga-lhe que seu pai dramática crise de 1954, recolheu-se ao seué pessoa moderada, nascida em sua terra Arras; apartamento com alguns amigos, muitos políticos echame-o de Citoyen, mostre-se humilde e jornalistas, encontrando-me então entre eles. Já conteiconfiante no seu poder e na sua magnanimidade.’ que no apogeu da TV Rio, Canal 13, em plenaJeanne cumpriu religiosamente os conselhos do efervescência política do governo de Juscelinoamigo, enquanto Danton se dirigia ao Pontífice Kubitscheck, dirigi naquela televisão um programa aodas Virtudes Cívicas, implorando sua piedade vivo, conseguindo fazer a proeza de colocar à mesmapara com a infeliz moça. Robespierre ouviu-o das mesa de debates personalidades eminentementeculminâncias do seu orgulho. Depois, num gesto adversárias, inclusive CarIos Lacerda.todo seu, atirou a cabeça para trás, trincou osmaxilares e exclamou: O bom relacionamento da França, portanto, esteve– Minha filha, Robespierre comoveu-se com a sua sempre vivo, em que pese, é claro, naturaisrogativa, mas é o Comitê de Salvação Pública que divergências ideológicas, tanto (naquela quanto nestaestá encarregado dos assuntos da pátria. Todo encarnação...traidor terá de morrer!No dia seguinte o pai de Jeanne perdeu a cabeça Marat foi um dos homens mais discutidos da Françana guilhotina, e a moça, banhada em lágrimas, revolucionária. Jornalista de acutilada visão, não rarofugiu para a Espanha, onde faleceu, algum tempo acusavam-no de escandalizar pelas suas tão disputadasdepois, vítima da tuberculose (Barcelona), na quanto arrepiantes colunas. Caracterizava-se,igreja de Sant’Ana. principalmente, pela denúncia de negociatas eEmmanuel, o magnífico guia do Chico, fugiu de conchavos políticos. Porém, às vezes, se equivocava.Paris, do Terror de Robespierre. Chamava-se Jean Prometia, então, apresentar provas documentais de seusJacques Tourville ou Turville. Era professor da doestos, mas acabava não o fazendo, por absoluta faltanobreza e se refugiou igualmente na Espanha. delas ou por total desprezo a seus acusados e[Aqui encontramos outra reencarnação, gerada acusadores. Notável demagogo, Marat era, igualmente,da inventividade de Burnier, que não conheceu talentoso como escritor e vibrante como orador.qualquer divulgação! Há suposições de que Quando encurralado, teatralizava seus posicionamentos,Emmannuel fora Manoel de Nóbrega, padre do alto das tribunas, e seu verbo retumbante defluía àjesuíta. Parece que esta foi confirmada pelo conta de impressionante magnetismo pessoal, quepróprio Chico. Entretanto, da “revelação” de envolvia e esmagava, empolgava e dominava. NumaBurnier não se conhece qualquer comentário ocasião, quiseram cassar-lhe o mandato, e tudo já(não ao nível em que informação dessa estava combinado para isso. Mas quando Maratimportância para as lides espíritas mereceria). começou a discursar para defender-se, foi tal suaQual terá sido o motivo do silêncio em torno de retórica que pouco a pouco o clima se modificou, e nanotícia que esperar-se-ia fosse exaustivamente votação final ele saiu vencedor. Isso mesmo veio adivulgada? Será que a comunidade espírita não acontecer com Carlos Lacerda, quando ele era deputadolevou a sério a pretensa capacidade de César federal. De outra feita, Marat deixou perplexa a nação
  • 84. Burnier em revelar identidades pregressas?] quando, vendo perigar determinada tese, sacou umA citação desses episódios – meu caro amigo punhal e ameaçou suicidar-se ali mesmo, em plenaHermínio força-me a ir além do que havia Assembléia, diante dos seus pares e do público! Apesarpremeditado dizer-lhe quando iniciei esta carta. dessas atitudes extremadas e radicais, era pessoalmenteNão é aconselhável que eu fique nos prelúdios do instável e inconstante. Diziam dele que não tinhapassado e interrompa a seqüência dos amigos, porque a todos traía se sua causa estivesse emacontecimentos, por demais significativos para risco. A análise, é claro, é subjetiva, não faltando,nós, em virtude das suas lições de aspecto portanto, os que, ao contrário, vissem nessesevangélico e cármico. Vou aos fatos. comportamentos a imagem da verdadeira fidelidade aRobespierre reencarnou no Brasil na figura de ideais mais altos que os das amizades pessoais.uma médica (Minas Gerais). Seu novo sexo – aoque julgo – deveria dar-lhe novas perpectivas da Indiscutível, porém, era sua fácil mudança de lado, oravida, principalmente na faixa da sentimentalidade surgindo como líder popular das esquerdas, orareparadora. Veio ligada a Saint-Just, seu marido e liderando as hostes elitistas da direita. Foi alvo demédico também. Tiveram várias filhas e viveram atentados. Era temido. Fez da conspiração um hobby.pobremente. Toda a velha entourage do Seu jornal, L’Ami du Peuple (O Amigo do Povo),‘Incorruptível’ surgiu de novo em torno dos dois. nasceu da venda de bônus e fazia campanhas de subs-Entretanto a idéia da morte e as velhas correntes crição pública para subsistir. Nesse particular Carlosdo extermínio demonstradas fartamente no Lacerda nada mais fez do que reeditar seu método, já‘Grande Terror’ (1794) acompanharam o casal que a Tribuna da Imprensa nasceu, também, da vendaem lide. Materialistas, inclinados a princípios de bônus ao público e empreendeu, nos mesmosnegativistas, pressionados por aflições íntimas, termos, algumas campanhas financeiras junto aosencontraram logo um caminho salvador: o leitores, a fim de se manter. L’Ami du Peuple era umsuicídio. Houve um pacto entre eles, cumprido dos veículos mais populares, subversivos epor ele só, o médico. O desespero levou a escandalosos da época. Quando, devido às suascompanheira às raias da loucura. Devia matar-se campanhas, a situação se convulsionava, Marat setambém e injetar cianureto de potássio nas veias retirava da França e ficava esperando que a crise pas-das suas filhas. Todavia afogou-se em lágrimas e sasse. “Tantas ele fez que acabou sendo assassinado!esperou ... Charlotte Corday, a pretexto de fornecer-lhe uma lista de conspiradores para publicar, conseguiu entrar emSeu destino ainda não estava cumprido de todo: seus aposentos e apunhalou-o enquanto ele se banhava.faltava-lhe o segundo ato – o conhecimento do Terminava, naquele instante, a carreira de um dos maisEspiritismo e o perdão do Chico e de outras excêntricos políticos e jornalistas franceses. De lá, veiovítimas suas. ele reencarnar-se no Brasil, onde novamente encontrou o caminho da política e do jornalismo. Então, repassouPressionada pelo sofrimento, a médica lembrou- quase todas as suas lutas, aspirações e técnicas,se de consultar outro médico de Minas, ex- contribuindo, não obstante, para o enriquecimento daprofessor da Universidade de Minas e inteligência nossa história, em que pese todas as restrições feitas porbrilhantíssima, quanto aos seus pontos de vista seus adversários. Acertando ou se equivocando. não seem face do intercâmbio entre os vivos e os lhe pode negar o lugar que. conquistou nos fastos damortos. O professor fora materialista nossa cultura. Pena que tenha despertado um poucointransigente. Entretanto ... tarde para as realidades maiores do espírito, quando começou a se interessar de perto pela fenomenologiaEntretanto teve que se inclinar diante da evidência supranormal.dos fatos. Há muitos outros pontos de relação entre Marat eÉ que em sua carteira guardava um soneto de Lacerda, inclusive a alcunha que aquele recebera deHermes Fontes, dirigido à sua viúva, quando esta “Ave de Rapina”, enquanto este era chamado desenhora, acompanhada pelo médico em apreço e “Corvo”, depreciativos que, entretanto, nunca ospor outras pessoas, assistira, em Pedro Leopoldo, abalaram. Tal é a semelhança de comportamento que oem virtude de inesperado acontecimento, a uma jornalista David Nasser fez, em artigo publicado em Oreunião espírita em que Hermes Fontes produzira Cruzeiro, paralelo que, sem saber, mais não era do queesplêndida mensagem (lindo soneto), do qual a expressão da melhor verdade reencarnatória: “Marat-somente eu possuo cópia. Nesse soneto Hermes Lacerda”.faz alusões claras às razões que o levaram ao Os fatos sobre Marat estão na história. A revelação dasuicídio, perdoa aos que motivaram esse gesto sua encarnação no Brasil foi feita pelo companheirotresloucado e cita, taxativamente, o nome da sua Camille Desmoulins. Ambos Vieram daquela agitada,ex-companheira, sentada ali, ao lado do médico, e turbulenta e ImprevisíveI época de Luís XVI, dousando nome trocado ... Diretório, da Comuna e do Comite de Salvação Pública para se reencontrarem, afinal, na Terra do cruzeiro doO soneto era cem por cento do magnífico poeta Sul. E se alguma dúvida ainda restasse a mim ou ao
  • 85. brasileiro, absolutamente seu. A surpresa do Hermínio, tê-la-íamos desfeito completamente nomédico catedrático foi sem limites. Foi ele instante em que apanhamos a Enciclopédia Britânica emesmo que leu, em voz alta, o soneto, deparamos com o retrato de Marat. Incrível! Nemacrescentando-lhe o seguinte comentário: ‘Estou fisionomicamente mudara. Era o mesmo ...atônito. Sem o mínimo esforço recebi, de uminstante para outro, a mais irrecusável prova da Agora, algumas palavras sobre Luiz Antônio Guillonsobrevivência do homem. É incrível o que está Ribeiro, sobre meu pai e sobre minha irmã.acontecendo conosco neste momento. Chico nãome conhecia pessoalmente, nem a mim nem à Luiz Antônio Guillon Ribeiro é filho de um dos miissenhora que Hermes Fontes mencionou neste notáveis espíritas que o Brasil já conheceu: Luizsoneto.’ A viúva do poeta soluçava de emoção. Olimpio Guillon Ribeiro autor e tradutor de numerosas obras de peso, entre as quais as de Allan Kardec e deFoi essa peça literária que levou a médica (ex- Jean-Baptiste Roustaing, dois bauartes da DoutrinaRobespierre), a que eu vinha me referindo, à Espírita. Presidiu (o pai) a Federação Espírita Brasieirapresença de Chico Xavier. formando, ao lado de Augusto Elias da Silva, que a fundou, e de Adolfo Bezerra de Menezes, que foi oPor cinco vezes ela perambulou entre Belo grande apóstolo daquela entidade, um trio evangélicoHorizonte e Pedro Leopoldo, sem poder de papel marcante na longa história do espiritismo.aproximar-se do nosso querido Chico. Sérios Tenho-o na conta de meu amigo espiritual. Ajuda-meembaraços afastaram-na do médium. O destino ou constantemente. Socorre-me. Inspira-me. Supre minhasas leis cármicas exigiam-lhe o recurso que lhe deficiências, notadamente as espirituais. Devo-lheestava previamente traçado: minha interferência muitíssimo, e não poucos médiuns o vêem ao meu ladono seu problema sentimental. quando escrevo ou quando falo. Não seria de estranhar, talvez, a amizade que, desde longos anos, nasceuTivemos uma entrevista a sós. Falei-lhe sobre a também entre mim e seu filho Luiz Antônio Guillonsua tragédia, a beleza dos princípios de Kardec, a Ribeiro. Clinicou, muitas vezes, minha mãe, meu pai,gloriosa mediunidade de Chico e aconselhei-a a minha tia. É meu médico, em quem confio cegamente.que voltasse à casa do Chico imediatamente, pois Na hora da dor de barriga, é para ele que apelo. Isso,tinha certeza de que seria atendida nessa sexta desde todos os tempos, inclusive quando ele aindavez. cooperava com a FEB, dando consultas gratuitas, em sua sede, na avenida Passos .. É meu amigoAssim sucedeu. Munida de uma apresentação do incondicional. Orgulho-me dessa amizade. E tanto queProfessor Mello Teixeira – o médico que Hermes o convidei a avalizar meu contrato de casamento. ÉFontes traumatizou –, apresentação, aliás, em que dele a assinatura que consta, para minha alegria, emseu nome era omitido, a pedido da própria nossa certidão.interessada, rumou para Pedro Leopoldo adesolada senhora. Pois bem, durante nossas reuniões, ei-lo que surge na personalidade do Abade Bérardier, culto professor,Recebeu-a, sob angustiosa sensação, o pai do diretor do Colégio Louis-le-Grand, o mais afamado damédium, o mesmo indivíduo cujo destino, em época revolucionária. Foi mestre e amigo pessoal tanto1794, estava dependendo do Comitê de Salvação de Desmoulins quanto de Lucile Duplessis. E foi,Pública e para o qual Robespierre nada poderia precisamente, quem lhes celebrou o casamento, ocor-fazer, porquanto ‘todos os traidores teriam de rendo, então, um episódio curiosíssimo, que a históriamorrer’. narra e que, de certa forma, acabou se repetindo nos tempos atuais.Apresentada ao Chico, a senhora negou-se adeclinar seu nome. O médium, perturbado com Bérardier disse que só celebraria o casamento se oessa desconfiança, consultou Emmanuel quanto jornalista abjurasse as idéias revolucionárias que vinhaao que deveria fazer. A resposta veio difundindo pela imprensa. Desmoulins se negou a fazê-imediatamente: ‘Trata-se da Doutora Fulana de lo. Bérardier, que não estava interessado em brigar comTal, e de seu marido, Doutor Sicrano, o ex-discípulo e estimado amigo, buscou uma soluçãodesencarnado por suicídio. Vou buscá-lo na lama de fantasia: faria a celebração se Lucile, que erado seu sepulcro. Esperem um instante. Voltarei católica, abjurasse pelo noivo. “ Ora, um verdadeirologo.’ absurdo, pois a abjuração de qualquer idéia só pode ter vaIor se feita pela própria pessoa. Mas, no caso, o que oEssas declarações de Emmanuel deixaram a viúva bom Bérardler queria era uma saída. Desmoulinsinteiramente arrasada. Segundos depois Chico respondeu que a noiva o faria, com toda a certeza, eXavier advertia: ‘Emmanuel se aproxima ‘com isso, de fato, aconteceu. E o casamento se realizou.um espírito cambaleante, que se contorce de dores Pois bem, embora sem a presença de Bérardier (Luizno estômago e no esôfago. Ele exclama, Guillon), esta cena voltou a acontecer, em minha vida
  • 86. aflitivamente, o nome das duas pessoas: P... e atual. Minha mulher (Nely) era católica (hoje é espíritaN ... ‘ como eu). Fez questão do casamento na Igreja. Eu lheNa verdade, P ... e N... (cunhado e filha do disse que para mim não teria nenhum valor. Mas, ésuicida) foram as pessoas que o socorreram no claro, tendo-o para ela, não seria justo frustrá-Ia.instante em que o médico entrara em agonia. Concordei e marcamos a data. Na semana anterior, fuiNão pretendo ir além na narração de tudo quanto chamado à Matriz para instrução do processo. Em meioaconteceu depois, mas devo dizer-lhe – distinto a um montão de tolices, o padre queria que “abjurasseamigo Hermínio Miranda – que, poucas semanas ao protestantismo, à Associação Cristã dos Moços, aoapós, Chico Xavier reproduziu para mim o que marxismo e ao espiritismo”. Aí não deu. Os outros trêsouvira do seu guia Emmanuel com referência à não me importavam em nada, mas abjurar aodesolada senhora, a quem todos nós socorremos espiritismo não era possível. Disse-lhe, então, que euna medida das nossas forças. era espírita e não podia atender àquele item. Ele levou um susto. Olhou-me estarrecido. Insistiu. Eu também.Disse-lhe ele: ‘Ela teria de receber primeiro o Afirmou, então, que não podia fazer meu casamento.perdão de vocês todos: o seu, o do seu pai e o do Apenas levantei e me preparava para sair quando eleCésar. Daí as dificuldades que encontrou para indagou: ‘‘E sua noiva? Abjura pelo senhor?”chegar até você. Respondi-lhe no mais gozador sorriso íntimo: “Ah, com toda a certeza, seu padre ... “ Então, paguei osLei de causa e efeito, pois não? Cumprimos a emolumentos (que ele pegou bem depressa) e onossa tarefa. Que a beneficiada saiba cumprir a casamento foi marcado.sua ... “ Agora, voltemos a Guillon Ribeiro. Quando ele soubeInterrompo mais uma vez a narrativa do Dr. César que era o Abade Bérardier, contou-me este caso muitoBurnier para lembrar aquilo a que costumo curioso. Certa ocasião, foi atender a uma doente muitochamar de simetrias históricas. Na França idosa, que o recebeu dizendo: “Chegou o abade...”revolucionária César Burnier, na figura de Além disso, Guillon Ribeiro também deu aula deJacques Danton, leva uma pobre moça aflita a medicina, na Universidade do Brasil, e – confessa –Robespierre,seu parceiro no poder, para tentar sempre se sentia muito à vontade nesse mister. Estandosalvar a vida do pai, colhido nas malhas em Paris pela primeira vez, surpreendeu-se, ele próprio,impiedosas do Terror. Robespierre nega a vida com o fato de conhecer os locais sem nunca os ter vistoimplorada pela moça, sua conterrânea, aliás. antes. Era capaz de adivinhar o que ia encontrar depoisVolvidos os anos – século e meio –, a situação é de uma esquina. Acertava.inversa, mas o papel de César é ainda o demediador. Desta vez cabe-lhe levar Robespierre Sem dúvida, só a lei da reencarnação é suficiente parareencarnado como uma desesperada mulher que explicar, a contento, todas essas circunstâncias.anseia por entender melhor os complexos Passemos, agora, a outra personagem: meu pai, Antôniomecanismos da vida. São muitas e imprevistas as dos Anjos. Escusado dizer que, ao lado de meu filho, édificuldades para chegar até Chico, não porque ele meu maior, verdadeiro e melhor amigo. Já conteieste se recusasse a recebê-Ia, mas por que foi sua fé que me despertou para a Doutrinacircunstâncias estranhas à sua vontade e até sem Espírita na vida atual. Fora disso, há a registrar queseu conhecimento. A coisa somente se decide sempre nos entendemos em termos incrivelmentecom a interferência pessoal de Danton, já agora amistosos e capazes, talvez, de provocar algumasna personalidade de César Burnier. A médica ciumadas familiares... Pois isso – compreendemosvolta pela sexta vez a Pedro Leopoldo, e quem agora – teve sempre sua razão de ser, conforme o leitorvem recebê-Ia senão aquele mesmo pai cuja vida já verificou ao encontrar, na Primeira Parte deste livro,ela recusou à filha desesperada? Por fim, o Chico o nome do Dr. Richard Ansiette.e a brutal e chocante evidência produzida porEmmanuel – outra vítima da Revolução – que Ora, todos de minha família e de nossa roda de amigostransmite a Chico, e este à doutora, informes e conhecidos sabem das profundas inclinações de meuincontestáveis, como nomes próprios e situações pai pela medicina. Suas .preocupações com a saúde daque Chico ignorava totalmente. Mas, o episódio família chegavam a ensejar piadas e muitastem uma seqüência não menos interessante. Para brincadeiras. E não faltaram os de fora que, às vezes,isso, voltemos à narrativa de César Burnier. iam-no procurar para “consultas” (que ele dava com a maior sem-cerimônia) e cuja medicação...– sempre, é“Perdeu-se, com a morte do Professor Mello claro, de composição – produzia resultados eficazes ...Teixeira, o soneto original de Hermes Fontes. Sorte? Espiritismo? Intuição?Chico Xavier anseia possuí-Io. Fiquei triste com airreparável perda. Como foi possível isso? Mas o Por outro lado, minha mãe, que tinha seus brevesdestino, o ‘acaso’, tem seus caprichos. Calcule momentos de captação mediúnica, costumava garantirvocê – Hermínio: vinte e cinco anos passados fui que na encarnação passada meu pai tinha sido,
  • 87. a uma festa em Copacabana. Nessa festa, havia realmente, médico. E, até – aqui o lado triste da históriamuitos espíritas, inclusive uma senhora cujo –, que ele tinha sido responsável pela morte de umanome ignoro totalmente até hoje. Durante as mulher, fato que lhe marcara duramente a caminhadaconversas falei, por qualquer motivo, no nome de terrena. Este episódio deve ser confrontado com aHermes Fontes. A senhora a que aludo declarou- informação constante do Capítulo 4, Segunda Parte,me, em voz alta, que sabia de cor um lindo soneto onde analiso a realização da quarta sessão com opóstumo do apreciado poeta e que o guardara na Hermínio e durante a qual aparece, pela primeira vez, omemória, com absoluta fidelidade, posto tê-Ia nome do Dr. Richard.lido uma só vez!” Enfim, meu pai era, à época da Revolução Francesa, oCom a curiosidade prontamente ativada, César Dr. Richard Ansiette, médico presumível dequis saber que soneto era esse, e como ela tomara revolucionários (principalmente quando feridos emconhecimento dele. A senhora informou que o choques de rua) e, com certeza, de Camillevira com o Dr. Mello Teixeira. Desmoulins. Desse contato nasceu, sem dúvida, nosso fraterno relacionamento, hoje transformado, além do“Não perdi tempo”, prossegue César. “Chamei-a mais, em proveitosa ligação paternal. Arrematando: empara a copa da casa onde estávamos e gravei o raríssimos casos e ensejos pensamos diferente. Nossassoneto perdido, que será remetido, agora, ao idéias sempre foram incrivelmente as mesmas. Meu paiChico’ Xavier, conforme lhe prometi. Sim, meu trabalhou em teatro, quando solteiro e nos primeirosamigo, eu tinha nas mãos um gravador, levado à anos de casado. Redigiu vários esquetes e usava o nomefesta sem necessidade alguma!” de Anjos Sobrinho. Pertenceu, inclusive, à famosa Companhia Leopoldo Froes (que era padrinho de meu“Muitos confrades me perguntam”, prossegue o primo-irmão Leopoldo Ferreira, filho do casal Plácido erelato de César, “por que o Brasil e o estado de Cordélia Ferreira, ambos também de teatro e, depois,Minas, em particular, foram escolhidos para a do rádio). Pois bem, foi meu pai o intérprete, em maisdivulgação do Espiritismo, consoante afirmamos de uma oportunidade, do papel do Cristo na célebreem nossos livros e artigos. Não faz muito tempo – peça O Mártir do Calvário, de Eduardo Garrido. Comoaduz um desses informantes –, Chico Xavier pintor, também produziu uma figura do Cristo, emdeclarou, publicamente, que nesses últimos cópia, que presenteou a vários confrades. como poroitenta anos milhares de antigos franceses exemplo ao próprio Hermínio Corrêa de Miranda.reencarnaram entre nós, motivo por que há no Muitos trabalhos seus ilustravam o gabinete do famosoBrasil pessoas que conhecem mais a história da médico Dr. Moncorvo Filho, seu amigo e admirador.Revolução Francesa do que a própria história donosso país. A resposta tem sido fartamente Prossigamos. Já fiz rápida referência, no Capítulo 3, àdivulgada pela imprensa espiritista e pelo médium minha irmã Primerose, a mais velha. Seu nome, comoXavier, entre outros. se pode verificar de pronto, é tipicamente francês. Teve por mim, sempre, desde que encarnei como Luciano,Não me envergonho se lhe disser que muitas uma afeição toda especial, que ela mesma mevacllaçoes experimentei quando li a obra Brasil, confessaria, um dia, por escrito: “Você sempre teve aCoração do Mundo, Pátria do Evangelho, minha preferência.” Enquanto eu era guri, apelidou-mepsicografada pelo médium Xavier. Achei esse de Pretinho e, depois que cresci um pouco mais, delivro demasiadamente verde-e-amarelo. Com o Preto. O apelido era em razão dos meus cabelos, olhostempo e o desenvolvimento do meu mediunismo e sobrancelhas muito negros. Pois bem, a irmã decomecei a compreender que o livro em tela foi até Camille Desmoulins – Marie Toussaint (como o leitormuito modesto em suas declarações. Não há já verificou) também lhe dava quase o mesmo apelido edúvida: muitas surpresas sensacionais nos pelas mesmas razões: Crayon. Entre os desenhistas, aesperam nos próximos anos.” palavra crayon designa a obra executada totalmente em preto. Aurélio Buarque de Holanda aportuguesou o[Lamentamos que César Burnier não detalhe os termo e verbeteou-o à pág. 400 de seu Dicionário:motivos que o levaram a mudar de opinião. A “Creiom [Do fr. crayon] S.m. 1. Lápis de grafia. 2.primeira idéia tem mais coerência: de fato o Desenho feito com esse lápis.”livro é “demasiadamente verde-e-amarelo”,para dizer o mínimo. Só nos resta esperar pelas Resta dizer, aqui, neste instante, que meus irmãossurpresas sensacionais prometidas! Até o sempre foram muito queridos por mim. Todos, sempresente, passados mais de trinta anos, as exceção. Aliás, damo-nos excelentemente, cada qual sesurpresas não chegaram...] preocupando com o outro.Mais adiante, já na etapa conclusiva de seu Agora vamos projetar-nos para tempo um poucovalioso trabalho, escreve César: posterior à realização de nossas reuniões. O evento que narro a seguir é verdadeiramente notável, mas ocorrido
  • 88. “Rogo sua atenção para as transcrições feitas: fora do apartamento do Hermínio. A convite dotodas elas foram colhidas em publicações Abelardo Idalgo Magalhães fui até o Ministério daconhecidas, fáceis de serem confrontadas e ao Fazenda (Rio) para fazer-lhe companhia. Lá, encontra-alcance de qualquer bolsa. ( ... ) mos um confrade da Federação Espírita Brasileira. J. B. Anjo Coutinho que me apresentou ao Dr. RobertoTodavia, prevendo que algum embaraço pudesse Jauréguibier Prel, advogado, procurador do Ministério,surgir, tive a cautela de indicar as obras é os já desencarnado. No instante dessa apresentação, tantoautores que me forneceram a seiva que nutre estes ele quanto eu sentimos estranha sensação. Por issocomentários elucidativos, apontando páginas e mesmo custamos a soltar nossas mãos. Nossos olhares,livros. Nem todos os historiadores são acordes se penetraram profundamente. Depois, com o correr danas suas apreciações dos homens e dos fatos. (...) conversa, ele se confessou médium e passou a descrever fatos da minha vida passada, bem como doSó admiti aquilo que a lógica me impôs e os meus Abelardo. Incrível! Descreveu-me tal qual se trajavaguias sancionaram. Evitei, tanto quanto possível, Desmoulins e caracterizou muito bem a condiçao doinsinuar pontos de vista meus com relação aos Abelardo. Falamos-lhe, então, das nossas experienciasindivíduos que me fizeram sofrer no passado e e sobre Camille Desmoulins. Ele se empolgou e,cuja índole pude devassar muito melhor agora, fechando a porta do seu gabinete, começou a afirmardentro de uma perspectiva extremamente ampla e que tinha certeza de que convivera comigo na época damultissecular... Revolução Francesa. Disse-me, quase numa súplica, que eu o haveria de identificar, que eu sabia quem eleMuitos dos meus ‘heróis’ se encontram tinha sido. Furtei-me, inicialmente, a qualquer tentativa.reencarnados – a maioria no Brasil. Ocultei-lhes Ele insistiu. Pegou-me as mãos e, em francês, passoupor elegância moral e para não açular estúpida e falar-me, emocionado, da turbulenta época daignorante vaidade. A mim – direi melhor, ao Revolução. Fitava-me esgazeado. E me disse, afinal,nosso esboço reencarnacionista – pouco importam que havíamos seguido juntos, na mesma carroça: era aos indivíduos em si mesmos, salvo como guilhotina! Pediu, insistiu, implorou que eu oelementos comprobatórios da multiplicidade das Identificasse (?!). Ele não parava de falar, falar, numexistências terrenas. Minha opinião é esta: as francês absolutamente escorreito.reencarnações interessam pelo seu valor social,humano e pelos exemplos que nos possam trazer [Será que o sujeito estava, naquele momento, em juízoface à Doutrina Espírita que abraçamos. Através perfeito? Parece a descrição de alguém meio fora dedas reencarnações (é o nosso caso, é a tese que es- si]tamos expondo) podemos acompanhar, passo apasso, a evolução de cada ser estudado, suas Eu lhe respondia, também em francês, que não meaquisições psicológicas, suas reações emotivas e lembrava, que não estava me lembrando. O quadro eraas incomensuráveis sedimentações que vão nervoso. Até que, de repente, vi-o personificando umaforrando Os pisos subterrâneos da sua consciência determinada figura. Vi-o muito bem, por sinal. E lheimpressentida. Somos poços de águas claras, mas, disse:embaixo, somos depósitos de lixo e lodoespessos. O simples movimento de uma vara pode – Vous êtes mon ami, Hérault de Sechelles!tisnar horrivelmente a claridade dessas águas.” (P.248-265) Ele ouviu e serenou. Fechou os olhos, saiu daquela tensão, deixou cair o corpo no encosto da poltrona eMuito mais informações contém o depoimento largou minhas mãos. Eu também suava um pouco eespontâneo e rico do amigo Dr. César Burnier recostei-me. Ao lado, calados, o Abelardo e o AnjoPessoa de Mello, Coutinho testemunhavam tudo. Mais tarde, fomos ler qualquer coisa sobre aquela personagem. Tinha sido[Anteriormente, Hermínio dissera que advogado e uma espécie de procurador do governo em“encomendara” o relato a Burnier, aqui é dito algumas províncias da França. O Dr. Robertoque foi “espontâneo”] Jauréguibier Prel, conforme já disse, também era advogado, além de exercer a função de procurador domas seria impraticável reproduzi-lo todo aqui, Ministério da Fazenda. Um desenho de Hérault demesmo porque certos aspectos por ele abordados, Sechelles, estampado no Larousse, revelou-nos várioscom a erudição histórica que todos lhe reco- traços morfológicos semelhantes aos do Dr. Robertonhecem, iriam exigir extensa coleta e Jauréguibier. Tudo me leva a crer que eram a mesmaapresentação de dados suplementares para que o pessoa. Muitos outros fatos, com o correr do tempo,leitor pudesse entendê-Ias em todas as suas vieram corroborar essa hipótese.implicações históricas. Ê que, no seu entusiasmopelo fascinante tema da reencarnação na história e E, a propósito, narro outro episódio, tão interessantepelas inesgotáveis ramificações e entrelaçamentos quanto curioso, ocorrido comigo na noite de 27.9.68.
  • 89. das muitas vidas de inúmeras personagens, César Fui participar, juntamente com o mesmo Abelardo, dedesvela um panorama vasto demais para os uma reunião na casa do Roberto Jauréguibier Prel, napropósitos deste trabalho. estrada de Jacarepaguá, 4.783. Através dele se manifestou um espírito, falando exclusivamente fran-Desejo documentar aqui minha gratidão pela cês. Conversei com ele alguns minutos. Culto,generosa doação de seu tempo e dos inúmeros inteligente, vivera na época da Revolução, mas não eradados informativos que ele colheu pacientemente conhecido. Depois que se foi, aconteceu algo muitoe com não poucos sacrifícios ao longo de toda estranho. Eu senti irresistível vontade de escrever.uma existência inteiramente devotada aos Apanhei, então, o lápis e coloquei no papel os seguinteslevantamentos históricos e às conexões versos:reencarnacionistas em que se empenha com umgrupo de amigos espirituais. “Tant que le monde resfera divisé Tant qu’existeront des barrere et des confins,Se antes ele fez a história, quase sempre dando a Tant Qu’existeront des drapeaux de couleurs,vida pelo ideal da liberdade – Spartacus, Danton, Tant qu’existeront des ‘enemies’ et des ‘étrangers’,Garibaldi entre tantos outros –, agora ele procura Tant qu’existera la femme que tombe par faminereconstituir a história. conceituando-a tal como Tant qu’existera une lute par Ia paixArnold Toynbee, como ação visível e dirigida de Tant qu’existera des hommes sans travail,Deus através de grupos de espíritos que nascem e des enfants sans toit;renascem com tarefas específicas a realizar no Le monde sera un chaosplano físico. (p. 248-265) Et un massacre par si-même.” Ao terminar, assinei: Camille Desmoulins. O Prel buscou explicar que os versos foram produzidos por mim mesmo, mas movido pela outra personalidade, isto é, a do jornalista francês. Não sei sequer se, antes, Desmoulins já os teria escrito e se eu, naquele momento, os estava apenas reproduzindo. Não fiz a pesquisa. Mas, repetidos ou criados naquele momento, a verdade é que quem os escreveu foi Camille Desmoulins, o que não deixa de ser fato bastante curioso. Há uma outra figura de minhas relações que vale a pena ser assinalada. Trata-se do confrade e meu muito estimado amigo Ismael Nunes Tavares sobre quem falei no Capítulo 3 desta Segunda Parte, quando contei meu primeiro encontro com a D. Chiquita, médium da Casa do Coração. Sempre nos permutamos uma amizade incomum, rara entre as criaturas humanas. Pois não é difícil, hoje, identificar as origens da nossa ligação. O Ismael também andou pela França, à época da Revolução. E, obviamente, privamos do mesmo convívio. Vivíamos, ainda, o clima das sessões que estávamos realizando com o Hermínio quando, certa tarde, em plena avenida Rio Branco, eu e o médium Abelardo Idalgo Magalhães nos encontramos Com o Ismael. Conversamos um pouco. Quando ele partiu, Abelardo parou, olhou para mim e disse, num repente: “Ele é o Rochefoucauld. Em outro dia fomos saber, com vagar, na Biblioteca Nacional, de quem se tratava, pois ele referira a época da Revolução Francesa, nada tendo a ver, portanto, com o escritor, do mesmo nome, que viveu no século XVII. Ora, os dados que levantamos são, na verdade, de incrível ajuste ao Ismael Nunes Tavares, notadamente os de cunho psicológico, temperamental. Chamava-se ele Louis-Alexandre,
  • 90. Duque de La Rochefoucauld. Foi membro daAssembléia dos Notáveis e deputado, nos EstadosGerais, pela nobreza da cidade de Paris. Participandosempre dos debates das grandes questões políticas esociais, Rochefoucauld rastreou sua atuação pela duraoposição ao clericalismo, tendo mesmo apresentadouma moção autorizando a cassação dos bens da Igrejaem nome da Revolução. Uma outra moção de suaautoria, levantando a incompetência da AssembléiaNacional para considerar o catolicismo como a únicareligião cujo culto público seria autorizado, foiigualmente aprovada.Mas o partido de Péthion e Manuel, que haviam sidosuspensos com o voto de Rochefoucauld, não cessaváde insultá-lo e persegui-lo. Rochefoucauld não suportoue se demitiu, pretendendo com isso ser esquecido. Massua atuação o havia marcado muito. Popularesmataram-no a pedradas, no dia 14 de setembro de 1792,durante os célebres Massacres de Setembro,acontecimento sangrento que irá se transformar, depois,em 1794, na motivação que levará Danton, Desmoulinse tantos outros à guilhotina. Rochefoucauld tinha,então, 60 anos. Referências aos Massacres de Setembroconstam da Primeira Parte deste livro. É curioso observar, agora, como o comportamentopsicológico dos espíritos dificilmente se altera. E, maisdo que os elementos concretos – como parecença física,recidiva de defeitos anatômicos, etc. –, os elementospsicológicos atestam muito mais convincentementeuma reencarnação.[suposição altamente contestável: difícil, senãoimpossível, demonstrar objetivamente essa talsimilaridade de “comportamento psicológico” doespírito em suas diversas encarnações! Trata-se deconcepção dependendente de elevada dose desubjetivismo para poder ser tida por aceitável.Conforme comentamos anteriormente, com um poucode imaginação pode-se destacar elementospsicológicos que tornam duas pessoas muitoparecidas, a ponto de justificar uma pseudoidentificação reencarnacionista. Não obstanteLuciano pensar de outro modo, tal procedimentopassa a quilômetros de distância de investigação quepossa ser denominada científica.]No caso, Ismael Nunes Tavares é pessoa que realmentese situa a meio caminho de inclinações aristocráticas epopulares. O porte é nobre, seus contatos profissionaissão feitos na área da alta esfera financeira, seusnegócios se decidem nos gabinetes atapetados. Mas suaemoção é popular, seu impulso é liberal.Rochefoucauld também se deixara ficar nesse meio-termo. Era duque, usava punhos de renda, mas acabouse engajando no movimento revolucionário. É verdadeque integrou o número dos massacrados de setembro,mas talvez ali o povo estivesse já cometendo injustiça.E essa desencarnação violenta é que ainda hoje faz
  • 91. Ismael desagradar-se dos grandes conglomeradospopulares, enquanto seu anticlericalismo se mantém omesmo. Em Vida mais recuada, ele foi tambem oespanhol Fernando Rojas, autor de La Celestina. Esegundo informações colhidas da D. Chiquita,encarnou, ainda, aqui no Brasil, a figura do bandeiranteMatias Cardoso de Almeida, no século XVIIEis, leitor, alguns dados que exponho para testificar,uma vez mais, que são fundamentais os encaixespsicológicos para se afirmar, com menor probabilidadede engano, a reencarnação de alguém.[Luciano expõe a “metodologia” que deve serutilizada na identificação de reencarnações”.Repetimos: é fácil traçar perfis psicológicos variadosda uma mesma pessoa. Hermínio Miranda mostraque diversos biógrafos de Desmoulins o descreveramde modos mui distintos. Dessa forma, a probabilidadede equívocos que, na ótica de Luciano, seriaminimizada com a aplicação de seu método, emrealidade faz com que toda a sorte de suposições, pormais estapafúrdia que seja, se torne aceitável]Sobre o Ismael, aliás, eu já havia publicado essasinformações nas páginas de A Notícia de 17.10.75, sobo título “Reencarnações Conhecidas”.Rochefoucauld e Desmoulins se aproximaram, à épocada Revolução, dados os seus ideais, ainda que umestivesse entre os nobres e o outro ligado ao TerceiroEstado. Essa aproximação transformou-se em algo maissólido e duradouro, capaz de vencer a barreira do tempoe chegar ao Brasil na configuração de uma amizadeinquebrantável.Quanto a meu filho Luciano dos Anjos Filho, dele nãotive, até hoje, qualquer informação, pelo menos queapresentasse uma ligação passada entre nós dois. Teráexistido, com toda certeza, pois não estamos reunidos,na vida atual, por acaso. Entretanto nada sei. O médiumChico Xavier, por mim consultado em 1981,recomendou, apenas, que ele não se detivesse muito namentalização de um sonho que tivera e no qualparticipava de manobras de guerra, num pântano,tentando desesperadamente salvar uma mulher comuma criança ao colo. Acabou recebendo um tiro norosto. O sonho havia sido muito nítido, muito real, e elemesmo queria informar-se a respeito. Daí minhaconsulta ao médium de Pedro Leopoldo. Mas a guerraera moderna, com todas as característica deste século.Nada tinha a ver, portanto, com as vidas pretéritas pormim e minha filha vividas, as quais venho examinandoneste trabalho. O que também posso afirmar é que amoprofundamente meu filho, de fato, o maior amigo quetenho. É indescritível nosso amoroso relacionamento.Eu o amparo, e ele a mim. Procuro-o nos meusmomentos de dificuldade, de depressão, de dúvida. Elefaz a mesma coisa comigo. Sabe de tudo que meacontece. Conheço-lhe as atitudes mais recônditas.
  • 92. Amamo-nos, eis tudo! Um último registro: Nely Martino dos Anjos, minha atual mulher. Onde ela entra em toda essa minha longa jornada? Entra lá atrás, nos idos do século XV, quando eu era Charles d’Orléans. Pelo menos, até onde nos foi dado saber. Eu gostava de uma criatura que, neste século, veio a reencarnar com o nome de Zulma Câmara. Apesar de amá-la (?), enviei-a à masmorra. Pois a Zulma era irmã da Nely. Ter-lhe-ei feito mal, também? Ou ela a mim? Ignoramos. Certo é que aqui estamos, novamente juntos, recompondo nosso carreiro e refazendo nossos passos. Meu relacionamento com Zulma Câmara, já o contei através das páginas de A Notícia (números de 10.1.75; ‘v 21.1.75; 28.2.75; 7.3.75; 14.3.75; 21.3.75; 4.4.75; 11.4. 75; 18.4.75; 25.4.75 e 2.5.75), do Obreiros do Bem (números de julho de 1974, janeiro, fevereiro e março de 1975) e do Jornal Espírita (edições de setembro e outubro de 1978). (P. 382-399) [Ao final deste trabalho, incluímos texto de Luciano dos Anjos, no qual ele explica como identificou quem fora André Luiz, acompanhado de comentários nossos. A leitura mostra muito claramente o subjetivismo da “técnica” do jornalista]COMENTÁRIOS COMPLEMENTARES:Nota-se que poucas informações são comuns aos dois relatos: basicamente que areunião ocorreu em 1/9/1967 e o gravador não funcionou.Logo, logo, começam as contradições: partindo da falha do gravador:Hermínio diz: Temos, porém, um relato que César Burnier escreveu a meu pedido, com base em suasnotas pessoais então colhidas.Luciano diz: E para que os lances principais não ficassem esquecidos, o Hermínio fez, logo ao términodos trabalhos, nova gravação, com o testemunho dos participantes, em especial o do César Burnier.Vejam que não se trata de modos diversos de narrar o acontecimento, os protagonistasestão a dizer que as ocorrências foram distintas! Hermínio informa que dispôs dotestemunho de Cesar Burnier (o qual foi preparado vários anos após o encontro);Luciano declara que fora realizada gravação com o depoimento dos participantes aofinal da reunião. Muita diferença! Mesmo que não queiramos, não podemos nos furtar àsuspeição de que um ou outro dos redatores viu coisas que não aconteceram...Mas não param por aí os relatos conflitantes. Agora é a vez de César Burnier declarar,no escrito que teria enviado a Hermínio: Tão logo cheguei ao seu apartamento, ouvi do prezadoamigo o mais completo relatório de todos os trabalhos realizados até então. Um possante gravadorcompletou, durante mais de uma hora, todos os pormenores da sua exposição.
  • 93. Conforme o testemunho de Burnier, a gravação fora feita normalmente. Nítido contrasteentre os testemunhos (os três!).Diante desse quadro, indagamos: podemos estar seguros no que se refere àfidedignidade dos relatos? Se em questões triviais, os envolvidos se confundem, ondemais teriam cometido deslizes? Aqui, não se trata de qualquer má-vontade em analisarisentamente a experiência regressionista, trata-se de constatação que salta aos olhos dequem ler a obra com um pouco de senso crítico. Lembramos que foram relatadas muitasoutras passagens desarmoniosas entre os escritos de Hermínio e de Luciano.Fica, pois, constatado que os envolvidos não disponibilizaram material de boaqualidade, que permitisse correta análise da experiência. Para fechar o presente estudo,apresentaremos algumas considerações complementares e a conclusão. A REENCARNAÇÃO DE LUCILLE DESMOULINSO episódio do retorno da esposa de Desmoulins na identidade da filha de Lucianoinsere-se no contexto das identificações reencarnativas, tarefa que Hermínio, Luciano,César Burnier e alguns outros se dizem capazes de realizar. Linhas atrás expusemosnosso parecer a respeito dessa suposta capacidade, a qual está mal esclarecida.No caso da reencarnação de Lucille, que teria retornado como filha de Luciano,deparamos alguns tópicos que merecem comentários específicos.O registro desse acontecimento acha-se nas pág. 349-351, da edição que estamos autilizar. Transcrevemos o texto: (destaque de nossa autoria)Eu estava em processo de desdobramento, na sala do Hermínio, em seu apartamento, quando ainformação dada por mim esclareceu a questão: minha filha, em meu apartamento, no lado opostoda cidade (o Hermínio morava no Humaitá e eu na Muda da Tijuca), começou a passarestranhamente mal. Minha mulher se preocupou. Percebeu que ela estava sob uma influênciaesquisita, que não sabia sequer descrever direito. Vomitou, embora não houvesse comido nada queo justificasse. Meia hora depois, como que por encanto, tudo passava. Ela estava bem outra vez. Éevidente, concluímos todos, que houve naquele momento um processo qualquer de sintonia entrenossos espíritos, o que terá motivado o mal-estar dela, principalmente se lembrarmos que tambémela desencarnou sob o cruel cutelo da guilhotina...Mas não terminam aí as “coincidências”. Um dia – ela ainda era uma criança –, peguei-lhe entre asmãos a cabecinha, , deitados ambos na poltrona da minha casa, e lhe disse:– Minha filhinha, preste atenção ao que o papai vai lhe perguntar. Preste bastante atenção. Ouçaesse nome: Lucile Duplessis; Anne-Lucie Philippe Laridon Duplessis; Lucile Duplessis – Fiz umapausa, olhei-a bem no fundo dos olhinhos muito abertos e meio alegres. Depois, perguntei, sério: –Quem é ela? Quem é ela?Respondeu-me como quem não tem dúvida do que respondia: – É a Ana Lúcia Martino dos Anjos...Rigorosamente assim: o nome completo. E me ficou olhando como a esperar minha reação. Curiosocom a resposta, beijei-a na fronte e, depois de alguns segundos de mudez, fomos tratar doutra coisa.Coincidência? Efeitos subconscientes? Não creio. Também aqui a lei da reencarnação pareceaflorar, incontestável, se não bastasse minha própria afirmativa, durante as sessões, de que AnaLúcia é realmente a Lucile.
  • 94. Resta repisar para o leitor aquele conclusivo detalhe: Ana Lúcia nasceu no dia 24 de abril de 1960;Lucile Duplessis nasceu, também, num dia 24 de abril, de 1771! É coincidência demais, não acham?Encerrando este capítulo, aqui vão alguns traços pessoais da Ana Lúcia. Adora música. Desdepequenina tinha mania de tirar, no piano de brinquedo, de sete teclas, as melodias que ouvia natelevisão. Quando começou a estudar piano, sua professora, Odete Calvet, dizia que ela era umapianista nata. Não sei se exagerava para estimulá-la, mas, que o dizia, isso é verdade. Curioso é quenão pára no piano. Abre-o, fecha-o, abre-o de novo, senta, toca, levanta, senta de novo. Está sempreirrequieta. Tal qual narra um livro que lemos sobre Lucíle. Gosta também de escrever solitaria-mente, da mesma forma que no passado francês. É alegre, está sempre rindo, não sossega,constantemente inventando alguma coisa nova para fazer. Formou-se em normalista e agora estána universidade, fazendo pedagogia. Ama as criancinhas. Ama a vida da fazenda. Ama cavalos.Está fazendo, agora, patinação, depois de ter cursado um bom período de pintura com a ProfessoraMarina de Almeida Pinto, que também a elogiava bastante. É muito decidida, voluntariosa,indomável. Mas sabe ceder quando o clima é de carinho e amor.Luciano informa que quando veio à tona a revelação de que Lucile Desmoulinsreencarnara como sua filha, Ana Lúcia, a menina começou a passar mal. Imediatamentenos veio à mente a declaração de Allan Kardec:Com efeito, a lembrança traria gravíssimos inconvenientes. (...) Em todas as circunstâncias,acarretaria inevitável perturbação nas relações sociais. Freqüentemente, o Espírito renasce nomesmo meio em que já viveu, estabelecendo de novo relações com as mesmas pessoas, a fim dereparar o mal que lhes haja feito. Este caso tem tudo para se enquadrar no discurso do codificador da doutrina. É certoque, em princípio, não haveria mal a ser reparado, mas não se sabe o que pode terhavido na intimidade do casal ou mesmo nas intenções de Desmoulins em relação à suamulher, ou outras questões que não teriam chegado ao conhecimento público. Lucianoconsidera o mal-estar da filha como resultado de sintonia espiritual entre ele e a menina,entretanto, outra interpretação pode ser apresentada: sentir que o pai fora seu esposo emoutra existência foi muito forte para uma menina com sete anos de idade! Imagine-se oque não teria passado pela cabeça da filha ao descobrir que o pai lhe foi íntimo em outraexistência! E se recordações daquela vida aflorarem à consciência, quantos grilos nãolhe acometeriam? Luciano parece enfrentar sem sobressaltos tal lembrança, quanto àfilha, nada sabemos. Mesmo que nenhum sentimento desagradável se interponha entreeles, uma coisa não pode deixar de ser considerada: trata-se de uma situação muitoesquisita, a filha saber que já dormiu com o pai... Não estamos a fazer insinuaçõesmalévolas, sim constatando o que pode ser motivo para muitos problemas. Se Luciano ea filha convivem bem com esse conhecimento, em outras situações semelhantes, comoutros protagonistas, provavelmente não haveria tanta harmonia.O DESACOPLAMENTO DO ESPÍRITOO medo voltou, principalmente porque eu ouvia o Hermínio repetir: “Vamos despertar”; mas,estranhamente, sentia-me flutuando a uns trinta centimetros acima do sofá, sem capacidade de mejustapor a mim mesmo outra vez. O pânico interior cresceu, porque pensei, por um instante, quehouvesse desencarnado, que minhas duas partes não se “colariam” mais. (p.360)Afinal, a indução hipnótica possui a capacidade, defendida por Hermínio Miranda, dedecompor o ser em suas hipotéticas partes integrantes, alma, perispírito e espírito? Oque se pode dizer a respeito?
  • 95. Em termos das teorias mais aceites sobre o fenômeno hipnótico, nem falar disso.Nenhum teórico do assunto, que não fosse espírita −e mesmo dentre os espíritas temosdúvidas se o pensamento de Hermínio fosse acatado unanimemente −, pelo quesabemos, advoga tal hipótese. A hipnose pode ser descrita como a exacerbação de certacaracterística existente na mente, que é a focalização da atenção em torno de um tema.Adequadamente conduzido, o fenômeno abre caminho para que sugestões possam serpassadas ao paciente e por ele trabalhadas de forma criativa. Aplicações terapêuticastambém são possíveis, dentro de certos limites.A idéia advogada por Hermínio Miranda vai muito além dos limites que se supõe possaalcançar o processo hipnótico. Ele assevera que a indução hipnótica consegue penetrarno conjetural e elástico campo do inconsciente e realizar o que nem os espíritos maispoderosos conseguiriam, que é decompor a estrutura do indivíduo nas partes material eespiritual. Em mais, tudo isso sem provocar a destruição da vida!E como comprova que as coisas acontecem desse modo? Com justificativas ingênuas,oriundas de sugestões que ele próprio passa para seus pacientes.No texto apresentado acima, vemos Luciano dramatizando o processo. Ele acredita, talqual Hermínio, que o desacoplamento espiritual é realidade, por isso responde comodesejado pelo pesquisador. Mas, seria muito simples demonstrar que tudo não passa deencenação do subconsciente, pequenos testes que se realizassem durante a induçãocomprovariam claramente que não havia nenhum espírito descolado. Porém, HermínioMiranda não demonstra intenção de investigar sua crença. Selecionemos duas cenas emque Luciano se diz flutuando fora do corpo e vamos estudá-la com um pouco deatenção.A reunião seguinte foi realizada em 9 de junho de 1967. O tape guarda o diálogo que a seguirreproduzimos, com os comentários habituais.– Está se sentindo bem, Luciano? – pergunto eu. – Onde você se encontra no momento?– A um metro mais ou menos de nós. Acima... Não posso olhar para baixo; às vezes, uma espécie deatração me deixa inseguro. (1)– Você já sabe que o processo não oferece riscos.– Parece que vai descer e depois sobe.É claro que ele ainda experimenta algum temor em afastar-se do corpo, provavelmente devido àtraumatizante experiência da decapitação. Ele próprio tenta explicar: (2)– É que eu estou numa situação diferente.– Sim, é uma situação nova para o espírito. (O desprendimento consciente.)– Não sei se estou aqui ou ali – continua ele. (Isso é verdadeiro também, porque nos estadossuperficiais a consciência fica como que dividida, ou melhor, partilhada pelo corpo físico e peloperispírito.) (3)– Devo ficar calmo – diz ele para se tranqüilizar. – Deus nos ajudará.As sugestões apropriadas são dadas.– Você vai readquirir o conhecimento acumulado sobre a existência anterior e vamos desenvolver oplano que combinamos, segundo o qual você vai relatar desde a infância essa existência, para quepossamos coligir o material para um trabalho sério, um trabalho importante.Quando ele retoma a palavra, após nova pausa, somos surpreendidos com inexplicável fenômeno degaguez. Fala com dificuldade, espaçando muito as palavras e hesitando com um sibilado emalgumas que ofereçam maior obstáculo. – Não tenho uma clareza muito grande. Prefiro que você pergunte e vou localizando, senãotumultua.Novas sugestões de relaxamento e tranqüilidade, simultaneamente com os passes longitudinais. Elesabe que, seu espírito está preso ao corpo físico por fortes laços magnéticos. (4) – Não vejo (isso) – diz ele. – Mas Deus vai nos ajudar.
  • 96. Declara ainda não ver os amigos espirituais que nos ajudam na tarefa, mas está convicto dapresença deles. (p.65,66 – cap. 5)__________________________A reunião seguinte foi no dia 16 de junho de 1967. O desprendimento ainda oferece algumasdificuldades operacionais, mas Luciano vai se tornando mais familiarizado com sua técnica.Habituado a observar fenômenos de natureza psíquica, ele consegue ser bastante objetivo para vere descrever o que se passa com ele próprio.Vejamos, a respeito, este diálogo inicial:– O que você está sentindo de diferente hoje? – pergunto eu.– Estava muito perto – diz ele.Ou seja, não se desprendera o suficiente do corpo físico a ponto de libertar-se da sua influênciainibidora. (5)– Você não se tinha ainda desprendido totalmente, não é isso?– Deve ser. Agora está na posição certa.– Onde você se encontra no momento?– Em cima de vocês, a um metro mais ou menos.– Mas o corpo fica em pé ou deitado?– Deitado.– O corpo espiritual também?– Também. (6)– Por que você disse vocês? Tem mais gente aí? (7)– Não. Vocês... sou eu mesmo...– É porque o corpo nessa posição é como se fosse uma terceira pessoa.– É. Fico olhando...Também este fenômeno nada tem de insólito. É bastante comum o espírito desprendido referir-se aseu próprio corpo físico como se fosse outra pessoa ou pertencesse a outro indivíduo. Em casosextremos de rejeição, o espírito nem deseja mais reassumir o corpo, pois equivale a voltar para umaprisão. Este não era, claro, o caso de Luciano. Mais de uma vez encontrei, contudo, pessoas que sereferiam a si mesmas empregando a terceira pessoa: ele ou ela, como se o corpo não lhepertencesse. Em um caso dramático dos arquivos de Luís J. Rodriguez (autor do livro God Blessthe Devil), uma vez desprendido, o espírito não queria de forma alguma retomar ao corpo que omantinha prisioneiro a uma existência de penúria e angústia. (p.100,101 – cap. 6)Comentando:(1) Onde você se encontra no momento?– A um metro mais ou menos de nós. Acima... Não posso olhar para baixo; às vezes, uma espécie deatração me deixa inseguro. Em termos de experiência, Hermínio deveria explorar mais essas notificações deLuciano, sobre estar flutuando acima deles e as dificuldades encontradas para olhar parabaixo. A explicação é de que Luciano ainda não dominava o processo, daí o medo queadvinha da sensação de estar fora do corpo. De qualquer modo, esse seria o ponto departida para a verificação se o espírito estaria realmente do “lado de fora”. (2) É claro que ele ainda experimenta algum temor em afastar-se do corpo, provavelmente devido àtraumatizante experiência da decapitação. Ele próprio tenta explicar:Explicação ad hoc, Hermínio faz uma ilação forçada e sem muito sentido. Mesmo quese admitisse a hipótese de que o espírito de fato estivesse flutuando, outros conjeturasmais plausíveis poderiam ser apresentadas para justificar o medo; uma delas seria quedecorresse de estar o regredido vivenciando experiência nova, algo semelhante ao receioque se apossa de quem está aprendendo a andar de bicicleta. A suposição de que aexperiência de ser guilhotinado fora traumatizante para Desmoulins não só enquantovivo, mas para seu espírito, não tem fundamento: quem teve a cabeça cortada foi o
  • 97. corpo; guilhotina nenhuma, por mais afiada que esteja, consegue decepar uma cabeçaespiritual, se é que existe tal componente na constituição não-física do ente.(3) – Não sei se estou aqui ou ali – continua ele. (Isso é verdadeiro também, porque nos estadossuperficiais a consciência fica como que dividida, ou melhor, partilhada pelo corpo físico e peloperispírito.)Consciência dividida... alguém sabe explicar o que significa? O que Hermínio Mirandaparece estar a dizer é que ficaria um pedaço da consciência no corpo e outro no espírito!Difícil...(4) Ele sabe que, seu espírito está preso ao corpo físico por fortes laços magnéticos.Hermínio Miranda opta por propor que o espírito se mantém ligado ao corpo por laçosmagnéticos (“fortes laços”). É usual, entre os que postulam a possibilidade de viagensfora do corpo, asseverar-se que a ligação corpo-alma se faça pelo “cordão de prata”,uma mística idealização que permitiria ao espírito se desprender do corpo sem risco dedesaparecer no éter astral. Talvez Hermínio dissesse que “é tudo a mesma coisa” − laçomagnético seria o mesmo que cordão prateado. Porém, parece-nos que a preferênciapelos “laços magnéticos” tenha a intenção de dar um ar de cientificidade à suposição.Entretanto, seja laço, seja cordão, além de não haver evidência que comprove talidealização, a suposição não encontra fundamentação em qualquer teoria que possa,minimamente, ser classificada de científica.– O que você está sentindo de diferente hoje? – pergunto eu.– Estava muito perto – diz ele.(5) Ou seja, não se desprendera o suficiente do corpo físico a ponto de libertar-se da sua influênciainibidora.– Você não se tinha ainda desprendido totalmente, não é isso?– Deve ser. Agora está na posição certa.Outra concepção não esclarecida, o que seria “influência inibidora”? Se o autor falassede atratividade, mesmo não concordando, poderíamos entender melhor, uma vez que,supostamente, quanto mais próximo estivesse o espírito do corpo, maior atração esteexerceria sobre a alma fujona. Poderíamos afirmar: o corpo não suporta viver sem suaalma! Agora, no que tange à “influência inibidora” não conseguimos dizer coisaalguma. Será que Hermínio quer dizer que o somático embota a manifestação anímica?Curiosamente, Hermínio induz Luciano a que confirme sua teoria, mas, para desencantodo experimentador a resposta é um evasivo “deve ser”.(6) – Em cima de vocês, a um metro mais ou menos.– Mas o corpo fica em pé ou deitado?– Deitado.– O corpo espiritual também?– Também. A coisa toda é bastante esquisita. Hermínio passa para Luciano sua suposição de que aalma se desprenda do corpo, durante o processo hipnótico. Luciano aceita a idéia e arepresenta quando entra em transe. Até aqui tudo bem, pois está concorde com o geralda teoria hipnótica, ou seja, de que o paciente quando acata a sugestão reproduz, damelhor forma que consegue, o que lhe é sugerido. Como os detalhes de como seria odesprendimento não foram passados, Luciano faz o que pode. Pela descrição queapresenta, dá a entender que o corpo perispiritual fica a certa altura, como que deitado
  • 98. de barriga para cima, olhando para o teto. Isso contraria algumas postulações queafirmam que a alma, depois de desprendida, não permanece em posição rígida, aocontrário, pode voar pelo aposento e até rumar para outras plagas, tal qual nos filmesinfantis. Mas, como o objetivo de Hermínio não era fazer com que a alma de Lucianoperambulasse, havia necessidade de que se mantivesse mais ou menos quieta, para que aexploração da alegada memória integral se processasse. Caso o espírito emdesprendimento fosse dar uma voltinha, o corpo ficaria inerte e nada responderia. É oque se supõe aconteceria.Contudo, a voz que respondia às inquirições de Hermínio Miranda saía do corpo deLuciano, em vez de provir do teto, onde sua alma estaria. A explicação herminiana parao fenômeno é de que a alma fala, mas repercute no corpo, pois as cordas vocais estãonele. Certo, é um tanto estranho, mas deve fazer sentido, ao menos para quem crê quecoisas complexas possam acontecer com tanta simplicidade...Falamos que testes simples poderiam ser implementados, no intuito de confirmar odesprendimento do corpo. Um deles seria o que nominamos “exame da leitura”, quevamos descrever de forma tosca, sem propostas sofisticadas, o que aconteceria emexperiências controladas e de cunho científico. O que sugerimos seria tão-somente averificação de uma possível resposta do espírito desprendido. Luciano afirmava que seu espírito encontrava-se acima deles, a um metro de altura.Pois bem, o próprio Hermínio poderia conduzir a investigação. Primeiro vendaria osolhos físicos de Luciano. Em seguida, fazendo uso de escada que tivesse mais de ummetro de altura, pegaria um livro qualquer, de preferência que não houvesse lidorecentemente, subiria a escadinha, até um ponto pouco superior à do espírito e, com acapa do livro voltada para si, de modo que não pudesse saber do conteúdo, abriria emqualquer página e pediria que Luciano lesse algumas linhas. Antes que alguém pergunteo porquê de subir na escada, esclareço: é que foi dito que o espírito do jornalistaflutuava de cabeça para cima, por isso ele poderia alegar impossibilidade de ler o livrodevido à posição em que se encontrava.Para ser bem sucedido, este exame simples exige que o examinador (no caso Hermínio),em momento algum, leia o que está escrito na página que foi aberta. Somente depois doespírito se manifestar é que conferiria se houve acerto.Caso Luciano fosse bem sucedido na prova, implementar-se-iam testes complementares,a fim de reforçar a confirmação de que a alma efetivamente estava fora do corpo, aí sim,o resultado seria considerado sugestivo, entretanto nem o básico do básico foi feito.Notem que não se faria necessário equipamento especial, nem alto investimento.Apenas um examezinho simplérrimo evidenciaria, ao menos preliminarmente, odesprendimento do espírito. Infelizmente, nada foi realizado. O experimentador estavatão convicto que a alma de fato fica do lado de fora, que nenhuma confirmação achounecessária. Em outras palavras, uma tese fragílima, que não encontra respaldo nasmúltiplas experiências hipnóticas que se fazem em todos os cantos, foi pelos autoresconsiderada insofismável! Se fosse firme a tese do desprendimento espiritual, delehaveria relatos em muitos outros experimentos de indução hipnótica, e não só nocontexto regressionista.A GAGUEIRA DE LUCIANO/DESMOULINS
  • 99. Um dos argumentos em defesa da legitimidade da manifestação foi que, como agagueira não aconteceu imediatamente após Luciano ter sabido que Desmoulins eragago, significaria ponto a favor de uma demonstração real da personalidade de Camille,que gradativamente ia tomando forma, à medida que as sessões regressionistasevoluíam. Vamos recordar o assunto e acrescentar nossas considerações.Sejamos tolerantes com o velho Duplessis. Camille era de fato uma figura estranha. Mesmo aEnciclopédia Britânica, que se esmera em informar sem opinar, diz isto de Camille: “Seu sucessoprofissional não era grande; seus modos, violentos, sua aparência, sem atrativos, e sua fala,prejudicada por uma penosa gagueira.” Algo aturdido quando viu Camille a seus pés, num gestodramático, a pedir-lhe a mão de Lucile, acabou concordando hesitantemente, com o que não estavade acordo Madame Duplessis. Por fim ambos cederam, já que Lucile também acabara aceitandoCamille que, a princípio, ela nem soube entender, apesar da sua impressionante precocidadeintelectual. Este é parte de um dos comentários feitos por Hermínio Miranda, concernentes à sessãoocorrida em 26/5/1967. Duas semanas depois, em 9/6/1967, aconteceu, durante aregressão, a manifestação curiosa. Leiamos:Quando ele retoma a palavra, após nova pausa, somos surpreendidos com inexplicável fenômeno degaguez. Fala com dificuldade, espaçando muito as palavras e hesitando com um sibilado emalgumas que ofereçam maior obstáculo. A interpretação dessa circunstância é feita pelo menos de dois modos: o primeiro,favorável, supõe que a personalidade de Camille foi crescendo em presença no decorrerdas sessões regressionistas. Seria algo semelhante a um despertar por etapas, até queocorresse a plena manifestação. Portanto, estaria explicado porque características deDesmoulins apareceram aos poucos. Dentro desta hipótese, não teria havidorepresentação inconsciente de Luciano, tratar-se-ia, sim, de processo “normal” deeclosão gradativa da personalidade pregressa.Certamente, tal suposição faz sentido, porém é preciso conhecer o outro lado e levar emconta algumas ocorrências dignas de nota. A hipótese concorrente concebe que o subconsciente de Luciano foi construindo opersonagem, conforme ia conhecendo detalhes a respeito daquele que teria sido. Nestecaso, a manfestação da gagueira, foi um trabalho mental do jornalista – possivelmenteinconsciente. Não é necessário aventar-se que tenha havido fraude consciente, simresultado do almejo acalentado pelo paciente de que estivesse experienciando legítimarecordação de existência passada. Dessa forma, em segundo plano e aos poucos, amente do regredido aprimorava a imagem que pretendia representar daquele quesupunha ser reencarnação.Em favor da primeira hipótese temos a gagueira, a qual se manifestou diversas vezes,como se vê na texto a seguir:Nosso trabalho teve prosseguimento em 23 de junho de 1967. Proponho-lhe retomar as pesquisas noponto em que as deixamos na última reunião, com o que ele concorda. Observa-se, contudo, às suasprimeiras palavras, que ele recaiu na penosa gagueira, que já várias vezes ocorreu no decorrer denossos diálogos. Pressuponho que a dificuldade manifestada provém de algum mecanismo inibidorinerente mesmo ao processo de comunicação espírito/corpo, com o qual ele ainda não se achabastante familiarizado a ponto de dominá-lo com segurança. Transmito-lhe, pois, sugestões visando
  • 100. a eliminar a dificuldade que, não obstante, persiste, enquanto ele se mostra um pouco agitado.Reforço as sugestões com alguns passes e ele acaba relaxando um pouco mais.No entanto, algumas situações inclinam-se para a 2ª possibilidade, ou seja, a darepresentação inconsciente do personagem. Se examinarmos as reuniões de 9/6/1967(na qual a gagueira aconteceu pela primeira vez), a de 16/6 e a de 21/6, notaremos oproblema ocorria ora sim, ora não. Pode-se supor que quando o subsconsciente deLuciano lembrava que Desmoulins era gago, a característica era exibida. Ora, se estedistúrbio, presente em Camille quando vivo, se manifestasse efetivamente em Lucianosob regressão, ele deveria surgir sempre que o jornalista entrasse em transe e assumisseo ego de Desmoulins.No encontro de 7/7/1967 surge fato novo:Foi assim naquela noite; logo, porém, conseguimos um controle melhor do mecanismo dacomunicação. Daí em diante o diálogo flui normalmente.– Está se sentindo bem agora?– Ótimo.– O que você está pensando aí?– Olhando o corpo – diz ele. – Ele treme um pouco...– Agora não mais – digo eu. – Estava tremendo, sim, mas você já conseguiu controlar. Podemosretomar nosso trabalho? Bem, você sabe que temos algumas dúvidas para resolver. Um dosproblemas que precisávamos esclarecer é quanto à dificuldade que você tinha em falar. Nomomento você não a tem mais, não é? Por que isso? Como você conseguiu controlar isso?– Não sei... É... não sei.– Talvez porque você tenha racionalizado o problema e viu que a gagueira era desnecessária. Elaapresentou um fator muito importante para controle do nosso trabalho, porque agora sabemos quena existência anterior você tinha esse problema, inteiramente superado hoje.O que para Hermínio Miranda foi a solução de um problema, em verdade significa umdificultador para a teoria de que a regressão era legítima. Ele precisava explicar porquea gagueira havia desaparecido, e encontra uma hipótese ad hoc que lhe satisfaz. Noentanto, até onde se sabe, Camille Desmoulins em vida não controlou o problema dagagueira. O que provavelmente aconteceu é que representar um gago é cansativo edificulta o diálogo, então o subsconsciente de Luciano excluiu a manifestação.Encontramos num pequeno trecho dos relatos o que nos pareceu demonstraçãoindubitável de que Luciano, entre um encontro e outro, exercitava a mente naconstrução do que achava deveria ser a manifestação de Desmoulins. Leiamos:Mas você ficou de verificar, durante esta semana, nos seus desprendimentos, a razão de ser de seuencontro com o espírito de sua mulher atual e do seu filho. (Cap. 9, 1ª parte, “Os Dois Agoras”) O que temos aqui é Hermínio cobrando de Luciano a informação que haviamcombinado deveria aparecer no encontro seguinte. De que modo? Durante a semanaLuciano meditaria (“se desprenderia”) até que encontrasse o informe buscado. Nacontinuidade do diálogo ver-se-á que a missão não deu resultado, porém, para nós,demonstra que o jornalista não ficava passivo nos intervalos dos encontros, ao contrário,estava em contínua reflexão e, talvez inconscientemente, alimentava a mente com idéiasvariadas. Durante as regressões, o resultado dessas cogitações vinham à tona. CONCLUSÃO
  • 101. Acreditamos que a experiência regressionista aqui analisada pode ter sido convincentepara Luciano dos Anjos, que aguardava ansiosamente oportunidade de descobrir suaencarnação pretérita. Louve-se o esforço dos envolvidos em demonstrar que aslembranças eram verazes.Em termos gerais, porém, muitas questões ficaram em aberto e o experimento nãoevidenciou suficientemente que as recordações fossem autênticas lembranças de outravida. O que desqualifica o trabalho como legítimo evento reencarnacionista.A “memória integral”, tese que embasa o trabalho regressionista de Hermínio Miranda,não foi demonstrada, de forma alguma, durante as experiências. Ao contrário, namaioria das vezes em que Hermínio exigiu do regredido que recorresse à dita memória,o retorno foi frustrante. Várias hipóteses discutíveis foram apresentadas para justificar ofracasso.Ex. de falhas na demonstração da memória integral:– E você teve outra existência entre aquela que você viveu na França e a atual?Havia ali um bloqueio, e para testá-lo reformulo a pergunta:– Da existência que você teve como Camille até a em que você renasceu no Brasil, como Luciano, háalguma intermediária?– Não sei – é a resposta.– Sabe, sim. Seu espírito sabe. Procure buscar na memória.– Depois apagou-se tudo... Não me lembro. Acho que não. Estou bem agora.(Cap. 4, 1ª parte, “O Antes e o Depois”)____________________________________– O que é preciso é libertar-se dessa condição. Qualquer estado de desprendimento em que vocêentra, vai logo para esse período em que levou uma existência agitada. É necessário que vocêprocure pesquisar, na sua memória integral, outros fatos e não apenas esses.– Mas, às vezes, dá medo. .. vontade de fugir... mas, é preciso ter coragem e ficar ...(Cap. 4, 2ª parte)____________________________________– Vamos, então, recomeçar. Queria que você me descrevesse sua infância, em Guise. Você chegou aestudar lá?– Sim. Não me lembro muito bem, mas deixe-me pensar. Distante...– Você sabe que está tudo guardado em sua memória. É questão somente de procurar o caminho deacesso. Estamos sendo ajudados por irmãos nossos do mundo espiritual.– Era um pppppppp... patronato de religiosos. Se ch... ch... chamava... Era... Ah, meu Deus! Era...Deixa eu ver... Cambrésis. Chateau-Cambrésis... Eram só meninos. (...)(Cap. 7, 1ª parte, “O Durante e o Depois”)____________________________________– Isso será dado conhecer se for permitido pelos nossos mentores espirituais. Se interessar ao nossotrabalho e ao nosso espírito. Mas você ficou de verificar, durante esta semana, nos seusdesprendimentos, a razão de ser de seu encontro com o espírito de sua mulher atual e do seu filho. – Não vi... Não sei...– Por quê? Não teve tempo ou não foi permitido? – Não sei.– Isto, então, é um dos pontos em que não devemos insistir mais, porque, provavelmente, não estáincluído no nosso trabalho, pois seu espírito sabe. Você pode não estar lembrando, mas isso estáregistrado. Então não será possível apurarmos isso. O que for possível, remos apurando,especialmente o destino de seus amigos daquela época. Onde estará Danton? O que você imaginatenha acontecido a ele? Será que ele está aqui no Brasil? (Cap. 9, 1ª parte, “Os Dois Agoras”)____________________________________
  • 102. – Escuta, e você? Provavelmente teve ligações com esses espíritos, anteriormente. Procure localizarem sua memória, você tem acesso a ela agora, onde é que começou essa história?– Não sei, acho que eles estiveram comigo, sim.– É quase certo, isso, porque o trabalho que vocês realizaram em conjunto provavelmente já vinhade trás. Você não consegue lembrar-se assim de pronto, não?– Não.– Escuta: entre sua vida no século XIV e essa, na França, no seculo XVIII, você teve outraexistência?– Acho que tive – diz ele, após longa pausa.– Você pode localizá-Ia, pois está tudo guardado aí em sua memória. É um período muito longo, dequase trezentos anos; não é possível que não tenha, nesse tempo todo, pelo menos uma existência,ou mesmo duas.– Mais de uma – confirma ele.– Foi tudo na França?– Foi.– Há quantos séculos, então, você vivia na França? Quanto tempo você pode recuar sua memóriasem prejuízo da sua posição agora? – Muito tempo. .. Em Roma, também; mas isso é tão longínuo. .. tão distante.– Mas você lembra também de Roma?– Também!– O que você fazia lá?– Nada, vivia... Isso é tão distante que a gente fica sem certeza das coisas .– Mas não são memórias agradáveis’?– Dali não tenho certeza.– Quando é que você começa a ter mais consciência das suas existências?– No século XV.– Nessa existência como um dos Valois? E depois? – É. Fui vendedor de rua ... (Ambulante.) Tem uma ... acho que era Louis. Não tem nada.– É uma vida muito apagada?– Muito ruim ...– Difícil?– É.– Em que época foi essa? Não dá para ver, não é?– Ah, isso baralha muito. Eu me vejo na rua, assim ... andando ...– Foram muitos anos de vida?– Não sei. Puxava um baldinho, vendendo. .. Não... isso foi depois. Deixe-me ver. Vinagre. ..Levando vinagre. A gente amarrava um barrilzinho dos dois lados e ia puxando com uma corda.Vendia vinagre.O método de transporte do vinagre – um barrilzinho preso pelo ‘eixo maior e rolando pelo chão –ainda se vê hoje aqui mesmo, no Rio de Janeiro, em alguns bairros pobres, para transportar água.– Como você se chamava? Essa vida aí está mais perto. Você pode se lembrar.– Vinagre. .. Jean. .. (Ri. Parece contemplar a melancólica figura de um pária social.)– Quer dizer que você passou uma existência muito brilhante na corte e depois duas existênciasmuito obscuras ...– É, sofri muito!– Foi para aprender a lição da humildade. Daí, então, depois dessas duas é que você veio comoCamille? – É, depois Camille. .Novamente faço uma sondagem no desconhecido– E depoIs de Camille... Você não teve nada aí nesse meio, entre Camille e Luciano? O bloqueiocontinua firme.– Não sei... não consigo. É um vazio imenso... imenso... Uma bola imensa, vazia. Como se fosse umabola.– Provavelmente você foi assistido como espírito, a fim de se recuperar e retornar agora à vida (nacarne).– É, deve ser... Não é bom...– Felizmente agora você está no caminho certo, procurando corrigir essas deficiências que todosnós temos, e está preparando um programa de trabalho para o futuro, não é? (Cap. 10, 1ª parte, “OPerto e o Longe”)
  • 103. Excessiva valorização foi dada pelos experimentadores ao conhecimento histórico doregredido. Contudo, não foram levados em conta a existência de vários equívocos, ou,quando se considerou esses deslizes, as explicações não foram suficientes. Além disso,existem numerosas contradições entre as declarações de Hermínio e as de Luciano.Além das que já foram referidas, apresentamos a que segue.No início da 2ª parte do livro (na edição utilizada, p. 301), relato de Luciano, lê-se:No campo das reencarnações há de tudo. Meu amigo Hermínio Corrêa de Miranda, que orientou assessões que vão narradas neste livro, já me dizia, desolado, que só de Marias Antonietas ele ouviufalar não sabe de quantas. Os Napoleões estão por aí mesmo. Ninguém quer ser gente humilde dopassado. Parece até que os “apagados” não renasceram mais ... Hermínio Miranda toca no mesmo tema, entretanto diz coisa bem diversa daquilo que ojornalista disse serem suas palavras. Leiamos:Devo confessar, de início, que a revelação do primeiro momento foi impactante. É que, à falta deargumentos e, menos ainda, de fatos que possam abalar a doutrina palingenésica, é comum dizer-seque tudo não passa de mera fantasia, uma vez que ninguém se lembra de vidas humildes eanônimas, mas todo mundo quer logo ser Maria Antonieta ou Napoleão – as duas mais citadaspersonalidades históricas nesse contexto.A observação é de uma puerilidade tão grande que beira o ridículo. Em primeiro lugar, por não serverdadeira, e isso nos pouparia até o esforço de dizer algo mais, como o artilheiro que não podedisparar o canhão por vinte e duas razões, a primeira das quais é porque não tem pólvora... Averdade é que o mais comum nas regressões da memória – provocadas ou espontâneas – é alembrança de discretas existências, e até penosas, vividas em penúria e terminadasmelancolicamente. Por outro lado, pessoas inclinadas a propalar levianamente aos quatro ventospossíveis encarnações em posições de relevo social, político, religioso ou artístico estãoprovavelmente desequilibradas ou desarmonizadas e confusas. Nunca devemos esquecer, contudo,que se vivemos muitas existências encadeadas – e isto é estritamente verdadeiro –, e no passadoviveram, tanto quanto vivem hoje, personalidades que se destacam no contexto humano, não éimpossível que algumas daquelas personalidades sejam, aqui e ali, identificadas em alguémreencarnado. Vejam só, as palavras que Luciano dos Anjos põe na boca de Hermínio, este declaranão serem de sua autoria. Tratar-se-ia da opinião de terceiros, com as quais nãoconcorda de forma alguma! A questão mais embaraçosa, no que se refere a possibilidade de uma boa análise daobra, são os relatos conflituosos de Hermínio e de Luciano, vários deles apresentadosdurante o estudo. Não encontramos explicação satisfatória para tal ocorrência. Apossibilidade mais viável que podemos aventar seria a existência de reuniões que um ououtro “esqueceu” de narrar. Isso traz sérias implicações na confiabilidade do relato edificulta a avaliação adequada da experiência conjunta. Em alguns diálogos parece queos protagonistas estão a falar de situações somente parecidas, mas em tudo distintas,tamanha é a quantidade de fatos não coincidentes.Do que foi exposto, fica demonstrado que, na obra em questão, não existem elementossuficientes que permitam falar-se em regressão à vida passada. Se tal fenômeno ocorre,não ocorreu no episódio analisado. Os defensores da teoria ficam em débito: devemapresentar experiências que exibam ocorrências seguras de lembranças pretéritas. Até opresente, o que podemos dizer é que as supostas lembranças são resultante deelaborações de mentais sob sugestão hipnótica, ou seja, fantasiosas.
  • 104. A pretensa capacidade de Luciano dos Anjos em reconhecer espíritos, cujosfundamentos teóricos são pobres, constitui assunto não diretamente ligado ao temaprincipal da obra, mas que mostra o muito de empolgação e pouco de espírito científicosuas cogitações apresentam.Mais poderia ser dito: o material que Hermínio Miranda produziu enseja trabalho quecomportaria páginas e mais páginas de avaliações. O que mostra que o dedicadoescritor, mesmo levando-se em conta os equívocos aqui apontados, é um gigante noestudo e na pesquisa. Como finalização e complementação do presente estudo,apresentamos texto, escrito por Luciano dos Anjos, em que o autor noticia comoreconheceu a identidade de André Luiz. Neste artigo inserimos, entre colchetes edestacado na cor vermelha, comentários de nossa lavra.Moizés Montalvão.moizes-rio@click21.com.br_________________________________O VERDADEIRO ANDRÉ LUIZLUCIANO DOS ANJOS“Em 19.5.04, distribuí texto pela internet sobre o espírito André Luiz, mostrando-lhe osolhos e informando que o médium Waldo Vieira identificara para um amigo dele (emeu) quem era realmente o famoso médico carioca.[neste caso, não foi Chico Xavier quem noticiou a identidade de um de seusmentores! Parece-nos que a pontinha de um problema começa a surgir...]Naquele texto, voltei a explicar que, no início da década de 70, após extenuantepesquisa com 286 médicos desencarnados de 1926 a 1936 (68 foram categoricamentede doenças ou cirurgias gastro-intestinais), eu houvera chegado ao verdadeiro nome,que nada tem a ver com Carlos Chagas, Miguel Couto, Osvaldo Cruz ou Francisco deCastro, os mais citados. O médium Francisco Cândido Xavier me confirmara o nome,mas considerou que a identidade deveria ser mantida em segredo.[aqui pode-se considerar outra suposição: Chico Xavier não se sentiu confortávelante a “revelação” de Waldo Vieira, porém não quis entrar em atrito com quem, naépoca, era seu amigo. Preferiu digerir a notícia e não fazer alarde, esperando quemorresse quieta][A fragilidade maior nesta “identificação” está em aceitar-se, sem discussões, queWaldo Vieira seria habilitado – não se sabe como, nem por que, nem por quem −para reconhecer quem fora André Luiz. Ainda não estamos levando em conta aprobabilidade de que tal personagem seja meramente criação da fantasia de ChicoXavier, mas preferimos deixar o desenvolvimento dessa idéia para outro trabalho...]Durante minhas pesquisas aconteceu o menos esperado: a família soube dos meuspassos e me procurou. Percebi então que o Chico tinha razão quanto a sermoscautelosos e disse àqueles familiares – que já sabiam de tudo – que, de minha parte, opúblico ainda nada saberia.
  • 105. Guardei esse segredo até a recente distribuição do texto pela internet, quando divulgueijunto os olhos de André Luiz, receoso de que a revelação do Waldo se espalhasse semmais controle. Agora porém tudo mudou e não vejo mais motivo para qualquer reserva.Pretendo contar tudo e até publicar minha pesquisa em livro, pois não sei quem conheçamais detalhes dessa história do que eu; não apenas em relação às ponderações do Chico,mas também relativamente à conversa que tive com a família de André Luiz.A pessoa a quem o Waldo passou a informação é meu amigo, Osmar Ramos Filho. Eleé o autor da extraordinária obra O Avesso de um Balzac Contemporâneo, análise deamplo espectro do livro Cristo Espera por Ti, de Honoré Balzac, psicografado peloWaldo Vieira. Um estudo notável de corroboração da mediunidade do Waldo. Acerteicom o Osmar que continuaríamos mantendo segredo, transferindo para meu filhoLuciano dos Anjos Filho o encargo de fazer a identificação pública, quando ascircunstâncias se mostrassem propícias, isto é, ao tempo em que a conduta terrena deAndré Luiz, narrada em Nosso Lar, pudesse ser melhor assimilada pelos descendentes.Por que meu novo posicionamento? Afirmei certa vez que, após a precisão da minhapesquisa, o Chico havia passado para o Newton Boechat a identificação correta. Eleseram muito amigos, muito ligados. A atitude do Chico, portanto, nunca me surpreendeu,especialmente ao constatar que eu já havia chegado ao nome certo. Em qualquercircunstância acabaria ali o mistério. E – confesso hoje mais claramente – eu sabia que oBoechat sabia, pois a respeito disso conversamos várias vezes, sempre sem nenhumatestemunha.Ocorre que o Newton Boechat achou por bem abrir uma exceção e estendeu aidentificação, também em caráter confidencial, a uma outra pessoa. E esta, por motivosque ignoro, recentemente repassou a informação para mais alguém, num lamentável einconseqüente deslize verbal.. Bem, agora já se trata de segredo condominial. Estãoquerendo inclusive publicar um livro sobre a vida do verdadeiro André Luiz. Já tem atéeditora. A intenção é temerária, porque nem sabem da conversa que tive com osfamiliares. O levantamento dos dados está sendo feito às pressas e em sigilo,naturalmente para parecer que a identificação já era conhecida antes de mim. Como nãosou tão ingênuo como os mais ingênuos supõem, estou agora abortando essa esperteza.Já relembrei que desde o início da década de 70 divulguei na imprensa, por mais de umavez, minha pesquisa, embora sem revelar o resultado final. Não seria, pois, tãonecessária essa minha decisão de agora, pois ninguém no movimento espíritadesconhece meu trabalho.Mas já apareceu até quem dissesse que foi o ex-presidente de um centro espírita doMéier, aqui no Rio de Janeiro, que me passou o segredo. Lorota de alto vôo e altaenvergadura, seja lá de quem for a versão e diante da qual os que me conhecempreferem acreditar que os condores têm medo das alturas.... Ninguém mais além demim, do Newton Boechat, do Chico e do Waldo (estes dois obviamente) sabiam daverdadeira identidade de André Luiz. Incluo ainda a discreta e amorável Maria LauraHermida de Salles Gomes (Mariazinha), que se relacionava com uma sobrinha de AndréLuiz e a qual teve papel importante na conexão com o Chico e o Waldo. Pouco depois,mais aquele amigo do Newton Boechat passou a saber também, em caráter excepcional.Foi ele que, aperaltando assunto tão sério, acabou contando para quem está agoraesboçando o livro. Minimizar minha pesquisa fazendo dela fruto de mera informação de
  • 106. um ex-presidente de centro do Méier é denunciar a si mesmo de oportunista, enquantoperambula pelo humorismo barato dos pobres de espírito, na tentativa de ignorar queuma história dessas só é degustável com sal de fruta.Ora, nesse ritmo, logo outros, muitos outros, todos saberão e, se eu esperasse o tal livroaparecer, ninguém mais deixaria de saber, com todos os holofotes em quem tomou obonde andando. Eis por que, nesta data, me antecipo e universalizo o segredo.FAUSTINO ESPOSELAndré Luiz é Faustino Esposel.Faustino Monteiro Esposel nasceu na rua dos Araújos nº 10, bairro do Engenho Velho,cidade do Rio de Janeiro (registro 1469), em 10.8.1888. Desencarnou no Rio de Janeiro,às 17 horas de 16.9.1931, residindo então na rua Martins Ferreira nº 23, no bairro nobrede Botafogo.Era filho de João Paiva dos Anjos Esposel e de Maria Joaquina Monteiro (filhasecundária).[o que seria “filha secundária”?]Ele [João Paiva] nasceu no Rio de Janeiro, conforme registro de batismo feito em29.5.1847 (B. 2.8), na Capela Imperial (registro 1,128) (hoje Catedral Metropolitana, naavenida Chile). Desencarnou de tísica, no Rio de Janeiro, em Irajá, em 1º.5.1900, sendosepultado no carneiro CP 1814 quadra 39 do cemitério de São João Batista. Foi amulher dele, Maria Joaquina Monteiro, quem mandou fazer a sepultura. Eladesencarnou no Engenho Velho, no Rio de Janeiro, em 29.9.1910, portanto, dez anosdepois dele. Casados no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro nº 6º, 35), em7.12.1871.João Paiva dos Anjos Esposel e Maria Joaquina Monteiro tiveram osseguintes filhos:1. Oscar Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 8º 73).Casado com Orminda Monteiro Esposel. Moravam na rua Bambina (estou omitindo onúmero de propósito). Seu filho, Léo Esposel, em 1974 estava casado com Maria deLourdes Ribeiro Esposel. Tinha também duas filhas, Lívia Monteiro Esposel, quemorava em 1974 na praia do Flamengo (idem, idem), e Ida Esposel Neves. Ormindanasceu em 1902, no Rio de Janeiro, tendo desencarnado em novembro de 1978, quandomorava na praia do Flamengo. Oscar e Orminda tinham sete netos (Luiz, Francisco,Nélida, Consuelo, Maria Cristina, Mônica e Patrícia) e sete bisnetos (Marcos André,Guilherme, Marcelo, Ricardo, Luciana, Márcia, Camila).2. Noêmia Monteiro Esposel, nascida no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 10ºv.).3. Mário Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 11º,64). Era almirante. Em 1975 morava na rua Prudente de Morais (idem, idem).4. Adolfo Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, no Rio de Janeiro, em30.11.1885.Desencarnou com apenas quatro meses, no Rio de Janeiro, em 13.4.1886, na rua dosAraújos nº 10, tendo sido sepultado no cemitério do Caju (4m.B.d.). (Em Nosso Laraparece como menina, mas na verdade era um menino. Quando desencarnou, em 1886,
  • 107. Faustino ainda não era nascido, o que só vai acontecer dois anos depois, em 1888.André Luiz deslocou o acontecimento para depois do nascimento dele, quando ele era“pequenino”.)[dois erros de “André Luiz”: identificar incorretamente o sexo do irmão falecido esituá-lo num período posterior à sua morte.]5. Carlos Monteiro Esposel, nascido no Engenho Velho, Rio de Janeiro (registro 12º4v). Em 1974 morava na rua São Salvador (idem, idem). Mudou-se depois para a ruaPaissandu (idem, idem). Acabou indo morar em Santa Catarina.6. Faustino Monteiro Esposel.Eram avós paternos de Faustino Esposel: José Maria dos Anjos Esposel e MargaridaMaria; e avós maternos: Isidro Borges Monteiro (desembargador) e Paulina Luísa deJesus.João Paiva dos Anjos Esposel, pai do Faustino, tinha um irmão chamado Joaquim Mariados Anjos Esposel (1842-1897), casado com Maria José de Barros Carvalho (filha deDelfim Carlos de Carvalho, barão da Passagem, herói da primeira guerra do Paraguai, ede Ana Elisa de Mariz e Barros, filha do visconde de Inhaúma). O casamento foicelebrado na igreja de São José. Tiveram quatro filhos:1. Alice Esposel (casada com Andrônico Tupinambá).2. Dulce Esposel (casada primeiro com Sabino Elói Pessoa e, em segundas núpcias,com Joaquim Bernardo da Cruz Secco).3. Eponina Esposel (casada com Alberto de Costa Rodrigues).4. Delfina Esposel.(Há uma rua no Rio de Janeiro chamada Joaquim Esposel.)Faustino Esposel tinha muitos sobrinhos, dentre os quais Lívia Monteiro Esposel, Elza,Ida Esposel Neves, Lúcia (residente no Rio de Janeiro) e Léo, casado com Maria deLourdes Ribeiro Esposel. E sobrinhos-netos: Élcio (almirante), Carlos, Ronaldo(morava em 1974 na rua Prudente de Moraes, era comerciante de couro, casacos decouro, ligado ao Jockey Club Brasileiro). Todos pessoas de bem.Outros parentes: Laís de Niemeyer Esposel, residente em 1974 na av. Vieira Souto,desencarnada em fevereiro de 1994; Jayme Carneiro de Campos Esposel, residente em1974 na estrada do Joá, era capitão de fragata quando comandou o contratorpedeiroAjurieda, de 16.10.56 a 29.11.1957; Marcello, residente em 1974 na rua CândidoMendes. Nomes de respeitabilidade entre os que os conhecem.Faustino Esposel[este seria o imaginado André Luiz]casou com Odette Portugal Esposel, conhecida por Detinha. Era filha do médico JoséTeixeira Portugal, desencarnado em 1931. Ela desencarnou em fevereiro de 1978. Amissa foi rezada no dia 13 daquele mês, na igreja de Santa Margarida Maria, na Lagoa.Irmãs da Odette Portugal Esposel: viúva Gumercindo Loretti e Olga Portugal, casada
  • 108. com Artur Machado Castro. Sobrinhos: Lygia, Regina e Jorge C. Dodsworth.FaustinoMonteiro Esposel e Odette Portugal Esposel moravam na rua Martins Ferreira nº 23, emBotafogo, cidade do Rio de Janeiro. Em 1975 estava instalada naquele local aAssociação Educacional Católica do Brasil, instituição mais tarde transformada numacreche, dirigida por três senhoras que ali residem até hoje (2005). O atual porteiro sechama “coincidentemente” André Luiz...Faustino Esposel nasceu na capital federal, no dia 24 de outubro de 1888. Era professorsubstituto da seção de neurologia e psiquiatria da Faculdade de Medicina e reputadoclínico, catedrático de neurologia na Faculdade Fluminense de Medicina. Foi aindachefe do serviço da Policlínica de Botafogo e do Sanatório de Botafogo e médico daAssociação dos Empregados do Comércio. E era também sanitarista, portador porconcurso do título de docente de higiene da Escola Normal do Rio de Janeiro, na qualfoi continuamente encarregado de cursos complementares. Fez os estudos primários naEscola Alemã, conhecia profundamente o idioma germânico, cursou durante algunsanos o externato Mosteiro de São Bento. Formou-se em 1910 em farmácia e emmedicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde defendeu tese sobre“Arteriosclerose cerebral”, em que recebeu a nota de distinção.Durante o curso acadêmico, foi adido dos serviços clínicos da 7ª e da 18ª enfermarias daSanta Casa da Misericórdia, chefiadas respectivamente pelos mestres Miguel Couto ePaes Leme. Ainda nessa época, exerceu o internato oficial da Clínica Pediátrica dosprofessores Barata Ribeiro e Simões Corrêa.Pouco após a formatura, candidatou-se a médico da Assistência de Alienados do Rio deJaneiro, classificando-se em primeiro lugar, pelo que foi nomeado assistente do HospitalNacional de Alienados. Chegou a titular de livre docente da Faculdade de Medicina,exercendo ali o cargo de professor substituto de neurologia e psiquiatria. Nessacondição teve ensejo de integrar diversas bancas examinadoras de teses dedoutoramento.Foi ainda interno e assistente da clínica neurológica e médico adjunto doHospital da Misericórdia. Deixou muitos trabalhos publicados sobre a especialidade, oque lhe permitiu ingressar em várias sociedades científicas nacionais e estrangeiras. Em1918 fez parte da missão médica brasileira que foi à Europa durante a I Grande Guerra.Como representante do Brasil participou de vários congressos na Europa e na Américado Sul. Foi organizador e secretário geral da Segunda Conferência Latino-Americana deNeurologia, Psiquiatria e Medicina Legal. Sobre a epidemia de gripe no HospitalBrasileiro em Paris, apresentou em 1919 substancioso relatório ao chefe da MissãoMédica Brasileira. Recebeu honroso diploma do curso oficial de Pierre-Marie, assinadopor este famoso professor e pelo decano da Faculdade de Paris, professor Roger.Durante o impedimento do professor Antônio Austregésilo, catedrático de ClínicaNeurológica (foi eleito para o Congresso Nacional), Faustino Esposel exerceu combrilho aquela função, conquistando grande renome como didata. Conseguiu elevadoprestígio entre os seus colegas, gozando de justo renome no meio social da época.Aficionado dos esportes, criou grande círculo de amizades nas rodas desportivas, emépoca em que o futebol não era unanimidade nas elites do país.Faustino Esposel desencarnou na capital federal, às 17 horas do dia 16 de setembro de1931, com 42 anos 10 meses e 22 dias.
  • 109. [todo este detalhamento, será com o fito de conceder maior autenticidade ao que oautor defende? Parece-me que sim]O sepultamento foi numa quinta-feira, no dia 17, às 16:30h, no cemitério de São JoãoBatista. O corpo saiu da residência. Missa de 7º dia foi celebrada em 23.9.31, às 10horas, na igreja da Candelária.Antônio Austregésilo, amigo de infância, assinou o atestado de óbito, nele fazendoconstar, como causa da morte, apenas uremia. Era portador de uma nefrite crônica.Entretanto, os familiares sabiam e alguns descendentes vivos sabem que eledesencarnou de câncer,[êpa! Parece afirmação temerária, vejam só: o médico teria mentido no laudo, a fimde ocultar a verdadeira causa mortis, que, no entanto, foi noticiado pelo médiumChico Xavier em “Nosso Lar”! Isto parece o caso de forçar a realidade a adaptar-se àteoria.]o que foi omitido por todos os jornais da época, que apenas mencionaram, como erapraxe nesses casos, “a violência da súbita enfermidade que o acometeu” sendo “todos osesforços impotentes no combate ao mal insidioso” (Diário de Notícias, 17.9.31); ou“acometido de moléstia aguda, que sobreveio inesperadamente” (Jornal do Commércio,17.9.31). Quando do falecimento, o amigo Antônio Austregésilo fez um panegírico,inserido em Arquivo Brasileiro de Medicina, nº 8, de 1931 (Biblioteca Nacional).Em 29.9.1927, Faustino Esposel inscreveu-se à vaga aberta na Academia Nacional deMedicina decorrente da passagem de Teófilo de Almeida Torres, membro titular daSeção de Medicina Geral, para a classe dos Membros Titulares Honorários. Apresentoujuntamente com os seus trabalhos a memória intitulada “Em torno do sinal deBabinsky”. Aprovado, a eleição teve lugar em 17.11.1927 e a cerimônia de posse nasessão de 24.5.1928, sob a presidência do acadêmico Miguel Couto, que designou osacadêmicos Antônio Austregésilo e J. E. da Silva Araújo para acompanhar o novoacadêmico ao recinto. Fez-lhe a saudação de paraninfo o acadêmico Joaquim Moreirada Fonseca. Com o seu falecimento, sua poltrona passou a ser ocupada pelo acadêmicoOdilon Gallotti, eleito em 23.6.32 e empossado em sessão de 25.6.36.Na sessão de 30.6.32 a Academia promoveu uma homenagem a Faustino Esposel,discursando na ocasião o orador oficial Alfredo Nascimento.Tenho em meus arquivos todos os discursos pronunciados naquela instituição. FaustinoEsposel era católico.[seria isso prova de que os católicos também reencarnam?]Militou na União Católica Brasileira. Foi congregado mariano. Comungava comfreqüência, o que era hábito da maioria religiosa daquela época.Tinha ficha de cadeira cativa do Clube de Regatas do Flamengo, dos anos de 1925 a1930. Foi presidente do clube no biênio 1920-1922, depois de 1924 a 1927, ano este emque renunciou, assumindo Alberto Borgerth. Em 1928 voltara à presidência, não tendocompletado o mandato em virtude da doença. Na assembléia de 23 de dezembro de
  • 110. 1920, quando o presidente já era Faustino Esposel, o Flamengo aprovou o seu novouniforme, usado até hoje.Em 1926, os Guinle pediram a devolução do imóvel que estava arrendado ao clube.Fez-se então uma campanha de arrecadação junto ao quadro social para a aquisição deum local próprio. Desde 25 de março de 1925, o presidente Faustino Esposel haviareunido a diretoria comunicando a disposição do então prefeito da cidade do Rio deJaneiro, Antônio Prado Jr., de ceder uma área de mais de 34 mil metros quadrados àsmargens da lagoa Rodrigo de Freitas. Após negociações que se sucederam com oprefeito Alaor Prata, o presidente Faustino Esposel obteve a desejada área na Gávea.O primeiro jogo ali promovido, ainda sem muro e cercado por madeiras, aconteceu soba presidência de Faustino Esposel, no dia 26 de novembro de 1926, entre a Liga deAmadores de Foot-Ball (São Paulo) e a Association de Amateurs de Argentina. Nesseperíodo, outro conselheiro do clube era Oscar Esposel, irmão de Faustino, que foi quempropôs a inauguração do estádio da Gávea em 15 de novembro de 1938, quando oFlamengo estaria completando 43 anos de fundação. Mas a festa acabou acontecendoantes, no dia 4 de setembro daquele ano com um jogo entre Flamengo e Vasco, vitóriavascaína por 2 a 0 que, no entanto, não abafou a alegria rubro-negra, por estar com anova casa concluída.Entusiasta dos esportes e da educação física, que sempre cultivou,pertenceu a várias associações esportivas em que exerceu cargos técnicos eadministrativos e de que foi presidente por diversas vezes, como a AssociaçãoMetropolitana de Esportes Atléticos e a Federação Brasileira de Desportes.Há dois retratos de Faustino Esposel na sede do Flamengo, na Gávea. Outro, de corpointeiro, não está, como alguns parentes supunham, no gabinete do Deolindo Couto (dequem foi professor). Constatei que se encontrava no corredor escuro da Faculdade deMedicina, então na praia Vermelha (hoje não existe mais). Existe também um quartoquadro, em que ele está de meio-perfil, na residência da Maria Laura Hermida de SallesGomes (Mariazinha), em Cambuquira, na rua Getúlio Vargas, 141. Um último registro:Antônio Austregésilo, talvez o maior amigo do Faustino, chegou a presentear Odettecom os livros de André Luiz.Bem, eis o que posso adiantar. Tenho muitas outras informações, mas meu acervocompleto só pode ser aberto realmente em livro, dados os comentários e as explicaçõesque o tema exige.[Então, quem quiser conhecer os melhores argumentos sobre a hipótese sobapreciação, terá de examinar o livro referido, pois, até aqui, tudo o que Luciano dosAnjos apresentou são dados biográficos do falecido, nada que sirva comodemonstração de Esposel era André Luiz, ou vice-versa]Aí então farei a necessária análise comparativa com o livro Nosso Lar e outros da série.Devo salientar desde logo, que André Luiz fez pequenas modificações para despistar oleitor, em obediência à preocupação exposta no prefácio de Emmanuel no sentido deocultar sua verdadeira identidade, o que ele mesmo reafirma na mensagem de abertura(“Manifestamo-nos, junto a vós outros, no anonimato que obedece à caridadefraternal.”)[explicação ad hoc]
  • 111. Mas, num único ponto essa modificação não foi pequena, ou melhor, foi radical: afamília deixada na terra. Na verdade, Faustino Esposel não deixou filhos. Então, quemsão aquelas pessoas referidas no livro? Segundo explicação do Chico, apresentada desde1975, são todos membros de uma família de que o Faustino era membro em encarnaçãoanterior.[Pois é, assim fica fácil “explicar” qualquer coisa!]A fim de ilustrar os ensinamentos ele foi buscar a situação doméstica no seu passadomais remoto.Outros detalhes que posso antecipar:– André Luiz informa que foi assistido na colônia Nosso Lar por um médico chamadoHenrique de Luna. Na terra, De Luna (médico, com esse mesmo nome) eracontemporâneo de Faustino Esposel.– André Luiz narra em Nosso Lar que teve quinze anos de clínica. Formado em 1910,consta que a partir da segunda metade da década de 20 ele viveu muito mais para omagistério e trabalhos intelectuais ligados à medicina, além das atividades desportivas.[“viveu muito mais para o magistério”, mas deixou completamente de clinicar? Peloescrito depreende-se que não, o que daria mais que os 15 anos relatados por AndréLuiz. Por isso, torna-se necessária explicação que possa tapar o furo.]– Luísa, a irmã que André Luiz conta ter desencarnado cedo, quando ele era“pequenino”, na verdade era um irmão (Adolfo Monteiro Esposel), desencarnado comapenas quatro meses, em 1886, dois anos portanto antes de ele nascer.[outro erro!]– Quem privou muito da proximidade de Faustino Esposel foi um porteiro que, atémeados da década de 70, embora aposentado, ainda costumava freqüentar o Pinel.Disse-me conhecer toda a vida do professor Faustino Esposel, que ele atendia muitosdoentes de graça e que era famoso de verdade. A par disso, aludiu a alguns fatos que seajustam perfeitamente ao que está confessado por ele mesmo nas páginas de Nosso Lar.E confirmou, inclusive, detalhes de comportamento que o próprio André Luiz tambémnão escondeu no livro.”[bela testemunha, e belas informações... Luciano deve achar que tal testemunho dá a“força” argumentativa de que precisa, a fim de demonstrar que Andre Luiz e Esposelsão a mesma pessoa. Mas, além de ter conhecido o Dr. Esposel, parece que o porteironão dispunha de informe de maior relevância.]Rio de Janeiro, 1º de julho de 2005LUCIANO DOS ANJOSlucianofilho@uol.com.br

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