Aprender com a    Sexualidade           Artigos Selecionados    Paulo César Moreira
Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica                   Denny Guimarães                     Willy Salgado          Ícone ...
AGRADECIMENTOS              A Deus, que me deu uma vida plena de amor e         de grandes realizações e repleta de lembra...
Aprender com a SexualidadeSUMÁRIOA IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUALNA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DA CRIANÇA ....... 11Resumo ....
Paulo César MoreiraA ORIENTAÇÃO SEXUAL NO CONTEXTO ESCOLAR . 47Resumo .......................................................
Aprender com a SexualidadeReferências Bibliográficas .......................................... A ORIENTAÇÃO SEXUAL SOB...
Aprender com a SexualidadeA IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUALNA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DACRIANÇARESUMO    Toda pessoa deve ...
Paulo César MoreiraNeste sentido, é preciso repensar o processo educacional. É pre-ciso preparar a pessoa para a vida e nã...
Aprender com a Sexualidadeesquecendo os tabus e utilizando uma linguagem adequada aadolescentes.OS OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO S...
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Paulo César Moreiraesforços numa educação para a repressão da sexualidade. O queé seguro, é que hoje não se faz nada em te...
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Paulo César Moreiramento e sim um aperfeiçoamento da educação e da orientaçãoque lhe é devida.    Quando se parte da convi...
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Paulo César Moreiraa um condicionamento maciço cujos objetivos praticamente sejustapõe aos da família: respeito pela autor...
Aprender com a Sexualidadetuição familiar. A empresa requer duas ações: suprimir todogesto sexual que não esteja orientado...
Paulo César Moreirano moralismo sexofóbico. Passaram sessenta anos desde que osdecretos de Lenin e os escritos de Trotsky ...
Aprender com a SexualidadeAssim, a educação sexual que o filho de um operário , de umsindicalista ou de um líder político r...
Paulo César Moreiraum genitor autoritário e protetor que concedesse defesa e apoioem troca de disciplina e submissão (Cunh...
Aprender com a Sexualidadecampo - e condenável no campo sexual. descobrir a solução deum problema científico ou deitar-se e...
Paulo César Moreiralimitativas que distorçam sua essência e se traduzem em umaopressão da pessoa. A moral sexual poderia p...
Aprender com a Sexualidade     De todas as fontes de emoção sem dúvida parece que amais importante é a sexualidade, a qual...
Paulo César Moreiraportamento e atitudes dos pais e mestres, têm mais importânciaque os simples preceitos.     Assim sendo...
Aprender com a SexualidadeLIMA, Helena. Educação Sexual para Adolescentes: Desven-dando o Corpo e os Mitos. 3. ed. São Pau...
Aprender com a SexualidadeORIENTAÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUALRESUMO    O presente artigo tem por tema a orientação e a educa-ção ...
Paulo César Moreirada natureza é necessário que os pais e os mestres falem claramenteàs crianças, a fim de que estas saibam...
Aprender com a Sexualidadezação eficiente de tarefas negligenciadas nos lares de seus alunose se não de todo negligenciadas...
Paulo César Moreirapode impedir o adolescente de desejar alguma coisa, mas pode-se condicioná-lo a desejar coisas diferent...
Aprender com a Sexualidadeinigualáveis. Inútil dizer que a educação sexual também se valeamplamente deste mito da perfeiçã...
Paulo César Moreiraética que, na verdade, parece pouco moral. Uma ética que temcomo objetivo apenas a conservação e a salv...
Aprender com a SexualidadeA MORAL     Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moralsexual, isto é, que a sexual...
Paulo César Moreiraque uma sexualidade livre conduziria a esse prejuízo da condiçãohumana. Vem daí a imposição de uma mora...
Aprender com a Sexualidadeeducação. Pensar que a criança deve ser educada e o adulto não,é absolutamente ridículo. Se admi...
Paulo César Moreiraesses serão julgados irresponsáveis e inaptos para toda relaçãosexual. Os rebeldes, os contestadores, o...
Aprender com a Sexualidademente este discurso sobre a responsabilidade é frequente e malacabado, com uma referência consta...
Paulo César Moreirapedida a qualquer custo. Caso contrário a criança perderá, parasempre, a sua inocência.    Perde-se a i...
Aprender com a Sexualidadesexualidade para não ter que sujeitar-se à repressão. Gostaria deser “inocente”. Para tanto crio...
Paulo César Moreiraas outras emoções, violentas, não favorecem a eficiência produ-tiva, mas lhe impõe obstáculos, por isso ...
Aprender com a Sexualidadedária, programável e mediocremente atraente. Mesmo atraentedo que a compra de um carro, de uma t...
Paulo César Moreirados conselhos pragmáticos, declara-se rapidamente que nadase pode fazer contra a prostituição, que ela ...
Aprender com a Sexualidadedas perguntas feitas; a educação cognitiva deve enquadrar-se nomeio local e nacional, cultural e...
Paulo César Moreirademais instintos, deve ser sujeito ao domínio da vontade e darazão; e, de instinto puramente animal, tr...
Aprender com a SexualidadeA ORIENTAÇÃO SEXUAL NOCONTEXTO ESCOLARRESUMO    O presente artigo apresenta a importância da Ori...
Paulo César Moreira    O principal objetivo da pesquisa é ressaltar que apesar detodas essas influências, os educadores (de...
Aprender com a SexualidadeCONCEITOS TEÓRICOS SOBRE SEXO E SEXUALIDADE     Sendo a sexualidade uma essencial dimensão human...
Paulo César Moreiratenha sido aquela vinculada à sexualidade (ao redor da marcagenital). É estranho reconhecer que, atravé...
Aprender com a Sexualidadedificuldade pessoal em compreender a complexidade da sexuali-dade humana, reclamando da falta de ...
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Paulo césar moreira livro aprender com a sexualidade

  1. 1. Aprender com a Sexualidade Artigos Selecionados Paulo César Moreira
  2. 2. Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica Denny Guimarães Willy Salgado Ícone Comunicação Visual - (61) 3563.5048 Criação e Editoração Eletrônica da Capa Edson Santos de Souza Paulo de Tarso S. Silva Ícone Comunicação Visual - (61) 3563.5048 Revisão Geovani de Souza Costa Impressão e Acabamento Ícone Editora e GráficaXxxMoreira , Paulo César Aprender com a sexualidade/ Paulo César Moreira. – Brasília: ÍconeEditora e Gráfica, 2008. 164 p. ; 21 cmISBN xx-xxxxx-xx-x1. Xxxxx. 2. Xxxxxxx. CDU xxx.xx
  3. 3. AGRADECIMENTOS A Deus, que me deu uma vida plena de amor e de grandes realizações e repleta de lembranças in- vejáveis. Aos meus pais Levy Pires Moreira e Wanda da Cunha Moreira, pelo dom da vida e por acredita- rem e incentivarem os meus projetos, sem vocês não chegaria onde cheguei. Ao meu irmão Carlos Alberto Moreira, pelo carinho e respeito. Ao Professor Doutor Éder Alonso Castro, por sua amizade, principalmente. Pela sua compreensão apoio e credibilidade, por ter sido um bom amigo ouvinte dos momentos difíceis pelos quais passei, pela alegria de trabalharmos juntos, todo o meu res- peito e admiração. À amiga Eliana Araújo(Lia), defensora do meio ambiente e companheira de longas jornadas, incentivadora e amiga de todas as horas. A vocês, o meu especial carinho, respeito e muito obrigado!
  4. 4. Aprender com a SexualidadeSUMÁRIOA IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUALNA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DA CRIANÇA ....... 11Resumo ................................................................................ Introdução......................................................................... Os Objetivos da Educação Sexual ................................. A Estratégia da Educação Sexual ................................ Os Responsáveis pela Educação Sexual ........................ A Ética na Orientação Sexual ....................................... A Sociedade e a Formação Sexual .................................. Consirações Finais............................................................ Referências Bibliográficas ............................................. ORIENTAÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUAL ..................... 29Resumo ................................................................................ Introdução......................................................................... Os Instrumentos da Educação Sexual .......................... As Falsas Palavras ............................................................ A Moral .............................................................................. A Educação ........................................................................ A Responsabilidade .......................................................... A Inocência ........................................................................ A Sexualidade Hoje e os Conflitos daSociedade Moderna .......................................................... O Sexo como Mercadoria ................................................ Conclusão .......................................................................... Referências Bibliográficas .............................................  7
  5. 5. Paulo César MoreiraA ORIENTAÇÃO SEXUAL NO CONTEXTO ESCOLAR . 47Resumo ................................................................................ Introdução......................................................................... Conceitos Teóricos sobre Sexo e Sexualidade ............. Desenvolvimento Psicossexual na Infância ................. Educação Sexual X Orientação Sexual ........................ Conclusão .......................................................................... Referências Bibliográficas ............................................. O PERFIL DO ORIENTADOR SEXUALNA ESCOLA: SUA POSTURA E SEUS PROCEDIMENTOS 71Resumo ................................................................................ Introdução......................................................................... Quem é o Orientar Sexual na Escola? .......................... Abordagem pedagógica .................................................... Orientação Sexual como Tema Transversal ................ Manifestações da Sexualidade na Escola .................... Objetivos Gerais da Orientação Sexualpara o Ensino Fundamental ............................................ Abordagem com os Pais e com a Comunicade Escolar A Sexualidade e a Mídia .................................................. Conclusão .......................................................................... Referências Bibliográficas ............................................. A EDUCAÇÃO SEXUAL NO ENSINO FUNDAMENTAL .. 99Resumo ................................................................................ Introdução......................................................................... A Educação Sexual na Escola ...................................... Uma Educação Sexual Verdadeira .............................. A Gravidez na Adolescência na Perspectivados Profissionais de Saúde ............................................ Sexualidade Humana: Verdade e Significado ............ O Direito ao Controle à Maternidade ..................... Seleção de Métodos ....................................................... Sexo se Aprende na Escola............................................ Conclusão ........................................................................ 8
  6. 6. Aprender com a SexualidadeReferências Bibliográficas .......................................... A ORIENTAÇÃO SEXUAL SOB O PONTODE V ISTA DA PSICOPEDAGOGIA ...........................113Resumo .............................................................................. Introdução....................................................................... Adolescência e Puberdade ............................................ Definição dos Termos..................................................... Atividades Integradas ................................................... A Escola Ajuda a Romper Tabus ................................... Conclusão ........................................................................ Referências Bibliográficas ........................................... SEXUALIDADE NOS PORTADORESDE NECESSIDADES ESPECIAIS..............................137Resumo .............................................................................. Introdução....................................................................... A Infância… O Outro Ponto de Partida ................... Sexualidade dos Deficientes Mentais ........................ O Adolescente com DeficiênciaMental e sua Sexualidade ............................................. Doenças Hereditárias doMetabolismo e Sexualidade .......................................... O Desenvolvimento Sexo-Afetivono Jovem com Paralisia Cerebral................................. O Desenvolvimento Sexo e Afetivona Síndrome de Down .................................................... Contracepção e Deficiência Mental .......................... Princípios e Prática da Educação Sexual .................. Considerações Finais ..................................................... Referências Bibliográficas ...........................................  9
  7. 7. Aprender com a SexualidadeA IMPORTÂNCIADA ORIENTAÇÃO SEXUALNA FORMAÇÃO DA SEXUALIDADE DACRIANÇARESUMO Toda pessoa deve ser informada sobre o comportamento se-xual para que encontre condições de adaptação ao novo modelode viver, uma vez que desde o nascimento até a senectude o in-divíduo sofre profundas transformações. Para que este processonão leve a anomalias da natureza é necessário que os pais e osmestres falem claramente às crianças, a fim de que estas saibam,desde a idade mais tenra, que não devem contrair certos hábitos.A desorientação e a má informação sobre sexo geram persona-lidades doentias. É preciso corrigir essa distorção, alterando aescala de valores que coloca o sexo como tabu. Integrando o pro-cesso educativo total, a chamada educação sexual desenvolve-sedesde que o indivíduo nasce, através das influências do meio. Seos pais cumprirem o seu dever, o problema da educação sexualna escola será inexistente. Mas, como em geral não o cumprem,o problema existe nas escolas, donde a necessidade de empenha-rem os mestres na realização eficiente de tarefas negligenciadasnos lares de seus alunos e se não de todo negligenciadas, ao me-nos levadas a efeito incompletamente. Palavras-Chaves: Educação, sexualidade, educação, edu-cador, orientação.INTRODUÇÃO Este artigo centra-se no aluno vivo, inquieto e participante,em um educador que não teme suas próprias dúvidas, e em umaescola aberta, viva e ciente de suas funções mediante a sociedade. 11
  8. 8. Paulo César MoreiraNeste sentido, é preciso repensar o processo educacional. É pre-ciso preparar a pessoa para a vida e não para o mero acúmulo deinformações. A postura acadêmica do educador não está garan-tindo maior mobilidade à agilidade do aluno (tenha ele a idadeque tiver). Assim, é preciso trabalhar o aluno como uma pessoainteira, com sua afetividade, suas percepções, sua expressão, seussentidos, sua crítica, sua criatividade. Algo deve ser feito para que o aluno possa ampliar seus re-ferenciais do mundo e trabalhar, simultaneamente, com todasas linguagens (escrita, sonora, dramática, cinematográfica, cor-poral, etc). Neste contexto, inseri-se a sexualidade, que em ter-mos de senso comum, é quase sempre definida como possuindodois atributos essenciais: naturalidade e liberdade. Assim, já quetodos têm sexo e ele é instintivo, pertenceria à esfera da natu-reza; mas, ao mesmo tempo, o sexo é apontado como algo quese concretiza na vida privada, de acordo com escolhas pessoaisexercidas livremente. No entanto, uma análise histórico-culturalsuperficial revela que não há uma atividade humana que tenhasido, ao longo dos tempos, mais condicionada a normas gerais,mais codificadas socialmente que a sexualidade. Não se pode, pois, negar que existe um caráter eminentementesocial nas condutas sexuais e no interesse coletivo que os cercam.Apesar disso é em torno do mito da naturalidade e da liberdadeque se organizam as ideologias sexuais, que se formam e se trans-formam ao sabor dos jogos e das pressões das várias forças sociais.Todos os projetos revolucionários incluem em seu programa aperspectiva de uma maior liberdade sexual, dentro da expectativade uma ampla liberdade para a humanidade em geral. Assim sendo, o objetivo principal deste trabalho é analisar aquestão da educação sexual nas escolas, tendo como base a pes-quisa bibliográfica. Buscou-se abordar a importância da educa-ção sexual, dentro da fase da adolescência, partindo da hipótesede que a ausência de tais informações poderá ocasionar uma sériede problemas aos adolescentes e aos pais, considerando que, paraque haja um desenvolvimento normal da sexualidade, é preci-so que ocorra uma orientação apropriada para os adolescentes,12
  9. 9. Aprender com a Sexualidadeesquecendo os tabus e utilizando uma linguagem adequada aadolescentes.OS OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO SEXUAL De acordo com Bernadi (1985), nas escolas públicas brasi-leiras, pouco se faz em termos de educação sexual. Por educação,em sentido restrito, entende-se todo aquele processo com o qualse molda o aluno de maneira a prepará-lo para viver em harmo-nia com as regras codificadas da sociedade na qual está inserido(Piletti, 1991). Provavelmente a maioria dos educadores está deacordo com esta definição, ou pelo menos age como se estivessede acordo. Isto significaria que se ensina às pessoas, especialmen-te às crianças e aos jovens, que as regras codificadas da sociedadeestão bem como estão, devendo as mesmas adaptar-se a elas. Para Cunha (1988) o objetivo da educação sexual que dizrespeito a todos, centra-se no controle da sexualidade. O com-portamento sexual nas escolas, numa tentativa de compreendermelhor como se articulou, o modelo de transformação a que oseducadores têm submetido seus educandos, sendo que a con-dição conjugal é a única na qual o exercício da sexualidade éconsideração lícito, coloca-se em evidência um problema de au-to-repressão para aqueles que não pertencem aquela condição:jovens e adolescentes, solteiros e noivos, militares, prisioneiros,imigrantes, etc. Naturalmente não é simples convencer milhões de pessoas aviverem em castidade, mas os educadores acabaram encontran-do um bom sistema: dessexualizar o indivíduo. Geralmente aslições ou os “encontros” dedicados à educação sexual percorremdois caminhos: o da informação biológica e do elenco de nor-mas, preceitos morais, juízos sobre o que é lícito. Assim pode-seinfluenciar a postura frente à sexualidade, até que esta seja rejei-tada de maneira mais ou menos radical. Explicar minuciosamente às crianças o ciclo da ovulação, aespermatogênese, a fecundação, o alinhamento do óvulo fecun-dado e seu sucessivo desenvolvimento, eqüivale a fornecer-lhes 13
  10. 10. Paulo César Moreirauma imagem da sexualidade humana não apenas atrozmentefastidiosa, mas também muito próxima aquela das funções re-produtivas animais e vegetais. Muitas vezes uma lição de edu-cação sexual é extraordinariamente semelhante a uma lição debotânica. Mas apesar de tudo permanece sempre, no fundo daargumentação, o mistério do prazer. A dessexualização das crianças e jovens produz, enfim, umfenômeno marginal porém importante para a sociedade conser-vadora: a docilidade e maleabilidade dos educandos. Destruída aidéia do prazer, é fácil impor a idéia do “dever”. Isto é, do sacri-fício, da obediência, da disciplina, da resignação. Reich (op. cit.Bernardi, 1985), escreveu na sua Revolução Sexual: “A revolução não pode ter como ideal a besta de carga ao invés do touro, o capão ao invés do galo. As pessoas já foram besta de carga por tempo suficiente. Os castrados não se batem pela liberdade. Eis porque continua-se astutamente promovendo uma educação sexual castradora e transformando os jovens em tantos outros bois. Assim não se correm riscos”. Este autor argumenta que desde o instante do nascimento acriança é submetida a uma série de constrangimentos praticadoscom violência que são chamados de amor, repetindo o que acon-teceu com sua mãe e com seu pai, com seus genitores, e com osgenitores de seus genitores.A ESTRATÉGIA DA EDUCAÇÃO SEXUAL Qualquer manobra educativa, inclusive no campo sexu-al, funda-se sobre três princípios: os pequenos têm tudo paraaprender, e os adultos tudo para ensinar; os pequenos devemnutrir uma confiança cega nos adultos, independentemente docomportamento destes últimos; a conduta dos pequenos de cor-responder àquela desejada e prescrita pelos adultos. Para manter14
  11. 11. Aprender com a Sexualidadeos limites da benevolência, pode-se deduzir que a presunção dosadultos é verdadeiramente desmensurada. A criança age sem-pre segundo uma lógica sua, mas infalível; o adulto age quasesempre fora da lógica humana, e muitas vezes fora de qualquerlógica (Correio Braziliense, 1996). Em síntese, o adulto quer permanecer o mais adulto possí-vel, e quer que o menor permaneça menor o mais possível. Istovale também para o que concerne à sexualidade. E talvez numamedida ainda maior, pelo simples motivo de que o adulto temmedo da sexualidade infantil e juvenil porque estas colocam emcrise a sua sexualidade que ele adora chamar de madura. Reconhecer de modo concreto, e não abstratamente como secostuma fazer, a sexualidade das crianças e dos jovens, reconhe-cer exigências e direitos, admitir que se trata de uma sexualidadeautêntica e não de uma nebulosa formulação hipotética, signi-fica ter de rever não só a conduta geral frente aos menores, mastambém o próprio comportamento sexual do adulto, a começarpela postura frente ao prazer. Significa recolocar em discussãotoda a fundamentação sexofóbica do nosso sistema, e por issomesmo o próprio sistema (Lima, 1994). O adulto tende a colocar-se como único ser sexuado e ten-de a adiar a sexualização de seus sucessores. A estes, enquantopermanecem na área da infância e da juventude, não só é negadoo exercício da sexualidade mas, até onde é possível, a própriasexualidade. Certo, aos adolescentes não se nega uma identidadesexual, mas freqüentemente procura-se problematizá-la, diluí-la em mil interpretações “científicas”, fazer dela alguma coisacomplicadíssima e, “imatura” (Tiba, 1986). Assim o adulto terásempre um modo de marginalizá-la e reprimi-la, seguindo umateoria educativa qualquer. Poderá, em suma, removê-la, distan-ciá-la e, na prática, ignorá-la. Quanto às crianças a coisa é aindamais simples: se reconhece, mesmo que apenas verbalmente, asua sexualidade, e então passa-se a categorizá-la, a enquadrá-laem um esquema qualquer, a filosofar sobre. Na maior parte dos casos não existe nenhuma intenção deeducar para o exercício da sexualidade, mas unem-se todos os 15
  12. 12. Paulo César Moreiraesforços numa educação para a repressão da sexualidade. O queé seguro, é que hoje não se faz nada em termos de uma educaçãosexual autêntica. Apenas fala-se dela e é o bastante. E quemmais fala, menos faz.OS RESPONSÁVEIS PELA EDUCAÇÃO SEXUAL Os pais fundamentam a instituição familiar e propiciam aosseus filhos a participação da instituição escolar, que é um dos di-reitos da criança, o de receber educação e instrução. A instituiçãofamília está deixando de educar sexualmente seus filhos, passan-do a responsabilidade para a escola. Isto ocorre devido a falta decontato dos pais com as crianças. Esta preocupação com a educa-ção sexual tem levado os orientadores educacionais a trabalharempara a formação integral do educando. Uma das grandes preocupações dos pais é a vida sexual dosfilhos. Só que hoje em dia, ela não é mais tratada da mesma for-ma que há algumas décadas, quando este assunto era resolvidocom uma grande dose de repressão e as crianças e jovens erammantidos no desconhecimento e na ignorância. Embora nem todos os pais consigam ainda conversar sobresexo com os filhos, mas já aumentou bastante o número dosque se sentem à vontade para esclarecê-los e orientá-los. O idealseria que todos os pais tivessem liberdade consigo próprios parapoderem transmitir essas informações fundamentais aos filhos,mas quando não é o caso, é feita uma transferência de respon-sabilidade para terceiros. A este respeito, Zagury (1996, p. 168) afirma que: “Algumas pessoas acham perigoso conversar porque acreditam que desperta o adolescente precocemente, entretanto vários estudos recentes em escolas inglesas que tinham em seu currículo a educação sexual, verificaram que seus alunos não16
  13. 13. Aprender com a Sexualidade tiveram iniciação sexual mais precoce que os outros, ao contrário, nessas escolas a iniciação dos jovens ocorria mais tarde. É muito importante que entendamos que a adolescência é exatamente o momento em que há o despertar natural do sexo. É da vida, é da idade. Os hormônios estão a mil, a pele está elétrica, a beleza da idade atrai. É muito importante, portanto, conversar, conversar, conversar, conversar...esclarecer – para diminuir os riscos.” A tese de Zagury é reforça pelo Schubert (1993, p.28), se-gundo o qual “A escola é o cenário mais apropriado para o desenvolvimento de um programa de educação Sexual porque, além da ação direta que exerce sobre os educandos, além da capilaridade com que atua na sociedade, indiretamente, incentiva a própria família a desempenhar o papel que de direito e dever, lhe é destinado na educação integral do jovem.” Outra colocação interessante a este respeito é defendida porSuplicy (1988, p. 33), que diz: “Muitos pais se acham inferiores para conversarem sobre sexo com seus filhos a nível cultural, pois foram educados em outra época e acham que a educação que receberam não foi tão boa para eles e desejam que aconteça de outra forma para com seus filhos”. Em suma, a escola e a família devem completar-se na edu-cação sexual dos seus educandos proporcionando o total conhe-cimento sobre sexualidade de maneira que não haja constrangi- 17
  14. 14. Paulo César Moreiramento e sim um aperfeiçoamento da educação e da orientaçãoque lhe é devida. Quando se parte da convicção de que é necessário educar acriança para que se comporte bem, pressupõe-se evidentementeque, sem educação, ela se comportaria mal. O educador apre-senta, de fato, esta característica fundamental: ele é aquele en-carregado de corrigir a natureza humana. Mas por outro lado,contraditoriamente, ele é aquele que defende a natureza humanada corrupção. Deve-se deduzir que para o educador o educando é umamistura de perversão e inocência. Sobretudo no que toca à sexu-alidade a criança é seguramente perversa, posto que se deixadasozinha executaria ações reprováveis e seria arrastada pela libi-do e pela destruidora procura do prazer. Mas a criança é tam-bém inocente, já que não conhece ainda a torpe licenciosidadedo mundo. O educador se debate entre a criança luxuriosa e acriança assexuada e tende a acentuar o vício e a negar a sexuali-dade dos pequenos. A antilógica do educador sexual esbarra frequentemente noabsurdo (Cunha, 1988). Constata-se diariamente que quem sededica à educação sexual preocupa-se sobretudo, em negar a se-xualidade, tanto a sua como a dos outros. O educador não deve,por exemplo, envolver-se afetivamente em seu trabalho, não devedeixar que sua fraqueza frente às tentações da carne suscite dú-vidas, deve permanecer distante e invulnerável. Seus costumesdevem ser íntegros, bem como severos, de forma a poder conse-guir a aprovação de todos. O educador deve manter-se acima dequalquer suspeita, portanto espoliado de propensões eróticas. Não basta que o educador tenha eliminado a própria sexu-alidade. Espera-se dele que sufoque também a sexualidade doseducandos. Desde que fale sobre autonomia e fisiopatologia estátudo bem, e melhor ainda se expuser normas que confundam asexualidade (Cunha, 1988). Dificilmente se tolera que o educa-dor introduza um discurso sobre a essência do problema, que é obinômio prazer-amor. Uma sexualidade agradável, alegre, lúdicae espontânea traz muito medo porque através dela todos conse-18
  15. 15. Aprender com a Sexualidadeguem perceber, ainda que nebulosamente, que a desestruturaçãode todo o aparelho social hierarquizado começa aí. Ao educador cabe propor uma sexualidade biologizada,anódina e sombriamente enfumaçada pelo complexo de culpa epelo medo. Por outro lado deve apresentar-se como defensor doeducando contra o perigo sexual, que pode ser de ordem física,moral ou psíquica, segundo as interpretações preferidas por cadaum. No mais das vezes o educador está sinceramente conven-cido de que esta configuração, imposta pelo clima cultural, é acorreta. Consequentemente, age apregoando a fuga do prazer,que termina pela conquista de um bem imerso indefinidamenteem um futuro remotíssimo. Em substância, o educador sente-se quase sempre investi-do do dever de estabilizar a ordem em que vive, qualquer queseja essa ordem. Os prudentes reformismos, em geral propostosmuito mais a nível teórico do que a nível comportamental, são asua arma. Ele é um moderado, não só nas ações, mas sobretudonas aspirações. A família realiza sua obra antieducativa quase automatica-mente, por uma inclinação intrínseca, independente de doutrinasespecíficas ou métodos particulares. Os acontecimentos históri-cos e sociais que conduziram ao nascimento da família nucleartraçaram-lhe ao mesmo tempo uma postura característica frenteà sexualidade (Bernadi, 1985). A paixão pela pedagogia, por exemplo, encontra no am-biente escolar uma oportunidade de penetração maior do queaquela oferecida pela família, que permanece mais fechada eprejudicialmente hostil ao universo extracaseiro. As orientaçõeseducativo-pedagógicas mais diversas encontram um terreno fer-tilíssimo. Acontece que tais orientações são diferentes apenas notocante a certos aspectos táticos, algumas vezes bastante secun-dários, enquanto a substância permanece igual em todas. Como a família, a escola é uma instituição que tende a con-servar a si própria. Mediante o uso de professores, horários, pro-gramas, matérias de estudo, livros de texto, classificações de tiposeletivo, providências punitivas, etc, a escola submete o aluno 19
  16. 16. Paulo César Moreiraa um condicionamento maciço cujos objetivos praticamente sejustapõe aos da família: respeito pela autoridade, obediência, re-petição de uma determinada fórmula comportamental, aspira-ções por valores pré-estabelecidos. Já foi dito que as metodologias pedagógicas não deveriamadequar-se ao sistema, mas ao contrário, deveriam trazer à luzas contradições desse sistema. Bem, a escola faz de tudo paraencobrir as contradições alinhando-se junto das posições defen-didas pelo sistema. E, solicitamente, trabalha para que o sistemapermaneça vivo sem mudanças qualitativas. O colossal engenhopedagógico funciona pessimamente no tocante à reais necessi-dades dos alunos (e dos professores) mas, como aparato con-dicionante e conservador, é impassível de crítica (Tiba, 1994).Se a criança, apesar da família aonde possui alguma coisa dasua potencialidade criativa e da sua autonomia, a escola trata deeliminá-la. Ao que parece a função específica da escola é esta: manteros jovens o mais possível isolados na condição de dependên-cia econômica, cultural e moral; por outro lado fazer com que,quando esse período necessariamente acabe, o jovem tenha en-fim se tornado tão semelhante ao adulto que não crie conflitose problemas. Seguindo um raciocínio apenas superficialmente lógico,poder-se-ia dizer que os jovens são preparados para um mundoque existe e ao qual bem ou mal devem adaptar-se, e que seriainsensato cultivar a idéia de um mundo feito de jogo, de prazer,de fantasia e de invenções. Consideração superficial porque fun-dada sobre o pressuposto de que não é possível uma organiza-ção social diferente daquela que conhece-se, que aceita-se e quemantém-se em vigor, e que portanto o único caminho sensatoé o do consentimento à realidade presente, consequentemente oda preparação para o desenvolvimento de funções que a própriarealidade confia aos indivíduos. A escolarização, diretamente ligada à manutenção e aoreforço da ordem social existente, age de modo a defenderos esteios primários dessa sociedade e, entre estes, a insti-20
  17. 17. Aprender com a Sexualidadetuição familiar. A empresa requer duas ações: suprimir todogesto sexual que não esteja orientado à fundação da famíliae remover os impulsos e os desejos que possam sugerir o atosexual cujo fim não seja um matrimônio codificado. Daí de-rivam duas regras escolares: a proibição absoluta de qualquercomportamento sexual e a desqualificação da sexualidade. Istosignifica a negação apriorística e intransigente da experiênciados alunos e a programação de uma “educação” que esvazie asexualidade de todo conteúdo emotivo, lúdico e gratificante(Correio Braziliense, 1997). A escola, em outros termos, opõe-se com meios notavel-mente repressivos e freqüentemente brutais às expressões dasexualidade infantil. Ao mesmo tempo tenta fornecer uma ima-gem desagradável e distanciada da sexualidade valendo-se deinformações, algumas vezes francamente distorcidas, dignas deuma sala de dissecação anatômica, ou de um laboratório de fi-siologia, ou de uma clínica dermossifilopática. Acredita-se serincontestável o fato de que certas ilustrações utilizadas na escolapela assim chamada educação sexual sugerem uma autópsia ouum tratamento de doenças venéreas. Em resumo, a escola é dessexualizada e dessexualizante. Aaceitação de experiências sexuais em seu interior, ou a aceitaçãode coloridos eróticos em seus programas, é considerada poucomenos que criminosa. Como então, é possível abordar a sexu-alidade na ausência de qualquer traço de sexualidade? De fato,o que no perímetro da escola é tido como educação sexual nãoé outra coisa senão uma informação desencorajante e enfado-nha acompanhada de normas que visam salvaguardar as insti-tuições. Que os posicionamentos políticos de direita posicionem-se a favor de uma educação sexual mentirosa e castradora podenão surpreender. Está bastante claro que o conservador recusaas transformações que um estímulo libertador, como a educaçãosexual propriamente dita, inevitavelmente promove. Mas sur-preende o fato de que até os movimentos progressistas, mesmonaqueles que prognosticamos como minoritários, tomem parte 21
  18. 18. Paulo César Moreirano moralismo sexofóbico. Passaram sessenta anos desde que osdecretos de Lenin e os escritos de Trotsky lançaram um ataquedecisivo à desumana ordem zarrista desmantelando a instituiçãofamiliar e as bases da servidão sexual, e agora estamos nova-mente às voltas com os fetiches que os primeiros revolucionáriosacreditavam ter liquidado (Cunha, 1988). Já em 1923 o sistema soviético começou em explícito mo-vimento de retirada das posições conquistadas em 1917/18 edepois, entre 1933/35, se posicionou declaradamente na área damais grosseira repressão: defesa extremista da família e do ma-trimônio, guerra à contracepção, condenação indiscriminada doaborto, campanha demográfica, negação da sexualidade juvenil,etc (Cunha, 1988). A reviravolta dos dirigentes moscovitas nãoesqueceu de condicionar pesadamente os comunistas de todo omundo. Sobre esta estrada alguns supostos progressistas ainda mar-cham. É bem verdade que, faz pouco tempo, surgiu uma publi-cação na qual alguns intelectuais de esquerda propunham cora-josamente uma nova linha de pensamento e de ação no tocanteà política sexual. É também verdade que a defesa do divórciodeu-se em um clima de aberta e unânime sublevação das esquer-das contra a repressão sexual. E é enfim verdade que faixas cadavez mais amplas do setor laico e progressista vão assumindo,nos confrontos com a sexualidade, uma postura nova, aberta elibertadora. Mas ainda estamos bem longe do momento no qual as rei-vindicações pela liberdade sexual façam parte integrante da lutapolítica. Tanto no topo como na base dos movimentos de tra-balhadores existem ainda pessoas que rejeitam firmemente tudoaquilo que, para elas, é “anarquia sexual” (Cunha, 1988). Muitosentre os mais acesos revolucionários permanecem, dentro da vidadoméstica, implacáveis conservadores. Frente à instituição matrimonial, a organização de uma fa-mília fechada e inabalável, à hierarquização das relações intrafa-miliares, à chamada fidelidade conjugal, à repressão da sexuali-dade pré-matrimonial, etc., muitos abaixam a cabeça, reverentes.22
  19. 19. Aprender com a SexualidadeAssim, a educação sexual que o filho de um operário , de umsindicalista ou de um líder político recebe não é muito diferentedaquela que recebe o filho do capitalista, do burguês médio, doreacionário ou do fascista (Cunha, 1988). A idéia de que a liberdade consiste na faculdade de realizaros próprios desejos, incluindo os sexuais, e portanto de satisfazeras próprias necessidades não encontra consenso expressivo nemmesmo entre os proletários politicamente bem empenhados.Parece que para um bom número de militares a liberdade devebrotar de uma determinada ordem econômica, e só dela. Emoutros termos, parece que poucos ousam pensar que a economiadeveria estar a serviço da necessidade-desejo, e não vice-versa. A educação sexual esterilizante e moralista que os pretensosrevolucionários concedem aos próprios filhos e aos próprios alu-nos é na verdade a conseqüência, lógica e previsível, de um medotipicamente reacionário: o medo de perder o poder (Cunha,1988). A sexualidade, repetimos ainda uma vez, é inimiga detoda forma de poder, e portanto é temidíssima por aqueles quequerem exercitar uma forma qualquer de domínio sobre quemquer que seja. O livre fluir da sexualidade, que é procura de prazer e amor,é inconciliável com a opressão, com a disciplina militarista, como ódio, com a perseguição, com a felicitação do sacrifício, coma “ sublimação” dirigida à conquista. E são estes os elementosdo que se costuma chamar de luta política. Só uma sublimaçãoproveniente de uma moral sexual cuja rigidez é inédita permi-tiu as poderosas criações do trabalho científico, artístico, etc., daraça branca. A humanidade aprendeu a ser feliz não mais através da har-monia do seu próprio sistema com a natureza, mas a ser felizenquanto a sua vontade consegue dominar e modificar a nature-za. O trabalho, e portanto a nossa ética do trabalho, tornam-seo símbolo deste domínio e desta vontade de mudança. O poderdo partido, que se exprime no domínio sobre homens e coisas,indubitavelmente fascina não esteja realmente longe a hipótesede alguns, segundo a qual o Partido poderia assumir o papel de 23
  20. 20. Paulo César Moreiraum genitor autoritário e protetor que concedesse defesa e apoioem troca de disciplina e submissão (Cunha, 1988). Mas nem todos os militantes de esquerda estão dispostos aomitir uma realidade deste gênero. A educação sexual repressi-va, ministrada por alguns dos chamados progressistas às novasgerações, baseia-se em grande parte em motivações de outra na-tureza. Motivações que notadamente assemelham-se a pretex-tos o mais das vezes inconsistentes. Diz-se por exemplo, que asexualidade - qualificada frequentemente como licenciosidade,vício, libertinagem, depravação, luxúria, devassidão, etc. - debilitaa personalidade do revolucionário e ao afasta da luta de clas-ses, além de ser um impulso burguês que deve ser rejeitado comabsoluta determinação. Sustenta-se que a revolução precisa debraços e de cérebros, precisa de massa a mais numerosa possível,e que por isso o verdadeiro proletariado deve ser político, devedistanciar-se do prazer sexual como um fim em si recusandoqualquer forma de contracepção. A procriação dos filhos em ritmo contínuo, proclama-se,é um dever sagrado daqueles que militar em um movimentopolítico progressista. Afirma-se que a liberação da sexualidade,afastando das fileiras inovadoras os componentes tradicional-mente sexofóbicos como os católicos, acabaria por despedaçara frente “revolucionária”. Estabelece-se que o revolucionáriodeve ser castro, virtuoso, ascético e assexuado, e que ao mesmotempo deve dar as costas às críticas e às ciladas do maldoso(Cunha, 1988).A ÉTICA NA ORIENTAÇÃO SEXUAL Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moralsexual, isto é, que a sexualidade deve ser gerida basicamentepor um código moral que lhe seja próprio e que é diferentedaquele destinado a guiar outras expressões humanas, como porexemplo a ação política ou econômica. Consequência disso éque uma determinada operação, suponhamos a procura nãofinalizada do prazer, pode ser lícita e até louvável em um certo24
  21. 21. Aprender com a Sexualidadecampo - e condenável no campo sexual. descobrir a solução deum problema científico ou deitar-se em um gramado para to-mar sol são coisas que dão prazer, frequentemente um prazerque é fim em si mesmo e sobre o qual ninguém tem nada a di-zer. Mas todos têm muito a dizer se satisfação, desvinculada defins procriativos, sociais ou de outro gênero, é procurada a áreada sexualidade (Tiba, 1986). As normas éticas reservadas ao exercício da sexualidade sãosugeridas, ou impostas, em uma perspectiva de relatividade e deaderência às necessidades de um dado contexto social. Isto pa-receria lógico se o livre fluir da sexualidade, não limitada porordenações particulares, causasse dano àquele determinado tipode ordem comunitária e, naturalmente, se este último fosse satis-fatório a ponto de ser conservado inalterado. Eis os dois postulados sob os quais se funda a ética sexual:não há hipótese, ao menos por ora, de um sistema melhor que oatual, e tal sistema não deve deteriorar-se em contato com umcostume sexual liberatório. Bem, a segunda parte do discurso éprevisível, mas a primeira, o contrário, oferece muitos motivospara perplexibilidade. Para sustentar a necessidade de uma moralsexual ocorre entretanto que ambas as afirmações são reconhe-cidas como plenamente válidas, e é extremamente nesta direçãoque se movem os moralistas: as consequências de uma liberaçãoda sexualidade são apresentadas como ruína, caos e regressão. A desintegração do sistema é interpretada de maneira pu-ramente negativa, e definida como temível em qualquer de seusaspectos. Em suma, cada solução alternativa àquelas vigentes éconsiderada um prejuízo, algumas vezes dramático, e afirma-seque uma sexualidade livre conduziria a esse prejuízo da con-dição humana. Vem daí a imposição de uma moral sexual es-pecífica e relativa, própria para o sistema existente, e portantoa negação de uma ética global e estável que considere a gestãoda sexualidade no nível de qualquer outro comportamento hu-mano, independente das exigências do próprio sistema. Fala-seentão abundantemente de ética sexual e muito pouco de éticapura e simples, mesmo porque esta última opõe-se a manobras 25
  22. 22. Paulo César Moreiralimitativas que distorçam sua essência e se traduzem em umaopressão da pessoa. A moral sexual poderia portanto, e não semrazão, ser chamada de imoral. Mas ela é apresentada como umgrande sinal de civilidade e como um instrumento indispensávelde progresso (Cunha, 1988).A SOCIEDADE E A FORMAÇÃO SEXUAL A observação da realidade atual poderia levar à conclusão deque o homem, conscientemente, trabalha com prodigiosa perse-verança para a própria infelicidade. Não acredita-se que a maiorparte da pessoas seja realmente infeliz. Certamente ninguém,mesmo com um medíocre nível de consciência, quer ser infeliz.Provavelmente o seria se não existisse o fenômeno do hábito.Mas sabe-se que o hábito existe, e que aos poucos o homem seadapta a quaisquer condições - ou quase - a ponto de tolerar, eaté mesmo desejar, aquilo que em um primeiro momento lheparecia doloroso e opressivo. É o que acontece com a sexualida-de: de qualquer maneira o homem habituou-se a uma repressãoque, objetivamente, poderia parecer pura loucura. Mas se é verdade que não se procura conscientemente a infe-licidade - ao contrário, procura-se evitá-la - não é menos verdadeque se faz de tudo também para evitar a felicidade. Esta, como o seucontrário, brota das grandes emoções. Ora, como já foi sutilmentesugerida, o nosso tipo de cultura impõe um severo autocontrole queimpede que o efeito das próprias emoções ultrapasse cerros limites.No costume atual tudo é orientado para a produtividade, e a dor, oprazer, o ódio, o amor, o medo, e todas as outras emoções, violentas,não favorecem a eficiência produtiva, mas lhe impõe obstáculos. porisso a boa educação burguesa tende a neutralizá-las. Para isto já não se vale do meio grosseiro da repressão ex-terna, ou vale-se pouco, preferindo recorrer a um instrumen-to mais eficaz de autocontrole, isto é, a repressão interiorizada.Educam-se as pessoas para que afastem toda a emoção intensa.O cidadão de bem não deve nunca ser perturbado pela emoção.Em outras palavras, ela não é tanto reprimida quanto negada.26
  23. 23. Aprender com a Sexualidade De todas as fontes de emoção sem dúvida parece que amais importante é a sexualidade, a qual em consequência étambém a mais tenazmente recusada. A condição humana se-ria portanto esta: o indivíduo aspira à máxima produção debens de consumo e contemporaneamente ao acúmulo máximode meios de aquisição, e de ambas as coisas espera o que acre-dita ser felicidade, mas que da felicidade é apenas um substi-tutivo decadente, geralmente chamado bem-estar. Mas paraobter produção e lucro ele deve ser eficiente, e para ser eficientedeve negar a emoção. Em particular aquela de natureza sexual,que é a menos produtiva e a mais dispersiva. Com isso ele negao amor-prazer, e portanto a própria e autêntica felicidade, ena ilusória convicção de encontrar uma alegria que consideramais verdadeira, porque foi educado para isso, entrega-se a umtrabalho alienado que lhe fornece dinheiro para comprar bensque ele mesmo produz. Não parece portanto uma procura da infelicidade, mas umarecusa da felicidade, profunda, inebriante, total, capaz até de darmedo. O homem tem em do desta felicidade: é uma coisa estra-nha frente aos seus costumes e ele não foi educado para gozá-la. O prazer que lhe e familiar, e praticamente o único que eleestá em condições de apreciar, é o que a civilização industrial lheoferece: a posse de objetos inanimados. A educação sexual é ma-nifestamente dirigida a esta condição. A biologização e o sexocomo mercadoria, unidos a uma normativa entre as mais rígidasque a sociedade jamais experimentou, estão endereçadas a um sóobjetivo: relegar a sexualidade as margens da existência humana ereduzí-la a uma função secundária, programável e mediocremen-te atraente. Mesmo atraente do que a compra de um carro, deuma televisão a cores ou de um bilhete para a partida de futebol.CONSIDERAÇÕES F INAIS Pode-se afirmar que destina-se a pais e mestres, a responsa-bilidade da organização de programas curriculares da educaçãosexual, haja vista que a prática e o exemplo, ilustrados pelo com- 27
  24. 24. Paulo César Moreiraportamento e atitudes dos pais e mestres, têm mais importânciaque os simples preceitos. Assim sendo, natureza e o alcance das respostas às perguntasdevem ser determinados pelo estado de desenvolvimento físico,afetivo e intelectual da criança ou do adolescente, bem assimpela própria natureza das perguntas feitas. Por isso, a educaçãocognitiva deve enquadrar-se no meio local e nacional, cultural ereligioso e harmonizar-se entre família e a escola. Nas escolas, a educação sexual deve ser progressiva e integra-da, pois a necessidade de constantes repetições é muito naturalnas crianças. Os referidos comportamentos e atitudes dos paise mestres devem caracterizar-se pela naturalidade: a educaçãosexual é tanto melhor quanto menos aparente. Deve enquadrar-se natural e discretamente na vida doméstica e escolar correntes.Só aparece demais quando é imperfeita. Cabe ao educador perceber que o sexo é um todo que ca-racteriza as pessoas em sua estrutura corporal, sentimental eemocional, isto é, no afetivo e principalmente em seu comporta-mento. Por estes motivos, a responsabilidade de transformaçãodos valores e conceitos morais é de toda a sociedade, engloban-do as principais instituições como a família, a escola, a igreja, oestado e outras. A aquisição destes valores ocorre justamente nainfância e na adolescência, e nestas fases que a personalidade doindivíduo é estruturada e definida.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBERNADI, Marcelo. A Deseducação Sexual. 2. ed. São Paulo:Summus, 1985.CORREIO BRAZILIENSE. Jogos e Debates para a Sexuali-dade. Caderno Brasil. Brasília, 23 de Junho de 1996._________. Sexo no Currículo Escolar. Caderno Brasil. Brasília,22 de Junho de 1997.CUNHA, Maria Carneiro da. Comportamento Sexual: A Re-volução Que Ficou no Caminho. Brasília: Nobel, 1988.28
  25. 25. Aprender com a SexualidadeLIMA, Helena. Educação Sexual para Adolescentes: Desven-dando o Corpo e os Mitos. 3. ed. São Paulo: Iglu, 1994.PILETTI, Nelson. Sociologia da Educação. 9. ed. São Paulo:Ática, 1991.SUPLICY, Marta. Sexo para Adolescentes: amor, homossexua-lidade, masturbação, virgindade, anticoncepção, AIDS. São Pau-lo: FTD, 1988.TIBA, Içami. Adolescência: O despertar do sexo: um guia paraentender o desenvolvimento sexual e afetivo nas novas gerações.2. ed. São Paulo: Gente, 1994.TIBA, Içami. Puberdade e Adolescência: desenvolvimentobiopsicossocial. 5. ed. São Paulo: Agora,1986.ZAGURY, Tânia. O Adolescente por ele mesmo. 7. ed. Rio deJaneiro – São Paulo: Record, 1996. 29
  26. 26. Aprender com a SexualidadeORIENTAÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUALRESUMO O presente artigo tem por tema a orientação e a educa-ção sexual como processos de fazem parte da educação geraldo indivíduo desde os seus primeiros anos de escolarização e,principalmente, durante a puberdade. Desde as primeiras etapasda vida intra-uterina, possui a totalidade dos órgãos necessáriospara a sua existência, mas somente do nascimento em dianteé que começam a atuar em suas funções vitais. Assim aconte-ce com o aparelho digestivo, com os pulmões e com os órgãosdos sentidos. Os órgãos genitais existem bem constituídos norecém-nascido e na criança, mas funcionalmente estão apaga-dos, pois terão de esperar vários anos para desempenhar o papelpara que foram criados: a reprodução da espécie. Então, durantea primeira época da vida, a criança deve acumular energias parao seu crescimento e desenvolvimento harmônico, até chegar àverdadeira diferenciação sexual, pois o menino se distingue damenina simplesmente pelos órgãos genitais. É o despertar davida sexual. Palavras-Chaves: Orientação Sexual, Educação Sexual,Escola, Sociedade.INTRODUÇÃO A puberdade representa o início de uma série de atividadesorgânicas e psíquicas que, tendo permanecido latentes na criança,requerem um lento processo evolutivo, durante vários anos, parapoder manifestar-se. Para que este processo não leve a anomalias 31
  27. 27. Paulo César Moreirada natureza é necessário que os pais e os mestres falem claramenteàs crianças, a fim de que estas saibam, desde a idade mais tenra,que não devem contrair certos hábitos. No terceiro Congresso Internacional de Higiene Escolar, ce-lebrado em 1910 em Paris, tratou-se, com a máxima atenção da“Iniciação Sexual”, reconhecendo-se a necessidade de as criançasde ambos os sexos conhecerem, desde os primeiros anos, noçõesde tudo que se refira à sexualidade. Os congressistas se dividiramem dois grupos, o primeiro sustentava que os mestres e mestrasdeveriam encarregar-se dessa tarefa; o outro que essa iniciaçãodeveria ser confiada aos pais. A desorientação e a má informação sobre sexo podem gerarpersonalidades doentias. É preciso corrigir essa distorção, alte-rando a escala de valores que coloca o sexo como tabu. Inte-grando o processo educativo total, a chamada educação sexualdesenvolve-se desde que o indivíduo nasce, através das influên-cias do meio. Deve ser realizada paulatinamente, mediante a formação dehábitos sadios e atitudes de equilíbrio e honestidade, tendo suasprimeiras raízes no lar, onde os exemplos de respeito mútuo,sinceridade, autocontrole e elevação moral deverão proporcio-nar clima favorável à eclosão da afetividade bem dirigida e àsatisfação natural das curiosidades sexuais, de modo oportunoe esclarecido sem repressões desorientadoras e traumatizantes,capazes de provocar desvios e complexos. Os pais e responsáveis quase nunca se atrevem a dar explica-ções sobre tal assunto, que lhes parece escabroso. A maioria de-les, graças a sua educação piedosa, consideram a ignorância comomelhor garantia de pureza. É preciso recorrer às ciências naturaispara uma instrução lógica e gradual, capaz de preparar uma me-nina ou um rapaz para estar conforme as regras, sem se afastar dasexigências de ordem moral. É no seio da família que se pode dara educação mais fácil e eficaz. Se os pais cumprirem o seu dever, oproblema da educação sexual na escola será inexistente. Mas, como em geral não o cumprem, o problema existe nasescolas, onde a necessidade de empenharem os mestres na reali-32
  28. 28. Aprender com a Sexualidadezação eficiente de tarefas negligenciadas nos lares de seus alunose se não de todo negligenciadas, ao menos levadas a efeito in-completamente.OS INSTRUMENTOS DA EDUCAÇÃO SEXUAL Pode-se legitimamente suspeitar que o homem serve-se daeducação sexual para o mesmo fim. E, vice-versa, pode-se suporque o instrumento primário da educação sexual seja a repressão.Esta educação deveria liberar da angústia de uma sexualidadefrustrada e aviltada, valorizando seus conteúdos positivos. Maseis aí a mais assombrosa mistificação. Para os educadores os as-pectos positivos da sexualidade estariam na sua estabilizaçãoinstitucional e na constituição da família, na fidelidade perpétua,na procriação e assim por diante. Ninguém, tem claro para si quea substância da sexualidade é o desejo, e que o resto é artificiosoe supra-estrutural. Não existirá jamais a liberação da angústia senão existir a liberação do desejo. Mas o desejo não consegue selibertar, ao contrário, é sufocado com muito cuidado, desfrutan-do-se para isso dos mais variados pretextos. Assim, a repressão sexual parece realmente constituir a linhamestra da educação sexual. É verdade que hoje, pelo menos porparte dos mais corajosos, toca-se em argumentos consideradosabsolutamente indecentes até há poucos anos, como a mastur-bação, a homossexualidade, ou as relações pré-matrimoniais,mas se insiste sempre no fato de que os desejos que originamestes comportamentos são desejos insanos e reprováveis, que porisso devem ser dominados e possivelmente sufocados. Ceder aodesejo, ou à chamada paixão, é coisa tida como torpe e bestial.Os limites do discurso sobre a sexualidade foram alargados, masapenas em uma dimensão ilusória. Sua rigidez não foi quali-tativamente alterada. Lá onde consente-se o desejo, começa aimoralidade e a depravação. A conseqüência lógica e inevitável da repressão do desejo éa sublimação: se o desejo sexual deve cair sob a proibição, é claroque ele deve ser transmutado em outros tipos de desejo. Não se 33
  29. 29. Paulo César Moreirapode impedir o adolescente de desejar alguma coisa, mas pode-se condicioná-lo a desejar coisas diferentes do que o exercíciode sua sexualidade. Por exemplo: a conquista científica, a criaçãoartística, a afirmação esportiva etc. É a uma tal mudança no cur-so do desejo que dá o nome de sublimação. É preciso deixar bemclaro um aspecto fundamental: ninguém está querendo sustentarque a sublimação deva ser negada. Cada ser humano pode e deveexprimir-se de várias maneiras, e não apenas mediante uma sim-ples e direta atividade sexual. O que se deve rejeitar é o impériouniversal e constante da sublimação sobre a pura sexualidade, odesvio habitual de impulsos sexuais para objetivos não sexuais. Desventuradamente é mesmo esta a política da educaçãocorrente: nas escolas convencer os jovens a adiar, não se sabe atéquando, a satisfação do seu erotismo, isto é, de sublimações quevão do estudo ao esporte, da arte ao bom comportamento, doserviço militar às várias ocupações recreativas. Não é necessárioser muito perspicaz para compreender que esta técnica pretendeimprimir na cabeça do jovem a idéia de uma contradição, deuma fratura entre a sexualidade, de nível inferior, e a sublima-ção, de nível superior. Está formado o sólido dualismo: de umlado o espírito, a razão, a cultura, etc., que são coisas “puras”, ede outro o instinto, a paixão, o prazer, que são coisas impuras.A alma sobre o teto, o sexo no porão. Parece patente que oseducadores procuram, desta maneira, chegar a uma dessexuali-zação dos educandos e teme-se que em muitos casos consigam.Deve-se dizer que nunca foi encontrado uma sexofobia tão in-transigente e obstinada como nos jovens pertencentes a certosgrupos integralistas de características absolutamente católicas.Não encontrou-se nem mesmo entre adultos mais reacionáriose conservadores. Um fenômeno um tanto quanto desconcertante, caracterís-tico do momento histórico em que vive-se, é a transferência daenergia vital humana para objetos sem vida. A tecnologia tornou-se uma espécie de competidora da sexualidade. Não se é capaz degozar, mas habilitadíssimos a criar máquinas produtoras de cifras.Nesta matéria se é perfeccionista e obstinado, talvez até mestres34
  30. 30. Aprender com a Sexualidadeinigualáveis. Inútil dizer que a educação sexual também se valeamplamente deste mito da perfeição tecnológica, mostrando aosjovens (e aos que não são mais jovens) como uma louvável con-tribuição ao progresso da humanidade, que o avanço tecnológicodesancorado da energia vital, e portanto do amor, possa produziro extermínio atômico, a guerra química e a bacteriológica, é umdetalhe que se prefere negligenciar. O encantamento pela técnicaé um potente fator de coesão dentro da perspectiva da conservaçãodo atual sistema. Mas a verdade é que não se consegue apagar os instintos.Antes, consegue-se o oposto, isto é, a repressão dos instintos.Por esse motivo a educação sexual, fundada largamente sobre asublimação, em especial sobre a sublimação científico-tecnoló-gica, acaba por sair da área da comunicação afetiva para entrarem uma área de “objetividade” isolada e fria, tornando-se comisso mais estéril e dessexualizante. De qualquer forma, o motivo dominante da educação sexualpermanece sendo a repressão. A repressão, mais ou menos decla-radamente percorre os caminhos da sublimação, do tipo “cientí-fica”, mas apoia-se sobretudo nos meios eficazes da chantagem.Em uma sociedade com fortes proibições sexuais, a autoridadeconsolida-se também pelo fato de ter a possibilidade, sobretu-do na forma religiosa, de novamente liberar os homens de umaparte de seu complexo de culpa. O alívio que advém está neces-sariamente conectado a uma mais forte submissão e devoção aessa autoridade. Em outros termos, estimula-se artificialmente no homemcomplexos de culpa, ligados à sexualidade, dos quais o homempode se liberar desde que lhe submeta-se à autoridade, e logo àrepressão que a autoridade lhe impõe e à própria mortificação. Amorte deve ser aceita para salvar-se. “A educação para a aceitaçãoda morte introduz na vida, desde o princípio, um elemento decapitalização e submissão”. Implícita ou explicitamente, coloridacom expressões confusas ou abertamente proclamada, esta é a tra-ma envolta na ética sexual que fornece à operação educativa amatéria-prima para a reformulação de normas e preceitos. Uma 35
  31. 31. Paulo César Moreiraética que, na verdade, parece pouco moral. Uma ética que temcomo objetivo apenas a conservação e a salvação do matrimônioinstitucionalizado, a garantia de propriedade recíproca dos cônju-ges, a fidelidade coagida e o autoritarismo intra e extrafamiliar.AS FALSAS PALAVRAS O terreno sobre o qual prospera a falsa educação sexual é oda hipocrisia. Em público cria-se uma imagem da própria se-xualidade que não é verdadeira, e ela é apresentada como umatrama bem ordenada de relações preestabelecidas e codificadas.Mas na privacidade aceita-se tranquilamente aquelas desordens”que oficialmente são recusadas como perversão, desvio, depra-vação, e assim por adiante. Um cidadão médio pode ter umaamante, mas não aceitará nunca colocar em discussão a fidelida-de conjugal. A cidadã média pode ter uma libido normal e porisso procurar alguma satisfação não necessariamente ortodoxa,mas frente às pessoas representará sempre o papel da perfeitamãe de família, disciplinada e frígida. Usa-se largamente a prostituição, pratica-se o aborto clan-destino em escala nacional, sustenta-se um promissor mercadoda chamada imprensa pornográfica, abusa-se do corpo femininousando-o como meio para incrementar o consumismo, mas semantém a fachada da mais rigorosa retidão moral. Trata-se deuma falsidade que, apesar disso, passou a fazer parte dos costu-mes e que é considerada absolutamente normal. Uma mentiracoletiva que goza da proteção do moralismo corrente, o qual estádisposto a tolerar qualquer baixeza a nível individual, mas nãotransige sobre a exterioridade da norma. Atos impuros são come-tidos sem nenhum impedimento, mas condena-se a impureza.E para manter viva e operante tal condenação, a despeito de umarealidade que a contradiz de modo evidente, recorre-se a um lé-xico particularmente mistificatório, feito de grandes palavras nasquais se coloca um conteúdo cômodo. Da hiprocrisia dos fatosavizinha-se das palavras.36
  32. 32. Aprender com a SexualidadeA MORAL Muitos sustentam que existe e que deve existir uma moralsexual, isto é, que a sexualidade deve ser gerida basicamente porum código moral que lhe seja próprio e que é diferente daqueledestinado a guiar outras expressões humanas, como por exemploa ação política ou econômica. Consequência disso é que umadeterminada operação, suponhamos a procura não finalizada doprazer, pode ser lícita e até louvável em um certo campo - e con-denável no campo sexual. descobrir a solução de um problemacientífico ou deitar-se em um gramado para tomar sol são coisasque dão prazer, frequentemente um prazer que é fim em si mes-mo e sobre o qual ninguém tem nada a dizer. Mas todos têmmuito a dizer se satisfação, desvinculada de fins procriativos,sociais ou de outro gênero, é procurada a área da sexualidade. As normas éticas reservadas ao exercício da sexualidadesão sugeridas, ou impostas, em uma perspetiva de relatividadee de aderência às necessidades de um dado contexto social. Istopareceria lógico se o livre fluir da sexualidade, não limitadapor ordenações particulares, causasse dano àquele determinadotipo de ordem comunitária e, naturalmente, se este último fos-se satisfatório a ponto de ser conservado inalterado. Eis os dois postulados sob os quais se funda a ética sexual: nãohá hipótese, ao menos por ora, de um sistema melhor que o atual,e tal sistema não deve deteriorar-se em contato com um costumesexual liberatório. Bem, a segunda parte do discurso é previsível,mas a primeira, o contrário, oferece muitos motivos para perplexi-bilidade. Para sustentar a necessidade de uma moral sexual ocorreentretanto que ambas as afirmações são reconhecidas como ple-namente válidas, e é extremamente nesta direção que se movemos moralistas: as consequências de uma liberação da sexualidadesão apresentadas como ruína, caos e regressão. A desintegração do sistema é interpretada de maneira pu-ramente negativa, e definida como temível em qualquer de seusaspectos. Em suma, cada solução alternativa àquelas vigentes éconsiderada um prejuízo, algumas vezes dramático, e afirma-se 37
  33. 33. Paulo César Moreiraque uma sexualidade livre conduziria a esse prejuízo da condiçãohumana. Vem daí a imposição de uma moral sexual específica erelativa, própria para o sistema existente, e portanto a negação deuma ética global e estável que considere a gestão da sexualidade nonível de qualquer outro comportamento humano, independentedas exigências do próprio sistema. Fala-se então abundantementede ética sexual e muito pouco de ética pura e simples, mesmoporque esta última opõe-se a manobras limitativas que distorçamsua essência e se traduzem em uma opressão da pessoa. A moralsexual poderia portanto, e não sem razão, ser chamada de imoral.Mas ela é apresentada como um grande sinal de civilidade e comoum instrumento indispensável de progresso.A EDUCAÇÃO Para a maior parte das pessoas educar quer dizer amostrara criança para que se comporte de um modo determinado, pre-cisamente conforme as exigências de um costume consideradomédio e normal. Isto implica: que o educando e potencialidadeda criança, a qual, privada do ensinamento supracitado, não che-garia nunca a elaborar tipos de comportamentos aceitáveis; quecertos comportamentos, socialmente aprovados, são o objetivoda educação, bem como o seu fim último, sem o qual se reincidirana anormalidade; que o impulso de operar daquela determinadamaneira deve fazer parte da mentalidade do educando até que,em certo ponto, ele não precise mais ser educado e possa seguir ocaminho sozinho, tornando-se por sua vez e um educador. Bem educado seria, por isso, um indivíduo que age segundoas normas estabelecidas pelo costume vigente, que esteja e irre-versivelmente condicionado neste sentido, e que portanto nãoprecise de vigilância ulterior ou de outros ensinamentos. Se tudoisto é verdade, fica por esclarecer qual a diferença entre umacriança bem educada um cão bem adestrado. E qual a diferençaentre educação e um banal e grosseiro condicionamento. Na verdade, o mais elementar bom senso induz à recusa ca-tegórica de todos os pressupostos do que normalmente se chama38
  34. 34. Aprender com a Sexualidadeeducação. Pensar que a criança deve ser educada e o adulto não,é absolutamente ridículo. Se admite, e não vejo como negá-lode forma razoável, que a educação é uma operação dialética naqual a pessoa é o sujeito, e não o objeto, que constitui o primeiroempurrão para todo o movimento evolutivo, não se compreendepor que motivo o adulto não continua participando dessa ope-ração. Como se a chegada da chamada maturidade coincidissecom um estado de perfeição absoluta e insuperável. Não se compreende por que motivo a criança necessaria-mente tornar-se-à anti-social, selvagem e criminalóide se oadulto não providenciar reprimir-lhe o mal e ensinar-lhe o bem,por meio de uma espécie de domesticação. Não se compreendeao menos qual o valor de uma estrutura psíquica imutável, mar-cada por um Superego prefixado, indelevelmente marcada namente do indivíduo e que dirige as ações deste em uma marcadana mente do indivíduo e que dirige as ações deste em uma únicae sempre idêntica direção. Uma humanidade composta de gente“educada” deste modo seria bastante similar a um formigueiro.E de fato parece que o é. No entanto esta educação, condicio-nante e opressiva, é a predileta de quase todos. A criança não deve ser aquilo que é, não deve realizar suapotencialidade, não deve avançar pela sua estrada, não deve de-senvolver as suas qualidades. Ela tem obrigação de tornar-seigual a nós, de desenvolver-se segundo a nossa vontade, de per-correr o caminho que nós escolhemos, de valorizar a qualidadeque nós julgamos boa. Nós somos infalíveis e perfeitos, e desteaxioma partimos para plasmar os nosso filhos. À nossa imageme semelhança, bem entendido, assim como fez Deus.A RESPONSABILIDADE Eis um dos instrumentos mais caros à repressão sexual: aresponsabilidade. Para exercitar a sexualidade é preciso ser res-ponsável. E a criança, sabe-se, não pode ser responsável. Nem ojovem. A responsabilidade chega com a idade madura, quan-do chega. Para muitos não chega nunca, e por toda sua vida 39
  35. 35. Paulo César Moreiraesses serão julgados irresponsáveis e inaptos para toda relaçãosexual. Os rebeldes, os contestadores, os anticonformistas, osoriginais, os livres pensadores, os não alinhados, os brincalhões,os sonhadores, os utopistas, todos são irresponsáveis. Se querimpedir alguém do exercício da sexualidade basta dizer que essealguém não tem senso de responsabilidade. E é o que se diz detodo aquele que não respeita as regras do jogo impostas pelosistema. Responsável, em suma, seria aquele que exercita a própriasexualidade nas condições do costumes vigentes, dado que asubmissão aos costumes parece ser a única garantia consideradaválida para a tutela da pessoa humana. O discurso do moralismo sexofóbico é bastante sutil: se vocêfaz amor com uma jovem deve esposá-la; se gasta suas energiasno sexo não sobrará nenhuma para a realização dos seus deveres;se você, mulher, perde a virgindade, está privando seu compa-nheiro de um bem a que ele tem direito; se você se une a umapessoa fora da instituição matrimonial ficará em uma situaçãosocialmente incômoda, e assim por diante. Discurso sutil, repi-to, mesmo que os argumentos sejam trágicos, pois se trata deum discurso chantagista que impõe a culpa: se você não respeitafará mal à pessoa que você diz amar. Você será portanto culpadofrente ao seu(sua) companheiro(a) e apenas a obediência às re-gras poderá reparar o seu erro. Que dois seres humanos possamassumir a verdadeira responsabilidade de estarem juntos em umatroca recíproca de amor e prazer, e de contarem consigo mesmoe não com a aprovação social para serem felizes é coisa pratica-mente impensável para muitos dos chamados educadores. Existem jovens e até crianças frequentemente mais respon-sáveis que certos adultos, e existe, cidadãos humildes bem maisresponsáveis que os qualificadíssimos guardiões da moral. Masoficialmente jamais serão reconhecidos como tal: a responsabi-lidade mistura-se com a firma reconhecida e com a corrente dobanco. Quem não está de posse de seus documentos é irrespon-sável, portanto inepto para o exercício da sexualidade, portantoculpado caso a exercite. Não acredito estar exagerando. Infeliz-40
  36. 36. Aprender com a Sexualidademente este discurso sobre a responsabilidade é frequente e malacabado, com uma referência constante a uma normativa queparece nutrida mais de burocracia que de razão.A INOCÊNCIA O trabalho do educador é quase sempre direcionado no sen-tido de fazer com que a criança e o jovem se comportem comoadultos. Considera-se muito importante que o filho, ou o alu-no, aprenda rapidamente uma quantidade notável de idéias, quedesenvolva atividades integradas dentro de fora da escola, querespeite as regras da vida comunitária, que não cause distúrbios,que “racione”, que execute pontualmente as ordens, que se adap-te aos costumes, etc. Faz-se de tudo para que seja mais inteligente, mais hábil,mais estudioso, mais forte, mais empreendedor, mais sociável.Mas nada se faz para que aprenda alguma coisa sobre a sexu-alidade e dobre o prazer-amor, ou para que aprenda a gozar opróprio corpo. A zona da sexualidade é a única zona proibida,onde a criança não deve por os pés. A criança deve aprender detudo, mas nada referente ao sexo. Como já foi dito muitas vezes, o sexo é o limite, a barreira,a linha de demarcação entre a menor e a maioridade. O sexoé o feudo do adulto. Quem não é adulto deve ser privado desexualidade, quer dizer, deve permanecer inocente. A inocênciaé a conotação mais relevante que se atribui à criança. E estatotal ignorância da sexualidade - ou inocência - é defendia portodos os meios. Costuma-se dizer: não é necessário pertur-bar a inocência da criança, não é preciso manchá-la e não sedeve permitir que a criança a perca. Portanto é indispensáveldefender a criança da curiosidade mal direcionada, dos conta-tos excitantes, dos estímulos inconvenientes. É preciso fazercom que não toquem em excesso nos próprios órgãos genitaise muito menos nos dos outros, que não se envolva em jogosproibidos e, naturalmente, que não se masturbe. Qualquer ati-vidade infantil que faça referência à esfera sexual deve ser im- 41
  37. 37. Paulo César Moreirapedida a qualquer custo. Caso contrário a criança perderá, parasempre, a sua inocência. Perde-se a inocência não só como consequência de másações, mas também por conhecimentos inoportunos. A criançanão deve saber tudo. Alguma coisa sim, de modo a satisfazer asua petulante curiosidade, mas tudo certamente não. Sabendodemais a criança poderia ter maus pensamentos e desejos deplo-ráveis, que maculariam com o lodo da malícia a limpidez da suaingenuidade. Fala-se, nos tons mais poéticos, do óvulo maternoe do sêmen paterno, das núpcias, da maturidade, das flores e dasborboletas. Fala-se também, mas com cautela, do fato de quefêmea e macho não são iguais. Mas nada além. Explicar, por exemplo, que os meninos tem um pênis e asmeninas vaginas é já arriscado porque isto atrairia a atenção dopequeno inocente sobre seus órgãos genitais, e quem sabe comque funestas consequências. Não faz muito tempo um sema-nário milânes publicou as opiniões de alguns leitores sobre umprograma televisivo de educação sexual. A ânsia em proteger a inocência das crianças logicamenteleva o adulto a afastar dos pequenos tudo que poderia ofenderessa inocência. Em primeiro lugar a experiência. O pensamentode que uma criança, ou um meninote, possa experimentar oprazer da masturbação, ou que tenha como ver uma pessoa nua,ou que se pare com o espetáculo efusivo de duas pessoas ena-moradas, ou que ouça falar de abraços e coisas semelhantes, éintolerável para alguns educadores. E quem, ao contrário, achatolerável acaba sendo acusada de ser um obcecado por sexo esubstancialmente um corruptor. Uma coisa é certa: a criança que sabe alguma coisa sobresexo ou pior, que desenvolve uma atividade sexual, semeia opânico entre adultos de um determinado tipo. Mas talvez ain-da exista outra, essa também muito simples: o adulto sente-seinconscientemente perseguido pela repressão que ele mesmoexercita e mantém, e gostaria de liberar-se dela da única maneiraque pode aceitar, isto é, eliminando o que deve ser reprimido, asexualidade. O adulto em suma gostaria de libertar-se da própria42
  38. 38. Aprender com a Sexualidadesexualidade para não ter que sujeitar-se à repressão. Gostaria deser “inocente”. Para tanto criou um modelo de inocência, e estemodelo é a criança. Se a criança não fosse inocente o adulto não teria à sua dis-posição nenhuma referência para fundar a hipótese de uma não-sexualidade, não poderia sustentar a possibilidade concreta deuma existência separada do sexo e seria inexoravelmente conde-nado à repressão. O adulto, para poder tolerar o próprio mora-lismo sexofóbico, precisa desesperadamente da criança assexuadae inocente. Por isso a inventou e pretende que ela assim seja,ignorado o fato de que a criança não é inocente. Ou pelo menosnão o é no sentido que comumente se dá a essa palavra.A SEXUALIDADE HOJE E OS CONFLITOSDA SOCIEDADE MODERNA A observação da realidade atual poderia levar à conclusão deque o homem, concientemente, trabalha com prodigiosa perse-verança para a própria infelicidade. Não acredita-se que a maiorparte da pessoas seja realmente infeliz. Certamente ninguém,mesmo com um medíocre nível de consciência, quer ser infeliz.Provavelmente o seria se não existisse o fenômeno do hábito.Mas sabemos que o hábito existe, e que aos poucos o homem seadapta a quaisquer condições - ou quase - a ponto de tolerar, eaté mesmo desejar, aquilo que em um primeiro momento lheparecia doloroso e opressivo. É o que acontece com a sexualida-de: de qualquer maneira o homem habituou-se a uma repressãoque, objetivamente, poderia parecer pura loucura. Mas se é verdade que não se procura conscientemente a in-felicidade - ao contrário, procura-se evitá-la - não é menos ver-dade que se faz de tudo também para evitar a felicidade. Esta,como o seu contrário, brota das grandes emoções. Ora, como jáfoi sutilmente sugerida, o nosso tipo de cultura impõe um severoautocontrole que impede que o efeito das próprias emoções ul-trapasse cerros limites. No costume atual tudo é orientado para aprodutividade, e a dor, o prazer, o ódio, o amor, o medo, e todas 43
  39. 39. Paulo César Moreiraas outras emoções, violentas, não favorecem a eficiência produ-tiva, mas lhe impõe obstáculos, por isso a boa educação burguesatende a neutralizá-las. Para isto já não se vale do meio grosseiro da repressão ex-terna, ou vale-se pouco, preferindo recorrer a um instrumen-to mais eficaz de autocontrole, isto é, a repressão interiorizada.Educam-se as pessoas para que afastem toda a emoção intensa.O cidadão de bem não deve nunca ser perturbado pela emoção.Em outras palavras, ela não é tanto reprimida quanto negada. De todas as fontes de emoção sem dúvida parece que a maisimportante é a sexualidade, a qual em consequência é tambéma mais tenazmente recusada. A condição humana seria portantoesta: o indivíduo aspira à máxima produção de bens de consumoe contemporaneamente ao acúmulo máximo de meios de aqui-sição, e de ambas as coisas espera o que acredita ser felicidade,mas que da felicidade é apenas um substitutivo decadente, ge-ralmente chamado bem-estar. Mas para obter produção e lucroele deve ser eficiente, e para ser eficiente deve negar a emoção.Em particular aquela de natureza sexual, que é a menos pro-dutiva e a mais dispersiva. Com isso ele nega o amor-prazer, eportanto a própria e autêntica felicidade, e na ilusória convicçãode encontrar uma alegria que considera mais verdadeira, porquefoi educado para isso, entrega-se a um trabalho alienado que lhefornece dinheiro para comprar bens que ele mesmo produz. Não parece portanto uma procura da infelicidade, mas umarecusa da felicidade. Da felicidade profunda, inebriante, total,capaz até de dar medo. O homem tem em do desta felicidade: éuma coisa estranha frente aos seus costumes e ele não foi edu-cado para gozá-la. O prazer que lhe e familiar, e praticamenteo único que ele está em condições de apreciar, é o que a civili-zação industrial lhe oferece: a posse de objetos inanimados. Aeducação sexual é manifestamente dirigida a esta condição. Abiologização e o sexo como mercadoria, unidos a uma norma-tiva entre as mais rígidas que a sociedade jamais experimentou,estão endereçadas a um só objetivo. Relegar a sexualidade asmargens da existência humana e reduzi-la a uma função secun-44
  40. 40. Aprender com a Sexualidadedária, programável e mediocremente atraente. Mesmo atraentedo que a compra de um carro, de uma televisão a cores ou deum bilhete para a partida de futebol.O SEXO COMO MERCADORIA Pode parecer que a codificação do sexo constitue um fenô-meno contrastante com a educação sexual, mas, ao contrário,não só este contraste não existe como o mercado sexual é umdos costumes mais diretamente ligados aos procedimentos edu-cativos vigentes. O educador tende, como é notório, a reprimira sexualidade e contribuir assim para a criação dos substitutivosda sexualidade reprimida: pornografia, prostituição, etc. Ele nãoignora o fato, e consequentemente assume uma dupla postura:por um lado não deixa de exprimir verdadeiro repúdio e a maissevera condenação pelo mercado do sexo, mas por outro ladoreconhece-lhe a irreparalidade e confessa a própria e resignadaimpotência. A resignação frente ao comércio do amor está entre os ele-mentos educativos primários oferecidos ao ser humano. O queé lógico, dado que o único modo de eliminar tal comércio é arenúncia à repressão. O que, para o repressor, é evidentementeimpensável. Assim, é preciso resignar-se. Entretanto não está tudo aqui: a educação tradicional aindavai além. Pode parecer estranho que os moralizadores manifestema mais obstinada intransigência com relação a um setor do merca-do sexual, pornográfico, enquanto calam-se frente a outro setor, oda prostituição. Mas não é estranho. A pornografia, de fato, é fon-te de excitação sexual. A primeira deve ser portanto combatida,a segunda favorecida. A resignação de que se falava é ostentadadentro dos limites de ambos os fenômenos, mas na prática trata-se de uma resignação passivamente opaca frente à prostituição. O objeto do moralismo sexofóbico é o da deserotização doindivíduo, o que certamente não se pode conseguir através desolicitações pornográficas, mas que se pode facilmente alcan-çar com o trabalho das meretrizes. Consequentemente, depois 45
  41. 41. Paulo César Moreirados conselhos pragmáticos, declara-se rapidamente que nadase pode fazer contra a prostituição, que ela é a profissão maisvelha do mundo. E ainda se vai mais longe: sustenta-se que aprostituição é a salvação do matrimônio, ou pelo menos um dosseus sustentáculos. E se isso não é dito explicitamente, deixa-sesubentendido. A educação sexual contribui de três modos para a codificaçãodo sexo: primeiro com uma resignação suspeita; segundo, justifi-cando-lhe a existência, especialmente a nível da prostituição; ter-ceiro, mascarando-lhe a verdadeira face até sua institucionalização.Isto é, fazendo passar por coisa normal, incensurável e até louvávelo que na verdade é desumanizante e humilhante, cobrindo com omanto da legalidade um mercado em si degradante, colocando aetiqueta do matrimônio sobre uma contratação muito distante daesfera afetiva e muito próxima da economia. Não pretendo comisso dizer, bem entendido, que o matrimônio seja sempre umaforma de prostituição. Pretendo dizer que pode sê-lo, e que ge-ralmente é. E mesmo que o seja do modo mais descarado, aindaassim é corajosamente defendido pelos educadores sexuais. Não se pode educar para a repressão sexual se dar vida aum mercado, mais ou menos clandestino, que compense a sexu-alidade. E não se pode fazer vista grossa à codificação do sexosem encorajá-la. Isto me parece fora de discussão. Mas infeliz-mente não se pode dizer que os nossos educadores pretendammodificar sua estratégia, nem tão pouco renunciar à sua obra depersuasão em larga escala.CONSIDERAÇÕES F INAIS Pode-se afirmar que destina-se a pais e mestres, a respon-sabilidade da organização de programas curriculares: a prática eo exemplo, ilustrados pelo comportamento e atitudes dos pais emestres, têm mais importância que os simples preceitos; a natu-reza e o alcance das respostas às perguntas devem ser determina-dos pelo estado de desenvolvimento físico, afetivo e intelectualda criança ou do adolescente, bem assim pela própria natureza46
  42. 42. Aprender com a Sexualidadedas perguntas feitas; a educação cognitiva deve enquadrar-se nomeio local e nacional, cultural e religioso e harmonizar-se entrefamília e a escola. Nas escolas, a educação sexual deve ser progressiva e inte-grada. A necessidade de constantes repetições é muito naturalnas crianças. Os referidos comportamentos e atitudes dos pais emestres devem caracterizar-se pela naturalidade: a educação se-xual é tanto melhor quanto menos aparente. Deve enquadrar-senatural e discretamente na vida doméstica e escolar correntes. Sóaparece demais quando é imperfeita. As respostas às perguntasformuladas exigem ajustamento constante, levando-se em contao desenvolvimento físico e mental da criança ou adolescente eo seu condicionamento psicológico. Por isso é preciso conhecê-los, antes de lhes responder, buscar saber o que lhes ensinaramsobre o assunto, ou o que eles mesmos pensam. Tanto em casaquanto na escola a educação sexual deve ser progressiva, porqueassim ocorre com todas as matérias curriculares. Sobretudo noque se refere a informações sobre anatomia e fisiologias sexuais.E deve ser integrada, exatamente porque as demais matérias doensino também se integram, ou pelo menos, devem integrar-se. A necessidade de repetições constantes, não procede deesquecimentos por recalque, mas deve ser considerada comoconsequência natural do crescimento e do desenvolvimento dacriança. Ora, porque o ensino é ou deve ser integrado e progres-sivo, assim também é progressiva a assimilação de informações eo desenvolvimento das potencialidades do educando; o que hojesatisfaz amanhã é insuficiente, donde o retorno do educando àquestão. Este hoje-amanhã é relativo, horas, meses ou segun-dos. De modo geral, a expressão “educação sexual” resume oucontém duas coisas distintas: a informação sexual, isto é, o pro-blema de saber-se como transmitir às crianças o conhecimentoda anatomia e da fisiologia sexuais, como desvendar-lhes es-sas realidades que, para eles, são mistérios; a “educação sexualpropriamente dita”, ou seja, o processo pelo qual as crianças eos adolescentes compreenderão que o instinto sexual, como os 47
  43. 43. Paulo César Moreirademais instintos, deve ser sujeito ao domínio da vontade e darazão; e, de instinto puramente animal, transformar-se em ins-tituto humano. O primeiro problema é sobretudo científico masencerra um fim de ordem moral. Nessas condições, educaçãoinstrução são inseparáveis e não se pode conceber que se empre-enda uma sem o empreendimento da outra.REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIABERNADI, Marcelo. A Deseducação Sexual. 2ª Ed. São Paulo,Summus Editorial, 1985.CORREIO BRAZILIENSE. Jogos e Debates para a Sexuali-dade. Caderno Brasil. Brasília, 23 de Junho de 1996._________. Sexo no Currículo Escolar. Caderno Brasil. Brasília,22 de Junho de 1997.CUNHA, Maria Carneiro da. Comportamento Sexual: A Re-volução Que Ficou no Caminho. Brasília, Nobel, 1988.EDIPE - Enciclopédia Didática de Informação e PesquisaEducacional. Volume 4. São Paulo, Livraria Editora IracemaLtda, 1993.PILETTI, Nelson. Sociologia da Educação. 9ª edição. São Pau-lo, Editora Ática. 1991.48
  44. 44. Aprender com a SexualidadeA ORIENTAÇÃO SEXUAL NOCONTEXTO ESCOLARRESUMO O presente artigo apresenta a importância da OrientaçãoSexual como um dos temas transversais, ressaltando a neces-sidade da participação e apoio dos pais e maior interesse doseducadores, em respeitar as etapas de desenvolvimento da se-xualidade da criança, que é construída naturalmente ao longoda vida, marcada pela sua história, cultura, ciência, assim comopelos afetos e sentimentos vivenciados. Palavras-Chave: Orientação sexual, educação escolar,professor, temas transversais.INTRODUÇÃO O que levou a investigação sobre esse tema, foi ter observadono meu cotidiano escolar, que queira ou não, a escola e a família,deparam-se com diversas situações no que diz respeito às curio-sidades das crianças sobre sexualidade, relacionadas às origens decada um e com o desejo próprio de saber; e que os adultos semsaber lidarem com este assunto, acabam ignorando, ocultando oureprimindo suas indagações, levando as crianças e jovens a recorre-rem à informações de outras fontes como: livros, revistas, convivên-cia escolar e o que é mais preocupante atualmente, da mídia. Maisdiretamente a TV, que através de propagandas, filmes e novelas,transmite mensagens completamente inadequadas e distorcidas noque diz respeito à formação de valores, divulgando na maioria dosseus programas, mensagens irreais, violentas e confusas, e o que épior, estimulando o interesse precoce da criança pela sexualidade. 49
  45. 45. Paulo César Moreira O principal objetivo da pesquisa é ressaltar que apesar detodas essas influências, os educadores (de preferência podendocontar com o apoio familiar) podem intervir sistematicamen-te na área da sexualidade, estimulando os alunos à uma maiorconsciência de sua autonomia pessoa e, ao longo do processopedagógico, serem capazes de uma melhor compreensão dosmovimentos políticos e culturais envolvendo a sexualidade, des-de que os educadores assumam e reconheçam de fato que seupapel não é apenas transmitir os “saberes científicos”, mas simadaptar-se à realidade da sua comunidade escolar, atendendona medida do possível suas necessidades, aproveitando o espaçoprivilegiado da escola, para criar um clima de respeito e liberda-de de expressão. Questiona-se, ainda, como deve ser o perfil de um orienta-dor sexual, que apesar de não haver nenhuma restrição quanto aoutro profissional que tenha uma atitude positiva frente à pró-pria sexualidade, o professor foi apontado como o mais indicado,por estabelecer laços significativos entre seus alunos. A importância do tema Orientação Sexual ser inserido nosParâmetros Curriculares Nacionais, por meio da transversalida-de, é para que desta forma este assunto esteja impregnado emtoda a prática educativa, e cada uma das áreas trate da temáticada sexualidade, por meio da sua própria proposta de trabalho.Para tanto, é fundamental a disponibilidade e flexibilidade dequem estiver conduzindo este trabalho. Assim sendo, os objetivos desse estudo centram-se em: iden-tificar a relevância da orientação sexual na formação da sexua-lidade dos alunos; compreender as diferenças conceituais entresexo e sexualidade; identificar as contribuições metodológicas deFreud e Piaget na orientação da sexualidade; abordar aspectosque diferenciam a educação sexual da orientação sexual; discutira necessidade da escola propiciar informações sobre sexualidade;identificar o perfil do Orientador Sexual na escola; relacionar osprincipais objetivos da orientação sexual para o Ensino Funda-mental; discorrer sobre a relação entre pais, comunidade escolar,mídia, orientação e desenvolvimento da sexualidade.50
  46. 46. Aprender com a SexualidadeCONCEITOS TEÓRICOS SOBRE SEXO E SEXUALIDADE Sendo a sexualidade uma essencial dimensão humana, é degrande importância que ela seja compreendida em seus sentidosmais amplos como tema e área de conhecimento e, na aborda-gem educacional, em termos mais específicos, para que se tenhao alcance das múltiplas interações desta dimensão com as ou-tras dimensões da realidade e vivência humana. A sexualidadeconcentra-se nestes núcleos que perpassam a subjetividade esociedade, constituindo um campo de saberes que se articulamatravés da produção de conhecimentos baseados nas caracterís-ticas exclusivamente humanas de afetividade e erotismo. A compreensão primordial fundamenta-se na idéia de quea sexualidade não é uma “parte” ou “complemento” da condi-ção humana. Também não se trata de uma dimensão secundária,vinculada às demais habilidades e potencialidades humanas. Aocontrário, a sexualidade é entendida como uma característica so-mente desenvolvida e presente na condição cultural e históricado homem. Como este homem é um ser sexuado, tudo o quefaz ou realiza, envolve esta dimensão de constituir uma sexua-lidade, uma significação e vivência da mesma, diversamente dadeterminação instintiva e primariamente animal e reprodutiva.Portanto, a sexualidade transcende à consideração meramentebiológica, centrada na reprodução e nas capacidades instintivas. Fischer (2001, p. 120) salienta que, na condição ético-onto-lógica do homem, a sexualidade é a própria vivência e significa-ção do sexo, ou seja, já carregada dentro de si a intencionalidadee a escolha, que a tornam uma dimensão humana, dialógica, cul-tural. Não há como se subtrair a esta condição. Ela está presentedeste o surgimento ou organização da cultura humana. Comoseres sexuados, somos também sexualizados, ou melhor, envol-vidos com a dinâmica e características de nossa sexualidade. Aprimeira de nossas identidades existenciais foi exatamente aque-le que de nós, nossos pais disseram: “É menino!”, ou ainda, “Émenina!”. Esta consideração nos remete para a situação parado-xal, de que a nossa primeira identidade, proclamada e esperada, 51
  47. 47. Paulo César Moreiratenha sido aquela vinculada à sexualidade (ao redor da marcagenital). É estranho reconhecer que, através de caminhos quedevem ser entendidos no resgate histórico-crítico de nossa cul-tura, esta identidade primeira venha a ser negada e calada tãobarbaramente, no tocante ao sexo e sexualidade da criança. Portanto, diferenciando inicialmente o contexto de “sexo” e“sexualidade’, Lopes (2001, p. 90) considera que é possível en-tender o primeiro como marca biológica, caracterização genitale natural, constituída a partir da aquisição evolutiva da espéciehumana como animal. Já a sexualidade é um conceito cultural,constituído pela qualidade, pela significação do sexo. Nesta de-finição, somente a espécie humana ostentaria uma sexualidade,uma qualidade cultural e significativa do sexo. Tratando-se da se-xualidade infantil, é válido observar a construção cultural de umasignificação pessoal e hibridamente social da marca genital. Nãodevemos reduzir nossa compreensão da sexualidade humana auma manifestação instintiva. Aliás, falar em dimensão instintivaou reduzir a esfera da sexualidade humana a uma mera dimensãoanimal, natural ou reprodutiva, é precisamente tirar dela sua di-mensão mais significativa, ou até mesmo sua espiritualidade. Tratar de sexualidade na escola requer o alicerce de umaconcepção científica e humanista desta sexualidade, superandoo senso comum, que é o nível primário do conhecimento so-cial. Somente por uma abordagem histórica e cultural sobre aconstrução da sexualidade humana, fundamentada por uma ri-gorosa compreensão científica do desenvolvimento psicossexualda criança, poderemos analisar as manifestações da sexualidadeinfantil na escola. Relata-se que entre as dificuldades abordadas pelos profes-sores, na questão da sexualidade, que a maioria aponta a ausênciade fundamentos científicos na análise destes comportamentos,baseando-se sempre nos elementos mais conservadores e tra-dicionais de uma cultura repressiva e negativista do sexo e suasdimensões, reforçada pela família, pela religião e pela própriaescola. Alguns professores, em muitas pesquisas e contatos sobreas manifestações da sexualidade infantil, apontaram a própria52
  48. 48. Aprender com a Sexualidadedificuldade pessoal em compreender a complexidade da sexuali-dade humana, reclamando da falta de conteúdos e dos resquíciosde uma educação represssora que acaba dificultando o esclareci-mento das questões e situações que envolvem o sexo. Outros depoimentos e análises, colhidos nos muitos cursose palestras ministrados pelos educadores César Nunes e EdnaSilva, vão ainda mais longe. Falam da repressão da própria se-xualidade, reconhecendo a complexidade cultural e histórica daquestão, presente em todas as pessoas e consequentemente tam-bém nos grandes questionamentos dos professores e professoras,apontando ainda a atividade ostensiva e patrulhadora dos paissobre a sexualidade. Segundo Nunes e Silva (2000, p. 201), é chamada de “atitudepatrulhadora”, não aquela atitude responsável e articulada, inte-grada e co-participante, exigidas de pais e educadores conscien-tes de seu papel formador. Entende-se aqui o “patrulhamento”como aquela atitude de delegar funções informativas e descriti-vas para a escola e, ao mesmo tempo, agir de maneira intimida-tória a quaisquer eventuais críticas e ações dos professores quenão estejam dentro da normatividade patriarcal vigente. Todas estas dificuldades redundam na omissão e no aban-dono de uma reflexão sobre a sexualidade de maneira humana,história e científica. Não podemos apontar este abandono comouma culpabilidade institucional dos professores. Entende-se quea política de formação de professores em nosso país, centrada nadeterminação de produzir técnicos e legiões de trabalhadoresalienados, busca subtrair dos professores a capacidade de umacultural global que dê conta de uma interpretação científica darealidade. As causas desta expropriação do conhecimento e daausência de uma política curricular que contemple a sexualidade,ou ainda as dimensões pedagógicas correlatadas a esta, devemser buscadas na esfera da determinação política da escola e desuas formas históricas fundamentais. Este ensaio teórico procura proporcionar um momento dereflexão, instrumentalizar pais e educadores para a busca de umaforma e consciência destas dificuldades estruturais, e viabilizar 53

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