Fae curitiba ee_cultura de empresa-signed
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

Fae curitiba ee_cultura de empresa-signed

on

  • 459 views

 

Statistics

Views

Total Views
459
Views on SlideShare
459
Embed Views
0

Actions

Likes
0
Downloads
9
Comments
0

0 Embeds 0

No embeds

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

    Fae curitiba ee_cultura de empresa-signed Fae curitiba ee_cultura de empresa-signed Document Transcript

    • ElisioGEstanque Texto em publicação no Brasil, Revista FAE – Centro Universitário, Faculdade Católica de Administração e Economia, Curitiba, 2012. Transformação social, democracia e cultura de empresa – o caso português no contexto de crise europeia Elísio Estanque Centro de Estudos Sociais Faculdade de Economia da Universidade de CoimbraSumário:A temática da cultura de empresa na sociedade portuguesa serve de ponto de partida, no presente texto,para uma reflexão mais alargada sobre a sociedade portuguesa e as tendências de transformaçãosocioecónomicas na Europa ao longo das últimas décadas. Uma das linhas de preocupação prende-secom a necessidade de conjugar a coesão da sociedade, a mudança e a inovação tecnológica. Por outrolado, as condições de trabalho e os mecanismos de diálogo são discutidos em articulação com adimensão conflitual inerente à estrutura do capitalismo moderno. Assim, o conflito, a negociação e ainovação constituem ingredientes que terão de se conjugar no quadro de um projeto modernização quevise o equilíbrio e o bem-estar geral. O caso da empresa “Autoeuropa” (do grupo Volkswagen), éabordado à luz do paradigma “político-cultural”, apresentando-o como um exemplo que tem conseguidoconciliar o estímulo à produtividade com a defesa dos valores democráticos e dos mecanismos dediálogo.Palavras-chave: Cultura de empresa, crise, Autoeuropa, trabalho, negociação, democracia O presente texto procura contribuir para uma reflexão ampla em torno do diálogo,da mudança e da coesão social nas sociedades abertas. Partindo de uma discussãosobre o sentido das transformações recentes do capitalismo no plano global, com umenfoque especial no campo laboral, a nossa abordagem centra-se na mudançaorganizacional e nas realidade empresarial para, nos tópicos finais tratar o caso daempresa Autoeuropa (do grupo Volkswagen), sediada em Palmela (a sul de Lisboa).Muito embora qualquer destes temas seja familiar aos cientistas sociais, eles surgemde um modo geral encaixados em especialidades distintas. Tal situação, resultado daafirmação das disciplinas do conhecimento em territórios fechados, é limitativa, nosentido em que torna mais difícil empreender uma reflexão interdisciplinar e sistemáticasobre “o social”, a importância do “contrato”, do conflito e do diálogo na construção deum sistema que busca conciliar a dinâmica com a coesão. O objetivo aqui em causavisa justamente responder a essa limitação, ao mesmo tempo que procura analisar, 1
    • sob diversos ângulos, aspetos relevantes da sociedade portuguesa no contextoeuropeu marcado pelo recente contexto de crise e de austeridade. Capitalismo global, fragmentação e precariedade do trabalho Para uma compreensão aprofundada do capitalismo global do século 21 éimportante situar o tema numa perspetiva histórica mais ampla e, ao mesmo tempo, noquadro do sistema-mundo que lhe confere os seus principais traços estruturais(WALLERSTEIN, 2004). Numa primeira fase, importa referir a emergência de umregime despótico de mercado, (BURAWOY, 1985) que vingou no período de“capitalismo selvagem”, suscitando respostas e movimentos sociais anti-sistémicos(WALLERSTEIN e BALIBAR, 1991) com destaque para o movimento operário e paraas convulsões e movimentos republicanos, anarquistas e socialistas que assumiramuma força decisiva na viragem do século 19 para o século 20. Entretanto, aconsolidação de novas técnicas e racionalidades burocráticas aplicadas à economia,conduziram ao aperfeiçoamento de um regime disciplinar na produção, caracterizadopela rápida acumulação e crescimento (modelo taylorista), o que, apesar disso, nãoevitou a grande instabilidade social e política – nomeadamente algumas guerras erevoluções desde a I Guerra Mundial à revolução bolchevique e, três décadas depois, a2ª guerra mundial – na primeira metade do século XX. Só posteriormente, já depois dasegunda guerra mundial, se afirmou um regime hegemónico, coincidente com oadvento do welfare state, no qual a integração e o consentimento foram objeto de umanegociação e compromissos sociais realizados à sombra do fordismo e das políticassociais promovidas pelo Estado. Finalmente, desde a década oitenta, assistimos a umanova viragem, de sentido liberal mas agora na escala global, o que leva a que se faleda emergência de uma nova forma de despotismo, o despotismo global ou despotismohegemónico, coincidente com as últimas décadas de hegemonia neoliberal, em que aregulação se realizou através das múltiplas conexões transnacionais dinamizadas pelaglobalização e pelo capitalismo financeiro, apoiados nas redes informáticas e nasnovas tecnologias da comunicação (BURAWOY 1985 e 2001; CASTELLS, 1999). Pode, pois, afirmar-se que nos últimos dois séculos se assistiu a uma disputaentre modalidades ou regimes de regulação económica. No fundo, a secularização dasociedade ao dessacralizar o poder instituiu novas formas de conflitualidade em que as 2
    • tensões, lutas e alianças operaram sobre os despojos da velha sociedade pré-industrialimpondo uma profunda mudança ao longo dos tempos. Na linha de autores comoBoaventura de Sousa SANTOS (1994) e Karl POLANYI (1980), faz sentido afirmar quea regulação dependeu sempre do modo como se conjugaram os princípios dacomunidade, do mercado e do Estado1, bem como da forma como tais tensões seinscreveram na geometria do território e na organização das sociedades. A dinâmica eos arranjos entre aqueles princípios dependeram sempre da correlação de forças e dacapacidade estratégica dos sectores e grupos sociais em causa na disputa pelahegemonia numa sociedade nacional particular. É claro que ao situar a questão noplano mais geral não nos deve fazer esquecer que, no quotidiano da atividadeprodutiva, os mecanismos negociais e de diálogo se regem por códigos e condutasmuito particulares, que se prendem – como adiante se verá – com os valores e acultura de cada empresa ou organização em concreto. Até finais do século 19, no Ocidente, foi o princípio de mercado que se sobrepôsao Estado e à comunidade, mas o mesmo induziu – principalmente devido ao papel daluta de classes – um esforço de reconstrução do princípio da comunidade, que seprocurou estender à escala nacional. O movimento operário e as ideologias maisradicais que o contaminaram (em especial o anarquismo e o marxismo) foramportadores de uma linguagem e de um projeto político que, de certo modo,transportaram um reforço da comunidade ou, dito de outra maneira, projetaram umdiscurso classista e “comunitarista” que, também ele, se inscrevia numa base nacional.Ainda que em parte ficcionada, a ideia de Nação enquanto comunidade imaginada(ANDERSEN, 1991), por um lado, resistiu ao princípio do mercado e, por outro lado, foidecisiva para a emergência do Estado social. Tal processo acabou por conduzir àprimazia do princípio do Estado sobre os princípios do mercado e da comunidade,participando este na edificação do modelo hegemónico, em especial após o triunfo econsolidação do Estado-providência. Mas, como é sabido, a partir da década desetenta foi de novo o mercantilismo que se reergueu e, desde então, é novamente o1 Boaventura de Sousa Santos refere-se a estes três princípios na sua articulação com os pilares daregulação e da emancipação (SANTOS, 1994). 3
    • papel do Estado e os seus programas sociais, assistenciais e solidários que recuam emtoda a linha. É o que tem vindo a ocorrer na Europa, com as políticas sociais e o Estado social(no seu conceito mais universalista) a cederem o passo cada vez mais à economia demercado, sob a batuta da globalização neoliberal e do capitalismo financeiro. Osmercados, e os poderosíssimos interesses que neles se escudam, cresceram de umaforma avassaladora, obrigando ao recuo do Estado e das políticas sociais. SegundoPolanyi, o trabalho, a terra e o dinheiro, sendo parte do sistema económico, sãoorganizados através do mercado, mas não são mercadorias dado que nenhum deles foicriado para venda pelo que “a descrição do trabalho, da terra e do dinheiro comomercadorias é inteiramente fictícia” (POLANYI, 1980: 85). Sendo uma tendência antiga,que este autor remete aos finais do século XVIII, não há duvidas que orecrudescimento do princípio do mercado como ideologia dominante suscitou algumparalelismo com o que aconteceu na Europa desde há duzentos anos, levando aeconomia de mercado a ganhar ascendente sobre as atividades produtivas de basecomunitária e solidarista (LAVILLE e ROUSTANG, 1999). Até certo ponto, a sociedadeno seu conjunto regressa à situação que já experimentara no século 19, isto é, a umasujeição generalizada às leis do mercado. Os avanços do século 20 recuperaram aforma do contrato social, mas nas últimas décadas assistimos de novo ao reforço dosmercados. De novo, as transações monetárias e a especulação bolsista estão asubmeter a produção e a distribuição aos objetivos de rápida acumulação lucrativa,perdendo-se a tradicional função social das relações de troca e de reciprocidade. O campo laboral foi sem dúvida aquele em que os impactos desestruturadores daglobalização neoliberal têm sido mais problemáticos. As consequências dissomostraram-se devastadoras para milhões de trabalhadores de diversos continentes. Ea Europa é o continente onde as alterações em curso representam o mais flagranteretrocesso perante conquistas alcançadas, desde o século 19. Com efeito, os impactosda globalização têm vindo a induzir novas formas de trabalho cada vez maisdesreguladas, num quadro social marcado pela flexibilidade, subcontratação,desemprego, individualização e precariedade da força de trabalho. Assistiu-se a umaprogressiva redução de direitos laborais e sociais, e ao aumento da insegurança e do 4
    • risco, num processo que se vem revelando devastador para a classe trabalhadora e osindicalismo desde os finais do século 20 (ANTUNES, 2006; BECK, 2000; CASTEL,1998, CASTELLS, 1999). As tendências de restruturação produtiva, de recomposição das relações detrabalho e o metabolismo que vêm ocorrendo nas nossas sociedades, bem como osseus ciclos e oscilações entre crises e dumping social, por um lado, e euforiaconsumista e crescimento, por outro, podem ser entendidos como situações inerentesà própria estrutura do capitalismo moderno. Como assinalou Ricardo Antunes, “houveuma diminuição da classe operária industrial tradicional, mas, paralelamente, efetivou-se uma significativa subproletarização do trabalho, decorrência das formas diversas detrabalho parcial, precário, informal, subcontratado, etc. Verificou-se, portanto, umasignificativa heterogeneização, complexificação e fragmentação do trabalho”(ANTUNES, 1999: 209). Mudança organizacional e inovação tecnológica Durante décadas, as teorias organizacionais privilegiaram a análise micro e,voluntariamente ou não, seguiram uma concepção funcionalista que tendia a olhar avida da organização ou como mero resultado de impactos exteriores, ou como sistemasdotados de coerência própria mas desligados do mundo social mais vasto. Porém, talperspetiva é contrária a uma visão mais sociológica e culturalista do papel dasorganizações e das empresas no sentido de considerá-las não apenas como entidadesde produção de bens e serviços mas sim enquanto sistemas sociais dotados depotencial criativo, tanto no plano económico como no plano sociocultural e identitário(SAINSAULIEU, 1997). No caso português, como sabemos, tudo aconteceu mais tarde e de modo maisinconsistente, quer na vida social em geral quer no campo das organizações e dasempresas. Como já foi referido, o processo de industrialização tardia e a igualmentetardia viragem democrática, no 25 de abril de 1974, deram lugar a um clima de fortesmovimentos sociais, atividade sindical e lutas reivindicativas cujo impacto no quadrolegal português foi de extrema importância, desde logo na Constituição de 1976,suportada por uma ideologia pró-socialista. Apesar dos ajustamentos que mais tardeforam esvaziando essa carga ideológica, as leis trabalhistas em Portugal foram até 5
    • recentemente muito favoráveis aos interesses do trabalhador (apesar de, muitas vezes,elas serem subvertidas na prática diária da vida das empresas). Seja como for, ostraços de fordismo que o sistema de emprego veio a revelar obedeceram largamente aessa influência, o que favoreceu a resistência ao toyotismo e ajudou ao adiamento darestruturação produtiva, da terceirização e da fragmentação das formas e dosprocessos de trabalho. Muito embora com contornos diferentes, num quadro distinto e temporalmentedesfasado das tendências da Europa desenvolvida, os mesmos processos que atrásforam referidos tiveram igualmente lugar no contexto português. A estabilidade, asegurança no emprego, as oportunidades de carreira, etc., em suma, a afirmação deum “contrato social” em que as condições de trabalho e o direito laboral foram apoiadospor políticas assistenciais suportadas por um diálogo social tripartit, permitiram aconstrução de um “compromisso de classe” de que beneficiaram os trabalhadores e assuas estruturas sindicais. O sindicalismo cresceu extraordinariamente desde então,mas, ao mesmo tempo que se expandia no sector dos serviços, desligava-se das suasvelhas bases operárias. Bases essas que, de resto – e em parte por pausa disso –entraram em declínio, fragmentaram-se cada vez mais e perderam capacidadeorganizativa e significado político2. Ao longo da última década do século 20, com a globalização e o pós-fordismo jáem marcha, muitas organizações conseguiram conjugar o “exugamento” e a opção pormedidas de poupança nos custos de pessoal com o estímulo à criação de culturas deempresa mais flexíveis e informais, inspiradas no exemplo japonês promovendo umnovo sentido ético, de respeito pelo trabalho, criando novos valores, rituais, símbolos e“heróis”, tendentes a reforçar os níveis de identificação com o “espírito da casa” e,desse modo, aumentar a produtividade e a competitividade internacional. É claro que aestratégia sistémica obedeceu sempre à procura de acumulação. Porém, pode dizer-seque o modelo toyotista contém duas facetas distintas: de um lado a busca da “produçãoenxuta”, o outsourcing e a fragmentação da força de trabalho; do outro, um maior2 Em particular após 1989, com queda do muro de Berlim e a implosão do regime soviético, que haviaservido de referente aos partidos e movimentos operários. 6
    • sentido de diálogo e em especial a criação de um espírito de equipe com algumaautonomia e liberdade para o trabalhador. Por outras palavras, os modelos “puros” nãoexistem na prática. Isto é, na realidade, o que se verifica é a conjugação de lógicasdistintas, nomeadamente, em alguns países o advento do toyotismo apoiou-se eincorporou traços de fordismo, combinando flexibilidade com a defesa de direitos dotrabalho e a construção de consensos internos. Em todo o caso, sabe-se que estemodelo teve maior impacto no contexto dos EUA, enquanto na Europa, perante a maiorinfluência das estruturas sindicais e a presença de barreiras de classe mais efetivas eculturas de resistência mais estruturadas, conduziu a resultados diferentes. Os impactos do desenvolvimento tecnológico no tecido produtivo português têmvindo a defrontar-se, nas últimas três décadas, com as resistências de umamentalidade empresarial conservadora, onde se reflete a força das diferenças deestatuto e das hierarquias de poder, aspectos ainda particularmente vincados na nossasociedade. As mudanças que, num período mais recente, têm vindo a ser operadassão ainda dificilmente percetíveis de forma generalizada nas grandes organizações.Nas empresas de maiores dimensões, as políticas de gestão flexível, de um modogeral, apenas têm tradução ao nível dos quadros superiores e das estruturas de topo.No entanto, é preciso dar a devida importância a aspectos como a absorção pelomercado de emprego de novas competências em educação (FIGUEIREDO, 1999: 73).Os resultados da crescente flexibilização e recomposição do tecido produtivo têm-setraduzido em novas segmentações onde se desenham claras diferenças na geometriaempresarial, mas onde pontifica ainda uma grande dificuldade de renovação. Por vezes, a familiarização com as novas tecnologias alimenta a insegurança ecava novas divisões entre a força de trabalho, como acontece com os programas deformação profissional em áreas sujeitas à informatização, onde os sector menosescolarizados e as camadas etárias menos jovens apresentam grandes dificuldades.Até há dez anos atrás, a maior capacidade competitiva foi protagonizada pelossectores tradicionais (têxtil, vestuário e calçado), que mantêm em vigor modelos deorganização de cariz taylorista largamente suportados pelo trabalho intensivo e pelosbaixos custos salariais, e é nessa base que asseguram um volume significativo deexportações. Embora o emprego tenha crescido significativamente nessas indústrias 7
    • até finais do século passado, o esforço competitivo em termos tecnológicos foi diminutoe a inovação introduzida foi sobretudo de natureza incremental. Acresce que, nosúltimos dez anos, a concorrência dos países do Sul, em especial os asiáticos,estimulou drasticamente a deslocalização das unidades produtivas, o que significouuma sucessão de falências (muitas delas fraudulentas e evitáveis) e encerramentos,fazendo assim aumentar o desemprego de forma galopante (que é hoje de cerca de13% em Portugal, e com expectativas de subida nos próximos dois anos). O tecido industrial português encontra-se bastante disseminado em ambientesainda marcados pelo universo rural, onde múltiplas actividades económicas paralelas –e redes informais de solidariedade, da chamada “sociedade providência”, em que asfamílias e as suas economias de subsistência respondem às necessidades sociais queo Estado não é capaz de regular – funcionam como complemento dos rendimentossalariais dos trabalhadores. Por outro lado, o rápido crescimento da administraçãopública, acompanhando os fortes investimentos em educação, saúde, previdênciasocial e infraestruturas, que teve lugar nos anos 80 do século passado, contribuíramdecisivamente para a criação de um quadro legal bastante proteccionista dos direitoslaborais, que permitiu erguer um mercado de trabalho de tipo fordista, caracterizadopela estabilidade no emprego, planeamento das carreiras, progressão salarial, etc.Muito embora tal modelo nunca tenha conseguido consolidar-se no nosso país – aocontrário de outros países europeus como a França, a Alemanha ou os países nórdicos–, ele ganhou expressão em alguns setores industriais como a metalomecânica, aindustria automóvel e nas maiores empresas da industria tradicional (têxtil, vestuário ecalçado, por exemplo), mas foi acima de tudo no sector da administração pública que ofordismo mais se expandiu, dando lugar ao desenvolvimento de culturas burocráticas ede cariz corporativo que resistiram, enquanto puderam, ao esforço de inovação emodernização. Foi justamente a situação no setor público que, com a entrada no século 21 eperante os primeiros pronúncios da crise – nomeadamente devido à abertura dasfronteiras aos produtos asiáticos e à intensificação da concorrência –, serviu depretexto ao surgimento de um discurso político (pretensamente “pragmático”) destinadoa criar uma divisão entre os setores menos protegidos da força de trabalho (da 8
    • indústria privada) e os supostos “privilégios” dos trabalhadores da administraçãopública. Deste modo se punha em marcha a primeira tentativa de “nivelamento porbaixo”, visando uma reestruturação desqualificante do funcionalismo público, impondo-lhe condições de trabalho marcadas pela flexibilidade, mobilidade, aposentadoriascompulsivas, maior facilidade de despedimento, estimulando a terceirização, oscontratos de trabalho a termo certo, etc., numa palavra: promovendo a precarização dotrabalhador também entre os servidores públicos, à semelhança do que já acontecia nosetor privado. Como sabemos, esta recomposição das condições de trabalho tem na sua géneseum programa político mais geral, gizado à sombra do modelo neoliberal, cujo desígnioprincipal tem sido não apenas a liofilização e enxugamento das empresas do setorprivado, mas também o desmantelamento do Estado social. Mas, tal processo, apesarde reforçar substancialmente a margem de manobra dos empresários e gestoresperante os trabalhadores e os sindicatos, não se traduziu, até agora, em estratégiassustentáveis de modernização empresarial e inovação tecnológica. A suposta “rigidez”do direito do trabalho (considerado demasiado protecionista) serviu apenas deargumento para facilitar despedimentos e obrigar os trabalhadores a sujeitarem-se semresistência aos interesses de um patronato egoísta e conservador, impondo horáriosflexíveis, o chamado “banco de horas”, a “polivalência” e o “ajustamento” salarial (emais recentemente a extensão do horário de trabalho de 40h para 42h:30m porsemana). Estas tendências não só significam a desvalorização do trabalho e do saláriomas, na prática, traduzem-se no desrespeito generalizado pelos direitos do trabalhador,pela sua dignidade e pelos valores humanos, empurrando a Europa para umaregressão para os mesmos níveis da “barbárie” que se viveu no século 19 (ou talvezpior). O contrato social está sendo unilateralmente rasgado pelo poder do capitalismofinanceiro, da tecnocracia e do neoliberalismo, poderes que o eixo Paris-Berlim vemcorporizando coma anuência da generalidade dos países da UE3.3 Na verdade, o curso dos acontecimentos desde a “crise grega”, no início de 2010, vem-se agravandodia após dia, tornando as expectativas cada vez mais sombrias quanto a uma solução para o problemadas dívidas soberanas e da instabilidade financeira nos países da União Europeia, sendo cada vez maisas vozes que admitem o iminente colapso da moeda única. Só muito tardiamente os países mais ricos,em especial a Alemanha, admitiram que a crise não é apenas de alguns países periféricos (até há poucoconsiderados “ingovernáveis”, como a Grécia e Portugal) mas sim uma crise estrutural da UE. A crise 9
    • Ora, é neste quadro que teremos de situar a questão da cultura de empresa, umassunto que é tanto mais importante quanto ele reflete ao mesmo tempo as dinâmicase os bloqueios do processo produtivo – as tão exaltadas “produtividade” e“competitividade” das empresas – e os fatores estruturais inerentes à sociedade e àsestruturas sociopolíticas do país. Vale a pena por isso dar atenção á cultura,considerando, por um lado, a natureza polissémica da própria noção e, por outro, asdistintas conceções sobre a “cultura de empresa”. Paradigmas da cultura de empresa A empresa, tal como o próprio trabalho, sempre foram ao longo da história temascontroversos, marcados por intensos conflitos, mas também por identidades e culturasde grupo, coesas e fortes. Têm sido considerados tanto espaços de opressão eexploração como campos de oportunidade, de emancipação e reconhecimento socialpara milhões de trabalhadores. Por fim, o facto de termos em Portugal um tecidoempresarial essencialmente composto por pequenas e micro-empresas, ondepontificam as lideranças e os dirigentes com baixas qualificações, é um motivoacrescido para que diversas correntes de opinião no campo académico e na esferapública em geral, inclusive os sindicatos, dediquem pouca atenção à importância da“cultura” organizacional e sua implicação nas boas práticas empresariais. Todavia, aquestão é complexa e não está – como, aliás, nunca nada está – despida deagravou-se sobretudo a partir da criação do Euro como unidade monetária comum – uma moeda forte,na sua origem equiparada ao marco alemão – que favoreceu as economias mais fortes em tecnologia ecapital intensivo (que exportam sobretudo bens de consumo duradouro, como carros, equipamentoseletrónicos, maquinaria pesada e sofisticada, etc.), mas prejudicou as economias mais frágeis, que, sempoderem mais desvalorizar as suas moedas, perderam competitividade com a abertura das fronteirasaos produtos do sudeste asiático, levando ao encerramento de muitas empresas industriais e aoaumento descontrolado do consumo e do endividamento das famílias, dos bancos nacionais e dosEstados (em benefício do capitalismo especulativo e dos bancos privados mais ricos, sobretudo daFrança e da Alemanha). Na verdade, apesar de haver soluções tecnicamente viáveis para a crise, assucessivas cimeiras e reuniões do conselho europeu têm-se revelado uma sucessão de fracassos,porque o diretório franco-alemão é quem realmente manda, desprezando os acordos, os princípios e aspróprias instituições democráticas da comunidade. E porque os poderes instalados se mostramincapazes de liderar uma viragem promissora para a Europa, porque estão a ser esquecidos os velhosvalores do iluminismo, a herança social-democrata e os princípios inspiradores do projeto europeu nasua origem (sob influência de Jean Monnet e do Tratado de Roma, que criou a Comunidade EconómicaEuropeia, em 1958), quer a moeda única quer a União Europeia ela própria podem estar em vias deextinção. 10
    • significado e implicações politicas. Há, pois, visões distintas acerca desta questão.Destaco aqui dois paradigmas opostos e suas implicações sociopolíticas. A noção de “cultura de empresa” foi muito discutida no ocidente na sequência deuma conjugação entre a linguagem gestionária e a sensibilidade antropológica,nomeadamente porque algumas empresas multinacionais apostaram na importância da“cultura” e da “identidade” para encontrarem novos motivos de estímulo e de satisfaçãoda força de trabalho. A empresa começou a ser olhada não apenas como um espaçorecetor das culturas envolventes mas também como um locus de produção de culturacom impacto mais vasto. O conceito de cultura como “programa mental” aplicado aomundo empresarial surgiu na sequência de um estudo comparativo sobre a IBM, queprocurava mostrar a importância da adaptação da estratégia empresarial ao ambientecultural de cada país ou região, na base de valores como o individualismo, amasculinidade, a distância ao poder e o individualismo (HOFSTEDE, 1980). Num quadro de euforia perante o sucesso económico japonês, nos anos 80 doséculo passado, ganhou terreno a promoção de um modelo de organização produtivamais flexível, que ficou conhecido por toyotismo, num momento de viragemparadigmática, como atrás foi referido, ou seja, com o modelo de produção flexível (ouprodução enxuta) que se expandiu com o fim (ou declínio) do fordismo (ANTUNES,2006; ALVES, 2011). O termo “cultura” foi então assimilado pelo mundo da gestão numsentido antropológico: a cultura como conjunto de crenças, valores, símbolos, rituais epráticas, que fornece aos grupos/ comunidades sociais o cimento para a sua identidadecoletiva (SAINSAULIEU, 1997). Cada organização ou grupo humano dotado deestabilidade torna-se uma realidade única, funcionando – muito para além das suasregras e hierarquias formais – na base de códigos, comportamentos e gestos cujosimbolismo adquire um sentido particular dentro do seu próprio contexto. Do mesmomodo que as sociedades tradicionais, as minorias étnicas, os grupos excluídos (no seiode uma sociedade mais vasta), e as velhas aldeias rurais, também as empresas (talcomo as organizações, associações, sindicatos, grupos desportivos, etc.) criam econsolidam as suas “teias de significado” (Clifford Geertz), ou seja, a sua cultura comobase de uma coesão e sentido colectivo. Se não a possuem, lutam por construí-la. 11
    • Porque isso lhes traz a solidez necessária para conjugar flexibilidade com coesão,mudança com identificação e auto-estima. Esta foi a visão empresarial que prevaleceu nos países anglo-saxónicos. Os gurusda gestão de há trinta anos viram na "gestão pela cultura" um possível caminho paraatingir ou consolidar a “excelência”, apoiados num discurso apelativo que tentavaestimular a satisfação no trabalho e a identificação com a empresa. Promoveramatividades de lazer, competições desportivas com equipas da empresa, incentivaram osrituais e os jogos internos, informais, criaram prémios (monetários e simbólicos), umquadro de honra, etc., isto é, uma paleta de ingredientes destinados a reforçar acoesão, a identidade coletiva e o “orgulho” dos colaboradores. Cada trabalhador só tema ganhar “vestindo a camiseta da empresa” como se fosse a sua família. Segundo estaperspetiva, havia que conjugar duas dimensões: de um lado, indivíduos identificadoscom o espírito da casa, predispostos a investir no trabalho, esperando que daíresultassem melhores recompensas e mais oportunidades de carreira; de outro lado, ocoletivo da empresa como um todo, olhado como campo harmonioso e coeso, podendosempre mobilizar os quadros e colaboradores na sua dedicação individual e na buscada perfeição para o conjunto. Este modelo foi objeto de amplas discussões e de intensa crítica quer por parte docampo marxista quer do paradigma politico-cultural que adiante veremos. Assim, estacorrente “culturalista” funda-se numa conceção individualista e ignora a importância dosmecanismos de poder nas relações sociais e da estrutura das organizações comofatores que estabelecem divisões e desigualdades duráveis. Já nos anos 30, no tempode Elton Mayo e da Escola de Relações Humanas, se havia realçado a importância doambiente social (e físico) para a satisfação no trabalho. Em vez do taylorismo, apoiadonos ritmos alucinantes, na cronometragem e na hiper-especialização, a gestão pelacultura estimulou o trabalho em equipa, tentando criar um corporativismo flexível, capazde evitar a burocracia e a rigidez do planeamento e das hierarquias formais. Em suma,este modelo tinha muito de manipulação produtivista e pouco de democracia laboral,muito embora em muitas empresas tenha favorecido a satisfação no trabalho e o bem-estar. O seu contributo para a coesão e o diálogo social obrigava, porém, a outrosrequisitos nas estratégias gestionárias. 12
    • Há uma outra corrente, de origem francófona, que se oferece como alternativa àvisão anterior e que, a meu ver, nos trás uma perspectiva mais dinâmica e ao mesmotempo politicamente mais progressista e ajustada às sociedades europeias.Designadamente, em países como Portugal, onde os antagonismos de poder, asestruturas de classe e as desigualdades sociais são bem marcantes e têm raízesprofundas, um requisito decisivo para compreendermos o real é, sem dúvida,perspetivá-lo a partir da sua matriz histórica e, ao mesmo tempo, atentar na perenidadedas suas estruturas sociais, amplamente cimentadas em relações de desigualdade, depoder e de interdependência. Assim, não faz sentido olhar para as empresas como seelas se esgotassem na pura racionalidade económica ou como se fossemorganizações monolíticas, em que os seus membros se encontrassem atomizados eem condições de igualdade uns perante os outros. Sabemos bem que, mesmo na escala micro, as dissonâncias, as assimetrias deinfluência e as relações de poder na tomada de decisões são uma constante. Diversosestudos internacionais têm mostrado não só a vulnerabilidade da economia portuguesae a intensidade das desigualdades (inclusive salariais) entre a base e o topo dahierarquia, mas também os elevados níveis de insegurança e dependência subjetiva danossa força de trabalho. Daí ressalta uma situação óbvia, em especial no atual quadrode austeridade: a principal preocupação dos portugueses traduz-se no sentimento dedependência/ precariedade e na angústia de perder o emprego (ou de não ingressarsequer no mercado de trabalho). Por exemplo, num estudo comparativo sobre oEuropean Democratic Index (SKIDMORE & BOUND, 2008) revelou que as economiasmais competitivas e avançadas tecnologicamente são também as que reconhecemmais direitos e liberdade de associação sindical aos seus assalariados (como é o casodos países nórdicos), ou seja, a democracia nas empresas convive com maiorsatisfação, mais qualificação e maior eficácia dos mecanismos de negociação internos.Como resultado disso a produtividade aumenta e os ganhos empresariais beneficiamtodas as partes. Ao contrário, como também comprovou o referido estudo, num paíscomo Portugal são evidentes os profundos défices democráticos na democraciaquotidiana, designadamente na esfera laboral, e ainda no modo como isso se prendecom a escassa atividade associativa e sindical. Por outras palavras, prevalece na 13
    • maioria das empresas um clima “despótico” e uma mentalidade patronal autoritária quenão consegue entender a importância do fator cultural e dos mecanismos democráticosde participação na vida interna da empresa. O caso da Autoeuropa é, como adiante severá, uma exceção a este respeito. Na verdade, o chamado “paradigma político-cultural” (promovido por autores comoMichel Crozier, Alain Touraine, Serge Moscovici, Renaud Sainsaulieu, Philipe Bernoux,entre outros) mostra-se bem mais ajustado a explicar a natureza conflitual e complexada realidade social empresarial. A empresa é vista como uma espécie de micro-sociedade composta por indivíduos com capacidade de iniciativa, e que buscam a suarealização pessoal através do trabalho e do reconhecimento que ele pode conferir. Aocontrário das concepções tradicionais, que tendem a considerar que o trabalhador sóproduz se for sujeito a uma apertada vigilância e controle (ou à velha lógica da cenourae do chicote), esta concepção pressupõe que o indivíduo resiste à opressão e sededica mais se se sentir mais autónomo, recompensado, integrado e reconhecido. Hásempre uma zona de autonomia relativa e um jogo de estratégias (em geral implícitas)dotadas de racionalidade, mas de uma racionalidade “emocional”, isto é, sempredependente do grau de identificação do trabalhador com o grupo e com a empresa.Mesmo em ambientes de opressão o ser humano procura preservar a sua dignidadepessoal, o seu espaço de liberdade mínimo. E para tal é, muitas vezes, obrigado aesconder-se sob diversas formas de dissimulação e de disfarce, inclusive no local detrabalho. Por outro lado, esta abordagem da vida organizacional é a que melhor nos permitecompreender o papel do conflito e da negociação. Com ela poderemos sublinhar aimportância da participação e da construção de consensos na vida da empresa. Umavez que as contradições, as diferenças e rivalidades identitárias (sejam elas fundadasna categoria profissional, no estatuto, na filiação ideológico-partidária, no sexo, na raça,na idade, na língua, no tipo de vínculo/ contrato laboral ou noutra base qualquer), torna-se fundamental assumir que numa empresa – sobretudo se possuir uma dimensãomédia ou grande – existe diversidade interna, a qual importa saber gerir para daíbeneficiar a organização no seu todo. Para tanto é necessário que tais diferenças sepossam exprimir sob a forma de estruturas democráticas de representação. Se a 14
    • possibilidade de associação do trabalhador não for assegurada perde sentido falar-seem democracia ou em cidadania laboral. No entanto, apesar desse ser um direitoconstitucional, sabemos bem como em Portugal ele tem sido sistematicamentepervertido no contexto profissional, em especial nos sectores mais expostos acondições de trabalho precárias. O caso da «Autoeuropa – Volkswagen» Para terminar, gostaria de referir brevemente o caso da empresa Autoeuropa.Trata-se de um exemplo bem ilustrativo da falácia de um certo discurso patronal egovernamental que pretende “naturalizar” a ideia de que o atraso da economia se deveà baixa produtividade do trabalho, ou seja, como se os nossos problemas estruturaistivessem como causa principal a “incompetência” dos trabalhadores. Pelo contrário,são sobretudo as condições tecnológicas e organizacionais, por um lado, e asestratégias de liderança (ou a falta delas), por outro, que é necessário equacionar parase perceberem as razões do (in)sucesso. Na verdade, esta unidade produtiva da Volkswagen é uma das mais produtivas dogrupo a nível mundial. Os resultados produtivos dependem muito mais doenquadramento organizacional e da “cultura de empresa” do que das “competências”do trabalhador, consideradas no abstracto. A mediatização permanente deste casolevou a que a empresa se tornasse um espelho, ou um barómetro, que exprime arelação de forças não só na perspectiva do clássico antagonismo trabalho-capital, mastambém entre as estruturas de representação internas (a Comissão de Trabalhadores)e o sindicalismo “de classe” setorial. Fonte de orgulho dos seus trabalhadores e deadmiração de muitos outros, ocupados em empregos precários, degradantes e malpagos, para não falar dos desempregados, esta unidade produtiva é bem o exemplo deuma empresa viva, marcada por uma cultura de exigência e de organizaçãodemocrática do trabalho. O sistema político-cultural em vigor nesta fábrica deveria servir de exemplo, queraos nossos empresários (em geral avessos ao diálogo e que desprezam o direito dotrabalho), quer aos dirigentes sindicais (em geral avessos a uma efectiva democraciainterna). Mas há aqui ambiguidades difíceis de resolver. Por um lado, a cultura dediálogo e de negociação colectiva, parece exprimir o ambiente democrático interno 15
    • (onde vigora um acordo de empresa considerado bastante avançado e flexível, mascuja legalidade é posta em causa pelos sindicatos), mas, por outro lado, aí seanteciparam tendências, amplamente favoráveis aos interesses empresariais, taiscomo a flexibilidade de horários, a polivalência, os estímulos salariais, etc. É de admitirque o triunfo de uma cultura organizacional com estas características, caso fosseexportável para outros ramos da indústria, viesse a pôr em causa o modelo desindicalismo setorial que vigora em Portugal. Os atuais líderes sindicais dificilmenteaceitariam tal cenário, por dois motivos: primeiro, porque isso seria o triunfo de umneocorporativismo que abdicava da velha ambição de uma mobilização em largaescala da classe trabalhadora (orientada para a mudança estrutural da sociedade); e,segundo, porque seria nesse caso a própria sustentabilidade sindical e o protagonismodas suas lideranças que ficariam em causa (sendo que muitos dos atuais dirigentesocupam esses lugares há décadas). No entanto, o exemplo da Autoeuropa pode vir a ganhar maior significado,sobretudo se a unidade continuar a mostrar o sucesso económico que tem exibido atéagora. Mesmo atendendo a que o tecido empresarial português é maioritariamentecomposto de pequenas e minúsculas empresas e marcado por uma mentalidaderesistente à inovação, a força simbólica deste caso pode estender-se e influenciar todauma rede de empresas modernas, desde logo a começar pelas unidades fabrislocalizadas na zona industrial de Palmela e as muitas empresas que fabricamcomponentes e prestam serviços ao grupo Volkswagen. No modelo produtivo e sistema de relações industriais vigente nesta fábricamerecem realce aspetos como: 1) os processos de mudança incremental e negociadaentre todas as partes; 2) uma cultura de respeito pela dignidade do trabalho; 3) umefetivo entendimento do conceito de liderança; 4) uma perspetiva que tende a concebera empresa em toda a sua pluralidade, ou seja, enquanto espaço de relações deinterdependência e onde o conflito é a contraparte da negociação; 5) uma valorizaçãoda identidade coletiva das equipas e da importância dos incentivos; 6) uma conjugaçãoequilibrada entre as competências técnica, gestionária e social; 7) a conjugação entreflexibilidade e segurança/ estabilidade como elementos nucleares na dinâmica daempresa. 16
    • No que respeita aos trabalhadores e à cultura operária, a prática democrática e apermanente tensão entre, por um lado, uma lógica de defesa das regalias materiais ede condições de trabalho e remuneração, e, por outro lado, uma lógica identitária e deresistência perante a crescente pressão e poder do capital (quer na empresa quer noplano mais geral da economia) tendente a estimular a consciência social e o próprioprotagonismo político do coletivo operário e seus representantes, assumem-se comodimensões estreitamente imbricadas. Todavia é também conhecida a dificuldade em conciliar a luta sindical (setorial)mais geral com a estrutura dirigente do comité de fábrica. Esta relação é hojeproblemática na medida em que as duas dinâmicas obedecem a orientações e vínculosa forças partidárias distintas e, de algum modo “concorrenciais”: de um lado, o PartidoComunista Português (o caso do sindicalismo da CGTP); e, do outro, o Bloco deEsquerda (onde é filiado e foi deputado no Parlamento o principal líder do Comité deEmpresa da Autoeuropa, António Chora). Caso estas duas instâncias caminhem parauma maior cooperação isso poderia contribuir para um maior equilíbrio entredemocracia sindical/ diálogo interno, assegurado pela Comissão de Trabalhadores; e acapacidade de enquadramento mais alargado e sentido de luta social solidária, que ossindicados podem proporcionar. Um quadro bem distinto será o de uma consumaçãodo divórcio e aumento da rivalidade entre essas duas orientações: ou o sindicalismo dosetor se torna mero instrumento de uma força partidária, perdendo completamente osentido da realidade e da vida interna das empresas ou a Comissão de fábrica se tornamero “parceiro” corporativista, despido de consciência política e dependente de umsistema mais poderoso imposto pela direção da empresa. Não é certo que isso tenhade ocorrer mas é um risco que se pode tornar inevitável. A negociação sem conflito éinócua. E o conflito sem negociação é ineficaz. É entre este jogo de poderes e deinteresses que podem ser estimulados, quer o êxito económico da empresa, quer aspotencialidades transformadoras e emancipatórias da classe trabalhadora (Estanque,2007). Conclusão Sabemos hoje que o Estado social europeu está ameaçado e já ninguém esperaque saia desta crise revitalizado. A globalização, a força devastadora do mercantilismo, 17
    • os efeitos fulminantes do neoliberalismo, a internacionalização e a competitividadeglobal, tiveram um impacto fantástico sobre o sistema produtivo e o mundo do trabalhoem geral. Com fim da “guerra fria” e desfeita a ameaça de uma “alternativa” (osocialismo), abriu-se uma nova oportunidade para uma desvalorização ainda maisintensa do trabalho em benefício do capital. Há, no entanto, outros aspetos aconsiderar. As tendências demográficas, com o constante envelhecimento dapopulação e as previsões de agravamento nos países europeus, irão muitoprovavelmente inviabilizar a sustentabilidade financeira dos atuais sistemas e políticasde solidariedade social4. Mas, se o velho modelo laboral europeu (o fordismo) não érecuperável, também é verdade que o capitalismo financeiro, o paradigma neoliberal emonetarista e a especulação bolsista – para além dos desastres que está provocandosobre os países periféricos da UE, entre os quais Portugal – parecem empurrar aEuropa para um bloqueio sistémico prestes a fazer implodir o projeto da ComunidadeEuropeia. Neste quadro, importa que as instituições e os cidadãos em geral nãodesistam de procurar soluções no quadro democrático, no reconhecimento e reforçoquer dos mecanismos institucionais quer dos direitos efetivos dos cidadãos e dasociedade civil no seu conjunto. Sem perder de vista o legado progressista e humanistaque a Europa construiu ao longo dos últimos três séculos, espera-se que ainda haverámais mundo para além da austeridade asfixiante que se abate sobre os portugueses eeuropeus. Durante nove séculos já suportámos muitas crises e soubemos sobreviver.Ultrapassámo-las, com maiores ou menores sacrifícios. Apesar de se prever mais desemprego em 2012, mais pobreza, mais precariedadee mais conflitualidade, importa admitir que é condição essencial para uma resposta àcrise que muitas empresas, em especial as de referência, como a Autoeuropa, resistame se renovem para se ultrapassar o atual bloqueio. As unidades que sobreviverem aatual crise podem até ficar mais fortes, e espera-se que estejam em consonância comum novo paradigma e com um novo sistema produtivo, condição imprescindível paravoltarmos a crescer, a criar emprego e a construir condições dignas de trabalho.4 Hoje existe uma relação de 1 aposentado para 5 trabalhadores ativos, mas calcula-se que em 2050 arelação será de 1 aposentado para 2 ativos. 18
    • Mesmo sabendo que as grandes estruturas empresariais como a Autoeuroparepresentam uma ínfima percentagem do tecido empresarial português – e queportanto, é uma gota de água num enorme oceano de micro e pequenas empresas,onde vinga o improviso, a precariedade e em muitos casos a prepotência patronal,fatores que se têm expandido nos últimos anos (Estanque, 2000 e 2009) –, continua aser prioritário desenhar uma estratégia de inovação organizacional que faça jus aosprincípios da “responsabilidade social”. Espera-se e deseja-se que as dificuldades queestamos atravessando hoje obriguem a que se repensem e alterem processos eestratégias comprovadamente falhados, como é o caso da aposta no baixo custo dotrabalho, na submissão absoluta do trabalhador, na facilitação dos despedimentosimposta sem contrapartidas. Perante esta desregulamentação forçada é preciso seguiras orientações da OIT, recuperar e implementar o trabalho digno, estimular aestabilidade e a motivação dos trabalhadores no local de trabalho, promover acidadania laboral e a aposta no diálogo social, na negociação permanente: não importamuito que a luta sociolaboral seja conduzida por sindicatos ou comissões detrabalhadores. Importa sim que os protagonistas sejam suportados por estruturasautónomas, democráticas e representativas.Referências bibliográficasALVES, Giovanni (2011), Trabalho e Subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório. São Paulo: Boitempo.ANDERSON, Benedict (1991), Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Londres: Verso.ANTUNES, Ricardo (1999), Os Sentidos do Trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo.ANTUNES, Ricardo (org.) (2006), Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil. São Paulo: Editora Boi Tempo.BECK, Ulrich (2000), Un nuevo mundo feliz: la precaridad del trabajo en la era de la globalización. Barcelona: Paidós.BERNOUX, Philippe (1998), A Sociologia das Organizações. Porto: Rés.BURAWOY, Michael (1985), The Politics of Production. Londres: Verso.CASTEL, Robert (1998), As Metamorfoses da Questão Social. Petrópolis: Editora Vozes. 19
    • CASTELLS, M. (2000), A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura – Vol I, A Sociedade em Rede. S. Paulo: Terra e Paz.CASTELLS, Manuel (1999), A sociedade em Rede - A era da informação: economia, sociedade e cultura, Vol.1, São Paulo: Paz e Terra.ESTANQUE, Elísio (2000), Entre a Fábrica e a Comunidade: subjectividades e práticas de classe no operariado do calçado. Porto: Afrontamento.ESTANQUE, Elísio (2005), “Desafios e Obstáculos ao Desenvolvimento Tecnológico em Portugal: uma abordagem sociológica das implicações sócio-organizacionais da tecnologia”, in Salavisa Lança, Isabel, e Ana Cláudia Valente (Orgs.), Inovação Tecnológica e Emprego – O Caso Português. Lisboa: IQF-Instituto para a Qualidade na Formação (pp. 109-137).ESTANQUE, Elísio (2007), “A questão social e a democracia no início do século XXI: participação cívica, desigualdades sociais e sindicalismo”, in Véras, Roberto de Oliveira (org.), Novo Momento para as Comissões de Emprego no Brasil? Sobre as condições da participação e controle sociais no sistema de emprego em construção. São Paulo: A+ Comunicação/ Unitrabalho, pp. 73-99.ESTANQUE, Elísio (2009), “Sindicalismo e movimentos sociais: acção colectiva e regulação social no contexto europeu e português”, in Lutas Sociais, nº 23, São Paulo: PUC, pp. 55-67.ESTANQUE, Elísio, Véras, Roberto et al., (Orgs.) (2005), Mudanças no Trabalho e Ação Sindical: Portugal, Brasil e o contexto transnacional. São Paulo: Cortez.FIGUEIREDO, A. M. (1999), “Emprego, integração no mercado de trabalho e o paradigma da sociedade do conhecimento – Uma perspectiva europeia das particularidades portuguesas”, Sociedade e Trabalho, n.º 7, Ministério do Trabalho e da Solidariedade, pp. 67-79.HOFSTEDE, Geert (1980), Cultures Consequences: International Differences in Work- Related Values. Beverly Hills CA: Sage Publications.HOFSTEDE, Geert (1997), Culturas e Organizações. Lisboa: Edições Sílabo.LAVILLE, Jean-Louis e ROUSTANG, Guy (1999), “L’enjeu d’un partenariat entre État et société civile”. In. Defourny et, al., Economie social au Nord et au Sud. Bruxelles: Deboeck, 217-238.MOSCOVICI, Serge; Doise, Willem (1991), Dissensões e Consenso. Lisboa: Livros Horizonte.POLANYI, Karl (1980), A Grande Transformação - as origens de nossa época. Rio de Janeiro: Editora Campus Ltda.SAINSAULIEU, Renaud (1997), Sociologia da Empresa: organização, cultura e desenvolvimento. Lisboa: Instituto Piaget.SANTOS, Boaventura de Sousa (1994), Pela Mão de Alice: o social e o político na pós- modernidade. Porto: Afrontamento. 20
    • SANTOS, Boaventura de Sousa (2011), Portugal: Ensaio contra a autoflagelação. Coimbra: Editora Almedina.SKIDMORE, Paul e Bound, Kirsten (2008), The Everyday Democracy Index. Londres: DEMOS.WALLERSTEIN, Immanuel (2004) World-Systems Analysis: An Introduction. Durham, North Carolina: Duke University Press.WALLERSTEIN, Immanuel e BALIBAR, Étienne (1991): Race, Nation, Class: Ambiguous Identities. London: Verso. 21