Ayrton senna -_o_heroi_revelado

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Ayrton senna -_o_heroi_revelado

  1. 1. AYRTON - O Herói Revelado Editora Objetiva – 2004 OS ENIGMAS DE IMOLANo horário da Itália, eram 13h27 do dia 1º de maio de 1994,quando Ayrton surgiu dos fundos do boxe da Williams, macacãoamarrado à cintura, pronto para entrar no carro e seguir para o gridde largada. Como fazia em todas as corridas, o cinegrafista 1 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  2. 2. Armand Deus, da TV Globo, apertou o botão de sua câmeraBetacam e começou a captar as imagens.Procedimento de rotina. Não era uma transmissão ao vivo.As imagens seriam usadas para ilustrar a reportagem sobre acorrida que o correspondente Roberto Cabrini editaria no final dodia, a tempo de ser gerada para o Rio de Janeiro e exibida noprograma Fantástico.Não era um dia de sorrisos para ninguém no autódromo de Imola.Menos ainda para Ayrton, que havia anos já assombravamecânicos, engenheiros, jornalistas e namoradas com suacapacidade de se concentrar nos momentos que antecediam àlargada, tornando todos à sua volta rigorosamente invisíveis einaudíveis. Seu olhar, naqueles momentos, parecia estar em outradimensão. Sua seriedade formava uma muralha da qual poucosousavam se aproximar, não importando a patente familiar ou arelação contratual.Para alguns, naqueles momentos ele antecipava curvas emovimentos dos adversários. Para outros, rezava. Outros aindaachavam que aquela era uma travessia sensorial para um mundocheio de fúria que só cabia e existia no cockpit. Uma travessia semvolta até que a corrida, a dele, terminasse.A câmera de Armand Deus continuava gravando quando Ayrton seaproximou da parte traseira de sua Williams e pousou as mãossobre o aerofólio.Teve uma rápida conversa sobre a suspensão traseira com oengenheiro David Brown. Depois, seu olhar passou a se alternarentre o nada e a Williams, ainda suspensa nos cavaletes, sem asrodas, recebendo os últimos ajustes dos mecânicos.Era mais do que a concentração de sempre. Havia uma contidainquietação. E também uma tristeza solene e impotente. Estavamausentes, no seu semblante, como desde o início daquele ano, aintensidade e aquele olhar de predador dos tempos da Lotus e daMcLaren. Nem mesmo o rápido comentário de Patrick Head, odiretor da Williams, pareceu diminuir a distância que ele mantinhade tudo que o rodeava. 2 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  3. 3. Algum pensamento finalmente o resgatou daquela estranhadispersão para o ritual do cockpit: balaclava, capacete, macacãofechado até o pescoço e uma espera disciplinada, de pé, com asmãos cruzadas sobre a cintura, pela ordem de entrar no carro eajustar o cinto de segurança.As imagens gravadas por Armand Deus no boxe da Williams e,minutos depois, as que foram feitas no grid de largada, quandoAyrton mudou a rotina e tirou o capacete, se tornaram históricas.Deflagraram o sofrido exercício ao qual milhões de pessoas,especialmente os brasileiros, se entregaram nos dias seguintes: oque estava por trás daqueles últimos olhares, gestos e silêncios?Havia muitas respostas possíveis, sozinhas ou combinadas. Dentroe fora da pista.Schumacher estava ali, quase ao lado, mais do que nunca dispostoa destroná-lo. Roland Ratzenberger morrera depois de uma batidacentenas de metros à sua frente, no dia anterior, e o fizera, pelomenos por algumas horas, desistir de correr. Rubens Barrichello,que ele vinha tratando como uma espécie de irmão mais novo daspistas, sobrevivera a um acidente assustador, na sexta-feira.Aquela Williams que ele chamava de "cadeira elétrica", um carroarisco e difícil de guiar, estava consumindo pneus compreocupante rapidez. E, na noite anterior, ele tinha ouvido umagravação. Uma conversa de Adriane Galisteu com um antigonamorado.A placa de um minuto foi erguida.Vinte e cinco motores de Fórmula 1 começaram a rugir.Ayrton, na hora de acelerar, costumava deixar todas aspreocupações de lado. Não trocava as emoções do cockpit pornada da vida. Em mais alguns segundos, ele se entregaria de novoà aventura que tinha começado aos quatro anos de idade, ao soarde um motor de picadeira de cana, com três cavalos de potência. 3 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  4. 4. CAPÍTULO 1 PALMAS NO TREMEMBÉMilton Guirado Theodoro da Silva sempre foi o primeiro a dizer quejamais planejou ou sonhou que o filho se tornasse um piloto decompetição, mesmo quando construiu para ele, em seis meses, okart equipado com freios a disco e o motor de picadeira de canaque permitia uma velocidade de até 60 quilômetros por hora. Noinício, era mesmo uma brincadeira a mais para o filho inquieto eagitado, facilitada pelo fato de Milton ser dono de uma metalúrgica.Um homem de origem simples, filho de um motorista do HortoFlorestal de São Paulo, Milton começou a construir sua fortunapessoal no ramo de compra e venda de automóveis, negociandocom as lojas situadas nas proximidades do complexo penitenciáriodo Carandiru, no bairro de Santana, Zona Norte de São Paulo.Habilidoso e rigoroso no trato com o dinheiro, Milton não demoroua acumular um capital que lhe permitiu não só financiar os donosdas lojas como ampliar os negócios e montar a metalúrgicaUniversal, que o transformou num próspero fornecedor danascente indústria automobilística brasileira. Milton também entrouno ramo da construção civil e, anos depois, tornou-se proprietáriode dezenas de fazendas e milhares de cabeças de gado na regiãoCentro-Oeste e na Bahia."Miltão", como sempre foi tratado pelos amigos e pela família,incluindo a mulher, dona Neyde, gostava de carros e de corridas.Por mais que gostasse, no entanto, é possível afirmar que nuncapassou por sua cabeça que Ayrton pudesse se tornar piloto decompetição.Nem no âmbito sul-americano o automobilismo brasileiro era umaforça. As poucas corridas, naquele início dos anos 60, eram muitoperigosas e às vezes fatais, para pilotos e espectadores,principalmente quando disputadas em circuitos de rua, como os dePiracicaba, Petrópolis e Rio de Janeiro. 4 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  5. 5. Um retrato da época: num fim de semana de outubro de 1964, nocircuito da Barra da Tijuca, houve um episódio que muitos doesporte consideram um acontecimento único no automobilismomundial: um mesmo carro, uma Alfa-Giulia, matou duas pessoas,na mesma corrida, em dois momentos diferentes, com dois pilotosdiferentes ao volante.No primeiro acidente, o piloto Mário Oliveti atropelou dois guardasda Polícia Militar, um dos quais morreria dias depois. Depois,Carlos Augusto Lamego assumiu a direção da mesma Alfa-Giuliapara concluir a corrida, mesmo não estando inscrito na prova.Derrapou, perdeu o controle do carro e foi em direção aosespectadores. Uma jovem morreu na hora.O kart era para ser, portanto, um brinquedo. Uma alternativa àsbicicletas e carrinhos de rolimã daquele menino que nascera departo normal no início da madrugada do dia 21 de março de 1960,na tradicional maternidade Pró Matre, na Bela Vista, região centralda cidade.A casa em que Ayrton passou os primeiros quatro anos de vidapertencia a João Senna, pai de dona Neyde, e ficava na esquinada rua Aviador Gil Guilherme com avenida Santos Dumont, amenos de 100 metros do Campo de Marte, uma grande área ondefuncionavam o Parque de Material da Aeronáutica e um aeroporto. INCAS VENUSIANOSNos primeiros anos de vida, Ayrton não deu o menor sinal de quepoderia se tornar o prodígio de precisão e concentração queassombraria o mundo do automobilismo.Dona Neyde e a irmã mais velha, Viviane, eram testemunhasdiárias de seu jeito desastrado e de sua média preocupante detombos, tropeções e batidas de cabeça, algumas delas fortes osuficiente para deixar grandes marcas pelo corpo e galos nacabeça.Ser canhoto, naquela época, no Brasil, era motivo de preocupaçãoaté para educadores. Dona Neyde chegou a agradecer a oferta 5 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  6. 6. curiosa de uma professora de Ayrton: ela se ofereceu para forçarSenna a trocar a mão esquerda pela direita, na hora de escrever. Apreocupação de dona Neyde com o que no futuro se chamaria dehiperatividade do filho a levou a procurar até um neurologista.O resultado do exame foi tranqüilizador. Ayrton não tinha nada deerrado. Na verdade, era desajeitado, soube a mãe, por ser rápidodemais em tudo o que fazia. Era voraz na hora de experimentar,veloz na hora de aprender. Faltava apenas descobrir um poucomais de precisão na ocupação dos espaços físicos. E era apenasuma questão de tempo para o problema desaparecer, levando comele o estilo e a fama de desastrado.O neurologista não fez apenas um diagnóstico. Tateou umfenômeno.Em 1964, Milton da Silva, cada vez mais bem-sucedido nosnegócios, levou a família para a região mais alta e nobre do bairrode Santana, uma área onde, graças ao aclive geográfico, osmoradores tinham uma das mais belas vistas da cidade. A novacasa, situada na esquina das ruas Pero Leme e CondessaSiciliano, tinha dois pavimentos, jardim e garagem. Era a maisconfortável e bonita da rua.Os pais de Senna eram admirados por serem pessoas simples,apesar da notória e crescente riqueza. Robinson Gaeta, moradorda rua e amigo de Ayrton quando os dois tinham entre quatro esete anos, era um dos que admiravam a família Senna. O pai deRobinson, Martino, não escondia dele, também, a admiração quetinha pela beleza de dona Neyde. E dizia que a avó de Ayrton erachamada na vizinhança de Maria Bonita pelos mesmos motivos.Dentro de casa, a preocupação de Senna era com a destruição doplaneta pelos incas venusianos e, posteriormente, pelos seresabissais, vilões submarinos que emergiam do fundo do mar eprovocavam terremotos, sempre no Japão. Todos exemplarmentederrotados, ao final de 39 episódios, por Nacional Kid, herói datevê de Senna e dos meninos de sua geração. Alguns anos depois,Ayrton passou a ser um entusiasmado fã do desenho animadoSpeed Racer, um jovem piloto de competição, sempre disposto a 6 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  7. 7. lutar pelos amigos, pela justiça e para ser o melhor corredor domundo, ao volante do Mach 5. Um carro construído pelo pai.Na rua, Senna era o menino que tinha sempre os brinquedos maisbonitos e caros, pelo menos na memória de Virgínia Bertinni,vizinha três anos mais velha. Muito tímido, Ayrton gostava deemprestar tudo o que levava para a rua:"Ele era uma graça. Tão bonzinho que alguns até se aproveitavame tentavam fazer ele de bobo. Tudo o que falavam para ele fazer,ele fazia. E pediam tudo emprestado. Ele sempre emprestava eficava sentadinho na calçada, olhando.”Quando o menino entrou no kart pela primeira vez, a ternura queele despertava deu lugar à incredulidade.Seria assim por 30 anos.João Alberto, um vizinho, seis anos mais velho que Senna, amigode Viviane, estava entre as pessoas que testemunharam a primeiravez em que Ayrton se ajeitou no banco anatômico do kart fabricadopelo pai e acelerou:"Foi arrepiante. Ele tinha uns quatro anos e todo mundo ficouvendo ele andar no kart. Já na primeira volta na rua de terra,ficamos todos impressionados com a noção que ele já tinha.”Em pouco tempo, aos sábados, domingos e feriados, Miltoncomeçou a levar Ayrton, os amigos e o kart para locais maisamplos e fechados, para que eles se divertissem com maissegurança. Podia ser um loteamento próximo à rodovia FernãoDias, na saída de São Paulo para o sul de Minas, ou as áreasainda em construção da Marginal do Tietê.O local preferido, por anos a fio, foi outro loteamento, situado naparte alta do bairro, o Palmas do Tremembé, futuro bairro demansões, ainda vazio na época. João Alberto foi um dos primeirosadversários de Senna no volante:"Não dava. Eu tinha uns 12 anos e não corria como ele, que tinhasomente seis.”No início, Milton acompanhou o show de kart dos meninos compreocupação. Sempre havia um adulto por perto, ele ou Pedro, omotorista da família. Depois, aos poucos, o Ayrton foi ganhando 7 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  8. 8. autonomia. Aos sete anos, já ia por conta própria até a oficinamecânica de Martino Gaeta, pai do amigo Robinson, paraprovidenciar "uma graxinha" para as rodas do kart. E acabavaficando:"Ele punha a graxinha no kart e ficava por lá. Adorava observar oscarros e o trabalho na oficina.”Em 1968, durante um fim de semana na cidade de Itanhaém, litoralde São Paulo, a família tomou um susto que depois virou motivo demuitas risadas. Ayrton, então com apenas oito anos, foi conduzidoà casa de praia da família pelo delegado da cidade, que o flagraradirigindo, sozinho, a camionete Veraneio do pai.Ayrton era tão pequeno, que a primeira impressão do delegado foide que o carro estava sem motorista.Aos dez anos, Senna tinha uma espécie de aventura secreta.Vizinhos de porta da família no alto da rua Condessa Siciliano,Norberto Vieira Lima, então com 18 anos, e a irmã mais nova,Vera, saíam com ele de carro, um Puma, e, sem que Milton e donaNeyde soubessem, entregavam o volante para ele. Ayrton, deacordo com Vera, mal conseguia alcançar os pedais:"A gente colocava almofada para ele dirigir o carro. E ele adorava.Nunca aconteceu nada porque ele sempre foi muito ponderado.Ayrton era audacioso, sim, mas muito responsável, sabia o queestava fazendo.”Trinta anos depois daquelas escapadas para matar a fome precocee intensa de dirigir, Senna foi visto por Vera em uma rua do bairrodo Morumbi, logo depois de vencer o GP do Japão de 1993. Veraestava com o filho Renato, de 12 anos, e se aproximou daMercedes em que Senna estava.A surpresa e a satisfação foram tão grandes que Ayrton fezquestão de que ela entrasse no carro com o filho, para que eleretribuísse as voltas de carro às escondidas nas ruas de Santana.Vera entrou e Ayrton pôs o filho dela no volante da Mercedes.Deram uma volta para lembrar os tempos do Puma. SUSTO EM CAMPINAS 8 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  9. 9. Aos nove anos de idade, Ayrton ganhou um kart de verdade. Onovo brinquedo era um pequeno foguete que pesava menos de 50quilos, tinha volante igual ao dos carros de Fórmula 1, freios adiscos hidráulicos e era empurrado por um motor com cerca de100 cilindradas. Chegava a mais de 100 quilômetros por hora, empistas que tinham como proteção alguns metros de gramado epilhas de pneus velhos."Mataram o moleque.”Milton da Silva lembrou, em depoimento ao jornalista LemyrMartins, que levou um grande susto logo na primeira corrida emque o filho enfrentou os pilotos oficiais da categoria. Ao defender aliderança, numa prova amistosa realizada em Campinas, Ayrton eseu novo kart sumiram no meio de uma nuvem de poeira, depoisde um estrondo.Já antes da corrida, Milton, assustado com o ar carregado decompetição, com a média de idade dos concorrentes, quase todosmais velhos que o filho, e com o zumbido impressionante daquelespequenos bólidos, tremeu com o resultado do sorteio da ordem delargada. Na sorte, aos nove anos de idade, Senna conquistou aprimeira pole position de sua carreira. Em pânico, Milton partiupara uma solução radical:"Fiz tudo para ele não entrar na pista. Retirei a inscrição e guardeio kart. Mas a insistência dele foi tão grande, que acabeiconcordando, com uma exigência: não sair na pole position e simem último. Também perdi essa parada.”Ayrton não apenas aproveitou a pole position como manteve aliderança da prova por 35 voltas, resistindo à pressão dosveteranos que o seguiam.A cinco voltas do final, o acidente. Milton correu para o localpensando no pior:"Cheguei na curva, ele já estava de pé, sacudindo a poeira eolhando feio para o garoto que o tirou da pista.”A brincadeira dos loteamentos tinha acabado. Mas o gosto domenino só aumentava. 9 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  10. 10. DEVER DE CASAAntes de completar 12 anos, quando freqüentava a piscina doclube Macabi, Ayrton costumava dar caldos em uma menina deolhos claros que tinha sua idade. Ela era filha de Grizelda, umaamiga de dona Neyde, casada com o psicoterapeuta Fábio deVasconcellos. A menina era a bela Lilian de Vasconcellos, que,anos depois, seria namorada e única mulher a se casar com ele.Mais de 30 anos depois, ela identificou, no padrão ético e moraldos Senna da Silva, a mesma herança que tinha em casa.O "lado ruim" da herança das duas famílias, de acordo com Lilian,era "a falta de permissão para errar". Uma situação que, para ela,muitas vezes impediu que Ayrton aproveitasse as coisas boas davida:"O Ayrton mesmo se cobrava. Ele perdeu algumas coisas, como eutambém perdi, pelo excesso da obrigação de ser. O fato de o paidele ter ficado rico saindo do nada, por exemplo, fez com que eledesejasse percorrer uma trajetória própria, sem nada do seuMilton.”Para Lilian, o perfil de comportamento da família de Ayrtoncombinava bastante com o estilo discreto, caseiro e conservadordas famílias abastadas que tinham casas naquela região de SãoPaulo. E havia, também, para ela, uma grande vantagem naquelejeito de ser da família:"A formação era moralmente rígida e tinha um lado muito bom:princípios, respeito às pessoas e aos compromissos de todaordem. Foi nesse ambiente familiar que nasceu a determinaçãocom que Ayrton perseguiu os objetivos dele.”Nada mais natural, portanto, que Ayrton fosse matriculado pelospais no austero Colégio Santana, o melhor e mais tradicional dobairro. Em entrevistas futuras, Ayrton reconheceu que seudesempenho escolar diminuiu, à medida que seu envolvimento nomundo do kart ficou mais intenso. Ainda assim, a ex-professoraMaria do Carmo, mais de 30 anos depois, lembrou que ele era um 10 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  11. 11. aluno educado, cujas notas não destoavam da média da sala. Eque muitas vezes ele chegava atrasado do recreio, todo vermelhoe suado. Correndo.O velho desafio de canalizar as energias continuou na escola. E,no caso das aulas de judô, o tiro saiu pela culatra nos pátios doColégio Santana. Em fevereiro de 1989, em entrevista à revistaExame VIP, Ayrton contou:"Como todo ariano, sou um tanto difícil e estourado. Na escola, euera brigão, com um agravante de saber lutar judô. Minha mãe mepôs na escola de judô naquela de que eu precisava queimarenergias, ficar mais calmo. Fiquei cada dia mais brigão. Acabeibatendo em muito garoto na escola apenas para treinar um pouco.” O ESPANHOLMaurizio Sandro Sala começou a correr de kart seis meses antesde Ayrton, em 1973, na categoria Júnior. Tinha feito o prestigiadocurso da escola de pilotagem de Carol Figueiredo e preparava seumotor na oficina do espanhol Lúcio Pascoal, oTchê. Maurizio foi asensação do kartódromo de Interlagos, até um dia em que Tchêavisou:- Tem um moleque muito bom que está treinando na pista doAnhembi.Era Ayrton, que vinha de uma série de vitórias na CategoriaEstreantes e Novatos, e estava chegando à categoria Júnior. Oque se viu com os dois pilotos, a partir da primeira prova em queeles estiveram na mesma pista, foi um enredo só, até o final datemporada: batidas, rodadas e saídas de pista todas as vezes, semexceção, em que Ayrton e Maurizio disputaram posição. A razãode tanta encrenca, Maurizio lembrou 30 anos depois, era uma só:"Ele era mesmo mais rápido. Eu que não deixava ele passar." Nofinal daquele ano, Maurizio mudou de categoria, passando a Pilotode Competição (PC). Ayrton ficou na Júnior. Os dois jamaisvoltaram a se enfrentar em competições oficiais. E ficaram amigospara o resto da vida. Maurizio e outros contemporâneos de Ayrton 11 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  12. 12. que não resistiam a ele na pista lembraram que, desde o primeiromomento, Senna teve nas mãos um equipamento de qualidade eum "envolvimento mais profissional" que, na opinião de Maurizio,era decorrente da atitude do pai: "O estilo Miltão era o seguinte: sevai fazer, faz direito." Fazer direito incluía, de acordo com aindicação feita pelo piloto Aloísio Andrade a Milton da Silva,entregar o kart de Ayrton aos cuidados deTchê:- Se você quer um motor bom, fala com o espanhol da Mooca.Assim foi feito. No dia 26 de junho de 1974, uma quarta-feira,Milton e Ayrton, então com 14 anos, foram até a oficina de Tchê,na Mooca, para-pedir que o motor do kart fosse preparado já paraa corrida daquele ano, em Interlagos. Tchê sabia o que tinha deser feito com o motor e o preço era 361 mil cruzeiros. A reação deMilton, de acordo com Tchê, foi o primeiro ruído de umrelacionamento que jamais deixaria de ser delicado e tenso:- Está muito barato para ficar bom.- Vai ficar bom. E se o moleque andar certinho, ele vence.O negócio foi feito. Na pista, durante os treinos, o "moleque" teve aprimeira lição daquele espanhol que tinha, em comum com o paidele, um estoque limitado de sorrisos. Senna estava atravessandoo kart nas curvas, crente que dava show:- Menino, quem te ensinou a guiar desse jeito?- Aprendi sozinho, na pista do Anhembi.- Não é assim. Tenta andar mais redondinho.No domingo, Tchê teve o orgulho de dar a bandeirada para aprimeira vitória oficial de Ayrton Senna da Silva. A foto dabandeirada tornou-se uma espécie de grife da oficina. E logo nosprimeiros dias de trabalho com o menino, Tchê viu algo que jamaistinha visto e jamais voltou a ver em mais de 30 anos de kartismo:Ayrton saía para treinar levando, na mão esquerda, umcronômetro.Um caso curioso de acumulação das funções de piloto e chefe deequipe.Senna não cronometrava a volta completa. Ele dividia okartódromo de Interlagos em quatro trechos e ficava 12 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  13. 13. experimentando diferentes freadas, trajetórias, acelerações eregulagens que lhe dessem mais alguns décimos ou centésimosde segundo. Para quem assistia ao treino, ele parecia lento, poissó andava no limite em um dos quatro trechos em cada volta quedava.Só na hora da tomada oficial de tempos é que o kartódromodescobria que o kart número 42 era quase sempre o mais veloz.Sem o cronômetro na mão esquerda, a boa, ele juntava, em umavolta voadora, tudo o que tinha aprendido separadamente nosquatro trechos do circuito. Charles Marzanasco Filho, piloto naépoca e futuro assessor de imprensa de Ayrton nos tempos daFórmula 1, lembrou do resultado visual:Foto: Junho, 1974. A primeira vitória oficial de Senna na categoriaJúnior, em Interlagos.Quem dá a bandeirada é Lúcio Pascoal, o Tchê, preparador queacompanhou Ayrton até a transferência para o automobilismo."Ele tinha um jeito de frear muito especial. Botava o kart de lado eo motor parecia até apagar. Escorregava por toda a curva até asaída, quando o motor voltava a funcionar já com os pneus numaposição perfeita de aderência para a retomada da aceleração.Ayrton era muito, muito mais rápido que os outros.”Um piloto, em especial, quis tirar a prova na pista. O MAIOR RIVALA rivalidade entre Senna e Mario Sérgio de Carvalho, seu maior emais persistente adversário no kart brasileiro, era tanta, e os doisestavam com tal freqüência na primeira fila do grid, que o ato deautorizar uma largada, em movimento, como todas do kartismo,tornou-se um pesadelo para os diretores de prova.Os karts eram empurrados, mas tinham de andar alinhados, lado alado, até a bandeirada do diretor. Ayrton e Mario, tentandoadivinhar, um na frente do outro, o momento em que a bandeiraseria agitada, simplesmente não conseguiam ficar lado a lado.Depois de quatro ou cinco voltas lentas, o diretor parava todos os 13 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  14. 14. karts e advertia os dois rivais, ameaçando mandá-los para a últimafila do grid.Não adiantava. Empurrados os karts, Ayrton e Mario voltavam a sevigiar pelo canto dos olhos e a dar falsas largadas por mais quatro,cinco voltas. Era quando geralmente o diretor de prova perdia apaciência e os mandava para a última posição do grid, geralmenteatrás de 15 pilotos. Acontecia quase sempre. E quase sempre umdos dois acabava vencendo a prova, mesmo largando lá de trás.Foi em uma dessas corridas que Senna sofreu um acidenteassustador, no fim da reta principal do kartódromo de Interlagos.Na luta para voltar à ponta, depois da punição, Ayrton decolou aotocar na traseira de um adversário. Seu kart saiu capotando paraum lado e o capacete voando para o outro. Ayrton terminouestirado no meio da reta. E quem deu de cara com ele foi MarioSérgio, andando no limite, igualmente determinado a voltar à pontadepois da punição da largada.Só teve tempo de desviar do rival caído no asfalto, entrando comduas rodas na grama.Na origem daquele acidente, um provável erro na aplicação datécnica que Ayrton e outros kartistas usavam para tirar osadversários da frente. Tchê, mais de 25 anos depois, explicou:"Ele não batia. Na verdade, empurrava os caras para fora da pista.E empurrava seguindo uma técnica que o mantinha na pista,enquanto os outros iam para a grama. Ela consistia em nuncaacertar o carro por trás, para evitar a decolagem. A idéia era seaproximar pelo lado, evitar o toque de rodas e empurrarlateralmente o chassi do adversário.”Mario Sérgio também usava a técnica, mas achava que Ayrtonabusava um pouco dela:"Ele tinha muita dificuldade de negociar as ultrapassagens.”A rigorosa economia de amabilidades entre Ayrton e Mario Sérgionão impediu que os dois conseguissem, juntos, uma façanha. NasTrês Horas de Interlagos, no segundo semestre de 1976, correndoem dupla e usando pneus nacionais, bem mais lentos, elesdeixaram para trás astros das categorias superiores como Chico 14 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  15. 15. Serra, Valter Travaglini e outros que usavam pneus Goodyearimportados. A vantagem, no final, foi de três voltas e, mesmoassim, Senna e Mario Sérgio não se falaram.Os dois tinham em comum a determinação e o profissionalismo.Ayrton estudava de manhã e passava as tardes no kartódromo.Mario Sérgio estudava de tarde e, por isso, usava as manhãs paratreinar. De segunda a sexta. Fizesse sol, fizesse chuva. Osresultados apareciam nos fins de semana, quando os dois estavamsempre disputando a ponta à frente de 28, 30 adversários.Para Lito Cavalcanti, jornalista especializado e correspondentebrasileiro da revista inglesa Autosport, a façanha de Ayrtonultrapassava o duelo com Mario Sérgio na pista:"Ayrton era um demônio. Matava o filho do dono do kart.”O "dono do kart" era Mario de Carvalho, pai de Mario Sérgio,fabricante e fornecedor de peças dos dois pilotos. Lito acrescentou:"Notícia, para nós, era Ayrton Senna não ganhar.”Mario Sérgio não discutiu, mas registrou uma incorreção que vinhasendo repetida pelos que contavam a história da carreira de Sennano kart:"Parece verdade, mas não é. Ao contrário do que dizem muitoscurrículos de Ayrton publicados na mídia, ele não foi campeãopaulista de kart em 1976. Senna foi vice. O campeão fui eu.”Chico Serra, a grande estrela do kart brasileiro na época, revelou,quase três décadas depois, que tinha uma rivalidade "estranha"com Senna. Um clima de animosidade que só existia fora da pista,já que os dois, salvo em competições amistosas ouextracampeonato, nunca se cruzavam. Por causa da idade, Chico,três anos mais velho que Ayrton, estava sempre na categoria dekart imediatamente acima da de Senna. Mesmo assim, os dois nãose falavam. Para Chico, o fato de Ayrton chegar muito rápido echamar logo tanta atenção fez com que o clima ficasse pesado:"Um sabia quem precisava ser derrotado e o outro sabia quem eraa ameaça.”Apenas um muro separava o kartódromo de Interlagos da pistaonde se disputava o GP do Brasil de Fórmula 1 e as provas dos 15 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  16. 16. campeonatos brasileiros de automobilismo. De acordo com Tchê,Ayrton nem se dava ao trabalho de subir no muro para ver comoera o autódromo. Mas um dia, durante os treinos para o GP doBrasil de 1979, ele ouviu um ronco tão forte, que trepou correndono muro. Era a Ferrari de Gilles Villeneuve, entrando no antigoretão do circuito. Fórmula 1, para Ayrton, naquela época, ele diriaem uma entrevista à revista Exame VIP, era "um sonhoabsolutamente inatingível".No resto do ano, Ayrton não ligava para o que se passava noautódromo. Tchê tinha uma tese para explicar aquele descaso.Achava que Ayrton não se sentia tão seguro com os carros, poisvivia perdendo rachas para um amigo de Santana, AntônioPortuguês. Oficialmente, porém, o comentário de Senna sobre oautódromo era o seguinte:- Esse negócio é muito lerdo. SOFIAEm uma tarde de julho de 1976, a jovem Barbara Gancia, filha dePiero Gancia, ex-piloto e sócio da Martini no Brasil, foi aokartódromo de Interlagos acompanhar o treino do irmão Carlo.Ayrton estava na pista e a impressão que Barbara teve do rapazque Carlo apontou como "futuro campeão do mundo" não foi dasmelhores:"Ele não era muito simpático, ficava longe do auê dos boxes, nãose misturava e não fazia amizades. Não era um ser social.”A imagem de Ayrton, para Cristina Sala, irmã de Maurizio Sala etambém freqüentadora do kartódromo, era diferente: um rapazsolitário que foi apelidado com o número do kart que pilotava, "42",e que tinha como companhia o preparador Tchê e, de vez emquando, o pai. A mãe e Viviane raramente apareciam. Leonardo,quatro anos mais novo, passou a freqüentar o kartódromo umpouco mais tarde.Cristina e Ayrton começaram a ter mais intimidade quando elepassou a aceitar os convites da turma de pilotos que se reunia na 16 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  17. 17. casa dela, antes de programas que geralmente terminavam nasmesas do restaurante Jucá Alemão, no bairro do Brooklyn. A casade Enrico e Maria Luiza Sala, a "Pupi", pais de Maurizio e Cristina,era ponto de reunião de um grupo que incluía Mário Covas Neto, oZuzinha, Dárcio dos Santos, futuro campeão de monopostos e tiode Rubens Barrichello, e outros, que usavam a garagem do fundoda casa para acertar ou revisar os karts nos fins de semana decorrida.Ayrton era sempre convidado, mas só começou a freqüentar acasa timidamente, quanto mais interessado foi ficando em SofiaAidar, uma morena de origem árabe extrovertida e atirada, amiga evizinha de Cristina. Mesmo sendo menor, ele costumava aparecerna casa dos Sala num Corcel amarelo que fazia muito sucesso. Aocontrário dos outros pilotos, mais interessados em passeios demotocicletas e outros programas juvenis, ele era muito sério e,recordou Cristina, adorava o que sua geração chamava de papo-cabeça: conversas filosóficas e existenciais. Gostava tanto, queestava participando de um curso de controle da mente, o PowerMind, do qual falou com entusiasmo, em longos encontros comCristina na casa dela e a bordo da lancha que ganhara do pai, narepresa da Sabesp, Outro assunto obrigatório era o plano denamorar a amiga de Cristina:- Eu vou conseguir namorar a Sofia, eu vou conseguir.A hesitação de Sofia deixava Ayrton exasperado. E Cristina tinhauma explicação:"Ela jogava muito charme, mas caía fora na hora do vamos ver."Os outros pilotos aceleravam motocicletas e tomavam sorvete nospontos da moda. Ayrton, obstinado, chegou a chorar por Sofia nafrente de Cristina:- Ela me deixa louco. Não sei o que fazer.Quando Cristina já começava a se incomodar com o papel de inútilintermediária, Senna e Sofia finalmente se entenderam ecomeçaram a namorar:"Ele se revelou um namorado possessivo e conservador, masafetuoso. Como confidente, não foi difícil, para mim, perceber a 17 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  18. 18. influência, nos gestos, idéias e reações, da postura provinciana desua família e do estilo autoritário do pai.”Em poucos meses, o namoro acabou. Logo depois, Mário CovasNeto, o Zuzinha, começou a namorar Sofia. E nos meios dokartismo paulistano, na memória de Cristina, Zuzinha foi chamadopor uns tempos de "namorado da namorada do 42".Ayrton deixou de freqüentar a casa dos Sala algum tempo depois. ALFREDÃO E AS MINASOs amigos de verdade continuavam do outro lado da cidade, nobairro de Santana. Alfredo Popesco, um deles, era o filho maisvelho de Ilse, uma viúva, imigrante romena, que sustentava osfilhos com a venda de roupa na garagem da casa simples em quemorava, na mesma rua dos Senna. No começo, Ayrton era maischegado ao irmão de Alfredo, Ricardo, um ano mais novo. Maslogo a experiência, a segurança e a liberdade dos 17 anos deAlfredo fizeram com que Senna, então com 16, ficasse mais ligadoa ele.A amizade construiu-se a partir do intenso sentimento decompetição de Ayrton. Primeiro, na mesa de pingue-pongue.Alfredo jogava muito bem. Senna não se conformava em perder echegou a deixar o novo amigo irritado com a insistência para novostira-teimas. E jogou muito até conseguir, finalmente, vencerAlfredo, meses depois de muito treino.E bastou Ayrton botar a lancha Sissa nas águas da represa deMairiporã para perceber que tinha outra obsessão pela frente:esquiar melhor que Alfredo, uma fera no esporte, que, por não terdinheiro suficiente, vivia encostado nos donos de lancha do lugar.Alfredo mesmo se chamava de "puta de barco". Trocava sorrindouma faxina ou um pequeno conserto por uma esquiada.Quase três décadas depois, Alfredo disse que Senna ficou"desesperado" no dia em que o viu esquiar pela primeira vez.Imediatamente, começou, nas águas da represa, um processomuito semelhante ao que tinha ocorrido nas mesas de pingue- 18 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  19. 19. pongue. Ayrton treinou à exaustão até ter um desempenhocomparável ao do amigo "puta de barco". E conseguiu, Alfredoreconheceu.A disposição de "guia turístico" que tomava conta de Ayrtonquando ele estava com os amigos mais chegados levou os dois aviverem uma situação arriscada. Em 1977, eles se encontraramuma noite na praia de Bertioga, litoral de São Paulo. Alfredo estavacom o velho Fusca ano 73 amarelo da mãe e já deu uma broncaquando Ayrton encostou com o seu Corcel 77 também amarelo,equipado com rodas de magnésio e teto solar:- Você é um bundão. Por que não trouxe alguma coisa? A lancha,por exemplo?- Vamos buscar, então.No início da madrugada, os dois já estavam em São Paulo noCorcel amarelo. Na nova casa de Ayrton, uma mansão no alto darua Nova Cantareira, Alfredo teve de acompanhar, impotente, oritual perfeccionista do amigo: calibragem dos pneus do reboque,amarração da lancha, conferência da documentação, engate,corrente e combustível para a Caravan do pai de Senna quepuxaria o reboque. Tudo pronto, eram 3h30 da madrugada quandoeles partiram novamente de São Paulo para Bertioga.Duas horas depois, o dia já amanhecendo, nem Ayrton, nemAlfredo conseguiam mais ficar de olhos abertos. Na chegada aGuarujá, depois de os dois se alternarem no volante entre uma eoutra cochilada, Alfredo dormiu de vez e a Caravan saiu da pista,parando num brejo com o pára-lamas amassado e um furo nocasco da lancha.Minutos depois, um carro da polícia se aproximou, e os doisamigos inventaram rapidamente que tinham sido fechados por umcaminhão. O policial acreditou, partiu correndo em busca domotorista irresponsável do caminhão e chamou um trator para tirara Caravan dos pobres rapazes do brejo.Ninguém se feriu.Não foi a primeira encrenca rodoviária de Ayrton Senna. Algunsanos antes, de acordo com Alfredo Popesco, a frota de carros da 19 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  20. 20. família, então formada por uma Mercedes verde de duas portas,outra branca, de quatro portas, a Caravan do brejo de Guarujá euma Belina, foi subitamente reduzida. O máximo que Alfredo sepermitiu revelar foi que, depois de um fim de semana no Guarujá,Senna chegou em casa apenas com o volante da Belina nas mãos.Em 1976, Ayrton ganhou do pai uma moto Suzuki de 185cilindradas. Imediatamente, começou a tentar a façanha de praxe:empinar a moto. Mas caía muito. E também não parava de tentarempinar e continuar levando dezenas de tombos. A situaçãochegou a um ponto em que Milton da Silva decidiu simplesmentevender a moto. Ao saber da decisão do pai de Senna, Alfredosugeriu que ele aproveitasse a oportunidade para pedir umalancha.Conselho dado, pedido feito, e Senna, em vez de apenas perder amoto, trocou-a por uma lancha branca de 19 pés, motor Johnsonde 115 HP, batizada posteriormente de Sissa. A partir destemomento, a represa de Mairiporã passou a ser um lugar muitofreqüentado por Senna.Alfredo foi o guia de Senna no mundo das mulheres. Ayrton,ingênuo e romântico demais para a média da turma, admirava aexperiência e a firmeza de Alfredo com as moças. Em umaocasião, porém, a abertura oficial do kartódromo de Natal, no RioGrande do Norte, os dois ficaram iguais em matéria deinexperiência. Pela primeira vez, estiveram diante de um cigarro demaconha. Aceso.Alfredo garantiu que, na última hora, assustados, os doisrecusaram a experiência e optaram apenas por beber. E que foramdez dias de muita farra durante os quais, além de namorar, os doistiveram nas mãos, por gentileza dos organizadores da festa, duasvedetes das ruas brasileiras na época: um Opala "seis cilindros" eum Maverick "V8".Quem queria saber de maconha?As dunas quentes de Natal e suas experiências assustadorasforam exceção. Normalmente, Ayrton, Alfredo e Américo JacotoJúnior procuravam se enrascar com as moças do bairro durante a 20 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  21. 21. missa dominical das dez horas da manhã, na igreja Salete, na ruaDoutor Zurquim, centro de Santana. Foi na chamada "missa dapaquera", o agitado ponto de encontro dos filhos e filhas de classemédia do bairro, que Alfredo apresentou Ayrton a Rosângela, umamorena bonita que acabou se tornando sua primeira namorada"firme".O namoro durou mais de um ano, mas a primeira reação deRosângela, após o encontro na missa, resumiu-se a uma frasemeio decepcionada dela para Alfredo, longe de Ayrton:- Puta orelhudo, meu! Não tinha um melhor para apresentar?De acordo com Alfredo, no dia seguinte, ao conhecer mais o novonamorado e também a casa em que ele morava, Rosângelapassou a prestar menos atenção às orelhas de Ayrton. O namoroacabou um ano depois, desgastado por uma série de "puladas decerca" de Senna. Era a praxe na turma: namoro comportado atédeixar a namorada em casa. Depois, gandaia.Na abordagem das mulheres, em boates da moda de sua geração,como a Banana Power e a Papagaios, Ayrton fazia questão de nãoparecer rico. Detestava imaginar que uma garota saísse com elepor causa do dinheiro que tinha. Uma noite, ao volante de uma dasMercedes da família, ele se aproximava do Brunella, outro pontode encontro famoso dos jovens de classe média de São Paulo noinício dos anos 80, na rua Gabriel Monteiro da Silva, Jardins.De repente, Ayrton parou o carro e pediu que Alfredo assumisse ovolante. Alfredo sabia do receio do amigo e tentou convencê-lo acontinuar no volante da Mercedes:- Ayrton, não interessa, porra. Você não vai mesmo casar comessas mulheres!- Não. Guia você.Cumprindo com sinceridade o papel de amigo, Alfredo reconheceuque adorava passar ao volante da Mercedes na frente dasmulheres.Provavelmente por causa da admiração que tinha pelo jeitotranqüilo com que Alfredo lidava com elas, Ayrton tomou umaatitude pouco comum quando Alfredo falou da paixão que estava 21 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  22. 22. sentindo por uma modelo da grife Soft Machine. Convidado por elapara um encontro em Ubatuba, ele queria ir, mas não tinhadinheiro. Para sua surpresa, dois dias depois, Ayrton apareceucom uma raquete de tênis importada que tinha acabado de ganharda mãe:- Fica com ela, vende e eu digo que perdi. Depois você me paga. Odinheiro da raquete permitiu que Alfredo passasse um fim desemana inesquecível com a modelo, em Ubatuba.Américo Jacoto Júnior, o Júnior, outro grande amigo de Santanaque acompanhou Ayrton pelo resto da vida, era da mesma idadede Senna. Os dois se aproximaram nos tempos do Colégio RioBranco, mais exatamente durante as partidas de pingue-ponguedisputadas no centro acadêmico. Júnior, conhecido na época como"Jacotinho", era um dos filhos de Américo Jacoto, um industrial doramo metalúrgico do bairro do Tremembé.A mãe de Júnior, Aldair Marinelli, morta em 1998, era amiga dedona Neyde. Por isso, Júnior era tratado como gente de casa nafamília Senna da Silva. Ele tinha planos de fazer agronomia, masterminou sendo piloto de helicóptero. Antes, no entanto,acompanhou Senna ao longo da temporada de 1987 da Fórmula 1.Júnior seria usado por adversários de Ayrton como protagonistaprincipal do boato que marcou o amigo para o resto da vida. CASO PERDIDOEm 1977, quando Ayrton foi campeão sul-americano de kart, osbrasileiros passavam por uma espécie de entressafra de vitórias eboas notícias no automobilismo. O bi-campeão mundial EmersonFittipaldi, decidido a perseguir o sonho de vencer com uma equipeprópria, entrava no segundo ano da frustrante saga da equipeCopersucar. José Carlos Pace, esperança brasileira na equipeBrabham, morrera tragicamente num acidente de avião, nosarredores de São Paulo. Nelson Piquet, ainda longe da Fórmula 1,pagava o preço de uma escolha de carro errada e enfrentava umadifícil temporada no campeonato europeu de Fórmula 3. 22 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  23. 23. Coincidência ou não, havia um político que defendia, em janeirodaquele ano, a imediata suspensão das corridas de automóvel noBrasil, "pelo menos para dar sentido" às providências que estavamsendo tomadas pelo governo, na época, para conter o consumo degasolina. Era o deputado governista José Bonifácio, líder da Arenano Congresso Nacional. Ele estava indignado com as exceçõesabertas pelo programa de racionalização de combustíveis aospilotos de competição, "essa gente que não faz nada":"Não é justo que nos autódromos se continue a desperdiçargasolina com aqueles carros numa disparada inútil, pois nãochegam a lugar nenhum, não trazem divisas para o país e nãoeducam o povo. A medida não implicaria nenhum problema, poisos donos dos automóveis são empresas extremamente ricas e oscorredores dispõem de dinheiro suficiente para passar o resto davida sem trabalhar.”Longe da tribuna da Câmara dos Deputados, no kartódromo deInterlagos, Milton da Silva parecia mais distante do que nunca daidéia inicial de que o kartismo era um "brinquedo" para Ayrtonextravasar as energias e se manter longe das drogas e de outrosperigos. A medida do seu envolvimento na carreira já brilhante dofilho no kart, e também da insolúvel rivalidade com o preparadorTchê, foi um episódio na preparação para mais uma prova docampeonato daquele ano.Um erro de Tchê na montagem do motor do kart fez com queAyrton não fosse bem nos treinos. Foi o que bastou para queMilton, antes da tomada oficial de tempos, fosse duro na cobrançade Tchê. Até Ayrton entrou na discussão para acalmar os dois. Oclima ficou mais pesado ainda quando Senna, acostumado àspoles, ficou em quinto lugar no grid. Milton manteve a postura decobrança:- Vamos ver como vai ser essa corrida.No dia seguinte, Tchê já tinha descoberto a razão dosurpreendente quinto lugar. Montou a coroa do motor do kart damaneira correta e ficou tranqüilo, confiante para a corrida. Estavacerto. Ayrton largou em quinto, mas, no fechamento da primeira 23 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  24. 24. volta, para espanto de todos, ultrapassou os quatro competidoresque estavam à sua frente na freada do final da reta. Chegou a abrirnove segundos e, de repente, misteriosamente, começou a perderterreno, até ser ultrapassado novamente pelos quatro pilotos, entreeles Mario Sérgio de Carvalho, na décima segunda volta.No boxe, Milton da Silva começou a gesticular, impaciente. Tchê,intrigado, aproximou-se da beira da pista e fez um gesto de quemqueria saber o que estava acontecendo.Ayrton tirou as mãos do volante, procurando acalmar Tchê, comoquem diz:- Fica tranqüilo que eu sei o que estou fazendo.A cinco voltas do final, Ayrton começou a se aproximar de novodos líderes. Na penúltima, passou outra vez os quatro pilotos. Namesma freada. No mesmo ponto. Tchê saboreou a vitória com umolhar provocador para o pai de Senna.Mais de 25 anos depois, Júnior, testemunha próxima do convíviodifícil de Tchê com o pai de Senna, explicou:"O Tchê era como um escudeiro sempre leal a Ayrton. Osproblemas com o seu Milton tinham dois motivos: diferenças emrelação ao que se devia e ao que se pagava e, principalmente, apreocupação da família com o crescente envolvimento de Ayrtoncom o kart e os riscos do esporte.”A mágoa e as palavras duras de Tchê deram lugar a um sorrisoorgulhoso, quando ele exibiu, emocionado, em 2003, uma carta deAyrton, escrita em Milão, no dia 16 de setembro de 1979, àsvésperas da disputa do Mundial de Kart.Um dos trechos foi considerado por Tchê, chamado de "espanholo"por Ayrton, uma espécie de testamento sobre sua importância nacarreira extraordinária que ele ainda tinha pela frente:"És uma pessoa que tem uma responsabilidade incrível no que dizrespeito à minha vida, pois quem me pôs neste mundo do kart foimeu pai, mas quem me colocou realmente na direção certa, quemme ensinou quase tudo que sei, quem me ajudou e esteve ali emtodos os momentos, a pessoa que me fez chegar onde estou e que 24 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  25. 25. é a maior responsável pelas minhas vitórias é você. E nem imaginao quanto sou grato.” OS MUNDIAISAs cores verde, amarela e azul não foram uma escolha de Senna.Eram obrigatórias. Os organizadores do Mundial de Kart de 1978tinham determinado que os pilotos usassem capacetes com ascores das respectivas bandeiras nacionais. O desenho que Sennaia adotar para o resto da vida não foi nem exclusivo dele, no início.O rival Mario Sérgio de Carvalho, que também ia disputar o títulomundial em Le Mans, na França, tinha uma pintura idêntica no seucapacete. Na lembrança do designer Sid Mosca, no entanto, ainspiração do desenho foi o estilo de Senna:"Eu queria fazer com que saísse algo agressivo de dentro dosolhos. As duas faixas que fiz, na posição que o Ayrton ficava aopilotar, dão esse efeito.”Campeão brasileiro pela primeira vez naquele ano, Ayrton usavaaté então um capacete pintado de vermelho e branco. A soluçãográfica concebida por Sid Mosca, um fundo amarelo cortado porduas faixas, verde em cima, azul embaixo, e por filetes dasmesmas cores, jamais foi alterada. Na volta do Mundial, Ayrtonpediu e ganhou de Sid a exclusividade do desenho. Cloacyr SidneyMosca, um ex-piloto de carrosturismo que trocou o volante pelapistola de pintura e ganhou fama internacional por criar aidentidade visual de todos os pilotos brasileiros que foram para oexterior e de alguns estrangeiros, como sempre, não cobrou nada:"Eu fico muito orgulhoso. Ao criar um desenho, vou junto comeles." Ayrton terminou o Mundial em sexto lugar. Um resultadoexpressivo em uma competição na qual a escolha de equipamentoe a estrutura da equipe eram tão decisivas que ótimos pilotosbrasileiros, em anos anteriores, não conseguiam nem seclassificar. O consolo de Ayrton foi, como sempre, aproveitar aviagem internacional para uma esperta manobra alfandegária que 25 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  26. 26. garantia a ele e à oficina de Tchê um precioso estoque de peçasimportadas.Na saída do Brasil, Tchê empacotava para viagem um kartcompleto e registrava o equipamento, como mandava a legislação.Na volta, Ayrton trazia o mesmo velho chassi, equipado commuitas novidades que teriam preço proibitivo, se taxadasseparadamente.Senna jamais conseguiu ser campeão mundial de kart. Em 1979,quando a sede do Mundial foi Estoril, em Portugal, o título foiperdido por causa de uma controvertida interpretação doregulamento, por parte dos comissários. Na pista, Ayrton venceu abateria final contra o holandês Peter Koene e ficou empatado comele na primeira colocação. Sem maiores explicações, de acordocom os kartistas da equipe brasileira, os comissários abandonaramo tradicional critério do confronto direto entre Senna e Koene nafase classificatória, pelo qual Senna seria campeão. Decidiramlevar em conta uma bateria da fase eliminatória da competição naqual o holandês fora quatro décimos de segundo mais rápido ederam o título a ele.Dez anos depois, em Suzuka, Ayrton perderia a chance de sercampeão em circunstâncias semelhantes: vitória na pista,decepção na hora do resultado oficial.Ainda em 1979, Ayrton mandou para Tchê, de Milão, no dia 16 desetembro, outra carta. Um documento de sua entrega total ao quefazia. Mesmo quem não entende de mecânica ou automobilismopode sentir a intensidade. E para imaginar o que aconteceu depois,nos boxes da Fórmula 1, basta trocar os nomes: Fullerton porProst, Ângelo por Ron Dennis, Aquiles por Yoshitoshi Sakurai,Parila por McLaren, Parma por Silverstone, carburadores pormotores turbo. Alguns trechos da carta:"As coisas por aqui estão bem, pois o Fullerton está muitoarrogante e tanto o Ângelo quanto o Aquiles (donos da fábricaParila) estão para explodir com o inglês. Isso tudo, na verdade,porque consegui me entrosar muito bem com os italianos e comisso o inglês naturalmente se morde de ciúmes. Mas tudo bem 26 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  27. 27. comigo. Depois de amanhã partiremos de avião para Estoril. [...] Etudo acabou sendo resolvido com a troca do balanceamento dovirabrequim, ou seja, foi trocado o alumínio por náilon como oParila de tempos atrás e também aliviada aquela biela fortíssimaque você conhece.Com isso, a vibração dos motores diminuiu bastante e o problemade anéis acabou sendo resolvido. Quanto aos pneus, chegaram daBridgestone alguns jogos de pneus especiais para cada bateria.com respeito aos chassis, é o mesmo do ano passado comalgumas poucas alterações no caster, mangas e distância entreeixos de um metro e cinco centímetros, pois Estoril parece sermuito veloz. E levando-se em conta que os pneus possibilitam umavelocidade maior ainda, torna-se necessário aumentar a distânciaentre os eixos.Veloz e agressivo na pista, Ayrton não era de muita conversaquando descia do carro e se mantinha à distância dos outrospilotos, que se referiam a ele como "42".Estamos apenas um pouco atrapalhados com carburadores, poisaquele suíço da fábrica está fazendo um grande mistério para nosvender alguns poucos carburadores, que são de uma importânciavital, você sabe bem, não preciso explicar. Bem, espero quetenham saído notícias nos jornais. Procura comprar O Estado deSão Paulo, pois estou passando notícias diretas para esse jornal.Abraços, Ayrton.”No Mundial de 1980, em Nivelles, na Bélgica, um menino alemãode 11 anos de idade chamado Michael Schumacher estava naplatéia e não tirou o olho do piloto que terminou em segundo nocampeonato:"Imediatamente prestei atenção num dos caras, seu traçado e suatocada precisa. Você podia ver que ele seria verdadeiramenteespecial, mesmo que não tivesse equipamento especial. Eu melembro que perguntei a alguém o nome daquele piloto. Era AyrtonSenna.”O insuspeito rival Mario Sérgio de Carvalho foi quem discordoucom veemência dos que viam de forma negativa o fato de Ayrton 27 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  28. 28. jamais ter conseguido vencer o Mundial de Kart. Para MarioSérgio, Senna na verdade acabou com a tradição de resultadosruins ou pouco expressivos do kartismo brasileiro na disputa doMundial:"Piloto brasileiro, antes de Ayrton, às vezes ficava até fora dos 34classificados para a final. Ayrton mudou esta sina com talento egarra, mas também com a ótima pesquisa que fez antes de decidirqual equipamento usaria na competição. Ele apostou na novidadeda época, os motores da fábrica DAP, e terminou vice-campeãomundial.”E o que dizer da comparação entre Senna e Terry Fullerton,considerado o melhor piloto de kart do mundo por muitos anos, naépoca de Ayrton? Mario Sérgio não hesitou:"O Fullerton era muito bom e rápido, mas o Ayrton jantava ele, comcerteza.” LÍLIAN- Volta, volta!Ayrton e Alfredo paqueravam de carro pela rua Augusta, no final de1980. E finalmente surgiu uma oportunidade. Senna queria saber oque Alfredo, o amigo que ele tanto respeitava no assuntomulheres, achava de uma jovem loura que andava pela calçada,acompanhada da mãe:- O que você acha?Alfredo nem precisou responder. Sua boca aberta e os olhosvidrados deixavam claro que ele estava impressionado. Ayrtoncontinuou:- É amiga da minha mãe.Alfredo aprovou com entusiasmo a idéia de Ayrton de "atacar".Eles estavam em frente a uma loja da Kopenhagen no bairro dosJardins. Lilian de Vasconcellos descia a rua com a mãe, donaGrizelda, e percebeu a aproximação de Senna e Alfredo."Ele me olhou diferente.” 28 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  29. 29. Uma semana depois daquele encontro, ela terminou o namoro dequatro anos com um engenheiro civil. O avô do namorado já tinhadado uma casa de presente para eles. E os pais de Lilian já tinhamcomprado os móveis. Duas décadas depois, no entanto, Lilianavaliou que fez certo:"Caiu a ficha que a gente era muito diferente.”No dia seguinte ao fim do namoro, Ayrton apareceu na casa delacom "Filhinho", o dobermann da família. Obra menos do acaso emuito mais da torcida das amigas Neyde e Grizelda. Seguiram-sedias de muita conversa, entremeada de treinos e corridas de kart,até que o namoro dos dois começou pra valer. A rotina era típicadas famílias ricas e discretas da Zona Norte: fim de semana napiscina de uma das casas e esqui na represa de Guarapiranga.Ao som da orquestra de Barry White, a "Love Unlimited", elesjogaram muitas partidas de "War" e gamão. De vez em quando,tomavam um vinho. E iam ao cinema. Ayrton assistiu duas vezes,com Lilian, ao filme Nosso Amor de Ontem, com Barbra Streisande Robert Redford. Religião, nessa época, segundo Lilian, nempensar:"Zero, nada, simplesmente nada.”Numa das brigas durante o namoro, Ayrton e Lilian ficaram sem sefalar, e ela resolveu aceitar um convite para ir sozinha à festa daamiga Lilinha. Quando soube, Senna não hesitou: foi até a casa deLilinha e interrompeu a conversa de Lilian com um dos convidados:- Vamos embora!Foi imediatamente obedecido. Duas décadas depois, Lilianlembrou com carinho aquele "momento machista" do ex-marido:"Achei lindo.” INGLATERRANaquele final de 1980, Ayrton conseguiu convencer os pais adeixá-lo disputar o Campeonato Inglês de Fórmula Ford 1600, achamada categoria de entrada para qualquer piloto que sonhassefazer carreira no automobilismo europeu. Senna estava seguindo a 29 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  30. 30. trajetória que toda a imprensa especializada brasileira jáantecipava para ele, depois dos resultados que obteve no kartismobrasileiro e internacional. Lito Cavalcanti, um dos repórteres quecobriram a carreira de Ayrton no kart, deu a ele um conselhosimples:- Esquece o automobilismo brasileiro.Vai direto para a Inglaterra.Para dar o novo passo, Ayrton contou com a ajuda de um antigorival no kart, Chico Serra. Naquele ano, Chico enfrentava umatemporada dificílima na equipe Project Four de Ron Dennis deFórmula 2 e recebeu uma carta surpreendente de Ayrton. Umtrecho:- Posso imaginar o que você deve estar passando. Mas no gridlembre-se de que você é muito bom.Chico jamais esqueceu o gesto:"A gente era moleque. Ninguém sentava para fazer uma reflexãosobre a carreira. Nesse sentido, a carta do Ayrton foi muitoespecial.”Chico Serra indicou Senna para o dono da mais prestigiada equipeinglesa de Fórmula Ford 1600, a Van Diemen, de Ralph Firman.Não que Chico fosse um grande amigo de Ayrton. Mais de 20 anosdepois, ele fez questão de deixar claro que sua iniciativa foi muitomais um gesto de gratidão a Ralph, seu ex-patrão na Fórmula Ford1600, do que uma ajuda de início de carreira a Senna.Chico sabia que Ayrton ia vencer muitas corridas. Daí a idéia deindicá-lo a Ralph. O que nem Chico nem Ralph esperavamsemanas depois, durante a conversa, na Inglaterra, foram asexigências cada vez maiores feitas por Ayrton para correr pelaVanDiemen. Durante uma providencial ida de Senna ao banheiro, operplexo Ralph cobrou de Chico:- Quem diabos ele pensa que é?Anos depois de ter contratado Ayrton e vencido com ele oCampeonato Inglês de Fórmula Ford 1600 de 1981, Ralph, aoreencontrar Chico Serra, tinha a resposta:- Acho que ele sabia quem era. 30 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  31. 31. Oscar Dantas de Medeiros, dono da Tranzero, uma frota dejamantas que operava na distribuição de carros da General Motorsno Brasil, e dos jeans Pool, foi o principal patrocinador de Ayrtonem sua primeira incursão no automobilismo europeu. Entrou com180 mil dólares.Ralph Firman, com tanto dinheiro e um piloto daquele calibre, nãoesperava tanta gratidão de Chico Serra. CASAMENTOA farmácia do Bruno era o ponto de encontro da turma de Senna.Foi diante dela que Ayrton fez mais uma consulta sentimental aoamigo Alfredo. Dentro do carro, ele disse que estava pensando emcasar com Lilian. E que, além de estar gostando da namorada,tinha outro bom motivo. Queria ter uma companhia na Inglaterra:- Lá fora a vida é muito difícil. Você vê como ela é de família, trataa gente bem e a minha mãe gosta dela.A reação de Alfredo:- Se é para o seu bem, tudo bem.Na verdade, Alfredo estava preocupado com o fato de Ayrton sermuito jovem. Mas só daria uma opinião contrária se Lilian fosseuma das "galinhas" que conhecia no bairro. E não era. Lilian, aoque constava ao bem-informado Alfredão, era virgem.Ayrton propôs casamento a Lilian logo depois de ir para a camapela primeira vez com ela, no motel Chalé, situado no alto da serrada Cantareira. De acordo com Lilian, a proposta de Senna foidireta:- Eu sei que você é casamenteira. E sei que, se eu for embora pracorrer na Europa, quando eu voltar, você já vai estar casada.Portanto, quero casar. E espero que dê certo.- Também espero. Vamos tentar. Depois de uma pausa, Lilianperguntou:- Em quanto tempo você quer casar?- Dois meses... 31 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  32. 32. O namoro dos dois ainda não durara o suficiente para que Liliandecidisse que destino dar ao volumoso enxoval que estavafazendo para se casar com o ex-namorado. Dois jogos de lençóisde cetim já estavam até bordados com as iniciais "F" e "L". Doismeses depois, tudo foi embarcado para a Europa em quatro malaspesadas, junto com novas peças compradas por dona Grizelda. Nahora de planejar como seria a cerimônia, a hipótese de umcasamento na igreja não foi sequer contemplada por Ayrton:- Casar na igreja não. Eu me sentiria um palhaço.A alternativa foi uma cerimônia dupla e ecumênica. Naquela época,Viviane, casada com Flávio, filho de um pastor, já era umaevangélica convicta e conseguiu convencer a todos de que amelhor solução seria uma cerimônia em que um pastorabençoasse o casamento. A porção católica apostólica romana dasduas famílias seria contemplada com a bênção de um padre, horasantes, na manhã do mesmo dia, junto com o casamento civil.E assim foi feito. CAPÍTULO 2 UM CERTO DA SILVAO Corcel verde de Ayrton estava todo preparado para a viagem delua-de-mel de Santana até o hotel Maksoud Plaza, na região nobredos Jardins. Quando ele e Lilian foram pegar o carro na garagemda casa dos pais dela, a sogra, dona Grizelda, foi atrás, descendoas escadas com uma bandeja de doces:- Beco, Beco, aqui os docinhos pra vocês comerem...- Dona Grizelda, a última coisa que eu quero comer hoje é umdocinho...Era o final de uma cerimônia de casamento que transcorreuexatamente como Ayrton e Lilian haviam planejado na saída domotel Chalé, dois meses antes. As fotos que Lilian guardou para oresto da vida mostram o noivo de calça social, cinto preto e camisade seda azul aberta no peito. Dona Neyde, séria, olhava para ochão. Milton, parecendo disperso, usava apenas uma camisa de 32 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  33. 33. mangas curtas bege-clara, cujo bolso deixava transparecer ummaço de cigarros Carlton. Viviane, de colar, usando um elegantevestido branco gelo, maquiagem azulada, era abraçada por tráspelo marido, Flávio. E Lilian, sorridente, estava com um vestidobranco amarrado na cintura por um fino lenço azul, da mesma corda camisa de Ayrton.Dez mesas decoradas foram colocadas em volta da piscina dacasa de Senna. A operação de convidar os amigos mais íntimos foitão rápida, que alguns, pegos de surpresa, nem levarampresentes. Mas tudo correu de acordo com o combinado, a não serpor uma brincadeira de Júnior, que empurrou dona Neyde de roupae tudo na piscina. Além do constrangimento, a mãe de Ayrtonsofreu uma fratura no dedo na queda. Júnior foi severamenterepreendido pelo pai de Lilian.Tchê viveu nesse dia um episódio que o deixou muito triste. Eleviu, em um canto da lavanderia, coberto por uma lona, o tornomecânico que montara para Ayrton. E arriscou:- Ayrton, posso pedir um presente? Quero levar o torno...- Por mim, tudo bem. Mas tem que falar com o Miltão... Esse era oproblema. A resposta:- Nem vem que não tem. Vou levar para a fazenda. Inconformado,Tchê esperou Milton se afastar e puxou Ayrton num canto.- Ayrton, o torno é seu!Não adiantou. Tchê passou a maior parte do tempo da festaisolado, conversando com um tio de Ayrton e com Júnior. Ao voltarpara casa, disse para a mulher uma frase que mostrava toda amágoa daquele dia:- O que eu não tenho, eu devo a Ayrton Senna...A noite na suíte presidencial do hotel Maksoud Plaza foi precedidapor um ritual que a maioria das moças de família de Santanaadorava. Lilian entrou no quarto carregada nos braços por Ayrton.No dia seguinte, o casal foi para Chicago passar dez dias na casade Fábio Machado, o primo de Senna que se tornaria, anos depois,seu sócio e diretor do Instituto Ayrton Senna. Depois de dez diascom Fábio e a mulher, Nice, o casal seguiu direto para a Inglaterra. 33 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  34. 34. Lá, a filha única e mimada, acostumada com o calor do Brasil e asmesas fartas das famílias abastadas de Santana, sofreu doischoques. Primeiro, a casa pequena, sem aspirador de pó e comuma sala em que havia um sofá cor mostarda onde exatos 19gatos de estimação do morador anterior costumavam dormir. Nãohavia como eliminar o cheiro. Tudo estava tão sujo, que o casalteve de pernoitar na casa de Ralph Firman, dono da Van Diemen.Nada de passeio, cinema ou restaurante. O segundo choque: nojantar na casa de Ralph Firman, um bife, um ovo e uma folha dealface para cada um dos comensais.O condomínio era tranqüilo, mas parecia ser habitado apenas porpessoas acima de 50 anos de idade. Lilian teve a sensação de queia morar num cemitério. OS SELVAGENS- Pelo amor de Deus, não chega nem perto que amanhã temcorrida!Na véspera das provas da Fórmula Ford, era sempre assim. Ayrtonchegava a dormir em cama separada para não encostar em Liliane dar à libido a chance de pôr em risco seu ritual de preparação.Também fazia parte do ritual tirar a aliança de casado do dedo ependurá-la no cordão de ouro do pescoço. Para não atrapalhar asensibilidade das mãos no volante.Foi uma temporada de 28 corridas, 22 das quais vencidas por ele.Na primeira, disputada no circuito de Brands Hatch, no dia 1º demarço, dez dias depois da lua-de-mel em Chicago, Senna,apresentado no programa oficial como "Ayerton" da Silva, umbrasileiro que fazia sua estréia na Inglaterra "depois de brilhar noMundial de Kart", terminou em quinto lugar. Os pilotos favoritos dacategoria eram o argentino Henrique Mansilla, o inglês Rick Morris,o mexicano Afonso Toledano e outros que, de modo fulminante,passaram à condição de coadjuvantes 15 dias depois, quandoSenna conquistou sua primeira vitória, na mesma pista de BrandsHatch. 34 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  35. 35. As encrencas também não tardaram a acontecer. Já na quartaetapa, disputada no circuito de Mallory Park, Senna teve umincidente de pista com Mansilla: na saída de uma curva,disputando a liderança lado a lado com o argentino, Ayrton foiempurrado para a grama, caindo para a segunda colocação. Nosboxes, os dois pilotos tiveram de ser separados à força, Ayrtonsendo afastado do rival na base da gravata. Em uma carta escritaao amigo Tchê, no dia 7 de abril, Senna punha a culpa dasencrencas em um defeito dos carros Fórmula Ford. Eram lerdosdemais."É uma categoria muito boa, mas os motores são um poucopequenos e, com isso, carecem um pouco de aceleração. Eu melembro de ter que bater roda para conseguir uma ultrapassagem.Pois é um tal de dar fechada que não é mole.Estou agora pegando a mão do carro e começando a dar umasatravessadas. Mas é muito perigoso rodar. Acaba batendo porisso. Estou experimentando pouco a pouco, mas chego lá.”Chegou tanto, e de forma tão determinada, que a sucessão defechadas, rodadas, batidas e virtuais lutas corporais entre os trêspilotos latino-americanos da equipe Van Diemen - Senna, oargentino Mansilla e o mexicano Toledano - levou a revistaAutosport a publicar um editorial cujo título, "Loucura na FórmulaFord", alertava para os riscos e exageros daquele tipo depilotagem, "agressivo como não se via há muito tempo nacategoria". O semanário Motoring News concordava:"Esses moços têm talento, mas podiam ser mais civilizados.competem como selvagens.”O inglês Rick Morris, um veterano de dez temporadas na FórmulaFord, então com 31 anos, acabou vencendo uma das provasgraças à briga feroz entre os três pilotos da Van Diemen. Eironizou:"Muito obrigado, feras latinas. Devo a vocês essa vitória.” TRISTEZA NA ESTRADA 35 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  36. 36. "Eu roí o osso e as outras ficaram com o filé mignon.”Assim, misturando ironia e resignação, Lilian deVasconcellos sereferiria, no futuro, à rotina que enfrentou em Ethon, Norfolk,nordeste da Inglaterra, ao lado de Ayrton Senna: levantar, fazercafé, ver as roupas brasileiras serem irremediavelmente encolhidasna alta temperatura das lavanderias inglesas, preparar as duaspreferências do cardápio do marido, bolo de chocolate comcobertura de brigadeiro e macarrão regado a molho de tomate, eenfrentar uma solidão que não estava nos planos desenhados nomotel Chalé, ao som de Barry White. O uso constante da pílulaanticoncepcional, combinado com o de um antibiótico para agarganta, fez aumentar sua pressão arterial, provocandoenxaqueca e uma prostração muito grande.Ayrton chegava em casa no fim de tarde, quase sempre cansado etriste. Olhava Lilian com carinho e a botava no colo. Reclamava dafalsidade e da concorrência que enfrentava nos autódromos, e osdois se sentavam no sofá. Às vezes, choravam. E passavamtardes e noites abraçados, vendo televisão no tal sofá mostardahorroroso que já tinha sido freqüentado por 19 gatos ingleses ecujo cheiro remanescente havia sido finalmente atenuado por umedredom novo em folha. Era um casal jovem se protegendo dasolidão e das imensas diferenças que separavam a pequena Ethondo bairro de Santana. Os programas sociais se resumiam a visitasesporádicas às casas dos pilotos Chico Serra e Raul Boesel.Ayrton não estava disposto a pedir qualquer tipo de ajuda aos paisno Brasil. Por isso, o casal passou por apertos que, nos momentosmais drásticos, levaram Lilian a se perguntar se deveria ou nãocomprar um simples pote de creme. Só não faltava comida.Comiam do bom e do melhor, como manda a tradição brasileira.Lilian tinha certeza de que o pai mandaria dinheiro, se Ayrtondeixasse. Mas ele não deixava. Impunha-se não pedir "arrego".Vivia do salário de piloto que recebia para desenvolver os karts dafábrica italiana DAP e dos prêmios da Fórmula Ford. As economiasficavam numa gaveta da cômoda da sala de jantar e eram 36 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  37. 37. administradas por Lilian. Senna pedia dinheiro até pra fazer umsimples lanche.O amigo Alfredo Popesco era uma das testemunhas distantes datristeza de Senna e da mulher. Recebeu cerca de 40 cartas nasquais Ayrton se queixava muito da solidão, da dificuldade de lavarroupa, da comida, "uma merda", e do frio. Senna tentavaacompanhar à distância a situação de Alfredo na loja de materiaisde construção da família, perguntando sempre como o amigoestava sendo tratado pelo pai. E pedia:"Escrevam pra mim!”Para o amigo Tchê, as cartas chegavam a ter um tom de cobrança.A que Ayrton escreveu no dia 7 de abril foi uma delas:"Tchê, antes de tudo estou esperando sua carta, que até então nãochegou, pois essa já é a segunda vez que escrevo a você sem tercontestação.”Depois do desabafo por escrito, o resumo da difícil aventura naInglaterra:"Sobre minhas corridas, não tenho muito o que falar, pois pareceque estão sendo bem noticiadas e você deve estar acompanhandoo pupilo, não é? E a família, como vai? Estou me adaptando bem àvida de casado e não tenho reclamações a fazer. Parece queagora vai esquentar um pouco, pois até agora o frio tem dado oque fazer.”Foi quando o frio deu lugar ao verão europeu, aos seis meses decasados, que Ayrton e Lilian viveram seu pior momento: a pílulaestava provocando tantos efeitos colaterais, que o médicobrasileiro de Lilian recomendou que ela parasse de tomar poralgum tempo. Apesar da preocupação com a gravidez, ela foiincentivada a correr o risco e parou. Depois de 70 dias, o ciclomenstrual não aconteceu. A notícia foi dada após uma corrida, acaminho de casa, a bordo do Alfasud cinza do casal. Ayrton reagiumal:- Só vai ter uma alternativa. Se você estiver grávida, vai criar nossofilho no-Brasil. 37 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  38. 38. Não era a resposta que Lilian esperava. Senna também sequercontemplou a hipótese de provocar um aborto. O choque de Lilian,porém, foi tão grande que ele ficou preocupado. Pôs a cabeça delano colo, tentou acalmá-la e explicou por que achava que eramelhor criar o filho no Brasil, se ele viesse.Três dias depois, o ciclo menstrual se completou. Lilian não soubeaté hoje se o que aconteceu foi ciclo menstrual irregular ou abortonatural. Duas décadas depois, ela avaliou que aquela tarde dejulho, no meio de uma estrada do interior da Inglaterra, foi o iníciodo fim do casamento.A alegria costumava voltar nas idas quinzenais do casal a Milão,quando Ayrton trabalhava nos karts da DAP e Lilian saboreava umpaís, um clima, uma comida e um povo mais parecidos com osbrasileiros. Havia também as tardes vitoriosas nos autódromosingleses, quando a beleza dela chamava quase a mesma atençãoque o talento do marido.Era ali que Ayrton fazia um agrado tão freqüente como suasvitórias: assim que recebia a coroa de flores que era entregue aovencedor junto com uma pequena garrafa de champanha, elechamava Lilian e a enlaçava com a coroa. Era o símbolo dagratidão que sentia por sua presença ao lado dele em um períodotão decisivo. Naqueles momentos, Lilian estava descobrindo algoque todas as outras mulheres da vida de Ayrton Sennadescobririam: "O automobilismo, para Ayrton, era mais importantedo que qualquer mulher. Era a vida dele. Por isso ele foi o que foi.Todas as mulheres ficaram em segundo lugar. Todas.”Foto: Ayrton comemora sua primeira vitória na Fórmula Ford comLilian, na Inglaterra.O casamento não resistiria à solidão e à devoção absoluta deSenna à carreira de piloto. BREVE ADEUS- Nice to meet you, nice to meet you! 38 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  39. 39. Era tudo o que Ayrton Senna, ainda um rapaz muito tímido,conseguia dizer para os surpresos chefes de equipe aos quaisEmerson Fittipaldi o apresentava, no paddock do circuito deZeltweg, durante os treinos para o Grande Prêmio de Fórmula 1 daÁustria, em agosto. Ninguém entendeu o inédito entusiasmo deEmerson, não muito dado a pajear iniciantes, fossem elesbrasileiros ou não. Mas Emerson já vira e ouvira o suficiente parater certeza do que estava para acontecer:- Este é Ayrton Senna da Silva. Ele vai ser campeão do mundo.Ron Dennis, Ken Tyrrel e outros chefes de equipe da Fórmula 1aos quais Ayrton foi apresentado naquele dia não guardaram nomeou rosto. Não tinham nem tempo para ver os garotos da FórmulaFord se enrascarem nas curvas de Silverstone, Brands Hatch,Thruxton, Mallory Park, Snettcrton e Oulton Park. Já DennisRushen, dono da Rushen Green Racing, uma respeitada equipe deFórmula Ford 2000, o passo seguinte para os que brilhavam naFórmula Ford, tinha todo o tempo do mundo. Após a bandeiradafinal da sexta etapa do Campeonato RAC, disputada debaixo dechuva em Snetterton, no dia 9 de agosto, Dennis, de tãoimpressionado com a facilidade com que Senna deixou os outrospilotos para trás, fez uma oferta imediata:- Se você voltar no ano que vem, garanto sua temporada por dezmil libras.O caráter condicional da proposta fez sentido um mês e meiodepois. No dia 29 de setembro, quando Ayrton alinhou no grid deBrands Hatch para a última etapa do Campeonato Townsend-Thoresen, pouquíssimos sabiam que, para ele, já campeão, aquelapoderia ser a última corrida. Ayrton enfrentava em silêncio umagrande pressão dos pais, que o queriam de volta ao Brasil, longedo automobilismo e preparado para cuidar dos negócios da família.Além disso, estava chateado com os diretores da DAP, por acharque eles tinham desrespeitado detalhes financeiros e técnicos doacordo feito no início do ano.Também sentia falta de alguém que trabalhasse por ele, junto apatrocinadores brasileiros. 39 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  40. 40. Talvez por estar mesmo muito propenso a obedecer ao pai evoltar, Ayrton fez uma despedida histórica na hora em que entrouno cockpit. Pulou da terceira fila para a liderança na largada, rodousem bater em ninguém e caiu para décimo sexto. Voltou à disputaultrapassando seis adversários por volta e rodou novamente.Intacto. O show recomeçou, à mesma taxa de meia dúzia deultrapassagens por volta, até ele terminar a corrida em segundolugar. Uma tarde inesquecível. Um título conquistado. Uma notíciasurpreendente.- Que história é essa de parar?A pergunta, irritada, era de Chico Serra, amigo de Ralph Firman,perplexo ao saber da decisão de Ayrton de fazer as malas e nãoesperar nem o mês de outubro para participar do Festival deFórmula Ford de Brands Hatch - o grande evento da categoria noqual Senna, o campeão, e a Van Diemen, sua equipe, seriam asprincipais atrações.- Vou voltar para o Brasil. Meu pai precisa de mim.- Dar a mão pra quê? Você não sabe porra nenhuma do negóciodele! Você está é deixando o Ralph na mão.Chico sabia que a volta de Senna não tinha nada a ver comnegócios. Sabia também do poder que o pai exercia sobre ele. Oamigo Alfredo Popesco ia mais longe: tinha certeza de que Ayrtonnão apenas cumpriria a ordem do pai de trabalhar na loja dematerial de construção da família, mas também continuariatrabalhando lá indefinidamente "se Miltão pedisse".Senna desembarcou no Brasil no início de outubro. Levava nabagagem o melhor currículo jamais obtido por um piloto brasileiroem seu primeiro ano no disputadíssimo automobilismo inglês. Naentrevista que deu ao jornal O Globo, ele omitiu o fato de estaratendendo ao chamado do pai. E fez um juízo amargo do esporteque dominaria anos depois:"A Fórmula 1 é muito fechada e não quero sofrer as mesmasdecepções por que meu amigo Chico Serra está passando naequipe Fittipaldi. Todo piloto sonha, evidentemente, em competir 40 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  41. 41. na Fórmula 1. A experiência mostra, porém, que nela vale mais odinheiro que um piloto pode pagar à equipe do que o seu talento.”Nelson Piquet também desembarcou no Brasil na mesma época,com o título de campeão mundial, conquistado em Las Vegas.Nelson retardara a volta ao país para fugir do assédio dostorcedores. Justificativa: não era muito seu estilo fazer desfile emcarro aberto e outras comemorações. Mais um exemplo daconturbada relação de Piquet com a imprensa e a torcidabrasileira.Senna faria questão de não seguir o exemplo. Muito pelo contrário. TIJOLOS E TRISTEZA À VENDA- Não agüento mais essa merda.O amigo Júnior viu e sentiu de perto, dias depois da volta deSenna da Inglaterra, a infelicidade em pessoa atrás do balcão daAnhembi Materiais de Construção Ltda., o negócio que o paipreparara para Senna comandar no Parque Novo Mundo, umbairro pobre próximo de Santana. Disciplinado como sempre, ocampeão inglês de Fórmula Ford de 1981 tentava mas nãoconseguia se envolver com estoques de areia, prazos de entregade tijolos, caminhões de telhas e outras rotinas. Era, nas palavrasde Júnior, um bicho aprisionado. A ponto de propor a Júnior queele convencesse o próprio pai, Américo, a comprar a loja da famíliaSenna:"Ele jogou a jaca pra mim, mas não havia nada que eu pudessefazer.”Senna acertara um salário com o pai e, enquanto era montado oapartamento de três quartos que alugou na serra da Cantareirapara morar com Lilian, marido e mulher se hospedaram juntos,alternadamente, nas casas das respectivas famílias. Ela sabia queele não estava bem. Ayrton dormia demais e este era um sinal dedepressão que ela conhecia dos tempos tristes de Ethon. Já noinício de 1982, durante um jantar na casa do piloto AfonsoGiaffone, em São Paulo, Senna não escondia o constrangimento 41 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  42. 42. com a situação. Chico Serra, um dos convidados, aproximou-se deLilian, querendo saber como o marido estava enfrentando a novavida:- Está péssimo. Ele quer correr, só pensa nisso. Ele não está legal.O sinal de que uma crise inevitável estava a caminho aconteceuexatamente quando Lilian quis deixar o marido mais próximo daslembranças do automobilismo, no dia em que os dois foram aoapartamento alugado, às vésperas da mudança definitiva. Depoisde ver a estante de troféus cuidadosamente montada na sala,Senna caminhou para a janela que dava vista para o bairro doTremembé, localizou a casa dos pais a distância, fez mais algunscomentários e mudou o tom:- Lilian, não é isso que eu quero. Eu não vou conseguir.A partir daquele momento, os dois não conseguiram mais falar. Sóno dia seguinte, Ayrton transformou o desabafo da véspera emdecisão:- Devolve o apartamento, os móveis, tudo.Não foi surpresa para Milton, Neyde e Viviane. Eles já vinhamsendo avisados, em várias conversas difíceis na cozinha e noescritório da casa da serra da Cantareira, que aquela situação eradolorosa e insustentável. Em um desses dias, Senna fizera umdesabafo especialmente duro:"Ninguém mandou me colocar sentado num kart quando eu erapequeno. Experimentei, gostei e agora não peçam jamais para eudesistir. É minha vida!”A crise familiar começou a ser resolvida quando o amigo e sócio deMilton, Armando Botelho, sensibilizado com a sofrida empreitadade Ayrton no Parque Novo Mundo, decidiu ser um mediador.Armando, então com 49 anos, conhecera Milton quando ainda eraum piloto em busca de horas de vôo no Campo de Marte. Aamizade e a futura sociedade nos negócios nasceram depois demuitas viagens de avião dos dois, entre São Paulo e as terras deMilton, no interior do país.Armando tinha certeza de que Senna, cedo ou tarde, voltaria àspistas. Queria apenas evitar que a retomada da carreira 42 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  43. 43. acontecesse contra a vontade de Milton. Não tinha interesse porautomobilismo nem entendia de marketing. Mas se propôs a cuidardos contratos e da busca de patrocínio. O pai de Senna aceitou.Em raro depoimento, dado ao jornalista Lemyr Martins 15 anosdepois, ele disse que Ayrton era tão teimoso quanto ele e a mãe. Eadmitiu:"Eu não queria vê-lo piloto profissional, mas ele ficou tãodesmotivado trabalhando nos negócios da família, que acabeiconcordando.”No dia 27 de fevereiro de 1982, Ayrton embarcou para a Inglaterrapara acertar sua participação nos campeonatos inglês e europeude Fórmula Ford 2000. Antes, pedira a Lilian que ficasse na casados pais dela e desse um tempo até os dois decidirem o futuro.Convencera também o pai a entregar a gerência da AnhembiMateriais de Construção Ltda. ao amigo Alfredão. Dona Neyde nãoquis dar nenhum conselho especial ao se despedir de Ayrton.Apenas um beijo, acompanhado da carinhosa resignação queapenas as mães parecem ter:- Eu cuidei de você até aqui. Agora te entrego nas mãos de Deus.É ele quem vai te guiar.Em entrevista dada em 1984, Ayrton deixou claro que aquele iníciode 1982 foi muito difícil:"Eles viram que eu não voltaria atrás. Depois de perceberem quepoderiam me prejudicar, passaram a me apoiar como na época dokart.”Faltava resolver o casamento. Um telefonema da Inglaterra paraSão Paulo, dias depois, pôs fim a tudo, selado pela convicçãomútua de que uma nova jornada de frio e solidão em um paísestranho seria insuportável. Os sogros cuidaram da parte jurídicada separação, que só foi oficializada no dia 11 de fevereiro de1983, Ayrton de férias no Brasil, na Primeira Vara Distrital da CasaVerde, através de um aperto de mãos formal dos dois, Lilianusando um terninho azul que ganhara da sogra, e Ayrton de jeans,camiseta e tênis. Nem se olharam direito. 43 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  44. 44. Lilian voltou a morar com os pais, mas se casou meses depois.Teve um filho em 1987, separou-se e se deixou fotografar comoex-senhora Ayrton Senna quando trabalhava como decoradora daloja Artefacto, na região dos Jardins. Encontrada pela revistaCaras, ela se queixou, com bom humor:"Minha única mágoa é que sempre que falam de mim publicamfotos antigas nas quais estou muito feia.”Dona Neyde e dona Grizelda continuaram amigas e freqüentarampor muito tempo o mesmo curso de pintura de cerâmica.Lilian se casou pela terceira vez em janeiro de 1995. Pediu aoscolegas da loja Artefacto para não dar pistas dela para a imprensa.O que ela sempre esperou ouvir de Ayrton, ele acabou dizendonão para ela, mas para a médica e confidente Linamara Battistella,dez anos depois do fim do casamento:- Tenho uma preocupação muito grande em saber se a Lilian estábem. Foi uma atitude um pouco egoísta casar tão cedo e ir sozinhocom ela para a Inglaterra. Tenho um sentimento de remorso muitogrande. Um remorso que se tornou preocupação. Por isso, estoulonge, mas acompanho tudo o que acontece com ela.Quase 20 anos depois da separação, Lilian fez um balanço bemhumorado do triste e apressado casamento com Ayrton Senna:"Fomos muito imaturos. Eu queria brincar de casinha, e ele decarrinho.” UMA CORRIDA ESTRANHANinguém entendia o que estava acontecendo com a Van DiemenRF82-Ford pilotada por Ayrton Senna, naquela tarde de 9 de abrilde 1982, no circuito de Snetterton, quinta etapa do campeonatoinglês de Fórmula Ford 2000. O comportamento do piloto na pistanão combinava com o devastador desempenho que ele tivera nasquatro primeiras provas da temporada, em seu retorno depois dacrise com a família: quatro pole positions, quatro voltas maisrápidas e quatro vitórias. Naquela tarde, porém, Senna estavamuito estranho. 44 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  45. 45. Ele tinha largado na frente, mas completara a primeira volta com ocompanheiro de equipe Kenny Andrews grudado na sua traseira,pronto para dar o bote. Não havia som de motor nem sinalizaçõesde Ayrton que sugerissem problemas no carro. Na volta seguinte,Senna passou em sétimo, deu a impressão de entrar no boxe, masdesistiu e continuou na pista. De repente, algumas voltas depois,começou a ultrapassar todo mundo. Kenny Andrews, que chegaraa sonhar com a primeira vitória, também não entendeu nada,quando Senna passou por ele como um foguete para retomar aliderança.Na hora da bandeirada, o mistério final: Ayrton só parou o carrocerca de 300 metros depois da linha de chegada. A explicação:- Eu estava sem freio.Dennis Rushen logicamente não acreditou e foi checar. Afinal,correr sem os freios dianteiros, mal comparando, é mais ou menoso equivalente a descer uma serra sinuosa num carro de passeio,usando apenas o freio de mão.Era verdade. Uma farpa de metal de um dos carros que tinhambatido na largada inutilizara os freios dianteiros. Os quecontinuaram duvidando da façanha apalparam os discos de freiodianteiros. Estavam gelados. Não tinham sido usados. Aexperiência foi descrita por Senna como um exercício dematemática no qual tivera de usar o acelerador e as reduções demarcha de forma muito precisa, para não bater ou ser atingido portrás. E ele não sinalizara manualmente para a equipe a falta defreio simplesmente porque o código não existia. O assombro dosmecânicos da Rushen Green Racing se completou com a respostade Ayrton quando Kenny Andrews, definitivamente à vontade coma condição de coadjuvante, pediu um conselho para melhorar seudesempenho nas curvas de Snetterton:-Você freia muito cedo para os "esses". Eu estava freando depoisde você e só estava com freio traseiro.O conselho foi inútil. Ayrton venceu 17 das 23 provas restantes,conquistando 11 pole positions e fazendo 19 vezes a volta maisrápida. O preço da façanha, mais uma vez, incluiria uma série de 45 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  46. 46. encrencas perigosas na pista, desta vez com o escocês CalvinFish, o principal adversário naquele ano. Fish, que chegou adecolar e voar para fora da pista a três metros de altura, nos"esses" de Snetterton, no dia 10 de julho, depois de ser empurradopara a grama por Senna, ficou muito assustado:"Era como se ele não pudesse ser ultrapassado. Bastavaemparelhar, para ele ou te colocar pra fora da pista ou bater,tentando se manter à frente. Era uma coisa muito louca.”Tão louca que, no caso da decolagem de Fish em Snetterton,Senna foi multado em 200 libras, depois da apresentação de umprotesto formal da equipe rival.Ayrton ficou furioso, alegou que estava sendo punido por serbrasileiro e deixou de falar com Calvin. Dennis Rushen, igualmenteassustado com a intensidade de seu piloto, deu até um conselhoque não era para ser tomado como previsão:-Você quer isso demais. Você assim vai acabar morrendo, rapaz.O conselho se tornava grito de pânico para quem sentava nobanco do carona quando Ayrton disparava pelas ruas e estradasda Inglaterra. Em uma dessas viagens, iniciada no circuito deDonnington Park, região central do país, o motivo da pressa, se éque fosse necessário, era chegar em Snetterton, na regiãonordeste, a tempo para acompanhar uma corrida de MaurícioGugelmin. Dennis olhou para o relógio, fez as contas e chegou àconclusão de que, mesmo andando depressa com o VauxhallAstra, os dois chegariam uma hora depois da largada da corrida.Senna discordou:- A gente consegue. Eu dirijo.Dennis lembrou de ter ficado satisfeito de estar com um livroqualquer à mão. Não que fosse lê-lo. Era para colocá-lo diante dosolhos e não testemunhar a fenomenal confiança que Ayrton tinhaem sua capacidade de guiar um automóvel. E sua certeza quasereligiosa de que nenhum trator cruzaria lentamente a frente doAstra naquelas estradas perfeitas de mão dupla e nosroundabouts, as rotatórias onde a preferencial é de quem estádentro, fazendo a curva. Eles chegaram em Snetterton a tempo de 46 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  47. 47. ver a corrida de Maurício. Alguns minutos depois do tempo previstopor Senna, é verdade. Mas ainda assim, nas palavras de Dennis,foi um tempo de viagem impossível. ADEUS GILLES, OLÁ NELSON"Rezemos por ti, Gilles Villeneuve, porque representas uma dasilusões do teu século: a velocidade confundida com liberdade.”O registro amargo do jornalista Artur da Távola sobre a morte deGilles Villeneuve nos treinos para o Grande Prêmio da Bélgica, nocircuito de Zolder, dia 8 de maio de 1982, foi apenas um exemplo,na mídia brasileira, 65 do impacto e da polêmica provocados pelaperda do herói canadense da Ferrari. Nos boxes de Zolder, noentanto, passados os momentos traumáticos que se seguiram àmorte de Gilles, a vida continuou para mecânicos, engenheiros,chefes de equipe e pilotos, entre eles Ayrton Senna, que estava alipara disputar, na preliminar da Fórmula 1, a terceira etapa doCampeonato Europeu de Fórmula Ford 2000.A perspectiva de passar pelo menos 25 vezes de pé embaixo pelamesma curva onde, um dia antes, a Ferrari de Villeneuve havia seespatifado, lançando o corpo do piloto num vôo mortal até a cercade proteção, aparentemente afetou menos Senna do que a formacomo ele foi recebido pelo campeão Nelson Piquet no boxe daequipe Brabham. O semblante decepcionado de Ayrton, ao voltardo encontro, chamou a atenção de Dennis Rushen. Para ele,aquele momento foi decisivo para o que aconteceria no futuro entreos dois pilotos. O jornalista Wagner Gonzales, à épocaacompanhando a Fórmula 1 pelo jornal O Estado de São Paulo efuturo assessor de imprensa de Ayrton, achou que, considerandoas circunstâncias do momento, Piquet campeão e Sennacomeçando a aparecer, não havia razão para que o encontro fossediferente do que foi: rápido, formal e frio. Mas a frase de Senna,ouvida por Dennis, disse tudo: 47 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com
  48. 48. - O cara me esnobou. Um dia venço esse desgraçado.Restava dar um show na pista naquele dia em que oautomobilismo chorava a perda de Gilles Villeneuve. E o showaconteceu, até Senna rodar e ser obrigado a abandonar a prova.Para Dennis Rushen, o acidente teve a mesma origem de outro,famoso, seis anos depois, quando ele bateria sozinho a poucasvoltas de uma vitória gloriosa no Grande Prêmio de Mônaco:"Ayrton simplesmente não podia tirar o pé. Se tirasse,desconcentrava e batia.”E como Senna jamais admitia a possibilidade de errar, Dennis nãoesqueceu que, também naquela tarde, aconteceu o únicomomento, em todas as corridas de 1982, em que viu Ayrtonadmitindo ter cometido um erro. Ao passar pelo boxe a pé, de voltada rodada, Senna cruzou com Dennis e, sem diminuir o ritmo dacaminhada, pronunciou, quase à força, duas palavras:- Sinto muito.Zolder não foi apenas a morte de Villeneuve, a decepção comNelson Piquet e a frustração de rodar sozinho na liderança de umacorrida. Naquele fim de semana, Ayrton se apresentou a umjornalista que seria um de seus maiores amigos e cuja lembrançadaquele primeiro encontro era a de "um moleque magro, feio eorelhudo, mas determinado".- O senhor que é o Galvão Bueno?- Sou...- Eu sou Ayrton Senna da Silva...- Pelo jeito, eu vou falar muito de você.- Espero que sim... O PRIMEIRO FLERTEO plano de Ron Dennis era simples: oferecer a Ayrton Senna, aestrela da Fórmula Ford 2000, na temporada de 1982,100 mil librasesterlinas, o que cobria todos os patrocínios que Ayrton tinha paraa temporada de 1983 na Fórmula 3, para que ele assinasse umaopção de correr pela McLaren a partir de 1984. Ron tinha a certeza 48 http://degracaemaisgostoso.blogspot.com

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