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Romance histórico sobre o momento épico da emancipação da Comarca de Curitiba da Província de São Paulo e criação da Província do Paraná

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A Escuna Astro A Escuna Astro Document Transcript

  • A Escuna Astro 1
  • Egberto Fioravanti Ribeiro 2
  • A Escuna Astro de EGBERTO FIORAVANTI RIBEIRO A ESCUNA ASTRO ©2004 – 2009 EGBERTO F RIBEIRO 1ª Edição Curitiba – 2009 Autor – Editor ISBN 978-85-906811-2-0 3
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Dados internacionais de catalogação na publicação. Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira Biblioteca Pública do Paraná. Ribeiro, Egberto Fioravanti. A Escuna Astro / Egberto Fioravanti Ribeiro. Curitiba: E. F. Ribeiro, 2005. 178 pág. ; 21 cm. Inclui bibliografia. 1. Literatura Brasileira. Paraná. 2. Roteiro para Cine/Tv. 3. Livro. I. Título. CDD ( 21º edição) B869.35 Todos os direitos reservados a Egberto Fioravanti Ribeiro, lei de Direitos Autorais (copyright) nº 9610/98. Este livro no todo ou em parte não pode ser reproduzido mecanicamente, sonorizado, impresso, fotocopiado, gravado em fita, disco, pendrive, materiais físicos, eletrônicos, compactados, ou sob qualquer outro meio, sem a devida permissão escrita do autor-editor. O autor-editor adverte aos leitores para obterem informações referentes a expressa legalidade. Pesquisa, Texto, Fotos, Digitação, Revisão, Edição, Licenças são do Autor. Registro aplicado para livro e roteiro de Cine/Tv na Biblioteca Nacional - Registro nº 329.978. Cine 1° Tratamento: 120 minutos, 178 Pág. 278 Sequências, 1561 Diálogo Takes. Rio de Janeiro, 20 de Agosto de 2004 – Brasil Formato Digital A5 em PDF – BrOfficeOrg Nova Ortografia Curitiba, abril de 2009 © 2004 - 2009 EGBERTO FIORAVANTI RIBEIRO 1ª Edição 2009 - Curitiba Autor/Editor egfior@hotmail.com 4
  • A Escuna Astro ÍNDICE Nº Sequencia CAPÍTULO PÁGINA TAKES Prefácio 6 I As Raízes 21 II A Rainha dos Mares 26 152 III A Partida do Sagaz 41 145 IV Novo Rumo 53 123 V Ingleses a Ver Navios 62 102 VI Laura 68 143 VII Mares do Sul 79 48 VIII O Prático 83 58 IX Aves de Rapina 87 27 X Apreensões 90 100 XI Quartel General 97 62 XII O Resgate 103 86 XIII A Grande Milícia 111 82 XIV Domingo em Preces 118 68 XV Escuna a Pique 125 36 XVI Artilharia 129 60 XVII Fulgor da Justiça 140 183 XVIII Navios em Chamas 160 41 XIX Ofício Fúnebre 165 29 XX O Triunfo 169 14 XXI A Província do Paraná 173 Epílogo 177 Bibliografia 179 5
  • Egberto Fioravanti Ribeiro P REFÁCIO O povo ibero agrega culturas milenares, desde os distintos habitantes pré-históricos aos primitivos lusitanos oriundos de nações conquistadoras e fundadoras de cidades como os fenícios em Cadiz e os Gregos em Rosas e Sagunto. Os invasores bárbaros Celtas fixaram-se entre os rios Douro e Tejo. A Ibéria também tornou-se rica província produtora de prata de nações poderosas como; Cartago nos tempos de Aníbal e de Roma no Império de Júlio César, quando várias cidades foram fundadas. Após a queda do Império Romano, a península foi ocupada pelos visigodos até 739. Neste tempo, a Ibéria sofreu as invasões dos mouros sarracenos, com apogeu em 929 durante o califado de Córdoba. A província Portucalense esteve em persistentes batalhas, quando em 1139, em meio a incessantes guerras contra mouros e castelhanos, floresceu a nação portuguesa. Os heróis lusitanos foram cantados por Camões, como os ancestrais guerreiros celtiberos. O sentimento espiritual dos visigodos cristãos e o capitalismo judaico revestiram a Ibéria com a couraça de Deus para lutarem contra os guerreiros islâmicos. A revelação do Islã em Medina foi rapidamente apregoada em toda Arábia e países vizinhos. A fé islâmica se estendeu em poucos anos, do Mediterrâneo à Europa e Ásia. O atrativo sistema islâmico de distribuir os despojos entre o exército, foi logo aceito por todos os seus seguidores. Esta prática havia iniciado contra os judeus em Yathrib, a cidade que recebeu o nome de Medina (Cidade do Profeta). Ao findar o período das trevas, o Alcorão estava sendo recitado em dois terços da Espanha. Do alto dos minaretes, os sheiks convocavam os fiéis às orações no Califado de Córdoba. As melhores terras do Sul da Espanha até a Galícia haviam sido tomadas pelos seguidores islâmicos sob a força das espadas, não causada pela religião, mas por força política. O pouco conhecimento sobre a religião mostrou que os interesses nos despojos de guerra eram maiores do que a ida a Meca. O domínio político islâmico, em nome da religião, causou a indignação no reino espanhol em 729 DC, quando o rei iniciou a guerra chamada de “A Reconquista”. Em 904, o rei D Afonso começou a expulsar da 6
  • A Escuna Astro Província Portucalense, todos os habitantes sarracenos. As vilas, castelos e cidades estavam sendo abandonadas pelos islamitas e povoadas pelos remanescentes dos celtas cristãos, judeus convertidos e habitantes vindos da Galícia. As grandes vitórias foram maiores do que as perdas nas incontáveis batalhas que incentivaram as nações da Europa a enviarem as primeiras Cruzadas à Palestina. As tropas espanholas haviam afastado os mouros da Ibéria, restaurando parte do reino de D Afonso. Duzentos anos mais tarde, o rei de Castela havia dado a sua filha Dona Teresa, a Província Portucalense. Dona Teresa era casada com o Conde Don Henrique de Borgonha e tinham um filho, Don Afonso Henriques. O velho rei faleceu e um conflito entre os herdeiros se levantou. Logo após a morte do Conde Don Henrique, o seu filho decidiu tornar-se um cavaleiro para lutar contra os mouros. O infante Don Afonso Henriques, aos quatorze anos, assumiu um compromisso divino na Igreja de Zamora no dia de Pentecostes de 1125 (1163 no calendário espanhol). Ele vestiu a cota, a giga e empunhou as armas de guerra do seu avô para liderar o seu exército espanhol contra os mouros sarracenos. Em três anos de batalhas, ele recuperou o domínio espanhol do Mediterrâneo ao Atlântico. A data da grande vitória em Guimarães contra a Espanha em 24 de junho de 1128 é considerada o dia da Independência. Sob os fortes braços deste Infante nasceu Portugal, combatendo contra espanhóis e mouros sarracenos por vários séculos. (No início de Roma, os povos estrangeiros estavam sendo assentados na região conhecida como Lácio, ao sul do rio Tibre. Estes povos mantiveram sólida união contra os invasores e deram início ao Império Romano. As conquistas iniciaram dois séculos antes de Cristo com a Província da Sicília. Os muitos idiomas no Lácio foram sendo unificadas no Latim popular, originando ao Latim Clássico como identidade política). Durante a Guerra da Reconquista por Don Afonso, a antiga Província Portucalense recebeu cidadãos da Galícia que foram assentados em Coimbra. Após a morte do rei Dom Afonso, o reino foi governado por seu filho Dom Sancho. Ele iniciou uma nova estrutura administrativa sobre a terra lusitana. A jovem nação adotou a notável contribuição linguística dos judeus e galegos à edificação da sua identidade política na Ibéria. Os primeiros versos poéticos conhecidos são de 1189 com “A Ribeirinha” por Paio Soares de Taveirós. Esta sólida demonstração de nacionalismo ocorreu com a 7
  • Egberto Fioravanti Ribeiro participação de clérigos lusitanos que em curto espaço de tempo delinearam a estrutura gramatical e vocabulário próprio. A nobreza nascida ouvindo o idioma espanhol incentivará o novo idioma português com muitos versos escritos pelo rei Dom Sancho e os 137 poemas do rei Dom Diniz. Os suprimentos de guerra não somente se aplicavam às tropas, mas também aos tribunais internacionais. Logo, a necessidade de juristas e assistência médica nas batalhas influenciaram Dom Diniz a fundar a Universidade de Coimbra em 1290. A habilidade nos combates e a espiritualidade dos cristãos vindos da Galícia (celtas) edificaram um valioso exército lusitano para lutar contra o Jihad islâmico. O engajamento comercial trazido pelos judeus (Cristãos Novos) consolidaram Portugal como potência mundial. O Concílio Católico de Verona em 1183 estabeleceu “A Inquisição”. Muito mais por questões econômicas do que religiosas foram as razões para os Padres Dominicanos executarem famílias inteiras, esmagados em máquinas de tortura ou em fogueiras. O povo judeu na Europa havia edificado uma nova classe social: a burguesia. Eles tornaram-se vítimas das pessoas, para as quais haviam emprestado dinheiro. Para os devedores, a única forma de quitar os débitos seria com a morte dos credores. Após a execução, as suas propriedades eram dadas ao governo, ou à igreja. Os reis portugueses viram vantagem naquele desespero e permitiram a imigração de judeus como cidadãos, se aceitassem traduzir seus nomes ao português e serem batizados como Cristãos Novos. Os judeus não convertidos e os remanescentes mouros foram subjugados por leis e tratados em óbvia discriminação, por causa do seu poder econômico. No Brasil, os descendentes de judeus eram chamados “Marranos”. Eles foram odiados por sua riqueza, por sua amizade com a família real e porque não se uniram aos partidários republicanos. A Ordem Militar de São Bento de Avis era uma organização de cavaleiros fundada no início de Portugal para lutar contra os muçulmanos. Dom João recebeu as honrarias de cavaleiro de Avis e o disputado trono português em 1385 (Dinastia de Avis). Nas batalhas contra a Espanha, os portugueses haviam aprimorado a manufatura de canhões com as técnicas de metalurgia desenvolvidas pelos mouros sarracenos (aço maleável). As frequentes incursões mouras sobre Portugal estavam causando 8
  • A Escuna Astro pesados danos às taxas marítimas pagas por navios em trânsito na costa lusitana. Dom João e seus filhos planejaram secretamente a bem sucedida grande invasão sobre Ceuta em 1415. O avanço cristão sobre a África islâmica eliminou o sonho de muitos muçulmanos de se tornarem Califas (líderes religiosos) sobre toda a Europa. Munido de bula papal e régia obsessão, o infante D Henrique desenvolveu o Plano das Índias e abriu fogo contra os mouros em suas próprias terras. O aprisionamento e a morte do seu irmão, D Fernando em Tânger o tornaram ainda mais definido nesses objetivos. O plano consistia em contornar os mouros para bloquear sua retaguarda. Esta tática seria para impedir as constantes fugas aos desertos e montanhas após cada batalha. Em 1418, o infante Dom Pedro empreendeu viagem de dez anos a Europa e Oriente Médio. Ele obteve mapas e o livro escrito por Ruticello contando sobre a viagem de Marco Polo a Ásia. Como a invenção da pólvora na China havia sido levada a Europa por Polo, o livro recebeu crédito da dinastia de Avis. Apesar dos leitores europeus considerá-lo como um capítulo de “As Mil e Umas Noites”. O infante Dom Henrique preferiu aceitar como verdadeira a informação de Polo, onde declarava que daquelas ilhas não se avistavam a estrela polar, astro de orientação à navegação. A doutrina católica levou o rei Dom João e sua família a crerem na profecia de Daniel, referente ao 5º Império que poderia ser cumprida por quem dominasse aquelas ilhas. A execução do Plano das Índias somente seria possível pelo oceano. Isto requeria grande conhecimento marítimo para navegarem nos mares incógnitos. Dom Henrique contratou técnicos navais, cosmógrafos, cartógrafos e fundou a Escola de Sagres em sua própria casa. “O bem estar da população está em produzir” (Dom Henrique). As sucessivas descobertas de ilhas oceânicas e as terras na costa africana recompensaram a nação portuguesa com 20° de extensão territorial. O navegador Gil Eanes em 1434 esteve nas ilhas Canárias na viagem em que descobriu o Cabo Bojador. Deste limite em diante iniciava o desconhecido mar com diferentes correntes de vento. “Do polo fixo, onde ainda se não sabe que outra terra comece ou o mar se acabe” (Os Lusíadas 5,14) 9
  • Egberto Fioravanti Ribeiro O espanhol Diego Garcia Herrera começou a explorar as ilhas Canárias em 1476. A Espanha recebeu apoio do Papa e reivindicou o direito “Uti Possidetis” sobre as Ilhas Canárias (a terra pertence a quem nela vive e a explora). O desempenho lusitano foi observado pela Santa Sé. Portugal tornou-se o principal aliado para enviar o evangelho às novas terras. O Papa Eugênio IV assinou a Bula dando a Portugal como mercê, as terras de Deus ainda não descobertas. Estas terras deveriam ser mantidas no domínio cristão, enquanto a religião islâmica ainda não houvesse alcançado os habitantes daquelas ilhas. Eles sabiam que o Deus de Abraão era pai de um filho e que Alá era pai de duas filhas, portanto não eram a mesma pessoa. As nações acreditavam não existir mais nada além do Bojador e Portugal recebeu o direito absoluto desde os limites das Canárias para o sul. Para Roma, o mundo pertencia a Deus e as terras ainda não descobertas deveriam ser cristã e assegurou a paz com a Bula Intercaetera. Esta linha divisória estava sobre o paralelo 27° (horizontal), passando ao sul das ilhas Canárias e pela Flórida na América. A 12 de outubro de 1492 Cristóvão Colombo, a serviço da Espanha, descobriu a América no paralelo 23°. As coordenadas apresentadas na Europa revelaram que a Nova Terra estava em território Português, 50 milhas ao norte do trópico de Câncer. Esta descoberta motivou mais um conflito entre as coroas e todos foram levados a Tordesilhas para discutirem um novo tratado. O maior acordo internacional, sem qualquer outro equivalente na face da terra foi assinado na cidade de Tordesilhas em 4 de Junho de 1494. Este tratado firmado entre os reis católicos de Castela; Fernando e Isabel da Espanha e os representantes de Portugal; Dom João e Dona Leonor. O novo meridiano seria movido de 100 para 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. (...que porquanto entre os ditos senhores seus constituintes há certa diferença sobre o que cada uma das ditas partes pertencem do que até hoje, dia da feitura desta capitulação, está por descobrir no mar oceano ...) O Tratado de Tordesilhas. Os termos deste acordo eram extensos no espaço e perpétuos no tempo. Os signatários de Tordesilhas, seus herdeiros e vassalos deveriam cumprir o tratado sob pena de ex-comunhão. Embora, o tratado desta 10
  • A Escuna Astro magnitude houvesse sido estabelecido sobre terras desconhecidas, era desagradável para todos os cidadãos em ambas as nações, sob guerra por três séculos. Isto não poderia ser aceitável para aqueles que sequer imaginavam o que estava acontecendo. Desta maneira, o tratado não poderia ser perfeito e sofreu algumas alterações. A causa dos últimos conflitos haviam iniciado em 1470 e somente terminaram após muitos acordos. A principal reconciliação findou 5 anos de guerra, após a definitiva renúncia de Portugal em pretender governar sobre Castela. (O rei Afonso V de Portugal manteve um casamento não consumado com sua sobrinha Joana de Castela, a princesa das Astúrias, título real na hierarquia de Castela. Joana era filha do rei Henrique IV de Castela e de Joana de Avis de Portugal. Ela recebeu o título em 1462, sendo forçada a ceder a sua posição em favor do seu irmão Afonso em 1464 que veio a falecer, quatro anos mais tarde. Seguiu na ordem sucessória, sua irmã que desobedecendo uma das regras ao trono, casou com um pretendente de Aragão e não de Castela. O interesse de Dom Afonso em tirar proveito do seu casamento era de unir o reino de Portugal ao de Castela. A repulsa dos castelhanos foi geral, era inimaginável que a Espanha viesse a ser governada por Portugal e o conflito armado foi iniciado por Dom Afonso V em 1474 e se estendeu por cinco anos. A paz foi alcançada com a capitulação da princesa Joana em desistir do trono de Castela e a consequente anulação do casamento. O Tratado de Alcaçova em 04 de setembro de 1479 conteve os ânimos bélicos). O conhecimento lusitano de navegação estava produzindo bons resultados com milhares de milhas nas costas da África. As técnicas portuguesas, adquiridas pelo infante Dom Henrique, por muitas vezes superaram as da Espanha que cometeu sucessivos enganos. Portugal queria manter a linha divisória, mais próxima possível da Europa e na outra extremidade na Ásia deixar o domínio Espanhol findar no vazio oceano, longe das ricas ilhas com especiarias, conforme Polo havia citado. O Tratado de Tordesilhas mencionou que o meridiano inicial estaria de polo a polo a 370 léguas (1.110 milhas) além das ilhas de Cabo Verde. Este arquipélago já havia sido citado nas cartas náuticas por muitos séculos como o meridiano a zero grau que dividia o oriente do ocidente. Este exato 11
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ponto de partida não ficou bem claro, pois à luz das coordenadas do Tratado, as terras após São Luiz do Maranhão a Angra dos Reis deveriam pertencer a Espanha. Consecutivamente, todas as ilhas antípodas, ricas em especiarias pertenceriam a Portugal. A Espanha reclamou e Portugal finalmente reconheceu aquela falha no Tratado de Tordesilhas. As Ilhas dos Açores foram adotadas como o ponto inicial das terras desconhecidas e o meridiano divisório ficou definido a 370 léguas para oeste. Os espertos portugueses não queriam revelar o que em Tordesilhas havia sido escrito sobre a linha divisória. O Tratado mencionava “Terras Desconhecidas”, mas o arquipélago de Açores já havia sido descoberto no primeiro quarto daquele século. O navegador português Bartolomeu Dias fez bom uso das correntes de vento das costas da África para sudoeste, além do Bojador. Este nobre Capitão-mor também conheceu as correntes atmosféricas que sopram da América do Sul para sudeste, levando os veleiros a barlavento até a poucas milhas da África do Sul. Bartolomeu navegou muito longe da costa com rumo ao sul e foi além do Cabo da Boa Esperança. Porém, os fortes ventos da Antártida e um motim a bordo, o levaram a navegar de volta até chegar em terra. Apesar de estar em território português, Bartolomeu assentou no Sul da África dois padrões de pedra com a Ordem Militar de Cristo (Cruz de Malta). Vasco da Gama era fidalgo e havia recebido a missão de explorar um novo rumo às Índias. Ele aplicou os conhecimentos oferecidos por Bartolomeu Dias e foi bem sucedido naquela viagem e chegou a Calicute. Vasco foi apresentado ao governador da região, sem oferecer presentes valiosos. Vasco deveria apenas manter acordos comerciais em Calicute e instalar uma feitoria naquele porto. O Samorim ficou muito desapontado com o frugal presente recebido e o manteve detido juntamente com outros marinheiros em seu palácio. O Capitão da nau de Vasco manteve como reféns, alguns visitantes de Calicute que pretendiam negociar a bordo, dentre os quais o irmão do Samorim. A liberdade de Vasco da Gama foi negociada após três dias de detenção, quando foi liberto e retornou a Portugal para levar aquelas más notícias ao rei Dom Manuel. Assim que as notícias chegaram a Portugal, o rei Dom Manuel I sentiu-se ultrajado e enviou no ano seguinte, o Capitão-mor Pedro Álvares Cabral (33 anos) para definir o seu domínio em Calicute. A coroa portuguesa 12
  • A Escuna Astro deveria subjugar à força, as nações adversas ao seu monopólio comercial, dentro do seu próprio domínio territorial. Aquela era uma questão de soberania, muito mais importante do que responder a um incidente sofrido por um vassalo. Pedro Álvares navegaria aos mares do sul sob instruções diretas de Vasco da Gama. Ele havia assegurado a Cabral a existência de sinais de terra abaixo da linha do Equador. Vasco também entregou-lhe uma carta com recomendações para a viagem e seus mais experientes capitães: Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho e outros. Cabral partiu com sua armada do embarcadouro de Belém em Lisboa a 09 de março de 1500 com treze caravelas, 1500 homens, exímios pilotos e experimentados capitães. Esta foi a maior frota de guerra lusitana desde a invasão de Ceuta em 1415. Em duas semanas a frota alcançou as costas das ilhas de Cabo Verde, quando iniciaram o novo rumo a sudoeste. Uma das embarcações se perdeu, não obstante as advertências com tiros de canhões com festim. Após seis semanas de viagem desde Belém, Cabral avistou os sinais de terra, como havia sido descrito por Vasco da Gama. No dia seguinte o primeiro brado de “terra à vista” foi lançado sobre as águas do Brasil a 22 de abril de 1500. O imponente desembarque português na ilha à entrada de Porto Seguro foi bem recebido pelos indígenas. A solene ação de graças com missa campal no domingo seguinte foram registradas na carta de Pero Vaz de Caminha. A frota permaneceu ancorada por dez dias entre um povo selvagem, mas com tratamento muito amigável. Ao dia da partida, alguns jovens grumetes permaneceram em terra por suas vontades e alguns degredados ficaram para aprender o idioma. O Capitão–mor estava triunfante ao enviar Gaspar de Lemos a Portugal com a Carta de Caminha para anunciar a descoberta da Ilha de Vera Cruz. No dia 02 de maio, o resoluto Cabral deu continuidade a sua missão, ordenando as naus que levantassem ferros e soltassem as velas com rumo ao sudeste. Sob os favoráveis ventos convergentes, a esquadra rapidamente chegou às costas da África do Sul a 24 de maio. Bartolomeu Dias havia descoberto um cabo ao extremo sul daquela costa e como havia sofrido violentos açoites dos ventos o chamou de Cabo das Tormentas. Porém, o rei de Portugal entendeu que aquele era o “Cabo da Boa Esperança”. 13
  • Egberto Fioravanti Ribeiro A esquadra de Cabral chegou ao extremo sul da África abaixo de violenta tempestade. Após cinco dias de turbulenta navegação, Cabral foi notificado sobre o desaparecimento de quatro caravelas e da inevitável perda de preciosas vidas, dentre as quais, o seu amigo Bartolomeu Dias. A passagem de Cabral para a costa oriental da África assegurou a Portugal o exclusivo domínio mercantil com o extremo oriente por um século inteiro. Cabral chegou à Calicute do Samorim para instalar uma feitoria e cessar o comércio árabe naquele território. A ordem para que os árabes descarregassem os seus navios e deixassem o porto causou imediata rebelião. Os portugueses recém-chegados foram atacados traiçoeiramente pelos árabes nas ruas da cidade e quase quarenta pessoas foram assassinadas, dentre as quais o escrivão Pero Vaz de Caminha, o governador da feitoria Aires Correia, alguns padres e muitos empregados e soldados. Cabral aplicou severa retaliação sobre Calicute. Dois dias de bombardeio sobre a cidade resultaram em quinhentos mortos e quinze navios árabes soçobrados. Ao concluir a réplica, Cabral retirou a esquadra da cidade destruída e navegou para Cochin, onde instalou uma feitoria e retornou a Portugal em janeiro com seis navios carregados com especiarias. No ano seguinte, Vasco da Gama navegou para Calicute com excepcional força destrutiva, selando o domínio comercial lusitano na Ásia. Em 1504, o Samorim de Calicute organizou uma força aliada com outros rajás e avançou contra a feitoria portuguesa em Cochin. O comandante Duarte Pacheco Pereira contava com apenas 70 homens, quatro navios, 18 canhões de longo alcance e um pequeno forte. O Samorim foi vencido com seu exército de 5.000 homens a bordo de 150 navios armados com bombardas que foram afundados. O Samorim não causou danos contra Duarte e deixou o seu governo na Índia. Após o domínio português sobre Cochin, muitas outras expedições seguiram rumo ao Oriente para registrarem as ilhas até a fronteira leste do território. Após o descobrimento do Brasil, algumas feitorias ultrapassaram as metas comerciais estabelecidas pela coroa portuguesa. Porém, a incursão de franceses em associação com tribos indígenas para explorarem pau-brasil deveria ser impedida. 14
  • A Escuna Astro As ilhas Molucas foram descobertas pelo português Francisco Terrão em 1512, quando estabeleceu em Ternate uma feitoria para produzir especiarias. Esta notícia vindo da Ásia foi uma péssima surpresa para a Espanha. O rei Carlos I da Espanha, ao tomar conhecimento da descoberta de Terrão, organizou uma expedição secreta em Sanlúcar de Barrameda, ao sul de Sevilha, para dominar as ilhas Molucas. Três caravelas e sessenta homens, sob o comando do Capitão-mor Juan Dias de Solis, o substituto de Américo Vespúcio falecido em 1512. A frota partiu a 08 de outubro de 1515 com o real destino mantido em segredo. Os poucos tripulantes e a pequena quantidade de alimentos e poucos tonéis de água não levantaram suspeitas de que estariam empreendendo viagem de circum-navegação. O rumo tomado inicialmente por Solis até as Ilhas Canárias não revelava o grande interesse espanhol de navegar 5.100 milhas além de Tordesilhas através de algum canal ao sul do Brasil. A frota de Solis fundeou no Rio de Janeiro, Cananeia e Santa Catarina. Evidente tentativa de obter informações entre os moradores indígenas, náufragos e colonizadores sobre alguma passagem para o oeste. Os espanhóis ouviram falar do grande mar de água doce e das minas de prata de Potosi no interior do continente. Solis relegou em segundo plano a missão ao Pacífico. O Capitão-mor Solis navegou mais ao sul até encontrar o grande rio e tomou rumo a oeste, exatamente como havia sido informado sobre o caminho para se chegar a Potosi. Solis e seus homens desembarcaram na costa norte do grande rio, mas foram atacados por selvagens, provavelmente os charruas. Os tripulantes a bordo viram que Solis e seus companheiros haviam caído em uma emboscada e estarrecidos viram como foram aniquilados. A pequena guarnição sobrevivente não era suficiente para as duas embarcações. Uma caravela foi comandada pelo piloto Francisco de Torres, cunhado de Solis, a outra ficou sob o comando do piloto Aleixo Garcia e partiram de regresso a Espanha. Aleixo Garcia era navegador português e morador na Espanha. Eles estavam abalados com a tragédia, mas não frustrados. Eles estavam longe de casa, mas perto de Potosi. Os jovens desbravadores não pretendiam voltar para a Espanha sem concluir o último objetivo de Solis. Aleixo fez rumo com 15
  • Egberto Fioravanti Ribeiro sua caravela sobre os rochedos de Porto dos Patos (Sta Catarina) e naufragou ao sul da ilha. Era mais digno explicar ao rei da Espanha um naufrágio, do que um motim. Aleixo e outros dez sobreviventes conviveram com os nativos carijós e constituíram novas famílias. Aleixo e seus companheiros fizeram várias expedições no litoral, julgando que estivessem no território espanhol. Eles estiveram na baía de Paranaguá onde Aleixo a denominou “Baya de la Corona de Castilha”. Em 1521, Aleixo retornou a Porto dos Patos e organizou uma tropa com duzentos indígenas e seguiu para o sul da Bolívia através do Peabiru e do Chaco. Ele alcançou e dominou uma aldeia inca nas minas de Potosi, de onde trouxe peças de ouro e prata. No caminho de regresso em 1525, Aleixo Garcia entrou em combate contra os guaranis na região do Rio Paraguai, onde foi mortalmente ferido. O empreendimento de Solis foi retomado mais tarde por Don Francisco Garcia de Loyasa que partiu da Espanha a 25 de dezembro de 1525. O descobrimento das ilhas Filipinas em 1521, dentro do território português, pelo português Fernão de Magalhães a serviço da Espanha, causou um novo conflito entre as duas coroas ibéricas. A nova declaração de guerra foi detida após uma negociação de direitos através do Tratado de Saragoça de 22 de abril de 1529. O domínio político de Carlos I na Europa intimidava qualquer país a se levantar em armas contra a Espanha. Para manter os bons lucros com as especiarias das Filipinas, a Espanha propôs mais um movimento no meridiano de Tordesilhas. Portugal foi compelido a comprar por $350.000 ducados em ouro, 17° da região ao sul daquela invasão onde estavam as Molucas. Esta negociação foi aceita para certificar a permanência da feitoria portuguesa explorada por Francisco Terrão. As informações sobre a presença de feitorias francesas nas costas brasileiras e a perda do território das Filipinas obrigaram Portugal a enviar uma frota militar ao Brasil. As más notícias sobre a morte de Solis por indígenas no Rio da Prata cobriram de receios a frota de Martim Afonso. Os nobres e irmãos Martim Afonso de Souza e Pero Lopes de Souza foram enviados ao Brasil por Dom João III para demarcarem no rio Paraná a alteração de 17° ocorrida no Meridiano de Tordesilhas. Eles chegaram às costas do Brasil em 31 de janeiro de 1531 com a missão de demarcar e doar 16
  • A Escuna Astro terras, para nomear tabeliães e oficiais de justiça. Martim apreendeu alguns navios franceses carregados com pau-brasil e o seu irmão aplicou pesado combate noturno contra outros navios franceses em fuga. Martim navegou ao sul e na baía da Guanabara estabeleceu uma feitoria para explorar pau-brasil. Martim era donatário de terras (pessoa da nobreza que recebia terras com direito hereditário). Martim chegou em Cananeia trazendo de Portugal vários padrões de pedra, gravados com a marca da Ordem Militar de Cristo. Na entrada do canal, ele cravou um dos marcos (ainda existe). Ele colocou um padrão para delimitar sua própria capitania, enquanto as terras ao sul pertenciam ao seu irmão Pero Lopes de Souza. Martim enviou Francisco Chaves em uma das expedições ao interior através do Peabiru, o antigo caminho ao Peru. Para conter as perdas de homens, Martim nomeou alguns Capitães-de-Guerra. Uma das expedições foi destruída pelos carijós e outra expedição retornou com quase uma centena de índios preados. Em seguida, a 26/09/1531 eles zarparam para o sul em dois navios. Assim que eles chegaram às costas do cabo de Santa Maria, à entrada do Rio da Prata, eles sofreram violento temporal. Martim naufragou perdendo muitas provisões, armamentos e preciosas vidas. Nas praias da costa norte do Rio da Prata, Martim encontrou um navio abandonado por Caboto e o preparou para navegar. Martim enviou o seu irmão para demarcar os 17° citado no Tratado de Saragoça. Pero Lopes deveria entrar no Rio Paraná acima, até ao mais distante que o navio pudesse navegar. Pero deveria escolher o melhor local para assentar os marcos de pedra. Em 12 de dezembro de 1531, Pero lançou âncoras à margem esquerda do rio, de onde corriam águas vindas de sudeste. Pero verificou a medida do sol e assentou dois padrões de pedra com a Ordem Militar de Cristo. Os padrões foram assentados em nome de El Rey sobre a margem oriental do Rio Paraná a 33° 45’ Sul. Pero Lopes havia definitivamente estabelecido a terceira fronteira do Tratado de Tordesilhas, de sul ao norte, porque o Meridiano era de polo a polo. (Diário de Bordo - Pero Lopes -1531/1532). Esta demarcação, próxima a São Pedro, restaurou somente 10° dos 17° da perda portuguesa nas Ilhas Filipinas. A 3ª fronteira havia sido movida de Laguna para o rio Paraná. A Espanha ficou com as Filipinas, enquanto Portugal recebeu o rio Paraná. 17
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Martim regressou para o norte e a 22 de Janeiro de 1532 fundeou em São Vicente, quando declarou a fundação da vila. Em seu retorno a Europa, Pero Lopes de Souza encontrou uma fortaleza em Pernambuco. Ele advertiu os invasores a se renderem, mas a resposta foi com tiros de canhão. Em resposta, Pero ordenou que suas baterias abrissem fogo. A fortaleza ficou sob fogo durante dezoito dias até ser destruída. O comandante francês foi enforcado no mesmo lugar e os prisioneiros foram enviados ao Algarves. A fundação de Santa Maria de Buenos Aires não foi bem sucedida. O assentamento foi logo sitiado e incendiado por indígenas que causou o seu abandono. Sem comida e defesa, os colonizadores espanhóis fugiram ao rio Paraná, deixando para trás Buenos Aires em chamas. Os espanhóis chegaram ao rio Paraguay em um recanto agradável, no dia 15 de agosto de 1537, dia de Nuestra Señora de Asunción. Naquele local aprazível nasceu a capital do Paraguai. Os poucos colonos espanhóis vindos com Pedro de Mendoza não eram suficientes para ocuparem a colônia de Nova Andaluzia, entre os paralelos 25° Sul e 36° Sul. Do Atlântico ao Pacífico. A solução oferecida pelo Direito das Índias (Lei espanhola sobre o direito do povo conquistado de se tornar cidadão espanhol) foi seguida por Hernando Árias de Saavedra para a colonização do lado leste do rio Paraná. Sob este sistema, a escravidão espanhola de indígenas não foi bem recebida pelos clérigos. A educação dos índios encomendados foi aplicada no assentamento das colônias americanas, como cidadãos espanhóis. Antes da União Ibérica, ocorreu a fundação da Província de Guayrá em 1570. Várias reduções (vilas) estavam sob a administração dos padres Jesuítas em território oriental ao rio Paraná. Enquanto isso, os portugueses haviam fundado ao norte do Rio da Prata a Colônia do Santíssimo Sacramento a 50 km de Buenos Aires. (A morte do rei Dom Sebastião em 1578, aos 24 anos de idade em combate contra os mouros em Alcacer Quibir e cujo corpo não foi encontrado, deixou Portugal sem herdeiros. O sucessor foi seu tio-avô, o cardeal Dom Henrique que faleceu dois anos depois, sendo o herdeiro direto o rei espanhol Dom Felipe II, iniciando a União Ibérica – Estes fatos coincidem com o 5º Império citado por Daniel no Cap 11). 18
  • A Escuna Astro No início do século XVII, para garantir o direito português, o Governo Geral do Brasil na Bahia enviou o comandante Bandeirante Antonio Raposo Tavares (força de 3000 paramilitares a procura de ouro, esmeralda e diamantes) para negociar o direito português Uti Possidetis (a terra pertence a quem a utilizar). Ele deveria resgatar a soberania brasileira em Guayrá, sul do rio Paranapanema, onde encontrou doze vilas espanholas. Ele advertiu aos jesuítas e moradores: “Esta terra nos pertence e não ao rei da Espanha”. Quinze anos mais tarde, como as vilas haviam sido parcialmente abandonadas, os Bandeirantes retornaram e destruíram as doze reduções de Guayrá (norte do Estado do Paraná). Os moradores remanescentes foram aprisionados e vendidos como escravos em São Paulo. (A política jesuíta de impedir os indígenas de Guayrá de se aproximarem dos portugueses e a constante ameaça de invasão espanhola acendem certas dúvidas. A inexistência de reclamação espanhola e a ausência de suas forças armadas nos confrontos entre bandeirantes e jesuítas, nos levam a crer na tentativa da Companhia de Jesus de estabelecer um território sem dono entre Portugal e Espanha para estabelecer uma república própria. Este seria um dos principais motivos do Marquês de Pombal os declarar traidores e expulsá-los do Brasil e 1759). O assentamento de garimpeiros em Paranaguá foi elevado à categoria de vila em 1648. Para assentar novos colonos no interior, o Governo Geral elevou a vila de Paranaguá à categoria de Capitania em 1656 e nomeou o Capitão-mor Gabriel de Lara como Capitão Povoador das terras demarcadas por Pero Lopes de Souza. Neste período, Lara fundou Curitiba e várias outras vilas no interior, reforçando a posse sobre o território Oriental até Sacramento a 30 milhas de Buenos Aires. Após o Tratado de Lisboa de 1681, eclodiram os conflitos espanhóis sobre a Colônia do Santíssimo Sacramento. Este evento levou o Marquês de Cascais, herdeiro de Pero Lopes de Souza a propor a venda da Capitania de Paranaguá em 1709 ao donatário de São Vicente por $40.000 cruzados. O governo português não concordou com a venda, antes, indenizou o Marquês. No ano seguinte, Portugal findou o sistema de capitanias e uniu as capitanias de Paranaguá, São Vicente e Santo Amaro formando a Província de São Paulo que até 1770 manteve sua fronteira no Rio da Prata. 19
  • Egberto Fioravanti Ribeiro O vice-reinado do Prata exigia a anulação da fronteira mantida entre ambas nações desde 1529. O pedido de ex-comunhão dos signatários e infratores dos Tratados de Tordesilhas e Saragoça foi exigido por Lisboa, cessando os ânimos dos espanhóis mais exaltados. De acordo com o Tratado de Madri de 13 de janeiro de 1750, ambas coroas ibéricas aceitaram a fronteira às margens do Rio Paraná. Afinal, Portugal aceitava o direito espanhol sobre as Filipinas. Entretanto, a fronteira não era aceita pelo governador espanhol em Buenos Aires e foi o suficiente para detonar um novo conflito na região. A invasão espanhola no Sul do Brasil obrigou as coroas a assinarem o Tratado de El Pardo em 1761. Os espanhóis do Prata não aceitaram nenhum tratado e a Espanha declarou guerra contra Portugal. A invasão de Cevallos em 1762, Vertis e Salcedo em 1763, cujos avanços foram detidos pelo Major Bandeira e pelo Tratado de Paris de 1763. Mas, a definição somente aconteceu após o Tratado de Santo Ildefonso em 1777. Portugal ficou com o Rio Grande do Sul e assumiu o compromisso de entregar o lado Oriental do Rio Paraná para a Espanha (Uruguai, Entre Rios e Corrientes). O Tratado de Badajoz em 1801 findou a guerra entre Espanha e Portugal. A questão de fronteira entre o Uruguai e o Brasil foi definida no Tratado do Rio de Janeiro em 1828, quando o Uruguai obteve sua independência. Em pleno período monopolista, as colônias Ultramarinas não podiam negociar com outros países. Neste tempo, o Ouvidor Rafael Pardinho tentou promover o mate de Curitiba em Lisboa. Ele enviou amostras do chá e instruções de uso, mas não foi aceito pela população. Persistente, ele pediu autorização ao rei para negociar erva mate diretamente com os comerciantes do Prata, onde não havia interesse das companhias portuguesas. Esta proposta agradou a corte e Curitiba iniciou um tímido comércio frente aos melhores preços oferecidos pelos produtores de Assunção. 20
  • A Escuna Astro I AS RAÍZES P ortugal havia iniciado uma repressiva campanha para impedir a independência brasileira. A produção de ferramentas de ferro e peças de reposição para indústrias no Rio de Janeiro, próximo da auto-suficiência, foi o sinal de perigo para Lisboa. Em muitas províncias da colônia havia fábricas de vidros, tecidos de algodão, sacos de açúcar e fibra de juta para sacos de café e roupas de lã. Através do decreto assinado pela rainha Dona Maria I em 1785, todas as indústrias foram fechadas, como forma de impedir o desenvolvimento da colônia. (Após este decreto, Dona Maria passou a ser chamada no Brasil de “A Rainha Louca”, mais foi bem recebida ao chegar no Rio de Janeiro em 1808). As mortes de Felipe dos Santos em 1720 e Tiradentes em 1792 desencorajaram os políticos brasileiros e garantiu a soberania lusitana. Durante o bloqueio continental de Napoleão contra a economia da Inglaterra, Portugal tentou manter a neutralidade política para não causar danos aos seus negócios. Londres exigiu o apoio português e persuadiu Lisboa a transferir a corte para o Brasil. Um plano secreto de fuga para o Brasil havia sido criado no século XVI, se houvesse alguma invasão sobre Portugal. O plano foi formalizado por um acordo, conforme o Ato de de Cruzeiros e Comboios de 1708 extinto em 1801 e restaurado secretamente em 1807. O plano foi executado sob a escolta da frota Inglesa comandada pelo Almirante Sidney Smith. 21
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Enquanto a população lusitana estava enfrentando as alquebradas tropas do General Junot, a estrutura administrativa portuguesa estava chegando a Salvador. Em Elba, Napoleão declarou, em suas memórias, ter sido enganado apenas por D João, quando tentou despojar Portugal. A aristocracia portuguesa em fuga ao Brasil possuía grandes negócios na Europa, África, América do Sul e Ásia. Muitos deles eram mercadores, exportadores, importadores e armadores. A frota chegou a Salvador na Bahia, onde a 8 de janeiro de 1808 foi assinada a lei de abertura dos portos às nações amigas. Alguns exportadores de açúcar desembarcaram para dirigirem seus negócios diretamente das suas indústrias em Pernambuco. Os demais exportadores seguiram para o Rio de Janeiro onde continuaram seus comércios com a Europa, África e Ásia, como se estivessem em Lisboa. A urbe colonial brasileira no Rio de Janeiro não estava provida de palácios suntuosos. A cultura popular era inepta a todo aquele requinte aristocrático. A multidão de nobres mal abrigados nos navios não dispunha de lugar para o transporte das preciosas pratarias, peças de arte e valiosas pinturas. Eles chegaram ao Brasil trazendo suas fortunas nas mãos: oitenta milhões de Cruzados, ou cem milhões de Libras Esterlinas. A metade do capital existente e Portugal havia sido lançado na fervente colônia. (Esta quantia era suficiente para a compra de duzentos milhões de sacos de café, aos preços de hoje significariam US$ 20 bilhões). Esta opulência era muito significativa para financiar a guerra de Napoleão contra a Inglaterra. As reuniões secretas pela Independência brasileira cessaram repentinamente, ofuscadas pela riqueza cintilando em toscos aposentos. A fundação do Banco do Brasil ocorreu quatro meses mais tarde. O mundo português ofereceria aos comerciantes lusitanos suas colônias para instalarem os seus estabelecimentos comerciais. Entretanto, a sociedade mercantil decidiu permanecer na corte ao lado do rei e para investir no Brasil. Três anos após a chegada da corte portuguesa ao Brasil ocorreu a Independência do Paraguai. As sucessivas ofensivas das tropas da Confederação Argentina, sob o comando de Belgrano, para restaurar a província espanhola foram inúteis. A resposta de Buenos Aires foi levantar um bloqueio comercial para impedir o transporte no rio Paraná de todos os 22
  • A Escuna Astro produtos paraguaios tais como: fumo, algodão, couro e erva mate. Para atuar contra este boicote, El Supremo (ditador paraguaio) decidiu eliminar a classe dos exportadores espanhóis e cessar o fornecimento de algodão para a Inglaterra. Estes fatos deram a Curitiba o prestígio de ser o fornecedor exclusivo de erva mate aos sedentos consumidores platinos e chilenos. Esta foi a singular oportunidade aos recém-chegados comerciantes portugueses para lucrarem nesta Comarca. Em poucos anos, as exportações de erva mate de Curitiba chegaram a equivaler 25%, comparada às exportações de chá pela China. A exportação de erva mate direcionou seus investimentos em terras até Guarapuava. Houveram investimentos à pavimentação do Caminho do Itupava; engenhos hidráulicos no rio Nhundiaquara, cais na Rua da Praia e na baía de Paranaguá. Dois estaleiros foram construídos em Paranaguá para navios de 300 tons e um em Morretes para navios menores. Os navios vindos da Europa e Estados Unidos tinham seus cascos cobertos com placas de cobre, mas nem todos. A vagarosa operação nos portos e os carregamentos demorados atrasavam os navios por três meses. Tempo suficiente para serem atacados por moluscos, como o busano em todos os portos do sul. As vistorias navais revelavam centenas de furos com vazamento e os navios eram condenados pelas autoridades. As cargas eram transferidas para outros navios e os veleiros eram vendidos em leilões a baixo preço. Estes navios eram comprados por armadores e enviados imediatamente para serem reparados nos estaleiros. Após os reparos, estes navios eram utilizados no transporte marítimo de mercadorias e passageiros entre o Rio de Janeiro e porto de Rio Grande. O comércio de lenha, madeira e arroz, entre o litoral e o Rio de Janeiro se estendeu ao Prata, à África, Ásia, Europa e América do Norte. O imediato crescimento da economia na Comarca de Curitiba na Província de São Paulo atraiu investidores, políticos e acolheu os primeiros imigrantes da Europa. Após o retorno da família real a Portugal, o direito sucessório da Dinastia de Bragança exigia a presença do Príncipe Regente em Lisboa. Para impedir o acesso de terceiros ao poder no Brasil e manter o leal apoio da força militar em Lisboa, D Pedro enviou a força portuguesa de volta a Portugal 23
  • Egberto Fioravanti Ribeiro para garantir o trono a sua filha. Ele organizou a Marinha do Brasil e convocou a Assembleia Constituinte. Após um novo chamado a Lisboa, os partidários da elite social do Rio e S. Paulo convenceram D Pedro a permanecer no Brasil. A 07 de setembro de 1822, o Príncipe Regente em viagem a São Paulo recebeu uma mensagem do Rio de Janeiro às margens do Ipiranga. D Pedro tomou conhecimento das medidas portuguesas, contrárias àquelas ditadas por ele. Dom Pedro chamou os seus seguidores às margens do riacho e declarou a Independência do Brasil. Esta data marcou o início do primeiro reinado e a busca pelo reconhecimento internacional. Os primeiros países a manifestarem apoio ao Brasil foram os Estados Unidos, México, Argentina e França. Portugal reconheceria a Independência mediante o pagamento de uma indenização de 2 milhões de Libras. Este pagamento à Inglaterra era referente a escolta da corte portuguesa ao Brasil. A lei inglesa de Escolta exigia a taxa de 2% sobre as importâncias transportadas. O valor da escolta inglesa equivalia a quatro milhões de sacas de café bom. O reconhecimento inglês seria parte de um acordo bilateral de quinze anos: fornecimento de madeira para navios; local para estaleiros; redução da alíquota de importação de produtos ingleses; proibição ao tráfico de escravos e dava à Inglaterra o direito de visita a bordo. O Imperador Dom Pedro I vacilou e desatou os laços de amizade com a Inglaterra. Uma nuvem de ameça e o emprego de força flutuou após a chegada de uma esquadra inglesa ao Rio de Janeiro. D Pedro I assinou a 23 de novembro de 1826 um acordo válido por quinze anos, para receber da Inglaterra e Portugal o reconhecimento pela Independência. No segundo reinado a 12 de março 1845, o Imperador do Brasil era D Pedro II, aos dezenove anos de idade. Ele notificou a Inglaterra sobre a expiração do prazo de quinze anos ao “direito de visita e busca“ citado naquele acordo assinado por seu pai. Em resposta, a Inglaterra informou que o Parlamento havia votado em 08 de agosto de 1845 a Lei Aberdeen, para impor aos navios de tráfico o direito de visita, aprisionamento e condenação dos seus comandantes e armadores nos tribunais ingleses. A mais conhecida expressão verbal da rainha Vitória da Inglaterra era: “Eles não existem!” A lei inglesa conhecida como Prize Money estimulou o cumprimento da Lei Aberdeen. Os navios e cargas capturados eram avaliados por um 24
  • A Escuna Astro comissário a bordo do navio apreensor. Após os registros, os navios eram levados para serem vendidos em leilões na Inglaterra. A receita bruta era dividida em duas partes: 65% para os tripulantes e 35% para o governo britânico. O valor bruto obtido para a tripulação era dividido em oito partes e distribuídos aos tripulantes do navio apreensor. O comandante da esquadra recebia uma parte; o Capitão do navio apreensor recebia duas partes; ao imediato, mestre e cirurgião era entregue uma parte; aos Tenentes e oficiais inferiores era entregue uma parte; aos aspirantes e Sargentos era entregue uma parte e aos marinheiros eram entregues as duas partes restantes. Apreensões notáveis de galeões espanhóis renderam aos marinheiros 400 salários em um mês. A autonomia do comandante da esquadra e o incentivo aos tripulantes da Royal Navy, os induziram a extremos na Ásia em 1849 ao aniquilarem 46 juncos chineses, armados com canhões de pouco alcance para a defesa da entrada para Hanói na foz do rio Tonquim. Nesta mesma data outros seis navios portugueses foram apreendidos nas costas da África, ocasionando imenso protesto de Lisboa. Após a reclamação portuguesa, esta esquadra foi transferida ao Brasil. Os incidentes com os cruzeiros ingleses nas costas brasileiras findaram em julho de 1850 quando a esquadra inglesa foi afastada destas costas. As produções inglesas de café no Ceilão e açúcar nas ilhas Maurício, utilizando a mão de obra de imigrantes cooties, não superavam a concorrência brasileira. A aplicação de mão de obra escrava na produção de açúcar e café no Brasil reduzia os preços de exportação e desestimulava a colonização inglesa na Ásia. 25
  • Egberto Fioravanti Ribeiro II A RAINHA DOS MARES Na primavera de 1849 uma frota inglesa, sob o comando do Contra-Almirante Barrington Reynolds, chegou ao Brasil. A esquadra estava sendo transferida da África por arbitrariedades praticadas contra navios mercantes portugueses. A nau capitânea, a fragata HMS Southampton, estava sob o comando do Capitão Cory e era guarnecida com 50 peças de artilharia. A frota estava composta por outros navios; a corveta a vapor com hélices HMS Sharpshooter sob o comando do Tenente John Barley, a corveta a vapor HMS Rifleman sob o comando do Tenente Crofton, a corveta a vapor HMS Tweed sob o comando de Lorde Russel, a corveta a vapor HMS Harpy sob o comando do Tenente Dalton e a corveta a vapor com rodas laterais HMS Cormorant sob o comando do Capitão Herbert Schomberg. Os cruzeiros deveriam impedir o tráfico de escravos em veleiros nas costas brasileiras. Um dos navios era designado a cada mês para fazer o serviço de correio inglês entre o Rio de Janeiro, Montevidéu e Buenos Aires. Havia os navios de apoio; HMS Crescent sob o comando do Tenente Brantley, o HMS Hermes sob o comando do Tenente Fish Burnt. Todos estes navios trabalhavam para dar apoio à esquadra, trazendo suprimentos e carvão da Inglaterra. As corvetas a vapor eram equipadas com quatro canhões laterais de calibre 64 e duas torres sobre eixos com canhões de calibre 80. O calibre dos canhões refere-se ao peso da bala de ferro em libras (0,453kg). Os navios de guerra eram também as escolas preparatórias para oficiais de máquinas, armamento e navegação. O aprendiz ingressava na 26
  • A Escuna Astro carreira aos doze anos e após quatro anos como ajudante de oficial passava por um exame de conhecimentos na Inglaterra. O nível de oficiais iniciava como Guarda-Marinha e Aspirante. Em dois anos havia os exames no almirantado em Southampton para se tornar Tenente. Aos vinte anos de idade, o Tenente poderia ser promovido ao comando de um navio. O inglês Mr Hudson era o encarregado dos negócios da Inglaterra, a serviço da inteligência inglesa no Rio de Janeiro. Ele denunciou ao Contra- Almirante Reynolds os navios brasileiros a vapor e a vela como sendo de tráfico; Fidalga, Imagem, Sem Nome, NV Paquete de Santos, Astrea, Santa Cruz, Paulina, Serêa, Leônidas, Astro, Rival, Velha de Dio e Lucy Ann. A mudança de nome do brigue “Astro”, poucos dias antes de ser visitado em Paranaguá. O mesmo motivo à queima da escuna “Rival” no estaleiro de Cabo Frio. Isto é óbvio que esta lista fora escrita após a ocorrência dos registros pelos cruzeiros, de outra maneira, estes nomes não seriam conhecidos. As apreensões no mar territorial brasileiro para obtenção do “Prize Money” indignaram não apenas o nosso povo, mas também ao lorde Hutt no parlamento inglês. Um autor sob o pseudônimo de “Anglicus” publicou em inglês no Jornal do Commércio de 29 de junho de 1850 o verso “Linhas Sugeridas por Eventos Recentes”, em protesto contra a Royal Navy. A galera “Santa Cruz” (Jornal do Commércio, 1850) O canal entre o continente e a ilha de São Sebastião no litoral paulista era rota marítima entre Santos e Rio de Janeiro. Na manhã de 02 de janeiro de 1850, a galera Santa Cruz aproximou-se desse canal levando um carregamento de 20.000 feixes de lenha para o Rio de Janeiro. O HMS Rifleman sob o comando do Tenente Crofton exigiu a parada e abordou o Santa Cruz. Após verificar os livros e ausência de indícios de tráfico liberou o veleiro para continuar a viagem. Nesta tarde, a galera Santa Cruz foi parada pelo HMS Cormorant, sob o comando do Capitão Herbert Schomberg, diante de Ilhabela. A corveta enviou dois escaleres com tripulantes armados com mosquetes para abordagem. O Tenente Luckraft em pé no escaler aguardou seus homens subirem a bordo para acompanhá-los em segurança. ─ Abordar! Os marinheiros com uniforme branco, golas largas até as costas, chapéu palheta com fitas e armados com espadas e mosquetes aproxima-se do navio. Eles sobem a bordo pelos estais do mastro principal. As ameaças com espadas apavoram os tripulantes e passageiros levando-os ao convés. O Tenente Luckraft subiu sobre a escotilha do porão e ordenou a 27
  • Egberto Fioravanti Ribeiro seus homens que procurassem qualquer indício de tráfico e pediu a presença do comandante. ─ Eu quero todos os tripulantes e passageiros no convés, agora! ─ Vamos abrir os porões e verificar a carga. Ordena um marinheiro. ─ As escotilhas estão seladas, senhor! Outro marinheiro responde. ─ Não importa, podeis quebrar os selos! O Tenente ordena. ─ Há muitas treliças, vasilhames e argolas, senhor! ─ O navio está carregado com lenha, senhor. ─ Há muitas pipas para água, senhor! ─ Este navio é de tráfico! O Tenente Luckraft sentenciou. ─ Isto é um abuso! Protestou o contramestre. ─ Estamos transportando 20.000 feixes de lenha para o Rio de Janeiro como fazemos há anos. Aqui estão os manifestos com carimbos da Alfândega. As pedras e sacos com areia são para o lastro, como fazem todos os navios. Protestou o comandante. ─ Estes documentos nada valem. Este navio é velho demais para ser levado para a Inglaterra. Temos ordens para fazer a pilhagem, desembarcar os tripulantes e passageiros e incendiar o que for imprestável. ─ Tenente, temos vários passageiros a bordo e muitas mulheres e crianças! ─ Descei todos aos escaleres e desembarcai-os na praia. Ao entardecer, os escaleres afastam-se do navio levando tripulantes e passageiros para a praia. As crianças e mulheres assustadas olhavam para o mar iluminado pelas chamas do navio incendiado diante de Ilhabela. As expressões de temor dos marinheiros os olhares de indignação das crianças e o desespero das mulheres, reproduziam a grande sombra de ameça sobre a frota mercante brasileira. O navio de passageiros “São Sebastião” (Jornal do Commércio) O vapor São Sebastião navegava às 19 horas de 23 de janeiro de 1850 nas proximidades da ilha dos Patos. O navio transportava, dos portos do norte para o Rio de Janeiro, muitos militares e passageiros, dentre os quais o Deputado João José Moura de Magalhães e o inglês John L. Hooks, cônsul do Brasil em Serra Leoa. Os passageiros caminham e conversam no convés, outros na amurada observam um navio de guerra se aproximando. O contramestre 28
  • A Escuna Astro informou ao 1º. Tenente Torrezão, Comandante do vapor, a aproximação ameaçadora de um navio de guerra. ─ Comandante Torrezão! Há um navio de guerra inglês em curso para nos cortar a frente. ─ Espero que os militares a bordo não queiram revidar qualquer agressão, se houver alguma abordagem. ─ Devemos pedir aos passageiros para permanecerem em seus camarotes? ─ Receio que não, ou estaríamos causando pânico entre as senhoras. Enquanto o Comandante do navio de passageiros orientava os seus tripulantes, o navio de guerra HMS Rifleman efetuou um disparo de advertência. O projétil levantou uma coluna de água na frente do vapor São Sebastião. ─ Parar máquinas! Ordenou ao timoneiro. Os passageiros na amurada viram o disparo sobre o mar e correram para o corredor dos camarotes. ─ Senhores, vinde a minha cabina e estareis seguros. Os marinheiros do HMS Rifleman aproximaram-se em dois escaleres e abordaram o vapor. Com violência, os marinheiros exigem que tripulantes e passageiros fiquem no convés enquanto percorrem as dependências do navio. Dois oficiais pulam a amurada e pedem a presença do Comandante. Os passageiros indignados reclamam ao Comandante Torrezão. ─ Comandante Torrezão! Isso é um insulto à soberania nacional! O Deputado João José de Moura Magalhães, da Assembleia Geral do Rio de Janeiro está furioso com aquele incidente. ─ V. Exa. não fique tão preocupado; senhor Deputado; senhores passageiros; oficiais do Exército. Eu estou com os vossos documentos e dos servos em ordem. Disse o Comandante tentando acalmar todos os passageiros. ─ Tenhais calma, deputado Magalhães. Eu falarei com os oficiais ingleses. O inglês John Hooks sabe como parar os marinheiros. ─ Mr John Hooks! Vós sois cônsul e deveis considerar que devemos primeiramente aguardar as decisões deles. ─ Torrezão! Para que tendes vós tropas armadas a bordo? ─ Senhor Deputado, nós apenas transportamos militares como passageiros. Nesta viagem estamos trazendo do norte para o Rio de Janeiro alguns oficiais e recrutas que vossa excelência deve tê-los visto a bordo. 29
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Eu farei um protesto na Assembleia Geral, como diz o Deputado Henriques de Rezende: “amigo que não presta e faca que não corta, em se perdendo, pouco importa”. Também como disse o Marquês de Pombal a Lorde Clinton: “nós podemos melhor passar sem vós do que vós podeis passar sem nós”. O Tenente Crofton estava acompanhado por dois marinheiros quando entrou na cabina do Comandante. Torrezão havia reunido todos os ilustres passageiros em sua cabine. ─ Quem é o Comandante deste navio e onde estão os documentos marítimos? Perguntou o oficial inglês. ─ O Comandante sou eu e estes são os documentos. Torrezão respondeu e apresentou os manifestos de cargas. ─ Este navio não consta nos registros do Lloyd’s Register. ─ Conforme as portarias do governo do Brasil, este navio está registrado pela Companhia Ybérica de Seguros. ─ A Inglaterra somente reconhece o Lloyd’s Register. ─ Tenente! A coroa inglesa não tem poder algum em águas brasileiras. O deputado respondeu olhando em seus olhos. ─ Eu sou cidadão inglês e cônsul do Brasil em Serra Leoa. A Marinha Real Britânica está cometendo um grave erro em ter a vós como oficial. Eu formalizarei o protesto à embaixada da Inglaterra no Rio de Janeiro contra o vosso procedimento arbitrário. Respondeu secamente o cônsul. ─ Nós estamos cumprindo ordens do Contra-Almirante Barrington Reynolds. ─ Tenho certeza que as ordens dele estão em referência contra criminosos em águas internacionais, não contra cidadãos e oficiais brasileiros em seu próprio território. Comandante Torrezão, por gentileza, conduza estes senhores aos seus escaleres. ─ Obrigado, Sr Comandante! Dispensamos a vossa gentileza. O tenente faz um sinal com a mão aos seus marinheiros e levanta o seu chapéu para se despedir e caminha de costas à porta deixando a cabine. O navio de passageiros “Paquete de Santos” (Jornal do Commércio, 1850) Diante da Ilha das Palmas em Santos no dia 10 de fevereiro de 1850, o navio a vapor Paquete de Santos foi parado pelo HMS Rifleman. Os escaleres foram arriados e aproximam-se para abordagem. 30
  • A Escuna Astro ─ Abordar! O tenente Crofton ordena a bordagem enquanto os escaleres são amarrados de contrabordo. Após seus homens armados subirem a bordo, o Tenente Crofton os acompanhou e pediu os documentos do navio ao mestre para ver os registros do navio. O comandante deu-lhe os registros da Marinha Brasileira, mas ao invés de ler os documentos apresentados, o Tenente Crofton declarou que o navio era de tráfico de escravos. O tenente ordenou aos tripulantes e passageiros que deixassem o navio em escaleres. Em poucos minutos, homens e mulheres com seus filhos foram transferidos para os escaleres e desembarcados na praia do Góes. O Paquete de Santos foi tripulado com marinheiros ingleses e enviado para venda em leilão na Inglaterra. O brigue “Polka” (Jornal do Commércio, 1850) Na tarde de 15 de maio de 1850, o brigue-escuna “Polka” de 106 tons estava atracado no cais de Macaé em carregamento de mercadorias legais. Dois escaleres do HMS Cormorant aproximam-se para fazer a visita. ─ Vamos abordar este navio. ─ Esta escuna aparenta estar em operação normal. ─ Amarrai os escaleres de contrabordo e abordai pela amurada. Os marinheiros subiram a bordo, acompanhados pelo Tenente Luckraft. ─ Quem é o Comandante? ─ Sou eu! ─ Conforme o acordo entre o Brasil e a Inglaterra, eu quero ver os documentos deste navio. ─ Vinde a minha cabina e podereis verificar os certificados do navio, os manifestos de cargas e o livro de registro de passageiros e tripulantes. ─ Estes registros não são do Lloyd's Register. ─ Este navio está sob registro da Ybérica. ─ Senhor! Alguns moradores armados estão se aproximando. Um grupo de moradores aproxima-se do cais com armas em punho e caminham resolutos em direção ao Polka. ─ Tende uma boa tarde, senhor Comandante. Todos para os escaleres. Nós voltaremos ao Cormorant. Os escaleres afastaram-se do cais e o trabalho voltou ao normal. Durante esta madrugada de 16 de maio de 1850 os trabalhos haviam cessado, dois escaleres do HMS Cormorant se aproximam novamente do brigue Polka atracado. Os prateados raios de luar em quarto crescente 31
  • Egberto Fioravanti Ribeiro delineiam o perfil das montanhas e refletem nas pequenas ondas a silhueta de dois escaleres em assalto. O Tenente Luckraft ficou em pé na proa do escaler e sinalizava com as mãos para os remadores permanecerem em silêncio. Os marinheiros aproximaram-se do brigue e fizeram a abordagem silenciosamente. Os marinheiros invadiram os camarotes e encontraram três marinheiros negros dormindo. O tenente acendeu um palito de fósforo e encontrou uma vela. Os homens acordaram-se e assutados sentaram-se nas camas, enquanto eram questionados. ─ Vós sois escravos? ─ Sim! Mas estamos embarcados como marinheiros neste navio. ─ Onde estão os demais marujos? Perguntou o Tenente. ─ Todos estão dormindo em suas casas. Respondeu o marinheiro. ─ Vós deveis abandonar este navio, agora! O Tenente ordenou. ─ Nós não podemos deixar o navio. Os três homens responderam. ─ Levai estes três para fora do navio! Luckraft ordenou aos seus homens para expulsarem os marinheiros do navio. Os ingleses chutaram os marinheiros que correram do navio para avisarem ao comandante e soaram o alarme. ─ Soltai todos os lançantes de proa para os escaleres e rebocai-o para o mar aberto. Luckraft falou aos seus homens. ─ Cortar espias e lançantes de popa! Os escaleres rebocaram o brigue enquanto um dos marujos expulsos de bordo batia o sino de alarme. Outros correram para avisar ao mestre que logo chegou correndo ao cais, abotoando sua casaca. O mestre Antônio Cláudio Pereira lamentou ao ver o seu navio sendo levado por dois escaleres. O furioso homem brandia os punhos cerrados, enquanto o povo chegava com suas armas de fogo, em vão para enfrentar os ingleses. ─ A Inglaterra perdeu a dignidade! Agora não são mais do que um reles bando de ladrões! Declarou o comandante. O confronto na Praia de Perequê (Jornal do Commércio, 1850) No dia 16 de maio de 1850, a mudança brusca do tempo é um aviso natural de que os cardumes de tainhas estão chegando. A praia de Perequê em Santos é um agradável lugar com uma praia fechada por montanhas. Alguns grupos de pescadores com suas redes de duas braças de altura por cem braças correram à praia. Eles aguardavam a chegada de tainhas para pesca com rede na praia de Perequê. Enquanto os pescadores aguardavam os sinais da pessoa encarregada de espiar as chegadas dos cardumes, eles 32
  • A Escuna Astro conversavam e bebericavam aguardente para aquecer o corpo contra o vento frio e garoa na varanda de uma casa. Um espia no alto de uma pedra na beira da praia olhava para as ondas. Sem dar o conhecido sinal do aparecimento de cardumes, o homem correu para avisar os seus companheiros. ─ Leonil! Leonil! Um escaler com gente inglesa chegou a nossa praia. ─ São os ladrões que roubaram o vapor Paquete de Santos. Dispensai a pesca e as redes de lado e chamai a todos que têm armas em casa. Nós vamos expulsar estes piratas invasores. Os marinheiros eram tripulantes de um escaler inglês, sob o comando do Guarda-Marinha James Kingston Ryan. Eles haviam sido enviados pelo tenente Crofton, Comandante do HMS Rifleman para apreender qualquer navio cargueiro brasileiro vindo de Santos. O Guarda-Marinha não sabia que o vento morno pela manhã poderia mudar para mau tempo à tarde. Todos os pescadores da costa sabem interpretar estes sinais naturais. O vento quente pela manhã e o agitado movimento das nuvens e a chuva fina à tarde avisam as pessoas nas praias e na cidade que está na hora da chegada dos cardumes de tainhas. A chuva começou quando o escaler inglês estava próximo da rota dos veleiros. O Guarda-Marinha decidiu ir para a praia, aproveitando a força do vento sul. Na praia, eles se reuniram ao redor de uma fogueira para secarem as roupas, e cozinhar algum alimento enquanto aguardavam pela mudança do tempo. Havia quase quarenta pescadores com armas aproximando-se em silêncio entre as árvores. Cada um havia preparado seus mosquetes com papel amanteigado cheio de pólvora e com balas. Eles deveriam fazer um pesado ataque como a sórdida apreensão do vapor Paquete de Santos. ─ Aproximai-vos em silêncio ao alcance de um tiro. Leonil falou. ─ Nós vamos responder aos insultos. Um pescador falava enquanto caminhava devagar com seu mosquete pronto para atirar. ─ Estamos prontos para atirar. Um pecador responde. ─ Preparar! Fogo! Leonil comandou a primeira descarga. Os gritos para pararem os tiros foram dados, mas os marinheiros sob uma chuva de balas correram a procura de abrigo atrás do escaler. O tiroteio de mosquetes, sobre os dez marinheiros, foi seguido por gritos de dor e a ordem de cassar fogo foi dada por Leonil. Um marinheiro com um tiro na cabeça tombou morto na areia e outro ferido com um tiro no ombro foi socorrido pelos companheiros. O Guarda-Marinha Ryan pediu o cessar fogo para socorrer seus homens. ─ Sr Ryan! Joseph Venner está morto e Albert está ferido. 33
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Fazei sinais com os chapéus para o cessar fogo. Um marinheiro foi morto, outro estava ferido e ambos foram recolhidos para bordo do HMS Rifleman. O Comandante Crofton denunciou ao cônsul inglês em Santos o ataque sofrido na praia de Perequê. O tenente pediu uma severa punição aos pescadores. Leonil e quarenta pescadores foram presos, mas em poucos dias foram postos em liberdade. Apenas Leonil permaneceu na prisão da fortaleza, mas os cidadãos de Santos haviam reconhecido o seu ato heroico contra a Marinha inglesa. Todos pediam sua libertação, até os seus inimigos. A sumaca “Malteza” Às dez horas da manhã no dia 18 de junho de 1850, a sumaca Malteza foi parada pelo HMS Sharpshooter. O navio de guerra estava sob o comando do Tenente John Barley, nas proximidades da fortaleza de Cabo Frio. Dois escaleres aproximaram-se da sumaca para pará-la e abordá-la. ─ Abordar! Os marinheiros reuniram os passageiros e tripulantes no convés enquanto verificavam as instalações. O Comandante Barley pediu os documentos do navio e declarou a apreensão. ─ Este navio está sendo apreendido pela coroa britânica. O tenente sentenciou o destino do navio. ─ Mas, este navio não está transportando nenhum escravo, apenas carga de gêneros e passageiros! O comandante tentou defender seu direito. ─ Todos os tripulantes e passageiros devem ir para os escaleres e levados ao HMS Sharpshooter. Os passageiros e tripulantes foram levados para o vapor de guerra. A fortaleza efetuou dois disparos ao mar, mas o navio de guerra afastou-se rebocando a sumaca. Nos dois dias seguintes, os marinheiros ingleses passaram toda a carga, velas, leme, timão, âncora e instrumentos do cargueiro para o HMS Sharpshooter. Às duas horas da madrugada de 20 de junho de 1850, os tripulantes e passageiros a bordo do navio de guerra viram a sumaca Malteza ir ao fundo às vistas da fortaleza. A sumaca “Conceição” Ao amanhecer em 20 de junho de 1850 a sumaca Conceição navegava a nove milhas de Cabo Frio. O HMS Sharpshooter ordenou ao comandante da sumaca para arriar as velas. Os ingleses abordaram e reuniram os passageiros e tripulantes no convés, enquanto os marinheiros 34
  • A Escuna Astro quebravam os cadeados dos porões com os lacres da Alfândega. ─ Quem é o Comandante? ─ Sou eu! Mestre José Netto! ─ Este navio tem muitas barricas com água. ─ Água salgada para lastro como fazem os comandantes. ─ Todos os tripulantes e passageiros deveis embarcar nos escaleres e sereis levados ao HMS Sharpshooter onde estão os tripulantes da sumaca Malteza, para julgamento na Inglaterra. ─ Somos brasileiros honrados e fazemos esta linha há mais de vinte anos. Este navio não está sendo aplicado em nenhum tráfico de escravos. ─ Fundearemos próximo da ilha de Itaipu, enquanto a escuna estará sendo equipada para navegar para a Inglaterra. Eu irei ao Rio de Janeiro pedir instruções ao Contra-Almirante Reynolds. Os passageiros e tripulantes embarcaram nos escaleres e foram levados ao navio de guerra. O Tenente foi em seu escaler ao HMS Southampton e retornou ao anoitecer. Ele recebeu ordens do Contra- Almirante Reynolds para enviar o navio para a Inglaterra e desembarcar os passageiros e tripulantes dos dois navios apreendidos. A angústia estava nas faces dos passageiros quando eles viram a sumaca Conceição navegar para a Inglaterra com todos os seus pertences. Às dez horas da manhã de 22 de junho, os passageiros e tripulantes foram lançados na praia de Santa Luzia. O brigue-escuna “Rival” Em 26 de junho de 1850, o HMS Cormorant mantinha as máquinas funcionando e seus canhões voltados para a fortaleza diante do canal de Cabo Frio. O Tenente Luckraft aproximou-se do forte com três escaleres. O Tenente desembarcou na praia e entregou uma cópia do acordo ao Sargento que o aguardava. ─ Sargento, esta é uma cópia do acordo entre o Brasil e a Inglaterra. Nós entraremos no canal para verificarmos a presença de navios de tráfico. O HMS Cormorant estará aguardando por nós na entrada do rio. O Tenente pediu permissão para entrar. ─ Muito bem! Como não há navios de tráfico dentro do canal, vós podeis passar para o rio. Os três escaleres entraram no rio e logo viram um brigue-escuna com dois mastros de velas direitas ancorado diante de um estaleiro, em estágio final de construção. A escuna Rival pertencia ao armador Francisco Gonçalves Lages. Muitos carpinteiros e tripulantes estavam trabalhando no 35
  • Egberto Fioravanti Ribeiro convés. Os escaleres ingleses remaram diretamente à escuna. ─ Olhai a escuna! Ela tem quase cem pés de comprimento. Comentou um dos ingleses. ─ Vamos nos aproximar para abordagem. Falou o Tenente. No convés do navio, os carpinteiros observaram os marinheiros ingleses aproximando-se da amurada. Os trabalhadores não permitiram aos marinheiros ingleses de irem a bordo. Todos gritavam aos ingleses para se afastarem da escuna. ─ Não vos permitirei a bordo! Não há nada para ser visto por um cruzeiro quando um navio está sendo construído. Falou o contramestre. ─ Eles são quase cinquenta homens armados. Um dos carpinteiros falou preocupado. ─ Dai-me um lingote de ferro do lastro. Pediu o contramestre. ─ Eles estão subindo para bordo pelos estais, Senhor. ─ Aqui está a barra de ferro do lastro, Senhor. ─ Os ingleses estão impondo um clima de terror em nosso mar territorial. Veremos se o escaler deles suporta esta barra de ferro. Disse o contramestre arremessando o lingote sobre o barco com vários marinheiros. ─ Vós fizestes um perfeito disparo no barco, senhor! ─ O escaler não afundará porque está provido de tanques de flutuação nos castelos. O contramestre comentou assim que viram água do rio invadir o escaler. ─ Eles estão fazendo a abordagem com tiros e estocadas de espada. Devemos abandonar o navio, Senhor? ─ Por que o comandante da fortaleza não faz nada? ─ Eles estão expulsando do navio toda a tripulação e carpinteiros com golpes de espadas, senhor. Falou um carpinteiro preocupadamente. ─ Ajudai-me a levar este baú ao meu escaler. Pediu o contramestre. ─ Imediatamente, senhor! ─ Abandonar o navio! O contramestre ordenou o abandono do navio antes que alguém fosse ferido. Enquanto o contramestre orientava seus homens, ele não observou um oficial inglês abordar o navio pelos estais. Luckraft saltou no convés e caminhou lentamente com suas duas pistolas engatilhadas nas mãos. ─ Alto! Vós danificastes o meu escaler! O Tenente Luckraft aproximou-se a dez passos do estupefato contramestre. O oficial disparou no rosto do homem que gritou e caiu no convés. ─ O contramestre foi alvejado! Um marinheiro avisou, enquanto os 36
  • A Escuna Astro tripulantes e carpinteiros mergulhavam no canal e nadavam para o estaleiro. A tripulação a bordo viu o contramestre ser covardemente ferido e desceram aos barcos que se aproximaram para os levar. ─ Chamai um médico para o contramestre. Gritou um marinheiro a um dos barqueiros nas proximidades. ─ Ele está bem? Perguntou o barqueiro. ─ Não sei! Ele recebeu um tiro no rosto. Após algum tempo, o barco da alfândega aproximou-se do Rival trazendo um médico. ─ Afastai-vos do navio! O Tenente Luckraft advertiu os tripulantes do barco a Alfândega, enquanto ordenava aos seus homens a colocarem o seu escaler em segurança. ─ Sou médico e há um homem ferido a bordo. ─ Apenas o médico poderá subir a bordo, os demais deverão aguardar no escaler. Luckraft advertiu os remadores. O médico aproximou-se do contramestre ferido e fez um curativo para estancar a hemorragia. O Tenente Luckraft retirou a bandeira nacional do mastro da popa e a lançou sobre o convés para substituí-la pela inglesa. ─ Este homem precisa ser levado ao hospital imediatamente. ─ Levai-o deste navio! Ordenou o tenente inglês. ─ Vós deveis respeitar o pendão nacional. Respondeu o médico. ─ Esta bandeira nada vale! Falou o tenente com desprezo. Para desafiar o brasileiro, o Tenente sacou sua espada e cortou a Bandeira do Brasil em tiras que caíram no convés, enquanto o médico retirava o contramestre ferido do navio. O escaler da alfândega afastou-se ao estaleiro, enquanto o Rival estava sendo rebocado para o Cormorant. ─ Vamos rebocar o navio para o outro lado do rio! Ordenou o tenente. ─ Tenente! Fora do canal é muito raso. Respondeu um marinheiro. ─ Depressa! O povo está chegando com armas em punho. Nós devemos ficar fora do alcance dos tiros. ─ Nós estamos encalhando! Um marinheiro o avisou enquanto o navio aproou para nordeste e encalhou. ─ Se não pudermos levar o navio, vamos apanhar combustível para incendiá-lo. A população armada aproximou-se protegida pelas pedras e escolheu a melhor distância para atirar. ─ Olhai para o escaler! Um barqueiro avisou ao povo armado. 37
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Eles estão abandonando o Rival. Falou um dos carpinteiros em outro barco, julgando que os ingleses quisessem deixar o navio para trás. ─ Eles deixaram muitos homens a bordo para salvar o escaler com o casco furado que flutua apenas com os tanques dos castelos. Um marinheiro reconsiderou a saída dos ingleses. ─ Senhor, os brasileiros estão se reunindo atrás das pedras. ─ Eles não farão nada enquanto o navio estiver aqui. Mas logo terão más notícias. O Tenente lhes respondeu. O escaler atracou no HMS Cormorant e alguns marinheiros subiram a bordo e retornaram com baldes nas mãos. O escaler retornou rapidamente ao Rival onde o Tenente Luckraft os aguardava. ─ Podeis derramar querosene no convés! Eu vou deitar fogo no navio com os pedaços da Bandeira brasileira. O Tenente Luckraft aproximou a pistola de uma tira da Bandeira embebida em querosene e fez o disparo. O fogo se espalhou rapidamente sobre o convés, cabos de sisal e velas. Os escaleres afastaram-se da escuna Rival ardendo em chamas ao lado do canal. A população exasperada começou a atirar contra os marinheiros ingleses. O comandante da fortaleza ficou sem ação diante do poder de fogo do navio de guerra e nada fez. ─ Abaixai-vos e respondei ao fogo, se quiserdes voltar com vida. O Capitão Schomberg recebeu o Tenente com seus homens. Ele recomendou ao comissário Sr Robins o recebimento do relatório do Tenente Luckraft para fazer a avaliação da escuna Rival para o Prize Money. ─ Sim, Capitão! Eu darei bom valor a este navio. ─ Mestre Sullivan, tomai rumo sudoeste em direção ao Rio de Janeiro e depois a Paranaguá! O brigue-escuna “Velha de Dio” No dia 04 de julho a escuna Velha de Dio saiu do Rio de Janeiro com destino a Campos. Este era um navio de 102 tons sob o comando do mestre Francisco José Pimenta. A escuna foi parada pela corveta inglesa HMS Tweed, sob o comando de Lorde Russell. Os tripulantes da escuna e passageiros foram enviados ao navio de guerra. As mercadorias, instrumentos, leme e âncora foram levados para a corveta. Após toda carga haver sido retirada, o navio foi metido a pique no dia 07 de julho de 1850. 38
  • A Escuna Astro O vapor “Carioca” Os moradores de Angra dos Reis abriram fogo contra os marinheiros ingleses quando estavam chegando no cais para apreender o vapor “Carioca”. O navio paquete de 104 tons, de propriedade da Companhia Ubatubense, era aplicado no transporte de passageiros e cargas. O mestre do navio estava embarcando mercadorias no cais, quando pediu o auxílio da Polícia. ─ Delegado! Três lanchões ingleses estão chegando e o mestre José Narciso de Almeida tem somente 16 tripulantes. Ele precisará da nossa ajuda. ─ Fazei soar o alarme para chamardes os moradores. A bordo dos escaleres, os ingleses ouviram o som do sino e tiros. Eles sabiam o que havia acontecido em Perequê e não quiseram sofrer as mesmas agressões. ─ Senhor, o povo está disparando com mosquetes. ─ Retornar! O Tenente os ordena para voltarem. ─ Cessar fogo! Os escaleres ingleses estão retornando ao seu navio. O Chefe de Polícia dá ordens aos seus homens. ─ Vede! Os ingleses ouviram o alarme e estão voltando. ─ Eles sabem o que os brasileiros estão fazendo. ─ Eles devem estar com as calças amareladas. O Chefe de Polícia era a autoridade em muitas cidades onde não havia Quartel da Guarda Nacional. Por mais de trezentos anos, os moradores eram organizados em milícias para defender a terra contra invasões. Povo Indesejável A traição inglesa em Cabo Frio quebrou o bom relacionamento com o povo brasileiro. Um clima de hostilidade tomou conta do Rio de Janeiro. No ponto da barca de São Domingos às seis horas da tarde em 07 de julho de 1850, três marinheiros ingleses aguardavam a barca de Niterói para a corte e o povo em revolta iniciou agressão física. ─ Ingleses ladrões! ─ Vamos lhes ensinar a não roubarem navios. ─ Vamos bater neles com achas de Lenha! ─ Tomai isto ladrão! Um homem acertou um dos marinheiros e logo todos são agredidos. ─ Vós estais loucos? Esta situação não será resolvida com 39
  • Egberto Fioravanti Ribeiro agressões. Um comerciante de Niterói enfrentou a população para proteger os marinheiros. ─ Sr Brito! Vós sabeis que a única linguagem que os ingleses entendem é a da pancadaria. ─ Então, vamos espancá-los! Um jovem está bravo e outro homem bate com o pé no rosto ensanguentado do marinheiro caído. ─ Vós deveis aguardar a decisão da Assembleia Geral. ─ Sr Brito! Nós vamos ensinar a estes ladrões o que seus pais não lhes ensinaram. ─ Vós não deveis prejudicar o andamento dos processos que estão em curso no Rio de Janeiro. Voltai para vossas casas. ─ Sr Brito, esta situação vai acabar em tragédia. ─ Vamos deixá-los ir em paz, por favor! Voltai para casa! O Sr Brito fala tomando o marinheiro pelos braços para levantá-lo ─ Obrigado, senhor! Os marinheiros ingleses sob a proteção do Sr Brito ficam aguardando a barca. Nesta mesma tarde, diante do Hotel Pharoux, três oficiais ingleses estavam deixando o Hotel. Eles sofreram uma repentina agressão dos transeuntes. A polícia chegou rapidamente e findou a agressão. No Largo do Paço um marinheiro foi insultado por populares que se aproximavam com achas de lenha nas mãos. ─ Cuidai das vossas mercadorias! Tem ladrão inglês na freguesia! ─ Este já cansou de roubar a rainha e agora rouba nossos navios. ─ Agradecei a Deus por não estardes na Arábia. De outra forma, os muçulmanos cortariam a vossa mão. O marinheiro recebeu vários socos e se defendeu das pauladas até cair. O homem entendeu que estava apanhando porque poderia ser um inglês, então, ele avisou que não era inglês. ─ Hei! Eu sou alemão! Explicou o homem com sotaque germânico. ─ O que foi que ele disse? ─ Não o espanqueis mais! ─ Eu sou alemão! Repetiu o marinheiro Os agressores ficaram muito envergonhados e o auxiliaram a se levantar. Eles lhe deram um lenço para limpar o sangue. ─ Desculpai-nos! Mas, a vossa fisionomia é de bretão. ─ Esperamos que compreendais os nossos motivos contra os ingleses. ─ Em vosso lugar, qualquer um faria o mesmo, ou pior! 40
  • A Escuna Astro III A PARTIDA DO SAGAZ Na tarde de 06 de junho de 1850, havia inúmeros navios fundeados na Baía da Guanabara. O brigue-escuna Sagaz estava fundeado diante do Largo do Paço, aguardando o despacho da Alfândega e as últimas instruções do Agente marítimo. A escuna Sagaz de 175 toneladas, dois mastros com velas de armação direita estava de partida para o sul. O contramestre estava ocupado dando ordens aos marinheiros. Os marujos movimentavam-se no convés, subindo nos mastros e preparando as velas de armação direita para deixarem o porto. O cais do Largo do Paço continha pequenos barcos e saveiros fazendo o transbordo de mercadorias aos veleiros fundeados em operação de embarque e descarga. Muitos homens carregavam sacos na cabeça, pequenas caixas ou rolavam pesadas barricas com mercadorias. Próximo a praça, ao longo da praia, estava o Mercado do Peixe, onde os homens estavam levando víveres para venda. Um conhecido menino negro passou cantarolando para anunciar suas cocadas num tabuleiro sobre a cabeça. “Oia cocada, freguesia!” “É feita de coco-da-baía”. Dois negros traziam caixas com sabão em carriolas de duas rodas e as depositavam ao solo na beira do cais do Paço, diante de um homem que fazia anotações a lápis em uma caderneta. ─ Oia! É o Nhonhô dos cocos. ─ Mecê tem uma moeda de dez? Perguntou o homem que carregava a carriola ─ Não! Respondeu o outro enquanto empilha as caixas no cais. ─ Vós quereis cocadas? Perguntou o homem com a caderneta olhando seriamente para eles. 41
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Sim, siô! ─ Nhonhô! Quanto custa isso? O homem perguntou. ─ São dez réis cada uma! ─ Dai-lhes duas cocadas. O homem retirou duas moedas de sua guaiaca e as entregou ao menino que retirou o pano que encobria o tabuleiro e ofereceu as cocadas aos trabalhadores. O dois agradeceram pelas cocadas ao homem de camisa branca e gravata azul que continuou as anotações na lista de cargas. Os escravos descarregaram as caixas e retornaram a um armazém ao lado do Hotel Pharoux. Eles estavam trazendo um lote completo de uma centena de caixas para a cidade de Campos a embarcar em um outro navio. O homem trabalhava para a Alfândega como capataz e tinha a responsabilidade de fazer a contagem e a verificação do peso movimentado pelo terno. Os escravos pertenciam a alguns proprietários e eram requisitados diariamente pelos agentes de navios mercantes. O pagamento aos seus donos era conforme a taxa de capatazia estabelecida pela Alfândega e pagas pelos exportadores. Um rápido tropel de cavalos encobriu os gritos e cantigas, chamando a atenção de todos para se afastarem. Uma carruagem com toldo arriado e puxada por uma parelha de cavalos aproximou-se rapidamente do cais do Largo do Paço. Um passageiro vestindo terno branco olhava para os navios fundeados, ele estava procurando pelo “Sagaz”. Ao aproximar-se da beira do cais, o homem bateu na lateral da carruagem com uma bengala, sinalizando a parada. Ele conseguiu identificar o nome do navio, pintado com letras brancas sobre tabuleta de madeira preta com moldura marrom. ─ Aquele é o Sagaz! O brigue-escuna que está a sair para Rio Grande. O homem falou com pesado sotaque lusitano aos passageiros na carruagem. Ele lhes falou apontando para uma escuna fundeada no meio de um aglomerado de navios no ancoradouro próximo da Ilha das Cobras. A carruagem parou diante do Chafariz da Pirâmide e os três homens desceram e contemplaram a bela escuna envernizada com dois mastros. O homem de terno branco era o agente marítimo. Ele segurava uma pasta de couro e tinha uma bengala que agitou no ar para chamar um barqueiro. Outro homem mais jovem vestia um guarda-pó branco e trazia uma valise de couro. O terceiro homem vestia um terno cinza e também trazia uma valise de couro. Um barco a remos aproximou-se da escada para os levar ao Sagaz. Eles desceram na escada de pedra para irem a bordo do barco. Após duzentas jardas (182m), o barco a remos chegou à escuna. Os três homens foram recebidos pelo Comandante no portaló. ─ Boa-tarde, Sr Souza! ─ Boa-tarde, Sr Franco! Eu quero vos apresentar o Dr Mendes. Ele 42
  • A Escuna Astro veio para examinar os tripulantes e passageiros. Este é o Sr Samuel, o Guarda-mor da Alfândega que veio para verificar os lacres dos porões antes da partida. O agente falou enquanto apertava as mãos de Franco. ─ Prazer em conhecê-los. Sejam bem-vindos a bordo! O Comandante os recebeu com aperto de mãos. ─ O doutor veio para ver quão saudáveis estão os passageiros e tripulantes. O agente lhe falou. ─ Certamente, Doutor! Tu podes examinar a todos eles. ─ Obrigado, Sr Comandante! O doutor agradeceu. ─ Sr Samuel, a carga foi apeada e as escotilhas foram lacradas por outro Guarda-mor. O Comandante explicou. ─ Esta é a última verificação como de costume. O Guarda-mor disse. ─ Por favor, Comandante! Convocai todos os passageiros e tripulantes para virem ao convés, eu preciso vê-los. O doutor pediu ajuda. ─ Contramestre! Chama tu os passageiros e tripulantes ao convés. ─ Sim, Senhor! ─ A cidade do Rio de Janeiro está seriamente infectada pela febre e não há remédios para curar o povo. O uso de gargarejo com mercúrio e massagens não está melhorando a saúde das pessoas em tratamento. Comentou o médico. ─ As pessoas falam sobre o navio de guerra francês que partiu do Rio de Janeiro e ficou em quarentena no Uruguai. Os jornais dizem que morreram cinco homens e outros quarenta sofreram com a febre, é isto mesmo? Perguntou Franco. ─ Sim! Isto aconteceu aos tripulantes franceses do vapor de guerra “Gassendi”. Eu li nos jornais de Montevidéu sobre dezenas de mortos em outros navios de guerra dos Estados Unidos, da França e também da Inglaterra. Comentou o Sr Souza. ─ É lamentável o que tem acontecido aos tripulantes destes navios. A febre no Rio de Janeiro está impiedosa. Todos lamentam sobre a perda do jovem príncipe Dom Pedro Afonso. A princesa Dona Isabel também foi contaminada pela febre. Felizmente, a princesa sobreviveu. O médico contou. ─ O infante Dom Pedro era feliz e amado por todos. Sua morte foi uma grande perda. O agente comentou. ─ Com licença senhores, os passageiros estão chegando. Comentou o médico afastando-se dos demais. As passageiras sentaram-se em algumas cadeiras colocadas no 43
  • Egberto Fioravanti Ribeiro convés. Uma jovem loura de cabelos encaracolados, acompanhada por uma jovem aia, chamou a atenção do Comandante. Eles trocam olhares e Franco sorriu, levantando o chapéu para saudá-la. ─ Eu tenho os manifestos e as autorizações para o “Sagaz” deixar o porto, senhor Comandante. ─ Por favor, Sr Souza, vamos a minha cabina. O Comandante gesticulou o braço para a porta da sua cabina. Em uma última olhadela para os passageiros, Franco notou a jovem olhando para ele, mas ela desviou o seu olhar para ver a ilha. O agente marítimo entrou na cabina e colocou o chapéu e a bengala em um cabide fixo na parede. Ele abriu a pasta e apanhou alguns documentos para dar ao Comandante que ocupou seu lugar à mesa. ─ Por favor, sentai Sr Souza! Disse o Comandante. ─ Obrigado, Comandante Franco! Aqui estão os registros dos passageiros, dos servos, autorização da Polícia Marítima e manifestos. Os manifestos estão limpos e estão com os carimbos da Alfândega. As apólices de seguro são da Companhia Ybérica. Somente as mercadorias estão seguradas, porque os custos são mais baixos do que os do Lloyd’s Register. Entretanto, por motivo de economia, o navio não está no seguro. Todos sabemos da rivalidade entre as seguradoras. A Inglaterra tem dificuldades com a Companhia Ybérica de Seguros e do jeito, em poucos anos ninguém mais ouvirá falar do Lloyd’s Register no Brasil. Explicou o agente. ─ Não há razão para uma companhia de navegação pagar o caro seguro do Lloyd's, enquanto existe a Ybérica oferecendo apólices de seguro a preços mais baixos. De qualquer forma, este navio somente faz cabotagem e todos nós conhecemos muito bem as baías, canais, pedras e portos. O Sr Le Blon esteve aqui hoje pela manhã para verificar as mercadorias. Franco contou. ─ Ele é o inspetor da Buxarco & Romaguera que é a corretora da Ybérica. O Sr Coelho vos informou da vossa escala em Santos para comprar café para o nosso cliente de Rio Grande? ─ Sim! Ele trouxe o dinheiro hoje pela manhã para o pagamento de cem sacos de café e para pagar os impostos em Santos. Eu comprarei quinhentos fardos com erva mate empacotada e duzentos sacos com arroz em Paranaguá. Se não houvessem tantos impostos, o lucro dos consignatários com a venda de carne seca e couro seria maior. ─ A taxa do império de 12% está muito elevada e vários negociantes do Rio de Janeiro já reclamaram contra o privilégio de 8%, dado para a Inglaterra. De qualquer maneira, se houver algum interessado em transportar madeira de Paranaguá para Rio Grande, podeis utilizar a praça de ré. 44
  • A Escuna Astro ─ O Sr Coelho falou-me de novas apreensões de navios de carga feitas por alguns cruzeiros de guerra ingleses... O Comandante Franco disse. ─ Realmente! A situação ficou grave depois da chegada da esquadra inglesa que estava na África. Agora os navios brasileiros não têm mais paz em nossas próprias costas, nem sequer nos portos. Os passageiros são lançados na praia e os armadores estão inseguros. Eu peço a Deus para vos proteger, para não acontecer nada de mal durante a viagem. ─ Obrigado, Senhor Souza! Franco agradeceu ao seu agente. ─ Já fizestes a matrícula dos tripulantes na Capitania dos Portos? ─ Sim! Todos nós já estamos com as matrículas no rol da Capitania dos Portos do Rio de Janeiro. O Sr Coelho registrou os documentos do navio e do estaleiro. Tudo está de acordo com a portaria da Capitania dos Portos. ─ O mestre Nascimento chegou ao Rio a dez de maio com a escuna “Estrela Brilhante”. Ele partirá amanhã a Paranaguá com o Comandante Gio Batta Rossi e com o Comandante Severiano. Eles passarão por vós em Santos e se houver algum problema, conte com a ajuda deles. ─ O mestre Nascimento esteve aqui ontem e conversamos sobre o que fazer em caso de apreensão. De qualquer maneira, se tudo correr bem, em duas semanas nos encontraremos em Paranaguá. ─ Com licença, senhores! Já examinei todos os tripulantes e passageiros. Disse o médico ao entrar na cabine com o Guarda-mor. ─ Como eles estão, doutor? Franco perguntou-lhe. ─ Eles estão bem! Todos estão muito bem e o navio está liberado para partir. Se alguém apresentar febre alta, isole-o em uma cabina. ─ Senhor Comandante, peço que vós entregueis esta carta de felicitações ao Presidente da Câmara de Vereadores de Paranaguá. ─ Será entregue! ─ Estou expressando os meus sentimentos por não atender a este honorável convite para a solenidade de posse dos vereadores. Mas, eu declaro a minha solidariedade à nova província. Tende vós todos uma boa viagem! O agente formalizou o pedido de desculpas e entregou o envelope ao Comandante. Em seguida, ele levantou-se e retirou o chapéu e a bengala do cabide e deixou a cabine, acompanhado pelo médico e pelo Guarda-mor. No convés, os homens acenaram para o Comandante e desceram ao barco. ─ Boa viagem, Sr Comandante. O Sr Souza acenou com a bengala, enquanto descia a escada do navio. ─ Obrigado, senhores. Franco acenou com o seu chapéu. 45
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Os três homens desceram ao barco que os aguardava e seguiram ao cais do Paço. O barco a remos foi amarrado à escada de pedra e o agente ordenou ao mestre da embarcação que aguardasse a chegada dos carros com suprimentos para levá-los o navio. Os três homens entraram na carruagem enquanto duas carroças carregadas com mantimentos se aproximava do cais. O contramestre na amurada do navio avisou ao Comandante do rápido carregamento. ─ Comandante! O rancho de bordo está chegando. ─ Contramestre! Prepara todo o pessoal! Partiremos assim que terminem o embarque dos suprimentos, não podemos perder a força da maré e o vento. ─ Certamente, senhor! O contramestre fez sinais aos marinheiros para auxiliarem na descarga do barco para o navio. Os marinheiros desciam e subiam rapidamente a escada carregando cestos com frutas e verduras. ─ Recolher a escada! O contramestre deu ordens aos marinheiros marinheiros que puxaram a escada para o convés e a amarraram na amurada. ─ Armar as velas mestras! Levantar âncora! O Comandante Franco, com um megafone de latão, deu as ordens à tripulação. Os operários do cais e parentes dos viajantes e transeuntes observaram a saída do navio. Eles acenaram com lenços brancos para os passageiros a bordo. A brisa do mar soprava sobre as velas e movia o navio vagarosamente com rumo ao canal. O timoneiro fez rumo da proa para a barra, deixando o ancoradouro. ─ Soltar as velas de popa! Alguns passageiros acenavam e outros observavam o piloto girando o timão para levar o navio para fora da baía. Os passageiros na amurada correram ao castelo de popa e continuaram a acenar. As pessoas em terra viram o veleiro afastar-se lentamente do ancoradouro do Rio de Janeiro. ─ Içar bujarronas! O Sagaz com as velas enfunadas aproximou-se do mar aberto na barra. Os passageiros na amurada do convés de popa olharam para a cidade rodeada por montanhas. O cozinheiro fez soar a sineta da cozinha, convidando os passageiros para o jantar às 17:00h. No refeitório, as mesas com borda alta estavam guarnecidas por aias que mantinham em ordem as travessas de porcelana, pratos e talheres. Os passageiros sentaram em lugares desconfortáveis, levemente inclinado para estibordo (lado direito). O jantar foi cuidadosamente servido no aconchegante veleiro. ─ O tempero da salada está bem para ti, madame? 46
  • A Escuna Astro ─ Sim Maria, obrigada! Sirva este prato ao Sr Cordeiro, por favor! ─ Tu não gostarias de jantar em nossa companhia, Comandante? Um passageiro convidou o Sr Franco em visita ao refeitório, em meio ao som de garfos e pratos. O Comandante Franco, com largo sorriso, aproximou-se da mesa onde havia uma família de sulistas com destino a Rio Grande. ─ Espero que todos apreciem este jantar. Hoje temos verduras frescas, mas depois de amanhã estarão murchas. Portanto, façam todos bom proveito, porque até chegarmos em Santos, o jantar será sem saladas verdes. ─ Tu poderias plantar uma horta no convés. Falou a senhora. ─ É impossível, Madame! Por isso, nós gaúchos não dispensamos o verde chimarrão. ─ Este é um segredo da “campanha”. O Sr Cordeiro completou a frase do Comandante sulista. Todos riram e o Comandante pediu licença e dirigiu-se a outra mesa. Após o jantar, alguns marinheiros sentaram-se sobre cabos enrolados e conversavam no convés de popa. Outros saboreavam cachimbos, charutos e outros sentados participavam do delicioso e quente chimarrão. Um marinheiro dedilhou o violão e outro o acompanhou com um tambor dos Açores e cantavam ao ritmo celta várias melodias sulistas. O navio estava levemente inclinado pelo vento e os passageiros caminhavam cuidadosamente no convés. Eles olhavam para as montanhas do Rio de Janeiro e se divertiam com a alegre música. A noite caía e muitos passageiros se recolheram aos seus aposentos. A jovem passageira de cabelos louros encaracolados permaneceu com sua aia na amurada. Elas observaram a aproximação do Comandante. ─ Boa noite, senhorita! Aprecias a música sulista? O Comandante Franco perguntou-lhe com forte sotaque gaúcho e com verbo conjugado na segunda pessoa do singular. ─ Boa noite, senhor Comandante Franco. Sim! Eu gosto destas músicas. Elas me levam a lembrar as óperas bufas, como La Cantatrice Villane do italiano Valentino Fioravanti e Il Barbieri di Seviglia de Rossini no Teatro de Lisboa. ─ Tua juventude me surpreende. Tu és muito bonita e charmosa, além de demonstrar muita sensibilidade nas artes. ─ Obrigada! ─ Como soubeste o meu nome? ─ Eu o li na coluna de anúncio de navios do Jornal do Commércio. Desculpe-me por não haver lhe falado, o meu nome é Laura. 47
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Não pude deixar de te observar quando foste chamada pelo médico. O teu chapéu encobria os teus cabelos, mas o sol persistente adornava em dourado os caracóis caídos nos teus ombros. Por um momento, a jovem tremeu e em sua mente, ela viu sua própria imagem no convés, como se estivesse assistindo tudo com os olhos dele. ─ A paisagem do Rio de Janeiro é encantadora, não concordais? Ela falou somente para tomar o controle de si novamente. ─ Esta paisagem, as montanhas... Tudo é esplêndido, mas apagam- se diante de ti. ─ Pelo vosso sotaque, eu diria que sois gaúcho. Estou certa? ─ Sim, tu estás certa! Sou gaúcho de Rio Grande e a senhorita? ─ Eu sou de Olinda, o senhor é casado? ─ Viúvo! Tenho uma filha... Luciana... Três anos... ─ Sua esposa deveria ser uma pessoa muito linda. ─ Ela era muito carinhosa. Faleceu no ano passado. ─ Eu sinto muito! A jovem respondeu com real sentimento. ─ Esta perda atingiu profundamente a Luciana. A senhorita está comprometida? ─ Eu tenho um pretendente, mas ficou em Coimbra. ─ É estudante? ─ Sim! Ele será um excelente advogado. ─ Gostarias de um cálice de licor na minha cabina? ─ Aceito! A viagem será longa e monótona. Como não há nada para se ver durante a noite..., então... ─ Madame! A serva de Laura a puxou pelo braço e a repreendeu sussurrando. ─ Joana! Tenho eu que vos ordenar? Ficai quieta e ide a minha cabina, agora. Não digais uma só palavra e apenas aguardeis por mim. O Comandante somente está sendo gentil. Laura sussurrou para a sua aia. ─ Mas... o coronel, o vosso pai ordenou-me... ─ Vós deveis fazer somente o que eu vos digo. Não deis atenção a mais ninguém. A jovem subjugou a sua aia com calma. A noite mergulhava em profundo silêncio e espessa escuridão. Apenas o vento soprava sobre os cabos entoando doce melodia aos acordes das fortes rajadas de vento sobre os panos das velas que retumbavam como alegres tambores. No alto da gávea, o vigia sob uma lâmpada a óleo de peixe 48
  • A Escuna Astro batia o sino pausadamente. De vez em quando, ele olhava para trás ao horizonte encoberto pela longa flâmula verde e amarela que serpenteava sobre as velas do mastro mezena. No convés, um casal entrou na cabina do comandante, tenuemente iluminado, enquanto uma mulher negra descia aos camarotes da popa. Na madrugada de 11 de junho de 1850 o Sagaz havia passado pela ilha de São Sebastião e aproximava-se da barra de Santos. O vigia no alto da gávea bradou com a mão esquerda em concha à boca e apontando com a direita. ─ Barra de Santos à vista! O piloto ordenou a um marinheiro para comunicar ao comandante em sua cabina a aproximação da barra. ─ Barra de Santos, Senhor! O marinheiro bateu na porta, avisou o comandante e retirou-se O comandante acordou com os toques na porta e viu o rosto da sua amante adormecida. Ele a beijou suavemente até que abrisse os olhos. ─ Bom-dia! Deverias ter ido ao teu camarote mais cedo. ─ Quem haveria de se importar comigo? Eu sou apenas uma passageira com destino à Província de São Paulo. ─ Eu me importo contigo e não permitirei nenhum escândalo contra este teu perfumado corpo de seda. ─ Vós me olhais com ternura e eu com extrema paixão. ─ Guardarei em meu coração todos os sentimentos dos teus olhos brilhantes. A suavidade da tua voz me fortalece para enfrentar o dia. ─ Uma mulher não consegue ocultar as chamas da sua paixão, nem fugir aos rogos do seu coração abrasador. ─ Espero que tu saibas o que estás dizendo. ─ Estou certa que vós sabeis disso muito bem, Comandante. Nós pertencemos à primeira geração desta nação soberana, cujo nome é Brasil. Isto quer dizer que possuímos os mais autênticos sonhos. Nossas almas estão vivendo em uma atmosfera romântica e empolgante. Isto jamais foi sentido por aqui nos últimos quatro séculos. ─ Os marujos bem sabem que as jovens na tua idade são deliciosas amantes, senão dedicadas esposas ou excelentes mães de família. ─ Minha mãe casou cedo, mas eu espero não manter compromisso matrimonial com ninguém. ─ Não receias uma gravidez anônima? ─ Minha avó sempre diz: “não há semente que germine com água e 49
  • Egberto Fioravanti Ribeiro sabão!” ─ Tu gostarias de voar como as abelhas ou como os beija-flores, degustando os diferentes néctares neste imenso jardim? ─ Eu quero viver as volúpias do amor, antes que o mal deste século inclua-me no seu rol fatal. ─ Tiveste outras experiências além do teu pretendente? ─ Não! Vós sois a minha segunda flor. ─ Poderias viver mais um pouco se eu casasse contigo? ─ Ainda assim, eu não seria tão forte para fugir da morte. ─ Vamos parar com esta conversa tão sinistra e saiamos separadamente para não escandalizarmos as demais passageiras. ─ Escandalizar? O pior já aconteceu. É impossível esconder. Todas elas conhecem os meus passos neste convés a entrar e sair do vosso camarote. ─ O meu coração cessou de bater, agora o meu sangue navega ao vento do teu amor. Estes dias passaram tão rapidamente como o mergulho da gaivota. Mas agora, quando chega a hora de dizer adeus, eu não consigo ficar afastado de quem já faz parte de mim. O comandante beijou sua amada e levantou-se para se vestir, aos olhares sorridentes da jovem. Ele colocou o chapéu, apanhou a luneta e retirou-se ao convés e logo passou a ser questionado pelos passageiros. ─ Quantas horas ainda faltam para chegarmos em Santos? ─ Nós chegaremos à barra em duas horas. O dia já está clareando, mas o vento está fraco. Espero que aproveitem este tempo para um saboroso café da manhã no refeitório. O comandante olhou os passageiros se afastarem ao refeitório enquanto regulava a luneta de latão e observou um navio de guerra inglês fundeado na barra. ─ Contramestre! Há um navio de guerra a vapor fundeado na entrada da barra. ─ Teremos problemas, comandante? Laura aproximou-se. ─ Não, senhorita Laura. É apenas uma corveta inglesa a espera de navios de tráfico. ─ A lei brasileira permite o tráfico de escravos, não? ─ Permite! Mas a Inglaterra quer afastar uma companhia espanhola de seguros para garantir o lucro da seguradora inglesa. Eles também querem destruir a nossa frota mercante para afastar o Brasil do comércio com as colônias portuguesas da Ásia. 50
  • A Escuna Astro ─ Quanta impertinência! Durante duzentos anos os ingleses não deram valor para as novas terras, entretanto após as descobertas espanholas e portuguesas, eles querem tomar pela força o que foi conquistado com inteligência e coragem. Laura falou como os políticos. ─ Espanha e Portugal lutaram duramente contra o islamismo em suas terras por seis séculos. A Igreja Católica entregou aos reis iberos por mercê, as terras de Deus ainda por descobrir. Se os reis iberos não tivessem empurrado os sarracenos de volta para a África, a Europa de hoje estaria sob governos árabes e ninguém conheceria o uísque escocês. ─ O Tratado de Tordesilhas agora é contestado por todo mundo. Se Portugal não fosse tão forte, as terras brasileiras seriam de Angra dos Reis a São Luiz do Maranhão. Laura falou como seu pai. ─ No Rio de Janeiro, o povo não fala em outra coisa, senão nas agressões cometidas pelos cruzeiros ingleses. Alguns passageiros e tripulantes aproximaram-se do comandante. Eles demonstravam semblantes de temor e angústia. ─ Eles estão reunidos na ponte nos esperando. ─ Eles baixaram algum escaler? Perguntou o piloto Leopoldino. ─ Ainda não! Mas não tardarão em fazer alguma coisa perniciosa. Respondeu o comandante Franco. ─ Eles sabem que os navios saem de Santos com valiosos carregamentos de café. Laura presumiu o procedimento inglês. ─ Espero que a fortaleza de Santa Cruz nos dê cobertura. O mestre Leopoldino falou confiante. ─ A fortaleza não tem chance contra aqueles canhões de calibre 80. Mestre Leopoldino! Tu leva o Sagaz em nosso curso para o estuário, enquanto eu faço os registros de viagem no diário de bordo. Do alto da gávea do HMS Rifleman, o vigia deu o aviso de “Navio à vista!”. Alguns marinheiros, oficiais e comissários ouviram o vigia bradando e saíram ao convés da ponte. Um aspirante bateu à porta da cabina do comandante. ─ Podeis entrar! O 2º Tenente Crofton respondeu enquanto escrevia um ofício, mergulhando uma pena de ave no tinteiro de porcelana. ─ Com licença, Comandante Crofton! Há um brigue brasileiro chegando a Santos. ─ O navio está vazio ou está com carga? ─ Está em lastro, senhor. ─ Vamos à ponte! 51
  • Egberto Fioravanti Ribeiro O Tenente retirou uma luneta da gaveta e acompanhou o guarda- marinha à ponte. Crofton regulou as lentes com halo desfocado para analisar o navio. Os tripulantes e civis estavam comentando o valor do navio e falando sobre lucros. ─ Este navio é o Sagaz e não está totalmente em lastro, deve estar com carga de gêneros a bordo. O Tenente fez uma rápida avalização sobre o tipo de carga. ─ Então, nós poderemos aguardar e apreendê-lo quando sair do porto de Santos carregado com café. Sugeriu o médico. ─ É um ótimo navio, Sr comissário, observe com a luneta. ─ Senhor, nós não temos carvão suficiente para perseguirmos navios em alto-mar. O chefe de máquinas informou ao comandante. ─ Sr Engenheiro, hoje o HMS “Sharpshooter” virá de Montevidéu a Santos e chegará ao Rio de Janeiro em dois dias. Eu estou escrevendo ao Contra-Almirante Reynolds, pedindo autorização para comprar carvão em Santos. Eu estou justificando este negócio, dizendo que estamos aguardando a saída de navios de tráfico. ─ O “Sagaz” está na lista, senhor? ─ Não importa! Nós estaremos substituindo o HMS “Sharpshooter” no serviço de correio do Rio ao Uruguai e não teremos outra melhor oportunidade para o nosso Prize Money. Vamos aguardar a saída da escuna Sagaz para apreendê-la. Com esta decisão os oficiais, civis e marinheiros comemoraram dando brados de vitória. 52
  • A Escuna Astro IV NOVO RUMO Na tarde de 11 de junho de 1850, o iate “Estrela Brilhante” de 41 tons, sob o comando do mestre José Francisco do Nascimento, aproximava-se da barra de Santos. Estavam no convés, o comandante Nascimento, os passageiros Severiano do Nascimento (seu irmão e comandante da mesma companhia) e o comandante italiano Gio Batta Rossi (sócio da companhia). Todos eles ficaram apreensivos assim que observaram um navio de guerra inglês na barra de Santos. Os sócios do armador Antônio Fernandes Coelho deram ordens ao piloto para mudar o rumo para o porto de Santos. Francisco observou o navio com a luneta. ─ Qual a intenção daquele navio inglês? Perguntou o timoneiro. ─ Eles estão esperando algum navio a vapor para roubar. Respondeu Rossi, relegando a outros navios os seus temores. ─ O Sagaz é um belo navio! O mestre Severiano observou. ─ Agora está bonito. Mas quando compramos, estava fazendo água como uma peneira com o casco furado pelo busano. Nascimento descreveu o péssimo estado em que o seu navio se encontrava. ─ Eu acho que o Sagaz chegou hoje pela manhã. ─ Pode ser que ainda não esteja atracado. Rossi comentou. ─ Esses ingleses estão tirando a nossa calma! Notem a posição no navio ancorado, isto significa que a maré está de enchente. Severiano lhes falou. ─ Então, vamos aproveitar a maré de enchente. Rossi o ordenou. ─ Entrar barra! A ordem do mestre Nascimento foi logo executada pelo timoneiro. ─ Aquele é o “HMS Rifleman”. A tripulação está a nossa espreita na 53
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ponte de comando. ─ As máquinas fazem pouca fumaça, é sinal que continuarão fundeados. ─ Estes ingleses são sórdidos. Eles escolhem os melhores navios para a apreensão. Depois eles declaram que os navios são de tráfico. Rossi comentou e entrou em seu camarote, enquanto o iate navega diante do cruzeiro. ─ Eles estão aplicando leis inglesas em nosso território somente para justificar os seus próprios atos. Nascimento estava furioso. ─ Essa gente está interessada apenas no Prize Money. Rossi retornou e lhes falou, enquanto o iate aproxima-se da fortaleza. Um escaler veio da fortaleza ao encontro do iate. ─ Arriar velas! Ordenou o comandante. ─ O escaler da fortaleza já está atracando. ─ Boa-tarde, Sargento! ─ Boa-tarde, comandante! Tens passageiro e carga para Santos? ─ Não! ─ Este navio não irá carregar em Santos? ─ Não, Sargento! Nós vimos a corveta e queremos saber se o nosso navio “Sagaz” está em segurança. ─ Há vários navios aguardando a saída da corveta “Rifleman”, todos estão com receio de deixar o porto. ─ O Leonil ainda está preso na fortaleza? ─ Sim, continua preso! Mas o povo está lhe dando honras de herói, porque lutou contra os invasores do solo brasileiro. ─ Ele será um herói nacional. Posso entrar barra? ─ Podeis entrar! Até logo, senhores! O comandante aguardou a saída do escaler e ordenou o içamento das velas. ─ Os ingleses estão demonstrando muita serenidade com tantos navios estrangeiros em Santos. ─ Eles querem navios brasileiros carregados com café. ─ Por que eles não tomam navios americanos? ─ Porque eles são ladrões, mas não estúpidos. Respondeu o Comandante. ─ Conseguistes avistar o Sagaz? Perguntou Rossi ao vigia. ─ Olhai, Rossi! O Sagaz está atracado próximo da Alfândega. 54
  • A Escuna Astro Respondeu o vigia. ─ A maré está mudando, podemos atracar de contrabordo. O iate aproximou-se do Sagaz e a tripulação estava em faina de atracação e preparou os lançantes para atracar ao lado do brigue-escuna. ─ Arriar latinas! Preparar lançantes! O Sagaz estava atracado no cais e o comandante Franco conversava com o seu Agente, quando entrou um marinheiro informando da aproximação do iate Estrela Brilhante. ─ O despacho da Alfândega para cem sacos de café já foi pago e a permissão está para o embarque amanhã de amanhã. O agente informou ao comandante. ─ Então, amanhã iniciaremos o embarque. ─ Mestre! O iate “Estrela Brilhante” está chegando ao porto. ─ O iate de Nascimento! Alguma coisa está errada. Vamos ao convés. O comandante levantou-se surpreso. ─ Eles estão pedindo para atracar e querem lançar a retinida. ─ Dai ordens aos passageiros para se afastarem do convés e que tomem cuidado com os cabos que serão lançados. ─ O mestre Nascimento quer conversar. Disse o Agente. ─ Talvez o iate tenha sido parado pela corveta. Franco supôs. ─ Esta é uma das táticas dos ingleses; eles dão a entender que tudo está correto e apreendem no final. O Agente lhe falou. ─ Rossi, vamos para bordo do Sagaz! ─ Boa-tarde, Franco! ─ Boa-tarde, senhores! ─ Algum problema? Perguntou Rossi enquanto entrava. ─ Vieste em boa hora, senhor Rossi. Vinde a minha cabine. Os três homens entram na cabina e Rossi fechou a porta. ─ Senhores, quero apresentar a todos vós, o nosso agente Silva, entre nós não há segredos. Sentai, por favor! Hoje pela manhã quando recebemos permissão para atracar, fui chamado à Capitania dos Portos. ─ Por quê? Os recém-chegados perguntam a uma só voz. ─ Porque o Capitão Josias queria falar com os donos do navio. Ele me pediu sigilo e disse que os ingleses têm uma lista de navios para apreensão onde consta o nome do Sagaz. ─ O Sagaz? Nós compramos este navio a peso de ouro. Rossi praguejou e deu um murro na mesa. 55
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Os ingleses não apreenderão o Sagaz! Eu o ponho a pique. Nascimento falou ameaçando afundar seu próprio navio. ─ Vamos agora à Capitania dos Portos para requerer a mudança do nome do navio. Rossi propôs aos seus sócios. ─ Tu tens algum nome em mente? Franco perguntou. ─ Estou pensando em algo como estrela. Rossi respondeu. ─ Uma estrela é um astro. Nascimento falou. ─ O nome astro tem cinco letras e pode ser pintado na mesma moldura do Sagaz. Franco concordou. ─ Vamos mudar de uma vez o seu nome, de Sagaz para Astro. Rossi concordou com Nascimento e Franco. ─ Os documentos do navio estão nesta pasta. O comandante Franco lhes entregou a pasta de couro com os documentos. ─ Franco, ao anoitecer vós mandareis o carpinteiro retirar as molduras com o nome do navio. Dizei a ele para raspar o nome “Sagaz” e para pintar o nome “Astro”. Eu acredito que isto não será observado pelos ingleses. Rossi lhe pediu ao apanhar a pasta. ─ E quanto aos passageiros? Perguntou Franco ao agente. ─ A barca americana “Muckengen” está de saída a Paranaguá e ainda há vagas. Eu confirmarei as passagens com o agente do consulado americano. Dizei aos passageiros que por motivo de segurança, eles estarão sendo transferidos para outro navio, sem custos adicionais. O agente marítimo Sr Silva lhe respondeu. ─ Comandante Franco, dai-me papel, tinteiro e uma pena para eu escrever uma carta ao Sr Antônio Fernandes Coelho no Rio de Janeiro. Franco indicou a Rossi uma escrivaninha para escrever ao seu sócio. ─ Dize-lhe o porquê de afundarmos o Sagaz. Nascimento falou. ─ Já terminei! Mestre Franco, vós devereis comandar o iate Estrela Brilhante de volta ao Rio de Janeiro e entregai esta carta ao Sr Antônio Fernandes Coelho para notificá-lo sobre o nosso plano. O armador Rossi deu as novas ordens ao mestre Franco enquanto aquecia cera para o lacre. ─ Senhor Rossi! Sinto muito, mas não abandonarei o meu navio numa hora dessas. Chamarei o mestre Leopoldino para ir em meu lugar. Franco estava agitado com os acontecimentos. ─ Está bem! Dizei-lhe para partir enquanto a maré está para começar a vazante. Agora, vamos à Capitania na carruagem do Agente. Rossi disse. Nascimento, Rossi e o agente deixaram rapidamente a cabine do 56
  • A Escuna Astro navio e entraram na carruagem onde aguardavam por Franco. Laura, ladeada por Joana, aproximou-se da cabina para se despedir de Franco. Através da porta entreaberta, ela ouviu o comandante conversando com o mestre Leopoldino. ─ Partirei imediatamente ao Rio de Janeiro e peço a Deus que abençoe vossa viagem a Paranaguá. O mestre Leopoldino o cumprimentou e deixou a cabine, levantando o seu chapéu para Laura que estava à porta. ─ Comandante! O meu irmão André veio para levar-me a São Paulo. Eu estou retornando para casa, mas quero vos dizer que jamais o esquecerei. Espero que tenhais os mesmos sentimentos. Laura falou ao aproximar-se de Franco. ─ Laura! Eu não consigo pensar em te perder. Os teus olhos iluminaram as trevas da minha solidão e trouxeste vida a minha alma. ─ Sempre quando vierdes a Santos, anunciai o vosso navio na Gazeta de Santos. Então, em São Paulo, eu saberei onde vos encontrar. Os olhos de Laura mergulharam em um profundo mar de lágrimas. ─ Se o destino nos afastar para sempre, ainda assim, desejarei a ti o mundo inteiro, pleno de felicidades, ao lado do teu pretendente. Franco falou e beijou-lhe as mãos. ─ No princípio da viagem, quando vos conheci, eu passei a sentir algo diferente em minha alma que eu não podia identificar. Era um sentimento excitante que cessava quando eu ficava ao vosso lado. Eu considerei que fosse o receio por estar em um veleiro ou talvez, o odor das cordas de sisal, das velas ou do verniz fresco. Eu não sei como não pude identificar os meus sentimentos. Mas agora, eu sei que estou apaixonada. Ela escrevia com lágrimas sobre as linhas verdadeiras dos seus sentimentos. ─ Casarias comigo? Franco falou receando uma resposta negativa. ─ Por favor! Eu preciso de mais tempo para responder. Ela falou com dúvidas. ─ Sentirei muito a tua falta, mas sei que saberemos superar este sofrimento. ─ Eu gostaria de ir a Paranaguá. Laura insistiu. ─ Esta viagem será muito perigosa. Viste os ingleses na barra, não? Franco tentou falar-lhe com palavras que o seu coração negava. ─ Eu sou brasileira, filha de portugueses. Eu não posso imaginar a possibilidade de perder o vosso amor para um bando de ladrões amotinados. Laura decidiu lutar por seu amor. ─ Tu és muito jovem para estares envolta em conflitos. Franco desejava protegê-la. 57
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Se a circunstância requer e se preciso for, lutarei ao vosso lado. Manuela de Tucumã em Buenos Aires e Anita Garibaldi no Rio Grande do Sul, não fizeram o mesmo? Laura respirou profundamente e perdeu sua fragilidade. Ela mudou sua ternura em olhar agressivo. ─ A expressão em teu olhar confirma as tuas palavras. Se tu quiseres ir, poderás tomar o navio americano que seguirá a Paranaguá. Franco deu-lhe uma oportunidade de ir. ─ Eu irei! Minha família tem parentes de Olinda naquela cidade. Laura justificou-se e exibiu amplo sorriso de felicidade. ─ Eu escreverei o teu nome no rol de passageiros que estarão sendo enviados ao navio americano. Franco explicou sem esconder sua alegria. ─ Nós estaremos juntos em breve. Laura prometeu com prazer. Os dois amantes se despediram com ardente beijo. Laura deixou a cabine do comandante e seguiu ao convés onde estavam o seu irmão e os seus servos levando as bagagens. Franco deixou sua cabine e no convés cumprimentou Laura e seu irmão e pediu a um marinheiro para levar o Rol de Passageiros ao navio americano. Enquanto o marinheiro seguia ao Muckengen, Franco desceu as escadas para a carruagem onde os armadores aguardavam por ele. ─ Por favor, André! Não leveis as minhas bagagens para São Paulo, coloquem-nas no navio americano Muckengen. Eu irei a Paranaguá. Laura contou ao seu irmão um novo plano. ─ Estais louca! Os ingleses estão apreendendo navios. Nossa mãe não suportará imensa aflição. O irmão de Laura ficou preocupado com a sua decisão de ir a Paranaguá ─ André! Levai para São Paulo apenas o baú com as pratarias e as porcelanas que a vovó está enviando para a nossa mãe. Laura indicou ao seu irmão o pesado baú. ─ Laura, vós bem sabeis do que papai será capaz de fazer. André e Laura conheciam a reação do seu pai. ─ Se ele quiser fazer alguma coisa, que o faça contra a Inglaterra na Assembleia Geral. Mas agora, preciso da vossa ajuda. Eu encontrei o meu precioso amor e não quero perdê-lo. Laura falou ao seu irmão com profundo sentimento de paixão. ─ Falastes o mesmo a respeito do jovem Adriano. André a advertiu por tanta impulsividade. ─ Por favor, meu irmão! O comandante Franco acaba de me pedir em casamento e estou confusa. Laura revelou sua real intenção. 58
  • A Escuna Astro Os dois irmãos tiveram um demorado abraço e caminharam à carruagem que os conduzirá ao navio americano. A Carruagem levando os armadores parou diante do prédio da Marinha. Franco, Nascimento e Rossi deixaram a carruagem e o agente levantou o chapéu para se despedir. A carruagem continuou o seu caminho enquanto os homens entraram no prédio da Marinha e foram atendidos por um Sargento. ─ Boa-tarde, senhores! ─ Boa-tarde, Sargento! Nós queremos mudar o nome do nosso navio. ─ Tendes o registro de propriedade? ─ Sim! Está aqui. ─ Assinem o requerimento neste livro de registros. ─ Onde está o Capitão Josias? ─ O comandante está no seu gabinete. ─ Nós queremos conversar com ele. ─ Marinheiro! Levai estes senhores ao comandante enquanto eu providencio o registro e os carimbos de transbordo nos manifestos. O marinheiro conduziu os armadores a uma sala com uma placa de bronze polido identificando o gabinete do “Comandante”. ─ Comandante! Alguns armadores desejam vos falar. ─ Fazei-os entrar! O comandante pediu ao sargento. ─ Boa-tarde, comandante Josias! Estes senhores são os donos do Sagaz. Franco os apresentou ao comandante. ─ Por favor senhores, sentem-se! Eu falei ao comandante Franco, hoje pela manhã, sobre a segurança do “Sagaz”. Este é um assunto que exige sigilo absoluto. Eu recebi do cônsul americano David Todd uma lista de navios brasileiros para os cruzeiros ingleses apreenderem. Vós deveis saber que o Sagaz está nesta lista. ─ Mas comandante Josias. O nosso navio não é aplicado ao tráfico. Nós navegamos em toda costa brasileira, do Rio de Janeiro ao Rio Grande. Nascimento explicou o seu trabalho honesto. ─ Eu sei disso. Mas os ingleses se aproveitam do frágil relacionamento do Brasil com os Estados Unidos, por causa do pagamento da escuna “Armstrong” incendiada por um navio de guerra inglês na ilha de Faial nos Açores. Se vós não sabeis vou lhes contar. Quando o governo de Portugal foi estabelecido no Rio de Janeiro, os Estados Unidos e a Inglaterra estavam em guerra. Uma fragata inglesa perseguiu a escuna Armstrong de 59
  • Egberto Fioravanti Ribeiro bandeira americana que se refugiou na ilha de Faial, onde foi incendiada. A despesa da escuna foi protestada pelos Estados Unidos contra Portugal. O acordo de pagamento foi assinado no Rio de Janeiro, mas até hoje a dívida ainda não foi quitada. A Bretanha julga não haver forças para a deter. O comandante Josias lhes disse. ─ Nós queremos mudar o nome do nosso navio para “Astro”. Nós partiremos de Santos a Paranaguá ao amanhecer. Nascimento contou o seu plano ao Comandante Josias. ─ Vós deveis fazer isso o mais cedo possível. Eles pretendem atracar o seu navio para o abastecimento de carvão. O Capitão Josias os preveniu. ─ E sobre o Valêncio Leonil, ele irá a julgamento? Franco perguntou. ─ Isto está sendo analisado, porque todas as pessoas pedem a sua liberdade. Até os seus inimigos reconhecem seu ato de heroísmo. ─ Comandante, eis o livro de registro de navios e o certificado para serem assinados. O sargento falou ao colocar o livro sobre a mesa. ─ Espero que estes incidentes cessem logo. O comandante disse esperar por paz, enquanto assinava os papéis. ─ O que nós deveremos fazer, se os ingleses nos perseguirem até Paranaguá? Rossi perguntou ao Capitão. ─ Paranaguá tem uma boa fortaleza e a Guarda Nacional está pronta para responder contra qualquer agressão estrangeira. O comandante respondeu. ─ O Brasil deve agir em legítima defesa. Exigiu Franco. ─ As coisas não estão indo muito bem com os nossos vizinhos. O nosso governo está tendo grandes problemas nas fronteiras com a Argentina e Uruguai. A tropa sob o comando do Barão de Jacuhy foi aniquilada em uma emboscada uruguaia, quando ele estava lutando contra ladrões de gado. O governo do Paraguai está comprando armamento pesado da Alemanha desde o ano passado. Em janeiro, um decreto foi assinado por Sua Majestade Imperial para comprar 54 novos navios de guerra, incluindo quatorze a vapor. O comandante lhes falava enquanto secava a tinta com um mata-borrão. ─ Eu soube que a marinha brasileira está treinando oficiais na armada inglesa, não? Rossi perguntou ao comandante. ─ Sim! Eles estão estudando as máquinas a vapor para aplicarem na frota brasileira. Muitos navios a vapor estão sendo queimados em alto mar por negligência dos seus próprios tripulantes. Hoje existem alguns navios de guerra nos estaleiros do Rio de Janeiro e da Bahia para instalarem máquinas 60
  • A Escuna Astro a vapor. O comandante imprimiu um carimbo no certificado com as Armas do Império. ─ Esta não é a única forma do Brasil manter sua própria soberania. A mais usual que herdamos de Portugal são os tribunais internacionais. Nós estamos vivendo em um mundo que busca pela paz. A nação que violar tal princípio estará se levantando contra os demais países e sofrerá sérias perdas. O comandante afirmou enquanto entregava o certificado e os manifestos a Rossi. ─ Obrigado pela nova matrícula, comandante. ─ Façam uma boa viagem. Franco, Nascimento e Rossi saíram do gabinete do comandante com os documentos do Astro em ordem e a tempo para a viagem. Eles chegaram ao Astro, mas o iate Estrela Brilhante já havia partido para o Rio de Janeiro. O mestre Leopoldino estava levando a carta ao armador Antônio Fernandes Coelho explicando os últimos acontecimentos e as medidas que seriam tomadas se fossem ameaçados. 61
  • Egberto Fioravanti Ribeiro V INGLESES A VER NAVIOS Na madrugada seguinte, o brigue-escuna Astro partiu para Paranaguá, aproveitando a maré vazante. O cruzeiro inglês estava ancorado no lado leste do estuário, próximo da Ilha das Palmas. Os fracos raios de sol incandesciam as velas da escuna Astro, revelando o curso com rumo ao sul. O sibilante HMS Sharpshooter somente pintava o céu com fumaça negra, enquanto o Astro navegava preguiçosamente com pouco vento ao mar aberto. A tripulação inglesa ficou a ver navios. Ao amanhecer de 18 de junho de 1850 o Astro estava próximo da barra de Paranaguá. Os tripulantes e armadores estavam conversando em uma roda de chimarrão, no convés de popa ao lado do timoneiro. ─ Estamos sendo perseguidos em nosso próprio país, como se fossemos criminosos. Nascimento reclamou contra os ingleses, enquanto enchia a cuia com água quente e a entregou a Rossi. ─ Espero que a correspondência que mandei para o Sr Coelho no Rio de Janeiro explicando os meus atos, não tenha sido enviada para a Inglaterra com o mestre e o iate “Estrela Brilhante”. ─ Algum sinal dos ingleses? Perguntou o timoneiro a Rossi. ─ Ilha da figueira à vista! O vigia dá o brado do alto da gávea. ─ Felizmente, nós estamos a salvo! Rossi respirou fundo para se livrar de toda aquela tensão. ─ Devemos navegar até Antonina ou descarregaremos todos os lotes em Paranaguá? Franco perguntou. ─ O navio deverá ser descarregado em Paranaguá. Nós não podemos ficar escondidos com o navio por muito tempo. Nascimento respondeu. 62
  • A Escuna Astro ─ Nós temos famílias e compromissos a honrar. Rossi completou. ─ O povo no Rio de Janeiro ficou exasperado após as últimas apreensões e isto inflamou o ódio popular contra os ingleses. ─ Pudera! Se as apreensões continuarem sem findar, em breve não haverá mais quem transporte lenha para o Rio de Janeiro. ─ Estou certo que o Tenente Crofton faria com o Astro, o mesmo que fez com o vapor “Paquete de Santos”. ─ Quem fez a lei do Prize Money não foi o rei ou o povo, mas o Parlamento Britânico. Eles são os únicos responsáveis por essa tragédia. Rossi queria encontrar os culpados para estes acontecimentos. ─ Por qual motivo, tu dizes isso? Franco perguntou. ─ Porque os políticos criaram uma lei que beneficia seus parentes e amigos. Eles recebem a grande soldada obtida pela tabela de pagamento do Ato de Cruzeiros e Comboios. Rossi respondeu. ─ Quanto ganha o comandante da esquadra? ─ O comandante da esquadra leva 1/8 das presas. ─ Quanto ganha o Capitão do navio inglês? ─ O Capitão ganha 2/8. ─ É muito dinheiro para um só homem. E um marinheiro como nós, quanto ganha? ─ Depende do valor da mercadoria. Há marinheiros que já ganharam quatrocentos salários em uma única apreensão . ─ Aha! Isto explica a loucura dos ingleses. O salário mensal de um marinheiro é de uma Libra Esterlina. Quatrocentas libras são 800 sacas de café. Isto é um ótimo prêmio para um simples marinheiro. ─ Eles são mercenários e não se importam em morrer por febre amarela ou tiros de mosquete. Franco respondeu. ─ Atenção timoneiro! Rumo noroeste, entrar no canal. Nascimento orientou o marinheiro no timão. ─ Em cabo frio, a fortaleza também atirou sobre os navios ingleses. Rossi comentou. ─ O incidente com um escaler e dez tripulantes do HMS Rifleman em Perequê pode causar sérios problemas ao Brasil. Disse um marinheiro apreensivo com aqueles acontecimentos. ─ Olhem! O escaler de registro está saindo ao canal. O timoneiro os avisou enquanto aproximavam-se da fortaleza. ─ Arriar velas! Nascimento deu as ordens. 63
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Boa-tarde, comandante! ─ Boa-tarde, Sargento! ─ A documentação está em ordem? ─ Sim! Os manifestos estão aqui. Estamos vindo de Santos e vamos descarregar todas as mercadorias porque estivemos perto de sermos apreendidos por um cruzeiro inglês. ─ Qual navio inglês? ─ O “HMS Rifleman”. ─ Eu darei estas informações ao comandante Barbosa. Podeis entrar no porto. No alto do Morro da Baleia, a bandeira do telégrafo foi alçada para avisar a Alfandega da chegada de um navio de carga. Em pouco mais de uma hora, o Astro aproximou-se da ilha da Cotinga. O Astro contornou a Ponta da Cruz para entrar no fundeadouro diante do rio Taguaré. ─ Contramestre! Verificar calado para fundeio. ─ Arriar as joanetes! ─ Arriar âncora! ─ Recolher todas as velas! ─ O escaler da alfândega está chegando com o Guarda-mor, o nosso agente e um médico. O contramestre os informou. ─ Boa-tarde, senhores! Vinde a bordo! ─ Boa-tarde Os lotes de erva-mate já estão prontos para embarque. ─ Não iremos carregar! Vamos fazer a descarga e mudaremos para o remanso da Ponta da Cruz. ─ Há alguma mercadoria para descarregar dos porões lacrados? Perguntou o Guarda-mor Francisco. ─ Todas as cargas têm como destino o porto de Rio Grande, mas teremos que descarregar todos os lotes no armazém da Alfândega. ─ Algum problema com este navio? ─ Estivemos em vias de sermos apreendidos por um cruzeiro inglês em Santos. ─ Todos estão preocupados com os acontecimentos. ─ Há alguém com febre? Perguntou o Dr. Eduardo Killer. ─ Não! Todos nós estamos em boa saúde. ─ Vós estais liberados para irem para terra. ─ Obrigado, senhor. 64
  • A Escuna Astro ─ Os lacres estão em ordem. Alguém deseja ir para terra? ─ Certamente! Vamos ao prédio da Alfândega para conversarmos com o comandante Guimarães. ─ Eu tenho uma correspondência do Sr Souza para o Sr Presidente da Câmara de Vereadores. Franco apanhou a correspondência e juntamente com Severiano e Nascimento deixaram o navio acompanhados por Rossi e embarcaram no escaler da Alfândega. ─ Quantos homens existem na Guarda Nacional? ─ Pouco mais de setecentos, senhor. ─ Este assunto deve ser tratado diretamente com o comandante. O escaler com toldo xadrez e oito remadores em poucos minutos atracou no trapiche da Alfândega, com vistas da rua à igreja. Os homens acompanharam o Guarda-mor até ao terceiro pavimento na ala central do prédio, próximo ao gabinete do Inspetor da Alfândega. Eles cumprimentaram os guardas diante da porta do gabinete do comando. ─ Senhores, este é o gabinete do comandante. ─ Obrigado! ─ Boa-tarde, Sargento! ─ Boa-tarde, Francisco, Franco! Em que posso vos ajudar? ─ Estes senhores querem falar com o comandante. Diga-lhe que são com os donos do Sagaz que agora está com o nome de Astro. ─ O Sargento dirigiu-se à porta aberta da sala onde havia uma placa de latão polido com a inscrição: “Comando da Guarda Nacional”. ─ O comandante Franco e dois armadores desejam falar-lhe. ─ Dizei-lhes que entrem. Respondeu o comandante. Os armadores foram levados ao gabinete do comandante do 1º Batalhão, onde o comendador Correia Jr estava em visita. ─ Franco, Rossi, podeis entrar! O Comandante os chamou. ─ Obrigado, Sargento. Nascimento agradeceu. ─ Boa-tarde, Comendadores! Saudou Rossi. ─ Boa-tarde, senhores Comendadores! Nascimento os saudou. ─ Boa-tarde, Sr Rossi e Sr Severiano, sentem-se! O Comandante os recebeu cordialmente. ─ Como estão os negócios no Rio de Janeiro? O Comendador Correia perguntou. ─ A febre no Rio está grave, mas para os nossos navios estão 65
  • Egberto Fioravanti Ribeiro piores! ─ Vós falais sobre a febre ou sobre os ingleses? Perguntou o Comandante Guimarães ─ Pode haver algo pior do que esses bretões? Reclamou Franco. ─ Gostariam de um chimarrão? Ofereceu o Comandante Guimarães. ─ Aceito! Respondeu prontamente o gaúcho Nascimento. ─ Sargento, poderíeis nos trazer um chimarrão. Solicitou o Comandante. ─ Eu tenho uma correspondência do Sr Souza do Rio de Janeiro ao Presidente da Câmara dos Vereadores dessa cidade. Franco apresentou a carta ao comendador Correia Jr. ─ Eu a entregarei ao Sr Presidente. ─ Obrigado, comendador! Agradeceu Franco. ─ Senhores, estamos aqui porque o nosso navio “Sagaz” está em uma lista de navios brasileiros para serem apreendidos por cruzeiros ingleses. Nós tivemos que mudar o nome do navio para “Astro”, para não ser tomado em Santos. Confidenciou Rossi. ─ Em Santos, o mestre Leopoldino comandou a escuna Estrela Brilhante de volta ao Rio e Janeiro, para o Sr. João Guimarães. Eu mandei uma correspondência ao nosso sócio, o Sr. Coelho. ─ O porto de Santos está bloqueado? Perguntou o comendador Correia Jr. ─ Não! Mas o HMS “Rifleman” estava fundeado na barra de Santos. As autoridades nos falaram sobre uma lista de navios para apreensão. ─ Que lista é essa? Perguntou o comandante Guimarães. ─ O comandante da Marinha em Santos, o Capitão Josias foi informado pelo cônsul americano em Santos sobre uma lista onde está incluído o Sagaz e alguns outros navios. Rossi lhes contou como souberam. ─ Nós mudamos em Santos a matrícula do nome Sagaz para Astro. Nascimento explicou. ─ Receamos que chegue a Paranaguá algum dos navios de guerra da Inglaterra. Rossi comentou. ─ O cônsul americano David Todd e sua esposa deverão chegar a Paranaguá por estes dias. Eles ficarão hospedados na casa do Cap Antonio Pereira da Costa, o cônsul do Chile. O comendador Guimarães lhes contou. ─ Nós estamos em ferrenha campanha para emanciparmos a Comarca de Curitiba da Província de São Paulo. Haverá muitas autoridades 66
  • A Escuna Astro chegando a Paranaguá nos próximos dias para conhecerem a viabilidade política para uma província auto-sustentável. Mr Todd é nosso convidado para a posse dos novos vereadores. Ele deseja conhecer e avaliar o potencial dos pinheirais da região para alguns investidores em seu país. Talvez ele possa nos oferecer algum apoio diplomático. O comendador Correia Jr lhes explicou. ─ Apesar dele estar envolvido apenas com os negócios entre os Estados Unidos e o Brasil, tem o Cônsul alguma instrução para ação militar? Perguntou Rossi. ─ Não podemos moldar nenhum pressuposto. Todos nós estamos indignados com o procedimento dos ingleses, mas vamos aguardar os fatos reais para tomarmos as medidas corretas. Respondeu o comendador Guimarães ─ Nós iniciaremos a descarga das cargas do “Astro” amanhã de manhã. Todas as mercadorias que levamos são para Rio Grande. Após a descarga, o navio será mudado para o remanso da Cotinga. Disse Nascimento. ─ Aquele é o melhor lugar, profundo e seguro. Concordou o comendador Correia Jr. ─ Entretanto, eu vos aconselho a retirar todo o velame e os instrumentos de navegação. O Comendador Guimarães os aconselhou. ─ De qualquer forma, o casco estava cheio de buracos feitos pelo buzano e foi consertado no Rio de Janeiro. As velas velhas serão mudadas por outras novas aqui em Paranaguá, onde há excelentes fabricantes de velas. Esta foi a recomendação do Sr Coelho. Disse Rossi. ─ Nós depositamos os nossos investimentos em vossas confiáveis mãos e estaremos aguardando por boas notícias. Até logo, senhores! Rossi sentiu o real apoio deles. ─ Ficamos agradecidos por vossa ajuda, Comandante. Nascimento respondeu sabendo que estariam em segurança com o apoio das autoridades. ─ Até logo, Comandante! Os armadores deixaram a sala de comando. Os homens do mar saíram do prédio da Alfândega e dirigiram-se às casas de comércio na Rua da Praia para aquisição de cabos, panos de velas e contratar pessoal para o reparo do seu navio. O pedido de lonas novas para a confecção de velas havia sido feito pelo Senhor Coelho no Rio de Janeiro. O comandante Rossi havia sido enviado à Câmara dos Vereadores para representar alguns consignatários e armadores do Rio de Janeiro. Um dos atacadistas da Rua da Praia lhes ofereceu transporte para retornarem a bordo, ao anoitecer eles chegaram ao Astro. 67
  • Egberto Fioravanti Ribeiro VI LAURA O suave brilho do sol acentuava os tons de verde das gramíneas entre troncos de paus de mangues recobertos de ostras. As muitas roçadas na orla do ancoradouro indicam a intensa exploração das suas matas. A escassa vegetação de mangues, cortada como lenha, emergia das ondas em azul celeste entre faíscas douradas pelo sol. A nuance das folhas verdes contrastava com os lampejos do sol sobre as ondas e areias amareladas dos baixios, expondo o grande assoreamento do rio. O vento morno vindo de noroeste anunciava a aproximação de chuva para esta tarde. Isto sempre acontece como prenúncio do inverno. Os barcos e saveiros com velas enfunadas percorriam rios e baías nesta manhã de quarta feira do dia 19 de junho de 1850. Os barcos transportavam mercadorias entre os depósitos da Rua da Praia e do trapiche da Alfândega aos navios fundeados na Cotinga, diante da foz do rio Taguaré. O Guarda-mor foi recebido a bordo pelo comandante do Astro para abrir os lacres e os estivadores iniciarem o trabalho. Tão logo os porões foram abertos, os trabalhadores iniciaram a descarrega dos lotes de gêneros para o porto de Rio Grande. Rossi retirou seus pertences do Astro e os levou ao navio Dona Ana que estava em carregamento de madeira e de pequenas barricas com erva mate. Os comandantes; Franco, Severiano e Nascimento acompanharam a descarga para não haver nenhuma avaria. Eles orientavam os marinheiros e estivadores a manipularem cuidadosamente o pau de carga com as mercadorias do porão para os saveiros atracados de contrabordo. O sinaleiro no telégrafo na Cotinga, diante da capela, alçou a bandeira no mastro para informar a Alfândega da chegada de outro navio. O patrão do escaler no trapiche da Alfândega mandou um dos remadores ir avisar ao Guarda-mor e ao médico para uma nova visita. 68
  • A Escuna Astro O batido de sino de navio na Ponta da Cruz chamou a atenção dos tripulantes nos navios fundeados. Uma barca com três mastros e velas de armação direita e flâmula nas cores americanas estava chegando. O navio contornou lentamente as perigosas pedras e rumou ao fundeadouro. O mestre Nascimento e Severiano aproximaram-se da amurada na popa do Astro e observaram a chegada ao porto do veleiro “Muckengen”. ─ O cônsul dos Estados Unidos deve estar neste navio. É possível que tenhamos alguma proteção indireta contra os cruzeiros ingleses. Nascimento falou ao seu irmão. ─ Laura! Franco estava junto da amurada quando sussurrou um nome de mulher em alta voz, a poucos passos dos seus amigos. ─ Quem? Perguntou Nascimento. ─ Não a viste? Aquela é a jovem senhora de Olinda que conheci no Sagaz, durante a viagem do Rio de Janeiro a Santos. ─ O que está acontecendo, homem? Perguntou Nascimento. ─ Estou pensando em me casar! ─ Ela é bonita? Perguntou Severiano. ─ Ela é uma linda mulher! ─ Tua filha está realmente precisando de uma mãe. Comentou Severiano dando um tapa no seu ombro. ─ Estou pensando em montar um engenho hidráulico de erva mate em Morretes e talvez, eu irei morar com Laura em Curitiba. ─ As mulheres jovens de Olinda são extrovertidas. Ela não conseguirá viver na tão isolada vila de Curitiba. ─ Viste? Ela está acenando da proa do navio. ─ É uma galega! Nascimento falou com um grande sorriso. ─ Sim! A família dela é de Coimbra. Veja os cabelos louros. Vamos até lá para ajudá-la com as bagagens. ─ Vamos a bordo do escaler! Ordenou Severiano a uns tripulantes. ─ O Guarda-mor no escaler da Alfândega está indicando o local para arriarem a âncora. O veleiro de 254 tons de bandeira americana Muckengen, de 254tons, passou diante do Astro e fundeou no local indicado pelo Guarda-mor. Dr Killer e Francisco foram a bordo e conversaram com os passageiros, dentre os quais estavam Laura, o Cônsul americano e sua jovem esposa. O comandante Franco acompanhado por Nascimento e quatro marinheiros atracaram o barco ao lado do escaler da Alfândega e subiram a bordo para apanharem as bagagens de Laura. 69
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Que saudades! Laura disse e abriu os braços para Franco. ─ Estes poucos dias me pareceram anos. Disse Franco ao abraçá- la e beijá-la. ─ Quero te apresentar o mestre Nascimento, um dos donos do Sagaz. ─ Muito prazer! Meu nome é Laura. Mas a propósito, onde está o Sagaz? ─ O prazer é todo meu, senhorita. O navio, cujo nome era Sagaz, é o que está fundeado ao lado da Ponta da Cruz. Nós mudamos o seu nome para Astro, antes da nossa partida de Santos. Nascimento explicou. ─ Oh! Eu não sabia disso. Eu lhe perguntei sobre o Sagaz porque quando me acordei, o Sagaz já havia deixado o porto. ─ Nós deixamos os ingleses a ver navios em Santos. ─ Vós sois espertos! Laura disse com um leve sorriso. ─ Vamos almoçar a bordo do Astro? Franco a convidou. ─ Obrigada! À tarde deveremos ir à cidade. Laura avisou. ─ Será ótimo! Franco concordou. ─ Fui convidada pela esposa do cônsul Mr Todd para um recital na casa do cônsul do Chile. Venham comigo, eu quero vos apresentar a eles. ─ Eu não os conheço. Esta é uma boa ocasião. Franco concordou. ─ Vinde comigo! Laura levou Franco pela mão para apresentá-lo ao cônsul e sua esposa. ─ Laura! Estou a vossa procura. A Sra Todd lhe falou. ─ Desculpe-me, Senhor e Senhora Todd. Eu quero vos apresentar o armador Senhor Nascimento e o comandante da escuna Astro, Sr Franco. ─ Como estais passando, cavalheiros? ─ É um prazer imenso conhecê-los; Senhor e Senhora Todd. ─ A senhorita Laura tem falado muito bem a vosso respeito. A esposa do cônsul comentou. ─ E como posso ver, ela não mentiu. ─ A vossa presença nos tem fascinado. Franco respondeu. ─ Não quero tirar a vossa atenção, mas o Guarda-mor vos chama. Laura avisou a esposa do cônsul. ─ Muito obrigado, senhorita Laura. Vós não deveis esquecer do nosso encontro hoje à noite. A esposa do cônsul a relembrou. ─ Eu não perderei este recital por nada. Laura respondeu. Algumas pessoas dirigiram-se aos barcos enviados pelo agente. O cônsul e sua esposa foram convidados a embarcar no escaler da Alfândega. 70
  • A Escuna Astro ─ Nos veremos logo mais! Nascimento acenou para os seus novos amigos. ─ Quando chegarmos ao Astro, pedirei a Joana para preparar uma refeição para nós. Sugeriu Laura olhando para Joana que sorriu muito feliz. ─ Senhorita Laura! Tu sabes que Anastácio foi escolhido por mim, porque ele ama a cozinha portuguesa. Ele está preparando uma refeição especial para ti. Mas eu sei que ele irá apreciar a ajuda de Joana. ─ Quanta gentileza! Eu estava pensando que vós tivestes desembarcado o cozinheiro em Santos. Vós fizestes boa viagem? ─ Esta foi uma ótima viagem, sem nenhum incidente. ─ Está tudo em ordem no Astro? ─ Sim! Os aposentos e o quarto de banho são exclusivamente teus. Nascimento chamou para embarcarem no escaler e logo chegaram à escada do Astro. Alguns marinheiros foram chamados para ajudá-los com as bagagens de Laura. Nascimento retornou ao convés onde as mercadorias estavam sendo descarregadas para a Alfândega. Joana agitou o sabonete nas águas mornas da banheira. O quarto de banho era iluminado por uma pequena escotilha da cabina. Joana auxiliou Laura a retirar as roupas e a viu mergulhar nas espumas e relaxar fechando os olhos. Joana passava uma esponja do Mediterrâneo nos ombros de Laura, quando alguém bateu à porta. ─ É ele! Laura disse para Joana. Joana foi à porta e viu através da pequena veneziana sob a porta, as botas do Sr Franco. ─ É o comandante Franco. Joana sussurrou para Laura. ─ Joana! Deixe-o entrar! Podeis por favor, apanhar a toalha amarela na bagem? Esta toalha que me trouxestes está mofada. ─ Podeis entrar, Comandante! Joana abriu a porta e deixou Franco entrar, enquanto ela saiu do quarto de banho e fechou a porta. ─ Estás radiante! Franco aproximou-se e contemplou a jovem envolta em espuma. ─ Estou morrendo de saudades, tirai a vossa roupa e vinde banhar- se comigo. O Guarda-mor Francisco havia recebido a incumbência de trazer o cônsul e sua esposa. No início da tarde, o escaler da Alfândega atracou na rua da Praia diante da Ladeira do Bom Jesus onde o casal desembarcou. As bagagens e baús foram levadas à casa do Cap Costa na Rua da Ordem por carroças. Para o transporte do casal, o Comendador Correia Jr havia providenciado uma charrete. O Guarda-mor deu ordens ao mestre para enviar 71
  • Egberto Fioravanti Ribeiro o barco ao trapiche da Alfândega, enquanto ele iria à pé ao escritório. No comando da Guarda Nacional, o Guarda-mor encontrou o Comendador Correia Jr conversando com o Comandante Guimarães. ─ Comandante Guimarães! O navio americano acabou de fundear. O cônsul e sua esposa foram levados à casa do Capitão Costa. O Guarda- mor os comunicou. ─ Obrigado, Francisco! Estou certo da vossa cortesia. ─ Estou contente por havê-los recebido. O Cônsul é um cavalheiro e a sua esposa é uma belíssima jovem. Com vossa licença, eu devo ir ao nosso escritório antes de sair para almoçar. ─ Comendador Correia! O plano da separação está prosseguindo muito bem. Nós devemos ir para cumprir o convite do Capitão Costa e vamos ao seu escritório no consulado do Chile para darmos as boas vindas ao cônsul dos Estados Unidos. Os dois homens saudaram o guarda do Batalhão à porta para Rua da Ordem. Eles deixaram o prédio da Alfândega através da calçada entre o jardim e a Rua da Ordem. O dia de outono estava agradável e o Comandante Guimarães vestia casaca cinza com gravata azul clara. O Comendador Correia Jr estava abotoando o colete e parecia estar desconfortável. Todos os moradores na cidade e nos sítios os conheciam muito bem; ambos comendadores eram os mais populares padrinhos. ─ Boa tarde, Manuel! ─ Boa tarde, Sr Comendador! Na Rua da Ordem, os dois homens caminhavam resolutos e gesticulavam quando eram saudados por pessoas nas calçadas. ─ Boa-tarde, comendadores! ─ Boa-tarde, Juvenal! ─ Boa-tarde, dona Nizinha! O comendador Correia Jr. saudou. Os dois homens pararam diante da porta ladeada por dois brasões: do Consulado do Chile e do vice-consulado da Argentina. O atendente no escritório os viu através da janela e saiu à rua para os convidar a entrar. ─ Cavalheiros! O Capitão Costa os aguarda em sua sala. O Sr Gomes saudou ambos cavalheiros na rua. ─ Obrigado, Sr Gomes! Agradeceu o Comandante Guimarães. ─ Ele está com o cônsul americano. O atendente lhes falou sem observar a aproximação do Cap Costa. ─ Comendador Guimarães, Comendador Correia! Quanta honra. Vinde ao meu escritório. O cônsul dos Estados Unidos, Mr Todd acabou de chegar de Santos. 72
  • A Escuna Astro ─ Obrigado, Sr Capitão! Os homens o agradeceram e o seguiram. No escritório do cônsul do Chile, o ilustre visitante americano levantou-se para cumprimentar as autoridades que estavam sendo apresentadas pelo Cap Costa. ─ Mr. Todd, este é o comendador Guimarães e este é o comendador Correia Jr. ─ É uma grande honra conhecê-los senhores comendadores! Tenho ouvido falar a vosso respeito em Santos, mas não imaginei que os senhores fossem tão jovens para os títulos tão significativos. ─ Esta é a maneira usual de Sua Majestade o Imperador em reconhecer nosso empenho comercial. Eu tenho 41 anos e o comendador Guimarães tem 37 anos. ─ Nós não temos em inglês uma correta tradução para o título de Comendador, mas eu sei que este é um título de nobreza brasileiro. ─ Certamente! Nós também sabemos que este título em inglês significa quem ministra um ofício litúrgico. Esta não é a nossa atribuição. ─ Por favor, sentem! O Capitão apontou para as cadeiras. ─ Vós fizestes boa viagem, Mr Todd? ─ Esta foi uma ótima viagem. Estou muito surpreso com o grande número de navios neste porto. ─ Este porto e os recursos naturais desta terra têm sido os motivos do nosso crescimento econômico. Os investidores portugueses souberam da existência de milhões de pinheiros para exportar. Mas, eles também souberam que não há estradas adequadas para o transporte. Comentou o comendador Guimarães. ─ Senhor cônsul, nós estamos preocupados com os últimos acontecimentos. A vossa presença nesta cidade é muito importante. Esclarece o comendador Correia Jr à meia voz. ─ Poderemos nós fazer alguma coisa por vós? ─ Vós aceitais um mate? Perguntou o Cap Costa. ─ Aceito! Agradeceu o comendador Correia Jr. ─ Sr Gomes! Peçais à dona Teresa a cuia de chimarrão e a chaleira com água fervente. ─ Cavalheiros! O navio “Sagaz”, segundo a Capitania dos Portos de Santos, está em uma lista de navios para ser apreendido pela Inglaterra. ─ Exatamente! Eu preciso vos falar a respeito. ─ Mr Todd ainda não teve oportunidade de conhecer as autoridades de nossa cidade. Espero que na recepção desta noite e após a viagem a 73
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Curitiba o senhor conhecerá a todos. Comentou o Cap Costa. ─ Mr Todd, vós ireis a Curitiba? Perguntou o comendador Correia. – Eu posso vos garantir que as nossas exportações de mate atingiram 25% das exportações da China. Se houvesse uma boa estrada, nós dominaremos o mercado mundial de madeira. Disse o Capitão Costa. ─ Eu desejo conhecer o potencial de pinheiros que há nesta região. Muitos tropeiros têm falado em São Paulo a respeito desta magnífica madeira. Alguns importadores americanos estão interessados não somente em varões de jiçara para carroças, mas também para comprarem tábuas de araucárias. Uma tonelada desta madeira em meu país, custa mais do que meia dúzia de pistolas navais. ─ Há milhões de toneladas de araucárias, mas não há como transportar a madeira de Curitiba ao porto. Esta é uma luta de duzentos anos. Explicou o comendador Guimarães. ─ Eu tenho lido nos jornais em Santos que o Distrito de Curitiba pretende se separar da Província de São Paulo, por causa de uma estrada? O Cônsul perguntou. ─ Na vossa viagem a Curitiba, vós conhecereis o Itupava de perto, não somente por notícias. Vereis a real necessidade de uma estrada decente para vencer a desafiante Cordilheira da Marinha. Disse o Comendador. ─ Qual motivo vos impede de construir uma estrada adequada? ─ Apenas a política irracional. A companhia concessionária para construir a estrada necessita do aval da Província para o financiamento. Explicou o comendador Guimarães. ─ Muitos deputados da Assembleia em São Paulo pertencem ao sectário Liberal. Os Republicanos temem perder o suporte econômico dessa região. A grande força econômica de Paranaguá está nas mãos do partido conservador, onde a inevitável separação é requerida. O Comendador Correia Jr revelou a causa política. ─ Uma nova Província oferecerá o apoio necessário à construção desta estrada? Mr Todd perguntou. ─ É por isso que a Província deve ser estabelecida. O Capitão Costa apresentou sua previsão. ─ Vossa terra é generosa ao oferecer tantos recursos naturais. Eu faço votos que alcanceis o merecido objetivo. O Cônsul concordou. ─ Realmente! Nós temos o mate, as araucárias e energia hidráulica para os engenhos. Mas, nós precisamos conhecer o nosso atual relacionamento com os Estados Unidos após o bloqueio de Lisboa. O Comendador Guimarães lhe perguntou. 74
  • A Escuna Astro ─ O acordo assinado por D João VI em 1814 no Rio de Janeiro, não foi cumprido pelo governo português. O Imperador do Brasil concordou em pagar 44:000$000 réis pela escuna americana “Armstrong” que havia sido incendiada pela Inglaterra, na ilha de Faial no arquipélago nos Açores. Como o governo português estava assentado no Brasil, Dom Pedro prometeu executar o acordo. Então, a ordem para levantar o bloqueio foi dada. O cônsul explicou. ─ Por este acordo internacional, o vosso governo colocou um ponto final na divergência existente entre as três nações. Os Estados Unidos dariam apoio militar ao Brasil contra a Inglaterra? ─ O governo do meu país tem todo o interesse em fortalecer os laços comerciais e de amizade com o Brasil. Afinal, nós fomos a primeira nação a reconhecer a vossa soberania. O cônsul concordou. ─ Nós temos um sério problema com o navio “Sagaz” e estamos muito longe do Rio de Janeiro para obtermos a solução imediata que necessitamos. O Comandante Guimarães insistiu. ─ O navio “Sagaz” teria sido apreendido pelo HMS Rifleman em Santos, se os seus proprietários não tivessem alterado o registro para o novo nome Astro. O Comendador Correia lhe contou. ─ Eu enviei sigilosamente uma cópia da lista ao Comandante da Marinha em Santos. Todos os armadores no mundo inteiro podem mudar os nomes dos seus navios. O cônsul revelou sua ação. ─ Os ingleses logo saberão que o Sagaz mudou o nome e virão a Paranaguá para apreendê-lo. O Capitão falou apreensivo. ─ O vosso país tem poder de persuadir qualquer nação. O Comandante Guimarães disse ao cônsul. ─ Esta questão requer análise do meu governo. O cônsul lhes respondeu. ─ Mr. Todd! Nós não temos tempo suficiente para consultar ao Rio de Janeiro e muito menos para consultar a Washington. O Comandante Guimarães lhe respondeu. ─ A minha viagem a Paranaguá foi anunciada a todo o corpo consular em Santos, durante a recepção de despedida. O comando da esquadra inglesa sabe que estou aqui e não tomará nenhuma atitude beligerante contra esta cidade. Mr Todd respondeu para acalmar a todos. ─ Com licença, senhores. O chimarrão está pronto, mas a senhora Júlia solicita a presença de vós todos para o almoço. Dona Teresa anunciou à porta do escritório, segurando uma cuia de chimarrão e uma chaleira com água fervente. 75
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Obrigado, dona Teresa! Senhores vamos à sala de refeições. O Capitão Costa os convidou. ─ Eu tenho fontes seguras em Santos. Eles têm me informado cada passo da Inglaterra. Eu vos asseguro que nenhuma agressão sobre esta cidade foi mencionado. Disse o Cônsul enquanto eles estavam caminhando em um corredor. ─ Eu creio que nós temos a resposta desejada. Disse o Comandante Guimarães. ─ Enquanto eu estiver aqui, a cidade estará livre de qualquer bombardeio. O Cônsul lhes deu parcial apoio. ─ Obrigado, Senhor! Isto já é o suficiente para nossa ação. ─ É um prazer tê-lo em nossa cidade, Mr Todd. ─ Vós não desejaríeis acompanhar o cônsul nesta viagem a Curitiba? O Capitão Costa fez um convite pessoal ao Comandante Guimarães. ─ Nesta atual circunstância, nós não podemos ficar longe da cidade. Nós teremos outra oportunidade. O Comandante respondeu. ─ Hoje à noite Júlia apresentará um recital de piano. Esta será uma recepção social para apresentar o Cônsul Mr Todd e sua esposa. Nós gostaríamos de contar com a vossa presença e esposas. O Capitão Costa convidou o Comandante Guimarães e o Comendador Correia Jr. ─ A minha esposa e a Sra Júlia já haviam programado esta recepção no Rio de Janeiro. Ela fez um convite pessoal a uma das passageiras que conhecemos durante esta viagem a Paranaguá. O cônsul americano falou-lhes. ─ Será ótimo! Concordou o Cap Costa. ─ Estaremos aqui, é um prazer ouvi-la tocar. ─ Podeis contar com a nossa presença. Nos últimos cinco anos, o cair da noite atraía as crianças para as ruas da cidade que cintilavam luzes da prosperidade. Até mesmo as mulheres e suas filhas se acotovelam nos peitorais das janelas. Todos queriam ver o funcionário da municipalidade acender os lampiões de azeite de oliva fixos nas paredes das casas da rua da Ordem. Os 36 lampiões alugados à municipalidade, custavam 1/3 dos valores gastos mensalmente em azeite de oliva, (aproximadamente dez sacos de café ao ano). O funcionário caminhava rapidamente trazendo uma vareta com uma pequena tocha acesa para inseri- la através de uma abertura abaixo da lamparina para inflamar o pavio. Então, um brilho amarelado brotava da moldura envidraçada iluminando o rosto do homem. As mulheres nas janelas riam vendo as crianças brincarem com suas 76
  • A Escuna Astro sombras projetadas nas paredes. Nesta pequena cidade sedenta por informações, as novidades corriam rapidamente pelos bocas-pequenas. Estas eram crianças de casa ou da rua que, ouvindo algo interessante, logo saíam em balbúrdia para contar a todos. Os moradores também estavam com suas atenções dirigidas à casa do Capitão Costa. Algumas crianças estavam do outro lado da rua olhando para as pessoas que chegavam à casa da Dona Júlia. Os meninos olhavam para os uniformes dos militares, enquanto as meninas comentavam sobre os negros vestidos de seda. As senhoritas vestiam a elegante e colorida moda francesa. A sorridente Júlia e a esposa do cônsul americano recebiam as autoridades civis e militares. Elas conduziam as convidadas pelas mãos à sala de estar ou à sala de recepção, onde estava o piano. A esposa do cônsul americano e Júlia estavam à porta quando Laura, Leocádia e Franco chegaram. ─ Boa noite, Mrs Todd e Sra Júlia! Franco cumprimentou. ─ Franco, Laura, Leocádia, entrem! Vós sois bem-vindos a minha casa. A senhora Júlia e a senhora Todd os receberam. ─ Obrigado, Sra Júlia! Eu e Laura decidimos anunciar o nosso noivado nesta noite. O Comandante do Astro chamou à parte a Sra Júlia para conversar com ela. ─ Que notícia maravilhosa! Este evento requer licor para tão especial comemoração. Júlia chamou os convidados para dirigirem um brinde com licor a Laura e Franco. Júlia pediu aos presentes para elevarem os cálices e deram um prolongado “viva aos noivos!” O Capitão Costa convidou o jovem casal a vir morar na cidade após o casamento. Franco respondeu dizendo que estudariam com carinho o convite. Júlia pediu a todos para irem à sala de piano. A jovem senhora sentou-se com charme e abriu a tampa do teclado de marfim e ébano. A Senhora Todd posicionou corretamente o braço do castiçal para Júlia ler a partitura. As matronas, algumas jovens senhoras, Laura e Leocádia sentaram- se atrás de Júlia. As primeiras notas ao piano convidaram os homens no escritório do Capitão a pararem a conversa e foram levados ao sabor da melodia à emudecida sala. Os amigos e visitantes acompanhavam com olhares ávidos, os mágicos movimentos das hábeis mãos de Júlia. A sonata “Claire de Lune” de Beethoven foi quase interrompida por altos aplausos. As senhoras logo foram envolvidas pela rara magia da música e flutuavam em si, apesar de estarem sentadas em cadeiras francesas dispostas sob o candelabro de cristais da Bohemia. Os alegres toques de “Para Elisa” fascinaram a seleta plateia. Os cônsules, políticos, armadores e militares retornaram ao escritório do Capitão para conversarem sobre a nova 77
  • Egberto Fioravanti Ribeiro província, ao sabor de vinho do Porto. Na copa, Helena e um grupo de senhoras davam os últimos retoques à mesa de jantar, preparada sob o rigor e arte da cozinha francesa. Ao findarem os aplausos, uma nova melodia. Helena reconheceu a última música composta por Júlia. Helena era uma incondicional amante da música e principal admiradora da anfitriã. Helena pediu permissão às senhoras na sala de jantar e dirigiu-se ao salão de música para ouvir sua amiga. O Capitão Costa e o Sr Todd também retornaram à sala onde os convidados comentavam sobre a música de Júlia. Os convidados vieram à cidade para a cerimônia de eleição e posse da Câmara dos Vereadores do ano de 1850. Este evento político era também social, com várias reuniões nas casas dos ilustres moradores. 78
  • A Escuna Astro VII MARES DO SUL A tripulação do HMS Cormorant movimentava-se na ponte de comando ao final do segundo quarto. As bielas envoltas em sibilantes jatos de vapor martelavam incessantemente sobre a estrutura das cavernas em aço para girar as duas rodas com pás ao lado do casco. O vaso de guerra navegava com rumo ao sul, como tropa marchando sob o compasso de tambores. Na madrugada de sábado, o céu estava limpo e a lua em quarto- minguante. Em alto mar, o vento gelado de inverno do hemisfério sul assobiava contra as janelas de madeira do navio. Na ponte de comando, o piloto anotou no Livro de Bordo a data “29 de junho de 1850” e consultou o relógio de latão polido fixo na parede diante do timão. ─ Agora são quase duas horas! Está na hora da leitura do rumo. Informou o piloto apanhando o sextante em um armário de borda alta, um lápis e uma caderneta de capa dura. ─ Vou abrir a porta para o convés da ponte, Senhor. Disse-lhe o assistente, um jovem aprendiz de oficial da armada inglesa. ─ Obrigado, Mc Bride! ─ Está frio aqui fora. Reclamou o assistente de piloto O piloto é um marujo acostumado com o frio e agitação do Mar do Norte e sabe manter o equilíbrio do corpo no convés somente com o movimento das pernas. Ele apenas concordou com o seu assistente e aproximou-se da janela iluminada para ler o sextante e anotar na caderneta. ─ Horizonte, Lua, Alfa Centauro e Cruzeiro do Sul. O oficial anotou cada grau encontrado e retornou à ponte de comando. O assistente entrou e fechou a porta, enquanto o piloto colocou o sextante na prateleira e dirigiu-se à mesa encostada à parede. O assistente o acompanhou até a mesa onde havia uma carta náutica enrolada e uma régua 79
  • Egberto Fioravanti Ribeiro paralela. ─ Vou apanhar um lampião. O assistente disse ao Sr Sullivan. ─ Obrigado! O piloto agradeceu e desenrolou a carta. ─ Estamos próximos da barra de Paranaguá? ─ Estou fazendo os cálculos... O piloto deitou um lado da régua paralela sobre o início da rota no Rio de Janeiro. O oficial movimentou os braços das duas réguas para deslizar sobre a carta até encontrar o ponto de chegada sobre as costas do Uruguai e parou o lápis sobre a carta. ─ Vós estais calculando ou vos lembraste deles? ─ Como poderia esquecê-los? Eu marquei uma cruz na carta. ─ Perdemos sete companheiros em Montevidéu. ─ Esta febre quase dizimou nossa frota! ─ O “HMS Tweed” sofreu dezoito baixas. ─ Eu odeio este país. ─ Nós não viemos aqui para chorar. Nós viemos para executar uma ordem e vós estais aqui para aprender navegação. ─ Sinto muito, Senhor! Posso calcular a distância da nossa viagem desde Cabo Frio? ─ As coordenadas são: 47° 50’ W e 25° 23' S. Estamos a 6 graus desde o Rio de Janeiro, para Cabo Frio vós deveis acrescentar mais 1 grau e 30 minutos. ─ Multiplicando 7 graus por 60 minutos teremos: 420 minutos mais 30 minutos são 450 minutos. Então, de acordo com o vosso traçado de rumo, nós navegamos 450 milhas. Nós estamos próximos da barra de Paranaguá? ─ Sim! Apesar de terdes apenas treze anos, o vosso aprendizado está sendo rápido. Além disso, vós estais começando a estudar geografia quando Greenwich está para ser o horário inicial do mundo. Isto será marcante por toda a vossa vida. ─ Obrigado, Senhor! Nós já navegamos por estas águas muitas vezes e assim como os demais aprendizes, eu também quero ser oficial. ─ Avisarei ao Capitão, estamos na hora de mudar o curso. O piloto apanhou um apito de contramestre e olhou para cinco tampas em bronze polido presas com correntes. Ele escolheu a de número 3 e destampou o bocal de bronze do intercomunicador que liga a ponte à cabeceira do Capitão. Dois silvos curtos despertaram o Capitão Schomberg. Com voz grave, o Capitão respondeu através do mesmo bocal. ─ Sim, Sr Sullivan! 80
  • A Escuna Astro ─ Senhor! Estamos próximos da baía de Paranaguá. ─ Perfeito, Mr Sullivan! Mudai o curso e mandai chamar o meu assistente. ─ Sim, senhor! Mc Bride, por favor, ide ao alojamento e chamai o assistente do Capitão. ─ Imediatamente, senhor! O piloto passou ao timoneiro as ordens que logo girou o timão vagarosamente para o novo rumo. O jovem assistente pendurou o lampião na parede e retirou-se da ponte. Ele desceu os degraus para o escuro convés e dirigiu-se cuidadosamente à proa do navio. Ele caminhou tateando nos cabos das escadas do mastro principal, tentando manter-se em pé no instável navio de guerra. Ele entrou no corredor e desceu a escada de proa chegando ao alojamento de marinheiros, iluminado por uma pequena lâmpada a óleo de oliva. Ele bateu no caixote, pendurado com correntes no barrote. ─ Backer! O jovem assistente chamou o seu companheiro enquanto cuidava-se com o balanço de outros caixotes de dormir. ─ O que houve Mc Bride? Perguntou o sonolento assistente enquanto tentava livrar-se do cobertor. ─ O Capitão vos chama em seu gabinete. ─ Obrigado! Eu já estou indo. O jovem assistente do Capitão desceu do oscilante caixote e dirigiu- se a uma mesa com uma jarra e uma bacia para molhar o rosto. Em poucos minutos ambos deixaram o alojamento dos aprendizes e subiram a escada para irem à ponte de comando. Backer parou diante da porta da cabine do Capitão e Mc Bride prosseguiu para a ponte. ─ Com licença, senhor! Backer bateu à porta da cabine. ─ Entre, senhor Backer! O assistente abriu a porta e entrou. A cabine do Capitão era provida de uma ampla cama com dois gavetões, um guarda-roupas com vários cabides, onde está o casaco vermelho com lapelas amarelas. Um chapéu de três bicos sobre a mesa com quatro cadeiras, um baú de madeira com seus pertences, uma escrivaninha a dois aquecedores a serpentina. ─ Bom-dia, senhor! ─ Bom-dia, senhor Backer! Ajudai-me com as botas e depois preparai o desjejum. ─ Sim, senhor! O assistente apanhou as botas e o ajudou. ─ Vós gostais da Marinha Real? Perguntou o Capitão. ─ Eu estou seguindo a carreira do meu tio. 81
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Como vós entrastes na Marinha Real Britânica? ─ Eu entrei como King’s Letter Boy há pouco mais de oito meses, após completar doze anos. ─ O tempo passa rápido. Em poucos anos vós sereis enviado ao Almirantado para os exames e sereis promovido a Guarda-Marinha e nos próximos três anos vós sereis promovido a Aspirante e depois a Tenente. ─ Esta é uma grande carreira, e o senhor é um excelente Capitão. O assistente disse enquanto o Capitão se levantava. ─ Agradeço o vosso elogio, Sr Backer. Agora, trazei-me o café da manhã, por favor. No alto da gávea do HMS Cormorant, o vigia bradou às 5 horas a aproximação de terra. O Capitão Schomberg entrou na ponte. ─ Barra de Paranaguá à vista! ─ Entrar barra! ─ Senhor! Não estamos mais em águas profundas. O canal é raso e vamos precisar de um prático. ─ Chamar um piloto! 82
  • A Escuna Astro VIII O PRÁTICO O prático Santiago aproximou-se da janela da sala e olhou para a enseada das Conchas na Ilha do Mel. A sua esposa envolta em um cobertor aproximou-se silenciosamente. ─ Teremos bom tempo hoje? Ela perguntou e o abraçou. ─ Sim! Hoje será um ótimo dia! A senhora dormiu bem? Ele perguntou e virou-se, envolvendo-a num abraço, beijou-a carinhosamente. ─ Sempre durmo bem ao vosso lado. ─ Vou acender a lamparina. Santiago tateou sobre o armário para encontrar uma xícara com fósforos. Um estalo de fósforo quebrou o limiar da escuridão. Santiago alcançou o pavio da lamparina de óleo de peixe. O suave brilho da luz revelou o delicado corpo de uma bela jovem senhora. ─ Nossos pais não quiseram a nossa felicidade. ─ Pudera! Eu só tinha treze anos. ─ A vossa tia também tinha treze anos quando casou. ─ Acho que este foi o motivo de papai discordar. A luz projetava na cortina os dois corpos unidos abraçados. Na praia das conchas dois homens caminhavam na areia e observaram a luz na sala. ─ Vede, Miguel! Santiago já está em pé. ─ Vamos pedir-lhe a rede de pesca. Com tempo bom não vai aparecer tainha. ─ Se a tainha não vier até a praia, nós vamos ao mar com a rede. ─ Se o mau tempo cair sobre o mar, nos impedindo de velejar, temos siri sob a areia. Pedro e Miguel riram com as inúmeras possibilidades de encontrar alimento. 83
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Santiago! Os homens chamaram pelo companheiro, mas a rebentação do outro lado da ilha encobria o chamado. ─ Estou ouvindo vozes a vos chamar. Vou me vestir. ─ São os nossos vizinhos Pedro e Miguel. Disse Santiago da janela. ─ Bom-dia, Santiago! ─ Bom-dia! Entrem, está frio. ─ Vós gostaríeis de ir pescar? Perguntou Miguel. ─ Hoje, não! Devo ir ao morro para ver se chegou algum navio. Se não, levarei Anita e Carlos a Paranaguá. Hoje é feriado de São Pedro. ─ Nós vamos precisar da vossa rede que é maior. Falou Pedro. ─ Podeis levar. Agora irei ao morro. Santiago vestiu o seu casaco e apanhou o estojo com a luneta e saiu da casa com os amigos. Anita aproximou-se da janela. ─ Bom-dia, dona Anita! Eles a viram e a cumprimentaram. ─ Bom-dia! O café já está pronto, não quereis esperar? ─ Outra hora, obrigado! No morro das Conchas o piloto Santiago olhou para o escuro oceano. Os seus olhos correram do mais longinquo sul ao norte até a Ilha das Palmas. Em seguida, ele olhou para o interior da baía até o forte. Não havia nenhum navio chegando. Santiago sentou-se na grama, enquanto olhava para o mar e balbuciou uma prece. Em seguia, ele subiu em uma pedra plana e apanhou o estojo e retirou a luneta. Ao romper da aurora, os primeiros raios do dia cortavam o céu e refletiam no rosto de Santiago, revelando sua pele curtida pelo sol. Repentinamente ele observou na lente desfocada a passagem de um navio em meio a densa fumaça. Ele saltou da pedra e apoiou o cotovelo para focalizar melhor o navio vindo na rota do canal. Os seus olhos brilharam de alegria. Ele guardou a luneta no estojo e desceu correndo morro abaixo. ─ Anita! Anita! Acordai o Carlos, tem um vapor chegando e vou precisar dele. ─ Carlos! Anita estava preparando a mesa para o café e ouviu o seu marido e chamou o filho. ─ Já ouvi, mãe! Estou indo lá fora por um instante. ─ Vós deveis vestir roupa quente, está frio. Após o café, todos ouviram o navio emitir dois apitos a vapor, mesclados em agudo e grave que soaram fortemente sobre a ilha. ─ Carlos, vamos logo! O navio está pedindo um prático. ─ Santiago! Nós estamos indo para vos ajudar com o barco. Pedro 84
  • A Escuna Astro e Miguel apareceram na porta para auxiliarem o companheiro. ─ Obrigado, Pedro! Eu vou precisar de ajuda. ─ Está bem, a pesca será mais tarde. ─ Vamos, Carlos! Gritou Santiago saindo com os amigos. Na praia das Conchas os pescadores empurraram o barco sobre rolos de madeira para alcançarem as ondas. A pequena tripulação do barco de Santiago tomou posição a bordo para levantarem as velas. As gaivotas em algazarra mergulhavam e apanhavam peixes para a primeira refeição. As ondas arrebentavam sobre as pedras borrifando espuma amarelada ao sol. Meia hora mais tarde, Santiago aproximava-se do navio. ─ Este navio é muito grande. Carlos olhou para o navio e comentou. ─ Deve pesar mais de mil toneladas. Santiago respondeu. ─ Olhem os canhões! Pedro apontou para os enormes canos. ─ Pedro, sentai ao leme. Eu vou subir a escada. Santiago ficou em pé e subiu a escada de cabos ao lado do mastro. ─ Esperai a onda certa! Recomendou Pedro. ─ Carlos, cuidado com o vanzeiro do navio. Santiago ordenou. ─ Deus vos guarde, pai! ─ Nos estaremos juntos em Paranaguá. Santiago prometeu. Santiago saltou para a escada do navio onde alguns marinheiros o ajudaram a subir a bordo do HMS Cormorant. Alguns marinheiros com as roupas sujas de carvão corriam do alojamento da popa. Um jovem assistente de engenheiro de máquinas apressava os foguistas para correrem ao trabalho. Santiago encostou o seu corpo contra a amurada. Os marinheiros entraram em uma porta para descerem à casa de máquinas. O prático olhou para o mar e acenou para o seu filho no barco. ─ Senhor piloto! Qual é o vosso nome? Um oficial o chamou. ─ O meu nome é Manoel Felipe Santiago. O prático respondeu. ─ Eu sou o Tenente Luckraft, vamos à ponte. ─ Prazer em vos conhecer. Santiago respondeu. ─ Senhor Capitão, este é o prático Santiago. O oficial apresentou Santiago ao Capitão Schomberg. ─ Podeis nos ajudar a revisar a carta? Perguntou o Capitão. ─ Vós podeis levar a proa entre os dois bancos de areia. ─ Meia força à vante! Sullivan acionou o telégrafo de máquinas posicionando a alavanca em “Meia Força”. O Capitão Schomberg com cabelos grisalhos e barba semiaparada 85
  • Egberto Fioravanti Ribeiro tinha a fisionomia de quase 50 anos. O capitão vestia um casaco escarlate com lapelas amarelas, calça branca e botas pretas longas. ─ O canal está um pouco mais para o sul e tem doze pés de calado. Santiago disse os detalhes da entrada da barra. ─ Então, navegaremos em segurança, nosso navio tem nove pés. O Capitão disse ao piloto e foi a sua cabine para escrever um ofício às autoridades da cidade. O vaso de guerra navegava no canal entre os baixios e adentrou a baía. Após navegar meia hora, o navio aproximou-se da fortaleza. Um Sargento com dois soldados em um escaler aproximaram-se do navio para algumas perguntas usuais. O Tenente Luckraft ao ver um escaler que se aproxima, foi ao intercomunicador para chamar o Capitão. ─ Senhor! Um Sargento em um escaler está fazendo sinais para nos parar. O Tenente falou ao Capitão. ─ Manter as rodas girando a baixa rotação! Sr Luckraft, entregue o meu ofício ao Comandante das Forças de Paranaguá. O Capitão orientou o Tenente enquanto o barco atracava na escada arriada. O Tenente foi atender ao Sargento. ─ Nome do Capitão e motivo da vinda a Paranaguá. O Sargento faz anotações em sua caderneta. ─ Nós estamos vindo a Paranaguá em cumprimento do acordo entre o Brasil e a Inglaterra. O Tenente Luckraft respondeu enquanto mantinha em seu cinto o envelope com o ofício. ─ Alguma declaração a fazer? Perguntou o Sargento. ─ Não! Respondeu o Tenente inglês. ─ O vosso navio está livre para entrar! O escrivão de bordo, Mr Lindsay, apanhou o Livro de Bordo para registrar os últimos acontecimentos, enquanto o navio chegava à ilha da Cotinga às 11:00h de 29 de junho de 1850. Os oficiais que estavam na ponte de comando observaram sobre a Ponta da Cruz várias flâmulas nos mastros de um aglomerado de navios no ancoradouro. 86
  • A Escuna Astro Ancoradouro da Cotinga IX AVES DE RAPINA 87
  • Egberto Fioravanti Ribeiro O comandante do Astro conversava com outros tripulantes no convés. A atenção geral foi logo dirigida para os ruídos de máquinas vindos do outro lado da ilha da Cotinga. ─ Que ruído é este? Perguntou Severiano olhando para a baía. ─ Ruído de máquinas! Respondeu Nascimento. ─ É o HMS Rifleman! Severiano disse rangendo os dentes. ─ Não! O ruído é muito forte, se comparado às silenciosas hélices do HMS Rifleman. Comentou Franco olhando para Laura, ao se aproximar assustada. ─ Olhem! É uma corveta de guerra com rodas laterais. Gritou um marinheiro do alto do mastro. ─ O Astro será apreendido! Severiano previu o fim do seu navio. ─ O quê vós fareis? Perguntou Laura ─ Nós nada podemos contra eles. Lamentou Nascimento. ─ Não se entreguem tão facilmente! Franco Resmungou. ─ Ouçam! A barca polaca está batendo o sino de alarme. ─ Eles chamam sua tripulação ou para lutar ou para fugir. ─ Este é o HMS Cormorant. É o mesmo que incendiou o Santa Cruz em Ilhabela em janeiro e roubou o Polka em Macaé no mês passado. ─ O Cormorant está dando a volta na Ponta da Cruz. ─ Este navio vai entrar e apreender todos os navios. Espero que o Rossi esteja a bordo do Dona Ana. O HMS Cormorant, 60 metros, 1057 toneladas, duas máquinas a vapor com 300 HP, duas rodas de pás laterais, três mastros e seis canhões nas amuradas, quatro de calibre 64 (libras) e duas torres sob rodízios com culatra e alma lisa de calibre 80 (libras). O navio entrou vagarosamente no fundeadouro. O contramestre mediu cuidadosamente o calado do baixio na Costeira, coberto por escassa vegetação de mangue. A ordem havia sido dada pelo Capitão para arriar a âncora em local seguro nas proximidades do rio Taguaré. Havia no ancoradouro vários navios em descarga de sal e embarque de madeira e erva mate. Dois veleiros saíram do porto e passaram entre outros navios fundeados e o Cormorant. 88
  • A Escuna Astro ─ Seis braças! Cinco braças! Parar máquinas! O assistente no castelo de proa avisou ao Capitão, através do intercomunicador, a aproximação do banco de areia. O Comandante ordenou parar as máquinas e numa olhadela, ele fingiu ignorar os navios passando diante dele. Os dois navios com as portinholas abertas expondo seus canhões, sugeriam ao Capitão a lhes deixar ir. O Cormorant estava ancorando quando a escuna Polaca deixava o porto. ─ O Cormorant está fundeado, uma barca e uma escuna estão zarpando. Franco comentou. ─ Vamos sair agora acompanhando os navios. Sugeriu Laura. ─ Estamos sem velas e qualquer movimentação será motivo para abrirem fogo contra nós. ─ Se eles tentarem levar o Astro, eu colocarei o nosso plano em ação. Nascimento disse secamente. ─ É muito arriscado, tu serás preso. Ponderou Severiano. ─ Franco e Severiano permaneçam comigo no navio. Os demais devem desembarcar, agora. Nascimento ordenou. ─ Não vos deixarei Franco. Eu quero ficar a bordo convosco. ─ Não podes ficar, Laura. Os tripulantes estão levando para os escaleres todos os equipamentos e documentos. Nascimento irá afundar o Astro. Franco falou para ela a baixa voz. ─ Os ingleses não levarão este navio. Por favor, Senhorita Laura! Nascimento a ordenou descer aos escaleres com a tripulação. ─ Apanhem os seus pertences e desçam todos para os escaleres. A ordem é para abandonar o navio e manter os escaleres nas proximidades. ─ Ainda bem que a prataria que eu trouxe de Olinda já está em São Paulo. Suspirou Laura. ─ Menos mal, mas terás que desembarcar. Siga para a casa de Leocádia. Ela certamente te receberá. Franco recomendou e a levou pelas mãos ao portaló. 89
  • Egberto Fioravanti Ribeiro X AP REENSÕES O guincho de proa arriou a âncora entre nuvem de vapor e ruídos estridentes. A faina a bordo iniciou aos silvos do contramestre ante as ordens do Capitão para os registros. As guarnições sob o comando de seus oficiais se posicionam diante dos escaleres pendurados nos turcos. ─ Sr Luckraft! Ordene que arriem ao mar os escaleres. ─ Capitão! Dois navios estão saindo do porto. ─ Quero os artilheiros no paiol para municiar cada peça com dez Shrapnel para trezentas jardas e dez cachos de uva, agora! Os dois navios com canhões e guarnição passaram diante do Cormorant. Schomberg olhou para os lados para fingir que não se importava, enquanto o tenente Luckraft dava ordens aos seus oficiais. ─ Tenente Kantzov! Aspirante Buckley! Ordenai as vossas guarnições para estarem armadas e arriai os escaleres! Vamos apreender os remanescentes. Senhor Kantzov visitai o “Sereia”. Senhor Buckley visitai o “Lucy Ann” que agora está com o nome de “Campeadora”. Eu irei àquele maior que é o “Hannibal”, mas agora está com o nome Conclusão. O tenente Luckraft organizou as apreensões. O escaler do Tenente Kantzov aproximou-se do “Sereia”. Os marinheiros olharam para o navio e falaram a uma só voz em português. ─ “Oh! Este está Sereia”. (Oh! Este é o Sereia). O escaler atracou ao lado do Sereia. Os marinheiros usavam chapéus palheta e fitas azuis e golas largas sobre os ombros. Eles subiram pelos estais dos mastros para a abordagem. Eles efetuaram alguns disparos de mosquete para assustar os trabalhadores e com espadas em punho para intimidar e dominar carpinteiros e marinheiros. Os marinheiros ingleses 90
  • A Escuna Astro levantaram um brado para liderar e apreender a escuna Sereia. ─ Verificai os itens de tráfico! Argolas, treliças, pipas com água e vasilhame para alimentos. Kantzov dirigiu as ordens aos seus marinheiros que se espalharam pelas dependências do Sereia. ─ Encontramos vários itens de tráfico! Dois marinheiros avisaram. ─ Quem é o comandante deste navio? Perguntou o tenente. ─ Ele está em terra. Os trabalhadores responderam. ─ Retirai todos os brasileiros de bordo e rebocai a escuna ao Cormorant! Kantzov ordenou. O escaler do Tenente Luckraft atracou ao lado do navio com o nome Dona Ana e entre tiros e voz de comando os tripulantes foram dominados. ─ Quem comanda este navio? ─ O comandante está em sua cabina. Um marinheiro respondeu enquanto o comandante Rossi aparecia trazendo alguns documentos. ─ Estes são os documentos do navio, não temos nenhuma mercadoria porque estamos vazios fazendo reparos. ─ Verificai se há itens de tráfico. Luckraft deu as ordens e desceu com cinco marinheiros ao porão. ─ Senhor! Argolas nos barrotes e painel para separação. Há treliças nas escotilhas e muitas panelas. ─ Verificai se há pipas com água. ─ Sim, Senhor! Existem várias pipas com água. Respondeu um marinheiro do fundo do escuro porão. Os marinheiros e o Tenente voltaram ao convés e dirigiram-se à popa. O comandante Rossi os acompanhou. ─ Qual é o verdadeiro nome deste navio, Leônidas ou Dona Ana? ─ Este navio já pertenceu a muitos armadores. Cada armador sempre escolhe um novo nome ao seu navio. ─ Todos os itens de tráfico constam neste navio! De agora em diante este navio está registrado em nome de sua majestade, a rainha da Inglaterra. ─ Todos os navios, inclusive o seu, possuem argolas para peação de cargas, treliças para ventilação do porão. As pipas com água são para o lastro e as panelas para alimentação de tropas. ─ A minha ordem é para a desocupação imediata deste navio. Içar âncora! Preparar lançantes! As ordens fora cumpridas imediatamente enquanto ele fazia anotações em sua caderneta. ─ Este navio faz cabotagem na costa brasileira e não é de tráfico. 91
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Vós não podeis fazer isto. Rossi arrancou os documentos das mãos de Luckraft. Os marinheiros seguravam o lançante para passarem ao escaler. Rossi aproximou-se deles distribuindo chutes e socos e tentou tomar o lançante das mãos de um marinheiro. ─ Senhor! Os carpinteiros e marinheiros estão reagindo. ─ Apontar mosquetes! Um marinheiro agarrou o comandante Rossi enquanto outros se aproximaram. Rossi chutou os que estavam na sua frente. ─ Amarrai esta fera. ─ Vós estais preso e sereis julgados conforme a lei Aberdeen. Amarrai as mãos de todos e conduzi-os ao vapor. Rossi permaneceu sentado na proa do escaler e os marinheiros remavam rebocando o Dona Ana ao Cormorant. ─ Capitão! Este home m reagiu com agressões e está preso e os demais também tentaram apoiá-lo, mas foram imobilizados. ─ Podeis desamarrá-los. ─ Eu farei o registro do “Hannibal” que agora está com o nome de “Conclusão” e depois o “Astro” que está próximo. O Tenente Luckraft retirou-se e o comandante Rossi foi levado ao gabinete do Cap Schomberg. ─ Qual o seu nome completo e nacionalidade? ─ O meu nome é Gio Batta Rossi. Eu sou italiano. ─ Qual o seu relacionamento com o navio Dona Ana? ─ Eu sou o comandante. ─ Quem é o armador? ─ O armador é o Sr José Joaquim de Oliveira, morador desta cidade. ─ Vós sabeis que esta apreensão está conforme um acordo mantido entre a Inglaterra e o Brasil, assinado em 23/11/1826. ─ Todos nós sabemos que o direito de visita a navios brasileiros mencionados neste acordo valia por quinze anos, portanto agora não tem mais valor algum. ─ Estamos cumprindo o acordo com o Brasil. ─ Ora, Sr Capitão! O mundo inteiro sabe que o interesse da marinha inglesa está no Prize Money. ─ Isto não é verdade, Sr Rossi! O almirante Nelson nunca obteve valores significativos. 92
  • A Escuna Astro ─ Certamente! Ele era homem honrado para agir de maneira tão vergonhosa. Ele jamais teria ordenado aos seus oficiais e marinheiros que no meio da noite cortassem as amarras de um navio, como os tripulantes do HMS Cormorant fizeram ao “Polka” em Macaé, quando estava atracado no cais embarcando mercadorias legais. ─ O seu navio está repleto de provas de estar sendo aplicado ao tráfico, inclusive há muitos barris com água potável. ─ Água potável? As barricas estão com água salgada usada como lastro. O senhor não faz o mesmo quando o Cormorant está vazio? ─ O Ato do parlamento britânico proposto por Lorde Aberdeen e publicado em 08/08/1845 transfere para os tribunais ingleses a responsabilidade de pronunciar as sentenças de condenação que deixarem de proferir os tribunais do Brasil. ─ Nós não estamos na jurisdição da Inglaterra! A minha detenção, a dos demais operários e tripulantes brasileiros no seu navio, é um ato ilegal. Ao governo britânico serão imputadas todas as responsabilidades por este ato. ─ Suas ameaças não me intimidam, mas para desconsiderar a sua expressão “detenção”, ao senhor e aos demais, permitirei caminharem por qualquer dependência do navio até findarem as apreensões. ─ Eu estou dispensado? Perguntou Rossi. ─ Sim! O senhor pode se retirar. Rossi retirou-se da cabina do Capitão e no convés encontrou-se com o prático Santiago. ─ Sr Rossi! Santiago chamou. ─ Prático Santiago! Como estás? ─ As autoridades de Paranaguá nos ajudarão? ─ Eu não sei. Eu os avisei há duas semanas. ─ O Capitão Schomberg nos deixará ir? ─ Ele me garantiu que a nossa soltura acontecerá somente após o término das apreensões. Para nos manter em calma, ele nos permitiu visitar o seu navio. ─ Então, vamos! Eu gostaria de ver as peças, mas fiquei com receio de ser considerado espião. Se bem que há um Guarda-Marinha seguindo-me o tempo todo. Santiago comentou movendo o seu lábio inferior inferior em direção a Backer. O Tenente Luckraft aproximou-se da galera Conclusão de três mastros, 412tons e pediu a presença do comandante com os documentos do navio e da carga. 93
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Quem comanda este navio? Luckraft perguntou enquanto olhava a sua volta e observou quão velho e sujo estava o navio. ─ Sou eu! Estes são os manifestos da lenha para o Rio de Janeiro. O comandante respondeu apreensivo entregando-lhe os documentos. Luckraft apenas folheou os papéis e disse que os documentos estão em ordem e os devolveu ao comandante e chamou os seus homens. ─ Boa-tarde, Comandante! Luckraft despediu-se. ─ Boa tarde, Tenente! O Comandante mais calmo, lhe respondeu. ─ Este navio está em ordem, vamos ao Astro! No convés do Astro, Nascimento, Franco e Severiano conversavam quando viram o escaler aproximar-se. ─ Um escaler inglês está vindo para cá. Franco os avisou. ─ Severiano, desce tu ao escaler do lado da ilha e aguarda até eu terminar o serviço. Nascimento disse. ─ Tenhas cuidado! Severiano lhe respondeu. ─ Eu vou me esconder entre as cavernas da quilha de proa. Se eles levarem o “Astro”, hoje à noite terão grande surpresa. Nascimento disse e desceu pela escotilha do porão. ─ Eu ficarei aqui de vigia. Franco prontificou-se para avisá-lo. ─ Estaremos esperando por ti na ilha da Cotinga. Severiano respondeu e desceu ao seu escaler. Nascimento ordenou aos tripulantes para não impedirem os ingleses de abordarem a escuna e desceu a escada do porão do Astro até a quilha da proa. Ele levantou o fundo falso e se escondeu entre as cavernas, próximas a várias pipas com água de lastro. Os marinheiros ingleses fizeram a abordagem, seguidos por Luckraft cheio de cuidados para não sofrer nenhuma agressão. ─ Quem é o comandante da escuna? ─ Ele está em terra. Respondeu Franco. ─ Verifiquem os itens de tráfico. O Tenente deu ordens aos seus homens que correram à popa e vistoriaram desde o convés à sala do comandante e desde os alojamentos às cavernas de popa. ─ Este navio está em reparos, senhor. Explicou Franco. ─ Meus homens irão verificar. Respondeu Luckraft. Os marinheiros verificaram o convés do timoneiro, os alojamentos a cozinha e o convés de proa. Então, eles retornaram. ─ Sem panelas! Um dos marinheiros anunciou. ─ Sem alimentos! Outro completou. 94
  • A Escuna Astro ─ Este navio está em reparos. Franco explicou. ─ Sem velas e instrumentos de navegação. Disse outro marinheiro. ─ Este navio foi pilhado. Luckraft falou. ─ Este navio foi comprado no ano passado e estamos fazendo uma série de reparos. Declarou Franco. ─ Vamos verificar os porões. Determinou Luckraft. ─ As escotilhas estão abertas, senhor! Os marinheiros abriram as escotilhas para iluminarem até as cavernas e desceram à primeira coberta, seguidos pelo cuidadoso Tenente. Eles verificaram muitas argolas parafusadas nas vigas sob o convés e vários painéis de madeira. ─ A escotilha para o porão tem armação de treliças e há argolas nos barrotes. Estes são os sinais de que este é um navio de tráfico. Luckraft diz. O Tenente ordenou aos seus homens para descerem ao porão, onde usualmente colocam-se pedras, sacos com areia ou barricas com água salgada para lastro. O ruído das ondas batendo contra o casco do navio confundiam-se com os passos dos marinheiros no assoalho do porão. Nascimento ouviu as vozes dos marinheiros muito próximas a ele e cobriu o seu rosto suado com a gola para abafar a sua pesada respiração. Um marinheiro abriu a tampa de uma barrica e mergulhou a mão na água e a colocou na boca. ─ Aqui só tem barricas com água salgada, senhor. ─ Barricas com água salgada? Esta é uma bela escuna com velas de armação direita dos brigues e obterá bom lance no leilão da Marinha em Southampton. Vamos subir e amarrá-la ao escaler e se a vazante nos permitir, nós a rebocaremos ao Cormorant. Disse o Tenente. Nascimento ouviu os passos rápidos subindo as escadas ao convés principal e levantou o fundo falso da quilha. Ele levantou-se e olhou para sua roupa molhada e a limpou rapidamente com as mãos, enquanto procurava o cano de drenagem do porão. Ele inclinou cuidadosamente uma barrica e a rolou para abrir espaço onde havia dois buracos no assoalho. Nascimento encontrou os dois bujões de bronze parafusados no tubo da flange. Ele desatarraxou com as mãos os bujões de bronze para o esgotamento do porão e um forte jorro de água invadiu as cavernas. ─ Senhor! Há muitos escaleres brasileiros nas proximidades. Um marinheiro avisou Luckraft que caminhava para o castelo de proa. ─ Então, vamos ao cruzeiro pedir ajuda. Um marinheiro sugeriu. ─ Por enquanto, vamos ajudar o Sr Buckley com aquela galera. Eu vou sugerir ao nosso Capitão para mudar o vaso de guerra do lado sul da ilha 95
  • Egberto Fioravanti Ribeiro para o lado norte. O Tenente Luckraft disse qual é o seu plano Os marinheiros ingleses foram ao seu escaler e deixaram o Astro para trás. Franco viu que agora já poderia chamar o comandante. Um profundo silêncio invadiu o porão. Somente o som das ondas batendo no casco eram possíveis de serem ouvidas, logo a voz de Franco chamou a atenção do comandante. Nascimento estava muito sujo e molhado quando saiu do porão segurando dois bujões de bronze nas mãos. ─ Abriste tu o dreno para afundar o Astro? Perguntou Severiano. ─ Nós não tínhamos outra alternativa. Nascimento respondeu triste. ─ Vamos pegar um barco, enquanto os ingleses se foram para ajudar no arresto da Campeadora. Franco sugeriu. ─ Hei, Franco! Laura acenou para Franco. ─ Vinde a bordo agora! Os homens se aproximaram em alguns escaleres do Astro e chamaram pelos seus comandantes. ─ Onde está o meu baú? Nascimento perguntou. ─ Está aqui comigo, senhor! O contramestre lhe respondeu. ─ Eu irei no vosso barco. Tenho que trocar o meu casaco. Franco deixou o Astro para embarcar onde Laura estava. Nascimento parou no alto da escada do portaló, tirou o chapéu e o colocou sobre o peito e em alta voz disse: ─ Perdão, minha senhora, pelo que acabo de fazer. Mas, logo estarei de volta. Nascimento prometeu e deixou o navio. ─ Vamos diretamente à sala do Comandante Guimarães no prédio da Alfândega. Ordenou Nascimento. ─ Levem a bagagem de Laura para a casa da Senhora Leocádia. Franco solicitou aos seus homens. 96
  • A Escuna Astro Antigo Colégio dos Jesuítas (Museu de Arqueologia) XI QUARTEL GENERAL 1- Térreo: Lado esquerdo Mercado com banheiros. Centro e lado direito é o armazém da Alfândega. 2- Pavimento intermediário: Armazéns da Alfândega. 3- Pavimento superior: Lado esquerdo está a Guarda Nacional. Lado direito estão os escritórios da Alfândega. 97
  • Egberto Fioravanti Ribeiro V ários serviços públicos estavam estabelecidos no antigo Colégio dos jesuítas. A Alfândega com seus armazéns e escritórios, o Quartel General do 1º Batalhão de Infantaria e depósito de material bélico e o Mercado. O povo estava diante do prédio exigindo medidas enérgicas contra o navio de guerra inglês. O Inspetor da Alfândega havia convocado as autoridades da cidade e o comando militar para uma reunião de emergência em seu gabinete. A sala estava localizada no terceiro andar, diante do rio Taguaré. Franco e Nascimento aproximaram- se do guarda na entrada do prédio. ─ Com licença, senhor. O meu nome é Nascimento e este é o comandante Franco e este é o mestre Severiano. Nós representamos o armador do Astro e queremos falar com o Comandante Guimarães. ─ O Comandante e os militares e as autoridades estão reunidos com o Sr Inspetor da Alfândega há mais de duas horas. Vinde comigo à sala onde eles estão. O soldado os convidou a entrar. Os três homens acompanharam o soldado ao pavimento superior até a sala dos Amanuenses. ─ Aguardai um momento, por favor! O soldado abriu a porta e lhes pediu que aguardassem por um instante. Os três homens viram as autoridades à mesa coberta com uma toalha de veludo verde e alguns oficiais em pé. ─ A situação está grave. Comentou Severiano enquanto o guarda retornava. ─ Poderão entrar apenas dois dos senhores. O guarda os informou. ─ Eu ficarei te esperando. Sugeriu Severiano. ─ Que Deus nos ajude! ─ Isto é pirataria! Não vamos permitir que nenhum criminoso venha nos dizer o que devemos fazer. Eu sugiro que peçamos apoio ao Sr Cônsul dos Estados Unidos da América, David Todd que está em nossa cidade. Sugeriu o Comandante Guimarães. ─ Devemos agir cautelosamente ou seremos massacrados pelos Republicanos na Assembleia Provincial de São Paulo e também no Senado. Se isso acontecer, perderemos a causa da emancipação e continuaremos o transporte pelo Itupava em lombo de burro. O Comendador Correia Jr falou. 98
  • A Escuna Astro ─ Realmente! Eu também concordo. Falou o Inspetor Caetano. ─ Nós não podemos separar as nossas atividades políticas das comerciais; ambas são assuntos da sociedade. O Dr Filástrio apoiou. ─ Sargento! Ide a minha casa e entregai este bilhete a Mr Todd. O Capitão Costa escreveu um bilhete chamando o cônsul para vir com urgência à reunião. ─ Paranaguá está muito distante dos grandes centros políticos para aguardar alguma decisão da Assembleia Geral. Nós não temos tempo para nenhum para obter apoio de ninguém, nós somente temos as forças da Guarda Nacional. O Dr. Filástrio explicou. ─ Cavalheiros! A Inglaterra levantou um sério problema à Fazenda do Império do Brasil e também aos donos de mercadorias e de navios. Em tais apreensões de navios, a Inglaterra confiscou do governo brasileiro as taxas geradas em exportações legais, além de navios e mercadorias. Como Inspetor da Alfândega, eu vos tenho convocado a esta reunião para obter apoio militar e para analisar uma resposta aceitável ao nosso Império. Se qualquer receita do governo brasileiro vier a ser tomada pela Inglaterra, o Império todo irá nos perguntar o que estamos fazendo aqui. Cada moeda tomada pela Inglaterra deverá ser recuperada ou deveremos aplicar sobre seu vaso de guerra, o dobro de danos que nos causaram. O Inspetor da Alfândega advertiu a Guarda Nacional e as autoridades. Ele foi muito aplaudido. ─ Estamos aqui para ajudar! Nascimento respondeu e todos voltaram seus olhares para ele. ─ Sr Nascimento! O que podemos fazer pelos senhores? Perguntou o Comandante Guimarães. ─ O meu navio está afundando e o meu sócio Franconi está detido no cruzeiro. Nascimento respondeu irritado. ─ Nós já estamos tratando deste assunto e enviaremos ao navio uma comissão para negociar a soltura de todos os detidos. A esposa do prático Santiago já esteve aqui pedindo nossa ajuda. O Comandante Guimarães lhes falou. ─ Eu poderei vos ajudar com homens e armas. Nascimento ofereceu ajuda para um confronto armado. ─ Obrigado, Nascimento! O Comendador Correia Jr agradeceu. ─ Nós precisamos saber de quantos homens o Comandante inglês dispõe a bordo. Perguntou o Comandante Guimarães. ─ Nós teremos que dispor de um número maior de soldados. O comendador Correia Jr lhes falou. 99
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ De acordo com a Marinha Inglesa, o HMS Cormorant tem mil toneladas e mede uns 200 pés de comprimento, logo é um navio de Sétima Classe e deve ter 135 tripulantes. Eu creio que soldados em armas sejam uns, oitenta homens. Nascimento respondeu. ─ Então, nós deveremos enviar cem homens para a artilharia e cem com armas leves. Sugeriu o Comendador Correia Jr ─ Por acaso nós temos pólvora e balas para os mosquetes e pólvora para os canhões? Perguntou o Comandante Guimarães a um oficial sentado ao seu lado. ─ No relatório do mês passado, nós tínhamos somente cinco barris de pólvora e aproximadamente 200 balas para canhões, além de Shrapnel e cachos de uva. O oficial respondeu. ─ Se contarmos somente com o comércio local, temos munição para três dias de fogo. Respondeu o vereador Joaquim olhando para as faces apreensivas. ─ Comandante Guimarães, tu és o Comandante da Guarda Nacional, podes nos dizer qual é a atual situação do forte? Perguntou o Juiz Dr Filástrio. ─ Com licença! Deixem-me responder ao Sr Juiz. O Capitão Costa levantou-se para responder. ─ A fortaleza está equipada com oito canhões de calibre 12 (bala de 5,436 kg) e quatro de calibre 18 (bala de 8,154 kg). Se o prático levar o navio pelo canal antes das pedras teremos bom aproveitamento com todos os canhões. Mas se saírem com maré alta pela barra falsa costeando a Ilha das Peças, o navio ficará fora do alcance dos canhões de calibre 12. Será ainda assim muito difícil alvejá-lo com os canhões de cal 18. Entretanto, algumas peças estão com as carretas de madeira muito deterioradas e deverão ser consertadas. Respondeu o Capitão Costa. ─ Vamos precisar de munição e madeira para os reparos dos canhões. Sugeriu o comendador Correia. ─ Nós devemos enviar carpinteiros. O Chefe de Polícia falou. ─ Façamos uma lista de voluntários. Se não houver gente suficiente, faremos o combinado; enviaremos soldados do Primeiro Batalhão sem o uniforme da Guarda Nacional. Determinou o Comandante. ─ Façamos também uma comissão para trazer os marinheiros e operários que estão detidos no HMS Cormorant. Sugeriu o delegado Barroso. ─ Hoje à noite nós enviaremos os voluntários para o forte pelo canal sul da ilha do mel. ─ Precisamos tomar duas providências imediatas. 100
  • A Escuna Astro “Primeira: enviaremos alguém ao forte para informar a nossa decisão ao Capitão Barbosa e trazer de lá as seis meninas e o rapaz.” “Segunda: precisamos da ajuda do Dr. Eduardo Killer e de enfermeiras para os feridos.” Solicitou o Dr Filástrio. ─ Doutor Filástrio! Não vos esqueçais da carta de protesto ao Comandante do Cormorant e outra para autorizar o Comandante Barbosa a pôr todos os impedimentos a qualquer retirada de navios. Determinou o Comandante Guimarães. ─ Escreverei todas as cartas. A carta ao Comandante Barbosa eu a enviarei somente após a retirada do pessoal detido. Porque o Comandante inglês poderá utilizar os reféns como escudos humanos. O Juiz Dr Filástrio explicou a sua estratégia. ─ Coronel Guimarães! O senhor como Comandante da Legião de Guardas Nacionais deve manter a tropa de prontidão até terminar esta questão. O Comendador Correia Jr lhe falou. ─ Eu espero que nada do que estamos tratando nesta sala chegue aos ouvidos dos deputados paulistas da Assembleia Provincial. Senão, adeus Província do Paraná. Lamentou o Comendador Guimarães. ─ Logo agora que estamos conseguindo a emancipação e com todas estes convidados na cidade nos acontece uma fatalidade destas. O que diremos aos convidados? O Dr Filástrio expressa sua indignação. ─ O Doutor Filástrio tem razão. Não será possível dizer: “senhores, não vos assusteis com os tiros. Nós estamos dando um tratamento especial Real Marinha Inglesa”. Ironizou o Comandante Guimarães. ─ Na segunda feira às dez horas, quando a sessão na Câmara for aberta e na presença de todos, nós lhes falaremos. Planejou o Dr Filástrio. ─ Agora, mãos a obra! Quem irá ao navio inglês? O Comandante Guimarães lhes perguntou. ─ O que faremos, se o comandante inglês também detiver os delegados? Perguntou o vereador Joaquim. ─ Vamos lhes dar uma hora para negociar. O Comendador falou. ─ Se eles não voltarem, eu irei a bordo. O Cônsul David Todd respondeu da porta, quando estava entrando na sala. ─ Obrigado, Sr Cônsul! Os ingleses poderão propor a troca dos navios pelos cidadãos detidos. O Comendador Correia sugeriu. ─ Neste caso, os delegados devem aceitar. O Cônsul sugeriu. ─ Mas como os detidos não são criminosos, os ingleses jamais sairão com os nossos navios inteiros, nem por nada neste mundo. 101
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Nascimento declarou sua decisão, já iniciada com seu próprio navio. ─ Levantar a mão, quem quiser participar desta missão O Comandante Guimarães propôs. ─ Eu estou me sentindo como a cegonha tirando osso da garganta do lobo. Falou o chefe de polícia com a mão levantada enquanto olhava para o vereador Joaquim levantar a sua mão. ─ É como disse La Fontaine: “não te basta salvar o pescoço?” Respondeu o vereador Joaquim com um sorriso. ─ Dr Filástrio! O senhor é homem fino e educado, porém, necessitamos de um ofício duro e determinado para surtir o efeito que o assunto exige. Falou o Comandante Guimarães. ─ Não vos preocupeis, Sr Comendador. Todos nós conhecemos a vossa habilidade em ditar várias cartas simultâneas, mas os meus textos já estão prontos na minha mente. Respondeu o Dr Filástrio. ─ Sr Delegado e Sr Vereador, ide e negociai o resgate da nossa gente e retornai vivos! Isto é uma ordem! Recomendou o Comandante Guimarães. ─ Façamos tudo pela nova Província do Paraná e pelo Brasil! Declarou o vereador Joaquim. As autoridades retiraram-se da sala dos Amanuenses e o Comandante da Guarda Nacional dirigiu-se ao seu Gabinete seguido pelo Cônsul Mr David Todd. Um Sargento entrou na sala do Comandante Guimarães para anunciar. ─ Senhor! Recebemos as informações de que já há mais de cinquenta voluntários inscritos. ─ Obrigado! São quase cinco horas, chegou alguma informação sobre a comissão? Perguntou o Comandante. ─ Temos observadores na Igreja da Ordem e nos disseram que a comissão está chegando a bordo neste momento. ─ Obrigado! Avisai-nos de todas as atividades na baía. 102
  • A Escuna Astro Corredor interno da Alfândega XII O RESGATE 103
  • Egberto Fioravanti Ribeiro O Capitão Herbert Schomberg estava no convés da ponte de comando com seus oficiais, quando os marinheiros correram às armas. O escaler da Alfândega aproximou-se para atracar ao lado da escada do navio. ─ Alto! Ordenou um marinheiro, aos olhares do Capitão. ─ Nós viemos para negociar com o Capitão Schomberg. Informou o delegado Barroso. ─ Trazei-os a minha cabina. O Capitão ordenou aos seus homens que deixassem as autoridades entrar no navio. ─ Que agradável surpresa! Santiago falou em alta voz. ─ Delegado Barroso e Sr Joaquim, como sairemos deste navio? Rossi lhes perguntou muito preocupado. ─ Franconi, Santiago! Como vós estais? Anita esteve há poucas horas na sala do Inspetor Caetano. Ela está muito aflita com a vossa presença a bordo. O Chefe de Polícia, o delegado Barroso lhe falou. ─ Ela ficou furiosa quando um oficial inglês apontou sua arma contra o irmão dela. Santiago lhes contou. ─ Vós podeis entrar! O Tenente Luckraft convidou ambos para entrarem na cabine da ponte e os apresentou ao Capitão. ─ O que posso fazer por vós, senhores? O Capitão Schomberg estava sentado à mesa e lhes perguntou em francês. ─ Eu sou delegado de polícia e este é o vereador Sr Joaquim. Nós viemos para levar para casa alguns trabalhadores brasileiros que se encontram detidos em vosso navio contra a vontade deles. O delegado respondeu em francês. ─ Estes homens estavam em navios sem registro legal. Os navios arrestados têm vários nomes no casco e estão equipados para o tráfico de escravos. Os navios foram apreendidos em cumprimento ao acordo entre a Inglaterra e Brasil. O Capitão Schomberg tentou convencê-los. ─ Se os navios apreendidos fossem de tráfico, vós deveríeis ter a bordo muitos escravos. Onde eles estão? Perguntou o vereador Joaquim. ─ Senhor Capitão, todos sabemos que o prazo de validade deste acordo ao qual vos referis, expirou há nove anos. O delegado respondeu olhando no interior dos olhos do Capitão. 104
  • A Escuna Astro ─ Nós estamos cumprindo ordens determinadas pela Lei Aberdeen. O Capitão Schomberg tentou justificar seus atos. ─ Desculpai-me senhor, mas dentro da fronteira brasileira, quem escreve as Leis são os Deputados e Senadores. Nós somos os responsáveis pelo cumprimento dessas leis. Ninguém vos deu nenhuma autoridade para fazerdes leis segundo a vossa vontade. O vereador Joaquim lhe respondeu. ─ Esta apreensão em águas brasileiras é ilegal. Protestou Rossi. ─ Ora, Sr Capitão! Seja razoável! A Inglaterra precisa mais do Brasil do que o Brasil da Inglaterra. Estes poucos navios apreendidos representarão muito maior prejuízo às indústrias inglesas. Nós seremos oito milhões de consumidores fora do mercado de produtos ingleses. O vereador Joaquim apresentou-lhe os danos comerciais em curso. ─ A minha obrigação é de cumprir as ordens dadas pelo Contra- Almirante Barrington Reynolds, comandante da esquadra. Disse o Capitão. ─ Esta vossa obrigação não esconde o vosso interesse no Prize Money, Sr Capitão. Entretanto, nós queremos saber quanto aos brasileiros detidos? O delegado Barroso lhe perguntou. ─ Os assuntos ingleses dizem respeito somente a nós, mas a vossa gente será julgada em nossos tribunais. Declarou Schomberg. ─ Sob qual acusação, um tribunal inglês irá condenar um carpinteiro naval brasileiro em seu ofício em seu país? Perguntou o delegado Barroso. ─ Nem todos são carpinteiros! Esclareceu Schomberg. ─ Então, vós deveríeis liberar os carpinteiros! Pediu Barroso. ─ Eu sou um homem tolerante e vou consentir que todos vós assineis um habeas corpus, mas quanto aos navios, eu tenho que cumprir a lei. O Capitão Schomberg resolveu a questão. ─ E quanto ao prático? Perguntou o vereador Joaquim ao Capitão. ─ O Sr prático está aqui por sua vontade e deverá continuar a sua tarefa até ao final. Quando sairmos da barra, ele será desembarcado sem problemas. Ele ainda não terminou o seu trabalho, considerando que ele está no lugar de um dos marinheiros mortos no Uruguai. Respondeu Schomberg ─ Vossa senhoria poderia por favor, providenciar a pena, tinta e papel para os detidos assinarem o requerimento? O vereador lhe perguntou. ─ Obviamente! Eu peço que citem os nomes e ocupação. O Capitão Schomberg lhes falou pegando a pena, tinteiro e papel. ─ Eu redigirei o requerimento. Prontificou-se o delegado. ─ Obrigado, Senhor! Nós temos um oficial para fazer isso. O Capitão disse enquanto mandava um marinheiro chamar o Sr Lindsay. 105
  • Egberto Fioravanti Ribeiro O funcionário inglês chegou, sentou-se à mesa e redigiu o requerimento. Logo após, o Capitão permitiu a entrada de um por um dos detidos na ponte, para assinarem o documento. O comandante Rossi, era conhecido por todos pelo apelido de Franconi. Ele escreveu “Gio Batta Rossi, comandante do Audaz, Tereza e Dona Ana”. (Este era o nome de um dos passageiros da escuna “Estrela Brilhante”, registrado na Polícia Naval há três semanas no Rio de Janeiro). ─ Vós todos estais livres. Mas, não há lugar para todos no escaler da Alfândega. O delegado falou aos trabalhadores. ─ Eu irei a nado assim que for possível, antes que estes celerados mudem de ideia. Rossi apresentou sua opinião. ─ Os escaleres vos aguardam a mais de cem jardas (91,40 m), para ficarem fora do alcance dos mosquetes ingleses. Falou o delegado. ─ Irei a bordo de qualquer barco por mim mesmo. Nos veremos mais tarde na Alfândega! Respondeu o italiano conhecido por Franconi. Rossi subiu na amurada e mergulhou ao mar. Ele afastou-se nadando para um barco, onde os ocupantes lhe acenavam. A chamada às armas na Praça do Pelourinho pelo Capitão Costa movimentou um grande número de voluntários. Nascimento levou seus homens aos armazéns de gêneros na Rua da Praia para comprar barris de pólvora. Franconi, ainda completamente encharcado, chegou acompanhado de muitos marinheiros dos navios arrestados e uniram-se ao único propósito. Na rua da Praia havia grande atividade entre os voluntários que irão à fortaleza. Muitos jovens traziam alimentos, outros estão na fila do alistamento, outros estão transportando barricas com munição e caibros e madeira para os barcos atracados no cais do mercado. Laura estava no sobrado de Leocádia. Toda aquela balbúrdia chamou a atenção das duas mulheres e muitas outras pessoas da casa correram à rua. As duas damas correram ao balcão. O vento fresco vindo do rio ao cair da noite, não era o suficiente para refrescar o sangue lusitano que fervia de ódio em suas veias. ─ Eu irei com eles à ilha. Laura disse. ─ Então, Eu vos acompanharei. Leocádia completou. ─ Vós sabeis como atirar? Laura lhe perguntou. ─ Certamente! Meu pai e meu marido me ensinaram. ─ O Sr Chopitea? ─ Sim! Nós sempre fomos muito ativos em nossa companhia no Chile e eu tinha que saber como me proteger. ─ Vós tendes alguma arma em casa? Laura lhe perguntou. 106
  • A Escuna Astro ─ Eu tenho algumas clavinas espanholas do meu falecido marido e tudo mais que vós possais necessitar. ─ As armas estão em ordem? ─ Estão, sim! Enquanto nosso pessoal estiver nas calçadas para saber dos últimos acontecimentos, vamos mudar de roupas e apanhar as armas. As mulheres saíram do balcão para vestirem roupas apropriadas e logo apareceram na sala de estar, onde Leocádia chegou com alguns equipamentos. ─ Escolhei uma cartucheira de lona com cartuchos de papel engraxados e cheios de pólvora, espoletas e balas. Vós deveis somente puxar o cartucho pelo barbante. Mas, quanto a vós, sabeis atirar? Leocádia perguntou puxando um cartucho pela ponta do barbante. ─ Vós bem o sabeis que a nossa história começou na Bahia com a Paraguaçu, cujo marido foi Caramuru. Eu aprendi a manejar armas de fogo quando era adolescente. Respondeu Laura segurando uma arma na horizontal para examiná-la. ─ Vós me surpreendeis a cada momento. Minha mãe descende diretamente do Duque de Lanoya, é por isso que temos o sangue dos bravos combatentes de Guimarães, onde Portugal foi fundamentado. Falou Leocádia socando o cartucho. ─ Falando em pais, não vos esqueçais de avisá-los que vós estais indo para lutar na Ilha do mel. Será uma grande perda se ele o souber pelos bocas-pequenas. ─ Não! Eu pedirei a minha serva para avisá-lo somente amanhã. Mas agora, aqui vamos nós! Assim como Manuela de Tucuman e Anita de Laguna uniram-se a causas nobres, nós faremos o mesmo. Leocádia falou forte e com voz altiva. Pela primeira vez, não houve o cortejo dos curiosos meninos acompanhando o acendedor de lampiões. Havia muitos eventos simultâneos que confundiam os bocas-pequenas. A cada momento havia algo novo acontecendo para impor a louca correria dos meninos. A Praça do Pelourinho estava fracamente iluminada por dois lampiões de azeite com chamas trêmulas ao vento. Ambas mulheres vestiam roupas para cavalgar e estavam calçadas com botas de cano longo. Apesar de levarem pesados petrechos, elas caminhavam rapidamente entre caixotes de ferramentas, barricas de pólvora e voluntários. Os rapazes sorriram felizes assim que viram as duas mulheres no meio deles naquela tropa. Laura parou ao lado do Pelourinho e pisou no primeiro dos quatro degraus para descansar a coronha da clavina (carabina) sobre a perna. Leocádia tinha dois cintos 107
  • Egberto Fioravanti Ribeiro sobre os ombros e segurava uma clavina sob o seu braço direito. As mulheres estavam procurando por Franco naquela multidão. ─ Franco! Gritou Laura. Os esvoaçantes cabelos dourados de Laura pareciam os de um anjo pairando sobre um campo de batalha. Ao seu lado estava a Sra Leocádia com cabelos negros e espessas sobrancelhas olhando a sua volta como águia. ─ Franco! Gritou Leocádia. Franco e Nascimento voltavam da Câmara dos Vereadores, na rua da Ordem e ouvirem as vozes femininas chamar por Franco. ─ Olha, Franco! Tua noiva te chama. ─ O que elas pretendem fazer com todas aquelas armas? ─ Pelas suas roupas, elas querem ir ao combate. ─ Hei, Laura! O quê tu pretendes fazer com estas armas? ─ Nós estamos indo para lutar na Ilha do Mel. Leocádia respondeu. ─ Esta é uma bela clavina espanhola, não? Laura lhe perguntou com um largo sorriso e levantou a carabina para mostrá-lo. ─ O quê tu pretendes fazer? Tu podes me explicar, Laura? ─ O quê tu tens a me dizer, Sra Leocádia? Nascimento perguntou. ─ Eu estou a lutar por esta Província há muito mais tempo do que vós podeis imaginar, Sr Comandante. Leocádia lhe respondeu. ─ O teu pai sabe sobre esta tua decisão? Franco perguntou. ─ Não! Eu sou viúva, sem filhos e posso fazer o que eu quiser. ─ O Capitão-mor Manoel Pereira, teu pai, destruirá os nossos navios com as próprias mãos, se alguma coisa ruim acontecer a ti naquela ilha. Agradeço a tua ajuda, mas ambas devem retornar para casa. Esta é uma tarefa para homens. Nascimento interveio e respondeu muito furioso. ─ Eu não vim até qui para ficar fechada em casa. Eu irei com o Sr Franco. Laura adiantou-se para lhe responder. ─ Ouça-me, Senhora Leocádia! Tu nos disseste na noite do recital de Dona Júlia que Sr Augusto Cysneiros de Portugal a pediu em casamento. Não mudes a tua felicidade. Nascimento insistia em mudar os planos de Leocádia. ─ Isto será muito perigoso. Tu pertences à corte brasileira e não deves tomar parte em tal assunto. Franco falou. ─ Por favor! Deixem-me ajudá-los. Ela pedia com lágrimas de ódio. ─ Sinto muito, Sra Leocádia. Nascimento respondeu, enquanto Leocádia retirava os cintos de munição dos ombros e os entregava a Laura. 108
  • A Escuna Astro ─ Tenhais cuidado! Leocádia aconselhou Laura e a beijou na face e saiu muito triste. ─ E quanto a mim, Franco? Eu somente tenho a vós! Laura lhe perguntou laconicamente ao colocar os cintos nos ombros. ─ Tu não poderás nos acompanhar até a Ilha do Mel. Nós teremos uma árdua caminhada a noite toda através dos pântanos da ilha. Se tu quiseres realmente nos ajudar, tu poderás ir no barco que levará o Dr Killer. Ele está no trapiche da Alfândega e precisa de enfermeiras. Franco sugeriu. ─ Eu farei isso agora mesmo! Laura disse beijando-o levemente e deixou a praça rapidamente, levando as duas armas nos seus ombros. Vários meninos estavam atrás do Pelourinho, ao lado da barranqueira da ladeira da Câmara, fumando alguns cigarros de palha de um maço encontrado na rua. Os bocas-pequenas ouviram toda a conversa e saíram correndo para anunciar o que acabaram de ouvir. ─ A galega será enfermeira no forte! O menino anunciava com dificuldades, sufocado com a fumaça do cigarro de palha. ─ Dona Leocádia não irá à luta! Informava outro, livrando-se das brasas de um cigarro de palha que se abriu. ─ Quem ainda não assinou a lista? Nascimento perguntou. ─ Olhai, Franco! Os soldados da Guarda Nacional estão chegando com roupas de civis. Um marinheiro lhe avisou. ─ Graças a Deus! Agora estou confiante da nossa força. As autoridades devem ter recebido apoio do cônsul Mr David Todd para não sermos deixados a sós. Franco comentou. ─ Nós precisaremos de mais barcos para levarem todos à Ilha do Mel. O Comandante Freire, da galera Campeadora, os avisou. ─ Não vos preocupeis, Freire! Nós partiremos às nove horas e até então, alguns barcos serão acrescentados a nossa tropa. O Tenente Ricardo passou a avisar a todos. ─ Descarregai todas as barricas com pólvora longe das espoletas no cais. Rossi ainda vestia roupas molhadas e aconselhava a todos. ─ Nós estamos com as ferramentas prontas. Alguns carpinteiros foram se apresentando. ─ Cada qual deve levar o seu farnel com mantimentos. Cuidado com o fogo! Vós somente podereis mascar fumo. Eu não quero ver ninguém fumando charutos, cigarros de palha de milho nem cachimbos. Advertiu o Tenente Ricardo. ─ Meu palhova! Um voluntário pegou um maço com cigarros de 109
  • Egberto Fioravanti Ribeiro palha de milho e o lançou ao solo. ─ Todos vós que levais armas, não vos esqueçais do papel com graxa para pólvora, espoletas e balas para mosquetes. O Capitão Costa os avisou. Uma carroça parou diante do trapiche da Alfândega e alguns servos descarregaram as caixas com remédios e suprimentos para levarem ao escaler da Alfândega. O mestre e os marinheiros estavam prontos para a partida desde o cair da noite. Eles estiveram esperando pelos remédios, pelo mensageiro, pelo médico e pelas enfermeiras. ─ Os ingleses irão nos parar? Laura perguntou ao Dr Killer. ─ Eu acho que não. Nós navegaremos como se fossemos passageiros. Dr Killer respondeu segurando suas mãos para ajudá-la a subir a bordo do escaler. Um marinheiro soltou as amarras e saltou para bordo, enquanto outros remadores empurravam o barco com os remos. O mestre e os remadores levantaram a vela latina para tomarem o rumo norte e navegaram ao lado da ilha da Cotinga. Do outro lado da ilha, no meio da noite escura, o HMS Cormorant parecia um fumegante e sibilante navio fantasma. Vários marinheiros armados com mosquetes chegaram à amurada e olharam para o barco navegando junto ao navio. ─ Vou cobrir as caixas com uma lona que está no castelo de proa. Sugeriu o mestre. ─ Eles consideram-se superiores, como se não existíssemos. Dr Killer falou enquanto olhava para a linha preta pintada sobre o casco branco. Algumas fortes batidas de ferro vindas do interior do navio, sob as chapas cobrindo a roda d'água, chamaram a atenção do médico. 110
  • A Escuna Astro Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres – Ilha do Mel XIII A GRANDE MILÍCIA 111
  • Egberto Fioravanti Ribeiro E ram nove horas daquela noite de inverno, a Rua da Praia estava escura e deserta e apenas os lampiões das casas de comércio iluminavam o local. Vinte barcos haviam partido do cais com rumo a Ilha do Mel levando 200 homens e equipamentos. Eles saíram pelo rumo ao sul da Ilha da Cotinga para não navegarem diante do navio de guerra. Próximo da meia-noite, o mestre da embarcação levantou-se para baixar as velas e avisar ao doutor Eduardo que irão encalhar na praia da fortaleza. O sentinela, ao lado da guarita no alto da muralha da fortaleza, observou um barco encalhar na praia com algumas pessoas a bordo. O soldado chamou o Capitão Barbosa na sala de comando e pediu a identificação dos passageiros. ─ Alto! Quem vem lá? ─ Eu sou o Dr Eduardo Killer, da Santa Casa de Misericórdia. Eu tenho ordem das autoridades de Paranaguá para trazer medicamentos e suprimentos cirúrgicos. O Capitão Barbosa e um Sargento estavam na sala do comando para a ronda de rotina e para a mudança de guardas do segundo turno. Eles ouviram a voz do sentinela vindo da muralha e correram rampa acima para a muralha. O guarda lhes avisou sobre o recém-chegado barco e seus ocupantes. O Capitão não conseguia vê-los muito bem no escuro, mas como os visitantes haviam dado seus nomes ao sentinela, o Capitão ordenou ao Sargento para deixá-los entrar. Enquanto vozes para abrirem o portão eram transmitidas, os dois homens desciam a rampa de pedra até o portão. ─ Abram o portão! Deixem-nos entrar! O Capitão Barbosa e o Sargento chegaram ao corredor dando ordens aos soldados. O corredor da prisão com teto de pedra em arco estava iluminado por lâmpadas a óleo penduradas nas paredes. Os soldados abriram um dos pesados portões e viram dois homens e duas mulheres em pé sobre as pedras diante do portão. O Capitão aproximou-se dos degraus do portão para recebê-los. ─ Boa noite, Comandante! Dr Killer conduzia as mulheres pelos braços e saudou o Capitão. ─ Boa noite, Dr Eduardo! Entrem na fortaleza. ─ Obrigado, senhor! Esta é a enfermeira da Santa Casa a senhorita 112
  • A Escuna Astro Luciana e esta é a senhorita Laura, uma voluntária que veio para nos ajudar e este é o nosso mensageiro. ─ Prazer em conhecê-los. Sejam bem-vindos ao forte de Nossa Senhora dos Prazeres. Creio que as senhoritas ficarão bem alojadas no quarto de hóspedes. O Capitão deu as boas-vindas apertando suas mãos. ─ Obrigada, Sr Comandante! Laura lhe respondeu. ─ Obrigado, Senhor Capitão! Nós temos algumas caixas com medicamentos e precisamos de auxilio para descarga. O doutor pediu indicando com a mão. ─ Sargento! Ordenai dois soldados para retirarem as caixas e acordai o cozinheiro para preparar uma refeição aos visitantes e aos remadores. O Capitão falou. ─ Cuidado! Há alguns vidros nestas caixas. O médico avisou. ─ Eu tenho uma mensagem para vós, Sr Capitão. ─ Vamos à sala de comando. O Capitão os convidou. ─ Aqui está um ofício do Juiz Municipal, Dr Filástrio ao senhor Comandante da fortaleza. Há uma multidão de voluntários vindo em vários barcos através do lado sul da Ilha do Mel. Eles chegarão na fortaleza ao amanhecer. O mensageiro olhou para o Capitão e entregou-lhe o ofício. O Capitão recebeu o envelope lacrado, abriu e leu o ofício. Ao findar a leitura, o Capitão ficou pensativo. Ele abriu a gaveta da mesa e retirou uma pasta de couro para guardar o ofício e a colocou na gaveta. Ele levantou o rosto para o mensageiro e para o Dr Eduardo Killer e concluiu. ─ Agora eu tenho ordens das autoridades para abrir fogo contra o cruzeiro inglês. Eu vou seguir as instruções do Dr. Filástrio. Eu escreverei um ofício ao Comandante do HMS Cormorant como o Juiz sugere. ─ O Dr Filástrio confiou-me o transporte das vossas crianças até Paranaguá nesta noite. O mensageiro avisou ao Capitão. ─ Eu estou esperando por essa possibilidade, há duas semanas, após a chegada da escuna Astro e muito mais agora após a chegada do HMS Cormorant nesta manhã. Aguardai-me nesta sala, enquanto vou ao quarto das crianças para avisá-las. O Comandante pediu licença e deixou o grupo. O comandante caminhou lentamente pela calçada de pedras. Ele pediu a um soldado para trazer o acendedor de lampiões para iluminar o pátio. Quando o céu está limpo à noite, é possível ver a silhueta do morro da Baleia atrás da casa. O Capitão parou diante da soleira da sala e olhou ao lado para casa de pólvora à esquerda e a capela à direita e pensou um pouco. Ele pediu ao soldado diante do lampião para preparar a capela como hospital. O homem de pequena estatura e grandes bigodes entrou na sala de estar e 113
  • Egberto Fioravanti Ribeiro apanhou um fósforo para acender uma lamparina a óleo de peixe e bateu nas portas. ─ Joaquim! Ana! Acordem, crianças! ─ Pai! O que está acontecendo? ─ Vinde para a sala, preciso ter uma conversa com vós todos. ─ O que está acontecendo? Perguntou a filha mais velha, enquanto sentava em uma cadeira com sua irmã menor ao colo. ─ Eu acabo de ser informado pelo Dr Eduardo Killer e por uma mensagem do juiz, dizendo que o navio de guerra inglês apreendeu vários veleiros no ancoradouro da Cotinga. Eu devo impedi-los de deixar o porto. Eu quero que vós todos acompanheis o mensageiro à casa de vossa avó em Paranaguá. ─ Haverá combate? Perguntou seu filho, Joaquim. ─ Quando? Perguntou a filha mais velha. ─ Talvez neste domingo ou na segunda, no começo da vazante. Mas existe a possibilidade de não acontecer nada. ─ Podemos ficar com o senhor? Perguntou a filha mais nova. ─ Não! Se a vossa mãe fosse viva, ela não vos deixaria nesta fortaleza. Agora, eu quero que coloqueis os vossos pertences em vossas malas e acompanheis o mensageiro ao barco. O Dr Eduardo e duas enfermeiras que ficarão no quarto de hóspedes. ─ Logo agora que acabamos de chegar em férias. Eu não vou deixar o senhor sozinho em combate. Reclamou Joaquim. ─ Eu também quero ficar. Eu posso ajudar a encher os cartuchos com pólvora para os canhões. A filha mais velha justificou. ─ Eu posso ajudar o Dr Killer com os feridos. A garotinha falou. ─ Todos nós queremos ficar. Reclamaram as crianças. ─ Posso convidar a enfermeira para dormir comigo? Pediu a filha mais nova abraçada a uma boneca de porcelana. ─ Eu sempre imaginei que algum dia isto poderia acontecer. Quando estive prisioneiro dos orientais (uruguaios), por causa dos mercenários traidores em nossa marinha, eu fiquei muito preocupado com meus familiares. Nós conseguimos tomar o navio castelhano que nos transportava para a prisão e fugimos para o Brasil. Agora são os meus filhos que me consolam e por quem eu fico ainda mais preocupado. ─ Pelo Brasil! Bradou Joaquim em alta voz. ─ Pelo Brasil! Pela nossa pátria! Os irmãos repetiram as palavras abraçados ao seu pai. 114
  • A Escuna Astro ─ Está bem, crianças. Voltai a dormir! O Comandante retornou ao seu gabinete onde o mensageiro, o médico, a enfermeira e a voluntária estavam saboreando café com biscoitos. ─ Onde estão os vossos filhos? Perguntou o mensageiro olhando para o jardim. ─ Eles não irão! Querem ajudar no combate. ─ Mas são crianças! Protestou o Dr. Killer. ─ Não posso acreditar que vossas crianças não queiram ir. Laura duvidou do que acabava de ouvir. ─ Elas sempre souberam que isto poderia acontecer. ─ Eu irei falar com as crianças. Laura sugeriu e levantou-se. ─ Eu agradeço a vossa gentileza, senhorita. Mas, elas não aceitarão a vossa ajuda. Elas estão mais acostumadas com a vida militar do que com a civil. O Capitão respondeu e a convenceu a sentar novamente. ─ Posso voltar para casa, agora? O mensageiro pediu. ─ Sim, podeis votar! O Capitão deu-lhe permissão. ─ Obrigado pela refeição, Capitão. Até à vista! ─ Vós sois bem vindo! O Capitão apertou sua mão. ─ Deus vos guarde! O mensageiro falou e os deixou, caminhando rapidamente para o barco. ─ Dr Eduardo! Há lugar para o senhor no alojamento do corpo da guarda. Creio que vos sentireis confortável e as enfermeiras estarão bem em nosso quarto de hóspedes. O Capitão falou, enquanto eles apanhavam seus pertences. ─ Nos veremos amanhã, Comandante. Na manhã de domingo dia 30 de junho de 1850, os voluntários chegaram à praia da fortaleza. A sentinela chamou o Comandante. Laura e a enfermeira Luciana estavam auxiliando a filha mais velha no preparo do café para as crianças. ─ Senhor! Há uma multidão chegando pela praia. O guarda avisou. ─ Bom dia, Comandante! São os voluntários. Eles estão trazendo material e munição. Respondeu o médico aproximando-se do Capitão Barbosa. ─ Bom dia, Dr Eduardo! Vou lhes pedir que se apresentem. ─ Somos os donos de alguns navios cargueiros brasileiros apreendidos e alguns moradores de Paranaguá. Rossi apresentou-se. ─ Qual a vossa intenção? Perguntou a sentinela. 115
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Por decisão das autoridades de Paranaguá e por ordem do Chefe da Legião da Guarda Nacional, o Comendador Manuel Antonio Guimarães, estamos aqui para dar apoio ao Comandante Barbosa. ─ Abram os portões! O Comandante Barbosa deu a ordem. ─ Que alvoroço é este? Perguntou Laura. ─ Os voluntários chegaram! Respondeu Joaquim olhando para o portão. ─ Franco! Laura sussurrou o amado nome e correu à porta da cozinha e viu Franco, Nascimento e Rossi entrando na enxovia. ─ Laura! Franco acenou para a jovem amada. Os homens pararam no corredor com o Comandante. ─ Bom-dia, Comandante, Dr Eduardo! O senhor recebeu o ofício do juiz, Dr Filástrio, dando-lhe autorização para abrir fogo, como forma de impedir a saída do navio de guerra com nossos navios. ─ Sim! Eu o recebi na noite passada. Vamos ao meu gabinete. Os armadores, oficiais e o médico seguiram o Capitão ao seu gabinete. Nascimento contou ao Capitão Barbosa o que aconteceu em Santos e o porquê dele mudar o nome Sagaz para Astro e as medidas drásticas contra seu próprio navio. ─ Dessa forma, eu afundei o Astro. Nascimento contou. ─ O povo brasileiro reconhecerá o vosso gesto extremo por esta legítima expressão de repulsa aos ingleses. É evidente que o Partido Republicano fará o maior descaso deste vosso esforço. ─ Quando passávamos ao lado do Cormorant ontem à noite, eu ouvi alguém martelando alguma peça de ferro. Isto indicou-me que a casa de máquinas fica exatamente sob a linha branca pintada no casco, logo atrás da caixa da roda d'água. Revelou o Dr Eduardo. ─ Este é o ponto vulnerável do navio. Concluiu o Capitão. ─ Como estão as vossas peças de artilharia? Perguntou Rossi. ─ Algumas peças são pequenas e precisam ser reparadas. Vós conheceis o armamento do navio? O Capitão pediu mais detalhes sobre o armamento do navio. ─ Sim! Enquanto eu estive detido no Cormorant, pude verificar o armamento e a munição. Eles possuem quatro canhões de calibres 64 (29,40kg) a bombordo e estibordo e dois de calibre 80 (36,76kg) na proa em ambos os bordos. Estes canhões estão sobre rodízios e com balas de ferro redondas, shrapnel longas e redes tipo cachos de uvas. ─ Eles não utilizarão granada do tipo cacho de uva porque são 116
  • A Escuna Astro impróprias para fortaleza. Eu creio que eles utilizarão somente lanternetas Shrapnel longas com aletas. Os ingleses têm bons artilheiros para combate naval, mas contra fortalezas é diferente. O navio ficará instável com a ação das ondas e isto impedirá bons tiros. Entretanto, as nossas armas são estacionárias, portanto, nós teremos muitos mais tiros de precisão do que o navio. Eles têm cinco canhões contra nós, enquanto nós temos doze contra eles (ao findar o combate, havia somente dois sobre as carretas). As metralhas Shrapnel podem causar várias baixas aos nossos artilheiros, o tanto pior será para eles, ao explodirem lançando os balins de mosquete para todos os lados. Em 1816, o Brigadeiro Álvares expulsou o argentino Artigas do Rio Grande do Sul com dois canhões e lanternetas Shrapnel. Mas se os ingleses utilizarem balas redondas, não nos farão dano algum. O Comandante Barbosa analisou as possibilidades. ─ Assim que os rapazes chegarem com todo o material, pedimos ao Sr Capitão que os instrua. O armador Rossi solicitou. ─ Muito bem! Tenente Ricardo e Tenente Joaquim, deixai os voluntários tomarem o desjejum. Mais tarde, reúnam todos na capela para instrução sobre artilharia, antes que se matem como aconteceu no estaleiro. O Capitão estava temeroso com a inexperiência dos voluntários. Laura aproximou-se da janela da espessa parede da sala do Capitão. Ela tinha nas mãos uma caneca esmaltada com café e uma fatia de pão. Ela ouviu a conversa entre os oficiais e os armadores. Franco a viu na janela e foi ao jardim para encontrá-la. ─ Um dia longe de vós parece uma eternidade. Laura sussurrou baixinho ao lhe entregar a caneca de café. ─ Tu estás parecendo com o Comandante: violento com os inimigos, mas carinhoso com os filhos. ─ Eu quero saber como vós estais, face a esta eminente batalha? ─ Não te preocupes comigo, mas cuida de ti mesma. Franco disse. ─ Estou calma! Em Portugal o tratamento médico é tão importante quanto a formação militar, aqui não poderá ser diferente. Laura respondeu. ─ Em breve estaremos de volta ao nosso navio. Franco prometeu. ─ O meu sangue ferve ao pensar que os peixes estão morando em nosso ninho de amor. Laura disse. ─ Tudo isto logo findará e teremos muito tempo só para nós. ─ Vós prometeis? Laura lhe perguntou. ─ Prometo! Mas agora, eu devo voltar. Temos muito trabalho. Obrigado pelo café. Franco a beijou suavemente, ao olhar dos voluntários que tomavam café sentados na rampa. 117
  • Egberto Fioravanti Ribeiro A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco XIV DOMINGO EM PRECES 118
  • A Escuna Astro Os moradores da cidade passaram a noite toda entrando e saindo das igrejas. Todos estavam em busca da proteção de Deus e do favor dos Santos aos seus filhos que estavam na Ilha do Mel. Enquanto algumas mães com olhares vagantes dedilhavam os rosários, os homens não escondiam seus apreensivos olhares ao inevitável caminho do combate. As aglomerações de homens nas ruas e esquinas, após a partida dos voluntários, foram mudadas para as igrejas. Os mais velhos comentavam os combates no Uruguai e Argentina durante a Guerra Cisplatina. Outros relembravam os recentes acontecimentos na revolução do Rio Grande do Sul, onde Garibaldi se levantou contra as tropas imperiais. O italiano havia convocado às armas a pequena população para lutar contra o Império e obter a independência daquela Província. Ao amanhecer, homens e mulheres com cestas nos braços dirigem-se ao Mercado, diante da Praça do Pelourinho. A rua da Ordem e várias outras são pavimentadas com pedras da ilha de São Tomé. Estas pedras pretas haviam sido utilizadas como lastro de navios, durante o comércio de escravos no século anterior. Esta rua inicia atrás da Alfândega e termina no largo diante do cais do Comendador. Esta é a rua mais alta da cidade e tem vários e suntuosas moradias de dois andares. Próximo da Alfândega, existem vários escritórios no andar térreo. Na metade da extensão da rua estão as casas de comércio e ao final está o lado industrial, com vários armazéns para exportação de madeira e erva mate. Bem cedo, o novo sino da Igreja da Ordem batia melancolicamente. As comemorações do dia de São Pedro perderam o seu brilho após a chegada deste navio de guerra inglês. Uma jovem senhora com sacola no braço parou diante do portão entreaberto da varanda ao lado da casa do Capitão Costa. O ruído de talheres vindo da copa chamaram a atenção da mulher que entrou para visitar a família. A mulher abriu a porta lateral e caminhou através da sala de estar com fina decoração e mobília à francesa sobre tapeçaria árabe. A iluminação era provida por vários lustres e candelabros com cristal da Bohemia. O piano alemão e várias cadeiras apresentavam o nível cultural da família. As janelas estavam cobertas por cortinas de veludo verde, bordados dourados e atadas por pendentes de seda com argolas de marfim. Próximo ao corredor havia uma escada de acesso aos quartos. Sobre os pilares do corrimão da escada envernizada para o segundo pavimento, havia um par de pinhas entalhadas 119
  • Egberto Fioravanti Ribeiro em imbuia. Ao lado esquerdo do corredor estava o escritório do Capitão com sua biblioteca e ao lado direito, o atelier de pintura de Júlia. A ampla sala de jantar estava localizada ao final do corredor, onde um jovem casal tomava o desjejum, preparados pela serva Antonia. ─ Bom-dia, Júlia, Capitão! Desculpai-me! Eu não bati na porta porque estava entreaberta. Vós estais bem? A mulher cumprimentou o casal e beijou a senhora Júlia. ─ Bom-dia, Helena! Não vos preocupeis se a porta estava aberta ou não. O mensageiro enviado ontem à fortaleza, acabou de chegar nesta manhã para conversar com o Sr Costa e ao sair não fechou a porta. Júlia lhe explicou. ─ Sentai-vos para o café. O Capitão a convidou. ─ Obrigada! Mas eu acabo de tomar o desjejum. ─ Ontem à tarde, Júlia não passou bem de saúde. O Dr. Eduardo Killer esteve aqui antes de ir ao forte. Ele disse que os espirros e a febre baixa foram em consequência da mudança do tempo na semana passada. ─ O mau tempo trouxe uma onda de frio por estes dias. Graças a Deus que não foi nenhuma febre alta, maligna ou pneumonia. ─ Vós estais com boa aparência e bom-humor. Isto significa que já estás recuperada desta friagem. ─ Obrigado, Helena! Júlia está bem. O Capitão disse enquanto acariciava as mãos da esposa. ─ O Dr Eduardo foi convocado para ir à fortaleza? ─ Certamente! Ele foi chamado pelas autoridades por que também é Cirurgião-mor. Os feridos precisarão de médicos e de enfermeiras voluntárias. Até a parenta de Dona Leocádia que mal chegou de Olinda, já embarcou para a Ilha do Mel. ─ Laura deixou sua serva comigo, enquanto estiver ausente. ─ Moça corajosa! Dai uma olhada nas notícias, Júlia! O mestre Pedro Miranda do veleiro Saquarema trouxe nesta manhã estes jornais de Santos e do Rio de Janeiro. ─ Notícias da corte! Que maravilha! Os olhos de Júlia brilharam ao folhear algumas páginas. ─ Esta edição do Rio é atual! Só tem dez dias. O Cap Costa comentou lendo a primeira página. ─ Vós ireis à missa, Júlia? Helena perguntou. ─ Certamente! Eu estou esperando Leocádia. Talvez os seus hóspedes estejam atrasados. Nossos hóspedes de Santos ainda estão 120
  • A Escuna Astro dormindo no andar superior. ─ Vós estais muito linda neste Daguerreótipo. Comentou Helena olhando para o pequeno quadro metálico sobre a mesa. ─ Gostou? Valeu a pena o sacrifício. Eu o recebi há dois dias. Foi cansativo posar sem o menor movimento no laboratório da rua dos Latoeiros no Rio de Janeiro. Felizmente, este processo é mais rápido do que uma pintura a óleo. Júlia deu explicações a Helena, enquanto o sino da Igreja da Ordem batia pausadamente. ─ Quem morreu? O sino da Igreja da Ordem está tão triste. ─ Ninguém morreu, Helena! Pelo menos por enquanto. Quero ver se há alguma boa notícia do Rio. O Capitão falou enquanto se levantava para ler outros jornais sobre a mesa. ─ Antônia! Por favor, tirai a mesa e acordai os hóspedes. Júlia pediu a sua serva que colocava numa travessa de prata as xícaras e os talheres. ─ Há notícias de uma nova companhia teatral. O Capitão observou. ─ Há uma poesia publicada em inglês no Jornal do Commércio. Eu acho que foi escrita por alguém do consulado inglês. ─ Qual é o objetivo? Perguntou o Capitão. ─ Ouçam! O autor assina com o pseudônimo de Anglicus. O título é: “Linhas Sugeridas por Acontecimentos Recentes. “A Bandeira da nossa Ilha está há muito hasteada. Sem ter sido pelos fortes desafiada Mas aquela soberba Bandeira está maculada. Por fingida humanidade E a piratas agora, quase aliada.” ─ Esta poesia de Anglicus está muito pesada. Ele deve ter-se sentido realmente injuriado com as apreensões pela frota do Almirante Reynolds. O Capitão falou ao sentar-se ao lado da esposa. ─ O final revela o tema. Comentou Helena. ─ Aha! Eu já sei quem é este Anglicus! Júlia disse sorrindo. ─ A vossa inteligência surpreenderia ao vosso avô! Quem vós julgais ser o Anglicus? Perguntou o Capitão beijando-a levemente. ─ Lembrai-vos da nossa viagem ao Rio? ─ Sim! Nós fomos convidados pelo Coronel Guimarães para irmos à cerimônia de entrega do seu diploma de Comendador na corte do Rio de Janeiro e deixamos a cidade após o natal. O vosso comportamento foi digno de uma princesa. D. Leocádia de Chopitea também esteve radiante. ─ Certamente! O Sr José Augusto Cysneiros declarou à corte o seu 121
  • Egberto Fioravanti Ribeiro desejo de casar-se com ela. Júlia relembrou. ─ Apesar da maioria dos convidados não ter confirmado suas vindas a Paranaguá, quase todos parabenizaram a nova Província. Foram quatro exaustivas semanas de jantares nas embaixadas, teatros, recepções e festas. O Capitão confessou. ─ A festiva ociosidade na corte esmaga de inveja os republicanos. Helena criticou. ─ A propaganda promovida por eles é uma farsa vergonhosa ao acusarem o Império de ser escravagista. Afinal, estes homens e mulheres já eram e continuariam a ser escravos, tanto lá, quanto aqui. O Capitão protestou. ─ Lembrai-vos do passageiro do navio a vapor São Sebastião que foi parado à bala de canhão pelo navio inglês Rifleman? Júlia lhe perguntou. ─ Certamente! Havia alguns militares a bordo, um deputado e o cônsul brasileiro de Serra Leoa. Isto foi muito comentado na corte. ─ Lembrai-vos do nome do Cônsul? ─ Sim! O nome dele era Mr John L. Hooks. ─ Este é o Anglicus, o autor! Ele era a única pessoa que poderia estar sentido na própria pele, o desespero de sofrer um iminente naufrágio provocado pela frota do seu próprio país. Júlia falou com orgulho. ─ Este Cônsul, como cidadão inglês, qualificou a Inglaterra de “quase aliada de piratas”. Ele seria muito mais preciso se omitisse o advérbio “quase”. Ontem havia muitas pessoas na Alfândega.” D Helena mudou os comentários para os últimos acontecimentos. ─ Sim! Uma comissão foi organizada para trazer o pessoal detido pelo Cormorant. A comissão fez um excelente trabalho, somente o prático Santiago foi mantido a bordo. Ainda assim, por causa do seu trabalho. ─ Eu temo pelas crianças de Anita. Dona Helena falou. ─ Enquanto o navio de guerra inglês não deixar Paranaguá, todos os pais permanecerão nas igrejas todos os dias. Júlia afirmou. ─ Nossos corações ficam apertados quando algum navio traz um ofício do Ministro da Guerra pedindo por algumas centenas de soldados para qualquer região do país. Se algum dos rapazes morrerem na Ilha do Mel, e forem trazidos para serem enterrados em nosso cemitério, suas mães serão muito recompensadas sabendo onde eles estão e ali derramarem suas lágrimas. A dor é agonizante, quando eles são enterrados em terras ao Norte, ou em algum lugar no Rio da Prata, como tem acontecido a muitos dos nossos familiares. Helena lamentava enquanto eles ouviam o sino bater e viam as lágrimas deslizarem em sua face. 122
  • A Escuna Astro ─ Há um Tenente da artilharia que é apaixonado pela filha do Comandante. Comentou Júlia. ─ Este é um ótimo motivo para a moça ficar. Os bocas-pequenas disseram há pouco que as filhas do Comandante Barbosa, não quiseram deixar a fortaleza ontem à noite quando foram buscá-las. Elas preferiram ficar para cuidar dos feridos. Até as moças de Paranaguá são guerreiras. Respondeu Helena enxugando as lágrimas com um lenço. ─ Eu vou ao quartel. Tende vós todas um bom-dia! O Cap Costa colocou o cinto com espada e o quepe do 1º. Batalhão. Ele beijou a esposa e despediu-se de Helena com aperto de mãos. No sobrado do Comendador Correia Jr, a ampla mesa para o café estava posta para as crianças que ainda não fizeram a primeira comunhão. Os homens e mulheres mais velhos mantinham–se em jejum para a missa. Desde os distúrbios ocorridos no dia anterior, um pesado silêncio pairou na alegre moradia. A forte harmonia na família aparecia aos domingos quando todos se reuniam nesta casa. Os parentes chegavam para a hora da missa na Igreja da Ordem e após, todos ficavam reunidos até ao anoitecer. Muitos servos com cadeirinhas cobertas estavam diante da casa, aguardando as senhoras para as levarem à missa. as crianças aguardavam o momento de irem à missa e encenavam a retomada do navio do avô. O pequeno Ildefonso, no papel do escravo Antônio, do alto da escada gritava aos piratas. Após o café, Ildefonso apareceu com uma espada de madeira. As crianças estavam entusiasmadas com as histórias contadas na semana anterior e começaram a esgrimar na escada com balaústres como se estivessem em uma escuna. ─ Saiam deste navio! Ildefonso gritou do alto do primeiro lance da escada brandindo sua espada contra seu irmão e primos que fugiram subindo a escada. ─ Não! Este navio está sendo tomado para La Valleja. ─ Saiam deste navio todos os corsários de La Valleja! As irmãs e primos o enfrentaram nas escadas, mas eles foram vencidos com os golpes de espada desferidos pelo valente escravo. ─ Saltarei ao mar! Gritou o Capitão corsário, saltando o corrimão da escada e quase batendo em Dona Gertrudes que estava passando com o pequeno Leocádio no colo. ─ Muito bem! Mas tomai cuidado para não sujardes a vossa roupa antes da missa. Recomendou sua mãe, sentada à mesa. Eles relembravam o escravo Antônio quando lutou contra os piratas castelhanos há poucos anos. O navio pertencia ao Capitão-mor Manoel Antônio Pereira que estava navegando do Rio de Janeiro a Paranaguá. 123
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Alguns piratas uruguaios à noite em alto mar o abordaram e mudaram o rumo. Os piratas pretendiam levar o navio para o Uruguai, mas o escravo Antônio expulsou o capitão e aprisionou os piratas no porão. ─ Vamos encenar a cerimônia no Palácio Imperial? ─ Quem quer ser o imperador? Perguntou Maria Bárbara. ─ Eu! Respondeu o pequeno Afonso. ─ Vamos organizar o salão imperial. Sugeriu Maria Bárbara. Rapidamente as crianças organizaram um trono imperial aos moldes da corte no Rio de Janeiro. As cerimônias e festas no Palácio Imperial eram disputadas por nobres, políticos, clérigos, autoridades civis e militares. As crianças curiosas sempre ouviram os relatos dos parentes que estiveram no Palácio. Todos eram muito fascinados com a possibilidade de que algum dia eles também pudessem visitar o Palácio Imperial. Os personagens tomaram seus lugares nas cadeiras e a peça iniciou. ─ Que entre o Arauto para anunciar o herói! Barbara chamou o seu primo enquanto lhe dizia o que falar. ─ Eis aqui o heroico escravo Antônio da cidade de Paranaguá, que salvou o navio, recuperou a carga, prendeu os corsários no porão e fez lançar-se ao mar o Capitão pirata. Anunciou o Arauto. ─ Aproximai-vos, ajoelhai-vos e beijai as minhas augustas mãos. Por vosso zelo e fidelidade, eu vos concedo a carta de alforria. O Imperador Dom Pedro II lhe outorgou a liberdade. O pequeno Ildefonso dobrou seus joelhos e beijou as mãos de Afonso. Todos aplaudiram ao evento que representava o sonho de oito milhões de brasileiros. As mulheres chegaram apressadas da cozinha para assistirem aquela espontânea cena. ─ Parabéns pela vossa encenação. Mas agora, cada qual deve colocar as cadeiras nos seus lugares e todos à missa! Ordenou o Comendador Correia. As mucamas colocavam os temperos e especiarias numa panela de barro onde havia um pernil de porco em vina-dália desde a noite anterior. Em outra panela de barro estava sendo preparada a carne fresca para assar. As tainhas limpas já foram temperadas no dia anterior e estavam sendo enroladas em folhas de bananeira para assarem no forno. ─ Vais fritar tainha para o almoço? Perguntou uma das crianças à mucama ao percorrer a cozinha. ─ Vou sim! E do jeito que vós gostais: com farinha de mandioca e fritas em azeite de oliva. Respondeu a sorridente mucama. ─ Obrigado, Tereza! 124
  • A Escuna Astro Ponta da Cruz na Ilha da Cotinga XV ESCUNA A PIQUE 125
  • Egberto Fioravanti Ribeiro O Cormorant havia sido mudado para o outro lado da Ponta da Cruz no dia anterior, ficando afastado do Astro. Durante a madrugada uma das presas havia se soltado dos lançantes e os marinheiros desceram ao mar para apanhá-la. Eles viram o Astro parcialmente submerso e informaram ao Capitão. Ao amanhecer o Capitão Schomberg fez a vistoria das peças sobre rodízios e na casa de máquinas. ─ Bom-dia Sr Chester! ─ Bom-dia, Sr Capitão! Chester respondeu ao cumprimento enquanto consultava um manômetro. ─ Limparam as caldeiras? ─ Somente a de bombordo. Ontem enquanto a caldeira estava quente, os rapazes retiraram o cascão do cinzeiro antes que ficasse duro demais. Hoje eles farão a limpeza da caldeira de estibordo que já está apagada, estamos aguardando a temperatura abaixar um pouco mais. ─ Vai parar de fazer fumaça negra? ─ Sim, senhor! O ar circulando com facilidade queimará melhor o carvão. Hoje faremos a limpeza das tubulações de água para retirar as borras de óleo dos reservatórios. ─ Amanhã, nós zarparemos no horário da maré vazante com foguistas descansados. Acendei as du as caldeiras e estejais preparado para passarmos a toda velocidade pelo forte. As fornalhas deverão ser abastecidas com reduzido intervalo de carga. Schomberg deu as instruções. ─ Após a passagem pelo forte, a alimentação normal? ─ Sim! ─ Vós acreditais que os brasileiros irão nos desafiar? ─ Estou certo que sim! Mas nada irá nos deter. Até logo! ─ Até logo, senhor! O Capitão deixou a casa de máquinas, subiu ao convés e pediu a presença do carpinteiro para acompanhá-lo ao Astro. Chester anotou no quadro negro “REDUZIDO INTERVALO DE CARGA.” ─ Sr Sullivan! Chame o carpinteiro para registrarmos o navio que está soçobrado. ─ Mandarei descer o seu escaler, Capitão! 126
  • A Escuna Astro O mestre Sullivan e o carpinteiro aguardavam o comandante no escaler, atracado de contrabordo ao lado da escada do portaló, para fazer o registro do Astro. O contramestre John Carnegie com apito de latão emitiu alguns silvos chamando a tripulação para as honras ao Capitão que descerá a escada do portaló. O Capitão Schomberg aproximou-se da escada do portaló, retirou o chapéu de três bicos e o posicionou sobre o peito e encurvou o seu corpo em reverência a quem está acima dele: o navio! Após isso, ele colocou o chapéu e desceu ao escaler, aos olhares dos marinheiros e oficiais. O altivo Capitão permaneceu em pé com seu pé esquerdo apoiado no castelo de proa. Os marinheiros remaram em direção ao naufragado Astro. Eles passaram ao lado dos três navios apresados e logo estavam contornando a Ponta da Cruz. ─ Olhai, senhor Capitão! Apenas os mastros estão à vista. ─ Eu já fui informado do afundamento deste navio. Eles ficaram sossegados ao verificarem que não havia escaleres de tripulantes nas proximidades. O escaler do comandante aproximou-se do Astro e o carpinteiro amarrou uma linha em um dos mastros e remaram até o outro mastro, enquanto Sullivan estendia a linha. ─ Quantos pés há entre os dois mastros? Perguntou o Capitão com a caderneta para as anotações. ─ Trinta e seis pés (11 m), senhor. Respondeu o carpinteiro. ─ Ótimo! Nós precisaremos remover uma amostra do mastro para apresentar no Almirantado. O Comandante falou e apontou para uma caixa de ferramentas. ─ Vou apanhar minha caixa de ferramentas. ─ Vós podeis serrar uma pedaço do mastro da bandeira? ─ Sim, Senhor! ─ Obrigado! O Capitão agradeceu e anotou em seu livro. ─ Terminai logo! Sullivan falou ao olhar à volta para outros navios, cujos tripulantes estavam no convés. ─ Estes Brasileiros são determinados. Eles preferiram afundar o navio a nos entregar. ─ Isto não é um bom sinal. Vamos voltar ao Cormorant, Sr Sullivan! A chegada do Capitão ao navio foi novamente orientada pelos silvos do contramestre. Ao comando do imediato, a guarnição prestou continência ao Capitão que subiu os degraus até o alto da escada. Schomberg parou e retirou o chapéu de três bicos com a mão direita e abaixou a cabeça. Em seguida, ele colocou seu chapéu e entrou no navio. O Capitão mandou chamar o prático Santiago e o Tenente Luckraft para iniciarem os cálculos de 127
  • Egberto Fioravanti Ribeiro calado para a saída do porto. ─ Em que posso ser-lhe útil? ─ Nós deveremos sair deste fundeadouro pelo canal ao norte da baía ou por onde entramos? Nós queremos saber qual é o melhor local? Perguntou Luckraft olhando para a carta náutica que Sullivan estendia sobre a mesa. ─ Do outro lado da baía além da ilha das Cobras há o canal da barra falsa que é muito raso. O fundeadouro da Saúde serve apenas para os navios em quarentena. A barra ao sul da ilha do Mel é muito rasa também. É mais aconselhável que vós navegueis pela Barra Sueste. Respondeu Santiago. ─ Creio que esta sugestão está correta, Sr Capitão. Respondeu Sullivan. ─ É mais prudente enfrentarmos as dificuldades do que perecermos tentando fugir. Falou Luckraft. ─ Sairemos durante a força da maré para atingirmos a maior velocidade possível ao passarmos diante da fortaleza. O Capitão Herbert Schomberg confirmou sua decisão. 128
  • A Escuna Astro Baterias Leste XVI ARTILHARIA 129
  • Egberto Fioravanti Ribeiro As três igrejas localizadas no centro da cidade tinham missas diárias e eram frequentadas por todos os moradores de todas as classes sociais. A Igreja de Santo Antonio era frequentada por escravos. A maioria da população frequentava a Igreja do Rosário. A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco recebia os ricos comerciantes e suas famílias. Neste domingo a 30 de junho de 1850, a Igreja da Ordem está repleta de fiéis para a missa cantada, neste dia festivo em honra ao apóstolo São Paulo. Este é um dia especial, porque no dia seguinte acontecerá a eleição e escolha dos membros da Câmara Municipal. Na cidade estão muitas autoridades da Província de São Paulo e da corte no Rio de Janeiro e muitos deles assistirão a missa. Os cantores do coro da Igreja estão desde cedinho ensaiando alguns cânticos religiosos. ─ O canto de Santo Tomás de Aquino é muito longo, então vamos cantar somente a última estrofe. O regente instruiu os cantores. ─ Tantum ergo sacramentum... Homens e mulheres acendiam velas nos vários castiçais ao lado da porta para a rua da Ordem, diante do pátio da ribanceira, com vista para a Ilha da Cotinga. Algumas senhoras, vestiam finas roupas escuras à moda inglesa e chegavam em liteiras carregadas por dois servos. As mulheres cobriam as cabeças com véus pretos de seda e caminhavam no corredor com bancos de imbuia e sentaram diante do santuário. As jovens vestiam roupas em cores agradáveis da moda francesa, ornadas com luvas de seda e véus de linho branco sobre as cabeças. Uma senhorinha segurava ao peito um missal branco enriquecido com bordados dourados. Cada qual se acomodava nos lugares de costume e rezavam seguindo as contas de rosários com gemas multicoloridas. Uma jovem senhora dedilhava um rosário com fios de seda, gemas verdes com corrente e crucifixo em ouro. As devotas senhoras estavam sentadas ao lado do corredor central diante do altar dourado, balbuciando intermináveis preces ao criador. Algumas senhoras estavam decorando o altar com vasos de flores para a missa cantada, logo mais às dez horas. O sino continuava a soar em ritmo triste. Na ala oposta à entrada lateral, Anita com véu preto de rendas estava sentada com Carlos e Maria aguardando o início da missa. No mercado, grupos isolados conversavam apoiando as medidas. Havia um aglomerado de canoas atracadas lado a lado no cais do mercado. 130
  • A Escuna Astro Os canoeiros chegaram durante a madrugada para venderem seus frutos e estavam aguardando os compradores que conversavam sobre assuntos interessantes. No interior do prédio da Alfândega, os soldados caminhavam nos corredores enquanto outros limpavam seus mosquetes. No interior da capela da fortaleza, os voluntários aguardavam por uma rápida instrução de artilharia. Os rapazes sentaram-se nos poucos bancos, alguns deles estavam sentados no chão e outros estavam em pé encostados nas paredes. ─ Senhores voluntários, se tentarmos comparar o Brasil com a Inglaterra em reais condições, nós somos mais fracos do que os bretões. Mas os insultos que eles praticaram, torna-os menores do que nós. Vós não estais aqui por cego entusiasmo ou por rancor. Vós devereis lutar com sabedoria, calma e precisão nos tiros. Se alguém quiser abandonar a luta, estais livres para voltardes para casa enquanto há tempo, ninguém está forçado para permanecer na fortaleza. Para aqueles que realmente quiserem lutar, eu vos confiarei todo o zelo para repelir o insulto que a nossa nação está sofrendo. O Comandante Barbosa havia aceitado aquela ajuda. Um profundo silêncio ocupou a capela e ninguém respondeu com palavras, gestos ou mesmo temor. ─ Eu fui informado sobre o incidente no estaleiro da cidade há dois meses. Isto aconteceu com a barca Rufina de 305tons, quando estava descendo a carreira. Eu sei que houve uma descarga de canhão no castelo de popa que causou a morte de um artilheiro. Isto não deve ser repetido, jamais! foi morto pelo recuo do canhão no convés, isto não pode se repetir. ─ Aquilo foi um acidente. O tiro de pólvora seca deveria abrilhantar o lançamento na carreira, mas o navio balançou. O escravo Pedro estava atrás do canhão e disparou a carga. O canhão recuou sobre ele. Esclareceu um dos voluntários. ─ Em combate não há lugar para erros! Os artilheiros atrás dos seus canhões têm sofrido mais ferimentos fatais, do que os causados pelos seus inimigos. O Capitão os advertiu para se manterem em segurança. ─ O que é palamenta? Um dos voluntários perguntou. ─ A palamenta é um conjunto de bastões de madeira usados para socar os saquitéis de pólvora e balas no canhão, limpar o cano com rastelo e remover as buchas, balde com água para apagar as brasas. O atirador deve manter a mecha acesa para queimar as espoletas. O Comandante lhes explica. ─ Quantos homens são necessários para cada canhão? ─ Há o municiador para colocar o saquitel de pólvora e a bala. Um 131
  • Egberto Fioravanti Ribeiro com o soquete para acamar a pólvora e a bala. Há o limpador com o rastelo. Há um atirador para furar o cartucho e colocar a espoleta no ouvido do canhão e fazer o disparo e três homens de apoio. Para mover um canhão serão necessários dez homens, cada um deve segurar uma extremidade do cinto largo de couro. ─ No ano passado uma frota inglesa, com dois navios a vapor e uma corveta, afundou uma frota com 46 juncos chineses com 1.250 canhões, na foz do rio no Golfo de Tonquim, próximo a Hanói na Cochin China. Não fiqueis receosos com nossas baterias. Há dois séculos na Índia, o Comandante Duarte Pereira com uma pequena fortaleza, quatro navios e dezoito canhões, destruiu 150 navios árabes equipados com 1.500 canhões. Poucos anos mais tarde, em um confronto naval, as baterias portuguesas venceram os navios chineses em 1543, na Ilha de Tanga-Shima próxima a Kobe no Japão. O Tenente Joaquim lhes contou. ─ Atenção! O carregador deverá colocar o saquitel com pólvora e empurrar com a extremidade de couro do soquete. O segundo carregador colocar a bala e pressionar bem contra o saquitel para não deixar espaços vazios, ou o tiro perde a força. O atirador deverá furar o saquitel e colocar a espoleta no ouvido do canhão para ser acesa com o morrão. O Tenente Ricardo os ensina. ─ Tenhais cuidado após cada tiro! Sempre há sobras de brasas no cano. O carregador deverá molhar a esponja no balde e passar no cano para extinguir qualquer sobra de fogo. Se houver brasas, o saquitel com pólvora explodirá no momento em que é colocada no cano. Reiterou o Tenente Joaquim e os advertiu contra enganos. ─ Como calculamos a distância do forte? ─ Eu direi aos oficiais a distância dos alvos e eles farão os cálculos dos ângulos com o pêndulo. O Capitão Barbosa respondeu. ─ Qual o alcance das balas? ─ Os cartuchos de dez libras (4,500 kg) de pólvora para balas de calibre 18, tem alcance de duas milhas e meia (4.600 m) e produz um impacto de 4.400 libras (2.000 kg), cobrindo da fortaleza à Ilha das Peças. Os cartuchos de seis libras (2,700 kg) de pólvora para balas de calibre 12, não cobrem toda a baía, mas podem produzir impacto de 2.600 libras (1.200 kg). O Comandante Barbosa lhes explicou. ─ Se o navio passar pela barra falsa? ─ Quando eu estive detido no Cormorant, eu conversei com o prático sobre esta possibilidade e disse-lhe para encalhar o navio, se o Capitão insistisse em mudar de canal. O Comandante Rossi, do navio Dona 132
  • A Escuna Astro Ana lhes contou. ─ Quanto tempo nós levaremos para preparar cada tiro? ─ Bom tiro pode ser repetido em dois minutos. Esclareceu o comandante Barbosa. ─ Se os ingleses atacarem por terra? ─ Contra tropas de infantaria até 300 jardas, nós utilizamos as metralhas Shrapnel, ou lanternetas que são as embalagens de flandres com aletas, carga explosiva e 60 balins de mosquete para explodir a poucos pés acima das tropas. Quando a infantaria estiver nas proximidades da peça, nós usaremos cachos de uvas. Estas são cargas com balas em uma rede de barbante que queima com o fogo, lançando os projéteis diretamente sobre as tropas. ─ Onde devemos atirar num navio? ─ Os tiros devem ser dados na linha d'água, mas em qualquer lugar no casco é aceitável. O Cormorant tem fornalhas, reservatórios de água, tanques para resfriamento água e duas máquinas a vapor. Todas estas peças estão no centro do navio, atrás das rodas com pás, ao nível da linha preta pintada no casco branco. Este é o coração do navio. O Comandante Barbosa lhes explicou. ─ Como fazer pontaria com canhões tão pesados? ─ O Capitão nos dirá a distância. Eu e o Tenente Joaquim calcularemos o ângulo e o ponto futuro de cada tiro. O atirador deverá esperar o navio chegar ao ponto do alvo para atirar. O Tenente Ricardo os ensinou. ─ Sobre os mosquetes? ─ Para carregar os mosquetes e pistolas retira-se a vareta que está embaixo do cano, em seguida coloca-se o cartucho de papel úmido em graxa e barbante com a medida certa de pólvora empurrando com a vareta até o fundo e colocar a bala pressionada com o barbante e empurrar bem com a vareta. Por último, levanta-se a chapa de aço e através do ouvido na culatra fura-se o cartucho de papel e coloca-se a espoleta. Engatilha-se o cão e somente atirar com mosquetes em alvos a menos de 100 jardas (91 m) Se alguém tiver uma pistola, o alvo deverá estar a menos de seis braças (10 m). ─ A guarnição da fortaleza dará apoio a cada peça? ─ Certamente! As peças terão soldados treinados acompanhando a vossa ação o tempo todo. Os voluntários de infantaria e os substitutos das baterias deverão ficar aquartelados nas celas, protegidos contra estilhaços de balas e balas. Vós devereis deixar os aquartelamentos, somente quando forem chamados, de outra forma, ficai protegidos. O Tenente Ricardo os recomendou. 133
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Nós precisamos de voluntários para encher os saquitéis com pólvora e para preparar o hospital de campanha na capela. O Comandante Barbosa finalizou. Os rapazes deixaram a capela e dirigiram-se ao refeitório para o café que já estava pronto desde cedo e logo após o desjejum, eles iniciaram suas atividades com novas energias. A péssima situação dos reparos (carretas) das peças, realmente não garantiam a imponência que demonstravam a quem navegasse diante da fortaleza. Os carpinteiros efetuaram alguns reparos nas carretas dos canhões mais novos de calibre 18. Os canhões mais antigos de calibre 12 estavam com as carretas em terrível estado de conservação e muitos deles estavam caídos ao solo. O método de amortecimento do recuo era através de pedregulhos sob as carretas, mas o recuo dos tiros, causava o afundamento no cascalho e tombavam o canhão. As filhas e o filho do comandante Barbosa uniram-se aos voluntários para prepararem as cargas de pólvora e Shrapnel. Os artilheiros trouxeram até a casa da pólvora as barricas com pólvora fina e bolsas de pano para as medidas certas para os dois calibres. Eles estenderam uma lona sobre o solo da Casa de Pólvora e utilizaram canecas de cobre na medida certa de pólvora fina para cada calibre. Eles iniciaram cuidadosamente a preparar a munição. Até à tardinha, eles haviam preparado 50 saquitéis para balas e 50 lanternetas Shrapnel. (O total usado em combate de calibre 18 foram trinta balas e vinte lanternetas Shrapnel. De calibre 12 foram vinte balas e trinta Shrapnel). Dr Eduardo orientou os rapazes a colocarem os bancos em forma de mesas de operação e camas. Laura e a enfermeira retiraram os medicamentos das caixas e os dispõe sobre uma mesa ao lado do altar. ─ Esta capela será a nossa enfermaria e os bancos já estão bem posicionados. Pedirei aos carpinteiros para fazerem duas padiolas. Dr Eduardo disse a Laura. ─ Nós faremos tudo agora! Disse um carpinteiro. No escritório da Alfândega, o Inspetor Sr Caetano e as autoridades preparam os ofícios. ─ Doutor Filástrio, vós já preparastes os ofícios? Perguntou o comendador Correia Jr. ─ Sim! Ontem à noite, eu conversei com o cônsul americano e ele me sugeriu um ofício de protesto ao Comandante do Cormorant exigindo a liberação dos navios. Após a carta de protesto, eu deverei escrever uma ordem de serviço ao Comandante Barbosa para fazer o uso da força militar para impedir a saída de navios sem o despacho da Alfândega. O Juiz lhes explicou. 134
  • A Escuna Astro O Comandante Guimarães lê e entrega ao Comendador Correia Jr que a lê em voz alta e todos os presentes concordam com os termos. O Inspetor Caetano envia a carta ao Comandante do Cormorant pelo Guarda- mor Francisco. ─ Guarda-mor Francisco! Levai este ofício ao Comandante inglês, por favor! O Inspetor lhe disse. ─ Sim, senhor! Francisco recebeu o documento e seguiu ao pier da Alfândega onde estava o escaler com oito remadores aguardando ordens. O escaler da Alfândega navegou toda a extensão do rio Taguaré e passou pelo ancoradouro e contornou a Ponta da Cruz. O escaler aproximou-se da escada do portaló do vapor, mas Francisco foi impedido de subir a bordo. O Capitão estava em seu gabinete com os demais oficiais quando ouviram os gritos de ordem dos guardas. ─ Alto! Os marinheiros na escada gritaram para Francisco. ─ Sr Sullivan, ide ver o que está acontecendo. ─ Eu estou trazendo um ofício do juiz de Paranaguá ao Senhor Comandante do Cormorant. ─ Um funcionário da Alfândega está trazendo um ofício. ─ Recebei vós a carta e trazei-ma e dizei ao mensageiro para aguardar. O Comandante deu ordens ao seu oficial. ─ Eis a carta, senhor. ─ Sr Luckraft! Leia-a para mim, por favor! ─ Sim, senhor! Aqui diz: 135
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Juiz Municipal do termo de Paranaguá Província de São Paulo. ─ 30 de junho de 1850 Ao Sr. Comandante do Vapor de SMB Cormorant. O abaixo assinado Juiz Municipal do Termo de Paranaguá da Província de São Paulo, havendo presenciado um ato iníquo praticado em à tarde de ontem no Porto desta cidade pelo Sr. Comandante do Cormorant de SMB que sem a menor atenção de respeito ao Pavilhão Nacional lançou a captura dentro do mesmo porto, três navios brasileiros nele fundeados, julgando seu rigoroso dever protestar contra o referido Sr. Comandante do Cormorant pelos prejuízos e perdas que de tal captura resultarem aos súditos do Império. As circunstâncias atualmente agravantes que presidiram o iníquo ato praticado são de tal quilate que não poderiam deixar de impedir o abaixo assinado de qualificar o mesmo ato como verdadeira pirataria. Se o abaixo assinado não fosse tolhido pelo respeito em que é devido ao pavilhão inglês quando debaixo dele se praticaram atos de natureza muito diferentes daqueles que se esperavam. Ao abaixo assinado não é lícito presumir que de parte do Senhor Comandante do Cormorant haja ignorância dos mais essenciais princípios do Direito Internacional e por consequência, da rigorosa obrigação em que se acha o mesmo Sr. de respeitar os mares territoriais pertencentes a uma nação amiga. Foi com a maior surpresa que o abaixo assinado recebeu uma comunicação verbal do Guarda-mor da Alfândega desta cidade, consistindo ela em que o Sr. Comandante do Cormorant lhe dizia ter vindo a este porto aprisionar ou capturar os navios que se empregassem no tráfico ilícito de africanos, acrescentando que por esse nenhuma satisfação tinha de dar às autoridades do país. 136
  • A Escuna Astro O abaixo assinado faltaria ao seu dever se não apressasse em repelir na hipótese de ser verdadeira tal comunicação. Talvez medida de arrojo e efeito o repele porque logo depois de o haver realizado, igualmente se apressem em fazer sentir ao mesmo Sr. Comandante do Cormorant que quando provado estiverem os navios ora capturados se empregavam ou que haviam sido empregados no tráfego ilícito de africanos, estando eles fundeados no Porto dessa cidade, as autoridades do país saberiam cumprir os seus deveres procedendo em conformidade com as leis de tal tráfico. O abaixo assinado não pode deixar de estar em extrema dor por ter o Sr. Comandante do Cormorant praticado um ato tão ultrajante como são apontados contra a soberania e a dignidade da nação não lhe seja lícito repelir tais atos, senão pelos caminhos e meios de protesto que ora ele faz. Por último, o abaixo assinado tem de rogar ao Sr Comandante do Cormorant que se digne acusar o recebimento do mesmo protesto. Assinado: Filástrio Nunes Pires. ─ Obrigado Sr Luckraft, eu vou lhe responder. ─ Vós lhes escrevereis? Sullivan perguntou. ─ Sim! Eu lhes escreverei um ofício e enviarei de volta o ofício que acabo de receber. O Comandante lhe falou. 137
  • Egberto Fioravanti Ribeiro “Ao Sr Juiz Municipal do termo de Paranaguá. Senhor Em resposta ao seu despacho agora recebido, só tenho a expressar-lhe que apreendendo navios brasileiros, ingleses ou de qualquer outra nacionalidade nas águas de Paranaguá ou alhures nos portos e baías do Brasil que servem para o comércio negreiro, estou executando ordens restritas recebidas do Comandante em chefe da esquadra britânica nessa parte a quem não perderei o tempo de fazer referência sobre o seu protesto. Tenho a honra de ser, HMS Cormorant, 30 de junho de 1850. Capitão Herbert Schomberg”. 138
  • A Escuna Astro O Comandante Schomberg assinou e entregou ambos ofícios a Luckraft para entregá-los ao Guarda-mor. Assim que chegou na Alfândega, Francisco entregou os ofícios ao Juiz Dr Filástrio. O Comandante Guimarães e o Comendador Correia Jr lamentaram a resposta de Schomberg e consideraram exauridas todas possibilidades de reconciliação. ─ Dr Filástrio! Vós deveis enviar um ofício ao Comandante da fortaleza ordenando o impedimento a saída dos navios apreendidos pelo Cormorant. O Inspetor Caetano Souza Pinto disse. Mensageiro! Levai este ofício ao Comandante Barbosa na fortaleza. ─ Eu partirei em outro barco mais veloz imediatamente, senhor. Anoitece cedo nesta época do ano e a praia da fortaleza mergulhava em profunda escuridão quando um barco encalhou na praia diante da fortaleza. Um homem deixou o barco e correu ao portão. Os voluntários estavam de guarda no alto do terraplano quando viram o homem se aproximar. ─ Alto! Identificai-vos! Exigiu o sentinela. ─ Trago mensagem do Juiz Municipal para o Comandante Barbosa. ─ Abram os portões! O Tenente Joaquim ordenou do alto da muralha. ─ Podeis entrar! O Comandante vos aguarda em seu gabinete com alguns oficiais e civis. ─ Boa noite, senhores! Comandante Barbosa, eis um ofício do Juiz Municipal. O Comandante leu o documento e levantou-se. ─ Senhores! Já temos ordem das autoridades da Província de São Paulo para não deixarmos os navios apresados saírem do porto. Minha responsabilidade está resguardada. Agora, somente prevalecerá a nossa competência militar e o apoio de Deus. ─ Se Deus é por nós, quem será contra nós? Um dos jovens bradou. ─ Ninguém! Todos responderam e levantaram seus chapéus. 139
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Linha de Fogo XVII FULGOR DA JUSTIÇA 140
  • A Escuna Astro O sol nasceu preguiçosamente nesta manhã de segunda feira, dia 1º de julho de 1850. Este dia parecia ser igual a todas as manhãs de inverno. O frio, as gaivotas e fragatas mergulhando para encontrar alimento fascinavam os rapazes sentados na muralha. Quando as aves marinhas apanhavam paratis e iniciavam o lento e pesado voo, logo outras as seguiam em algazarra, tentando capturá-las. A vida na baía não incomodou os voluntários deitados ao lado dos canhões ou ao lado do parapeito no terraplano. A maioria deles dormiu no piso de ladrilhos no amplo corpo da guarda e nas duas celas com teto de pedra à entrada do portão principal. O aroma de café espalhou-se por todas as dependências da fortaleza, como se estivesse chamando pelos rapazes. ─ Tenente Joaquim! Chamai os soldados e voluntários para o hasteamento da bandeira do Brasil. O Capitão ordenou. O som do clarim comandou os poucos soldados e alguns voluntários. Para outros foi necessário dar explicações para entenderem o que dizia. Em poucos minutos, a Bandeira Imperial verde e amarela estava flutuando suavemente no alto do mastro, espargindo coragem sobre os jovens. No alto do Morro da Baleia, o vigia estava olhando sobre a Cotinga, aguardando o sinal da partida do navio de guerra a vapor. ─ Voluntário para substituir o vigia no Morro da Baleia. Pediu o Tenente Ricardo. ─ Eu irei! Apresentou-se um dos rapazes. ─ Mantenhais os vossos olhos na bandeira do telégrafo na Ilha da Cotinga e anunciai a partida do navio de guerra. O tenente lhe pediu. No armazém do prédio da Alfândega, os amanuenses estavam contando alguns lotes de linho recebidos dos Estados Unidos da barca americana Muckengen, descarregados na sexta-feira. No cais, os empregados e estivadores estão carregando saveiros e barcaças com erva mate e madeira para os navios com destino ao Rio de Janeiro. Também estava sendo completado o carregamento de erva mate para Montevidéu no navio Flor do D'Ouro de 272 toneladas. As notícias sobre a partida do HMS Cormorant aumentaram a ansiedade dos moradores e visitantes. Todos aguardavam diante do prédio da Câmara Municipal, o início das hostilidades a qualquer momento. Na Rua da Ordem, a multidão estava aguardando sob pesado silêncio, pelo início da solenidade de juramento de lealdade dos vereadores e da população. Esta 141
  • Egberto Fioravanti Ribeiro secular prática era repetida desde os tempos de colonia portuguesa, apesar da mudança política, o país continuava aos moldes lusitanos. (Após o Juiz ler a carta de Juramento de Vozes à Constituição, decretada pelo governo da Província de S. Paulo e pelo Imperador. O povo respondia: “Assim o juramos”.) Um pescador estava indo para Guaraqueçaba e passou com sua canoa ao lado do Cormorant. Ele viu o prático Santiago entre os marinheiros na amurada. ─ Santiago! O canoeiro viu o prático no convés e o chamou. ─ Seu Ferreira! Santiago respondeu da amurada. ─ Tomai cuidado! O juiz, Dr Filástrio, deu ordens ao Comandante Barbosa para abrir fogo contra este navio. ─ Obrigado, seu Ferreira. Eu ficarei em lugar seguro. ─ O que ele vos disse? Perguntou Mc Bride, aproximando-se de Santiago ao vê-lo conversar com o pescador. ─ Ele disse que as Autoridades do Governo deram ordens ao Comandante da fortaleza para abrir fogo contra o vosso navio. Santiago respondeu-lhe enquanto caminhavam à ponte de comando. Santiago olhou para o relógio da ponte. Eram oito horas e trinta minutos e os marinheiros haviam terminado a refeição. O Comandante autorizou que levantassem a âncora e iniciassem os movimentos dos pistões de 300HP para girar as rodas laterais. Há muitas pessoas na casa de máquinas desde o turno da noite para alimentarem as fornalhas. Os engenheiros verificam todo o tempo os manômetros de pressão das duas caldeiras. Os auxiliares de foguistas rolam as barricas, quebram as tampas e derramam carvão no piso de aço diante das fornalhas. Os foguistas enchem as pás com carvão e olham à base brilhante do lençol de fogo. Eles lançam o carvão no lugar correto e repetem este movimento por três vezes e fecham a portinhola. Eles aguardam a transformação do carvão em coque até a queima completa dos gases. ─ Levantar âncoras! O comandante deu ordens através do intercomunicador aos oficiais no castelo de proa. ─ Artilharia de proa em posição de combate! O Aspirante deu instruções. ─ Capitão! Nós fomos informados que a fortaleza irá nos impedir a passagem. Portanto, devemos aproveitar a correnteza da vazante, porque estamos rebocando três navios com mais de mil toneladas. O Tenente Luckraft explicou ao Capitão o seu ponto de vista. ─ Obrigado, Sr Luckraft! Perguntai vós ao piloto qual a possibilidade 142
  • A Escuna Astro de seguirmos o rumo pela costa norte da baía? Solicitou o comandante, observando com uma luneta as praias da Ilha das Peças. ─ Nenhuma, Senhor! O canal é muito raso e tem vários bancos de areia e não oferece navegação segura para veleiros, muito menos para pesados navios a vapor. Santiago respondeu ao Tenente Luckraft. ─ A que distância da fortaleza poderemos navegar? Sullivan perguntou a Santiago, enquanto consultava a carta marítima. ─ Não mais do que trezentas jardas. Há uma perigosa cordilheira submersa diante da fortaleza. O prático Santiago os advertiu. ─ Não tem importância! Nós sairemos do porto pelo mesmo canal por onde nós entramos. Toda força à avante! Ordenou o comandante. Sullivan movimentou a alavanca do telégrafo na ponte de comando, ordenando ao chefe de máquinas para dar a partida nos motores do navio. O engenheiro respondeu a ordem do telégrafo movendo a alavanca da casa de máquinas, enquanto pedia ao seu assistente para iniciar a máquina oposta. As válvulas abertas dos pistões fizeram as refolegantes máquinas girar as rodas laterais. Os vapores utilizados são enviados ao condensador e retornam às caldeiras em forma de água potável, para não causar corrosão. A boa circulação de ar nas fornalhas ocorre quando as grelhas estão limpas. O escapamento de vapor e ar queimado pela chaminé, aumentam a combustão e a temperatura das caldeiras. ─ Foguistas! Alimentar com reduzido intervalo da carga! O engenheiro de máquinas abriu a torneira de bronze e verificou o nível de água nas caldeiras. Chester encontrou somente jatos de vapor, rapidamente. Ele abriu o registro do destilador e colocou mais água até sair pela torneira, completando o nível de água. O navio moveu-se lentamente e o comandante sentou-se a sua mesa, aguardando seus oficiais e pediu ao seu assistente para chamar o prático. O vigia no alto da Cotinga ouviu os ruídos do guincho da âncora e hasteou a bandeira do telégrafo. O voluntário estava chegando ao seu local de observação no morro da Baleia quando viu a sinalização da Cotinga, informando que o navio estava saindo do ancoradouro. Nas ruas da cidade, um grupo de bocas-pequenas corria pelas calçadas das lojas para as portas das casas anunciando a saída do navio. ─ O navio inglês está rebocando três veleiros! Gritava um menino, repetidamente. ─ Vai ter combate! Bradava outro. Na rua Direita, duas vizinhas nas suas janelas conversavam sobre os últimos acontecimentos. ─ Hoje os bocas-pequenas estão incansáveis. Não estão, Belinha? 143
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Sim, Áurea! Eles estão nessa louca correria desde cedo. Quanto assunto eles têm para nos contar! ─ Eu não sei o que causa tanto medo a essa gente: portugueses, espanhóis, republicanos ou ingleses. Se necessário for, vamos aprender a falar em inglês. Vós não concordais, Belinha? A sorridente Áurea, inclinada para frente no peitoral da janela, perguntou a sua vizinha. ─ Não vamos tão longe assim, Áurea. Eu espero não perder a pensão do meu falecido marido, se houver a emancipação do Distrito de Curitiba da Província São Paulo. A temerosa Belinha esclareceu. ─ Podemos ver que existem duas guerras ocorrendo aqui ao mesmo tempo: uma na Câmara Municipal e outra na fortaleza. Comentou Dona Áurea. ─ Vós não ireis jurar lealdade ao Imperador, Áurea? ─ Eu não tenho jurado nos últimos dez anos. O Imperador não precisa da nossa fidelidade declarada. Respondeu Dona Áurea com desdém. ─ Há muitos mentirosos que gostariam de expulsar o Imperador. Mas hoje, eles estarão na primeira fila de juramento. Dona Belinha concordou. ─ Hoje será um longo dia. Vamos entrar e fechar as portas e janelas, para nós também não sermos envolvidas. Até mais tarde, Belinha! A senhora sugeriu e despediu-se enquanto fechava a janela. ─ Até logo, Áurea! Respondeu a gentil vizinha. Fortaleza. ─ Corneteiro! Dar o toque de rancho! ─ O aroma está ótimo! Respondeu um voluntário. ─ Estou tão cansado que nem sinto fome! Comentou um carpinteiro. ─ Os voluntários trouxeram muitos pães de casa. ─ Minha mãe está pensando em mim. Comentou um dos voluntários olhando para sua caneca esmaltada. ─ Navio inimigo à vista! Bradou o vigia do alto do Morro da Baleia. O alerta do vigia no alto do morro soou como um trovão. Os corações sofreram um rápido espasmo de adrenalina. A primeira reação foi de olhar para a baía. Os mastros dos navios ainda não eram visíveis do terraplano da fortaleza. Os longos minutos de silêncio logo foram quebrados pelo pesado barulho dos pistões e manivelas girando as rodas. O navio estava rebocando a galera Campeadora com os lançantes de bombordo. Um pouco atrás com os lançantes de estibordo estava o brigue Sereia. O último, 144
  • A Escuna Astro também com os lançantes de estibordo era o brigue Dona Ana. ─ Artilheiros tomar posição nas baterias! Infantaria para o aquartelamento! O comandante ordenou aos seus homens. Laura servia café a Franco, ao Tenente Ricardo, ao médico e enfermeira e à família do Comandante na capela. O toque do clarim gelou seu coração, mas ela continuou impassível com um bule na mão. A filha mais velha do Comandante chamou Laura e Luciana para lhe ajudar com uma grande chaleira de água fervente e tiras de lençóis de algodão. ─ Devo ir agora, Laura. Deus vos guarde! Franco a beijou e saiu em direção à rampa do terraplano. A escuna “Nova Providência” entrou barra e todos observaram do convés um navio de guerra a vapor saindo do porto de Paranaguá. ─ Timoneiro! Deixai o canal livre e tomai cuidado com o vanzeiro. O Capitão Barbosa havia escrito uma carta para enviar ao comandante do navio quando estivesse próximo da fortaleza. ─ Sargento! O Comandante Barbosa chamou o seu Sargento. ─ Sim, senhor! ─ Levai este ofício ao navio de guerra. ─ Imediatamente, senhor! O Sargento Oliveira rapidamente apanhou a carta e chamou dois soldados remadores para o barco de registro e deixou a praia para ir ao encontro do vapor no meio do canal. Ao Sr. Comandante do HMS Cormorant. Exmo. Senhor. Tenho ordem do governo imperial para não permitir V. S. levar os barcos nacionais que não estão despachados pelas autoridades e nem por mim como Comandante desta fortaleza, pois do contrário vejo-me obrigado a fazer fogo sobre o vapor que V. S. comanda. Deus guarde V. S. Fortaleza da Barra de Paranaguá. 01 de julho de 1850. Cap. Joaquim Ferreira Barbosa. Capitão Comandante da Fortaleza. 145
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ Navio a vapor não autorizado a sair do porto está em curso! Escaler de registro em curso! O Tenente Ricardo informou ao Capitão Barbosa. O Comandante Barbosa estava coordenando todas as suas tarefas vestindo o uniforme azul de artilharia, oito botões de bronze e calça branca, quepe alto com jugular de bronze e penacho. Ele usava duas pistolas no cinto largo de couro preto com alça nos ombros para a espada. ─ Navio a vapor não autorizado a deixar o porto a uma milha e meia. Guarnições em posição! Corrigir os graus de inclinação! O Comandante Barbosa orientou aos seus oficiais. Cormorant O Capitão Schomberg com sua luneta viu do convés da ponte, o escaler com dois remadores. Um sargento em pé com a bota sobre o castelo de proa dirigia-se ao meio do canal para interceptar seu curso. ─ Estão nos enviando um escaler. Parar máquinas! O Capitão Schomberg ordenou ao seu piloto. ─ Um momento, Capitão! Nós não podemos parar agora, porque a correnteza levará as presas para além do Cormorant e os cabos enroscarão nas pás das rodas e perderemos o controle do navio. O tenente Luckraft previu que algo pior estaria para acontecer. ─ Obrigado, Sr Luckraft! Toda força à vante! Schomberg reconsiderou sua decisão e ordenou que prosseguissem adiante. Fortaleza ─ Senhor! O escaler está a vista do navio, porém as máquinas continuam girando. O Tenente Ricardo informou ao Capitão. ─ Atenção! Preparar tiro de advertência com pólvora seca pelo canhão de doze da primeira bateria ao norte. O Comandante Barbosa posicionou-se em pé ao lado da guarita e ordenou a primeira salva. ─ Preparar tiro de pólvora seca! O Tenente Joaquim ordenou. ─ Navio a vapor não autorizado a sair do porto a uma milha e um quarto! Após muitos anos na ilha, o Capitão havia marcado as árvores da praia como referência de distância. ─ Carga pronta! Respondeu o artilheiro enquanto a guarnição tapava os ouvidos. 146
  • A Escuna Astro ─ Atenção! Afastem-se da peça! Primeira bateria, fogo! O artilheiro soprou o morrão para atiçar a brasa e o encostou na espoleta. O saquitel com 6 libras de pólvora seca (2,7 kg) explodiu. A carga disparou e o recuo do canhão o lançou ao solo. Dois soldados estavam remando em águas rasas junto a praia com as faces para o forte. Eles sentiram o deslocamento do ar, a forte luz, o calor, a fumaça e a explosão. ─ Sargento! Nós ficaremos entre dois fogos. Os soldados no escaler bradam assustados com aquele tiro sobre eles. ─ Remar para trás! Não haverá nenhuma carta de ultimátum! O Sargento ordenou aos soldados a baterem em retirada. Ambos remadores mudaram suas posições a bordo e começaram a remar de ré para a fortaleza. Enseada das Conchas Um armador de Paranaguá, José Francisco Correia com seu iate Nova Providência (37 tons), estava chegando do porto de Rio Grande com carregamento de carne seca e dirigia-se à fortaleza. O Comandante do iate presenciou o início do combate e para não ser envolvido no conflito, ele rapidamente mudou o curso para a praia. O Comandante ordenou a sua pequena tripulação a baixar as velas e arriar a âncora, para que todos ficassem em segurança na Enseada das Conchas. HMS Cormorant Impassivo, o Capitão Herbert Schomberg estava olhando para o forte e viu o brilho e a fumaça acinzentada crescendo sobre a muralha. Ele ouviu o som da boca de fogo, apesar de não ter visto nem ouvido a bala. Ele concluiu que era apenas um tiro de advertência. ─ Eles fizeram um disparo de pólvora seca. Falou o Capitão. ─ Paramos? Perguntou Sullivan. ─ Não! O escaler está voltando de ré. Isto é sinal que eles estão prontos para um combate. O Tenente Luckraft disse. ─ Todos os civis devem permanecer aquartelados. O prático brasileiro deverá permanecer na ponte para conduzir o timoneiro. O Capitão Schomberg ordenou sua tripulação aos gritos. 147
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Capela da Fortaleza ─ A fortaleza iniciou o confronto! O médico ao lado do altar advertiu as enfermeiras e as crianças. ─ Vamos correr para o canto do altar! As crianças, as enfermeiras e o médico caminharam agachados para o canto. ─ Vou pegar minhas armas! Laura disse pegando seus mosquetes e cintos com munição e os arriando próximo à parede. ─ Este tiro abafado é de pólvora seca! Corrigiu Joaquim. ─ Eu espero que os ingleses entendam esta ordem. Laura disse. Câmara Municipal A cerimônia para a eleição na Câmara Municipal começou às dez horas da manhã, como nos últimos duzentos anos. A mesa era presidida pelo Juiz Municipal o Dr Filástrio Pires Nunes que convocou a sentar à mesa, as autoridades do Distrito de Curitiba, da Província de São Paulo e do Rio de Janeiro. O Juiz colocou seus óculos e começou a leitura da Portaria Imperial de anulação da eleição do ano anterior e... (explosão). Uma explosão ao longe fez tremer as janelas, interrompendo a leitura. As autoridades começam a dialogar entre si, obrigando o Juiz a usar o martelo. Os relógios de bolso são abertos e consultados: Dez e dez! ─ Cavalheiros! Isto foi somente um disparo acidental. O Juiz acalmou as autoridades e continuou a leitura do documento...(explosão). ─ Lamentamos que tenhamos chegado a este ponto, mas isto seria inevitável. Explica o Comendador Correia Jr. ─ Senhores! A soberania brasileira tem sido ultrajada neste porto, como também tem acontecido a outros portos nacionais. Anteontem adentrou um navio de uma nação amiga, mas com comportamento belicoso encontrado somente em navios piratas. Nós negociarmos com o Comandante inglês a liberação dos trabalhadores brasileiros aprisionados pelo HMS Cormorant. Graças a Deus, nós fomos bem sucedidos nestas negociações. Porém, nossas reivindicações à devolução das mercadorias e navios apreendidos, sem a demostração de provas criminais, não tiveram a esperada consideração. Portanto, para assegurarmos a soberania do Brasil e das propriedades sob sua jurisdição e como autoridades constituídas, é de nosso dever manter o Brasil com o devido respeito que merece, ainda que através dos recursos da força, como este caso em demanda...(explosão). Explicou o Comandante Guimarães em pé ao lado da mesa. 148
  • A Escuna Astro Fortaleza ─ Navio não autorizado a sair continua em curso. ─ Preparar os canhões com balas sobre alvo a uma milha. Que Deus abençoe a todos nós, fazendo prevalecer o direito e a justiça. O Comandante Barbosa rezou em voz baixa. ─ Fogo! O Tenente Joaquim ordenou. Cormorant ─ Deus! O Tenente Luckraft clamou quando viu o brilho que floresceu na muralha da fortaleza com fumaça cinzenta. Uma bala cresceu em sua direção cruzando sobre a proa do navio, seguido por outra bala que passou sobre a popa. Outro lampejo, fumaça, nova bala vindo cruzou sobre a popa, ressoando a madeira quebrada da escuna Sereia. ─ Eles estão nos alvejando com balas de ferro e o balanço das ondas agora são mais fortes. Como nos aproximamos da barra, nós não temos tiros precisos, Sr Capitão! Este navio está muito instável e estaremos sem pontaria e fadados a perder muitos tiros! O Tenente Luckraft reclamou. ─ Agora não há como bater em retirada. Fogo vivo de dois minutos na fortaleza. Schomberg ordenou aos seus oficiais. ─ Torres do castelo de proa com Shrapnel e baterias de estibordo com balas de ferro! O Capitão ordenou pelo intercomunicador. ─ Fogo! Ordenaram os aspirantes as suas baterias. Cidade O relógio da Alfândega vibrou na parede às 10:30 hs e os tiros estavam continuando de terra e mar. Os moradores na cidade logo começaram a identificar as explosões das peças do navio. Estas eram mais fortes, porém mais cadenciadas. Os moradores estavam furiosos, a marinha inglesa não deveria ter provocado aquele confronto. Nas casas, as pessoas sentiam o grande estrondo pelo deslocamento de ar nas janelas e telhados. Quando vários tiros eram disparados simultaneamente, caíam telhas e rebocos das paredes. 149
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Igreja da Ordem Nesta manhã de segunda-feira sem missa, as crianças estavam brincando ao lado da Igreja da Ordem, no vazio jardim das liteiras. Os primeiros e distantes tiros as assustaram. Elas sabiam que suas mães estavam rezando na igreja por seus irmãos na Ilha do Mel. Os estampidos eram muito mais fortes do que os dos foguetes com caudas de uvá ou dos disparos de mosquetes ocorridos há dois dias. Os bocas-pequenas chegaram correndo à Rua da Ordem, diante no pátio da ribanceira para verificar. ─ Tem fumaça na Ilha do Mel! Gritou um menino na porta da Igreja, sem ver nada. ─ Vamos ao pátio da ribanceira! Falou um menino dentro da igreja. Anita estava rezando no genuflexório do banco. Ela fechou os olhos e contava o terço nervosamente. As explosões a faziam rezar ainda com mais fervor. Ela enxugou seus olhos lacrimejantes com um lenço de cambraia e olhou ao seu redor, mas não viu Carlos nem Maria. ─ Carlos? Maria? Anita ajoelhada procurou pelas crianças. ─ Ela é a esposa daquele prático traidor! Resmungou uma matrona com olhar agressivo. Anita estava preocupada com as crianças. Em uma rápida olhadela pela igreja, ela notou que as pessoas a fitavam severamente. Aqueles não eram olhares de compaixão pelo seu marido correndo risco de morte a bordo do navio de guerra. Aqueles olhares eram como dedos apontando para uma pressuposta culpa, como um veredito da Inquisição. Todos estavam considerando seu marido como um traidor, porque estava prestando serviço à Inglaterra. Anita saiu do seu lugar a procurar pelas crianças e as viu em pé, na soleira da porta principal da igreja. ─ Não choreis Maria! Papai logo estará de volta. Carlos estava sentado no degrau da porta da igreja, segurando as mãos da irmã, tentando acalmá-la. ─ Quando papai voltará? Perguntou Maria soluçando. ─ Carlos, Maria! Anita aproximou-se e abraçou as crianças. ─ Mãe, dizei vós a Maria que papai voltará logo. Carlos pediu. ─ Vamos esperar por ele na casa do vosso tio. Estes olhares de acusação nos ferem mais do que os canhões ingleses. Ela lhes disse. Anita e as crianças saíram da igreja e foram diretamente à casa de Francisco. 150
  • A Escuna Astro Iate Nova Providência ─ Olhem! A fortaleza entrou em combate. Vamos fundear na enseada das Conchas. O mestre do iate ordenou a mudança de rumo. ─ O navio de guerra está rebocando três veleiros. Um marinheiro no convés do iate fez o comentário enquanto fundeavam o navio. ─ Certamente é um cruzeiro inglês que apreendeu os navios e a nossa fortaleza está revidando. O armador falou. ─ Há muita gente na fortaleza. Disse o mestre enquanto todos iam à amurada para verem a batalha de um lugar privilegiado. ─ Eles devem estar auxiliando a artilharia. O armador acrescentou. ─ Eles estão atirando para valer. Olhem os pedaços de madeira voando. A fortaleza acertou outro tiro em um dos veleiros a reboque. ─ Agora acertaram um escaler do navio de guerra. ─ Dá-lhes, Comandante Barbosa! Um marinheiro gaúcho levantou a mão fechada em riste e bradou pela vitória da fortaleza. Fortaleza ─ Atenção todas as baterias! Fogo à vontade! O Comandante ordenou a livre sequência de tiros. ─ Senhor! A primeira bateria norte, de calibre 12 não tem mais condições de fogo. O mestre Freire avisou ao Capitão. ─ Dai apoio a outro canhão! O Capitão lhe ordenou. ─ Imediatamente, Senhor! ─ Posicionar os canhões de nordeste e leste! Apontar sobre a linha preta no casco do navio inimigo. Orientou o Comandante. ─ Navio inimigo entrando na minha linha de tiro. Atenção artilheiro. Fogo! O Tenente Joaquim comandava muitas peças ao mesmo tempo. ─ Este tiro foi perfeito, Nascimento! Estes ingleses ficarão envergonhados para o resto de suas vidas quando lembrarem destes rombos no casco. Comentou Rossi. ─ Navio inimigo a três quartos de milha! Ambos calibres preparar Shrapnel com espoletas para meia milha! Aguardar aproximação! Orientou o Comandante Barbosa. 151
  • Egberto Fioravanti Ribeiro HMS Cormorant Diante da torreta na proa do navio, o aspirante Lanesdale estava esperando o balanço de uma onda para colocar o forte na linha de tiro. ─ Atenção bateria! Fogo! O aspirante aguardou a fumaça dissipar e olhou para o morro da fortaleza onde a Shrapnel explodiu. Aborrecido ele desferiu um soco contra a torre. ─ Preparar nova carga! Lanesdale ordenou os homens que rapidamente abriram a culatra e prepararam uma nova carga. ─ Molhar o cano! Limpar o cano! Colocar Shrapnel! Saquitel de pólvora! Fechar a culatra! ─ Carga pronta, Senhor! ─ Corrigir a posição da torre em cinco graus! Os carregadores moveram as alavancas para apontar a pesada arma no alvo. ─ Canhão em posição! Atenção atirador! Aguardar o movimento da onda. Fogo! Lanesdale viu o projétil explodindo outra vez entre as árvores na encosta do Morro da Baleia. Ele ordenou uma nova carga. Navios Apresados Uma lanterneta Shrapnel da fortaleza explodiu sobre o porão da escuna Dona Ana e uma chuva de balas acertou o seu convés vazio. Os poucos tripulantes nos três navios apresados estavam protegidos nas cozinhas da popa, enquanto os tiros estavam sendo lançados sobre eles. (Após o combate, estes navios haviam sofrido quase quinze tiros cada um. Em tais condições, dois veleiros estavam irrecuperáveis e foram incendiados ao lado da ilha das Palmas.) Fortaleza Alguns tiros do navio de guerra haviam atingido a muralha de sete pés de espessura (2,13m). Outros atingiram a praia ou o morro, mas sem causar danos. As Shrapnel (metralhas) do navio tinham pavios para alcance maior do que o necessário, então elas voavam sobre o terraplano e explodiam no Morro da Baleia. A encosta está a poucos passos da casa do comandante e da capela, onde estavam assustados o médico, as enfermeiras e as crianças. Uma explosão no alto do telhado da casa do Comandante Barbosa 152
  • A Escuna Astro chamou a atenção do médico. ─ Uma metralha explodiu sobre a vossa casa. ─ Espero que não tenha causado nenhum grande dano. O médico, as enfermeiras e as filhas do Comandante estão agachados na parede da capela. A filha mais nova olhou para o altar e viu a imagem da padroeira da fortaleza tremer e quase cair com as explosões. Rapidamente ela levantou-se e sem temor das balas de Shrapnel ela caminhou ao altar e chamou sua irmã para ajudá-la. A menina retirou a imagem do nicho e voltou abraçada à estátua da Senhora dos Prazeres. ─ Depois dessa, eu prometo atender a todos os pobres de Paranaguá sem pedir pagamento. O médico jurou olhando para a Senhora nas mãos da criança. (Dez dias depois na reunião da Câmara Municipal, Dr Eduardo Killer entregou a carta com esta proposta). Os artilheiros voluntários desempenhavam suas funções corretamente. No calor do combate, o voluntário Carlos Silvestre esqueceu de molhar o cano após o tiro. Ele colocou o cartucho de pano com pólvora no cano ainda com brasas. A carga nova detonou e Silvestre caiu de costas sofrendo, queimaduras leves no seu rosto. ─ Homem ferido! Enviar um voluntário para substituição na segunda bateria. Bradou o Tenente Joaquim. ─ Estou cego! Não posso enxergar nada! Gritou Silvestre com as mãos cobrindo o rosto. Um cabo da fortaleza apoiou o braço de Silvestre em seu ombro e o conduziu à capela para ser medicado. Enquanto o cabo conversava com as crianças para acalmá-las, a enfermeira e Laura limpavam a queimadura com água morna, o Dr. Eduardo estava preparando o unguento. Após terminar o curativo, Dr. Eduardo deu alta a Silvestre para voltar a dar apoio a sua bateria. Laura e o cabo auxiliaram o jovem a retornar a sua bateria, apesar de estar com uma bandagem no rosto, ele estava sem pestanas nem sobrancelhas. ─ Obrigado Dona Laura! Silvestre lhe agradeceu. ─ Cuidado para não se ferir novamente. Ela olhou para as baterias envoltas em fumaça tentando ver se Franco estava bem. ─ Senhorita Laura! Voltai para a capela. Ordenou o Tenente Ricardo atrás de uma das peças. ─ Não consigo ver o Franco no meio de tanta fumaça. Respondeu Laura enquanto projéteis zuniam sobre o terraplano explodindo no morro. ─ Ele está na bateria de sudeste. Agora voltai! ─ Vós estais bem? A enfermeira perguntou ao entrar na capela. ─ Sim! Eu estou bem, obrigada! Laura respondeu. 153
  • Egberto Fioravanti Ribeiro HMS Cormorant O convés do navio estava em meio a fumaça. Outro tiro da fortaleza havia lançado estilhaços de madeira para o ar. O Comissário Sr Robins, o contramestre Carnegie e o Dr Mac Kinlay estavam no refeitório dos oficiais aguardando pelo termino do combate. Os civis fechavam os ouvidos com os dedos, aguardando por tiros das peças a bordo. Santiago estava sentado em um banco à mesa do piloto, ladeado por dois marinheiros armados. Seus pensamentos estavam em Anita, Carlos e Maria e nas consequências por sua ajuda a um navio inimigo. Porém, as autoridades da cidade sabiam que até aquela hora, o Comandante Inglês não o estava detendo a bordo por tempo maior do que o esperado. Ele tentava contar os tiros da fortaleza contra os navios, haviam sido feitos quase trinta disparos. Na casa de máquinas os foguistas estavam alimentando as fornalhas, enquanto outros estavam derramando barricas de carvão. Alguns tiros haviam acertado o casco entre as cavernas de aço, abrindo rombos retangulares, iluminando as pilhas de barricas, causando temor nos marinheiros. ─ Rápido! Vamos para trás do paiol de mantimentos, ao lado das escadas. Donnison conduziu alguns foguistas como medida de segurança. Um tiro de calibre dezoito cruzou o casco e acertou as barricas com carvão estivadas a poucos passos das caldeiras. Um grito de desespero chamou a atenção dos foguistas, e do assistente de engenheiro de máquinas que correram em socorro. O jovem foguista estava ileso, porém assustado. ─ Vamos ficar sob a cobertura da caixa das rodas. Certamente, este é o melhor local, porque é mais reforçado do que todo espaço vazio do porão e da casa de máquinas. O foguista Richard Bowden correu para lá. Fortaleza Os atiradores não mais atiram somente contra as presas, mas eles estão afinando suas pontarias no casco do navio a vapor. As vozes de comando das baterias intensificam a cadencia dos tiros. A aproximação do navio de guerra da linha de tiro da fortaleza, o tornou alvo principal dos artilheiros. ─ Atenção bateria de nordeste! O navio está entrando em vossa linha de tiro. Alvo na linha preta sobre a frente da roda. Informou o Tenente Joaquim. ─ Atenção! Fogo! O Tenente ordenou o disparo. 154
  • A Escuna Astro HMS Cormorant O projétil de calibre 18 atingiu a roda lateral, rompeu o casco e a tubulação das bombas de água. O tiro abriu um rombo na cobertura da roda de estibordo e acertou os tubos do condensador. O tiro acertou violentamente o lugar onde os marinheiros procuravam proteção. Estilhaços de madeira voaram pra todos os lados e os canos quebrados jorravam água fervente no piso de aço. A água do mar estava invadindo a casa de máquinas pelo movimento das pás. Os chamados de socorro e os gritos de dor ressoavam pelas escadas e corredores. Houve pânico entre os marinheiros feridos tentando abandonar a casa de máquinas, julgando estar o navio indo a pique. Muitos foguistas haviam sido lançados contra a caldeira de bombordo e sobre as barricas de carvão. Outros haviam sido feridos por água fervente, vapor, pedaços de canos de ferro e estilhaços de madeira. ─ Doutor! Doutor! Desesperados gritos chamam pelo cirurgião. ─ Donnison e Bowden estão feridos! Doutor Mac Kinlay! Senhor Hambly! Gritou um foguista pedindo ajuda. ─ Carpinteiro! Há muita água invadindo pelo casco! Outro foguista avisou. ─ Abrir as válvulas para drenagem de água da quilha! O contramestre Carnegie chegou para dizer as ordens do Capitão. ─ Estou fechando a válvula da roda de estibordo! Respondeu o engenheiro. ─ Está drenando toda água do condensador e as pás estão jorrando água no porão. O assistente de engenheiro disse. ─ Cessar alimentação da caldeira de estibordo para não explodir! O engenheiro disse aos foguistas. ─ A ordem do Capitão é para manter a roda de bombordo à toda velocidade! O contramestre Carnegie disse ao engenheiro. ─ Doutor! Bowden foi atingido nas pernas por bala de canhão e por estilhaços de madeira. Um foguista chamou o médico. ─ Onde está Bowden? O doutor perguntou. ─ Ele está deitado na lama de carvão perdendo muito sangue. Um foguista respondeu ao médico. As vibrações do impacto sofrido e os gritos da casa de máquinas alertaram ao médico para apanhar os seus instrumentos e ir àquele local. Dr Mac Kinlay e seu assistente rapidamente aproximaram-se do corpo ensanguentado. Ele rasgou as calças e aplicou os torniquetes nas virilhas 155
  • Egberto Fioravanti Ribeiro para conter a hemorragia de ambas pernas esmagadas. O médico não tem o que fazer para as pernas de Bowden, misturadas com carvão e água podre. Richard perdeu muito sangue e foi levado em uma maca para a enfermaria, ao lado da casa de máquinas. Os companheiros o deitaram sobre a mesa de cirurgia. ─ Água por favor! Estou com sede! Bowden implorou ao assistente de cirurgião. Este lhe ofereceu um copo com rum para aliviar o sofrimento. ─ Vou ter que amputar ambas as pernas imediatamente. O doutor disse ao assistente. ─ O doutor vai precisar de brasa. O assistente falou aos companheiros de Bowden. ─ Os companheiros que haviam levado Bowden na maca, olharam uns para os outros em silêncio. O escolhido entre eles correu para ir buscar uma pá com brasas. ─ Apanhai a serra na caixa de ferramentas. O cirurgião pediu ao seu assistente, enquanto amarrava os braços de Bowden com cintos de couro na mesa. ─ Aqui está a serra. ─ Dai-lhe outro gole de rum e colocai a mordaça de couro em sua boca. O cirurgião estava instruindo seu assistente, enquanto colocava sobre a mesa uma bandeja com pequenas facas com cabos de madeira e finas lâminas de ferro. ─ Não! Bowden gritou alto quando viu seu amigo trazendo uma pá com carvão em brasa. A força de Bowden se derreteu como neve ao sol. A dor o ruído das máquinas, tiros, vozes e angústia confundiam sua mente. Bowden juntou as últimas forças e emitiu um grito sufocado pela mordaça. Sua alma apelava para recobrar a vida que estava sendo prematuramente ceifada. Os disparos dos canhões de estibordo tremiam todos os instrumentos cirúrgicos na bandeja. Estes ruídos encobriram o último suspiro de Bowden. ─ Eis a pá com brasas. O assistente aproximou-se com as brasas. ─ Não precisa mais, ele morreu. Dr Mac Kinlay atestou. ─ Entrar o próximo ferido! O assistente chamou da porta. ─ Sr Luckraft! Pergunte ao prático se podemos passar a barra. O capitão perguntou ao seu oficial. ─ Sim, senhor! O canal tem doze pés. O piloto respondeu. ─ Nós não podemos navegar em tal estado de danos. Devemos 156
  • A Escuna Astro fundear diante do morro das Conchas. O Tenente Luckraft respondeu. ─ Comandante! Os mastros das presas nos impedem de atirar com os canhões de popa. ─ Nossas balas caem ao mar. Cessar fogo! O Comandante Schomberg ordenou o cessar fogo às 11:00h. ─ Ainda estamos ao alcance da fortaleza, Capitão! Sullivan falou. ─ Precisamos sair do alcance dos canhões da fortaleza. ─ Senhor! Fomos atingidos na popa! O Tenente Luckraft disse. ─ Senhor Smith! Eu quero o relatório de avarias, por favor! O comandante pediu ao Primeiro Oficial o relatório de avarias. ─ A cozinha foi atingida e o taifeiro Alfred Ward está ferido. Sullivan recebeu o aviso pelo intercomunicador. Iate Nova Providência ─ Olhem! Há cinco rombos no casco! O mestre falou. ─ O navio de guerra vai afundar! Um marinheiro falou. ─ As balas do navio não alcançam mais a fortaleza. ─ A fortaleza está sendo vitoriosa! Os tripulantes do iate deram três vivas pelo que viram. Fortaleza Uma granada Shrapnel havia explodido nas proximidades da capela e todos rezavam continuamente à santa, a protetora da fortaleza. ─ Não ouço mais os tiros do navio! O navio de guerra inglês cessou fogo. Comentou a filha mais velha ─ Sim, mas as nossas baterias continuam atirando. Acrescentou Laura. ─ Isto quer dizer que a nossa capacidade de fogo é maior do que a do navio inglês. Concluiu Joaquim. ─ Quer dizer que o combate acabou? Perguntou a enfermeira. ─ Eu vou lá fora para verificar! Anunciou Joaquim. ─ Espere! Vamos aguardar o cessar fogo do Capitão Barbosa. O doutor Eduardo advertiu Joaquim. ─ Vós acreditais que os ingleses deixarão as presas ancoradas e voltarão para continuar o combate? Joaquim lhe perguntou. 157
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Câmara Municipal O juiz recomeçou a leitura da portaria. ─ Senhores! A nossa fortaleza ainda efetua disparos. É sinal que o Capitão Barbosa não está tão mal. Comentou o Juiz Municipal. ─ O navio parou de atirar há meia hora. O Comendador Correia comentou, ao consultar seu relógio de bolso que marcava 10:30h. ─ A fortaleza ainda permanece atirando. Falou o delegado. Fortaleza ─ Cessar fogo! O Comandante Barbosa observa com a luneta que os tiros não mais alcançam o navio. ─ Alguém ferido? Perguntou o Tenente Ricardo. ─ Somente eu! Respondeu Silvestre com o rosto chamuscado, sem sobrancelhas e sem pestanas. ─ Quais os danos materiais? Perguntou o Comandante ─ Nenhum, senhor! Apenas algumas telhas quebradas no beiral de sua casa. Respondeu o Tenente Joaquim. ─ Coloquem os reparos das peças em ordem de combate. Se o o navio inimigo retornar, será recebido à bala! Ordenou o Tenente Ricardo. ─ Voluntários! Lavamos nossa honra, como os brasileiros têm feito nestes últimos três séculos e meio. Este foi o último Prize Money inglês em nosso país. Parabéns! Declarou o Comandante Barbosa. Os jovens se abraçavam. Outros diziam palavras de honras a Deus. O clarim tocou sobre a fortaleza em continência à Bandeira do Brasil hasteada no alto do mastro. ─ Ouçam o clarim! O combate realmente terminou! Gritou Joaquim. ─ Nós vencemos? Perguntou a filha mais nova correndo para a porta da capela. ─ Sim, nós vencemos! Vamos para o terraplano. Falou a filha mais velha. O filho do comandante, o jovem Joaquim Ferreira caminhou abraçado com sua irmã mais velha, enquanto a outra irmã correu, como se ela estivesse na fortaleza pela primeira vez. No meio da comemoração, o Tenente Ricardo viu a filha do Comandante subindo a rampa. Ele correu para encontrá-la para um doce abraço, sob os olhos vigilantes do comandante. 158
  • A Escuna Astro Os soldados e oficiais lançavam ao ar seus chapéus em imensa celebração. Os voluntários que aguardavam aquartelados correram ao terraplano. Dr Eduardo Killer e uma das enfermeiras chegaram ao terraplano, quando o Capitão Barbosa perguntou pela sua filha mais nova. Joaquim aproximou-se deles e disse que a outra enfermeira estava auxiliando a menina a colocar a imagem no altar. Franco ouviu a conversa e desceu rapidamente à capela para encontra-se com Laura. Ele viu sua amada no altar da capela consolando a filha do comandante abraçada à estátua. Entre beijos e abraços, Franco apanhou a imagem e colocou no nicho. Franco colocou a garotinha no braço esquerdo e abraçado a Laura, caminharam para o terraplano. Cidade O silêncio após o cessar fogo encheu de curiosidade os moradores. A cerimônia na Câmara Municipal prosseguiu a eleição e posse dos vereadores. Houve apenas uma substituição entre os candidatos escolhidos no ano anterior. O Juiz Dr Filástrio Nunes Pires e o Chefe de Polícia José Francisco Barroso temendo alguma séria consequência que os voluntários pudessem ter sofrido, decidiram ir à fortaleza após o almoço. O barco da Alfândega foi preparado para levar as autoridades à fortaleza. ─ Parece que o combate finalmente terminou! Falou um negociante. ─ A fortaleza parou por último! Completou um freguês. ─ A fortaleza venceu! A fortaleza venceu! Os bocas-pequenas ouviram os comentários dos adultos e correram para anunciar aos moradores. 159
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Âncora do brigue-escuna Dona Ana Prefeitura de Almirante Tamandaré. Esta peça histórica foi retirada da Ilha das Palmas em 2001. XVIII NAVIOS EM CHAMAS 160
  • A Escuna Astro S antiago estava na ponte de comando quando avistou uma canoa da Ilha do Mel se aproximando. Ele queria deixar daquele navio o quanto antes melhor. Ele viu o Capitão na ponte de comando e entrou para falar-lhe. Ele observou que o timoneiro estava conduzindo o navio para fora do canal. ─ A maré está baixa e vós estais muito próximo do banco de areia. Vós deveis navegar conforme o novo calado na carta marítima. O prático Santiago aproximou-se do piloto Mr Sullivan e o avisou dos bancos de areia existentes nas proximidades da Ilha das Palmas. ─ Obrigado, Sr Piloto! Mas, nós iremos fundear aqui, ao lado da Ilha das Palmas para fazermos alguns reparos. ─ Eu entendo! Santiago lhe respondeu. ─ Parar máquinas! Arriar âncora! Sullivan deu ordens através do intercomunicador. O Capitão Schomberg estava deprimido sentado em uma banqueta diante da mesa do piloto e aguardava os seus oficiais com os relatórios de perdas e danos. Santiago aproximou-se do comandante. ─ Posso vos falar, senhor Capitão? Santiago lhe perguntou. ─ Certamente, senhor Prático! ─ Eu quero desembarcar, Senhor! Eu já dei as últimas instruções ao vosso piloto e aproxima-se uma canoa para me lavar para terra. Santiago notificou o Comandante. ─ Não! O vosso trabalho não termina aqui. Vós ireis com o nosso navio para Santos. O Capitão levantou-se para olhar os escaleres quebrados no convés e respondeu lhe duramente. ─ Sr Capitão, eu tenho família em Paranaguá! ─ Minha família está na Inglaterra, Senhor Piloto! Santiago pediu permissão e descontente, deixou a ponte de comando. Do convés, ele viu Pedro remando a canoa. Santiago fez alguns sinais com as mãos para Pedro voltar e viu a multidão armada na enseada das Conchas. O médico e o contramestre entraram na ponte com os relatórios. ─ Capitão! Nós temos um morto e dois feridos. Falou o médico. ─ Quem é o morto, Dr Mac Kinlay? 161
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ O morto é o foguista Richard Bowden, Senhor. ─ Sinto muito! Mandarei uma carta a sua mãe e a designarei ao Almirantado para receber o Prize Money. ─ Capitão! Eis o relatório de avarias. O contramestre abriu a sua caderneta para ler. ─ Continuai, Sr Carnegie! ─ Nós sofremos cinco tiros no casco, um na cozinha e um escaler está quebrado. A roda de estibordo está sendo reparada e poderá voltar a girar em duas horas. Os canos do condensador estão sendo reparados. As três presas estão muito avariadas e nós não poderemos repará-las a tempo. A galera está boa para uma navegação segura a Santa Helena. Porém, as duas escunas estão com várias cavernas quebradas e não deverão navegar, nunca mais. ─ Sr Carnegie, fazei o possível para restaurar o casco do Cormorant. ─ Imediatamente, Senhor! O contramestre responde e saiu. ─ Tenente Luckraft! Tripulai a galera para enviá-la à Ilha de Santa Helena. ─ Tenente Kantzov! Vós deveis retirar todo o material e mercadorias das escunas e os remover para a galera que irá navegar para a Ilha de Santa Helena. Após a pilhagem, vós podei atear fogo. O Capitão deu as ordens de uma só vez. Diante da Ilha das Palmas os escaleres remanescentes aproximaram-se dos navios avariados e começam a retirar madeira, moitões, talhas, sinos, timões, âncoras, velas, lemes, alimentos, cargas, instrumentos de navegação e objetos de uso pessoal. Após várias viagens, tudo havia sido transferido para a galera Campeadora que estava parcialmente carregada com madeira e erva mate. O mar estava agitado naquela tarde, quando a âncora do Dona Ana estava sendo arriada no escaler do Tenente Kantzov. Uma onda forte adernou o escaler e a pesada âncora deslizou e mergulhou no mar. (Esta âncora foi encontrada por mergulhadores em 2001 e doada pela Marinha à Prefeitura de Almirante Tamandaré, cidade próxima a Curitiba). O Tenente Kantzov ordenou que incendiassem as escunas Dona Ana e Sereia. Os pescadores na praia da Ilha do Mel haviam testemunhado todas as atividades nos navios. A fumaça dos navios incendiados flutuavam ao norte pelo vento, anunciando a aproximação de novos cardumes de tainhas. 162
  • A Escuna Astro Após o casco ter sido reparado, as máquinas do HMS Cormorant voltaram a girar. Eram quase quatro horas quando o Cormorant levantou âncoras para navegar com rumo ao oceano encrespado. O navio de guerra estava rebocando a galera Campeadora, enquanto as duas escunas ardiam em chamas sobre as pedras ao lado da Ilha das Palmas. Nesse momento, o escaler da alfândega conduzindo o Juiz e o delegado estava chegando à Ilha do Mel e aproximou-se da fortaleza. ─ Olhe, Dr Filástrio! O cruzeiro inglês está saindo barra levando uma galera e deixou as duas escunas em chamas. O Chefe mostrou. ─ Que pena! Estou ansioso para ver a fortaleza. O Juiz comentou. ─ Tenente! O escaler da Alfândega está chegando. O guarda falou. ─ Abram os portões! O Tenente Ricardo ordenou. Os dois representantes das autoridades municipais entraram no forte e foram recebidos com aplausos. O Juiz Municipal e o Chefe de Polícia chegaram à praia da fortaleza e foram recebidos pelo Comandante Barbosa. O Capitão relatou a todos eles os fatos e declarou a grande vitória nacional. O Juiz estava impressionado com a habilidade militar dos voluntários e com os marinheiros que defenderão o forte por mais alguns dias. Entre os bravos voluntários estava o comandante da galera Campeadora, o mestre Victor da Silva Freire com seus quinze marinheiros e os mestres dos navios apresados. ─ Cavalheiros! Vós sois bem-vindos e vos alegreis com tal vitória contra este bretão fora-da-lei. ─ Alguma baixa? Perguntou o Dr Filástrio. ─ Nenhuma, senhor. O Capitão respondeu. ─ Algum dano à fortaleza? O Chefe de Polícia perguntou. ─ Apenas algumas telhas quebradas. O Tenente respondeu. ─ Nossos rapazes continuarão de guarda. Freire anunciou. ─ Estes bravos homens do mar nos ofereceram grande auxílio. Comentou o Comandante Barbosa e apresentou alguns moradores, o médico e as enfermeiras, os armadores Rossi, Nascimento, Freire, Franco e vários marinheiros. ─ Eu quero vos dar os parabéns pelo vosso comportamento de justiça e lealdade ao Império do Brasil e pela vossa valentia demonstrado nesta fortaleza. O Juiz Dr Filástrio expressou a gratidão das autoridades. ─ Se alguém desejar, poderá retornar conosco a cidade. Obrigado! Agradeceu o Chefe de Polícia. ─ Sim, eu irei! Nós temos muitas coisas a fazer na cidade para 163
  • Egberto Fioravanti Ribeiro resgatar o nosso navio naufragado. Franco falou abraçado a Laura. ─ Nós iremos, Dr Filástrio! Nascimento e Rossi concordaram. ─ Freire, vós não ireis, Freire? Perguntou Rossi. ─ Não! Eu e meu pessoal ficaremos para defender a fortaleza até a chegada de um dos nossos navios para nos levar de volta ao Rio de Janeiro. É um prazer lutar ao lado do Comandante Barbosa. Freire declarou. ─ Até logo Comandante Barbosa. Obrigado voluntários! O Juiz, o delegado, Dr Eduardo, a enfermeira Luciana, Laura com suas armas e cintos de munição, os armadores caminham para o escaler da Alfândega. A noite estava escura e caía uma fina e fria chuva de vento sul. Os remadores se esforçam ao aproximarem-se da Ponta da Cruz e eles logo viram os mastros do soçobrado Astro. Rossi olhou para os mastros e baixou os olhos. ─ Amanhã cedo nós iniciaremos o içamento da escuna. Nascimento prometeu. ─ Espero que sim. Rossi resmungou e meneou sua cabeça. 164
  • A Escuna Astro XIX OFÍCIO FÚNEBRE Ao cair da tarde, o Cormorant estava se aproximando de Cananeia. O Capitão ordenou a parada das máquinas e disse ao piloto Sullivan para fazer a leitura das coordenadas enquanto podia ver a posição do sol, encoberto por nuvens. O capitão queria escrever na carta, o local onde o ato fúnebre de Richard Bowden seria feito. ─ Parar máquinas! O Capitão ordenou ao timoneiro. ─ Mac Bride! Poderíeis por favor, vir comigo para a leitura do sextante. Sullivan chamou o seu assistente. ─ Contramestre! Reunir a tripulação no convés. Após efetuar a leitura do sextante, Sullivan escreveu na carta náutica o nome Bowden e riscou uma pequena cruz. Por oito vezes os tripulantes estiveram rendendo homenagem a companheiros mortos nos últimos dois meses. Algumas vidas haviam sido perdidas por febre amarela e agora a morte havia chegado em combate. O contramestre utilizando-se do seu apito chamou a tripulação ao convés. Alguns marinheiros aproximaram-se com lamparinas enquanto outros quatro estavam trazendo em uma maca nos seus ombros, o corpo de Richard Bowden. O defunto estava envolto em mortalha, feita com pano de vela e foi colocado sobre uma mesa. Uma bala de canhão dentro de uma rede para carga de cacho de uva foi amarrada ao corpo. O Capitão ministrou o ofício fúnebre citando algumas referências bíblicas. Após a leitura, o contramestre emitiu um lúgubre silvo com o apito de latão. Os quatro marinheiros levantaram a maca e a conduziram à amurada. O Tenente Luckraft comandou a guarnição para saudar com salva de tiros de mosquete, enquanto a maca estava sendo lentamente inclinada para o mar. O corpo deslizou e mergulhou nas águas da costa brasileira. 165
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Santiago assistiu ao melancólico ofício naval no convés da ponte de comando. Ao findar o toque do silvo do contramestre, o Capitão entrou em seu gabinete os demais dirigiram-se aos seus alojamentos. O HMS Cormorant levantou ferros e acionou as máquinas com destino à barra de Santos, onde chegou na manhã seguinte. A tripulação designada para a galera Campeadora foi armada. O Comissário havia assinado os documentos para o Almirantado, com as informações sobre os navios destruídos. A galera partiu para a viagem de quinze dias à ilha de Santa Helena para ser reparada e enviada para leilão em Southampton. Em Santos, o Comandante Schomberg enviou o Tenente Kantzov com um ofício cônsul inglês, contando sobre o evento ocorrido com a fortaleza na baía de Paranaguá na Província de São Paulo. Santiago estava descendo a bordo do escaler para deixar o navio, mas foi impedido pelo Tenente Luckraft. O Tenente Carlton era o novo comandante do HMS Rifleman. O Tenente Crofton era conhecido em Santos e foi mantido no consulado em Santos, aguardando um navio para o levar a Inglaterra. Carlton chegou de Buenos Aires nesta manhã e observou os danos no Cormorant. Ele desceu ao seu escaler e foi ao HMS Cormorant para falar com o Capitão Schomberg. ─ O que houve Capitão Schomberg? Carlton perguntou a Schomberg na Ponte de Comando. ─ Quando estávamos rebocando três veleiros de tráfico, fomos atacados inesperadamente pela fortaleza de Paranaguá. ─ Vamos a Paranaguá e bombardearemos a cidade. ─ Não podemos fazer isso. O escravagista americano, o cônsul David Todd está em Paranaguá. Se fizermos algum bombardeio na cidade, entraremos em conflito contra os Estados Unidos e contra outras frotas europeias, ancoradas no Uruguai, que certamente darão apoio ao Brasil. Entretanto, aguardarei a determinação do nosso consulado em Santos. ─ Eu estou de partida ao Rio de Janeiro. Há alguma correspondência ao Contra-Almirante Reynolds? ─ Há, mas eu mesmo a entregarei. ─ Nos veremos no Rio. O Tenente Carlton despediu-se de Schomberg e deixou o Cormorant. ─ Podemos conversar? Perguntou Santiago ao Capitão Schomberg após a saída de Carlton. ─ Podeis entrar! O Comandante apontou para um banco. ─ Eu preciso ser dispensado para desembarcar. ─ Eu estou pensando em enviá-lo para a Inglaterra. O senhor será 166
  • A Escuna Astro condenado por haver traído a nossa confiança, não revelando um melhor caminho para nossa saída e por haver colocado o Cormorant em sério risco. ─ Quando o vosso navio chegou ao porto de Paranaguá, vós pedistes por um prático. É isto que tenho feito desde então. Vós haveríeis de sair com o navio, pelo mesmo canal por onde houvestes entrado. De outra forma, vós teríeis encalhado em qualquer outro canal. As consequências seriam desastrosas, se este pesado navio a vapor ficasse encalhado em meio a um combate. Como prático de navio, eu tenho feito o meu trabalho com exatidão e com responsabilidade. O Capitão deste navio é a única pessoa responsável por todos os danos que o navio sofreu e por todos aqueles que causou. Vós não estais no direito em manter-me detido neste navio. Santiago falou enquanto o Capitão estava olhando pela janela quebrada. Na manhã de 04 de julho de 1850 em Santos, o prático Santiago foi pago com a quantia de cinco libras esterlinas (dez sacas de café) e foi levado de escaler à praia do Goes onde desembarcou às 09:00h. ─ Temos ordem para desembarcá-lo na praia. ─ Graças a Deus! Santiago disse. O prático desembarcou na praia e procurou por ajuda para ir a Santos, onde chegou à tarde. Apesar de ter sido advertido pelo Tenente Luckraft para não dizer a ninguém o que viu e ouviu a bordo do navio de guerra, Santiago foi à Delegacia de Polícia para dar queixa. Pela gravidade declarada pela vítima, o Chefe de Polícia tomou o seu depoimento e o enviou ao Juiz. O relatório foi enviado imediatamente ao presidente da Província de São Paulo. O boato sobre Santiago correu rapidamente e muita gente foi à Delegacia para obter melhores informações. A edição do Jornal “Correio Mercantil” de Santos do dia seguinte publicou “... As notícias diziam ignorar a extensão dos danos sofridos pela fortaleza, mas a opinião do editor estarreceu a nação “Sabia-se apenas que a fortaleza de Paranaguá havia sido arrasado e a guarnição fora vitimada no cumprimento do seu dever”. ─ Este depoimento é muito grave. Eu devo comunicar ao Governador da Província em São Paulo estes fatos ocorridos em Paranaguá, ainda esta noite. O Juiz respondeu ao Chefe de Polícia. ─ O que aconteceu com a fortaleza de Paranaguá e sua guarnição? Perguntou o jornalista a Santiago. ─ Eu não pude ver. Havia muita fumaça nos muros. Eu não sei se era incêndio dentro da fortaleza ou fumaça dos canhões. ─ Nós devemos aguardar informações oficiais de Paranaguá. O Chefe de Polícia respondeu ao repórter. 167
  • Egberto Fioravanti Ribeiro No dia 05 de julho de 1850 o Cormorant chegou ao Rio de Janeiro. O Capitão Schomberg embarcou em seu escaler e navegou à nau capitânia HMS Southampton, para entregar seu relatório ao Contra-Almirante Reynolds. ─ Comandante Reynolds, este é o relatório detalhado sobre a nossa viagem a Paranaguá. Schomberg entregou o seu relatório ao comandante da esquadra inglesa no Brasil. Contra–Almirante Barrington Reynolds... “HMS Cormorant ao mar”. 5 de julho de 1850 Senhor. Eu Tenho a honra de vos informar que retornei da minha área de cruzeiro para vos fazer conhecedor da violenta interrupção do meu bem sucedido cumprimento das ordens que recebi de V. S. para a supressão do comercio de escravos... As circunstancias que eu tenho que relatar e sobre um ataque feito sobre o Navio a Vapor de Sua Majestade, Cormorant, sob meu comando, pelas armas do forte na entrada das aguas de Paranagua em primeiro do corrente mês enquanto eu estava empregado em rebocar mar afora três navios de escravos... ─ O HMS Cormorant pode navegar para a Inglaterra? Perguntou o Contra-Almirante muito aborrecido. ─ Sim, Senhor! O navio pode navegar. Respondeu Schomberg. ─ Apanhai este relatório e o entregai ao Almirantado em Southampton para pedir por reparos no HMS Cormorant. O Almirante lhe falou. ─ Com a vossa licença, Senhor! Schomberg lhe pediu. ─ Pelo vosso bom trabalho apreendendo vários navios, eu enviarei uma carta de recomendação ao Almirantado exaltando o vosso nome. ─ Obrigado, Senhor! ─ Tende vós uma boa viagem! Respondeu o Almirante. 168
  • A Escuna Astro Rua da Praia – Cais de Dona Azaias XX O TRIUNFO 169
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Na manhã de terça-feira caía uma fina chuva, desde a tarde anterior. Franco, Nascimento e Rossi chegaram cedo à Rua da Praia. Eles procuravam mergulhadores jovens, para os preparativos de içamento do Astro, antes que o navio afundasse demais na lama. O mau tempo não estava favorável para o carregamento de navios, mas os primeiros estivadores estavam aparecendo para serem escolhidos por algum agente marítimo. Os voluntários começaram a chegar às dezenas em barcos. Um por um, todos foram desembarcando no cais do Comendador, onde aguardavam a chegada dos últimos companheiros. Os bocas-pequenas logo apareceram e rapidamente voltaram em desabalada carreira, para anunciar a chegada triunfal. Vários deles, calçando sapatos de couro, escorregaram nas pedras molhadas e caíram na esquina da Rua da Praia com a Travessa do Bom Jesus. Por um momento eles pararam e limparam os ferimentos com as mãos. Porém, estavam felizes com as boas notícias e mesmo mancando, continuaram a louca correria. Em poucos minutos, o povo acorreu ao cais e logo formou uma grande aglomeração de amigos, parentes e até marinheiros estrangeiros. Como de costume, desde os tempos de colônia, os donos dos armazéns de gêneros na Rua da Praia haviam comprado grandes estoques de fogos de artificio para as comemorações juninas. Porém, por causa dos acontecimentos no dia de honras a São Pedro e São Paulo, os foguetes não haviam sido vendidos. A euforia geral também acabou envolvendo estes comerciantes. Eles levaram às frentes dos armazéns, os fardos de foguetes com longas hastes de uvá e com charutos acesos os lançavam sobre o rio Taguaré. Após a chegada do último barco, o sargento Oliveira convocou a todos para seguirem à Guarda Nacional. O sargento liderava os triunfantes jovens voluntários que eram recebidos com aplausos pelo povo na rua. As pessoas nas sacadas dos sobrados gritavam incansavelmente: “Viva o Brasil”. No sobrado da família de Leocádia diante do Rio Taguaré, Laura dominava a conversa com as pessoas da casa na sala de estar. Ela descrevia os momentos do combate na fortaleza. Logo, todos foram atraídos pelo alvoroço de pessoas correndo, gritaria e queima de fogos. Elas foram à sacada e viram a multidão na Rua da Praia, tendo à frente o sargento Oliveira. Imediatamente, todos na casa também correram à sacada e passaram a 170
  • A Escuna Astro saudar os heróis com lenços brancos. Silvestre viu a enfermeira Laura e assobiou para lhe chamar a atenção. Laura reconheceu o jovem chamuscado e viu Franco que a convidava para unir–se a eles. Laura e Leocádia deixaram a sacada e desceram as escadas correndo e foram ao encontro de Franco e dos heróis. Na praça do Pelourinho, os heróis receberam as saudações dos vereadores e das autoridades, interrompidos por aplausos e gritos de... “Abaixo à Monarquia!” “Abaixo ao Pelourinho!“ “Viva a nova Província!” ─ Com licença, senhores! Antes que vós retorneis aos vossos afazeres, nós vamos precisar de bons mergulhadores para a retirada da nossa escuna. Rossi solicitou. ─ Todos nós sabemos mergulhar! Um voluntário respondeu ao apresentar alguns companheiros. ─ Posso vos oferecer ajuda? Perguntou o cônsul americano. ─ Mr Todd! Como tu poderás nos ajudar? Perguntou Franco. ─ O Comandante do Muckengen acaba de me dizer que poderá vos ajudar a levantar o Astro com o seu navio. Como eu farei uma viagem a Curitiba, ele permanecerá me aguardando e não haverá problemas para ele vos ajudar. ─ Todos nós aceitamos e agradecemos a ajuda americana. Respondeu Nascimento seguido de grande aplauso da multidão. ─ Nós também podemos ajudar! Estamos em carregamento para Montevidéu, e não sofreremos nenhum prejuízo se vos oferecermos ajuda com o nosso navio. Falou o comandante da barca Flor do D'Ouro. ─ Muito obrigado, comandante! Agradeceu Rossi. ─ Senhores! Como não sabemos das consequências que o nosso governo tomará contra a Inglaterra ou contra nós, pedimos a todos que guardem sob sigilo os fatos ocorridos nesta cidade. Pediu o Juiz Filástrio. ─ Devemos acrescentar que as autoridades aqui presentes, não deverão ser citadas como responsáveis pela represália ao navio inglês. Porém, esta juventude que tão bravamente soube como nos defender, deverá assumir tal responsabilidade. O Comandante Guimarães encerrou os discursos com este conselho e foi muito aplaudido. Desde então e até hoje, os jovens moradores de Paranaguá ao se apresentarem para o serviço militar são considerados e tratados como homens indisciplinados. 171
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Com a ajuda dos navios, neste mesmo final de semana, o convés do Astro estava ao nível do mar. Após este auxílio, os dois navios que haviam sustentado o seu içamento palmo a palmo foram dispensados. As incontáveis baldadas com água para esvaziar os porões estavam sendo utilizadas para lavar e limpar a lama e os moluscos, por dentro e por fora do navio. Após um mês de trabalhos, eles findaram os reparos, pintura e confecção das velas. Em setembro, protegidos por novas leis e pelo afastamento dos cruzeiros ingleses da costa brasileira, a escuna Astro reiniciou sua viagem ao porto de Rio Grande com todas as suas cargas. As obras para a construção do mercado iniciaram em 1850, quando ocorreu o desaparecimento do Pelourinho. Somente um século depois, este símbolo da lei foi encontrado, enterrado no mesmo local onde havia sido erigido em 06 de janeiro de 1646. O acabamento de arte na ponta da coluna estava quebrado, não havia hastes, nem o cutelo de bronze. A monarquia também já havia findado. As autoridades nada falaram sobre o desaparecimento deste monumento. Seria parte de algum acordo de silêncio? Afinal, em 200 anos, este pelourinho somente foi utilizado duas vezes. Pelourinho 172
  • A Escuna Astro XXI A PROVÍNCIA DO PARANÁ As notícias sobre os acontecimentos estavam chegando o Rio de Janeiro por marinheiros e passageiros vindos do sul. Os fatos oficiais ocorridos em Paranaguá chegaram ao Rio de Janeiro a 07 de julho de 1850 através de jornais de Santos. ─ Ouçam! O Correio Mercantil de Santos informa que “A fortaleza de Paranaguá foi arrasada por um cruzeiro inglês e a guarnição foi vitimada no cumprimento do seu dever de defender a cidade”. Disse um leitor rodeado por vários curiosos. Os jornais do Rio fizeram referências às notícias vindas de Santos. A nação sofreu imensa comoção com o grande sentimento de perda. ─ O Jornal do Commércio diz que a escuna “Velha de Dio” foi a pique pelo HMS Tweed, sob o comando de Lorde Russel! Disse outro leitor. ─ Aqui há também uma carta de protesto dos armadores. ─ Vamos ao Senado exigir medidas enérgicas do governo. Outro homem sugeriu, seguido por uma multidão. A proximidade do povo e seus representantes juntos ao governo favoreceram ao concurso imediato de grande multidão à Assembleia Geral. ─ Senhores, voltem para suas casas. O Conselho de Guerra estará em reunião nesta tarde. Portanto, aguardem até amanhã por esclarecimentos oficiais do Ministro Queiroz. Um senador acalmou o povo que lotava os corredores e galerias. Na manhã do dia 08 de julho às 10:40h, a sessão foi aberta com a multidão se espremendo no salão da Câmara, galerias, corredores e escadarias. O Ministro Euzébio de Queiroz apresentou-se na tribuna e entregou o ofício ao Presidente da Câmara, através do seu Sargento de ordens, pedindo oito dias de prazo para responder a apelação do Deputado por São Paulo, Silveira da Motta. 173
  • Egberto Fioravanti Ribeiro ─ O governo não poderia falar com toda aquela franqueza que deseja e que a natureza do negócio exige. Esclareceu o Ministro. ─ Enquanto o Ministério espera comunicações oficiais de Paranaguá, o país está ansioso por saber, às vistas do governo, quais as explicações que da tribuna nos tem sido ministradas. O Deputado Mello Franco exigiu explicações. ─ Requeiro que se peça ao Governo da Província de São Paulo que remeta a esta Câmara a relação nominal do Comandante e praças da fortaleza que há pouco procuraram mui dignamente defender o direito e a soberania nacional gravemente ofendidos pelo Comandante do vapor Cormorant dentro daquele porto (Apoiado). O pedido do Deputado Carneiro Campos para que se honrassem os heróis, recebeu numerosos brados de “apoiado” dos representantes na Câmara e demorado aplauso dos visitantes. 174
  • A Escuna Astro MEDIDAS TOMADAS PELO BRASIL Decreto de 29 de julho de 1850. As fortalezas e fortes que guarnecem as baías e costas destas Províncias empreguem os meios de força que dispuserem para evitar a captura de navios brasileiros ou de outra qualquer nação por navios estrangeiros. Os comandantes destas fortalezas devem, porém, antes de se empregarem a força, deverão avisar o apresador por meio de tiros sem bala àqueles que se acham em mar territorial e protegido pelas baterias. Outrossim, que V Ex.cia autorize aos mesmos oficiais a solicitarem às autoridades policiais ou Guarda Nacional, a força precisa para os serviços das fortificações quando as respectivas guarnições não forem suficientes para repelirem a agressão. 1. – Autoriza as fortalezas a abrirem fogo contra invasores. 2. – Proíbe a visita por navios ingleses. 3. – Aumenta impostos sobre produtos ingleses de 8% para 60%. 4. – Impede o transporte de escravos. 1850. 5. – Eleva o Distrito de Curitiba à categoria de Província com o nome de “Paraná” ─ 1853. 6. – Instalação de boias no canal ─ 1871. 7. – Farol na Ilha do Mel – 1872. 8. – Conclusão da Estrada da Graciosa – 1873. 9. – Concessão para o Porto de Paranaguá ─ 1873. 10. – Conclusão da Estrada de Ferro ─ 1885. 11. – Princesa Isabel assinou a Lei Áurea – 1888. 12. – População do Paraná cresceu 400% em 35 anos ─ 1890. 175
  • Egberto Fioravanti Ribeiro DECRETO IMPERIAL Nº 704 DE 29 DE AGOSTO DE 1853. Dom Pedro por graça de Deus e unânime aclamação dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Fazemos saber a todos os nossos súditos que a Assembleia Geral Legislativa Decretou e Nós queremos a Lei seguinte. Art. 1º. A Comarca de Curitiba na Província de São Paulo fica elevada à categoria de Província com a denominação de Província do Paraná. Sua extensão e limites serão as mesmas da referida Comarca. Art. 2º. A nova Província terá como capital a cidade de Curitiba enquanto a Assembleia respectiva não Decretar o contrário. Art. 3º. A Província do Paraná dará um senador e um deputado à Assembleia Geral e sua Assembleia Provincial contará de 20 membros. Art. 4º. O Governo fica autorizado a criar na mesma Província as Estações Fiscais indispensáveis para a arrecadação e Administração das Rendas Gerais, submetendo depois o que houver determinado ao conhecimento da Assembleia Geral para a definitiva aprovação. Art. 5º. Ficam revogadas as disposições em contrário. Mandamos, portanto a toda as autoridades a quem o conhecimento desta Lei pertencer, que a cumpram, façam cumprir e guardar inteiramente como nela se contém. O Secretário de Estado do Império o faça imprimir, publicar e correr. Dado no Palácio do Rio de Janeiro aos vinte e nove de agosto de mil oitocentos e cinquenta e três, trigésimo segundo da Independência e do Império. Assinado por: Francisco Gonçalves Martins. 176
  • A Escuna Astro EPÍLOGO O tropeiro Paula Gomes e o Comendador Correia Jr foram os maiores entusiastas da emancipação de Curitiba. Correia Jr escreveu em seus últimos dias: “tive o desejo de ser útil ao meu país promovendo a separação da Comarca de Curitiba. Parecia que isto traria consideração entre os meus concidadãos. Ao contrário, invejosos me desacreditaram, parentes me perseguiram e eu me vi na necessidade, para salvar o meu crédito, tive de me por em lugar afastado da família a face dos meus engenhos, trabalhando a ver se posso deixar minha família educada e desembaraçada, aprendendo de mim que neste mundo as melhores ações só trazem desgosto”. Seu filho, Ildefonso Pereira Correia, foi o Barão do Cerro Azul, industrial da erva mate e fundador da Associação Comercial do Paraná. O Barão foi assassinado durante a Revolução Federalista na Serra do Mar, em 20 de maio de 1894. O local da execução foi próximo ao Itupava e ao rio Nhundiaquara, onde os investidores lusitanos haviam edificado os engenhos hidráulicos de erva mate, a base da Província do Paraná. O frágil relacionamento entre o Brasil e Inglaterra foi seriamente agravado com a questão originada pelo embaixador Sir Willian Bandouga Palma-Christi que resultou no rompimento das relações diplomáticas entre os dois países. O domínio inglês sobre a Ásia afastou definitivamente o Brasil daquele mercado, causando sérios danos à economia da Província do Paraná, onde mantinha um tradicional comércio com a Índia e China desde 1808. 177
  • Egberto Fioravanti Ribeiro FIM 178
  • A Escuna Astro BIBLIOGRAFIA 1- Viagem a Comarca de Curitiba. Hillaire, Auguste de Saint. ─ Cia. Edit. Nacional ─ 1820. 2- Jornal do Commércio, 1849 e 1850. Acervo de Microfilmagem da Biblioteca Pública do Paraná. 3- Relatório ao Contra-Almirante Barrington Reynolds. Schomberg, Herbert ─ HM S/S Cormorant A bordo. ─ 05 July, 1850. 4- Memória Histórica da Cidade de Paranaguá.- 1850 Santos, Antonio Vieira dos. ─ Pref. Municipal de Paranaguá. 5- Relatório do Presidente da Província do Paraná.- Vasconcelos, Zacarias Góes. Abertura da Assembleia Legislativa ─ 08/02/1855. 6- Dic. da Língua portuguesa. Silva, Antonio de Moraes ─ Tipografia Antonio J. Rocha ─ 1858. 7- Estudos de Artilharia. Lima, Pedro Joaquim de Cerqueira ─ Tipogr. Nacional ─ 1870. 8- Almanaque do Paraná. Martins, Romário. Ed. Livraria Econômica. ─ Aníbal Rocha e Editores ─ 1899 9- Genealogia Paranaense. Negrão, Francisco. ─ Imprensa Paranaense ─ 1927. 10- Navios. Van Loon, Hendrick W. ─ Liv. do Globo ─ 1936. 11- Curso de Especialização de Máquinas. Min. Da Marinha ─ Imp. Naval ─ 1943. 12- Seis Séculos de Artilharia. Ten. Cel. Artilharia. Alves, J. V. Portella ─ Bibliex -1949. 13- A História do Incidente Cormorant. Carneiro, David ─ Curitiba ─ 1950. Seção de História do Museu Paranaense-1952. 14- Boletim da Sec. de Educ. e Cultura do Paraná. ─ 8/9 ─ 1952 15- Revolta da Armada. Martins, Helio Leôncio. ─ Bibliex ─ 1958. 16- Fortificações do Brasil. Barreto, Aníbal. ─ Bibliex ─ 1958. 179
  • Egberto Fioravanti Ribeiro 17- Ermelino de Leão. Vieira, José Gonzaga. ─ Acad. Letras José de Alencar ─ 1961. 18- Fundamentos de Teoria de Arquitetura Naval. Dr. Manning, George C. ─ Imp. Naval ─ 1962. 19- Velhos Regimentos. General Forte, Heitor Borges. ─ Bibliex ─ 1964. 20- História do Paraná. Washowicz, Ruy Christovam ─ Editora dos Professores ─ 1968. 21- O Mar. Beruti, Hilton ─ Moreira, Augusto. ─ Bloch ─ 1971. 22- Caminhos das Comarcas de Curitiba e Paranaguá. Moreira, Júlio Estrela ─ Imp. Oficial ─ 1975. 23- Paranaguá na História e na Tradição. Viana, Manoel ─ Pref. Mun. de Paranaguá ─ 1976. 24- Fandango do Paraná. Azevedo, Fernando Correa de. ─ Funarte ─ 1978. 25- Genocídio Americano ─ A guerra do Paraguai. Chiavenatto, Julio José. ─ Brasilienses ─ 1979 ─ 18a. Edição. 26- Folclore Brasileiro. Roderjan, Rosely Vellozo. ─ 1981. 27- Shooter’s Bible. Weise, Robert E. ─ Stoeger Publishing Co.- 1984. 28- A Pesca Artesanal da Tainha no Litoral do Estado do Paraná. Correa, Marco Fabiano ─ Editora: Imp. Of. do Estado do PR 1989. 29- História de Paranaguá. Ferreira, Waldomiro ─ 1992. 30- História do Período Provincial do Paraná - Carneiro, David. ─ Banestado ─ 1994. 31- Brumas do Passado. Correa, Rubens ─ Editora IPES ─ 1995. 180
  • A Escuna Astro Egberto Fioravanti Ribeiro nasceu em Antonina no Paraná em 1950, onde iniciou os seus estudos. Filho do telegrafista ferroviário e contador Lourival Ribeiro e da ex-funcionária da Companhia Telefônica do Paraná e professora primária Maria Augusta. Aos seis anos de idade, a Estrada de Ferro transferiu o seu pai a Paranaguá para um cargo de confiança para atender ao crescimento das exportações de café. Três anos mais tarde, toda a família também foi mudada para Paranaguá, onde o Autor viveu por quarenta anos e onde foi graduado em Letras Anglo- portuguesas e Administração. Na vida profissional, trabalhou para algumas empresas exportadoras de granéis, incluindo o Porto de Paranaguá até a aposentadoria, quando mudou com a família para Curitiba em 1999. Em 1970, conheceu Maurigilda e cinco anos depois se casaram e são os pais de Ricardo, que mora em Curitiba e trabalha como Editor de TV e Steadicam. A filha Leyre mora nos Estados Unidos, onde casou e tem dois filhos. Aos dezesseis anos, o Autor juntamente com o seu irmão Lourimar estudaram as técnicas de fotografia, quando comprou uma Yashica M3. O curso teórico se estendeu à prática durante o serviço militar, onde fez algumas centenas de fotos encomendadas por recrutas. Oito anos mais tarde, o Autor comprou uma Bolex Super-8 e um projetor Sankyo. Após alguns ensaios na nova técnica, passou a filmar aniversários, casamentos e produziu documentários de 1978 a 1983 e escreveu alguns roteiros. As limitações do sistema, o emergente VHS e um defeito crônico da câmera, o impediram de produzir os três últimos roteiros: “Faina do Caiçara”, “Lavoura Super- nutrida” e “Vidas Seladas”. 181
  • Egberto Fioravanti Ribeiro Em 2001, o Autor iniciou uma profunda pesquisa na História do Paraná e do Brasil, na Biblioteca Pública do Paraná e no Museu Paranaense. Em 2003 e 2004, participou dos concursos de roteiros DOCTV com “Itupava o Caminho da Emancipação” e tentou obter auxílio da restrita Lei do Mecenato para editar o livro sobre a história do Paraná “Geração Intrépida”. Em 2005 iniciou ensaios com o sistema digital e adquiriu alguns equipamentos para telecinagem. Em 2007, apresentou seis livros digitais para registro na Biblioteca Nacional, sendo que três destes eram traduções para o inglês pelo Autor. Estes livros foram redigidos em estrutura de roteiro de longa para cine/tv. Para proteção internacional destes livros, o Autor requereu o ISBN e continua a escrever outros temas para roteiro e livros de ficção, romance, aventura, ficção científica e cristianismo. Em 2009 iniciou o curso de direção de cinema no Celin da UFPR, para produção de roteiros em sistema digital, 8mm, 16mm e 35mm. 182
  • A Escuna Astro A ESCUNA ASTRO de Egberto Fioravanti Ribeiro Edição Digital – Nova Ortografia Reg. BN 329.978 – 25/04/2004. Ficção em prosa. Estrutura de 1º Tratamento para roteiro de Cine/TV. 178 Páginas. 288 Sequências. 1561 Tomadas de Diálogos. 120 minutos. ©2004 – 2009 Egberto Fioravanti Ribeiro 1ª Edição 2009 – Curitiba Autor – Editor egfior@hotmail.com ISBN 978-85-906811-2-0 183