Vila Glicínia  Arthur Conan Doyle                                     Título original: Wisteria Lodge                   Pu...
I — A estranha aventura do sr. John Scott EcclesVejo anotado em meu bloco que se tratava de um dia muito frio e ventoso, e...
— Homem ou mulher? — indaguei.— Homem, naturalmente. Nenhuma mulher enviaria um telegrama com resposta paga.Teria vindo pe...
— São duas e um quarto — disse. — Seu telegrama foi-me expedido por volta da umahora. Contudo, quem olhar para seu aspecto...
suas possibilidades, capaz. Apertou a mão de Holmes e apresentou seu companheiro, oinspetor Baynes, do comissariado de Sur...
— Assassinato, sem a menor sombra de dúvida.— Santo Deus! Isso é horrível! O senhor quer dizer... que eu sou suspeito?— Fo...
"Fui de carro para lá... cerca de três quilômetros ao sul de Esher. A casa era de bomtamanho, um pouco distante da estrada...
— Estava furioso. Minha primeira impressão foi ter sido vítima de qualquer brincadeirade mau gosto. Arrumei minhas coisas,...
ocultos entre as saliências das bochechas e da testa. Com um lento sorriso, tirou dobolso um pedaço de papel descolorido e...
próxima fica a quatrocentos metros. Aparentemente, recebeu o primeiro golpe pelascostas; de qualquer modo, o assaltante co...
— À primeira vista, o caso não me parece muito complexo, se bem que apresenteinegavelmente alguns aspectos novos e interes...
Holmes recostou-se na cadeira, os olhos semicerrados.— Como deve concordar, meu caro Watson, a idéia de uma brincadeira é ...
— Quais são seus termos? "Nossas cores, verde e branco." Parece referir-se a corridasde cavalos. "Verde aberto, branco fec...
— Não percebo bem o que quer dizer.— Ora, meu caro amigo, já chegamos à conclusão de que o bilhete recebido por Garcia,dur...
— Ah!, sr. Baynes, é esta casa vazia e fúnebre e aquela coisa esquisita na cozinha queme põem assim. Além disso, quando o ...
— Isso, pelo menos, é fácil verificar — interveio Holmes, acendendo sua lanternaportátil. — De fato — prosseguiu, depois d...
Dizendo isso, aproximou a vela de um estranho objeto que se encontrava atrás doarmário. Era uma coisa de tal modo enrugada...
Holmes sorriu e esfregou as mãos.— Devo felicitá-lo, inspetor, pela maneira perspicaz e inteligente com que está agindones...
Holmes riu gostosamente.— Está bem, inspetor — disse. — Siga seu caminho; eu seguirei o meu. Em todo caso,meus resultados ...
"Causou grande sensação em Esher e em toda a zona circunvizinha a notícia de que, àsúltimas horas da noite de ontem, foi e...
— Já leu o jornal, sr. Holmes? — indagou, apresentando-lhe um exemplar.— Sim, Baynes, já o li. Peço-lhe que não se ofenda,...
com referência à prisão dos culpados. Existem falhas nesse sentido, as quais precisamosremediar."Voltemos ao bilhete entre...
olhos escuros, profundos, pensativos, que estava perfeitamente a par de meu verdadeiroobjetivo. É um homem de seus cinqüen...
poderia ser senão a sra. Burnet, a governanta? Nosso raciocínio parece conduzir-nosnessa direção. Seja como for, tomemos i...
No carro encontrava-se uma mulher semidesfalecida pela exaustão nervosa. Trazia nasfeições aquilinas e pálidas os vestígio...
Baynes solou uma gargalhada.— Tinha a certeza de que Henderson, como ele próprio se chama, sabia quedesconfiavam dele, e s...
impune. Mas outro virá, e ainda outro, até um dia ser feita justiça; isso é tão certo comoo nascer do sol.Suas mãos finas ...
"Entretanto, também aqui seus inimigos o aguardavam, sequiosos de justiça. Sabendoque ele voltaria a este lugar, Garcia, f...
novos ataques, ao passo que, com a morte de Garcia, a perseguição talvez cessasse, poistal morte certamente assustaria os ...
— Um caso muito confuso, amigo Watson — comentou Holmes mais tarde, no meio desua cachimbada noturna. — Não lhe será possí...
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01 - Vila Glicínia

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  1. 1. Vila Glicínia Arthur Conan Doyle Título original: Wisteria Lodge Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly, em Agosto de 1908, com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele e na Strand Magazine, em Setembro e Outubro de 1908, com 10 ilustrações de Arthur Twidle. Sobre o texto em português: Este texto digital reproduz a tradução de Wisteria Lodge publicado em As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V, editado pelo Círculo do Livro e com tradução de Álvaro Pinto Aguiar.
  2. 2. I — A estranha aventura do sr. John Scott EcclesVejo anotado em meu bloco que se tratava de um dia muito frio e ventoso, em fins demarço de 1892. Holmes recebera um telegrama, enquanto almoçávamos, e rabiscara àspressas uma resposta. Apesar de nada ter dito, percebia-se que o assunto ainda opreocupava, pois fora postar-se em seguida diante da lareira com ar pensativo, fumandoo cachimbo e lançando ocasionalmente um olhar para o telegrama que tinha nas mãos.Subitamente, voltou-se para mim com um brilho malévolo no olhar.— Suponho, Watson, que você pode ser considerado um homem de letras. Comodefiniria a palavra "grotesco"?— Ridículo, extravagante... — sugeri.— Há certamente mais alguma coisa além disso — observou Holmes abanando acabeça. — Uma sugestão dissimulada do trágico e do terrível. Se procurar recordar-sede algumas dessas narrativas com que tem atormentado um público paciente, verificarácomo é tênue a fronteira entre o grotesco e o criminoso. Lembre-se do incidente doshomens ruivos. Era bastante grotesco na aparência, e todavia terminou numa audaciosatentativa de roubo. Ou então daquele outro, mais grotesco ainda, das cinco sementes delaranja, que terminou numa conspiração homicida. Essa palavra põe-me sempre desobreaviso.— Tem-na aí? — perguntei.Holmes leu o telegrama em voz alta:"Acaba de me suceder algo de terrível e grotesco. Posso consultá-lo? — Scott Eccles,Repartição dos Correios, Charing Cross".
  3. 3. — Homem ou mulher? — indaguei.— Homem, naturalmente. Nenhuma mulher enviaria um telegrama com resposta paga.Teria vindo pessoalmente.— Vai recebê-lo?— Meu caro Watson, você sabe que vida aborrecida levo desde que conseguimos metero coronel Carruthers na prisão. Meu cérebro é uma espécie de máquina veloz, que sereduz a pedaços quando não é aplicada no trabalho para o qual foi construída, A vida éuma sucessão de fatos corriqueiros, e os jornais andam fastidiosos; parece que a audáciae o espírito de aventura desapareceram para sempre do mundo do crime. Como, então,você pode me perguntar se estou disposto a examinar qualquer novo problema, por maistrivial que possa parecer? Mas, se não me engano, aí vem nosso cliente.Ouviram-se passos cadenciados na escada e, instantes depois, era introduzido na salaum homem alto e corpulento, de suíças e bigodes grisalhos e ar solene e respeitável. Ahistória de sua vida revelava-se na fisionomia grave e nos modos circunspectos. Daspolainas aos óculos de aros de ouro, era a figura típica do conservador, homemreligioso, bom cidadão, ortodoxo e intransigente respeitador dos preceitos sociais.Entretanto, algo de extraordinário devia ter-lhe alterado a natural compostura e deixadovestígios nos cabelos revoltos, no rosto rubro e encolerizado e nos gestos nervosos eagitados. Entrou sem mais delongas no assunto que o preocupava:— Aconteceu-me algo extremamente esquisito e desagradável, sr. Holmes —principiou. — Jamais me encontrei em situação semelhante. É positivamenteindecorosa... ultrajante. Tenho o direito de exigir uma explicação!Estava de tal modo enraivecido que bufava de cólera e tinha o rosto tumefacto.— Queira sentar-se, sr. Scott Eccles — disse Holmes em tom brando. — Antes de maisnada, permita-me que lhe pergunte por que resolveu procurar exatamente a mim.— Porque não me pareceu que o caso pudesse interessar à polícia. Todavia, quando lhetiver exposto os fatos, verá que eu não poderia deixar as coisas como estavam. Nuncasimpatizei com a classe dos detetives particulares. Não obstante, como ouvi falar dosenhor...— Perfeitamente. Mas, em segundo lugar, por que não veio imediatamente?— O que quer dizer?Holmes consultou o relógio.
  4. 4. — São duas e um quarto — disse. — Seu telegrama foi-me expedido por volta da umahora. Contudo, quem olhar para seu aspecto e seu traje não poderá deixar de notar quesua inquietação data do momento em que se levantou.Nosso cliente alisou o cabelo despenteado com as mãos e tocou com os dedos o rosto,que estava com a barba por fazer.— Tem razão, sr, Holmes. Nem sequer pensei em me arrumar. Nunca mais chegava ahora de deixar aquela casa. Antes, porém, de vir para cá, andei por diversos lugares embusca de informações. Falei com os agentes do proprietário da casa, e eles disseram-meque o sr. Garcia tinha pago pontualmente o aluguel e que tudo estava em ordem comrelação à Vila Glicínia.— Calma, calma, meu caro — disse Holmes, rindo. — O senhor até parece o meuamigo, dr. Watson, que tem o mau hábito de contar suas histórias começando pelo fim.Queira ordenar as idéias e contar-me, na devida seqüência, quais foram de fato osacontecimentos que o fizeram sair de casa despenteado, com a roupa por escovar, asbotinas e o colete mal-abotoados, à procura de conselho e auxílio.Nosso cliente lançou um compungido olhar à sua própria aparência em desalinho.— Devo ter-lhe causado uma péssima impressão, sr. Holmes, e não me recordo de, emtoda a minha vida, me ter sucedido tal coisa. Mas vou contar-lhe tudo o que aconteceu,e, quando tiver terminado, estou certo de que encontrará razão de sobra para medesculpar.Não chegou, porém, a iniciar a narrativa. Ouviu-se um ruído do lado de fora, e dali ainstantes a sra. Hudson abria a porta para fazer entrar dois indivíduos robustos que, peloaspecto, pareciam pertencer à polícia, um dos quais era, na verdade, nosso bemconhecido inspetor Gregson, da Scotland Yard, funcionário enérgico, brioso e, dentro de
  5. 5. suas possibilidades, capaz. Apertou a mão de Holmes e apresentou seu companheiro, oinspetor Baynes, do comissariado de Surrey.— Estamos ambos empenhados numa caça, sr. Holmes, e nossa pista trouxe-nos atéaqui. — Ao dizer isso, voltou para nosso visitante seus olhos de buldogue. — É, poracaso, o sr. John Scott Eccles, da Popham House, Lee?— Exatamente.— Andamos em seu encalço toda a manhã.— Sem dúvida, foi o telegrama que lhes deu o rastro — interpôs Holmes.— Precisamente. Farejamos a pista na agência postal de Charing Cross, e ela conduziu-nos até sua casa.— Mas por que me seguem? O que querem de mim?— Queremos ouvi-lo, sr. Scott Eccles, a respeito dos acontecimentos que redundaramna morte, ontem à noite, do sr. Aloysius Garcia, na Vila Glicínia, nos arredores deEsher.Nosso cliente endireitou-se na cadeira com os olhos esbugalhados, enquanto as coreslhe fugiam do rosto atônito.— Morto? O senhor diz que ele está morto?— Sim, ele está morto. — Mas como? Um acidente?
  6. 6. — Assassinato, sem a menor sombra de dúvida.— Santo Deus! Isso é horrível! O senhor quer dizer... que eu sou suspeito?— Foi encontrada uma carta no bolso do morto, e por ela ficamos sabendo que o senhortencionava passar a noite de ontem em casa dele.— É verdade.— Oh! Deveras?O inspetor tirou prontamente do bolso seu caderno de notas.— Espere um pouco, Gregson — disse Sherlock Holmes. — Tudo o que você deseja éouvir-lhes as declarações, não é verdade?— E é meu dever prevenir o sr. Scott Eccles de que elas podem ser usadas contra ele.— O sr. Eccles ia contar-nos sua história quando você entrou. Creio, Watson, que umuísque com soda não lhe faria mal. E agora, caro sr. Eccles, aconselho-o a que não seimporte com esse aumento de auditório e nos conte tudo, exatamente como o faria senão tivesse sido interrompido.Nosso visitante ingeriu de um trago a bebida, e a cor voltou-lhe às faces. Lançando umolhar indeciso ao caderno de notas do inspetor, deu início, sem mais demora, a seuextraordinário depoimento.— Sou solteiro — disse — e, como tenho um temperamento sociável, possuo largocírculo de amizades. Entre estas, encontra-se a família de um antigo fabricante decerveja chamado Melville, residente na Albemarle Mansion, em Kensington. Foi à suamesa que conheci, há algumas semanas, um rapaz de nome Garcia. Era, ao que soube,de origem espanhola, e tinha uma ligação qualquer com a embaixada. Falavaperfeitamente o inglês e, além de muito afável no trato, era um dos homens mais belosque já vi em toda a minha vida."Entre mim e esse rapaz manifestou-se imediatamente uma sincera amizade. Ele pareciater simpatizado comigo desde aquele primeiro encontro, e, dali a dois dias, foi visitar-me em Lee. Uma coisa puxa outra, e acabou por me convidar para passar alguns dias emsua residência — a Vila Glicínia —, situada entre Esher e Oxshott. Ontem à noite dirigi-me a Esher a fim de atender ao convite."Antes de minha ida, ele me falara sobre o pessoal a seu serviço. Morava com umcriado dedicado, seu compatriota, que cuidava de todas as suas necessidades. Essehomem, que sabia falar inglês, tomava conta da casa. Contou-me que tinha também ummagnífico cozinheiro, um mestiço que encontrara em suas viagens, capaz de servirexcelentes jantares. Lembro-me de me ter chamado a atenção para a singularidade de talcriadagem em pleno coração de Surrey, e de eu ter concordado, embora viesse averificar que era muito mais singular do que havia imaginado.
  7. 7. "Fui de carro para lá... cerca de três quilômetros ao sul de Esher. A casa era de bomtamanho, um pouco distante da estrada, e tinha-se acesso a ela por uma sinuosa vereda,ladeada de arbustos. Tratava-se de um velho edifício, em péssimo estado deconservação. Quando o carro parou no caminho coberto de mato, diante da portamanchada e escurecida pelo tempo, tive dúvidas quanto a meu bom senso em visitar umhomem que afinal só conhecia superficialmente. Ele próprio veio me abrir a porta, erecebeu-me com provas de grande cordialidade. Fui entregue aos cuidados do criado,indivíduo de tez escuríssima e ar melancólico, que me conduziu a meu quarto, levandominha maleta. Todo o ambiente era desalentador. Jantamos sós, e, apesar de o dono dacasa fazer o possível por se mostrar amável, o curso de seus pensamentos pareciainterromper-se de vez em quando, e sua conversa era tão vaga e desconexa que eu tinhadificuldade em segui-la. Tamborilava constantemente com os dedos na mesa,mordiscava as unhas e dava outros tantos sinais de inquietação nervosa. Quanto aojantar, não foi nem bem servido, nem bem preparado, e a sombria presença do taciturnocriado não contribuía decerto para nos alegrar. Afianço-lhes que muitas vezes, duranteaquela noite, desejei poder inventar qualquer desculpa que me permitisse regressar aLee."Recordo-me de um fato que talvez tenha certa relação com o caso que essescavalheiros estão investigando. Naquela ocasião, não lhe dei grande importância. Quaseno fim do jantar, o criado apareceu com um bilhete. Notei que, depois de lê-lo, Garciatornou-se ainda mais distraído e nervoso. Renunciando a qualquer pretexto deconversação, recostou-se numa cadeira, fumando cigarros consecutivos, absorto em seuspróprios pensamentos, sem fazer o menor comentário ao conteúdo do bilhete. Senti-mesatisfeito quando, por volta das onze horas, nos fomos deitar. Algum tempo depois,Garcia apareceu à porta do meu quarto (o quarto estava às escuras nessa ocasião) eperguntou-me se eu tinha tocado a campainha. Disse-lhe que não. Pediu-me desculpaspor me ter incomodado a hora tão avançada, dizendo já ser quase uma da madrugada.Adormeci depois disso, e dormi profundamente o resto da noite."E agora chego à parte mais espantosa de minha história. Quando acordei, já era diaclaro. Consultei o relógio e verifiquei serem quase nove horas. Insistira na véspera paraque me chamassem às oito, e por isso tal esquecimento surpreendeu-me muitíssimo.Saltei da cama e toquei a campainha para chamar o criado, mas não obtive resposta.Voltei a tocá-la repetidas vezes, com o mesmo resultado. Cheguei então à conclusão deque estava avariada. Vesti-me às pressas, e de péssimo humor desci rapidamente aescada, a fim de pedir um pouco de água quente. Poderão imaginar minha surpresa aover que não havia ninguém. Pus-me a gritar no vestíbulo, sem obter resposta. Percorri,então, todos os aposentos. Não encontrei ninguém. O dono da casa, na véspera,mostrara-me seu quarto. Bati-lhe à porta. Nada. Dei volta à maçaneta e entrei. Oaposento estava vazio, e a cama não fora ocupada. Tinha-se ido com os outros. O patrãoestrangeiro, o criado estrangeiro, o cozinheiro estrangeiro, todos tinham desaparecidodurante a noite! Assim terminou minha visita à Vila Glicínia."Sherlock Holmes esfregou as mãos e sorriu satisfeito, diante da perspectiva deacrescentar mais esse estranho incidente à sua coleção de episódios fantásticos.— Sua aventura, pelo que vejo, é positivamente excepcional. Poderá dizer-me, sr.Eccles, o que fez depois?
  8. 8. — Estava furioso. Minha primeira impressão foi ter sido vítima de qualquer brincadeirade mau gosto. Arrumei minhas coisas, bati a porta atrás de mim e pus-me a caminho deEsher, carregando minha maleta. Dirigi-me ao escritório dos irmãos Allan, os maisimportantes corretores de imóveis da cidade, e soube que a vila tinha sido alugada porintermédio deles. Parecia-me difícil acreditar que aquilo constituísse um simples planopara me fazer passar por tolo, e comecei a pensar que o principal objetivo fosse fugir aopagamento do aluguel. Estamos no fim de março, e o vencimento trimestral estápróximo. Essa hipótese, porém, logo caiu por terra. O agente agradeceu-me ainformação, mas disse-me que o aluguel havia sido pago adiantado. Tomei, então, ocaminho de Londres, e procurei a embaixada espanhola. Ninguém ali conhecia ohomem. Depois disso, fui procurar Melville, em cuja casa eu fora apresentado a Garcia.No entanto, averiguei que, na realidade, ele o conhecia ainda menos do que eu.Finalmente, quando recebi sua resposta a meu telegrama, vim para cá, pois sei que osenhor é pessoa capaz de dar bons conselhos em casos difíceis. Entretanto, inspetor,vejo agora pelo que disse quando entrou que a história não termina aqui e deve terocorrido uma tragédia. Posso afirmar-lhe que minhas palavras correspondem à puraverdade e que, além do relatado por mim, nada mais sei sobre o destino desse homem.Meu único desejo é auxiliar a justiça em tudo quanto me for possível.— Estou certo disso, sr. Scott Eccles, estou certo disso — proferiu o inspetor Gregson,em seu tom mais cordial.— Sinto-me na obrigação de lhe dizer que tudo o que acaba de nos referir está emperfeito acordo com os fatos chegados a nosso conhecimento. Por exemplo, aquelebilhete entregue durante o jantar. Notou, por acaso, o que foi feito dele?— Sim, Garcia amarrotou-o e atirou-o ao fogo.— Que diz a isso, sr. Baynes?O detetive provinciano era um homem gordo, rubicundo, sempre bufando, e seu rostode aspecto grosseiro era suavizado por dois olhos de extraordinária vivacidade, quase
  9. 9. ocultos entre as saliências das bochechas e da testa. Com um lento sorriso, tirou dobolso um pedaço de papel descolorido e amarrotado.— Havia uma grade diante da lareira, sr. Holmes, e ele deve ter errado a pontaria.Apanhei-o do lado de fora, sem que as chamas o tivessem atingido.Holmes sorriu com ar de aprovação.— O senhor deve ter examinado a casa com muito cuidado para encontrar uma bola depapel como essa.— De fato, é meu sistema. Quer que o leia, sr. Gregson?O inspetor londrino acenou afirmativamente com a cabeça.— O bilhete está escrito em papel pautado comum, sem filigrana. É a quarta parte deuma folha, e foi cortado em dois sentidos com uma tesoura de lâmina curta. Foi dobradotrês vezes e selado com lacre vermelho, colocado às pressas e comprimido com umobjeto chato e oval. Está endereçado ao sr. Garcia, Vila Glicínia, e diz: "Nossas cores,verde e branco. Verde aberto, branco fechado. Escada principal, primeiro corredor,sétima à direita, estofo verde. Boa sorte. D." A letra é de mulher, e foi escrita com penade ponta fina, mas o endereço foi feito com outra pena ou por outra pessoa. Como podever, trata-se de uma caligrafia mais grossa e firme.— O bilhete é deveras extraordinário — comentou Holmes, examinando o papel. —Devo cumprimentá-lo, sr. Baynes, pela atenção que dispensou aos pormenores naanálise feita. Poderíamos talvez acrescentar algumas minudências sem importância. Osinete oval é, sem dúvida, uma abotoadura de punho; que outro objeto pode ter talformato? A tesoura usada deve ter sido uma tesourinha de unha, de ponta recurva, pois,apesar de os cortes serem curtos, nota-se distintamente em cada um deles a mesmaligeira curvatura.O detetive deu uma risadinha.— Julguei ter espremido todo o suco desse bilhete, mas vejo que ainda sobrou algumacoisa — disse. — Confesso que não compreendo nada dele, a não ser que nosencontramos diante de um caso grave, cuja figura central, como de costume, é umamulher.Durante essa conversa, Scott Eccles estivera em contínua agitação em sua cadeira.— Alegra-me que tenha encontrado o bilhete, pois ele vem corroborar meu depoimento— disse. — Tomo, porém, a liberdade de observar que ainda não me contaram o queaconteceu ao sr. Garcia e a seus criados.— Quanto a Garcia — disse Gregson —, é fácil responder. Foi encontrado morto estamanhã em Oxshott Common, a cerca de um quilômetro e meio de distância de sua casa.Reduziram-lhe a cabeça a um amontoado informe de carne sangrenta, mediante golpesviolentíssimos desferidos com um saco de areia ou outro objeto semelhante, que, maisdo que feri-lo, esmigalhou literalmente seu crânio. O lugar é deserto, e a casa mais
  10. 10. próxima fica a quatrocentos metros. Aparentemente, recebeu o primeiro golpe pelascostas; de qualquer modo, o assaltante continuou a golpeá-lo muito tempo depois de elejá estar morto. Deve ter sido uma agressão inesperada e brutal. Não havia pegadas nolocal, nem o menor indício que nos pudesse pôr na pista dos assassinos.— Houve roubo?— Não; não se trata de tentativa de roubo.— É muito doloroso... doloroso e terrível — comentou Scott Eccles em voz trêmula. —Mas, para mim, a situação é particularmente trágica. Nada tenho a ver com o fato demeu amigo ter saído para uma excursão noturna que o fez encontrar tão triste fim. Comoposso estar implicado neste caso?— Por um motivo muito simples — respondeu o inspetor Baynes. — O únicodocumento encontrado no bolso do morto era uma carta sua, na qual o senhor dizia queiria fazer-lhe uma visita exatamente na noite em que ele morreu. Foi o envelope dessacarta que nos revelou o nome e o endereço da vítima. Já passava das nove da manhãquando chegamos à casa dele, onde não encontramos nem o senhor nem mais ninguém.Telegrafei a Gregson para procurá-lo em Londres, enquanto examinava a Vila Glicínia.Vim então para a cidade, reuni-me a Gregson, e aqui estamos.— Creio que agora — disse Gregson, levantando-se — é melhor darmos a esse assuntoum caráter oficial. Faça o favor de nos acompanhar até o posto policial, sr. Scott Eccles,a fim de tomarmos suas declarações por escrito.— Perfeitamente; estou às ordens. Mas ainda necessito de seus serviços, sr. Holmes, epeço-lhe que não poupe dinheiro nem trabalho para descobrir a verdade.Meu amigo voltou-se para o detetive de Surrey.— Espero que não se oponha a que lhe dê minha colaboração, sr. Baynes.— Pelo contrário, eu me sentirei muito honrado, sr. Holmes.— O senhor parece ter sido muito pronto e eficiente em tudo o que fez. Poderiainformar-me se havia algum indício quanto à hora em que se deu a morte desse homem?— Ele estava desde uma hora da madrugada no lugar em que o encontramos. Tinhachovido mais ou menos a essa hora, e sua morte deve ter ocorrido antes da chuva.— Mas isso é absolutamente impossível, sr. Baynes — exclamou nosso cliente. — Avoz de Garcia era inconfundível e posso jurar-lhes que foi ele próprio que falou comigo,em meu quarto, a essa mesma hora.— É esquisito, mas não de todo impossível — comentou Holmes, sorrindo.— O senhor já tem alguma idéia? — perguntou Gregson.
  11. 11. — À primeira vista, o caso não me parece muito complexo, se bem que apresenteinegavelmente alguns aspectos novos e interessantes. Todavia, é preciso que eu tenhamelhor conhecimento dos fatos antes de poder aventurar uma opinião definida. Apropósito, sr. Baynes, encontrou alguma outra coisa digna de nota, além do bilhete,quando examinou a casa?O detetive fixou meu amigo de maneira estranha.— Sim; descobri uma ou duas coisas muito singulares. Talvez, depois de terminadomeu serviço no posto policial, o senhor possa se encontrar comigo e dar sua opinião aesse respeito.— Estou inteiramente à sua disposição — disse Sherlock Holmes, tocando a campainha.— Queira acompanhar estes senhores até a porta, sra. Hudson, e fazer o favor demandar o rapaz expedir este telegrama. Deve ser enviado com resposta paga de cincoxelins.Permanecemos sentados, em silêncio, durante algum tempo, depois de nossos visitantesse terem retirado. Holmes fumava incessantemente, as sobrancelhas contraídas sobre osolhos penetrantes, a cabeça inclinada para diante, na atitude de intensa concentração quelhe era característica.— Então, Watson — perguntou, voltando-se subitamente para mim —, que pensa detudo isso?— Não consigo compreender nada dessa trapalhada em que Scott Eccles se meteu.— Mas e o crime?— Bem, se tomarmos em consideração o desaparecimento dos companheiros da vítima,diria que eles devem estar de algum modo comprometidos com o assassinato, e quefugiram da justiça.— Esta é, sem dúvida, uma hipótese viável. Por outro lado, deve convir que é muitoestranho que os dois criados tivessem conspirado contra Garcia e o tivessem atacadojustamente numa noite em que ele tinha um hóspede. Tinham-no sozinho, à sua mercê,qualquer outra noite da semana.— Então, por que fugiram?— Precisamente. Por que fugiram? É um fato importante; outro fato muito importante éa singular aventura de nosso cliente Scott Eccles. Ora, meu caro Watson, estará fora doslimites do engenho humano atinar com uma explicação para esses dois fatosimportantes? Se se pudesse com tal explicação desvendar também o mistério daquelebilhete enigmático, com sua extravagante fraseologia, então valeria a pena aceitá-lacomo hipótese provisória. E se os fatos ulteriores, que chegarem a nosso conhecimento,se adaptarem ao esquema, nossa hipótese, então, pode pouco a pouco tornar-se umasolução.— Mas qual é essa hipótese?
  12. 12. Holmes recostou-se na cadeira, os olhos semicerrados.— Como deve concordar, meu caro Watson, a idéia de uma brincadeira é inaceitável.Algo de grave estava para acontecer, como muito bem o demonstra a seqüência dosfatos, e o convite feito a Scott Eccles para ir à Vila Glicínia deve ter qualquer relaçãocom isso.— Mas qual é a possibilidade dessa relação?— Sigamos nossa argumentação ponto por ponto. De início, existe alguma coisa irrealnessa amizade súbita e estranha entre o jovem espanhol e Scott Eccles. Foi o primeiroque a forçou, visitando Eccles no outro extremo de Londres logo no dia seguinte àqueleem que o conheceu, e mantendo-se em estreito contato com ele até conseguir fazê-lo ir aEsher. Ora, o que pretendia esse homem com relação a Eccles? O que Eccles poderiaoferecer-lhe? Não vejo nessa personagem nenhum atrativo; não é particularmentedotado de inteligência, nem possui gênio capaz de agradar ao espírito vivaz de umlatino. Então, por que foi escolhido, entre tantos outros que Garcia conheceu, comoespecificamente útil a seu propósito? Terá ele alguma qualidade relevante? Creio quesim. É o protótipo da convencional respeitabilidade britânica, e justamente o homemsuscetível de impressionar, com o próprio testemunho, um outro britânico. Você próprioacabou de verificar que nenhum dos inspetores sequer sonhou em pôr em dúvida seudepoimento, por mais extraordinário que pareça.— Mas o que deveria ele testemunhar?— Nada, como as coisas se deram; tudo, porém, se elas tivessem corrido diversamente.É assim, pelo menos, que interpreto a situação.— Percebo; ele talvez pudesse servir para provar um álibi.— Exatamente; poderia servir para provar um álibi. Suponhamos, para argumentar, queos ocupantes da Vila Glicínia estivessem metidos em alguma empresa suspeita. Esta,fosse qual fosse, deveria ser executada, digamos, antes da uma hora. Adiantando osrelógios, é perfeitamente possível que tivessem feito Scott Eccles recolher-se mais cedodo que pensava; de qualquer modo, é provável que, quando Garcia se deu ao incômodode lhe dizer que era uma hora, não fosse realmente mais de meia-noite. Se Garciapudesse fazer o que pretendia antes da hora mencionada, teria evidentemente umapoderosa defesa contra qualquer acusação. Ele teria sempre esse inglês irrepreensível,pronto a jurar perante qualquer tribunal que o acusado se encontrava em sua residênciana ocasião do crime. Era uma precaução contra a adversidade.— Sim, sim, compreendo; mas como explica o desaparecimento dos outros?— Ainda não tenho todos os elementos na mão. Entretanto, não creio que existamdificuldades insuperáveis para a elucidação desse ponto. Todavia, é um grave erroalimentar idéias preconcebidas, pois, insensivelmente, a pessoa procura torcer os fatos afim de adaptá-los às próprias teorias.— E o bilhete?
  13. 13. — Quais são seus termos? "Nossas cores, verde e branco." Parece referir-se a corridasde cavalos. "Verde aberto, branco fechado." Trata-se, evidentemente, de um sinal,"Escada principal, primeiro corredor, sétima à direita, estofo verde." Isso não podedeixar de ser um encontro marcado. Quem sabe se, no fundo de tudo isso, não iremostopar com um marido ciumento? Indubitavelmente, a expedição era perigosa, pois, deoutro modo, não teria acrescentado "Boa sorte. D." Esta inicial seria uma orientação.— O homem era espanhol. Por isso, talvez "D" signifique Dolores, nome de mulhermuito comum na Espanha — sugeri.— Ótimo, Watson, perfeito... mas absolutamente inadmissível. Uma espanholaescreveria a um espanhol em sua própria língua. A autora desse bilhete é certamenteinglesa. Mas, por enquanto, nosso único recurso é munirmo-nos de paciência até queesse excelente inspetor esteja de volta. Enquanto isso, podemos dar graças à nossa boaestrela por nos ter libertado durante algumas horas do insuportável tédio da ociosidade.A resposta ao telegrama de Holmes chegou antes do regresso do detetive de Surrey.Meu amigo leu-a e ia guardá-la entre as páginas de seu bloco, quando notou a expressãode curiosidade em meu rosto. Passou-o a mim por cima da mesa, com uma risada.— Estamos nos movendo em altas esferas — disse.O telegrama era uma lista de nomes e endereços: "Lorde Harringby, The Dingie; SirGeorge Foiliot, Oxshott Towers; sr. Hynes Hynes, J. P., Purdiey Place; sr. James BakerWilliams, Forton Old Hall; sr. Henderson, High Gable; reverendo Joshua Stone, NetherWaisling".— Este é um modo muito simples de limitar nosso campo de operações — comentouHolmes. — Sem dúvida Baynes, com seu espírito metódico, já adotou algum processoanálogo.
  14. 14. — Não percebo bem o que quer dizer.— Ora, meu caro amigo, já chegamos à conclusão de que o bilhete recebido por Garcia,durante o jantar, devia servir para marcar um encontro ou indicar-lhe um lugar. Se ainterpretação desse bilhete está certa, para se chegar ao lugar indicado é preciso subiruma escada principal e procurar a sétima porta de um corredor, e é evidente que a casadeve ser muito grande. É igualmente certo que essa casa não pode distar mais do quedois ou três quilômetros de Oxshott, pois Garcia caminhava naquela direção e esperava,segundo minha interpretação dos fatos, estar de volta à Vila Glicínia a tempo deaproveitar de um álibi, válido apenas até uma hora da madrugada. Como o número decasas grandes nas proximidades de Oxshott deve ser limitado, recorri ao expediente detelegrafar aos agentes mencionados por Scott Eccles e obter uma lista dessasresidências. Ei-la neste telegrama; a outra ponta de nossa embaraçada meada deveencontrar-se aí.Eram quase seis horas quando chegamos à graciosa vila de Esher, no Surrey, nacompanhia do inspetor Baynes. Holmes e eu tínhamos trazido o necessário para passar anoite, e arranjamos aposentos confortáveis no Buli Hotel. Partimos finalmente com odetetive para nossa visita à Vila Glicínia. Era uma escura e frígida noite de março.Feriam-nos o rosto um vento cortante e uma chuva miúda, moldura condizente com aregião desolada que o trem atravessava, e com a trágica meta a que nos destinávamos.II — O Tigre de San PedroDepois de uma fria e melancólica caminhada de cerca de três quilômetros, alcançamos oalto portão de madeira que dava acesso a uma alameda de castanheiros. Esse caminhosinuoso, envolto em sombras, conduzia a uma casa escura e baixa, cujo vulto negro sedestacava no céu cinza. De uma janela da frente, ao lado esquerdo da porta de entrada,coava-se uma luz bruxuleante.— Há um policial de guarda — explicou Baynes. — Vou bater à janela.Atravessou o canteiro de relva e bateu com os nós dos dedos na vidraça. Através dovidro embaciado, vi vagamente um homem saltar de uma cadeira ao lado do fogo, eouvi um grito agudo vindo do interior da sala. Logo em seguida, um policial pálido eofegante, com uma vela na mão trêmula, abria a porta.— Que aconteceu, Walters? — perguntou Baynes secamente.O homem enxugou a testa e soltou um suspiro de alívio.— Alegro-me de vê-lo aqui, chefe. A noite pareceu-me interminável, e creio que já nãopossuo nervos tão bons como antigamente.— Nervos, Walters? Nunca supus que você tivesse nervos.
  15. 15. — Ah!, sr. Baynes, é esta casa vazia e fúnebre e aquela coisa esquisita na cozinha queme põem assim. Além disso, quando o senhor bateu na janela julguei que fosse ele outravez.— Ele quem?— O Demônio, chefe, não podia ser outro. Apareceu na janela. — Quem apareceu na janela e quando foiisso?— Foi há cerca de duas horas. Principiava a escurecer. Eu estava lendo sentado nacadeira. Não sei o que me fez levantar a cabeça, e, repentinamente, vi uma cara que mefitava através ao vidro inferior da janela. E que cara, Deus meu! Estou certo de que averei sempre em meus sonhos.— Calma, calma, Walters! Isso é maneira de um policial falar?— Bem sei, chefe, bem sei; todavia, não posso negar que ela me assustou. Não era pretanem branca, mas de uma cor que jamais vi; parecia feita de argila, sobre a qual tivessemesborrifado um pouco de leite. E o tamanho, então, chefe! Era o dobro da sua. E queolhar... dois olhos esbugalhados, fixos, e duas fileiras de dentes brancos como os deuma fera faminta. Garanto-lhe, chefe, que não fui capaz de me mover, nem ao menos derespirar, até ela desaparecer. Precipitei-me para fora e dei uma busca entre as moitas,mas, graças a Deus, não encontrei ninguém.— Se eu não soubesse que você é um homem como deve ser, Walters, seu nome ficariamarcado por causa disso. Ainda que fosse o Diabo em pessoa, um policial em serviçonunca deveria dar graças a Deus por não lhe poder pôr as mãos em cima. Tem certezade que tudo isso não foi apenas uma visão ou produto dos nervos?
  16. 16. — Isso, pelo menos, é fácil verificar — interveio Holmes, acendendo sua lanternaportátil. — De fato — prosseguiu, depois de um rápido -exame ao canteiro de relva —,as pegadas são de quem calça número 45, posso quase afirmar. Se o corpo forproporcional ao tamanho do pé, deve ser por certo um gigante.— O que teria sido feito dele?— Parece ter pulado a sebe de arbustos e fugido para a estrada.— Bem — sentenciou o inspetor com ar grave e pensativo —, fosse quem fosse e o quetivesse pretendido, está por enquanto fora de nosso alcance, e temos coisas maisurgentes a tratar. E agora, sr. Holmes, se me permite, lhe mostrarei a casa.Apesar da cuidadosa pesquisa, os vários quartos e salas não revelaram nada notável.Aparentemente, os ocupantes da vila tinham trazido muito pouca coisa consigo, e toda amobília, até as mais insignificantes peças, tinha sido alugada com a casa. Grandequantidade de roupas com a marca Marx & Co., High Holborn, fora abandonada poreles. Já tinham sido feitas indagações telegráficas, que revelaram que Marx nada sabiade seu freguês, exceto que pagava bem. Diversas miudezas, como cachimbos, alguns ro-mances, dois dos quais em espanhol, um revólver de modelo antiquado e um violão,constituíam os poucos objetos de uso pessoal encontrados.— Até aqui, nada interessante — disse Baynes, passando cautelosamente de quarto emquarto com a vela na mão. — Mas, agora, sr. Holmes, quero chamar sua atenção para acozinha.Era um compartimento alto e sombrio, nos fundos da casa, onde se via, num dos cantos,um enxergão de palha, que devia ter servido de cama para o cozinheiro. A mesa estavacoberta de pratos sujos e restos do jantar da noite anterior.— Veja isto — disse Baynes. — O que lhe parece?
  17. 17. Dizendo isso, aproximou a vela de um estranho objeto que se encontrava atrás doarmário. Era uma coisa de tal modo enrugada, murcha e seca, que se tornava difícildizer o que poderia ter sido. Apenas era possível verificar que era preta, e tinha oaspecto de couro, assemelhando-se a uma figura humana em miniatura. Ao examiná-la,pensei a princípio tratar-se de um negrinho mumificado; depois pareceu-me um macacomuito velho e encarquilhado. Finalmente, fiquei na dúvida, sem saber se era animal ouser humano. Tinha pendurada ao redor uma fileira de conchas brancas.— Muito interessante... realmente, muito interessante! — exclamou Holmes,observando a sinistra relíquia.— Mais alguma coisa?Baynes aproximou-se em silêncio da pia e iluminou-a com a vela. Viam-se ali osmembros e o corpo de uma ave branca de grandes dimensões, reduzida brutalmente apedaços, com as penas ainda agarradas à pele. Holmes indicou com o dedo as barbelasda cabeça cortada.— Um galo branco — disse. — Interessantíssimo! É, de fato, um caso muito curioso.Baynes, entretanto, reservara para o fim o pormenor mais sinistro. Extraiu da parte debaixo da pia um balde de zinco contendo uma grande quantidade de sangue. Depois, decima da mesa, agarrou uma bandeja em que se amontoavam fragmentos de ossosqueimados.— Algo foi morto e queimado. Retiramos tudo isto do fogo. Esteve aqui, hoje demanhã, um médico que afirmou não se tratar de restos humanos.
  18. 18. Holmes sorriu e esfregou as mãos.— Devo felicitá-lo, inspetor, pela maneira perspicaz e inteligente com que está agindoneste caso. Sua capacidade, se me permite dizê-lo sem ofensa, parece-me superior àssuas oportunidades.Os olhinhos do inspetor Baynes cintilaram de prazer.— Tem razão, sr. Holmes. Vegeta-se aqui no interior. Um caso como este pode oferecergrandes possibilidades para quem saiba aproveitá-lo, e eu espero não deixar fugir aocasião. O que pensa destes ossos?— Diria serem de cordeiro ou de cabrito.— E o galo branco?— Curioso, sr. Baynes, muito curioso, e diria quase único.— Sim; esta casa deve ter sido habitada por pessoas muito estranhas, com hábitosesquisitíssimos. Uma delas morreu. Terá sido seguida e morta pêlos seus companheiros?Se for isso, nós os apanharemos, pois todos os portos estão sendo vigiados. No entanto,minha opinião a esse respeito é diferente. Sim, sr. Holmes, a minha opinião pessoal émuito diferente.— Já formulou, então, uma hipótese?— Trabalharei nela por minha conta, sr. Holmes. Se for bem sucedido, isso redundaráem crédito para mim. Seu nome está feito; eu, porém, ainda preciso fazer o meu. Eu mesentiria satisfeito se pudesse dizer mais tarde que resolvi este problema sem sua ajuda.
  19. 19. Holmes riu gostosamente.— Está bem, inspetor — disse. — Siga seu caminho; eu seguirei o meu. Em todo caso,meus resultados estarão sempre à sua disposição se, por acaso, quiser servir-se deles.Penso ter visto tudo o que desejava ver nesta casa, e meu tempo poderá ser melhoraproveitado em outro lugar. Até a vista e boa sorte!Percebi por inúmeros pequenos indícios, que poderiam ter escapado a outra pessoa, queHolmes já tinha descoberto nova pista. Embora pudesse parecer impassível a qualquerobservador casual, havia em seus olhos brilhantes e nos gestos vivos uma ansiedade,uma tensão contida que me faziam compreender que ele pressentira a proximidade decaça grossa. Como de costume, não me disse nada, nem eu lhe fiz perguntas. Bastava-me participar das emoções da aventura e prestar-lhe meu insignificante auxílio nacaptura, sem perturbar com inúteis interrupções aquele cérebro em contínuaefervescência. Em tempo oportuno, eu seria inteirado de tudo.Esperei, portanto, mas, para meu sempre crescente desapontamento, esperei em vão.Sucediam-se os dias, e meu amigo não dava o menor passo em frente. Esteve certamanhã na cidade e soube depois, por uma casual alusão de sua parte, que visitara oMuseu Britânico. Exceto por essa única ausência, consumia o tempo em longas eassíduas caminhadas solitárias, ou tagarelando com certo número de bisbilhoteiros davila, cuja amizade cultivara.— Estou certo, Watson — observou um dia —, de que uma semana no campo lhe fariamuito bem. É agradável ver despontar os primeiros rebentos verdes nas sebes e asaveleiras cobrindo-se de delicadas florinhas. Com uma pazinha, uma caixinha de lata eum livro elementar de botânica, pode-se passar horas muito instrutivas.Ele próprio fazia suas excursões pêlos arredores com esse equipamento, mas era muitoescassa a quantidade de plantas que trazia para casa à noite.Às vezes, em nossos giros, encontrávamos o inspetor Baynes. Seu rosto corado erechonchudo desfazia-se em sorrisos, e os olhos miúdos cintilavam ao saudar meucompanheiro. Falava pouco sobre o caso, mas desse pouco depreendia-se não estardescontente com o curso dos acontecimentos. Confesso, contudo, ter ficado algosurpreso quando, cinco dias após o delito, ao abrir o jornal da manhã, deparei com estesdizeres em letras garrafais: SOLUÇÃO DO MISTÉRIO DE OXSHOTT. PRISÃO DO SUPOSTO ASSASSINO.Quando li em voz alta esse título, Holmes deu um pulo na cadeira como se tivesse sidopicado por uma tarântula.— Com os diabos! — exclamou. — Será possível que Baynes o tenha apanhado?— É o que parece — respondi, passando a ler a seguinte notícia:
  20. 20. "Causou grande sensação em Esher e em toda a zona circunvizinha a notícia de que, àsúltimas horas da noite de ontem, foi efetuada uma prisão relacionada com o crime deOxshott. Como todos devem estar lembrados, o sr. Garcia, da Vila Glicínia, foiencontrado morto na região de Oxshott. O corpo apresentava sinais de violentaagressão, e, na mesma noite, desapareceram seus dois criados, o que faz supor queambos sejam participantes do delito. Presumiu-se, embora sem provas, que a vítimativesse em sua casa objetos de grande valor e o motivo do crime fosse o roubo. Foramdespendidos todos os esforços pelo inspetor Baynes, em cujas mãos se encontra estecaso, no sentido de descobrir o paradeiro dos fugitivos, pois ele tinha fundados motivospara crer que não se tinham afastado muito do lugar e se encontravam em qualqueresconderijo previamente preparado. Todavia, tinha-se como certo, desde o princípio,que eles mais cedo ou mais tarde seriam descobertos, porquanto o cozinheiro, segundo otestemunho de um ou dois fornecedores que o tinham avistado através da janela, erahomem de aparência extraordinária — um mulato gigantesco, de catadura repelente, tezamarelada e acentuado tipo negróide. Esse indivíduo foi visto depois do crime, tendosido encontrado e perseguido naquela mesma noite pelo agente Walters, ao ter a audáciade voltar à Vila Glicínia. O inspetor Baynes, considerando que tal visita deveria teralgum objetivo e que, portanto, podia se repetir, abandonou a casa e preparou umaemboscada entre as moitas do jardim. O homem caiu na armadilha e foi capturadoontem à noite, após violenta luta, durante a qual o agente Downing recebeu uma ferozdentada do selvagem. Sabemos que, quando o prisioneiro comparecer perante osmagistrados, a polícia pedirá sua prisão. Esperam-se grandes revelações relacionadascom essa captura".— Claro que precisamos ver Baynes o quanto antes — exclamou Holmes, pegando ochapéu. — Temos o tempo necessário para apanhá-lo antes de partir.Descemos apressadamente a rua do vilarejo e, como havíamos previsto, encontramos oinspetor pronto para sair.
  21. 21. — Já leu o jornal, sr. Holmes? — indagou, apresentando-lhe um exemplar.— Sim, Baynes, já o li. Peço-lhe que não se ofenda, mas quero dar-lhe um conselho deamigo.— Um conselho, sr. Holmes?— Examinei a fundo este caso e não estou convencido de que o senhor esteja na pistacerta. Não queria que se expusesse demasiado, a não ser que esteja realmente seguro.— O senhor é muito gentil, sr. Holmes.— Afirmo-lhe que falo unicamente para seu próprio bem.Pareceu-me vislumbrar, por um rápido instante, um malicioso brilho nos minúsculosolhos do inspetor Baynes.— Concordamos em trabalhar cada um por seu lado, sr. Holmes. É o que estou fazendo.— Oh, muito bem! Não me queira mal por isso.— De forma nenhuma, sr. Holmes; estou certo de que suas intenções são as melhorespossíveis. Mas todos nós temos nosso próprio sistema. O senhor tem o seu, e eu talveztenha o meu.— Não falemos mais nisso.— Terei sempre o maior prazer em informá-lo do que souber. O tal cozinheiro é umperfeito selvagem, forte como um touro e feroz como o Diabo. Quase arrancou opolegar de Downing com uma dentada, antes de conseguirmos subjugá-lo. Praticamentenão fala uma palavra de inglês, e não pudemos arrancar-lhe nada, exceto grunhidos.— E julga ter provas de que foi ele o assassino?— Eu não disse isso, sr. Holmes; não disse isso. Cada um de nós tem os própriosmétodos. Siga os seus, e eu seguirei os meus. Foi essa a combinação.Quando nos afastamos, Holmes disse-me, encolhendo os ombros:— Não consigo compreender esse homem. Tenho a impressão de que está seprecipitando num abismo. Bem, como ele próprio diz, cada um de nós deve pôr à provaseu método e ver o que acontece. Há, porém, qualquer coisa na atitude do inspetorBaynes que ainda não consegui entender bem.— Sente-se naquela cadeira, Watson — disse Sherlock Holmes quando chegamos anosso apartamento no Buli Hotel.— Quero pô-lo a par da situação, pois talvez precise de seu auxílio hoje à noite. Vouexpor-lhe a evolução desse problema, tanto quanto me foi dado segui-la. Emborasimples nas linhas principais, tem, contudo, apresentado surpreendentes empecilhos
  22. 22. com referência à prisão dos culpados. Existem falhas nesse sentido, as quais precisamosremediar."Voltemos ao bilhete entregue a Garcia na noite de sua morte. Podemos desprezar aidéia de Baynes de que os criados da vítima estavam implicados no crime. A provadisso está no fato de que o próprio Garcia fez com que Scott Eccles estivesse presentenaquela noite na vila, o que só poderia ter o propósito de criar um álibi. Era, portanto,Garcia quem tinha um plano em mente, e, aparentemente, um plano criminoso, em cujaexecução encontrou a morte. Digo criminoso, porque somente quem nutre um desígniodessa espécie tem necessidade de estabelecer um álibi. Quem, pois, lhe tirou a vida?Certamente a pessoa contra a qual fora arquitetado o plano. Até aqui, parece-me queestamos pisando terreno seguro."Portanto, agora podemos perceber o motivo do desaparecimento dos criados de Garcia.Estavam todos associados na mesma empresa misteriosa. Se ela fosse coroada de êxito,Garcia então voltaria, e toda a eventual suspeita seria afastada com o testemunho doinglês, o que faria com que tudo acabasse bem. Contudo, o empreendimento eraperigoso, e, se Garcia não regressasse até determinada hora, era muito provável que suavida tivesse sido sacrificada. Ficou por isso combinado que, se tal acontecesse, seussubordinados se refugiariam num esconderijo determinado, onde pudessem escapar àsinvestigações e estar depois em condições de renovar o atentado. Não lhe parece queisso daria uma total explicação dos acontecimentos?"Como por encanto, todo aquele inexplicável emaranhado de fatos pareceu esclarecer-sediante de meus olhos. Admirei-me, como sempre, de que tal explicação não me tivesseacudido mais cedo.— Mas por que um dos criados teria voltado?— Podemos supor que, na confusão da fuga, tivesse esquecido qualquer coisa preciosa,da qual não pudesse separar-se. Isso explicaria sua insistência, não lhe parece?— Bem, e depois?— Depois temos o bilhete recebido por Garcia à hora do jantar, o que indica aexistência de um cúmplice na outra ponta da meada. Nesse caso, onde se encontra essaoutra ponta? Já lhe mostrei que só poderia encontrar-se em qualquer casa grande e que onúmero de casas grandes nestas redondezas é limitado. Meus primeiros dias aqui nestevilarejo foram dedicados a uma série de passeios, durante os quais, nos intervalos deminhas pesquisas botânicas, fiquei conhecendo as casas grandes dos arredores e ahistória das famílias de seus respectivos ocupantes. Uma casa, apenas uma, me atraiu aatenção. Trata-se da famosa e antiga granja jacobita de High Gable, a um quilômetro emeio de Oxshott e a menos de oitocentos metros do local da tragédia. As outraspertenciam a gente prosaicamente respeitável, que se mantém afastada de todaatmosfera romanesca. O sr. Henderson, da High Gable, porém, é inegavelmente umhomem curioso, a quem podem suceder estranhas aventuras. Eis por que concentreiminha atenção sobre ele e seus familiares."É um grupo de pessoas bastante singular, Watson, e o chefe da casa é, sem dúvida, amais singular. Procurei vê-lo sob um pretexto plausível, mas pareceu-me ler em seus
  23. 23. olhos escuros, profundos, pensativos, que estava perfeitamente a par de meu verdadeiroobjetivo. É um homem de seus cinqüenta anos, forte, enérgico, de cabelos grisalhos,sobrancelhas negras e espessas. Possui o andar imponente de um cervo, e a majestade deum imperador... uma figura, em suma, indômita e autoritária, cujo espírito candente seoculta por trás da pele pergaminácea do rosto. Deve ser estrangeiro ou, pelo menos,deve ter vivido muito tempo nos trópicos, pois é moreno-escuro e ressequido, mas rijocomo um chicote. Seu amigo e secretário, o sr. Lucas, é indubitavelmente estrangeiro:tez cor de chocolate, ardiloso, melífiuo e felino, com uma venenosa suavidade no falar.Como vê, Watson, já entramos em contato com dois grupos de estrangeiros: um na VilaGlicínia, outro na High Gable. Nossas falhas, portanto, principiam a ser remediadas."Esses dois homens, amigos íntimos e inseparáveis, constituem o núcleo da casa; há, noentanto, outra pessoa que, para nosso fim imediato, talvez seja ainda mais importante.Henderson tem duas filhas... uma de onze e outra de treze anos de idade, cujagovernanta, a sra. Burnet, é uma inglesa quarentona. Existe também um criado deconfiança. Esse pequeno grupo compõe toda a família, que viaja sempre reunida, poisHenderson viaja muito e está continuamente mudando de ares. Há muito pouco temporegressou à High Gable, após um ano de ausência. Posso ainda acrescentar que ele émuito rico e lhe é fácil satisfazer qualquer capricho, por mais extravagante que seja.Quanto ao resto, sua casa está cheia de mordomos, lacaios, criadas e o habitual magotede criados, bem alimentados e com pouco serviço, como sucede em todas as grandescasas de campo inglesas."Vim a saber de tudo isso, em parte através dos bisbilhoteiros da vila, em parte porobservação própria. Não existe ninguém melhor como informador do que criadosdespedidos, irritados com os patrões, e eu tive a sorte de encontrar um nessas condições.Digo sorte; contudo, ela não viria a meu encontro se eu não fosse procurá-la. Comoobserva Baynes, cada um de nós possui seu próprio método. E foi graças ao meu quetive a oportunidade de encontrar John Warner, antigo jardineiro da. High Gable,despedido, num momento de cólera, por seu arrogante patrão. Ele, por seu turno,possuía amigos entre os outros criados da casa, os quais nutriam pelo patrão o mesmotemor e ódio. Essa foi a chave que me permitiu penetrar nos segredos da High Gable."Gente curiosa, Watson! Ainda não tenho a pretensão de conhecê-la bem. Posso, porém,afirmar-lhe que é muito estranha. A construção é dividida em duas alas; os criadosmoram numa, a família, na outra. Não há entre eles nenhuma ligação, a não ser o criadopessoal de Henderson, que serve as refeições da família. Tudo é levado até certa porta,que constitui o único meio de comunicação. A governanta e as crianças raramente saem,salvo -ao jardim. Henderson jamais se afasta da casa sozinho. O secretário acompanha-opor toda parte, como uma sombra. Os criados comentam que o patrão anda apavoradocom qualquer coisa. "Vendeu a alma ao Diabo por amor ao dinheiro", diz Warner, "ereceia que o credor venha buscar o que lhe pertence." Ninguém sabe de onde vieram,nem quem são. Possuem um gênio muito violento. Já por duas vezes, Hendersonagrediu pessoas às chicotadas, e unicamente sua bolsa bem-provida o conseguiu livrarde ser processado pêlos tribunais."Por conseguinte, Watson, julguemos agora a situação à luz dessas novas informações.Podemos supor que a carta tenha partido dessa casa estranha, e que era um convite aGarcia para pôr em ação um plano premeditado. Quem pode ter escrito o bilhete?Naturalmente, alguém de dentro da cidadela e, com toda a certeza, uma mulher. Quem
  24. 24. poderia ser senão a sra. Burnet, a governanta? Nosso raciocínio parece conduzir-nosnessa direção. Seja como for, tomemos isso como hipótese viável, e vejamos queconseqüências acarreta. Posso acrescentar que a idade e o temperamento da sra. Burnetafastam definitivamente minha primeira idéia, a de que pudesse haver um interesseamoroso nessa história."Se ela escreveu o bilhete, presume-se que fosse amiga e cúmplice de Garcia. Qualseria, pois, sua provável reação ao saber que ele fora assassinado? Se tivesse perecidoem alguma empresa criminosa, ela permaneceria calada. Em todo caso, conservaria nofundo do coração rancor e ódio aos que o tivessem morto, e provavelmente faria opossível para se vingar deles. Poderíamos, então, ir vê-la e procurar utilizar esse ódioem nosso proveito? Tal foi meu pensamento. No entanto, apresenta-se agora umacircunstância sinistra. Desde a noite do crime, a sra. Burnet desapareceu. Estará aindaviva, ou terá encontrado a morte na mesma noite, como o amigo que ela haviachamado? Ou encontra-se apenas prisioneira? Este é um ponto que ainda precisamosesclarecer."Você certamente já percebeu a dificuldade da situação, Watson. Não temos pretextoalgum em que nos possamos apoiar para um mandado de prisão. Toda a nossa históriaparecerá fantástica, exposta a um magistrado. O desaparecimento da mulher não provanada, pois naquela casa é comum que alguém fique invisível por uma semana. Todavia,ela poderá estar neste instante em perigo de vida. Tudo o que posso fazer é vigiar a casae postar Warner de guarda no portão. Mas não podemos deixar que tal situaçãocontinue, e, visto que a lei é impotente para agir, devemos correr o risco sozinhos."— Que sugere então?— Sei qual é o quarto da sra. Burnet; é acessível do alto de um telhado que fica abaixode sua janela. Proponho que estejamos lá esta noite, para ver se conseguimos penetrarno fundo do mistério.Devo confessar que a perspectiva não me era muito tentadora. Aquela velha mansãocom atmosfera de crime, seus habitantes estranhos e temíveis, os perigos desconhecidosque iríamos arrostar e o fato de, agindo assim, nos colocarmos em posição legalmentecomprometedora, tudo contribuía para esmorecer meu ardor. No entanto, havia algo nofrio raciocínio de Holmes que me impedia de recusar qualquer aventura para que ele meconvidasse. Sabia que assim, e só assim, era possível encontrar a solução. Apertei-lhe amão em silêncio e selei minha sorte.Estava decidido, porém, que nossa investigação não teria um fim tão rocambolesco.Eram cerca de cinco horas, e as sombras daquela tarde de março principiavam aadensar-se, quando irrompeu em nosso quarto um aldeão profundamente emocionado.— Eles se foram, sr. Holmes. Partiram no último trem. A senhora conseguiu fugir deles,e eu a trouxe comigo. Está num carro lá embaixo.— Bravo, Warner! — exclamou Holmes, pondo-se de pé. — As falhas estão sendosanadas rapidamente, Watson.
  25. 25. No carro encontrava-se uma mulher semidesfalecida pela exaustão nervosa. Trazia nasfeições aquilinas e pálidas os vestígios da recente tragédia. A cabeça pendia-lhe inertesobre o peito, mas, quando a levantou para nos fitar com os olhos embaciados, vi quesuas pupilas eram dois pontos negros no centro das enormes íris cinzentas. Estavaevidentemente sob a ação de uma forte dose de ópio.— Fiquei de guarda ao portão, como o senhor me recomendou — explicou nossoemissário, que era na verdade o jardineiro despedido. — Quando a carruagem saiu,segui-a até a estação. Esta senhora parecia sonâmbula. Todavia, quando pretenderampô-la no trem, voltou a si e lutou com todas as forças. Quiseram empurrá-la para dentrode um vagão; ela, porém, ofereceu resistência e conseguiu escapar-lhes. Tomei-lhe adefesa, coloquei-a num carro, e aqui estamos. Jamais esquecerei o rosto que me fitou dajanela do vagão, quando a trouxe. Poucos dias me restariam de vida se aquele demônioamarelo de olhos negros me pusesse as mãos em cima.Levamos a mulher para dentro, colocamo-la no sofá, e em breve duas xícaras de cafébem forte lhe aclararam o cérebro das névoas do alcalóide. Baynes fora chamado porHolmes, e em breves palavras lhe explicamos a situação.— Caramba! O senhor obteve justamente a prova de que eu necessitava — gritou oinspetor, apertando entusiasticamente a mão de meu amigo. — Eu estava na mesmapista desde o princípio.— Como! O senhor também suspeitava de Henderson?— Exatamente, sr. Holmes. Enquanto o senhor se arrastava entre as moitas da HighGable, eu estava em cima de uma das árvores do pomar observando-o. Tratava-seapenas de saber quem obteria a prova primeiro.— Então, por que prendeu o mulato?
  26. 26. Baynes solou uma gargalhada.— Tinha a certeza de que Henderson, como ele próprio se chama, sabia quedesconfiavam dele, e se manteria quieto em seu esconderijo enquanto se julgasse emperigo. Por isso prendi o pobre-diabo para fazer crer que ninguém se ocupava de suapessoa. Estava convencido de que ele, com toda a certeza, procuraria afastar-se daqui omais depressa possível, e nos daria a oportunidade de nos apoderarmos da sra. Burnet.Holmes pôs a mão no ombro do inspetor.— O senhor irá longe em sua profissão. Tem o instinto e a intuição necessários a umbom policial — disse.Baynes corou de satisfação.— Deixei um agente à paisana na estação durante toda a semana. Para onde quer que sedirijam os moradores da High Gable, ele não os perderá de vista. Mas que teria elepensado, quando a sra. Burnet fugiu? Seja como for, seu homem apanhou-a e tudoacabou bem. No entanto, não podemos prender ninguém sem o testemunho dela, é claro.Portanto, quanto mais depressa ouvirmos suas declarações, melhor.— Ela está readquirindo as forças pouco a pouco — disse Holmes, observando agovernanta. — Mas diga-me, Baynes, quem é esse Henderson?— Henderson — respondeu o inspetor — é dom Murillo, outrora chamado o "Tigre deSan Pedro".O Tigre de San Pedro! Toda a história daquele homem me veio à mente como umrelâmpago. Esse indivíduo celebrizara-se como o tirano mais cruel e sanguinário quejamais havia governado um país com a aparência de civilizado. Forte, destemido eenérgico, possuía uma capacidade que lhe permitiu impor durante dez ou doze anos seujugo odioso sobre um povo aterrorizado. Seu nome era temido em toda a AméricaCentral, mas, no fim daquele tempo, houve uma revolta geral contra ele. Entretanto, tãoastucioso como cruel, ao pressentir o perigo iminente fez transportar secretamente seustesouros para um navio tripulado por correligionários fiéis. Foi apenas um palácio vazioque os revoltosos assaltaram no dia seguinte. O ditador e suas duas filhas, o secretário eas riquezas, tinham escapado. Desde essa época desapareceram dos olhos do mundo, esua identidade era objeto freqüente de comentários na imprensa européia.— Sim senhor, dom Murillo, o Tigre de San Pedro — repetiu Baynes. — Se procurarrecordar-se, verá que as cores de San Pedro são o verde e o branco, as mesmas citadasno bilhete. Adotara o nome de Henderson, mas consegui seguir-lhe as pegadas, emsentido inverso, através de Paris, Roma e Madri, até Barcelona, onde seu navio aportouem 1886. Seus inimigos procuraram-no durante todo esse tempo com o intuito de sevingarem. No entanto, só agora conseguiram encontrá-lo.— Descobriram-no há um ano — interveio a sra. Burnet, que se tinha sentado eacompanhava atentamente a conversa. — Já uma ocasião haviam atentado contra suavida, mas há um espírito demoníaco que parece defendê-lo. E agora, mais uma vez, é onobre e cavalheiresco Garcia que cai abatido, enquanto o monstro consegue escapar
  27. 27. impune. Mas outro virá, e ainda outro, até um dia ser feita justiça; isso é tão certo comoo nascer do sol.Suas mãos finas contraíram-se, e o rosto cansado empalideceu sob o domínio do ódio deque se achava possuída.— Mas de que maneira a senhora se envolveu neste caso? — perguntou Holmes. —Como poderia uma inglesa tomar parte em semelhante atentado homicida?— Aderi à conspiração porque não havia outro meio no mundo de fazer justiça. Queimporta à magistratura inglesa os rios de sangue que esse homem fez correr há algunsanos pelas ruas de San Pedro, ou o navio abarrotado de ouro que ele roubou? Para ossenhores, são como crimes cometidos em outro planeta. Nós, porém, sabemos o que issorepresenta. Descobrimos a verdade no sofrimento e na dor. Para nós, não há no infernodemônio mais perverso que Juan Murillo, e não teremos paz nesta vida enquanto suasvítimas clamarem por vingança.— Inegavelmente — observou Holmes —, ele é tudo quanto a senhora diz. Estou a parde suas atrocidades. Mas, que mal esse homem poderia ter-lhe causado?— Vou explicar-lhe tudo. A política desse bandido era liquidar, sob qualquer pretexto,todo homem que, pêlos seus dotes, demonstrasse a possibilidade de um dia vir atransformar-se num rival perigoso para ele. Meu marido, sim, meu verdadeiro nome ésra. Victor Durando, exercia as funções de ministro de San Pedro em Londres. Ali nosconhecemos e casamos. Jamais existiu sobre a terra homem melhor do que ele.Desgraçadamente, Murillo ouviu falar de sua competência, chamou-o sob uma desculpaqualquer e mandou-o fuzilar. Pressentindo seu destino, recusara-se a levar-me com ele.Foram-lhe confiscadas as propriedades e eu fiquei na miséria, com o coraçãodespedaçado."Ocorreu, então, a queda do tirano. Ele conseguiu fugir da maneira que o senhor acabade descrever. Mas o número infindo de pessoas cuja existência ele arruinou, e cujosparentes mais caros e mais próximos sofreram atrozes torturas e encontraram a morteem suas mãos, não poderiam deixar a coisa cair no esquecimento. Congregaram-senuma sociedade destinada a permanecer indissolúvel até que a missão estivessecumprida. Coube a mim, logo após termos descoberto no falso Henderson o déspotacaído, unir-me à sua família e manter os outros informados de seus passos. Alcanceimeu intento tornando-me governanta de suas filhas. Mal sabia ele que a mulher que sesentava à sua frente a cada refeição era a mesma cujo marido ele despachara para ooutro mundo sem a menor piedade. Eu sorria-lhe, cumpria minha obrigação para comsuas filhas e esperava o momento oportuno. Um atentado foi levado a efeito contra eleem Paris, mas falhou. Andamos aos ziguezagues por toda a Europa, a fim de despistaros perseguidores, e finalmente regressamos a esta casa, que ele havia alugado ao chegar,pela primeira vez, à Inglaterra.
  28. 28. "Entretanto, também aqui seus inimigos o aguardavam, sequiosos de justiça. Sabendoque ele voltaria a este lugar, Garcia, filho de um antigo alto dignitário em San Pedro,esperava-o com dois companheiros fiéis, de origem humilde, absorvidos os três poridêntico desejo de vingança. Pouco podia ele fazer durante o dia, pois Murillo cercava-se de precauções e não saía nunca sem ser acompanhado de sua sombra, Lucas, ouLópez, como era conhecido na época de seu fastígio. À noite, porém, Murillo dormia só,e o vingador poderia colhê-lo de surpresa. Certa noite, de antemão determinada, enviei ameu amigo instruções definitivas, porquanto nosso homem vivia de sobreaviso emudava constantemente de quarto. Competia-me ver se as portas estavam abertas e, porsinais feitos com luz verde ou branca, através de uma janela fronteira à estrada, informá-lo se tudo corria em ordem ou se seria melhor adiar o atentado."Tudo, porém, nos saiu às avessas. Não sei por que motivo, eu havia provocado assuspeitas de López, o secretário. Aproximou-se de mim sorrateiramente e, mal acabei deescrever o bilhete, saltou sobre mim. Ele e seu amo arrastaram-me para meu quarto esubmeteram-me a julgamento como traidora. Ter-me-iam apunhalado ali mesmo, setivessem encontrado meio de escapar depois às conseqüências desse ato. Finalmente,após longa discussão, decidiram que meu assassinato era demasiado perigoso.Resolveram, contudo, livrar-se para sempre de Garcia. Haviam-me amarrado, e Murillotorceu-me o braço até eu lhes dar o endereço de meu companheiro. Juro-lhes quepreferia que o tivessem arrancado de mim, se soubesse o que isso iria significar paraGarcia. López endereçou o bilhete que eu havia escrito, fechou-o com lacre, colocousobre este sua abotoadura de punho e enviou-o por intermédio do criado José. Como omataram não lhes sei dizer, salvo que foi a mão de Murillo que o abateu, pois Lópezficara de guarda junto a mim. Acredito que o esperou entre as moitas que ladeiam ocaminho, e saltou sobre ele no momento em que passava. A princípio, pensaram emdeixá-lo penetrar na casa e abatê-lo como se se tratasse de um ladrão apanhado emflagrante. Todavia, refletindo melhor, acharam que, se fossem envolvidos numinquérito, sua verdadeira identidade seria revelada publicamente, e ficariam expostos a
  29. 29. novos ataques, ao passo que, com a morte de Garcia, a perseguição talvez cessasse, poistal morte certamente assustaria os outros conjurados e os faria desistir da empresa."Tudo correria bem para eles agora, se não fosse meu testemunho do que tinham feito.Não tenho a menor dúvida de que houve ocasiões em que minha vida esteve pendentede um fio. Achava-me prisioneira em meu quarto, apavorada com as mais terríveisameaças, maltratada de maneira cruel com o fito de me perturbarem o intelecto. Vejameste golpe aqui no ombro, e as manchas que me recobrem os braços. Quando, em certomomento, tentei chamar por socorro da janela, puseram-me uma mordaça na boca. Essaprisão intolerável durou cinco dias, durante os quais me deixaram praticamente semalimento. Hoje à tarde trouxeram-me uma boa refeição, mas, mal a tinha ingerido,percebi que lhe tinham adicionado algum narcótico. Lembro-me, como num sonho, deter sido arrastada para a carruagem no mesmo estado fui conduzida para um trem. Sóentão, quando as rodas já estavam quase em movimento, compreendi subitamente queminha liberdade dependia apenas de meu próprio esforço. Atirei-me para fora do vagão;eles tentaram fazer-me voltar e, se não fosse a intervenção deste bom homem, que meconduziu para um carro, jamais teria escapado. Agora, graças a Deus, estoudefinitivamente fora do alcance deles."Todos tínhamos ouvido atentamente aquela extraordinária declaração. Holmes foi oprimeiro a quebrar o silêncio:— Nossas dificuldades ainda não terminaram — observou, abanando a cabeça. — Findaaqui nosso trabalho policial. Inicia-se, contudo, o trabalho legal.— Precisamente — disse eu. — Qualquer advogado hábil poderá justificar o fato sob aalegação de legítima defesa. Ainda que existam centenas de delitos anteriores areclamar justiça, só por este eles poderão ser julgados.— Qual!... — exclamou Baynes alegremente. — Faço um conceito melhor de nossosjuízes. Uma coisa é legítima defesa, outra é atrair um homem a sangue-frio com ointuito de matá-lo, por mais perigoso que ele possa ser. Não, não; verão que poderemosprovar a boa razão de nosso procedimento, quando virmos os habitantes da High Gableno próximo júri de Guilford.Pertence à história o fato de que, apesar de tudo, algum tempo ainda deveria decorrerantes que o Tigre de San Pedro recebesse o castigo merecido. Astutos e audazes, ele eseu companheiro conseguiram despistar os perseguidores, entrando num prédio deapartamentos pela porta principal da Edmonton Street e saindo pela porta dos fundos naCurzon Square. Desde esse dia, jamais foram vistos na Inglaterra. Cerca de seis mesesmais tarde, o marquês de Montalva e o sr. Rulli, seu secretário, foram encontradosassassinados em seus quartos no Hotel Escoriai, em Madri. O delito foi imputado aosniilistas, e os criminosos jamais foram presos.O inspetor Baynes foi visitar-nos na Baker Street com um jornal em que vinhamdescritos o rosto trigueiro do secretário e os traços dominadores, os olhos negros emagnéticos e as sobrancelhas espessas de seu patrão. Não tivemos dúvidas de que ajustiça, embora tardia, chegara finalmente.
  30. 30. — Um caso muito confuso, amigo Watson — comentou Holmes mais tarde, no meio desua cachimbada noturna. — Não lhe será possível apresentá-lo sob aquele aspectocoerente e compacto, que lhe é tão caro. Ele abrange dois continentes, atinge doisgrupos misteriosos de indivíduos e complica-se ulteriormente diante da presençarespeitável de nosso amigo Scott Eccles, cuja inclusão nos acontecimentos me vemdemonstrar que Garcia possuía uma imaginação fértil e um bem-desenvolvido instintode conservação. É notável unicamente pelo fato de que, no meio de um verdadeirocaudal de possibilidades, nós, com nosso digno colaborador Baynes, soubemos cingir-nos aos fatos essenciais, e desse modo orientar-nos em nosso obscuro e tortuosocaminho. Há algum ponto que não lhe tenha ficado bem claro?— Qual o motivo do regresso do cozinheiro mulato?— Creio que pode ser atribuído àquele estranho objeto encontrado na cozinha. Ohomem era um selvagem primitivo das florestas de San Pedro, e aquilo era seu fetiche.Quando ele e o companheiro fugiram para algum esconderijo previamente arranjado,sem dúvida já ocupado por outro cúmplice, o companheiro devia tê-lo persuadido aabandonar um traste tão comprometedor. Todavia, o coração do mulato ficara preso aofetiche, e por isso voltou no dia seguinte para reavê-lo, ocasião em que, espreitando pelajanela, viu que o compartimento estava ocupado pelo agente Walters. Aguardou durantemais três dias, mas, depois, sua religiosidade ou superstição o levou a realizar novatentativa. O inspetor Baynes, com a astúcia que lhe é peculiar, tinha, em minhapresença, fingido dar pouca importância ao incidente, mas, na realidade, percebera-lhetodo o significado, e, por essa razão, armou uma emboscada na qual o pobre-diabo caiu.Mais alguma coisa, Watson?— E o galo despedaçado, o balde de sangue, os ossos carbonizados e todo o mistériodaquela fantástica cozinha?Holmes sorriu, enquanto procurava uma anotação em seu bloco.— Passei uma manhã no Museu Britânico procurando elucidar esse e outros pontos. Eisuma citação extraída do livro de Eckermann, O vodu e as religiões dos negros:"O verdadeiro praticante do vodu não empreende nada de importante sem efetuar certossacrifícios destinados a tornar propícios seus imundos deuses. Em casos extremos, essesritos assumem aspectos de imolação de entes humanos, seguidos de canibalismo.Contudo, de ordinário, a vítima comum é um galo branco, esquartejado vivo, ou umacabra preta, cujo pescoço é cortado e cujo corpo é queimado".— Portanto, como você vê, nosso selvático amigo era muito ortodoxo em seus ritosreligiosos. É um caso grotesco, Watson — acrescentou Holmes, fechando lentamente obloco —, mas, como já tive ocasião de lhe fazer notar, do grotesco ao horrível vaiapenas um passo.

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