Sociologia e engajamento, crh 2009
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Sociologia e engajamento, crh 2009 Sociologia e engajamento, crh 2009 Document Transcript

  • Elísio Estanque SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL: reflexões a partir do trabalho e do sindicalismo DOSSIÊ Elísio Estanque* O presente paper procura ser um exemplo da sociologia crítica-pública desenvolvida no Cen- tro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra. A linha temática aqui tratada (sociologia do trabalho e do sindicalismo) assume uma perspectiva crítica, quer do ponto de vista teórico-reflexivo, quer como prática política do cientista social, consideradas duas faces da mesma moeda. Partindo desse ponto de vista, discute-se a atual conjuntura de crise e analisa- se o caso português à luz da questão do trabalho, realçando alguns dos traços estruturais do país como semiperiferia da Europa e mostrando como alguns dos seus atuais problemas têm origens muito antigas. PALAVRAS-CHAVE: sociologia pública, crise, trabalho, sindicalismo, Portugal. O ressurgimento relativo da sociedade por tuguesa e os laços de proximidade entre Por- tugal e o sul global, especialmente com a África e zir ciências sociais numa perspectiva crítica, transdisciplinar e assumidamente engajada. a América Latina, herdados da era colonial, cria- ram um dinamismo raro no nexo entre a sociolo- Embora não representativa do CES, que en- gia crítica e a sociologia pública, desde os projetos emancipatórios do Forum Social Mundial aos pro- volve hoje um numero de mais de cem pesquisado- jetos feministas internacionais, passando pelas crí- res, setenta dos quais com doutorado, a perspecti- ticas, ao estilo de Bourdieu, à dominação social e à violência simbólica.” va crítica e a orientação politicamente engajada dos M. Burawoy, 2007. seus membros é parte integrante da identidade e da tradição desse centro. Nem todos seguem, natural- CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 A discussão em torno da chamada “public mente, o mesmo paradigma teórico-epistemológicosociology”, desencadeada no mundo acadêmico oci- ou a mesma orientação politica do seu principaldental a partir das contribuições de Michael Burawoy líder, Boaventura de Sousa Santos, mas a tendência(2005, 2007), colocou-se perante a comunidade soci- geral da comunidade do CES é pautada pela preo-ológica do Centro de Estudos de Sociologia (CES) cupação com a interdisciplinaridade, por um lado,como uma teorização interessante – porventura ca- e com a intervenção pública e cívica, por outro, epaz de imprimir um sentido mais engajado à socio- isso não apenas como cidadãos mas também comologia estadunidense, onde pontificou o paradigma cientistas sociais.funcionalista –, mas com pouca novidade para nós. Procura-se construir um conhecimento pro-De fato, há cerca de três décadas que a comunidade gressista, transformador e emancipatório, destina-sociológica de Coimbra vem se dedicando a produ- do a reforçar o espaço público. E pretende-se usá- lo como auxiliar para ver para além do manto de* Doutor em Sociologia. Professor de Sociologia da Uni- opacidade que as instituições e o poder hegemônico versidade de Coimbra. Faculdade de Economia da Uni- versidade de Coimbra - FEUC. Pesquisador do Centro tendem a lançar sobre a realidade, ou, pelo me- de Estudos Sociais - CES. Av. Dias da Silva, 165. Cep: 3004-512 Coimbra. Portugal. nos, aquela parte da realidade social tendente a elisio. estanque@gmail.com pôr em causa as leituras dominantes e a incomo- 311
  • SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL... dar a ordem estabelecida. Visualizar o invisível e paradigma ocidental da ciência moderna em favor valorizar, a partir das margens, as múltiplas de uma visão cosmopolita, multiculturalista e potencialidades emancipatórias que o centro tem emancipatória dos movimentos e dos fenômenos vindo a apagar ou a excluir. Em outras palavras, sociais em geral que, nos últimos anos, afirmou-se recusar limitar-se a justificar o que existe só por- na defesa da “ecologia dos saberes” e na opção pela que existe, e estar atento às ausências e às emer- “epistemologia do Sul”, não obstante o seu interes- gências (Santos, 2000 e 2002a). se filosófico e o seu potencial crítico sejam assun- O presente artigo tem como objetivo forne- tos que se apresentam como mais controversos cer uma amostra dos temas de estudos que temos entre os cientistas sociais, inclusive no seio da desenvolvido, guiados por essa orientação, ou seja, comunidade do CES (Santos; Menezes, 2009). procurando usar a reflexão e a análise sociológica Desse modo, a preocupação neste artigo é para, a partir dela (e com base nos resultados de divulgar junto à comunidade brasileira dos cien- diversos estudos em áreas distintas), intervir na tistas sociais algumas das leituras e diagnósticos esfera pública, procurando dirigir o nosso conhe- que temos proposto sobre as tendências de mu- cimento não apenas para as instituições (“policy dança no período recente, no campo das relações making”), não apenas para a comunidade acadê- de trabalho e do sindicalismo. Tais temáticas são, mica (numa perspectiva “profissional” ou “críti- no entanto, perspectivadas no seu sentido mais ca”), mas para os públicos subalternos e plurais, abrangente, ou seja, como instâncias de eleição em no sentido de disseminar informação e conheci- torno das quais qualquer estratégia de moderni- mento inovador, capaz de instigar a participação e zação, tal como o próprio sistema democrático, a cidadania ativa. Dando sequência a um dos prin- tanto se podem consolidar como entrar em colap- cípios orientadores do CES, a filosofia subjacente so. Para além disso, importa referir que – nesse aos trabalhos realizados nessas áreas – sobretudo campo como em muitos outros que integram as a partir do Núcleo de Estudos do Trabalho e linhas de pesquisa do CES1 – as notas de refle- Sindicalismo (NETSind) – preocupa-se em contri- xão que se seguem são fruto não apenas de resul- buir para “democratizar a democracia” ou, por tados de pesquisas diversas, mas, ao mesmo tem- outras palavras, ajudar a reinventá-la, de uma de- po, exprimem o diálogo que temos aprofundado mocracia representativa e de baixa intensidade rumo com os atores sociais diretamente intervenientes a uma democracia de alta intensidade, em que as nesse domínio, quer no âmbito institucional, osCADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 dimensões “representativa” e “participativa” se que são hoje reconhecidos como “parceiros” de reforcem mutuamente no aprofundamento da cul- diálogo e concertação social (Estado, sindicatos e tura democrática (Estanque, 2007; Santos, 1988, empresários), quer os representantes e ativistas 1998, 2000, 2005, 2007). que lideram o movimento sindical mais combativo, Pode dizer-se que o desenvolvimento do CES quer ainda outros líderes associativos do campo – e de várias das suas linhas de pesquisa numa estudantil e do trabalho. perspectiva engajada e emancipatória – obedeceu a A reflexão sobre a questão laboral e social, uma opção estratégica. Aquela que mais diretamen- de uma maneira geral, não poderia, evidentemen- te carrega a marca teórica e epistemológica da sua principal referência, Boaventura de Sousa Santos, 1 Ver o site do CES em: www.ces.uc.pt. No nosso caso que vem em estreita continuidade com a primazia particular, vale a pena referir que, para além desses te- mas, também a análise das classes e desigualdades soci- das relações de cooperação com os países de língua ais (Estanque e Mendes, 1997), do trabalho e do colectivo operário, em articulação com as identidades comunitári- oficial portuguesa, especialmente o Brasil e as ex- as, analisado a partir da observação participante numa empresa de calçados (Estanque, 2000), e os movimen- colônias africanas, que, por essa via, se foi esten- tos sociais e estudantis (Estanque e Bebiano, 2007) têm dendo a toda a América Latina. Em especial a pers- condensado as principais preocupações analíticas e interventivas.(ver: www.ces.uc.pt/investigadores/cv/ pectiva epistemológica de crítica frontal ao elisio_estanque.php) 312
  • Elísio Estanquete, deixar de ser observada sem se levar em conta A noção de “crise” encerra em si mesmaalguns dos traços específicos da sociedade portu- uma enorme variedade de significados e, no casoguesa, mostrando as suas vulnerabilidades parti- vertente – em que se pensa, sobretudo nas ten-culares, que remetem para a história recente do dências negativas na esfera financeira, econômicapaís e para as dificuldades que vem enfrentando e no emprego –, ela recobre todo um leque de rea-na aproximação aos padrões europeus. lidades bem diferentes, muitas das quais já anti- gas. Por outro lado, a própria crise econômica foi suscitada por um conjunto complexo de fatoresDA CRISE E PARA ALÉM DELA: dilemas e sociais, uns mais estruturais outros mais contin-dificuldades estruturais gentes. Diversas instâncias políticas e interesses econômicos desencadearam, desde há cerca de trin- Numa época de crise internacional que atingeta anos, um programa de iniciativas que significoutodos os cantos do mundo, é fundamental que nos uma aposta sem precedentes no comércio livre, naquestionemos sobre os seus impactos, em especi- especulação nas bolsas de valores, nas offshores eal no setor do trabalho, que se assumiu como a na economia financeira, fatores que serviriam deinfraestrutura fundamental do sistema social e barômetro para o crescimento econômico. Os mer-político das sociedades industriais modernas. cados assegurariam um crescimento ilimitado e,Começarei por chamar a atenção para dois pontos portanto, quanto menos regulação e intervençãoprévios: em primeiro lugar, existe um conjunto de estatal, tanto melhor. A “bondade” do mercado glo-aspectos relacionados às transformações ocorridas bal parecia garantir o sucesso.nas últimas décadas, em especial no que tange às Embora sejam esses alguns dos lemas quegrandes mutações socioeconômicas e sua incidên- conduziram à erupção da atual crise, certos mentorescia nas relações de trabalho e nos processos pro- teóricos importantes, como Alan Greenspan, fize-dutivos, que devem ser previamente equacionados ram mea culpa e assumiram o “erro”. Com efeito,a fim de se compreender como os impactos da atu- foram os Estados e as economias mais ricas doal crise se fazem sentir de modo muito distinto em mundo, fortemente apoiadas pelos mercados in-diferentes contextos e sociedades particulares; em ternacionais e pelas novas tecnologias da informa-segundo lugar, é necessário relativizar a tendência ção e comunicação, que impuseram, como regra, apara se pensar e discutir todos os assuntos em abertura total das fronteiras ao comércio mundial, CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009torno da “crise”, como se o mundo tivesse come- a competitividade deixada ao sabor do mercadoçado em 2008. Tal atitude pode provocar distorções etc., envolvendo tudo isso na conhecida retóricade índole diversa, inclusive perder de vista a com- neoliberal, que prometia um mundo de oportuni-plexidade dos fatores estruturais inerentes à socie-dades para os mais competentes e uma “nova eco-dade portuguesa, e que definem não só os contor- nomia” capaz de assegurar o bem-estar, senão denos que a crise assume entre nós, mas também os todos, pelo menos daqueles – países, economias epossíveis caminhos para sair dela e enfrentar um indivíduos – que decidissem guiar-se pela apostacenário pós-crise. Qualquer diagnóstico que se faça nas qualificações, na inovação e na competição. Osacerca da questão do trabalho – seja ele com respei-resultados desastrosos estão hoje à vista de todos.to ao caso português, brasileiro ou outro –, na difí-cil conjuntura internacional que hoje vivemos, nãopode circunscrever-se à realidade presente (na ver- GLOBALIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÕES NOdade, apenas o passado se deixa conhecer), deven- TRABALHOdo antes colocá-la em perspectiva no quadro de umprocesso histórico mais amplo e de um quadro es- Do mesmo modo que a crise, também atrutural mais vasto e profundo. “globalização” tem suscitado muita controvérsia 313
  • SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL... justamente devido à sua polissemia. Muito embo- para milhões de trabalhadores de diversos conti- ra se tenha percebido que, afinal, o comércio glo- nentes. E o caso particular da Europa é aquele em bal é já uma velha história, da qual existem marcas que as alterações em curso representam um fla- indeléveis há mais de cinco séculos, a reviravolta grante retrocesso em face das conquistas alcançadas ocorrida há cerca de três décadas suscitou uma desde o século XIX, com a decisiva contribuição fantástica multiplicação das transações e fluxos de do movimento operário e do sindicalismo. Porque pessoas, bens e serviços de todos os tipos, dando a Europa é justamente a região “referência” e o ber- lugar a profundas transformações tanto no plano ço da civilização Ocidental, é necessário pensar prático como no plano teórico e conceptual. Com em toda a sua tradição humanista e emancipatória, a massificação da indústria turística e a democrati- na qual encontraremos a gênese das principais dou- zação dos transportes aéreos, o mundo ficou menor trinas progressistas, revoluções e movimentos so- e passou a ser olhado sob novas perspectivas. As ciais. O projeto da modernidade e a democracia velhas noções de modernidade, desenvolvimento e política assentaram promessas de grande potenci- progresso deram lugar à ideia de pós-modernidade, al utópico rumo a uma sociedade mais justa e igua- de imprevisibilidade e de incerteza quanto ao senti- litária. Porém, os velhos lemas do iluminismo – do da história e da mudança social. A intensifica- Liberdade, Igualdade e Fraternidade – foram, nas ção das trocas comerciais na escala transnacional, últimas décadas, secundarizados, se não mesmo com a ajuda da revolução informática, tecnológica e desprezados ostensivamente, no discurso comunicacional, aceleraram e multiplicaram os institucional de governantes e dirigentes (inclusi- processos de mercantilização da vida e das socie- ve de correntes como a social-democracia, cuja dades, ao mesmo tempo em que os Estados e as história e referências éticas e doutrinárias se ins- economias nacionais perderam parte da sua antiga crevem em projetos e ideologias desse teor). Os soberania, autonomia e capacidade reguladora. efeitos da globalização induziram novas formas de Porém, ao contrário da retórica liberal e trabalho cada vez mais desreguladas, num quadro tecnocrática de muitos teóricos e experts, o novo social marcado pela flexibilidade, subcontratação, liberalismo que avassalou o mundo desde os anos desemprego, individualização e precariedade do 1980, não só não atenuou os problemas humanos trabalho. Assistiu-se a uma progressiva redução e os riscos sociais como os agravou drasticamente. de direitos trabalhistas e sociais, e ao aumento da É verdade que as oportunidades de negócio e as insegurança e do risco, num processo que se reve-CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 vantagens lucrativas se mostraram fantásticas para lou devastador para a classe trabalhadora e o uma ínfima minoria – sobretudo dos que já eram sindicalismo os finais do século XX (Castells, ricos e poderosos –, mas, em contrapartida, a larga 1999; Beck, 2000; Estanque, 2007). maioria das populações e das classes trabalhado- A realidade do mundo do trabalho, nos últi- ras, incluindo amplos setores da classe média, vêm mos tempos, atualizou visões críticas do capitalismo se debatendo com o agravamento das suas condi- até há pouco julgadas ultrapassadas. Karl Marx e a ções de vida e de trabalho. Hoje, muitos consta- sua obra maior, O Capital, voltou a suscitar as aten- tam a intensificação das desigualdades e injusti- ções do mundo, quer por parte de acadêmicos, quer ças sociais, e mesmo aqueles que mais ativamente por parte da opinião pública em geral. Mas, se o glorificaram o mercado livre e as infinitas pensamento marxista parece ganhar nova atualida- potencialidades da economia financeira voltam-se de, não é porque se pretenda recuperar a ortodoxia agora para o Estado pedindo auxílio. leninista ou reincidir em modelos comprovadamente O campo do trabalho é, sem dúvida, aquele falidos, como o soviético. É sim porque o mercado em que os impactos desestruturadores da desregulado, a intensificação da exploração – sob globalização têm se mostrado mais problemáticos. velhas ou novas formas – e todo o conjunto de pro- As consequências disso tornaram-se devastadoras blemas socioeconômicos que a atual crise 314
  • Elísio Estanqueaprofundou (em muitos casos pondo a nu o que já mesmo tempo que se combina sob diferentes lógi-lá estava, mas ainda imperceptível) comprovaram cas e formas mais instáveis (metamorfoseia-se) e,a falência do paradigma neoliberal e requerem, por em muitos casos, mais penosas para quem tem deisso, que se repensem os modelos de mercado que viver de qualquer trabalho. Tornou-se clara a ver-guiaram a economia mundial nos últimos tempos. satilidade, a instabilidade e a multiplicidade de Em especial no campo do emprego, temos formas e de sentidos que envolvem o trabalho eassistido a um efeito de pêndulo, em que cada vez seus mundos no início do século XXI. Muito em-menos trabalhadores se encontram numa situação bora se tenha esbatido como potência criadora ede emprego seguro, estável e com direitos, enquan- espaço de consolidação de “subjetividades de clas-to existem cada vez mais pessoas desempregadas se” dirigidas para a ação transformadora, o traba-que se debatem com o iminente risco de pobreza e lho, material e imaterial permanece como o móduloexclusão. Como os vagabundos do século XVIII central no processo de acumulação capitalistaeuropeu ou os chamados malteses alentejanos de (Antunes, 2006).meados do século XX, essa gente vê negados os O flagelo do desemprego, associado a umdireitos mais elementares. São atirados ao mundo “individualismo negativo” (Castel, 1998), que seem uma busca desesperada de subsistência e obri- assemelha a fenômenos que ocorreram na Europagados a aceitar quaisquer condições de trabalho e do século XVIII, resultante dessa precariedade –a se entregarem à vontade gananciosa de patrões geradora das mais diversas formas de dependên-sem escrúpulos. Excluídos, de fato, do estatuto de cia, insegurança, resignação e medo – permite todocidadania, são por vezes eles próprios que se ne- o tipo de prepotências e abusos. No atual panora-gam a si mesmos o direito de procurar um traba- ma, já não são os direitos trabalhistas aquilo quelho digno, aceitando ser tratados como sub-huma- se pretende defender, mas, do ponto de vista denos ou como os novos escravos da economia glo- milhões de assalariados, tão só o emprego a todo obal do século XXI. custo, pois “o pior dos empregos é sempre prefe- Os processos recentes de fragmentação e rível ao desemprego” – o que traduz bem a debili-precarização das relações e formas de trabalho atin- dade em que se encontra hoje o trabalhador. Des-giram o conjunto das classes trabalhadoras e pulve- mantelou-se o velho compromisso entre capital erizaram as próprias estruturas contratuais e trabalho, e a concertação social – a negociaçãoorganizacionais do sistema produtivo. Perante o tri- “tripartite” –, essa velha conquista do fordismo e CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009unfo do neoliberalismo econômico e o acentuar de do Estado de Bem-Estar europeu, tornou-se umanovas formas de opressão e exploração, alguns dos mera figura de retórica em que já nem as forçasvelhos conceitos e dicotomias de Marx – tais como políticas herdeiras da social-democracia parecemas divisões entre capital fixo e capital circulante; acreditar, sobretudo quando alcançam o poder.trabalho vivo e trabalho morto; trabalho material etrabalho imaterial; atividades produtivas e impro-dutivas – são hoje reconceitualizados à luz da nova A SOCIEDADE PORTUGUESA NO CONTEXTOdinâmica do capitalismo global. As atuais tendên- EUROPEUcias permitem mostrar como aquelas divisões fo-ram reconvertidas e se imbricam hoje dialeticamente A esse respeito convém apresentar algunsumas nas outras, contribuindo, assim, para inten- traços particulares da sociedade portuguesa. Por-sificar e expandir novas formas de “estranhamento” tugal é, como todos reconhecemos, um país peri-e “alienação” das classes trabalhadoras e dos no- férico da Europa, cujas dificuldades se devem avos segmentos precarizados. Porém o trabalho, em um tardio e incipiente desenvolvimento industri-vez de desaparecer e se diluir para dar lugar ao al, bem como a um processo de democratizaçãolazer e ao consumo, ganha nova centralidade, ao igualmente recente e repleto de contradições. Com 315
  • SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL... a instauração da democracia em 1974, consolida- que esses setores recém-urbanizados começassem ram-se as classes trabalhadoras vinculadas à a estruturar padrões de vida subjetivamente industria, além dos setores da nova classe média projetados numa imaginária “classe média”, ou, assalariada (setor administrativo, saúde, educação, em outras palavras, numa categoria supostamente poder local e funcionalismo público em geral) que “distintiva” e “superior”, por comparação com os rapidamente se expandiram – apesar de, no seu grupos de referência originários, isto é, os que re- conjunto, a classe média portuguesa ter permane- metiam para um mundo rural e pobre, que se pre- cido débil – sob o impulso de um Estado de Bem- tendia ver ultrapassado. Assim, como alguns es- Estar Social em rápido crescimento, apesar de ele tudos mostraram (Estanque, 2003; Cabral, 2003), próprio ser fraco. Aliás, convém lembrar que Por- uma parte significativa da própria classe trabalha- tugal começou a construir o seu Estado social numa dora manual, incluindo alguns dos seus segmen- altura em que já estavam a emergir os sinais de tos mais precarizados, percebia-se como perten- crise desse modelo na Europa, ou seja, tentou-se cendo à “classe média”. alcançar o comboio quando ele já chegava ao fim Ora, se o consumismo desenfreado e as ex- da viagem. pectativas de mobilidade ascendente puderam ali- Daí que as transformações sociais desenca- mentar tais ilusões durante algum tempo, com a deadas com o 25 de Abril de 1974 – e, de certo entrada no novo milênio e, sobretudo, perante o modo, consignado na constituição “socialista” de reforço da competitividade global, a contenção de 1976 –, sendo, sem dúvida, profundas em muitos custos e as pressões para a flexibilização e aspectos, nunca deixaram de evidenciar os con- privatização (mesmo nos setores onde o emprego trastes que persistiam e persistem na sociedade se mantinha relativamente seguro) deram início a portuguesa. A modernização das infraestruturas, uma profunda mudança na esfera do emprego, em especial após a adesão à União Europeia, em evidenciando, assim, uma vez mais, o caráter per- 1986, trouxe progressos inquestionáveis, mas, no sistente e estrutural das nossas debilidades. Pro- plano social, as dificuldades, injustiças e bloque- blemas supostamente resolvidos há décadas res- ios persistiram. Muito embora os trabalhadores e surgiram, tais como a pobreza, a falta de qualifica- as classes subalternas em geral tenham melhorado ção de trabalhadores e empresários, as elevadas substancialmente as suas condições de vida, em taxas de evasão escolar, o crescimento brutal das comparação com a miséria em que viviam há 30 desigualdades sociais, o aumento do desempregoCADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 ou 40 anos, o certo é que as elites – em especial as e da pobreza, as desigualdades de gênero e uma novas elites privilegiadas, ligadas à indústria e ao rápida precarização do trabalho, que atingiu em comércio – ascenderam muito rapidamente, dis- especial os setores mais jovens (incluindo os mais tanciando-se dos níveis de vida da classe média e escolarizados). dos trabalhadores manuais. A “classe média” cres- Temos, portanto, sobre os nossos ombros, ceu até finais do século, em boa medida à sombra um passado recente marcado por inúmeros con- do crescimento do Estado, como se disse, mas, ao trastes, e é neles que porventura repousam as cau- mesmo tempo, permaneceu instável e internamente sas mais decisivas do nosso atraso estrutural. A muito diferenciada. cultura tradicional do país e a escassa qualificação Pode até dizer-se que a classe média portu- dos agentes econômicos (empresários e trabalha- guesa foi mais importante pelo seu papel como dores) espelham ainda os atributos de uma socie- referência simbólica no imaginário coletivo do que dade subdesenvolvida, amarrada às mentalidades por ser um segmento social consistente e dotado atávicas e paroquiais, aqui e ali deixando ainda de índices elevados de bem-estar. Foi, sobretudo, transparecer alguns resquícios de feudalismo e de o resultado de uma rápida concentração urbana e salazarismo. Prevalecem os modelos de gestão de da facilitação do crédito, aspectos decisivos para natureza despótica, lado a lado com dependênci- 316
  • Elísio Estanqueas e tutelas de todos os tipos, que se adaptam de tória e o significado das lutas sociais dos trabalha-modo perverso à vida moderna, corroendo o fun- dores europeus ao longo dos últimos cento ecionamento das empresas e instituições e travan- cinquenta ou duzentos anos, jamais compreende-do as potencialidades de modernização econômi- remos a diferença entre o modelo social europeu eca e de aprofundamento democrático. o mercantilismo individualista dos países anglo- Mantêm-se ou intensificam-se os velhos saxônicos. Se houve efetivamente progressos fun-dualismos, tais como a divisão entre o interior e o damentais na Europa ao longo de todo esse tem-litoral ou entre o rural e o urbano, muito embora po, eles se devem essencialmente à capacidade detais divisões conservem fortes imbricações recípro- organização e de luta coletiva da classe trabalhado-cas. Essas antigas contradições continuam a per- ra e do movimento operário nos países industria-sistir, embora se adaptem aos tempos atuais. Os lizados. Esse é, de resto, um patrimônio que é rei-setores protegidos do emprego tornam-se cada vez vindicado por toda a esquerda, desde a social-de-mais raros, enquanto o emprego precário subiu mocracia até o movimento comunista.acima dos 20% (22% em 2007 para os trabalhado- Se hoje temos mecanismos de regulação dosres com menos de 35 anos) e, nas camadas mais conflitos e uma ordem jurídica que privilegia ojovens, atinge cerca do dobro desse percentual, o diálogo e a concertação entre os diferentes parcei-que, por sua vez, exprime a contradição geracional ros e classes sociais, isso se deve aos grandes sa-entre uma juventude mais qualificada, mas tam- crifícios e às lutas do movimento operário. Nessebém mais precária, e as condições de trabalho dos sentido, o direito do trabalho foi (e é) um instru-seus pais ou avós. O discurso da privatização foi, mento decisivo a serviço dos trabalhadores, desti-durante décadas, elevado ao estatuto de único le- nado a reequilibrar as relações sociais entre capitalgítimo, pois apoiado na competitividade, e, ao abri- e trabalho, que são, como se sabe, estruturalmentego desse discurso – erigido em pensamento único assimétricas. No entanto, apesar dos avanços al-por parte do poder –, desencadearam-se diversas cançados, em muitos países persistiram, ao longoreformas nos serviços públicos em diversas áreas, dos tempos, inúmeras formas de trabalho fora detais como a saúde, o funcionalismo público, a edu- qualquer proteção jurídica, e a erosão dos direitoscação e outras, justificando-se tais mudanças com sociais e econômicos dos trabalhadores suplantoubase num suposto privilégio dos trabalhadores e largamente a força da lei. Como sabemos, isso ain-funcionários da administração pública, por con- da ocorre em diversas regiões do globo. CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009traste com os do setor privado, servindo esse ar- Sendo expressão das relações políticas numagumento para uma clara estratégia de nivelamento sociedade, a ordem jurídica funcionou, ao longopor baixo. da história, como meio de legitimação de relações Porém, quer a capacidade de realizar as re- de poder fortemente desequilibradas, impondo-seformas, quer as possibilidades de lhes resistir, bem geralmente sobre uma força de trabalho submissacomo a razoabilidade com que as mesmas são con- e destituída dos direitos mais elementares, semcebidas e levadas à cabo são parte de processos mais um salário digno ou proteção social e sem acessocomplexos que só poderemos interpretar se forem aos direitos humanos mais elementares. No en-situados no devido contexto e na própria historia. tanto, a transformação histórica obteve importan-E é justamente a essa luz que as propostas legislativas tes resultados de sentido emancipatório, em parti-de alteração do sistema de relações laborais, para cular nos países mais avançados. O direito do tra-terem sucesso, deveriam começar por diagnosticar balho triunfou nos países europeus e é uma ban-a realidade que temos, não com base em juízos deira fundamental para trabalhadores dos maisideológicos, mas tendo presente o contexto onde diversos continentes, justamente porque representanos inserimos e o património sociocultural que uma poderosa arma a serviço das classes subalter-herdamos do passado. Sem considerarmos a his- nas, defendida, desde sempre, pelo movimento 317
  • SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL... sindical internacional e veiculada por organizações corroem as nossas instituições, desestimulando o internacionais como a OIT, que tem prestado um trabalhador dedicado. Em vez do mérito e da inici- inestimável papel na defesa dos direitos humanos ativa individual, prevalecem as posturas e atitu- no trabalho, em todos os continentes. É precisa- des de bajulação e resignação perante a autorida- mente à luz desse patrimônio histórico, de que a de; em vez do ambiente de exigência e de estímulo Europa é um palco privilegiado, que as mudanças à criatividade e à co-responsabilização (individual impostas pelos poderes dominantes nessa matéria e coletiva), cultiva-se o “seguidismo” e a mediocri- – no sentido de uma flexibilidade ditada pela con- dade; em vez de cidadãos livres e autônomos, pro- corrência desregrada, pelos requisitos do mercado move-se o oportunismo e a delação. Tudo isso é o global e pelas exigências do grande capital – cor- contrário de uma sociedade democrática avança- rem o risco de representar uma regressão inaceitá- da. Tudo isso se opõe aos valores do socialismo vel para os trabalhadores europeus. democrático. E a tudo isso é possível fazer frente. Portugal, com todas as suas especificidades, A questão está em saber se os governos e a classe insere-se justamente nesse quadro. E é por isso dirigente pretendem inverter esse rumo ou contri- que as alterações que o novo Código do Trabalho2 buir para que ele se torne irreversível e nos em- vem introduzir são, em variadas matérias (ou me- purre de novo para o abismo. lhor, nos seus aspectos mais decisivos), motivo Ora, perante esse panorama – e como diver- de grande apreensão para aqueles que assumem a sos estudos internacionais têm mostrado –, a ques- defesa da classe trabalhadora contra a exploração tão da estabilidade e da segurança no emprego cons- capitalista (cerca de cento e quarenta anos após a titui o principal motivo de preocupação dos traba- 1ª edição do livro 1 de O Capital) e contra outras lhadores. Encontrar um primeiro emprego é a pri- formas de opressão e de injustiça social. Acresce meira das prioridades dos estudantes do ensino que as condições de subdesenvolvimento já refe- superior (Estanque; Bebiano, 2007). ridas colocam a sociedade portuguesa – e a sua Hoje, se é “jovem” até muito além dos 30, força de trabalho assalariada – numa situação de porque muito ficam dependentes da família até especial vulnerabilidade, visto que estamos longe muito tarde, mas se é por vezes considerado “ve- de garantir plenamente os direitos de cidadania. lho” quando, trabalhadores desempregados, com Como muitos de nós temos apontado repetidamen- quarenta e poucos anos, são preteridos devido à te, existem medos incrustados nas instituições, que idade. A perda do emprego é a principal ansieda-CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 impedem o fortalecimento da esfera pública e ten- de frente à qual muitas outras exigências, mesmos dem a inibir qualquer ação reivindicativa no campo as mais evidentes, podem ser sacrificadas. Exis- profissional, onde imperam os constrangimentos e tem empresas, nos EUA e na Europa, que estabele- a mentalidade autoritária de empresários e chefias. cem um salário máximo, pedindo aos candidatos A presença de culturas autocráticas, de tutelas e a um posto de trabalho que indiquem quanto “pre- compadrios dos mais diversos tipos, onde deveri- tendem” ganhar, até esse nível máximo (por exem- am prevalecer a transparência, as estratégias de ges- plo, oito euros por hora), o que induz a um cons- tão e lideranças democráticas, são ingredientes que tante rebaixamento salarial indicado pelos preten- dentes ao emprego (os que indicam quatro euros 2 Designação atribuída ao pacote legislativo na área traba- lhista, que teve uma primeira versão em 2003, no gover- ou menos serão naturalmente os preferidos). É a no do PSD, dirigido por Durão Barroso, e que mais re- lógica da autonegação da dignidade, produzida pelo centemente foi reformulado e aprovado pela Assembleia da República, em 2008. A nova orientação, defendida espectro do desemprego e da miséria. O clima de pelo PS de José Sócrates, teve, porém, uma forte oposi- ção, sobretudo por parte dos partidos à sua esquerda (o angústia que o atual cenário de crise tem acentua- Partido Comunista e o Bloco de Esquerda) e também por parte do campo sindical (em especial a central sindical do só contribui para que tais sintomas “patológi- mais representativa e combativa, a CGTP), que mobili- cos” se tornem ainda mais dramáticos do que até zou, em 2008, várias manifestações de rua em Lisboa, algumas delas com mais de duzentos mil participantes. agora temos conhecido. 318
  • Elísio Estanque Porém, quando o trabalhador (ou o cida- postamente, se pode dialogar e os outros, ditos con-dão) é sistematicamente reprimido e impedido de servadores ou “ao serviço de...”), seremos levadosmanifestar a sua vontade ou de exigir o cumpri- a perceber o papel social e transformador domento de direitos, o que acontece é o aumento do sindicalismo (e tanto a contestação como a negocia-descontentamento e da contrariedade no trabalho ção são vias igualmente válidas no plano social) ee na sociedade. Daí resulta, então, uma de duas talvez então se possa aceitar que o sindicalismoposições: ou se acentua a resignação e o medo, ou combativo e de movimento é aquele que maior con-aumenta a crispação e o sentimento de revolta. Esse tribuição deu e pode dar ao progresso social.ambiente – agravado com as múltiplas formas de É sobretudo em períodos de crise e de difi-recomposição, desmembramento, flexibilidade, culdades para as classes trabalhadoras que ocor-deslocalização e fechamento de empresas, rem as grandes reviravoltas históricas, normalmenteprecarização do trabalho, fragmentação dos pro- acompanhadas de novos movimentos e da emer-cessos produtivos etc. – tem conduzido a classe gência de novas lideranças. Na Inglaterra do sécu-trabalhadora a uma cultura de impotência e de lo XIX e noutros contextos históricos mais recen-conformismo. Uma “classe” cada vez mais hetero- tes – de que pode ser exemplo o 25 de abril degênea e frágil, que se depara com tremendas difi- 1974 –, a mobilização popular não se deveu ape-culdades em agir coletivamente. Há muito que as nas a motivações políticas e econômicas (nem aidentidades de classe perderam fulgor em favor de causas racionais, da ordem da “consciência” ououtras identidades rivais e de outras formas de dos “interesses”), mas também, talvez, sobretudo,ação coletiva (e de inação), num processo que se a fatores culturais e identitários. A identidade pre-acentuou enormemente com o colapso do regime cede os interesses. Mas estes, quando fundadossoviético e, no caso português, após a saturação em fortes carências e necessidades básicas por sa-da linguagem marxista e “de classe” de que se usou tisfazer, podem produzir rebeliões radicais e dee abusou no período da Revolução dos Cravos massas, ainda que não sejam orientadas por ne-(1974). Perante o refluxo da ação coletiva e do dis- nhuma motivação política explícita (ou inspiradascurso ideológico, os sindicatos perderam força e numa ideologia identificável).capacidade de organização e de mobilização, nome- A classe trabalhadora deixou há muito de seradamente junto dos segmentos mais fragilizados e homogênea (porventura nunca chegou a sê-lo, a nãomais jovens da força de trabalho. Para além de um ser em contextos muito particulares), mas a difusão CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009contexto social e político pouco favorável à partici- da precarização e do trabalho sem estatuto e sem dig-pação coletiva e associativa – e sem esquecer as pró- nidade pode conduzir a novas homogeneizações, que,prias dificuldades de renovação do sindicalismo embora de base trans-classista, sejam capazes de(Estanque, 2008) –, o reforço do poder patronal e a se unificar na defesa de uma identidade agredida eretirada de condições favoráveis à ação sindical vêm ofendida nos locais de trabalho, mas também naagravar ainda mais essas tendências. comunidade de residência ou na relação com os serviços públicos. Mesmo a participação, a solida- riedade e a partilha coletiva da indignação podemSINDICALISMO E AÇÃO COLETIVA, ANTES E recuperar um certo sentido de recompensa simbó-APÓS A CRISE lica, estimulando o desejo de reconstrução comu- nitária, quer se esteja voltado para um passado Nessa discussão, torna-se incontornável nostálgico e em nome das “raízes” (por exemplo, oequacionar a questão sindical. Se nos despirmos nacionalismo ou o bairrismo), quer se projete numde juízos de valor e, sobretudo, se formos capazes futuro promissor e “emancipatório” como, porde evitar a tendência de classificar os sindicatos exemplo, o socialismo (Tilly, 1978; Morris, 1996;entres os “bons” e os “maus” (uns com quem, su- Estanque, 2000). 319
  • SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL... Tomados por muitos como fatores de blo- gor o princípio da “válvula de escape”, mas os queio ao crescimento econômico e ao desenvolvi- seus efeitos são politicamente incertos. As ondas mento, os sindicatos queixam-se, com razão, de de protesto e o discurso de indignação que as acom- que, em diversas regiões do mundo, as formas de panha, exacerbados por um poder (institucional, trabalho parecem ter regressado aos tempos “satâ- empresarial ou governamental) de viés autoritário, nicos” de Marx. Mas, apesar da mítica classe ope- podem ganhar um efeito mimético de proporções rária estar em desagregação, não surge no horizon- imprevisíveis, se para tal as condições sociais se te nenhuma outra identidade capaz de congregar a tornarem propícias. unidade dos assalariados. As atuais pressões do O atual contexto de crise, ao mesmo tempo mercado e da economia global deixam aos sindica- em que ameaça desfazer um conjunto de laços soci- tos uma margem de manobra cada vez mais estrei- ais que até aqui garantiam a coesão mínima da soci- ta, mas, por outro lado, o esforço de atualização edade, pode – precisamente porque o sistema soci- por parte das estruturas sindicais tem sido dimi- al tem horror ao vazio – galvanizar de novo as mul- nuto e insuficiente para responder aos problemas tidões que se sentem ressentidas e desprotegidas. E da atualidade. Sobra, então, espaço para novos o fato de o sindicalismo apenas timidamente se atores e movimentos. envolver nesse tipo de iniciativas, até agora, não Nas últimas décadas, enquanto a economia garante que elas continuem a ter uma expressão e os mercados deixaram de estar confinados às fron- modesta. Até porque, se o presente é fortemente teiras nacionais, o movimento sindical revelou marcado pela contingência, tanto pode acontecer enormes dificuldades em agir para além do âmbito que expressões de grupos minoritários (sejam eles nacional (e, muitas vezes, do próprio âmbito os MayDay, os FERVE ou outros3) possam repenti- setorial). A globalização revelou-se contraditória e namente se alastrar, como a própria intensificação gerou múltiplos efeitos paradoxais, nomeadamen- da pressão pode levar a que o sindicalismo radicalize te ondas sucessivas de protestos juvenis e movi- o seu discurso e consiga mobilizar a massa de pre- mentos sociais que se reclamaram de “alter- cários e desempregados que tem vindo a engrossar globalização”. Desde a cúpula da Organização e ameaça expandir-se ao longo de 2009. Mundial do Comércio (OMC) em Seattle, em 1999, Diversos autores e acadêmicos têm formu- passando pelos encontros do Fórum Social Mun- lado a necessidade de se criarem novas alianças e dial, em Porto Alegre e outras cidades, esse ativismoCADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 – largamente apoiado pelas redes virtuais do 3 MayDay: um movimento autônomo ativado por grupos de trabalhadores precários em vários países europeus, com ciberespaço – revelou novas e inovadoras formas influência da extrema-esquerda, que há cerca de três anos de denúncia e de intervenção pública, que até ago- se estendeu a Portugal e começou a organizar manifesta- ções no dia 1 de maio. Já o FERVE – Fartos d’ Estes Reci- ra têm marcado as formas de ativismo global do bos Verdes – é uma organização ou movimento que sur- giu de forma espontânea a partir de um grupo de jovens século XXI. As mais recentes ondas de contestação trabalhadores, com contratos precários, cujo estatuto de prestações e registo fiscal é feito com base nos “Recibos dos jovens (França, Grécia, Catalunha), invocam, Verdes”, ou seja, um livro de recibos fornecido pela repar- por vezes, o Maio de 68, até porque as condições tição de finanças para trabalhadores autônomos ou pro- fissionais liberais (como advogados, técnicos de contas, sociais são igualmente ativadas por condições se- canalizadores etc). O regime de recibo verde foi concebido para trabalhos pontuais, mas em Portugal, como até re- melhantes, em que os grupos e as comunidades de centemente, a legislação trabalhista era considerada mui- to rígida (na proteção ao trabalhador e, sobretudo, na pre- jovens se afirmam, mobilizando-se contra um venção da demissão ilegal) e começou a generalizar-se nas opositor, ou um “inimigo” identificado. Mas são empresas o recurso a esse tipo de prestação, desde os anos 90, como forma de contornar o direito do trabalho e faci- fenômenos muito distintos. Enquanto, naquela épo- litar as demissões. Daí surgiram os chamados “falsos reci- bos verdes”, isto é, situações em que o mesmo trabalha- ca, era a consciência política e as autoproclamadas dor permanecia com esse estatuto precário (e poupando os encargos às empresas) durante anos, contribuindo para “vanguardas” que assumiam a liderança da luta, aumentar, juntamente com os contratos a prazo, o volu- agora a ação coletiva perdeu parte do seu conteú- me de assalariados nessa situação (que se situa hoje entre 18 a 20% da força de trabalho, mas bem acima disso nas do político. Dito de outro modo, continua em vi- camadas mais jovens). 320
  • Elísio Estanquedinâmicas internacionalistas, como condição para te do sindicalismo de hoje se deixou enredar. Exi-revitalizar o sindicalismo perante o agravamento ge uma reflexão séria e uma atitude autocrítica edas desigualdades e injustiças sociais em todos os porventura mais humilde da parte das atuais lide-continentes, alegando que a mobilidade global – ranças sindicais, associativas e institucionais, emde capitais e de empresas funcionando em rede – todos os domínios da nossa vida social.exige respostas sindicais também em rede e igual- Por exemplo, a extraordinária capacidade damente articuladas na escala transnacional internet e do ciberespaço constitui um enorme(Waterman, 2002; Estanque, 2007). Ao contrário potencial ainda subaproveitado. A facilidade parade outros países e regiões, como o Brasil e a Amé- aceder à informação, para acumular e divulgar co-rica Latina, onde a cooperação entre as universi- nhecimento em frações de segundo poderia ser umadades, os acadêmicos e os centros de pesquisa, de poderosa arma a serviço do movimento sindical eum lado, e os movimentos sociais e sindicais, de da democracia em geral (Ribeiro, 2000; Waterman,outro, são uma constante, em Portugal essa tradi- 2002). O problema não reside, portanto, nação praticamente não existe. tecnologia ou na sua ausência. O problema é que os As novas redes e estruturas transnacionais atributos socioculturais que enunciei anteriormen-de organização política são cada vez mais necessári- te se refletem e se reproduzem nos mais diversosas. Não apenas na União Europeia, onde as famíli- meios e instâncias organizacionais, inibindo, assim,as políticas possuem ainda pouca eficácia e os pró- uma maior transparência na gestão das instituiçõesprias estruturas sindicais são incipientes. Para en- e travando, sem sabermos até onde, o processo defrentar os atuais desafios (que a crise apenas veio consolidação e aprofundamento democrático.acelerar), o sindicalismo de hoje terá de se reinventarou se reestruturar profundamente. Um sindicalismode movimento social global, orientado para a in- CONCLUSÃOtervenção cidadã, terá de se estender para além daesfera laboral; terá de passar das solidariedades Concluindo, a crise que nos surpreendeunacionais para as transnacionais, de dentro para no final de 2008 tem causas bem mais profundas efora, dos países avançados para os países pobres. longínquas do que pode parecer. E o modo comoPrecisamos de um sindicalismo que não abdique setores decisivos, como o do emprego, são ou nãoda defesa dos valores democráticos, mas em que capazes de responder às dificuldades e problemas CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009eles se alarguem à democracia participativa (nas do presente deriva, em boa medida, da capacidadeempresas, escolas, cidades, comunidades etc.); que que tenha de reconverter algumas das velhas pechascoloque as questões ambientais e a defesa dos con- do nosso sistema produtivo em potencialidades desumidores, dos saberes e tradições culturais lo- mudança. Mudança para um outro paradigma. Ecais no centro das suas lutas e negociações; que isso depende muito dos agentes econômicos emresista ao capitalismo destrutivo através de um posições de liderança e da capacidade do própriomaior controle sobre o processo produtivo, os in- poder político de aceitar o surgimento de novosvestimentos, a inovação tecnológica e as políticas protagonistas e de novas posturas com sentido éti-de formação e qualificação profissional; que pense co, animados pela defesa da causa pública, emos problemas laborais no quadro mais vasto da busca do bem-estar geral e da construção de vín-sociedade, da cultura ao consumo, do trabalho ao culos de solidariedade com as classes subalternas.lazer, da empresa à família, do local ao global (Es- Essa visão resulta, como indicamos no iní-tanque, 2004; Hyman, 2002). cio deste artigo, de um conjunto de atividades, de Mas tudo isso pressupõe uma estratégia pesquisa e de intervenção, que temos desenvolvi-ambiciosa que rompa com a prática de acomoda- do no CES há cerca de 20 anos. A preocupaçãoção ao funcionamento burocrático em que boa par- em levar a sociologia para fora dos muros da uni- 321
  • SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL... versidade não é nova para nós. E, no campo con- REFERÊNCIAS creto do sindicalismo e do trabalho, talvez não seja um mero acaso que as pessoas que integram a equi- ANTUNES, Ricardo (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Editora Boitempo, 2006. pe e o núcleo de pesquisa (NETSind) quase todas BECK, Ulrich. Un nuevo mundo feliz: la precaridad del elas tiveram experiências profissionais marcantes trabajo en la era de la globalización. Barcelona: Paidós, 2000. desde muito jovens e ao longo do seu percurso de BURAWOY, Michael . For public sociology. American Journal Review, v. 70, p. 4-28, february, 2005. vida. Por outro lado, participaram ou militaram ________. Open Social Sciences: to whom, for what?, em sindicatos, partidos ou movimentos sociais e Portuguese Journal of Social Science, v. 6, n. 3, 2007. associativos progressistas. CABRAL, M. Villaverde, et al (Orgs.). Desigualdades soci- ais e percepções da justiça. 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Percepções e avaliações das desi- mas também o engajamento em associações de de- gualdades e da justiça em Portugal numa perspectiva com- parada. Lisboa: ICS, 2003. fesa da cidade (no caso a PRO URBE) e a própria ________. A Reinvenção do sindicalismo e os novos de- militância partidária (no caso o Partido Socialista e safios emancipatórios: do despotismo local à mobilização global. In: SANTOS, Boaventura S. (Org.). Trabalhar o os movimentos dirigidos pelo ex-candidato presi- mundo: os caminhos do novo internacionalismo operá- dencial e poeta das canções de Coimbra, Manuel rio. Porto: Afrontamento, p. 297-334, 2004. Alegre) são todos eles domínios de intervenção ________. A questão social e a democracia no início do século XXI: participação cívica, desigualdades sociais e onde a sociologia se conjuga estreitamente com o sindicalismo, Finisterra – Revista de Reflexão Crítica, Lis- boa, v. 55/56/57, p. 77-99, 2007. ativismo social e político. ________. Sindicalismo e movimentos sociais: dilemas e Se é verdade que a ciência social deve procu- perplexidades e Entre os velhos e os novos activismos: tensões e desafios do movimento sindical. Revista JANUS rar a objetividade e ser teórica e metodologicamente – Anuário de Relações Internacionais, v. 20. Lisboa, UAL/ rigorosa – sem se deixar confundir com a ideolo- Jornal Público, p. 184-187, 2008. ________. Jovens, estudantes e ‘repúblicos’: culturas es- gia e, menos ainda, com a ortodoxia –, também éCADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 tudantis e crise do associativismo em Coimbra, Revista necessário não esquecer que, entre a realidade e a Crítica de Ciências Sociais, n. 81, p. 9-41, 2008a. imaginação sociológica, não há qualquer incompa- ________; MENDES, José Manuel. Classes e desigualda- des sociais em Portugal: um estudo comparativo. Porto: tibilidade. Antes pelo contrário: as zonas ocultas Afrontamento, 1997. da primeira só podem ser iluminadas com o auxí- ________; BEBIANO, Rui. Do activismo à indiferença: mo- vimentos estudantis em Coimbra. Lisboa: ICS, 2007. lio da segunda. E saber de que lado estamos nesse HYMAN, Richard. Europeização ou erosão das relações mundo de contrastes e de injustiças é uma opção laborais?. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 62. Coimbra: CES, p. 7-32, 2002. que não pode ser ditada por critérios científicos, MORRIS, Paul. Community beyond tradition. In: mas pelos valores e princípios éticos que guiam o HEELAS, Paul et al. (Eds.), Detraditionalization. Oxford: cientista social nas suas escolhas e na sua ação Blackwell, 223-249, 1996. (como cientista e como cidadão). RIBEIRO, Gustavo Lins. Política cibercultural: ativismo po- lítico à distância na comunidade transnacional imaginada- virtual. In: ALVEREZ, S.; DAGNINO, E.; A. Escobar (Orgs.). 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  • Elísio Estanque________. (Org.) Democratizar a democracia: os cami- ________; FILHO, Naomar de Almeida. A universidade nonhos da democracia participativa. Rio de Janeiro: Civiliza- século XXI. Para uma Universidade Nova. Coimbra: Edi-ção Brasileira, 2002. ções Almedina, 2008.________. Para uma sociologia das ausências e uma soci- ________; MENESES, Maria Paula (Orgs.). Epistemologiasologia das emergências. Revista Crítica de Ciências Soci- do Sul. Coimbra: Edições Almedina, 2009.ais, n. 62, p. 237-280, 2002a. TILLY, Charles. From mobilization to revolution. Addison/________. (Org.) Trabalhar o mundo: os caminhos do novo Mass: Wesley Publishing Company, 1978.internacionalismo operário. Porto: Afrontamento, 2005. WATERMAN, Peter . O internacionalismo sindical na era________. Fórum Social Mundial: manual de uso. Porto: de Seattle, Revista Crítica de Ciências Sociais, n, 62.Afrontamento, 2005. Coimbra; CES, p. 33-68, 2002.________. Renovar a teoria crítica e reinventar a emanci-pação social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007.________. (Org.) Democratizar a democracia: os cami-nhos da democracia participativa. Rio de Janeiro: Civiliza-ção Brasileira, 2002. CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 323
  • SOCIOLOGIA E ENGAJAMENTO EM PORTUGAL... SOCIOLOGY AND ENGAGEMENT IN THE LA SOCIOLOGIE ET L’ENGAGEMENT AU PORTUGAL: critical reflection on labour and PORTUGAL: réflexions à partir du travail et du trade unionism in a time of crisis syndicalisme Elísio Estanque Elísio Estanque This paper aims to be an example of the Ce paper (travail) essaie d’être un exemple critical-public sociology that is produced at CES de la sociologie critique publique développée par – Centre for Social Studies of the University of le Centre d’Etudes Sociales (CES) de l’Université Coimbra. Focusing one specific research area de Coimbra. Le thème que l’on aborde ici (sociology of work and trade unionism), the (sociologie du travail et du syndicalisme) assume critical perspective is assumed, both in une perspective critique autant d’un point de vue theoretical and reflective terms, as well as théorique et réflexif que d’une pratique politique political praxis of the social scientist. Considering des sciences sociales, aspects considérés comme this framework, the current crisis is taken as the les deux faces d’une même médaille. Partant de ce starting point to discuss the portuguese case on point de vue, l’actuelle conjoncture de crise est the labour issue, stressing some structural lines mise en discussion et le cas portugais est analysé of the country as a European semi-periphery and à la lumière de la question du travail. Certains traits showing that some of its current problems have structuraux du pays sont mis en évidence tel que ancient roots. celui de semi périphérie de l’Europe et montrent combien quelques problèmes actuels ont une ori- gine très ancienne. KEY-WORDS: public sociology, crisis, labour, trade MOTS-CLÉS: sociologie publique, crise, travail, unionism, Portugal. syndicalisme, Portugal.CADERNO CRH, Salvador, v. 22, n. 56, p. 311-324, Maio/Ago. 2009 Elísio Estanque - Doutor em Sociologia pelo ISCTE. Pesquisador do CES – Centro de Estudos Sociais e Professor de Sociologia na Universidade de Coimbra. Coordenador dos Programas de Pós-Graduação em Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo. Desenvolve pesquisas nas áreas de Sociologia do Trabalho, Classes e Desiguadades Sociais, Movimentos Sociais e Estudantis. Publicou, entre outros, Entre a Fábrica e a Comunidade (Porto, Afrontramento, 2000); Mudanças no Trabalho e Ação Sindical: Portugal, Brasil e o contexto transnacional. (Co-autor. São Paulo: Cortez, 2005; e Do Activismo à Indiferença: movimen- tos estudantis em Coimbra (em co-autoria com Rui Bebiano, Lisboa, Ed. ICS, 2007). 324