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06 - O desaparecimento de Lady Frances Carfax
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06 - O desaparecimento de Lady Frances Carfax

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  • 1. Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Software Company, 2004 - 2007 For Evaluation Only. Sherlock Holmes em:O desaparecimento deLady Frances Carfax Por Sir Arthur Conan Doyle
  • 2. — Mas por que turco? — perguntou Sherlock Holmes, olhando fixamente paraminhas botinas. Nesse momento, eu estava estirado numa poltrona de vime e, certamente,meus pés estendidos tinham atraído sua sempre vigilante atenção.— É inglês! — respondi-lhe, algo surpreendido. — Comprei este calçado naLatimer, na Oxford Street. Holmes sorriu com ar de entediada paciência.— Refiro-me ao banho! — replicou. — Ao banho! Por que fazer uso do banhoturco, dispendioso e debilitante, em vez do revigorante banho doméstico?— Porque, nestes últimos dias, tenho me sentido velho e reumático. O banhoturco é o que nós em medicina chamamos um purificador do sistema. Apropósito, Holmes, não duvido de que a relação entre minhas botinas e umbanho turco se apresente evidente para um espírito lógico; entretanto, eu lheficaria muito grato se a quisesse explicar.— O raciocínio não é muito obscuro, Watson — respondeu Holmes, piscando-me o olho com ar malicioso. — Pertence à classe de dedução elementar queeu mesmo usaria como ilustração se lhe perguntasse quem lhe fez companhiano passeio de carro desta manhã.— Não concordo que um novo exemplo seja uma explicação — respondi-lhecom certa aspereza.— Bravo, Watson! Admoestação muito digna e coerente. Examinemos ospontos de meu raciocínio. Comecemos pelo último: o passeio de carro. Repareque tem a manga e o ombro esquerdo do casaco salpicados de lama. Se setivesse sentado no meio do banco do carro, provavelmente não ostentariaesses salpicos, e, se tal acontecesse, por certo seriam simétricos. É evidente,portanto, que ficou a umcanto, e por isso é também evidente que estava na companhia de alguém.— Tudo isso é muito claro.— Absurdamente corriqueiro, não acha?— Sim, bem vistas as coisas...— E igualmente pueril. Você costuma atar os cordões das botinas de uma certamaneira. Vejo-os agora atados com um complicado nó duplo, diferente dohabitual. Logo, descalçou-as. E quem as atou novamente? Um sapateiro... ou oempregado da casa de banhos. É pouco provável que se trate de um sapateiro,pois seu calçado está quase novo. Que resta então? O banho. Facílimo, nãolhe parece? Mas, com tudo isso, o banho turco serviu para alguma coisa.— Qual?
  • 3. — Disse-me há pouco que o tinha tomado por sentir necessidade deretemperar as forças. Permita-me que lhe sugira que o faça de maneiracompleta. Que pensa de uma estada em Lausanne, meu caro... passagens deprimeira classe e todas as despesas pagas regiamente?— Seria esplêndido! Mas por quê? Holmes recostou-se na poltrona e tirou do bolso seu inseparável livro denotas.— Uma das classes mais perigosas da sociedade — disse — é a da mulhernômade e sem amigos. É o mais inofensivo e, freqüentemente, o mais útil dosmortais; no entanto, constitui para os outros um inevitável incentivo ao crime.Não conta com a ajuda de ninguém, é migratória; tem meios suficientes para setransferir de um país para outro e de hotel para hotel. Perde-se, muitas vezes,num labirinto de pensões obscuras. É como uma galinha perdida num mundode raposas. Quando desaparece, quase ninguém lhe sente a falta. Eis por quereceio que tenha acontecido alguma desgraça a Lady Frances Carfax. Senti-me aliviado com essa repentina mudança do geral para o particular.Holmes consultou seus apontamentos.— Lady Frances — continuou — é a única descendente direta do falecidoconde de Rufton. Como talvez se lembre, os bens de raiz couberam àdescendência masculina, de forma que ela possui haveres limitados. Herdou,entretanto, grande variedade de antigas jóias espanholas, de prata, ebrilhantes, que se recusa a deixar aos cuidados de seu banqueiro, levando-ossempre consigo. É uma figura verdadeiramente patética, essa Lady Frances,uma bela mulher, que conserva ainda um certo viço apesar da idade, mas, porestranho acaso, é a última remanescente do que, há apenas vinte anos,constituía uma ilustre linhagem.— Mas afinal, o que lhe aconteceu?— Ah! Isso pergunto eu. Está viva ou morta? Eis nosso problema. LadyFrances é uma senhora metódica e há quatro anos, invariavelmente, de duasem duas semanas, costuma escrever à srta. Dobney, sua velha governanta, hámuito aposentada, que mora em Camberwell. Pois foi a srta. Dobney quemveio procurar-me. Há quase cinco semanas não recebe a menor notícia deLady Frances. A última carta foi escrita do Hotel National, em Lausanne. Aoque parece, Lady Frances deixou esse hotel sem dar o novo endereço. Osparentes estão preocupados, e, como são riquíssimos, não pouparão despesasa fim de esclarecer esse mistério.— A srta. Dobney é a única fonte de informações que possuímos? Serápossível que ela não tivesse outros correspondentes?— Existe um correspondente que constitui sempre boa fonte de informações,Watson. É o banco. As senhoras solteiras também precisam viver, e seus
  • 4. talões de cheques são verdadeiros diários condensados. Os haveres de LadyCarfax estão depositados no Silvester. Já estive lá examinando sua contacorrente. O penúltimo cheque foi sacado em Lausanne para pagar as despesasdo hotel; era, porém, de quantia elevada, e com certeza lhe sobrou muitodinheiro. Apenas um cheque foi sacado depois desse.— A favor de quem e onde?— A favor da srta. Marie Devine. Não há nada que indique onde o cheque foiemitido. Foi descontado no Crédit Lyonnais, em Montpeilier, há menos de trêssemanas. Importava em cinqüenta libras.— E quem é essa srta. Devine?— Consegui também descobrir isso. A srta. Marie Devine era criada de LadyFrances Carfax. Por que motivo ela lhe deu esse cheque, ainda não fomoscapazes de saber; no entanto, tenho certeza de que suas pesquisasesclarecerão essa particularidade.— Minhas pesquisas?— É esse justamente o motivo de sua estada em Lausanne. Você sabe quenão posso deixar Londres de forma nenhuma enquanto o velho Abrahamsestiver com tanto medo de perder a vida. Além disso, por princípio geral, émelhor que eu não saia do país. A Scotland Yard sente-se abandonada semmim, e minha ausência provoca sempre uma indesejável agitação nas classescriminais. Vá, pois, meu caro Watson, e se achar que meus humildesconselhos valem a ninharia de dois pence por palavra, eles estarão a seudispor, dia e noite, nesta extremidade do telégrafo continental. Dois dias depois, encontrava-me no Hotel National, em Lausanne, onde fuiacolhido com as maiores atenções por parte do sr. Moser, seu afamadogerente, o qual me informou que Lady Frances ali estivera hospedada durantevárias semanas. Todos os que a tinham conhecido eram unânimes emreconhecer que dela irradiava grande simpatia. Não devia contar mais dequarenta anos. Era ainda bonita, e parecia ter sido muito linda quando jovem.O sr. Moser nada sabia a respeito das jóias, mas as criadas do hotel tinhamreparado que uma pesada mala, existente no quarto dessa senhora, seencontrava sempre cuidadosamente fechada à chave. Marie Devine, suacriada, era tão estimada como ela. Ficara noiva de um dos chefes deempregados do hotel, e não havia dificuldade em fornecer seu endereço: Ruede Trajan, número 11, Montpeilier. Tomei nota de tudo isso e tive a sensaçãode que nem Holmes, em pessoa, teria sido capaz de obter esses dados commaior presteza do que eu. Todavia, restava ainda um ponto obscuro. Ninguém sabia explicar-me arazão da partida súbita de Lady Frances. Sentia-se muito satisfeita emLausanne. Tudo fazia crer que estava decidida a permanecer durante toda aestação em seu luxuoso apartamento à beira do lago. No entanto, partira com oaviso de apenas um dia, perdendo uma semana de hospedagem paga
  • 5. adiantadamente. Só Jules Vibart, o noivo da criada, ofereceu uma sugestão.Relacionava a partida repentina com a visita feita ao hotel, um ou dois diasantes, por um homem alto, moreno e barbudo. "Un sauvage.... un véritablesauvage!", exclamou Jules Vibart. Esse homem hospedara-se num lugarignorado da cidade. Fora visto conversando animadamente com Lady Francesna avenida marginal do lago. Depois fora visitá-la no hotel, mas ela se recusaraa recebê-lo. Era inglês, sem dúvida, mas ninguém soube dizer-lhe o nome. Adama partira logo em seguida. Jules Vibart e, o que era mais importante, suanoiva pensavam que entre a visita e a partida havia uma relação de causa eefeito. Apenas um ponto Jules Vibart não desejava discutir: o motivo pelo qualMarie deixara a patroa. Sobre isso não podia ou não queria dizer nada. Se eu oquisesse saber, teria de ir a Montpeilier e perguntar a ela. Assim terminou o primeiro capítulo de minhas investigações. O segundo foidedicado ao lugar para onde se dirigira Lady Frances ao sair de Lausanne. Aesse respeito houve um certo segredo, o que vinha confirmar a hipótese de elater partido com o propósito de despistar alguém. Caso contrário, por que motivosua bagagem não fora abertamente endereçada a Baden? Tanto a bagagemcomo ela própria tinham chegado à estação terminal renana por vias indiretas,segundo informações do gerente local da Agência Cook. Segui, porconseguinte, para Baden, depois de transmitir a Holmes um resumo de minhasdiligências, e recebi como resposta um telegrama de congratulações semi-irônico. Em Baden não me foi difícilacompanhar a pista dadesaparecida. Lady Francesestivera hospedada noEnglischer Hof por uns quinzedias. Durante suapermanência ali, travararelações com o dr,Schiessinger, missionário queacabara de regressar daAmérica do Sul, e suaesposa. Como acontece àmaioria das senhorassolitárias, Lady Frances encontrou lenitivo e trabalho na religião. Apersonalidade extraordinária do dr. Schiessinger, sua profunda devoção e ofato de estar convalescente de uma moléstia contraída no exercício de seuapostolado, impressionaram-na vivamente. Lady Frances ajudara a sra.Schiessinger a tratar do piedoso enfermo, o qual passava o dia, consoante mecontou o gerente do hotel, no alpendre, deitado numa poltrona, sob os olharesvigilantes das duas dedicadas enfermeiras. Estava preparando um mapa daTerra Santa, com referências especiais ao reino dos medianitas, a respeito doqual estava escrevendo uma monografia. Por fim, como sua saúde melhorara,ele e a mulher haviam regressado a Londres, na companhia de Lady Frances.Isso acontecera exatamente três semanas antes, e desde então o gerente denada mais soubera. Quanto à criada, Marie, partira alguns dias antes, numdilúvio de lágrimas, depois de ter informado às outras criadas que deixava para
  • 6. sempre o serviço de Lady Frances. O dr. Schiessinger, antes de partir, pagaraa conta de todos.— A propósito — concluiu o hoteleiro —, o senhor não é o único amigo de LadyFrances Carfax que se interessa pelo paradeiro dela. Há cerca de umasemana, esteve aqui outra pessoa com o mesmo fim.— Deixou o nome? — indaguei.— Não; mas era evidentemente inglês, embora de um tipo pouco comum.— Um selvagem? — perguntei, relacionando meus dados à maneira de meuilustre amigo.— Precisamente. Essa palavra descreve-o à maravilha. É um indivíduocorpulento, barbudo, queimado de sol, que parece achar-se muito mais àvontade numa pensão de província do que num hotel de luxo. Pareceu-me umhomem rude, impulsivo, com o qual, por nada no mundo, eu desejaria entrarem conflito. O mistério já começava a aclarar-se, assim como as figuras se apresentammais distintas à medida que a névoa se dissipa. Eu me deparava com uma boae piedosa senhora, perseguida sem descanso por um tipo sinistro, inexorável.Ela o temia, pois do contrário não teria fugido de Lausanne. Ele seguira-a.Cedo ou tarde, ela cairia em seu poder. Talvez já a tivesse nas mãos. Seriaesse o motivo do prolongado silêncio? Poderiam seus bondosos companheirosde viagem protegê-la contra a violência ou possível extorsão por parte dessechantagista? Que horrível objetivo, que intenção tenebrosa se ocultaria atrásdessa infindável perseguição? Eis o problema que me competia resolver. Escrevi a Holmes explicando-lhe a rapidez e a segurança com que atingira oâmago da questão. Recebi, em resposta, um telegrama no qual ele me pediaque descrevesse a orelha esquerda de Schiessinger. O conceito de humor deHolmes é estranho, e às vezes injurioso, por isso não dei atenção aoinoportuno gracejo... Por outro lado, eu já chegara a Montpeilier à procura dacriada Marie, antes de receber o telegrama. Não tive dificuldade em encontrar a ex-criada e em ouvir de seus próprioslábios tudo o que ela sabia. Era muito devotada a Lady Frances, e só a deixarapor estar certa de que ficara em boas mãos e também porque, de qualquermodo, seu casamento iminente iria tornar essa separação inevitável. A patroa,conforme me confessou, angustiada, tinha-se mostrado um tanto irritada comela durante a permanência em Baden, chegando uma vez a interrogá-la, comose duvidasse de sua honestidade, fato esse que tornara a separação mais fácil.Lady Frances dera-lhe cinqüenta libras como presente de núpcias. Como eu,Marie também desconfiava do estranho que fizera a ama abandonar Lausanne.Com os próprios olhos,, vira-o agarrar violentamente a senhora pelos pulsos naavenida que circundava o lago. Era um homem selvagem e de aspecto terrível.Acreditava que Lady Frances tivesse concordado em acompanhar os
  • 7. Schiessinger até Londres unicamente de medo dele. Jamais falara com Marie arespeito disso; não obstante, numerosos e pequenos indícios tinham-naconvencido de que a pobre mulher vivia em estado de permanente apreensão.Ao chegar a esse ponto da narrativa, ergueu-se subitamente da cadeira ondeestava sentada, com o rosto contraído num esgar de surpresa e pavor.— Olhe! — exclamou. — Aquele canalha ainda está aqui! Lá vai a pessoa dequem estou falando. Através da janela aberta da sala de estar, avistei um homem gigantesco,moreno, com uma hirsuta barba negra, caminhando a passo lento pelo meio darua e olhando com atenção os números das casas. Era evidente que, como eu,também ele viera em busca da criada. Agindo impulsivamente, corri para a ruae aproximei-me dele.— O senhor é inglês — disse-lhe.— E o que tem isso? — perguntou-me, franzindo o sobrolho.— Posso saber seu nome?— Não, não pode — respondeu-me secamente. A situação era embaraçosa; mas o método direto, porém, é muitas vezes omelhor.— Onde está Lady Frances Carfax? — perguntei. Ele fitou-me, aturdido.— O que fez dela? Por que a segue dessa maneira? Exijo uma resposta! —insisti. O homem lançou um rugido de cólera eatirou-se a mim como um tigre. Tenhodemonstrado minha força em mais de umaluta, mas o desconhecido possuía um pulsode ferro e a fúria de um demônio. Sua mãojá me comprimia a garganta e eu me sentiadesfalecer, quando um operário francês, debarba por fazer e com uma blusa azul,surgiu de um botequim à nossa frente,brandindo um cassetete, com o qual aplicouum violento golpe no antebraço de meuagressor, obrigando-o a largar a presa.Durante alguns instantes, o homempermaneceu arquejante de cólera, indecisosobre se deveria ou não recomeçar oataque. Finalmente, com um grunhido feroz,abandonou-me e entrou na casa que eu
  • 8. acabava de deixar. Voltei-me para agradecer a meu salvador, que ficara nomeio da rua.— Bravo, Watson! — disse-me ele. — Bela trapalhada você fez! Acho melhorvoltar comigo a Londres, no trem de hoje à noite. Uma hora mais tarde, Sherlock Holmes, em sua elegância habitual, estavasentado em meu quarto de hotel. A explicação de seu aparecimentoinesperado e providencial era simplicíssima. Verificando ser-lhe possívelafastar-se de Londres, decidira preceder-me na segunda etapa de minhaviagem, e, disfarçado de operário, ficara no botequim à minha espera.— Bela investigação você fez, e de consistência verdadeiramente notável, meucaro Watson. Com franqueza: neste momento, não consigo recordar-me denenhum disparate que possa ter omitido. O resultado completo de suaspesquisas foi alarmar meio mundo e não descobrir coisa nenhuma.— Provavelmente, você não teria feito melhor — repliquei, despeitado.— Não se trata aqui de "provavelmente". Eu fiz melhor. Eis ali o sr. PhilipGreen, seu companheiro de hotel, junto de quem talvez se possa encontrar oponto de partida para uma investigação mais construtiva. Tinham trazido numasalva um cartão de visita, seguido imediatamente do mesmo velhaco barbudoque me agredira pouco antes na rua. Ao ver-me, estremeceu.— O que significa isso, sr. Holmes? — indagou. — Recebi seu recado eapressei-me a vir. Mas o que este homem tem a ver com o assunto?— Este é meu velho amigo e sócio, o dr. Watson, que nos ajuda em nossaspesquisas. O desconhecido estendeu-me a mão enorme e bronzeada, acompanhando ogesto de breves palavras de desculpa.— Espero não lhe ter causado nenhum mal. Quando me acusou daquelamaneira, perdi a cabeça. Na verdade, não respondo por mim nestes dias.Tenho os nervos à flor da pele, e esta situação põe-me maluco. Contudo,desejo que me diga, antes de mais nada, como, com todos os diabos,conseguiu saber de minha existência.— Estou em contato com a srta. Dobney, governanta de Lady Frances.— Ah! A velha Susan Dobney, com sua touca! Lembro-me muito bem dela.— E ela também se recorda do senhor. Foi um pouco antes... antes de osenhor se convencer de que devia partir para o sul da África.— Oh! Vejo que sabe de tudo. Não preciso ocultar-lhe nada. Juro-lhe, sr.Holmes, que não havia no mundo homem que amasse tanto uma mulher comoeu amava Lady Frances. Era um doidivanas, bem sei... mas não era pior do
  • 9. que os outros jovens de minha condição social. Todavia, sua alma era puracomo a neve. Não podia suportar a mais leve sombra de grosseria. Dessemodo, quando descobriu tudo quanto eu fizera, já não quis saber de mim. Noentanto, ela me amava... e, o que é mais estranho, amava-me a ponto de seconservar solteira, durante toda a sua longa e santa vida, unicamente porminha causa. Agora, passados tantos anos, e depois que fiz fortuna emBarherton, julguei que talvez pudesse procurá-la e enternecê-la. Soube queainda não tinha se casado. Encontrei-a em Lausanne e fiz tudo para persuadi-la. Creio tê-la comovido, mas, dotada de um espírito forte, abandonou a cidadeantes que procurasse pela segunda vez. Descobri que partira para Baden e,depois de algum tempo, soube que sua criada ficara aqui. Sou um tipo rude,recém-saído de uma existência de lutas, e, quando o dr. Watson me dirigiu apalavra daquele modo, fiquei fora de mim. Mas, pelo amor de Deus, diga-me oque aconteceu a Lady Frances.— É o que nos cumpre averiguar — respondeu Sherlock Holmes com particulargravidade. — Qual e seuendereço em Londres, sr. Green?— O senhor me encontrará no Langham Hotel.— Então permita-me aconselhá-lo a ir para lá e ficar à minha disposição atéque eu precise de seu auxílio. Não desejo alimentar falsas esperanças, maspode ficar certo de que farei todo o possível no sentido de salvar Lady Frances.Por ora, não posso dizer mais nada. Deixo-lhe este cartão a fim de que possamanter-se em contato conosco. E agora, Watson, se quiser arrumar a mala,telegrafarei à sra. Hudson para que faça tudo o que lhe estiver ao alcance,amanhã às sete e meia, por dois viajantes famintos. Ao chegarmos a nosso apartamento da Baker Street, encontramos umtelegrama à nossa espera. Holmes leu-o com uma exclamação de interesse eatirou-o a mim. "Cortada ou arrancada", dizia a curiosa mensagem, cujo lugarde origem era Baden.— O que isso quer dizer? — perguntei.— Quer dizer tudo — respondeu Holmes. — Deve lembrar-se de minhapergunta, aparentemente fútil, a respeito da orelha esquerda do dr.Schiessinger, e à qual você não se dignou responder.— Já tinha deixado Baden, e não me foi possível obter informações.— Exato. Por esse motivo expedi um segundo telegrama ao gerente doEnglischer Hof, e aí está a resposta.— E o que significa?— Significa, meu caro Watson, que estamos tratando com um homemexcepcionalmente astuto e perigoso. O reverendíssimo dr. Schiessinger,missionário de regresso da América do Sul, não é outro, senão Holy Peters, um
  • 10. dos mais perigosos patifes que a Austrália já produziu... e vale a pena lembrarque, como país jovem, tem apresentado exemplares dos mais perfeitos. Suaespecialidade é insinuar-se junto a senhoras solitárias, explorando-lhes osentimento religioso. A mulher que passa por sua esposa é uma inglesa, denome Fraser, e é sua digna companheira. A tática empregada, que lhe écaracterística, sugeriu-me sua identidade; o defeito físico (foi mordido na orelhanuma luta de botequim, em Adelaide, em 1889) confirmou-me a suspeita. Essapobre senhora está nas mãos de um casal satânico, capaz de tudo, Watson. Ahipótese de que já esteja morta é muito viável. Caso contrário, deve estar, semdúvida, prisioneira e impossibilitada de escrever, seja à srta. Dobney, seja aqualquer outro de seus amigos. É muito provável que nem tenha chegado aLondres ou que tenha apenas atravessado a cidade; contudo, a primeirasuposição é improvável, pois, dado o sistema de registro, não é fácil aestrangeiros burlar a vigilância da polícia continental. Por outro lado, a segundahipótese é igualmente inverossímil, porque esses patifes não podiam encontrarum lugar melhor do que Londres para manter alguém cativo. Tudo me leva aafirmar que ela se encontra em Londres, mas, como não possuímos demomento nenhum meio de saber o local, nada nos resta senão tomar asprovidências necessárias, jantar calmamente e munir-nos de paciência. Ànoitinha, darei um pulo até a Scotland Yard, a fim de trocar idéias com nossoamigo Lestrade. No entanto, nem a polícia oficial, nem a pequena mas eficaz organização deHolmes conseguiram lançar maior luz sobre o mistério. Entre os milhões dehabitantes que se agitam em Londres, os três que procurávamos eram tãoinvisíveis como se jamais tivessem existido. Foram feitas tentativas através deanúncios nos jornais, sem resultado. Foram seguidas pistas que falharamcompletamente. Todos os lugares escusos onde Schiessinger pudesse serencontrado foram vasculhados em vão. Todos os seus antigos companheirosforam seguidos; estes, porém, não foram vistos com ele. Finalmente, depois deuma semana de pesquisas inúteis, brilhou um raio de luz. Na casa de penhoresBevington, na Westminster Road, foi empenhado um pingente de prata ebrilhantes lavrado em antigo estilo espanhol. O homem que o empenhara eracorpulento, calvo e de aparência eclesiástica. Verificou-se que tanto o nomecomo o endereço eram falsos. A orelha escapara à atenção do empregado,mas a descrição correspondia, sem sombra de dúvida, a Schiessinger. Nosso barbudo amigo do Langham Hotel viera três vezes em busca denotícias — a terceira, uma hora depois de recebermos a inesperadainformação. Suas roupas, pouco a pouco, ficaram folgadas para o corpoemagrecido. Definhava de ansiedade a olhos vistos. "Se ao menos me dessemalguma coisa para fazer!", era seu lamento habitual. Holmes, finalmente, estavaem condições de lhe satisfazer a vontade.— Começou a empenhar as jóias; talvez, agora, consigamos apanhá-lo.— Mas isso significa que aconteceu alguma desgraça a Lady Frances? Holmes acenou gravemente com a cabeça.
  • 11. — Suponho que a tenham mantido prisioneira até agora; é evidente que nãopoderão libertá-la sem comprometerem a própria segurança. Devemos estarpreparados para o pior.— Que devo fazer?— Essa gente não o conhece de vista?— Não.— É possível que no futuro eles procurem outra casa de penhores. Nessecaso, precisamos começar tudo de novo. Por outro lado, adiantaram-lhe umbom dinheiro pela jóia, sem lhe fazer perguntas; portanto, se ele necessitar dedinheiro com urgência, voltará provavelmente à Bevington. Com umaapresentação minha, ser-lhe-á permitido ficar à espreita na loja. Se o homemaparecer, siga-o até sua casa. Nada de indiscrições, porém, e principalmente,nada de violência. Dê-me sua palavra de honra de que não dará um passo semque eu o saiba e sem meu consentimento. Durante dois dias, o nobre barãoPhilip Green (devo mencionar queele era filho do famoso almirante domesmo nome, que comandou aesquadra do mar de Azof, na Guerrada Criméia) não nos trouxe a menornotícia. Na noite do terceiro dia,irrompeu pela nossa sala de estar,pálido, trêmulo, cada músculovibrante de emoção.— Nós o descobrimos! Nós odescobrimos! — berrou. A agitação tornava-o incoerente.Holmes tratou de acalmá-lo e fê-losentar-se numa poltrona.— Vamos, conte-nos por ordem tudo o que aconteceu.— Apareceu há apenas uma hora; desta vez foi a mulher, mas o pingente quetinha nas mãos era igualzinho ao outro. É uma mulher alta, descorada, comolhos de furão.— Sim, é ela — confirmou Holmes.— Quando saiu, pus-me a segui-la. Dirigiu-se para a Kennington Road e eu aacompanhei de perto. Pouco adiante, entrou numa loja. Uma empresafunerária, sr. Holmes! Meu companheiro estremeceu.
  • 12. — E então? — perguntou com aquela voz vibrante que revela, por trás damáscara impassível, a alma em tumulto.— Começou a conversar com uma mulher que se encontrava atrás do balcão.Entrei. "Está demorando", ouvi-a dizer. A mulher do balcão desculpou-se: "Jádevia ter sido entregue. Levou mais tempo por ser de tamanho invulgar".Ambas pararam de falar e olharam para mim. Fiz uma pergunta qualquer e saí.— O senhor portou-se de maneira brilhante. Que aconteceu depois?— A mulher abandonou a loja, mas eu me ocultara na entrada de uma casavizinha. Acredito que lhe despertei suspeitas, pois lançou um olhar em redor.Em seguida, chamou um carro e partiu. Tive a sorte de encontrar outro e segui-a. Desceu por fim em frente à casa número 36 da Poultney Square, em Brixton,Continuei até a esquina, onde deixei o carro, e pus-me à espreita.— Viu alguém?— As janelas estavam às escuras, exceto uma no andar térreo. A cortina,porém, estava abaixada, e não me foi possível distinguir nada lá dentro.Encontrava-me ali, sem saber o que fazer, quando vi parar uma carroçacoberta, com dois homens na boleia. Estes apearam, tiraram alguma coisa dointerior do veículo e transportaram-na até os degraus da porta de entrada. Sr.Holmes, era um caixão de defunto.— Oh!— Por um instante, estive a ponto de me atirar para dentro da casa. A portafora aberta a fim de dar passagem aos dois homens e à sua carga. Enquantome encontrava ali, a mulher que os fizera entrar avistou-me, e desconfio queme reconheceu. Vi-a estremecer e fechar rapidamente a porta. Lembrei-me,então, do que prometera ao senhor, e aqui estou.— Seu trabalho foi excelente — disse Holmes, rabiscando algumas palavrasnuma folha de papel. — Não podemos empreender nenhuma ação legal semum mandado, e o senhor não poderá prestar melhor ajuda do que levar estebilhete às autoridades e conseguir-nos um. Talvez encontre certa dificuldadeem obtê-lo, mas creio que a venda das jóias é motivo suficiente. Lestradecuidará dos pormenores.— Mas eles podem assassiná-la enquanto isso. O que poderia significar ocaixão, e para quem seria ele senão para Lady Frances?— Tentaremos tudo o que for possível, sr. Green. Não perderemos tempo.Deixe o caso em nossas mãos. E agora, Watson — acrescentou Holmes,enquanto nosso cliente se afastava apressado —, ele porá em ação a políciaregular. Nós, como de costume, somos os irregulares, e devemos escolhernosso próprio modo de agir. A meu ver, a situação é de tal formadesesperadora que justifica o emprego de medidas extremas. Precisamos ir à
  • 13. Poultney Square sem perda de tempo. "Procuremos reconstituir a série de ocorrências", continuou, enquanto nossocarro passava velozmente defronte ao edifício do Parlamento, em direção àPonte de Westminster. "Aqueles patifes induziram a pobre senhora aacompanhá-los a Londres, depois de a terem separado de sua fiel criada.Ainda que tivesse escrito algumas cartas, teriam sido interceptadas. Porintermédio de um de seus sequazes, alugaram uma casa mobiliada. Uma vezinstalados, fizeram-na prisioneira e apossaram-se de suas jóias, as quais,desde o início, constituíram seu objetivo. Já começaram a vender parte delas, edevem sentir-se seguros, pois não têm motivos para pensar que alguém possainteressar-se pela sorte de Lady Frances. Se a libertassem, ela certamente osdenunciaria; portanto, torna-se para eles questão de vida ou morte mantê-laaprisionada. Mas, por outro lado, não podem conservá-la eternamente fechadaà chave. Logo, seu assassinato é a única saída que lhes resta."— Isso parece-me perfeitamente claro.— Façamos, agora, outro raciocínio. Quando seguimos duas seqüênciasdistintas de idéias, Watson, encontramos sempre algum ponto de intersecçãoque pode nos aproximar da verdade. Comecemos não por Lady Frances, maspelo caixão, e raciocinemos na ordem inversa. O incidente indica comevidência, creio eu, que ela está morta. Isso também vem demonstrar-nos queserá sepultada com atestado de óbito e os demais documentos exigidos por lei.Se eles a tivessem assassinado, tê-la-iam, sem dúvida, enterrado num buracofeito nos fundos da casa. No entanto, esse caso está sendo realizado às claras,regularmente. O que isso quer dizer? Evidentemente, mataram-na de modo asimular morte natural e enganar o médico... envenenando-a, talvez. Todavia,acho estranho o fato de deixarem um médico aproximar-se dela, a não ser quefaça também parte da quadrilha, hipótese que não me parece plausível.— Não poderiam ter arranjado um falso atestado de óbito?— Seria perigoso, Watson, muito perigoso. Não, não creio que o tenhamtentado. Pare, cocheiro. Deve ser aqui a empresa funerária, pois acabamos depassar pela casa de penhores. Quer ir até lá, Watson? Seu aspecto inspiraconfiança. Pergunte a que horas é o enterro da Poultney Square, amanhã. Amulher da loja respondeu-me sem hesitar que o serviço fúnebre estavamarcado para as oito da manhã.— Como vê, Watson, nada de mistério; tudo claro, límpido, irrepreensível! Dequalquer modo, as exigências legais foram preenchidas e eles, claro, nada têma temer. Bem, temos de tentar um ataque frontal. Está armado?— Tenho minha bengala.— Paciência. Havemos de nos sair bem. "Quem peleja por causa justa é trêsvezes mais forte." Não podemos de forma nenhuma aguardar a chegada dapolícia, nem conservar-nos estritamente dentro da lei. Pode andar, cocheiro.Agora, Watson, confiemos em nossa boa estrela, que já nos protegeu tanto.
  • 14. Holmes bateu com força na porta de uma casa grande e escura, localizadano centro da Poultney Square, a qual se abriu imediatamente, deixandoentrever na penumbra do vestíbulo o vulto alto de uma mulher.— Que desejam? — perguntou de modo incisivo, olhando-nos com firmezaatravés das sombras.— Queremos falar com o dr. Schiessinger — respondeu Holmes.— Aqui não mora ninguém com esse nome — retrucou a mulher, procurandofechar a porta, no que foi impedida por Holmes, que introduzira o pé entre obatente e a porta.— Nesse caso, quero falar com a pessoa que mora aqui, seja qual for seunome — insistiu Holmes, inabalável. A mulher hesitou um pouco, depois abriu a porta.— Está bem; podem entrar — disse. — Meu marido não teme ninguém. Fechou a porta, depois de termos entrado, introduziu-nos numa saleta àdireita do vestíbulo, e acendeu o gás, antes de se retirar, dizendo-nos:— O sr. Peters já virá recebê-los. Dissera a verdade, pois, maltivéramos tempo de observar a salapoeirenta e cheia de vestígios detraças, em que nos encontrávamos,quando a porta se abriu umhomenzarrão calvo, de rostocuidadosamente escanhoado, entroua passos leves. Tinha as facesvermelhas, as bochechas caídas eum certo ar benevolente, quecontrastava, porem, com uma bocacruel e implacável.— Aqui deve haver algum engano,cavalheiros — disse com vozuntuosa e acomodatícia. — Devemestar no endereço errado. Talvez nacasa ao lado...— Basta! Não temos tempo a perder — interrompeu meu companheiro comdecisão. — O senhor é Henry Peters, de Adelaide, que se fez passar emBaden pelo reverendo dr. Schiessinger, missionário recém-chegado daAmérica do Sul. Tenho tanta certeza disso como de que me chamo SherlockHolmes.
  • 15. Peters, como o chamarei daqui em diante, estremeceu e encarou fixamenteseu extraordinário adversário.— Creia, sr. Holmes, seu nome não me atemoriza — replicou com frieza. —Quando um homem tem a consciência em paz, nada pode amedrontá-lo. Queveio fazer em minha casa?— Desejo saber do destino de Lady Frances Carfax, que o senhor trouxe deBaden em sua companhia.— Eu lhe ficarei muito grato se puder dizer onde ela se encontra — redargüiuPeters sem titubear. — Emprestei-lhe cerca de cem libras, recebendo comogarantia apenas um par de brincos falsos pelos quais ninguém dá nada. Elacontraiu amizade com minha mulher e comigo em Baden (de fato, nessaocasião, usava outro nome), e não nos abandonou até virmos para Londres.Paguei-lhe a conta do hotel e a passagem. Uma vez aqui, afastou-se de nós e,como já disse, deixou-nos em pagamento de seu débito essas jóiascompletamente sem valor. Se conseguir encontrá-la, sr. Holmes, eu lhe ficareidevendo um favor.— É minha intenção encontrá-la — respondeu Sherlock Holmes. — Dareibusca a esta casa até descobri-la.— Tem em seu poder algum mandado?Holmes tirou do bolso o revólver.— Por ora, basta este.— Então o senhor é um ladrão vulgar.— Pode pensar o que quiser — replicou Holmes em tom jovial. — Meu amigo étambém um bandido perigoso e juntos pretendemos revirar-lhe a casa peloavesso. Peters abriu a porta da sala.— Chame um policial, Annie! — gritou. Ouvimos um ruge-ruge de vestido feminino no corredor, e o abrir e fechar daporta de entrada.— Nosso tempo é limitado, Watson. Se tentar deter-nos, Peters, na melhor dashipóteses, ficará ferido. Onde está o caixão de defunto que foi entregue aqui?— Que quer fazer com ele? Está ocupado; há um defunto dentro.— Preciso ver esse defunto.
  • 16. — Jamais o consentirei.— Então será sem seu consentimento. Com um movimento rápido, Holmes empurrou-o para um lado e passou parao vestíbulo. Diante de nós havia uma porta entreaberta. Entramos. Era a salade jantar. Em cima da mesa, sob a luz tênue de um candelabro, jazia o caixão.Holmes acendeu o gás e levantou a tampa do esquife. Quase desaparecida nofundo deste, encontrava-se estendida uma figura emaciada. O forte clarãoproduzido pela luz de cima iluminava-lhe a face idosa e enrugada. Nem otratamento mais cruel, nem a fome, nem a gravidade da doença poderiam teralterado tanto o rosto ainda jovem e belo de Lady Frances. A fisionomia deHolmes traía-lhe o espanto e também o alívio.— Graças a Deus! É outra pessoa.— Ah! Desta vez saiu-se mal, meu caro sr. Holmes — disse Peters, que nosseguira.— Quem é essa morta?— Pois bem! Se quer sabê-lo, trata-se de uma antiga ama de minha mulher.Chamava-se Rose Spender e fomos encontrá-la no Hospital de Pobres, emBrixton. Trouxemo- Ia para cá, chamamos o dr. Horsom, residente em FirbankVillas, número 13 — não se esqueça de anotar o endereço, sr. Holmes —, ecuidamos dela com carinho, como é dever de todo bom cristão. Ao cabo de trêsdias, faleceu; o atestado de óbito indicou como causa mortis depauperamentosenil. Isso, entretanto, é apenas a opinião do médico, e o senhor, naturalmente,saberá melhor. Encomendamos o funeral à firma especializada Stimson & Co.,da Kcnnington Road, que fará o enterro amanha de manha, às oito horas.Haverá algo de extraordinário em tudo isso? Enganou-se redondamente destavez, sr. Holmes, e a culpa cabe-lhe por inteiro. Daria tudo na vida por umafotografia de sua cara de idiota ao levantar a tampa do caixão na expectativade ver Lady Frances Carfax, e ao deparar apenas com uma pobre velha denoventa anos. A expressão de Holmes mantinha-se impassível diante do sarcasmo de seuantagonista, mas os punhos fechados revelavam-lhe o intenso aborrecimento.— Vou dar uma busca pela casa — insistiu,— Ah! Chegaram! — gritou Peters, ao ouvir uma voz de mulher e passosressoando no corredor. — Isso é o que vamos ver agora. Por aqui, inspetor,façam o favor. Estes homens entraram à força em minha casa e não consigofazê-los sair. Auxiliem-me a pô-los na rua. Na soleira da porta surgiram umsargento e um guarda. Holmes apresentou-lhes seu cartão.— Aí está meu nome e endereço. Este é o dr. Watson, um velho amigo.— Por Deus, sr. Holmes! Nós o conhecemos muito bem — respondeu o
  • 17. sargento. — Mas o senhor não pode permanecer aqui sem um mandado oficial.— É claro que não posso. Compreendo-o perfeitamente.— Prenda-o! — berrou Peters.— Sabemos onde encontrar esse cavalheiro se houver necessidade de prendê-lo — replicou o sargento em tom solene. — Contudo, precisa se retirar, sr.Holmes.— Vamos, Watson, temos de sair. Um minuto depois, achávamo-nos de novo na rua. Holmes apresentava-secalmo, como sempre; eu, porém, estava rubro de cólera e humilhação. Osargento havia-nos seguido.— Sinto muito, sr. Holmes, mas é a lei.— Fez muito bem, sargento; não poderia agir de outra forma.— Acredito que tenha havido um motivo justo para sua presença naquela casa.Se lhe puder ser útil...— Procuramos uma senhora desaparecida que supusemos estar ali.Esperamos um mandado de um momento para outro.— Nesse caso, ficarei de olhos abertos, e, se suceder alguma coisa, eu lhecomunicarei imediatamente. Como eram apenas nove horas, continuamos nossas investigações.Dirigimo-nos em primeiro lugar ao Hospital de Pobres de Brixton, onde fomosinformados de que efetivamente um casal caridoso ali se apresentara poucosdias antes reclamando uma velha caduca, que diziam ter sido sua antigacriada, e obtiveram permissão de levá-la para casa. Ninguém demonstrou amenor surpresa com a notícia de sua morte. Fomos, em seguida, à casa do médico. Confirmou ter sido chamado paraassistir uma mulher prestes a morrer de pura senilidade. Assistira-lhe aofalecimento e passara o atestado de óbito na mais perfeita forma. "Asseguro-lhes ter decorrido tudo normalmente e não é possível suspeitar de qualquerdeslize", afirmou. Não tinha notado nada de estranho na casa, se bem queachasse curioso gente daquela classe não possuir nenhum criado. Foi tudoquanto ele pôde informar. Seguimos por fim para a Scotland Yard. Com relação ao mandado, haviamsurgido algumas dificuldades processuais. Era inevitável certa demora, poisnão seria possível conseguir a assinatura do juiz antes da manhã seguinte. SeHolmes comparecesse lá às nove horas, poderia ir pedi-la, juntamente comLestrade. Assim terminou o dia. Entretanto, por volta da meia-noite, nossoamigo sargento procurou-nos, a fim de nos avisar que avistara luzes nas
  • 18. janelas da casa; no entanto, não vira ninguém sair ou entrar. Só nos restavamunir-nos de paciência e aguardar o dia seguinte. Sherlock Holmes estava por demais irritado para conversar, eexcessivamente inquieto para dormir. Deixei-o fumando como uma chaminé, asdensas sobrancelhas negras contraídas, e com os dedos finos e nervosostamborilando nos braços da poltrona, enquanto em seu cérebro deviamcertamente agitar-se todas as possíveis soluções do mistério. Várias vezesdurante a noite ouvi o rumor de seus passos de um lado para outro, através dacasa. Por fim, já de manhã, logo depois de eu ter sido despertado, entrou emmeu quarto como um raio. Estava de pijama, mas o rosto pálido com olheirasprofundas revelava que passara a noite em claro.— Para que horas está marcado o funeral? Às oito, não é? — perguntouansiosamente. — Pois bem! Agora são sete e vinte. Oh!, céus, Watson, ondeeu estava com a cabeça? Depressa, homem, depressa! É questão de vida oumorte... noventa e nove possibilidades de morte para uma de vida. Jamais meperdoarei se chegarmos demasiado tarde! Ainda não tinham decorrido cincominutos e já nos encontrávamos numfiacre, a todo o galope, ao longo daBaker Street. Mesmo assim, faltavamvinte e cinco minutos para as oitoquando passamos pelo Big Ben, e aosoar das oito irrompemos pela BrixtonRoad. Entretanto, os outros tambémestavam atrasados. Dez minutos depoisda hora fixada para o enterro, o carrofúnebre ainda se encontrava postadodiante da porta da casa, e, somentequando nosso cavalo se detevearquejante, o caixão assomou na soleira,transportado por três homens. Holmesatirou-se como um raio ao encontro doscarregadores e barrou-lhes a passagem.— Para trás! — exclamou, pondo a mãono peito do que vinha à frente. — Voltemcom o caixão imediatamente!— Que diabo pretende fazer? Mais uma vez lhe pergunto onde está o mandado— gritou Peters, furioso, surgindo com o rosto vermelho do outro lado doataúde.— O mandado está a caminho. O caixão ficará retido até ele chegar. O tom autoritário da voz de Holmes produziu efeito nos carregadores. Petersdesaparecera subitamente no interior da casa, e os homens obedeceram àordem do recém-chegado.
  • 19. — Depressa, Watson, depressa! Tome esta chave de parafusos! — bradou,enquanto o féretro era recolocado sobre a mesa. — E aqui está outra paravocê, meu amigo! Dou-lhe um soberano se conseguir retirar a tampa em umminuto! Não faça perguntas... mãos à obra! Muito bem! Outro! Mais outro!Agora façamos força todos juntos! Está cedendo! Ah! Finalmente. Graças a nossos esforços reunidos, conseguimos retirar a tampa do caixão,e, no mesmo instante, um odor estonteante e insuportável de clorofórmioinvadiu a sala. Dentro do ataúde jazia um corpo com a cabeça inteiramenteenvolta em algodão embebido nesse narcótico. Holmes retirou-o com prestezae descobriu o rosto marmóreo e espiritual de uma mulher de meia-idade.Rapidamente, passou o braço em torno da figura inerte e fê-la sentar-se.— Estará morta, Watson? Ainda há esperanças? Não é possível que tenhamoschegado tarde demais! Durante meia hora, pareceu-me que não restava nada a fazer. Sufocadapela falta de ar e intoxicada pelos vapores venenosos do clorofórmio, LadyFrances parecia irremediavelmente perdida. Mas, por fim, graças à respiraçãoartificial, a injeções de éter e a todos os recursos que a ciência sugeria, umcerto vislumbre de vida, um tênue vibrar de pestanas, um leve embaciar doespelho indicaram que a vida voltava lentamente. Parara um carro diante dacasa, e Holmes, afastando a cortina, olhou para a rua.— Aí vem Lestrade com o mandado — observou. — Vai ficar desapontadoquando souber que sua presa fugiu. E eis alguém — acrescentou, ao ouvirpassos pesados no corredor — que mais do que nós tem direito de cuidardesta senhora. Bom dia, sr. Green; creio que, quanto mais depressa levarmosLady Frances daqui, tanto melhor. Entretanto, podem continuar o enterro. Apobre velha que ainda jaz neste caixão poderá ir para seu eterno repousosozinha.— Se lhe interessa acrescentar este caso a seus anais, meu caro Watson —disse-me Holmes na tarde daquele dia —, ele servirá apenas como exemplo doeclipse temporário ao qual mesmo os cérebros mais equilibrados podem estarsujeitos. Tais deslizes são comuns a todos os mortais, e maior, portanto, é omérito dos que são capazes de reconhecê-los e repará-los. A esse mérito eujulgo ter algum direito. Passei a noite acossado pela idéia de que um indício,uma frase estranha, uma observação curiosa, me fora apresentado e eudesprezara logo de início. E, de súbito, já no romper da madrugada, aspalavras exatas acorreram-me à mente. Tratava-se da justificação apresentadapela empresa funerária, tal como me foi referida por Philip Green. Ela tinha dito:"Já devia ter sido entregue. Levou mais tempo por ser de um tamanhoinvulgar". Aludia ao caixão. Suas medidas eram fora do normal. Isso só podiasignificar que tinha sido feito segundo dimensões especiais. Mas por quê? Porquê? Lembrei-me repentinamente do tamanho do ataúde e do corpo franzino
  • 20. da velhinha sumido lá no fundo. Por que um féretro tão grande para umcadáver tão pequeno? Para deixar espaço para outro corpo. Ambos seriamenterrados com um único atestado de óbito. Estaria tudo muito claro, se nãofosse a momentânea obscuridade mental a que eu estava entregue. Às oitohoras Lady Frances seria sepultada; nossa única esperança era chegar atempo de impedir que o cortejo fúnebre saísse da casa. "Era remota a probabilidade de encontrá-la ainda com vida, mas era sempreuma probabilidade, como o resultado demonstrou. Essa gente, que eu saiba,jamais havia cometido um assassinato; provavelmente evitariam até o fimlançar mão da violência. Poderiam enterrá-la sem deixar o menor vestígio dacausa de sua morte e, mesmo em caso de exumação, lhes seria possívelescapar à ação da justiça. Esperava que tais considerações prevalecessemsobre o modo de agir deles. Agora lhe será fácil reconstituir com perfeição todaa cena. Você viu o horrível cubículo onde a pobre mulher esteve tanto temposeqüestrada. Eles atiraram-se a ela, narcotizaram-na com clorofórmio,transportaram-na para baixo, despejaram o anestésico no interior do caixão, afim de impedir que ela despertasse, e cerraram a tampa com parafusos. Umplano astucioso, Watson. Este fato, para mim, é novo nos anais do crime. Senossos ex-missionários lograrem escapar às garras de Lestrade, nutroesperanças de que ouviremos falar em breve de outros casos brilhantes emsua futura carreira."

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