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Depois de a senhoria ter saído, Holmes declarou:— Incontestavelmente, Watson, este caso oferece aspectos interessantes.Pod...
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— Mas o que há por trás disso tudo?— Ah! Muito bem, Watson! Você, como sempre, se mostra essencialmenteprático! O que há p...
Quantas mais irá repetir? Não, parece ter terminado. Retirou-se da janela. Quepensa disso, Watson?— Parece-me uma mensagem...
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— Oh! Pelo que vejo, sua fama já chegou à Europa! Bem, soubemos de tudo arespeito dele na América. Sabemos com segurança q...
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— Se não me engano, é                                                      esse o homem. Posso                            ...
— O senhor! Como?— Seu código não era muito difícil. Sua presença aqui tornava-se necessária, esabia que bastava dizer-lhe...
posição... unicamente sua beleza, força e energia, e por isso meu pai foicontrário a nosso casamento. Fugimos juntos, casa...
segredos dessa fraternidade eram espantosos, e, uma vez admitido em seuseio, nenhum homem podia evadir-se. Quando fugimos ...
salvaguardar a vida no futuro.    "O resto os senhores já sabem. Tínhamos a certeza de que os inimigos nosacompanhariam co...
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03 - O circulo vermelho

  1. 1. Edited by Foxit PDF Editor Copyright (c) by Foxit Software Company, 2004 - 2007 For Evaluation Only. Sherlock Holmes em:O círculo vermelho Por Sir Arthur Conan Doyle
  2. 2. — Com franqueza, sra. Warren, não vejo qualquer motivo para estar inquieta,nem vejo por que eu deveria intervir neste assunto. O meu tempo é precioso etenho outras coisas em que me ocupar. Assim se exprimiu Sherlock Holmes, e voltou a absorver-se em seu enormeálbum de recortes, no qual estava incluindo e classificando novo material. Masa senhoria tinha a pertinácia e também a astúcia característica de seu sexo, enão se deu por vencida.— No ano passado, o senhor resolveu uma dificuldade para um pensionistameu, o sr. Fairdale Hobbs — insistiu ela.— Ah, sim!... Coisa muito .simples.— Todavia, ele não se cansa de falar nisso... sua gentileza e a maneira como osenhor esclareceu tão obscuro assunto. Lembrei-me das palavras dele, quandoeu própria me vi envolvida na dúvida e na escuridão. Estou certa de que, sequisesse, poderia ajudar-me. Holmes era acessível pelo lado da lisonja e também, façamos-lhe justiça,pelo da cortesia. Essas duas forças conjugadas fizeram-no pôr de lado o pincelde goma-arábica, com um suspiro de resignação, e recostar-se na cadeira.— Está bem, sra. Warren, ouçamos o caso. O fumo não a incomoda?Obrigado, Watson... Os fósforos, por favor! Se não me engano, a senhora estápreocupada porque seu novo inquilino se fecha no quarto e a senhora nãoconsegue vê-lo. Ora, se eu fosse seu pensionista, garanto-lhe que não meveria durante semanas a fio.— Não duvido, sr. Holmes; mas o caso aqui é diferente! Ando apavorada, nãoconsigo pregar o olho, tal é meu medo. Ouvir o ruído dos passos nervosos, deum lado para outro, desde manha cedo até altas horas da noite, e não avistá-lo um momento sequer... está além de minhas forças. Meu marido está tãoimpressionado como eu; mas ele trabalha fora o dia todo, ao passo que eu nãotenho um instante de sossego. Por que vive escondido? Que terá feito? Comexceção da criada, fico todo o santo dia sozinha com ele em casa, e sinto quemeus nervos não poderão suportar por muito tempo tal situação. Holmes inclinou-se para a frente e pousou os dedos longos e finos sobre osombros da mulher. Quando desejava, possuía um poder quase hipnótico deacalmar o próximo. Toda a expressão de temor desapareceu dos olhos dela, eas feições agitadas tranqüilizaram-se e readquiriram a aparência normal. Elasentou-se na cadeira que ele lhe indicara.— Se me encarregar deste caso, será preciso pôr-me a par de todos ospormenores — advertiu. — Reflita com calma. A mais simples minúcia pode seressencial. A senhora disse que esse homem apareceu há dez dias e pagouduas semanas adiantadas de quarto e comida?— Perguntou-me quais eram as condições, e eu lhe respondi: "Cinqüenta
  3. 3. xelins por semana". No sótão da casa existe uma salinha e um quarto dedormir, ambos mobiliados.— E então?— Ele afirmou que pagaria cinco libras por semana se eu aceitasse suascondições. Que havia de fazer? Sou pobre, sr. Holmes; meu marido ganhapouco e esse dinheiro significava muito para mim. Tirou uma nota de dez librasdo bolso e mostrou-a. "Terá outro tanto de quinze em quinze dias, durantemuito tempo, se atender às minhas condições", disse-me. "Se não quiser, nadamais teremos a conversar."— E quais eram essas condições?— Bem, ele queria ter a chave da casa. Até aí, nada de extraordinário, pois ospensionistas habitualmente a têm. Além disso, devia deixá-lo inteiramente só, enunca perturbá-lo sob nenhum pretexto.— Nada vejo de extravagante nisso.— Parece razoável, sr. Holmes. Entretanto, isso excede todos os limites dobom senso. Há dez dias ele vive ali, e nem meu marido, nem eu, nem a criada, conseguimos pôr lhe os olhos em cima uma única vez. Ouvimos seu andar rápido, de um lado para outro, noite e dia, sem cessar, pois nunca mais saiu de casa, exceto na primeira noite. — Ah! Então saiu na primeira noite? — Sim, senhor, e voltou muito tarde, depois de todos nos encontrarmos já deitados. Avisou-me disso depois de ter alugado o apartamento, e pediu-me que não trancasse a porta. Ouvi-o subir as escadas quando já passava da meia-noite. — E as refeições? — Recomendou-me expressamente que, quando tocasse a campainha, deveríamos colocar a refeição sobre uma cadeira do lado de fora da porta. Quando terminasse, tocaria de novo, e nós retiraríamos os pratos da mesma cadeira. Se tem necessidade dealguma coisa, escreve em letra de forma num pedaço de papel e coloca-o dolado de fora.— Em letra de forma?— Sim, senhor. Escreve em letra de forma e a lápis a coisa que deseja, e nadamais. Aqui está um desses pedacinhos de papel que eu trouxe para lhe
  4. 4. mostrar: SABÃO. Eis outro: FÓSFORO. Este ele deixou na primeira manhã:DAILY GAZETTE. Entrego-lhe esse jornal todas as manhãs, com a primeirarefeição.— Caramba, Watson! — exclamou Holmes, fitando com grande curiosidade ospedacinhos de papel que a sra. Warren lhe entregara. — Este é na verdade umcaso muito estranho. A reclusão eu compreendo, mas por que escrever emletra de forma? Dá mais trabalho. Por que não escrever, simplesmente, emcaracteres normais? Que significa isso, Watson?— Ele não quer revelar a própria letra.— Mas qual será o motivo? Que importância pode ter para ele que suasenhoria veja uma palavra escrita com sua caligrafia? É possível, contudo, queseja como você diz. Mas qual a razão de mensagens tão lacônicas?— Não consigo entender.— Isso abre um agradável campo à especulação inteligente. As palavras foramescritas com lápis grosso, de tipo comum. Repare que o papel foi rasgadonesse ponto, depois de a palavra ter sido escrita, de modo que o s de sabãoestá cortado ao meio. Sugestivo, não lhe parece, Watson?— Ele o teria feito por precaução?— Exatamente. Havia provavelmente qualquer sinal, qualquer impressãodigital, qualquer coisa, enfim, que poderia trair-lhe a identidade. Escute, sra.Warren, a senhora afirma que esse homem é de estatura mediana, moreno eusa barba. Que idade terá ele?— Deve ser ainda novo... não deve ter mais de trinta anos.— Muito bem, pode dar-me outras indicações?— Fala inglês corretamente, porém pelo sotaque parece-me estrangeiro.— E estava bem vestido?— Elegantemente vestido... um perfeito cavalheiro. Usava roupa escura... nadaque desse na vista.— Não deu o nome?— Não.— E não tem recebido cartas ou visitas?— Absolutamente nada.
  5. 5. — Mas, naturalmente, a senhora ou a criada entram no quarto pela manhã, nãoé verdade?— Não; ele próprio cuida de tudo.— Santo Deus! É sem dúvida extraordinário. E quanto à bagagem?— Trazia apenas uma enorme mala castanha... nada mais.— Bem, parece que não contamos com muito material. Tem certeza de não tersaído nada do aposento... absolutamente nada? A sra. Warren extraiu da bolsa um envelope, do qual fez cair sobre a mesadois fósforos queimados e uma ponta de cigarro.— Estavam na bandeja hoje de manhã. Trouxe-os porque ouvi dizer que osenhor é capaz de descobrir grandes coisas através de simples ninharias. Holmes encolheu os ombros.— Não vejo nada de significativo nisso — observou. — Esses fósforos foramevidentemente usados para acender cigarros, o que se pode verificar pelopequeno tamanho da parte queimada. Para acender um cachimbo ou umcharuto, consome-se metade do fósforo. Mas, por Deus, esta ponta de cigarroé muito interessante! Se não me engano, a senhora disse que seu pensionistausa barba e bigode, não é?— Sim.— É estranho! Eu diria que este cigarro só podia ter sido fumado por umapessoa de rosto barbeado. Caramba, Watson! Até seu modesto bigode se teriachamuscado.— Talvez tivesse usado boquilha — sugeri.— Não, não; a extremidade indica o contrário, não é possível haver duaspessoas no quarto, sra. Warren?— Não, sr. Holmes. Ele come tão pouco, que às vezes pergunto a mim própriacomo consegue manter-se em pé.— Está bem; creio que vamos ter de esperar até possuirmos outro elemento.Afinal de contas, a senhora não tem do que se queixar. O aluguel está pago, enão se pode dizer que ele seja um inquilino incômodo, apesar de estranho. Elelhe paga regiamente, e, se deseja manter-se oculto, a senhora não tem odireito de interferir. Não temos o menor pretexto para violar sua clausura, atéque surja qualquer razão para pensarmos que existe no fato um motivocriminoso. Aceito a investigação deste caso, e pode ficar descansada que fareio possível para resolvê-lo. Comunique-me se acontecer algo de novo, e contecom meu auxílio, se dele tiver necessidade.
  6. 6. Depois de a senhoria ter saído, Holmes declarou:— Incontestavelmente, Watson, este caso oferece aspectos interessantes.Pode, é claro, não ter significado nenhum, e tratar-se apenas de meraextravagância individual, mas pode também ser muito mais profundo do queparece à primeira vista. A idéia que nos acode de imediato ao espírito écertamente a possibilidade de que naquele quarto esteja morando uma pessoainteiramente diversa da que o alugou.— Por que supõe tal coisa?— Ora, pondo de parte a ponta de cigarro, não é curioso que a única vez que opensionista saiu fosse logo depois de ter alugado o quarto? Ele voltou... oumelhor, alguém voltou, quando todos estavam dormindo. Não possuímos provaalguma de que a pessoa que regressou tenha sido a mesma que saiu. Alémdisso, o pensionista falava bem inglês. Todavia, este outro escreve "fósforo",quando devia ter escrito "fósforos". Suponho que a palavra tenha sido tirada deum dicionário, onde os vocábulos aparecem apenas no singular. O estilolacônico talvez esconda a ignorância da língua inglesa. Sim, Watson, há bonsmotivos para suspeitar de que tenha havido uma troca de inquilinos.— Mas com que intenção?— Ah! Eis o problema. Sem dúvida, a linha de investigação a seguir apresenta-se bastante clara — disse meu amigo, retirando da estante um grosso álbum,no qual colava, diariamente, a seção dos principais jornais londrinos reservadaa avisos de pessoas desaparecidas. "Deus meu!", exclamou, folheando-lhe as páginas. "Que coro de gemidos,choros e lamentações! Que amontoado de acontecimentos estranhos! Todavia,este é sem dúvida o campo mais precioso que jamais houve para quem sededica ao estudo dos fatos extraordinários! A pessoa que nos interessaencontra-se só, e não pode receber cartas sem quebra do absoluto sigilo queas circunstâncias lhe impõem. Como pode chegar até ela uma notícia ouqualquer recado do mundo exterior? Ao certo, por meio de anúncios publicadosnum jornal. Não parece haver outra solução, e felizmente já sabemos qual éesse jornal. Aqui estão os recortes do Daily Gazette dos últimos quinze dias:Senhora com uma estola preta no Princes Shating Club..., podemos passaradiante. Certamente Jimmy não quererá despedaçar o coração de sua mãe. .., isso parece não ter importância. Se a dama que desfaleceu no ônibus deBrixton. . ., não me interessa. Todo dia meu coração anseia. . . Lamentações,Watson, lamentações infindáveis. Ah!, eis algo mais provável. Ouça isto:Tenha paciência. Encontrarei qualquer meio seguro de comunicação. Porenquanto, esta coluna. — G. Este anúncio foi publicado dois dias depois dachegada do inquilino da sra. Warren. Não parece plausível? O nosso entemisterioso podia entender inglês, apesar de só saber escrever em letra deforma. Vamos ver se encontramos mais alguma coisa. Sim, aqui está... trêsdias mais tarde: Estou tomando providências. Paciência e cautela. As nuvenspassarão. — G. Uma semana em branco depois desse aviso. Vem em seguida
  7. 7. algo mais definido: O caminho está se tornando mais claro. Se me for possível escrever em código, lembre-se do combinado: um, a; dois, B; e assim por diante. Terá notícias em breve. — G. Isso veio no jornal de ontem; o de hoje não traz nada. Parece- me muito apropriado ao pensionista da sra. Warren. Se esperarmos um pouco, Watson, creio que o caso se tornará mais inteligível." E, de fato, assim sucedeu, pois na manhã seguinte encontrei meu amigo empé, junto à lareira, com as costas voltadas para o fogo e um sorriso radioso desatisfação que lhe iluminava o rosto.— Que pensa disto, Watson? — gritou, apanhando o jornal de cima da mesa.— "Casa alta, de tijolos vermelhos, com remates de pedra branca. Terceiroandar. Segunda janela à esquerda. Depois do crepúsculo. — G." Parece-mebastante claro. Acho que depois do almoço devemos fazer um pequenoreconhecimento pelos arredores da casa da sra. Warren. Ah, minha carasenhora, que notícias nos traz? Nossa cliente entrara de improviso na sala,com uma energia tão explosiva, que nos indicava ter ocorrido um fato novo einesperado.— É caso de polícia, sr. Holmes! — berrou. — Não quero saber de mais nada!Ele terá de sair de lá! Imediatamente, com bagagem e tudo. Ia falar com elediretamente, mas achei melhor ouvir sua opinião primeiro. Minha paciência estáesgotada, e quando penso que chegaram a bater em meu marido...— Bateram em seu marido?— Maltrataram-no.— Mas quem o maltratou?— Ah! É isso que nós queríamos saber! Aconteceu hoje muito cedo. Meumarido é encarregado do livro de ponto da firma Morton & Waylight, naTottenham Court Road. Costuma chegar à fábrica antes das sete. Ora, hoje demanhã, não dera ainda dez passos pela rua quando dois homens o atacarampelas costas, lhe puseram um pano sobre a cabeça e o jogaram dentro de umcarro parado junto à calçada. Depois de rodarem com ele durante uma hora,abriram a porta e empurraram-no para fora. Ele ficou tão tonto com a quedaque nem chegou a ver o destino do carro. Ao voltar a si, verificou que estavaem Hampestead Heath; então, tomou um ônibus e foi para casa, e lá o deixei,deitado no sofá, para vir imediatamente procurá-lo a fim de lhe contar osucedido.— Muito interessante — comentou Holmes. — Ele chegou a observar aaparência desses homens... Ouviu-os falar?
  8. 8. — Não; está completamente aturdido. Sabe apenas que se sentiu levantado dochão como num passe de mágica, e devolvido à terra como por encanto. Osatacantes eram pelo menos dois ou três.— E a senhora relaciona essa agressão com seu pensionista?— Ora, nós moramos lá há quinze anos e nunca nos sucederam tais coisas. Jáestou farta dele. Afinal, o dinheiro não é tudo. Farei com que saia de minhacasa antes do anoitecer.— Um momento, sra. Warren. Não aja precipitadamente. Começo a suspeitarde que essa história é mais importante do que parecia à primeira vista. Éevidente, agora, que algum perigo ameaça seu inquilino. E é igualmenteevidente que seus inimigos, que se encontravam à espera dele nasproximidades da casa, confundiram seu marido com ele, devido ao nevoeiromatinal. Ao perceberem o engano, soltaram-no. Quanto ao que teriam feito senão tivessem se enganado, só nos resta conjeturar.— Diga-me então o que devo fazer, sr. Holmes.— Desejaria muito ver seu pensionista, sra. Warren.— Não sei como poderá fazê-lo, a menos que arrombe a porta. Ouço-o sempreabrindo-a, quando desço a escada depois de deixar a bandeja sobre a cadeira.— Ele precisa recolher a bandeja. Certamente podemos esconder-nos e vê-lonessa ocasião. A senhoria refletiu um instante.— Há um pequeno quarto em frente. Poderia talvez colocar um espelho, deforma que, se o senhor estivesse atrás da porta...— Ótimo! — exclamou Holmes. — A que horas ele almoça?— Por volta da uma.— Então o dr. Watson e eu estaremos lá a tempo. Passe bem. Ao meio-dia e meia, subíamos as escadas da casa da sra. Warren — umprédio de tijolos amarelos, alto e esguio, na Great Orme Street, uma vielaestreita situada a noroeste do Museu Britânico. Como fica na esquina, esseedifício permite uma boa visão da Howe Street, com suas casas maisrequintadas. Holmes apontou-me, sorrindo, uma delas, que se salientava pelaaltura numa fileira de prédios de apartamentos.— Veja, Watson! — observou. — "Casa alta, de tijolos vermelhos, com rematesde pedra branca." É aquele, sem dúvida, o posto de sinalização. Jáconhecemos a casa e o código; o resto é simples. Há um cartaz com "Aluga-se" naquela janela. Trata-se evidentemente de um apartamento vazio, ao qual
  9. 9. o cúmplice tem acesso. Então, sra. Warren, quais são as novidades?— Está tudo pronto. Se quiserem subir agora, eu os conduzirei até lá. Ê melhordeixarem os sapatos aqui embaixo. Ela arranjara um excelente esconderijo. O espelho fora colocado de tal modoque, sentados no escuro, podíamos ver distintamente a porta em frente. Malnos tínhamos instalado ali, depois de a sra. Warren ter se retirado, um tinirdistante anunciou que nosso misterioso vizinho tocara a campainha. Logo em seguida, a senhoria apareceu com a bandeja, colocou-a sobre a cadeira junto da porta fechada e retirou-se a passos firmes. Acocorados um ao lado do outro, no ângulo da porta, não perdíamos de vista o espelho. Subitamente, enquanto o ruído dos passos da sra. Warren se extinguia no andar inferior, ouvimos o ranger de uma chave girando na fechadura, vimos a porta entreabrir-se e duas mãos finas introduziram-se velozes na fresta e levantaram a bandeja da cadeira. Quase no mesmo instante, porém, largaram-na precipitadamente, e eu vislumbrei, numa visão fugidia, um lindo rosto moreno, horrorizado, fitando a estreita abertura da porta do quarto onde nos encontrávamos. Em seguida, a porta fechou-se com estrondo, a chave girou novamente na fechadura e tudo ficou em silêncio. Holmes puxou-me pela manga do casaco e juntos descemos sorrateiramente a escada. — Voltarei à noitinha — disse ele para a sra. Warren, que nos esperava, ansiosa. — Creio, Watson, que poderemos discutir melhor a situação em nossa casa. "Minha hipótese, como vê, provouestar certa", observou-me, falando das profundezas de sua cômoda poltrona."Houve uma substituição de inquilinos. O que não previ, Watson, era quefôssemos encontrar uma dama e, por sinal, uma dama invulgar."— Ela nos viu.— De qualquer modo, viu algo que a alarmou. Isso é evidente. A seqüência dosacontecimentos parece agora bastante clara, não acha? Um casal procurarefúgio em Londres devido a um perigo terrível e iminente. Podemos avaliaresse perigo pelo rigor de suas precauções. O homem tem um trabalhoqualquer que precisa executar, e deseja conservar a mulher rodeada desegurança, enquanto desempenha sua missão. O problema não era fácil, e noentanto ele o resolveu de maneira original, e com tanta eficiência, que apresença da mulher é desconhecida até da dona da casa, encarregada de lhelevar as refeições. Explicam-se, assim, as mensagens em letra de forma:serviam para impedir que lhe descobrissem o sexo pela caligrafia. O homemnão podia aproximar-se da mulher, pois desse modo a deixaria à mercê deseus inimigos. Sem possibilidade de se comunicar diretamente com ela,recorreu à coluna especial de um diário. Até aqui, tudo está claro.
  10. 10. — Mas o que há por trás disso tudo?— Ah! Muito bem, Watson! Você, como sempre, se mostra essencialmenteprático! O que há por trás disso tudo? O problema da sra. Warren,extravagante e algo cômico na aparência, aumenta de proporções e assumeum aspecto mais sinistro à medida que avançamos em nossas pesquisas. Umacoisa podemos afirmar: não se trata de um simples caso de fuga amorosa.Você viu a expressão no rosto daquela mulher diante do possível perigo. Poroutro lado, sabemos da agressão contra o dono da casa, a qual, sem dúvida,se destinava ao pensionista. Tais pormenores, e o impenetrável segredo deque procuram rodear-se, fazem-nos acreditar que estamos diante de um casode vida ou morte. O ataque contra o sr. Warren demonstra ainda que ospróprios inimigos, sejam quem forem, não deram pela troca deinquilinos. O caso é muito curioso e complexo, Watson.— Que razão tem você para levar avante a investigação? Que terá a ganharcom isso?— Ora essa! E o amor à arte, Watson? Suponho que, quando você se formou,teve ocasião de estudar casos sem pensar na parte pecuniária.— Tratava-se de enriquecer minha cultura, Holmes.— Não há limite para a cultura, Watson. Ela constitui uma série de lições, dasquais a maior é sempre a última. Esse é um caso instrutivo. Ainda que não metraga dinheiro, nem fama, vale a pena resolvê-lo. Ao anoitecer, teremos dadomais um passo para sua completa elucidação. Quando regressamos à casa da sra. Warren, a vaga tristeza de uma noitehibernal adensara-se numa cortina cinzenta, que envolvia tudo na monotoniade sua cor mortiça, quebrada aqui e ali pelos nítidos retângulos amarelos dasjanelas iluminadas e pela claridade baça dos lampiões de gás. Ao espreitarmospela janela, do interior sombrio da sala de estar da pensão, uma luz mais tênuetremeluziu alta na escuridão da noite.— Alguém se move naquele quarto — murmurou Holmes, encostando o rostomagro e atento à vidraça. — Sim, vejo sua sombra. Ei-lo de novo! Tem umavela acesa na mão. Está olhando para cá. Quer ter a certeza de que ela estáalerta. Agora começa a fazer sinais com a luz. Tome nota também damensagem, Watson, a fim de que possamos comparar depois os resultados.Um lampejo apenas — é um a certamente. Atenção, agora! Quantos contou?Vinte. Exatamente, deve significar T. E agora? Outro T. Provavelmente, vaiiniciar uma segunda palavra. Adiante... TENTA. Parou. Não pode ter acabado!ATTENTA não tem sentido em inglês. Nem dividindo em três palavras. . . AT.TEN. TA, salvo se T.A. corresponde às iniciais de alguém. Lá está ele de novo!Mas o que é isso? ATTE... Com os diabos! Trata-se ainda da mesmamensagem. Estranho, Watson, muito estranho! Ei-lo que recomeça! AT...ora,está repetindo a mesma coisa pela terceira vez. ATTENTA, três vezes!
  11. 11. Quantas mais irá repetir? Não, parece ter terminado. Retirou-se da janela. Quepensa disso, Watson?— Parece-me uma mensagem cifrada, Holmes. O meu companheiro soltou de súbito uma gargalhada.— E não muito obscura, Watson — observou. — Foi transmitida em italiano, éclaro! O A final significa que era dirigida a uma mulher. "Cuidado! Cuidado!Cuidado!" Que lhe parece, Watson?— Creio que você acertou.— Não pode ser outra coisa. É uma mensagem urgentíssima, repetida trêsvezes para chamar a atenção. Mas cuidado com quê? Espere um pouco; ele seaproxima novamente da janela. Avistamos outra vez o perfil indistinto de um homem agachado, e otremeluzir da chamazinha através da janela, dando início aos sinais. Seguiam-se mais rápidos do que antes — tão rápidos que se tornava difícil contá-los.— PERICOLO... PERICOLO... Ei, o que quer dizer isso, Watson? "Perigo", nãoé? Sim, por Deus! A coisa é grave. Lá está de novo! PERI. Ora essa, quediabo... A luz se extinguira repentinamente, o quadrilátero brilhante da janeladesaparecera, e o terceiro andar formava uma faixa escura ao redor do altoedifício, em contraste com as demais fileiras de vidraças cintilantes. Aqueleúltimo grito de alarme fora cortado de modo imprevisto. Como e por quem?Idêntico pensamento ocorreu-nos a ambos no mesmo instante. Holmes pôs-sesubitamente de pé, como que impulsionado por uma mola.— Isso é sério, Watson — gritou. — Algo anormal está acontecendo ali! Porque motivo semelhante mensagem seria interrompida? Eu devia avisar aScotland Yard... mas não temos tempo a perder.— Quer que chame a polícia?— Precisamos primeiro definir melhor a situação. Talvez ofereça umainterpretação mais inocente. Vamos, Watson, atravessemos a rua e vejamos seconseguimos resolvê-la sozinhos.II Enquanto nos apressávamos ao longo da Howe Street, lancei um olhar porcima do ombro para o prédio que tínhamos deixado, e ali avistei, vagamenterecortada contra a janela do andar superior, a sombra de uma cabeça, umacabeça feminina, em atitude tensa, rígida, esperando ansiosamente, naescuridão da noite, pelo prosseguimento daquela mensagem interrompida. À
  12. 12. porta do prédio de apartamentos da Howe Street estava encostado um homemembuçado num grosso sobretudo. Quando a luz do vestíbulo iluminou nossosrostos, ele estremeceu.— Holmes! — exclamou.— Você aqui, Gregson? — bradou meu companheiro, apertando a mão dopolicial da Scotland Yard. — Os namorados voltam sempre a encontrar-se! Quemotivo o traz aqui?— Suponho ser o mesmo que o trouxe — respondeu Gregson —, embora nãoconsiga compreender o que o colocou nesta pista.— Fios diferentes da mesma meada. Estive interceptando sinais.— Sinais?— Sim, daquela janela. Interromperam-se de repente, e aqui viemos para sabera causa. No entanto, desde que o caso está em suas mãos, não vejo razãopara continuar minhas pesquisas.— Espere um pouco! — disse Gregson com ansiedade. — Devo fazer-lhejustiça, sr. Holmes, ao afirmar-lhe que sempre me senti mais capaz quando otinha a meu lado. Esta casa tem apenas uma saída; ele não pode escapar.— Ele, quem?— Ah! Vejo que pelo menos por uma vez nos adiantamos. Não pode deixar dereconhecer que estamos na pista certa. Ao dizer isso, bateu fortemente com a bengala no chão. No mesmo instante,um cocheiro, empunhando um chicote, saltou de uma carruagem estacionadado lado oposto da rua e aproximou-se de nós.— Permita-me que lhe apresente o sr. Sherlock Holmes — disse, dirigindo-seao novo personagem.— Este é o sr. Leverton, da Agência Americana Pinkerton.— O herói do mistério da caverna de Long Island? — indagou Holmes. —Tïnho imenso prazer em conhecê-lo. O americano, jovem calmo e prático, de rosto anguloso e bem-escanhoado,corou a essas palavras elogiosas.— Estou empenhado no caso mais importante de minha carreira, sr. Holmes.Se conseguir prender Gorgiano...— Como! O Gorgiano do Círculo Vermelho?
  13. 13. — Oh! Pelo que vejo, sua fama já chegou à Europa! Bem, soubemos de tudo arespeito dele na América. Sabemos com segurança que é responsável pormais de cinquenta assassinatos, mas não temos ainda em mãos nada depositivo que permita prendê-lo. Tenho-o seguido desde Nova York, e há umasemana que não o perco de vista em Londres, à espera do mais leve pretextopara agarrá-lo. O sr. Gregson e eu acompanhamos seus passos até aqui, e,como há somente uma saída nesta casa, ele não poderá escapar. Desde queentrou, já saíram três pessoas, mas poderia jurar que ele não era nenhumadelas.— O sr. Holmes referiu-se a sinais — observou Gregson. — Espero que, comode costume, esteja a par de muita coisa por nós ignorada. Em rápidas e precisas palavras, Holmes explicou a situação tal como se nosapresentava. O americano bateu com os punhos fechados um no outro, sempoder conter seu desapontamento.— Ele notou nossa presença! — exclamou.— Por que diz isso?— Ora, a situação é clara, não lhe parece? Ele estava enviando mensagens aum cúmplice: há vários deles em Londres. Subitamente, como o senhor acabade afirmar, quando o avisava de que havia perigo, interrompeu-se. Isso sópode significar que nos avistou na rua ou compreendeu a iminência do risco, eportanto devia agir sem demora a fim de evitá-lo. Qual é sua opinião, sr.Holmes?— Que subamos já para nos inteirarmos pessoalmente de tudo quantoaconteceu.— Mas não temos mandado de prisão contra ele!— Ele se encontra num apartamento desocupado, em circunstâncias suspeitas— lembrou Gregson. — De momento, é o suficiente. Depois de lhe termosposto a mão em cima, veremos se Nova York não pode ajudar-nos a metê-lona cadeia. Por ora, assumo a responsabilidade de sua prisão. Aos nossosinvestigadores pode faltar inteligência; nunca, porém, coragem. Gregson subiu as escadas para prender aquele temível assassino com amesma calma e naturalidade de movimentos com que teria subido a escadariaprincipal da Scotiand Yard. O homem da Pinkerton tentou tornar-lhe a dianteira,mas Gregson manteve-o com firmeza atrás de si. Os perigos de Londres eram privilégio da polícia londrina. A porta doapartamento da ala esquerda do terceiro andar estava entreaberta. Gregsonescancarou-a. Dentro, tudo era silêncio e trevas. Risquei um fósforo e acendi alanterna do policial. Ao fazê-lo, e no momento em que a luzinha trêmula setransformou numa boa chama, todos soltamos uma exclamação sufocada desurpresa. Sobre as tábuas nuas do soalho havia um rasto de sangue fresco. As
  14. 14. pegadas rubras estavam voltadas para nós e provinham de outra sala interior, cuja porta se encontrava fechada. Gregson escancarou-a com um empurrão e iluminou o local com a luz clara da lanterna, enquanto todos nós olhávamos ansiosos por cima de seus ombros. No meio do pavimento da sala vazia, encontrava-se, em desalinho, o corpo de um homem de estatura avantajada, cujo rosto moreno, irrepreensivelmente barbeado, se contraía num esgar terrível e grotesco. Sua cabeça estava no meio de uma enorme poça de sangue, que se estendia, num amplo círculo úmido, pelas tábuas de madeira clara. Tinha os joelhos encolhidos, as mãos espalmadas num gesto de agonia, e do meio de seu pescoço largo e trigueiro, inclinado para trás, surgia o cabo branco de um punhal, profundamente enterrado na carne. Apesar da compleição gigantesca, o homem devia ter caído fulminado, como um boi no matadouro, sob aquele tremendo golpe. No soalho, juntode sua mão direita, via-se uma enorme adaga de dois gumes e cabo de chifre,e, ao lado dela, uma luva preta de pelica.— Santo Deus! É Black Gorgiano em pessoa! — gritou o agente americano. —Alguém se antecipou a nós desta vez.— Aqui está a vela, sr. Holmes, no parapeito da janela — disse Gregson. —Mas que diabo o senhor está fazendo? Holmes atravessara o quarto, acendera a vela e movia-a de um lado para ooutro por trás da vidraça. Depois, espreitou para fora, através da escuridão,apagou a vela e atirou-a ao chão.— Creio que isto vai nos ser útil — disse. Voltou para junto de nós e ficou absorto em seus pensamentos, enquanto osdois profissionais examinavam o cadáver.— O senhor disse que viu três pessoas saindo do prédio quando estava àespera lá embaixo? — perguntou, afinal.— Observou-as de perto?— Observei.— Havia entre elas um homem de cerca de trinta anos, barba preta, moreno ede estatura mediana?— Sim; foi o último a sair.
  15. 15. — Se não me engano, é esse o homem. Posso dar-lhe a descrição, e, além disso, possuímos um excelente exemplar de sua pegada. Isso deve bastar-lhe. — Parece-me pouco, sr. Holmes, entre os milhões de habitantes de Londres. — É provável. Foi por esse motivo que julguei conveniente chamaresta senhora em seu auxílio. Ao ouvi-lo, todos nosvoltamos subitamente. No limiarda porta via-se uma mulher alta e bela— a misteriosa pensionista de Bloomsbury. A passos vagarosos penetrou noquarto, com o rosto pálido e angustiado, sem desviar os olhos do vulto sombrioestendido no soalho.— Os senhores o mataram! — balbuciou. — Oh! Dio mio! Os senhores omataram! Mas, de súbito, inspirou profundamente e deu um pulo de alegria. Pôs-se abailar ao redor do aposento, batendo as mãos, ao passo que seus olhosbrilhavam de satisfação e a boca deixava escapar uma torrente de graciosasexclamações em italiano. Impressionava e surpreendia ao mesmo tempo veruma mulher como aquela dominada por tamanho contentamento diante de talespetáculo. Parou repentinamente e fitou-nos com ar interrogativo.— Mas quem são os senhores? São da polícia, não é verdade? MataramGiuseppe Gorgiano. Não foi assim?— Somos realmente da polícia, minha senhora. Ela olhou em torno de si, perscrutando as trevas do quarto.— Mas onde está Gennaro, então? — indagou. — Gennaro é meu marido.Gennaro Lucca. Chamo-me Emilia Lucca e somos ambos de Nova York. Ondeestá Gennaro? Há pouco, ele me chamou daquela janela e corri para cá semdemora.— Fui eu quem a chamou — explicou Holmes.
  16. 16. — O senhor! Como?— Seu código não era muito difícil. Sua presença aqui tornava-se necessária, esabia que bastava dizer-lhe "Vieni" para fazê-la vir imediatamente. A formosa italiana olhou estupefata para meu companheiro.— Não compreendo como pôde saber disso. Como foi então que GiuseppeGorgiano... Ela estacou de repente e seu rosto se iluminou de orgulho e satisfação.— Ah! Agora compreendo! Meu Gennaro! Meu incomparável, meu esplêndidoGennaro, que me tem protegido de todos os perigos, foi ele quem, com suamão vigorosa, abateu o monstro! Oh! Gennaro, como você é maravilhoso! Quemulher poderá jamais ser digna de tal homem?— Ouça, sra. Lucca — disse o prosaico Gregson, segurando-a pela manga dovestido, com a mesma falta de consideração com que o faria a um vagabundoqualquer de Notting Hill. — Ainda não compreendi bem quem é e o que fazaqui, mas entendi o suficiente para saber que temos necessidade de suapresença na Scotland Yard.— Um momento, Gregson — interpôs Holmes. — Calculo que esta senhoraesteja tão ansiosa por prestar-nos informações como nós estamos por ouvi-la.A senhora já percebeu que seu marido será preso e processado pela mortedesse homem? Tudo quanto disser poderá ser usado como testemunho contraele. No entanto, se julga que seu marido agiu por motivos não criminosos, nãolhe será possível prestar melhor serviço do que contar-nos os fatos com todasas suas minúcias.— Agora que Gorgiano está morto, não tememos mais nada — replicou. — Eleera um demónio, um verdadeiro monstro, e não haverá juiz no mundo que ousepunir meu marido por tê-lo liquidado.— Nesse caso — observou Holmes —, parece-me aconselhável fecharmosesta porta à chave, deixarmos as coisas como as encontramos eacompanharmos esta senhora até seu quarto, a fim de tirarmos nossasconclusões do que ela tem a dizer. Meia hora mais tarde, estávamos todos sentados na saleta da sra. Lucca,ouvindo a emocionante narrativa dos sinistros acontecimentos de cujodesfecho fôramos testemunhas fortuitas. Ela falava num inglês rápido e fluente,mas muito desajeitado, ao qual, por amor à clareza, procurarei dar formagramatical.— Nasci em Posilippo, perto de Nápoles — principiou —, sou filha de AugustoBarelli, que foi decano dos advogados napolitanos e, em certa ocasião,deputado por aquela região. Gennaro era empregado de meu pai, e eu meenamorei dele, como acontece a qualquer mulher. Ele não tinha dinheiro nem
  17. 17. posição... unicamente sua beleza, força e energia, e por isso meu pai foicontrário a nosso casamento. Fugimos juntos, casamo-nos em Bari evendemos minhas jóias, a fim de obtermos o dinheiro necessário para ir àAmérica. Isso sucedeu há quatro anos, e desde então temos vivido sempre emNova York. "A princípio, a sorte nos foi favorável. Gennaro teve a oportunidade deprestar dm favor a um senhor italiano, salvando-o das garras de malfeitoresnum lugar chamado Bowery. Conseguiu assim um amigo poderoso, que sechamava Tito Castalotte e era o sócio mais importante da grande firmaCastalotte & Zamba, a principal importadora de frutas de Nova York. O sr.Zamba é doente, e nosso novo amigo Castalotte exerce plenos poderes nafirma, que tem a seu serviço mais de trezentos funcionários. Contratou meumarido, nomeou-o chefe de seção e demonstrou-lhe de todas as maneiras suabenevolência. Castalotte era solteirão, e creio que considerava Gennaro comoseu filho, do mesmo modo que eu e meu marido lhe queríamos como a um pai.Tínhamos alugado e mobiliado uma casinha no Brookiyn, e o futuro parecianosassegurado, quando surgiu a nuvem negra que em breve haveria de toldarcompletamente o céu. "Certa noite, ao voltar do trabalho, Gennaro trouxe consigo um compatriotanosso, cujo nome era Gorgiano e que também viera de Posilippo. Possuía umfísico avantajado, como viram pelo seu cadáver. Mas não tinha somente ocorpo agigantado; tudo nele era grotesco, imenso e terrífico. Sua voz ressoavaem nossa casa como o fragor do trovão. Mal havia espaço para a gesticulaçãode seus enormes braços, enquanto falava. Todas as ideias, sentimentos epaixões daquele homem eram exagerados e monstruosos. Falava, ou melhor,rugia com tal força que seus interlocutores não podiam fazer outra coisa senãoouvi-lo, calados, esmagados por aquela tremenda torrente de palavras.Flamejavam-lhe os olhos ao fitar alguém, fazendo com que se ficassecompletamente à sua mercê. Era ao mesmo tempo extraordinário e assustador.Dou graças a Deus por ele estar morto! "Visitava-nos com freqüência, e eu percebia que Gennaro não se sentia maisfeliz do que eu em sua presença. Meu pobre marido ficava sentado, pálido eabstraído, ouvindo suas infindáveis divagações insensatas sobre política equestões sociais. Gennaro não dizia nada, mas eu, que o conhecia muito bem,podia ler-lhe no rosto certa angústia que jamais lhe notara. A princípio julgueitratar-se de simples aversão; depois, gradualmente, compreendi que era algomuito mais forte. Era medo — um medo profundo, secreto, incontrolável.Naquela noite — a noite na qual me compenetrei do terror que o devorava —,pus-lhe os braços em redor do pescoço e supliquei-lhe, em nome do amor queme devotava e de tudo o que lhe era caro, que não me ocultasse o motivo peloqual a presença daquele brutamontes tanto o transtornava. "Ele me contou, e, ao ouvi-lo, senti um frio intenso invadir-me o coração.Meu pobre Gennaro, nos primeiros tempos de sua juventude atormentada einfeliz, quando o mundo inteiro parecia voltar-se contra ele e as injustiças davida quase o enlouqueciam, filiara-se a uma sociedade napolitana denominadaCírculo Vermelho, ligada à dos antigos carbonários. Os juramentos e os
  18. 18. segredos dessa fraternidade eram espantosos, e, uma vez admitido em seuseio, nenhum homem podia evadir-se. Quando fugimos para a América,Gennaro pensou que se desligara dela para sempre. Qual não foi, pois, seuhorror, quando deparou certa noite, na rua, com o próprio homem que o iniciaraem Nápoles, o gigante Gorgiano, conhecido no sul da Itália pelo cognomeMorte, pois tinha os braços tintos do sangue de incontáveis assassinatos.Transferira-se para Nova York a fim de evitar a polícia italiana, e estabelecerauma filial daquela terrível sociedade na terra que o acolhera. Tudo issoGennaro me contou, e chegou a mostrar-me um convite que recebera naquelemesmo dia, encabeçado por um círculo vermelho, para uma reunião emdeterminado dia, à qual sua presença não erasimplesmente solicitada, mas imposta. "Isso já era bastante mau, mas o pior ainda estava por vir. Tinha notado, háalgum tempo, que quando Gorgiano ia visitar-nos, o que fazia quase todas asnoites, se dirigia constantemente a mim; e, mesmo ao falar com meu marido,aqueles olhos flamejantes, aterradores, bestiais, estavam sempre voltados paraminha pessoa. Uma noite, finalmente, seu segredo desvendou-se. Eudespertara em seu íntimo o que ele chamava amor — amor de bruto, deselvagem. Gennaro ainda não regressara a casa quando ele chegou. Entrou demodo arrebatado, apertou-me nos seus braços de gorila contra o peito, cobriu-me de beijos e implorou-me que fugisse com ele. Eu me debatia e gritava,quando Gennaro apareceu e se atirou ao monstro. Mas Gorgiano, com ummurro, prostrou-o sem sentidos e fugiu de nossa casa, aonde nunca maisvoltou. Foi um inimigo mortal que arranjamos naquela noite. "Poucos dias mais tarde, efetuou-se a reunião. Gennaro voltou com umafisionomia que sugeria ter ocorrido algo terrível. A coisa ia muito além do quepoderíamos imaginar. Os fundos da organização provinham do dinheiroextorquido a italianos ricos, os quais eram ameaçados de violências se serecusassem a contribuir. Parece que tinham feito isso com Castalotte, nossoamigo e benfeitor... Este não só se recusara a ceder às ameaças, mas levara ocaso ao conhecimento da polícia. Os bandidos resolveram por isso castigá-lo,de modo a fazer dele um exemplo capaz de intimidar qualquer outra vítima. Defato, na reunião decidira-se fazer com que sua casa fosse pelos ares com umaexplosão de dinamite. Foi tirada a sorte para saber quem se incumbiria de pôrem prática o atentado. Quando enfiava a mão na sacola, Gennaro viu delinear-se no rosto de nosso inimigo um sorriso cruel. Certamente tudo fora preparado,pois foi o disco com o círculo vermelho, o mandato do crime, que ele encontrouao abrir a mão. Devia matar o melhor amigo ou expor-se, e a mim também, àvingança dos companheiros. Fazia parte de seus métodos infernais punir todoaquele que temiam ou odiavam, não só prejudicando sua própria pessoa, comotambém as que lhe eram caras, e a certeza disso enchia de terror o espírito domeu infeliz Gennaro e punha-o quase louco de apreensão. "Passamos toda a noite nos braços um do outro, tentando encorajar-nosmutuamente, a fim de enfrentar os perigos que se nos deparavam. O atentadofora fixado para a noite seguinte. Ao meio-dia, meu marido e eu estávamos acaminho de Londres, não sem avisar nosso benfeitor da ameaça que pairavasobre sua cabeça, e enviar também à polícia informações, a fim de lhe
  19. 19. salvaguardar a vida no futuro. "O resto os senhores já sabem. Tínhamos a certeza de que os inimigos nosacompanhariam como nossas próprias sombras. Gorgiano tinha razõesparticulares para se vingar, e de resto sabíamos perfeitamente como era capazde ser desapiedado, astuto e incansável. Tanto a Itália como a América estãocheias de histórias de seu poder espantoso, e nunca, como nesta ocasião, eledeixaria de usá-lo. Meu querido marido aproveitou os poucos dias de calma esegurança que nossa partida repentina nos concedera para me arranjar umesconderijo onde nenhum perigo me ameaçasse. Do seu lado, desejava estarlivre para poder manter-se em contato com a polícia americana e com aitaliana. Eu própria ignoro onde ou como vivia. O pouco que sabia era atravésdas colunas de um jornal. Certo dia, porém, ao olhar pela janela, notei doisitalianos observando a casa, e compreendi que de algum modo Gorgianodescobrira nosso esconderijo. Finalmente, Gennaro disse-me — sempre porintermédio do jornal — que me transmitiria uma mensagem, por meio de sinais,de certa janela. No entanto, quando esses sinais vieram, verifiquei nãopassarem de advertências, as quais subitamente se interromperam. É evidentepara mim, agora, que ele percebeu estar sendo seguido de perto por Gorgianoe que, graças a Deus, se encontrava preparado para enfrentá-lo quandochegasse o momento. E agora, senhores, desejaria saber se temos algo arecear da justiça, e se algum juiz do mundo poderia condenar meu Gennaropelo que fez!"— Bem, sr. Gregson — disse o policial americano, dirigindo-se ao agente daScotland Yard —, não sei qual é o ponto de vista britânico neste caso; julgo,porém, que em Nova York o marido desta senhora receberá um voto unânimede louvor e agradecimento.— Ela terá de ir comigo à presença do chefe — respondeu Gregson. — Sesuas declarações forem confirmadas, não creio que ela ou o marido tenhammuito o que temer. Mas, que diabo, o que não consigo atinar, sr. Holmes, écomo o senhor se viu metido neste assunto.— Cultura, Gregson, cultura. Procuro ainda novos conhecimentos na velhauniversidade. Aí tem, Watson, mais um exemplo trágico e grotesco para juntarà sua coleção. A propósito, que tal uma noitada de Wagner, no CoventGarden? Ainda não são oito horas e, se nos apressarmos, chegaremos atempo para o segundo ato.

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