Janaina Rocha   Mirella Domenich   Patrícia Casseano
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que tem 1,50m de altura e o corpo miúdo. Quandoo grupo está quase chegando ao local da festa, DeMenor vê Gordo semidesmaia...
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co de Planet Hemp – banda conhecida por seudiscurso em favor da descriminalização da maco-nha. Três brigas eclodem, mas lo...
ga e, por isso, Waltão arrasta De Menor no início                                   do percurso, o que depois é feito por ...
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Hip hop – A periferia grita   30
Produto marginal         e Menor e sua turma de “detentas” estãoD        entre os mais de “50 mil manos” – núme-         r...
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com a música “Esse é o meu país”. O grupo teve CDlançado pela gravadora Trama, uma das que maisinvestiram no segmento, e q...
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nem polícia”. Essa é apenas a     tinham em Guarulhos, naintrodução da música, mas to-     Grande São Paulo. Durante umdos...
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Hip-Hop: a Periferia Grita
Autores: DOMENICH, Mirella; CASSEANO, Patrícia; ROCHA, Janaina
Sinopse:
O centro e a periferia de São Paulo são cenários desta grande reportagem sobre a cultura hip hop, um fenômeno que representa uma resposta política e cultural da juventude excluída. O livro dá voz à cultura da rua e põe em foco personagens, mentalidades e ambientes que compõem o hip hop. Ilustrado com mais de 100 fotos coloridas.

Fundação Perseu Abramo

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Hip-Hop: a Periferia Grita

  1. 1. Janaina Rocha Mirella Domenich Patrícia Casseano
  2. 2. O termo hip hop significa, numa tradução literal, movimentar os quadris e saltar (to hip e to hop, em inglês), e surgiu no final dos anos 60 em Nova York. Com o tempo, o hip hop passou a designar um conjunto de manifestações culturais: um estilo musical, o rap; uma maneira de apresentar essa música em shows e bailes que envolve um DJ (disc-jóquei) e um MC (mestre-de-cerimônias); uma dança, o break; e uma forma de expressão plástica, o grafite. Hoje, no Brasil, o hip hop é uma manifestação cultural das periferias das grandes cidades, que envolve distintas representações artísticas de cunho contestatório, ligadas pela idéia da autovalorização da juventude de ascendência negra, por meio da recusa consciente de certos estigmas (violência, marginalidade) associados à essa juventude, e que pretende agir sobre essa realidade e transformá-la. Em Hip Hop – A periferia grita, as autoras dão voz aos manos e às minas e mostram que,mais que um modismo ou que um estilo de música, o hip hop, com um alcance global e já massivo, é uma nação que busca congregar excluídos do mundo inteiro.
  3. 3. O hip hop é um fenômeno sócio- cultural dos mais importantes surgi-dos nas últimas décadas. Ora classificadocomo um movimento social, ora como umacultura de rua, o fato é que o hip hop hojemobiliza milhares de jovens das periferias dasgrandes cidades brasileiras. Suas formas deexpressão – a batida do rap, os movimentosdo break e as cores fortes do grafite – sãoapenas os signos visíveis de uma enorme dis-cussão que fervilha entre esses filhos das vá-rias e imensas desigualdades da sociedade bra-sileira a respeito de identidade racial, de pos-sibilidade de inserção social, de alternativas àviolência e à marginalidade. Em menos pala-vras, o hip hop é a resposta política e culturalda juventude excluída. As três autoras deste livro partiram da sus-peita de que aí havia alguma coisa muito im-portante a ser entendida, examinada, reporta-da. Hip Hop – A periferia grita captura o fenô-meno na cidade de São Paulo na transição dosanos 90 para o novo milênio. Estudantes dejornalismo quando o trabalho começou, o livrotraz a marca de quem fez bem sua lição de casa,pela seriedade e rigor com que procuraram tra-tar todos os aspectos do fenômeno. Entretanto,o trabalho amadureceu para além da obrigaçãoescolar e tornou-se livro por conta de umainventividade nas formas de fazer as várias re-portagens e um frescor na maneira de contá-lasque, vá lá, se não é privilégio dos muito jovens,digamos que eles os tenham mais acessíveis. Curioso que num país como o Brasil, quenão cessa de inventar culturas jovens, comgraus variados de relação com o mercado, emvários segmentos sociais e nas diversas regiões,exista tão pouca produção jornalística, críticaou reflexiva a respeito. Janaina, Mirella e Pa-trícia começaram suas carreiras como jorna-listas dando uma bela contribuição – e espe-ro que não parem. Bia Abramo
  4. 4. eza a cartilha que hip hop é coisa deR preto, pobre, macho, politizado, social-mente consciente, independente, raivoso. Masnem tudo é verdade nesse mundo. Conformelembra NelsonTriunfo, pioneiro do rap e do break,a cultura hip hop foi importada dos Estados Uni-dos, inicialmente, por gente que tinha a grananecessária para ir até lá e aprender a dançar. De-pois é que se alastrou pela periferia. Ou seja: rap jáfoi coisa só de bacana. Também não é coisa sóde macho – que o digam as meninas do LadyRap, a garota chamada De Menor ou o grupoApologia das Pretas Periféricas. Elas sabem queé um meio mais machista do que macho. Umainfinidade de mitos e clichês cerca o gênero.Que também não é coisa independente (já foi).Basta ver que MV Bill, um dos mais raivososrappers da atualidade, foi um dos apresentadoresdaquele arremedo de Grammy chamado VideoMusic Brasil, em 1999. E lembrar que os Raci-onais venderam mais de 1 milhão insufladospela força da indústria. Mas não foi só para pôr um pingo nos is dacultura hip hop que Janaina, Mirella e Patríciasaíram a campo, vasculhando dos presídios deSão Paulo à Ceilândia (DF), da Praça Rooseveltao metrô São Bento. Elas também amam o rapde Thaíde e DJ Hum. Reconhecem a legitimi-dade da linguagem do rap e seu discurso eficien-te, seu poder de fogo na luta de garotos e garotasmarginalizados. A diferença é que, além de gos-tar da coisa, elas também são curiosas: queremsaber como, por que, quem, onde, pra quê. Essas meninas mostram aqui, em Hip Hop –A periferia grita, que não basta ter método e aces-so à informação para fazer um bom levantamen-to historiográfico de uma coisa que ainda está noseu auge. É preciso ter vontade e capacidade dediscernimento também. Duvida? Então mos-tre-me um b.boy que tenha iluminado assimcom tanta clareza o seu próprio caminho! Yo! Jotabê Medeiros
  5. 5. Janaina Rocha Mirella Domenich Patrícia Casseano
  6. 6. ras Fotos: arquivo das auto ADA UMA GAROTA CHAM .. 21 DE MENOR ................ PRODUTO MARGINAL ...... 31 55 O QUINTO ELEMENTO .......... O GANGSTA BRASILEIRO ..... 65 A VOZ DA FAVELA ................... 87 A MÃO QUE APERTA O SPRAY ........ 95 ○Prefácio – Oswaldo Faustino ....... 11 Fontes ........................................ 151 ○ ○Ponto de partida ........................... 15 Sobre as autoras ........................ 157 ○Ponto final ................................... 141 Créditos de fotos e ilustrações .... 158
  7. 7. Acervo Nino Brown Sumário A TURMA QUE BATIA LATINHA ......................... 45 ... 71 FILHOS DA FÚRIA .... O INIMIGO MORA EM CASA ......................... 81 Alex SalimELES SÓ QUEREM SERFELIZES ........................ 109 OS QUILOMBOLAS URBANOS ................................ 117 ECOS DO OS MANOS TÊM PASSADO & DEBATE S A PALAVRA ................... 141 DO FUTURO 125
  8. 8. Hip hop – A periferia grita 6
  9. 9. Agradecimentos Aliança Negra, Bia Abramo, Daniel Braga,Daniel Rocha, DJ TyDoZ, Editora FundaçãoPerseu Abramo, Faculdade de ComunicaçãoSocial Cásper Líbero, Gog, Helena Abramo, IgorFuser, Jeca, Jigaboo, Joel (Conscientes doSistema), Jotabê Medeiros, Leandro Martinelli,Leonardo Fuhrmann, DJ Marcão (Baseados nasRuas), Marcos Faerman (in memoriam), NelsonTriunfo, Nino Brown, Oswaldo Faustino,Patrícia Villalba, Paula Guedes, Ricardo Lobo,Rooney Yo-Yo, Sueli Chan, Thaíde & DJ Hum,Thalita Domenich, Tota, X. Patrícia agradece a sua mãe por tudo. Dedicamos este livro a nossos pais e irmãos. 7 Agradecimentos
  10. 10. Hip hop – A periferia grita 8
  11. 11. Das ruas ao coração!Oswaldo Faustino* ensurdecedor o brado que emana da goelaÉ do inferno – logo ali, em torno da grande ci- dade. Vem em ondas concêntricas e vai to-mando as zonas centrais, as circunvizinhanças dosricos condomínios, as universidades – um bradoque fede, que arde, que sangra, que dói –, carre-gado de miséria, de fome, de desemprego, dedesabrigo, de violência, de crueldade, de álcool,de drogas, de estampidos e de carências (de opor-tunidades, de educação, de saúde, de respeito, dedireitos, de futuro). Brado-radiografia de personagens que sobrevi-vem no campo minado em que, mesmo antes de nas-cer, se é condenado à morte sumária. Um brado quesempre esteve lá, mas a sociedade jamais poupouesforços para torná-lo inaudível, imperceptível, im-potente. Brado mudo, num país que tem o orgulhode se fazer de surdo. Mas o tempo se incumbiu de amplificar essesom, que ecoa da periferia. Ele ganhou força des- 9 Prefácio
  12. 12. comunal e rompeu a blindagem dos ouvidos e dos corações do Brasil. Meninos e meninas, munidos da inconformidade própria da juventude, foram tomando consciência do mundo em que vivem e da própria força e capacidade de modificá-lo, se assim o quiserem. Em meio a tantas armas de que esses jovens po- dem lançar mão, escolheram a mais eficaz: a cultu- ra. A cultura hip hop – afinal, a cultura não é pro- priedade da academia, do governo, da burguesia – pertence àquele que é capaz de produzi-la. Então se constata um fenômeno sociocultural em que, rejeitando a sedução do “ouro de tolo” oferecido pelo monopólio da indústria fonográfica fabrican- te de modismos comportamentais, muitos desses jovens organizam-se em posses, Brasil afora, reali- zando estudos e eventos, produzindo arte, interfe- rindo na linguagem e na metodologia educacional, reivindicando políticas públicas e propondo resis- tência, independência, autenticidade, atitude. Isso porque o hip hop não foi inventado pela mídia. Nasceu naturalmente, nas ruas, forjado em sangue, suor e lágrimas. Qualquer garoto ou ga- rota que se proponha a trilhar seus caminhos co- nhece muito bem sua história e a de seus perso- nagens-referência. Dos bairros periféricos norte- americanos às favelas brasileiras, foi ganhando forma e conteúdo, com o ritmo e as sonoridades que emanam das pick-ups dos DJs e das letras con- tundentes dos MCs, a quebradiça e envolvente dança de b.boys e b.girls e os loquazes traços mul- ticoloridos dos grafiteiros. Como a maioria das manifestações artísticas que nascem da sofrida alma humana, tem auxilia- do um número significativo de adolescentes e jo- vens adultos a encontrar uma identidade e a ele- var sua auto-estima. A vergonha da vida discrimi- nada da favela dá lugar à altivez própria dos que se descobrem capazes de fazer arte, de mudar a própria vida e as daqueles a quem amam. E de transformar a falta de uma perspectiva existen-Hip hop – A periferia grita 10
  13. 13. cial na saudável e transformadora consciência dacidadania. Talvez seja a isso que se possa chamar“ideologia do hip hop”. Na prática, muitos discursos se contradizem.Principalmente no que se refere às drogas e à vio-lência. Aqueles que militam nesse movimento ju-ram, de pés juntos, que, por meio do hip hop, é pos-sível vencer a força da cocaína, do crack e de ou- O hip hoptras drogas. Não raro, porém, um ou outro é fla-grado no uso e até no comércio de entorpecentes. não foiE, apesar de denunciarem a violência policial, não inventado pelasão poucas as letras de rap que exaltam a vingan-ça, a força das armas, o machismo e heroificam tra- mídia. Nasceuficantes, delinqüentes e outros personagens que,muitas vezes, usam a força para se impor sobre as naturalmente,comunidades, como os ditadores e os policiais quenas mesmas letras são denunciados. nas ruas, Mas por que não poderia haver essa contradi-ção? Que razão teriam esses poetas, manipula- forjado emdores de pick-ups, artistas do spray e dançarinos, sangue, suormuitos dos quais com pouquíssima ou nenhumaformação educacional formal ou com confusas e lágrimas.crenças, para serem absolutamente coerentes,quando a incoerência é a característica principalda própria humanidade? Não sei se foi o caráter revolucionário, esté-tico, controverso, ou que outro fator levou estasjovens universitárias brancas, de classe média,a se interessarem pelo hip hop e seu mundopara produzir numa das mais importantes es-colas de comunicação do país seu trabalho degraduação, que serviu como base para a elabo-ração deste livro. Conheço bem as dificuldadesque elas encontraram para ter acesso à maioriadas informações aqui contidas. A paranóia é umadas marcas que norteiam a vida dos que vivemno fio da navalha. Sei também que, apesar de tudo, elas não semantiveram na superficialidade. Não se conten-taram com depoimentos por e-mail, bate-papostelefônicos, ou com a leitura de trabalhos acadê- 11 Prefácio
  14. 14. micos já produzidos. Não se limitaram a visitar os ícones do movimento, mas, ao contrário, fo- ram conhecer a fundo o campo minado onde é con- cebido esse produto artístico-cultural e onde ele é consumido. Este é um livro jornalístico diferente de tudo o que já foi produzido sobre o tema no país. Não se propõe a esgotar o assunto, mas dá um passo além, nos levando a conviver com personagens que pro- duzem, consomem e vivem as crônicas cotidianas da periferia. Não traz longas teorizações acadê- micas nem generaliza particularidades. Poderia ser melhor? E por que não? Críticos, certamente, vão apontar o que classificam de “fa- lhas, imprecisões, inverdades”. E não é para me- nos. No hip hop, como em toda cultura popular, em que a oralidade é muito maior que qualquer documentação, vale o dito: “Quem conta um conto aumenta um ponto”. Aliadas à história, há milha- res de lendas, e, não poucas vezes, torna-se im- possível apartar uma das outras. É um grito, sim. Um grito ensurdecedor, des- ses que não ferem o tímpano, mas a alma. Quem o lê, com certeza muda definitivamente seu olhar sobre a periferia e os jovens que nela sobrevivem. Não propõe um olhar complacente, mas, pelo me- nos, um que seja destituído de preconceito. Já é um bom começo! Oswaldo Faustino é jornalista, escritor e pesquisador. Foi um dos primeiros profissionais de comunicação a abrir espaço para o movimento hip hop. Deu oficinas culturais de criatividade e rima para MCs e grafiteiros em Diadema, Santo André e na Febem (unidade Tatuapé), em São Paulo. Dirigiu Se liga mano, um espetáculo teatral na linguagem do hip hop.Hip hop – A periferia grita 12
  15. 15. Ponto de partidaA melhor reportagem de nossas vidas. Foi com essa intenção que saímos em busca de histó- rias singulares, fatos inusitados, arquivos dejornais e revistas relacionados ao hip hop. Tudo co-meçou em fevereiro de 1999, quando escolhemos es-crever um livro-reportagem como trabalho de con-clusão do curso de jornalismo da Faculdade de Co-municação Social Cásper Líbero, em São Paulo. Aque-la era nossa oportunidade de exercitar o que havía-mos aprendido na faculdade, no trabalho e na vidade maneira independente. Com essa idéia em mente, saímos a campo. Noinício, o hip hop não era um tema conhecido pornós. Esse fato, ao contrário de prejudicar nossaapuração, foi fundamental para que pudéssemosmergulhar nas histórias. E à medida que fomosconhecendo, principalmente, o comportamentodas pessoas envolvidas no movimento passamosa ter uma visão mais global de tudo o que encon-trávamos. Aprendemos com elas. 13 Ponto de partida
  16. 16. Os primeiros sete meses de trabalho foram gas- tos com pesquisa e muita apuração. Nesse perío- do, viajamos para Belo Horizonte e Brasília, onde visitamos algumas cidades-satélites. Rastreamos São Paulo, tanto a capital como as cidades do ABCD, além de Santana do Parnaíba e Barueri. As viagens aconteceram, em sua maioria, duran- te os finais de semana, porque trabalhávamos e estudávamos. As madrugadas dos outros cinco dias da semana eram preenchidas com shows deSempre que aparecer rap. Conhecemos muitos manos de diferentes lu-uma palavra sublinhada, gares, com diferentes visões sobre o hip hop e, con-veja o seu significadono capítulo “Os manos seqüentemente, com diferentes atitudes.têm a palavra”, na Entrevistamos também os principais teóricospágina 141. do movimento, que ainda são poucos. A primeira tese sobre hip hop no Brasil, Movimento negro juvenil: um estudo de caso sobre jovens rappers de São Bernardo do Campo, foi escrita pela edu- cadora Elaine Nunes de Andrade, em 1996. Dife- rentemente dos Estados Unidos, onde o movimen- to nasceu, o hip hop brasileiro somente desper- tou o interesse dos estudiosos recentemente. Os trabalhos acadêmicos Rap na cidade de São Pau- lo: música, etnicidade e experiência urbana, do doutor em ciências sociais José Carlos Gomes Sil- va, Atitude, arte, cultura e autoconhecimento: o rap como a voz da periferia, do antropólogo Mar- co Aurélio Paz Tella, e O livro vermelho do hip hop, do jornalista Spensy Pimentel, foram impor- tantes fontes de pesquisa. Em 2000, foi publicado o livro Rap e educação, rap é educação, organiza- do por Elaine Nunes de Andrade, uma compila- ção de artigos de teóricos do movimento que teve grande importância para nós durante o segundo ano de apuração do trabalho. Ainda em 1999, escrevemos a primeira versão de Hip hop – A periferia grita, em dois meses de muito estresse, colaboração e cumplicidade, sob a orientação do jornalista Igor Fuser. Nossos pais, amigos e irmãos nos ajudaram na diagramação do livro, emprestaram CDs, recortes de jornais e,Hip hop – A periferia grita 14
  17. 17. acima de tudo, tiveram muita compreensão. Emnovembro daquele ano apresentamos o livro paraa banca examinadora da faculdade. Um mês de-pois, recebemos o Grande Prêmio Volkswagen deJornalismo como o melhor trabalho de conclusãode curso da faculdade. O prêmio foi um grande incentivo para procu-rarmos uma editora que acreditasse na publica-ção do livro. Ao mesmo tempo, continuamos a in-vestigar o hip hop. Fomos para o Rio de Janeiro,Recife e Fortaleza. A cada novidade modificáva-mos nosso texto original, uma vez que o hip hopmuda a cada dia. Esse período foi importante tam-bém para amadurecermos alguns pontos referen-tes à cultura. Em outubro de 2000, recebemos umaresposta positiva da Editora Fundação PerseuAbramo. A partir daquele momento, a jornalistaBia Abramo passou a nos orientar. Aprimoramoso texto, revimos alguns pontos e acrescentamosinformações. O trabalho está aqui. Esperamos quevocê goste do resultado. Tenha certeza de que elefoi escrito com o entusiasmo que motiva jovensjornalistas a acreditarem que se pode fazer jorna-lismo com paixão. As autoras 15 Ponto de partida
  18. 18. Hip hop – A periferia grita 16
  19. 19. Hip hop definição conceitual do hip hop ainda é pro-A blemática. Rappers, b.boys, grafiteiros, DJs e estudiosos acadêmicos do tema sabemdizer o que faz ou não parte do hip hop e avaliarsua importância para a juventude excluída, masresta uma questão: o hip hop é um movimento so-cial ou uma cultura de rua? A indefinição abre es-paço para o uso aleatório de ambas as aplicações. O termo hip hop, que significa, numa traduçãoliteral, movimentar os quadris (to hip, em inglês)e saltar (to hop), foi criado pelo DJ Afrika Bam-baataa, em 1968, para nomear os encontros dosdançarinos de break, DJs (disc-jóqueis) e MCs(mestres-de-cerimônias) nas festas de rua no bair-ro do Bronx, em Nova York. Bambaataa percebeuque a dança seria uma forma eficiente e pacíficade expressar os sentimentos de revolta e de ex-clusão, uma maneira de diminuir as brigas degangues do gueto e, conseqüentemente, o climade violência. Já em sua origem, portanto, a mani- 17 Hip hop
  20. 20. festação cultural tinha um caráter político e o ob- jetivo de promover a conscientização coletiva. O uso dessa expressão ganhou o mundo, novas di- mensões, e hoje, no Brasil, designa basicamente Os quatro elementos uma manifestação cultural das periferias das gran- do hip hop: grafite, des cidades, que envolve distintas representações break, MC e DJ. artísticas de cunho contestatório. Em sua tese, Movimento negro juvenil: um es- tudo de caso sobre jovens rappers de São Bernardo do Campo (1996), a educadora Elaine Nunes de Andrade define o hip hop como um movimento social que engloba certa forma de organização po- lítica, cultural e social do jovem negro. Elaine Andrade disserta, em cerca de cem páginas, so- bre o porquê de escolher a palavra “movimento” como a definição conceitual mais apropriada para entender o hip hop. Segundo a autora, é o concei- to que permite uma análise mais abrangente de sua ação social. A maioria dos teóricos que estu- dam o assunto adota a mesma definição. Esse movimento social seria conduzido por uma ideologia (ou pelo menos por certos parâmetros ideológicos) de autovalorização da juventude de ascendência negra, por meio da recusa consciente de certos estigmas (violência, marginalidade) associados a essa juventude, imersa em uma situação de exclusão econômi- ca, educacional e racial. Sua principal arma se- ria a disseminação da “palavra”: por intermé-Hip hop – A periferia grita 18
  21. 21. dio de atividades culturais e artís-ticas, os jovens seriam levados arefletir sobre sua realidade e a ten-tar transformá-la. Se a atuação de muitos dos gru-pos envolvidos com as várias ati-vidades que constituem o universohip hop de fato tem as característi-cas de organização defendidas por Elaine de Roberto ParizottiAndrade e comungam com a cartilha antidrogase antiviolência, é preciso não esquecer que, ori-ginalmente, o hip hop é um conjunto de mani-festações culturais: um estilo musical, o rap;uma maneira de apresentar essa música emshows e bailes que envolve um DJ e um MC; umadança, o break; e uma forma de expressão plás-tica, o grafite. Também cabe, portanto, a carac-terização do hip hop como uma cultura de rua,que é o conceito mais utilizado pelos seus pró-prios integrantes. Embora os hip hoppers tam-bém aceitem a idéia de movimento social, quan-do solicitados a responder “o que é o hip hop”, aprimeira definição que surge é “uma cultura derua formada por quatro elementos artísticos: obreak, o rap, o grafite e o DJ e o MC”. Em nosso trabalho, não fizemos opção poruma ou outra definição do hip hop nem nos dei-xamos levar pelos discursos oficiais sobre o quese denomina ideologia do hip hop. Constatamosque, se a idéia de movimento social é pertinen-te para descrever atividades de equipes comoos Jabaquara Breakers (descritas no capítulo“Eles só querem ser felizes”), ela não se aplica,por exemplo, a muitos grupos de rap, gênero mu-sical que disputa um naco do mercadofonográfico tanto quanto qualquer outro estilo.Em nossa reportagem, quando fomos a campoconhecer os manos que ouvem rap e circulamentre paredes grafitadas, também descobrimoso quanto é conflitante para um jovem de perife-ria abraçar o discurso “consciente”, pacifista, 19 Hip hop
  22. 22. antidrogas do hip hop e viver em situações con- cretas de extrema violência policial, de convi- vência com traficantes e de puro e simples de- sespero existencial, como tentamos expor na breve história de um final de semana típico (no capítulo “Uma garota chamada De Menor”) ou na trajetória de Pulguinha (no capítulo “Produ- to marginal”). Por mais diverso e por vezes incoerente que seja o hip hop, procuramos dar voz em nosso tra- balho a todos os aspectos desse universo e deixar a questão de o hip hop ser um movimento social ou uma cultura de rua para ser respondida pelos estudiosos mais adiante. Por enquanto, queremos mostrar que mais que um modismo, que um jeito esquisito de se vestir e de falar, mais que apenas um estilo de música, o hip hop, com um alcance global e já massivo, é uma nação que congrega ex- cluídos do mundo inteiro.Hip hop – A periferia grita 20
  23. 23. Uma garotachamada De Menor ábado à noite. De Menor, 23 anos, recebe osS amigos no barraco onde mora, na Vila Indus- trial, zona leste de São Paulo. Rômulo, seufilho de 1 ano e meio, está passando o fim de sema-na com o pai em Guarulhos, região da Grande SãoPaulo, e a filha Jéssica, 3, mora com a avó no barra-co ao lado. Sem ter de se preocupar com os filhos,De Menor prepara-se para a balada, que já haviacomeçado na sexta-feira. Ela e mais três amigasainda sentem os efeitos do chá de lírio que toma-ram na véspera. Bia, 14 anos e aparência de 21,tinha cutucado insistentemente seu olho naquelamanhã, tentando retirar uma suposta lente de con-tato: quando se olhava no espelho, achava que al-guém havia colocado uma lente azul sobre sua íris.Seu olho é preto como uma jabuticaba, mas ela es-tava alucinada e um pouco tonta. A amiga Tutty,também de 14 anos, fala com voz pastosa. E Vívian,17, está deitada num colchão estendido no chão,rindo sem parar. A única que mantém alguma so- 21 Uma garota chamada De Menor
  24. 24. briedade é De Menor, ídolo desse grupo de meni- nas que se autodenominam “detentas”, porque se sentem presas. O barraco onde De Menor vive é o ponto de encontro das garotas. Escondida numa rua esbu- racada, sua casa se situa no final de um corredor comprido e estreito, onde De Menor es- tende as roupas para secar. O barraco de madeira, de 15 m2, foi construído pelo pai de De Menor. O chão se mexe con- forme as pessoas andam e a escuridão lá de dentro dá a impressão de se estar num porão. Não há janelas, apenas uma lâmpada, que é acesa à noite. Também não há separação entre sala e cozinha. Uma poltrona, macia de tão velha, fica encostada em uma das paredes do bar- raco, sob um armário de cozinha com re- vestimento de fórmica marrom usado por De Menor como guarda-roupa. Do lado do sofá há uma cortina plástica que separa a sala do banheiro. A pia da cozi- nha fica perto de outra parede e acomo- da algumas louças sujas e uma mamadei- ra que serve para alimentar Malzebier, um gatinho preto de dois meses. Em fren- te a essa pia está a geladeira, quase va- zia, que é toda grafitada, assim como as paredes do barraco. Um buraco na pare- de de madeira dá acesso ao quarto onde De Menor normalmente dorme com Rô- mulo e a amiga Tutty. Tutty e Bia são as companhias mais freqüentes de De Menor. A primeira fez um aborto recente- mente e mora fora de casa desde os 13 anos. Está na 5a série e só vai à escola porque De Menor tam- bém o faz. Depois do aborto, Tutty passou a andar equipada com camisinha e anticoncepcional. Bia só teve um namorado até agora: Luciano, um ra- paz que foi assassinado aos 22 anos. Era ladrão de banco e estava envolvido com drogas. Depois daHip hop – A periferia grita 22
  25. 25. morte do namorado, Bia se revoltou. Antes erauma menina caseira, que voltava para casa até asoito da noite, como o pai pedia. Hoje ela é a únicadas três filhas do casal que dança break, anda deskate, conhece todos os grafiteiros da região e ado-ra o estilo de rap conhecido como bate-cabeça. Ca-belos negros encaracolados, pele morena, maca-cão largo com um sutiã preto visível são marcas Na página ao lado, Deregistradas de Bia, que sempre se veste desse jei- Menor pronta para a balada. Acima, detalheto e só troca de roupa quando De Menor empres- do barraco de Deta uma bermuda folgada. Bia mora com os pais e Menor, mostrando aos irmãos. O pai conserta venezianas e a mãe é geladeira grafitada.dona-de-casa. Bia sempre acorda por volta dasdez horas da manhã e nem pensa em cuidar dosirmãos. Fica eufórica quando o relógio marca13h30min. É o horário em que vai para o barracode De Menor, onde encontra as amigas, com quemfica até chegar o horário de ir para a escola, emque cursa a 7a série. De Menor é como uma mãe para as meninas.Está sendo processada pelos pais de Bia por terabrigado a garota quando ela fugiu de casa, emsetembro de 1998, depois da morte do namorado.De Menor também acolhe Tutty, que saiu de casahá quase um ano. Todas as “detentas” ajudam DeMenor a manter o barraco. Cada uma dá umaquantia de dinheiro para comprar sabão, frutas, 23 Uma garota chamada De Menor
  26. 26. comida, além de colaborarem com a limpeza do lugar. A lista de tarefas fica presa na geladeira. Elas também cuidam dos gatos Malzebier e Parreirinha, chamados assim por Bia, que esco- lheu esses nomes em referência a marcas de bebi- das. As “detentas” estão sempre juntas. Elas se revezam para cuidar de Rômulo, filho de De Me- As amigas nor, nas noites em que vão para a balada. Se o ga- roto não está passando o final de semana com o ajudam De pai, como naquele sábado, uma das “detentas” fica Menor a com ele enquanto as outras saem para aproveitar a noite. comprar É maio de 1999. Naquela noite, a animação das garotas não era só resultado do chá de lírio, mas sabão, frutas também da expectativa de encontrar homens na festa em que iriam. Dois amigos já estão no barra- e comida, co de De Menor. São Waltão, 23 anos, assaltante, e Tandy, 21, traficante de drogas. Enquanto Bia além de arruma os cabelos das meninas com penteadoscolaborarem especiais para a festa, os rapazes e Vívian, que tem o cabelo curto estilo “joãozinho”, ouvem o somcom a limpeza bate-cabeça do grupo de rap RPW. Tandy desper- ta a atenção das meninas. Mulato com os cabelos do barraco. tingidos de loiro, traja calças largas e um agasa- lho do time de basquete norte-americano Chicago Bulls bem folgado, vestuário típico dos filiados ao hip hop. Waltão faz um estilo mais convencional. Está de calça jeans preta e camiseta branca para fora da calça. Não é muito fã de rap, prefere pago- de, mas acompanha as meninas há um ano e meio porque fez amizade com De Menor. Depois de se arrumarem, com camisinhas no bolso, saem para a festa, que ocorreria em uma rua na Vila Sinhá, do outro lado da avenida Anhaia Melo, a uns seis quilômetros do barraco. A cami- nhada é feita em terreno íngreme, por ruas escu- ras onde há botecos abertos e casas pobres. De Menor é uma das mais animadas. Ela quer encon- trar o namorado Gordo, um garoto de 18 anos que em nada lembra o apelido. É magro e só um pouco mais alto do que De Menor, apelidada assim por-Hip hop – A periferia grita 24
  27. 27. que tem 1,50m de altura e o corpo miúdo. Quandoo grupo está quase chegando ao local da festa, DeMenor vê Gordo semidesmaiado, apoiado no om-bro de uma outra garota desconhecida. De Menorfica irada. A garota – talvez uma outra amante deGordo – não hesita e larga o rapaz na calçada.Gordo fica jogado no chão, encostado no portãoda casa de Alex, um dos mais conhecidos usuários A festa foide cocaína da região e amigo do pessoal. Gordovomita enquanto o cachorro Beethoven, um poodle bancadabranco, lambe sua cabeça por detrás do portão. com umaDuas crianças assustadas observam o garoto, querevira os olhos e parece não saber o que está acon- vaquinhatecendo ao seu redor. De Menor chacoalha o na-morado, inconformada em vê-lo naquela situação. de 50 reais –“Esse não é o Gordo que eu conheci”, diz, batendocom as mãos nas pernas. Furiosa, De Menor man- o suficienteda a menina que acompanhava Gordo levá-lo delá e segue com os amigos para a festa. para comprar Durante o trajeto, encontram vários jovens co- 62 litros denhecidos das baladas. Nos botecos da região, al-guns moradores do bairro dançam forró. As mu- bebida. Nãolheres usam minissaias e os homens, jeans. Be-bem cerveja. São bem diferentes da turma de De há comida.Menor. Na rua da festa o som do rap se confundecom o do forró que toca em um bar localizado acerca de 200 metros do agito hip hop. Bia atébrinca: “Não sei se vou dançar forró ou rap”. Mas,ao ouvir a música que toca alto no meio da rua,não demonstra dúvidas, opta pelo hip hop. Logose aproxima de um barril grande para pegar umabebida gelada. Em copinhos plásticos, ela serveaos amigos álcool Zulu – o mesmo utilizado pelasdonas-de-casa nos fogareiros e na limpeza –, comalgumas gotas de limão. “Para ficarmos mais lou-cos, só bebendo gasolina”, ressalta. Essa “bebi-da”, que faltou naquele dia, é muito comum nasfestas da Vila Sinhá. A rua Nove do Sinhá, como é conhecida, aospoucos é tomada por skatistas, que, durante o dia,praticam o esporte pelo qual são apaixonados. 25 Uma garota chamada De Menor
  28. 28. Aquele foi o local escolhido pelo grafiteiro Adilson, um dos organizadores do som. As fábricas ocupam grande parte da rua. Há uma ou outra casa. O dono de uma dessas residências é quem cede a eletrici- dade para eles ligarem os dois aparelhos de som. Durante a balada, uma mulher de meia-idade pas- sa por um aglomerado de quase 200 rappers para De Menor ir à casa de sua irmã. Ela não gosta desse tipo de voltou a música, mas prefere deixar os jovens se diverti- rem a reclamar. “Respeito a garotada porque meu freqüentar filho é skatista e a maioria dos meninos daqui gos- ta disso”, diz ela, com pressa. Para chegar ao seu reuniões destino, a mulher contorna uma grande roda de jovens que dançam o bate-cabeça, o estilo de rapevangélicas: mais ouvido pelos skatistas. Ao contrário do que o nome sugere, os dançarinos não trocam cabe- “Preciso me çadas entre si, embora, muitas vezes, o estranho bailado resulte em violência. Enquanto os rappers voltar mais dançam abraçados e saltando, os skatistas do hip para a fé”. hop liberam suas energias dando socos no ar. Às vezes, esses socos atingem o rosto de alguém, pro- vocando brigas. Ainda inconformada com a embriaguez do na- morado, De Menor bebe para esquecer a cena que tinha visto havia pouco. Ela não dança com as outras garotas porque ainda está se recuperan- do de uma cirurgia sofrida um ano antes, quando tentou se matar com um tiro no estômago. De Menor tem uma cicatriz que se estende desde o umbigo até os seios. Como o bate-cabeça pode resultar em algum machucado, ela prefere não entrar nas rodinhas, formadas quase sempre só por homens. São raras as mulheres que se arris- cam a entrar. Bia e Vívian estão entre essas ex- ceções. Ficam um pouco afastadas da aglomera- ção, mas não temem os socos dos rappers e to- mam muito cuidado para proteger as partes mais sensíveis. Waltão, mais ligado ao pagode, não se conforma com o que vê. O repertório varia do bate-cabeça do RPW ao som dos grupos Condi- ção Humana e Racionais MC’s, além de um pou-Hip hop – A periferia grita 26
  29. 29. co de Planet Hemp – banda conhecida por seudiscurso em favor da descriminalização da maco-nha. Três brigas eclodem, mas logo são apartadas.Um Gol cinza-escuro, com dois ocu-pantes, também ameaça a diversãodos jovens. Passa duas vezes emalta velocidade pelo meio da rua,quase atropelando os hip hoppersque dançam em rodinha. Antes da meia-noite, a bebidaacaba. O grafiteiro Adilson não pre-via que sua festa, divulgada por meiode alguns cartazes espalhados pelobairro e do boca-a-boca, teria tantosucesso. Ele e mais três amigos ban-caram a festa com uma vaquinha de50 reais – o suficiente para comprar62 litros de bebida, entre álcool Zulue vinho Sangue-de-Boi. Não há co-mida. Os organizadores chegaramao local às dez da noite com os toca-CDs, um barril para gelar a bebidae uma tábua de madeira apoiada emdois cavaletes, onde foram instala-dos os aparelhos de som. Eles jáhaviam pedido, previamente, per-missão aos moradores da rua e aosdonos das fábricas para grafitar alguns muros e uti-lizar aquele espaço. De Menor está completamente atordoada, de- Garotos disputam aspois de ter bebido cinco copos de vinho, dois de paredes de umaálcool e ter tragado um mesclado – cigarro de ma- fábrica para grafitarconha misturada com um pouco de cocaína. En- durante a festa.costa-se no muro de uma das fábricas e senta nochão. Bia, Tutty e Vívian, que estão um pouco maissóbrias, correm para ver o que está acontecendocom a amiga. De Menor chora e as únicas pala-vras que consegue dizer são “que droga, que dro-ga, que droga”, socando a cabeça com as duas mãos.Sem condições de continuar curtindo o som, asmeninas resolvem ir embora. A caminhada é lon- 27 Uma garota chamada De Menor
  30. 30. ga e, por isso, Waltão arrasta De Menor no início do percurso, o que depois é feito por Tandy. Para deixá-la mais confortável, as outras três garotas resolvem levar De Menor estendida em seus bra- ços. Tutty segura a cabeça de De Menor, Vívian, o tronco, e Bia, as pernas. De Menor só se acalma quando Tandy passa a lhe dar mais atenção. Aproveita o momento para desabafar. “Eu sentia firmeza no Gordo e ele me apronta uma dessas”, lamuria-se. Ao chegar no bar- raco, De Menor se encolhe no sofá. Bate as mãos na cabeça e chacoalha as pernas como uma criança birrenta. Depois daquela noite, De Menor nunca mais procurou Gordo. Noites como essa são comuns entre alguns ma- nos, como também é corriqueiro o fato de as fes- tas terminarem em bebedeira. Enquanto o desejo de uma vida mais regrada e não à margem da sociedade povoa a mente dessa juventude, a situa- ção real de descaso, pobreza e abandono leva es- ses jovens a práticas autodestrutivas, como beber álcool puro e gasolina. Muitos deles não têm op- ções nem perspectivas para mudar de vida, con- vivem com problemas familiares e encontram na bebida e no uso de drogas uma válvula de escape para sua realidade. Um mês e meio depois da noite em que De Menor rompeu com Gordo, acontece outra festa na rua Nove do Sinhá, num sábado à noite, pa- trocinada pelo skatista Gambet, um dos melho- res da região. É um pouco mais violenta do que a anterior e o confronto com a polícia acaba sendo inevitável. Antes mesmo do término da festa, uma garota de 17 anos está jogada no chão, ao lado de um ponto de ônibus. Naquele momento, um car- ro da polícia passa e vê algumas pessoas rodean- do a menina. Seu amigo Michael, de 19 anos, está desesperado e pede ajuda aos policiais, que des- cem do carro com as armas em punho. “Vocês estavam naquela festa desses tal (sic) de hip hop, né?”, pergunta um dos policiais. Todos dizem queHip hop – A periferia grita 28
  31. 31. estão esperando um ônibus e que não têm nada aver com a festa. Isso demonstra o medo e a des-confiança que os moradores da periferia sentemdiante dos homens da polícia que, teoricamente,zelam pela segurança do local. Os policiais levam a menina, acompanhada doamigo, para o hospital. A garota não pára de cho-rar e chega até a abrir a porta do carro fingindo Quatorzeque vai se atirar. O policial que está no banco dopassageiro fica nervoso com a encenação e amea- pessoas foramça: “Se você não quiser ir para lugar nenhum, a assassinadasgente fica aqui no carro rodando. Podem se pre-parar para levar tiro”. Ele tem 32 anos – e dez de por dia nopolícia. “Na minha época, não tinha nada dessenegócio de hip hop. Nós gostávamos mesmo de município deheavy metal. Eu passava os finais de semana coma mochila nas costas e ia acampar com a mulhera- São Pauloda”, conta ele. “Não tinha nada disso de bate-ca-beça porque esse negócio de ficar batendo aí com no primeiroa cabeça não dá certo”, afirma. semestre ** de 1999. Depois daquela noite de maio, De Menor vol-tou a freqüentar as reuniões evangélicas promo-vidas na casa de sua mãe. “Preciso dar um jeitoem minha vida”, justifica ela, que tinha abando-nado a religião havia um ano e meio. Brigou atécom Bia, que começou a praticar pequenos furtos.De Menor e Tutty não concordam com a atitudeda menina. “Se ela quiser roubar, que vá sozinha.Eu já fui para a Febem (Fundação Estadual doBem-Estar do Menor) e não estou a fim de serpresa de novo”, diz De Menor. Ela agora veste saias longas e deixa os cabelossoltos na altura da cintura. Mantém uma posturacontraditória: diz que não renunciou ao hip hop.“Continuo ouvindo rap e vou à balada, mas voltomais cedo e não estou bebendo tanto”, afirma. “Ohip hop é um estilo de vida.” 29 Uma garota chamada De Menor
  32. 32. Hip hop – A periferia grita 30
  33. 33. Produto marginal e Menor e sua turma de “detentas” estãoD entre os mais de “50 mil manos” – núme- ro que marcou história na música “Capí-tulo 4, versículo 3”, do disco Sobrevivendo no in-ferno, dos Racionais MC’s – que vivem embaladospelas letras de rap. Eles acompanham apresenta-ções de seus ídolos em espaços públicos, como asfestas realizadas em ruas e favelas, e em casas deshows e bares da periferia. Para quem reside naperiferia de São Paulo, o rap transforma o sim-ples ato de escutar a rima em um disco ou em umshow num gesto de discordância social, afirmaMarco Aurélio Paz Tella. O antropólogo, autorda tese Atitude, arte, cultura e autoconhecimen-to: o rap como a voz da periferia, em que investi-ga letras de raps como as de Thaíde & DJ Hum,dos Racionais MC’s e do DMN, defende que o rapé um instrumento de contestação da realidadesocial. “Por meio das letras, o rap é capaz de pro-duzir uma leitura crítica da sociedade. Por meio 31 Produto marginal
  34. 34. Acervo Nino Brown Divulgação da denúncia dos problemas étnicos e sociais e da apropriação seletiva do passado da população negra, ele proporciona uma gama de referenciais para a juventude negra. Tais referências questio- nam o imaginário social de nossa sociedade”, analisa ele em sua tese. O I Festival Internacional de Rap, realizado no estacionamento do Parque Anhembi, zona norteThaíde e DJ Hum da capital paulista, em março de 1999, serve paraestão entre os exemplificar a tese defendida por Tella. Numaprecursores do rap noite de sábado, o evento reuniu mais de 15 milno Brasil. “O rap tem pessoas – a maioria negra e do sexo masculino,o poder de reunir a segundo dados da Polícia Militar –, que assisti-massa, educando einformando”, diz ram às 15 horas de show como se fosse um culto.Thaíde. No detalhe, Eram fiéis fervorosos que, a cada gesto do seuThaíde em foto dos principal guia, o MC Mano Brown, cantavam aanos 80. rima pesada, cruel e longa do rap dos Racionais MC’s. Eles só subiram ao palco por volta das três horas da madrugada e a maior parte do público estava no Anhembi desde as sete horas da noite esperando a apresentação do grupo. Durante esse período, três tretas ocorreram, mas logo foram apartadas. Todo o festival foi organizado sem pa- trocínio. Entre uma e outra mensagem de paz in- tercaladas às músicas, Brown demonstrava o or- gulho de cantar em um show independente.Hip hop – A periferia grita 32
  35. 35. O rap é a arte do hip hop que tem o maior po-der de sedução sobre o jovem da periferia. Nãohá reunião de posse, disputa entre dançarinosde break, concurso de discotecagem ou evento degrafitagem que consigam reunir um público tãonumeroso. De sexta a domingo, bailes de rap ocor-rem em quase todos os bairros da periferia pau-listana, além de nas cidades próximas da capital Mano Brown, doscomo Barueri, Campinas, Suzano, Carapicuíba e Racionais MC’s, é umoutros municípios do interior de São Paulo. Ape- dos mais respeitados rappers brasileiros:sar dessa adesão maciça ao hip hop, o evento no “Pertenço à realidadeAnhembi foi a descoberta de um “mundo oculto”, da periferia”.segundo DJ Hum. Ele é um dos precursores dorap no Brasil, integrante da dupla Thaíde & DJHum: “Tive de esperar 15 anos para ver uma dasmaiores manifestações de rap organizadas no Bra-sil”. O evento comprovou o quanto o hip hop, re-presentado ali pelo rap, é resistente. “Ele tem opoder de reunir a massa, mas educando, informan-do. É coisa séria, e não uma moda, como o pagodee a axé music”, acredita. Assim como outros que divulgam a cultura hiphop, DJ Hum e Thaíde começaram a carreira noinício dos anos 80, criando sua poesia inspiradanas ruas para os seus irmãos, sobrinhos e filhos.Estes, por sua vez, difundiam essa nova informa- 33 Produto marginal
  36. 36. ção sobre a cultura de rua para os amigos nos bai- les de rap. E para o jovem negro, como analisa a educadora Elaine de Andrade em seu artigo “Hip hop: movimento negro juvenil”, no livro Rap e educação, rap é educação, “o baile éDivulgação um espaço fundamental de afirmação de sua identidade, além de ser um espaço de sociabilidade juvenil”. “No baile, o jovem negro está acompanha- do dos seus iguais de etnia, não ape- nas os iguais de idade, que vivenciam as mesmas dificuldades”. Segundo Marco Aurélio Paz Tella, esse proces- so de conscientização que ocorria nos bailes foi desencadeado por influên- cia dos negros norte-americanos, que transformavam o “espaço de diversão em espaço de afirmação da negritude, contra o processo de discriminação étnico-social”. Ainda que o rap tenha hoje grande alcance na periferia, ele realmente se destacou como um gê- Com músicas que já nero musical popular depois do lançamento inde- viraram “clássicos” do rap brasileiro, como pendente do CD dos Racionais MC’s, Sobreviven- “Diário de um detento” do no inferno, em 1997. O disco, produzido pelo e “Capítulo 4, versículo selo desse grupo, Cosa Nostra, vendeu mais de 3”, o CD Sobrevivendo 1 milhão de cópias, segundo Mano Brown. “Os Ra- no inferno, dos Racionais MC’s, cionais conseguiram estourar não porque uma gra- vendeu mais de vadora acreditou no nosso trabalho. Tivemos de 1 milhão de cópias. lançá-lo por um selo independente. Esse foi o ca- minho. Somente nós apostávamos no nosso traba- lho”, explica. O rapper X, do Distrito Federal, cre- dita o estouro do rap ao reconhecimento dos Ra- cionais MC’s. “Foi preciso um grupo sério vender 1 milhão de CDs para que as pessoas ficassem li- gadas na força do hip hop”, diz X. “Depois do fe- nômeno Racionais, ninguém segura mais o rap. Manteve-se o animal recluso e, quando soltam, ele está sedento.” X foi líder do extinto grupo Câm- bio Negro, que em 1999 ganhou o prêmio de me- lhor videoclipe de rap nacional dado pela MTV Hip hop – A periferia grita 34
  37. 37. com a música “Esse é o meu país”. O grupo teve CDlançado pela gravadora Trama, uma das que maisinvestiram no segmento, e que, em 2000, tambémproduziu o CD da dupla Thaíde & DJ Hum, Assimcaminha a humanidade, distribuiu o CD Seja comofor, do rapper Xis, de São Paulo, e colocou no mer-cado o primeiro disco do grupo gaúcho Da Guedes,Cinco elementos. “Acredito que O lançamento do CD Sobrevivendo no infernotambém marcou uma nova etapa do rap paulistano. o rap é o“Um novo ciclo parece estar se abrindo com as melhor estilogravações de diferentes grupos por selos indepen-dentes como Kaskata’s, MA Records e Zimbabwe, verbal paraalém do surgimento de selos individuais de artis-tas”, afirma o sociólogo José Carlos Gomes Silva tratar deem sua tese Rap na cidade de São Paulo: música,etnicidade e experiência urbana . Gog, líder do temas sociaisgrupo de nome homônimo, vê o resultado das ven-das recordistas dos Racionais como “o termôme- e raciais.”tro para o mercado”, especialmente para as gran- (General D, rapperdes empresas do ramo fonográfico. “Nas FMs de moçambicano)São Paulo, como a Transamérica e a Jovem Pan,os ouvintes ligavam pedindo ‘O homem na estra-da’ [dos Racionais], e não as músicas de Gabriel oPensador”, afirma Gog. “Com esse CD dos Racio-nais MC’s, o verdadeiro rap foi descoberto.” A mú-sica citada por Gog já rendeu até prisão para osintegrantes dos Racionais. Em novembro de 1994,os rappers foram detidos pela Polícia Militar deSão Paulo quando subiram ao palco durante o fes-tival Rap no Vale, realizado no Vale do Anhan-gabaú, no centro de São Paulo, para cantar “Ohomem na estrada”. O motivo alegado para a pri-são foi incitação à violência e desacato à autori-dade. “Eu nunca cantei o crime. Eu canto a reali-dade. Pertenço à realidade da periferia”, justificaMano Brown. Desde 1991, a profissionalização do rap acon-tece no circuito alternativo por meio dos selos egravadoras independentes. Entre 1991 e 1994,mais de dez coletâneas foram gravadas, reunindo 35 Produto marginal
  38. 38. parte significativa dos grupos que apareceram A popularização do nos principais focos de concentração de rappers rap, ainda que relativa, na década de 1980, a Praça Roosevelt e o Projeto incentivou a formação Rappers Geledés. Mesmo estruturado, o merca- de grupos como De do fonográfico rapper teve um período crítico de- Menos Crime e pois de 1994. O principal meio impresso de divul- Consciência Humana. Na foto, componentes gação do hip hop nacional, a revista Pode Crê!, foi dos dois grupos. extinto naquele ano. A produção voltou a crescer com o disco Sobrevivendo no inferno, mas o que ficou conhecido como “o fenômeno Racionais”, por conta da vendagem inesperada do CD do grupo, demorou para transpor a barreira do gueto. As músicas do disco só chegaram aos meios radiofô- nicos comerciais seis meses depois do lançamen- to do CD. Durante esse período, o álbum foi di- vulgado pelas rádios comunitárias. Os Racionais seguem a linha do “rap conscien- te”, que sofreu influência de grupos norte-ame- ricanos como Public Enemy, criado no fim da dé- cada de 1980. O surgimento dessa segunda gera- ção de rappers nos Estados Unidos – a primeira foi comandada pelo DJ Afrika Bambaataa – afir- mou o hip hop como movimento social. Eles tra- ziam na sua poesia referências baseadas nas ati- tudes de líderes negros como Martin Luther King e Malcolm X. Essa nova referência musical ali-Hip hop – A periferia grita 36
  39. 39. mentou a geração dos Racionais MC’s, que, depoisde participarem de coletâneas de selos indepen-dentes, firmaram-se no mercado fonográfico comálbuns-solo. “Verificamos que os grupos de rapse empenharam no sentido de interpretar os sím-bolos de origem afro que seriam fundamentaispara a mudança de atitude. Apesar de inseridosno contexto externo, os símbolos da luta contra a “Acho ótimo osdiscriminação racial foram interpretados comoparte de uma história que unifica os afro-bra- Racionaissileiros”, afirma o sociólogo José Carlos Gomes teremSilva em sua tese. A popularidade (ainda que relativa) do rap conseguidoincentivou a criação de novos grupos, com dis-cursos muitas vezes até divergentes. De autoria impor umado grupo De Menos Crime, do bairro de SãoMatheus, zona leste de São Paulo, a música “Fogo abertura nona bomba” rendeu algumas discussões. Ela nar-ra o dia-a-dia de um usuário de maconha. “A le- mercado. Sãotra não é a favor nem contra a erva”, argumenta independenteso integrante do grupo, Mago Abelha. “A gentemostra que, nas quebradas, onde se encontra o e vendembagulho [maconha], há também a química pesa-da [cocaína e pedra de crack], que é perigosa. A milhõespolícia também é outro risco. Ela pode sair dan-do tiro e sobra pra todo mundo”, completa. O hit, de cópias.”que faz parte do disco São Matheus pra vida, pro-duzido pelo selo independente Kaskata’s, levou (Djavan, compositor)à venda de 100 mil cópias desse CD. O De MenosCrime concorreu na categoria de melhor clipe derap na MTV, em 1999, com “Fogo na bomba”, masnão foi premiado. “O positivo é que não deu ‘Fogona bomba’”, ironiza Gog, que não concorda com amensagem do De Menos Crime. Em resposta aosataques, o grupo compôs “Só quem é louco”, pre-sente no disco Rap das quebradas, lançado em2000. A música diz: “Nasci na favela e sei o queme prejudica/ Fumar crack, cheirar cocaína, to-mar cachaça no boteco da vila/ Prefiro ficar nabrisa/ Só quem é louco se identifica/ Acende o dobom/ Fumaça proibida”. 37 Produto marginal
  40. 40. O ponto de vista do rapper Gog, do Distrito Federal, é um dos mais respeitados pelos hip hoppers. A escrita elaborada, com português cor- Gog, à frente de seu reto e sem excesso de gírias, rendeu-lhe uma pre- grupo, de mesmo miação no concurso HIP HOP 2000 – Os Melhores nome: defesa do do Rap, na categoria de melhor letrista. Líder e rap vinculado à questão social. fundador do grupo que tem como título as iniciais do seu nome, Genivaldo Oliveira Gonçalvez ques- tiona o papel do rap. “Temos um compromisso não somente com a música, mas também com a questão social, inclusive a de não incentivar em público o uso de qualquer droga, seja ela a pinga ou a maco- nha. Uma vez em cima do palco, você é um líder e pode influenciar muita gente”, acredita ele. Os in- tegrantes do grupo Academia Brasileira de Rimas (ABR) demonstram a mesma preocupação. O nome do grupo, criado em maio de 1999, foi dado pelo MC Paulo Nápoli em alusão à Academia Brasileira de Letras. “Não temos a intenção de ser os melho- res, mas queremos ser diferentes e apresentar pro- postas para o rap nacional”, afirma Thaíde, que, além de cantar com DJ Hum, integra a ABR. Thaíde diz que aceitou o convite para participar da ABR por acreditar que esse grupo veio em prol da evolu- ção do rap dentro do hip hop. “A Academia traz evo- lução, rima e novas idéias”, acredita. As discussões em torno do rap vão além da com- posição das letras. Muitos grupos continuam acre-Hip hop – A periferia grita 38
  41. 41. ditando que a expansão da música hip hop deveocorrer à margem da indústria fonográfica, comlançamentos feitos por selos independentes. Mil-ton Sales, sócio da empresa Racionais MC’s e pro-prietário junto com o grupo do selo Cosa Nostra,mostra que a idéia de produzir música de forma in-dependente também tem um viés político: “A indús-tria do disco não atende o direito de quem produz, “Uma vez emnão tem controle da venda, não tem controle de ca-tálogo. Quando se é independente, o resultado é, de cima do palco,fato, uma ação mais direta na sua comunidade, na você é umgeração de emprego, no dinheiro que está sendo le-vado para a periferia. Então a música liberta a for- líder e podema de negociação, de industrialização, proliferampequenas empresas e cada grupo se torna uma pe- influenciarquena empresa. O dinheiro vai ser socializado deuma forma melhor do que se ficar na mão de quatro muita gente.”ou cinco grandes gravadoras. A independência im- (Gog)plica controle da obra e a garantia de não ser rouba-do”. Sales, entretanto, ressalva que esta concepçãode independência como autonomia irrestrita do ar-tista e controle transparente sobre a produção nãoé intrínseca a todos os selos alternativos. “Quandose trabalha com a mesma lei que as [gravadoras]tradicionais, não adianta nada [ser independente].Pra você ser explorado pela Zâmbia é melhor serexplorado pela Sony. A única diferença é estar numselo black, mas a forma como exploram o produto éa mesma. Quando o artista se torna empresa, elepassa a ganhar alguns reais com o disco, em vez decentavos. A gravadora independente que paga eedita do mesmo jeito que a grande não é alternati-va. O avanço no mercado do rap só ocorre quandose está num sistema cooperativado.” Esse pensamento levou o De Menos Crimea criar o selo DRR, junto com o grupo ConsciênciaHumana – que se destacou no mercado em 1995com a música “Tá na hora”, que critica a atuaçãodo então capitão da reserva da Polícia Militar deSão Paulo, Conte Lopes, deputado estadual peloPartido Progressista Brasileiro (PPB), que tem 39 Produto marginal
  42. 42. fama de ter sido um policial “justiceiro” quando atuava nas Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA). A música estourou nas rádios de São Pau- lo. Na ocasião, segundo o integrante W-gee, o grupo sofreu perseguições de policiais e ameaças de morte por causa da letra. Com o selo DRR, o Cons- ciência Humana produziu seu próprio CD e o dos “A grande grupos U.Negro, Homens Crânios e RZO. O caminho alternativo do rap foi defendido pe- evolução do los Racionais e por vários veteranos, mas hoje algu- rap está em mas novas questões se impõem. O próximo disco dos Racionais, por exemplo, terá distribuição da multi-fazer com que nacional Sony Music. “Conforme o crescimento do hip hop, a gente tem de se juntar, conquistar novas par- o playboy cerias e conseguir ter várias coisas para os manos”, afirma o MC Ice Blue, integrante dos Racionais. Se- reflita e a gundo Ice Blue, é inviável administrar a vendagem de 1 milhão de cópias. Ele garante que o grupo teve periferia se prejuízo. “A gente vai continuar falando da nossa rea- valorize.” lidade. Os Racionais estão mais maduros, mas os te- mas não mudaram. A questão é que podemos domi- (DJ Hum) nar muito mais coisas hoje e mostrar que estamos mais organizados.” Para ele, a realização do Festival Millenium Rap, em janeiro de 2001, no Anhembi, que atraiu mais de 40 mil pessoas, provou novamente que o rap está em plena expansão. A postura do grupo Pavilhão 9, de São Paulo, em relação ao mercado fonográfico parece ser mais realista. “A partir do momento em que você faz um CD, você está sendo comercial. Ter preconceito com as pessoas para as quais você vai tocar e com o lu- gar onde vai tocar é bobagem”, analisa o MC Ro$$i, integrante da banda. “O legal no Pavilhão é que nem todo mundo veio da periferia, mas todos do grupo têm preocupação com a mensagem. O hip hop está muito além do lugar de onde o cara vem, pois tem muito cara da periferia que bota banca de mau, só fala de coisa ruim e não aponta solução”, acredita Ro$$i. A grande evolução do rap, confor- me DJ Hum, está justamente em fazer com que o playboy reflita e a periferia se valorize.Hip hop – A periferia grita 40
  43. 43. O Pavilhão 9 é precursor no Brasil da junçãodo rap com o rock, que inclui, além da instru-mentação do DJ, baixo, bateria e guitarra. A mes-cla de gêneros o afasta de outros grupos, assimcomo o fato de ter participado da terceira ediçãodo Rock in Rio – foi o único conjunto de rap nacio-nal a se apresentar ali –, no mesmo período emque aconteceu o Millenium Rap. Ice Blue é radi- “O rapcal sobre o assunto: “No nosso festival [MilleniumRap], eles [Pavilhão 9] não tocam, pois não apro- nacional,vo a mistura que fazem de rap com rock. Para mim, com suarap tem de ser feito com DJ e MC. Nada de gui-tarra e outros instrumentos”. sinceridade, Segundo Brown, a expansão do mercado fono-gráfico do rap está causando a proliferação de gru- passapos com as mesmas bases instrumentais, temas eformato das composições dos Racionais. “Depois informaçãodas vendas, parece que a mídia estipulou que afórmula para vender rap é o nosso estilo. Só sei para aque nós não copiamos ninguém”, afirma Mano comunidade. ABrown. “Infelizmente, acho que os Racionais fize-ram até mal para a evolução do rap nacional. Só MPB fezsurge grupo querendo ser mais radical que os ca-ras, querendo ser eles, querendo ser mais pretos, isso no200% preto, querendo ser mais mal-encarados queeles. Cadê a autenticidade das histórias, das rimas, passado.”das poesias?”, questiona Marcelo D2, integrante do (Gabriel ogrupo Planet Hemp. Em 1998, D2 lançou o CD-solo Pensador, rapper)Eu tiro é onda. O disco foi considerado pela críticamusical um dos melhores do rap nacional daqueleano. Nele D2 sampleia obras-primas do cancionei-ro brasileiro, como o “Canto de Ossanha”, de BadenPowell e Vinícius de Moraes. A preocupação com a criatividade musical dorap aflige também Thaíde e DJ Hum. Eles defen-dem que o rap precisa dar um salto musical paraque não se resuma ao estilo dos Racionais. “É ahora certa de se usar a nossa cultura pra se fazera nossa música. Tudo que vier com consistência eatitude, não fugindo da verdade da cultura hiphop, vai revolucionar”, profetiza Thaíde. 41 Produto marginal
  44. 44. O MUNDO DO “MÁGICO DE OZ” S er um rapper. Ter um gru- po famoso. Tocar nas rá- dios. Gravar um clipe. Ser as- batalhou muito. O líder dos Racionais, Mano Brown, tem muitos fãs e não é fácil chegar sediado pelo público. Em con- até ele. Em uma apresentação junto, tais situações fazem do grupo, surgiu a primei- parte do sonho de muitos jo- ra chance de contato entre vens da periferia envolvidos Pulguinha e o rapper. O garo- com a cultura hip hop. Num to conseguiu falar com Edy mundo de exclusão e com pou- Rock, letrista do grupo. “Mano... cas chances de ascensão so- Sempre curti vocês. Me dá um cial, essas parecem ser as úni- autógrafo”, disse Pulguinha cas alternativas para uma vida com os olhos fixos nos artis- melhor. E possível de ser con- tas. Numa segunda oportuni- cretizada, já que “muitas vezes dade, Pulguinha encontrou a distância entre o rapper e seu mais uma vez Edy Rock. “Tá público é apenas um caixote”, lembrado de mim? Eu tava na- como aponta Oswaldo Fausti- quele show que...”. O rapper no, um dos primeiros jornalis- lembrou e Pulguinha ganhou tas a abrir espaço para o movi- como prêmio a chance de co- mento hip hop nos meios de nhecer o camarim do grupo,Pulguinha: participação comunicação. uma perua Kombi que os le-em “O Mágico de OZ”, Subir no tal caixote foi uma vava para as apresentaçõesao lado dos tarefa difícil. E manter-se em no começo de carreira, no fimRacionais MC’s. cima dele tem sido ainda mais dos anos 80. árduo para Pulguinha, um ra- Nessa época, os Racio- paz esguio que, devido a seu nais estavam produzindo a porte físico, recebeu ainda na música “Mágico de Oz” e pre- infância o apelido que hoje o cisavam de um menino para identifica mais do que seu pró- fazer a abertura. Os rappers fi- prio nome, Adilson. Desde os zeram a proposta para Pul- 12 anos de idade, ele viaja guinha, que aceitou. Teve a sozinho por todo o Brasil se- oportunidade de falar dos pro- guindo os shows dos Racio- blemas da periferia para mais nais MC’s. Em 1997, com o lan- de 1 milhão de pessoas que çamento do disco Sobreviven- compraram o disco: “Comecei do no inferno, teve o sonho a usar drogas para esquecer realizado: tornou-se o “Mági- dos problemas. Fugi de casa. co de Oz”, pelo menos duran- Meu pai chegava bêbado e me te o tempo da música que leva batia muito. Eu queria sair des- esse nome e na qual Pulgui- sa vida. Meu sonho? É estu- nha participa como MC. dar, ter uma casa, uma família. Para realizar a façanha, o Se eu fosse um mágico, não garoto, que tem hoje 22 anos, existiria droga, nem fome eHip hop – A periferia grita 42
  45. 45. nem polícia”. Essa é apenas a tinham em Guarulhos, naintrodução da música, mas to- Grande São Paulo. Durante umdos os versos que a compõem ano teve contato com outrosdescrevem a vida de Pul- grupos de rap e com a culturaguinha, um garoto que, quan- hip hop, além de receberdo saía da escola, não podia uma cesta básica de ali-brincar com os amigos de mentos e ter as contas depega-pega ou de girar o pião. água e luz de sua casaTambém não jogava futebol. Ia pagas pelo grupo. Mas apara as portas das casas vizi- polícia o acordou do so-nhas pedir comida porque sa- nho. A rádio foi denuncia-bia que em sua casa não teria da como pirata por outrasalmoço, nem para ele nem emissoras oficiais da re-para os outros três irmãos. O gião e a polícia invadiu emenino também pedia dinhei- destruiu tudo. Ele voltouro ou vendia doces nos faróis para casa sem dinheiro edas principais avenidas do sem roupas. Os Racionaisbairro onde mora, em São precisavam recomeçar eCaetano do Sul, região do não tinham como ajudá-loABC paulista. Foi expulso de mais, diz. Os contatos comcasa várias vezes pela mãe, Edy Rock ainda continuam.que, segundo Pulguinha, “Você perdeu tempo e nãoachava que ele estava arreca- estudou quando morou nadando pouco dinheiro. Desde rádio. Se não melhorar, nãoos 6 anos de idade ele já dor- vai mais andar com a gente”,mia nas ruas, em casas de fala Edy Rock, sempre queamigos ou até nos fundos do encontra com o rapaz. Hoje,pequeno barraco onde a famí- Pulguinha continua com suaslia mora. O pai sempre o acu- andanças, faz correrias parasou de usar drogas. Pulguinha sobreviver em pontos deafirma que pelo menos até os playboys como o centro da ci-12 anos não provou nenhuma dade de São Paulo e ossubstância dessa natureza. shoppings de São Caetano.Desde então, sempre que fica Fuma maconha para esquecernervoso acalma-se fumando dos problemas e tem um gru-cigarros de maconha. Seu ou- po de rap, o Linguagem detro calmante é escutar rap. Rua Rappers. “Não preciso serOuve sempre Racionais MC’s. famoso como o Mano Brown, Enquanto sua família o re- mas quero ser admirado ejeitava, Edy Rock e o ex-pro- passar a mensagem do que jádutor do grupo, Milton Sales, vivi e passei para outros garo-chamaram o garoto para mo- tos, para que eles não erremrar na rádio comunitária que como eu”, justifica. 43 Produto marginal
  46. 46. A turma quebatia latinha fenômeno do rap no final dos anos 90, en-O tretanto, deixa uma falsa impressão. Ao contrário do que muitas pessoas podempensar, o hip hop não chegou ao Brasil por meioda música, mas pela break dance. O b.boy NelsonTriunfo, 45 anos, foi um dos responsáveis por di-fundir o break no país. O cabelo estilo black powere o andar robótico são marcas de Nelsão, como éconhecido. No início da década de 1980, quandoveio viver na capital paulista, o comportamentode Nelsão causava estranhamento pelas ruas docentro da cidade. Muitas pessoas não entendiamo motivo pelo qual um homem alto e esguio cami-nhava com passos duros que, ao mesmo tempo queeram pesados e marcados, levavam com eles a agi-lidade e a leveza da música. Desde a infância, no município de Triunfo, emPernambuco, Nelsão conta que já praticava o break“sem saber”. “Eu dançava soul, e como o hip hoptem sua origem no próprio soul, dançar break foi 45 A turma que batia latinha
  47. 47. apenas um passo para mim”, diz ele. “Percebia que algumas batidas nas músicas estavam mudando e que os clipes que chegavam ao Brasil traziam no- vos passos. Eu já dançava como robô, mas não sa- Nelson Triunfo foi um dos precursores do bia que isso era parte do break. Depois que desco- break no Brasil: “O bri, foi só me aperfeiçoar”, completa Nelsão. Ele verdadeiro lugar do inventava passos, girava e se contorcia todo, como break é nas ruas”. No alguns anos mais tarde, no começo dos anos 80, detalhe, o b.boy em foto dos anos 80. quando levou às ruas do Brasil – mais precisamen- te para São Paulo – o break. Naquela época, Nelsão começou a freqüentar a discoteca Fantasy, no bairro de Moema, zona sul da Acervo Nino Br own capital paulista, onde se apresentava com seu gru- po de soul Funk & Cia. Segundo ele, a Fantasy foi o primeiro lugar no país a promover eventos para que as pessoas pudessem dançar break. “Foi mui- to estranho o que aconteceu com o break no Bra- sil: os ricos eram as únicas pessoas que conseguiam viajar para os Estados Unidos e lá descobriram essa nova dança”, lembra Nelsão. Depois de qua- se um ano freqüentando a Fantasy e com mais conhecimento sobre o break e o hip hop, que na época se confundiam no Brasil, Nelsão levou a dança para seu local de origem: a rua. “Pensei DivulgaçãoHip hop – A periferia grita 46
  48. 48. Acervo Nino Brown como era importante levar tudo aquilo que acontecia na Fantasy para o seu verdadei- ro lugar, as ruas, como no Bronx, em Nova York”, explica Nelsão. Como os outros jovens que dançaram os primeiros passos de break no Centro de São Paulo, ele apenas dançava para se divertir, mas não tinha a percepção do hip hop como movimento social. Segundo Elaine de Andrade, os primeiros breakers, que surgiram nas ruas do Bronx, bairro de população majoritariamente negra e hispâ- nica em Nova York, no final da década de 1960, faziam uma espécie de protesto con- tra a Guerra do Vietnã por meio de passos da dança que simulavam os movimentos dos feridos de guerra. “Cada movimento do break possui como base o reflexo do corpo debilitado dos soldados nor- No alto, Nelson Triunfo te-americanos ou demonstra a lembrança de um e um companheiro objeto utilizado no confronto com os vietnamitas, breaker executam os como o próprio giro de cabeça” (ANDRADE, 1996). passos robóticos da dança. Acima, Gerson Nesse movimento, o dançarino fica com a cabeça King Combo, que, no chão e, com as pernas para cima, procura girar já nos anos 70, todo o corpo. O movimento das pernas no giro de estimulava a cabeça também alude às hélices dos helicópteros, valorização do negro nos bailes blacks. largamente utilizados na Guerra do Vietnã. No Brasil, antes do surgimento do break e do hip hop, quem antecipou a idéia da valorização dos 47 A turma que batia latinha
  49. 49. Acervo Nino Brown afrodescendentes nos bailes blacks dos anos 70, como propõe hoje o hip hop, foi o cantor e dançari- no Gerson King Combo. No início da década de 1980, enquanto no Rio de Janeiro Combo e seus Nas rodas de break dos anos 80, dois companheiros embalavam a juventude com soul e objetivos: diversão e funk, em São Paulo o break começava a ganhar es- busca de auto-estima. paço. Tanto para paulistas como para cariocas os objetivos eram os mesmos: a diversão e a busca da auto-estima. Os integrantes da old school, como Nelsão e seus contemporâneos são conhecidos, ain- da não tinham consciência de que o hip hop propu- nha a “troca da violência pela paz”, segundo Nelsão. “O hip hop era só break para nós. Era uma dança robótica e o rap nem era conhecido com esse nome. Nós o chamávamos de toast (estilo jamaicano pre- cursor do rap)”, afirma o b.boy Moisés, de 34 anos, presidente da equipe paulista de break Jabaquara Breakers. A valorização do negro, entretanto, era evidente. Em qualquer roda de break podia-se en- contrar jovens bem vestidos e com os cabelos sem alisar, uma das marcas do orgulho negro. O break começou a ser praticado na Praça Ra- mos, em frente ao Teatro Municipal, no Centro de São Paulo. O som saía de um box ou de pick-ups, ou por meio do beat box. Os primeiros breakers brasileiros também dançavam ao som improvisa- do de uma ou de várias latas, dando origem à ex-Hip hop – A periferia grita 48

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