Guerras climaticas harald welzer

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Guerras climaticas harald welzer

  1. 1. HA RA LD W EL Z ER G E R C ÁTIC U R AS LIM ASPORQUEMATAREMOSE SEREMOSMORTOSNO SÉCULO21 TRA DUÇ ÃO
  2. 2. Tradução William Lagos 2010 ÍNDICEUM BARCONO MEIODODESERTO:O PASSADOE O FUTURODA VIOLÊNCIA:............ 9CONFLITOSCLIMÁTICOS:...........................................18O Ocidente I:....................................................................18Os Outros:.........................................................................23O Ocidente II:...................................................................25EmBusca de Soluções:......................................................34As Mortes têm Sentido:.....................................................38O AQUECIMENTO GLOBAL E AS CATÁSTROFESSOCIAIS:............ ..........................................................42Subcomplexidade: ........................................................ 47Quemsomos"nós"?.......................................................... 49Os velhos problemas ambientais:.................................. 50VARIAÇÕES CLIMÁTICAS - UMA RÁPIDA VISÃOGERAL:........................................................................ 55Dois graus a mais:......................................................... 62OSMORTOSDEONTEM:.................................... 63 .O Fimdo Mundo: ........................................................ 63Justificativas:................................................................ 66A Contagemdos Corpos:............................................. 69RealidadesAlteradas:................................................... 74OSMORTOSDEHOJE:O ECOCÍDI ……………… … … … … … O … … … … … 81A Carne de sua Mãe está entre meusDentes:.............. 81O Genocídio de Ruanda:………………… … … … … … 89Vidas Apinhadas: ........................................................ 90O que Viram os Matadores?........................................ 94Darfur - A Primeira Guerra Climática:………………. 96
  3. 3. A Ecologia da Guerra:…………………… … … 102 … … …As SociedadesFracassadas:.......................................... 104Nações emColapso:……………… … … … … 111 … … … …A Violência e as Variações Climáticas:……………….. 114A Injustiça e a DesigualdadeTemporal:……………… 121A Violência e a Teoria:................................................ 127OSMORTOSDEAMANHÃ:AS GUERRASPERMANENTES,A LIMPEZA ÉTNICA,O TERRORISMO E A EXPANSÃO DASFRONTEIRAS:........................................................ 132As Guerras:………………… … … … … …... 134 … … … … …As Guerras Permanentes:………………… … … … … …140Os Mercados da Violência:.......................................... 149Adaptação:................................................................... 156Limpeza Étnica:…………………… … … … … … … ….. 158Conflitos Ambientais:.................................................. 164O Terror:.................................................................. 169O Terror como Meio de Transformação do EspaçoSocial: ..................................................................................... 183Significados Bloqueados: ............................................. 186 .Eneias, Hera, as Amazonas e a FRONTEX: GuerrasIndiretas:.................................................................... 188A Rota Marrocos-Espanha:........................................... 189Camposde Refugiados:................................................ 193Novamente a FRONTEX:............................................ . 196Estrangeiros Ilegais:...................................................... 200Os Refugiadose o Asilo Político:................................. 209Fronteiras fora do Próprio Território:.......................... 210Os RápidosProcessosde Transformação da Sociedade: .213As Modificações Climáticas Exageradas:...................... 215PESSOAS TRANSFORMADAS DENTRO DE REALIDADESALTERADAS: .225Linhas Básicas emTransformação:.............................. 226Padrões de Referência e a Estrutura da Ignorância:..... 232Conhecimento e Desconhecimento do Holocausto:... 235A Transformação das Linhas Básicas do Lado Oposto:.. 246O RENASCIMENTODOSVELHOSCONFLITOS:CRENÇAS, CLASSES, RECURSOS E A EROSÃO DADEMOCRACIA:.......................................................255O Deslocamento da Violência:.................................... 259MAIS VIOLÊNCIA:................................................ 261
  4. 4. O QUESEPODEFAZER E O QUENÃO SEPODEI:. 264Continuar Agindo comode Costume:........................ . 265Os PassadosFuturos:................................................... 272A Boa Sociedade:....................................................... . 276A Tolerância Repressiva:............................................ 282Saber Narrar a Própria História:.................................. 284O QUESEPODEFAZER E O QUENÃO SEPODEII: ..288
  5. 5. UM BARCONOMEIODODESERTO: OPASSADO OFUTURO VIOLÊNCIA E DA"Um leve tinir atrás de mim fez com que virasse acabeça. Seis negros caminhavam em fila, percorrendopenosamente a senda estreita, Eles avançavam eretose devagar, balançando pequenoscestos cheios de terranas cabeças, e o ruído acompanhava cada um de seuspassos, (...) Eu podia contar- lhes as costelas, asarticulações de seus membros lembravam os nós deuma corda; cada um deles trazia uma golilha, um anelde ferro soldado ao redor do pescoço, todos interli-gados por uma corrente frouxa, cujos elos excedentespen diam entre eles: era seu avanço compassado quefazia com que os elos tilintassem em um ritmoregular," Esta cena, des crita por Joseph Conrad emseu romance Intitulado "O Coração das Trevas",descrevia a época de maior florescência docolonialismo europeu, distando dos dias de hoje poucomais de cemanos.A brutalidade impiedosa, com a qual os primeirospaíses industrializados buscavam satisfazer sua fomede matérias-primas, de terras e de poder, e que deixouas suas marcas sobre os demaiscontinentes, não é maisaceita pelas condições vigentes nos países ocidentais.A memória da exploração, da escravidão e doextermínio tornou-se a vítima de uma amnésiademocrática de que estão afetados todos os estados doOcidente, que não queremrecordar que sua riqueza, domesmo modo que seu poderio e progresso, foramconstruídos ao longo de uma história mortífera.Em vez disso, o que se encontra é um orgulho peladescoberta, observância e defesa dos direitos humanos,pela prática do politicamente correto, pela par-ticipação em atividades humanitárias, sempre que emalgum lugar da África ou da Ásia uma guerra civil,uma inundação ou uma seca compromete as necessi -dades fundamentais de sobrevivência dos povos.Determinam-se intervenções militares para ampliar osdomínios da democracia, esquecendo que a maioria dasdemocracias ocidentais foi edificada sobre uma históriade guerras de fronteiras, limpeza étnica e genocídios.Enquanto se reescrevia a história assimétrica dosséculos 19 e 20 dentro das condições de vidaconfortáveis e mesmo luxuosas das sociedadesocidentais, muitos habitantes de países do segundo e doterceiro-mundo mal suportam ouvir falar em talhistória, porque foram dominados violentamente
  6. 6. através dela: poucos dos países pós-coloniais foramconduzidos a uma soberania estável, muito menos acondições de bem- estar social; em muitas dessasnações, a história da espoliação continua a serescrita sob diferentes disfarces e, em numerosassociedades frágeis, não se encontram hoje sinais deprogresso, mas simde maior regressão.O aquecimento progressivo do clima, um produto dafome inextinguível por mais energia fóssil dominantenas terras que primeiro se industrializaram, prejudicacom maior rigor as regiões mais pobres do mundo; umaamarga ironia, que escarnece toda a esperança de quea vida se possa tornar algum dia mais justa. A capadeste livro mostra o vapor "Eduard Bohlen",antigamente encarregado de serviços postais, cujosdestroços permanecem há quase cem anos recobertospela areia do deserto da Namíbia. Ele desempenhouumpequeno papel na história das grandes injustiças. A 5de setembro de 1909, no meio do nevoeiro, o barcoencalhou diante da costa do território que na época sedenominava África do Sudoeste Alemã. Hoje emdia, osrestos do navio se encontram duzentos metros terraadentro; durante o século transcorrido, o de serto seampliou oceano adentro. O "Eduard Bohlen", quepercorria desde 1891 a linha comercial oceânica dacompanhia Woermann, sediada em Hamburgo,regularmente transportava correspondência para aÁfrica do Sudoeste Alemã. Durante a guerra deextermínio travada pela administração colonialalemã contra as tribos Hereros e Namas, serviuocasionalmente comonavio negreiro.Durante esta guerra genocida, travada no princípio doséculo 20, uma boa parte da população indígena daÁfrica do Sudoeste não foi exterminada; foi conduzida acampos de concentração ou levada para campos detrabalhos forçados, em que os prisioneiros de guerraeram vendidos como trabalhadores escravos. Bem nocomeço da guerra, a administração colonial alemãenviou a um comerciante sul-africano chamado Hewitt282 prisioneiros, que foram alojados precariamentenos porões do "Eduard Bohlen", sem que lhes encon -trassem melhores possibilidades de acomodação, e comos quais não se sabia exatamente o que fazer,enquanto os Hereros não fossem completamentederrotados. Hewitt ficou entusiasmado com essapossibilidade e barganhou para que o preço fossereduzido para 20 marcos por cabeça, com oargumento, considerado justo, de que os homens jáestavam embarcados e ele não estava preparado para
  7. 7. pagar pe las m e rcadorias despachadas o p re ço norm al, além dos d ire itos alfandegários corre spondentes. E l e ob te ve os p risioneiros em cond ições m ais favo ráve is e o "Eduard Boh l partiu do porto de S wakopm und, a 20 en" de jane iro de 1 904, em d ire ção à C id ade do C abo, na África do S ul, de onde os hom ens fo ram enviados para 1 trab alh ar nas m inas. Na verdade, foram os Hereros que iniciaram a guerra contra a administração colonial alemã, durante a noite de 11 para 12 de janeiro de 1904, começando por destruir uma estrada de ferro e derrubar grande quantidade de postes telegráficos e continuando pelo massacre de surpresa de 123 trabalhadores alemães 2 ainda adormecidos nas fazendas. Após algumas tentativas inúteis de apaziguamento da luta, o governo real de Berlim enviou o general-de-divisão Lothar von Trotha para comandar as tropas coloniais alemãs. Von Trotha adotou desde o início o conceito de uma guerra de extermínio, de acordo com o qual ele não procurou simplesmente vencer os Hereros por meios militares, mas os impeliu para o extermínio no deserto de Omaheke, onde ocupou todas as nascentes de água, provocando pura3 e simplesmente a morte de seus adver- sários pela sede. Esta estratégia foi tão bem-sucedida quanto fora cruel; foi relatado que os sedentos cortavam as gargantas de seus animais para beber- lheso sangue e que final ente esm agavam seus m intes tinos para de l re tirar os ú ltim os 4 re s tos de es um idade. N ão obstan te , acabaram m orrendo. Mas a guerra prosseguiu, mesmo depois de os Hereros terem sido aniquilados; determinou-se que os Namas, uma outra etnia, deveriam ser desarmados e1 Veja Jan Bart Gewald, The Issue ofForceá Labour in the "Onjembo": German South West Africa, 1904-1908 [A questãodos trabalhos forçados na "Onjembo": África do Sudoeste Alemão, 1904-1908, publicado no Bulletin of the Leyden Centrefor the History ofEuropean Expansion [Boletim do Centro Histórico da Expansão Europeia de Leiden (Holanda)], 19/1995,pp. 97-104, citação da p. 102. (Nota do Autor = NA). "Onjembo" foi o nome atribuído pelos Hereros a seu conflito com oscolonizadores alemães. Hoje o termo designa os safaris de caça organizados pelo governo da Namíbia. (Nota do Tradutor =NT).2 Veja Medardus Brehl, Vernichtung der Herero. Diskurse der Gewalt in der deutschen Koloniaüiteratur [OAniquilamento dos Hereros. Discurso da Violência na literatura colonial alemã], München (Munique), 2007, p. 96. (NA).Os Hereros não eram nativos da Namíbia: haviam descido da Guiné Equatorial, então Guiné Espanhola (de onde o nome"Hereros" ou "Guerreiros"), através do Congo e de Angola poucas décadas antes, como conquistadores, movendo umaguerra de extermínio contra os Namas, um ramo dos bosquímanos, habitantes originais da região, chamados pelos alemãesde "hotentotes". A língua Nama é hoje oficial na Namíbia. (NT).3 Medardus Brehl, Vernichtung der Herero. Diskurse der Gewalt in der deutschen Koloniaüiteratur [O Aniquilamentodos Hereros. Discurso da Violência na literatura colonial alemã], München (Munique), 2007, p. 98. (NA).4 Veja Jürgen Zimmerer, Krieg, KZ und Völkermord in Südwestafrika [A Guerra, os Campos de Concentração e oGenocídio na África do Sudoeste], publicado em Jürgen Zimmerer e Joachim Zeller (editores): Völkermord in Deutsch-Südwestafrika. Der Kolonialkrieg (1904-1908) in Namibia und seine Folgen [Genocídio na África do Sudoeste Alemã. AGuerra colonial (1904-1908) na Namíbia e suas Consequências], Berlim 2003, p. 52. (NA).
  8. 8. sub j ugados enquanto as trop as alem ãs aind a se encontrassem no te rritó rio. D ife rentem ente dos He re ros, os N am as n ão ofe re ce ram com bate abe rto, m as se lim itaram a um com bate de gue rrilh as , que se to rnou um grave p rob lem a para as trop as co loniais, que ad otaram , por sua ve z, um a es tratégia d ife rente , a qual logo se ria im itad a com fre qu ência ao longo do m ortí fe ro s écu lo 20: para re tirar dos gue rre iros os re cu rsos sobre os quais se apoiavam , os alem ães assassinaram as m ul res e filhos dos N am as ou os he ence rraram em cam pos de concentração. A vio lência foi re alizad a sob a p ress ão d as circuns tâncias e p roduziu suas consequ ências. Estas pe rm anece ram , originaram novos m eios de ap licação d a vio lência, que se fo ram to rnando tan to m ais am pl quanto m ais e ficientes se dem onstravam . Is to os porque a vio lência é inovadora: e la ge ra novos m eios e encontra novas p roporções. As trop as co loniais alem ãs, n ão obstan te , tive ram de com bate r os N am as duran te m ais de três anos. Além d isso, nem tod os os cam pos de concentração pe rm anece ram sob contro le do gove rno; tam b ém em pres ários p rivad os, com o a em presa de linhas m arítim as Woe r ann, esta- m be l ce ram5 seus p róp rios cam pos de trab alhos e fo rçad os. Esta guerra de extermínio não foi somente um exemplo da impiedade da violência colonial, como um modelo para os genocídios futuros - por meio de seu propósito de total eliminação, cumprido pelo internamento nos campos estabelecidos, que significavam uma estratégia de extermínio por meio dos trabalhos forçados. Todos já ouvimos contar a história de suas consequências; o Departamento I dos escritórios do Estado-Maior, encarregado de redigir a história da guerra, escreveu orgulhosamente, em 1907, que nenhum esforço, nenhuma privação foram poupados "para que os inimigos fossem privados dos últimos vestígios de sua capacidade de resistência, pois metade deles foi morta nas regiões desérticas pela captura progressiva de todos os poços de água, até que, finalmente, sem mais energia, eles fossem sacrificados pela natureza de sua própria terra. O deserto sem água de Omaheke completou o que as armas alemãs 6 haviam iniciado: a aniquilação da tribo dos Hereros." Isto se passou há5 Ibidem, pp. 54ss. (NA).6 Citado apud Jürgen Zimmerer, Krieg, KZ und Völkermord in Südwestafrika [A Guerra, os Campos de Concentração e oGenocídio na África do Sudoeste], publicado em Jürgen Zimmerer e Joachim Zeller (editores): Völkermord in Deutsch-Südwestafrika. Der Kolonialkrieg (1904-1908) in Namibia und seine Folgen [Genocídio na África do Sudoeste Alemã. A
  9. 9. cem anos; desde então, as formas de violência se modificaram, nem tanto em sua forma e aspecto, mas na maneira segundo a qual são referidas. O Ocidente não costuma mais, salvo em casos excepcionais, empregar violência direta contra outros estados; as guerras são hoje empreendimentos realizados por longas cadeias de ação e numerosos atores, por meio dos quais a violência é delegada e se torna informe e invisível. As guerras do século 21 são pós-heróicas e apresentadas como sendo conduzidas de má-vontade pelas nações que as empreendem.E no que se refere ao orgulho nacional por ter sido alcançada a aniquilação de tribos selvagens... isto é coisa que, desde o holocausto dos judeus, se tornou impossível mencionar. O "Eduard Bohlen" se enferruja hoje, semi-enterrado na areia do deserto da Namíbia e talvez tenha chegado o momento em que o modelo completo das sociedades ocidentais, com todas as suas conquistas de democracia, direitos humanos, liberdade, liberalidade, arte e cultura, sob o ponto de vista de um historiador do século 22, se demonstre tão irremediavelmente deslocado comonos parece hoje a visão do velho navio negreiro nadando no meio do deserto, um corpo estranho peculiar que dá a impressão de se ter originado em outro mundo. Isso no caso de ainda haver historiadores quando chegar o século 22. Este modelo de sociedade, tão impiedosamente desenvolvido ao longo de uma guerra coma duração de um quarto de milênio, tornou-se agora domi ante, em n um piscar de olhos, no momento em que seu caminho vitorioso atingiu um alcance global, no qual até mesmo os países comunistas e aqueles que não eram exatamente comunistas foram incluídos, pela atração irresistível de padrões de vida em que os automóveis, as televisões, os computadores de tela plana e as longas viagens determinaram as novas fronteiras de sua atuação, produzindo consequências inesperadas que ninguém havia calculado. As emis sões de gás carbônico que a fome de energia das indústrias e das administrações dos países de desenvolvimento descontrolado produzem em níveis progressivamente maiores ameaçamos ritmos normais de desenvolvimento do clima terrestre. Suas consequências já se tornaram visíveis, embora o futuro ainda seja imprevisível. Ainda mais claramente agora, quando se percebe que a utilização desmedida das fontes deGuerra colonial (1904-1908) na Namíbia e suas Consequências], Berlim 2003, p. 45. (NA).
  10. 10. energia fóssil não pode mais ser continuada indefini-damente, uma vez que o fim destas reservas pode seresperado antes de muito tempo, já que o esgotamentode tais recursos é inevitável, devido ao desinteressepelas consequências e o descontrole com que sãoqueimados.Mas não é somente porque as transformaçõesclimáticas causadas pelas emissões de gases poluentese que já provocaram um aquecimento global médio daordem de dois graus não pareçam mais poder sercontroladas que o modelo ocidental já atingiu os seuslimites, mas também porque uma for ma dedesenvolvimento globalizado que tenha por base oconsumo incontido de recursos naturais não poderáfuncionar como um princípio de abrangência mundial.Isto porque este modelo funcionou logicamente apenasenquanto o poder de uma parte do mundo acumulou oque foi desviado de outras partes; este modelo éparticular e não universal - nemtodos os países pode -rão segui-lo doravante. Enquanto a astronomia nãonos oferecer planetas próximoso bastante que possamser colonizados, chegamos à constataçãodesapontadora de que a Terra é apenas uma ilha. Nãoteremos mais para onde nos expandir, depois que asreservas tenham sido esgotadas e os camposde cultivoocupadospela urbanização.Agora que os recursos restantes claramente estão seesgotando, pelo menosemmuitas regiões da África, daÁsia, da Europa Oriental, da América do Sul, doÁrtico e das Ilhas do Pacífico, surge o problema de quecada vez mais pes soas encontrarão cada vez menoresbases de segurança para sua sobrevivência. Está aoalcance de todos a constatação de que conflitosarmados surgirão entre estes povos, para que elespossam se nutrir do cultivo das próprias terras e dasde seus vizinhos ou porque queiram beber das fontes deágua que progressivamente se esgotam em seusterritórios ou nos territórios próximos; de formasemelhante, também se tornou visível para todos queas pessoas, dentro de um futuro previsível, não maistenham mecanismos práticos de contenção dosrefugiados de guerra e do meio ambiente, ao mesmotempo que não se possam mais separar deles, porquecada vez mais novas guerras provocadas pela deca-dência ambiental surgirão e os povos fugirão paraescapar às consequências da violência. Uma vez queeles terão de permanecer em algum lugar, darão ori-gem a novas fontes de violência - em seus própriospaíses, ondenão saberão o que fazer comos refugiados
  11. 11. internos, ou nas fronteiras de outras terras quedesejem atravessar, mas onde não serão desejados dequalquer maneira.O objetivo deste livro é o de responder às questõesprovocadas pela manei a como o clima e a violência rse inter-relacionam. Emalguns casos, comoo daGuerra do Sudão, este relacionamento é direto e podeser constatado de ime diato. Emmuitos outros contextosde violência presente ou futura - no caso das guerrascivis, de conflitos permanentes, do terror, daimigração ilegal, das disputas fronteiriças, dasagitações e revoltas - predomina uma ligação com asmodificações climáticas e os conflitos ambientais decaráter apenas indireto, especialmente no sentido deque o aquecimento da temperatura provoca efeitosdesiguais ao redor do globo, dependendo da densidadedemográfica, da situação geográfica e das condiçõesde vida, porque afeta as diversas sociedades de formaaltamente diferenciada.Porém, tomadas em seu conjunto, quer as guerrasclimáticas assumam uma forma direta ou indireta,qualquer que seja a forma como se travem osconflitos do século 21 - a violência terá um grandepapel futuro ao longo deste século. Não se verãosomente as migrações em massa, mas soluções vio-lentas no enfrentamento dos problemas dos refugiados,que não abrangerão apenas os direitos à água ou aocultivo e exploração do solo, portanto, guerras derecursos naturais e não somente conflitos de religião,ou guerras de consciência. Uma característica centralda violência, que será costumeira no Ocidente, será apreocupação de transferir suas manifestações para omais longe de seus próprios territórios quanto sejapossível - pela contratação de forças de segurança ede defesa privadas ou, no caso de que as suasfronteiras mes mas sejam ameaçadas, em localizar oconflito do outro lado dos seus limites, concentrado empaíses econômica ou politicamente dependentes.Tambémas preocupações políticas sobre a segurança,provocando a realização de atos criminosos antes queos fatos os justifiquem, na forma de precauçõesprévias tomadas anteriormente à manifestação dascircunstâncias, se enquadram neste processo damanipulação crescente da violência indireta. Aindaque o Ocidente não se envolva diretamente no meio dosconflitos, como no caso do Afeganistão ou do Iraque,porém favoreça o deslocamento da violência paraalém de suas fronteiras, atribuindo-lhe um caráterindireto, ele permite a permanência em outras terras
  12. 12. de situações sociais em que as condições para oexercício da violência são centrais e permanentes, sobas quais as pessoas bus cam viver apesar de todas asdificuldades. Tudo isto é sinal de uma assimetria quevemgovernando a história mundial há mais de duzentose cinquenta anos, mas que hoje em dia se agravaprogressivamente em razão do aquecimento climáticoglobal.Seria pouco produtivo fazer uma pesquisa e quererrealizar um prognóstico verdadeiro sobre guerras econflitos violentos que possam ocorrer no futuro, semquerer descobrir por que tais processos sociais não sedesenvolvem linearmente - não se podem saber hojequais modificações o degelo da camada de permafrostsiberiano colocará emação ou que grau de violência ainundação de uma megalópole ou de um país inteiropoderá provocar. E podemossaber ainda menoscomoaspessoas do futuro reagirão perante as ameaças equais consequências serão por sua vez desencadeadaspor suas reações. Isto vale principalmente para ocomeço da compreensão das variações climáticas eseus efeitos por parte das ciências naturais por estemotivo: será extremamente fácil deixar de perceberque, via de regra, a base argumentativa dospesquisadores das condições climáticas se baseia nahistória. Eles calculam emparticular os processosdasgrandes transformações que podem ser diretamenteverificados pela sua mensuração presente; porexemplo, as concentrações de dióxido de carbono naatmosfera, na água ou no gelo, comparadas com asmedições exatas dos dados históricos mineralógicosrealizadas por seuspredecessores.Os cenários futuros, que suscitam preocupaçõesclaramente justificáveis, são calculados a partir dosdados registrados no passado e de forma inteiramentesemelhante, encontram-se neste livro muito poucasespeculações sobre os futuros possíveis, porque foiregistrado comoe por que a violência foi desencadeadano passado e tais dados nos levam a estimar comrelativa precisão qual será o desempenhoda violênciano decorrer do século 21. A violência sempre foi umaopção nos relacionamentos humanose é inevitável quesoluções violentas também sejam encontradas paraos problemas futuros, quando retornarem condiçõesambientais desfavoravelmente modificadas.Deste modo, encontram-se nas páginas seguintes nãosomente descrições das Guerras Climáticas, comotambémpesquisas informadas sobre a maneira comoaspessoas incluídas no âmbito dessas guerras tomarão
  13. 13. decisõescomrelação às mortes ou comosua percepçãodo ambiente será modificada, porque as condiçõesobjetivas de uma situação não decidemcomoas pessoasse comportarão, mas sim a forma e a maneira comoestas condições serão percebidas e entendidas. Nesteconjunto também se incluem as questões referentesaos motivos pelos quais certas pessoas se decidem atransformar-se em terroristas suicidas, por queocorrem guerras em cuja conclusão ninguém estáinteressado ou por que cada vez mais pessoas estãodispostas a trocar o direito a suas liberdades pessoaispor garantias de segurança.Este livro refere-se apenas por alto à narrativa dosproblemas, porque os problemas percebidos logoconduzem a soluções, sempre que são realmentepercebidos como ameaças; subsequentemente revela osresultados de três pesquisas acuradas sobre as mortesde ontem, de hoje e de amanhã, passando imediatamentea uma descrição da modificação das linhas básicas, ouseja, os fenômenos fascinantes das possíveistransformações das pessoas em sua percepção evalorização do meio ambiente, sem que isso as leve aobservar ou modificar seuspróprios comportamentos.A pergunta final de um livro como este decorrenaturalmente, ou seja, o que pode ser feito paraimpedir os piores efeitos dessas transformações? Ou -dito de forma mais patética - para observar e seguiras lições práticas da história. O primeiro capítulo daseção de encerramento se interessa assim pelaspossibilidades de uma modificação cultural que nospermita um abandono da lógica mortífera docrescimento incessante e do consumoilimitado, sem queas pessoas sejam forçadas a abdicar de tudo. Oscapítulos desta seção acabam encerrando suaexposição de forma otimista e apresentando reflexõessobre como o conceito de uma boa sociedade possa seradotado e desenvolver-se a partir de agora.Depois, segue-se ainda um segundo capítulo deencerramento, no qual são apresentadas asperspectivas mais sombrias correspondentes à minhaavaliação de como se irão passar as coisas sob asvariações climáticas futuras: não haverá nenhumapossível solução que nos seja favorável. Suasconsequências não somente modificarão o mundo eestabelecerão novas formas de comportamento, defato, retomadas das mesmas que se conhecem de hámuito, como também significarão o fim do racionalismoe de seus conceitos de liberdade. Mas também existemlivros que estão sendo atualmente escritos por outros
  14. 14. au to re s, que m anifestam a espe ran ça de que estas conclus ões es te j e rrad as. am CONFLITOSCLIMÁTICOS O O cidente I No ano de 2005 foi anunciad a a criação de um a "Ag ência Europeia para a Ad m inistração do T rabalho de C oope ração O pe racional nas F ronte iras Exte rnas dos Es tad os-m em bros d a União Europeia". Por trás deste nom e he rm ético e apare ntem ente burocrático se e rgue um a ins tituição altam ente d in âm ica que contro la as fron te iras exte rnas d a União Europeia de m aneira firm e e e ficiente . Ce rca de cem funcion ários trab alh am constan tem ente para alcan çar este obj tivo e e adm inistrar um a fo rça con j ta de tod os os es tad os- un m em bros, fo rm ad a por quinhentos a seiscentos policiais de fron te ira em destacam entos m óveis e que - es ta é um a nova re alid ade - tam b ém devem re alizar tare fas fo ra d as atri buições norm ais d as po lcias de fron te ira í re gu lare s. A Ag ência d isp õe atu alm ente de vin te ae rop lanos, trin ta he lic óp te ros e m ais de cem barcos, tod os equipados com as m ais re centes inovações técnicas, com o equipam ento de vis ão notu rna, com putadores portá te is e tc. Um a vez que o nom e o ficial é tão p roibitivo, pode- se entender facil ente que se j em ge ral re fe rid o por m a um a ab re viatu ra: nas "fron tiè re s extérieu res" [fron te iras exte rnas] d a F ran ça, a denom inação é re duzida para "FRONTEX" e is to n ão exclui o fato de que o nom e se j p rogram ático. A FRONTEX es tá a intim am ente associad a a ou tras au to rid ades, com o a EUROPOL, de libe ra sobre as po lí ticas de fron te ira locais, particu larm ente nos pontos de passagem de im i- gran tes ile gais e d á apoio ao que é cham ado de "e xecu ção con j unta pe los es tad os-m em bros d as m edidas de re condu ção d a partid a ob rigató ria de 7 ind ivíduosprovenientes dos estados do te rce iro-m undo." Por "indivíduos provenientes aos estados do terceiro- mundo" se entendem pessoas que não têm direito a asilo político e são transportadas para seus países de origem, ou seja, em linguagem oficial, "repatriadas" depois que tenham ingressado no território da União Europeia de qualquer modo extraoficial, o que se refere principalmente àqueles imigrantes que não se7 Conforme o site oficial http://www.frontex.europa.eu. (NA).
  15. 15. encontrem protegidos pela assinatura do Trata do de Schengen, no Luxemburgo, firmado por seus próprios 8 países. O Tratado de Schengen, assinado a 26 de março de 1995, colocou em vigor as medidas destinadas a tratar dos problemas de segurança das fronteiras externas dos países-membros localizados dentro dos limites da União Européia. Ao mesmo tempo que, no interior do território abrangido pelo Tratado de Schengen, a movimentação e as viagens de seus cidadãos são livres, do mesmo modo que se estabeleceu a renúncia ao controle fronteiriço nas viagens entre a Alemanha, a Holanda e a Áustria, permanece um "Regulamento se- gundo os Países de Origem", que exige uma prova de perseguição política para quem solicita asilo, particularmente quando procedem de países consi- derados "seguros"; existe igualmente um "Regulamento para os Países do Terceiro-Mundo", que se esforça ao contrário, para que as pessoas que ingressam mediante contratos de trabalho, por exemplo, de Serra Leoa para a província espanhola da Andaluzia, permaneçam lá e que aquelas que viajem para a Ale- manha sejam, em qualquer circunstância, recambiadas para a Espanha e não possam mais pedir asilo naquele país. Não existe nada de surpreendente no fato de este regulamento, inicialmente em vigor nas fronteiras espanholas e portuguesas, ter tido sua vigência consideravelmente aumentada, a fim de incluir as fronteiras da Europa Oriental, ao mesmo tempo que as candidaturas para asilo político na Alemanha tenham baixado para um quarto do nível de 1995. Realmente, uma questão vem sendo apresentada em toda a União Européia, ou seja, tomando em consideração os números presentes e futuros de refugiados impelidos pelas variações climáticas, cujo aumento vem se tor- nando progressivamente mais rápido, que a defesa das fronteiras externas dos países europeus deva ser empreendida de forma muito mais enérgica, decisão esta que poderá ser tomada muito em breve. Por esta raz ão a FRONTEX foi p rom ul a por gad decre to e já tem re gis trad as oficial ente suas m p rim eiras consequ ências - um aum ento conside ráve l do re to rno fo rçad o dos barcos de re fugiados que desem barcam nas Ilh as C an árias. Por sua ve z, estes8 Em primeiro lugar a Alemanha, a França, a Bélgica, o Luxemburgo e a Holanda ajustaram a facilitação do turismodentro de suas fronteiras internas; ao mesmo tempo, combinaram medidas de controle mais firmes em suas fronteirasexternas; a partir daí foram assinados tratados incluindo a Itália (1990), Portugal (1991), Grécia (1992), Áustria (1995),Dinamarca, Finlândia e Suécia (1996), seguindo-se em 1997, a assinatura do Tratado de Direitos da União Europeia emSchengen, Luxemburgo. A Noruega, a Islândia e a Suíça permanecem fora da União Europeia. (NA).
  16. 16. re fugiad os que - ge ral ente em barcos de borracha - m pe rcorre ram 1 .200 quilôm e tros em m ar abe rto desde a África O cidental até a G rande C an ária ou Tene rife , s ão pessoas p rovenientes de países onde p redom inam condições que to rnam im poss íve l sua sobre vivência. Alguns de l fo ram desalo jad os por grandes p ro j tos es e de constru ção de re p resas, ou tros fogem de gue rras civis ou de cam pos de re fugiados, ou tros aind a saíram de m egalópo l com o Lagos, na Nigéria, onde três es m il ões de pessoas vivem em fave las , nas quais n ão h existe nem água encanad a, nem esgotos. Para escapar destas circunstâncias, e les contratam , m ediante o pagam ento de som as exorbitan te s, em barcações ap resentad as com o re bocadores e ad quirem lu gare s em barcos supe rlo tad os, na sua m aioria sem condições de navegação em alto -m ar e sem pe rspectiva de em preender a viagem de re to rno, m as ace itam m esm o assim o alto risco de n ão sobre vive rem à trave ssia." Apesar de tud o isso, som ente no ano de 2006, ce rca de trin ta m il destes im igran tes chegaram com vid a às C a- n árias, desem barcando aqui e ali e constituindo um s ério p rob lem a para as au to rid ades re spons áveis pe la seguran ça, sem esquecer que re p resentam igualm ente um p rob l a consideráve l para a ind ús tria do tu rism o. em O utros re fugiados p re fe rem atrave ssar o Estre ito de G ibraltar, que tem apenas 1 3 quilôm e tros de extens ão, m as n ão é m enos pe rigoso, devido às condições dom - i nantes d as ve lozes corre n tes m arítim as e ao denso trá fe go de navios pesados. Embora o n úm e ro dos fugitivos que chega a alcan çar as p raias espanholas e portuguesas do ou tro lad o do es tre ito n ão se j a corre spondente ao grande n úm ero de re fugiados re fe rid o acim a, via de re gra, a m aior parte de l é es devolvid a em quaisque r circunstâncias aos seus países de o rigem . N ão obs tan te , calcu la-se que, som ente em 2006, ce rca de 3.000 pessoas atingiram os pontos de desem barque. Aqui tam b ém se ap re senta a m encionad a FRONTEX, que exe rce um a atu ação d ire ta e vigorosa para e vitar "as te n tativas 9 de im igração ile gal em condições de pe rigo de m orte ". Um lugar nos barcos puxados pelos assim chamados rebocadores custa entre 2.000 e 4.000 euros. Este dinheiro é reunido pelas famílias dos refugiados e lhes é emprestado na esperança de receber eventualmente somas mais elevadas destes últimos, depois que se transfiram novamente e consigam empregos na Europa9afrikanische Odysee [O Sonho da Vida, uma Odisseia Africana], Frankfurt am Main, 2007. (NA). Conforme o site oficialhttp://www.frontex.europa.eu. (NA).
  17. 17. como trabalhadores imigrantes. Compare com KlausBrinkbãumer, Der Traumvom Leben. EineNinguém está interessado em saber os motivos quelevam estes refugiados a querer chegar à Europa aqualquer preço; ao contrário, a FRONTEX trabalhano sentido de obstruir totalmente estas rotasperigosas, determinando naturalmente as formas ideaispara a segurança das fronteiras, dificultando ao má-ximo a passagem pelas fronteiras externas nasproximidades da África, se possível impedindo deantemão que os refugiados cheguem a sair docontinente. Já emoutubro de 2004, o então ministro dointerior do Conselho Federal Alemão, Otto Schilly,apresentou a proposta de instituir acampamentos paraos capturados, a fim de realizar interrogatóriosdiretamente no local e sítio de captura, destinados ademonstrar se um pedido de asilo era justificável ounão." Esta ideia provocou o desagrado da maioria dosministros do interior dos demais países-membros e deuigualmente origem a fervorosos protestos da parte deorganizações para a defesa dos direitos humanos. Abus ca de outras soluções, e as correspondentesdiscussões entabuladas com a União Africanapermanecemtenazmente empacadas até hoje, enquantoos problemas de segurança nas fronteiras se agravame presentemente não existe qualquer alternativa, anão ser que se permita o ingresso livre dessa gente naEuropa. A situação dos enclaves espanhóis de Ceuta ede Melilla tipifica diretamente o problema, com asfronteiras sendo progressivamente reforçadas eelevadas, ao passo que os refugiados encontram meiosdesesperados de atra vessar as cercas - algumas vezesna forma de ataques em massa, como aconteceu emsetembro de 2005, quando cerca de oitocentas pessoasao mesmo tempo tentaram tomar de assalto afronteira.Enquanto isso, os países invadidos encontram alíviograças à criação de novas técnicas - como a cercaamericana na fronteira com o México, onde foiimplantado, além dela, um sistema de defesa no valoratual de dois bilhões de dólares, o qual, entre outrascoisas, capta por GPS a posição de potenciais in-vasores da fronteira, mostrada ao vivo nos laptops[computadores portáteis] das patrulhas mais próximasda polícia de fronteira. Espera-se que o número deilegais que atravessam a fronteira seja assimdrasticamente reduzido. So mente no ano de 2006,foram detidas um milhão e cem mil pessoas que tenta-vam atravessar essa fronteira. Emsetembro de 2006,
  18. 18. o Congresso am e ricano ap rovou o p lano de constru ção de um a ce rca e l trônica de alta te cno logia, com a e extens ão de 1 .1 25 quilôm e tros, na expectativa de apoiar o funcionam ento d as au to rid ades de seguran ça fron te iriça. A ce rca acabou re al ente por alcan çar m a extens ão de 3.360 quilôm e tros, m as aind a assim é atrave ssad a, em bora as m edidas tom ad as intim idem um grande n úm e ro de invasores pote nciais, especial entem porque a pe rm an ência nas te rras d a fron te ira n ão é de m odo algum dese j ve l, um a ve z que esta é com posta á na sua m aioria por zonas des érticas ou m ontanhosas; o cam inho m ais cu rto é de 80 quilôm e tros. Entre 1 998 e 2004, es ta trave ssia a p é p rovocou a m orte de 1 .954 pessoas. Tanto a Am érica do Norte quanto a Europa p re cisarão no fu tu ro es tabe l ce r de fesas m uito m ais e vigorosas, d iante do assalto assustador dos m il ões de h re fugiad os que, já se espe ra, se j im pe lidos pe las am m udanças clim áticas. A fom e, a falta de água, as gue rras e a dese rtificação africana causarão p ress ões incalcu láve is e p reocupações constantes nas fron te iras d as ilh as de p rospe rid ade fo rm ad as pe la Europa O cidental e pe la Am érica do Norte . O WBGU (Wissenchaftliche Beirat de r Bundesregie rung G lobale Um we ltve rãnde rungen [C onse l C ientífico do Gove rno ho Federal Alem ão para Consultas sobre as Modificações do Am biente G lobal]) afirm a que em seu con j unto "um bilh ão e cem m il ões de pessoas n ão h d isp õem atu al ente de qualque r acesso seguro a um m suprim ento de água potáve l em quantid ade e qualid ade suficientes". Es ta situação, tam b ém re lata, poderia "em ce rtas re giões do m undo, agravar-se considerave l ente , um a ve z que, devido às variações m clim áticas, deve rão ocorre r grandes oscilações no re gim e 10 chuvas e , conseq üentem ent no suprim ento de de e, água". Além disso, já existem ao redor do mundo cerca de 850 milhões de pessoas sofrendo de desnutrição; um número que, outrossim, em vista das previsões dos especialistas sobre as consequências das variações climáticas, tende a aumentar consideravelmente, na medida em que as terras cultiváveis ou as colheitas delas provenientes forem progressivamente diminuindo por uso excessivo e esgotamento. Os conflitos internos de10Wissenchaftliche Beirat der Bundesregierung Globale Umweltveränderungen [Conselho Científico do Governo FederalAlemão para Consultas sobre as Modificações do Ambiente Global] (WBGU): Welt im Wandel - SicherheitsrisikoKlimawandel [Mundo em Transformação - Variações Climáticas e Riscos de Segurança], Berlim/Heidelberg 2007 (noprelo [sie]); dados especializados e uma sinopse abrangente podem ser consultados no site da editora, emhttp://www.rhombos.de/shop/a/show/story/?l 106&PHPS ESSID=8398524d78686a29de09a62fe51342d3. (NA).
  19. 19. repartição de terras daí resultantes conduzirão a umaumento progressivo do risco da escalada deviolência, comas consequên cias correspondentes sobreo deslocamento de populações e migrações internas eexternas, por meio das quais o número dos assimchamados focos de emigração tenderá a umaampliação cada vez maior. As políticas dedesenvolvimento deverão, a partir deste pano de fundo,conforme propõe o Conselho Científico do GovernoFederal Alemão para Consultas sobre asModificações do Ambiente Global, ser compreendidascomo"uma política de segurança preventiva".As atuais medidas defensionistas nos dão uma previsãosobre o que irá transcorrer quando os fluxos derefugiados provocados pelas variações climáticas setornarem muito mais potentes. Os conflitos sobreespaço vital e recursos, provocados pelo aquecimentoda Terra, provocarão uma ampliação fundamental daviolência nas sociedades ocidentais durante aspróximas décadas. A FRONTEX é somente umaprecursora bastante modesta. Deste modo, asvariações climáticas não serão somente umacircunstância dos interesses políticos mundiais deurgência exclusiva no exterior, mas se transformarãono principal desafio social das sociedades modernas,porque as possibilidades de sobrevivência de milhões depessoas serão ameaçadas e estas serão levadas aempreender migrações maciças. Deste modo, surgirá apergunta inevitável sobre como se deverá administraras massas de refugiados que saírem dessas terras e sedeslocarem para os países desenvolvidos, simplesmenteporque não terão mais condições de existência ousobrevivência em seus países de origem e desejarãotomar parte das condições superiores prevalecentesnos paísesprivilegiados. Os OutrosAo norte do Sudão existe um deserto que, ao longo dosúltimos quarenta anos, se expandiu cemquilômetros emdireção ao antes florescente Sudão Meridional. Isto foiprovocado, inicialmente, porque as precipitaçõespluviométricas vêm diminuindo regularmente na regiãoe, por outro lado, pelo aumento descontrolado no usodas pastagens, pelo desmatamento das florestas epela consequente erosão do solo, que determinaram aesterilidade de grandes trechos dessa nação. Desde aindependência do país, cerca de 40% do total dasmatas do território foram inteiramente destruídas; no
  20. 20. momento atual, o desflorestamento das reservasrestantes se expande a um ritmo de 1,3%anual. Paramuitas regiões do país, o programa de controleambiental das Nações Unidas prognostica uma perdatotal das florestas no transcurso dos próximos dezanos.Os modelos climáticos da atualidade prevêem umaumento geral da tempe ratura no Sudão da ordem demeio grau até o ano de 2030 e de um grau e meio até2060; de forma oposta, o regimede chuvas irá diminuirmais 5% nesse período, com relação às precipitaçõesanuais do presente. Para as colheitas de cereais istosignifica um retrocesso da ordem de 70%aproximadamente. No Sudão Setentrional vivem aindacerca de trinta milhões de pessoas. A avaliaçãodestes números nos faz saber facilmente que este paísjá se encontra entre as regiões mais pobres do mundo;de forma semelhante, vem sendo submetido a ameaçasecológicas progressivas, além do fato de que há meioséculo vem sendo travada no Sudão uma guerra civil.Esta já provocou o deslocamento de cinco milhões derefugiados dentro deste país, as assim chamadas IDP(Internal Displaced Persons [Pessoas InternamenteDeslocadas]), que foram forçadas a abandonar suasaldeias por causa da expulsão sistemática pormilicianos. Eles não somente assassinam muitos, comoincendeiam as aldeias e até as matas, para impedir oretorno dos sobreviventes.A maioria dos "deslocados internos" vive emacampamentos de refugiados, que não dispõempraticamente de qualquer estrutura, sem energiaelétrica, sem esgotos, sem água encanada e semcuidados médicos. As necessidades alimentares são, emsua maior parte, garantidas por organizações deajuda internacional. Os moradores dos acampamentosjá destruíram toda a madeira utilizável emum raio dedez quilômetros ao redor; mas continuam precisando delenha para cozinhar suas refeições. A terra desnudaque os cerca é perigosa; muitas mulhe que saem em resbusca de lenha são estupradas e mesmo mortas.Naturalmente, não são simplesmente assaltadas,porque não têm nada que possa ser roubado.A província ocidental de Darfur apresenta o mesmoaspecto e talvez a situação por aqui seja ainda maisgrave, uma vez que se travam também operaçõesmilitares nas terras limítrofes dos países vizinhos, oChade e a República Centro-Africana. Em Darfur jáexistem cerca de dois milhões de "deslocados internos",a maior parte dos quais vive em acampamentos
  21. 21. desordenados que fo ram se es tabe l cendo ao re dor d as e cid ades e n úcle os populacionais re gu lare s. Em alguns lu gare s o n úm ero de habitan te s aum entou na o rdem de 200% , desde o in ício oficial d a gue rra em D arfu r. N ão se sabe exatam ente na Europa e nos Es tad os Unidos se , no p resente , ocorre nessa áre a um genocídio, m as se conve rsa bas tan te sobre isso. Entre duzentas m il e m eio m il ão de pessoas te riam sido m ortas desde o in ício h d a gue rra. O S ud ão é o p rim eiro caso de um país assolad o pe la gue rra que seguram ente te ve as variações clim áticas com o causa d ire ta para a vio lência e a gue rra civil. Até o p resente podem os considerar que as vio le ntas consequ ências d as variações cli m áticas fo ram som ent e ind ire tas em ou tras te rras , m as nesses países em que a p róp ria sobre vivência hum ana se acha am eaçad a, as m enores m odificações clim áticas acarre tam trem endas consequ ências. E no S ud ão estas m odificações n ão s ão absolu tam ente m enores. S ão causa d ire ta d a lu ta pe la sobre vivência. Em um país no qual 70% d a população vive no cam po e depende de l para seu alim ento, criase e um enor e p rob lem a quando as áre as de cu ltivo ou a m te rra fé rtil com e çam a encol r. O s pas to res n ôm ades he avan çam além de seus te rritó rios habituais, a fim de que seu gad o possa pas tar, jus tam ente nas á re as cu ltivad as pe los pequenos agricu lto re s, onde p lan tam ce re ais, hortali ças ou árvo re s fru tí fe ras para sua subsistência e a de suas fam ílias. Q uando os desertos se am pliam em virtude desse p rocesso, os pas to res n ôm ades necessitam d a te rra dos cam poneses e as invadem , de fo rm a aind a m ais destru tiva. Existe um a fron te ira crí tica, a partir d a qual os inte resses de sobre vivência som ente podem se r de fendidos pe la vio lência. Entre 1 967 e 1 973 e novam ente entre 1 980 e 2000 o S ud ão sofre u um a s érie de secas catas tró ficas - um a parte de cu j as consequ ências foi o desl ocam ento m aciço d a população de grandes áre as, enquanto m ilhares de pessoas m orre ram de fom e. N atu ralm ente , sob o m anto do desastre ecológico, ocorre ram ou tros num erosos conflitos , re al ente tão num erosos que m pe rtu rb aram a obse rvação de um dos piores panoram as na his tória d a vio lência, que foi posto de lad o e passou p raticam ente despercebido dentro do 11 quad ro ge ral. Isto não deve causar surpresa: desde 1955, com maior ou menor intensidade, variando de região para região e ocorrendo numa sucessão de11 Veja Gerard Prunier: Darfur. Der uneindeutig Genozid [Darfur: O Genocídio obscuro], Hamburgo, 2006. (NA).
  22. 22. p rovíncias, grassa um a gue rra civil que dura m ais dem eio s écu lo. Apenas entre 1 972 e 1 983 houve um a fasede arm istcio frágil e inconstante . Em 2005 foi íassinado um tratad o de paz, desde o qual re al ente mn ão se lu tou m ais no S ud ão Me rid ional. Mas desde2003 pe rm anece um a gue rra vio le nta na p rovíncia deD arfu r, no S ud ão O cidental. A situação p rovocad ape lo conflito é desastrosa para a população, m esm oque n ão nos lem brássem os de d ize r um a s ó palavrasobre a escassez de água potáve l, a catás tro fe doavan ço d as are ias, o envenenam ento causado pe losesgotos a c éu abe rto, os crescentes dep ósitos de lixoao ar livre e a destruição am biental causad a pe laexpans ão d a ind ústria pe tro le ira. Existe um a re laçãod ire ta entre as variações clim áticas e a gue rra. Opanoram a do S ud ão é a vis ão de nosso fu tu ro. O O cidente IITam b ém nas te rras ocidentais ocorre um alvo ro çop rovocado pe las variações clim áticas e suasconsequ ências, desde o com e ço do ano de 2007, quandoos três re lató rios do IPCC (In te rgove rnm ental Pane lon C lim ate Change [Paine l In te rgove rnam ental sobreas Modificações C lim áticas]) fo ram pub licados.Tam b ém existem d iscuss ões no que se re fe re aoapare cim ento de cen ários globais m ais som brios: porenquanto, sabe -se que exis tem re giões do m undo quegozam d as van tagens do aquecim ento global, porqueas m udanças d as condições clim áticas de fatom elhoram seu am biente , do m esm o m odo que suaatração tu rís tica. Nas cos tas alem ãs do Mar doNorte , por exem pl os donos e adm inistrad ores de o,hotéis se ale gram com esse aquecim ento; os te rritó riosadequados para a p lan tação de vinhedos es tão seam pliando p rogressivam ente em d ire ção ao norte . O 14Re lató rio S te rn, que comparou os custos de umaumento irrefreado da temperatura com os custosnecessários para interromper o processo deaquecimento global, indicou que o primeiro motivo depreocupação, quando relacionado ao segundo, poderáabrir horizontes econômicos inteiramente novos paraos países dotados de alta tecnologia. Sir NicholasStern, antigo economista-chefe do Banco Mundial,havia assinalado que os custos de um aquecimentoclimático mundial incontido exigiriam de 5% a 20% darenda mundial per capta, e o percentual mais elevadoseria o valor mais provável. Contra isso, o custo deuma estabilização das emissões de dióxido de carbono
  23. 23. na atm osfe ra até o ano de 2050 cus taria som ente 1 %do p roduto social b ru to, valo r pe rfe itam entecom patíve l com o crescim ento econ ôm ico norm alduran te esse m esm ope ríodo.N atu ralm ente , h á consideráve is d ife ren ças, de acord ocom o ram o específico d a econom ia - os fo rne cedores deene rgia re nováve l te riam grandes lu cros, enquanto aind ústria dos esportes de inve rno, com o as estações deesqui, se ria p re j icad a. Mas no con j ud unto have ria oin ício im ediato de um a m odificação d as po lí ticasclim áticas que constituiria um a oportunid ade econ ôm icapara o O cidente. A d im inuição dos gas tos com ap rodu ção de ene rgia, induzid a pe la inven ção deapare lhos e m étodos de tod os os tipos para pouparene r gia, com o a ad o ção de ve ícu los h íb rid os, íbiocom bustve l, chapas de co le ta de ene rgia solar, em uitos m ais, constitui um a p rom essa para o fu tu ro. Jáse fala sobre a Te rceira Revolu ção Industrial, aom esm otem po em que se esquece que fo ram a P rim eira ea Segunda as causas o riginais dos p rob l as atu ais. emAs cid ad ãs e cid ad ãos dem onstram a aquisição de um aconsciência am biental, de aco rd o com a qual n ãoque rem m ais viajar em ve ícu los aé re os, com boasraz ões m istu rad as com ou tras m ás. As re fle x ões sobreas variações clim áticas conduzem a re açõesinespe rad as. O s m otoris tas p re fe rem m ode l m ais fo r- oste s, com o aque l que e ram p roduzidos original ente , es mporque a época dos ve ícu los te rre s tre s de alta 15potência com doze cilind ros e 500 HP já passou. Osassim chamados "fundos climáticos" e "fundospermanentes" são anunciados com o argumento de quesão formados por ações de companhias ativamenteinteressadas na retificação climática e que são mais"permanentes" que todo o desenvolvimento conjunto domercado. "Os poupadores privados que investiremnestes fundos não somente obterão lucros financeirospor meio das variações climáticas, como terãoigualmente a consciência tranquila de que estãotomando alguma espécie de ação para contrariá- 16las."O que demonstram estes exemplos? Eles assinalam aadaptação das pessoas diante das transformaçõesambientais globais. Mas devemos compreender que, defato, tais adaptações absolutamente não se baseiamem modificações comportamentais, mas podem sersimplesmente o efeito de uma transformaçãoperceptual dos problemas existentes. Há pouco tempo,foi publicado um estudo referente à maneira como ospescadores encaram o problema da constante
  24. 24. diminuição dos peixes no Golfo da Califórnia. Apesarde ser perceptível a considerável diminuição dapopulação de peixes correspondente à pesca pre-datória nas regiões costeiras do golfo, verifica-se quequanto mais jovens são os pescadores, menos sepreocupam com a diminuição do número de peixes. Di-ferentemente de seuscolegas mais velhos, eles não têmexperiência direta sobre a quantidade e a variedadedas reservas de pescado que antigamente podiam ser 17capturados nas proximidadesdas áreas costeiras.Podem - e conside rar os p rob lem as vindouros com o sale ató rios, com o possibilid ades vagas e d istantes oucom o pe rcep ções irris órias e , desse m odo, estabe l ce r- ese o p róp rio com portam ento de fo rm a contrá ria a es taposição afirm ativa de pe rigos d ifusos. Em seu p resentem odificado, os investidores se com portam com o osjo ve ns pescadores d a C alifó rnia m e ridional m exicana,cu j as pe rcep ções parciais deste p resente s ãode fendidas contra opiniões d issonantes e conside rad ascom o dependent es de num erosas possibilid ades efato re s,que e les m esm os tratam de fo rm a sim plificad a.Logo lhes pare ce te rem um a consciência suficiente dop rob l a, d iscord ando quando algu ém lhes suge re que emo tratam de fo rm a ind ife rente ou sem im portância ouaté m esm o o encaram com o um a p reocupação semsentido. Mas é a fo rm a norm al com o as pessoas agem ,focalizando os p rob lem as e descurando de suas causaso riginais.Tod avia, é necess ário com preenderque a conside raçãode um p rob lem a e seu p róp rio com portam ento comre lação a e l s ão coisas bem d is tintas , que n ão se eacop lam natu ralm ente um a a ou tra, se é que têmalgum a conexão m útu a. Um a conside ração pode se rfacil ente abandonada de aco rd o com a situação, mconform e as expe riências d a re alid ade im ediata e ascondições concre tas de afas tam ento, enquanto asações, via de re gra, s ão executad as sob p ress ão edependem de necessidades situacionais específicas - e épor esse m otivo que as ações d as pessoas s ão comfre qu ência fe s te j as, ao m esm o tem po em que suas adopiniões s ão contes tad as. É in te ressante notar que s óm uito raram ente as pessoas encontram d ificu l ade em dinte grar es tas contrad ições. As pessoas com param seucom portam ento com com portam entos aind a piores deseus sem el hantes e encontram nessa m ol dura m otivospara conside rar a p rob l ática inte ira com o emrid icu lam ente sem im portância ou descartá-la com ou ltra passad a, a fim de se in te ressarem por novasconsiderações fu tu ras . Todos estes m ecanism os
  25. 25. psicológicos se rvem para re duzir a d issonância entreos pontos de vis ta m orais que de fendem e as atitudes 18concre tas que assum em .Tais reduções da dissonância cognitiva não sãotriviais; podem ocorrer igualmente no contexto desituações extremas, por exemplo, quando pessoas sãoordenadas a matar outras pessoas e sentem dificuldadeem cumprir a ordem, porque esta tarefa interfere comsua autoimagem moral. Eu procurei demonstrar, em umestudo sobre assassinatos em massa durante guerrasde extermínio, como estes homens conseguem conciliar a 19matança com sua própria moral. Eles precisam,enquanto estão ainda orientados para um planointerior de referências mentais, impedir o surgimento dequaisquer dúvidas quanto à necessidade e justiça desuas ações.Estes homens se reúnem em bandos de extermínio, longede suas comunidades e grupos sociais habituais e, apartir de então, se estabelecem determinadas normas,dentro das quais comprovadamente se desenvolvemcomportamentos mútuos e temporários, através decujas barreiras nenhuma crítica externa podepenetrar. Eles se comportam no âmbito de situações 20"totais", para as quais a heterogeneidade social setorna o ambiente cotidiano comum, dentro das quais ospapéis costumeiros, os contatos sociais e as exigênciasnormais são corrigidos ou as situações conflitantesinfluenciadas umas pelas outras. Os próprios assas-sinatos se transformam em simples tarefas,consideradas necessárias, que os homens executam comconsiderável dificuldade, porque matar pessoasindefesas, especialmente mulheres e crianças, étotalmente contrário à auto-imagem que haviampreviamente construído. Realmente, é apenas quandoconseguem pensar em si mesmos como pessoas forçadasa cumprir uma tarefa penosa, que eles se percebemobrigados a realizar, eles conseguem conciliar suaauto-imagem básica de "bons rapazes" com seu 21trabalho pavoroso. O motivo pelo qual aqueles quehaviam executado durante a guerra passadararamente desenvolvia sentimentos de culpa e amaioria deles simplesmente conseguiu integra-se nasociedade alemã do pós-guerra sem grandesdificuldades.O fato é que a característica que mais claramente sedestaca, por deprimente que isso seja, é que quemcometeu ações diretas em conexão com os massacres daguerra, via de regra, não desenvolveu qualquersentimento de culpa pessoal pelo que fez, mas em geral
  26. 26. representa seus atos como realizados contra aprópria vontade e contrariamente a seus própriossentimentos, porque nos campos de batalha eraforçado a fazer coisas pavorosas, cuja realizaçãolhes causara também grande sofrimento. Podemosencontrar aqui tambémvestígios da ética himmlerianada Anständigkeit ["decência" ou "decoro", no sentido 22romano] que, na mesma época, não somente eracorrente, como tornava possível a realização dessescrimes, fazendo com que seus autores se considerassemcomo pessoas que tinham de aguentar os aspectosdesagradáveis de seu trabalho e sofressem por causadisso. A leitura de seus depoimentos no pós-guerramuitas vezes nos impressiona pelo aparecimentoconstante desta autodefesa biográfica inquebrantávele incontestavelmente coerente.Tais exemplos assinalam atitudes de violência extrema,para cuja influência sobre o comportamento depessoas em situações concretas, em princípio, não sãodecisivas as próprias situações concretas em que seencontrem, mas sim a maneira como tais pessoas aspercebem e suas interpretações individuais de taispercepções. Primeiro a interpretação conduz a umaconclusão e esta, por sua vez, determina ocomportamento. É deste modo que surgemcomportamentos que, externamente, parecemirracionais, contraproducentes ou sem sentido; contudo,para aqueles que os manifestam, parecem altamentesignificativos, mesmo quando lhes causam remorsos ouos prejudicam diretamente. Foi deste modo queMohammed Atta encarou o choque dos dois aviõescontra as Torres Gêmeas ou quando o terroristaHolger Meins, da chamada RAF (Red Army Fraction[Fração do Exército Vermelho]) se decidiu a fazergreve de fome até morrer na prisão. As imagenshumanas super-racionalistas, sobre as quais sebaseiam tantas teorias comportamentais, nãotêmlu gar para es tas fo rm as de R acionalid adeParticu lar. S om ent depois que se pesquise com o as epessoas pe rcebem a re alid ade é que se podecom preenderpor que as conclus ões p roduzidas por taispe rcep ções - contem plad as exte rnam ente - pare cemse r to talm ente bizarras .Talve z tam b ém se j p rove itoso exam inar com m ais abom - senso a situação particu lar que n ão pe rm ite aalgu ém entre te r a m enor d úvid a sobre com o deve ráp rocede r, um a vez que num erosas sociedades nosp róxim os anos ou d écad as deve rão enfre ntar um
  27. 27. 12 co lapso p roduzido pe las m odificações clim áticas e que este deverá modificar radicalmente as condições de vida para todas as pessoas envolvidas, uma coisa em que, por outro lado, ninguém realmente acredita. Esta forma irritante de "cegueira apocalíptica" (segundo a expressão de Günter Anders) depende da singular capacidade das pessoas de não se deixarem demover de seus comportamentos habituais, uma linha de conduta firmemente alicerçada, em que se prendem as mais importantes cadeias da complexidade dos procedimentos modernos ou da irresponsabilidade percebida para com as consequências de suas ações. Zigmunt Bauman denominou este fenômeno de "adiaforização", isto é, a dissociação entre a personalidade e sua responsabilidade pelos comportamentos apresentados 24 durante a execução de um trabalho. Deste modo, um pressuposto para poder administrar a responsabilidade constitui, por exemplo, que todos os parâmetros para um determinado comportamento sejam conhecidos. Nas sociedades modernas, funcionalmente diferenciadas, com suas longas correntes comportamentais e sua complexa interdependência, em princípio é difícil conhecer os detalhes mediatos que a elas conduzem, o que se perde das consequências das ações e, portanto, aquilo que pode ser praticamente responsabilizado pela orientação de nossas próprias ações. Claramente estamos sujeitos, neste sentido, aos efeitos de institui- ções como a Justiça, as Instalações Psiquiátricas, os Escritórios de Consultoria etc., que têm a função de moderar e regular tais comportamentos e ações -cada um deles com sua própria dialética, de Lai modo que também aqui os processos fazem parte de um trabalho, que pode ser deste modo conduzido,conform e a fo rm u lação de Heinrich Popitz, para a anu lação d a re sponsabilid ade dos trab alh ad ores inte rm ediários, "na fo rm a fatal d a n ão-depend ência do que (usual ente m liga) as pessoas entre si nas situações re fe re ntes a seu tra balho. Am bos os fato re s (n ão-re sponsabilid ade e n ão-depend ência) conduzem sem d ificu l25ade aos d excessos de indolência que tod os conhecem os." O problema dos desvios da responsabilidade surge assim dos processos de modernização da sociedade e constitui, até certo ponto, o preço do desenvolvimento contínuo12 23 Para este prognóstico não faz diferença se presentemente se assume um ponto de vista antropogenético sobre aorigem das variações climáticas ou se estamos lidando com uma oscilação climática "natural". A resposta desta questãodiscutida é relevante no que diz respeito às estratégias político-ecológicas sobre a redução das emissões de dióxido decarbono etc., mas não para as composições de diferente teor que se referem às consequências sociais e políticas dasvariações climáticas e é neste sentido que a estamos tratando. (NA).
  28. 28. e d a re criação de tais ins tituições - a re sponsabilid adetrans fo rm ad a em com petência e a trans fo rm açãoau tom ática desta em n ão-com petência. Porém , talve zaind a m ais grave se j que as pessoas som ente podem aassum ir re sponsabilid ade enquanto existe um acontinuid ade tem poral entre as ações e asconsequ ências dessas m esm as ações, que lhes pe rm itaum re conhecim ento re c íp roco de re sponsabilid ade.Enquanto lid am os com causas line ares e asconsequ ências d ire tas de seu desenvolvim ento, desde quese m anifes tem duran te a vid a dos ato re s envolvid osnas ações que p rovocaram as causas e que n ãosurjam ap ós tal pe ríodo, tais re conhecim entos s ãoposs íveis, enquanto e l aind a estive rem su j itos às es edecis ões d as corte s de jus ti ça in te rnacionais, com o foio caso dos s érvios, que re al ente n ão chegaram a mre alizar o exte rm ínio dos b ósnios m u çul anos, porque msurgiu a pe rcep ção de que deve ria se r re alizad a um ainte rven ção an tes que esse exte rm ínio se consum asse.O utros exem pl podem se r encontrad os na esfe ra do osd ire ito com ercial, que de te rm ina a re sponsabilid adepe la vend a de p rodutos d anificados, no d ire ito penal enas decis ões re fe re ntes às com panhias seguradorase tc. Em tod os estes casos se ponde ra de que m aneiraalgu ém é re spons áve l pe la causa inicial d asconsequ ências de um a ação e até que ponto asconsequ ências d a re fe rid a ação pode riam te r sidoan te cipad as.Mas o que aconte ce nesta áre a p rob lem ática, quandofica pe rfe itam ente es tabe lecido quem foi ou fo ram oscausadores o riginais de um a de te rm inad a ação e desuas consequ ências, porém d ito ou d itos ato re s n ãopode rão se r re sponsabilizados porque n ão seencontram m ais entre os vivos? Na á re a do d ire itocom ercial es te p rob l a já foi re solvid o pe la em 26re gu lam entação do ins titu to do d ire ito sucess ório,que não vige na área cível, a qual rege os processoscontra cidadãos particulares. Mas este é apenas oaspecto mais suave do problema. A coisa se tornamuito mais complicada quando estamos procurando ascausas iniciais das variações climáticas que deramorigem aos problemas assinalados no presente, asquais se localizam no mínimo há meio século e que asituação das pesquisas sobre as ciências naturais daépoca absolutamente não tinha condições de prever. Eo problema, em seu conjunto, se torna ainda maisintrincado quando as estratégias de intervençãocontra as consequências das ações não antecipadasnaquela época ainda são altamente discutíveis e
  29. 29. inseguras no presente, sobretudo porque não se podedeterminar quais consequências temporais nos poderãotrazer em um futuro distante. Aqui o relacionamentode uma sucessão temporal entre os com portamentos eas consequências de tais comportamentos é deextensão tal que abrange várias gerações e, destemodo, só pode ser estabelecido median a intervenção tedas ciências. Ainda não existemexperiências concretase cuidadosamente planejadas para a determinação dasmotivações das ações passadas e isto constitui umobstáculo, do mesmo modo que não seria contribuiçãosuficiente para o cálculo das responsabilidadesde pelomenosuma parte dos problemas que enfrentamoshoje.Logicamente não se podeesperar de tais experiências aconclusão de que se possa atribuir a uma pessoa quetenha vivido quarenta anos até 2007 aresponsabilidade de um problema cujas causastemporais se localizam inicialmente antes de seunascimento e cujas soluções serão encontradas de poisde sua morte, uma vez que tal pessoa não poderá tertido influência direta nemsobre as causas iniciais nemsobre as soluções do problema. Mas, de formasemelhante, pode-se esperar dessas pessoas umcomportamento atual responsável perante osproblemas esperados e provocados no presente e seapresenta finalmente a pergunta sobre se estaspessoas podem ser responsabilizadas por taisproblemas futuros no sentido tradicional da figurajurídica e, em caso afirmativo, de que maneira oestabelecimento de tal responsabilidade poderá serencarado.Esta pergunta tem considerável alcance para a vidapública de uma nação: pois o que significa odesmoronamento do cálculo temporal de um relaciona-mento de causa inicial e suas consequências para aevolução da consciência política e para a decisãopolítica final? Mais ainda: qual influência tem a acei-tação da irresponsabilidade, ou seja, comoperceberemos as consequências sociais determinadaspelas variações climáticas e suas possibilidades desolução? Indo um pouco mais adiante: quais soluçõesconsideraremos possíveis no presente que hoje não nospareçam totalmente impensáveis? EmBusca de SoluçõesNo primeiro terço do século 18, quando ninguém aindaconseguiria pensar que, duzentos anos depois, os ideais
  30. 30. de p rogresso, racionalid ade e e ficiência queassinalaram a época então cham ada de "m ode rna"viessem a se r ap licad os ao genocídio industrial,Jonath an S wift desenvolveu um conceito sobre a m a-neira com o o em pobrecim ento p rogressivo do povoirland ês pode ria se r contid o. Se fosse seguida ap roposta de S wift, os filh os dos pobres n ão m aisp re cisariam partilh ar com seus pais um a exis tênciadesesperad a de fom e, roubo e m endicância, um a cargaque te rm inava por re cair sobre o re ino; de fo rm aoposta, e les "pe lo re s to de seus d ias n ão sentiriamfalta de alim ento nem de ves tu ário, ao contrá riopode riam d ar em troca um a contribuição para a nu tri -ção e , de fo rm a sem el hante , para o ves tu ário dem uitos m il hares". A tare fa que S wift p ropunhare p resentaria um a solu ção, e e l ilus trava sua ep roposta com d ados es tatís ticos sobre o crescim entoconstan te d a ind igência entre a população, porquecad a crian ça corre spondia a um ce rto d isp êndioecon ôm ico popu lar e p roduzia um a com pensaçãodesproporcional ente in fe rio r aos gas tos incorrid os mpara seu desenvolvim ento.Es ta e ra a solu ção p roposta: "D esta fo rm a, ofe re çohum il ent esta p roposta à consideração p úb lica, dem econsiderando que, d as cento e vin te m il crian ças que jápudem os calcu lar, vin te m il se j re se rvad as para a amre p rodu ção, d as quais som ent um quarto deve rá se r do esexo m asculino, m ais do que pe rm itim os às ove lhas, aogado vacum ou aos porcos; e a m inha raz ão p rincipal éa de estas crian ças raram ente se rem o re su ltad o deum casam ento le gal, um a circunstância que n ão re cebegrande conside ração d a parte de nossos se lvagens;portan to, um m acho deve se r suficiente para se rvirquatro fêm eas. As re s tan te s cem m il crian ças, quandoatingirem um ano de id ade, podem se r ofe re cid as àvend a a pessoas de qualid ade e fo rtuna através dore ino, m otivo pe lo qual as m ães se rão aconse l as a hadam am entar cuid adosam ent os filhos durante o ú ltim o em ês, de tal m odo que as crias se to rnem gord as efo rte s , ap rop riad as para um a boa m esa. Um a crian çasignificará dois p ratos para re fo rçar um a re fe içãoentre am igos e , quando a fam ília se alim entar sozinha,os quartos d iante iros e trase iros constituirão um p ratorazo áve l; tem pe rados com um pouco de sal e pim entapode rão se r cozidos ao quarto d ia, com o m esm o gosto 27de carne de pane la, especial ente no inve rno." mA seguir, Swift apresentou uma longa lista dos efeitospositivos de sua proposta, acrescentando que ascrianças poderiam ser empregadas como matéria-
  31. 31. p rim a para o com ércio, a gas tronom ia e a ind ús triacu rtid ora. E e le conside rou questões de cará te r m oral- argum entando que pode riam e vitar os abortos e oinfan tic íd io - que pudessem se r le van tad as contra suap roposta. No final de sua d isse rtação, S wift re sum iu:"G aran to, com tod a a since rid ade de m eu coração, quen ão te nho o m enor in te resse pessoal em m eu esforçopara p rom ove r es ta obra necess ária, n ão te ndo ou trosm otivos sen ão o bem - tar do povo de m inha nação, o esdesenvolvim ento de nosso com ércio, a p reocupaçãope lo destino d as crian ças pequenas, o alívio d apobreza e o p roporcionam ento de um ce rto p raze r paraos ricos. N ão d isponho de quaisque r filh os pe los quaispossa ob te r um único centavo através d a ad o çãodesta p roposta; o m ais jo vem já tem nove anos e m inhaesposa já passou d a época de te r filhos."A "m odesta p roposta" é, sem d úvid a, a m e l horconhecida d as s átiras de S wift e , de fato , se re fe reabe rtam ente ao desenvolvim ento de um a p roposta quepare ce ria to talm ente im pens áve l a partir dosposicionam entos m orais b ásicos d as nações ocidentais.C om sua p rova científica d a racionalid ade dosassassinatos em m assa, apoiad a em estatís ticasm ate riais e flanquead a por ponderações m oralís ticas,S wift lan çou um o lh ar sobre um fu tu ro em que o ju ízoins trum ental re duziu cad a posicionam ento m oral a um acate goria m ínim a que, se necess ário, pode se rvirsom ente à au to j tificação d as ações, m as que n ão usestabe l nenhum abarre ira para a desum anidade. eceA his tória dos tem pos m odernos já m ostra um a boaquantid ade de solu ções rad icais para enfre ntar osp rob l as sociais pe rcebidos; até que consequ ências emesta te nd ência pode chegar é pe rfe itam enteassinalad o pe la "S o lu ção Final do P rob lem a Jud aico",em basada no aniquilam ento dos jud eus e , atravésdeste , ob tendo a anu lação d a "questão j aica". A udpartir de quanto podem os ap rende r com os casosre centes d a Turquia, d a Alem anha, do C am boj d a a,China, d a Iugos lávia, de Ruand a e de D arfu r ouatravés do vas to cam po m und ial do em prego d a 28"lim peza é tnica", soluções radicais constituemsempre uma opção, mesmo nas sociedades democráticas,em que tais processos mortíferos não são facilmenteencarados como negações das condições de proce-dimento "normais", mas interpretados como "casosespeciais".Os poucos cientistas sociais que buscam inverter estaperspectiva e apresentam a questão do que realmentesignificam os fenômenos de catástrofe social para a
  32. 32. Teoria d a S ociedade s ão ge ral ente m arginalizad os e mpe rm anecem sem in flu ência científica em grandeescala. Is to vale para os racioc ínios filos óficos, com oos de G ünte r Ande rs ou H annah Are nd t, e igual entempara as conside rações sociológicas de Norbe rt E lias eZygm unt Baum an. A sociologia d as catás tro fe sencontra facil ente entrad a nos conceitos de de fesa md a pátria, m as n ão acha nenhum apoio na constru çãod as te o rias sociológicas. D entro d a te o ria d a his tóriaas te o rias d as catás tro fe s s ão escassas, m esm o nop resente , do m esm o m odo que no cam po d a te o riapolí tica.D este m odo, as catás tro fe s sociais do s écu lo 20dem onstraram , com tod a a clare za, que as lim pezasétnicas e os genocídios n ão constituem exce ções nasenda norm al d a m odernid ade, m as ao contrá rio,pe rm anecem com o possibilid ades sociais dentro d ae volu ção d as sociedades m odernas. P rocessos sociaiscom o o Holocausto n ão devem se r encarad os com o"rom pim entos d a civilização" (D an D ine r) ou com o"re to rnos ao barbarism o" (Max Horkheim er e TheodorW. Ad orno), m as an tes com preendidos com oconsequ ências de experi ências contem porâneas parare s tau ração d a ordem e re so lu ção do que s ãope rcebidos com o p rob lem as sociais. Real ente , com o mdem onstrou Michae l Mann, por m eio de um a vo lum osapesquisa, as lim pezas é tnicas e os genocíd ios es tãointim am ente ligad os aos p rocessos de m odernização,m esm o quando, em contraposição ao que pare ce se rum a vio lência arcaica, s ão ap resentados sobaparência bem d ive rsa. Is to vale para um a an álise dote rro rism o is lâm ico, que re p resenta um a re ação àm odernid ade, m as à qual está intim am ente liga do,m esm oque de fo rm a negativa.Zygm unt Baum an, em suas pesquisas sobre a "d ialé tica 29d a ordem ", explicou por que o Holocausto não seencontra em uma posição sistematicamente contráriaaos postulados das ciências sociais: em primeiro lugar,porque, observando todos os eventos da históriajudaica, mesmo quando considerados como um problema 30da patologia da modernidade, eles constituemsituações normalmente manifestadas pela condutasocial externa ao grupo; em segundo, porque o Holo-causto não foi mais que uma síntese infeliz de fatoresfunestos a ela associados, os quais - cada um delestomado em si mesmo - não constituíam em absoluto situ-ações estranhamente aberrantes e que, via de regra,eram enfraquecidos e diluídos pela ordem social. Destemodo, a sociologia tranqüilizou-se e, portanto, não
  33. 33. seesforçou para m ante r sis tem aticam ente em m ira oestudo do Holocausto. Is to significa, até ce rto ponto,que o aniquilam ento industrial de m assas hum anas foium "caso de te s te " para a obse rvação do potenciallate n te d a m odernid ade, com o nova info rm ação sobre am aneira com o e ra com posta e sobre o destino de seusm ecanism os de desenvolvim ento. Baum an constatouassim a existência de um "p arad oxo": pois o p róp rioHolocausto fo rne cia m ais info rm ações sobre a condi-ção d a sociologia "d o que e ram capazes asinte rp re tações sociológicas an te rio res para oesclare cim ento31 d as condições do re fe rid oHolocausto". Logo a seguir, ele afirmou que oHolocausto deve ser encarado como a construção deum campo de ensaio sociológico, dentro do qual ascaracterísticas das sociedades modernas seriamlibertadas, "cujos efeitos não tinham sidoanteriormente observados e demonstrados de forma 32empírica, senão em condições não-experimentais".Hannah Arendt insistiu firmemente que o carátersistemático da teoria da sociedade das instituiçõesmodernas era demonstrado pelos 33 campos deconcentração. A existência dos campos assinala queas sociedades totalitárias e a dinâmica da violênciasocial originam novos comportamentos, estabelecidosdentro de sua racionalidade peculiar, queexternamente parecem sem sentido ou totalmenteinsanos, mas que, segundo a perspectiva dos própriosatores, podem estar ligados intimamente a seussistemas de percepção. Tais sistemas particulares depercepção não são examinados nem contestados pelosinstrumentos de aferição do significado de que dispõemas ciências sociais, uma vez que são orientados por ummodelo de comportamento racional.A ciência da história encontra aqui um problemaparticular, porque em retrospecto se abrempossibilidades interpretativas que não eram possíveisnessa época. Consideradas historicamente, dão motivospara a ciência histórica ser orientada para conceitosde abrangência filosófica, que sejam "encarados comuma compreensão simpática e observados à luz dasposições culturaishistóricas anteriores" e que "suaseconomias sejam relacionadas a uma compreensão dahistória idealística e otimista com relação ao 34progresso da cultura." Este conceito da compreensãose evidencia, em presença dos delitos sociais modernoscomo inadequado, porque confronta uma realidadeincompreensível dentro de um sentido convencional.
  34. 34. As Mortes têm SentidoA política de aniquilamento do nacional-socialismoconstitui uma variante dos morticínios da guerracolonial, porque ampliou grandemente seu âmbito, nosentido de que todas as pessoas definidas comosupérfluas ou nocivas não somente deveriam serremovidas, mas que a política violenta de extermíniodeveria ser realizada com um máximo deaproveitamento: "a Extinção por meio do Trabalho".Através da construção de gigantescas instalações deprodu ção subterrâneas, por exemplo, para afabricação de foguetes de transporte de bombas V-2ou de aviões de combate Messerschmitt-262 depropulsão a jato, por exemplo, os prisioneiros eramtratados de maneira tão radical, que sua expectativamédia de sobrevivência após serem transportadospara esses assim chamados campos de trabalho era deapenas alguns meses. Os trabalhos forçados eramaplicados ao mesmo tempo como exploração dasenergias e meio de extermínio, porque havia umsuprimento constante de novas pessoas que deveriamser levadas a trabalhar até morrer.Esta política se enquadrava abertamente noplanejamento e execução de um sistema que, mutatismutandis, significava claramente Trabalhar até Mor-rer. O extermínio por meio do trabalho deveria serorganizado técnica e logisticamente; para a montagemde um campo de trabalho, a administração deviaprovidenciar a construção de barracões para osprisioneiros, o que implicava instalações sanitárias,alojamentos individuais [para os guardas], meios detransporte, energia elétrica, água, encanamentos,carros de transporte de materiais etc. Noplanejamento e instalação da infra- estrutura para aaniquilação por meio do trabalho, o próprioaniquilamento assumia para os engenheiros earquitetos a forma de umtransporte de matéria-primapara uma fábrica, com todos os seus aspectos deprofissionalismo e busca de eficiência, como seestivessem trabalhando em quaisquer outrascircunstâncias de suas profissões. O formato de umtransporte de matéria-prima aplicado aos quedeveriam ser mortos também era encontrado naorganização dos assassinatos maciços que, em algumponto do ano de 1941, foram empreendidospor trás dasfrentes de combate em constante expansão pelosterritórios conquistados aos russos. Também aqui seencontrava uma normalização completa dos
  35. 35. assassinatos, igual às técnicas empregadas comrelação ao que era percebido como trabalho a serrealizado pelos prisioneiros e a necessidadede soluçõesprofissionais para os problemas que - como emqualquer outra fábrica - surgiam durante a exe cuçãodas tarefas conjuntas, mesmoque fizessemparte de umsistema de genocídio sistemático. Este era um processode divisão de trabalho, de tal modo que ninguém sepercebia diretamente como homicida, nemque as mortesfossem consequência direta de suas ações, até mesmopelo fato de os assassinatos seremrealizados de formadistanciada - comoas câmaras de gás.De fato, dentro dos parâmetros da guerra deextermínio movida pelo nacional-socialismo, as mortesse enquadravam no que era percebido pelos executorescomo uma completa racionalidade, de tal modo quepodiam interpretar todos os seus atos como arealização de um trabalho igual a qualquer outro,mesmoque fosse "um trabalho desagradável", emcujaexecução eles mesmos sentiam pade cimento, como sefossemoutras tantas vítimas. A carga emocional queeste tra balho percebido como necessário acarretavapara seus executores era - conforme foi dito - umtemapermanente dos discursos de Heinrich Himmler, do mesmomodo que nos depoimentos posteriores dosperpetradores. Eles realmente se permitiam sentir essesofrimento, porque de forma alguma se percebiamcomoassassinos, nem durante a execução dos morticínios,nem mais tarde, no período do pós-guerra. Eles seachavam emposição de incluir suas ações dentro de ummodelo referencial que para eles fazia perfeitosentido. Esta capacidade de obter um modeloreferencial significativo - eu mato para atingir umalvo mais elevado, eu mato por amor das próximasgerações, eu mato de forma diferente dos outros,porque este trabalho não mecausa a menor alegria -é o modo psicológico em que se inserem as pessoasatravés da capacidade referida para fazerem coisasinconcebíveis, para simplesmente fazerem qualquercoisa imaginável; os atos humanitários, ao contrário,não são impostos por nenhum talento ou instintoparticular de repressão da capacidade de consciênciados seres vivos.As pessoas existem dentro de um universo social, nointerior do qual real mente têm a capacidade de fazertudo quanto for possível. Não existe nenhum limitenatural ou de qualquer outra ordem para oscomportamentos humanos como nos indica a presente e,cultura dos atentados suicidas, não existe sequer o
  36. 36. limite de preservar a própria vida. Deve-se, portanto,considerar apenas como folclore a afirmação de queos instintos caçadores dos homens despertam quandosentemcheiro de sangue, o que os leva a amotinar-se ea agir como matilhas de cães, com a afirmaçãoconvincente de que isto seja até mesmo um dado an-tropológico. Ao contrário, a violência tem formatossociais e históricos específicos e encontra sua 35explicação emcontextos igualmente específicos.D entro d a ideol ogia nacional-socialis ta os m ortic íniostinham significado por se enquad rarem no contexto deque conduziam a um alvo supe rior, a sabe r, auxiliar napurificação racial d a sociedade que deve ria assum ir odom ínio do m undo. A rapidez do desenvolvim ento d astécnicas de genocídio conduziu a um d istanciam ento e àdescarga d a re sponsabilid ade pessoal pe la vio lência -em lu gar de fuzilam entos em m assa, havia um aindustrialização do exte rm ínio; os assass ínios n ão e ramm ais com etidos pe las p róp rias m ãos; ao contrá rio, asm ortes e ram re alizad as por m eio d a técnica e om ane j dos corpos d as ví tim as cabia a grupos oescol hidos entre os p róp rios p risioneiros. D esde ains talação d as c âm aras de g ás e a ap licação doZyklon B com o m eio de exte rm ínio, o p róp rio genocídion ão dependeu m ais do exe rc ício de vio lência d ire ta d aparte dos que o conduziam .O s d ias de re cord ação o ficial e a o rganização dece rim ônias para m ante r viva a lem bran ça doHolocausto s ão sem pre re lacionados à espe ran ça deque se possa ap re nde r com a his tória e que, por m eiodeste conhecim ento his tórico nos p reparem os para queas pessoas se esforcem para "nunca m ais" acontece r oque ocorre u "naque la época". Por que então,pode ríam os ind agar, es te "nunca m ais" sucederia,depois d a existência de tan tos exem pl de que as ospessoas n ão agem por exce ções rad icais dospensam entos hum anitários, m as encontram sentido emagir contrariam ente às te o rias , de finições e conse-qu ências d as conclus ões de cará te r hum an ístico epodem in te grar suas ações dentro de conceitos em queap rend am a confiar - que as pessoas, tud o consid e rado,n ão que rem pe rm anece r dentro dos n íve is de te rm inadospe la in te lig ência e por sua educação hum anitária.Se nos co locarm os d iante do panoram a dos inum eráveisexem pl his tóricos do re s tabe l cim ento d a d isposição os epara o m assacre e d as trans fo rm ações d a vio lência,com o pode rem os deixar de re conhece r que a existênciado Holocaus to som ent aum entou a possibilid ade de tais ecoisas pode rem acontece r novam ente ? Na Ruand a de
  37. 37. 1994, a maioria da população achou perfeitamente razoável matar 800.000 tútsis durante umperíodo de três semanas. Não passa de uma superstição moderna que o pavor retrospectivo provocado pelos monumentos e pelas cerimônias vá durar o suficiente, que as pessoas nunca mais acreditem que a morte de outras pessoas seja uma opção em aberto para a solução, quando essas outras pessoas forem percebidas comoum problema. Cada vez menos estamos tratando com a agressão no sentido psicológico, mas sim com a racionalidade do objetivo. Para a solução de problemas, conforme escreveu Hans Albert, o retorno às armas "em muitas ocasiões compensoumelhor do que 13 o emprego de quaisquer outros instrumentos." Em outras palavras: o que podemos realmente aprender com a história? O AQUECIMENTO GLOBAL E AS CATÁSTROFES SOCIAIS No final de agosto de 2005, o furacão Katrina lançou-se em direção ao sudoeste dos Estados Unidos, provocando prejuízos de mais de oitenta milhões de dólares e quase arrasando completamente a cidade de Nova Orleans, Acabara de se apresentar aqui uma catástrofe anunciada: já em outubro de 2001, o cenário da inundação fora previsto pela revista 14 Scientifíc American. Após a ruptura de dois canais, 80% da superfície da cidade foi submerso por 7,60m de água. A pressão da correnteza foi mais além, porque a água não podia ser bombeada e alagou as estradas de acesso, de modo a impedir a entrada de socorros à cidade. O socorro exigido pela catástrofe demonstrou-se muito maior que os recursos imediatamente disponíveis; logo após a inundação começaram os primeiros saques. O estádio Superdome, estabelecido como refúgio imediato para os flagelados pela inundação, demonstrou-se ineficiente, pois em pouco tempo ficou superlotado e logo se desenvolveu em seu interior uma escalada de violência, obrigando as autoridades a declarar estado de guerra, com o consequente estabelecimento da lei marcial. A governadora da Louisiana, Kathleen Blanco, convocou a Guarda Nacional no dia 1º. de setembro para interromper os saques, proclamandoque "E s tas trop as (a Guard a N acional) têm au to rização13Citado apua Heinrich Popitz, Phänomene der Macht [Os fenômenos do Poder], Tübingen, 1986, p. 87. (NA).14Versão alemã em Spektrum der Wissenschaft [O Espectro da Ciência], janeiro de 2002; igualmente em Spektrum derWissenchaft Dossier [Dossiê de O Espectro da Ciência], 2/2005: Die Erde im Treibhaus [A Terra e o Efeito Estufa]. (NA).

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