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Fugas ee 3.11.2012
 

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    Fugas ee 3.11.2012 Fugas ee 3.11.2012 Document Transcript

    • PerfilElísioEstanquee CoimbraChegou à cidade dos estudantes em 1985 com um diplomade Sociologia. Continua a dar aulas, a investigar, a tentar percebercomo a sociedade funciona e pensa. Vestiu a bata de operárionuma fábrica de calçado na sua tese de doutoramento.Hoje, o sociólogo e investigador anda de bicicleta no Choupal.Sara Dias Oliveira (texto) e Adriano Miranda ( fotos)Q uandoera miúdo não tinha pressa de pen-sar o que queria ser na idade adulta.Cresceu nos campos a perder de vis-ta do Alentejo, em Rio de Moinhos, quela época, o sonho de uma crian- ça não se pautava pelos mesmos re- ferenciais da actualidade.” Seriam a experiência e a socieda- de, o seu objecto de estudo, que lhe Coimbra tem chão com muitas histórias. Os movimentos estudan- tis, a organização das repúblicas, a maneira de pensar dos universitá- rios de ontem e de hoje são assuntos extenso pátio da universidade, os caloiros estão protegidos das praxes académicas. Cortamos à esquerda, descemos em direcção à Baixa, que garante estar mais animada com osAljustrel, onde nasceu em Fevereiro mostrariam o caminho a seguir e que que lhe interessam e que analisa à estudantes, passamos pelas traseirade 1952. Ia a pé para a escola primá- o levariam a Coimbra, à cidade dos luz dos mecanismos que a sociologia da Sé Velha. O Quebra-Costas é pon-ria, brincava na rua, jogava à bola, estudantes, em 1985. Continua a dar lhe dispõe sobre a mesa. Não foi por to obrigatório. Tem por ali amigos eia aos ninhos e apanhava rãs. Em aulas na Faculdade de Economia da acaso que marcou o encontro com a um bar que passa jazz. “Muito inte-duas palavras descreve: “liberdade Universidade de Coimbra. Ensina, in- Fugas na Porta Férrea da Universida- ressante, tem uma atmosfera muitoabsoluta”. A casa onde morava tinha vestiga, escreve e comenta a actuali- de de Coimbra, como se ali estivesse agradável.” O passeio que se tornouquintal, galinhas, coelhos, pombos dade. Com o passar dos anos, não per- condensada toda a importância que obrigatório para turistas é, na suae, por vezes, aves selvagens que ali deu o “travo” alentejano na maneira a vida académica representa. Expli- visão cirúrgica, muito mais do quepunham as patas sem medo. “Na- como pronuncia algumas palavras. ca que ali, naquela entrada para o isso. É a ligação entre o mundo12 | FUGAS | Público | Sábado 3 Novembro 2012
    • FUGAS | Público | Sábado 3 Novembro 2012 | 13
    • Perfilacadémico e a zona comercial da ci- sinais de uma onda cultural euro-dade. A passagem de um lado, onde peia estavam a chegar a Lisboa”,se aprende a pensar, para o outro, lembra. Os anos de Abril tambémonde se aprende a viver. não se esquecem. Portugal, nessa altura, era uma referência interna-No meio do vulcão cional. Havia quem viesse de foraA sua Coimbra tem passeios pela para ver o que se estava a passar,Baixa da cidade, circuitos de bicicle- estudar uma transição que andavata no Choupal, tranquilidade, teatro, nas ruas. “Portugal estava a mostrarcinema, actividades culturais, o café à Europa um novo modelo social,Santa Cruz, leitura dos jornais em político, cultural.” Elísio Estanque,papel, jantares de curso, conversas então militante da UDP, recebeucom professores, universidade — um casal francês e levou-o a umaaquela universidade que “investe das reuniões. Não correu bem. Des-em ensinar a pensar”. Coimbra confiaram que os franceses tinhamtambém é sua. “Coimbra não é uma sido enviados pela CIA. Este detalheprovíncia, está mais perto de Lon- obrigou-o a redefinir conceitos. “Odres do que muitas outras cidades”, clima de suspeição pode resultarrefere, recusando visões afuniladas. num clima opressivo.” ComeçouE troca as voltas à frase feita. “Coim- então a distanciar-se de um certobra também tem encanto na hora de dogmatismo marxista e leninista.chegada.” Sempre foi assim. “Percebi que o discurso era uma Deixou o Alentejo no início da coisa e a prática era outra.”adolescência. Aos 13 anos, partiu Os anos passaram e hoje ainda dizpara o Algarve, frequentou o Liceu aos seus alunos que as experiênciasNacional de Faro. Aos 16, chegava a intensamente vividas antes e depoisLisboa para trabalhar e estudar. A do 25 de Abril foram determinan-família acreditava que ali poderia tes para a escolha do seu caminhoestar um futuro melhor para quem profissional. Decidiu que queria es-tinha o mundo pela frente. Entrou tudar Sociologia, numa altura emnuma empresa da área de electrici- que a disciplina ainda era poucodade como paquete. Era o moço de conhecida no país. Queria perceberrecados, distribuía a correspondên- como a sociedade se organizava, ocia. Deixou crescer o cabelo, vestia seu funcionamento, ver de outroscalças à boca-de-sino, tornou-se ângulos maneiras de pensar e deactivista sindical e pertenceu a vá- agir. Tornar objectiva a subjectivi-rios movimentos sociais no período dade. “Primeiro, temos de ganharquente da revolução de Abril. “Não objectividade e consciência do quetinha nenhuma actividade política são os problemas da sociedade. Aorganizada antes do 25 de Abril”, re- sociedade não é uma coisa que pairacorda. Mas era impossível passar ao no ar. Nós estamos na sociedade e alado de tudo o que acontecia. E era sociedade está em nós.”muita coisa. “Estávamos lá, no meio Entrou no ISCTE em 1981. Traba-do vulcão.” Interessavam-lhe os va- lhava e estudava ao mesmo tempo.lores da solidariedade e da partilha. “Desde sempre, tive uma enorme“Percebíamos que havia um regime curiosidade em perceber o funciona-violento, um aparelho repressivo, mento da sociedade e o comporta-pronto a cair em cima de alguém mento das pessoas.” Encontrou umaque estivesse contra o sistema”, re- área com as ferramentas adequadascorda. O irreverente Elísio Estanque para uma investigação sustentada.tinha um pensamento rebelde, pres- Por aí ficou até hoje.sentia que algo iria mudar no país. E As notas da faculdade espelha-mudou. “Acreditávamos que íamos vam o seu interesse, a curiosidade,mudar a sociedade e construir o pa- o apetite por espreitar por dentroraíso.” Os sonhos eram esses, mas a forma como as classes sociais sea realidade tinha demasiados grãos movimentavam e os modelos se en-de areia na engrenagem. quadravam. “Na parte final do cur- Há momentos marcantes na vida so, percebi que tinha outras opor-de um sociólogo mesmo antes de tunidades.” Percebeu que poderiao ser. Quando chegou a Lisboa, os mudar de vida, tentar singrar nesseecos dos anos 1960 estavam a chegar percurso e abandonar os empregosà capital portuguesa. “A cultura, a como administrativo em empresasmúsica, a irreverência juvenil. Os do sector da electricidade. As can-14 | FUGAS | Público | Sábado 3 Novembro 2012
    • “Coimbra não é uma província, está mais perto de Londres do que muitas outras cidades”didaturas para dar aulas na univer- deixado a capital. “Foi uma possibi- operário e esteve três meses numa Muito Bom com distinção e louvor. não está a dar resultado. Prevê quesidade abriram em Coimbra e essa lidade que surgiu”. Coimbra é hoje linha de produção. Falou com os Acabaria por publicar o livro Entre o actual Governo não tenha muitoera a oportunidade. a sua casa, embora ainda mantenha funcionários para analisar os seus a Fábrica e a Comunidade, que relata tempo de vida, defende que se en- Elísio Estanque não se importava um apartamento em Lisboa. A filha, problemas, ansiedades, preocu- essa experiência. O pormenorizado contrem soluções mais ponderadasde voltar a fazer as malas. Em 1985, bióloga, é o pretexto para voltar ao pações. O método que utilizou, de diário de campo que fez na ocasião para que não haja um ruptura social.deixou Lisboa e chegou à cidade dos Alentejo, não o da sua infância, mas vestir a pele dos trabalhadores que tem matéria para pelo menos mais A obsessão pela austeridade, a lógi-estudantes para dar aulas de Socio- a Castro Verde. queria estudar, foi considerado uma publicação. ca hiper-liberal, os dirigentes comlogia na universidade. “Coimbra inovador e um exemplo na altura. Elísio Estanque comenta a actuali- pouca consciência social, poderãotinha, como ainda tem, uma certa Fé no país e na juventude Tornou-se uma referência. dade na televisão, nos jornais, na rá- arruinar a coesão social de um país.aura”, garante. Entrou no CES – Cen- Continua a tentar viver a vida dos O que mais o surpreendeu duran- dio. Sem intervenção política activa, Mesmo assim, o investigador acre-tro de Estudos Sociais. Contribuiu outros porque a sociologia também te esse trabalho de doutoramento diz que se situa entre o PS de esquer- dita no país e na juventude que estápara a sua dinâmica e orgulha-se é isso. “Perceber o mundo dos ou- foi, no fundo, uma confirmação. da e o BE de esquerda, é crítico dos a sair das universidades. Prometedesse centro de referência interna- tros e até certo ponto vivenciá-los.” “Como as clivagens, como essas abusos de poder, rejeita seguidismos continuar irreverente e a pensar acional que, neste momento, tem 120 Perceber a diferença para ganhar a oposições entre as principais classes e alinhamentos cegos. Defende a in- sociedade. Este ano, publicou o livroinvestigadores. objectividade para entender como sociais, são uma realidade objectiva tervenção na vida pública. “Há uma A Classe Média: Ascensão e Declínio. “Dar aulas é uma parte ínfima as sociedades mudam. Foi isso que que transcende a própria consciên- situação que é difícil para todos, há Em Janeiro, parte para o Brasil, par-comparada com as restantes res- fez em meados dos anos 1990, quan- cia das pessoas.” Estudou o calçado, uma política que está a empurrar- ceiro a vários níveis da Universidadeponsabilidades e obrigações que do quis perceber como funcionava o a vida dos trabalhadores e os seus nos para trás e para o fundo.” Na de Coimbra, onde pretende inves-temos, nomeadamente na investi- mundo do calçado. Partiu para São problemas. A sua tese foi avaliada sua opinião, a receita da austeri- tigar as diferenças entre as classesgação.” Nunca se arrependeu de ter João da Madeira, vestiu a bata de por Boaventura Sousa Santos. Teve dade cozinhada por Angela Merkel médias dos dois países. FUGAS | Público | Sábado 3 Novembro 2012 | 15