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A Pedagogia Cavanis - Pe. Márcio Campos
 

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    A Pedagogia Cavanis - Pe. Márcio Campos A Pedagogia Cavanis - Pe. Márcio Campos Document Transcript

    • INSTITUTO DE FILOSOFIA E TEOLOGIA MATER ECCLESIAE – IFITEME – A PEDAGOGIA CAVANISE A FORMAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM PONTA GROSSA 2004
    • Ir. MÁRCIO CAMPOS DA SILVA, CSCh. A PEDAGOGIA CAVANISE A FORMAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM Monografia apresentada como requisito do Curso de Filosofia, do Instituto de Filosofia e Teologia Mater Ecclesiae - IFITEME. Orientadora: Prof. Hilda L. Bilek PONTA GROSSA 2004
    • Dedico este trabalho a todas as pessoas que acreditam que através da educação se projeta e constrói o futuro da humanidade; a todos que acreditam que a educação é meio de integração e promoção social; os que crêem que a possibilidade da existência humana na Terra depende da importância que se dá e prepara a educação das futuras gerações e finalizando dedico a todos Cavanis, sejam esses leigos ou religiosos que buscam a promoção dos jovens e crianças através de uma dedicação total,buscando e utilizando-se de todos os meios possíveis para alcançar o objetivo de um homem mais humano, justo, solidário e feliz. ii
    • AGRADECIMENTOSNa certeza de que minhas palavras serão poucas, pobres e pequenas, paraexpressar, tamanha e inesquecível gratidão a todos que de uma maneiradireta ou indireta me ajudaram na construção deste trabalho. Sinto que nãodeveria citar nomes mesmo que alguns de maneira particular tenham setornado mais presentes nesse período fatigoso de pesquisas. Para não correro risco de me esquecer ao longo dos anos que seguirão farei alusão a algunsque através dos tempos manterão vivas em minhas lembranças a recordaçãode outros. Primeiramente agradeço à Deus que me conduz, agradeço asdificuldades e limitações que enfrentei e que me ajudaram a reconhecer suapresença e amor de Pai. Também não poderia esquecer de expressar minhaeterna gratidão a Congregação das Escolas de Caridade, que custeou meusestudos e ao longo desses 10 anos vem sendo o instrumento e voz doCriador em minha vida. Agradeço com afeto às Irmãs Cavanis residentes emPonta Grossa, que familiarmente me acolheram e a Irmã Tereza que muitome ajudou nas traduções do italiano. A comunidade religiosa que convivi: Pe.Vanderlei Pavan, Ir. Renato Rothen e Jean A. Bezerra, que pacientementeacompanharam-me ao longo desse ano marcante em minha vida. Aosfuncionários e alunos da Casa do Menor Irmãos Cavanis que representaram amotivação maior para o desenvolvimento dessa pesquisa. E finalmente aosprofessores do Instituto de Filosofia e Teologia Mater Ecclesiae – IFITEME -que me prepararam para esse momento decisivo e conclusivo em mais umaetapa de minha vida, dentre esse agradeço minha orientadora de métodos,professora Lea Tereza Abibe e minha orientadora de pesquisas, companheirae amiga ao longo desses cinco anos a professora Hilda L. Bilek. iii
    • RESUMOA pedagogia dos Cavanis entendida como meio de formação integral, atual ehumana do homem. Para entender e conhecer sua origem, busca fazer um resgatehistórico na vida de personagens que para os Irmãos Cavanis tiveram relevanteimportância na estruturação de sua nova prática educativa. Esse resgate refletesobre a vida de São Felipe Néri, que em pleno período renascentista forma umgrupo de religiosos que exercitam seu carisma através de catequeses, pregações eretiros para os cristãos em vista de vencerem ao paganismo. Surge assim a ordemdo horto ou os Oratorianos. Também apresenta a vida de São Camilo de Lelis quecontemporâneo a Felipe fez uma revolução no conceito de atendimento hospitalar,seu forte caráter e espírito de liderança fizeram nascer na sociedade a Congregaçãodos Camilianos, religiosos dedicados a tratar os doentes com dignidade e respeitoacreditando neles se fazer presente o próprio Cristo. Outro personagem marcante navida dos Cavanis foi o jovem São Luiz Gonzaga, que tendo nascido em uma famílianobre abandona as regalias de seu mundo para viver a simplicidade dos quepossuem a Deus e por ser um santo jovem tornou-se modelo e padroeiro dajuventude. Os Irmãos Cavanis recordavam também de São Francisco de Sales, comele aprenderam a confiar na providência divina. A lembrança deste também aparecequando eles em 1808 iniciaram a tipografia, pois o Santo em sua épocaevangelizava através de periódicos de sua autoria. A vida e o jeito de São José deCalasanz é tão presente na vida e na obra dos dois manos tanto que se corre o riscode confundi-las, sendo que os irmãos o elegeram como padroeiro de sua obraeducativa. Já, São Vicente de Paulo é tomado como modelo a ser seguido, a vida dopai da caridade marcou tanto a vida dos dois a ponto de denominarem sua obracomo Congregação das Escolas de Caridade. De certa forma, os Irmãos Cavanissão como um apanhado de cada um desses personagens históricos a ponto deconsiderar-se um novo estilo de vida religiosa distinta das anteriores. Sua pedagogiaaconteceu de maneira natural e manteve-se ao longo dos séculos como atual erenovadora. Assim a pesquisa se limitará em apresentar restritamente suas práticaspedagógicas em meio aos jovens sem esquecer de contrapô-las a pensamentos ereflexões contemporâneas. Tal reflexão fará menção a conceitos psicológicos,sociais, morais e afetivos, indispensáveis na Pedagogia dos Cavanis. Analisa-seainda o conceito de educação para o século XXI, segundo o Relatório Delors para aUNESCO, e confirma-se que a pedagogia iniciada pelos Cavanis a mais de 200anos continua atual e sua aplicabilidade é válida para os dias de hoje. iv
    • RESUMOLa pedagogía de los Cavanis entendida como medio de formación integral, actual yhumana del hombre. Para entender y conocer su origen, busca hacer un rescatehistórico en la vida de personajes que para los hermanos Cavanis tuvieran relevanteimportancia en la estructuración de su nueva practica educativa. Este rescatereflexiona sobre la vida de San Felipe Neri que en pleno periodo renacentista formaun grupo de religiosos que ejercitan su carisma a través de: catequesis prelaciones yretiros para los cristianos, en vista de vencer el paganismo. Surge así la Orden dehuerto o los Oratorianos. Tambien presenta la vida de San Camilo de Lelis quecontemporáneo a Felipe hace una revolución en el concepto de atención hospitalar.Su fuerte carácter y espíritu de lideranza hicieran nacer en la sociedad laCongregación de los Camilianos, religiosos dedicados a tratar los enfermos condignidad y respeto acreditando en ellos la presencia del propio Cristo. Otropersonaje marchante en la vida de los Cavanis fue el joven San Luis Gonzaga, quehabiendo nacido en una familia noble abandona las regalías de su mundo para vivirla simplicidad de los que poseen a Dios por ser un santo joven tornose modelo ypatrono de la juventud. Los Cavanis recordaban también la vida de San Francisco deSales, de esto aprendieran a confiar en la Divina providencia. El recuerdo del santotambién aparece cuando ellos en 1808 iniciaron la tipografía, pues el Santo en suépoca evangelizaba a través de periódicos de su autoría. La vida y el modo de SanJosé de Calasanz está presente en la vida de los dos hermanos, tanto que se correel siego de confundidlas, siendo que los hermanos la eligieron como patrono de suobra educativa. San Vicente de Paul es tomado como modelo a ser seguido, la vidadel padre de la caridad marco tanto la vida de los dos hermanos a punto dedenominar su obra como Congregación de las Escuelas de Caridad. De cierta forma,los hermanos Cavanis san como un compendio de cada uno de estos personajeshistóricos a punto de considerarse un nuevo estilo de vida religiosa distinta de lasanteriores. Su pedagogía aconteció de manera natural y mantuvo se a lo largo de lossiglos como actual y renovada. Así la investigacion se limitará en presentarestrictamente sus prácticas pedagógicas en medio de los jóvenes sin olvidar decontraponer pensamientos y reflexiones contemporáneas. Tal reflexión tendrá lucesa conceptos psicológicos, sociales, morales y afectivos, indispensables en lapedagogía de los Cavanis. Analizase todavía el concepto de educación para el sigloXXI, según el velatorio Delors para a UNESCO, y confirmase que la pedagogíainiciada por los Cavanis a más de doscientos años continua actual y su aplicabilidades válida para los días actuales v
    • RIASSUNTOLa pedagogia dei Cavanis intesa come mezzo di formazione integrale, attuale eumana dell’uomo. Per intendere e conoscere la sua origine si cerca di fare unarivalutazione storica della vita dei personaggi che ebbero un rilievo importante nellastrutturazione della nuova pratica educativa dei fratelli Cavanis. Questa rivalutazioneci riporta alla vita di San Filippo Neri che in pieno periodo rinascentista forma ungruppo di religiosi che si esercitano nel loro carisma attraverso il catechismo,prediche e ritiri per i cristiani per sconfiggere il paganesimo. Sorge cosí L’ordinedell’Oratorio o degli Oratoriani. Anche appresenta la vita di San Camillo de Lellis,contemporaneo di Filippo che fece uma rivoluzione negli ospedali, quanto al modo diricevere e trattare gli ammalati. Il suo forte carattere e spirito di lideranza fecero siche nascesse la Congregazione dei Camilliani, religiosi dedicati a trattare gliammalati con dignitá e rispetto, credendo che in loro si fa presente il proprio Cristo.Un altro personaggio marcante nella vita dei Cavanis fu il giovane San luigi Gonzagache, nato in una famiglia nobile, abbandona il benessere del mondo per vivere nellasemplicitá di quelli che possiedono Dio e, per essere un Santo giovane, divennemodello e protettore della gioventú. I Fratelli Cavanis furono influenziati anche daSan Francesco di Sales; da lui impararono a confidare nella Providenza Divina. Ilricordo di San Francesco di Sales appare anche quando i Cavanis, nel 1808,iniziarono la tipografia pubblicando riviste e scritti del Santo. La vita, anzi, lo stile divita di San Giuseppe Calasanzio era cosi presente nella vita e nelle opere dei dueFratelli, che quasi si corre il rischio di confonderla, tanto che lo elessero patronodella loro opera educativa. Giá San Vincenzo di Paoli, scelto come modello daessere imitato, e la sua vita fondata e guidata influí tanto nella vita dei due fratelliche derono il nome alla loro opera di Congregazione delle Scuole di Caritá. Di certaforma, i Fratelli Cavanis sono un poco di ciascuno di tutti questi personaggi storici atal punto di concepire un nuovo stile di vita religiosa differente dalle anteriori. La loropedagogia si formó e sviluppó naturalmente e si mantenne attuale e innovatricedurante i secoli. Cosi la ricerca si limiterá a presentare strettamente la sua praticapedagogia in mezzo ai giovani senza dimenticare di contraporla al pensiero eideologia contemporanei. La dará alcuni cenni ai concelti psicologici, sociali, morali eafettivi, indispensabili e inerenti alla Padagogia Cavanis. So oltre a questo saráanalizzato il concetto di educazione nel secolo XXI, secondo il relatorio Delors perL’UNESCO, e si afferma che la pedagogia iniziata dai Cavanis da piú di 200 anni facontinua attuale e la sua applicazione é valida per i nostri giorni. vi
    • SUMÁRIORESUMO.................................................................................................................... ivRESUMO..................................................................................................................... vRIASSUNTO .............................................................................................................. viINTRODUÇÃO ............................................................................................................1CAPÍTULO I PRINCÍPIOS ILUMINADORES ..............................................................4CONSIDERAÇÕES INICIAIS......................................................................................41 SÃO FELIPE NERI ................................................................................................52 SÃO CAMILO DE LELLIS.....................................................................................93 SÃO LUIS GONZAGA.........................................................................................184 SÃO FRANCISCO DE SALES ............................................................................225 SÃO JOSÉ DE CALAZANS ................................................................................266 SÃO VICENTE DE PAULO .................................................................................317 IRMÃOS CAVANIS .............................................................................................347.1 TEMPERAMENTOS DIFERENTES ..................................................................41CAPÍTULO II PILARES PEDAGÓGICOS.................................................................43APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA ........................................................................431 O EDUCADOR CAVANIS ...................................................................................452 EDUCAÇÃO GRATUITA.....................................................................................453 AMOR PATERNO AOS JOVENS .......................................................................484 O MÉTODO .........................................................................................................494.1 VIGILÂNCIA CONTÍNUA ..................................................................................494.2 CONGREGAÇÃO MARIANA ............................................................................504.3 CATEQUESE ....................................................................................................514.4 HORTO (RECREIO)..........................................................................................514.5 ORATÓRIO .......................................................................................................534.5.1 Exercícios Espirituais......................................................................................535 INSTITUTO FEMININO........................................................................................546 PROFISSIONALIZAÇÃO ....................................................................................547 A PERFEITA INSTRUÇÃO DOS JOVENS .........................................................548 DISCIPLINA.........................................................................................................55CAPÍTULO III A PEDAGOGIA CAVANIS E A EDUCAÇÃO CONTÊMPORANEA ..58CONSIDERAÇÕES INICIAIS....................................................................................581 APRENDER A CONHECER E A PENSAR .........................................................592 APRENDER A FAZER ........................................................................................613 APRENDER A CONVIVER..................................................................................634 APRENDER A SER .............................................................................................64CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................66REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS ...........................................................................68ANEXOS ...................................................................................................................69 vii
    • INTRODUÇÃO “A educação é um trabalho que exige a ocupação da pessoa o tempo todo (…), os operários, portanto devem ser bem treinados para este ministério; livres de outras ocupações para dedicar-se a ele inteiramente”. (IRMÃOS CAVANIS 28/05/1814) Ao iniciar um trabalho de pesquisa acadêmica surgem diversas questões, ogrande desejo de responder essas dúvidas que povoam a mente humana e que aolongo da história trouxeram à humanidade o que chama-se de futuro ou pós-modernidade em busca de um desejo natural de realizar-se sonhos do passado quede certa forma conduziram o homem ao desenvolvimento. Nem todo saber éconhecido e nem tudo do que é conhecido é saber. Baseado nessa idéia encontram-se velados na história da humanidade e de maneira particular na história daeducação, veneziana, dois personagens de relevante importância. Herdeiros de umtítulo de nobreza dois irmãos Antonio e Marcos, os condes Cavanis, constituíram ummarco em sua época. Num contexto de diversos conflitos político de governosopressores e oprimidos e dentro do avassalador império napoleônico elespermaneceram fiéis ao seu sonho de possibilitar vida digna de cultura, educação ereligião aos que delas não podiam desfrutar de forma plena, pelo simples fato deterem nascidos menos afortunados. Essa pesquisa acadêmica quer ao mesmo tempo em que pretende refletir nosideais Cavanis ela o faz levando em conta a inserção do ser humano no contextoatual. Para tanto será preciso questionar para compreender o que vem a serpedagogia. Quando um método de trabalho educativo pode ser considerado comopedagógico? Qual é a pedagogia dos Cavanis?
    • Esse método tem aplicabilidade hoje? Quem pode aplicar a PedagogiaCavanis? E onde? A partir de uma peculiar intuição pedagógica os Irmãos Cavanis condensaramem seu estilo próprio de interagir dentre os jovens princípios iluminadores depersonagens que deixaram marcas em sua época como: Felipe Néri, fundador daordem do horto; São Camilo de Lelis, que fundou uma congregação para ajudar econfortar os doentes; São Luis Gonzaga, que os inspirou na pureza da mente e docoração; São Francisco de Sales, exemplo de confiança na providência e exímioescritor de temas espirituais; São José de Calasanz que foi um sacerdote espanholque oferecia educação às crianças pobres da periferia de Roma, o qual os IrmãosCavanis escolheram como padroeiro de sua obra educativa e São Vicente de Paulo,fundador dos lazaristas e das Irmãs da Caridade, que escolheram como modelo aser seguido, assim os irmãos Cavanis apresentaram como paradigma de seu projetoeducativo o próprio Cristo. Assim este trabalho de pesquisa pretende apresentar os Irmãos Cavaniscomo dois verdadeiros visionários, como dois homens que estiveram à frente de seutempo, sobretudo no campo da educação das crianças e dos jovens. Como ensinar, como formar sem estar aberto ao contorno geográfico e socialdos educandos? (FREIRE, 1996, p.137). Eles diziam que “Não adianta esperar por uma mudança na sociedade semcuidar como convém das crianças e dos jovens; é preciso usar os meios aptos paraconseguir o fim”. ad. tempora A metodologia utilizada nesse trabalho foi através de reflexão feita sobre ascartas escritas pelos IRMÃOS CAVANIS sendo selecionadas as que mais dizemrespeito ao espírito e a finalidade de sua obra educativa como a pedagogiadesenvolvida. Também foram analisado autores contemporâneos que refletem sobreo tema pedagogia e educação. O trabalho inicia sua pesquisa sobre os princípiosiluminadores que inspiraram o desenvolvimento da pedagogia dos Cavanis. Paratanto essa pesquisa direcionou-se sobre a vida de SÃO FELIPE NERI, SÃOCAMILO DE LELIS,SÃO LUIZ GONZAGA, SÃO FRANCISCO DE SALES, SÃOJOSÉ DE CALAZANS e SÃO VICENTE DE PAULO. Num segundo momento apesquisa direciona seu foco na possibilidade da FORMAÇÃO INTEGRAL DOHOMEM através da teoria educacional desenvolvida e praticada pelos Cavanis ao 2
    • longo de um período histórico de 200 anos. A pesquisa é concluída no século XXI,refletindo a aplicabilidade e validade da Pedagogia Cavanis na pós-modernidade. A pedagogia Cavanis surge com o desejo de suprimir uma carência de afeto eeducação que vive as crianças e jovens do século XVII na cidade de Veneza.Alvorece como luz educativa dentro do período iluminista e tem em seu interiorcontribuições de saberes e valores históricos de sua época como a revoluçãofrancesa em 1789 e o alvorecer do período moderno. E que ainda hoje faz-seconvidativo para uma intensa meditação. A centralidade dessa Pedagogia Cavanisencontra-se no próprio homem Percebendo a atual escassez de material em português sobre a pedagogiaCavanis bem como a sua origem, esse trabalho quer ser um instrumento prático eacessível a todos, que possibilite conhecimento histórico e pedagógico para umamelhor aplicabilidade dela hoje. 3
    • 1º CAPÍTULO PRINCÍPIOS ILUMINADORES “A perfeição não consiste em fazer grandes coisas que nos fazem parecer grandes diante dos olhos dos homens, mas em ser grande diante dos olhos de Deus, fazendo tudo conforme sua Vontade”. (Pe. ANTONIO CAVANIS 11/1843))CONSIDERAÇÕES INICIAIS Entende-se por princípios iluminadores as fontes que inspiraram e motivaramos irmãos Antonio Ângelo Maria Cavanis e Marcos Antônio Maria Cavanis adesenvolverem uma obra educativa através da escola que a posteriori herdará onome de Congregação das Escolas de Caridade-Cavanis. Esses focos luminosos condensados na pedagogia Cavanis, constituíram oque eles denominaram de formação integral do homem. Para tanto se torna necessário uma análise objetiva desses princípios queinspiraram e motivaram os Irmãos Cavanis. Para desenvolver um paralelo entre:Igreja, Estado, educação e sociedade e refletir sobre a vida de personagens quepara os Irmãos Cavanis tiveram com seu pensamento relevante importância nahistória da educação de sua época. Essa análise histórica passará na ótica filosófica pelos períodos renascentistaabrangendo o século XV e XVI, contextualizando os personagens: Felipe Neri (1515-1595), Camilo de Lelis (1550 – 1614), Luis Gonzaga (1560 – 1591) e na segundametade do século XVI adentrando o século XVII encontra-se Francisco de Sales(1567 – 1622), José de Calazans (1556 – 1643), este escolhido pelos IrmãosCavanis como padroeiro da obra Cavanis e Vicente de Paulo (1580 – 1660),popularmente conhecido como pai da caridade e que os Irmãos Cavanis
    • apresentavam aos congregados como modelo a ser seguido. (SANTA CRUZ, 1993,p.50-51) Esse primeiro capítulo será finalizado com uma análise sobre os IrmãosCavanis, observando a centralidade de sua pedagogia e contextualizando-a nafilosofia e na história do período iluminista destacando o império napoleônico com arevolução francesa e o pensamento histórico contemporâneo, iniciado por EmanuelKant.1 SÃO FELIPE NERI São Felipe Neri, missionário e fundador da Congregação do Oratório, Nasceuem 22 de julho de 1515 em Florença, Itália como Phillipe Romolo Neri. Filho dotabelião Francisco Néri; estudou sob influência dos Dominicanos em São Marcos, noVeneto e aos dezoito anos foi mandado para São Germano, a um seu parente semfilhos, que se supunha ter um negócio florescente e do qual se esperava que oficasse seu herdeiro. (THURSTON,H.J.; ATTWATER,D.,1988, p.237.) Eleabandonou os negócios em 1533, foi para Roma. Hospedou-se no salão da casa deGaleotto Caccia, oficial da alfândega. Em troca da hospitalidade, dava aulas a doisfilhos do oficial. Ibid., p.238 Estudou dois anos com profundidade a partir de 1533 teologia e filosofia. Aregião onde residia se recuperava do saque de 1527. As escolhas e decisões daIgreja eram controladas pelos Médici e os cardeais com raras exceções erampríncipes de Estado, mais do que propriamente da Igreja. id. O entusiasmo pelos autores clássicos, estimulados pela Renascençasubstituiu, aos poucos as idéias cristãs por idéias pagãs, fazendo baixar o padrãomoral e enfraquecendo a fé. Pairava nessa época do período renascentista, sob a influência dopragmatismo, no clero romano uma indiferença e um abandono, deixando suasigrejas cair em ruínas e não havia acompanhamento de seu rebanho, fato quelevava o povo ao semi-ateísmo. Reevangelizar Roma foi a obra da vida de Felipe, eele executou com êxito, merecendo receber posteriormente o título de apóstolo deRoma. Em pleno clima de reforma e contra reforma, Felipe expressou a sua opiniãoa respeitos “É possível restaurar as instituições com a santidade, e não restaurar asantidade com as instituições”. (SGARBOSSA, M.; GIOVANNINI, L., 1983, p.165) 5
    • Seu trabalho apostólico consistia em circular pelas ruas, esquinas, mercadose praças de Sant’Angelo. Sua personalidade atraente acompanhava seu senso dehumor que facilmente cativava um ouvinte. Seus conhecimentos e suaespiritualidade ajudavam-no a dizer uma palavra no momento adequado com quemconversava, quando não falava do amor de Deus ou de sua vida espiritual. Dessamaneira, convencia muitos a abandonar seus maus costumes e a modificar suasvidas. Felipe tinha uma saudação costumeira: “Bem, irmãos quando é quecomeçareis praticar o bem?”(loc. cit.) Assim ele conseguia levar muitos a cuidar dosdoentes nos hospitais e a visitar as Igrejas. O que sustentava essa vida em favor dos menos favorecidos e em defesa daIgreja era a sua constante vida de oração. Retirava-se para a oração: “Se quisermosnos dedicar inteiramente ao nosso próximo, não devemos reservar a nós mesmosnem tempo nem espaço” SGARBOSSA, M.; GIOVANNINI, L., (1983, p.165). Assimpassava a noite ora no pórtico de alguma igreja, ora, nas catacumbas de SãoSebastião, junto a via Ápia. Em suas orações noturnas, em certa ocasião véspera de Pentecostes, em1544, pedindo fervorosamente os dons do Espírito Santo, experimentou um êxtaseque dilatou seu coração apareceu-lhe um como globo de fogo que entrou pela bocadilatou-lhe o peito. Imediatamente foi tomado de um paradoxismo de amor divino,que rolou pelo chão, exclamando “basta, basta, Senhor, eu não posso maissuportar!” op. cit, p.239 Ao levantar-se sentiu-se mais recomposto, e assim quando pôs a mão sobreo coração, percebeu um inchaço do tamanho do punho de um homem, o qual nemno momento ou posteriormente lhe causou sofrimento. Mas, desde aquele momentoa qualquer emoção espiritual era facilmente surpreendido por violentas pulsaçõesque faziam todo o seu corpo tremer e algumas vezes sacudiam violentamente acadeira ou a cama onde se encontrava. Sentia também em suas consolaçõesespirituais calor no peito que o levava a desnudá-lo com o intuito de abrandar-lhe ocalor, assim, em suas orações pedia a Deus que amenizasse essas sensações,caso contrário morreria de amor. Após sua morte descobriu-se que duas das costelas do santo, se haviampartido e formavam um arco que aumentava o espaço normal para as batidas docoração. 6
    • Estudante em Roma abandona os estudos vendendo os livros para dedicar-setotalmente a atividades beneficentes. Após três anos passou a organizar uma ordemde Irmãos Leigos. No ano de 1548, com o auxílio de seu confessor, o padrePersiano Rosa, que vivia em San Girolano della Carita, Felipe devotado ao seuapostolado fundou uma comunidade, a "Confraria da Mais Santa Trindade" paraexercícios espirituais na Igreja de San Salvatore in Campo para orarem juntos,cuidarem dos doentes e peregrinos que vinham para Roma, também recolheramconsigo meninos turbulentos dos subúrbios romanos e os educavam divertindo-os. Aquem se queixava do barulho respondia: “Contanto que não pratiquem o mal, ficariasatisfeito até se me quebrassem paus na cabeça”. (SGARBOSSA, M ; GIOVANNINI,L., 1983, p.165). Ficou muito conhecido pela sua bondade e simpatia. Ele popularizou a devoção das 40 horas em Roma, devoção essa que aindahoje é muito comum, consiste em dois dias de adoração ao Santíssimo Sacramentoque pode ser feita em preparação ou após a festa de Corpus Christi. Essa obradesenvolveu-se até o ponto de tornar-se o hospital de Santa Trinitá dei Pellegrini. Aocompletar 34 anos, Felipe Néri já havia realizado obras religiosas de atendimentoaos pobres, peregrinos e crianças, grupos de orações que permanecem até aatualidade. Embora em sua humildade o fizesse evitar o pensamento de tornar-sepadre, submetido ao desejo de seu confessor no dia vinte e três de maio de 1551, foiordenado, com trinta e seis anos. Já desde antes do despontar da manhã até o meiodia e muitas vezes de novo a tarde ele atendia uma multidão de penitentes de todasas idades e condições. De acordo com THURSTON,H.J.; ATTWATER,D loc. cit., eletinha a capacidade de ler o pensamento dos que o recorriam, realizando assimconversões. Visando ao bem dos penitentes, ele costumava realizar conferênciasinformais e discussões, seguidas depois de visita as comunidades. Néri tinha o hábito de ler em voz alta a vida dos mártires e missionários.Meditando sobre o relato da vida e morte de São Francisco Xavier, impressionou-sede tal maneira a ponto de oferecer-se como voluntário para trabalhar nas missões noestrangeiro. Mas, um cisterciense que ele consultou garantiu-lhe que Roma era asua Índia, e Felipe acatou a orientação. Para ajudar os mais necessitados nãohesitava em pedir esmolas nas estradas. Um dia um indivíduo sentindo-seimportunado, deu-lhe um soco. Ao que Felipe respondeu: “Este é para mim? Agorame dê algum dinheiro para meus meninos”. op. cit. 7
    • Felipe Néri auxiliado por outros sacerdotes dirigia conferências na Igreja deSan Girolano e para acomodar os que o assistiam, construiu-se uma grande salasobre a nave da Igreja. Esse grupo recebeu o nome de oratorianos, porque elestocavam um sininho para convocar os fiéis às orações em seu oratório. Mas osverdadeiros fundamentos da Congregação desse nome só foram lançados anosdepois, quando Felipe apresentou cinco de seus jovens discípulos para a ordenaçãosacerdotal, entre os quais se achava César Barônio, e os mandou servir a Igreja deSan Girolano. Felipe compôs algumas regras simples de vida. Eles participavam de umamesa comum e de exercícios espirituais sob sua obediência, mas, proibiu-lhes quese vinculassem a esse estado, pelos votos, os seus bens materiais, casopossuíssem algum. Outros vieram juntar-se a eles e sua organização e obra se desenvolveramrapidamente, justamente pelo fato de encontrarem oposição e até mesmoperseguição por parte de setores da Igreja. Contudo em 1575, a nova sociedadeobteve aprovação formal do Papa Gregório XIII, que lhe doou a Igreja de Sant Mariaem Vallicella. As regras de sua Constituição foram aprovadas pelo Papa Paulo V em1612. A Congregação do Oratório se espalhou por toda a Europa e América do Sul.O Papa Gregório XIV tentou fazer dele um cardeal, mas Filipe recusou. Felipe era um homem de saúde delicada e tinha a capacidade de predizeracontecimentos, vivia em contato com o sobrenatural e ao recitar o Ofício e celebrara Missa por diversas vezes caía em êxtase. Pessoas que conviveram com eletestemunharam que, Felipe irradiava uma luz celeste. Depois dos 75 anos de idadelimitou sua atividade ao confessionário e a direção espiritual. SGARBOSSA, M.;GIOVANNINI, L., (1983, p.165) Em 1577 a Congregação do Oratório mudou-se para a Igreja de Sant Mariaem Vallicella, somente em 1584 é que Néri passou a morar em Vallicella atendendopedido expresso do Papa. O povo romano tinha por ele veneração, e nos últimosanos de sua vida, todo o colégio cardinalício recorria a ele, buscando conselhos erevigoramento espiritual e tão grande era a sua fama que os estrangeiros vindospara Roma desejavam ser apresentados a ele. id. Respeitado e amado em Roma foi um conselheiro de Papas, Reis, Bispos,Cardeais e igualmente confessor e conselheiro de leigos e do povo mais simples deRoma . 8
    • Foi em seu quarto, que ele confirmou seu apostolado quando a idadeavançada e as enfermidades crescentes o impediram de circular livremente. Ricos epobres visitavam seus aposentos e para todos dava um conselho adequado a suasnecessidades particulares. Dois anos antes de morrer ele conseguiu demitir-se do cargo de superior emfavor do seu discípulo Barônio. Obteve também permissão de celebrar a missadiariamente em um pequeno oratório unido a seu quarto. Na festa de Corpus Christi , dia 25 de maio de 1595, Felipe apresentou-seradiante de felicidade que beirava a exultação, e seu médico lhe disse que não o viaassim a dez anos . Durante todo o dia ouviu confissões e recebeu visitas, como decostume e ao meio dia disse: “Ao cabo de tudo, devemos morrer” segundo o relatode seus congregados, citado por (THURSTON,H.J.; ATTWATER,D, 1988, p.241.) Por volta da meia noite sofreu um ataque de hemorragia que os padres foramchamados. Era evidente que estava para morrer assim Barônio que lia as oraçõesda encomendação, pedia a ele que dissesse uma palavra de despedida, ou pelomenos abençoasse seus filhos. Embora Felipe não conseguisse mais falar, levantoua mão e expirou enquanto abençoava. Ele estava com oitenta anos. Seu corpo foisepultado na Igreja nova de Vallicella onde os oratorianos servem até os dias dehoje. Ibid., p.241 Foi beatificado em 1615 pelo Papa Paulo V, e canonizado em 1622 pelo PapaGregório XV . Seu símbolo na liturgia da Igreja é um lírio e um anjo com um livro. Sua imagem está entalhada em um santuário na Casa Matriz da Igreja deSanta Maria, em Vallicella . A mais famosa pintura dele foi feita por Guido Reni, queserviu de base para as subseqüentes apresentações de suas fotos-pintura. Sua festa é celebrada no dia 26 de maio.2 SÃO CAMILO DE LELLIS No ano santo de 1550, os peregrinos de diversas partes do mundo afluíam aRoma e o concílio de Trento recomeçava as suas sessões sob o Pontificado de JúlioIII. Em Bucchianico celebrava-se a festa do padroeiro do lugar, Santo Urbano, em 25de maio. Camila sempre mui devota foi logo cedo à Missa chamada Messa picola,porque não podia, como estava, assistir à missa solene da grande festa. Enquantoadorava Jesus Hóstia, no instante da consagração, como Isabel, a Mãe do Batista, 9
    • sentiu que o filho exultava de alegria no ventre materno. Voltou depressa para casa.Percebeu que a hora chegava. Uma amiga aconselhou-a a recorrer a São Franciscoe descer até a estrebaria, onde também nascera Jesus em Belém, e o SantoPatriarca em Assis. Camila naquela angústia assim o fez, e gemendo de dorestendeu-se sobre a palha, o feno dos animais, e ali nasceu a criança. A notíciacorreu célere. O milagre andava de boca em boca. A velha Dona Camila era mãeaos sessenta anos! Afluiu muita gente à casa “De Lellis”. A pobre mãe não cabia emsi de tão feliz, porém, sentia-se ruborizada com aquele parto em idade tão avançada.Mas essa piedosa mãe não viveu muitos anos mais. Em 1563, com quase 73 anosde idade, expirou santamente. O pai, agora comandante da fortaleza de Pescara,poucas vezes vinha a Bucchianico, e o filho fora entregue aos cuidados deestranhos. (BRANDÃO 1978, p.13-15) Camilo aproveitando da liberdade e em más companhias aprendeu a jogar. Afamília que o adotou o colocou em uma escola onde tirou proveito, pois não obstanteas vadiações e peraltices era inteligentíssimo. Tinha boa memória, recitava muitobem e gozava de grande prestígio entre os colegas de classe. Aos dezessete anosresolveu se alistar entre os venezianos que em 1567 andavam assalariando naguerra contra os turcos. Camilo lutou ao lado do pai junto dos habitantes de Venezacontra os turcos, mas logo após a morte do pai que ocorreu nas vizinhanças doSantuário de Loreto, no castelo de São Lupo, Camilo contraiu uma doença incomodae repulsiva, que posteriormente denominou de a primeira misericórdia, era umachaga no peito do pé direito, que não a tratou bem e após ter infeccionado tornou-seprofunda e incurável. Ibid, p.17 Um dia sentado à beira do caminho, Camilo viu passar dois padres da OrdemFranciscana. A modéstia dos religiosos o impressionou. Chegou mesmo a fazer ovoto de entrar para um convento franciscano. Dirigiu-se para Áquila e foi bater àporta do convento de São Bernadino. Expôs ao guardião o padre Frei PauloLoretano, seu tio materno, todas as suas desgraças e o desejo de se converter efazer penitência. O tio franciscano o ouviu comovido, mas não o quis receber.Camilo descansou ali alguns dias, tratou-se um pouco e resolveu partir para Roma,chagando lá procurou um hospital para curar-se. Em 1569, foi internado no hospital da San Giacomo (São Tiago) em Romapara doentes incuráveis, ficando lá como paciente serviçal. Passado nove meses, foidemitido, entre outros motivos por causa de suas reclamações, pois o rapaz não 10
    • tinha juízo. Era cabeça quente, brigava com os enfermos por qualquer ninharia,discutia com os enfermeiros, e perdia o tempo no jogo. Assim a diretoria do hospitalo dispensou do serviço como incorrigível e inepto para o ofício de enfermeiro. id. Voltou para o serviço ativo na guerra contra os turcos. Camilo referia-secomo um grande pecador, seu maior vício era o da jogatina que constantemente olevava à penúria e a vergonha. (THURSTON; ATTWATER, 1989, p.172) No verão de 1571, Camilo foi transferido para a guarnição da Ilha de Corfú.Local que se travaria a histórica batalha de Lepanto. Ocorrera terrível epidemia aqual Camilo contraiu e tendo ficado gravemente doente recebeu a unção dosenfermos, melhorou sensivelmente. No ano seguinte, em 1572, alistou-se de novono exército e partiu para a luta. Quase perdeu a vida no combate dos turcos emCastelnuovo. Em março de 1573, restabeleceu a paz, Camilo se põe a serviço daEspanha. Após naufrágio junto à Ilha de Capri, chegou a Nápoles. Em outubro de1574, devido ao vício da jogatina, apostou sua camisa e perdendo foi obrigado àhumilhação de tirá-la em praça pública. Assim chegou ao extremo da miséria.(BRANDÃO 1978, p.19-20) No dia 15 de agosto de 1582, festa da Assunção da Virgem Maria, Camilovelava os doentes e enquanto isso meditava que era triste ver tantos doentesabandonados, sem assistência material e espiritual, entregue às vezes em mãos demercenários. Como remediar tantos males? Sente assim em seu coração a pulsãode instituir uma companhia de homens piedosos que aceitassem generosamente amissão de socorrer aos enfermos, sem esperarem recompensa ou paga, e ofizessem com a ternura de Mãe. Essa companhia teria como distintivo uma cruzvermelha ou outro distintivo qualquer. Essa foi a primeira inspiração que sentiu emseu coração. Camilo convicto dessa inspiração dispõe-se a convidar alguns amigos, entreeles estava o Pe. Francisco Profeta da Sicília, capelão de São Giacomo, homem degrande ciência e virtude, Bernardino Norcino di Amatrice, Cruzio Lodi, LudovicoAltobelli e Benigno Sauri, que trabalhavam no hospital. As palavras de Camilo e asua maneira de apresentar suas motivações entusiasmaram esses companheirosque tomaram o amigo como seu mestre e guia. Assim dentro do hospital prepararamum espaço que continha um altar e um crucifixo para suas orações em comum e emmomentos livres lá se encontravam para combinar como levarem adiante essa obra. 11
    • O fundador sentia também o desejo de congregar a esse grupo, sacerdotesseculares, que fossem piedosos para o serviço dos enfermos, principalmente paralhes ministrarem os sacramentos como a Unção dos enfermos e o Viáticoprontamente quando necessário e, além disso, que realmente tivessem verdadeiroamor e afeto para com os agonizantes. Camilo pensava que assim poderia salvarmuitas almas e conceder-lhes atendimento digno, para que se sentissemverdadeiramente amados e que não se encontravam sós. Camilo retornou os estudos, aos trinta e dois anos, com dois sacerdotes, eandava com a gramática latina por toda parte, no mesmo ano de 1582 passou afreqüentar aulas no Colégio Romano onde se encontravam célebres teólogos esábios da Companhia de Jesus como São Roberto Belarmino, Vasquez e Suarez,filósofo da contra reforma. O programa dos estudos constava de gramática, retórica e humanidades. Ocurso filosófico de três anos e o teológico de quatro anos. Nesse ano da matrículaele entrou no curso inferior onde estavam os que apenas sabiam ler e escrever eaprendiam rudimentos de latim. Era uma turma com meninos de 12 e 13 anos deidade. A criançada o ridicularizava e repetia: Tarde venisti! Tarde tarde venisti! Umdia o mestre Pe. Cornélio Ciprioto, ao ver a gozação disse aos meninos: “Estehomem que é objeto de vossa zombaria, há de fazer grandes coisas na Igreja deDeus!” Sendo assim cessaram-se as zombarias e começaram a admirar a virtude ea boa vontade do aluno de trinta e dois anos. Os padres Jesuítas empenharam-se para vê-lo adiantado na instituição. Noano de 1583 julgaram suficientemente instruído para receber as ordens menores.(BRANDÃO, 1978, p.38) No dia 2 de fevereiro de 1583, Ele se reveste do hábito clerical e recebe aTonsura. Nos três domingos seguintes recebeu as ordens menores das mãos dovice-regente de Roma, Tomás Goldwell, bispo de São Asaph, último bispo exilado daantiga hierarquia inglesa. (THURSTON; ATTWATER, 1989 p.174) Para receber as ordens maiores, diaconato e presbiterado encontrou novadificuldade onde o candidato que não fosse religioso professo deveria ter umpatrimônio ou título equivalente que assegurasse a honesta sustentação. Camilo erapobre e os honorários que recebia como mordomo de São Giacomo, dispensava emfavor dos pobres. 12
    • Numa tarde de dezembro de 1583, encontra um senhor ilustre, nobre romano,Fermo Calvi, que apenas o conhecia de vista. Trocando conversas chegaram àsdificuldades que Camilo se encontrava para ser ordenado. O senhor generoso edotado de enorme fortuna, de imediato ofereceu a quantia necessária para talempréstimo e posteriormente veio a ser um grande benfeitor da obra, terminandoseus dias no seio da família camiliana. Sábado, 26 de maio de 1584, na oitava de pentecostes, Camilo foi ordenadosacerdote. Após esta graça quis entrar em retiro, no silêncio e na oração, a fim de sepreparar melhor para subir ao altar. Passou duas semanas recolhido, orando efazendo penitência recebeu apenas a visita de São Felipe Néri, seu diretor espiritual.No domingo, 10 de junho do mesmo ano, terceiro domingo de pentecostes, celebroua primeira missa na capela de Santa Maria Porta Padadisi. Seu benfeitor Fermo Calvi ofereceu-lhe um cálice, um missal, três casulas eoutros paramentos. Padre Camilo ainda freqüentava as aulas e estas ocuparam cinco horas pordia, continuava na direção do hospital e fora nomeado capelão de uma Igrejinha denossa senhora, Maria Donnina dei Miracole. (BRANDÃO, 1978, p.41) A atividade do novo sacerdote era intensa, pois estudos, direção do hospital ea capelinha lhe absorviam o dia todo e parte das noites. A Companhia dos enfermeiros foi iniciada em 15 de setembro de 1584, noreferido santuário da Virgem, sendo três os primeiros camilianos: Cruzio Lodi,Bernadino Norcino e o Padre Francisco Profeta a quem Camilo deu o hábito clerical.Estabeleceram um regulamento a ser observado, e foram trabalhar no hospital doEspírito Santo onde assistiam os doentes com tanto afeto e cuidado que se tornavavisível a todos quantos os observavam que eles consideravam como se fosse opróprio Cristo aquele que estava ali deitado, doente ou ferido, em seus membros.(THURSTON; ATTWATER, 1989, p.173). Os três companheiros desligaram-se doscompromissos de São Giacomo. A primeira grande tribulação foi quando São Felipe Néri deixa de ser diretorespiritual de Camilo a única segurança que Camilo encontra é no seu crucifixo quesentia lhe dizer “caminha avante, pois a obra é minha” (BRANDÃO 1978, p.44) A segunda grande prova veio de uma enfermidade que abateu Camilo eCruzio, devido a umidade vinda do Tibre, e a vida pobre e sem conforto emMadonnina. Camilo conforta o amigo com essas palavras: “Esta enfermidade, vem 13
    • do Senhor, e fomos favorecidos com esta visita de Deus, afim de que aprendamoscom a nossa própria doença, e nos tornemos mestres na escola do sofrimento paranos tornarmos mais fervorosos e compassivos em socorrer o próximo enfermo”.Ibid., p. 45 Devido a umidade e insalubridade da casa, Camilo e seus companheirosprecisavam mudar-se de Madonnina e confiando na providência alugaram uma outracasa que exigia cinqüenta escudos anuais e um semestre adiantado; ajudados porPompeo Baratelli outro amigo e benfeitor estabeleceram-se na Via Delle BottegereOscure, em janeiro de 1585. Este era um ambiente melhor, mais saudável e central.Puseram-se a trabalhar em dois hospitais o de São Giacomo e o do Espírito Santo,Camilo preferiu trabalhar onde exerciaeria os trabalhos mais humildes, trataria dosrepugnantes, os mais imundos, os mais grosseiros e difíceis. Sofria dolorosashumilhações. O hospital não era muito organizado, mas ocorriam graves abusos,como o de levarem doentes ainda vivos para o necrotério. (BRANDÃO 1978, p.47) Camilo acolhia em sua companhia quantos manifestassem vocação.Entretanto fazia-os passar duras provações e os experimentava rigorosamente perignem et águam provas de água e fogo nos hospitais e no trabalho. Nem todosperseveraram e resistiam às provas. id. Os religiosos camilianos destacaram-se no seu apostolado, pois atendiamtambém os enfermos no seu domicílio, trabalho esse que trouxe maior prestígio àCompanhia dos enfermeiros. O nome camilianos não era aceito por Camilo e suahumildade, assim preferiu denominá-los de Ministros dos Enfermos, no entanto aspessoas mais comumente os denominavam padres da boa morte ou do bem morrer. A regra religiosa dessa Congregação escrita pelo fundador compreende duaspartes: a primeira estabelecia as práticas para a observância dos conselhosevangélicos, a consagração total de suas vidas a Deus expressada através dosvotos de pobreza, castidade e obediência e a segunda a assistência aos enfermos. Logo no início a congregação sofre com a perda de um confrade, BernardinoNorcino, homem de oração e penitência que veio a falecer no dia 16 de agosto de1585. O seu corpo foi sepultado na Igreja do Gesú dos padres jesuítas daCompanhia de Jesus. Ibid., p.49) A nova comunidade crescia de maneira expressiva e se via a necessidade deuma habitação maior. Na festa de Santa Madalena Camilo visitou seu santuário econtemplou com amargura os estragos e a pobreza da Igreja em ruínas. Sentiu o 14
    • desejo de adquiri-la. O velho templo pertencia a um nobre senhor amigo de Camiloque não hesitou em lhe conceder o santuário, restando a Camilo o encargo dequase reconstruí-lo. As autoridades atendendo aos benefícios que os ministrosprestavam ao povo deram trezentos escudos para a reforma. E assim essa se tornoua casa mãe da ordem. No ano de 1585, morre o Papa Gregório XIII e o conclave elegeu para seusucessor Sisto V, que foi um reformador enérgico e decidido. Camilo teve receio depedir a aprovação da nova ordem sem um bom protetor. Tendo encontrado oCardeal Vicente Lauro, Bispo de Mondovi, e homem de grande influência junto aoSanto Padre e de valor, pediu-lhe a aprovação da ordem sem rodeios, mas comsimplicidade foi logo advogando o que queria. O Cardeal simpatizando-se comCamilo e informou-se da idoneidade do instituto, pediu as constituições e semdemora apresentou-se ao Papa Sisto V, com os documentos e advogou a causa danova Ordem. O cardeal admirou-se da sabedoria da regra, escrita por um homemsem cultura. Tanto elogiou e defendeu que foi nomeado protetor da obra.(BRANDÃO 1978, p.51) O Breve de 18 de maio de 1586 aprovou a nova Congregação Religiosa,concedendo aos ministros dos enfermos a licença de professarem os votos depobreza, castidade, obediência e o serviço aos enfermos, mesmo os empestados. OPadre Camilo fora eleito o primeiro superior. Em 1588, Camilo e mais seis companheiros fundaram uma comunidade emNápoles. Nesse mesmo ano ocorreu que algumas galeras, tinham a tripulaçãoinfectada pela peste e foram proibidas de atracarem no porto. Desse modo, osministros da saúde, novo nome atribuído a Camilo e seus companheiros emNápoles, subiram a bordo e lá davam assistência aos doentes. Numa dessasocasiões, dois dos seus membros morreram por causa da peste, sendo os primeirosmártires da caridade dessa instituição. O fundador demonstrou o mesmo espírito decaridade em Roma, quando uma febre provocada pela peste eliminou um grandenúmero de habitantes em outra época quando essa cidade foi visitada por umaviolenta carestia. Em 22 de setembro de 1591, o Papa Gregório XIV assinou uma bula queelevou a congregação à condição de Ordem Religiosa para o serviço perpétuo aosdoentes. No dia 15 do mês seguinte morre o Papa e os dois Pontífices que osucederam não admitiam a aprovação de novas Ordens. Fato esse da providência 15
    • que proporcionou a Camilo uma alegria imensa. Ele reuniu na capela todos osreligiosos e colocando sobre o altar o documento papal entre lágrimas rezou: Dou-vos graças, meu senhor, em nome de todos estes filhos, que formei pelas entranhasde vossa piedade, porque vos dignastes consolar-me inspirando ao Santo Padre onosso Papa Gregório, a estabilidade desta plantinha, cultivada não por mim, maspela vossa mão poderosa. (BRANDÃO 1978, p.63) Mais tarde em 1595 e 1601, alguns de seus religiosos foram enviados juntoàs tropas que estavam lutando na Hungria e na Croácia, formando assim a primeiraassistência ambulatorial junto às tropas militares de que se tem registro. A cruzvermelha só veio a ser criada por Henry Dunant em 1859, após ele ter assistido asangrenta Batalha de Solferino, que foi travada no norte da Itália, entre o exércitoimperial austríaco e as forças aliadas da França e da Sardenha e da qual resultaram40 mil vítimas mortais. Henry Dunant rapidamente reuniu mulheres das aldeias maispróximas para que prestassem auxílio humanitário às vítimas da guerra.(THURSTON; ATTWATER, 1989, p.173) O trabalho de caridade dos ministros dos enfermos destaca-se não apenas naassistência imediata aos enfermos, mas também no respeito e paciência junto aosdoentes. Certa vez estava o fundador servindo um doente no hospital do EspíritoSanto quando o Monsenhor e Comendador chefe da obra mandou chamá-lo, Camiloassim respondeu ao enviado: Diga ao Monsenhor, que estou ocupado com JesusCristo, e quando terminar esta obra de caridade estarei às ordens de sua excelência. Quanto a paciência essa era uma grande virtude de Camilo quando aingratidão era o seu cálice do dia dia. Para animar seus filhos espirituais napaciência para com os enfermos ele lhes dizia: Coragem vençam todas asingratidões e maus tratos dos enfermos! Eu mesmo já recebi socos, bofetadas einsultos de toda espécie. E me foram motivo de grande alegria... Os enfermos nãosó podem me dar ordens, como também me insultar. São meus verdadeiros elegítimos patrões. Outrora dizia: Servir ao doente é servir a Jesus Cristo e nãomerecemos tanta honra. op. cit., p.74-75 As regras para servir aos doentes de São Camilo constituem um verdadeiromanual de administração hospitalar. Ali se encontram normas e rotinas, ditadas pelasua intuição, que são recomendadas pela administração científica de hoje. A regraorienta que para ajudarem os que sofrem e, sobretudo os agonizantes é necessáriouma boa instrução e conhecimento das coisas espirituais. Desde a infância Camilo 16
    • teve grande devoção a Nossa Senhora. Aprendeu a amá-la com a mãe. Em 2 defevereiro de 1575, na festa da Purificação, ele pobre pecador se converte parasempre. Em 15 de agosto de 1582 em Madonnina dei Miracoli nasce a obraCamiliana. Na oitava da Natividade, os primeiros camilianos vestem o hábito e nafesta da Imaculada Conceição, 8 de dezembro de 1591, Camilo e vinte e cincocompanheiros pronunciam os votos solenes. Por esses acontecimentos NossaSenhora foi chamada Rainha dos Ministros dos Enfermos. Camilo teve cinco misericórdias, assim chamava as cinco fontes depadecimentos de sua vida heróica. A primeira misericórdia, era a chaga do pé queno espaço de quarenta anos lhe roia as carnes como se fosse um cancro, feria osmúsculos e tendões e tocava os ossos. Não produzia febre e nunca fechava. Asegunda misericórdia era uma hérnia inguinal que o fez sofrer durante trinta e oitoanos, e segundo o uso do tempo obrigaram-lhe os médicos a trazer uma cinta deferro incômoda. A terceira eram dois calos na planta dos pés, doloridos e enormesCamilo tinha a impressão de pisar sobre espinho. A quarta misericórdia eram asfreqüentes cólicas renais que sofreu durante dez anos e em 1606 o levaram àsportas da morte. A quinta misericórdia era uma falta de apetite permanente que o fezperder o gosto por todo alimento nos últimos meses de vida. E o homem quesegundo o testemunho dos médicos deveria ter passado longos anos de cama e sobtratamento, foi um prodígio de atividade e modelo dos enfermeiros. (BRANDÃO1978, p.86) O santo deixou a direção canônica da Ordem em 1607. Mas tomou parte nocapítulo geral de Roma, em 1613. Depois do capítulo geral, com o novo superiorgeral, visitava as casas, dando a todos as últimas exortações. Em Gênova, ficou doente beirando o fim; recuperou-se a ponto de poderconcluir as visitas aos hospitais, porém logo recaiu, sendo desenganado. Recebeu os últimos sacramentos das mãos do Cardeal Ginnasi, e ao recebera extrema-unção fez uma exortação comovente aos irmãos. Expirou em 14 de julho de 1614, aos sessenta e quatro anos de idade. Foi canonizado em 1746, sendo juntamente com São João de Deus declaradopadroeiro dos doentes pelo Papa Leão XIII, e das associações de enfermeiros e dosencarregados da enfermagem pelo Papa Pio XI. (THURSTON; ATTWATER, 1989,p.174 v. VII) 17
    • 3 SÃO LUIS GONZAGA São Luís Gonzaga nasceu em Castiglione, Itália, a 9 de março de 1586, filhoprimogênito de D. Fernando Gonzaga, príncipe do Império, e de D. Marta TanaSantena. A dinastia dos Gonzaga, uma das mais ilustres de toda a Itália, com domíniosde Mântua a Bréscia, e de Ferrara à fronteira da Lombardia, ao longo dos anosacumulara riquezas, altos cargos eclesiásticos e principados em sua aristocráticalinhagem. Fernando, Marquês de Castiglione e Príncipe do Sacro Império,conhecera Marta na corte da Espanha, onde ela era dama da Rainha Isabel deFrança. Esta soberana, auxiliada por seu esposo, o grande Felipe II, estimando avirtude e as qualidades morais de Dona Marta, a escolhera para sua dama de honra.Se o Marquês tinha no sangue o espírito combativo e militar de seus ancestrais, aMarquesa completava o espírito guerreiro do marido com uma profunda piedade. ELuís recebeu a influência dos dois. (THURSTON; ATTWATER, 1989, p. 212) Desde muito pequeno, gostava de ouvir, falar e pensar em Deus. Teve assim,quase desde o berço, um dom muito elevado de oração. Unido a essa felizpropensão de seu caráter e à sua piedade precoce, podia-se perceber nele oespírito guerreiro do sangue ancestral. Assim é que o Marquês deu-lhe umapequena armadura, elmo, espadinha e um pequeno arcabuz de verdade quandotinha apenas quatro anos, que levou ao acampamento de Casalmaggiiore, ondedeveria passar em revista as tropas cerca de três mil soldados que estavam sendotreinados para a guerra do rei espanhol contra Túnis. Um dia Luís, disparando seuarcabuz, chamuscou o rosto. O pai então o proibiu de utilizar pólvora. Mas ele,travesso e valente, noutro dia, na hora do repouso após o almoço, conseguiuescapar à vigilância de seu tutor, aproximar-se de um canhão e acender-lhe o pavio.O acampamento todo foi despertado com o estrondo, e encontraram o pequenopríncipe estirado ao solo, vítima do coice que recebeu da possante arma. Luísgostava de estar junto aos tércios espanhóis tomava parte nas paradas marchandoà frente de um pelotão, com uma lança ao ombro imitando seu passo marcial. Nocontato com os soldados aprendeu o uso das armas e palavras de baixo calão quealguns deles falavam. Voltando para casa seu tutor chamou-lhe a atenção, dizendo-lhe que aquela linguagem não era somente vulgar, mas lamentavelmente blasfeme.Embora o menino de cinco anos não entendesse seu sentido, foi tomado de 18
    • vergonha e tristeza, chorou amargamente essa involuntária falta, que nunca deixoude lamentar como uma das mais graves de sua vida. E disse que a partir desseepisódio teve início sua conversão. loc. cit Desde então, essa criança começou um processo de sério afervoramentoespiritual. Segundo o parecer de outro Santo, São Roberto Belarmino, Doutor daIgreja e futuro confessor do primogênito do Marquês de Castiglione. Para SãoRoberto Belarmino: “na idade de sete anos é que Luís começou a conhecer mais aDeus, desprezar o mundo e empreender uma vida de perfeição. Ele mesmo comfreqüência me repetia que o sétimo ano de sua idade marcava a data da suaconversão”. id. Aos oito anos o pai levou-o com seu irmão Rodolfo à Florença, para viveremna corte do Grão-duque da Toscana Francisco de Médicis, afim de melhorar Rodolfoe Luís o latim e aprender a falar o italiano puro da Toscana, isso se deu em 1577.Obrigados pela etiqueta, deveriam aparecer com freqüência na corte grão-ducal. Elese via mergulhado no que descreveu como “uma sociedade da fraude, do punhal, doveneno e da mais luxúria”. Em decorrência disso despertou dentro de si um zelointenso pela virtude da castidade. Aumentou então seus atos de devoção àSantíssima Virgem, de tal modo que fez, aos nove anos de idade, voto de castidadeperpétua. Ibid., p. 212-213 Quando tinha 10 anos, numa ausência do pai, recebeu certo dia emCastiglione o Cardeal-Arcebispo de Milão, São Carlos Borromeu. Esse ficouencantado com sua pureza e santidade, tendo declarado “que jamais encontrarajovem que em tal idade atingisse tão elevada perfeição”. Ele mesmo administrou-lhea Primeira Comunhão, aconselhando-o a praticar a comunhão freqüente e a leiturado Catecismo Romano. Após dois anos em Florença o pai os levou para a corte doduque de Mantua, que o havia nomeado recentemente como governador deMonserrate, em 1579, quando Luis estava com onze anos e oito meses. op. cit. Sua infância transcorreu de castelo em castelo, de corte em corte, de festaem festa, mantendo, contudo, sempre o coração ancorado em Deus. Provou, assim,que era perfeitamente possível cultivar a santidade em meio aos esplendores danobreza. Com efeito, aos 12 anos já atingira alta contemplação. Para isso lhe fora demuita ajuda um livro de São Pedro Canísio, apóstolo da Alemanha. A meditaçãocontínua tornou-se para ele quase uma segunda natureza e por isso tinha umdomínio total de si mesmo. Vivendo em plena época do Renascimento, estudou as 19
    • línguas clássicas, chegando a escrever elegantemente em latim. Foi nessa línguaque fez um discurso de saudação ao monarca espanhol Felipe II quando suas armasforam vitoriosas em Portugal. Espírito alerta, perspicaz e sério, triunfou facilmentenos estudos. Ele aliava nobreza, cultura, inteligência e a santidade. Como primeiro passo para uma futura atividade missionária, ele começou adar aulas de catecismo aos meninos pobres de Castilione, durante as férias deverão. Em Casale-Monferrato, onde passou o inverno, freqüentava as igrejas doscapuchinhos e barnabitas. Também praticou as austeridades de um monge,jejuando três dias na semana a pão e água, açoitando-se e se levantando à meia-noite para rezar ajoelhado sobre o pavimento de pedra de um quarto em que nãopermitia que se acendesse fogo, por mais rigoroso que fosse o inverno.(THURSTON; ATTWATER, 1989, p. 213) Em 1581, Dom Ferrante foi chamado para acompanhar a imperatriz Maria daÁustria em sua viagem da Boêmia à Espanha. Sua família o acompanhou, e aochegarem à Espanha, Luis e Rodolfo seu irmão foram designados para pajens deDom Diego, Príncipe das Astúrias. Embora servisse o príncipe e partilhando de seusestudos, Luis jamais omitiu ou reduziu suas devoções. Impôs-se a si mesmo a tarefadiária de fazer uma hora de meditação, sem distração, o que lhe exigia várias horasde concentração contínua. Na corte de um dos mais poderosos soberanos da Terra,afirma-se no coração de Luís o desejo de apartar-se do mundo e dedicar-setotalmente a Deus. Estava decidido a tornar-se jesuíta. Tendo cumprido já os 16anos, decidiu falar sobre isso com seu pai. O marquês, que encantado com asqualidades do filho sonhava com um brilhante futuro para ele e respondeu semrodeios um não e furioso ameaçou de mandar açoitá-lo. id. Para convencê-lo disso, enviou-o de volta à Itália, com missão junto a váriospríncipes. Esperava que, em meio aristocracia da Itália renascentista,desaparecesse no filho o desejo de fazer-se religioso. Luís cumpriu com tanto êxitoas várias tarefas, que o pai mais se firmou no desejo de tê-lo como seu sucessor. Mas, graças a interferência de amigos o marquês cedeu a ponto de dar-lhepermissão relutante e provisória, como príncipe do Sacro-Império, obtido apermissão do Imperador, pôde abdicar de todos seus direitos dinásticos em favor deseu irmão Rodolfo, e assim entrar no noviciado de Sant’Andrea da Companhia deJesus no dia 25 de novembro de 1585 em Roma, com 18 anos incompletos. Seismeses depois morre Dom Ferrante, a partir do momento que o filho o deixou para 20
    • ingressar nos jesuítas, seu pai, que levara uma vida muito voltada às coisas domundo, preparou-se tão bem para a morte, que atribuiu esses sentimentos àsorações do filho. O marques reformara a sua maneira de viver. Pouco depois do seufalecimento, Luís teve que ir a Castiglione resolver uma áspera disputa entre seuirmão Rodolfo e seu tio, a propósito de terras. Sua mãe, que o venerava muito, ecom sentimentos de verdadeira nobreza, recebeu-o de joelhos. (THURSTON;ATTWATER, 1989, p. 214) Dentro do noviciado jesuíta, Luís continuou a ser motivo de edificação paratodos. Por causa da saúde fraca seus superiores tiveram que moderar a seu fervorreligioso e pôr limites às suas grandes penitências: Para ele, era uma alegria sairpelas ruas de Roma, com um saco às costas, pedindo esmolas para o convento. Eratambém enviado a ajudar na cozinha e na limpeza da casa. Não sentia repugnânciaem fazer atos tão humildes, pois tinha diante dos olhos a Jesus Cristo humilhadopelos pecados dos homens, e a recompensa eterna que Ele dá àqueles que serebaixa por amor a Deus. Visitava os doentes e os encarcerados. Mesmo nessasocasiões, mantinha seu recolhimento em Deus e cumpria seus atos de devoção.Dizia que “aquele que não é homem de oração não chegará jamais a um alto graude santidade nem triunfará jamais sobre si mesmo; e toda a preguiça e falta demortificação que se vê em almas religiosas procedem da negligência na meditação,que é o meio mais curto e eficaz para se adquirir as virtudes”. Ficou proibido derezar ou meditar fora dos períodos estabelecidos. id. Uma de suas devoções especiais era a Via Sacra, a qual tornou-se objetocontínuo de suas meditações. Tinha também especial devoção à Virgem, aos SantosAnjos, especialmente a seu Anjo da Guarda, e escreveu um estudo sobre eles. OSantíssimo Sacramento era objeto de suas afeições. Passava horas diante dosacrário em adoração. Quando estava hospedado no colégio da Companhia, emMilão, teve a revelação de que em breve morreria. Em 1591, os jesuítas abriram um hospital em Roma, para cuidar dosempestados numa terrível epidemia, no qual o próprio geral e muitos membros daordem prestaram serviço. Luis foi incluído entre eles, e se encarregou de instruir eanimar os pacientes lavava-os, arrumava-lhes a cama e executava, com zelo, osofícios mais humildes do hospital. No contato com os empestados Luis contraiu dapeste e passou a sentir uma febre persistente que em três meses o reduziu a umestado de grande fraqueza. Em uma oração recebeu a premunição de que morreria 21
    • na oitava de Corpus Christi, nos dias subseqüentes ele recitava o Te Deum em açãode graças. Por volta da meia noite, entre 20 e 21 de junho de 1591, com os olhosfixos no crucifixo e com o nome de Jesus nos lábios morreu. Contava vinte e trêsanos e oito meses de idade. Suas relíquias repousam atualmente no altar da capelaLancellotti da Igreja de Santo Inácio em Roma. Luis foi canonizado em 1726.(THURSTON; ATTWATER, 1989, p. 215 v. VI)4 SÃO FRANCISCO DE SALES Os anos convulsionados na França, depois da Reforma Protestante séc XVI,formaram o pano de fundo da vida de Francisco de Sales. Ele nasceu no dia 21 de agosto de 1567no castelo de Sales, no reino daSabóia, situado entre a França, Itália e Suíça. Foi batizado com o nome de Francisco Boaventura. Teve como padroeiro desua vida Francisco de Assis. Sua mãe assumiu a sua educação ajudada pelo padre Diagi. Com oito anosentra para o colégio de Annecy, aos 14 anos seu pai o manda para a grandeUniversidade de Paris, antes estava na universidade de Navarro, para os filhos denobres. Aos 18 anos passa por uma terrível crise, a de ter perdido a graça de Deus,fez o pedido de estudar no Colégio de Clermont dos Jesuítas, em Paris. Destacou-se em retórica e filosofia e estudou com empenho teologia e com24 anos doutorou-se na Universidade de Pádua, em Direito Canônico e Civil. Seu pai esperava que ele se casasse e a noiva destinada a ele era umajovem herdeira, vizinha da família, mas para satisfazer o pai, tomou aulas deequitação, dança e esgrima. Fez voto perpétuo de castidade, e colocou-se sob aproteção de Maria. Seu pai era um homem de caráter forte e achava que seus filhos deviamconsiderar sua vontade expressa como coisa definitiva. Francisco foi indicado paraprepósito do capítulo de Genebra pelo Côn. Luís de Sales, e isso poderia abrandar aposição do pai. Ajudado por Claud de Granier, bispo de Genebra, mas sem consultarninguém da família, recorreu ao papa, de quem dependia a nomeação, e emseguida vieram às cartas de Roma instituindo Francisco preposto do capítulo. Elesurpreendeu-se, e só com relutância foi que aceitou a inesperada honra, esperando 22
    • com isso obter do pai consentimento para a sua ordenação. Francisco pôs a vesteeclesiástica no mesmo dia em que seu pai lhe deu consentimento, e seis mesesdepois, a 18 de dezembro de 1593, foi ordenado padre. Serviu os pobres com amor e zelo, e no confessionário dedicou-se aos maispobres e humildes com especial predileção. Seu estilo era tão simples que encantava os ouvintes, e mesmo sendo umerudito, evitava encher seus sermões de citações gregas e latinas. (THURSTON;ATTWATER, 1984, p. 248-249) Devido a hostilidades armadas e invasões do protestantismo, a situaçãoreligiosa do povo de Chablais, na orla Sul do lago de Genebra, ficou lamentável,assim o Duque de Sabóia solicitou ao bispo de Granier que enviasse missionáriosque fossem capazes de reconduzir seus súditos para a Igreja. O bispo fez uma primeira tentativa infrutífera e logo o padre foi forçado aretirar-se. Ciente da gravidade da tarefa, Luis oferece-se com essas palavras: Meusenhor, se me julgas capaz de cumprir, manda-me ir. Estou pronto para partir, eficaria feliz em ser escolhido. O bispo aceitou imediatamente. Mas seu pai considerava que aquilo era o mesmo que condenar Francisco àmorte. Ajoelhando-se aos pés do bispo, exclamou: Meu senhor, eu entreguei meufilho mais velho, esperança da minha casa, da minha velhice, da minha vida, paradedicar-se ao serviço da Igreja como confessor, mas não posso dá-lo para sermártir! O bispo tentou influenciar o pai que lhe respondeu: Eu não quero resistir avontade de Deus, mas não tenciono ser assassino de meu filho! Eu não possoconcordar com este risco de vida! Possa Deus fazer o que for do seu agrado, masem relação a este empreendimento, nunca haverá sanção de minha parte! Assim Francisco teve a decepção de iniciar o seu trabalho sem a benção doseu pai. Era 14 de setembro de 1594, dia da Santa Cruz, quando viajando a pé eacompanhado apenas de seu primo, o Côn. Luís de Sales, partiram parareconquistar Chablais. Ficaram hospedados no castelo de Allinges, a seis ou setemilhas de Thonom, onde deviam retornar todas as noites, pois ali o governador daprovíncia havia se estabelecido com a guarnição. Em Thonom, o que restou da população católica eram 20 indivíduosdispersos, e muito amedrontados com a violência para se declararem abertamente. A esses Francisco exortou a terem coragem e perseverança. 23
    • Os missionários pregavam diariamente em Thonom, estendendo-segradualmente aos povoados vizinhos da região. A volta para Allinges era perigosa eainda o inverno. Francisco converteu uma família de calvinistas que lhe prestousocorro, quando numa noite voltando para Allinges, escapou do ataque de lobospassando a noite sobre uma árvore. No dia seguinte essa família o acolheu eprestou socorro em sua choupana, reanimando-o com comida e aquecimento, aoagradecer o visitante falou palavras de esclarecimento e caridade levando todosposteriormente a conversão. (THURSTON; ATTWATER, 1984, p. 250 v. I) Seu pai continuamente enviava-lhe cartas ora ordenando, ora implorando pelasua volta. E o filho respondia que sem a aceitação do bispo ele não tinha direito delargar seu posto. Francisco em meio a tantas dificuldades escreveu: “Nós estamosapenas começando. Vou prosseguir com toda coragem, e espero em Deus contratoda esperança humana”. id. Procurando novos meios de atingir o coração e a mente do povo, começou aescrever, em cada momento livre, folhetos que copiados a mão expunha oensinamento da Igreja em oposição aos erros do Calvinismo. Os seus escritos dessaépoca foram publicados com o título Controvérsias e a Defesa do Estandarte daSanta Cruz. Os folhetos silenciosamente faziam o seu trabalho e as conversõestornaram-se cada vez mais freqüentes com os católicos procurando a reconciliaçãocom a Igreja. Ao finalizar o seu apostolado de missionário, ele tinha persuadidocerca de 72 mil Calvinistas a voltar para a Igreja Católica. Após quatro anos o bispo de Granier em visita a missão, onde foi bemacolhido e pode administrar a confirmação. A fé e o culto foram restabelecidos naprovíncia e Francisco recebeu o nome de apóstolo de Chablais. Dom Granier oconvidou para seu auxiliar e sucessor. Foi para Roma, onde o papa Clemente VIII,desejava que ele fosse examinado em sua presença. Reuniu-se uma assembléiaque se fizeram presentes além do papa, Barônio, Belarmino, o Cardeal FredericoBorromeu, primo do São Carlos Borromeu, e outros sábios teólogos e homens degrande inteligência. Sua nomeação foi confirmada e ele foi ordenado bispo de Genebra em 1602,mas residia em Annecy (agora situada na França), já que Genebra estava sob odomínio dos Calvinistas e ficou fechada para ele. Gozava de favores do rei HenriqueIV. id. 24
    • Sua diocese tornou-se conhecida na Europa por motivo de sua organizaçãoeficiente, seu clero zeloso e os leigos bem esclarecidos. A sua fama, como diretorespiritual e escritor aumentaram. Convenceram-no que se reunisse, organizasse eexpandisse suas muitas cartas sobre assuntos espirituais e as publicasse. E foi oque ele fez em 1609, com o título Introdução à Vida Devota. Essa se tornou a suaobra mais famosa e, ainda hoje, é uma obra clássica que se encontra nas livrariasno mundo inteiro. Mas o seu projeto especial foi o escrito do Tratado do Amor deDeus, fruto de anos de oração e trabalho que continua sendo publicado hoje. Elequeria escrever também uma obra paralela ao Tratado, ou seja, sobre o amor aopróximo, mas a sua morte no dia 28 de dezembro de 1622, aos 55 anos de idade, oimpossibilitou. Além das obras mencionadas acima, suas cartas, pregações epalestras ocupam cerca de 30 volumes. O valor permanente e a popularidade dosseus escritos levaram a Igreja a conceder-lhe o título de Padroeiro de EscritoresCatólicos. (THURSTON; ATTWATER, 1984, p. 251-252 v. I) Francisco aceitou em sua casa um jovem com dificuldade de audição e criouuma linguagem de símbolos para possibilitar a comunicação. Essa obra de caridadeconduziu a Igreja a dar-lhe um outro título, ou seja, o de Padroeiro dos de DifícilAudição. http://oblatosamlat.cybermeme.net/intpg2.html (11/09/2004) Ele colaborou com Santa Francisca de Chantal na fundação da ordemreligiosa das Irmãs da Visitação de Santa Maria, conhecidas pela simplicidade dasua regra e tradições e por sua abertura especial a viúvas. Uns 250 anos mais tarde,através da persistência de uma dessas irmãs, a Madre Maria de Sales Chappuis,que um sacerdote de Troyes, na França, Luís Brisson, fundou os Oblatos de SãoFrancisco de Sales, uma comunidade de sacerdotes e irmãos, dedicados à vida edivulgação do espírito e dos ensinamentos de São Francisco de Sales. PadreBrisson fundou também uma comunidade de irmãs com o mesmo nome, Oblatas deSão Francisco de Sales. id. O espírito e a fama de Francisco e a influência dos seus escritos seestenderam rapidamente depois de sua morte. A Igreja o declarou santoformalmente em 1665 e deu-lhe o título excepcional de Doutor da Igreja em 1867.Sua festa a Igreja celebra no dia 24 de janeiro. (THURSTON; ATTWATER, 1984, p.251-252 v. I) 25
    • 5 SÃO JOSÉ DE CALAZANS Nasceu no Castelo de seu pai em Peralta de la Sal, diocese de Urgel, emAragão, Espanha, no ano de 1557(56), filho do casal Pedro Calasanz e MariaGaston. Aprendeu a ler e escrever com um tutor, e ao completar 11 anos, seus pais oenviaram para estudar humanidades em Estadilha, com os padres trinitários, ondepermaneceu até os 14 anos. Continuou seus estudos na Universidade de Lérida, onde iniciou o seucaminho de vida eclesiástica. Recebeu a tonsura no dia 17 de abril de 1575, dasmãos do Bispo de Urgel, na Igreja de Santo Cristo de Almatá, em Balaguer. Aos 21anos doutorou-se em direito em Lérida. Estudou Teologia em Valência, lá foi contratado como secretário de umamulher da nobreza que quis induzi-lo a pecar com ela, assim resolveu terminar seusestudos de Teologia em Alcalá. Os 42 anos de reinado de Felipe II, não foram para a Espanha um tempo depaz. Pedro, o irmão mais velho de José, partiu para a guerra foi assassinado pelosrebeldes em 1579. José terminara o segundo ano de Teologia e retornou a Peralta e passou umano completo lá. A morte do irmão herdeiro do sobrenome e de todos os bensmudou os planos do pai que quis dissuadir José a abandonar a vocação sacerdotalpara fundar uma família. Pouco depois a morte do primogênito, morre a mãe. Após esses acontecimentos e a pressão do pai para que o único filho homemque restara na família levasse adiante o seu sobrenome, deixaram José gravementedoente. E o pai nessa ocasião fez uma promessa a Nossa Senhora, de que se ofilho restabelecesse a saúde poderia ser padre com a sua benção. E isso se deu nodia 17 de outubro de 1582, quando José recebeu as ordens menores e recebeutambém o subdiaconato em Huesca pelas mãos do Bispo Dom Pedro Frago. Efinalmente no dia 17 de dezembro de 1583, foi ordenado sacerdote pelo seu BispoFrei Hugo Ambrosio de Moncada. Em 1585, José fazia parte dos Familiares, homensde confiança do Bispo dominicano de Barbastro, Frei Felipe de Urries.(TELLECHEA, 1996, p.3-8) 26
    • José foi, secretário e Familiar do Bispo de Lérida, Dom Gaspar João daFigueira, em Monzon, perto de Peralta. O Bispo fora nomeado visitador apostólico do Mosteiro de Montserrat e no dia28 de outubro de 1585 ele chegou ao mosteiro com sua comitiva, do qual fazia parteJosé de Calazans. No dia 13 de fevereiro de 1586, o Bispo visitador foi assassinadoem Montserrat, José volta para casa com o intuito de cuidar de seu pai, e ficou juntodele até o dia de sua morte, no início de 1597. No dia 12 de fevereiro de 1587, José assume o cargo de secretário doCabido, corporação dos cônegos da catedral de Urgel e mestre de cerimônias. Nestemomento Urgel estava sem Bispo. No dia 12 de novembro de 1588, foi nomeado pároco de Claverol e Ortoneda,duas aldeias perdidas entre as montanhas. No dia 28 de junho de 1589, foi nomeado assistente eclesiástico de Tremp, oqual lhe possibilitou conhecer melhor a índole do povo. Sua vocação de educador foi sugerida pelo cônego Pedro Gervás, que juntocom o Bispo de Urgel, queriam fundar colégios, dirigidos por religiosos. José emvista disso parte para Roma passando por Barcelona. O objetivo é conseguir ocanonicato, mas ficando a serviço da diocese. De Barcelona parte de navio para Itália, desembarca em Civita Vecchia,concluindo sua viagem a pé como peregrino. Chega a Roma por volta de fevereiro de 1592, levando às congregaçõesromanas, cartas de recomendação do seu Bispo. Foi morar no Palácio do CardealMarcantonio Colona que lhe confiou a educação dos seus sobrinhos, príncipesMarcantonio e Felipo. Perto do Palácio Colona, estava a Igreja dos doze apóstolos,cuja confraria tinha por objetivo socorrer pobres e doentes. José inscreveu-se nessaconfraria a passou a ajudar pobres e doentes. Em 1596(95), houve uma epidemia que assolou Roma. José destacou-se noserviço dos enfermos na administração dos últimos sacramentos, e a ajudar enterraros mortos, sem perder de vista o desejo de instrução das crianças. A peste agravou-se, gerando uma multidão de órfãos, viúvos e viúvas, e as crianças semacompanhamento, tornando-se marginais. José conclui que a única maneira dereverter essa situação seria através da educação e assim busca ajuda para taltarefa. (TELLECHEA, 1996, p.8-15) 27
    • José procurou ajuda junto ao Capitólio romano, sede das autoridadesmunicipais de Roma, não conseguiu o que esperava, tenta então ajuda junto aosjesuítas e aos dominicanos que tinham colégios, mas nenhum dos dois quiseram seenvolver com escolas populares. Em abril de 1597, Calasanz se encontrou com o pároco de Santa Dorotéia opadre Antonio Brandini e descobriu que anexa a essa Igreja, havia uma escolaparoquial que acolhia crianças que pagavam e outras gratuitamente. Teve então aidéia de um projeto educativo, uma escola onde pudesse estudar gratuitamentesomente as crianças pobres, e ele se encarregaria de arcar com as despesas. Vieram muitas crianças, a metodologia consistia em além do catecismo,esses aprendiam a ler, escrever, gramática e aritmética. Isto se deu em 1597. Assimnasceu a primeira escola popular gratuita, nasciam as escolas pias. No ano de 1598 houve uma enchente no rio Tiber que atingiu a Igreja deSanta Dorotéia e a escola, o número dos meninos, vindos dos os bairros da cidadeque crescia. Duas salas estavam ocupadas e José já tinha alugado uma casavizinha para escola. Em 1600, com a morte do padre Brandini, José toma a decisão de mudar-seao centro da cidade, pois estavam com um número de 500, meninos. Em 1601, mudou-se para o Palácio Vestri. Em 1602, Calasanz reuniu os seus companheiros em uma associaçãoreligiosa que denominaram de Congregação das Escolas Pias. Nessas escolastrabalhavam professores assalariados. Calasanz com freqüência acompanhava as crianças até suas casas, logoapós as aulas. O papa Clemente VIII tendo ouvido falar dessa obra de caridade, enviou doiscardeais para visitá-la. O relatório dos cardeais foi tão positivo que o paparesponsabilizou-se pelo aluguel do palácio até a sua morte. E também deu ajudasque permitiram manter a instituição, graças a essa ajuda o número dos alunoschegou a passar de 700. Com tantos alunos José resolveu instalar um sino paraanunciar o início e o término das aulas, e sofreu um acidente onde quebrou umaperna, que o deixou defeituoso para o resto de sua vida. (TELLECHEA 1996 p. 16-27) 28
    • Em 1605, a escola mudou-se para a casa que pertencia a Otávio Mannini, nafrente da Igreja de São Pantaleão, nesse novo estabelecimento acolheram mais de700 crianças. Para tentar suprir as dívidas instalaram à frente do Palácio uma caixa paracoletas que comprovou a generosidade e a aceitação da escola nesse novo local. No início de 1612, compraram, com a ajuda de Cardeais, um outro edifíciopróximo da Igreja de São Pantaleão, que o Papa Paulo V confiou aos padresescolápios e sugeriu que a nova casa recebesse o nome de São Pantaleão, nessacasa São José viveu mais 36 anos. Em 1617, surgiu na Igreja, a Congregação Paulina dos Pobres da Mãe deDeus das Escolas Pias. No dia 25 de março o cardeal Giustiniani presidiu acerimônia na qual os primeiros escolápios vestiram o hábito religioso. Em 1619, os Cardeais utilizaram a casa dos escolápios como alojamento,entre esses o cardeal Alexandre Ludovisi que posteriormente foi eleito PapaGregório XV, a quem José solicitou a aprovação das constituições e a elevação daCongregação a Ordem Religiosa. José levou três meses para redigir as constituiçõese no dia 18 de novembro de 1621 as Escolas Pias obtiveram o título de OrdemReligiosa. (TELLECHEA 1996 p. 28-31) Os escolápios estenderam-se para Nápoles e Sicília, com professores,noviços, padres tendo como superior padre Alacchi, que tinha plenos poderes parafundar novas casas, de Nápoles a Santiago de Compostela, foram barrados apenasem Veneza por uma epidemia de peste. Thomas Campanella, amigo de Calasanz, era filósofo acusado de rebelde eherege, ficou hospedado na casa de Frascati e a pedido de José ministrou filosofiaaos congregados enquanto esteve lá. Em 1630, os escolápios estabeleceram-se em Florença, o superior foi o padreFrancisco Castelli, que estava acompanhado pelos padres Michelini e Seltimi,amigos e discípulos de Galileu Galilei. Calasanz via com bons olhos o relacionamento de seus congregados com ossábios florentinos, apesar dos processos e condenações que Galileu sofria do santoofício. Essa comunidade de Florença acolheu alunos de Galileu e padres cultos. Foi admitido um sacerdote de meia idade não muito culto de nome MarioSozzi, que a seu tempo fez a profissão. Durante anos esse demonstrou uma conduta 29
    • obstinada e perversa, sendo um incômodo para os irmãos, mas conquistouinfluencia e boa reputação junto ao Santo Ofício e ao Tribunal da Santa Inquisição. Em 1639, conseguiu para si a nomeação provincial dos clérigos regulares dasescolas pias da Toscana, com poderes extraordinários e independência em relaçãoao superior geral. Dirigiu a província como quis e prejudicou como pode a reputaçãode São José, junto às autoridades romanas e por fim o denunciou junto ao SantoOfício. O Papa Urbano VIII, enraivecido ordenou que José fosse preso. O CardealCesarini, como protetor da Instituição e querendo defender a José, ordenou que osdocumentos e cartas do padre Mário fossem apreendidas, Os mesmos envolviamalguns documentos do Santo Ofício. Monsenhor Albizzi, executa a prisão de Calasanz e seus companheiros,exigindo que Calasanz entregasse os documentos que supostamente foramroubados do padre Sozzi, por ocasião da investigação ordenada por Cesarini. Calasanz nada sabia e o Cardeal interveio em favor dos caluniados que foraminocentados. (TELLECHEA 1996 p. 35-38) Padre Mário ficou ileso e continuou a tramar para conseguir controle de toda ainstituição, apresentou José como idoso e incapaz para essa responsabilidade. Conseguiu através de artifícios afastá-lo do cargo e maquinou para que fossedesignado um visitador apostólico favorável às suas próprias intenções. Essevisitador e padre Mário apoderaram-se do supremo comando da instituição e Josésubmetido ao tratamento mais humilhante, insultuoso e injusto, enquanto a ordemera reduzida a uma confusão e uma impotência total. No final de 1643, Mário veio a falecer, sendo substituído pelo padre Cherubini,que continuou com a mesma política e José suportou com paciência e insistia que aordem obedecesse aos seus perseguidores, pois eles eram de fato autoridades. Atémesmo defendeu Cherubini contra uma oposição violenta desencadeada por algunssacerdotes jovens indignados com a traição. THURSTON; ATTWATER, (1992, p.234) Foi nomeado um representante do Papa para fiscalizar a Ordem. O resultadofoi um decreto assinado em 16 de março de 1646 pelo Papa Inocêncio X, reduzindoa Ordem a Congregação de votos simples, sujeita ao Bispo diocesano. op. cit. 30
    • Em julho de 1648, Calasanz sofreu um outro acidente. Tropeçou em frente aoPalácio dos Medicis, machucou o pé e como a ferida não curava ficouimpossibilitado de sair de casa. Padre Cherubini ficou encarregado de redigir as novas constituições, porémdentro de alguns meses ele fora acusado pelos auditores da Rota de máadministração do colégio Nazareno,do qual era reitor. Ele se afastou e caiu nadesgraça, mas no ano seguinte antes de morrer se reconciliou com José deCalasanz, que o confortou em seus últimos momentos. Algum mês mais tarde, em 25 de agosto de 1648, faleceu o próprio José,sendo enterrado na Igreja de São Pantaleão. Ele estava com 92 anos e foicanonizado em 1767. O fracasso da Instituição de Calasanz foi apenas aparente, sendo elareconstituída por votos simples em 1656 e restaurada como Ordem religiosa em1669. (THURSTON; ATTWATER, 1992, p. 235 v. VIII) Atualmente, os Clérigos Regulares das Escolas Pias, comumente conhecidospor Piaristas ou Escolápios estão em várias partes do mundo como: Ásia, África, nasAméricas do Norte, Central e do Sul e na Europa.6 SÃO VICENTE DE PAULO Natural de Pony, aldeia próxima a Dax, na Gasconha, França. Seus pais João de Paulo e Beltrana de Moras proprietários de um pequenosítio. Entre seis filhos Vicente era o terceiro de quatro meninos. (IBÁÑEZ, p. 38) O pai reconhecendo a vivacidade de Vicente e sua inteligência coloca-o aoscuidados dos franciscanos reclusos, em Dax. Vicente conclui seus estudos naUniversidade de Tolosa, e no dia 23 de setembro de 1600 é ordenado sacerdote aos20 anos, pelo bispo de Perigeux, Francisco de Bourdeilles, na capela de sua casa decampo, hoje Château L’Evêque. Em 1608 entra pela primeira vez em Paris e mora com um amigo.No ano de 1609 é acusado de roubar 400 escudos por esse seu amigo. Essemagistrado persegue-o juridicamente, exigindo da autoridade eclesiástica quepublicasse contra Vicente, uma monitória que era um mandato da autoridadeeclesiástica, por solicitação de um juiz leigo, para que, sob pena de excomunhão, semanifestasse àquele que, soubesse de determinado fato, geralmente de 31
    • determinado crime (...). As monitórias eram lidas pelos párocos no momento daprédica da missa dominical por três domingos consecutivos. Vicente foi caluniadodurante seis meses até que o verdadeiro ladrão confessou o roubo. (IBÁÑEZ, p,41) Ele foi em 1610, nomeado capelão da rainha Margarida, esposa repudiada deHenrique IV. Cargo de baixa rentabilidade e de nenhum prestígio social em Valoi.Ibid., p. 42 Em 1612, foi nomeado ministro paroquial pela primeira vez em lichy, depoisde ter decidido não entrar na nova comunidade do Oratório de São Felipe Néri. Em Paris, Vicente adquiriu conhecimento com o sacerdote Pedro de Berulle,superior da ordem do Oratório, mais tarde, Cardeal que tinha grande estima porVicente e que solicitou em 1613 que ele fosse tutor dos filhos de Felipi de Gondi,conde de Joigny onde ficou até 1617. A senhora de o Gondi escolheu como seudiretor espiritual e confessor. Ibid., p. 43 Em 1617, no interior de Folleville, Vicente ao atender a confissão de umcamponês, percebeu quanto necessária se fazia a instrução das pessoas comrelação a esse sacramento, viu o estado espiritual deplorável em que seencontravam as pessoas no interior da França. A senhora de Gondi insistiu aVicente que pregasse na Igreja de Folleville e que desse uma instrução completa aopovo sobre a obrigação de arrepender-se e de confessar os pecados. Após essacatequese, inúmeras pessoas vieram ao seu encontro, ao ponto que ele teve quesolicitar ajuda dos Jesuítas de Amiens para atender as confissões. (THURSTON;ATTWATER, 1989, p.181) Auxiliado pelo padre Berulle, Vicente aos 38 anos deixa a residência dacondessa, em 1617 descobre que somente os pobres é que poderão traçar-lhe ocaminho para encontrar a Deus. Tornar-se pároco em Châtillon-les-Dombes, numaparóquia em situação de miséria. Ali converteu o conde Rougemont e outros. No dia 23 de agosto de 1617, Vicente de Paulo reúne as pessoas maiscomprometidas da paróquia na ação caritativa e funda a primeira Confraria daCaridade ou Conferência Vicentina, que quer dizer, uma organização cristã leiga,sensível a todas as misérias dos pobres, e comprometida através de esforços pararemedia-las. (IBÁÑEZ, p. 53) Voltou a Paris, para exercer seu apostolado junto às galeras que estavamconfinadas na Conciergerie. Foi designado oficialmente capelão da penitenciária, da 32
    • qual o conde de Gondi era general, nesse lugar em 1622 pregou missão para oscondenados. A senhora de Gondi persuadiu o marido a cooperar com ela na organizaçãode uma associação de missionários bem formados e zelosos, para dar assistênciaaos vassalos e arrendatários no condado e aos habitantes do interior, em geral.Apresentaram esse plano a seu irmão, que era arcebispo de Paris, e o mesmodestinou o Collége de Bons Enfants, para abrigar a nova comunidade. Os membrosdesta deveriam renunciar aos cargos eclesiásticos, dedicar-se às cidades menores eas aldeias, e a se sustentarem de um fundo comum. São Vicente tomou possedessa em abril de 1625. (THURSTON; ATTWATER, 1989, p.182) Em 1633, o prior dos cônegos regulares de São Vitor, doou à Instituição oconvento de São Lázaro, que foi transformado na casa mãe da Congregação. Combase nesse nome, os padres da missão são conhecidos como lazaristas, porém asvezes como vicentinos, segundo o seu fundador. id. Formaram uma Congregação de padres seculares, que se submetem aquatro votos simples: pobreza, castidade, obediência e estabilidade. Dedicam-se amissões, principalmente à população do campo. Atualmente, possuem colégios emissões em todas as partes do mundo. Vicente em vida assistiu à fundação de vintee seis casas instaladas na França, no Piemonte, na Polônia e em outras partes,inclusive em Madagascar. id. Ainda em 29 de novembro de 1633 Vicente de Paulo e Luísa de Marillacfundaram a Companhia das Filhas da Caridade. (IBÁÑEZ, p. 53) Vicente buscava o alívio dos seus semelhantes em qualquer necessidade,tanto espirituais como materiais. Assim organizou a primeira instituição de caridadeem Chântillon, para dar assistência as pessoas pobres e enfermas de cada paróquiae dessas instituições, com a ajuda de Santa Luiza de Marillac, surgiu a Instituiçãodas Irmãs de Caridade, cujo convento é o quarto do doente, sua capela a Igrejaparoquial, seu claustro as ruas da cidade. Essas Instituições de caridade eram mantidas pelas senhoras ricas de Paris,que Vicente organizou com o nome de Damas da Caridade, com a finalidade decoletar fundos para dar assistência às suas obras. Conseguiu a fundação e a direção de diversos hospitais para enfermo,crianças abandonadas e idosas e em Marselha o hospital dos sentenciados. Todas 33
    • essas instituições ele organizou sob uma regulamentação comum. (THURSTON;ATTWATER, 1989, p.183) Fez um esquema especial de exercícios espirituais para os que estavam parareceber as ordens sacras e um outro tipo para os que desejavam fazer umaconfissão geral. Prescreveu conferências eclesiásticas regulares sobre os deveresdo estado clerical, com a intenção de sanar o relaxamento e abuso s que via ao seuredor. id. Durante as guerras da Lorena, Vicente arrecadou esmolas em Paris paraajudar as vítimas da guerra. Enviou seus missionários aos pobres e doentes daPolônia, Irlanda, Escócia, até as ilhas Hébridas e durante a sua vida, mais de 1 mil eduzentos escravos cristãos foram libertados no norte da África. Foi chamado paraatender o rei Luiz XIII, quando estava a morte, e contava com os favores da rainharegente, Ana da Áustria. A seu intermédio em 1652 as freiras beneditinas inglesasde Ghent receberam permissão para abrir uma casa em Boulogne., id. Vicente pretendia que a humildade fosse a marca da sua congregação e essalição ele não cansava de repetir. Certa vez, apresentaram-se a ele dois candidatoscom uma vasta formação intelectual, ele recusou a ambos dizendo: “Vossasaptidões vos elevam acima de nossa condição. Vossos talentos podem ser úteis emalgum outro lugar. Nossa maior ambição é ensinar aos ignorantes, levar ospecadores ao arrependimento e semear o espírito do Evangelho da Caridade, dahumildade, da mansidão e da simplicidade nos corações dos cristãos”. E sustentava que uma pessoa, dentro do possível, nunca deveria falar de simesma ou de seus próprios problemas. Tal procedimento provinha do coração quealimentava o orgulho e o amor próprio. Ibid., p.184 Preocupou-se com o surto e a proliferação da heresia jansenista e se opôsativamente aos falsos mestres, e não permitia que ficasse na congregaçãosacerdote que professassem suas próprias doutrinas. No fim de sua vida sofreu graves enfermidades. Faleceu no outono de 1660,no dia 27 de setembro, sentado e sua cadeira com oitenta anos. id.7 IRMÃOS CAVANIS A família Cavanis fazia parte da ordem dos secretários da República deVeneza. 34
    • Os antepassados dessa família, provenientes de Bérgamo, instalaram-se emVeneza por volta de 1500 e na República faziam parte da ordem dos secretários. O Conde João Cavanis de 1769, até sua morte foi secretário da Chancelariaducal, casou-se no dia 27 de abril do mesmo ano com Cristina PasqualigoBasadonna, descendente do patriziato veneziano. (POSITIO 1979, p. XXVII) O conde João foi um homem de profunda convicção religiosa cristã. Formou-se especialmente na escola dos dominicanos observantes do Zattere, estudouteologia e filosofia. No final de sua juventude demonstrou-se preocupado em animarde espírito cristão da frívola sociedade dos salotti; participou ativamente em váriasconfraternite cittadine, mas se distingue na irmandade dos pobres, na sua paróquiade Santa Inês. Sua esposa não era muito culta, mas atenta e piedosa, como afirmaram osfilhos e testemunhas que a conheceram. O Casarão dos Cavanis localiza-se na Riva delle Zattere, próximo a Igreja deSanta Inês. O jovem casal logo teve três filhos: Apolônia Beatriz Maria Cavanis quenasceu no dia 30 de julho de 1770, o segundo filho de nome Antonio Ângelo MariaCavanis nasceu no dia 16 de janeiro de 1772 e o terceiro filho Marcos Antonio PedroMaria Cavanis que nasceu no dia 04 de maio de 1774. Como se percebe a vidapiedosa e devota do casal deu aos três filhos nome de Maria. Ibid., p. XXVIII Antônio foi encaminhado para os estudos numa escola de religiosas próximaaos dominicanos observantes. Marcos já na infância preferiu um professor homem.Desde a meninice o pai incentivou os meninos a escreverem um diário, costumeesse que possibilita hoje um maior conhecimento objetivo de ambas as vidas. Em 04 de julho de 1778, com seis anos, Antônio passa a ter aluas com umsacerdote dominicano, o padre Joaquim Calderari, que em 8 de março de 1780começou a ministrar aulas também para Marcos. Ibid., p. XXIX Aos nove anos Marcos, compõe poesias de sua autoria. Antônio aos 11 anos recebe a primeira Eucaristia, na festa de Nossa Senhorado Carmo no ano de 1782 e Marcos também aos 11 anos, na festa do SantíssimoNome de Maria no ano de 1785. Ibid., p. XXXVIII Os pais educaram os próprios filhos com sensibilidade pedagógica e cristãcaracterizada de delicadeza, grande afeto, autoridade, verdadeira e sólida piedade. 35
    • Em 1790, Marcos entrou na escola do padre Antônio Venier. (POSITIO, 1979p. XXIX) A atividade semanal que religiosamente exerciam com o pai era a visita aospobres; chegavam nos casebres para conversar e consolar as famílias distribuindoroupas e comida. A partir dessas visitas foi crescendo e se desenvolvendo o senso crítico dosmeninos que cada vez mais percebiam que existia uma diferença social desumanaque os separava; que ao seu redor existia sofrimento e diferentes condições devidas. Ainda na infância num instinto de sintonia fraterna ambos foram positivamentemarcados com o exemplo do pai, que os sustentou para no futuro abraçarem adedicação aos pobres em especial os indefesos. (SANTA CRUZ, 1993, p.9) Antonio foi eleito notário extraordinário da República de Veneza em 21 dejaneiro de 1788; em 28 de dezembro de 1789 foi eleito secretário do governador dasgaleras, Benedetto Trevisan. Em meio a nobreza ele percebeu que a classe alta édominadora e corrupta, assim vive um fastio do material enquanto encontra a misériaem cada esquina, quando retornava para casa. Durante a experiência desses anos, de 1790 a 91, nasce nele o desejo defazer-se religioso. Certo de seu desejo leva-o ao conhecimento do pai religioso, quepara sua surpresa não aceita, recebendo assim o primeiro não de sua vida. Ibid.,p.12-13 Aos 23 de novembro do ano de 1793, morre o Conde João Cavanis, o motivofoi uma asma convulsiva que o consumiu; antes de morrer pede aos filhos para quecuidassem da mãe e não esquecessem os pobres. Antônio nessa ocasião torna-se oresponsável pela família e com 21 anos já estava formado pela academia dosDominicanos, tornou-se teólogo e filósofo e na Suma Teológica de Santo Tomás,achou a explicação da verdadeira Caridade. Antônio faz questão de amar os pobrescomo o pai, como se fossem seus próprios filhos. (POSITIO, 1979, p. XXX) Já Marcos, dedica-se a cuidar da mãe, que concede a Antônio autorizaçãopara seguir seu caminho vocacional com os estudos eclesiásticos e abandonar seuemprego na secretaria ducal. Marcos também tinha conseguido emprego desecretário junto ao governo do Veneto e a partir de 1792, foi intensa sua atividade naconfratrenite cittadine, dedicando principal cuidado à fraternidade dos pobres, a 36
    • escola do Santíssimo Sacramento, a escola da doutrina; todas essas atividades emsua paróquia de Santa Inês. Em 5 de março do ano de 1794, Antonio renunciou o ofício de secretário erecebeu a veste talar (POSITIO, 1979, p.XXX) Em 6 de abril recebeu a tonsura e as quatro ordens menores. No entantopede ao Senado, para obter uma pensão que lhe permita constituir um patrimônioeclesiástico. Antônio conseguiu com o patriarca de Veneza, Dom Frederico MariaGiovanele, dispensa dos estudos teológicos. Em 14 de março de 1794, ele recebe osubdiaconato e em 20 de dezembro foi ordenado diácono e aos 21 de março de1795 é ordenado sacerdote, pelo Patriarca de Veneza Frederico Giovanelli, sendodispensado pela Santa Sé dos 13 meses que faltavam para completar a idadecanônica exigida para sacerdotes. Também o patriarca permite que Antôniotrabalhasse na Igreja de Santa Inês. SANTA CRUZ, (1993, p.18) Nos primeiros anos de 1796, inicia em casa uma Academia de Santo Tomás,aprofundando o estudo na Suma Teológica, entre os participantes do grupo se faziapresente seu irmão Marcos ibid., p. XXXII Padre Antônio realizando o desejo do pai começou trabalhando no hospitaldos incuráveis. Um lugar em estado de pestilências, que exalava um cheiro depodridão. Aqui o recém sacerdote contrai uma fraqueza generalizada acompanhadade tosses convulsivas. Nessa fase de sua vida deixa escrito: “Fui Marcado pelaCaridade Divina”. Apalpei o amor de Deus nessa Terra”...”Achei o céu na Terra”.“Sinto-me pai... que ama os doentes como filhos!” A caridade me faz sofrer, mas mefez muito mais feliz! Estou marcado com o amor de Deus! Aqui nesse hospitalrecorda constantemente a vida de São Camilo de Lellis. (SANTA CRUZ, 1993, p.18) Em contra partida Marcos continua seu trabalho no governo: acompanhaprocessos, transcreve as corrupções, anota as irregularidades, constata o desnívelmoral nas camadas sociais. O Doge Ludovico Manim assina uma capitulação tornando Veneza RepúblicaPopular e assim Napoleão tomou conta de Veneza sem pisá-la. Meses depois avendeu para a Áustria, no dia 17de outubro de 1797, pondo fim em 17 séculos deglória da sereníssima. Veneza torna-se escrava de imperadores e continua vivendocomo se nada tivesse acontecido. Ibid., p.23 37
    • Com Igrejas vazias e colégios fechados, restam: ignorância, imoralidades,juventude abandonada, principalmente crianças e jovens sendo objetos de prazerese de explorações comerciais. Em meio a tantas atrocidades causadas pelos homens, Marcos faz opropósito de lutar pelos abandonados, injustiçados, lutar pela verdade e pela justiça. Na casa da mãe os irmãos se encontram e dialogam, planejam e aprofundamidéias que traziam das reuniões da academia teológica de Santo Tomás, com osdominicanos. O tema que mais refletiam e se enamoraram foi do da caridade. Concluíram que a caridade evangélica é a do Bom Pastor, do Filho pródigo,da ovelha perdida que vale as noventa e nove e da noventa e nove que vale umaovelha, pois toda pessoa tem valor infinito perante o criador. Marcos estarrecido com o abandono da juventude veneziana: vendo meninaspelas ruas estreitas dos quarteirões, rapazes procurando prazeres ao longo daamurada do grande canal, questiona-se quanto ao que poderia fazer. (SANTACRUZ, 1993, p.28) A frase mais marcante da caridade para esses irmãos desde a infância estaescrita na carta de São Pedro apóstolo: “Deus não faz distinção de pessoas”. Assimos irmãos insistem que a caridade deve ser igual para todos. Aqui cabe umpensamento de padre Antônio citado por Santa Cruz: “O que devemos assegurar nonosso apostolado é um coração de pai, e entranhas de mãe, se não vamos cair noerro de tanta pastoral veneziana, que dá preferência aos pobres ou aos ricos. Anossa Caridade deve ser como em família, onde todos têm voz e vez, sem distinção.Ninguém é preferido e ninguém é excluído”. Ibid., p.29 Com a queda da República Veneziana, em 1797, houve consequênciasdesastrosas. No prazo de aproximadamente nove anos se revezaram quatrogovernos; a cidade se tomou terra de conquista e, quem sofreu as consequências,foi o povo e a juventude. Com o desejo de fundarem uma escola totalmente baseada na caridade, nofinal de 1797, Marcos apresenta o primeiro aluno, um menino analfabeto, pobre eórfão chamado Francisco Agazzi, que Antônio começou a instruir privativamente.Após esse surgiram outros que Antonio instruía quase gratuitamente. (POSITIO,1979, p. XXXII) Padre Antônio leva-o para a sala de visitas e começa a instruí-lo. Os IrmãosCavanis esbanjam nesse menino todo seu amor de pais espirituais e nasce no 38
    • palácio dos Cavanis a escola totalmente gratuita com um aluno. (SANTA CRUZ,1993, p.30) O jovem Francisco entusiasmou-se com o exemplo de vida dos Irmãos epediu orientação para entrar no seminário, isso se deu no ano de 1802, após esseprimeiro, mais quatro pediram para serem acompanhados pelos condes. Padre Marcos comentou: “nós não iremos imitar os colégios particulares, queapenas dão aulas. Isto fazem muito bem, os leigos”. Padre Antônio confirmou:“Vamos incendiar o mundo com a Caridade que é o amor de Deus vivo em nossoscorações”. Ibid., p.32 A Congregação Mariana foi iniciada no dia dois de maio, no ano de 1802 comnove alunos que entraram em procissão na Igreja de Santa Inês. Um movimentomariano que marcou o início do apostolado dos dois irmãos. Uma experiência deformação humana e cristã, em prol das crianças e jovens pobres de Veneza. Em 2de janeiro de 1804 nasceu a primeira Escola de Caridade Cavanis, com umprofessor e 15 alunos. Desta maneira, os irmãos anteciparam a fundação das"escolas públicas" por parte do Estado e iniciaram uma obra de saneamento social eespiritual. Marcos como seu irmão também sente o desejo de tornar-se padre, e eleescolheu uma terça-feira de carnaval para pedir sua demissão na Chancelaria Ducal,era o dia 13 de fevereiro de 1806. Ele também já tinha estudado filosofia e teologia,o que possibilitou logo a sua ordenação no dia 20 de dezembro de 1806, pelas mãosdo Bispo Caorle Giuseppe Peruzzi. Em 1806, fizeram um contrato de aquisição do Palácio Da Mosto, junto aIgreja de Santa Inês. No mês de abril de 1808, abriram uma tipografia para osjovens, com a intenção de ocupá-los no contra turno para não ficarem ociosos pelasruas de Veneza e também para oferecer profissionalização àqueles que nãoconseguiam se sair bem nos estudos. E nesse mesmo ano no dia 10 de setembro,iniciaram o Instituto feminino, que conseguiu sede definitiva, no dia 10 de setembrode 1811, no ex-Convento das Eremitas, próximo a paróquia de São Trovaso. Umasenhora nobre de nome Madalena de Canossa, se prestou em organizar e formar asprimeiras mestras. (POSITIO, 1979, p.XXXVI) No ano de 1810, os Cavanis, começaram a formar uma biblioteca para osjovens e os sacerdotes. E no ano de 1813, iniciaram a publicação de uma série delivros para serem utilizados pelos jovens em seus estudos, alguns desses foram 39
    • manuscritos pelo Padre Antônio e custaram a ele longo trabalho e muito cansaço.Ibid., p. XXXV Os dois Cavanis pensaram instalar suas escolas em todos os bairros deVeneza. A essa iniciativa unem os exercícios espirituais e depois as conferênciasdominicais, para os jovens, que o padre Antonio executou até a sua velhice. Bemcomo os retiros mensais para sacerdotes, marcados pela humildade e simplicidadedo mesmo. No ano de 1810, a Igreja de Santa Inês, foi fechada para o culto e os servosde Deus, perderam a Capela do crucifixo, onde residia a Congregação mariana, noentanto se improvisaram num amplo oratório do Palácio Da Mosto. Em 1811, a policia vetou, todas as funções, exceto a missa. No ano seguintede 1812, o governo impôs aos servos de Deus de sujeitarem-se, como eramprofessores particulares a um exame de habilitação estatal. Tudo se concluiu com o reconhecimento estatal de valor público das Escolasde Caridade, com todos os seus direitos. Em decorrência desse reconhecimento e devido a fama dos Irmãos que seespalhava cada vez mais, por duas vezes o Imperador da Áustria veio visitar a obra.A primeira no dia 12 de dezembro de 1815 e a outra no dia 23 de fevereiro de 1819,sem esquecer que no ano de 1817, as Escolas de Caridade receberam o PalácioCornes, por parte do papa Pio VII. Ibid., p. XXXVII Em 27 de agosto de 1820, festa de São José de Calasanz, o padre Antoniodeixa seu palácio para entrar em um estabelecimento pobre e úmido que os irmãoschamaram de Casetta, para dar início a Congregação das Escolas de Caridade.Estavam com ele mais quatro jovens. O Padre Marcos continuou morando em casapara cuidar da mãe octogenária. Estava fora da Casetta só aparentemente, porqueespiritualmente sofria por não poder seguir o irmão, e materialmente continuava adar para a obra todas as suas energias. No ano de 1830, quando o patriarca de Veneza, Jacopo Mônico visitou aCongregação, os fundadores apresentaram a ele o projeto das constituições, dessacongregação, a qual foi inspirada nas constituições dos Escolápios, com algumasparticularidades que a distingue da outra. As constituições e normas da Congregação das Escolas de Caridadeentraram em vigor no dia 2 de fevereiro de 1831. Salvo que a referida Congregaçãoainda não tinha aprovação pontifícia, que chegou após dificuldades e os obstáculos 40
    • da burocracia governativa, no dia 16 de julho de 1838, quando o patriarca deVeneza a apresentou solenemente. POSITIO, (1979, p. XLIV)7.1 TEMPERAMENTOS DIFERENTES Padre Marcos devido a sua atividade de manter a obra encontrava-se menosjunto aos jovens, mas sempre que pudesse se encontrava no meio deles. Bastava sua presença para levar os jovens ao recolhimento no oratório e aespontaneidade no horto. Com um olhar ou palavra obtinha a perfeita e amorosaobediência dos jovens. Não se pode pensar que tivesse uma atitude dominadora oupalavras fortes para obter o que queria. Seu jeito de ser era repleto de Caridade e sófervida Caridade. Conseguia tudo o que queria dos jovens porque eles sabiam eram muitoamados por ele. E por isso iam com gosto ao seu encontro e não se cansavam deestarem com ele; ele a um olhava, a outro passava a mão na cabeça, a um faziaelogio, a outro exortava; tanto os elogios ou exortações sabiam dá-las comespontaneidade límpida, era para os jovens uma maravilha ouvi-lo. Com duas palavras moldava o caráter de uma criança e quando aconselhavapoucas palavras valia um sermão. Olhava por exemplo um indisciplinado sem rumoe dizia, “você é como um navio na tempestade... veja bem” repetia com a suaamabilidade “que não saia da boca o cérebro que você tem!” Com um jeitoespontâneo e amável, brusco na maneira de se expressar, mas era com se umapequena nuvem passasse na frente de um astro luminoso. (Zanon, 1946 p. 104-105) Padre Antônio no meio dos jovens parecia São Felipe Néri, de caráter amável,atraente e encantador, segundo as palavras de um congregado o padre Paoli. Erauma coisa só vê-lo e sentir necessidade de amá-lo e de se fazer perto dele paraouvir suas palavras que desciam no coração, fecundante como o orvalho, e docecomo o balsamo. Sua postura era sempre sorridente, e os jovens demonstravamvivo amor, com amorosa reverência ao mestre, assim o chamavam no início da obra.id. Para ele o principal dever da educação Cavanis consiste em dar assistênciaaos alunos, nos momentos de recreação, nessa hora em que colocam todas as suasenergias nos jogos para divertirem-se, nessa hora cheia de espontaneidade e 41
    • vivacidade, justamente porque nesse momento se pode conhecer mais depressa ocaráter das crianças e dos adolescentes. Padre Antônio era sempre pronto em receber os adolescente e dividi-los emgrupos com os respectivos coordenadores. (Zanon, 1946 p. 105) Padre Marcos passeava, observava, estudava. Ele parava em um ponto ouem outro, animando os adolescentes com vivacidade. Com um olhar chamavaatenção dos mais indisciplinados: fazia-se presente animando a torcida. Tinha o sentimento de que de 10 palavras, nove podiam ser perdidas, mas adécima cairia num terreno bem disposto, para fazer raiz. Padre Marcos recomendava de confiar pacientemente no bom êxito daeducação cristã, também quando desanimados, ou acreditando que se tivesseperdido tudo ou todo o cansaço que se tinha empregado: “Não é verdade que tudose perde quando se joga água na peneira, porque não se pode negar que a peneirafica molhada”. Ibid., p. 106 Padre Antonio foi oficialmente superior da congregação até 1852, quando sedemitiu no dia 5 de julho, diante do patriarca Aurélio Mutti, passando seu encargopara o padre Vittorio Frigiolini. Por volta dos anos de 1850-51, as energias dos irmãos foram decaindo e osúltimos anos, cheios de sofrimentos físicos. Padre Marcos a partir de 1851, começaa manifestar uma enfermidade mental que foi se agravando rapidamente quando em1852 ele já apresentava estar fora da realidade cotidiana, mas só em janeiro de1853 padre Casara começou a falar de sua confusão mental. Em 11 de outubro de1853, morreu o padre Marcos. (POSITIO, 1979, p. LIV) No dia 12 de março de 1858, aos 86 anos, padre Antônio dá sinais de queestá prestes a se encontrar com irmão, recebe as indulgências e os últimossacramentos. Padre Casara pede que abençoe a todos os filhos próximos edistantes. Ele o faz, terminando a dizer três vezes “Amém, Amém, Amém”. (SANTACRUZ, 1993, p.111) 42
    • 2 CAPÍTULO PILARES PEDAGÓGICOS “A obra a que nos dedicamos provoca conflitos entre o caminho do bem e o caminho do mundo, portanto precisamos de maneira especial do Espírito de Fortaleza. (Pe. MARCOS CAVANIS 08/12/1841)APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA Num primeiro momento fica uma incógnita muito peculiar. O que vem a serPedagogia Cavanis (PC)? Pedagogia palavra grega paidas aghein, que significa conduzir os adolescentes. Conduzir para onde? Conduzir a todo desenvolvimento do homem incipiente que é o adolescente, que ainda não conhece esse mundo; do adolescente que abre seus olhinhos transtornados parta o universo; do jovenzinho que se apresenta com a esperança primaveril de cada bem mais amável; do adolescente que começa a lutar; do jovem já crescido que está para entrar na vida. ZANON, (1946 p.7) Entende-se pedagogia como teoria da educação. O termo teoria dentro dafilosofia é entendido como atividade da contemplação e o termo educação vem dolatim [educare, educere] em cujo a raiz está [dux] chefe, general, educar seriaconduzir alguém para determinado objetivo, como um general conduz uma guerraem busca da vitória, processo conduzido de fora. Mas o termo educação no seusentido morfológico significa tirar para fora, trazer à luz e fica muito bem relacionadoa imagem socrática [maieutica]. Educar. Cavoucar. Chamar o outro. Cavoucar das potências do homem tudo aquilo que pode dar de bom: trabalho progressivo que nos permitirá obter de um frágil fantoche um homem válido e virtuoso.id.
    • O “eu”, que representa a vontade consciente ou a liberdade de decidir, tem deser treinado para tornar-se líder e não um fantoche. CURY, (2003, p.30) Educar. Tirar fora. Cortar tudo o que é defeituoso. Cortar tudo aquilo que é prejudicial, restará o homem perfeito; por quanto de perfeição se possa falar nessa pobre vida humana daqui, domínio da fragilidade e de tantas miséria. ZANON, (1946 p.8) Educar não é repetir palavras, é criar idéias, é encantar. CURY, (2003, p. 34) Sendo assim Pedagogia Cavanis é a sistematização teorética da práxiseducativa Cavanis, desenvolvida entre o final do século XVI e início do século XVIIna republica de Veneza na Itália, por Antônio e Marcos, sacerdotes seculares, maisconhecidos como Irmãos Cavanis e que fundaram a Congregação das Escolas deCaridade. Alfabetizar-se não é aprender a repetir palavras, mas a dizer a sua palavra.(...) Aprender a dizer a sua palavra é toda a pedagogia, e também toda aantropologia. FREIRE, (1987, p. 18) É necessário, portanto uma pedagogia, ciência e arte contemporaneamente; também um apanhado de cognição logicamente coligadas em relação com a verdade( é por isso que a pedagogia é um ciência); também uma habilidade experimentada para obter o objetivo ao qual se destina (é por isso que a pedagogia verdadeira é uma arte, uma arte preciosa, mais nobre de todas as artes). ZANON, (1946 p.8) Ensinar não é transferir a inteligência do objeto ao educando mas instigá-lo nosentido de que, como sujeito cognoscente, se torne capaz de inteligir e comunicar ointeligido. (FREIRE, 1996, p. 119) A pedagogia Cavanis surge com o desejo de suprimir uma carência de afeto eeducação que vive as crianças e jovens do século XVII na cidade de Veneza.Alvorece como luz educativa dentro do período iluminista e tem em seu interiorcontribuições de saberes e valores históricos de sua época. E que ainda hoje se fazconvidativo para uma intensa meditação. A centralidade desta Pedagogia Cavanisencontra-se no homem. Se não posso, de um lado, estimular os sonhos impossíveis, não devo, deoutro, negar a quem sonha o direito de sonhar. Ibid., p. 144 A partir de uma peculiar e singular intuição pedagógica os Irmãos Cavanisapresentam como paradigma de seu projeto educativo o próprio Cristo através dealguns tópico, próprios de sua pedagogia: a paterna vigilância, a formação do 44
    • coração, o horto ou recreios sadios, o oratório e a pratica de exercícios espirituaispara crianças e jovens.1 O EDUCADOR CAVANIS Um excelente educador não é um ser humano perfeito, mas alguém que temserenidade para se esvaziar e sensibilidade para aprender. (CURY, 2003, p. 17) Segundo os Irmãos Cavanis, tem de ser uma pessoa capacitada em abundânciade todos os bens espirituais e naturais que seu trabalho deve desenvolver nosalunos que lhe foram confiados. Saúde física, necessária para poder suportar ocansaço que o trabalho educacional exige. Deve ser intelectualmente capacitado decultura sólida e ampla; isso de acordo com o grau da escola que atua. Sobretudoenamorado da virtude e da vida cristã, porque deve falar daquilo que vive noconcreto, com os alunos num ambiente cristão. (ZANON, 1946 p.12) O educador democrático não pode negar-se o dever de na sua práticadocente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, suainsubmissão. (FREIRE, 1996, p.26) Para os irmãos Cavanis a escola era entendida como um desenvolvimentofuturo, que marca e dá ao educando dignidade, instrumentos e condições para o seucrescimento intelectual, moral e religioso para o bem da sociedade. A prática educativa tem de ser, em si um testemunho rigoroso de decência e depureza. Ibid., p.33 Uma das coisas mais importantes na educação é levar um filho a admirar seueducador. CURY, (2003, p. 37)2 EDUCAÇÃO GRATUITA A Escola Cavanis destaca-se das outras escolas de sua época por serinteiramente gratuita, nela estudavam juntos tanto o pobre como o rico e ambospartilhavam da mesma gratuidade. Os Irmão Cavanis, foram exigentes quanto aesse princípio e sofreram perseguição por parte do governo que exigia de todas asescolas tachas e impostos bem como títulos que permitissem o seu funcionamento. Nas Constituições e Normas da Congregação das Escolas de Caridade,escritas pelo Padre Antônio diz que os congregados devem: Acolher com amorpaterno, meninos e jovens, educá-los gratuitamente, protegê-los com vigilância 45
    • solícita, formá-los dia a dia na inteligência e na piedade, favorecer com ajudasparticulares os mais pobres, sem poupar gastos e fadigas, de maneira que elesalcancem a estatura da plenitude de Cristo e possam dar sua contribuição para ocrescimento da Igreja e para o bem da sociedade. (Const. 4b) Somente em 1807, foi feita uma experiência que não durou nem um ano, dealguns alunos darem uma pequena contribuição mensal, esse contribuição eradestina às despesas mais urgentes da escola e esse fato não ser repetiu nuncamais. Dê de 1810, no regulamento disciplinar da escola dos Cavanis, vem colocadoquase com as mesmas palavras das constituições já citadas de uma escolatotalmente gratuita: Nenhuma família que tinha crianças ou jovens em suas escolasdeveria corresponder com algum donativo. O mesmo valia para o Instituto Femininofundado em 1808. O principio da escola gratuita é o nosso tesouro espiritual e pedagógico. Dos escritos dos nossos padres, que a nós chegaram e da constante tradição, nos afirmam que verdadeiramente esse é um dos fundamentos da nossa congregação, e como tal é verdadeiramente uma marca do nosso espírito religioso (a gratuidade). Tesouro espiritual porque faz parte do nosso voto de pobreza religiosa, a qual confere uma espiritualidade característica na renuncia e no desapego completo também dos desejo das coisas materiais., não só da parte do indivíduo mas também da parte do instituto, que de tal maneira com reta intenção se sente dedicado somente a glória de Deus e a salvação das almas em todas as suas atividades. Com esse espírito de pobreza o instituto tem diante de si um bonito exercício de fé em Deus e de abandono a sua divina providência em tudo aquilo se refere a sua constituição econômica. ZANON, (1946 p. 39-40) Os padres deixaram como herança aos seus congregados um estado depobreza, que mesmo nascendo na riqueza, praticaram constantemente até suamorte. Nesse estado de pobreza não renunciaram ao principio da educação gratuita,mesmo nos momentos mais difíceis de sua história. A meta das Escolas de Caridade é de oferecer o benefício da educação cristãaos pobres; mas não somente a esses, porque eles se sentiriam envergonhados demandarem os próprios filhos para essa escola e a finalidade da dela ficaria semresultado. Portanto, junto com os patrícios descentes dos Doges, se encontram namesma sala também os filhos dos pobres, dos operários, e não ocorreu na mente dealguém, nem dos mestres nem dos alunos de fazer diferença entre eles. (ZANON,1946 p. 41) 46
    • A presença contínua do educador pai e a proximidade com os educandosproporcionam no grupo o clima de família, lugar de escuta e diálogo. Também hoje esse preceito de não fazer acepção de pessoas continua sendonecessário, ainda mais quando na sociedade se vive a era do descartável, doefêmero. Mais sério e urgente nesses tempos encontram-se os relacionamentosinterpessoais que sem profundidade tornam-se descartáveis e conseqüentementeinseguros. A vida jovem que dia a dia recebe uma avalanche de informações e nãoencontra forma de relativizar, corre perigo, par isso essa pedagogia vem como umresgate do relacionamento confiante e libertador Pais e filhos vivem ilhados, raramente choram juntos e comentam sobre seussonhos, mágoas, alegrias, frustrações. CURY, (2003, p. 12) A Pedagogia Cavanis continua em sua essência sendo uma resposta aomundo que grita pela boca da criança incompreendida e abandonada, do educadorcalejado e cansado, dos pais que não conhecem mais seus filhos. Os Cavanis tem o dever de exercitar em cada lugar onde se encontra suamissão: escolas externas, internatos e também outras especializações de qualquerforma que for educativa; e obriga sempre em qualquer ocasião, de recusaremfirmemente qualquer presente que venha por parte de sua missão. Regras severas, se quisermos, mas que nos liberta de uma multidão de preocupações materiais e nos torna ágeis no Espírito daquela desenvoltura que nossos fundadores chamam de Liberdade do Humanos respeitos. Que é semelhante aquela da qual o apóstolo nos fala com alegria “Que a liberdade de Cristo nos liberta” (At 20) Zanon, (1946 p. 41) Para poder entender a pedagogia dos irmãos Cavanis em toda a sua beleza eespiritualidade é necessário libertar-se no terreno pedagógico da materialidade dequalquer recompensa humana, é por isso que a congregação recebe o nome deEscolas de Caridade, porque o seu título deve ser o da Caridade. A escola se faz por Caridade gratuita e, sobretudo porque essa foi adedicação de toda a vida dos Cavanis. Foram conduzidos pela graça divina eamaram a Deus com todo o seu coração com toda a sua alma, com toda a suamente com todas suas forças reconhecendo em cada criança, como diria São Joséde Calazans, o rosto escondido de Cristo. (Zanon, 1946 p. 47) 47
    • Esse dois irmãos pensavam somente na juventude, falavam só da juventude,respiravam só para a juventude: juventude para educar, juventude para preservar,juventude para salvar. E tudo isso humildemente, sem buscar o reconhecimento desse mundo, semciúme dos outros que também se dedicavam a essa mesma missão, e manifestavamalegria e amizade com esses. (Zanon, 1946 p. 49)3 AMOR PATERNO AOS JOVENS A gente só conhece bem as coisas que cativou. SAINT-EXUPÉRIY, (2004,p. 69) “...Alimentar sempre mais uma particular ternura para com a juventude, a isso levados pelo gosto que se proporciona para Deus, que a ama com uma afeição especial, e pelo grande bem que a ela se proporciona nos empenhando em defendê-la de tantas insídias e proporcionando-lhe grande ajuda para voltar ao bom caminho se por desgraça tiver caído nas malhas dos inimigos espirituais. Ternura que leve a fazer com que os jovens abram seus corações aos mestres e se tornem disponíveis para acolher com respeito as palavras e a seguir docilmente os seus ensinamentos. Este amor paterno para com os jovens requer principalmente vigilância, solicitude, paciência, esperança de frutos e oração. São cinco atos de virtude e que custam sacrifícios, mas podem ser feitos com boa vontade pensando em fazê-los em honra de cinco chagas de Jesus Cristo. Ele é nosso exemplo, e nós faremos infinitamente menos que Ele, e não chegaremos a sofrer com tudo isso nem a dor de uma chaga. A vigilância poderemos usá-la em honra das duas chagas das sagradas mãos de Jesus Cristo, que nos lembra com quanta cautela e constância se devem usar as mãos que se destinam para um trabalho tão delicado e precioso. A fortaleza e a coragem que brotam da esperança, poderão ser oferecidas em honra das duas sagradas chagas dos pés, que acompanhados por tais virtudes, nos levam à vitória no meio das mais árduas dificuldades. Finalmente, a oração produzida pela caridade para com os jovens pode ser oferecida em honra da chaga do sagrado lado de Jesus Cristo, que abre para todos o ingresso àquele coração divino que se fez para todos nós vítima de amor”. (Pe. Antonio A. Cavanis, comentário da Const. 3). Os filhos não precisam de pais gigantes, mas de seres humanos que falem asua linguagem e sejam capazes de penetrar-lhes o coração. CURY, (2003, p. 19) P. Marcos expõe o espírito das Escolas de Caridade dizendo: “De índoletotalmente diferente das escolas públicas; onde tudo leva ao afeto paterno e tende aformar em todo o corpo escolar uma só família, também os alunos são vistos comomuitos filhos”. Zanon, (1946 p. 53) 48
    • 4 O MÉTODO O método dos irmãos Cavanis não é certamente estudado teoricamente comose fosse enrijecido é pois aplicado através de tentativas e experimentos até encontrao caminho definitivo. A alegria não chega no encontro do achado mas faz parte também doprocesso da busca. FREIRE, (1996, p. 142) Respeitando o princípio do acompanhamento personalizado da grandeimportância em ver o educando como sujeito individual e que toda pessoa em suaessência tem uma índole boa. (Zanon, 1946 p. 55) Os jovens conhecem cada vez mais o mundo em que estão, mas quase nadasobre o mundo que são. CURY, (7 ed. 2003, p.15) O método de São José de Calasanz foi escolhido como método pedagógicodos dois irmãos Cavanis. É quase supérfluo observar que o método de Calasanz é ométodo de Sto Agostinho, de S. Bento, de S. Tomás, de S. Inácio, de S. Felipe, deS. Gerônimo Emiliani, de Sto. Antonio Mª Zacaria, de S. João B. della Salle e depoisdos Cavanis, de São João Bosco e de uma multidão de santos educadores quevieram em seguida. op. cit., p. 56 Característica e distintiva do método Cavanis: “A mais santa paternidade,familiaridade e a mais interminável vigiLância. Ibid., p. 57 Hoje em dia, ninguém pode pensar adquirir, na juventude bagagem inicial deconhecimentos que lhe baste para toda a vida, porque a evolução rápida do mundoexige uma atualização contínua dos saberes. (DELORS, 2003, p.245) A consciência não se encontra no vazio de si mesma, pois a consciência ésempre, radicalmente, consciência do mundo. FREIRE, (1996, p. 15)4.1 VIGILÂNCIA CONTÍNUA Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. SAINT-EXUPÉRIY,(2004, p. 68) A escola dos Cavanis não é fim em si mesma, ela é um meio do qual se servea Caridade deles, para poder aproximar-se da juventude e salvá-la. Salvá-lafazendo-a amar a ela, e com vigilância contínua para preservá-la dos perigos: Nisto 49
    • é que está a originalidade da obra deles, a característica do seu método educativo.Os irmãos Cavanis perceberam que as escolas que tinham distância os mestres comos alunos poderiam ensinar a ciência, mas não formar o coração. Perceberamtambém que poderiam dar os preceitos de religião de moral e isto é ótima coisa, masnão é suficiente para formar a virtude no animo juvenil, que precisa sercontinuamente vigiado dos perigos que o circundam. (Zanon, 1946 p. 59) Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. SAINT-EXUPÉRIY, (2004, p. 72) Será vão espera a almejada reforma, se se ignora de cultivar como convém a juventude. Digo como convém, porque não basta fazer qualquer coisa para os jovens, (porque isso se faz em qualquer lugar) mas convém providenciar os meios necessários para conseguir o fim. Zanon, (1946 p. 59)4.2 CONGREGAÇÃO MARIANA As práticas da Congregação mariana foram: piedosas reuniões, leiturasespirituais, palestras, freqüência aos sacramentos, exortações sobre as regras eestatutos. Se esses encontros não questionam os jovens não valem pra nada, masse são fervorosos são como uma benção. Paulo Freire em seu livro Pedagogia da Autonomia, no terceiro capítulo;Ensinar é uma especificidade humana, dentro do subtítulo: Ensinar exige quererbem aos educandos, conclui: “Jamais foi fraca em mim a certeza de que vale a penalutar contra os descaminhos que nos obstaculizam de ser mais”. FREIRE, (1996, p.145) As práticas dos cavanis eram cheias de amor à Virgem por e meio dela aoseu Divino Filho. O primeiro alimento recebido era uma pregação do P. Antôniorepleta de espiritualidade. Que atingia ao coração dos jovens e os levava a sentiremdesejo pelas coisas espirituais sem se cansar. Com o mesmo estilo P. Marcos faziasuas exortações. P. Marcos com quase oitenta anos e quase cego fez sua última pregação nafesta de Nossa Senhora do Carmo, no ano de 1853, nem faltava três meses parasua morte. Quando jovem antes de ser padre, ele exerceu a função de coordenadorajudando seu irmão com grande eficácia. Sua fervida caridade, confiança e 50
    • docilidade para com os filhos espirituais: Ele procura os pequenos, acariciava,mimava, ensinava a falar e divertia-se com eles. Com os maiores mudava depostura, mas sempre os acolhia alegremente, vigiava, exortava, aconselhava e osalegra com frases espirituais, era um verdadeiro amigo dos jovens. (ZANON, 1946p. 65) Os filhos não precisam de gigantes, precisam de seres humanos. CURY,(2003, p. 26)4.3 CATEQUESE O método que utilizavam para a catequese era de formar pequenos grupos de8 a 10 crianças para instruí-los em casa 1 hora por dia durante 1 mês, auxiliados poroutras pessoas que provavelmente eram a mãe a condessa Cristina e a sua irmãApolônia, que faziam uma simples, afetuosa e fervorosa instrução. Depois de 1 mêscada jovem era chamado para uma avaliação individual e demonstrar o que tinhaaprendido. Assim os padres levam o jovem a conhecer com maior interesse a forçadas verdades cristã, e inspirava neles um vivo amor para com o cristianismo.4.4 HORTO (RECREIO) O elemento pedagógico fundamental que eles utilizavam para alternar aeducação da fé era o momento de recreação num espaço chamado de Orto (Horto). Quando se trata de crianças e de jovens é preciso organizarharmoniosamente com a espiritualidade e espontaneidade a diversão que naprimeira idade é fisiologicamente e moralmente imprescindível. Os antigos diziam: Mens sana in corpore sano, uma mente sadia num corposadio. Distrair-se, contato com a natureza, alegria e expansão da alma no exercíciofísico da mais sã potencialidade natural, são esses, meios educativos que reguladosna dose de uma sábia direção, se pode integrar com a espiritualidade e tornar bonsos nossos jovens. 51
    • Nota-se que no conceder esse respiro a juventude, não é necessário chegar a aquele exagero de brincadeiras de exercício violentos e sem limites, mas a serenidade da vida em meio ao verde de um terreno cultivado que precisa se respeitar e não destruir. Observa-se nesse particular um ponto de educação que leva a formar dês de o início, nas crianças e adolescentes, aquele domínio de si mesmo, que somente com a educação dirigia e vigiada pode ser obtida. ZANON, (1946 p. 66-67) Um cuidado constante com o organismo e em bom funcionamento faz partedo aprendizado intelectual. Iluminação suficiente, oxigenação do sangue, irrigaçãocerebral facilitam o exercício da mente. (LIBANIO, 2002, p.40) Pais brilhantes não formam heróis, mas seres humanos que conhecem seuslimites e sua força. CURY, (2003, p. 32) Os jovens eram levados ao horto nos dias festivos, após as orações e amissa. Voltavam ao horto todos os dias após o almoço antes das orações da tarde, enos dias de férias. E assim brincavam, se divertiam, conversavam familiarmente comos padres, abriam-se candidamente (inocentemente) como se fossem seus filhos eabasteciam-se espiritualmente. Entre os congregados se cultivava uma santaamizade e todos aproveitavam dos bons exemplos de seus companheiros. Não se ia ao horto sem breve oração, tanto no início como no término dasrecreações. Constatou-se que as crianças quando iam para a igreja ou voltavampara suas casas eram verdadeiramente restauradas no corpo e no espírito. Os padres sempre atribuíram grande importância à recreação no horto, efizeram grande esforço e sacrifício para podê-lo conservar e desenvolver. (ZANON,1946 p. 67) Hoje percebe-se que os pais trabalham para dar o mundo aos filhos, mas seesquecem de abrir o livro da sua vida para eles. CURY, (2003, p. 22) Durante os recreios os padres faziam com que as crianças se sentissemdesembaraçadas e alegres para darem uma boa dose de ensinamentos morais eespirituais aos seus companheiros através dos diálogos que eram apresentaçõesteatrais ou jograis escritas geralmente pelo p. Marcos e apresentada nas quinta-feirapor quatro crianças no horto. Por exemplo: sobre as mentiras, ou amizade, ouresponsabilidade. Com a vivacidade natural das crianças e enfeitada de brincadeirasinocentes que alimentavam a atenção, se desenvolvia de forma simples masprofunda, o tema de um grande sermão. Esses ensinamentos tocavamprofundamente o coração dos alunos que conservavam até a velhice. op. cit., p. 68 52
    • 4.5 ORATÓRIO Em 1806 os padres reduziram a maior sala do palácio Da’Mosto, em umoratório dedicada à São José de Calasanz, que servia para todos os exercícios depiedade dos alunos. Nesse oratório, dês de os primeiros anos, participavam na celebração dasanta missa e no verão após as aulas, a tarde, cada dia tinha uma breve instruçãoreligiosa. O diretor da escola devia se fazer presente em tudo, observando a condutadas crianças, porque à essas práticas os padres atribuíam um valor capital naeducação da juventude. (ZANON, 1946 p. 73)4.5.1 Exercícios Espirituais A regra número 3 das constituições Cavanis na norma C, diz: “Será portantodever dos congregados: Ministrar Exercícios Espirituais a jovens e adultos, parafavorecer a continuidade da formação, a revisão de vida e a conversão a Deus.”(Const. 3c.) No diário da Congregação Mariana, encontra-se datado o primeiro retiro em 20de outubro de 1805. Padre Marcos em comunicação no início do ano de 1825 diz: “O Instituto dasEscolas de Caridade, criado a 23 anos em Veneza, tem a dupla finalidade de educarna piedade e nas letras, gratuitamente, os jovens e de oferecer os espirituaisexercícios a varias classes de pessoas que se juntarem de vem no local do Instituto”(apud. Espírito e Finalidade, 1969, p. 190) Em súplica ao Papa Gregório XVI para obter aprovação do Instituto no que dizrespeito ás escolas médias, Padre marcos escreve: ”... Os Sacerdotes e clérigosdesta comunidade vivem no estilo dos padres da Congregação do Oratório, fundadapor São Felipe Néri, por aquilo que diz respeito ao viver juntos. Considerando-secomprometidos em dar os exercícios espirituais, quando lhes for possível, a quantosna sua casa podem por isso ser recebidos”. Ibid., p. 192 Os padres viam no retiro um meio eficaz para se refletir e corrigir a vida eatravés da espiritualidade uma forma de promover a socialização de maneirahumana e respeitosa entre os alunos. 53
    • 5 INSTITUTO FEMININO Por juventude, deve-se compreender também as meninas, porque não sepode esquecer que o cuidado dos padres Cavanis foi desenvolvido por mais de 40anos a partir de 1808, recolhendo também as meninas do povo em uma escola decaridade, e a mais abandonadas eram encaminhadas para um internato aoscuidados de piedosas mulheres sob a direção dos servos de Deus, queprovidenciavam a manutenção também dessa obra. Tudo gratuito, e com osmesmos métodos que utilizavam com os meninos. (apud. Espírito e Finalidade,1969, p. 192)6 PROFISSIONALIZAÇÃO Além da formação intelectual e religiosa, após a escola os irmãos Cavanis,viram que era necessário que os alunos se dedicassem a uma profissão.Oferecendo um novo refugio para a juventude. Iniciaram em (.....), uma oficinatipografia, dando uma sala das escolas contratando um tipógrafo. id. “Quanto mais se percebe o alcance de nosso pensamento e de nosso agir,maiores responsabilidades assumimos”. LIBANIO, (2002, p.46)7 A PERFEITA INSTRUÇÃO DOS JOVENS A perfeita instrução dos jovens é composta de dois elementos: educaçãopropriamente dita e instrução. A educação comporta tudo aquilo que guarda a prática da religião, amoralidade e leva a formar o coração: a instrução comporta difundir no jovem oconhecimento oportuno que lhe abre o intelecto. Em uma palavra educaçãocontempla o espírito de piedade e a instrução da inteligência. Portanto a instrução deve olhar mais a piedade que a inteligência, porqueentre a instrução a mais importante é o cuidado da alma, esse exige que sejacultivado as virtudes, portanto a inteligência deve iluminar o homem: também é certoque as luzes não são as virtudes. Nem todos são obrigados a serem sábios, mastodos são obrigados a viverem bem. 54
    • A escola deve guardar três coisas: o corpo, a inteligência e o coração; masesse ultimo é o mais importante e também o mais essencial em uma sábiainstituição. De que vale um jovem ser ágil no corpo quando é depravado e corruptono coração? De que vale que um jovem seja rico de conhecimento quando écorrompido e malvado nos seus costumes? A ciência não unida com a virtude eplantada na religião é vã e perigosa. Vã porque não satisfaz o dever do homem, que deve ser mais sábio naconduta, que na inteligência. Estime a doutrina, porque é melhor que um homemseja juntamente religioso e sábio do que somente sábio. A perfeição e a felicidade do homem dependem em tudo da religião e dasvirtudes, mas nada ou muito pouco da ciência. Deus que quer nosso melhor bemnão pede nunca a cabeça a ninguém, mas a todos o coração. São grandes as diferenças da sociedade atual em confronto com os temposdos irmãos Cavanis; mas as necessidade das almas são sempre as mesmas, sequisermos obter os frutos que eles obtiveram, os métodos educativos adaptados nosparticulares momentos e circunstâncias ou nos singulares momentos históricos,devem ser sempre os mesmos. Ou seja, através de instrução religiosa e do usofreqüente e fervoroso das práticas de piedade. E também num ambiente onde sesente paterna familiaridade, unida com uma grande vigilância por parte doseducadores. (ZANON, 1946 p. 89)8 DISCIPLINA Escola indisciplinada, escola corrupta. É impossível que uma escola não tenha um aluno que seja corrupto, daquela corrupção que coloca a alma em desgraça de Deus. E é uma corrupção que pode ser curada com o tratamento caritativo do educador cristão. Se não acontecer esse tratamento vem a explodir num contágio que não se pode reter transformando-se num ambiente indisciplinado. ZANON, (1946 p. 93) Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mimúnico no mundo. E eu serei para ti única no mundo. SAINT-EXUPÉRY, (2004, p. 68) Tal pensamento por vezes breve mas elementar e de uma evidência teórica eprática tão límpida e universal, para constituir um dos fundamentos mais sólidos e denecessidade imprescindível para um educação verdadeira e completa. 55
    • Se na escola encontra-se um aluno corrupto, é necessário tratá-lo comcaridade e amor paterno, sem esquecer da preocupação do contágio. Para que osoutros não venham a se contaminar, ou aqueles que já são contaminados adquiremmais corrupção. (ZANON, 1946 p. 94) O escritor Antonie de Saint-Exupéry, em seu livro: O pequeno Príncipe,escreveu após a raposa ter presenteado o principezinho com o seu segredo: “Foi otempo que perdeste com tua raposa que a fez tão importante”. SAINT-EXUPÉRY,(2004, p. 72) O educador sempre deve estar atento para impedir cada mal, mas sempresereno e confiante e tratando com Caridade e nunca demonstrar suspeita dosalunos pois poderiam perder a confiança, a fidelidade e o afeto. Existem dois tipos de disciplinas: a tirânica, abominável e a amorosa da santacaridade. A disciplina bonita e suave deriva do sábio amor. Amor porque procura o bemdos educandos amando-os. Sábio porque se o educador é formado na sua missão,com os dotes da experiência, da ciência, da prudência, da delicadeza, da firmeza,em suma com todos os requisitos e prerrogativas da caridade cristã, ele sabe a qualrecife oferece o perigo de naufragar a alma que lhe é confiada e aplica o seucabedal de riquezas humanas e divinas para salvar essa alma e guiá-la através dosperigos presentes e futuros. A bonita disciplina! É bonita porque produz a concórdia cor unum et anima uma proveniente do amor consciente e recíproco do educador e educando; amor que produz felicidade; e deixa um temor do educando dar desgosto ao educador e no educador de não oferecer todas as condições para a felicidade do educando. ZANON, (1946 p. 95) A técnica da bonita disciplina é a vigilância, sobre coisas pequenas,constante, mas paternalmente severa, ou seja: sempre corrigir por menor que seja afalta, para corrigir não custa nada, basta um simples gesto ou aceno; nunca seesquivar de repreender. Tal vigilância exige amor e esperança de frutos, exigeacolher cada aluno como filho e sentir-se co-responsável no futuro dele. Onervosismo do mestre é a peste da disciplina. Apresenta fraqueza e fecha apossibilidade de confiança do educando para com o educador. Bons pais dizem aos filhos: “Você está errado”. Pais brilhantes dizem: “O quevocê acha do seu comportamento?” CURY, (2003, p. 36) 56
    • O horto não servia somente para distanciar as crianças das mas companhiasmas para melhor descobrir a índole delas e suas particulares necessidades, paramais facilmente providenciar o remédio apropriado nos vários casos que se achavaoportuno. Essa sempre foi a finalidade da Congregação Mariana. O horto serve para descobri o animo dos jovens e confirmá-los nos bonspropósitos se são fervorosos e corrigi-los se são hostis. Tal estudo do jovem mediante a vigilância foi o método que os cavanisutilizaram em sua carreira de educadores e transmitiram aos seus primeirosreligiosos entre os quais o Padre Paoli que relembra a citação do p. Antonio:“Conhecendo que o momento propício para descobrir a índole e os defeitos dosjovens é quando são mais livres, na recreação e também nos jogos inocentes; nãopodendo mentir nesses momentos espontâneos”. (ZANON, 1946 p. 101-102) A correção é parte integrante da vigilância. Quem não vigia na repara o defeito dos educando, e depois pode ser tarde demais para corrigir. Mas quem esta sempre vigiando os defeitos da natureza humanamesmo nas almas mais queridas e bonitas descobre muitos defeitos. Corrigir não significa maltratar; mas significa que o aluno não se esqueça dacorreção que é um remédio necessário e oportuno doce ou enérgico de acordo coma sua necessidade. Ibid., p. 108 57
    • 3º CAPÍTULO A PEDAGOGIA CAVANIS E A EDUCAÇÃO CONTÊMPORANEA “O nosso serviço evangélico da caridade libertadora acaba quando acabarem as necessidades e opressões dos pobres e pequeninos (Pe. MARCOS CAVANIS)CONSIDERAÇÕES INICIAIS Esse capítulo visa oferecer uma reflexão sobre a pedagogia desenvolvidapelos Cavanis a mais de 200 anos e a visão holística da educação no século XXI,segundo a Comissão Internacional sobre a Educação no século XXI. Também, visaapresentar Antônio e Marcos cavanis como dois verdadeiros visionários, como duaspessoas que verdadeiramente estivera a frente de seu tempo, sobretudo no campoda educação de crianças e jovens. A educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundocomplexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, é a bússola que permitenavegar através dele. Não basta, de fato que cada um acumule no começo da vida umadeterminada quantidade de conhecimentos de que possa abastecer-seindefinidamente. Segundo o relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o séculoXXI, a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais,que ao longo da vida de cada indivíduo serão os pilares do conhecimento:APRENDER A CONHECER isto é adquirir os instrumentos da compreensão.APRENDER A FAZER, para poder agir com autonomia, confiante naspotencialidades pessoais; APRENDER A VIVER JUNTO, a fim de participar ecooperar com os outros em todas as atividades humanas e finalmente APRENDER
    • A SER, como conseqüência das precedentes. Entre essas quatro vias existempontos múltiplos de contato, relacionamentos e de trocas. Uma nova concepção ampliada de educação devia fazer com que todospudessem descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo, revelando otesouro escondido que há em cada pessoa. A educação é o verdadeiro passaporte para a vida. Já dizia no passado ofilosofo Kant, em seu livro: Pädagogik, Könisberg, 1803, “O ser humano não é nadamais do que a educação fez dele” (apud. Enciclopédia Espasa-Calpe) O edifício da educação se sustenta sobre o alicerce profundo e sólidoconstruído nos anos iniciais da formação.1 APRENDER A CONHECER E A PENSAR Eu queria uma escola que cultivasse A curiosidade de aprender Que em vocês é natural (Carlos Drumond de Andrade) Aprender a conhecer e a pensar é fundamental num mundo de muitasinformações e de pouco pensamento. É inserir todo o conhecimento no varal do passado, percebê-lo na atualidadedo presente e vislumbrá-lo em sua densidade de futuro. (LIBANIO, 2002, p. 20) Mais do que entulhar a mente com dados soltos se faz necessário saberpensar com lucidez, criatividade, liberdade. Seu fundamento é justamente o prazerde compreender, de conhecer, de descobrir. Trata-se de ensinar a arte e a aptidãopara a problematização. “Educação inclui quanto fazemos nós mesmos por nós e fazem por nós osdemais, com o fim expresso de aproximar-nos da perfeição de nossa natureza”STUART MILL, (apud Enciclopédia Espasa-Calpe) Para aprender a conhecer e a pensar, é necessário aprender a contextualiza,ou seja: comparar, relacionar, confrontar para saber relativizar e perceber que cadaconhecimento pertence a um conjunto e situa-se em determinado contexto. Amaneira mais cômoda contrária ao conhecimento objetivo das coisas é ageneralização. Cômoda porque não exige reflexão e não refletir é embrutecer-se. 59
    • Esse tipo de aprendizagem que visa não tanto a aquisição de um repertóriode saberes codificados, mas antes o domínio dos próprios instrumentos doconhecimento. (DELORS, 2003, p. 90) Segundo Laurent Schwartz, citado por Delors: “Um espírito verdadeiramenteformado, hoje em dia, tem necessidade de uma cultura geral vasta e dapossibilidade de trabalhar em profundidade determinado número de assuntos”. Hoje e cada vez mais se recebe uma grande enxurrada de informações detodos os tipos e lugares, segundo o padre Libanio, no início de seu livro a arte deformar-se, descreve: “Quanto mais os sites e as home pages se multiplicam, tantomenos as inteligências se sabem organizadas, estruturadas, bem-feitas”. LIBANIO,(2002, p. 10) O desafio hoje é evitar, de um lado, uma sistematização apressada, rígida,acabada e de outro, um mero aglomerado de unidades. (LIBANIO, 2002, p. 37) “A educação só consegue bons resultados quando se preocupa em gerarexperiências de aprendizagem, criatividade para construir conhecimentos ehabilidade para saber acessar fontes de informações sobre os mais variadosassuntos.” ASSMANN, H.(1998, p.21) Aprender a conhecer dito de maneira mais simples é a pessoa considerar-seuma ilha num arquipélago: para não ficar perdida e isolada, constrói quanto maispontes possíveis para as outras ilhas, a ponto de perceber-se ao final numa redemaravilhosa de relações de saber. op cit., p. 22 Ensinar a pensar nesse ponto de vista é encontrar-se em realidadesexteriores a si, como através da leitura de obras literárias, identificar-se com elas, ouatravés da leitura dos pensadores, tirar as próprias conclusões. Nesse caso o ato deler torna-se um privilégio porque a leitura age como pontes incontáveis de contatoscom a história escrita. Dentre as realidades exteriores a si encontram-se o mundo das coisas eobjetos que são apreendidos através dos sentidos. As coisas educam o sentido deobservação através de estímulos artificiais e virtuais, com isso a maior lição que ohomem pode tirar das coisas é a faculdade de contemplar. “Tudo é caminho, e cada ser se faz sacramento e porta para o encontro comEle”. BOFF,L. (1996, p. 45) Só sabe conhecer e pensar quem aprendeu a contemplar (...) aprender aconhecer e a pensar é modificar sua atitude diante das coisas. op cit., p. 27 60
    • Pensar é analisar e sintetizar, separar e unir. O aluno tem de aprofundar cadauma das afirmações para descobrir a verdade própria e a possibilidade dacontrariedade. A arte de pensar se desenvolve pela capacidade de relação. Por issohoje falar de educação é falar de holismo, ou visão holística. Segundo Boff, ecologia representa a relação, a interação e a dialogação quetodos os seres (vivos ou não vivos) guardam entre si e com tudo o mais que existe.Dessa forma se depara sempre com uma síntese que ordena, organiza, regula efinaliza as partes num todo e cada todo com um outro ainda maior. A ecologia écomo a ciência e a arte das relações e dos seres relacionados. (BOFF,L. 1996, p.17-19) Não é apenas uma parte que esta no todo, mas o todo está inscrito na parte.2 APRENDER A FAZER Aprender a fazer e aprender a conhecer são indissociáveis. Nesses dias uma pergunta desperta e incomoda aqueles que têm a missãode educar, de preparar os cidadãos do futuro: Como ensinar o aluno a por emprática os seus conhecimentos e, também, como adaptar a educação ao trabalhofuturo quando não se pode prever qual será a sua evolução? Aprender a fazer não pode, pois, continuar a ter o significado simples depreparar alguém para uma tarefa material bem determinada. As aprendizagens devem evoluir e não podem mais ser consideradas comosimples transmissão de práticas mais ou menos rotineiras, embora essas continuema ter um valor formativo que não é de desprezar. Aprender a fazer influencia aprender a conhecer. A prática modifica o conhecimento, e este, por sua vez, gera sempre novaspráticas, daí os contínuos cursos de atualização profissional. Para cada novamáquina novo curso. As exigências do mercado de trabalho nesses dias não são mais as domundo taylorista, fordista, que o cineastra inglês Ch. Chaplin (1889-1977)ridicularizou em seu filme “Tempos Modernos” (1936).O operário aprendia umprocedimento e o repetia interminavelmente. Assim para cada caso se fazianecessário um aprendizado específico. 61
    • Novos conhecimentos modificam o fazer, e novas práticas provocamreestruturação de conhecimentos. Hoje em pleno século XXI, as exigências são outras. O baixo nível deescolaridade dificulta que as pessoas ultrapassem as fronteiras do puro aprendizadorepetitivo. E essas pessoas são encaminhadas por trilhas mais criativas como omercado informal. Os Irmãos Cavanis, em seu tempo, desde cedo, incorporaram a escola aprofissionalização, e como não tinham de maneira certa para onde estariamencaminhando seus jovens, prepararam-nos na autonomia, no reconhecimento desuas potencialidade, e auto-estima. Fizeram os jovens entenderem que todotrabalho, por mais material que seja, é intelectual. Os Cavanis estiveram à frente de seu tempo, preparando os jovens para asociedade e todas as responsabilidades que deveriam desempenhar nela. Hoje, 200 anos depois, a tendência do mercado é incorporar sempre maisconhecimento ao trabalho. Sobretudo quando a força de trabalho se torna cada vezmais intelectual e virtual como no setor de serviços. “O desenvolvimento dos serviços exige, pois, cultivar qualidades humanasque as formações tradicionais não transmitem, necessariamente e quecorrespondem à capacidade de estabelecer relações estáveis e eficazes entre aspessoas”. DELORS, (2003, p. 95) “Exige-se que se pense a educação olhando para o futuro trabalho nasociedade” (...) “A relação entre estudo e trabalho não pode ter a curteza de vista doemprego de amanhã, mas deve ser pensado ao longo alcance”. LIBANIO, (2002, p.50 e 52) As qualificações trabalhistas nesses dias basicamente são: o comportamentosocial como a capacidade comunicativa do trabalhador, sua aptidão para trabalharem equipe e com outros, seu espírito de iniciativa, capacidade de gerir e de resolverconflitos e o gosto pelo risco. Segundo o relatório Delors, para a UNESCO: “A intuição, o jeito, acapacidade de julgar, a capacidade de manter unida uma equipe não são de fatoqualidades, necessariamente, reservadas as pessoas com altos estudos”. O relatóriocontinua com uma pergunta que pode encontrar uma resposta na experiênciadesenvolvida pela Pedagogia Cavanis ao longo de dois séculos. “Como e ondeensinar estas qualidades mais ou menos inatas?” 62
    • É fundamental pensar que, na prática da formação docente, o aprendiz deeducador assuma que o indispensável pensar certo não é presente nem se acha nosguias de professores, que iluminados intelectuais escrevem, o pensar certo quesupera o ingênuo tem que ser produzido pelo próprio aprendiz em comunhão com oprofessor formador. (FREIRE, 1996, p. 38) Eu queria uma escola que lhes ensinassem a pensar, a raciocinar, a procurar soluções. Eu queria uma escola que desde cedo usasse materiais concretos para que vocês pudessem ir formando corretamente os conceitos matemáticos, os conceitos de números, as operações... usando palitos, tampinhas, pedrinhas... só parcariinhas! fazendo vocês aprenderem brincando... (Carlos Drumond de Andrade)3 APRENDER A CONVIVER A convivência pede em primeiro lugar tolerância. O lugar de aprender a conviver são naturalmente as experiências de vida emgrupo, em equipe, em comunidade, a começar pela família. Os Cavanis encontraram no horto a arte de desenvolver nas crianças odesejo de conviver e se respeitarem, partilhando a vida, se amadurecendoafetivamente e reconhecendo-se como gente. A educação seja ela dada pela família, pela comunidade ou pela escola, deveantes ajudar os educandos a descobrirem-se a si mesmo. (DELORS, 2003, p. 98) A educação segundo o relatório Delor, deve usar duas vias complementares:a descoberta progressiva do outro e a participação em projetos comuns. A educaçãotem por missão, por um lado transmitir conhecimentos sobre a diversidade daespécie humana e, por outro, levar as pessoas a tomar consciência dassemelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos do planeta. Ibid.,p. 97 Um tipo de deturpação da experiência comunitária dos jovens comum hojecaracteriza-se pela busca de pequenos grupos afins. 63
    • Criam-se “tribos”, em que suprimem as diferenças para viverem umamesmidade que não questiona. Esses grupos exercem sobre os membros tal influência numa única direçãoque os tornam ineptos para viverem noutra situação social. (LIBANIO, 2002, p. 64) No interior de uma minoria fechada, criam-se dois tipos doentios de relação:anulamento e imposição. id. A educação deve, pois, reservar tempo e ocasiões suficientes em seusprogramas para iniciar os jovens em projetos de cooperação tais como: Teatro,coral, bandas de música, esporte de equipe, religião, proporcionando momentos decelebração comunitária e estimular os jovens na participação de atividades sociais. A educação nessa ótica do aprender a conviver dispõe de muitaspossibilidades de formar os jovens no espírito comunitário com a ajuda vigilante doeducador. O educador precisa propiciar aos jovens experiências de convívio e dentrodelas, refletir com eles sobre sua conduta. Seu olhar crítico deve orientar-se numa dupla direção observando tanto osdefeitos, falhas, os limites, como as qualidades, as habilidades que os jovensrevelam na experiência de grupo. (LIBANIO, 2002, p. 71) Essas experiências em grupo citadas por Libanio, já forma apresentadas nosmétodos pedagógicos desenvolvidos pelos cavanis e se encontram na página 52dessa pesquisa.4 APRENDER A SER Augusto Cury, em seu livro Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, quandoorienta os pais para nutrirem a personalidade dos filhos apresenta o seguintepensamento: “Prepare seu filho para ‘ser’, pois o mundo o preparará para ‘ter’”.(CURY, 2003, p.29) Esse quarto pilar vem casar com o tema e a finalidade desse trabalhomonográfico. Os Irmãos Cavanis preocuparam-se com a formação integral dohomem, isso em vista do corpo e da alma. O relatório Delors concluiu que: 64
    • “a educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade. Todo o ser humano deve ser preparado, especialmente graças à educação que recebe na juventude, para elaborar pensamentos autônomos e críticos e para formular os seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir, por si mesmo, como agir nas diferentes circunstâncias da vida”. DELORS, (2003, p. 97) O pedagogo jesuíta François Charmot, já falava de formação integral dohomem dentro do contexto do humanismo. Seu pensamento foi retomado eaprofundado por J. Maritain (1882-1973), que escreve sobre o Humanismo Integral,obra de 1936, citada por Libanio “O humanismo tende essencialmente a tornar o homem mais verdadeiramente humano e a manifestar sua grandeza original fazendo-o participar de tudo o que pode enriquecer na natureza e na história; ele exige ao mesmo tempo, que o homem desenvolva as virtualidades nele contidas, suas forças criadoras e a vida da razão, e trabalhe por fazer das forças do mundo físico instrumento de sua liberdade” (J.Maritain, citado por LIBANIO, 2002, p. 80-81) Hoje se pede uma compreensão mais ampla do ser humano, uma novaantropologia, como escreveu Boff: “O homem constitui-se como nó de relações que atingem a totalidade da realidade. O nosso corpo pode universalizar-se; ele se estende até as estrelas, pode entrar em comunhão com todo o universo dos seres”. (O homem como nó de relações, 1971) “A reflexão ecológica ajudou-nos a entender que o ser humano é parte da natureza e da biosfera. Ele não é o centro do Universo”. (BOFF. apud. LIBANIO, 2002, p. 83) Mais do que preparar as crianças para uma dada sociedade, o problema será,então, fornecer-lhes constantemente forças e referências intelectuais que lhespermitam compreender o mundo que as rodeia e comportarem-se nele como atoresresponsáveis e justos. A educação, para os Cavanis, não pode ser desenvolvida na vida do homemsem a intenção de levá-lo a encontrar respostas às dúvidas de seu tempo e acompreensão de que ele é um ser em relação com o outro com o mundo. Mais do que nunca a educação parece ter como papel essencial, conferir atodos os seres humanos a liberdade de pensamento, discernimento, sentimentos eimaginação de que necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem,tanto quanto possível, donos do seu próprio destino. (DELORS, 2003, p. 97) 65
    • CONSIDERAÇÕES FINAIS Uma das tarefas essenciais da pedagogia, desenvolvida e aplicada pelosIrmãos Cavanis é a de ajudar a transformar a interdependência real do homem emsolidariedade, ou seja, preparando cada indivíduo para compreender a si mesmo eao outro, através de um melhor conhecimento do mundo. Para poder compreender o mundo e suas crescentes complexidades, faz-senecessário antes de adquirir um conjunto de conhecimentos, aprender a relativizaros fatos e a revelar o sentido crítico perante as informações que se recebe todos osdias. Nesse ponto a educação manifesta seu caráter insubstituível, de formar oseducandos na capacidade de analisar e julgar os fenômenos que o cercam. A compreensão desse mundo passa, evidentemente, pela compreensão dasrelações que ligam o ser humano ao seu meio ambiente. (DELORS, 2003, p.47) O mundo todo é uma “aldeia global”, onde cada vez mais as distâncias sãoreduzidas. E isso se dá em grande escala, graças à evolução tecnológica e a umaconsciência humanista de que o homem transformador da natureza e ao mesmotempo dependente dela deve renunciar a herança nociva do passado feita deconflitos e concorrências para abrir-se, a uma nova cultura de convergência ecooperação, numa interdisciplinaridade social, com uma visão de conjunto dos laçosque unem homens, mulheres e nações ao meio ambiente. O planeta a cada ano gira mais depressa, e o regulamento não muda! SAINT-EXUPÉRY, (2004, p. 50) Cada vez mais torna-se evidente que a sobrevivência da humanidadedepende do desenvolvimento de uma consciência mundialista capaz de criatividadee compaixão. A dimensão espiritual deve estar no centro dessa reflexão sobre educação, ecomo já foi apresentada, essa dimensão foi e continua sendo o cerne e basefundamental da Pedagogia Cavanis.
    • O relatório para UNESCO, da Comissão Internacional sobre Educação para oséculo XXI, com o título “Educação um tesouro a descobrir”, entre muitascoincidências com a Pedagogia dos Cavanis faz um convite para que sem perda detempo, sejamos os pioneiros e propagadores de uma filosofia holística da educaçãopara o século XXI. A educação holística deve ter em conta as múltiplas facetas - físicas,intelectuais, estéticas, emocionais e espirituais – da personalidade humana e tender,assim para a realização desse sonho eterno: um ser humano perfeitamenterealizado vivendo num mundo em harmonia. (DELORS, 2003, p.245) Os irmãos Cavanis ensinaram a seus congregados que a quantidade derecursos necessários para ir ao encontro das crianças pobres tem que ser tãogrande quanto as suas necessidades. O principal serviço que o Instituto Cavanis oferece à Igreja e à sociedade nocampo da educação são escolas, casas assistenciais e centros de formaçãoprofissional. Estes possibilitam que o conhecimento que os alunos adquirem do mundo, davida e do homem, seja iluminado pela fé. Dessa forma, os educadores Cavanis empenham-se para adequá-los aostempos e lugares; dedicando-se a eles com todos os recursos da mente e docoração; cuidando da própria preparação mantendo uma abertura em vista de umaconstante renovação e adaptação às exigências dos tempos. Conforme o Projeto Educativo Cavanis, no número 34 o objetivo da EscolaCavanis é a educação do homem na sua personalidade e humanidade, entendidocomo formação integral do homem, orientado-o livre e eficazmente para Deus, seufim último, segundo a visão tomista. Esse objetivo pode ser considerado humanizador por ser personalizado,integrado na sociedade civil, porque prepara os educandos para serem nelaprotagonistas da paz e promotores de justiça social. No número 35, do referido documento, a escola ela deve suscitar nos jovenso desejo de buscar a verdade, não só de ordem científica e humana, mas tambémaquela que dá um sentido último à vida. Todo processo educativo pessoal deve levaro jovem a descobrir o projeto de Deus sobre sua vida. 67
    • REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICASCONGREGAÇÃO DAS ESCOLAS DE CARIDADE. Instituto Cavanis. Carisma eEspiritualidade dos veneráveis Antonio e Marcos Cavanis. Roma: [S.l.:s.n.],1982.CONGREGAÇÃO DAS ESCOLAS DE CARIDADE. Instituto Cavanis. Constituiçõese Normas. Roma: [S.l.: s.n.],1969.CONGREGAÇÃO DAS ESCOLAS DE CARIDADE. Instituto Cavanis. Espírito efinalidade da Congregação das Escolas de Caridade. Roma: [S.l.: s.n.],1969.CURY, A. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante.2003.DELORS,J. Educação: Um tesouro a descobrir: Relatório para a comissãointernacional sobre educação para o século XXI. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília,DF: MEC: UNESCO, 2003.FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. 28. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.LIBANIO, J.B. A arte de formar-se. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2002 (coleção CES).MONDIM, B. Curso de Filosofia. 5.ed. São Paulo: Paulinas v.2, 1982.SAINT-EXUPÉRY, Antonie de. O pequeno príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir.2004.SANTA CRUZ,A. de. Os dois leões de Veneza. Curitiba: Rosário, 1993.SGARBOSSA,M.; GIOVANNINI,L. Um Santo para cada dia. São Paulo: Paulinas,1983.TELLECHEA, Pe. A. Escola Cristã Para todos: São José de Calasanz e os padresEscolápios. Pomezia (Roma): Du Signe, 1996.THURSTON,H.J.; ATTWATER,D. Vida dos Santos de Butler. Petrópolis: Vozes, v.I,1984. p.247-253 – Francisco de Sales v.V,1988. p.237-242 – Felipe Neri v.VI,1989. p.212-216 – Luiz gonzaga v.VII,1989. p.180-184 - Vicente v.VII,1989. p.237-242 (Camilo) v.VIII,1992. p.231-235 - Calasanz
    • ANEXOS
    • O ESPÍRITO DE SÃO FRANCISCO DE SALES(extraído dos seus escritos) http://oblatosamlat.cybermeme.net/intpg2.html (11/09/2004) Não espere as mudanças e eventualidades desta vida com medo; antes, encare-as com a firme esperança de que, ao surgirem, Deus, de quem você é filho, o livrará delas. Só confia nEle e Ele continuará conduzindo você seguramente através de tudo. Onde não puder caminhar, Ele o carregará nos braços. Não se preocupe com o que pode acontecer amanhã; o mesmo Pai eterno que cuida de você hoje, se encarrega de você amanhã e todos os dias. Ou Ele protegerá você do sofrimento, ou lhe dará a força infalível para suportá-lo. Esteja em paz, pois, e afaste todos os pensamentos de angústia. Anime-se e transforme os problemas em matéria para seu progresso e maturidade. Pense muitas vezes em Nosso Senhor, pois Ele ajudará a suportar os problemas. Todos eles serão incapazes de abalar você, só lembrando- se de que você tem um tal amigo. Faça tudo com calma e em paz. Realize quanto puder, tão bem quanto for capaz. Procure ver Deus em todas as coisas sem exceção, e disponha-se a fazer a vontade dEle com alegria. Faça tudo para Deus, unindo-se com Ele por palavras e obras. Avance muito simplesmente com a Cruz de Nosso e tenha paz consigo mesmo. Passará por cada tempestade com seguridade, enquanto a sua confiança se fixar em Deus. Não perca a sua paz interior por nada, nem se todo o seu mundo parece vir abaixo. Se se dá conta que se afastou da proteção de Deus, conduza o seu coração de volta para Ele tranqüila e simplesmente. Faça todas as coisas em nome de Deus e fará tudo bem. Se comer ou beber, trabalhar ou descansar, ganhará muito aos olhos de Deus, ao fazer todas essas coisas como Deus quer que se faça. Aconteça o que acontecer, não desanime; segure-se firmemente em Deus, mantenha-se em paz, com confiança no seu amor eterno por você.
    • PENSAMENTO ESPIRITUAL E PEDAGÓGICO DE SÃO JOSÉ DE CALASANZ A longa vida de São José de Calasanz ocupa praticamente a segundametade do século XVI e toda a primeira parte do séc. XVII. Pessoa aberta arealidade que o circundava, sentiu os impactos das idéias e problemas que orodeavam, e assumiu um compromisso pessoal de contribuir para o progressodas idéias e a solução dos problemas. Pode-se afirmar que, junto com outroscontemporâneos, foi protagonista , ainda que pouco conhecido, da transição dorenascimento ao modernismo. A formação espiritual de Calasanz foi muito influenciada pelas correntesrenovadoras do séc. XVI na Espanha, personificadas em alguns autoresascéticos e místicos como Gracía de Cisneros e João da Cruz, Bernadino deLaredo e Francisco de Osuna, Luís de Granada e Tereza de Jesus, AntônioCordeses e André Capilla. As pegadas de alguns desses autores refletem nos ensinamentosespirituais do Santo, anos mais tarde, quando propõe aos religiosos de suaOrdem um caminho espiritual baseado no próprio conindispensable para aprogressiva identificação com Jesus Cristo; e a prática da oração interior, comomeio necessário para progredir tanto no conhecimento pessoal como naintimidade com o Senhor. Os autores acima citados recomendam os temposfortes de meditação: o da manhã, dedicando a paixão de Cristo, e o da noite, aopróprio conhecimento, partindo dos novíssimos (morte, juízo, inferno e paraíso).Essa prática Calasanz a estabeleceu diariamente como fundamental em suaOrdem dês de a origem. Nas constituições que o Santo escreveu, para seus religiosos, em suascartas e em outros documentos redigidos por ele depois da fundação das EscolasPias, projeta e encarna a experiência interior na partilha diária da comunidadefraterna e na entrega cuidadosa ao ministério específico da educação. E comoconseqüência disso, nos Escolápios, tanto a prática das virtudes evangélicas e oempenho ascético como o compromisso apostólico de toda vida cristã, ficamcoloridos de maneira peculiar pelo carisma recebido que integra e unifica todosos aspectos de sua vocação. Foi precisamente a partir da dedicação de Calasanz para educação dosfilhos das classes populares em Roma, nos anos de transição do séc. XVI aoXVII, quando se reelaborou de modo explícito seu pensamento pedagógico, frutode seu pessoal itinerário espiritual e social. Anteriormente alguns pensadoreshumanistas como Juan Luiz Vives (1492-1540), Erasmo de Roterdan (1466-1529)e o mesmo Lutero (1486-1546), haviam teorizada sobre a educação de criançase jovens. Incluindo alguns fundadores religiosos anteriores, como JerônimoEmiliani (1486-1537), Antonio M. Zaccaria (1502-1539) e Inácio de Loyola (1491-
    • 1556), haviam iniciado obras assistenciais e educativas muito respeitadas, noentanto, o pensamento e a ação de Calasanz significaram uma ruptura a respeitoda cultura pedagógica anterior por um interesse prático demonstrada a favor daeducação das classes mais populares desde os primeiros anos e pela orientaçãocientífica dada a educação, além da tradicional humanista. Nos diversos escritos fundacionais, Calasanz faz um planejamento teóricoclaro do que pretende com a obra iniciada: contribuir para a reforma dasociedade e a felicidade temporal e eterna das pessoas, educando as criançasna fé cristã e nas letras humanas, por meio de Escolas Pias, que quer dizerpopulares e cristãs. Essa filosofia foi levada à prática por Calasanz durantecinqüenta anos até sua morte e organizou mais de trinta colégios em diversosestados europeus, formados de educadores preparados, estruturas adequadas eregulamentos escritos por ele mesmo. Para Calasanz, a figura do educador é oelemento fundamental na realização dos objetivos pedagógicos e sociais de suaobra. Em sua pessoa converge uma vocação religiosa e uma vocação educativaque se integram em uma identidade própria. Assim é que o pensamento espiritual e pedagógico de Calasanz seexpressou de maneira singular quando escreveu, com matizes diversos todas asvezes, sobre a figura ideal o perfil desse educador que pode-se chamarEscolápio, foi um homem entregue a educação evangelizadora das crianças,formado cultural e metodologicamente de maneira contínua, vivendo emcomunidade seus compromissos de religioso e praticando as virtudescaracterísticas de seu carisma: confiança em Deus, amor a Jesus Cristo,devoção a Maria, pobreza e humildade, caridade e paciência, entrega eabnegação, esperança e alegria... O pensamento espiritual e pedagógico de São José de Calasanz, e suaprática proposta a seus primeiros companheiros em Roma no início do séc. XVII,deu origem na Igreja a uma espiritualidade pedagógica e a uma pedagogiaespiritual de traços característicos que são uma das primeiras manifestações daespiritualidade e da pedagogia moderna. Esquematicamente assim se poderia descrever uma síntese dopensamento espiritual e pedagógico de São José de Calasanz:• Todo caminho espiritual se inicia pelo conhecimento de si mesmo e continua com o processo de identificação com Cristo, obra do Espírito, mediante a criação e a entrega pessoal.• A vida escolápia é uma forma total e direta de seguir evangelicamente o Senhor de corpo e alma.• Essa forma de vida íntegra a consagração por meio dos votos, a vida fraterna em comum e a dedicação ao ministério específico.• É um projeto de vida que implica acrescentar progressivamente a docilidade ao Espírito, a confiança em Maria, mãe e educadora, e o sentido eclesial.• Requer além de um constante cultivo das virtudes evangélicas e pedagógicas características do carisma Escolápio.• É na vida espiritual que o fundamental é deixar Deus trabalhar, porém também se deve colaborar com o próprio empenho.• A identidade do educador calasansiano é ser Cooperador da Verdade, ou seja viver e servir simultaneamente a Cristo na missão.• Do ministério escolápio depende a felicidade futura de cada educando e a reforma da sociedade.
    • • A educação dada deve ser completa, integrando as letras e ciências com a doutrina e a piedade cristã, sendo estas últimas-prioritárias.• O ministério educativo deve atender principalmente aos pobres e as crianças desde os primeiros anos.• A educação deve preparar para a vida, incluindo humanidades porém também ciências ou matemática e habilidades práticas (caligrafia, música...)• O método didático deve ser breve e eficaz para que as crianças aprendam em pouco tempo.• As escolas devem ser gratuita e tem de constar, ao menos de quatro graus na educação elementar e de outros quatro para as humanidade e ciências. Cada aluno para individualmente ao grau superior quando estiver preparado para ele.• Todas as Escolas Pias tem um plano educativo comum. Porém cada uma delas terá estruturas educativas adequadas, segundo as circunstâncias, e um regulamento próprio que determinará as funções diversas e as obrigações dos alunos, mestres, diretores, pais de família, autoridades civis. http://www.calasanz.org/menu/menu.html (20/9/2004)