Floresta dos corvos andrew peters

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Floresta dos corvos andrew peters

  1. 1. a
  2. 2. a
  3. 3. A N D R E W P E T E R S sh
  4. 4. ara minha mulher, Polly, que tanto ajudou na estruturação, edição e criação deste mundo, e que é minha companheira constante nas viagens mais profundas; para meus amados filhos, Roz e Asa, que foram meus primeiros leitores; para Eugene, que me estimulou a prosseguir quando eu estava prestes a desistir; para Uli, por lutar por uma boa causa; para Rachel Hawes, que me deu tantos conselhos úteis sobre roupas no alto das árvores; para Barry, que acreditou em mim e no meu trabalho e assumiu o risco; para a equipe da Chicken House, que me apoiou o tempo todo, e, finalmente, para Imogen, minha brilhante editora. P
  5. 5. “Árvores são relíquias. Quem sabe como falar-lhes, ouvi-las, esse conhece a verdade. Elas não pregam ensinamentos e receitas, pregam isoladamente a primária lei da vida.” HERMAN HESSE
  6. 6. A perseguição Permaneça na madeira, assim deve ser. Se deixares a árvore, logo vais morrer. Provérbio dendriano Ilha de Arborium Cinco de outubro, início da noite, uma semana antes do Festival da Colheita A flecha zuniu acima de seu ombro e cravou, com um baque surdo, direto em uma estaca de madeira. Por pouco! Se ele não houvesse tropeçado, saindo do caminho, a haste agora estaria cravada em algum lugar perto do seu coração. Imaginou o sangue desabrochando como uma flor na camisa, o corpo, sem vida, despencando da borda do galho até o solo, quase dois quilômetros abaixo. Ark estava exausto. O suor escorria por suas costas e os músculos das panturrilhas doíam. Ele olhou para trás de repente: estavam a apenas cem metros dele. Essa parte da alta-estrada era ampla e reta. Não só o imenso galho original fora cortado para ficar com a face plana, assim como todos os galhos-via menores, mas também fora ampliado lateralmente com vigas e andaimes. Agora tinha seis metros de largura nos lugares de passagem. Àquela hora do dia, antes da hora do rush, o caminho estava deserto. Ark
  7. 7. corria a toda velocidade, sentindo cada nó e depressão da madeira. Ocultas em algum lugar lá no alto, nuvens escuras despejavam seu aguaceiro, enchendo as florestas com o eco das gotas. O tamborilar constante instava-o a prosseguir, e Ark corria desesperadamente em meio a uma massa de sombras indistintas. O peso de seu cinto com o equipamento hidráulico o atrasava. Chaves-inglesas contra bestas? Esqueça. Mas não havia tempo para livrar-se dele. Outra flecha passou assoviando e desapareceu, inofensiva, nas profundezas das folhas verdes. * * * Seu perseguidor parou, enxugando a chuva dos olhos, apontando com cuidado antes de outro disparo. As roupas encharcadas do garoto fugitivo, da touca de couro marrom e do feio jaleco castanho à bermuda justa e às meias gastas, revelavam que se tratava apenas de um trabalhador dos esgotos. Na verdade, sua presa assemelhava-se a uma grande e desprezível mancha em meio às árvores. O guarda tentava acompanhá-lo, forçando os olhos no aguaceiro. O garoto disparava em seus sapatos com sola de borracha e aderência extra, o calçado padrão para aquelas alturas. Ninguém queria escorregar lá de cima, principalmente com o mau tempo. Quanto a matar um garoto de quatorze anos? Aquilo não era um problema, era a solução. * * * Mais adiante, a alta-estrada seguia na direção de um tronco imenso e oco. Ark disparou para dentro dele, onde hesitou, recuperando o fôlego. Uma ave gritou a distância, e um ruído farfalhante ecoou pela madeira, fazendo
  8. 8. com que Ark olhasse para as sombras no alto. A árvore morta era uma encruzilhada. Seu tronco maciço suportava o cruzamento com galhos-via que levavam em três direções, passando por arcos esculpidos. Ele olhou para cada uma. Em um canto escuro, degraus antigos, cobertos de musgo, desciam para as profundezas ocas. Estava desesperado, mas descer para o solo? Estremeceu só de pensar naquilo. Qual caminho? Ark repassou o dia em sua mente. Apenas mais um cano de esgoto entupido, dissera seu patrão, sem querer sujar as mãos brancas e limpas. Você pode resolver isso, Arktorious Malikum. É um trabalho. Na verdade, é um “grande trabalho”! E, convenhamos, você já é marrom... então, enfiar a mão em uma grande pilha daquilo não vai fazer muita diferença! O homem riu da própria piada. Era o que sempre fazia. Mas aquilo não era motivo de riso. Bem diante dele, um esquilo vermelho se abaixou no ramo-via, mordiscando uma avelã. Fitou Ark por um segundo antes de mergulhar escada abaixo. — Por aqui… Ark olhou à sua volta. A voz era tão baixa que ele se perguntou se estaria imaginando coisas. Esquilos falantes? Estava ficando maluco! Sem pensar, Ark seguiu o animal, atirando-se no buraco e sendo engolido pela escuridão, que o envolveu. Por um momento, pôde recuperar o fôlego fora da vista dos guardas. Tinha de aproveitar ao máximo. Um ronco vindo de cima o assustou. Movendo-se lentamente em sua direção, saída das sombras, vinha uma carroça de lavanderia, com pilhas enormes de roupa limpa, sendo puxada por um pônei branco com manchas marrons. Quando a carroça passou por ele, as rodas de madeira atingiram um nó nos sulcos profundos no tronco e o arnês de bronze retiniu, emitindo estranhas notas por entre as folhas. Aquilo significava saia do caminho, pois pôneis de carga desacompanhados não alteravam sua rota por causa de ninguém. Um cavalo dado! Ark sorriu melancolicamente e saltou na traseira da
  9. 9. carroça. Subiu com esforço e mergulhou nos montes de roupas arrumados com esmero sob o encerado impermeável. Contorcendo-se ali debaixo, cobriu-se com anáguas limpas e cruzou os dedos, rezando para que Diana o protegesse. — Para onde foi o fiapo de gente? — Tava aqui há um segundo… As vozes soavam abafadas à medida que se aproximavam. — A gente quase pegou ele! Ark prendeu a respiração, esperando que as roupas passadas e os calções limpos fossem arrancados de cima de seu corpo. A mãe sempre o advertira em relação a ir sozinho à floresta, pois os Corvos poderiam pegá-lo e sugar sua alma. Aquilo ali era muito mais perigoso. — Dá uma olhada aí por cima. A carroça estremeceu quando pés escalaram até o topo da pilha de roupas. O peso de um guarda adulto e robusto caiu sobre Ark, expulsando o que restava de ar em seus pulmões. Eles ouviriam suas costelas quebrando ou seu coração martelando como o bico de um pica-pau. Um versinho da infância veio à mente de Ark: Segure a pena, arrebate a hora Ai de mim, me esconda, Senhora! Era uma cantilena sem sentido dita de um só fôlego por velhos e repetida com alegria pelas crianças. Mas ele ficava feliz com qualquer coisa em que pudesse acreditar naquele momento. — Santo Broto! — praguejou o guarda. — Não tô vendo ele em lugar nenhum! Talvez o graveto danado tenha enganado a gente, fingindo que virou à esquerda. — Grasp vai matar a gente se não encontrarmos o garoto! — sibilou o outro. — Vamos nos separar. Ele não deve ter ido longe… O peso no peito de Ark sumiu, e as vozes foram se tornando mais
  10. 10. distantes. Será que a velha cantilena tinha funcionado? Ark respirou fundo, enchendo os pulmões, e contou até duzentos, embora suas pernas estivessem coçando para sair dali. Quem sabe ele poderia ficar na carroça e esperar até que a carga fosse entregue… Sentiu-se quase ninado pelo suave balanço do veículo. Não! Ele se repreendeu. Ouvira demais. Grasp espalharia a notícia. A partir de agora, ele era madeira morta. A primeira coisa a fazer era se distanciar dos capangas do Sumo Conselheiro. Com cuidado, Ark afastou um par de meias-calças e várias camadas de protetores masculinos de couro para criar uma abertura por onde olhar, evitando pensar no lugar em que aquelas peças de vestuário haviam estado. Ele espiou lá fora. Tudo limpo. Ark deslizou e escorregou com cautela pela traseira da carroça. Desejou ter uma maçã para oferecer ao pônei que trabalhava imperturbável. — Obrigado, amigão! — sussurrou ele. — Fico lhe devendo uma! Os olhos do pônei, cobertos por antolhos, voltaram-se para ele, como se o animal aceitasse seu agradecimento, e a carroça seguiu em frente, deixando Ark sozinho na alta-estrada. Com cuidado, ele olhou o mundo em volta com novos olhos. Tudo que sempre considerara corriqueiro não oferecia mais nenhuma segurança. Uma névoa úmida borrava os contornos das folhas imensas, cada uma do tamanho de um homem adulto. Acima, abaixo, atrás e na frente, galhos-via e altas-estradas se entrelaçavam e projetavam-se no ar com cordas, andaimes e um milhão de pregos de madeira. Troncos com uma circunferência imensa, grandes o bastante para sustentar centenas de casas, lojas e hospedarias esculpidas em suas profundezas ocas, pontilhavam uma vasta paisagem de árvores. Ark sempre pensara que, apesar da história turbulenta, a vasta ilha de Arborium era o lugar mais seguro na Terra, estendendo-se pelas copas das árvores, a mais de um quilômetro e meio do solo. Não acreditava mais naquilo. — Ei! O grito agudo interrompeu bruscamente seus pensamentos. Ali! A
  11. 11. poucos metros dele um de seus perseguidores lançava-se direto em sua direção. O emblema no casaco o denunciava: o falcão de bico cruel da casa do conselheiro. É claro, os guardas não eram tão estúpidos assim. É só esperar com paciência que qualquer camundongo sai do buraco. Ark praguejou quando o homem deu um bote, tentando agarrar seu pulso. Ark deu um salto para trás e tentou se desvencilhar, mas não foi rápido o bastante. A mão do homem acertou o alvo e apertou o seu braço. Embora fosse quase tão magro quanto o garoto, seus músculos eram fortes como carvalho. — Me solte! — gritou Ark. — Nem pense nisso, seu sujismundo. — Os dedos, que mais pareciam tornos, apertaram ainda mais, enchendo os olhos do garoto com lágrimas de dor. — Você vale o bônus de um mês, ah, se vale! Ele sorriu, ameaçador, revelando um conjunto de dentes verdes como fungos podres e um hálito que lhes fazia jus. Ark parou de lutar à medida que uma fúria fria foi tomando conta dele. Que direito eles tinham? Seu pai sempre lhe dissera que ele podia sair de qualquer situação usando o cérebro. Mas de que valia a lógica contra a força bruta? Enquanto sua mente tentava se concentrar, o instinto puro entrou em ação: após a fuga vem a luta. Era como assistir a si mesmo de fora do corpo… Sua mão direita ainda estava livre. Em um perfeito movimento curvo, Ark tirou a pesada chave-inglesa do cinto de encanador e a ergueu em um arco, baixando-a com toda a força. O guarda esperava um garoto acovardado, mas o que encontrou foi uma arma bem-manejada, com um ruído repugnante como resultado. Os olhos do homem se arregalaram e ele lentamente escorregou até o chão. Ark não esperou. Já estava correndo antes mesmo de ouvir o baque do corpo na madeira. O grito do perseguidor teria o efeito de um alarme e, onde havia um guarda, certamente surgiriam outros. Pelo menos, pensou o garoto, saboreando a adrenalina da fuga, ele havia ganhado algum tempo. Mas o galho-via por onde seguia era comprido e reto e parecia estender-se
  12. 12. até o infinito. Ele sabia que a próxima saída ficava a quase meio quilômetro dali, e começava a sentir cãibras nas pernas finas por causa do esforço da corrida. Esquadrinhou o caminho à frente e derrapou ao parar de repente na pista traiçoeira. Seu pior pesadelo já vinha avançando a distância: outro guarda, duas vezes maior que o primeiro, vinha na direção de Ark, seus passos fazendo a madeira ranger. O homem segurava deliberadamente um punhal, a lâmina afiada tremeluzindo na chuva. O garoto podia distinguir uma cicatriz ziguezagueando como um relâmpago pela cabeça raspada do homem. Ark deu meia-volta. Teria de voltar por onde viera. A que distância estaria o próximo cruzamento de galhos e, ainda que conseguisse chegar até lá, para onde iria depois? Ele olhou por cima do ombro e viu que o guarda começara a correr, gritando e apontando. Quando tornou a se virar, entendeu o porquê. Mais adiante, o primeiro guarda — o que ele pensara ter tirado do páreo — já estava se sentando. Será que as coisas podiam piorar ainda mais? Dessa vez, não havia cruzamentos oportunos, rotas alternativas, nada. Ark estava encurralado. A chuva encharcava a floresta, tornando mais densa a névoa que agora pairava no ar como retalhos. A alta-estrada estava mergulhada nas sombras e os dois guardas mal conseguiam distinguir a figura do garoto, já bastante camuflado com as roupas marrons e manchadas. Não importava. Aonde ele poderia ir? Os grandalhões foram se aproximando devagar, certos de que tinham a presa nas mãos, certos de qual seria o resultado. Não precisavam correr: estava tudo acabado. O garoto pareceu ajoelhar-se, como se rezasse. Então se levantou, olhou pela beira da via e deu um único passo para trás. Antes que os homens pudessem ter qualquer reação, o garoto saltou da alta-estrada,
  13. 13. quebrando a grande lei não escrita dos dendrianos. Permaneça na madeira, assim deve ser. Se deixares a árvore, logo vais morrer. Quando o garoto mergulhou no espaço, o guarda da frente estremeceu. Saltar por vontade própria, afastando-se de tudo que era conhecido, para a terra repelente e envenenada tantos metros lá embaixo… era loucura! Correram o mais rápido possível em meio à névoa, mas era tarde demais. No momento em que os guardas finalmente chegaram ao ponto de onde ele havia saltado, o garoto já desaparecera. Um deles engatinhou até a beira do galho-via e ergueu as cordas de segurança para espiar, nervoso. Mas, embora forçasse a vista cada vez mais, olhando lá para baixo, tudo que pôde ver foi o cinto de encanador do garoto preso em um velho pedaço de andaime em um tronco morto, centenas de metros abaixo. — Nada sobreviveria a essa queda — murmurou, voltando a ficar de pé. Indicou o cinto de encanador para o outro guarda. Tudo estava acabado, então. Depois de uma breve discussão, o guarda mais velho pigarreou e, da beira do caminho, lançou uma bela e encorpada cusparada. A gravidade fez o seu trabalho e ela caiu, exatamente como o garoto. — Bah! Já vai tarde! — Está desabando um aguaceiro. Vamos embora daqui. Se o garoto estava morto, seus problemas tinham sido resolvidos. Ainda melhor: o patrão talvez pudesse ser persuadido a lhes dar um bônus e um barril de cerveja. — Como está sua cabeça, Alno? — E por acaso você se importa? O guarda menor cerrou os punhos.
  14. 14. — Nocauteado por um simples garoto! É preciso talento para isso, ah, é. Havia um brilho desagradável no olhar de Sálix. Ele estava achando tudo aquilo muito divertido. — É, bem, pelo menos eu peguei o garoto primeiro! Agora iriam zombar dele durante meses. — E deixou que fugisse! Você deve ter a cabeça mais dura do pedaço, com esses miolos de madeira! — Ah, salve, Sálix. Agradeço sua preocupação… Ele podia sentir o galo se formando. Por que não fora ele quem empurrou o garoto? O sujismundo estúpido o privara da vingança. Bem, pelo menos agora estava tudo decidido e, assim que estivessem secos e aquecidos, uma boa noite bebendo poderia resolver a questão da dor que fazia sua cabeça latejar.
  15. 15. Uma hora antes Petrônio estava desesperado por um bom charuto. Na Escola de Cirurgiões, os mestres haviam naturalmente feito dezenas de sermões sobre os perigos do fumo. Ora! O que um bando de velhos enrijecidos e encarquilhados sabia? Afinal, pensou impaciente, ainda pediam a ele e a seus colegas estudantes que dissecassem patéticos esquilinhos. Pelo amor de Diana! Quando os mestres lhe dariam a chance de abrir um cadáver de verdade? No entanto, agora que as aulas do dia haviam acabado, ele estava livre para ignorar as terríveis advertências e entregar-se a um pequeno e insignificante furto para satisfazer seu desejo. Parou para ouvir com cuidado antes de abrir bem devagar a porta do estúdio do pai. O conselheiro Grasp estava ocupado recebendo convidados no andar de baixo, e não havia mais ninguém por ali. O olhar de Petrônio vagou pela sala. A mesa estava arrumada com pastas empilhadas em uma fileira perfeita na extrema direita. As paredes eram recobertas por tapeçarias, representando o pai derrotando sozinho lobos dos pinhais e bandos inteiros de javalis. Um sorriso criou covinhas no rosto de Petrônio enquanto ele acariciava as mechas postiças de sua barba.
  16. 16. O mais perto que seu pai já chegara de matar um animal selvagem fora espetá-lo… com o garfo, quando o bicho se encontrava diante dele em uma travessa de ouro, servido por um criado submisso. Ainda assim, aquilo impressionava os que vinham fazer negócios com o conselheiro, e “negócios” eram o que lhes proporcionava aquela casa luxuosa bem no topo da árvore. Grandes janelas do chão ao teto impediram a chuva forte de entrar. Além delas, uma varanda onde os visitantes podiam ficar nos dias claros e se impressionar como deveriam ao olhar por sobre a copa das árvores para o Palácio de Barkingham, a residência do rei Quercus, a pouco mais de quinze quilômetros dali. Por que o povo de Arborium ainda amava seu regente? Distribuir moedas aos pobres no Dia de Diana dificilmente mudaria a situação daquela região. O pai de Petrônio tinha razão sobre a alienação em que o rei vivia. Petrônio, porém, não estava interessado em opiniões, fossem sobre política ou qualquer outra coisa. Ele foi silenciosamente até a mesa, ajoelhou-se e abriu a gaveta de baixo, de onde tirou uma caixa de madeira entalhada. Com certeza, o pai não sentiria falta de unzinho… Quando se levantou, viu o próprio reflexo no espelho. Um jovem robusto o olhava. Outros talvez pudessem zombar, chamando-o de balofo pelas costas, mas seu peso não o incomodava. Os cabelos negros encaracolados eram lustrosos e perfumados; os olhos cor de avelã, cheios de falsa cordialidade. Um pedaço considerável de hematita brilhante extraída pelos Exploradores das Raízes nas profundezas das árvores pendia da orelha esquerda. O branco era a última moda na corte, mas aquilo significava que sua roupa tinha de ser repetidamente mergulhada em urina para depois secar ao sol. O preço era um leve fedor, mas o resultado deslumbrante valia a pena, completado por um gibão de seda amarelo-vivo, calções vermelhos seguros por ligas enroladas nos joelhos, todo o conjunto finalizado com uma braguilha de grandes dimensões. O espelho dava sua aprovação. Era um belo visual.
  17. 17. Alguns segundos depois, ele já estava fora do estúdio, deslizando pelo corredor dos criados na direção da área de serviço. Uma vez lá, suspirou aliviado. O pessoal da limpeza já tinha ido embora. Estava seguro. A sala entulhada e fechada era uma confusão de encanamento de gás, calhas de lixo e tanques de roupa. Estava quase escuro, com exceção do clarão do único lampião a gás. Ele desviou com cuidado de uma série de pás de lixo e esfregões e seguiu até a caldeira central, acendendo o charuto com um fósforo no caminho. Abriu uma portinhola de ventilação e deu uma tragada profunda, desfrutando o sabor suave, antes de se inclinar para a frente e soprar a fumaça direto no cilindro da caldeira, deixando que subisse numa espiral e saísse pelo sistema de chaminé lá no alto. De repente, ouviu o som de passos. Rápidos e determinados, eles pararam repentinamente do outro lado da porta. — Mas que madeira podre! Petrônio apagou o charuto e o atirou pelo tubo da caldeira. Que desperdício! Quando a porta da área de serviço se abriu e a luz jorrou para dentro, ele correu até o canto mais afastado e escondeu-se atrás de uma pilha de caixas. Quem quer que tivesse acabado de entrar não pareceu notar o cheiro de fumaça. O intruso cantarolava, muito mal. O canto parou, seguido por um momento de silêncio e então por sons retinidos acompanhados por uma interessante variedade de palavrões abafados. Um cheiro nojento e por demais familiar de esgoto aos poucos tomou conta do lugar. Houve mais murmúrios seguidos por um suspiro e então: — Arrá! É claro! A mãe de Petrônio vinha reclamando do encanamento havia semanas. Ser rico não fazia a menor diferença — os encanadores estavam sempre ocupados. No entanto, parecia que um exemplar daquela espécie tinha finalmente se dado o trabalho de aparecer. Em um péssimo momento, só isso. Petrônio pensou em sair do esconderijo e dar um susto no trabalhador. Seria bem-feito para ele, por estragar seu momento com o
  18. 18. charuto. Mas Petrônio se perguntou o que um reles encanador pensaria do filho do Sumo Conselheiro espreitando na área de serviço. Não, não poderia fazer aquilo. Então se recostou e quase desabou sobre as caixas quando a inconfundível voz do pai ecoou de repente pela área. Que raios o pai estava fazendo na área de serviço, falando com alguém mergulhado até o pescoço no nojento número dois? — Precisamos agir com cautela. Quercus é velho, mas não é estúpido. A voz soava abafada e um pouco distorcida. Petrônio estava confuso. Somente uma pessoa entrara na área de serviço. Outra voz, mais aguda e feminina, respondeu: — Precisamos? Não se atreva a falar por nós, conselheiro! — Naturalmente, minha senhora. Um ato falho. Eu lhe imploro que aceite as minhas desculpas… Petrônio obrigou-se a respirar devagar à medida que compreendia o que acontecia. Não era de admirar que a voz dos interlocutores estivesse estranha: eles estavam distantes. O encanador devia ter aberto um dos canos do sistema de ar-condicionado, e as vozes vinham pela ventilação da sala de visitas no andar de baixo. A mulher continuou, como se seu pai nem sequer tivesse falado. Petrônio podia detectar um sotaque estranho nela, sua pronúncia da língua dendriana soando afetada e formal. — Nós lhe pagamos por informações. Como expliquei, o Império do Maw está ficando sem espaço e matérias-primas. É impressionante que seu pequeno e insignificante reino florestal tenha conseguido desviar todos os pedidos de informação e tentativas de comunicação durante milhares de anos: Arborium é realmente a última fronteira em potencial. O gás que suas árvores exsudam para deter visitantes indesejados foi um truque evolutivo muito inteligente. — Sim — ponderou a voz de Grasp. — A natureza é bastante
  19. 19. engenhosa. No entanto, como a senhora se encontra aqui, presumo que a ciência de seu império pôde lhe garantir alguma proteção… Não houve resposta. Petrônio se perguntou se a mulher estaria assentindo ou ignorando seu pai. E, pelas cascas das árvores, quem era ela? O conselheiro Grasp preencheu o silêncio. — Somos muito discretos. Mas acredito fervorosamente que logo chegará o momento de nosso pequeno país atender a uma necessidade maior. Minha senhora, eu me coloco à sua disposição. O som de uma cadeira sendo arrastada pelo chão subiu pelo respiradouro. — Ah, sente-se, seu homenzinho estúpido. Petrônio sentiu uma onda de raiva. Ninguém chamava seu pai de estúpido e escapava impune! Os homens de negócios que se punham no caminho do Sumo Conselheiro tinham o hábito de desaparecer pela borda em acidentes tristes e inesperados. — Em nosso país — a mulher prosseguiu —, a quantidade de madeira nesta única sala faria de alguém um bilionário! Esta ilha será uma fazenda diferente de todas as outras, e seu povo dará excelentes trabalhadores! É claro que, assim que tivermos derrubado árvores suficientes e restabelecido nossa economia com estoques controlados de madeira preciosa, poderemos explorar suas imensas reservas subterrâneas de gás natural… e você evidentemente receberá uma bela fatia! Petrônio sorriu. Quem quer que fosse aquela mulher, ela com certeza havia compreendido seu pai. O tom de Grasp tornou-se adulador. — Bem, minha senhora… um pequeno depósito pecuniário ajudará a suavizar o maquinário das mudanças. E… creio que a senhora mencionou o cargo de presidente de Arborium para alguém que se mantenha, hã, leal até o fim, não foi? — Você quer cada vez mais. Acho que nos entendemos muito bem, conselheiro. Nossos planos estão avançando, mas o tempo é curto. Creio
  20. 20. que vocês vão realizar em sete dias uma estranha celebração chamada Festival da Colheita. — Sim. O que tem ela? — Será o momento em que vamos agir! A mente de Petrônio disparou. O que seu pai estava aprontando? Presidente? Petrônio experimentou o título em sua mente: Meu pai, presidente de Arborium. Aquilo soava bem — mais do que bem. O dever dele era denunciar traidores, mas o dever que se danasse! E o que ela queria dizer sobre o festival, realizado na primeira lua cheia do outono? Era uma perda de tempo, um bando de plebeus pobres atravancando a capital com suas lanternas estúpidas e fofocando sobre o tempo! O que ela pretendia com aquilo? Suas reflexões foram interrompidas por um espirro. Petrônio estava espantado. Como podia ter esquecido a presença do encanador? O mais importante: ele, Petrônio, não era a única testemunha da alta traição que se desenrolava lá embaixo. — O que foi isso? — indagou a voz da mulher, aguda e alerta. Fez-se um silêncio breve e chocado. Petrônio quase podia ouvir os conspiradores pensando. Quando Grasp falou, sua voz revelava nervosismo. — A casa range e geme. É da natureza da madeira, diferentemente de suas… hã… cidades de vidro e aço… — Você é mesmo tão estúpido quanto parece, conselheiro? — sibilou a mulher. — Tetos… não… espirram! Petrônio podia perceber a tensão na voz dela. — Sim… claro. Acho… que é possível… um espião! — deduziu Grasp. — Tem alguma ideia do que isso significa? Faça alguma coisa. Agora! Em algum lugar da casa uma campainha soou de imediato, chamando os seguranças. Na área de serviço, Petrônio enfiou a mão na jaqueta. Maldição! Sua leal faca estava naquele momento debaixo do colchão no quarto.
  21. 21. Totalmente inútil! Talvez fosse melhor esperar pelos profissionais. Ele não sabia muito bem como enfrentar um homem adulto, principalmente um que estaria armado tanto com músculos quanto com uma variedade de ferramentas pesadas, mas ele poderia tentar. Afinal, era bem conhecido por seus sucessos nada nobres nas aulas de combate. E ainda contaria com o elemento surpresa. Respirou fundo e saltou do esconderijo com um grito estridente. O encanador girou em sua direção, com uma ameaçadora chave-inglesa de ferro erguida. Um rosto moreno com maçãs salientes pairava atrás dela, encimado pela costumeira touca de couro. E os olhos arregalados, alarmados, eram de um tom de verde vívido, quase de pedra preciosa. Aquela não era a surpresa que Petrônio havia planejado. — Você! — gritou Petrônio. O rosto encarou-o de volta, reconhecendo-o instantaneamente. Em Arborium, as crianças de todas as classes frequentavam a creche e a pré- escola juntas, até os sete anos, ricos e pobres misturados como adubo. Depois, a educação custava caro; somente quem tinha recursos podia custeá-la. O rei gostava de usar palavras como “igualdade”, mas a realidade era muito diferente. Abrigado dentro das muralhas de seu palácio, o velho não fazia a menor ideia de que o adubo estava totalmente podre. Quando Petrônio cresceu e se tornou ciente de que seu ex- companheiro de brincadeiras, Ark Malikum, era filho de um trabalhador dos esgotos, ele torceu o nariz e na mesma hora se juntou às outras crianças para menosprezá-lo. Ark sempre foi magricela e levemente malcheiroso: uma presa fácil. Petrônio lembrava-se de como seu constrangimento com a ligação com o garoto dera lugar a ameaças casuais e intimidação sempre que o caminho dele e dos novos amigos cruzava com o do infeliz Ark. Suas vidas haviam seguido vias bem separadas, como o nascimento pretendera — até aquele momento. O susto momentâneo retardou Petrônio por uma fração de segundo. Foi o suficiente para Ark disparar em direção à porta, derrubando uma
  22. 22. pilha de caixas. Tudo que lhe faltava em força era compensado em velocidade. A fuga sempre fora sua melhor saída numa encrenca, e ele ainda estava mais perto da porta. Quando Petrônio se recuperou o suficiente para passar por cima das caixas e sair correndo pela porta aberta, foi recebido e agarrado por dois pares de braços fortes. — O que temos aqui? Uma toupeira gorducha num buraco! — Vocês pegaram a pessoa errada! — gritou Petrônio, totalmente ciente das consequências do erro. — Rápido, ele está fugindo! — Ah, puxa, puxa, puxa! Sempre inocentes, não são? Os guardas eram obviamente recém-contratados e, para piorar, sorriam de forma um pouquinho ávida demais enquanto o jovem robusto se contorcia, tentando se soltar. — Vocês não sabem quem eu sou? — perguntou Petrônio. Ele pensou em tentar atacar pelo menos um deles, mas desistiu na mesma hora. Um tinha a constituição de um forno a lenha e o outro possuía uma cicatriz na cabeça que parecia gritar: Não mexa comigo! A encrenca em que Petrônio se metera já era bem grande, mas ainda assim ele protestou: — Amanhã vocês vão limpar caca com a pá por me tratarem assim! — Aah! Escute só ele, se achando o tal, mesmo apanhado em flagrante! Que que você acha, Sálix? — Tem a imaginação bastante fértil, isso sim! Acho que a gente pegou um espertinho aqui, Alno! Os guardas não queriam correr riscos. O maior mantinha o intruso imobilizado em uma gravata enquanto o arrastava escada abaixo. — Eis o seu espião, senhor! Talvez, se estivesse de dieta, ele pudesse ter escapado. A gente tem que agradecer a Diana por tantas tortas de cabrito! — disse Sálix, empurrando-o para dentro da sala antes de recuar. Petrônio cambaleou para a frente e viu-se olhando para um par de olhos estranhos, quase violeta. A mulher o fitou e então voltou-se para ler a expressão explosiva no
  23. 23. rosto do conselheiro Grasp. Ela ergueu uma sobrancelha. — Ah, deixe-me adivinhar. A semelhança familiar diz tudo. Seu filho, não é? Ela circulou Petrônio lentamente. Ele estava paralisado. Era do conhecimento de todos que os dendrianos vinham em todas as formas, tamanhos e cores. A única característica que os distinguia era o comprimento extra dos dedos, mais eficazes para agarrar galhos ou ramos. Mas aquela mulher era diferente de qualquer dendriano que ele já vira. Suas sobrancelhas eram esculpidas como luas crescentes gêmeas, os lábios pintados de vermelho feito frutinhos de aroeira e o cabelo negro preso com firmeza em um coque trançado. Seu manto, com o capuz para trás, era como o de um Lenhador Sagrado — embora não se ouvisse mais falar de sacerdotisas naqueles dias. — O que isso significa? — trovejou o conselheiro Grasp, dirigindo-se tanto ao filho quanto aos guardas agora pouco à vontade. — Pai. Peço humildemente que me perdoe. — Petrônio falava com rapidez, tentando avaliar quanto tempo já fora perdido. — Mas, por favor, ouça. Havia outra pessoa na área de serviço. Um garoto. Arktorious Malikum. Ele sentiu o suor se acumulando em suas axilas enquanto tentava não respirar na direção do pai. Ser apanhado fumando desviaria a atenção do problema. — O garoto encanador? — Sim. E a essa altura já deve estar fora da casa! — O quê? — Grasp tremia de raiva. — Você quer dizer que deixou que ele escapasse? — O conselheiro bateu na testa com a palma da mão. — Eles não ensinam porcaria nenhuma para vocês na escola? Petrônio estava chocado. Era culpa dos guardas! Se eles não tivessem obstruído o caminho... Quanto aos insultos, ele se vingaria mais tarde. O pai abaixou a voz: — Você ouviu tudo?
  24. 24. Petrônio era um mentiroso nato. Tal pai, tal filho. Mas dessa vez abriria uma exceção. Então assentiu e respondeu: — Nós dois… ouvimos. Ele se encolhia ainda mais a cada palavra. — Vou deixar uma coisa bem clara, garoto: se disser a alguém uma só palavra do que ouviu, não vou tratá-lo como filho, mas como um traidor. Você entendeu? Os últimos quinze minutos da sua vida nunca aconteceram. Agora saia! — Grasp acenou com a mão, dispensando Petrônio como se fosse um floco de caspa. Então voltou-se para os guardas: — Então parece que temos mais de um vazamento no encanamento. Há outra pequena goteira que precisa ser detida… de uma vez por todas! Não sejam tão incompetentes quanto meu assim chamado filho! E apresentem-se imediatamente a mim no momento em que a questão estiver resolvida — rosnou Grasp. — Façam o que for preciso. O encanador que deixaram entrar hoje é um risco. Agora andem! Os guardas fizeram o que lhes foi ordenado, deixando às pressas a casa e seguindo para a alta-estrada. A perseguição havia começado.
  25. 25. Um minuto antes de Ark saltar A névoa fizera um imenso favor a Ark. Naquele nível, algumas centenas de metros abaixo da copa das árvores, a floresta se transformava em um cenário de formas indistintas. Ele agora não era mais que uma silhueta agachada entre os guardas que avançavam em sua direção. Ark tinha apenas segundos. Sua mente disparava. O que ele ouvira na área de serviço era uma sentença de morte. Precisava fazer alguma coisa, mas o quê? Olhou em desespero para o cinto de encanador: chaves-inglesas, chaves de fenda, alicates, soquetes e corda, fina mas forte, para rastejar por canos escuros e fedorentos… Corda! Era isso! As folhas tremiam na escuridão, como se sussurrassem, quando Ark espiou rapidamente por cima dos pilares de segurança na margem da alta- estrada. Por que esperar para ser empurrado? Tudo que tinha de fazer era soltar a corda do cinto, passá-la por um dos pilares e então amarrar as extremidades com firmeza em um de seus pulsos. Abaixando-se ainda mais por um momento, amarrou a corda com dedos nervosos. Era agora ou nunca. Ele ficou de pé, correu e saltou da borda da
  26. 26. estrada. Em sua mente só havia uma coisa: fé cega. Se o pilar estivesse podre, então… crec! Ark iria mergulhar de verdade: um pássaro sem asas. Morto. Todos os seus instintos gritavam para que parasse. Tarde demais. Ele voou em um grande arco. A corda desenrolou-se e depois se esticou. O puxão foi tão brusco que Ark achou que tivesse deslocado o ombro, mas, sob o galho-via onde agora oscilava com violência, ele respirava, ainda vivo. A Terra não o devorara — por enquanto. Rapidamente, com a mão livre, ele soltou o cinto, que fora passado de pai para filho durante gerações. Seu pai o dera para ele apenas no ano passado, quando ficara doente demais para trabalhar. Ark, porém, não tinha escolha. Avistou seu alvo, um pedaço de andaime que se projetava de um tronco velho e seco, e atirou o cinto naquela direção. Tinha boa pontaria. Mesmo antes que o cinto aterrissasse, Ark começou a subir de volta pela corda dupla. Ele era ágil como uma aranha, e logo alcançou a parte inferior do andaime. Sob todos os galhos-via e altas-estradas, estruturas desordenadas de andaimes de madeira sustentavam a infraestrutura de Arborium. Havia tubos dos correios e canos de gás e miniaquedutos que transportavam os suprimentos de água bombeados através das raízes das árvores desde as profundezas do subsolo. Ark precisava se mover rapidamente em meio àquele emaranhado. Ele se arrastou com dificuldade até encontrar uma posição bem embaixo do galho-via. Então soltou a corda do pulso e puxou com força. Ela escorregou, desprendendo-se do pilar de segurança, e Ark a enrolou de novo. No exato instante em que a corda por fim deslizava para suas mãos, passos reverberaram ao longo das tábuas acima dele e gritos de alarme se perderam nas folhas. Os passos por fim pararam. Houve um ruído de algo sendo arranhado, seguido por uma imprecação. Tão perto. Ark abraçou os joelhos, tentando se encolher o máximo possível, e passou a respirar superficialmente. Será que eles teriam avistado o fino fio
  27. 27. de corda no crepúsculo que ia se tornando mais denso? Se tivessem, estava tudo acabado. Ele esperou que um rosto surgisse acima da borda, olhando direto para ele, ou o ruído seco da flecha de uma balestra de curto alcance. — Nada sobreviveria a essa queda — murmurou uma voz que só podia estar a menos de um metro de distância. — Não exatamente “nada”. O que é aquilo lá? — Outra voz. — Onde? — Lá embaixo! Ferramentas de encanador. Você é cego, além de estúpido? Silêncio. Ark contou até três. Seria melhor ser apanhado ou pular de verdade? — Aha-ha! — Uma risada breve e áspera. — Dá um novo significado para apertar o cinto, não é? — Quase me faz ter pena dele! — Houve mais risadas cruéis, seguidas por tosse e então o estrépito de um escarro sendo expelido. — Bah! Já vai tarde! * * * Pronto! O plano tinha funcionado. Os guardas idiotas tinham visto o que ele queria que vissem. Agora, segundo as zombarias que iam se extinguindo lá em cima, ele estava morto, se encaminhando para o rio Estio para se juntar às outras almas miseráveis que haviam se matado. Ele ouviu o estrondo distante de um trovão, mas o tamborilar das gotas na madeira acima dele havia cessado. Um pombo arrulhou suavemente em algum lugar à sua esquerda. Os homens deviam ter ido embora. Mas ainda assim Ark não se movia, enroscado em meio à confusão de canos e tubos. Não tinha certeza se podia e não sentia a menor satisfação em ter enganado seus perseguidores. Afinal, a partir de agora, daria na mesma se estivesse
  28. 28. morto. Sua garganta estava seca e ele tinha a sensação de ter sido virado pelo avesso. Se alguém estivesse observando, teria visto o que parecia uma trouxa de farrapos enrolada no andaime. Dez minutos arrastaram-se lentamente antes que a trouxa aos poucos começasse a se desmembrar em partes móveis. Ark desdobrou-se e, trêmulo, pôs-se de pé. Tinha de se inclinar para evitar bater a cabeça em algum cano. Na altura de sua cintura, um aqueduto revestido de zinco corria de ambos os lados na parte inferior do galho. Água. Ele se aproximou, mergulhou as mãos em concha no líquido claro e levou-as aos lábios. Quando se endireitou, dois pares de olhos idênticos o fitavam. — Santos fungos fedorentos! — praguejou baixinho; justamente o que ele precisava! Tinha de admitir: aquele era o lugar perfeito — escondido, com um suprimento abundante de água, a estrada de madeira acima servindo como um conveniente teto à prova d’água. Ele deveria ter notado a pilha casual de galhos à sua frente, habilmente tecidos em torno dos canos, mas sua mente estivera meio concentrada em outras questões. Os dois bebês Corvos continuaram olhando para Ark enquanto abriam o bico e gritavam. Mas a palavra “bebê” de maneira nenhuma descrevia as criaturas, suas garras já aptas a cortar com um só golpe até o osso, e o bico capaz de quebrar o crânio de um pobre dendriano como se fosse uma noz. Cada uma das avezinhas tinha metade do tamanho de Ark, e se esses eram os pequenos… Ele estremeceu ao pensar nos pais. Ark verificou o braço. A corda tinha queimado a pele e agora começava a latejar. Havia um pequeno filete de sangue: era só o que bastava como isca para um caçador ávido. Péssimo. Ele mais parecia um espetinho de Ark. — Olá, passarinhos… — murmurou Ark. — Não precisam chorar. Mas Ark sabia que, para eles, era só uma presa apetitosa a poucos centímetros de seu ninho. Eles não queriam palavras tranquilizadoras, queriam a Mamãe. Agora! Principalmente porque a Mamãe podia
  29. 29. transformar o intruso em papá! — Fiquem quietos! — tentou Ark, mas era o mesmo que dizer ao sol que não surgisse naquela manhã. Freneticamente, começou a tentar lamber o sangue do braço enquanto procurava uma maneira de voltar para o galho-via. Poderia correr o risco? Tinha alguma escolha? Os gritos dos Corvos ficavam cada vez mais intensos, e haviam começado a bater as asas, agitados. Uma vez que tinham sentido o cheiro de ferimento e fraqueza, era quase inútil sequer pensar em escapar. Ark ouviu o som de bater de asas antes que pudesse ver qualquer coisa. Estava no pior lugar possível. Sabia que Corvos fêmeas faziam de tudo para proteger sua prole. Na penumbra sob o bosque, uma sombra bloqueou-lhe a visão. Ao se encolher instintivamente, Ark forçou-se a olhar para cima e viu os olhos imensos e escuros engolindo-o, as garras — cada uma do tamanho de uma espada — avançando para rasgá-lo para o jantar, e as asas amplas prestes a se fecharem e lançarem um manto sobre sua vida. Naquele mesmo momento a névoa de repente se abriu e o último raio de sol do dia lançou um raro feixe de luz para a escuridão, penetrando em suas retinas e fazendo-o gritar de dor, um som ecoado pelo grito do Corvo. Acabou!, ele pensou, fechando os olhos. Sua mente encheu-se com imagens de casa: o pai encurvado e artrítico como uma folha seca junto ao fogo, a mãe cantarolando baixinho enquanto mexia a comida na panela, a irmã, Shiv, criando mundos minúsculos, completos com galhos e cascas de nozes, os galhos que os sustentavam no alto curvados. Cada uma dessas imagens esvaiu-se até que restou apenas a imagem de um sol negro surgindo a sua frente. Acabou-se tudo. Tudo…
  30. 30. Um encontro inesperado A dor que o cegou desapareceu tão rapidamente quanto viera, e o grito esmoreceu nos lábios de Ark. Hesitante, ele arriscou um olhar, e então arregalou os olhos, surpreso. Os bebês Corvos ainda o olhavam, mas estavam mudos. A mãe, com suas garras vorazes, não estava em nenhum lugar à vista. Dez segundos antes, ele era um pedaço de carne na bandeja. Agora nem mesmo sentia medo dos filhotes. Pelas cascas das árvores, o que havia acontecido? Nada fazia sentido. Ark sentiu-se enjoado. O Corvo do mito e da história havia se afastado em vez de engoli-lo. Duas vidas a menos. Quantas lhe restavam? Mas, quando se acalmou, uma fúria gelada tomou conta dele. Não era culpa sua ter ouvido a conversa sobre uma revolução e ameaças a Arborium! Ele era um simples encanador. O trabalho era uma porcaria, mas era a vida que tinha. Ark sentiu as lágrimas queimarem nos olhos. Tudo o que ele mais amava poderia ser roubado. Quando seu pai adoecera, Ark se viu uma noite socando o teto de madeira fina acima da cama com tanta força que os nós dos dedos começaram a sangrar. A escola era para crianças pequenas ou para garotos ricos. Ele não se encaixava em nenhum desses grupos. E era assim que as coisas funcionavam em Arborium. Ark era um aprendiz e agora seria o chefe da casa também. Lembrou-se do medo que sentira no primeiro dia de
  31. 31. trabalho ao pegar todas as ferramentas do pai, assumindo o lugar dele, e então pensou em todas as piadas e zombarias que ouvira. Como ele sobreviveria na escuridão dos esgotos, longe da luz do sol que passava pelas folhas e da chuva que castigava os galhos? De alguma forma ele conseguiu sobreviver, embora o patrão fizesse questão de dar ao novato as tarefas mais sujas. Ele sobreviveu, perseverou em suas metas e ainda ganhou o relutante respeito de trabalhadores que tinham duas vezes o seu tamanho. Agora tudo aquilo parecia ter sido em vão. Era hora de ir. Ark olhou uma última vez para os bebês Corvos. Eles não se moviam, apenas o fitavam. Um estranho instinto o fez querer estender a mão e acariciar a plumagem. Eram aves de mitos e lendas. Ele nunca estivera tão perto delas. Esqueça! Ele saiu de sob o andaime, escalou vários pilares de sustentação e espiou sobre a borda do galho-via. Com toda aquela correria, ele não ouvira os sinos que anunciavam o fim do turno de trabalho. A alta-estrada vazia começava a ficar cheia de operários cansados, que se afastavam da corte e dos negócios que cercavam o trono do rei Quercus. Ark escolheu um ponto bem denso e sombreado a uma pequena distância de onde estava e, no momento perfeito, deslizou pela borda e subiu na via. A tempestade passara e levara com ela a névoa, deixando os troncos reluzentes como se tivessem sido polidos. Ninguém sequer notou o encanador imundo surgindo por baixo de suas botas, e ele deixou que as multidões o levassem ao longo do galho-via na direção do tronco mais próximo. Aquela era a coisa mais interessante em Arborium: aquele era um lugar que nunca ficava imóvel. Os prédios rangiam, os pisos vibravam, altas-estradas de madeira se arqueavam e flexionavam por causa do vento e do peso. Era incrível pensar que a cidade de Heléboro, com o palácio no centro, era quase tudo que sobrara dos grandes condados de Arborium, antes de a antiga praga da cólera reduzir a população a uma pequena fração do que costumava ser. A grande floresta era mesmo um lugar de ecos abandonados.
  32. 32. Os portões do tronco estavam escancarados. Lá dentro, além da passagem, uma escada cavernosa serpenteava subindo para a esquerda e descendo para a direita. Ela havia sido entalhada em torno do núcleo vivo e central da árvore e estava gasta pelos passos de gerações de dendrianos que se esforçavam para subir e descer por ali. O cheiro de tortas quentes flutuava no poço da escada ao seu lado, lembrando a Ark que ele não tinha comido nada o dia todo. É claro que não podia voltar ao local de trabalho agora e pedir seu pagamento. Pelo que sabia, fantasmas não costumavam ser pagos. De qualquer forma, Ark se consolou pensando que sempre duvidara de que o anunciado recheio cem por cento carne de cabrito fosse lá muito honesto. O mais provável era de que fosse cinquenta por cento carne de cachorro e o restante, de outras coisas desagradáveis. Ele ignorou o quiosque de lanches enfiado em um canto escuro do tronco e prosseguiu, exausto, descendo os degraus na direção dos níveis inferiores. Aquele caminho o levou a passar diante das portas e janelas de apartamentos escavados no coração da árvore: propriedade básica para os ricos, mas muito além das possibilidades de um encanador. A escada continuava, espiralando infinitamente para baixo pelo tronco central, e a multidão por fim começou a rarear enquanto ele descia aos níveis mais baixos. Por fim, um portão malremendado abriu-se, revelando o galho-via que levava à sua casa. Ele adentrou uma terra de sombras. O crepúsculo tinha dificuldades em chegar até ali. A noite chegava mais cedo para os pobres. Na escuridão, porém, Ark sentiu-se em segurança pela primeira vez naquele dia. Lar era o único pensamento em sua mente. Ao longe, ele podia ver o acendedor de lampiões estendendo a vara para acender os primeiros lampiões noturnos. — Que que você tá fazendo aqui? A voz trovejou em seu ouvido no momento em que mãos carnudas o agarraram com firmeza em uma gravata. O coração de Ark vacilou. Tão perto de casa e fora apanhado. Por que havia voltado? É claro que iriam procurar por ele ali.
  33. 33. — Me largue! E, por incrível que parecesse, em vez de estrangulá-lo, as mãos fizeram o que ele pediu e o soltaram. Então, mesmo antes de se voltar, a verdade lhe ocorreu. A voz. — Mucum, seu grandalhão estúpido! — sibilou Ark, ficando de frente para o colega de trabalho. O garoto diante dele encaixava-se perfeitamente na descrição: o desleixado colete de pelo de ovelha mal conseguia conter a barriga, e era como se as pernas e os braços fossem troncos sólidos de carvalho saídos da roupa cor de lama. Os olhos, sob as sobrancelhas cor de laranja, olhavam- no, divertidos. — E fala baixo. Eu deveria estar morto! — É, sei. Aquele banheiro devia tá de matar mesmo, hein? Parece que você caiu lá dentro! Tá encharcado! Não se afogou, né? Ark olhou à volta febrilmente. — Não é piada. Estou em perigo. Não posso ir para casa, não posso voltar para o trabalho, não posso fazer nada. Ark caiu no choro, a tensão da última hora vindo finalmente à tona. — Para de bancar a menininha! — disse Mucum. Ark teve vontade de dar um chute nele, mas tudo que conseguia fazer era soluçar. — Aqui… Mucum pegou um lenço que parecia manchado de limo e o estendeu na direção de Ark. Ark estremeceu. — Obrigado, mas não precisa. Ele enxugou as lágrimas com a mão imunda. — Como quiser. Ark ponderou se podia confiar em Mucum. Trabalhar na mesma estação de esgoto não os tornava exatamente melhores amigos. Na verdade, ele mal conhecia o garoto, exceto para fazer comentários casuais sobre o
  34. 34. tempo. Depois de um segundo de indecisão, ele puxou Mucum pela manga e o arrastou para fora da passagem principal, longe de qualquer um que pudesse estar por ali. — Aqui! Sente-se! Fique quieto… por favor! Ele apontou para um espaço entre duas pilhas de estrados de pinheiro prontas para a reciclagem. Mucum não estava acostumado a receber ordens. Ele franziu a testa. Podia sentar-se em cima de Ark e esmagá-lo ou agachar-se como um bom garoto em uma pilha de lixo. Ele deu de ombros. — Sou todo ouvidos. Mas vou dizer que, se você conseguiu inundar o porão do Senhor Todo-Poderoso Grasp com caca e agora vai ficar aí choramingando, não quero saber! — É pior do que isso! — disse Ark, esquadrinhando o caminho, inquieto. — Muito pior. Ele se espremeu ao lado de Mucum e finalmente contou-lhe os acontecimentos que haviam começado quando ele tentara desobstruir o vaso sanitário. Quando Ark terminou de falar, Mucum sacudiu a cabeça, espantado. — Nunca ouvi você falar tanto! — Ele olhava o garoto encanador que em geral era tão quieto. — Ou você perdeu completamente o juízo e inventou essa coisa toda ou… — Desde quando eu sou um especialista em mentiras? Esse é o seu departamento. Mucum sorriu. Era verdade. Suas desculpas por chegar atrasado ao trabalho eram lendárias. A única razão por que seu patrão, Jobby Jones, o tolerava era que, de vez em quando, problemas de encanamento só podiam ser resolvidos com força bruta. E quando a questão eram parafusos que se recusavam a afrouxar ou canos tão pesados que esmagariam dendrianos normais, Mucum era a pessoa certa para o trabalho. — Certo. Sempre achei que Grasp era muito metido, andando de um lado para o outro com aqueles capangas, como se fosse o dono de todos os
  35. 35. galhos-via! Mas de idiota a traidor… é um pulo e tanto. Você tem certeza disso? — Ouvi muito bem — respondeu Ark. — Maw vindo aqui roubar tudo? Ark assentiu. O lugar parecia pertencer a um conto de horrores. Uma terra sem árvores? Aquilo, sim, era uma versão dos Lenhadores Sagrados para o inferno. Palácios grandiosos de vidro espelhado e máquinas de metal que voavam. Para a maioria dos dendrianos, o império distante era mais como um rumor, uma história que espreitava em seus sonhos. Agora esses sonhos, esses pesadelos, estavam prestes a ganhar vida. Pelo que ele ouvira mais cedo, Maw mais parecia um monstro horrível e guloso, ávido por engolir sua pequena ilha e cuspir os pedaços. Mucum pegou um pequeno galho quebrado e pôs-se a mastigá-lo. — Cada lasca de madeira vale seu peso em ouro por aquelas bandas? Faz a gente pensar… Ele observou os galhos mergulhados em sombras ao redor enquanto os últimos retardatários vindos do trabalho seguiam para casa e os lampiões a gás eram acesos. — Talvez eles tenham razão. Este lugar é precioso — murmurou Ark, estremecendo ao pensar no futuro. Mucum já estava entediado com aquela conversa de fim da floresta. — E eles atiraram mesmo em você com as bestas? Ark assentiu, abatido. — E você acertou um com a chave-inglesa! Até eu tenho de admitir que isso foi impressionante. Ark tentou não sorrir, mas, na verdade, escapar de guardas assassinos era mesmo um feito e tanto. — Assim está melhor. Você está se animando. Quanto a fingir que se matou… muito incrível! Quem pensaria que nosso ratinho aprendiz seria esperto assim? — Mucum ficou em silêncio por um segundo. — E os Corvos? — O garoto estremeceu com aquele pensamento. Ele enfrentaria
  36. 36. qualquer um. Mas os Corvos? — Coisas de pesadelo… não que eu tenha medo nem nada, certo? Ark sabia que era uma boa ideia concordar. — Mas desde quando eles deixam que uma refeição grátis saia por aí viva? E assim tão perto do ninho. Era o mesmo que ter um alvo pintado na cabeça! Tô perdendo alguma coisa aqui? — Não. Também não entendi. É estranho. E era ainda mais estranho que ele tivesse vontade de brincar com filhotes de Corvo. — Seja como for, seus problemas são maiores que um bando de bebês monstros. — Obrigado, Mucum. Isso ajuda muito. Ark de repente sentiu o corpo pesado, exausto da corrida e de tudo mais. Ele poderia se enroscar nessas caixas e deixar tudo aquilo para trás. — Ei, dorminhoco. É melhor ir pra casa. Aproveite que tá morto! Isso é uma vantagem, certo? Eles num devem sair por aí procurando por você! Apesar das aparências, Mucum não era tão estúpido assim. — Sim. É claro, você tem razão. — Eu sempre tenho razão. Quando foi que você disse que isso ia começar? Ark tentou lembrar o que a mulher tinha dito. — Festival da Colheita. — Na mosca. Temos sete dias. Você pode salvar Arborium quando sua cabeça estiver mais tranquila. Tenho que ir pra casa pro chá, ou meu pai me mata. Encontre a gente fora do trabalho. Vou arranjar uma desculpa e sair uma hora antes do almoço. Vamos pensar num plano. E prometo que, se eu encontrar aquele Petrônio, vou cuidar dele. Mucum bateu no ombro de Ark, quase o derrubando, então se afastou, os pés enormes fazendo todo o ramo-via vibrar. Era hora de Ark ir para casa.
  37. 37. Morto e vivo Apesar de tudo, Ark conseguiu sorrir. Pelo menos não estava sozinho, embora descrever Mucum como amigo talvez fosse um pouco demais. Estava quase chegando. Ali embaixo, entre os galhos, mil choupanas haviam sido erguidas, construídas a partir de restos do dossel superior. Ali havia pinos de madeira, pranchas de casca de árvores e lonas vegetais e pedaços de placas de resina barata usados como janelas. Ferro reciclado brotava e sustentava mil chaminés, agora lançando fumaça como se cada casa estivesse secretamente fumando um charuto. O cintilante subassentamento nas cercanias de Heléboro pendurava-se em uma rede precária de cordas puídas e trepadeiras. A paisagem era feia para alguns, mas, aos olhos de Ark, a luz do fim do dia revelava um colar reluzente e vibrante de beleza. Quem precisava de estrelas no céu quando podia ter aquilo? Ark quase se arrastava ao longo do galho, tentando decidir o que poderia dizer aos pais. A verdade? Certo: então ele ouvira uma conspiração que iria destruir seu país, quase tinha sido assassinado e, em seguida, quase devorado por uma ave que vinha diretamente da Floresta dos Corvos, e agora achavam que estava morto… Ah, e, por falar nisso, não trouxera nenhum dinheiro para comida ou aluguel e não teria condições de ganhar mais nem um centavo no futuro próximo. Sim, aquela história faria muito sucesso.
  38. 38. Ele serpenteou por um beco de madeira, descendo entre as casas densamente povoadas. A fumaça espiralava em torno dos galhos, seu aroma misturando-se às folhas verdejantes e à resina das cascas. Ark inspirou o aroma familiar. — Epa! Seu pé parou em pleno ar. Ali, no meio do ramo-via, havia um aglomerado de cerdas. O minúsculo ouriço enroscou-se em uma bola espinhenta, determinado a defender seu território. Desviando-se da criatura com cuidado, Ark franziu a testa. Se o Império conseguisse o que planejava, os animais de Arborium não seriam mais do que pestes a serem erradicadas. Um minuto depois ele dobrou a esquina, e seu coração se iluminou. Uma garotinha de cabelos cacheados e um tanto suja, presa a uma corda, brincava com uma pilha de gravetos, deixando cair um, depois outro, da borda do galho. Ela exibia uma expressão de admiração encantada enquanto os gravetos mergulhavam rodopiando na insondável escuridão. Embora já tivesse quatro anos, sua imaginação ainda vivia na floresta selvagem. — Olá, Shiv! — Arky-Parky! — gritou sua irmãzinha. O sorriso dela era ainda maior do que o dele. Ark começou a inspecionar a corda. — Não queremos que você caia daqui de cima, hein! Hoje caí do galho e fingi que estava morto! — Arky não está morto! Não vou deixar isso acontecer, nunca! — disse ela, franzindo a testa. — Que bom para você! Ele a levantou nos braços e deu um beijo na testa da menina. Shiv deu um gritinho de alegria. — Me joga da árvore? Por favooooor! Ark podia sentir o peso dela. — Você, minha lindinha, está crescendo rápido demais. — Ark ainda
  39. 39. gostava de fazer a velha brincadeira de pendurar a irmã de cabeça para baixo para fora do galho e fingir que a deixava cair, mas agora se viu pensando melhor. A quase queda ainda era muito recente, e, além disso, ocorreu-lhe que ele devia entrar antes que fosse visto por algum vizinho que estivesse passando. Ele tornou a colocá-la cuidadosamente no galho. — Desculpe, Shiv. Outra hora. Tenho de entrar para falar com papai. O lábio inferior dela curvou-se para baixo e um choro ameaçou sair de seus lábios. Ark tentou afastar a choradeira. — Mais tarde. Prometo. Seja boazinha agora. — Humpf! — murmurou Shiv, e virou as costas para ele a fim de brincar com um dos gravetos. Ark respirou fundo. Pelo menos estava de volta. A casa em forma de domo aninhava-se em um berço de cordas, como um ovo gigante. Ele deixou o galho-via pelo caminho estreito e oscilante que balançou levemente. O rangido era familiar, acolhedor. — Alguém em casa? Ark ergueu a borda da lona vegetal, feita de folhas costuradas juntas para proporcionar impermeabilidade e proteção. Quando as folhas caíam durante o outono, os dendrianos penduravam redes entre as árvores. As folhas eram fortes e flexíveis; uma vez curtidas, se tornavam muito mais duradouras que couro de vaca. Ark abaixou-se, deixando as sombras. O único cômodo redondo era dividido por grossos cobertores comidos por traças. Lampiões a gás, fixos nas paredes, bruxuleavam na brisa que fazia toda a casa tremer em seu frágil berço de corda. Ark se firmou quando o calor abafado aqueceu seu corpo úmido. — Aqui, filho — falou uma voz fraca. Seu pai estava enroscado em uma grande cesta perto da lareira. Os olhos opacos voltaram-se na direção de Ark. — Teve um bom dia? — Foi tudo bem — mentiu Ark.
  40. 40. Ele estava molhado, cansado, e seu mundo inteiro havia virado de pernas para o ar. Tudo bem não estava nem um pouco perto da verdade. — Sua mãe está fora, pechinchando alguns legumes. Vai voltar daqui a pouco. Ark sentiu-se culpado. As últimas moedas deles se perderiam com algumas batatas esquisitas e cenouras enrugadas. — Pai. Estou em uma enrascada. — Hã? Mas ele não teve chance de explicar. Ambos se viraram ao som de botas pesadas retinindo pelo caminho. Ark voltou os olhos arregalados para o pai, que, rápido como um raio, fez sinal para que o filho se abaixasse atrás de um dos lençóis que serviam como divisória. Antes que o Sr. Malikum Sênior pudesse dizer Entre, a borda da lona foi puxada para um lado de forma brusca, deixando entrar o ar frio da noite. — Quem é? O Sr. Malikum ergueu os olhos para ver dois homens vestidos em casacos de couro marcados com a imagem de um falcão-peregrino. As facas embainhadas em seus cintos não estavam ali por cerimônia. O guarda maior, com uma cicatriz que corria de um lado ao outro do crânio, também exibia um sorriso malicioso que mal conseguia esconder. — O senhor é o Sr. Malikum, pai de Arktorious, o garoto encanador? — Sim, sou eu. Do que se trata? O pai de Ark tentou sentar-se em seu catre para encarar os visitantes indesejados, mas o esforço foi demais para ele, que desabou de volta. — Trazemos notícias desafortunadas — disse o primeiro homem, como se estivesse lendo um roteiro. — Parece que seu filho sofreu um acidente — disse o segundo. — Ele tropeçou e… caiu da borda. O Sr. Malikum desempenhou bem seu papel. — Oh, não. Não! Vocês estão dizendo que ele…? — Receio que sim, senhor.
  41. 41. O “senhor” foi dito com um esgar e, para aumentar ainda mais a afronta, o outro guarda apanhou algumas moedas de bronze e as lançou casualmente na cama. — É claro que vai haver um inquérito. Mas tudo muito simples. Parece que o estresse do trabalho foi demais. Ele pulou! E, para enfatizar suas palavras, o guarda deu um pulo súbito, batendo os pés com força nas tábuas finas. O Sr. Malikum não decepcionou. Seus ombros se sacudiram quando ele se dobrou para a frente, agarrando o lençol que cobria suas pernas para enxugar lágrimas inexistentes. — O conselheiro Grasp sente muito por sua perda. Terminado o discurso, os guardas deram meia-volta e marcharam para fora da casa sem nem mesmo olhar para trás, para o homem que se lamuriava. Lá fora, quase tropeçaram em uma garotinha brincando com um boneco feito de gravetos. Ela amarrara um pedaço de corda nele e o puxava ao longo da borda do galho. — Obaaa! — repetia, empurrando a figura da borda e então puxando-a de volta. — Pobre criança — disse Alno, o mais jovem dos guardas, esfregando o bigode. — Que me emporcalhem! Alno ficando todo sentimental por causa de um rato de esgoto! E agora? Temos questões mais urgentes para cuidar… — Como o quê? — Como beber até cair! — É. Suponho que sim. — Nada de “suponho”. Vamos! Vamos embora desse monte de barracos esquecidos por Diana. Missão cumprida. Os guardas acertaram o passo e se foram, adentrando a escuridão que se tornava mais densa.
  42. 42. * * * — Pai. Eu sinto muito. Ark levantou-se lentamente de trás das cortinas gastas. — Sente muito? Por quê? Você está vivo. É isso que importa. Agora vá trocar de roupa e ponha a chaleira no fogo. Quando estivermos aquecidos com um chá, você pode me contar como morreu! Havia um lampejo do velho espírito nos olhos do pai. Depois de vestir roupas secas, Ark colocou a chaleira de volta na placa de ferro quente sobre o fogão a lenha e esperou até que ela chiasse. Chá era um raro prazer, mesmo quando comprado de segunda mão. Arborium não era completamente isolada do mundo exterior. Suas fronteiras eram porosas como uma peneira quando se tratava de oferta e procura. Os piratas da lama que viviam no mundo crepuscular a um quilômetro e meio abaixo, na base das árvores, ficavam muito felizes em fazer o contrabando. Eles interceptavam especiarias e café de Maw e os entregavam aos mensageiros que eram o único meio de acesso ao país tão acima do solo. As duas colheres de folhas secas agora cobertas com água fervente haviam vindo de longe, exatamente como a mulher que participou da conversa que Ark entreouvira. A diferença era que um pote de chá não representava uma ameaça real ao modo de vida de Arborium. A xícara de madeira toscamente entalhada aqueceu-lhe as mãos e, ao se agachar, Ark deu-se conta do quanto estava cansado. Era hora da verdade. E, pela segunda vez naquele dia, ele contou sua história. Quando terminou, o pai permaneceu em silêncio por um tempo, contemplando as folhas no fundo da xícara vazia como se pudessem revelar o futuro. — E agora, filho? — O que você quer dizer com “e agora”? — Ark viu-se novamente à
  43. 43. beira das lágrimas enquanto o desespero se aproximava. — Não posso voltar ao trabalho. Não posso ganhar dinheiro. Não posso alimentar o senhor, Shiv e mamãe. Considerando o que posso fazer por nossa família, seria melhor se eu fosse banido para a Floresta dos Corvos. — Shhh. Há sempre alguma coisa que se pode fazer. Seu pai podia estar aleijado e confinado ao seu cesto, mas havia um forte tom de certeza em sua voz. — O quê? No momento em que eu sair daqui, vai haver um prêmio pela minha cabeça. Eu falhei com vocês. Sou só uma… — Você é apenas uma criança. Eu sei. — O pai sacudiu a cabeça e, com delicadeza, empurrou os cabelos pretos de Ark para o lado, a fim de observar o rosto do garoto. — E, no entanto, sempre houve alguma coisa diferente em você. Lá ia eu escalando um galho para descobrir por que os ramos estavam sempre entupindo um ralo, com o vento tentando me arrancar da árvore como uma pena! Ark ouvira aquela história uma centena de vezes. Costumava achá-la reconfortante. Agora, porém, ela o encheu de perguntas sem respostas. — E lá estavam vocês dois, enrolados em um ninho coberto de penas, sorrindo para mim com seus estranhos olhos verdes. No redemoinho daquela tarde quatorze anos atrás, o Sr. Malikum, o encanador, havia saído de casa com uma chave-inglesa e voltara com dois bebês. Sua mulher ficara perplexa, e em seguida encantada. Quem eram eles para recusar um presente das árvores? — Você foi um milagre. Mas por que alguém deixou vocês lá naquele frio somente Diana sabe. E sua pobre irmã Victoria pegou a febre, que a levou tão rápido… Ele sacudiu a cabeça, perdido em memórias. Depois de um dia de luto e da bênção da Guardiã Goodwoody, eles haviam colocado o corpo do bebê nos galhos, vestido em farrapos, alimento sacrificial para os Corvos. Ao que parecia, Ark havia gritado durante toda a cerimônia, só ficando em silêncio quando a primeira ave surgiu, descendo
  44. 44. do céu. Em vez de reivindicar seu pedaço de carne, o Corvo havia arrebatado o corpo da menina e decolado enquanto seus companheiros voavam em círculos e crocitavam com ferocidade. Às vezes Ark tentava lembrar-se da última vez em que vira sua gêmea perdida, mas a imagem em sua mente estava para sempre cheia de um redemoinho de penas negras e indistintas. — Você sabe que sempre o amamos como nosso filho? Ark assentiu. O Sr. e a Sra. Malikum eram seu pai e sua mãe. E Shiv era sua irmã de verdade, e estava viva. Quase bastava. Mas o pai tinha razão. Quem os abandonaria no meio do nada? Aquela pergunta o incomodara durante toda a sua breve vida. Mas a resposta era óbvia. Era alguém que evidentemente não se importava. Aquilo era tudo que ele precisava saber. — Sempre conseguimos nos virar e vamos continuar conseguindo. Por esta noite, não há nada que possamos fazer, exceto deixar nas mãos de Diana. — Ele fechou os olhos brevemente. O assunto estava encerrado. — Você comeu alguma coisa hoje? Ark sacudiu a cabeça em silêncio. A fuga o havia esgotado. Estava faminto.
  45. 45. Gás venenoso Petrônio não teve a menor dificuldade em se manter fora do caminho do pai na manhã seguinte. Escapou após o café da manhã e misturou-se às pessoas nos movimentados galhos-via, sua própria cabeça abarrotada com os acontecimentos do dia anterior. Quando os guardas tinham retornado com a notícia da morte de Ark, Petrônio ficara levemente surpreso com a própria reação. Ele procurou algum pesar, mas não encontrou. Na verdade, estava bem mais aborrecido com o tratamento que recebera por parte dos dois novos guardas. Ser arrastado diante de seu pai como um garoto travesso era uma afronta ao seu orgulho. Não esqueceria aquele momento, de modo algum. Quando chegasse a hora, ele os faria pagar caro. Petrônio abria caminho pela multidão, espremendo-se em meio a vários cavaleiros frustrados, uma carroça lotada de cebolas vinda das lavouras suspensas e um rebanho de ovelhas balindo, preso naquele mar de rostos. Ele estava impressionado que mais pessoas não caíssem dos galhos no corre- corre para o trabalho. As cordas de segurança ajudavam, mas os programas de alargamento das vias propostos pelo conselho não diminuíam o enorme número de pessoas que usavam os galhos principais. Por que alguns desses plebeus não podiam sair de Heléboro e repovoar os antigos assentamentos assolados pela praga nas áreas mais remotas? A
  46. 46. doença já desaparecera havia muito tempo, com exceção de surtos esporádicos e isolados, mas os dendrianos eram um bando de supersticiosos. E na capital havia trabalho a fazer, então eles se aglomeravam como moscas. Petrônio rangeu os dentes e forçou passagem pela multidão. Se seu pai assumisse o posto de presidente da nova república, talvez pudesse começar com uma ligeira redução forçada da população. Petrônio olhou para cima, observando a pouca luz que se infiltrava pelas folhas. As nuvens estavam densas e cinzentas hoje, ameaçando repetir a tempestade de ontem. Lá embaixo, vários níveis abaixo da copa, a falta de luz transformava as passarelas e estradas em uma terra de sombras que o silvo e o reflexo dos lampiões a gás pouco faziam para dissipar. A Escola de Cirurgiões erguia-se imponente a distância. Amplas janelas gritavam sua importância e seu status. A estrutura de madeira tinha seis lados, erigindo-se em uma plataforma impressionante, apoiada entre quatro troncos robustos. As salas de cirurgia ocupavam o andar superior, com claraboias capturando a maior parte de luz do dia. Aprendizes como ele tinham de se contentar com as salas de aula mais escuras no primeiro andar. Quando Petrônio abriu a porta externa, o cheiro familiar de formaldeído o envolveu. Lá dentro, o garoto cumprimentou com um aceno de cabeça alguns conhecidos enquanto se acomodava em seu lugar nas fileiras que subiam em semicírculos em torno do pódio principal. Se ele ao menos pudesse dizer a seus companheiros o que ouvira. Eles ficariam mais do que impressionados. Mas “companheiros” era uma palavra muito forte. Todos os rapazes ali agiam com cuidado com Petrônio, conhecendo muito bem a reputação de seu pai. Ele nunca admitiria aquilo publicamente, mas gostava da maneira como o tratavam. O medo era uma arma útil. Naquela manhã a aula era de Estudos Gerais, e o professor idoso, que mais parecia uma águia de cabeça branca, tagarelava sem parar sobre um monte de coisas que Petrônio já sabia. — A evolução da floresta e da sociedade dendriana que dela depende
  47. 47. merece ser examinada — dizia o professor em tom monótono com sua voz de folha seca. — Viemos das árvores e, estranhamente, depois de muitos milhares de anos, voltamos a elas. A explicação por trás dessa nova direção devemos a nosso grande filósofo Darvim. — O professor bateu em uma foto em seu quadro de cortiça, mostrando um homem fazendo algo maçante em uma biblioteca. Petrônio não se deu o trabalho de disfarçar o bocejo. — … naquele tempo, a terra estava envenenada por aqueles que vieram antes. Como poderiam as árvores e nossos ancestrais viverem da água de rios mortos havia muito e solos poluídos pelas cidades? Tempos de desespero geraram medidas drásticas e inspiração! As árvores sempre lutaram por seu quinhão de luz. Como disse Darvim, somente os fortes triunfam. Petrônio assentiu. O velho chato estava finalmente falando algo sensato. O professor fez uma pausa, apontando para outra imagem, uma árvore nova que pareceria insignificante não fosse a diminuta figura de um homem adulto ao lado dela. — Os supersticiosos dizem que as árvores têm consciência. Elas sabiam que a terra estava poluída e que, para sobreviver, teriam de enterrar suas raízes mais profundamente. Enquanto o resto do mundo se transformava em uma imensa cidade, algo diferente acontecia em Arborium. Os alunos mais aplicados tomavam notas, mas a mente de Petrônio vagava entre a ideia de crescer cada vez mais e a de cair. Ele tentou imaginar o estranho salto de Ark para o desconhecido. Que pensamentos naquela fração de segundo o impulsionaram da borda? Era um grande salto: de um joão-ninguém humilhado a alguém que tira a própria vida. Seria mesmo? As mãos de Petrônio instintivamente fizeram o sinal da Cruz do Mateiro: Sobre a Terra, Sob o Céu, Folhas a Leste e Oeste. Mas então parou e cruzou os braços com determinação. Qual era o sentido em manter hábitos antigos e inúteis? Orações eram para os fracos. Agora tinha de
  48. 48. pensar no futuro. — O filósofo chamou de “evolução” esse fascinante processo em que as árvores que desenvolveram raízes mais profundas e troncos mais altos sobreviveram, assim como os dendrianos, quando se afastaram da terra imunda e passaram a viver neste berço de galhos e ramos. Poderíamos dizer que as árvores que ousam, vencem! Ninguém riu com a animação do professor. Ele prosseguiu, como se nada houvesse acontecido. — Os religiosos contam outras histórias, colocando os fatos em uma fantasia de deusas e árvores que pensam por si mesmas. E algumas famílias ainda seguem as velhas superstições. É puro barbarismo sacrificar um javali para satisfazer a Rainha-Corvo! Aqueles Corvos não são de fato “aves da morte”, mas simples subprodutos da natureza! — Seu sorriso afetado finalmente foi recompensado por algumas gargalhadas intelectuais de sua plateia. — Exato. Os dendrianos podem acreditar no que quiserem, mas minha tarefa é lidar com a realidade. Portanto, qualquer que seja a opinião de vocês sobre a origem das espécies, o fato é que uma mudança extraordinária ocorreu. Era como se esse novo gênero de árvore trouxesse embutido um código para a autopreservação. O gambá expele um cheiro repugnante por uma glândula em seu traseiro para afastar os predadores, correto? Aquilo provocou risadas abafadas nos rapazes mais grosseiros na turma. — E o porco-espinho se torna uma falange impenetrável de arpões. O mesmo acontece com nossas árvores híbridas. À medida que foram se tornando cada vez mais altas e os humanos originais abandonaram seus antigos hábitos terrestres, percebeu-se que os viajantes que passavam pelo litoral de Arborium adoeciam de imediato assim que punham os pés em terra. E qual a razão disso? Ele apontou sua caneta diretamente para Petrônio. O rosto de cada aluno virou-se para o garoto, à espera da resposta inteligente e sarcástica de sempre.
  49. 49. — Gás… senhor. A maneira como Petrônio se dirigiu ao professor não escondia seu desprezo. E ele não teria nenhum problema por aquilo. Ninguém dava advertências ao filho do Sumo Conselheiro. — Isso mesmo, jovem Grasp. As raízes dessas novas espécies aprofundaram-se ainda mais na crosta terrestre, perfurando abaixo dos aterros imundos de nossos antepassados, buscando fontes limpas de água e minerais. As raízes, porém, quase com mentes próprias, fizeram outra descoberta. Elas finalmente perfuraram reservas de gás desconhecidas. Para os habitantes das árvores, esse foi um momento decisivo, com infinitas possibilidades. As árvores em si não tiveram nenhum uso para ele, mas para os parasitas humanos que viviam nas copas o gás foi a alavanca que precisavam para deixar o solo: uma fonte independente de calor e energia! As árvores ofereciam calor, hábitat e água limpa para todas as criaturas que viviam no alto das copas. Em troca, nós, dendrianos em recente evolução, podíamos defender a floresta de interferências externas. Dar e receber. A natureza é verdadeiramente extraordinária, embora possamos deixar o reino das árvores falantes para as histórias infantis. O velho sorriu e coçou uma ferida na careca brilhante. — Mas a parte mais engenhosa do quebra-cabeça ainda estava por vir. Em algum ponto da constituição biológica das árvores, as raízes que extraíam o gás também instituíram um processo de filtragem. O gás era limpo, por assim dizer, os resíduos eram escoados e liberados pelas folhas com um cheiro inofensivo. Inofensivo para os dendrianos e outros habitantes das árvores. E, assim, essa relação vem dando certo há gerações, e aqueles forasteiros que procuram se infiltrar em nosso país agora pagam o preço final… da asfixia! Alguns dos garotos fizeram ruídos deliberados de estrangulamento, agarrando os próprios pescoços. — Sim, sim. Muito divertido, tenho certeza. Mas talvez não achassem minhas palavras tão hilárias se nossa pequena nação estivesse sob ataque,
  50. 50. não é? Se o professor soubesse da missa a metade, pensou Petrônio. Uma campainha soou e todos começaram a arrumar os livros. — Os trabalhos são para amanhã, por favor — falou o professor acima do burburinho. — Lembrem-se: vocês devem debater a diferença entre a assim chamada criação religiosa dos mitos de Diana e sua sombria companheira, Corvena, e os fatos concretos da cronologia evolucionária dendriana. Os alunos ignoraram o professor, debandando para o intervalo. Um dos rapazes ofereceu um charuto a Petrônio, que não fazia nenhuma objeção a um pouco de falsa amizade, em especial se envolvesse fumar de graça. Ele juntou-se ao pequeno grupo de garotos que iam dar suas baforadas secretas do lado de fora e seguiu com eles até a esquina de uma praça pública. Em um dos lados, as mesas estavam postas, preparadas para o comércio da hora do almoço. Um garçom, varrendo a sujeira dos pombos e os gravetos do chão, fechou a cara para os alunos, deixando claro que eles não eram o tipo de cliente que ele esperava. Petrônio recostou-se em uma coluna sem tomar parte nas brincadeiras. Observava o fluxo constante de dendrianos que jorrava pela plataforma de tábuas e cuidadosamente apagou o charuto. Dar início a um incêndio na floresta não era do interesse de ninguém. Petrônio pensava se suportaria permanecer ali mais um pouco quando uma figura chamou sua atenção. Era um Mateiro Sagrado com o capuz na cabeça e arrastando o manto, cruzando a praça com decisão. Nada de incomum — exceto que havia alguma coisa diferente na maneira como o Mateiro se locomovia, parecendo quase deslizar em vez de andar. Então os olhos de Petrônio percorreram a figura de cima a baixo, e viram não sandálias rústicas, mas botas caras e elegantes, forradas com pele. — Com licença, pessoal. Preciso ir. Petrônio não se deu o trabalho de dizer obrigado. Nunca o fazia. A figura já havia desaparecido. Ele atravessou a praça correndo, não sabendo
  51. 51. exatamente por que queria segui-la. Era só instinto. Depois de uma esquina, o galho se dividia. Esquerda ou direita? Petrônio farejou como um caçador. Um cheiro pairava no ar. Parecia familiar. Ele tomou a direita e seguiu o sinuoso galho-via, tentando não correr. Mais adiante, o Mateiro reapareceu, deslocando-se com o mesmo ritmo decidido. A cada bifurcação, o Mateiro tomava o caminho que parecia afastar-se ainda mais da trilha mais comum, e até mesmo Petrônio começou a se perguntar onde estavam. Uma velha placa, castigada pelo tempo, advertia que o caminho à frente estava fechado para reparos. O Mateiro a ignorou, saltou-a com agilidade e prosseguiu pelo galho-via interditado. Petrônio fez uma pausa, os olhos examinando nervosamente a área. Se continuasse a seguir a figura agora, seu propósito seria mais do que óbvio. Lá em cima um casal de cabras-das-árvores selvagens empoleirava-se em galhos altos que pareciam incapazes de suportar um pardal, quanto mais mamíferos daquele tamanho. Nem se deram o trabalho de olhar para o estranho lá embaixo, de tão ocupadas que estavam pastando as florescências dos fungos que cobriam a casca da árvore. Um grito súbito vindo de mais adiante interrompeu a indecisão de Petrônio, seguido por um baque. Ladrões? Ele duvidava. Seu pai conduzia os esquemas de proteção com mão de ferro. A livre iniciativa criminal havia sido reprimida. Talvez fossem os Corvos. Mas quem já ouvira falar de um Corvo atacando um sacerdote? Outro grito, dessa vez mais perto. — Socorro! Novamente o instinto. Petrônio saltou sobre a placa de advertência e correu em disparada pelo caminho. A figura havia caído no chão. Um horrível som abafado vinha da garganta do Mateiro. Somente quando se aproximou Petrônio lembrou-se da primeira vez em que sentira aquele cheiro. — Minha… senhora? — Socorro… preciso…
  52. 52. Os dedos finos e elegantes com unhas vermelhas tateavam na direção de uma bolsa de couro ao seu lado. O capuz havia caído e ele podia ver o rosto da mulher, coberto por um leve brilho de suor, enquanto a outra mão agarrava a garganta. — O quê? Não entendo o que a senhora… Mas Petrônio apanhou a bolsa assim mesmo. — Rápido… gás… É claro! Talvez a aula daquela manhã não tivesse sido tão irrelevante, afinal. Petrônio esvaziou a bolsa rapidamente. Vários objetos de metal de formato estranho caíram no chão. Para um aprendiz de cirurgião, um deles era bem conhecido, embora bem menor e mais elaborado que sua versão dendriana: uma seringa hipodérmica. O tempo estava se esgotando; a mulher mal conseguia aspirar, quanto mais falar. Com o que lhe restava de força, ela apontou fracamente na direção do próprio braço. A primeira emergência de verdade de Petrônio! Ele apanhou a seringa e rapidamente subiu a manga de lã rústica, revelando um braço liso e sem pelos. O toque da pele dela o fez estremecer. Clinicamente, os dedos dele procuraram o lugar certo. Ele tirou a proteção da agulha e a cravou na carne, abaixando o êmbolo lentamente. Os olhos da mulher reviraram, e seus braços agitaram-se uma vez, então caíram pesadamente ao lado do corpo. Ela estava morta! Ele a matara! Mas as mãos dele começaram a trabalhar por vontade própria, fazendo o que haviam sido treinadas para fazer: agarrou-lhe a mão e procurou o pulso. Nada. Não. Espere. Ele sentiu alguma coisa, leve como uma brisa entre as folhas. O alívio foi enorme. Petrônio apanhou a bolsa de couro e a colocou sob a cabeça dela. Então virou-lhe o corpo de lado, na posição de recuperação. Tudo que podia fazer agora era esperar e ver se o que havia na seringa faria seu trabalho. Alguns minutos se passaram. A floresta estava atipicamente silenciosa. Nenhum canto de aves. Nenhuma fuga apressada de esquilos. Era como se
  53. 53. as árvores estivessem prendendo a respiração para ver se a evolução poderia ser enganada de forma tão fácil. As pálpebras da mulher começaram a tremular. Petrônio debruçou-se sobre ela e tornou a verificar seus sinais vitais. Alguns momentos depois ela abriu os olhos, pousando-os em seu salvador. Embora a mulher houvesse quase morrido, um sorriso fino vincou- lhe os lábios. — Você salvou minha vida. Petrônio ficou vermelho-vivo. Estava surpreso com as próprias ações. — Fico feliz em… hã… ajudar. — Sim. Acho que sim. Aqui… Ela tentou sentar-se. Petrônio inclinou-se para ajudar, agarrando-lhe os pulsos para puxá-la. Ele novamente teve consciência de seu cheiro, a pele macia demais, sua qualidade de diferente. — Suas árvores inteligentes tentaram me matar. Vou esperar ansiosamente devolver o favor, um dia! Petrônio de repente se sentiu próximo demais para ficar à vontade. Ele se levantou, inseguro sobre o que fazer ou dizer. — Estou, hã, estudando para ser cirurgião. — Ele ergueu a seringa. — Isso deve ser algum tipo de antídoto de ação rápida… — Bom garoto. Estão lhe ensinando direitinho. Outra vez aquele sorriso. Ela o deixava desorientado. Ele assentiu. — Tenho uma filha que tem a mesma idade que você, se chama Randall. — Por um momento, seu tom de voz ficou distante. — Nós costumávamos nos dar bem. Petrônio se perguntou como seria a vida em Maw. Aquele pensamento lhe pareceu excitante, cheio de possibilidades. Oculto entre as folhas acima, um pombo arrulhou. Como se fosse um sinal, a mulher se recuperou. Ela voltou-se lentamente para estudá-lo, os olhos negros como as penas de um Corvo parecendo fagulhas de vidro
  54. 54. enterrando-se em cada fresta secreta da alma de Petrônio. — Acredito, filho do conselheiro Grasp, que você pode vir a ser muito útil para mim. Talvez eu tenha uma tarefa para você, se estiver disposto. É perigoso, mas haveria… recompensas. O que diz? Alguns minutos atrás a mulher estava quase morta. Agora ela o convidava a juntar-se a ela. A excitação corria como clorofila pelas veias de Petrônio. — Meu nome, senhora, é Petrônio. O que pedir, eu farei! Ela riu. — Que galante! E eu sou lady Fenestra, enviada secreta de Maw. Fico feliz que tenhamos sido propriamente apresentados. Um futuro brilhante nos aguarda. Tudo que precisamos fazer é nos apoderarmos dele!
  55. 55. A jornada começa Ark teve um sono agitado, seus sonhos pontuados por imensos Corvos que cruzavam o ar, mergulhando em sua direção. Ao longo da noite, cada pequeno estalo e gemido faziam seus olhos se abrirem de repente, convencido de que os guardas haviam descoberto que ele ainda estava muito, muito vivo, e em posse de informações perigosas. Ao raiar daquele dia, como em todos os outros, a mãe o abraçou e beijou, o que ele em geral achava constrangedor. Só que dessa vez ela não o soltou. — Sei que não há outra maneira — disse ela. — Você tem razão quando diz que o rei precisa ser avisado, e logo, antes do festival que se aproxima. Se ele for destronado, o caos vai tomar conta de Arborium e Maw já terá vencido. Ele precisa ver que seus conselheiros cravaram um prego enferrujado no coração dessa madeira boa. Mas odeio pensar em você enfrentando perigos. Talvez seu amigo possa ajudar. — Ele não é um amigo! — protestou Ark. — Eu mal o conheço. No trabalho, Ark sempre achara melhor manter-se fora do caminho de Mucum. — Ele está do seu lado… Achamos que você deve confiar nele. Seja como for, papai e eu ficamos horas discutindo o assunto. É você quem terá de ir. Como pode ver, ele não está bem para a viagem hoje.
  56. 56. O pai estava sentado no catre, olhando para o fogo. Nem em nenhum outro dia, pensou Ark. Olhou para a mãe. A tintura avermelhada de sorveira-brava fazia o melhor que podia para disfarçar as raízes grisalhas dos cabelos, mas os anos haviam desgastado sua juventude, deixando sulcos que lhe marcavam a testa, mais profundos que os de um arado nas lavouras suspensas. O vestido, de segunda ou talvez até de terceira mão, estava comido pelas traças. Como poderiam comprar tecido novo com seu magro salário? E agora até aquilo tinha acabado. — E não dariam ouvidos a mim, uma simples mulher. — Como pode dizer isso? Você é mais forte do que qualquer um deles! A mãe sacudiu a cabeça. — Essa é a lei da floresta hoje em dia. Mas bendito seja seu coração por acreditar nisso. Agora vamos dar uma olhada em você! — Os calções de Ark estavam puídos de tanto escalar os galhos. Pelo menos ela conseguira cerzir os rasgos nas meias. — Vai ter de servir. — Não estou indo para uma festa a rigor, Mãe. Ark queria que ela parasse de se preocupar com aquelas miudezas. — Não há nada de errado com o uniforme de um encanador, meu querido, mas você deve apresentar-se bem diante do rei! — Ela enfiou um pacote de comida em uma bolsa de couro. — Que Diana ponha asas em seus pés! Aqui está uma moeda para o santuário. Ela colocou uma moeda de cobre reluzente na palma da mão dele. — Mas, Mãe, não podemos nos dar esse luxo! Aquilo era suficiente para dois pães e meia dúzia de ovos, pelo menos. — Luxo? Que preço tem uma oração? Agora vá, antes que sua velha mãe comece a chorar. E tome cuidado. Ark fora encontrado fazia muito tempo, um presente das árvores. Ela não queria perdê-lo agora. O menino guardou a moeda no bolso e espiou rapidamente atrás da cortina, dando uma última olhada na irmã adormecida. Ela segurava o boneco de gravetos com força e tirara o polegar da boca. Era quase demais
  57. 57. para ele. Ark voltou para o espaço principal e ajoelhou-se ao lado do catre do pai. — Até logo, filho. Não deixe os Abutres acabarem com você, hein? O Sr. Malikum tentou sorrir, mas Ark pôde ver os olhos do pai marejando. Ark assentiu, e antes que seu rosto pudesse trair sua emoção afastou-se pelo galho-via. Parou uma vez e olhou para trás. A floresta enchia-se do canto dos pássaros — papos-roxos, peitos-verdes, melros e tordos disputando para cumprimentar o novo dia. Sua casa já estava perdida entre as sombras que se moviam. Ninguém acenou um adeus. Ele sentiu um aperto no peito, tentando não pensar em todos aqueles que deixava. Sentia-se como um fantasma ao se dirigir para a estação local de esgoto, seguindo lentamente pelas sombras a fim de evitar os poucos dendrianos que estavam acordados tão cedo. Mas nem tomavam conhecimento dele, apressados em suas próprias ocupações. E qual era o seu propósito? Tinha de chegar até o rei, e rápido, mas como? Talvez Mucum tivesse alguma ideia. Ark começou a descer pelo interior de um dos troncos próximos, seus passos ecoando nas profundezas ocas. Após alguns minutos, chegou a um patamar com duas saídas. O galho-via que levava ao local do encontro ficava à esquerda. Ele fez uma pausa, pensando na moeda em seu bolso. O ofício matinal já teria terminado e não haveria ninguém por perto. O que tinha a perder? Pegou a direita, e dez minutos depois a passagem o deixava em seu destino. A grande árvore da qual ele se aproximou por um fino e oscilante passadiço era diferente de todas as outras em um aspecto. A casca lisa era guarnecida com portinholas com vitrais, encimada por um teto de sapê que se agarrava às bordas do tronco maciço e oco. Mesmo naquele lugar sombrio, muito abaixo da copa da árvore, a luz coada pelos vitrais perfurava os infinitos matizes de verde, fazendo com que as folhas circundantes parecessem ter sido tingidas para serem expostas em um deslumbrante quiosque no mercado. Aquele era o efeito que o Templo deveria causar. A
  58. 58. porta, sempre aberta, oferecia um refúgio àquela vida monótona. Além dela havia um reino de cores, o palácio de Diana. Ark parou diante da entrada. Um fio de água escorria de um buraco na casca da árvore e abria caminho até um cintilante vaso de cobre, forjado no formato de penas de Corvos e preso ao tronco. A água era um presente das raízes lá embaixo, sugadas pela própria árvore para ser derramada na fonte sagrada. Ark cruzou as mãos sobre o peito. Sobre a Terra, Sob o Céu, Folhas a Leste e Oeste. Ele fez uma rápida prece pela alma de sua irmã gêmea, morta havia muito, então pegou a moeda no bolso e a deixou cair no vaso, observando as ondas provocadas na água enquanto ela afundava, indo juntar-se às outras oferendas. Uma quase fortuna de ouro e prata tremeluzia uns trinta centímetros abaixo da superfície, suficiente para alimentar sua família por anos. Mas ninguém, nem mesmo o Conselheiro Grasp, roubava Diana. Pronto. Fizera o que a mãe havia lhe pedido. Talvez devesse ir embora agora. Mas a porta aberta o convidava a entrar, como sempre. Entrar implicava a possibilidade de encontrar um Mateiro Sagrado. Ele teria de arriscar. Antes que pudesse pensar, seus pés o levaram até o pórtico, onde empurrou suavemente a próxima porta. A principal parte do Templo era uma sala com cerca de quinze metros de circunferência, com o teto entalhado e abobadado perdido nas sombras acima. Muitos vinham se ajoelhar em silêncio no chão de madeira polida. O ar era denso por causa do incenso, uma neblina interna de resina de pinho queimado. Ark amava o Templo, a maneira como a luz se filtrava nos vitrais, realçando a estátua de madeira da Mãe, embalando a primeira bolota de carvalho modificada. Ele se sentia seduzido pelo mistério dos Mateiros Sagrados, os rostos ocultos nos capuzes, enquanto repetiam palavras e expressões de um milênio atrás, erguendo a xícara prateada feita de bolota de carvalho para beber da água da árvore e partilhá-la em comunhão com seu rebanho. Mas ele também experimentava a sensação de confinamento, como se a força das árvores não se concentrasse naquela
  59. 59. câmara de adoração, mas lá fora, em toda a floresta. A uns cinco metros de onde ele estava, uma figura envolta em um manto negro e agachada, arrumava flores para a colheita vindoura: crisântemos, ásteres e amores-perfeitos. A figura assoviava para si mesma, e Ark esperava que, se pudesse passar furtivamente, o som poderia cobrir seus… — Eu conheço esses passos! — A voz ecoou pelo salão sagrado. Ark parou de supetão. Tinha sido descoberto. — Aonde pensa que está indo, meu Ark? A figura virou-se, desajeitada, revelando um rosto tão enrugado quanto uma maçã guardada durante o inverno. O cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo bagunçado. Somente os olhos, sem pupilas, pareciam perdidos, os globos brancos vagando sem rumo. Ark não tinha escolha. — Guardiã Goodwoody. Ele se curvou. — Foi o que pensei. Por mais delicados que sejam seus passos, meus ouvidos os captam! O rosto abriu-se em um sorriso. Ark aproximou-se, arrastando-se, verificando com nervosismo as capelas laterais. — Por que está preocupado? O que foi? Uma das mãos se estendeu, varrendo o chão como uma vassoura, até que os dedos encontraram o que procuravam. A guardiã usou o cajado de olmo para se levantar, pairando acima de Ark. — Nada. Eu entrei. Queria… Ele não sabia o que queria, por que estava ali. — Pegar uma nuvem, é? Bem, não se preocupe comigo. — Ela fez um gesto com a cabeça, indicando um lance de escadas nos fundos do Templo, oculto em um recesso escuro. — Vá em frente, então. Ark queria parar e conversar, mas agora fora tomado por uma sensação
  60. 60. de urgência. — Obrigado — disse ele. — E se encontrar a Deusa lá em cima, mande lembranças minhas! A mulher suspirou e inclinou-se de novo para continuar sua tarefa. Ark parou junto à escada, experimentando de repente a sensação de estar sendo observado. Ele virou-se, incerto. Dois olhos o fitavam da escuridão. Ark quase caiu para trás de medo. — Os dendrianos ignoram a Rainha Corvo por sua conta e risco! Como Goodwoody poderia ter percebido para o que ele estava olhando? Os olhos pareciam vivos, fitando-o de um vitral empoeirado oculto por uma confusão de cadeiras velhas e quebradas e tapetes enrolados. A figura estava vestida de preto. Ark espiou mais de perto. Não. Não vestida de preto, mas usando um manto de penas negras que se agitava acima de um trono sombrio. — Nossos homens devotos esqueceram os costumes antigos — prosseguiu a guardiã —, mas Corvena é a verdadeira face da natureza. Alguns dizem que é a outra face de Diana. Não se pode ter a luz sem que hajam as trevas… Ark não tinha a menor ideia do que ela queria dizer. Perturbado, correu para a escada dos fundos e subiu os degraus de dois em dois, atraído por seu lugar preferido. A subida era muito mais estreita que qualquer tronco principal, os degraus pouco mais que lascas horizontais. Ali em cima não havia vidros caros, somente o ocasional olho do nó da madeira atravessando a casca da árvore, deixando entrar o vento e cada vez mais luz, à medida que ele galgava a rota familiar. Logo havia deixado bem para trás a estrutura principal do edifício, espremendo o corpo já magro em uma espiral decrescente, os degraus triangulares agora tão pequenos que seus dedões dos pés mal conseguiam encontrar apoio. O galho no qual subia começou a balançar de um lado para outro. Ali em cima, ele e a árvore eram os brinquedos do vento. Aquela jornada jamais seria para os medrosos. Uma rajada mais forte e a madeira poderia facilmente quebrar-se com o peso de
  61. 61. Ark, encerrando-o em um caixão de casca de árvore, levando-o para a morte certa. Mas Ark sentia o oposto de medo. Ele era uma criança enjeitada da floresta. As árvores não o abandonariam agora. Às vezes se perguntava quem seria sua mãe verdadeira. Como ela poderia ter abandonado a irmã e ele no frio? Talvez fosse o filho secreto de um duque e um dia alguém bateria à sua porta anunciando uma herança. Ark sacudiu a cabeça. Sonhos inúteis. Quanto mais perto chegava do céu, mais os acontecimentos do dia e da noite anterior iam se dissipando. O movimento para trás e para a frente acalmava sua mente de fugitivo. Mais alguns passos e lá estava ela: uma minúscula porta, engastada feito uma pedra em um anel. Ele a empurrou, e com um único movimento deixou para trás um mundo de escuridão. A vista da pequenina plataforma circular, bem acima da coroa da árvore, era imensa. A floresta onde se localizava o país de Arborium estendia-se diante dele, em todas as direções. Era um cobertor verde infinito e ondulante, crepitando com folhas e vidas ocultas. Aquele ninho raquítico, que agora somente as crianças podiam alcançar, era antigo, sua utilidade original perdida ao longo dos séculos. Ark o imaginava como um posto de vigia de uma batalha de muito tempo atrás, ou talvez o local das oferendas a Diana. Não havia nada de errado com os ofícios do Templo, mas era ali, onde o único telhado abobadado era entalhado nas nuvens e no ar, que ele sentia encontrar seu lugar. Não muito distante, a oeste, Ark via o grande palácio de Quercus despontando acima das árvores. Ainda estava a alguns quilômetros de distância, suas ameias reluzindo com cobre batido e polido. Ele nunca fora lá a trabalho, embora tivesse estado nas terras adjacentes, assim como todo o povo, para o Festival da Colheita anual. No entanto, o filho de um encanador dificilmente era bem-vindo na corte. Aqueles esnobes iriam desaprová-lo enquanto todo o país queimava na fogueira da traição. A sensação de bem-estar que normalmente o recebia ali hoje estava ausente. Ele não se sentia mais calmo ao se balançar de um lado para outro
  62. 62. acima do mundo… Sua cabeça estava cheia: a expressão de surpresa de Petrônio; a perseguição que terminara em sua pretensa morte; a imagem de Arborium derrubada e queimada. O tempo pressentia seu estado de espírito, o vento forte puxando-lhe as roupas, fazendo seus olhos lacrimejarem com a promessa de inverno. O sol ainda estava baixo, escondido atrás das nuvens, como se envergonhado da traição prestes a acontecer lá embaixo. Ark circulou a plataforma, segurando-se cuidadosamente em um corrimão na altura da cintura, que circundava o tronco. Aquilo era estúpido. Ele precisava ir em frente, encontrar Mucum, elaborar um… Um lampejo negro chamou sua atenção. Por um breve momento as nuvens se abriram e o sol captou um reflexo da borda da plataforma. — O que é isso? — murmurou Ark para si mesmo. A borda da plataforma era ridiculamente baixa. Ao se debruçar sobre ela, o garoto tentou não olhar para baixo. A plataforma erguia-se na floresta como um dedo meio torto. Ele estava a centenas de metros acima de Arborium. Em geral sentia-se à vontade nas árvores, mas talvez elas não sentissem o mesmo em relação a ele. A cintilação capturou seu olhar de novo, descansando na curva de um galho, fora de alcance. Ark tentou enroscar o pé em torno do batente da porta e inclinar-se sobre a beira da plataforma, confiando que a antiga carpintaria sustentaria seu peso. Era enlouquecedor! Seus dedos roçaram a ponta do objeto. Com o vento agora soprando muito forte, seus olhos encheram-se de lágrimas e ele mal conseguia distinguir o que havia diante dele. Só mais um pouquinho. Um pouquinho mais e… Enquanto Ark se esticava na direção do que parecia um reluzente tesouro negro, inclinado sobre a borda da plataforma, a moldura de madeira da porta começou a estalar e gemer. O vento aumentou, uivando com uma força invisível ao curvar o galho para a frente, até que Ark não estava mais na horizontal, mas quase de cabeça para baixo. Uma voz chamou: — Ark!
  63. 63. Sua cabeça girou na direção da voz. Ninguém. Um truque do vento que uivava. — Ai… droga — gemeu Ark. A moldura, devorada havia séculos por cupins, estalou e lascou, soltando-se dos pés de Ark e lançando-o de cabeça, como uma pedra, na direção da floresta.

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