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2001 - Delta - Reestruturação do Setor Bancário
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2001 - Delta - Reestruturação do Setor Bancário

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Os principais fatores que estão definindo a reestruturação do setor bancário são os seguintes: regulação, competição, globalização e tecnologia.

Os principais fatores que estão definindo a reestruturação do setor bancário são os seguintes: regulação, competição, globalização e tecnologia.

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  • 1. CURRENT ISSUES Maio 2001 volume 1 número 2 Reestruturação do Setor Bancário Luiz Nelson Porto Araujo Os principais fatores que estão definindo a reestruturação do setor bancário são os se- guintes: regulação, competição, globalização e tecnologia. A adaptação à nova realidade é fundamental para a sobrevivência das instituições financeiras, tendo no planejamento estratégico o ponto mais importante para a obtenção de resultados e crescimento sus- tentado. No caso particular do Brasil, o processo de reestruturação do setor também é bastante relevante e com uma particularidade adicional, a estabilidade econômica. Um dos principais efeitos desta estabilidade é a redução da receita do float, impactando diretamente a rentabilidade de cada instituição e, por consequência, do setor como um todo. Um banco é um intermediário depositante que toma emprestado recursos de unidades econômicas superavitárias e empresta a uni- dades deficitárias (tomadores). Ele faz essa operação mais eficientemente do que os em- prestadores e tomadores poderiam fazer in- dividualmente, ou seja, o custo de transação é diminuído quando a realocação de recur- sos financeiros é realizada por um intermedi- ário especializado.1 A visão corrente é de que os bancos estão perdendo espaço para um espectro bastante 1. A literatura sobre este tema é bastante extensa, tanto para o caso brasileiro quanto para o internacio- nal. Ver, por exemplo, Barros, e Almeida Jr. (1997), amplo de concorrentes não bancários, como financeiras, fundos mútuos e fundos privados de pensão, dentre outros, que estão ofere- cendo produtos bancários tradicionais de maneira mais eficiente. Os motivos determi- nantes da entrada de concorrentes são: i) as inovações tecnológicas eliminaram as vanta- gens até então reservadas aos bancos; ii) os novos competidores estão livres de regula- ções custosas impostas sobre os bancos e iii) o excesso de liquidez no mercado de ca- pitais. Benston et al. (1982), Berger et al. (1987), Harker e Zenios (1998), Herring e Santomero (1995), Roth e Jackson III (1995).
  • 2. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS & FINANCE 2 As implicações deste novo ambiente concor- rencial são muito importantes para a dinâ- mica do setor bancário no mundo, em geral, e no Brasil, em particular. O caso brasileiro é ainda mais significativo quando se considera que a dinâmica deste mercado é também di- recionada por outros fatores, dentre eles: i) a estabilização inflacionária induzida pelo Plano Real e as suas implicações sobre a es- trutura de receitas e despesas das institui- ções bancárias; ii) o grau de inovação tecno- lógica (em particular, da tecnologia bancária) embebido no setor; iii) a escala concorrencial trazida pela entrada de instituições estran- geiras que atuam globalmente; iv) as inova- ções regulatórias e as instituições que rede- finiram o grau do risco sistêmico do sistema bancário nacional; e v) o potencial de banca- rização da população de baixa renda – po- dendo, mesmo, ser considerado como um instrumento de inclusão social. Setor Bancário A análise da dinâmica do setor bancário é feita a partir de seis temas fundamentais: i) organização, ii) estrutura organizacional, iii) regulação, iv) competição, v) globalização e vi) tecnologia.2 Organização Os motivos que explicam a expansão deste setor na segunda metade do século passado são importantes na elaboração de cenários futuros. Em geral, esta organização está cor- relacionada com fatores estruturais da eco- nomia (população, renda, emprego, inflação e tecnologia). 2. Para uma discussão ver, por exemplo, Aghion e Tirole (1995), Aoki (1986), Chandler (1962), Kolari e Zardkoohi (1987), March e Simon (1993), Milgrom e Estes fatores, no longo prazo, são determi- nantes do desenvolvimento econômico, da distribuição da renda e da penetração do se- tor bancário nas atividades das empresas, das famílias e do setor público. Estrutura organizacional No período recente pode-se observar mu- danças, sem paralelo, no sistema de decisão interno dos bancos e na sua estrutura orga- nizacional. As mudanças, sem dúvida, irão impactar a maneira como eles disponibilizam seus serviços de maneira eficiente, o quão eficientemente eles interagem com os seus clientes e o quão eficazmente eles compe- tem nos diversos segmentos do mercado. Basicamente, duas estruturas organizacio- nais são tradicionalmente analisada, inclu- sive para bancos3 : a tipo-U e a tipo-M. As Fi- guras 1a e 1b resumem os atributos destas estruturas. Atualmente, existe um debate se o banco universal, como formatado em vários países (desenvolvidos e em desenvolvimento), cor- responde à estrutura organizacional mais apropriada para se assegurar a competitivi- dade de longo prazo destas instituições. De fato, estudos demonstram que:  sistemas de informações centralizados tendem a aumentar o custo total;  sistemas de entrega de produtos centra- lizados (centralized product delivery), em geral, tem um impacto insignificante sobre o custo total; e  operações de back-office centralizadas reduzem o custo de maneira significa- tiva, um resultado consistente com a Roberts (1992). Estes referências tratam do caso ge- nérico de uma organização. 3. Para uma discussão ver, por exemplo, Qian (1999).
  • 3. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS AND FINANCE 3 existência de economias de escala em operações de back-office. A teoria e a evidência empírica sugerem que a estrutura organizacional mais eficiente é a do tipo-M, onde decisões estratégicas são tomadas pela administração central ou head office, e as decisões operacionais são aloca- das às divisões (funcionais). Estruturas ma- triciais e em rede, também podem ser im- plantadas em instituições bancárias. Até o início dos anos 70, a estrutura tradici- onal era a do tipo-U, onde as principais uni- dades são as divisões funcionais. Com as mudanças no sistema econômico e regulató- rio e, em particular, o aumento da concor- rência por instituições não-bancárias e a desregulamentação geográfica e de produ- tos, os bancos se reposicionaram a partir de uma estrutura organizacional voltada para o mercado, similar em muitos aspectos àquela observada nas organizações do tipo-M. Em termos comparativos, a estrutura organi- zacional voltada para o mercado e a do tipo- M separam a tomada de decisões estratégi- cas da tomada de decisões no âmbito das divisões operacionais (isto é, descentraliza- ção), e possuem controles e incentivos inter- nos que eliminam os problemas de oportu- nismo, perda de controle e racionalidade li- mitada, característicos de organizações do tipo-U. A principal característica desta estrutura or- ganizacional voltada para o mercado é a ele- vação dos departamentos de clientes e de marketing à níveis superiores da instituição. Os departamentos passam a ser organizados em torno de grupos de clientes ao invés de funções bancárias. Todos os produtos e fun- ções necessários ao atendimento de um par- ticular grupo de cliente tendem a ser aloca- dos em único departamento. A estratégia deste tipo de estrutura é essencialmente es- tar no mercado certo, com o produto certo, no momento certo. Comparada com a estrutura do tipo-U, a es- trutura voltada para o mercado é menos cen- tralizada, menos especializada e um pouco menos formalizada. Qualquer conflito é resol- vido considerando-se os objetivos do banco, ao invés das funções individuais, e os admi- nistradores possuem responsabilidades pela obtenção de resultados (em geral, lucrativi- dade). Neste sentido, dificuldades de coor- denação e controle são corrigidas através de um sistema de incentivo mais efetivo e pela eliminação de competição entre as unidades funcionais. Assim, com a mudança para uma estrutura organizacional voltada para o mercado, par- tiu-se de um sistema de atendimento des- centralizado para um centralizado. Neste úl- timo caso, um agente (o representante da conta) é responsável por todas as necessida- des do cliente com relação ao produto e à sua entrega. Em outras palavras, o represen- tante age como um intermediário entre os clientes e os membros das áreas funcionais do banco que de fato produzem os diversos serviços. Ao contrário, em um sistema de atendimento descentralizado, os funcioná- rios de cada unidade funcional atendem aos clientes diretamente. A mudança para um sistema de atendimento centralizado foi induzida por diversos fatores, em particular:  sob um sistema descentralizado, os bancos não conhecem a rentabilidade geral dos seus clientes, na medida em que existe pouca comunicação e coor- denação entre as diversas unidades fun- cionais;  a mudança para um sistema centrali- zado aumenta a percepção do cliente
  • 4. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS & FINANCE 4 com relação à qualidade do serviço, na medida em que neste sistema os pro- blemas são resolvidos por apenas um representante ao invés de diversos es- pecialistas funcionais;  os sistemas centralizados podem ser mais eficientes, do ponto de vista dos custos, de se atender aos clientes. Regulação Pressões competitivas levaram os países a desregularem os seus respectivos setores bancários, um elemento importante que per- mitiu uma globalização ainda mais intensa. De fato, antes de 1970, a maior parte dos países desenvolvidos possuíam regulamen- tações protetivas e restritivas sobre o setor bancário. Em geral, as taxas de juros pagas sobre os depósitos eram fixas ou com um limite supe- rior, e a divisão entre banking e atividades securities-related era bastante restrita (como por exemplo no Canadá, nos Estados Unidos e no Japão), ou ao menos limitada (na Bél- gica, Dinamarca, Espanha, Inglaterra e Itá- lia). Nos anos 90, a desregulação alterou drasti- camente o ambiente global bancário em re- lação àquele que existia na década de 1960. No entanto, em diversos países, as ativida- des de banking e de securities ainda perma- necem separadas. A elevação do nível e volatilidade das taxas de juros, em grande parte resultantes de au- mento no nível e na volatilidade da inflação, deram aos depositantes e aos ofertantes de serviços financeiros incentivos para contor- narem barreiras regulatórias que criaram te- tos sobre as taxas de juros em depósitos à vista e restringiram a criação de contas cor- rentes aos bancos comerciais. Ao mesmo tempo, avanços tecnológicos em telecomunicações e em sistemas computa- cionais, que facilitaram a rápida e barata transferência de recursos e informação entre contas e entre instituições, também permiti- ram contornar barreiras regulatórias. Na verdade, grande parcela da desregulação de jure apenas validou a desregulação de facto induzida pelas forças de mercado. Neste momento de desregulação da ativi- dade bancária, o papel do Banco Central como regulador e emprestador de última ins- tância é fundamental. No entanto, ele não deve assegurar todas as instituições inde- pendentemente do seu comportamento ou sucesso da sua operação, sob o risco de in- duzir os bancos a ignorar o risco e não per- mitir ao público diferenciar entre as diversas instituições que ofertam seus produtos e ser- viços no mercado. Competição A busca de economias de escala e de escopo é uma das características mais marcantes do setor bancário ao final do século passado e início deste. Esta competição também está associada à maior inserção de outras insti- tuições em atividades tradicionalmente de- senvolvidas por bancos. Nos Estados Unidos, por exemplo, durante a década de 1980 a distinção entre bancos de investimento e bancos comerciais tornou-se menos clara, na medida em que os últimos passaram a responder à maior competição no mercado de capitais através do aumento dos empréstimos, provimento de garantias fi- nanceiras e colocação direta de securities para os seus clientes. A distinção entre os bancos comerciais e outras linhas de comér- cio também tornaram-se confusas quando
  • 5. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS AND FINANCE 5 os provedores não-bancários de serviços fi- nanceiros, cada vez mais oferecem serviços e produtos que competem com aqueles dos bancos comerciais. Um banco mais competitivo tem maiores chances de auferir resultados positivos e, no longo prazo, de sobreviver. A maior competi- tividade pode ser alcançada ao se: i) oferecer produtos e serviços para clientes mais sofis- ticados e exigentes; ii) estabelecer diretrizes para atendar às exigências técnicas e legais; iii) comprar de fornecedores mais avançados e globais e iv) tratar seus colaboradores como permanentes. Além disso, o acirramento da competição em mercados globais deve induzir os bancos a buscarem parcerias estratégicas, que facili- tem: i) novos e melhores produtos e serviços; ii) linhas de produtos e serviços mais "inteli- gentes"; iii) maior e melhor acesso a merca- dos; iv) tecnologia de ponta; v) maior oportu- nidade de crescimento; vi) preços e risco me- nores e vii) menos exigências e obstáculos para investimentos. Globalização Um dos motivos que explicam a expansão global do setor bancário na segunda metade do século passado e início deste foi o cresci- mento no número e tamanho das empresas multinacionais. Estas empresas possuem necessidades específicas que tornam a aber- tura de subsidiárias no exterior um negócio bastante atraente. Estas empresas são de- mandantes de recursos para as mais diver- sas operações (investimento, aquisição, co- mércio exterior). Tecnologia As inovações tecnológicas também foram importantes na globalização do setor bancá- rio. Através da telecomunicação e de redes de fibra ótica os bancos puderam ofertar no- vos produtos e serviços como cartões de cré- dito, factoring, commercial papers, atendi- mento eletrônico (principalmente, caixas), diversas modalidades de fundos de investi- mento e operações de câmbio. A tecnologia permitiu aos bancos competi- rem fora das áreas tradicionais de mercado e de produtos e permitiu a outras firmas ofe- recerem serviços financeiros até então restri- tos aos bancos comerciais. Desta maneira, o número e tipo de firmas pertencentes ao se- tor de serviços financeiros aumentou e a competição intensificou-se. Alguns dos principais efeitos das inovações tecnológicas que devem redefinir o posicio- namento competitivo das instituições bancá- rias são:  vulnerabilidade: o nível de informação sobre qualquer banco ficou mais acessí- vel a todos (colaboradores, clientes e concorrentes);  lentidão: as instituições maiores são, em geral, mais lentas do que os indiví- duos para acompanhar as mudanças; além disso, são também mais lentas do que instituições menores;  obrigações: as instituições buscam constantemente o atendimento ao cli- ente (satisfação e qualidade são, cada vez mais, fundamentais);  versatilidade: as instituições oferecem opções aos seus clientes; de fato,, a es- colha se tornou tão importante quanto o produto e o serviço ofertado; e  opções: a fragmentação do mercado gera novas oportunidades; no entanto, o foco da instituição deve ser mantido.
  • 6. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS & FINANCE 6 Reestruturação do Setor A adaptação à nova dinâmica setorial é fun- damental para a sobrevivência das institui- ções bancárias, tendo no planejamento es- tratégico um dos temais mais importantes para a obtenção de resultados e o cresci- mento sustentado. Em função desta dinâmica este setor deve ajustar o seu posicionamento estratégico contemplando, em particular, as seguintes dimensões: i) direcionamento das atividades operacionais e ii) controle de riscos. O ajuste deve envolver o redirecionamento das atividades operacionais, com a volta das funções tradicionais de intermediário entre as unidades superavitárias e as deficitárias e a reavaliação dos recursos empregados na operação. No caso particular do Brasil, com a redução do float, a prestação de serviços ao cliente tornou-se de fato a única maneira das instituições bancárias continuarem a existir em um ambiente cada vez mais com- petitivo. Neste reposicionamento estratégico o con- trole de riscos tem um papel fundamental, na medida em que a sua assunção é ine- rente à própria atividade bancária. No caso, o problema dos bancos é a gestão – e nesta, a mitigação – de riscos e não o avoidance. Como a má gestão pode levar até mesmo à quebra da instituição, o controle das opera- ções e a gestão de riscos em mercados no- vos e distantes tornou-se um desafio ainda mais importante. O risco na atividade bancária aumentou por diversos motivos, dentre eles:  o maior nível e volatilidade das taxas de juro;  as inovações tecnológicas, que permi- tem a transferência imediata e quase a custo zero de recursos e que aumentam a importância, o custo e a complexidade dos sistemas de controles internos e de monitoramento;  ao crescimento e sofisticação dos mer- cados financeiros, além da introdução de novos instrumentos financeiros;  às variações (subidas e descidas) rápi- das no preço dos ativos imobiliários, energéticos e agrícolas;  às restrições financeiras em países em desenvolvimento e desenvolvidos; e  à globalização dos mercados. Reestruturação do Setor no Brasil No caso particular do Brasil, o processo de reestruturação do setor também é bastante relevante e com uma particularidade adicio- nal: a estabilidade econômica. Um dos prin- cipais efeitos desta estabilidade é a redução da receita do float, impactando diretamente a rentabilidade de cada instituição e, por consequência, do setor como um todo. Este processo de reestruturação deve impli- car em:  consolidação de bancos através de ope- rações de fusão e de aquisição;  redução do número de colaboradores e de agências;  investimento em tecnologia de trans- missão de dados e processamento de informações;  busca de novas fontes de receitas; e  definição estratégica do nicho de atua- ção da instituição. É importante ressaltar que a adaptação à nova realidade que define o setor (organiza- ção, estruturação organizacional, regulação, competição, globalização e tecnologia) é fun- damental para a sobrevivência e o cresci- mento das instituições nacionais, tendo no
  • 7. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS AND FINANCE 7 planejamento estratégico e na busca de no- vas fontes de receitas e rentabilidade os pon- tos mais relevantes. No caso brasileiro, os principais temas locais que irão definir a reestruturação do setor são resumidos a seguir. Alguns deles já estão praticamente concluídos, enquanto que ou- tras ainda estão em discussão, elaboração e/ou implantação. Acordo da Basiléia A adequação ao Acordo da Basiléia foi feita pela Resolução n° 2099, de 17/08/94, do Conselho Monetário Nacional - CMN. Se- gundo esta Resolução, os bancos devem adequar-se à exigência de capital mínimo re- alizado e patrimônio líquido, obtido pela pon- deração dos ativos pelo risco, até o final de 1994 e cumprir os novos limites de capital mínimo exigido pelo Banco Central do Brasil - BACEN até o final de maio de 1995. A principal mudança em relação às regras anteriores está na transferência do cálculo da capacidade de alavancagem de cada banco do passivo para o ativo. O risco ope- racional de uma dada instituição passa a ser medido de acordo com o tipo de aplicação feita com o capital que ela administra e não mais pelo volume de recursos captados. Como consequência, o endividamento má- ximo dos bancos é reduzido. Para evitar que as instituições financeiras concentram suas aplicações em ativos de risco zero sem limitação de volume, o BACEN manteve a regra anterior ao Acordo de limite de alavancagem de 15 vezes o patrimônio lí- quido para o endividamento com recursos captados de terceiros. O cálculo do valor do patrimônio líquido exi- gido para o enquadramento nas novas regras representa a aplicação de 8% sobre o ativo ponderado pelo percentual de risco. Nas re- gras originais do Acordo, os ativos bancários são classificados em cinco categorias de risco. No Brasil, foram reagrupados em 4 classes. PROER A Resolução BACEN n° 2208, de 03/11/95, instituiu no Banco Central o Programa de Es- tímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional - PROER. O PROER é implementado por meio de reorga- nizações administrativas, operacionais e so- cietárias, previamente autorizadas pelo BACEN, que resultem em transferência de controle acionário de instituição financeira, ou na modificação de seu objeto social para finalidades não privativas de instituições in- tegrantes do sistema. O objetivo do PROER é assegurar liquidez e solvência ao Sistema Financeiro Nacional e resguardar os interesses de depositantes e investidores. O PROER compreende:  linha especial de assistência vinculada à: i) títulos ou operações de responsabi- lidade do Tesouro Nacional ou de enti- dades da administração federal direta; ii) perdas decorrentes do processo de saneamento; iii) gastos com redimensi- onamento e reorganização administra- tiva e decorrentes de reestruturação e modernização de sistemas operacio- nais; e iv) desmobilização de ativos de propriedade da instituição financeira dele participante;  liberação de recursos do recolhimento compulsório/encaixe obrigatório sobre recursos à vista para aquisição de Certi- ficados de Depósitos Bancários - CBDs
  • 8. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS & FINANCE 8 de emissão de instituições participantes do PROER;  flexibilização do atendimento dos limites operacionais aplicáveis às instituições fi- nanceiras (redução da obrigatoriedade de que o banco comprador tenha patri- mônio superior a 2,2 vezes o patrimônio da instituição resultante da fusão, defi- nida no Acordo da Basiléia (conforme Resolução BACEN n° 2.099/94); e  diferimento dos gastos relativos aos cus- tos, despesas e outros encargos com a reestruturação ou modernização de ins- tituições financeira. FGC O estabelecimento formal de sistemas de ga- rantia de depósito é uma tendência global a partir da 1990. No Brasil, a Resolução 2.197, de 31/08/95, do CMN, autorizou a "constituição de entidade privada, sem fins lucrativos, destinada a administrar mecanis- mos de proteção a titulares de créditos con- tra instituições financeiras". A Resolução BACEN n° 2.211, de 16/11/95, aprovou o Estatuto e Regulamento do Fundo Garantidor de Créditos - FGC, associação civil sem fins lucrativos, com personalidade jurí- dica de direito privado. Esta Resolução tam- bém fixou em 0,025% do montante dos sal- dos das contas correspondentes às obriga- ções objeto de garantia, a contribuição men- sal das participantes do FGC. A Circular BACEN n° 2.657, de 17/01/96, es- tabeleceu a base de cálculo para a determi- nação das contribuições das participantes do FGC e os procedimentos para o seu recolhi- mento:  a base de cálculo é o saldo apresen- tado, ao final de cada mês, nos títulos e 4. Entre junho de 1997 e dezembro de 2000, sete operações de privatização foram concluídas. Outras subtítulos do COSIF relacionados no Anexo desta Circular; e  o recolhimento será feito eletronica- mente, por intermédio do Serviço de Compensação de Cheques e Outros Pa- péis – SCCOP. Privatização e PROES O Decreto-lei n° 2.321, de 25/02/87, já identificava como alternativas a federaliza- ção e privatização de instituições financeiras sob intervenção ou regime de administração temporária. Como exemplo, pode-se citar o Banco Meridional, que pertencia ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul e que, de- pois de federalizado, encontra-se incluído no PND. A Medida Provisória n° 841, de 20/01/95, al- terou a Lei n° 8.031, de 12/04/90, que criou o Programa Nacional de Desestatização - PND. Esta Medida Provisória incorporou ao PND as instituições financeiras controladas, direta e indiretamente, pela União e também os bancos estaduais, que tenham as suas ações do seu capital social desapropriadas por força de intervenção ou regime de admi- nistração especial temporária, decretada pelo BACEN.4 No ano seguinte, a Medida Provisória n° 1.514, de 07/08/96, estabeleceu mecanis- mos objetivando incentivar a redução da pre- sença do setor público estadual na atividade financeira bancária e dispôs sobre a privati- zação de instituições financeiras. Em se- guida, a Resolução BACEN n° 2.365, de 28/02/97, instituiu no Banco Central o Pro- grama de Incentivo à Redução do Setor Pú- blico Estadual na Atividade Bancária - três instituições financeiras estão em processo de pri- vatização.
  • 9. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS AND FINANCE 9 PROES, no âmbito dos mecanismos estabe- lecidos na Medida Provisória n° 1.556-7, de 13/02/97. O PROES instituiu duas linhas de crédito des- tinadas à renegociação dos passivos dos bancos estaduais, sujeitas à medidas admi- nistrativas e societárias. A primeira previa um financiamento de 100% do total das dívidas caso o banco estadual fosse privatizado, transformado em agência de fomento ou ex- tinto. A segunda linha de crédito previa um financiamento de 50% do total das dívidas caso o Estado optasse pelo saneamento de sua instituição financeira. A Tabela 1 apresenta as instituições financei- ras estaduais que foram privatizadas no âm- bito deste Programa, até 31/12/00. O Banco do Estado do Rio de Janeiro - BANERJ foi o primeiro banco estadual a ser privatizado dentro do PROES. Em seguida, foram privati- zadas as seguintes instituições: Credireal, Bemge, Bandepe, Baneb, Banestado e Ba- nespa. Estão em processo de privatização as seguintes instituições: BEG, BEA e Paraiban. Outros ajustes O processo de reestruturação do setor ban- cário no Brasil deve, necessariamente, impli- car no estabelecimento de nova regulação setorial, considerando-se em particular:  a regulamentação, por lei complemen- tar, do art. 192 da Constituição Federal, referente ao sistema financeiro nacio- nal. A definição das regras de funciona- mento do sistema financeiro ainda não foram definidas, permanecendo em vi- gor as disposições da lei; e  a privatização das instituições financei- ras estaduais. Resultados da Reestruturação Algumas das principais tendências para o se- tor, decorrentes do processo de reestrutura- ção em curso são: i) a queda das barreiras geográficas à competição, ii) a redução e eli- minação, em alguns casos, das barreiras tra- dicionais à competição entre os diferentes ti- pos de instituições financeiras e iii) a inten- sidade e velocidade das inovações tecnológi- cas. Primeiro, a queda das barreiras à competição deve ter como consequência, um papel mais importante às atividades de supervisão e de regulação, na medida em que a extensão ter- ritorial será ainda maior. Além disso, a coor- denação entre diferentes supervisores e re- guladores deve ser acentuada. Nesta coor- denação está compreendida a necessidade de se desenvolver mecanismos para a troca de informações entre as diferentes autorida- des. Segundo, a redução das barreiras tradicio- nais à competição entre instituições financei- ras, também deve induzir a necessidade de os supervisores terem maior conhecimento das instituições, de maneira a entender e monitorar os riscos associados com um es- pectro novo de produtos e serviços. Por fim, a intensidade e velocidade das ino- vações tecnológicas induzem, diretamente, inovações financeiras, tanto nos mercados quanto nos produtos e serviços. Estas mu- dança reduziram significantemente as restri- ções tradicionais sobre a assunção de riscos e facilitaram a redução do horizonte de re- torno, permitindo aos participantes do mer- cado serem mais agressivos e os mercados mais voláteis.
  • 10. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS & FINANCE 10 No caso brasileiro, os seguintes resultados deste processo de reestruturação são espe- rados: i) novos mecanismos para mitigação dos riscos, ii) redimensionamento da mão- de-obra empregada, iii) redirecionamento das atividades operacionais, iv) inserção de bancos estrangeiros, v) identificação de ni- chos de mercado e racionalização dos custos e vi) fontes de recursos para financiamento de longo prazo. Primeiro, com a estabilização da inflação, os riscos assumidos pelas instituições bancá- rias durante o período anterior de inflação e volatilidade elevada devem ser reduzidos. No entanto, novas fontes de risco irão surgir neste novo cenário, em grande parte decor- rentes da globalização dos mercados e da maior concorrência. Segundo, o redimensionamento da mão-de- obra é uma das principais questões no âm- bito deste processo de reestruturação. Existe previsão de que com a utilização mais in- tensa de tecnologia, o volume de emprego irá reduzir-se. Com a estabilização e posterior queda das taxas de juros, a demanda por crédito pessoal e corporativo deve expandir- se. Em consequência, a avaliação de riscos das operações bancárias deve tornar-se ainda mais relevante, particularmente o acompanhamento da inadimplência. Terceiro, o ajuste deve envolver o redirecio- namento das atividades operacionais, com a volta das funções tradicionais de intermediá- rio entre as unidades superavitárias e as de- ficitárias e a reavaliação dos recursos empre- gados na operação. Quarto, os bancos estrangeiros devem apro- veitar o novo cenário financeiro nacional para expandir suas operações, introduzindo novos produtos e serviços, e exacerbando as pres- sões competitivas dentro do setor. Os ajustes mais profundos serão efetuados pelas insti- tuições bancárias oficiais, em particular as estaduais. Quinto, a identificação de nichos de mer- cado, conjuntamente com a racionalização dos custos operacionais (em particular, mão- de-obra, aluguéis e tecnologia) são desafios que também devem ser equacionados pelas instituições durante o processo de reestrutu- ração. Sexto, com o esgotamento das origens tradi- cionais de recursos, o setor bancário depara- se com a necessidade de buscar novas fon- tes estáveis para o financiamento de longo prazo. Uma alternativa é o Sistema de Previ- dência Complementar. Este Sistema permite compatibilizar prazos e taxas com retorno de investimento de longo prazo, fundamental no financiamento de atividades de longo prazo. Nos países mais desenvolvidos, o patrimônio destes fundos já tornou-se bastante rele- vante, financiando inclusive exportações (por exemplo, no caso do Japão). Neste novo cenário espera-se que a perfor- mance das instituições seja distinta, na me- dida em que algumas delas terão vantagens competitivas sobre as demais. Será perfeita- mente visível para a autoridade monetária, e mesmo o público em geral, as instituições vencedoras e as perdedoras. Em consequên- cia, espera-se também uma migração de ne- gócios das últimas para as primeiras, com as expectativas se auto realizando. Este pro- cesso de seleção natural deve encorajar a consolidação bancária no país, com as insti- tuições mais poderosas absorvendo (medi- ante fusões ou aquisições) as mais fracas.
  • 11. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS AND FINANCE 11 Referências Aghion, Philippe e Jean Tirole (1995): Some Implications of Growth for Organizational Form and Ownership Structure, Euro- pean Economic Review, vol 39, n° 3-4, April, pg 440-455. Aoki, Masahiko (1986): Horizontal vs. Verti- cal Information Structure of the Firm, American Economic Review, December, vol 76, n° 5, December, pg 971-983. Barros, J. e M. Almeida Jr. (1997): Análise do Ajuste do Sistema Financeiro Nacional, Brasília: Ministério da Fazenda. Benston, G., G. Hanweck e D. Humphrey (1982): Scale Economies in Banking: A Restructuring and Reassessment, Jour- nal of Money, Credit and Banking, vol 14, November, pg 435-456. Berger, Allen, Gerald Hanweck e David Humphrey (1987): Competitive Viability in Banking: Scale, Scope, and Product Mix Economies, Journal of Monetary Economics, vol 20, n° 3, December, pg 501-520. Chandler, Alfred Jr. (1962): Strategy and Structure, New York: Doubleday & Com- pany, Inc. Harker, Patrick T. e Stavros A. Zenios (1998): What Drives the Performance of Finan- cial Institutions, Wharton Financial Insti- tutions Working Paper 98-21, June, The Wharton School, University of Pennsyl- vania. Herring, R. J. e A. M. Santomero (1995): The Role of the Financial Sector in Economic Performance, Wharton Financial Institu- tions Working Paper 95-08, The Whar- ton School, University of Pennsylvania. Kolari, J. e A. Zardkoohi (1987): Bank Cost, Structure and Performance, Lexington, MA: Lexington Books. March, James e Herbert Simon (1993): Or- ganizations, 2nd edition, Cambridge, MA: Blackwell. Milgrom, Paul e John Roberts (1992): Eco- nomics, Organization, and Manage- ment, New York, NY: Prentice Hall. Qian, Yingyi, Gérard Roland e Chenggang Xu (1999): Coordinating Changes in M- form and U-form Organizations, Working Paper n° 284, May, Stanford University and CEPR. Roth, Aleda e William Jackson III (1995): Strategic Determinants of Service Qual- ity and Performance: Evidence from the Banking Industry, Management Science, vol. 41, n° 11, November, pg 1720- 1733.
  • 12. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS & FINANCE 12 Figura 1a – Estrutura organizacional tipo-U Figura 1b – Estrutura organizacional tipo-M
  • 13. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS AND FINANCE 13 Tabela 1 - Privatização de bancos estaduais (1997/2000) Instituição Data do leilão Comprador Valor (R$ milhões) Ágil (em %) Banerj 26/06/97 Itaú 311,10 0,6 Credireal 07/08/97 BCN 134,20 10,9 Bemge 14/09/98 Itaú 603,06 92,0 Bandepe 17/11/98 ABN-Amro 182,90 0,0 Baneb 22/06/99 Bradesco 267,80 6,3 Banestado 17/10/00 Itaú 1.799,26 346,5 Banespa 20/11/00 Santander 7.160,92 287,1
  • 14. C U R R E N T I S S U E S __________________________________________________________________________________ DELTA ECONOMICS & FINANCE 14 Luiz Nelson Porto Araujo, economista, é sócio-diretor da Delta Economics & Finance. Foi Professor do De- partamento de Planejamento e Análise Econômica da EAESP-FGV e da FCECA da Universidade Macken- zie. As opiniões expressas nesse estudo são de responsabilidade exclusiva do(s) autor(es) e não expressam, necessariamente, a visão da Delta Economics & Finance. Sobre a Delta Fundada em 2000, a Delta é uma empresa brasileira de consultoria econômica e financeira. Nossa mis- são é oferecer soluções de qualidade aos nossos clientes mediante um compromisso com ética, inova- ção, trabalho em equipe, alianças estratégicas e capacidade analítica. Disponibilizamos sofisticadas soluções em corporate finance, economic regulation, local development & logistics e strategy & operations. O diferencial destas soluções está na utilização de modernos métodos analíticos. Nossos profissionais possuem extensa experiência em vários setores de atividade econômica, dentre eles, automotivo, bancário, óleo e gás, petroquímico, construção, imobiliário, energético, transportes e saúde. Para maiores informações, visite nosso site: www.deltaef.com Disclaimer This research is based on information obtained from, or are based upon public information sources that are considered to be reliable, but Delta does not make any representation with respect to its completeness or accuracy and, therefore, of which we assume no liability. All opinions expressed herein reflect the author’s judgment at the original time of publication, without regard to the date on which the User may receive such information, and are subject to change without notice. Delta reserves the right to modify the views expressed herein at any time without notice. Moreover, Delta reserves the right not to update this information or to discontinue it altogether without notice. Delta may have issued other research that are inconsistent with, and reach different conclusions from, the information presented in a particular research. These publications reflect the different assumptions, views and analytical methods of the analysts who prepared them. Past conclusions should not be taken as an indication or guarantee of future conclusions, and no representation or warranty, express or implied, is provided in relation to future conclusions. The material in each of these publication is copyrighted. Copying and/or transmitting portions or all of a particular research without permission may be a violation of applicable law. Delta encourages dissemination of its work and will normally grant permission to reproduce portions of the work promptly. © 2001 – all rights reserved Delta Economics & Finance