UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL               FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS                   DEPARTAMENTO DE...
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AgradecimentosA todos os voluntários que desenvolveram os softwares livres que permitiram a construçãodesta monografia, se...
SUMÁRIOINTRODUÇÃO............................................................................................................
3.1.2 A consolidação do movimento de Software Livre................................................... 46  3.1.3 O Novo mo...
INTRODUÇÃO       A tecnologia da informação tem comprovado a cada dia sua força dentro da economiaglobal, seja como setor ...
Governo Brasileiro, especialmente depois da posse do Presidente Lula, vêm utilizandosoftwares livres em praticamente todos...
1 - FUNDAMENTOS TEÓRICOS PARA A ANÁLISE DAS FIRMAS E DOSMERCADOS      O presente capítulo irá fazer uma breve revisão do r...
generalizados para toda a economia, e não mais restritos à agricultura, como na visão da teoriaricardiana. Em relação aos ...
Um fator fundamental a ser observado quando analisamos as estruturas de mercado é oseu grau de concentração, isto é, verif...
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2.       CARACTERIZAÇÃO                    DO          MERCADO             DE     SOFTWAREPROPRIETÁRIO        Por software...
O conhecimento é classificado tradicionalmente na economia como um bem não rival,isto é, o consumo de uma unidade não inte...
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“(...) observa-se claramente que as relações concorrenciais,               notadamente se analisadas em cotejo com as pecu...
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formato Dvorak. Porém, ele jamais se consolidou no mercado.18         Podemos explicar a dificuldade de troca para um novo...
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Software livre e as alterações no mercado de software no brasil e no mundo
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Software livre e as alterações no mercado de software no brasil e no mundo

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Monografia: "Software Livre e as alterações no mercado de software no Brasil e no mundo – elementos para uma política governamental de software"
Autor: Deivi Lopes Kuhn

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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE ECONOMIASoftware Livre e as alterações no mercado de software no Brasil e no mundo – elementos para uma política governamental de software Deivi Lopes Kuhn Porto Alegre, dezembro de 2005.
  2. 2. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS ECONÔMICASSoftware Livre e as alterações no mercado de software no Brasil e no mundo – elementos para uma política governamental de software Deivi Lopes Kuhn Orientadora: Professora Marcilene Martins Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas, na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Porto Alegre, dezembro de 2005.
  3. 3. AgradecimentosA todos os voluntários que desenvolveram os softwares livres que permitiram a construçãodesta monografia, seja por acreditarem na importância da liberdade de acesso a tecnologia, sejapor simples exercício intelectual.A todos aqueles que acham que o conhecimento deve ser livre e compartilhado de todas asmaneiras, seja através de um código fonte, seja pela educação formal, na qual destaco o esforçoda professora Marcilene Martins pelo tempo dedicado a orientação deste trabalho e pelasimportantes sugestões e correções.
  4. 4. SUMÁRIOINTRODUÇÃO.................................................................................................................... 11 FUNDAMENTOS TEÓRICOS PARA A ANÁLISE DAS FIRMAS E DOS MERCADOS.................................................................................................................... 41.1 Concepções de firma...................................................................................................... 41.2 Elementos de Estrutura de Mercados Oligopólico.......................................................... 6 1.2.1 Mercados Atomísticos ou Concentrados.................................................................. 6 1.2.2 Fontes de Barreiras a Entradas................................................................................. 71.3 Estratégias competitivas das firmas............................................................................... 9 1.3.1 Estratégias de crescimento....................................................................................... 9 1.3.2 Estratégias de Preços............................................................................................... 131.4 Concepções sobre a intervenção do Estado.................................................................... 142. CARACTERIZAÇÃO DO MERCADO DE SOFTWARE PROPRIETÁRIO.............. 182.1 O Software como um bem não-rival ............................................................................. 182.2 Composição de custos e formação de preços no mercado de software proprietário....... 20 2.2.1 Caracterização dos custos........................................................................................ 21 2.2.2 A discriminação de preços como estratégia competitiva.......................................... 222.3 Barreiras à entrada e dinâmica da concorrência no setor................................................ 26 2.3.1 Economias de Rede................................................................................................. 27 2.3.2 “Aprisionamento” de clientes.................................................................................. 28 2.3.3 Bens Complementares como fonte de aprisionamento tecnológico......................... 29 2.3.3.1 Hardware.......................................................................................................... 31 2.3.3.2 Software............................................................................................................ 33 2.3.4 Fontes Adicionais de Barreiras à Entrada.............................................................. 382.4 Conseqüências do poder de mercado sobre a concorrência........................................... 403 - O SOFTWARE LIVRE COMO UM NOVO PARADIGMA TÉCNICO-ORGANIZACIONAL NO MERCADO DE SOFTWARE................................................. 433.1 O surgimento e Evolução do Software Livre................................................................ 43 3.1.1 O surgimento do Software Livre............................................................................. 43
  5. 5. 3.1.2 A consolidação do movimento de Software Livre................................................... 46 3.1.3 O Novo modelo de produção de software – A Catedral e o Bazar.......................... 47 3.1.4 A Open Source Initiative e novo foco do movimento de Software Livre................ 493.2 Vantagens na adoção de Software Livre por parte das empresas usuárias...................... 50 3.2.1 Vantagens na adoção de Software Livre por empresas............................................ 51 3.2.2. A especificidade do usuário governo...................................................................... 533.3 Impacto do Software Livre sobre as dimensões de produção e concorrência no setor de software......................................................................................................................... 56 3.3.1 Estratégias das empresas fornecedoras de software face ao avanço do Software Livre no mercado.................................................................................................... 56 3.3.2 Novo modelo de negócios com software livre......................................................... 574 - MERCADO BRASILEIRO DE SOFTWARE: SITUAÇÃO ATUAL E PERSPECTIVAS DE MUDANÇAS COM A DIFUSÃO DO SOFTWARE LIVRE.... 604.1. Aspectos da estrutura e do desempenho recente do setor........................................... 604.2. Aspectos da dinâmica competitiva do setor................................................................. 624.3. Medidas de Política e Perspectivas da Adoção de Software Livre............................... 64 4.3.1 Principais ações do Governo Federal pró-Software Livre....................................... 64 4.3.2 Perspectivas de mudanças na dinâmica do mercado com a difusão do Software Livre....................................................................................................................... 67 4.3.3 Vantagens e desafios do novo modelo.................................................................... 73CONCLUSÃO................................................................................................................... 77REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................ 82REFERÊNCIAS NA INTERNET....................................................................................... 87GLOSSÁRIO...................................................................................................................... 90
  6. 6. INTRODUÇÃO A tecnologia da informação tem comprovado a cada dia sua força dentro da economiaglobal, seja como setor de grande faturamento ou seja como elemento da nova dinâmicatecnológica do capitalismo. Contudo, neste novo mercado com suas características específicas,um subsetor em especial se destaca: o mercado de software que possui na sua alta rentabilidadeum aspecto importante se comparado aos demais setores de tecnologia. O mercado de Software se tornou estratégico dentro das disputas entre as empresas daárea. Porém, mesmo com tanto interesse das empresas em entrar neste setor, ele continua, sendoum mercado bastante concentrado em grande parte de suas áreas de atuação. onde poucosconseguem consolidar seus produtos a se estabelecer como alternativa para os consumidores. Todavia, um novo movimento, denominado predominantemente no Brasil comoSoftware Livre e nos Estados Unidos como Open Source, vem provocando profundas alteraçõesna dinâmica do setor e chamando a atenção pela qualidade de seus produtos e pela sua crescenteutilização, sobretudo no mundo empresarial. Este novo modelo de desenvolvimento de software, o qual passa a ser considerado umserviço ao invés de um produto, promove uma grande mudança na estrutura, nas estratégias enos resultados no setor e mais amplo ainda, em todo o mercado de tecnologia da informação. Onovo e grande concorrente não vem mais de uma pequena empresa que revoluciona com umproduto totalmente novo, como no início do crescimento do setor, nem de grandes empresas quese articulam para conquistar um novo mercado, mas sim de um novo modelo, surgido de ummovimento social, usando instrumentais totalmente novos e não personificados em nenhumaempresa específica. O Software nada mais é que rotinas escritas em uma determinada linguagem que sãoconvertidas para linguagem de máquina. No modelo tradicional de Software, as empresasdesenvolvem cada rotina necessária para o seu funcionamento, convertem em linguagem demáquina e distribuem apenas o seu produto através de licenças de uso sobre ele e tratando ocódigo original como segredo industrial. No modelo de Software Livre, o acesso ao código nãopossui restrições, qualquer um pode acessá-lo, alterá-lo e redistribuí-lo a vontade. As empresasdo setor passam a ser remuneradas pelos serviços que prestam para os usuários deste software. Em todo o mundo este novo modelo se apresenta como uma alternativa dedesenvolvimento tecnológico e de economia para empresas usuárias de tecnologia e para osgovernos, ambos muito dependentes e aprisionados a fornecedores de Software. O próprio
  7. 7. Governo Brasileiro, especialmente depois da posse do Presidente Lula, vêm utilizandosoftwares livres em praticamente todos os seus setores, e estabaleceu o seu uso como objetivoestratégico para todo o Governo. O presente trabalho vai analisar as mudanças ocorridas na indústria de software, bemcomo os motivos que levaram o Governo Federal a estabelecer o uso de um modelo específicodo mercado de software como uma decisão estratégica. Para tanto, o primeiro capítulo fará umarápida revisão na literatura de análise de modelos de concorrência concentradas, utilizandoreferenciais de economia industrial. Já o segundo capítulo, procura aplicar esses referenciais de análise ao setor de tecnologiada informação, com ênfase para o mercado de software, abordando temas como economias derede, barreiras a entrada, custos de substituição por produtos similares e estrutura de preço. Comesta caracterização, pretende-se mostrar os fundamentos da excessiva concentração existente nomercado e da dificuldade de novas tecnologias e produtos se estabelecerem quando originadas edefendidas fora das empresas líderes do setor. O terceiro capítulo trata do surgimento do modelo de Software Livre, desde o seu iníciocomo movimento de caráter social, as alterações introduzidas no próprio processo de produçãode conhecimento materializado em software. Também será demonstrado como os movimentos afavor do Software Livre se colocam em termos de argumentação e suas posturas políticas efilosóficas nas suas argumentações, correlacionando como tanto a produção de software, quantoa adoção por parte dos indivíduos e empresas se justificam em cada um dos modelos. A partir deste diagnóstico e das estratégias usadas nos movimentos socias, serãoabordadas as alterações que a introdução do Software Livre trouxe para a dinâmicaconcorrencial do setor e sua relação com uma estrutura de mercado extremamente concentrada,descrevendo as estratégias das empresas do setor, bem como o novo modelo de negócios queestá se espalhando pelo mercado. O último capítulo irá analisar a estrutura atual do mercado de software no Brasil e suadinâmica competitiva, mostrando como a estratégia de adoção de Software Livre e do novomodelo de produção de software pode alterar o mercado. A partir deste ponto, será analisado apolítica pró-Software Livre do Governo Federal, mostrando algumas ações já realizadas e emandamento dentro das políticas governamentais, sua influência sobre o mercado privado naadoção de Software Livre e em que medida isto pode contribuir para o desenvolvimentonacional. Finalizando o trabalho será demonstrado as perspectivas da difusão do Software Livreno mercado nacional, vantagens e desafios para do novo modelo e apontando para um possívelreposicionamento do país no mercado mundial de produção de software.
  8. 8. 1 - FUNDAMENTOS TEÓRICOS PARA A ANÁLISE DAS FIRMAS E DOSMERCADOS O presente capítulo irá fazer uma breve revisão do referencial teórico de economiaindustrial, focando em mercados de concorrência oligopolista. Será abordado o debateeconômico em relação às diferentes concepções de firma. A partir disto, analisaremos osprincipais elementos de estruturas de mercado, como barreiras à entrada, diferenciação deprodutos e barreiras à saída. A base desta caracterização de estrutura do setor analisaremos as estratégias decrescimento e de posicionamento das firmas em mercados concentrados. Por fim faremos umabreve análise das diferentes concepções sobre a intervenção do estado atividade industrial. 1.1 Concepções de firma Ao realizarmos a análise sobre um determinado mercado, o primeiro ponto que precisa serconsiderado são os objetivos identificados para as empresas que atuam neste mercado. Estaquestão tem sido objeto de debate, seja pela maneira com que as diferentes concepções teóricase suas visões do funcionamento do sistema econômico tratam o assunto, seja pela própriaevolução das firmas caracterizada por profundas mudanças no seu funcionamento e objetivos, aolongo da história do capitalismo. Na visão da economia política clássica a empresa não desempenha um papel central.Dado que ela considera os indivíduos enquanto detentores de capital, os burgueses é quesurgem como sendo o principal elemento de análise. Já a moderna empresa está separada dosseus proprietários, criando um ente jurídico à parte, bem diferente das empresas típicas do iníciodo capitalismo, onde a empresa se confundia com a família que a possuía. Já com a teoria neoclássica, sobretudo a partir de Alfred Marshal, a firma passa àcondição de elemento central na análise, porém, ainda ligada à visão do capitalista que acontrola, e que no decorrer das gerações leva ao declínio da empresa familiar, abrindo caminhopara novos concorrentes. Segundo Marshall, mesmo que os filhos dos empresários, de maneirageral, consigam manter a empresa funcionando, “(...) depois de passada uma geração, quandoas velhas tradições deixarem de ser um guia seguro, e quando os liames que uniam os antigosempregados já tiverem se dissolvido, o negócio desmantelará...” (Marshall, 1982. pg 256). Outros elementos fundamentais nesta concepção neoclássica da firma são as hipótesesda livre mobilidade de capitais e dos rendimentos decrescentes de escala, os quais, agora
  9. 9. generalizados para toda a economia, e não mais restritos à agricultura, como na visão da teoriaricardiana. Em relação aos objetivos da firma, tal concepção, porquanto mais interessada naeficiência alocativa, ressaltará a maximização de lucro como tradução da função-objetivo dasfirmas. Assim, as empresas tomariam decisões visando, a curto prazo, maior lucratividade com asua base atualmente instalada, ao passo que a longo prazo buscariam a definição de um tamanhoótimo de sua planta industrial. A contraposição à abordagem neoclássica da firma e dos mercados ganha força no debateeconômico, a partir do início dos anos 20, com um artigo de Piero Sraffa, onde este autorcriticava vários pressupostos da abordagem tradicional, e concluia que seria necessário retornara análise para o monopólio, ao invés da concorrência perfeita. As principais críticas deste autoreram sobre a lei de rendimentos decrescentes, que teriam sido assim definidas para garantir queas curvas de oferta tivessem formas geométricas desejadas, e que a teoria do tamanho ótimo dasfirmas contraria a realidade. Entre as visões de firma alternativas a da abordagem neoclássica, temos a gerencialistaque mostra que as empresas atuais são comandadas por gerentes profissionais, e que estespossuem objetivos, ou ainda, função utilidade, diferentes do que unicamente o lucro. Nestesentido, um gerente poderia trocar um pouco de lucro por um aumento de vendas, o que elevariao seu reconhecimento entre outros gerentes. Neste modelo, o crescimento das vendas daempresa ocupa papel central. Para os neoschumpeterianos, destacando as obras de Richard Nelson e Sidney Winter, asempresas agem de acordo com rotinas cristalizadas através de sua experiência. A empresa não éum ente que simplesmente possui custos variáveis, mas sim um conjunto de rotinas que incluemconhecimento, interpretação de informações do ambiente externo e uma sistemática deprodução. Uma parte destes conhecimentos e rotinas são não formalizados, sendo adquiridos naprática. A firma também pode ser vista como um arranjo institucional duradouro, de acordo com acontribuição de Richard Coase, e não mais como simples contratações de fatores no mercado.Segundo esta teoria, haveria duas formas de alocação de recursos, uma típica de mercado, eoutra hierárquica, interna à empresa. Porém, esta concepção ainda se baseia na eficiênciaalocativa, entre contratações de mercado e uso da hierarquia interna, buscando uma boautilização dos custos de transação. 1.2 Elementos de Estrutura de Mercados Oligopólicos 1.2.1 Mercados Atomísticos ou Concentrados
  10. 10. Um fator fundamental a ser observado quando analisamos as estruturas de mercado é oseu grau de concentração, isto é, verificar quantas indústrias estão atuando no mercado e aparticipação que elas têm nas quantidades produzidas. Esta medida nos permite, entre outrascoisas, verificar se existe um poder de mercado significativo colocado para as firmas. Umaempresa líder em um mercado concentrado possui o poder de controlar os seus preços,estabelecendo uma relação de vantagem em relação aos concorrentes e, principalmente, aosdemais setores da economia. Na visão neoclássica todos os produtos são idênticos ou homogêneos, não sendo possívelque uma empresa pratique preço diferente das demais. Na prática ocorre justamente o contrário,a concorrência existe através de produtos similares, mas não idênticos, normalmente com preçosdiferentes, o que é chamado de diferenciação de produtos. Esta diferenciação pode levar àpossibilidade de uma empresa fixar o preço de seus produtos num patamar acima das demais,desde que os seus consumidores estejam dispostos a pagar a mais pelo produto de umadeterminada marca. A diferenciação de produtos pode ocorrer de muitas maneiras e alguns mercados podemser mais propícios à diferenciação que outros. Costuma-se ainda a classificar os produtos sobdiferentes formas de diferenciação, a horizontal, que consiste em alterações do produto quepode fazer com que alguns consumidores prefiram este produto, mas outros podem não gostardesta mesma característica. Outra diferenciação possível é a vertical, onde novas característicassão adicionadas ao produto, levando a que o comprador prefira este produto por um mesmonível de preços. Normalmente este último tipo de diferenciação leva a maiores diferenciais depreço (George; Joll, 1983: pg 81). A hipótese, típica de uma análise neoclássica, de que mercados homogêneos sem barreirasà entrada são concorrenciais, em oposição a mercados oligopolizados, leva a uma concepçãoenganosa dos mecanismos de competição. A análise da dinâmica concorrencial a partir daabordagem de Schumpeter diz que um mercado concentrado pode, sim, ser tão ou maisconcorrencial do que os mercados com grande número de ofertantes. Conforme Possas, “Um mercado atomístico, composto de empresas economicamente insignificantes e desprovidas de qualquer poder de mercado, enquanto paradigma competitivo, é um lamentável ficção da ortodoxia econômica que, se verdadeira, debilitaria o ambiente competitivo e o processo de concorrência ao ponto de tornar este último inoperante, com
  11. 11. conseqüentes prejuízos ao consumidor e ao bem-estar social, quando visto em perspectiva dinâmica.” (Possas, 2002, pg 419) 1.2.2 Fontes de Barreiras a Entradas Quando tomamos o grau de concentração dentro de uma determinada indústria, comoindicador do seu poder de mercado estamos esquecendo um aspecto importante, o da inter-relação entre diferentes empresas de diferentes ramos industriais. Tanto quanto com o númerode firmas atualmente concorrentes, uma empresa estará também constantemente preocupadacom a entrada de novos concorrentes. A microeconomia tradicional ou neoclássica se baseia no conceito marshalliano deconcorrência determinada pelo número e tamanho dos concorrentes, ignorando assim aconcorrência potencial, isto é, novas empresas interessadas em iniciar operações em umadeterminada indústria. A economia clássica prevê que existe livre mobilidade de capitais entre indústrias. Assim,ao existir um setor com lucratividade acima da média, haveria empresas interessadas em iniciarsuas atividades nesta indústria para tentar se apropriar de parte destes lucros extraordinários. Poroutro lado, se a lucratividade for inferior à média, algumas empresas ou mudariam de ramo, ouencerrariam suas atividades, diminuindo a oferta de produtos, elevando o preço até o padrãonormal de lucratividade. Nesta análise dinâmica, a migração entre diferentes setores industriaissó terminaria quando a lucratividade fosse a mesma para todas as firmas. Na prática, porém, podemos verificar que inúmeras indústrias mantém lucros acima damédia durante longo tempo, indicando tanto a presença de barreiras à mobilidade de capitais,quanto a incapacidade destes novos capitais de concorrer em igualdade de condições com oscapitais já estabelecidos. Segundo Kupfer, Joe S. Bain, principal formulador da teoria dasbarreiras à entrada de novas firmas na indústria, definiu este conceito da seguinte maneira: “Barreiras a entrada corresponde a qualquer condição estrutural que permita que empresas já estabelecidas em uma indústria possam praticar preços superiores ao competitivo sem atrair novos capitais.” (Kupfer, 2002. pg 113) Alguns exemplos de barreiras à entrada são a manutenção de capacidade ociosa planejada,diferenciação de produtos, registro de marca, patentes, segredo industrial, tecnologia
  12. 12. empregada, controle sobre matérias-primas ou sobre a cadeia de comercialização, volume decapital mínimo necessário, custos financeiros de entrada, entre outros. (Silva: 1999, pg 120).Economia de Escala Quando analisamos os custos de produção de uma determinada firma, podemos identificaros custos fixos, que são aqueles independentes da quantidade produzida, e os custos variáveis,que aumentam a cada nova unidade produzida. Quando analisamos uma determinada curva,temos um grande debate teórico sobre como a estrutura de custos das firmas reage ao aumentoda quantidade produzida. A economia de vertente neoclássica defende que, a partir de certoponto, o custo de produzir uma unidade adicional aumenta, levando a deseconomias de escala. Esta definição de como se comportam os custos de uma empresa é determinante paradefinirmos o tamanho que ela terá no mercado. Caso haja deseconomias de escala, podemosdizer que o mercado terá várias empresas, competindo cada uma no seu ótimo em termos decusto. Por outro lado, caso haja economias de escala, não haveria limites para o tamanho ótimoda firma. Vários fatores sugerem que a segunda alternativa é mais razoável. A argumentação paraexistência de deseconomias de escala normalmente está associada à deficiências gerenciais queocorreriam dentro da firma devido ao seu tamanho. Esta hipótese poderia fazer sentido no iníciodo século passado, numa firma familiar, conforme Alfred Marshall havia definido, mas não nasmodernas corporações administradas por gerências profissionais. Além disso, problemasrelacionados, por exemplo, ao fluxo de informações intra ou entre empresas, foram resolvidosem grande parte pelas modernas tecnologias da informação e comunicação. Assim, o que se observa, na prática, é que para uma dada escala produtiva relevante, asempresas tendem a operar sob condição ou de retornos constante ou de retornos crescentes deescala. Ao considerarmos uma estrutura de custos com retornos de escala constantes ou aindacrescentes, passamos a não ter um ponto ótimo de produção, mas sim uma quantidade mínimaque precisa ser produzida, o que a literatura chama de “Escala Mínima Eficiente” (Lootty eSzapiro, 2002. pg 52). Uma firma precisa produzir uma quantidade igual ou superior a estaquantidade caso queira se manter competitiva.Diferenciação de Produto A competição via diferenciação de produtos pode constituir-se em mais uma forma debarreira à entrada. Os consumidores possuem dificuldades de avaliar e conhecer produtos,
  13. 13. levando à assimetria de informação, e as empresas com boa reputação passam a ter vantagenssobre outras empresas que não disponham da mesma condição. Uma empresa entrante precisamanter preços inferiores para incentivar os consumidores a adquirir seus produtos o que, poroutro lado, pode levar a uma guerra de preços perigosa para o entrante, que não tem comoavaliar a capacidade das empresas rivais em tal situação.Barreiras à Saída Quando uma empresa abandona um determinado mercado nem sempre ela conseguerecuperar os investimentos que realizou no momento de sua entrada. Os custos de saída têmgrande relação com as barreiras à entrada na medida que pode se constituir num importante fatorde influência para a decisão de entrar ou não em um mercado. A empresa sempre avalia ocenário de não conseguir obter sucesso. O peso da incerteza e dos riscos ligados a uminvestimento aumentam diretamente em relação aos recursos que não podem ser resgatados apósserem investidos, os quais, caracterizariam então o que se denominam custos irrecuperáveis(Hasenclever e Ferreira, 2002: pg 141). Alguns exemplos desse tipo de custo são os gastos empublicidade, pesquisa específica para o produto, custos de credibilidade, formação de redes defornecimento e comercialização, criação de ativos intelectuais - como software, marca, etc.Apesar de tais custos representarem, em muitas indústrias, peso significativo em termos devolume de investimento, dificilmente eles poderão ser recuperados. 1.3 Estratégias competitivas das firmas 1.3.1 Estratégias de crescimento Como discutimos em relação à natureza e dos objetivos das firmas, o seu crescimento éum dos objetivos mais presentes no âmbito das estratégias das empresas. Para entendermoscomo elas conseguem efetivar este objetivo é fundamental analisarmos as estratégias decrescimento mais utilizadas.Diversificação Uma das estratégias normalmente usadas pelas empresas é a diversificação de produtos ede área de atuação. As motivações para esta estratégia de expansão estão ligadas a váriosmotivos:
  14. 14. • Incerteza Os administradores das corporações, ao verificarem a incerteza inerente a qualquermercado, procuram diversificar a área de atuação da empresa para garantir que, caso ocorraalguma alteração substancial no seu mercado original, ela tenha condições de manter suaexistência no futuro.• Interesse dos administradores Os administradores de uma empresa, interessados em sua reputação perante o mercadonão atuam apenas no interesse de aumentar a lucratividade da empresa. Um dos principaisfatores de valorização de um administrador é o tamanho da empresa gerida por ele, sendo esta asua principal motivação nas decisões por ele tomadas.• Recursos ociosos A existência de recursos ociosos dentro da empresa, levam a estratégias de crescimentopara propiciar melhor aproveitamento. Além deste aspecto de eficiência, é normal que aspróprias pessoas envolvidas em atividades com relativo grau de ociosidade procurem novasatividades.• Poder de mercado Uma firma pode traçar uma estratégia de diversificação a fim de aumentar o seu poder demercado, expandindo o número de produtos a fim de alcançar novos mercados correlatos ousubstitutos.• Fontes de matéria prima A fabricação de produtos que dependam dos mesmos fatores de produção acabam sendoincentivadas. Uma firma que necessita de uma determinada matéria-prima, e tenhaconhecimento pleno sobre seu mercado passa a ter uma vantagem para iniciar a produção de umoutro produto que use a mesma matéria-prima.• Redes de distribuição A montagem de uma rede de distribuição é um dos aspectos mais importantes para acapacidade de escoamento de uma produção. Uma empresa que promova a entrada de umproduto similar terá grande facilidade de usar a mesma rede de distribuição para seu novoproduto.
  15. 15. • Aproveitar Imagem Uma empresa que possua boa imagem em seus produtos, conseguindo ligar o seu nome àqualidade, passa a ter uma vantagem para conquistar os consumidores para seu novo produto.Os consumidores esperam que este novo produto tenha a mesma qualidade dos produtos já emcomercialização.Integração Vertical As firmas podem ainda adotar a estratégia de expandir sua área de atuação para outraspartes da cadeia produtiva de seu produto, englobando tanto a etapa de fornecimento deinsumos como etapas posteriores de produção. Este tipo de ação, denominada integraçãovertical, comumente está ligada à segurança de uma firma que pode temer que um elemento dasua cadeia produtiva possa ter problemas de qualidade ou capacidade para expansão, ou aindaque ela possa se destacar no controle da cadeia produtiva. A integração vertical também pode ser motivada unicamente pelo desejo de crescimento eexpansão a firma, que vê numa área correlata, um setor de fácil investimento. Além disso,controlar um elo a mais da cadeia produtiva pode ser importante na estratégia de competiçãocom os concorrentes, além de levantar mais uma barreira à entrada de concorrentes. A Teoria dos Custos de Transação, por sua vez, nos diz que na negociação de uma firmacom um fornecedor existem custos adicionais, os custos de transação, que podem levar aincorporação da atividade para buscar maior eficiência. Estes custos são influenciados por váriosfatores, como: quantidade de vezes que ocorre a transação, complexidade da relação entre osagentes econômicos, racionalidade limitada, incertezas, oportunismo, etc.Aquisições e Fusões Dentre as estratégias de crescimento das firmas a de aquisições e fusões tende a ser degrande relevância. Os motivos da tomada de decisão deste tipo de estratégia são variados enormalmente complexos. Do lado da empresa a ser adquirida podemos ter: – A firma, ou o mercado em que ela atua, está passando por um período desfavorável, e esta pode ser uma maneira de manter o capital investido; – O dono da firma é obrigado a vendê-la para pagar obrigações tributárias;
  16. 16. – A firma pode ter alcançado um determinado estágio de crescimento que se tornou muito grande para uma gerência não profissional; (George, Joll; 1983: pg 121) A Firma que está adquirindo ou as que estão em fase de fusão podem ser motivadas por: – Economia de escala: aumentando a especialização nas atividades em cada fábrica, melhorando a escala ótima de cada fábrica ou ainda levando a economia de custos não produtivos, como o de marketing; – Complementaridades: uma firma pode ser melhor do que a outra em uma determinada atividade, de maneira que a fusão ou aquisição pode melhorar a eficiência de ambas; – Velocidade e segurança: as fusões e aquisições são uma maneira mais rápida de se obter o crescimento de uma firma. É uma estratégia muito utilizada em caso de crescimento horizontal; – Monopólio e poder de mercado: pode ser a maneira mais fácil de eliminar a concorrência ou de aumentar o poder sobre o mercado. – Fatores financeiros e promocionais: o valor das ações das firmas pode influenciar positivamente a estratégia de fusão, pois os investidores podem ter diferentes percepções, vendo em uma firma melhores perspectivas do que em outra. Conforme George e Joll, as estratégias de aquisições e fusões são normais quando uma grande empresa se sente ameaçada por uma empresa menor e inovadora, já que: “O lucro auferido pela pequena empresa firma em sua escala de produção será muito menor que os prejuízos potenciais da grande firma se esta não conseguir responder com seu próprio produto ou processo melhorado. Nessas circunstâncias, a grande firma pode estar preparada para pagar mais pela firma inovadora do que o valor desta para seus atuais proprietários (isto é, mais do que o valor atual do fluxo futuro de lucros que eles podem esperar).” (George, Joll e Lynk, 1983: pg. 96) 1.3.2 Estratégias de Preços Dentro da análise da dinâmica concorrencial em mercados concentrados e com barreiras àentrada, a teoria do preço limite pretende explicar as estratégias de preços das empresas a fim de
  17. 17. evitar que novas empresas venham a ter incentivos à entrada em seus setores. Esta análise parteda hipótese de que uma empresa que esteja auferindo lucros extraordinários avalie que novasempresas terão interesse de entrar neste mercado a fim de compartilhar parte desta renda. Entreas estratégias possíveis de manutenção de sua posição, a empresa estabelecida pode adotar opreço competitivo, que, por definição, não atrairia a entrada de novas empresas. Outrapossibilidade seria definir o preço correspondente ao nível de lucro máximo, atraindodefinitivamente a empresa entrante e determinando que no futuro possa haver queda delucratividade. Contudo, como há barreiras à entrada e/ou vantagens competitivas para a empresaestabelecida e formadora de preço, ela poderia fixá-lo ao nível de um “preço limite”, o qual, aomesmo tempo em que permite auferir um pouco de lucro extraordinário, consegue impedir aentrada de novas empresas no mercado. Uma outra estratégia de preços compatível com estruturas de mercados oligopólicas,desde que atendida a condição de segmentação do mercado consumidor, é a política dediscriminação de preços. Esta é uma estratégia normalmente adotada em mercados concentradosvisando aumentar o lucro e o volume de produtos comercializados, segmentando oscompradores conforme os diferentes valores que cada um atribui ao produto, isto é, conforme aelasticidade de demanda de cada um. Esta estratégia pode ocorrer de diferentes maneiras, comosegmentar a demanda em diferentes mercados, cobrando, por exemplo, um preço maior empaíses com renda mais alta, ou ainda, separando o público de um mesmo mercado, dandodescontos à parcela mais sensível a preço, como normalmente ocorre para estudantes. 1.4 Concepções sobre a intervenção do EstadoEnfoque das falhas de mercado Na teoria econômica há um debate intenso sobre o papel do Estado na economia. Porém,existe um certo consenso de que a participação do Estado se justifica em certas situações onde omercado não consegue por si só determinar a melhor situação para a sociedade, seria o que oseconomistas neoclássicos chamam de “falhas de mercado” (Ferraz; et alli, 1999: pg 549). Oscinco principais tipos de falha mercado são:• Estruturas de mercado ou condutas não competitivas Em mercados onde existem fortes economias de escala, quanto menos empresas
  18. 18. participarem deles menores serão os custos de produção, o que leva a uma estruturaoligopolista. Nestes casos é necessário evitar que estas empresas adotem condutasanticompetitivas, limitando, para tanto, o seu poder de mercado.• Externalidades Conforme o modelo tradicional de concorrência todos os custos da produção de um bem éapropriado pelo produtor, bem como todos os benefícios do bem são apropriados peloconsumidor. Porém na prática este pressuposto muitas vezes não ocorre, causando com quecustos ou benefícios extras não sejam capturados pelas transações de mercado, causando o quechamamos de externalidades. As externalidades ocorrem quando a atividade de uma empresa gera impactosprejudiciais ou positivos, normalmente de maneira indireta, em outras empresas, ou emparticulares, causando custos e prejuízos ou benefícios para estes. No primeiro caso denomina-se de externalidade negativa, o segundo de externalidade positiva. A poluição é um exemplotípico de externalidade negativa, enquanto investimentos em pesquisa pura a positiva. Uma externalidade negativa está relacionada com um custo que existe ao produzir umproduto, mas que não se estabelece como um custo direto do produtor. Um caso comum disto éa poluição, que não é um custo direto para a produtor, mas sim um custo para a sociedadeafetada por ela. Na prática, esta característica faz com que o bem seja ofertado em excesso nomercado. Já a externalidade positiva pode ser definida quando um bem produzir benefícios extraspara outras pessoas além do comprador. As atividades de pesquisa e desenvolvimento, ou aindaa produção de bens com características próximas a de bens públicos exemplificam este caso.Conforme Stiglitz & Walsh (2003: 351) , “Bens que geram externalidades positiva – comopesquisa e desenvolvimento – terão oferta subótima no mercado.” Um outro tipo deexternalidade positiva é o que se denomina externalidade de rede, que ocorre quando umconsumidor é beneficiado a cada novo consumidor existente. O exemplo clássico é quando doissistemas de telefonia que não estão interligados concorrem entre si. O consumidor tenderá aentrar na rede do fornecedor com a maior base de usuários instalada. Quanto maior a vantagem,maior será a dificuldade para o concorrente em desvantagem de competir, e maior será o lucroextraordinário que a maior rede terá. (Stiglitz e Walsh, 2003. pg 207)• Bens Públicos Os bens públicos são aqueles que possuem duas características particulares, a não-exclusividade, que significa que não é possível atribuir o preço do bem a um agente econômico
  19. 19. em específico não sendo possível portanto a sua comercialização, e a não-rivalidade, que dizque o aumento de unidades consumidas não afeta os custos de produção. A classificação de um bem como rival é quando o consumo de uma unidade interfere noconsumo de outros. Uma pessoa que esteja passando em uma calçada, por exemplo, não impedeque outras pessoas possam usá-la, ao contrário do que ocorre com o consumo de uma barra dechocolate. A informação é um caso típico de bem não-rival; uma pessoa que esteja usando umaidéia não impede que outra a utilize ao mesmo tempo. Um bem excludente é aquele em que é possível controlar o consumo, ou ainda que sepossa excluir pessoas de seu consumo. Ele é não excludente quando os custos de se controlar oconsumo é muito alto, ou ainda quando este controle não é possível. A segurança pública,apesar de ser percebida como um bem com diferentes valores pelas pessoas, possui umacaracterística de bem não-excludente, pois os benefícios gerados por ela não podem serseparados.• Direito de propriedade comuns Bens que são de propriedade pública normalmente necessitam de proteção por parte doEstado, pois os agentes tendem a não ter motivações para a sua conservação.• Diferenças entre as taxas de preferências intertemporais sociais e privadas As empresas tendem a não investir em atividades com retorno muito demorado e incerto,mesmo que seja de alto interesse social. Pesquisas científicas apresentam estas características.O enfoque da regulação do mercado – Teoria dos Custos de Transação (TCT) A TCT surgiu com um artigo de Ronald Coase, denominado “The Nature of the Firm”,em que ele defende que as empresas existem principalmente porque podem decidirhierarquicamente a alocação de fatores de produção, ao contrário do que ocorre no mecanismode mercado, indicando a existência de um custos implícitos ao se atuar no mercado, o Custo deTransação. Este artigo iniciou o estudo da TCT, que seriam as condições nas “quais os custosde transação deixam de ser desprezíveis e passam a ser um elemento importante nas decisõesdos agentes econômicos, contribuindo para determinar a forma pela qual são alocados osrecursos da economia”. (Fiani, 2002: 267) A TCT tem tido grande aplicação em áreas como a análise da concorrência e a regulaçãoeconômica. No enfoque da defesa da concorrência ocorre uma mudança de postura em relação à
  20. 20. integração vertical de grandes empresas, vista até este momento apenas como uma tentativa dediminuir a concorrência, passa também a ser considerada como uma tentativa de aumento deeficiência econômica ao eliminar estes custos de transação. Já sobre a regulação econômica, a TCT levou a uma reavaliação das vantagens domodelo de concessão de serviços públicos, demonstrando a necessidade de regulação diretanestes setores. O modelo de concessão para serviços públicos não garante, conforme esta teoria,que a empresa concessionária não tenha excesso de poder de mercado, justamente pordesconsiderar os custos de transação envolvidos, principalmente porque os serviços deconcessão necessitam ser de longo prazo para garantir investimentos, dificultando a previsão dealterações no setor. Mesmo que seja atribuído a exploração de um serviço público, éfundamental a existência de regulação para controlar preços, custos e investimentos. (Fiani,2002: 285-286)O enfoque neo-schumpeteriano da política industrial Os neo-schumpeterianos rejeitam o enfoque de falhas de mercado, refutando pressupostoscomo equilíbrio, informação perfeita e racionalidade dos agentes. A concorrência nesteparadigma é um processo dinâmico, de rivalidade entre as empresas que procuram se diferenciarpara ganhar posições no mercado justamente através das fontes de assimetria competitiva.(Ferraz, et alli, 2002: 557) A competição para esta corrente está relacionada principalmente com o surgimento daestratégia das firmas de buscarem inovações a fim de obter vantagens em relação aos seuscompetidores, focando a capacitação da empresa como elemento central. Assim, os monopóliostemporários não seriam entraves para o desenvolvimento, mas sim um motivo para a busca deinovações, fundamental para o crescimento e desenvolvimento. A política industrial neste contexto passa a ser um elemento importante para fortalecer oambiente competitivo ao criar incentivos de coorperação entre as empresas, manter um ambienteinstitucional que favoreça investimentos em P&D a fim de gerar mais inovações de empresasinteressadas em conquistar parcelas maiores do mercado. É importante ressaltar que nestecontexto política industrial pode se confundir com regulação econômica, pois o fomento ainovação e a ampliação das capacitações das empresas deve ser dosada com a garantia de umambiente competitivo que exerça uma pressão contínua das empresas concorrentes. (Fagundes,2005)
  21. 21. 2. CARACTERIZAÇÃO DO MERCADO DE SOFTWAREPROPRIETÁRIO Por software proprietário entende-se qualquer software que possui restrições, no seulicenciamento, ao uso, alteração, estudo do seu funcionamento ou impossibilidade deredistribuição. As empresas que trabalham neste modelo normalmente só disponibilizam oprograma já em sua forma executável (linguagem de máquina) que, em conjunto com asrestrições pela licença, lhe garante total controle sobre o software desenvolvido. É importante ressaltar que a cobrança pela distribuição de software pode ocorrer tanto nomundo proprietário como no livre, confusão comum na imprensa mundial.1 O acesso ao código,por outro lado, não garante que o software seja livre, já que outras restrições podem se criadasno seu licenciamento. A análise da evolução das novas tecnologias, tem sido acompanhada de um amplo debatesobre como as modernas tecnologias de informação e comunicação têm influenciado a dinâmicaeconômica. O avanço da informática e das telecomunicações tem diminuído os custos decomunicação e integração dentro das empresas, além de aparecer como elemento fundamentalpara a comercialização e distribuição dos bens produzidos na economia mundial. Este papel central que as inovações tecnológicas trazidas pela informática têmapresentado em relação a economia vêm garantindo a atenção dos investidores privados eautoridades governamentais, neste último caso, devido a sua importância estratégica nadinâmica econômica. Neste capítulo pretendemos caracterizar o chamado mercado da tecnologiada informação2, com ênfase no mercado de software. Para tanto, analisaremos asespecificidades que este mercado apresenta, começando com a que se refere à natureza doproduto software como um bem não-rival. 2.1 O Software como um bem não-rival O software é que um conjunto de rotinas escritas numa linguagem que permite aconversão futura para linguagem de máquina. Em essência, o software nada mais é do queconhecimento em sua forma pura. Justamente por este motivo ele é tratado na maioria daslegislações como objeto de Direito Autoral, da mesma maneira que um livro.1 Consulte: http://www.gnu.org/philosophy/selling.pt.html2 Shapiro & Varian, assim como outros autores usam o termo “Economia da Informação”.
  22. 22. O conhecimento é classificado tradicionalmente na economia como um bem não rival,isto é, o consumo de uma unidade não interfere no consumo das outras pessoas. Umacaracterística clássica de bens públicos. O consumo de uma unidade adicional de um bem comoeste é zero, já que depois de ter sido construída não custa nada distribuí-la. “Produzir uma nova idéia pode ser muito caro, mas a idéia só precisa ser produzida uma vez. Seu computador pessoal corporifica milhares de novas idéias, mas essas não precisam ser reproduzidas cada vez que se fabrica mais um computador. (...) o desenho de um computador portátil só teve que ser produzido uma vez. Bens cujo consumo ou uso por uma pessoa não excluem o consumo por outra pessoa são bens não-rivais (não há rivalidade no consumo)” (Stiglitz; Walsh, 2003: pg 339) Além de ser um bem não rival o software também possui a característica de ser de difícilexclusão, conforme Silveira3: “Uma invenção transformada em um bem que gere muitos benefícios a quem não está disposto a pagar por ele, desestimula enormemente aqueles que estariam interessados em comprá-lo. As externalidades benéficas de uma idéia são constatáveis pela observação daqueles que não a criaram, nem gastaram tempo em sua pesquisa e produção. Pessoas que não tiveram nenhum custo para produzir uma determinada solução podem reproduzí-la ao custo marginal igual a zero.” A exclusão, neste caso, depende unicamente de uma legislação que crie mecanismospara isto. É extremamente difícil controlar quem está usando ou não um software, bem como oque alguém que compra uma licença de uso vai fazer em relação ao software. Ele podesimplesmente “emprestar” as mídias de instalação para algum parente ou amigo. As empresas de software através de campanhas tentam fazer com que as pessoascumpram os termos das licenças de uso dos softwares. Porém, isto ocorre de maneira desigualentre países, e, de modo geral, nas economias em desenvolvimento, grande parte dos softwaresusados não são legalmente licenciados. As empresas de software proprietário têm adotado um esforço de marketing importanteno convencimento do não uso de software ilegais, tentando evitar que as pessoas compartilhemsoftware umas com as outras. A Free Software Foundation, importante organização social deapoio ao Software Livre defende a substituição do termo pirataria, implantado para caracterizaro uso de software ilegal:3 Disponível em: http://twiki.softwarelivre.org/bin/view/TeseSA/TeseCapituloVI
  23. 23. “Piracy Publishers often refer to prohibited copying as "piracy." In this way, they imply that illegal copying is ethically equivalent to attacking ships on the high seas, kidnapping and murdering the people on them. If you dont believe that illegal copying is just like kidnapping and murder, you might prefer not to use the word "piracy" to describe it. Neutral terms such as "prohibited copying" or "unauthorized copying" are available for use instead. Some of us might even prefer to use a positive term such as "sharing information with your neighbor."4 Podemos dizer, portanto, que o software possui características de bem público, ainda quenão na forma pura, apresentando aspecto de bens não rivais, de maneira pura, e uma certadificuldade de exclusão de consumidores. 2.2 Composição de custos e formação de preços no mercado de softwareproprietário É fundamental o entendimento que o software, por ser um bem da mesma natureza que ainformação, não é nada mais do que conhecimento convertido em linguagem de máquina e deveser estudado da mesma maneira como qualquer outra forma de informação, como as publicaçõeseletrônicas. A maioria das legislações em vários países do mundo, considera o software sujeitoàs mesmas leis de Direito Autorais que as obras artísticas estão submetidas5, à exceção dealguns países como os Estados Unidos que estabeleceram a possibilidade de patentes para osoftware e vêm pressionando a União Européia a fazer o mesmo6. A difusão de informação, antes efetuada principalmente pelo meio impresso, sofre umaforte revolução com o surgimento da internet. Ao produzirmos um determinado conteúdoprecisávamos, no passado, nos preocupar com os meios de distribuição a ser utilizado paratorná-lo acessível a quem pudesse ter interesse. Com a internet, o custo de reprodução dainformação foi levado a zero. Qualquer um pode disponibilizar uma determinada informação efora algum eventual custo fixo não existe nenhum custo marginal envolvido, isto é, custoadicional por mais uma unidade comercializada. Esta estrutura de custo particular faz com que aquantidade de informações existentes na internet seja muito grande e de acesso público, já que4 Disponível em http://www.gnu.org/philosophy/words-to-avoid.html5 Com referência ao Brasil, o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio define software como:“Programa de computador é uma criação intelectual que possui a expressão de um conjunto organizado deinstruções em linguagem natural ou codificada, contida em suporte físico de qualquer natureza, suscetível de sergravado em meios corpóreos e de emprego necessário em máquinas automáticas de tratamento da informação. Oregime de proteção aos programas de computador é o conferido às obras literárias pela legislação de direitosautorais e conexos vigentes no País, no que couber”.Consulte: http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/sti/proAcao/proIntelectual/proInt_proComputador.php#cont6 Consulte: http://swpat.ffii.org/index.pt.html
  24. 24. ela não está sendo vendida justamente ao seu custo marginal. (Shapiro; Varian, 1999: pg 40) 2.2.1 Caracterização dos custos A composição de custos da informação é bem diferente da tradicionalmente verificada naeconomia. Ela está baseada principalmente no chamado “custo da primeira cópia”. O software,tal como um livro ou um filme, tem seus custos de produção praticamente concentrados antes daprodução da primeira cópia. Para produzirmos um software é necessário um projeto amplo das funcionalidadesexigidas pelos diferentes componentes que o constituirão, bem como a elaboração do conjuntode rotinas para o seu funcionamento. A partir daí tem início a parte de codificação propriamentedita. Na conclusão do produto, praticamente todos os custos de produção já ocorreram. Osdemais custos, como os de reprodução ou de correção de erros (Bug) são marginais, à exceçãodo custo de suporte que tem alguma relevância. Este baixo custo de reprodução aliado a não existência de restrição de capacidadeprodutiva faz com que a empresa produtora possa tanto produzir algumas cópias como milhõesde cópias sem o mínimo esforço. Conforme Shapiro, “É essa combinação de baixos custosincrementais e operação em larga escala que leva a margens de lucro bruto de 92% desfrutadaspela Microsoft”. (Shapiro; Varian, 1999: pg 37) A conseqüência do custo marginal próximo a zero e da inexistência de limite decapacidade instalada faz com que esta estrutura de custos fique diferente e principalmenteincompatível com a análise marginalista tradicional. Nesse sentido, Sylos-Labini, ao falar sobrea estrutura de custo das empresas, defende que: “Ao contrário do que afirma a doutrinatradicional, a qual assume que o custo marginal de curto prazo tenha forma de U, existem boasrazões (...), para supor que este seja constante, pelo menos no período relevante para oempresário.” (Sylos-Labini, 1984: pg 68). Com efeito, a análise econômica neoclássicatradicional, que se baseia na hipótese do equilíbrio entre custos de produção e demanda, o qual,determinado em termos de quantidade produzida e preços, perde efetivamente aplicação paraeste tipo de mercado. A busca pelo equilíbrio entre custo marginal e receita marginal perde osentido, já que passa a existir uma indeterminação. (Sylos-Labini, 1984: pg 155) Outro ponto fundamental é que os investimentos realizados para a produção de umsoftware não podem ser recuperados, nem mesmo de forma parcial, no momento de desistênciado projeto. Isto é, ao contrário do que ocorre em qualquer atividade industrial tradicional, ondeno caso de se decidir encerrar o projeto no meio do processo produtivo. Pode-se vendermáquinas, estoque de matéria-prima e produtos não acabados, no caso do software, todo o
  25. 25. trabalho produzido não tem qualquer valor se não houver a conclusão do produto. É o que sechama de “custos amortizados” (Shapiro; Varian, 1999: pg 36). 2.2.2 A discriminação de preços como estratégia competitiva Uma estratégia comum em mercados oligopolistas é a chamada discriminação de preços.Por meio deste expediente os produtores tentam se apropriar do máximo possível que osconsumidores estariam dispostos a pagar, praticando preços diferenciados conforme o perfil dosconsumidores. No mercado de tecnologia é comum a utilização do mecanismo de discriminaçãointertemporal de preços. Quando ocorre o lançamento de uma nova tecnologia ela é fixada comum preço inicialmente alto para que as pessoas interessadas em novidades tecnológicas e compoder de compra suficiente as adquiram a um valor mais alto. (Shapiro; Varian, 1999: pg 57)Este mesmo mecanismo é normalmente aplicado também no mercado de softwares,principalmente naqueles que possuem um alto grau de inovação, como no caso dos jogoseletrônicos. Os lançamentos sempre possuem um valor superior a jogos mais antigos,independente da complexidade. Uma estratégia comum é a de oferecer preços diferenciados para estudantes eprofessores. Além destes serem mais sensíveis a preço, há também a necessidade de cativá-los afim de expandir a influência que um software tem no mercado. Do ponto de vista da empresa desoftware, fazer com que estudantes utilizem o seu produto sempre é uma vantagem competitivaimportante caso estes se tornem agentes decisores em empresas. Outra forma de segmentar o público é separar os usuários que têm maior necessidade deadquirir um determinado produto. Ao se lançar uma nova versão de um software, osconsumidores que já adquiriram uma versão anterior, têm poucas motivações para realizar o“upgrade” de seu software. A Microsoft tem usado o expediente de fornecer atualizações deseus produtos a preços diferenciados, já que é necessário um esforço muito maior paraconvencer um usuário a atualizar seu sistema a partir de versões anteriores. A fim de melhor ilustrarmos essa dinâmica de discriminação de preços, podemos analisaro mercado de sistemas operacionais, mais propriamente o Microsoft Windows. Atualmente ele évendido nas seguintes versões.7– Windows Starter Edition Versão do Windows com limitações de funcionalidades artificialmente implantadas,7 As informações nesta análise partiram de várias fontes como Chagas ( 2003), da descrição dos produtos pela Microsoft e da observação direta do autor.
  26. 26. como a capacidade de executar apenas três aplicativos simultaneamente, abrir no máximo trêsjanelas por aplicativo, e outras limitações em relação às versões tradicionais. Esta versão édistribuída unicamente em países em desenvolvimento. O público-alvo é o mercado maissensível a preço, só é fornecido em contratos OEM8, isto é, acompanhando os computadores.– Windows XP Home Edition Voltado para usuário doméstico normal que possui sensibilidade a preço superior àidentificada para o meio empresarial. Ele é mais adequado a usos mais complexos do que oStarter Edition, mas possui limitações em termos de funções, número de conexões remotas eprincipalmente softwares para administração remota, elemento fundamental para grandescorporações.– Windows XP Professional Voltado para o mercado empresarial, que é menos sensível a preços. A Microsoft definea versão como “a edição com mais recursos, oferece os níveis mais altos de performance,produtividade e segurança. É a melhor escolha para usuários empresariais e para usuárioscaseiros que exigem o máximo de seu sistema.”9– Windows 2003 Standart Edition Voltado para o mercado de servidores10 básicos.– Windows 2003 Enterprise Edition Uso em servidores avançados, com vários processadores.– Windows 2003 Datacenter Edition Para ambiente de missão crítica, permitindo características como uso em cluster.– Windows 2003 Web Edition Versão especial para o ambiente World Wide Web.8 Original Equipament Manufacturer. É uma modalidade diferenciada de distribuição de softwares, onde eles não são comercializados aos consumidores finais, mas unicamente aos fabricantes de computadores. Neste tipo de contrato, o software é normalmente associado à máquina com a qual foi distribuída, a qual, não pode ser revendida ou instalada em outro computador pelo próprio usuário. A Microsoft pratica ainda uma política diferenciada de suporte para esta modalidade de venda, repassando totalmente a responsabilidade ao Fabricante de computador, e se livrando de um importante custo variável, o suporte .9 Consulte http://www.microsoft.com/brasil/windowsxp/pro/comprar/escolhendo.asp10 Servidores são equipamentos dedicados a determinadas funções que estão disponíveis aos computadores via rede de comunicação.
  27. 27. Tabela 1 - Microsoft Windows – Versões e Preços Versão Preço Windows XP Home Edition – Atualização R$ 399,00 Windows XP Home Edition – Completo R$ 499,00 Windows XP Professional – Atualização R$ 699,00 Windows XP Professional – Completo R$ 799,00 Windows 2003 Server Edition US$ 999,00 Windows 2003 Enterprise Edition US$ 3.999,00 Windows 2003 Datacenter Preço não disponível Windows 2003 Web Edition US$ 399,00 Fontes: Microsoft11 e Kalunga12 em novembro de 2005 Outra estratégia de discriminação de preços utilizada pela Microsoft está relacionada aoidioma do sistema operacional de Desktop. Como é muito difícil que um usuário final utilize umproduto desenvolvido para um idioma diferente do seu, a Microsoft consegue produzir umasegmentação especial de preços, criando políticas de preços diferentes para cada idioma. Esta éinclusive uma das estratégias em relação ao starter edition, que está disponível em poucosidiomas. Conforme declara a própria Microsoft: “Windows XP Starter Edition Geographic and Language Availability Starting in October 2004, Windows XP Starter Edition will ship on new, low-cost PCs available through PC original equipment manufacturers (OEMs) and Microsoft OEM distributors. The offer is currently available in Thailand, Indonesia, Malaysia, India and throughout Latin America.”13 É também interessante observar o comportamento da política de preços da Microsoft emrelação ao Microsoft Windows 2003 Web Edition, uma versão feita especificamente parahospedar páginas da World Wide Web através da internet. Este novo produto, lançado em abrilde 2003, é uma resposta às dificuldades da Microsoft em conseguir avançar no mercado deservidores WEB, dominado pelo software livre Apache. A participação máxima da Microsoftcom o seu servidor Internet Information Server – IIS, chegou a menos que 35%, e atualmente11 Disponível em http://www.microsoft.com/windowsserver2003/howtobuy/licensing/pricing.mspx12 Disponível em http://www.kalunga.com.br/search.asp?keyword=microsoft&keywordType=1&cookie% 5Ftest=113 Disponível em http://www.microsoft.com/presspass/press/2004/aug04/08-11WinXPStarterPilotPR.mspx
  28. 28. está estabilizada em torno de 20%, enquanto o Apache está próximo a 70% do mercado14. No passado, a Microsoft comercializava seu servidor web incluído nos demais produtos epelo mesmo preço do Server Edition ou Enterprise Edition (antes chamado de AdvancedServer). Porém, a criação deste novo produto foi necessária para permitir a adoção de umapolítica de preço diferenciada, a fim de tentar atrair mais consumidores e tentar ao menosdiminuir o ritmo do avanço do Apache. O gráfico abaixo mostra que a estratégia conseguiu aomenos interromper a tendência de queda acentuada do uso do IIS na internet. Figura 1 – Participação dos principais servidores web na internet Fonte: Netcraft – http://news.netcraft.com/archives/web_server_survey.html A capacidade de segmentação de mercados nem sempre ocorre de maneira consideradalegal. A Microsoft estabeleceu que as vendas de produtos Microsoft em contratos corporativosde alto volume, no Distrito Federal, onde são normalmente realizadas as compras do Governo,só poderiam ser feitas por uma de suas revendedoras, a TBA15. Com isto, ela monopolizou omercado de compras governamentais, menos sensível a preço e bastante aprisionada a seusprodutos. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE considerou esta práticailegal e a Microsoft foi obrigada a não mais estabelecer restrições a vendas de produtos baseadasem representantes exclusivos por região. Em seu parecer de condenação, o CADE afirma:14 Disponível em http://news.netcraft.com/archives/web_server_survey.html15 Consulte: http://www.tba.com.br
  29. 29. “(...) observa-se claramente que as relações concorrenciais, notadamente se analisadas em cotejo com as peculiaridades do mercado em questão, foram lesadas pela forma como foram estabelecidos os critérios de credenciamento quantitativos e qualitativos, claramente utilizados pela Microsoft de forma a discriminar potenciais revendedores, limitando e falseando a concorrência.”16 Com a condenação por concorrência desleal a Microsoft foi penalizada com uma multaequivalente 10% do seu faturamento, excluídos impostos, sobre suas vendas para o GovernoFederal no ano de 1998, e a TBA, sua associada, condenada a pagar o equivalente a 7% dofaturamento do mesmo ano. O parecer do CADE faz clara referência à situação deaprisionamento e à presença de grandes barreiras a entradas no setor, que, em conjunto com aprática de exclusividade, concedida, no caso, à TBA, criaram uma situação de restriçãodeliberada de concorrência. 2.3 Barreiras à entrada e dinâmica da concorrência no setor Conforme visto no capítulo anterior, as barreiras à entrada impedem o ingresso de novoscapitais em uma determinada indústria, eliminando um dos conceitos-chave para a dinâmicaconcorrencial neoclássica. O mercado de Tecnologia da Informação possui características diferentes das demaisindústrias, sendo afetada por barreiras específicas e bastante significativas, conforme o setor aser analisado. Ao mesmo tempo que possui um mercado dinâmico aonde pequenas empresassurgem a todo o momento com novidades tecnológicas, isto é, com pequenas barreiras à entrada,possui, por outro lado, um mercado consolidado de softwares, principalmente de aplicativos esistemas operacionais, com grandes barreiras à entrada, e que representam a parte maissignificativa em termos de faturamento no mercado. Este tipo de mercado será o foco da análisedurante praticamente todo o trabalho. 2.3.1 Economias de Rede O mercado de Tecnologia da informação de modo geral é muito suscetível a economiasde rede. Um mercado com externalidades de rede é aquele em que os consumidores sebeneficiam com o aumento do número de pessoas que fazem parte desta rede. O exemploclássico é o mercado de telefonia. Quanto maior o número de pessoas conectadas a umdeterminado sistema, maior será o valor que cada usuário atribui ao sistema. No caso do16 Parecer do Cade sobre o Processo Administrativo nº08012.008024/1998-49
  30. 30. Software temos um exemplo extremo em que as exterioridades de rede chegam a ser maisimportantes que a qualidade do software em si. Mercados com este tipo de funcionamentofortalecem os fortes e enfraquecem os fracos. (Shapiro; Varian, 1999) No mercado de computadores um software aplicativo, como um editor de texto, porexemplo, terá tanto mais força quanto maior o número de usuários, principalmente pelo própriovalor que os consumidores atribuem ao produto. Podemos dizer que o preço que um consumidorestaria disposto a pagar por um software aumenta em relação ao número de usuários. A percepção de maior valor atribuído pode ser explicada pelos seguintes fatores(Shapiro; Varian, 1999: pg 204):• Usuários Treinados O número de usuários que conhecem uma tecnologia pode representar economias de treinamento para uma empresa. Além disso, os funcionários não gostam de ser treinados em tecnologias que não lhe trarão benefícios no futuro.• Continuidade do produto No mercado de tecnologia existe a tendência, quando ocorre uma disputa entre empresas, que apenas a vencedora tenha sucesso, se tornando ainda mais forte. Apostar numa tecnologia que pode fracassar pode levar a um custo desnecessário. Os consumidores tendem a apostar em tecnologias mais fortes, com maior tendência de se consolidar.• Aplicações complementares A existência de aplicações compatíveis e complementares aumenta a utilidade de um software. Quanto maior o sucesso de um software, maior a probabilidade da existência de softwares desenvolvidos para ele.• Custos de troca coletivos Além dos custos de troca individuais, existem os coletivos, que só podem existir seforem realizados pela maioria dos usuários. Normalmente romper com um padrão que já éutilizado pela maioria não é tarefa trivial.17 No mercado de Tecnologia da Informação, aconsideração deste aspecto merece especial atenção. O melhor exemplo de como este tipo decusto pode afetar negativamente a escolha das melhores soluções é a definição do layout deteclado. O atual baseado no padrão “qwerty” foi definido no final do século XIX para máquinasde escrever. A disposição de teclas foi feita no sentido de diminuir a velocidade dos datilógrafosjá que os equipamentos da época tinham sérios problemas de travamento de teclas. Em 1932, foidesenvolvido um formato de teclado com disposição de teclas mais intuitiva e ergonômica, o17 Um bom exemplo, na economia tradicional, é o tamanho da bitola das estradas de ferros existentes nos dias de hoje. Elas foram definidas, no passado, com base no tamanho das carroças, as mesmas usadas desde a época do Império Romano. Apesar de disputas por diferentes bitolas que ocorreram em certas regiões da Europa e nos Estados Unidos até hoje a bitola padrão “carroça romana” prevalece. (Shapiro; Varian, 1999: 243)
  31. 31. formato Dvorak. Porém, ele jamais se consolidou no mercado.18 Podemos explicar a dificuldade de troca para um novo padrão pelo alto custo de trocacoletivo envolvido. Quando se procura substituir um padrão com fortes características de rede,faz-se necessário uma coordenação coletiva para efetuá-la, já que individualmente o custo decada um fazer a substituição é muito grande. Caso uma empresa decidisse adotar o novo tecladoteria que treinar os seus funcionários, poderia não conseguir profissionais no mercado queconhecesse este layout de teclado e não conseguiria influenciar individualmente o mercado paraadotar o novo padrão. O resultado é que todos seguem usando um padrão de baixa qualidade,extremamente ineficiente, o que é um fenômeno bastante comum nos mercados de tecnologia. 2.3.2 “Aprisionamento” de clientes Pelo que discutimos até aqui, fica claro que a estratégia de competição entre as empresasdos ramos de tecnologia da informação, principalmente no setor de software, visa atingir opredomínio em termos de participação no mercado, criando sempre que possível situações deaprisionamento de seus clientes a uma determinada ferramenta. Este objetivo passa a ser o realfoco de ação das empresas, contrariando o conceito neoclássico de maximização de lucros. Mesmo sem atingir a liderança no mercado, um bom número de clientes aprisionadospode representar, para as empresas fornecedoras de software, um bom lucro no futuro, namedida que as empresas usuárias deste produto passam a ter um custo de troca muitosignificativo. A empresa fornecedora pode fazer uma estratégia de discriminação de preços, eaumentar os preços para quem já é usuário. Porém, a situação mais comum é quando umdeterminado produto de uma empresa perde sua possibilidade de crescimento no mercado, masainda possui um público segmentado cativo. Um exemplo deste problema é o que vemocorrendo no mercado de computadores de grande porte, sobretudo quando utilizados pelosgovernos. Este tipo de plataforma computacional envolve sistemas que possuem um volume detransações muito grande, que precisa, portanto, de um sistema dedicado e com capacidade de“throughput”19. Governos, Bancos e Universidades normalmente são os clientes preferenciaisdeste segmento. Nos últimos anos os produtores destes sistemas não têm conseguido aumentarseu mercado, principalmente pelo avanço da microinformática que esta fazendo com queservidores baseados em plataformas semelhantes aos microcomputadores pessoais tenham um18 Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Dvorak_Simplified_Keyboard19 “In computer technology, throughput is the amount of work that a computer can do in a given time period Historically, throughput has been a measure of the comparative effectiveness of large commercial computers that run many programs concurrently.” Disponível em http://whatis.techtarget.com/definition/0,,sid9_gci213140,00.html
  32. 32. aumento considerável de performance. Em vários casos ligam-se vários destes computadores em“clusters” com capacidade de processamento equivalente aos computadores de grande porte. Porém, quem já trabalha com estes ambientes de grande porte, possuei um nível deaprisionamento que dificilmente é rompido. Este problema se torna ainda mais complicado ementes estatais, pois uma estratégia de troca deste tipo tem que ser avaliada levando emconsideração um período de planejamento muito longo, muitas vezes de quase uma década, oque é especialmente difícil para o Estado. 2.3.3 Bens Complementares como fonte de aprisionamento tecnológico Quando um usuário ou uma empresa precisa escolher uma determinada arquitetura dehardware, depara-se uma série de elementos envolvidos nesta tomada de decisão. Se, porexemplo, um usuário de Macintosh resolve trocar o seu computador, muito provavelmente eleirá comprar outro computador da mesma marca. O motivo para isto é a série de equipamentosadicionais, software, etc, que normalmente o usuário já possui e que não poderia aproveitar emcaso de substituição de plataforma. Uma plataforma computacional normalmente não possuibens substitutos na mesma proporção que um bem tradicional, como um automóvel, porexemplo. Para um software ter sucesso no mercado ele precisa de aplicativos complementares,normalmente desenvolvidos por outras empresas. Esta sistemática, por um lado, benéfica paraambas as empresas desenvolvedoras representa, contudo, um complicador a mais na relaçãoentre os concorrentes, pois passa a existir uma estreita relação entre os elos de uma cadeia desoftware. Não necessariamente a empresa que inicialmente desenvolveu um software tem absolutocontrole sobre um mercado onde há necessidade de software complementar. A economiatradicional analisa este caso como mercado com Bens Complementares, onde o preço de ofertaem relação a uma demanda potencial é determinado em conjunto pelas duas firmas. Isto podelevar a uma disputa pelo controle desta cadeia de valor. Conforme Shapiro & Varian: “Este aprisionamento bilateral pode conduzir a um certo equilíbrio de terror, sem falar em algumas negociações que envolvam altos interesses. O caso clássico é o de uma ferrovia que construiu um ramal para servir a um cliente individual (...). Uma vez construída a linha tem pouco ou nenhum valor além de servir ao cliente único, de modo que a ferrovia está retida por este cliente. Ao mesmo tempo o cliente acharia muito caro financiar a
  33. 33. construção de um novo ramal, de modo que o cliente fica retido pela ferrovia, levando ao que os economistas chamam de monopólio bilateral.” (Shapiro; Varian, 1999: pg 156-157) A existência de aprisionamento bilateral entre duas aplicações, uma dependente da outrapara se sobrepor no mercado, pode levar rapidamente a uma disputa pelo controle da cadeia devalor. (Porter, 1992: pg 385) A empresa que obtém este controle pode assim “drenar”lucratividade da outra, porém, não pode entrar em disputa direta, sob o risco de perder o seumercado. Em situações como esta, a empresa que desenvolveu o software que serve de infra-estrutura básica passa a ter uma vantagem na medida que mudanças de especificação eimplementação serão inicialmente conhecidas apenas por ela. Um caso interessante é a relação entre a Microsoft e a Nestcape na disputa pelo mercadode navegadores para internet. O surgimento da internet, levou sem dúvida, a um aumento deimportância dos sistemas computacionais, que se reproduz no valor que o mercado atribui aosprodutos. Neste sentido, a existência de um navegador de qualidade como o Netscape,distribuído de maneira gratuita, foi importante para determinar inclusive o preço de sistemas daMicrosoft. Porém, esta última empresa, vendo o sucesso que o navegador estava obtendo, eavaliando possíveis riscos futuros, resolveu entrar na disputa para conquistar este segmento demercado. Com a vantagem de produzir o sistema operacional mais importante sobre o qual eraexecutado o Netscape, ela resolveu entrar no mercado com o seu Internet Explorer. Ela passou afornecer seu navegador gratuitamente, mas com a vantagem de já distribuí-lo em conjunto como seu sistema operacional, o que lhe dava, logo de início, uma grande base de usuários com osoftware instalado. Como segundo passo ela deu sua cartada final, integrando o navegador aosistema operacional, de forma que nenhuma máquina com Windows funcionasse sem o seunavegador, consolidando de vez a sua vantagem no setor.20 Este fato gerou inclusive uma açãonos Estados Unidos sobre abuso de poder pela Microsoft.21 As Barreiras à entrada, ou ainda os custos de troca envolvem praticamente todos osaspectos de uma ambiente computacional, incluindo o Hardware, Software, Treinamento, etc...(Shapiro; Varian, 1999). Uma estratégia de aumento de barreiras a entrada, com ênfase em benscomplementares que levam a aprisionamento tem sido a tônica deste mercado. Nos próximosítens vamos analisar como este mecanismo funciona. 2.3.3.1 Hardware20 Ao lançar o Windows 98 a Microsoft optou por realizar a integração com o Navegador Internet Explorer com o sistema operacional.21 Disponível em http://www.usdoj.gov/atr/cases/ms_index.htm
  34. 34. Durante as décadas de 70 e 80, a produção de computadores, mesmo os de uso pessoal,consistia em computadores desenvolvidos sem um padrão definido, com quase totalincompatibilidade entre eles. Assim, cada componente usado era específico para o computadorem questão. O final da década de 80 representou o avanço de uma arquitetura em específico, aIBM – PC, que se propagou a partir de uma especificação de equipamento desenvolvida pelaIBM e licenciada por um custo muito baixo e para qualquer fabricante que tivesse interesse emproduzi-lo, prática que revolucionou o mercado. A intenção da IBM de tentar criar um padrãopara o segmento de computadores pessoais acabou tendo sucesso, mesmo que esse não fosse oseu segmento de mercado preferencial22. Um dos motivos para este sucesso foi a crescente percepção das dificuldades envolvidasem intoreperar diferentes plataformas computacionais construídas para serem incompatíveis23,bem como da possibilidade de aumento de escala trazida pela padronização. Antigamente, umdeterminado fabricante que produzisse uma placa de vídeo, por exemplo, teria que construí-launicamente para um determinado padrão definido pela empresa que comercializava estecomputador. A partir do momento em que vários fabricantes começaram a produzircomputadores com um mesmo padrão, esta mesma fábrica poderia se especializar na produçãode uma determinada placa, que teria um universo de compradores muito maior, levando a umcrescimento significativo da escala produtiva. Passamos então a ter o domínio dos computadores IBM - PC compatíveis. Porém,mesmo com a consolidação desta plataforma como a dominante no mercado, existem váriasplataformas diferentes que conseguiram resistir no tempo, sobretudo aquelas de usoextremamente especializado. É o caso de plataformas corporativas baseadas em sistemasoperacionais Unix e processador RISC, ou ainda computadores pessoais como o Macintosh. É importante ressaltar que, neste caso, não foi a melhor tecnologia que se consolidou,mas sim a melhor estratégia de comercialização. A IBM, desenvolvedora do novo padrão demercado, apesar de ter adotado a estratégia vencedora, não obteve o mesmo sucesso em mantero controle sobre sua criação, principalmente por errar na aposta de qual seriam os setores-chaveno mercado de computadores pessoais24. A substituição de um determinado hardware envolve vários custos de troca. O primeirodestes relaciona-se aos periféricos e equipamentos adquiridos para trabalhar em conjunto umadada plataforma. Por exemplo, podemos comprar uma impressora, um scanner, ou um22 O foco de atuação da IBM era o fornecimento de computadores de grande porte e os softwares necessários para seu funcionamento.23 Como não existia uma plataforma com posição dominante no mercado, os fabricantes dificultavam que seus computadores conseguissem trocar informações com os concorrentes.24 Considera-se setores-chave: processador e sistema operacional
  35. 35. dispositivo de armazenamento, como uma unidade de fita para backup. Estes equipamentosmuito provavelmente serão de uso específico para a arquitetura de hardware que já exista. Nomomento de fim de ciclo de vida do computador existente, o comprador certamente terá quepesar se mantém seu investimento em periféricos já realizados, os quais, na maioria das vezes,ainda não encerraram seu ciclo de vida, ou se compra todos os componentes necessários para anova plataforma. Outro fator relevante é o conhecimento já existente dentro da empresa e a relação deconfiança que pode ter sido construída com um determinado fornecedor. Vamos dizer que umdeterminado servidor de rede que realize tarefas consideradas críticas em uma determinadaempresa necessite ser substituído. A equipe responsável pela sua manutenção certamente jápossui conhecimento sobre o hardware atualmente instalado. Este conhecimento foi obtido,como normalmente ocorre em setores com constante inovação, pela dedicação de horas deestudo da equipe. Alterar a plataforma pode implicar na necessidade de investimento emtreinamento ou recontratação, além do risco de custos de paradas não programadas. Além disso,o normal é que se crie, com o tempo, uma relação de confiança entre a equipe interna e aempresa fornecedora, reduzindo as incertezas de sucesso no novo investimento, o que pode serfundamental no momento de se optar por um fornecedor25. As empresas que produzem computadores e periféricos, conhecedoras desta sistemática,montam suas estratégias com o objetivo de criar o aprisionamento dos seus consumidores à suatecnologia, ou para tentar conquistar um novo mercado. É comum que fabricantes criem umdeterminado padrão proprietário26, prevendo impedir, no futuro, que seus clientes migrem paraoutra plataforma e que algum outro fornecedor, ao verificar uma determinada situação deaprisionamento, tente licenciar – obter autorização para uso - este padrão para diminuir custosde troca de seus possíveis novos clientes. É importante ressaltar que para difundir umdeterminado padrão de hardware é comum que os fornecedores façam alianças estratégias comoutros. 2.3.3.2 Software O mercado de Software, por sua vez, possui um custo de aprisionamento ainda maiorque o do mercado de Hardware. No software a criação de padrões proprietários é bem mais25 Como existe um grande número de fornecedores de hardware, e os mais importantes costumam ter um preço muito elevado, justamente pelos problemas de assimetria de informação, tornando-se um aspecto importante neste contexto.26 Apesar de parecer contraditório, o termo padrão proprietário é muito utilizado na área de informática e diz respeito a um conjunto de regras para uma determinada situação, normalmente envolvendo comunicação e funcionamento de componentes, nem sempre de acesso público.
  36. 36. comum e eficiente, já que as dificuldades de conseguir interoperar com um hardware, por setratar de um meio físico, são bem menores do que com o software, que é um bem intangível. A primeira decisão a ser tomada para montar uma estrutura de informática é a escolha doSistema Operacional de estações de trabalho e de servidores de rede. Atualmente existem váriasopções, tais como: Microsoft Windows (estações e servidores), várias versões de sistemas Unixe derivados próximos (servidores), Gnu/Linux (estações de trabalho e servidores) e Macintosh(estações de trabalho). Existem ainda outras alternativas para computadores de grande porte, deuso especializado. Uma escolha como esta envolve muitos aspectos, já que o custo de aprisionamento desoftware possui, além das características já listadas para o Hardware, como a padronização eoutros softwares complementares, outras que ainda precisamos analisar:Software Aplicativos Um sistema operacional, não agrega, por si só, nenhum valor para um usuário. O que defato é utilizado são os aplicativos que são executados a partir de um determinado sistema. Cadasistema possui uma plataforma de desenvolvimento própria e incompatível com os demais.Desta forma, ao se optar por um ambiente de informática é necessário adquirir aplicativos parafunções específicas, como processadores de texto, planilhas eletrônicas, software paracompressão de dados, ferramentas gráficas, etc... Estes softwares adicionais possuem um custo muito superior ao do sistema operacionalem si. Por exemplo, se uma empresa adquirir o sistema operacional Microsoft Windows, equiser instalar o editor de textos e a planilha eletrônica da Microsoft, ela terá que desembolsarmais R$ 1399,00 por uma licença desta “suíte de escritório”. A partir deste momento já estaráocorrendo um custo de aprisionamento, já que esta “suíte” funciona unicamente neste sistemaoperacional. Se esta empresa resolver substituir o sistema operacional, ela também terá querealizar novamente o investimento nestes aplicativos. A própria Microsoft, atenta a este mecanismo, produz aplicativos unicamente para o seusistema operacional, e também faz alianças estratégicas para que outros fornecedores deaplicativos não produzam para outras plataformas. Um caso famoso é o da empresa Corel queproduz um aplicativo líder na área de construção de imagens vetoriais, o Corel Draw, além deuma série de outros aplicativos, como editores de textos e de imagens. Em 1999 a Corel, lançou
  37. 37. o Corel Linux, uma distribuição Gnu/Linux voltada para estações de trabalho e portou27 ouemulou28 alguns de seus aplicativos para este novo sistema operacional. A Corel não estavanuma situação financeira tranqüila e traçou uma estratégia para que seus clientes não tivessemcustos adicionais ao adquirir seus aplicativos. Desta forma ela resolveu investir no projeto deuma versão de sistema operacional, aproveitando, contudo, o trabalho que a comunidademundial de Software Livre já havia realizado, e lançou o seu “Corel Linux”, uma distribuiçãoGnu/Linux que era fornecida gratuitamente na compra de um produto da Corel. Em 2000 aMicrosoft fez um investimento de 135 milhões de dólares em ações sem direito a voto e ambasas empresas anunciaram um “acordo estratégico” para adoção da tecnologia de desenvolvimento“.NET” da Microsoft29. A partir deste momento a Corel parou de investir na sua divisão deSoftware Livre e a vendeu menos de um ano depois.Periféricos e drivers Quando um produtor de periféricos lança um determinado produto, por exemplo, umaimpressora, ele deve decidir para que arquitetura de hardware ela será construída, bem como ossistemas operacionais que serão instalados nestes computadores. Para cada sistema operacionalo fabricante terá que desenvolver um “driver”, software responsável pela comunicação física doequipamento com o sistema operacional. Os sistemas líderes de mercado sempre serão contemplados com o fornecimento dedriver para o dispositivo, mas novos produtos de empresas entrantes, ou mesmo produtos jáconsolidados, mas com participação pequena no mercado30, dificilmente terão a atenção destesfornecedores. Desta forma, temos uma preocupação extra para quem decide trocar o sistemaoperacional. É necessário verificar o suporte aos periféricos já existentes. Este fator,principalmente numa grande empresa, é um aspecto relevante e em algumas vezes, de grandecomplexidade.Comunicação Hoje não podemos pensar em computadores sem pensar na comunicação entre eles. Asredes de computadores, tanto empresariais (conhecidas como intranet) como a rede mundial, a27 Re-desenvolvimento de um software para uma nova plataforma.28 No caso, emular significa utilizar uma aplicação intermediária para permitir que um aplicativo desenvolvido para um sistema operacional/plataforma seja executada em outra.29 Disponível em http://www.microsoft.com/presspass/press/2000/Oct00/CorelPR.mspx30 É importante destacar que em informática sempre se trabalha com o mercado mundial, e que mesmo uma pequena participação, digamos de 1%, representa um enorme número de máquinas.
  38. 38. internet, agregam grande parte do valor que atribuímos às soluções de informática. Uma das estratégias de concorrência mais utilizadas é tentar criar protocolos decomunicação proprietários e incompatíveis entre diferentes sistemas. Um caso famoso é adisputa por servidores de autenticação corporativos entre a Microsoft e a Novell. Quando aMicrosoft lançou sua plataforma Windows NT de servidores de rede, a Novell era líder domercado e utilizava um protocolo de comunicação próprio o que dificultava a suainteroperabilidade31. O principal esforço da Microsoft foi construir ferramentas de migração dedados entre as plataformas Novell e Windows NT, além de procurar interoperar com os sistemasde sua concorrente. Em paralelo a Microsoft construiu seu próprio protocolo de rede eautenticação. Quando ocorreu o lançamento da versão 2000 do Windows NT foi removida amaior parte das funcionalidades de interoperabilidade com a Novell, já que agora ela era a líderde mercado e não mais a Novell. Dominar os meios e protocolos de comunicação é uma vantagem enorme para umaempresa. De maneira geral, a medida tomada para minimizar este problema é a normatizaçãoatravés de organismos independentes. A Internet se baseia em um protocolo aberto, plenamentedefinido e padronizado de maneira independente. Sem dúvida, este foi um dos fatoresfundamentais para o seu sucesso, pois manteve sua independência em relação aos diferentesfornecedores.Formato de Armazenamento O armazenamento de dados é outro ponto comum de disputa entre as empresas de umdeterminado setor do mercado de tecnologia da informação. As empresas líderes procuram criarmecanismos de armazenamento próprios através de formatos secretos de armazenamento comoestratégia para aumentar o custo de troca de seus clientes. O valor para qualquer um que utilize sistemas de informática está nos dados que estãoarmazenados e foram processados pela solução atual. Em praticamente todas as áreas deaplicação da informática existe uma disputa importante sobre formato de armazenamento dearquivos. Na área de automação de escritório, que envolve Editor de Textos e PlanilhaEletrônica, o produto líder é o Microsoft Office, que utiliza formatos proprietários e secretos.Estes formatos não são fornecidos para nenhuma outra empresa, o que torna o custo desubstituição extremamente elevado, já que seria necessário converter os documentos um a um. Como alternativa, houve um trabalho de engenharia reversa32, que demandou um esforço31 A Novell usava um sistema de comunicação proprietário usando o protocolo IPX/SPX que ela mesma havia desenvolvido.32 É o processo de análise de um artefato (um aparelho, um componente elétrico, um programa de computador,
  39. 39. muito grande, para que outros aplicativos conseguissem ler e escrever neste formato. Porém aMicrosoft, ao realizar lançamento de novas versões, foi alterando as características dos seusformatos de arquivo, introduzindo complicadores para a plena compatibilidade. Hoje, porém, jáexiste uma série de software que conseguem fazer conversão de maneira satisfatória, porémainda com erros quando são utilizados recursos muito novos do MS Office. Mesmo superada esta barreira em termos de conversão, muitas empresas, pessoas,órgãos públicos e instituições de ensino, ainda exigem o formato proprietário da Microsoft paratroca de documentos, o que praticamente impede que novos concorrentes se consolidem nomercado. Em vários momentos outras suítes de escritório equivalentes apresentaram estacompatibilidade de arquivos, um número maior de funcionalidades no produto e preçossignificativamente menores, mesmo assim, não conseguiram avançar na sua participação nomercado, como ocorreu com a suíte da Corel em 200233.Treinamento Um dos custos envolvendo o uso de Software é o treinamento para os usuários e a equipede suporte. Este custo está sempre vinculado à implantação de um novo software, porém atransição entre diferentes versões de um mesmo software ocorre de maneira mais ou menostransparente e dificilmente requer um novo treinamento. Ao se pensar em realizar uma migraçãopara um novo software as empresas medem também custos como o de treinamento e o danecessidade de parada dos novos funcionários neste período. Porém, um desafio maior do que a necessidade de treinamento em si é a construção deuma rede de empresas que forneçam este tipo de treinamento. Empresas especializadas emtreinamento normalmente focalizam nos cursos de maior procura, isto é, procuram fornecercursos apenas para empresas líderes em determinados setores. Outro complicador é a possibilidade de que os funcionários já existentes ou aindadisponíveis no mercado já conheçam este ou aquele software. É bastante usual as empresaslíderes fazerem uma estratégia de cooptação, principalmente dos estudantes de informáticaatravés de acordos com universidades e escolas ou ainda com vantagens especiais diretamentepara estudantes e professores. Trata-se aqui, conforme Shapiro & Varian (1999, pg 65), daestratégia de “pegue-os enquanto são jovens”: “Se você vende um bem com grande custo de troca (...) então etc.) e dos detalhes de seu funcionamento, geralmente com a intenção de construir um novo aparelho ou programa que faça a mesma coisa, sem realmente copiar alguma coisa do original.33 Disponível em: http://www.newsfactor.com/perl/story/19693.html

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