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"Sonhos que Podemos Ter" - Minhas Memórias de Estudante
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"Sonhos que Podemos Ter" - Minhas Memórias de Estudante

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  • Claudio, sua história, seus sonhos, me trazem lembraças da minha infância também!! Só não tive a sorte de ter uma irmã que pudesse me dar o apoio que voce recebeu, mas tenho uma família maravilhosa e pais (in memórian) que deixaram-me o maior legado da vida; ensinaram- me valores, que é a maior herança que eu poderia receber. mas não posso me queixar da sorte , pois hoje tenho uma boa formação conquistada com muita luta, no que sou agradecida àquele que me possibilitou tal conquista, o meu Grandioso Deus.
    Muito gratificante ler sobre suas conquista e como voce valoriza sua família. Hoje, valores bastante esquecidos. Deus o abençoe!!
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  • 1. Cláudio da Silva
  • 2. “Houve um tempo em que tudo me destruía, tudo que me era dado... ... cada desejo, cada sentimento, enfim TUDO era entornado ao chão, tudo se perdeu, sem nenhuma razãoSim! Eu estava desenganado, desiludido, cansado, Sim! Eu fui atormentado, estive abandonado, Mas... Nada acaba assim! “Nada pode ser tão facilmente destruído” Cláudio da Silva – 1991
  • 3. _____________________________________ Copyright © 2009 by Cláudio da Silva Capa: Arara-azul Cláudio da Silva “Colagens com origamis e pintura com giz pastel oleoso”Contra-capa: Em um parque na cidade de Yaotsu, província de Gifu no Japão. Foto: Marcelo Fuidio Hiriart Outras ilustrações e fotos feitas pelo autor, exceto quando indicadas _____________________________________ Este livro foi elaborado durante o curso Pedagogia a Distância da Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT para a disciplina: Estudar a Distância: Uma viagem Acadêmica Cláudio da Silva clau.smith@gmail.com www.claudio-da-silva.com Dezembro de 2009 Toyota, Japão
  • 4. Este livro é dedicadoA todas as pessoas que ajudaram a construir este pedacinho da minha história,em especial aquelas que a tornaram possível à trinta e oito anos atrás. Meus Pais, Avelino e Maria
  • 5. T ransições
  • 6. I would rather not go rather Eu preferiria não voltar back to the old house para a velha casa I would rather not go Eu preferiria não voltar back to the old house para a velha casa theres too many Existem tantas bad memories there... there... más recordações lá... (Morrissey)1E screver sobre minhas memórias, significa revisitar alguns momentos da minha infância e adolescência que eu preferiria manter escondido e enterrado em algum pedaço inacessível do meu cérebro. Não tenhomuitas boas recordações do período escolar, principalmente do Ensino Infantil edo Fundamental. Vários fatores contribuíram para isso, o que torna esta tarefaainda mais difícil. Os momentos agradáveis dos quais me lembro, durante essa época,sempre foram do lado de fora dos muros escolares onde eu tinha amigos econheci pessoas que realmente se importavam comigo. Foi também fora da escola que encontrei os professores brilhantes queme ajudaram na escolha da profissão, os quais presto homenagem nas páginasque se seguem, contando como eles me acolheram, inspiraram e moldaram1 Este é um trecho da música “Back to the old house” do grupo inglês THE SMITHS.Esta banda foi e continua sendo uma das minhas preferidas. As letras repletas delirismo poético, de teor ácido e irônico de Morrissey (vocalista), casadas com amelodia perfeita das guitarras de Jhonny Marr, me conquistaram em 1988, um anoapós a banda se separar. Na época eles eram um sucesso tremendo na Europa e jácontagiavam o Brasil, mas eu não gostava daquelas músicas que tocavaminsistentemente nas rádios. Só fui me interessar após ler uma resenha sobre a bandana revista de música Bizz e perceber que as letras eram muito profundas, muitoparecidas com o que eu sentia a respeito do mundo. Ainda guardo a edição da revistae me recordo de ter comprado meu primeiro LP deles na véspera do dia de Finadosdaquele ano. Era o compacto que continha a música Panic no lado A e BigmouthStrikes Again no lado B. Ouvi repetidamente, nem me lembro de quantas vezes boteiaquele disco para tocar... Meu pai ficou uma arara de bravo, pois nos Finados temos atradição de não ouvir músicas ou assistir TV... É um dia reservado para se respeitaros mortos. Quase apanhei, pois estava tão entretido com aquele som que tocava noúltimo volume. Ainda hoje ouço todos os álbuns e a cada dia me surpreendo mais coma qualidade artística das canções.
  • 7. minha personalidade. A escola, portanto, nunca foi um porto seguro ou um local que meagradasse, muito pelo contrário, era um fardo freqüentá-la diariamente. Isso tudosó foi mudar quando deixei o Ensino Fundamental e fui freqüentar o EnsinoMédio e a Universidade... Durante o período em que me dediquei em escrever estas páginas domeu passado, pude reviver a minha história como ator e também comotelespectador, dos anos alegres e tristes que vivi. Foi difícil confrontar aexplosão de sentimentos desencadeados nesta estranha viagem em busca doautoconhecimento, de esmiuçar aqueles momentos que me machucaram nainfância, ou de rever aqueles alegres dos quais sinto tantas saudades. Foi difícil, portanto, descobrir a forma de contar a minha história.Comecei até mesmo a ponderar se esta que escolhi, era realmente a melhor paraapresentar meu relato, se deveria deixar claro o quanto o período escolar me eradesagradável. Impelido por estas dúvidas, cheguei até a amassar o papel diversasvezes e recomeçar tudo de novo, mas, a cada vez que dava início aos escritostudo soava falso, previsível e vazio. Os inícios das transições que constantemente experimentamos emnossas vidas sempre são complicados, não queremos nos desprender do velho edar início a uma nova experiência. Temos medo dos inícios, pois eles carregam aincerteza, uma estrada a ser trilhada onde tudo pode acontecer. Estas memóriasestão impregnadas destes começos traumáticos, assim como ela própria sinalizao momento de uma nova transição para mim. Decidi então que, se fosse escrever sobre algo pessoal, sobre o passadoque moldou a minha personalidade, deveria ser sincero e acima de tudo soarverdadeiro. Então, a partir de agora, nas páginas seguintes, retorno ao papelamassado, retorno a minha verdadeira história tentando finalizar mais um ciclo.
  • 8. A ntecedentes
  • 9. “O que sinto muitas vezes Faz sentido e outras vezes Não descubro um motivo Que me explique porque é Que não consigo ver sentido No que sinto que procuro O que desejo e o que faz parte Do meu mundo...” (Renato Russo)2E u venho de uma família bem simples, do interior do estado de São Paulo. Meus pais, Avelino e Maria, vieram de cidades pequenas. Meu pai é de Capivari e minha mãe de Porto Feliz. Devido à vida dura que elesenfrentaram na infância e juventude, foram obrigados a trabalharem cedo e,portanto tiveram que abdicar dos estudos, não concluindo nem o Ensino Infantil. Meu pai foi Bóia Fria durante boa parte de sua juventude, até queconseguiu vir trabalhar numa fábrica de tecelagem na cidade de Sorocaba.Aqueles eram tempos de desenvolvimento econômico para o Brasil, graças aogoverno de Juscelino Kubitschek que, com sua política econômica, permitira oflorescimento do setor industrial. Empolgado com as notícias de possibilidade deemprego na cidade grande, ele abandonou a pequena Capivari para vir morar emSorocaba. Veio com a cara e a coragem; morou em pensões e aprendeu na marraos macetes de um ambiente que até então lhe era desconhecido. Trabalhou duropara comprar um terreno e construir a pequena casa que foi meu lar durante 25anos da minha vida. Devido a esta dolorosa experiência, ele sempre exigiu de mim e dosmeus irmãos que aprendêssemos a cozinhar, lavar e passar roupas, costurar e atémesmo a fazer pequenos reparos em estruturas danificadas da casa. Ele sempredizia que, um dia poderíamos nos encontrar numa situação parecida com a dele e2 Trecho da música “Eu era umlobisomemjuvenil” do grupo de rock brasileiro, “Legião Urbana”. Eu adoro amelodia desta música e tambémsua letra enigmática. Ela está presente no álbum“ Quatro Estações”, de Aslonge o meu preferido.
  • 10. enfatizava o quanto penou para se adaptar. Graças ao meu pai, todos nós somosbastante prendados. Eu particularmente adoro cozinhar. As coisas não foram diferentes para minha mãe que, morando na regiãorural, trabalhou colhendo algodão e café. Vindo de uma grande família de 11irmãos, ela vivia em um sítio arrendado num bairro conhecido como Palmital.Após meu pai ter se estabelecido em Sorocaba, parte da família da minha mãetambém veio morar na cidade e desta forma, eu podia sempre visitar tios, tias emeus avós maternos. Entre as tias, tenho um carinho muito especial pela Helena,carinhosamente chamada de Tia Lena. Quando jovem, ela morou alguns anos nacidade de São Paulo, onde foi empregada doméstica na casa do político EduardoSuplicy e da então sexóloga Marta Suplicy que, na época, participava doprograma TV Mulher, exibido na Rede Globo, fazendo comentários sobresexualidade. Sempre que vinha a Sorocaba, minha tia trazia um monte dechocolates e doces e me presenteava. Minha mãe ficava uma arara de brava, poiseu comia até passar mal. Ela foi a primeira pessoa a possuir algo de especial queme chamava atenção... Ela parecia desfrutar de uma imensa liberdade e moravaem São Paulo, um lugar que comecei a querer conhecer mais. Tenho dois irmãos: Clélia, a mais velha, e Nivaldo, o do meio. Adiferença de idade entre nós é de 13 e 12 anos respectivamente. Pela diferença etária fica claro que eu sou o caçula, o filho “temporão”.Minha mãe não estava esperando pela minha vinda, foi uma surpresa quando elaengravidou aos 39 anos. Devido a este fato, eu acabei tendo mais oportunidadesque meus irmãos entre as quais, a possibilidade de seguir com os estudos e podercursar uma Universidade. Meus irmãos tiveram que trabalhar cedo para ajudar no orçamentoapertado da casa. Assim, minha irmã teve que encerrar os estudos na 6ª. série.Meu irmão resistiu um pouco mais. Cheio de sonhos, ele finalizou o EnsinoFundamental e deu início ao Médio, mas o trabalho passou a exigir mais do seutempo e sem muitas esperanças de concretizar suas ambições, ele abandonou osestudos no segundo ano. Comigo foi diferente. Meus pais queriam que eu finalizasse oFundamental e arranjasse um emprego, mas a minha irmã tinha outros planos.Ela queria que eu tivesse algo que lhe foi tolhido, a possibilidade de poder fazerescolhas...
  • 11. Minha irmã teve grande participação nos momentos mais importantes daminha vida, principalmente nos meus estudos e na minha formação profissional. Apaixonada por crianças, de certa forma ela me adotou como filho. Elajá tinha 13 anos quando eu nasci e juntamente com meus pais, ajudou a tomarconta de mim. Foi ela quem sugeriu meu nome. Quando ela conversava com suas amigas, sempre se referia a mim comosendo o seu “irmãozinho mais novo” o que, com o passar dos anos, passou a sermuito engraçado, pois eu cheguei aos meus 1,89 metros de altura e ela não saiudos seus 1,60. Lembro-me do espanto de uma de suas colegas de trabalho ao meconhecer, lá pelos meus 18 anos. Ela me olhou e disse: — Nossa Clélia! Esse aí é que é o seu “irmãozinho”? Ele me parecebem grandinho. Ela ajudava a comprar meu material escolar e uniforme, me davapresentes no Natal e também broncas quando eu não fazia as tarefas escolares.Reclamava da minha letra e vivia insistindo para melhorá-la e, de certa formaconseguiu. Eu tenho grande carinho por ela, pois do jeito que ela me tratava eume sentia protegido. Era como ter o carinho de duas mães. Recordar minhas origens escrevendo sobre minha família,especialmente sobre meu Pai, não estaria completo se não contasse um pouco daminha paixão pelos animais. Esta relação com os seres vivos começou desdecedo e acabou culminando na escolha da minha atual profissão e sem dúvida, foio momento mais gostoso da minha infância e adolescência. Eu sempre gostei de animais e devo isso ao meu pai que, devido a suavivência no meio rural, possuía grande conhecimento dos bichos. Ele eraapaixonado por história natural e pela organização dos seres vivos na natureza.Exímio observador e um professor fantástico, meu pai procurava, do seu jeitomeio matuto, me explicar sobre tudo relacionado ao ambiente natural. Assim, aprendi a não temer os animais, mas sim a gostar deles. Vivia noquintal levantando pedras e tijolos a cata de insetos e outros seres pequeninos,carregando filhotes de pardais que caiam dos ninhos do telhado para dentro decasa, pegando peixinhos e girinos nos córregos e destruindo a entrada da casa dasabelhinhas “jataí” no muro do quintal e observando, intrigado comopacientemente elas construíam tudo de novo. Lembro que, aos cinco anos de idade, ganhei uma cadela vira-lata que
  • 12. após uma semana ficou doente e acabou morrendo. Eu fiquei desolado e acabeiaté adoecendo. Meu pai preocupado, às pressas, tratou logo de conseguir umasubstituta. Quando ele chegou em casa com uma nova cadelinha eu me enchi dealegria. Era tão pequenina, pelos marrons clarinhos e se movimentava com muitadificuldade. Era algo tão frágil que me ganhou de imediato. Batizei-a de Bolinhae durante os anos seguintes ela seria minha grande companheira. Eu ainda teriaoutros dois cachorros: o Toquinho e o Fofinho, ambos filhos da Bolinha. Lembro-me também que, quando eu já tinha uns seis ou sete anos deidade, meu irmão vivia indo pescar e quando voltava trazia uma caixa de isoporcheia de peixes, muitos ainda vivos. Eu corria para a cozinha, enchia a pia deágua e soltava os moribundos lá dentro, numa tentativa desesperada de salvá-los.Tinham várias espécies: lambaris, bagres, tilápias, entre tantos outros. Eu ficava então, pacientemente, observando-os nadar. Era um momentomágico... Quando chegava a hora de matá-los, pois a pia não podia sertransformada num aquário permanente, eu chorava e protestava. Meu pai ficavabravo com meu irmão por conta disso e dizia para na próxima vez trazer ospeixes já mortos, acrescentando: —... Depois o menino fica aí desse jeito! Foi numa dessas idas e vindas, que veio um cascudo que meu pai logotratou de me explicar detalhes sobre seus hábitos alimentares e habitat – ele diziaque o cascudo se alimentava do limo que crescia nas pedras e que por isso tinha aboca voltada para baixo. Ele me disse que podíamos criá-lo num tambor de ferroque tínhamos no quintal. Fomos coletar pedras, lavamos o tambor, enchemos deágua e soltamos o peixe lá dentro. Era legal saber que eu tinha um peixemorando no quintal de casa, mas um tanto frustrante em não poder vê-lo, pois otambor escuro me impedia de enxergá-lo mesmo durante o dia. Eu sempre ficavaimaginando se ainda estava vivo. Vez em quando, meu pai esvaziava o tamborpara limpá-lo e colocava o cascudo numa bacia de alumínio. Eu ficava brincandocom ele, levantando sua barbatana. Dizia que era o meu tubarão de estimação.Tambor limpo era hora de tornar o peixe invisível novamente e ficar aguardando,ansioso, pela próxima faxina. Acho que este cascudo ficou conosco por uns doisanos até que, movido pela minha curiosidade de criança, comecei a colocarobjetos no tambor, numa tentativa de interagir com o peixe. Eu brincava de
  • 13. pescaria com um pedaço de barbante amarrado num cabo de vassoura, mas semanzol. Alguns destes barbantes acabavam por cair dentro do recipiente. Ele seenroscou nestas tralhas toda e morreu. Quando fomos limpar o tambor lá estava oseu esqueleto. Foi algo terrível, que me marcou profundamente... Outro fato interessante da minha infância, relacionado a animais, foiquando criávamos galinhas. Tínhamos um grande quintal com bananeiras, um péde laranja e de limão, além de uma pequena horta. Havia uma galinha emespecial, que era muito mansa e me deixava fazer carinho. Eu a chamava deCocó. Todos em casa sabiam da minha admiração por este animal, pois eu vivialevando migalhas de pão ou resto de comida para alimentá-la. Um dia, fui aoquintal e não vi a Cocó. Perguntei a minha mãe e ela disse que não sabia dagalinha e minha irmã se manteve calada. No jantar, galinha assada... Eu não comi,chorei muito e dizia aos berros que aquela era a Cocó enquanto minha mãemantinha a mentira. Fiquei muito triste e nos dias seguintes mudo. Preocupadose talvez arrependidos, minha irmã e minha mãe me procuraram para esclarecer oocorrido. Disseram que a Cocó havia se ferido na tela do galinheiro e por issoteve que ser sacrificada. A mentira não colou muito, mas, de certa forma, eu osperdoei.
  • 14. Dias de luta3 “Tudo que me vem à mente, Tudo que me corrói a alma, Queres mesmo saber, Tudo que tenho a dizer? Não digo, para não te obedecer, Não digo para não te ofender, Guardo comigo”4N as minhas memórias, o Jardim de Infância é o único período que eu vivi intensamente. Quando me recordo dos meus cinco e seis anos, sempre me vem algo bastante colorido. Não consigo lembrar-me dosamigos ou dos professores, mas se fecho os olhos, ainda hoje posso ver a piscinae os brinquedos do parquinho. Eu adorava brincar com tinta e procurar animaisnos arbustos e sob as pedras. Foi um período muito gostoso. Após dois anos no Jardim de Infância, meus pais me matricularam naescola SESI5. Nesta época eu não tinha muitos amigos na rua, meu pai nãopermitia que eu ficasse perambulando sozinho pelo bairro e, portanto, euparticipava mais de atividades em casa com a família. Assistia muitos filmes e Telenovelas com meus irmãos, mesmo sementender muito do enredo. Assim, eu acompanhei quase todos os capítulos deEscrava Isaura, extremamente emocionado por não compreender muito bem aquestão do preconceito entre raças.3 Título de uma música do grupo de rock paulista Ira!4 Trecho da poesia “ Afago”, escrita pelo próprio autor em março de 1988.5 Serviço Social da Indústria (SESI), uma instituição privada brasileira, sem fins lucrativos e deatuação emâmbito nacional.
  • 15. Nesta época teve Copa do Mundo na Argentina. A casa virava uma festanos dias que o Brasil jogava. Eu nunca gostei muito de futebol, mas devido aestas reuniões emocionantes para os jogos do mundial, eu acabei nos anosseguintes me tornando fã incondicional da Seleção Canarinho. Em 78 o Brasilnão ganhou, amargou um terceiro lugar. Meu pai ficou transtornado e a famíliatoda se entristeceu. A partir daquele ano eu fiquei a imaginar se, alguma vezcomemoraria uma vitória daqueles garotos trajando amarelo. A minha nova escola era meio longe de casa e eu tinha que ir a pé; noinício acompanhado do meu pai e mais tarde sozinho ou com amigos. Havia outras duas escolas estaduais bem próximas de onde eu morava,mas meus pais não gostavam da idéia de me verem estudando nelas. Eramescolas de subúrbio, onde sempre ocorriam problemas de depredação, furtos ebrigas. Neste sentido, o SESI surgia como a melhor escolha visto que, naquelaépoca, ela desfrutava de certo status dentro da comunidade. Era também um localbastante tradicional, cheio de regras e um tanto chato. Minhas recordações são poucas, mas algo marcante é que não vejo maisaquele mundo multicolorido do Jardim de Infância, apenas um imenso vazio.Hoje, recordando aquela época, vejo a escola extremamente clean, mais próximode um hospital que de uma instituição de ensino. Alguns colegas do bairro estudavam lá também e antes de começar aescrever este texto, achei que não iria conseguir me lembrar de ninguém, mas aospoucos surgiram alguns nomes: Sílvio, Flávio, Ovídio, Jefferson e a Marinalva.Com exceção do Jefferson, todos eram excelentes alunos. O Ovídio tinha uma letra linda, bem diferente dos meus garranchosquase ilegíveis na época. A professora, tia Marli, vivia dizendo ao meu paidurante as reuniões periódicas, que eu precisava melhorar minha escrita. Elacerta vez chegou a fazer isso mostrando o Caderno do Ovídio. Meu pai começoua martelar isso na minha cabeça e a exigir que minha letra melhorasse. Meu pai tinha um jeito bem tradicional , um tanto rústico, de educar e asameaças de castigos, que muitas vezes deixavam de serem apenas ameaças, eramseveras. Eu tinha muito medo e comecei a odiar o Ovídio por causa disso. Mas a minha letra era de longe o menor dos meus problemas. Já nasegunda série começou a ficar evidente o meu problema com os números. Amatemática ainda hoje me atormenta, mas foi bem nessa época que ela começou
  • 16. a se transformar num bicho papão. Nas reuniões de pais, tia Marli enfatizava que eu tinha que decorarurgentemente a tabuada, algo que até hoje não entendo porque não conseguia.Meu pai, apesar de suas limitações escolares, era muito bom com cálculos epassou além da letra a exigir também as benditas tabuadas. Além da escola, nesta época eu comecei a freqüentar o catecismo e ia àsmissas todos os domingos de manhã. Minha família sempre foi muito religiosa emeu pai fazia questão que todos nós participássemos das atividades da igrejacatólica do bairro. Além das missas, eu acompanhava meu pai e minha mãe nasreuniões dos Vicentinos, grupo que ajudava as pessoas mais necessitadas e namanutenção de um asilo da minha cidade. Quando o Papa João Paulo II visitou o Brasil em 1980, minha irmã foivê-lo realizar uma missa em São Paulo e retornou de lá radiante por terconseguido chegar perto do Santo Homem. Eu não entendia muito daimportância do Papa ou o porquê dos rituais nas igrejas. Eu também não gostavamuito das missas, elas eram muito demoradas e o Padre dizia um monte decoisas que não pareciam fazer muito sentido. A igreja sempre me foi um localenigmático... Apesar de eu não ter reprovado nenhum ano (o Jefferson reprovou aquarta-série), eu deixei o Ensino Infantil com a sensação de algo inacabado, dealgo não resolvido. Eu não estava pronto para enfrentar o Fundamental, nãohavia sido devidamente preparado. Desta época, a tia Marli fica como algo extremamente negativo pelassuas reclamações e seu jeito pouco didático e ortodoxo de fazê-lo. Mas o piorainda estava por vir... “E antes de tudo, Antes mesmo que o amor se acabe, Quanto mais da dor... É preciso para adormecer um coração?”66 Trecho do poema “Antes que o amor se acabe”, escrito pelo próprio autor emdata desconhecida.
  • 17. Da Lama ao Caos 7Everyone is just walking away from me “Todos estão se distanciando de mim Am I really that nasty Eu sou mesmo tão terrível All the dust and dirt affects my skin? Todo o pó e a sujeira afetaram aEveryone is just turning away from me minha pele? Am I really that filthy? Todos estão dando as costas para mim It’s dark and cold, so let me in Eu sou mesmo tão vulgar? Está escuro e frio, então me deixe (Martin Rossiter) 8 entrar”Q uando finalizei a quarta-série do Ensino Infantil, chegou a hora de uma nova mudança na minha vida. Deixei o SESI para fazer o Ensino Fundamental numa nova escola (O SESI só possuía o Ensino Infantilnaquela época). Mais uma vez, meus pais se reuniram para determinar o meu futuro,discussão esta da qual não pude participar. Eu queria estudar nas escolas quemeus amigos de rua estudavam, nos colégios públicos próximos da minha casa,mas a resposta era sempre a mesma: Não! Meu irmão trabalhava na FEPASA9 e sugeriu me matricular na escolaMatheus Maylasky, uma instituição bastante conhecida na cidade que pertencia a7 Título de uma música do grupo de rock alternativo pernambucano “Chico Science & Nação Zumbi”.8 Trecho da música “For the Dead” do grupo inglês “Gene”, a banda que eu ouvia exaustivamente no períodoque morei emEmbu das Artes (SP), em1997. As letras são fantásticas, cortesia do vocalista MartimRossiter.9 Ferrovia Paulista SA. Empresa de estradas de ferro brasileira que pertencia ao Estado de São Paulo. Foiextinta em1998.
  • 18. esta empresa. O Maylasky tinha ares de escola particular devido ao alto investimentooriundo da FEPASA, mas era uma escola com ensino gratuito. A década de 80foi, talvez, o apogeu desta instituição. Ela possuía a melhor Fanfarra dentre asescolas sorocabanas (inclusive entre as particulares) e todos os anos, ganhavaprêmios nos desfiles de Sete de Setembro. Eu mesmo toquei repique e flauta doce,mas isso só foi acontecer lá pela sexta-série. Por estes motivos, muitas pessoastentavam conseguir uma vaga no local, porém somente filhos dos funcionários daestrada de ferro podiam estudar lá. A escola, portanto, era um tanto elitizada, bem diferente dos ambientesordinários que meus colegas de bairro estavam freqüentando. Até hoje não seicomo conseguiram me matricular lá. O local era, a primeira vista, muito estranho. Um prédio antigo e muito,muito grande. Era a primeira vez que iria estudar num local assim, pois o SESIera uma escola bem pequena com poucas salas de aula. Eu tive muito medo, pois o ambiente era amedrontador, visivelmentetradicional e desmotivador, ao menos na minha visão. Estas lembranças estãobastante vívidas nas minhas memórias. Lembro que chorei calado, já do lado dedentro dos portões, no primeiro dia de aula, longe do meu pai. Se ele me vissechorando seria bem capaz de brigar comigo por causa disso. Tudo soava esquisito pra mim. Os professores eram bastante formais, aDiretora tinha aquele estereótipo “meio bruxa”, de cara fechada, voz firme numtom intimidador. Todos tinham medo dela e nunca a contestavam. O sinal deaviso das trocas de aulas e intervalos era executado num sino de ferro, expostono pátio da escola e tocado manualmente pelos funcionários. Ele ficava aoalcance das mãos de qualquer aluno, mas nunca vi alguém tocá-lo sem ordem dadireção. O uniforme, algo que odiei já desde o início, era uma camisa brancacom o símbolo da escola que deveria ser usada, por dentro das calças de tergalazul-marinho, acompanhados de um cinto, meias pretas e um horroroso sapatocolegial. Todos os dias passávamos, enfileirados, em direção as salas de aula,sendo observados de perto pela Diretora e outros funcionários. Se alguémestivesse com o uniforme sujo, abarrotado ou usando qualquer outra peça quenão fosse a padrão, era encaminhado diretamente à diretoria podendo,
  • 19. dependendo do caso, ter que voltar para casa. Ainda me lembro de algumas estrofes do Hino da escola que tínhamosque cantar no pátio, durante os eventos cívicos, após o Hino Nacional: “Na oficina labutam nossos pais, Trabalhando com fé e muito amor... ... Matheus Maylasky, teu vulto já está na história, Esta escola que traz o teu nome, Também se cobrirá de glória...” Uma triste recordação... É claro que toda esta disciplina era reflexo do sistema político, no qual oBrasil estava inserido naquela época, a Ditadura Militar representada pelo entãoPresidente João Figueiredo. As disciplinas OSPB (Organização Social e PolíticaBrasileira) e EMC (Educação Moral e Cívica) ainda eram lecionadas,transmitindo a ideologia daquele regime autoritário que exaltava o nacionalismoe o civismo dos alunos. Eu não estava nem um pouco feliz com o novo sistema, mas o ano letivocomeçou assim mesmo, independente das minhas emoções. Algo que começou a me incomodar bastante foram meus novos colegasde escola. Eles eram muito diferentes dos meus amigos de rua ou dos meusprimos. Havia algo neles que eu não gostava, fossem nas suas atitudes ou nocomportamento. Os negros presentes na escola, naquela época, podiam facilmente sercontados nos dedos: o Washington, o Vitor, outras duas irmãs de quem não merecordo dos nomes e eu. Foi aí que começaram a aparecer os apelidos preconceituosos que eutanto odiava. Ao invés de impor respeito e brigar pela minha privacidade eupreferi me calar e ficar acuado. A educação que herdei do lar me tornava apáticoe tímido, nunca fui de brigas ou de discussões calorosas o que, no decorrer dosanos no Maylasky, foi me tornando ainda mais introspectivo. O Washington, por exemplo, tinha o respeito de todos, pois, exibia um
  • 20. semblante amedrontador fosse na linguagem corporal trazida dos subúrbios, ounas atitudes durante as brigas, do lado de fora da escola, onde ninguém tinhacoragem de enfrentá-lo. Havia poucas pessoas com quem eu conversava ou em quem confiava.Na sala de aula eu ficava apenas esperando o momento de ir pra casa, para poderir à rua e brincar com meus verdadeiros amigos que, apesar de não serem negros,eram simples e me aceitavam no grupo. Lá eu liderava e sugeria brincadeiras eatividades coletivas. Lá eu era respeitado. Foi neste mesmo ano que eu decidi que iria aprender inglês. Eu queriaentender o que os cantores diziam nas músicas, queria poder fazer como ostradutores dos eventos do Oscar e Miss Universo, traduzindo ao vivo aquelalíngua estranha. Eu disse isso ao meu pai e ele não deu muita atenção, afinalescolas de inglês eram bem caras e não havia muita lógica em se estudar umalíngua estrangeira sendo negro em uma família de classe baixa. Na televisão, o ator Luiz Carlos Miele aparecia numa propagandadivulgando um curso de Inglês da editora Abril Cultural, o “Fale Inglês”,vendido em formato de fascículos semanais nas bancas de revista. Eu insisti parao meu pai comprar, mas ele se recusou. Foi aí que algo muito engraçadoaconteceu, como se o destino conspirasse ao meu favor. Eu havia ido ao dentista extrair um dos meus dentes e acordei no diaseguinte com uma baita hemorragia. O travesseiro estava todo vermelho e eucuspia sangue o tempo todo. Minha mãe entrou em pânico e eu estava apenasirritado com o gosto horrível que começava a me dar náuseas. Correram comigopara o hospital, mas quando chegamos à hemorragia já tinha cessado. O médico, após me examinar, receitou uns comprimidos e exigiurepouso. Sentindo que todos estavam fragilizados com aquele evento, que paramim não passava de um exagero, aproveitei-me da situação e pedi o “FaleInglês” novamente e meu pai manteve o não, porém minha mãe interveio e eleacabou concordando. Como eu tinha que ficar repousando na cama, meu irmão teve que ir atéa banca mais próxima buscar o tão sonhado fascículo. Foi à maior alegria. Passeitodos os dias a ouvir as fitas K-7 que acompanhavam a coleção, num gravadorvelho da minha irmã e a repetir as palavras em voz alta. Todos diziam que aquilo não iria vingar, que logo eu desistiria daquelabesteira, porém eu passei o ano de 1981 inteiro estudando inglês sozinho em casa,
  • 21. completando minha coleção em meados de 1982. Não cheguei a aprender muito,pois a coleção não era projetada para crianças de 10 anos e sim para adultos,porém ela me ajudaria a formar uma base da língua a qual eu iria melhorar nofuturo.“... Eu vislumbrei a ruína,Vagando inconformado, desiludido,Me afogando, me perdendo nestas trilhas.Enquanto o vento perseguia meu rosto,O frio congelava minhas mãos.Lágrimas encharcavam minha boca,com seu gosto amargo deabandono sem razão...”1010 Trecho da poesia “Meu caminho semvocê”, escrito pelo próprio autor em1999.
  • 22. Meu Abrigo “De tudo, ficaram três coisas... A certeza de que estamos começando... A certeza de que é preciso continuar... A certeza de que podemos ser interrompidos Antes de terminar... Façamos da interrupção um caminho novo... Da queda, um passo de dança... Do medo, uma escada... Do sonho uma ponte... Da procura, um encontro!” (Fernando Sabino)11O meu primeiro ano no Maylasky terminou e eu fui reprovado na quinta série. Fiquei chocado quando recebi a notícia e com medo da reação dos meus pais. Para meu espanto, minha irmã me consolou e meu paiapenas disse que já esperava por aquilo. Eu estava tão desligado de tudo, vivendo somente o momento fora daescola que não percebi que nas reuniões de pais, já haviam alertado para meufraco rendimento. Para mim foi um grande tombo, foi como perder o chão sobmeus pés. Mas eu tinha outro mundo onde podia me refugiar, onde podia curar asferidas do tormento da escola e esse meu mundo era a rua onde eu morava.11 Trecho do livro “O encontro marcado” de Fernando Sabino. Eu li este livro quando ainda tinha uns 10 ou11 anos, não entendi muito mas gostei do enredo. Meu irmão possuía umexemplar que estava guardado naestante da sala e movido pela curiosidade, passei a folhear suas páginas. Mais tarde, aos vinte e poucos anos,voltei lê-lo, compreendi mais a história e acabei colocando-o na minha lista de favoritos.
  • 23. Minhas primas, Jaqueline e Joelma, apesar de morarem longe da minhacasa sempre vinham me visitar. Nós tínhamos idades parecidas, só a Jaquelineera um ano mais velha. Eu e a Joelma costumávamos dizer que, por ela ser maisvelha, iria morrer primeiro; uma destas estúpidas e nada inocentes brincadeirasde criança. Havia também o Alexandre, um primo distante, que morava perto dacasa delas. Eu quase não o via, a não ser quando as visitava. Nós nutríamos umaadoração especial pelo Michael Jackson que, naquela época, estava vendendomilhões de cópias do seu álbum Thriller. Devido ao sucesso mundial, a TVexibiu vários especiais e como nossos pais não compravam o LP para ouvirmos,nós não perdíamos nenhum. Certo dia tive uma idéia, a de usar o gravador velho da minha irmã,aquele mesmo das aulas de inglês, para gravar as músicas do Michael direto daTV. Gravei todo o especial da Globo e junto com meus primos, vivíamosensaiando os passos de Billie Jean e Thriller. Até hoje eu sei fazer oMoonwalker12, estilo de dança que ficou imortalizado durante as performancesdo Rei do Pop. Foi uma época bem legal. Junto com Michael Jackson veio a onda do “Break” e com alguns doscolegas da rua, comecei a ensaiar alguns passos para exibirmos nas matines doclube “Circulo” 13 da cidade. Estes bailes, organizados para a garotada,aconteciam nas tardes de domingo e íamos sempre trajando a moda da época:calças bags, com camisetas de cores cítricas e eu ainda tinha uma boina brancano melhor estilo Jackson. Minhas primas ainda participavam de outras atividades da família comoquando visitávamos o Sítio do meu tio em Itararé (interior de São Paulo) eviajávamos á praia de Mongaguá no litoral paulista. Em Itararé eu podia interagir de forma intensa com a natureza,observando os animais que meus tios criavam, participando de colheitas,andando a cavalo, passeando na floresta, etc. À noite, podia ainda freqüentar asrodas de contos e lendas folclóricas que no inverno, aconteciam ao redor defogueiras ou de um montinho de brasas colocadas sobre uma folha de zinco nochão. Na praia, enquanto todos se divertiam na água, eu estava maispreocupado em encontrar formas de vida na areia e coletar peixinhos que as12 Passo de dança criado e batizado décadas antes pelo dançarino Bill Baileycomo "Moonwalk" (algo como"passo da lua"), imortalizado por Michael Jackson durante o período da era Thriller.13 Círculo Ítalo Brasileiro Gabriele D´Annunzio, clube da cidade de Sorocaba.
  • 24. ondas traziam e levavam repentinamente. Eu tinha ainda, uma galera animada no bairro. Meus melhores amigoseram a Vanderci, o Vinícius, a Iara, o Peterson, a Kátia e a Lucimara. Juntosorganizávamos atividades diversas: brincávamos de esconde-esconde,bandeirinha, garrafão, mãe-da-rua, soltávamos pipas, confeccionávamos balões,carrinhos de rolimã, etc. Era o início da adolescência para muitos de nós ecomeçamos a fazer bailes em plena época da onda “New Wave” que tomou contado início dos anos 80. As festinhas eram geralmente na casa do Vinícius, poishavia uma área grande onde podíamos organizar uma pista de dança. Batizamosestas festas de “Baile da Geleca” e todos os convidados deviam trazer um pratode gelatina e um refrigerante. Tudo era feito sem a participação dos adultos,organizávamos tudo sozinhos com tarefas divididas entre todos os participantes.Eu sempre ficava encarregado do som, devido às inúmeras fitas que eu tinha commúsicas gravadas da rádio. Comprar discos foi um luxo que passei a ter, somentequando comecei a trabalhar anos mais tarde. Ouvir música era meu passatempo predileto, eu gostava de muitoscantores da época como Carly Simon, Rod Stewart, Tina Turner, e da então ondade Rock Brasileiro que começava a despontar e contaminar as rádios da época.Eu tinha uma seleção com o melhor do Ultraje a Rigor, Ira!, Biquíni Cavadão,Plebe Rude, Blitz, Lobão, Titãs, Paralamas do Sucesso, entre outros. Minha irmã sempre se impressionou com nosso senso deresponsabilidade em organizar estes pequenos eventos. Lembro que fizemos atéuma festa junina na casa da Iara e convidamos os adultos, nossos pais e parentes.Teve até uma quadrilha que ensaiamos secretamente. Foi um sucesso. Em 1982 teve outra Copa do Mundo, desta vez no México, e mais umavez a família se reuniu para torcer para aquela que se tornaria uma das maiscarismáticas equipes brasileiras deste mundial. A equipe do técnico Telê Santanatrazia Falcão, Zico e Sócrates só para citar alguns dos nomes mais importantes.Eu tinha certeza que, naquele ano, veria o Brasil tetracampeão, mas a Itáliadestruiu esta possibilidade, eliminando o Brasil que nem mesmo chegou a ir àfinal. Foi muito triste, ainda mais porque eu e meus amigos havíamos pintado umtrecho da rua com as palavras: “Brasil Campeão!”. Na televisão mais uma telenovela de sucesso: “Elas por Elas”, que eu
  • 25. não perdia um capítulo e no cinema um filme que se tornaria um dos meusfavoritos: “ET o Extraterrestre. Esta obra de Steven Spielberg era carregada deemoção e feita sob encomenda para crianças. Ainda hoje me lembro das minhasreações durante a seção: primeiro eu tive medo e nojo do ET, mais ao final dofilme eu não conseguia conter as lágrimas. Em 2002 o filme foi relançado noscinemas em edição especial comemorativa com cenas extras. Eu corri novamentepara os cinemas e levei comigo minha irmã e minha sobrinha. Ao final da seçãoeu estava novamente me debulhando em lágrimas. “... E se... de alguma forma, tudo lhe for negado: Um beijo, uma paixão, a própria vida? Seriam nossas almas confusas, nossas realidades divididas?... ... Você desistiria de procurar seu coração?...”1414 Trechos do poema “Para quando quiseres respostas”, escrito pelo próprio autor emagosto de 2001.
  • 26. Mudança de comportamento15 “Num mundo que se faz deserto, Temos sede de encontrar um amigo” (Antoine de Saint-Exupéry )16A pós a reprovação na quinta série, era o momento de levantar a cabeça e seguir em frente. Resolvi que deveria melhorar nos estudos e comecei aquele ano mais entusiasmado e determinado. Na escola nada havia mudado. Encontrei as mesmas pessoas de narizempinado ou que me atormentavam, os mesmos professores apáticos e a escolaque eu não gostava. Eu detestava algumas disciplinas e não tinha a menor vontade deestudá-las. Fazia as lições vez em quando, tirava notas baixas que depois tratavade recuperar durantes os “exames”, provas que contemplavam a matéria de todoo ano. O sistema de avaliação desta escola utilizava notas de zero a dez,considerando sete a nota mínima para aprovação. Caso a soma das notas de todosos bimestres do ano não contabilizassem 28, o aluno era obrigado a fazer oexame e, se por acaso ainda não obtivesse um rendimento mínimo, deveriarealizar a temida recuperação final. Nunca fiquei para recuperação, sempreestudava para os exames e conseguia uma média satisfatória para ser aprovado. No ano em que reprovei a quinta série, minhas notas foram tão baixasque eu não tive pontos suficientes nem para realizar a recuperação. Reproveidireto. Todos os anos, portanto, eu freqüentava os “exames” e geralmente eramnas disciplinas de Geografia, Matemática, História e Português. Os professores15 Título de uma música do conjunto de rock paulista Ira!16 Frase retirada do Livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry. Não consigo me lembrar dequantas vezes eu li este pequeno livro, mas me recordo bemde como fiquei encantado na primeira vez.
  • 27. destas matérias eram os que mais me desagradavam, fosse pela forma tradicionalcomo ensinavam, utilizando cópias extensas de textos no quadro negro, fossepela forma severa com a qual exigiam o respeito e a disciplina da sala de aula. O professor de matemática, José Carlos, apesar da sua baixa estatura(ele não devia ter mais de 1,60m de altura), tinha um tom ameaçador. Falavabaixo, aos soluços e apenas se preocupava em explicar a matéria em um tommonótono e barbitúrico. Toda a semana conferia os exercícios solicitados, dandopontos negativos aqueles alunos que não cumpriam as tarefas. Eu geralmente erapremiado com muitos deles, muitas vezes porque não conseguia fazê-los... Pois é,Matemática, ao menos para mim, era um bicho de 700 cabeças. Geografia era outro tormento. A professora Mariclara gritava para exigirsilêncio e despejava uma profusão de perguntas para respondermos em nossoscadernos; os malditos questionários. Eu sempre gostei de Geografia, mas só fuidescobrir isso quando já estava a caminho da Universidade. Desde criançasempre fui apaixonado por mapas. Eu tinha um Atlas antigo, herança dos temposescolares dos meus irmão, que ficava manuseando durante horas a fio numaviagem imaginária pelos continentes. Meu pai aguçava ainda mais a minhacuriosidade quando dividia comigo, alguns de seus conhecimentos sobre omundo. Foi ele quem ajudou a tornar o Japão um sonho de infância quando, nasua simplicidade, me explicou sobre o trem mais rápido do mundo - o TremBala; ou das diferenças de fuso horário dizendo que quando no Brasil era dia noJapão já estavam todos dormindo. A minha irmã sempre conta cenas bemhilariantes, como quando eu, nos meus quatro ou cinco anos, cavava buracos nochão do quintal e ficava olhando dentro deles. Quando me perguntavam o que euestava fazendo eu apenas dizia: “estou olhando os japoneses do outro lado domundo” Apesar dessa minha curiosidade pelo mundo, a minha relação com osprofessores de Geografia sempre foram desastrosas e com certeza a Mariclaranão despertou meu interesse em aprendê-la na escola. Mas, meus maiores problemas ainda eram Língua Portuguesa e aMatemática. A minha escola anterior não havia me preparado devidamente paraum Ensino Fundamental numa instituição como o Maylasky e, como eu nuncafui um aluno dedicado, o problema foi ano a ano se tornado uma bola de neveque continuou trazendo infelicidades por todo meu período escolar.
  • 28. Eu, na verdade, não me interessava muito pela escola, não gostava deobedecer a regras, estudando para as provas, realizando as tarefas que me eramdelegadas. Isso tudo soava para mim, como desperdiçar parte do meu tempo comalgo inútil. Eu queria aproveitar esse tempo com algo que me fosse prazeroso,algo que eu achasse importante. Assim, aos poucos, fui desenvolvendoadmiração por dois assuntos: Ciências e Inglês, disciplinas estas que teriamgrande peso na minha caminhada à idade adulta. Ciência já me era algo familiar, era algo que tinha contato desde ainfância. Poder ver nos livros fotos dos animais e informações mais profundas doque aquelas aprendidas com meu pai era no mínimo fantástico. Uma professora, ainda na quinta-série, conquistou minha admiração:Dona Eunice, a nossa professora de Ciências. Eu adorava Ciências e sempre consumia o livro antes das explicações.Quando Dona Eunice começava uma nova matéria eu já sabia do assunto etratava de responder prontamente suas perguntas. Ela ficava impressionada. Eladespertou meu interesse, pois foi uma das poucas a me elogiar pelos meustrabalhos escolares. Sempre que a procurávamos, após as aulas, para discutiralgum assunto dos livros ou de algo que havíamos visto na TV, eladisponibilizava tempo e paciência para nos ouvir e dar sugestões e opiniões. Na minha classe tinha um garoto bastante popular entre os estudantes.Ele era um dos melhores alunos da sala e até hoje o tenho como uma pessoaextremamente inteligente e muito especial; seu nome era Douglas, mas todos oconheciam mais pelo seu sobrenome: Farah. Ele vivia criando coisas paraapresentar aos professores da escola. Lembro que uma vez ele construiu umventilador utilizando um motor retirado de um gravador de fitas K-7 e o acoploua sua carteira. Todos ficaram encantados com aquilo. Eu alimentava uma mistura de admiração e inveja dele, pois ele tinha orespeito de todos na escola e não tinha medo algum de se exibir, bem diferentedo meu comportamento introspectivo e bastante tímido. Certa vez, a professora Eunice sugeriu que elaborássemos um trabalhosobre rochas. Eu adorei o tema e mergulhei tanto na produção que visitava abiblioteca municipal da cidade várias vezes durante a semana. Eu buscava noslivros informações, fotografias, enfim tudo que pudesse me ajudar a montar umacoleção de rochas com suas respectivas classificações científicas. Montei uma
  • 29. ampla coleção e desenvolvi um mostruário de madeira, utilizando uma caixaonde minha irmã guardava seus materiais de corte e costura. A minha coleçãoficou muito bonita. Dona Eunice gostou tanto que até pediu emprestado paramostrar nas outras salas. Não me lembro como foi o trabalho do Farah, mas omeu foi eleito um dos melhores da classe e premiado com um 10. A partir daquele momento o Douglas passou a conversar bastantecomigo e descobriu que tínhamos interesses parecidos, ambos gostávamos deCiências. Além dele outro excelente aluno da classe, o Murilo, se juntou ao grupo.Mais extrovertido e brincalhão que o Farah, que era mais sério, Murilo acaboutrazendo um pouco mais de molecagem para o grupo. Era o início de uma grandeamizade. Andávamos sempre juntos na escola, sempre trocávamos livros erevistas sobre assuntos que não eram para garotos de 11 anos. Líamos muitosobre astronomia, biologia e eletrônica. Murilo ainda me ensinou a jogar Xadrez,jogo este que ele dominava e freqüentemente ficava entre os primeiros lugaresnos campeonatos da escola. Eu não cheguei a tanto, muito pelo contrário, sofriapara não receber um cheque-mate logo no início. Lembro-me, que uma vez elequeria jogar e eu disse que não estava a fim, pois eu sempre perdia. Ele insistiu eacabamos jogando algumas partidas, onde cheguei a ganhar dele. Fiquei superempolgado, eu havia superado o mestre. Naquele ano teve campeonato na escolae eu me inscrevi. Fui eliminado na terceira rodada, enquanto ele caminhava paraas finais. Inconformado, eu o procurei e disse: — Eu não entendo, eu consegui ganhar de você! Ele então sorriu e respondeu: — Pois é, mas eu deixei! Os outros alunos não se aproximavam muito da gente, pois nossasconversas eram um tanto estranhas e impregnadas de expressões que eles nãocompreendiam. Tínhamos um lema que vivíamos bradando com os braçosdireitos esticados: “A Ciência Marcha”... Algo estúpido que ficou gravado naminha memória... Como éramos inseparáveis, nos apelidaram de “Três Marias17”, maisisso não nos incomodava, pois dizíamos: “Estas são as estrelas da constelação deOrion18 e como elas, nós um dia iremos brilhar”.17 Estrelas Almitak, Almilame Mintaka, que compõemo “cinturão do caçador”, a constelação de Orion.18 Constelação que possui estrelas bembrilhantes, conhecida popularmente como o “Caçador”, localizadapróxima as constelações de Gêmeos e Touro.
  • 30. Eu havia descoberto a minha gangue! Foi nesta época que fomos apresentados ao primeiro livro que seriamuito importante para minha formação intelectual: “Eram os Deuses osAstronautas” de Erich von Däniken. Douglas, sempre muito bem informado,apareceu com uma cópia desta obra. Ficamos intrigados com a idéia de nossosantepassados terem sido alienígenas, além da ampla discussão religiosa dentrodaquele pequeno livro. Por causa dele eu fui querer saber mais sobre as antigascivilizações Maia, Asteca e Inca, além dos Egípcios e outros povos antigos. Apartir daí, a empolgação foi tanta que começamos a elaborar nossas própriasteorias sobre o assunto. Aliás, a astronomia após Däniken, passou a exercer um grande fascíniosobre nós. Já estávamos em 1985 e, portanto, o Cometa Halley se aproximava donosso planeta. Eu não tinha a mínima idéia do que era um cometa até aquele momento.Passamos a estudar e compreender não só sobre cometas, mas também sobreoutros astros e num piscar de olhos, palavras e expressões científicascomplicadas como: magnitude de estrelas, supernova, anã negra, pulsares,nebulosas, buracos negros, espectrografia espacial, etc. passaram a ser parte donosso vocabulário diário. Na época, houve grande divulgação do evento na mídia e para nossaalegria, foram lançadas duas coleções sobre o assunto nas bancas de revista:Cometas os vagabundos do espaço e Astronomia, além de várias outras revistas.Estas coleções foram vendidas na forma de fascículos semanais e eu insisti tantoque meus pais passaram a comprá-los para mim. A leitura da coleção Astronomia era bastante densa e complicada peloteor científico, mas o que não entendíamos, vivíamos perguntando a professorese amigos. Na maioria das vezes, acabávamos ficando sem respostas. Foi aí que,analisando a contracapa de uma revista sobre o Cometa Halley que haviacomprado, vi o endereço de vários clubes amadores de Astronomia e deObservatórios Oficiais de todo o Brasil. Passamos a escrever para estasinstituições que, impressionados com o nosso interesse pelo assunto e pelo teordas perguntas, nos respondiam prontamente e até mandavam presentes comoapostilas coloridas e pôsteres. Ainda guardo dezenas destas cartas, bem comominhas coleções de revistas e fascículos, além de dois cadernos de cartografia
  • 31. onde tomava notas das observações que fazia do céu. Eles estão repletos dedesenhos de constelações, nebulosas, galáxias e anotações sobre crateras lunarese alguns planetas que consegui visualizar. Observávamos o céu com auxílio de uma luneta caseira, confeccionadacom lentes conseguidas em óticas, acopladas a um tubo de PVC. Foram váriastentativas e muitas óticas visitadas para conseguirmos as lentes ideais.Finalmente, a solução de um instrumento com boa capacidade ótica, veio com autilização de uma objetiva de um microscópio velho, de brinquedo, que haviaganhado de presente de Natal da minha irmã. Elaboramos um tripé de madeira,ao qual o Douglas acoplou um complicado sistema mecânico para girá-la eestabilizá-la. Cada dia ela ficava na casa de um de nós. No meu bairro, meuscolegas de rua ficavam admirados com o instrumento e com minhas explicaçõessobre o espaço. Ela aumentava tão bem que conseguíamos ver claramente ascrateras lunares. Acompanhamos o cometa durante semanas e anotamos tudo emnossos cadernos. Naquela época, dizíamos que seríamos cientistas e quem sabe atétrabalharíamos em algum observatório astronômico. Criamos um clube, o UAAalfa E (União Astronômica Amadora Alfa Escorpion19) – nome que escolhemosdevido ao nosso fascínio pela estrela mais brilhante da constelação de Escorpião,a gigante vermelha Antares. Começamos a produzir boletins sobre dicas deobservações astronômicas, curiosidades sobre os astros, entre outras informações.Naquela época, não tínhamos computadores para editarmos estas publicações emuito menos dinheiro para produzirmos fotocópias. A solução encontrada foiredigir os textos a mão, utilizando a minha letra que agora, diferente de anosatrás, era bonita e bastante legível. A mãe do Douglas era professora e possuíaum mimeografo, o qual ela gentilmente cedeu para que pudéssemos produzir ascópias, para em seguida distribuí-las a amigos e colegas. Apesar de todo oempenho e dedicação, o clube não deu muito certo e chegamos a confeccionarapenas duas edições do UAA alfa E. A experiência, no entanto foi bastantepositiva, pois começou a me mostrar que era possível sonhar e seguir nossossonhos. Após a passagem do Halley meu interesse por astronomia passou adiminuir e eu começava a voltar as minhas origens. Os animais começaram a me19 Na astronomia, as estrelas de uma constelação são identificadas pelas letras do alfabeto Grego. As estrelas“alfas” são sempre as de maior magnitude no grupo, ou seja, as mais brilhantes.
  • 32. interessar de uma forma mais intensa, pois agora eu já sabia como poderiaproceder para estudá-los mais a fundo. O Douglas, apesar de gostar de seresvivos, não me acompanhou nesta minha “outra viagem” rumo a novasdescobertas. Eu iria, a partir daquele momento, aumentar ainda mais meu círculode amigos só que, novamente, fora do meio escolar. Na escola, a professora de Ciências anunciou que haveria umaFeira Científica já no primeiro semestre. Entusiasmados, mais que depressacomeçamos a procurar um projeto para apresentar. O Douglas sugeriu algumtema sobre astronomia, mas já havíamos apresentado nossas observações docometa Halley no ano anterior e apesar do interesse da professora, aquele projetonão tinha chamado a atenção dos nossos colegas de classe. Acabou sendo algomeio nerd, extremamente elaborado e... bem chato. Todos olhavam aquelesmapas esquisitos, mas quase ninguém fez perguntas sobre o que aquilo tudosignificava. Eu queria que, desta vez, fosse algo inovador e que atraísse aatenção do público. Como eu estava entretido com meus livros sobre animais, eu propusrealizarmos um experimento com algo vivo. Naquela época, eu tinha um livroantigo de Ciências do meu irmão, que mostrava como abrir baratas e minhocas,expondo seus órgãos. Aquilo parecia interessante, mais ainda soava um tantosem graça para uma Feira de Ciências. Foi aí que o Douglas sugeriu um sapo,pois encontrou um livro contendo todos os detalhes e procedimentos daexperiência que permitiria, entre outras coisas, poder observar os órgãos doanimal em funcionamento. Nós abriríamos um sapo vivo. Aquilo a princípio me pareceu errado, mas a curiosidade foi maior e nosdias que se seguiram passamos a preparar nossa apresentação. Como ainda nãotínhamos um sapo para testar o projeto, utilizaríamos uma lagartixa como cobaia,mas nem tudo seria fácil ou sairia como o planejado. A idéia de usar uma lagartixa foi minha e, apesar de ser um bicho maisacessível, afinal de contas qualquer casa possui pelo menos um par delas, nósnão tínhamos a mínima idéia de como capturá-las. Foram várias tentativas, mas opequeno réptil sempre dava um jeito de escapar. Não sei como, mas através datentativa e erro, surgiu uma metodologia que não falhava a da “toalha molhada”.O método era bem simples: primeiro deveríamos tirar o animal do seu habitatpreferido, o qual o tornava inacessível para nós – a parede. Assim, lançávamos
  • 33. uma toalha molhada que desequilibrava o ágil bichinho, que caía no chão.Depois era só coletá-lo com as mãos. Após o sucesso na captura do nosso objeto de estudo, passamos aosprocedimentos. O livro dizia que o animal deveria ser anestesiado comClorofórmio ou Éter, mas como não tínhamos aqueles produtos em casa,procuramos um substituto e até hoje, não sei por que escolhemos o Álcool. Conseguimos uma lagartixa enorme e prendemos a coitadinha numpedaço de madeira, com fita adesiva. Então, com um pedaço de algodãoembebido em álcool, nos pusemos a sedá-la, direcionando o algodão em suasnarinas durante alguns minutos. Ela ficou desesperada, porém repentinamente,parou de se debater e então, friamente com a ajuda de uma lâmina de barbear, eufiz uma incisão no seu abdômen. Ficamos admirados ao ver o interior do animal,o coração pulsava... Era incrível, o experimento estava sendo um sucesso.Ficamos tomados pela euforia até que o animal começou a se debater, se livroudas fitas adesivas e pôs se a correr pelo chão. Nós ficamos em choque,observando aquela lagartixa correr com a barriga aberta. Eu não sabia o que fazer,mas o Douglas rapidamente pegou o animal e o atirou dentro do vidro cheio deálcool, numa tentativa desesperadora de encerrar com o seu sofrimento. Ela se debateu por alguns instantes e depois morreu. Nós aindapermaneceríamos mudos, sentados no chão, tentando nos recuperar do susto eentender aquela cena bizarra que mais parecia ter saltado de um pequeno filmede horror. Naquele dia descobrimos que o álcool não possuia efeito anestésico eque os répteis podem fingir-se de mortos para despistar seus predadores. Maneiramais estúpida de se aprender... Agora sabíamos que, se fossemos utilizar um sapo precisaríamosconseguir um pouco de Clorofórmio ou Éter, porém o problema maior ainda era:onde conseguiríamos um sapo vivo. Eu me lembrei de um brejo que havia perto da casa da minha irmã e,numa noite, munidos de lanternas, formos até lá e conseguimos dois animais.Um deles nós abrimos na casa de um amigo nosso, o Alexandre, que mais tardefaria parte do nosso grupo científico. A experiência teste foi um fracasso total, mas desta vez sem o show dehorrores protagonizado pela lagartixa, pois tínhamos Clorofórmio. Durante oprocesso, o Alexandre cortou por engano, uma veia que fez com que o animal
  • 34. sangrasse muito e morresse em poucos minutos. Mesmo assim, decidimos levar o projeto adiante e no dia daapresentação, informamos à classe que iríamos mostrar o funcionamento dosórgãos internos de um ser vivo. Em seguida, anestesiamos o sapo edesenvolvemos todos os passos da atividade que desta vez aconteceu semincidentes. A professora adorou a apresentação e nossos colegas nunca mais seesqueceram daquilo. Hoje, quando avalio este momento da minha vida, e outros que nãorelatei nestas páginas como quando eu caçava borboletas para espetá-las emalfinetes ou ainda, quando retirava animais da natureza para mantê-los cativos nomeu quintal, ainda tento entender como eu podia ser capaz de tais atrocidades. Era como se eu quisesse os animais por perto, mas sem me importarmuito com o que sentiam ou se sentiam alguma coisa. Pois é, crianças possuem esse lado curioso e cheio de maldade queprecisa ser lapidado. Naquele mesmo ano eu daria início a um curso promovidopelo Zoológico da minha cidade, que me ajudaria a começar a desenvolver umaboa relação com a natureza. Alguns membros da equipe do Zoológico Municipal “Quinzinho deBarros”, visitaram minha escola divulgando um curso chamado: “Curso deEcologia por Correspondência”. Eu me cadastrei nesta atividade, que era gratuitae mensalmente, recebia um envelope enorme, com o meu nome, contendo umfascículo com um texto falando sobre meio ambiente. A cada fascículo um temadiferente: animais, plantas, ecossistemas brasileiros, ameaças a fauna silvestre,poluição, entre outros. Eu adorava aquele curso. Anexado a este material sempretinha uma folha de exercícios que, depois de desenvolvido, deveria ser devolvidoao zoológico pelo correio. Semanas depois, recebíamos a folha corrigida e commensagens de incentivo. Este Curso me colocaria em contato com aquela instituição que, maistarde acabaria fazendo parte do melhor momento da minha vida. “...Eu – vivendo em meu pequeno mundo caótico”2020 Frase retirada do poema “Mundo Caótico”, escrito pelo próprio autor em1990.
  • 35. Em Barra Bonita(SP), com o pessoal do MatheusMaylasky, durante viagem deformatura da oitava (Foto: Douglas Farah).
  • 36. O lugar mais animal da cidade!21 “Ei, quero-quero Oi, tico-tico Anum, pardal, chapim Xô, cotovia Xô, ave-fria Xô, pescador-martim (Chico Buarque de Holanda)22E m 1985, quando então eu já cursava a sétima série, nossa professora de Ciências, por motivos que não me recordo, foi substituída durante alguns meses por um outro professor. O Tito, como ele gostava de serchamado, era muito diferente dos professores da escola. Era brincalhão, meiomoleque e vivia trazendo objetos e experiências para realizarmos em sala de aula.Era também exigente com a disciplina, mas em troca nos brindava com aulassuper animadas, divertidas, onde tínhamos ampla participação. Naquela época, quando estudávamos os animais, ele agendou umaatividade no Parque Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros”, uma aulasobre cobras e aranhas. Tito conhecia a Maria Cornélia Mergulhão, a Neli,bióloga do Zoológico e responsável pelo Departamento de Educação Ambiental elevou a classe toda para interagir com animais vivos, numa atividade bemhumorada e pra lá de interessante. Nós tocamos jibóias, vimos escorpiões epudemos até acompanhar, estarrecidos, a bióloga deixar uma aranhacaranguejeira caminhar sobre seu braço. Naquele dia, reaprendi muitos conceitos21 Slogan adotado durante os anos 90, pelo Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, da cidade deSorocaba – SP.22 Trecho da música “Passaredo” do Chico Buarque de Holanda.
  • 37. que havia recebido do meu pai de uma forma mais folclórica, pois ao contráriodo que ele me dissera, a jibóia não era peçonhenta ou perigosa, muito menos aaranha caranguejeira. Ao final da atividade, Neli disse que estaria sempre a disposição noZoológico, para eventuais perguntas e dúvidas; que poderíamos procurá-lasempre que quiséssemos. A partir daquele dia eu comecei a ir ao Zoológico quasetodos os finais de semana para passear pelo local e, apesar de algumas vezes tervisto a Bióloga por lá, a minha timidez nunca me permitiu arriscar uma conversa. Mas isso iria mudar... Neste mesmo ano apareceu no jornal da cidade, uma reportagem sobreuma atividade para crianças que seria realizada no zoológico, o CIOA - ClubeInfantil de Observadores de Aves. Este seria um grupo permanente de estudo,composto por crianças com faixa etária de oito a 14 anos. Imediatamente fuiatrás de informações sobre como poderia participar e fiz minha inscrição. As primeiras reuniões aconteceram no próprio zoológico, porém depoisde algumas semanas, elas seriam transferidas para outro parque da cidade, oParque da Biquinha. O lema do CIOA era “Troque seu Estilingue por umBinóculo”. Todos os sábados de manhã, lá se reuniam cerca de 20 crianças epré-adolescentes para ouvirem explicações sobre meio ambiente, planejarviagens e fazer observações de aves. Nestas ocasiões, nós assistíamosapresentações de slides sobre os hábitos dos animais, participávamos de aulascom material biológico taxidermizado do acervo do zoológico, além de jogos,dinâmicas e gincanas sobre temas ambientais. Esta forma diferente de ensinarsobre a natureza faria do “Quinzinho de Barros” um Zoológico pioneiro emEducação Ambiental no Brasil, tornando-se referência para implantação deatividades semelhantes em outras instituições em todo território tupiniquim. ANeli, mais tarde nos anos 90, defenderia sua dissertação de mestrado mostrando aimportância que estas atividades tiveram na formação intelectual e profissionalde seus participantes. A maioria dos integrantes do CIOA já se conhecia de outros programaseducativos do Zoológico, como o TRANZOO (Transando o Zoológico), umcurso semanal que acontecia nos meses de férias. Eu nunca tinha participado doTRANZOO e, diferente dos outros participantes do Clube, não estava integradoao grupo, eu era apenas um visitante que poucos dispensavam atenção. Foi difícil
  • 38. minha adaptação nos primeiros meses, pois eu não conseguia me aproximar efazer amizade com os outros. Pensei até em desistir, mas a Neli levava tantascoisas legais para aquelas reuniões que decidi enfrentar a indiferença dos colegase permanecer no grupo. Apesar dos objetivos propostos para o CIOA, ele funcionava mais comoum ponto de encontro entre crianças e adolescentes, do que como um grupo deintensa discussão ecológica. Nas viagens, muitas das quais pernoitávamos emfazendas e parques ecológicos, experimentávamos várias aventuras e isso tornavaaquele grupo muito especial. Assim, ninguém estava muito interessado emaprender nomes de passarinhos... Mas contrariando a todos eu comecei a meinteressar em aprender mais sobre as aves... Acho que foi em 1986 ou 1987 quando a Neli descobriu que, oDepartamento de Parques e áreas Verdes da cidade de São Paulo (DEPAVE),estava organizando um Curso de Observação de Aves. Ela inscreveu todos osintegrantes do Clube e durante alguns dias fomos até São Paulo aprender comoidentificar esses animais na natureza, fazer anotações das observações econsultar literatura específica como ferramenta de pesquisa. Eu adorei o Curso,principalmente pela forma que um dos palestrantes se comunicava o grupopresente. Seu nome era Maria Martha e ela falava das aves como uma paixão quecomeçou a despertar em mim interesse em saber mais. Mais tarde, eu passariatambém a observar estes animais na natureza e entraria em contato com a Marthapedindo auxílio nesta minha nova descoberta. Além da Neli, havia outros profissionais do Zoológico com quem eutinha bastante contato como o Veterinário e Diretor do local, o Roni, além daGeógrafa Lélia e da Professora Teonila. O pessoal do Zôo me ensinou muitas coisas: conseguiram corrigir meuportuguês sofrível (eu vivia trocando os “Ls” pelos “Rs” e formando frases semnenhuma concordância gramatical. Isto tornava meu jeito de falar bastante feio einadequado para um ambiente, no qual freqüentavam pessoas com níveluniversitário. Meu conhecimento sobre as aves só aumentava, conforme osmeses se passavam, e eles queriam estimular esse dom que eu possuía, mas antesuns acertos nos parafusos eram necessários. Foi o Zôo também, que reascendeu meu interesse em aprender inglês.
  • 39. Sempre apareciam por lá profissionais de outros países para conhecer o trabalhodesenvolvido naquela instituição, ou para realizarem trabalhos conjuntos. Euficava admirado vendo a Neli, o veterinário Adauto ou a Bióloga Cecíliaconversando em Inglês com esse pessoal. Quando estes ilustres visitantesapareciam, eu sempre dava um jeito de ficar por perto, para tentar entenderalguma palavra. Pedi então ao meu pai, para me matricular numa escola de Inglês. Eledemorou em concordar, mas como minha irmã disse que ajudaria a pagar,naquele ano eu comecei a estudar no Fisk. Fiquei quase dois anos nesta escola, mas novamente não aprendi quasenada. As salas possuíam grupos de aproximadamente 10 alunos, todos bem maisvelhos do que eu, alguns adultos inclusive. Eu tinha feito um teste, pois jápossuía alguma noção do idioma, devido as minhas tentativas solitárias do curso“Fale Inglês” e fui parar direto no segundo livro do Básico. Os alunos eram maisfluentes e desinibidos, enquanto eu ficava sempre calado e envergonhado. Foimuito desestimulador e quando deixei a escola Fisk, coloquei na minha cabeçaque eu não poderia aprender inglês, não por que não tivera chances, mas simporque não tinha capacidade para tanto. Comecei a achar que o problema era eu. Paralelo a tudo isso, eu começava a me apaixonar por música,principalmente por música eletrônica, que era o som que tocava na danceteria doSorocaba Club, um clube da cidade que freqüentava todos os domingos à noite.Lá eu me encontrava com colegas de escola e do CIOA. Eu ouvia muitoPet-Shop-Boys, New Order e Depeche Mode, comprava os seus LPs e cantava asmúsicas prediletas, acompanhando as letras nos encartes. Passei com o tempo acomprar uma revista chamada Bizz, da editora Abril Cultural, que trazianovidades sobre as bandas e curiosidades sobre os cantores. A Abril lançavaainda, todos os meses, outra revista intitulada Bizz – Letras Traduzidas, quetrazia os maiores sucessos do momento. Assim eu comecei a entender o quemeus cantores prediletos estavam dizendo, comecei a conhecer as músicas maisprofundamente e inconscientemente continuava estudando inglês e aprendendo. Lá no Zoológico, ninguém sabia deste meu desejo em aprender inglês efoi somente a partir de um evento estúpido que a Neli descobriu isso. Aconteceunuma festa de aniversário de um dos colegas do Clube, onde eu bebi demais ecomecei a falar algumas frases em inglês. A Neli ficou impressionada com o meuvocabulário.
  • 40. A partir desse dia, eu comecei a ter mais acesso aos “gringos” quevisitavam o Zôo, e numa ocasião passei uma tarde toda acompanhando doisamericanos. Eles queriam observar as aves do Zoológico e queriam alguém paraguiá-los. Os técnicos estavam bastante ocupados e então me perguntaram se eunão poderia fazer isso. No começo, fiquei com medo de não conseguir mecomunicar, mas conforme o tempo foi passando, percebi que o Inglês que eusabia já era o suficiente para manter uma conversa básica e as palavras que tinhaabsorvido das músicas me ajudavam a elaborar perguntas e respostas maisrefinadas... Eu estava começando a realizar meu sonho de infância. Certa vez, um canal de TV foi ao parque da Biquinha realizar umamatéria sobre algo relacionado a beija-flores. Eles queriam entrevistar ascrianças do clubinho e a bióloga Neli me escolheu para essa entrevista. Foi umdesastre, pois apesar do meu conhecimento sobre o tema eu dizia “crube”, “mataatrântica” além de, é claro, me apresentar como “Cráudio”. Daquele dia em diante, meus colegas do CIOA passaram a recitar aseguinte frase “O crube do cráudio foi passear na mata atrântica”. Isso meincomodou bastante, mas foi só a partir daí que tudo começou a mudar... Eu adorava ler livros sobre animais e a equipe de Educação Ambientaldo Zôo me estimulava nesse passatempo, me emprestando vários volumes paralevar para casa. Eu retirava da biblioteca do Zoológico diversas publicaçõescientíficas sobre aves. A linguagem no início me parecia estranha, mas com opassar do tempo tornou-se bastante familiar. Com o Clube nós chegamos a discutir e participar de coisas sérias,como:- Integramos a um movimento feito por grupos ecológicos da cidade contra aenergia nuclear. O governo estava naquela época instalando uma usina deenriquecimento de urânio nos limites da cidade e com as notícias do acidentecom o Césio 137 em Goiânia, passamos a nos interessar pelo assunto e nosdeclararmos contra a energia nuclear.- Nos posicionamos contra a proposta de asfaltamento da estrada que corta oParque Estadual de Carlos Botelho, no estado de São Paulo, durante uma
  • 41. campanha que teve participação do Zoológico e outras entidades chamada“Asfaltar para Matar”. Foi nesse período que visitamos o parque diversas vezes,um local que se tornou bastante especial para mim, devido a sua beleza eriqueza natural.- Defendemos a Lagoa de Jundiaquara, no município de Araçoiaba da Serra,importante sítio de alto valor histórico ligado ao tropeirismo da cidade deSorocaba e região, que estava em vias de ser drenada. O grupo visitou o local erealizou observações das aves que se encontravam na área e arredores da Lagoa,elaborando um relatório que foi encaminhado a Prefeitura da cidade. Graças aesta iniciativa, a mídia começou a publicar reportagens sobre a Lagoaameaçada e de certa forma, pressionada pela opinião pública, a lagoa foimantida. No final da década de 80, a maioria dos participantes do CIOA já tinhamais de 12 anos e não queriam mais estar associado à palavra “infantil”, presenteno nome do clube. Foi então que este grupo acabou fundando o COAS, Clube deObservadores de Aves de Sorocaba, que daria continuidade aos encontros bemhumorados aos sábados de manhã e as atividades de ecologia. O grupo ainda,entraria em contato com o Clube de Observadores de Aves Nacional, tornando-seum dos vários núcleos oficiais espalhados pelo Brasil, desta renomada entidadede pesquisa no campo da ornitologia. Eu também fiz grandes amigos neste período que freqüentei asatividades do Zoológico, entre os quais se destacam a Maria Cláudia, o André e oHumberto. No início, eu e a Maria Cláudia éramos inimigos mortais. Vivíamosbrigando, não conseguíamos entrar em acordo em relação a nenhum assunto. Aamizade só viria a tomar contornos, quando descobrimos que gostávamos dosmesmos grupos musicais. Eu vivia comprando discos e quando organizávamosfestas, ela pedia para que eu os levasse para animar o evento. Com o passar dotempo eu comecei a freqüentar a sua casa para ouvirmos música juntos egravarmos fitinhas K-7. Ela teve uma grande importância na minha formação intelectual. Filhade um dos jornalistas mais conceituados e respeitados da cidade, GeraldoBonadio, ela tinha acesso a uma vasta literatura além de discos antigos da
  • 42. coleção de seu pai. Eu gostava de música eletrônica e rock, ela gostava de tudoisso e também de MPB e cinema alternativo. Ainda tenho uma fita k-7, onde elagravou músicas do Chico Buarque, Caetano e Gilberto Gil para mim, emresposta a uma frase que havia dito: “eu odeio esse negócio de MPB!”. Hojetenho Chico Buarque como um dos meus maiores ídolos, mas tudo começou comesta fita lá pelos idos de 1988... Já o André e o Humberto, eram companheiros de atividades de campo.Sempre íamos acampar para observar aves e ficar em contato com a natureza. Tercompanhia facilitava a organização destas atividades e tornava-as mais divertidase produtivas. Estes seriam amigos que eu carregaria comigo para a vida adulta e de umaforma ou outra, estaríamos sempre em contato. “Quando você quer alguma coisa, Todo o Universo conspira para que você realize O seu desejo” (Paulo Coelho)2323 Frase retirada do Livro “O Alquimista” do Paulo Coelho. Este eu li quando tinha 18 anos, por indicaçãoda Neli e da Bia, biólog do Zôo de Sorocaba. Eu estava angustiado e preocupado como meu futuro e durante asuma conversa comas duas, elas me disserampara procurar por este livro. . Apesar de eu não ser fã das obras doPaulo Coelho, este livro me ajudou a lutar pelas coisas que eu acreditava... me ajudou seguir emfrente.
  • 43. Logotipo do Clube Infantil de Observadores de Aves(fonte: arquivo do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros) Logotipo do Clube de Observadores de Aves de Sorocaba (fonte: arquivo do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros)
  • 44. Sampa no Walkman “Este sou eu parado na esquina A mesma esquina em outra canção É a verdade A-ver-a-cidade Alguma coisa acontece no meu coração. Esta São Paulo São tantas cidades Nunca tantas quantas gostaria de ser”24 (Humberto Gessinger)F oi ainda aos 14 anos que, escondido dos meus pais, me dirigi à rodoviária da minha cidade e peguei um ônibus rumo a São Paulo. Eu nunca tinha ido a capital sozinho e quando o fizera, sempre fora paravisitar algum lugar específico com a turma da escola. Nestas viagens, não haviatempo, nem liberdade para explorar o ambiente. Eu, portanto, tinha uma imensacuriosidade sobre aquela cidade gigante. Meu pai sempre dizia que São Paulo eraum lugar perigoso, um campo de batalha, sempre me botava medo, mas elepróprio só havia ido umas duas vezes, para visitar amigos em bairros afastadosdo centro. O que ele poderia saber?24 (Sampa no Walkman) Título e versos, retirados de uma música da banda de rock porto-alegrense“Engenheiros do Haw aii”. Este foi o somda minha adolescência, juntamente como Ira!, Lobão, Ultraje aRigor, Legião Urbana, RPM, entre tantas outras bandas do movimento roqueiro da década de 80. Mas osEngenheiros tinhamumcharme especial nas letras, tinhamumar bemadolescente cheio de chavões e frases deefeito. Eu e alguns amigos passávamos madrug adas ouvindo suas músicas, cantando e tentando desvendar o quehavia por trás de músicas como “ revolta dos Dandis”, “Piano Bar” ou “Infinita Highway”. Ainda hoje me Aemociono comfrases como: Que a chuva caia como uma luva, um dilúvio um delírio, que achuva traga alívio imediato; que a noite caia, de repente caia tão demente quanto umraio, que a noite traga alívio imediato... da música Alívio Imediato.
  • 45. Eu tinha aquelas lembranças da minha infância, quando então, minha tia Helenavoltava de São Paulo, me trazendo presentes e transpirando liberdade. Natelevisão da época, com transmissão direta de São Paulo, pois Sorocaba aindanão possuía sua sede própria, passavam vários comerciais mostrando lojas elugares que não havia na minha cidade. O Mcdonalds, por exemplo, era o tempotodo divulgado na TV, mas naquela época não havia nenhum em Sorocaba, eununca tinha ido, eu queria tanto ir... Nesta primeira aventura, limitei-me a andar pelos arredores do TerminalRodoviário do Tietê. Com o tempo, em outras visitas, passaria a explorar mais acidade dos meus sonhos, visitando a Avenida Paulista e a região central,especialmente a da Liberdade e República. Na primeira eu alimentava minhacuriosidade sobre a cultura oriental, especialmente sobre o Japão. Visitava lojas enas feiras populares, experimentava a comida da qual sempre gostei. NaRepública, o meu endereço preferido era o da Galeria do Rock. Passeava pelassuas lojas, maravilhado com a quantidade de discos expostos, muitos delesimportados e que nunca haviam sido lançados no Brasil. Era um sonho deconsumo, mas era muito caro, proibitivo, não era para mim... Conhecendo a cidade de perto, passei a entender mais dos sentimentospor trás dos versos de “Sampa” do Caetano Veloso e da melancolia contida nasletras do grupo Ira! “Tarde vazia”, por exemplo, abre com os versos:“Da janela vejo fumaça, vejo pessoasNa rua os carros, no céu o sol e a chuva...” São Paulo, para mim, era sinônimo de modernidade, uma massa deconcreto onde culturas se mesclavam, onde era possível encontrar tudo e de tudo.Eu me apaixonei tanto pela capital que comecei a sonhar com a possibilidade demorar lá um dia. Sorocaba me era ingrata, eu não gostava dos clubes, bares e docomportamento das pessoas de lá. O meu fascínio por cidades grandes sempre foi algo que nunca entendi.Como era possível, alguém que gostava tanto de estar em contato com a natureza,pudesse gostar tanto de concreto, fumaça e do caos de um centro urbano. Nestaépoca eu prometi que um dia deixaria a Sorocaba para nunca mais voltar, umapromessa que cumpriria no futuro e da qual não me arrependeria.
  • 46. “…E caiu o dia,Que antes, embora vazio,Não ousava estar distanteDe minhas mãos”25 Bairro da Liberdade – São Paulo (Foto: Craig Alan Volker)25 Trecho do poema “Fim... Início... Fim, escrito pelo próprio autor em1992.
  • 47. O Aprendiz “Nunca te é concedido um desejo sem que te seja concedida também a facilidade de torná-lo realidade. Entretanto, é possível que tenhas que lutar por ele.” (Richard Bach)26O final dos anos 80 e início dos anos 90 foram muito importante para a expansão e sedimentação dos projetos de Educação Ambiental do Zôo de Sorocaba. A instituição conseguiu, através de projetos com entidadesinternacionais, financiamento para suas atividades de educação ambiental e destaforma, pode contratar mais funcionários para integrar a equipe, além daaquisição de equipamentos para expandir o seu Centro de Educação Ambiental. Quando ainda cursava a oitava série, fui convidado pela Neli para serestagiário remunerado no Parque. Fiquei radiante, pois era uma grandeoportunidade de estar em contato direto com aquele ambiente. Foi também umamaneira de aos 14 anos, conseguir alguns trocados que me permitisse uma maiorindependência dos meus pais. No início, o contrato era de apenas quatro horasdiárias e o meu salário, e de outros três estagiários, vinha de um projeto com aWWF27 dos Estados Unidos. Durante este período que freqüentei o parque, eudesenvolvia visitas monitoradas com escolas, explicando sobre os hábitos dosanimais, visitava escolas ministrando pequenas aulas e atividades práticas26 Frase retirada do livro “Ilusões” de Richard Bach. Este é de longe o meu livro favorito. Outra obra quevivia abandonada na estante da sala que tambémpertencia ao meu irmão. Acho que o li umas cinco vezes, aúltima pouco antes de começar a escrever estas minhas memórias. Foi a partir dele que tive a idéia de citar trechosde livros, músicas e poesias durante a abertura e fechamento dos capítulos destes meus escritos. A frase aí acima,a princípio, deveria abrir este livrinho, mas acabei escolhendo este capítulo por achar que ela, de certa forma,ajudaria a explicar a explosão de sentimentos que o dia-a-dia no zoológico me proporcionava. Era purafelicidade, mas tambémera algo que eu havia lutado para conquistar...27 World Wildlife Found, org anização não governamental semfins lucrativos, de âmbito internacional, muitoconhecida. O símbolo da WWF é umurso panda.
  • 48. utilizando como recursos didáticos: slides, material taxidermizado (peles, ossos,ovos, penas, etc.), além de animais vivos (cobras, aranhas, sapos, etc.). Após um ano, a verba destinada ao projeto acabou e tivemos que serdispensados. Eu fiquei arrasado, pois eu adorava aquilo. Para mim, estar nozoológico não era um trabalho, mas um hobby, o meu passatempo favorito. Naquela época, o diretor do Zoológico, o Roni, havia acabado deinaugurar o seu zoológico particular na cidade vizinha de Votorantim, o ParqueEcológico do Matão. O Matão era um projeto ousado, um zoológico pequeno, incrustado numfragmento de mata nativa da cidade, expondo apenas animais de médio epequeno porte. A idéia era valorizar nas exposições os detalhes, a beleza e ocolorido destes seres vivos. O parque possuía uma fantástica coleção de faisões,pavões, além de recintos quase sem grades. Os macacos, por exemplo, podiamser contemplados em um recinto que fazia uso de uma cerca elétrica para impedira fuga destes animais. Uma ponte foi cuidadosamente projetada para cortar aárea do recinto, de onde se podia observar todo o ambiente e os macacos, sem apresença de telas ou grades. Este parque era um projeto particular do Roni e nascia totalmenteintegrado com a questão educativa. Este, aliás, foi desde o início a ideologia quedirecionou a construção do Matão. Desempregado do Zôo de Sorocaba passei a receber convites do Ronipara realizar monitorias, atendendo escolas no Parque do Matão. Com o passardo tempo, elas começariam a ficar mais freqüentes e eu seria contratado paratrabalhar no local. Desta vez, eu tive muito contato com os animais, além deagendar, criar e desenvolver diversas atividades com alunos de escolas domunicípio e de outras cidades. Eu comecei, entre outras coisas, a ajudar a ambientar recintos, prepararalimentos e até auxiliar na enfermagem dos que adoeciam, trabalhando emconjunto com o Roni. Era como ser biólogo sem diploma. Enigmático, de poucaspalavras e com um vocabulário repleto de provérbios, Roni muitas vezes nãoexplicava, ele deixava que aprendêssemos pela tentativa e erro. Um de seusprovérbios que eu nunca me esqueci foi:“Na vida é preciso aprender a fazer três coisas:Rezar, jejuar e ter paciência”
  • 49. A paciência era, de longe, a parte mais importante desta frase, repetida aexaustão por ele. Muitas vezes, eu tive raiva por ele não me alertar que algopoderia ser feito de forma eficiente se outro método fosse utilizado. Ele detinhagrande conhecimento sobre a natureza (animais, plantas, ecologia...) e não seimportava em dedicar parte do seu tempo para responder minhas perguntas, queeram muitas. Lembro-me, que uma vez ele me perguntou: — Cláudio, o que você sabe sobre os avestruzes? Eu prontamente respondi que eram aves do continente africano quepodiam atingir até 2,10 metros de altura, dentre outras curiosidades. Aí ele meperguntou: — Você já viu um, alguma vez? E eu respondi: — Não nunca. Ele então me deu as costas e foi embora. Na semana seguinte, cheguei como de costume no parque as 08h00 damanhã. Ele me olhou e disse: — Hoje nós vamos buscar uns animais num criadouro em que douassistência veterinária. Vou precisar de ajuda para manejar algumas espécies evocê vai comigo. O caminho todo foi bastante quieto, ele quase não conversou. Chegandoao criadouro, ele me informou que teria que conversar com o proprietário e melevou até um dos recintos e disse: — Ali estão seus avestruzes. Divirta-se! Eu fiquei mudo. Não sei como colocar em palavras o que senti naquelemomento. Eu já havia visto fotos, assistido filmes e documentários sobre oanimal, mas ver um casal, a menos de dois metros de mim, foi incrível. Otamanho do corpo, comprimento das pernas, os movimentos, tudo era lindo. Toda vez que me lembro do Roni, me vem à lembrança deste momento.Aquilo era prova de que ele me queria muito bem, mas eu já o tinha como ídolo,um profissional brilhante e alguém de grande coração. O contato com o Parque do Matão foi muito importante para mim, memostrou, por exemplo, que apesar de gostar de animais, eu preferia ensinar sobreeles a trabalhar diretamente com eles. Eu gostava de colocar as pessoas emcontato com animais, para que elas pudessem experimentar as mesmas sensações
  • 50. que as minhas. Achava que este era o caminho para que elas gostassem mais danatureza e passassem a entender seu delicado equilíbrio, passassem a preservá-la.Eu queria educar pelo coração e pela emoção. Permaneci no Matão quase dois anos antes que o Zôo de Sorocabaconseguisse, junto a Prefeitura, um acordo para poder contratar alunos de cursostécnicos como monitores. A idéia era conseguir estudantes de magistério, mas aNeli conseguiu minha contratação também, pois, eu era aluno do Curso deTecnologia de Alimentos. Nesta nova fase, minha carga horária passou a ser deseis horas diária e eu ficaria no Zoológico por mais dois anos, até finalizar oEnsino Médio e ser dispensado novamente, mas eu receberia outro convite doRoni para retornar ao Parque Ecológico do Matão. Eu também já começava a me preparar para a Universidade...“Você é levado em sua vida pela criatura viva interior, o ser espiritualbrincalhão que é o seu ser verdadeiro.Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que nãotem nada a aprender com eles.Você está sempre livre para mudar de idéia e escolher um futuro, ouum passado diferente.”(Richard Bach) 2828 Frase retirada do livro “Ilusões” de Richard Bach.
  • 51. Sonhos que podemos ter29 “Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena Acreditar no sonho que se tem Ou que seus planos nunca vão dar certo Ou que você nunca vai ser alguém Tem gente que machuca os outros Tem gente que não sabe amar Mas eu sei que um dia a gente aprende Se você quiser alguém em quem confiar Confie em si mesmo Quem acredita sempre alcança!” (Renato Russo)30O ano de 1986 foi palco de tristes acontecimentos, que ainda hoje me lembro com pesar. Teve a Explosão do ônibus espacial americano Challenger, que a TV ficou massivamente noticiando emostrando imagens do acidente. Eu fiquei chocado. Mas o pior mesmo foiquando chegaram às notícias de que Chernobyl havia sido assolada por umdesastre nuclear. O medo tomou conta. No ano seguinte, aconteceria ainda o maior acidente com materialradioativo em área urbana no mundo, quando em Goiânia uma cápsula de césio136, foi encontrada e aberta por dois catadores de sucata. Na escola, na rua ou no Zoológico, todo mundo só falava destesacontecimentos. Foi um período marcante, onde pensávamos que a energia29 Frase da música “Somos quempodemos ser” do grupo de rock porto-alegrense “Engenheiros do Haw aii”30 Trecho da música “Mais uma vez”, interpretada pela banda 14 Bis. Eu adorava a Legião Urbana e nemsabia que o Renato Russo havia feito esta música junto como 14 BIS. Foi umgrande amigo “japonês”, o Celso,que me apresentou emuma gravação emK-7. Adorei a letra e a melodia.
  • 52. nuclear iria acabar com o planeta, fosse através da guerra ou por meio de váriosacidentes nas usinas espalhadas pelo mundo. Neste período eu estava cursando a oitava série no Maylasky e, de certaforma, desfrutando um dos meus anos mais gostosos naquela instituição. Lembro-me por exemplo, quando os professores pediram para que todosos alunos preparassem algo para mostrar na Semana da Criança, em outubrodaquele ano. Eu não tinha nenhum dom artístico e para piorar era péssimo ematividades esportivas. Mas eu tinha um amigo na mesma situação, o Farah, quesugeriu: “vamos fazer um teatro”. Aquilo me soou estúpido, pois eu eraextremamente fechado e tímido, como eu poderia enfrentar uma multidão? Passamos, nos dias que se seguiram, a bolar um roteiro e o cenário dapeça. O título da apresentação era “A máquina do Cientista Louco”. No script,um cientista (eu), tentando criar uma máquina de sucos acaba, por acidente,inventando uma máquina do tempo trazendo diversos personagens históricos einteragindo com eles. O cientista precisava de um ajudante corcunda, chamadoIgor. Foi fácil encontrar alguém para o papel, pois um amigo nosso, o Denis,também estava perdido sem saber o que iria apresentar. Os personagenshistóricos: Um gladiador da Idade Média, Einstein e Nero, foram todosdesenvolvidos pelo Douglas, que saía da máquina já devidamente caracterizado. A construção do cenário, a tal máquina, foi extremamente divertida.Guardamos segredo da produção até o dia da apresentação, construindo tudo noquintal da casa do Douglas. Ela consistia de uma embalagem de papelão degeladeira, a qual pintamos e forramos com cartolinas coloridas. Numa daslaterais, fizemos uma porta e o Douglas ainda instalou uns equipamentos, que elepróprio construiu, contendo uma campainha, luzes e uma hélice, que funcionavaa pilha. Assim, a máquina ganhou vida e surpreendeu a todos durante aapresentação. A minha parte na peça era densa, pois eu tinha que preparar campo paraa entrada dos personagens e posteriormente interagir com eles. Nós ensaiamosexaustivamente, mas no dia eu esqueci boa parte das minhas falas e tive queimprovisar e mesmo assim foi um sucesso. Se por um lado, eu descobrira que tinha algum talento artístico, omesmo não podia ser dito em relação aos números. Eu penei para finalizar aqueleano, quase reprovei em Matemática. O professor da época, Pedro, visivelmente
  • 53. não ia com a minha cara e pouco antes do exame final me perguntou o que euiria fazer após finalizar a oitava série. Eu respondi que iria fazer o Vestibulinho,uma prova eliminatória da Escola Técnica Estadual “Rubens de Farias”, paracursar Tecnologia em Alimentos. A resposta que obtive dele foi: “para nem mepreocupar em tentar fazer a prova, que eu não teria futuro nem como catador delixo”. Aquelas palavras me marcaram tanto, me deixaram tão nervoso quedecidi mostrar a ele que eu não era “burro”, pois de certa forma foi o que ele quisdizer, nas entrelinhas. Estudei para o exame e consegui um belo de um 9,0.Ainda tive de ouvir do professor Pedro que eu devia ter colado na prova e provaro contrário, resolvendo algumas equações na lousa, provando meu conhecimento.Eu fui até o quadro e consegui fazer boa parte os exercícios propostos e ele entãoficou calado. Foi com o término do Fundamental que eu comecei a pensar, de formamais consistente, no que faria do meu futuro. O Zoológico me influenciava muito,pois o meu convívio por lá era intenso, onde eu podia observar os profissionaistrabalhando dia-a-dia com os animais. Em casa, meu pai insistia para eu fazer um curso de Mecânica noSENAI31, para no futuro conseguir um emprego numa indústria qualquer. Eu merecusei, minha irmã me apoiou e para não contrariá-lo totalmente, fui fazerTecnologia em Alimentos, um curso profissionalizante de quatro anos. Apesardas palavras do professor Pedro e para o meu espanto, eu fui classificado noVestibulinho e admitido no curso. Foi mais ou menos nessa época, que comecei a escrever poesias econtos bem tristes, influenciado pela época da adolescência e pelos gruposmusicais do período pós-punk, que passei a ouvir intensamente entre eles TheCure, Joy Division e a minha favorita The Smiths. Meus amigos gostavam delê-las, mas sempre me diziam “isso é muito depressivo, não parece que foiescrito por você”. Mas eu tinha um lado triste e iria ter que aprender a lidar com ele nosanos seguintes. Parte dos meus escritos foram resgatados, e estão espalhados31Serviço Nacional de AprendizagemIndustrial (SENAI) é uma instituição privada brasileira de interessepúblico, semfins lucrativos cujo objetivo é ministrar cursos de formação profissional.
  • 54. nestas memórias. “Não se assuste, Não se esconda na multidão. A luz ainda o alcançaria. Meus olhos persistentes o procurariam, Por toda parte, por tantos lugares Para te encontrar tão perto do Sol”3232 Trecho do poema “Tão perto do sol”, escrito pelo próprio autor emdata desconhecida.
  • 55. Seguindo em Frente... “Não vá querer dizer o que fazer Ao coração, livre pra escolher Não vá dizer o fim da estrada também Pode ser o amanhecer” (Leoni)33N aquele ano foi tudo diferente, não havia medo ou revolta, apenas uma vontade imensa de experimentar, uma grande curiosidade pelo que poderia vir a seguir. Assim começava o ano de 1987, começava umnovo ano, numa nova escola. Eu havia passado no vestibulinho da Escola Estadual Rubens de Faria eestava a caminho do Ensino Médio. Desta vez eu havia feito a escolha, desta vezeu tinha tudo sobre controle. A nova escola era muito diferente de tudo que já havia experimentado.O prédio tinha aquela fachada com ares mais sérios, de algo mais “adulto” sem,contudo, ser intimidador ou tradicional. Fiquei surpreso ao descobrir que, apesarde existir uma camiseta oficial da escola, o uso de uniforme não era obrigatório,podíamos usar o que quiséssemos desde que fosse discreto e descente. Outranovidade era em relação às aulas, podíamos controlar nossas faltas sem aobrigação de estar na escola já na primeira aula. Podíamos fazer o nosso horário,33 Trecho da música “O fimda estrada” da banda Heróis da Resistência. Esta banda eu não curti nos anos 80,até conhecia algumas músicas das rádios, mas elas erammuito “pop”, não me chamavama atenção. Foi o Celsoque me apresentou algumas composições mais obscuras, aquelas que não tocavamnas rádios, as mais bonitas.Meu amigo me presenteou comumpunhado delas emuma fita K-7 que tenho até hoje. Eu andava meiodeprimido e ele queria levantar o meu astral. Como eu curti ouvir o Leoni cantando... Obrig Celso. ado
  • 56. por exemplo, assistir apenas as últimas aulas num determinado dia, mas seexcedêssemos o número de faltas, 25%, a reprovação era certa. Esta liberdade toda, apesar de parecer um fardo para muitos dos meuscolegas de escola, para mim foi como ganhar na loteria. Eu conseguia facilmentecontrolar minhas faltas e planejar o meu tempo. A escola havia deixado de seruma prisão. Apesar de toda esta novidade e modernidade, nem tudo era perfeito.Apesar de muitos do professores terem um jeito descontraído e diferente detrabalhar em classe, ainda havia aqueles tradicionais e eles não eram poucos.Mais uma vez eu tive problemas e dificuldades com História, Geografia,Português e Matemática, mas diferente dos meus tempos de Ensino Fundamentaleu, de certa forma, havia aprendido a contornar esses problemas e conseguir anota mínima para ser promovido sem grandes complicações. Durante o primeiroe o segundo ano, a disciplina de Biologia também foi um tormento. Antes doinício das aulas, eu tinha grandes expectativas pelo curso, porém o professor daépoca, Hugo Pólo, era além de tradicional muito religioso. Ele utilizava a Bíbliaem classe, mais especificamente o Velho Testamento, e todos deviam levar olivro sagrado para suas aulas. Ele dizia que a “Evolução” era uma grande mentirae através de passagens da Bíblia, procurava confrontar a idéia evolucionista coma criacionista, esta última, da qual ele era fiel seguidor. Naquela época eu nãoquestionava esta forma, nada convencional, de ensinar, eu apenas odiava aquelasaulas e nem me lembro sobre o que era dito nelas, sempre que podia, dava umjeito de sair de fininho e ficava no pátio ouvindo meu Walkman. No primeiro ano, ainda experimentei durante alguns bimestres, aexperiência de ser um aluno aplicado. Estudava diariamente e tirava boas notas,porém com o convite para trabalhar no Zôo de Sorocaba meu tempo começou aficar apertado de novo e eu acabei escolhendo as aventuras do zoológico ante aosestudos. Adolescente e tímido, no início eu ficava num canto, escondido, semamigos. Com o passar do tempo, fiz amizade com uma turma muito extrovertidaque, para minha surpresa, me aceitaram imediatamente no grupo. Dentre a“galera” do primeiro ano do curso de Tecnologia de Alimentos, se destacavam oKiko e a Renata. Foi com o Kiko que eu ampliei meu gosto musical. Ele meapresentou tantas bandas legais: Echo the Bunnymen, Sugarcubes, Joy Division,
  • 57. The Jesus & the Mary Chain, além do The Cure, a sua banda favorita na época.Nós sentávamos no fundo da sala, nos divertíamos o tempo todo fazendobrincadeiras bobas e levando sermões dos professores que se irritavam com onosso comportamento. Eu era um aluno do “fundão” e iria continuar assimdurante todo o Ensino Médio. Foi nessa época que, pela primeira vez, eu ganhei um apelido do qual eugostei. Todos me chamavam de Buiú, inclusive alguns professores. Não melembro quem o usou pela primeira vez, acho que foi a Rosângela, uma meninaque havia estudado comigo no Maylask no ensino fundamental, mas este apelidoacabou substituindo meu nome na escola. Eu próprio, mais tarde, o adotariacomo primeiro nome, utilizando-o até para assinar recados nos cadernos dosamigos. Este apelido tinha suas origens num programa de TV do SBT, “A Praçaé Nossa”, que na época tinha um quadro bem famoso com um negro, anão,chamado Buiú. Pela minha altura na época, quase 1,80m, o apelido era naverdade uma brincadeira, utilizado de forma carinhosa, bem diferente da minhaépoca do Maylasky e rapidamente tornou-se popular em toda a escola. O fato de eu trabalhar no Zoológico e participar do Clube deObservadores de Aves, me proporcionava certo respeito entre os colegas. Quandofui a Belém participar do Congresso de Ornitologia por exemplo, o jornalCruzeiro do Sul34 fez uma reportagem comigo, sobre as aves de Sorocaba.Lembro-me que muita gente viu a minha foto na primeira página do jornal eficou admirado com aquilo. Se por um lado minha projeção no jornal da cidade foi algo positivo, omesmo não poderia ser dito da televisão... Naquela época, no programa do Bozo do SBT, havia um quadrochamado “Bicho do Dia”. Nele, era apresentado um animal vivo, onde umespecialista no assunto contava para o público algumas de suas curiosidades.Durante vários meses, o Zôo de Sorocaba forneceu animais e participou doquadro. Foi aí que a Neli sugeriu que os integrantes do Clube apresentassem asaves. A equipe do SBT gostou da idéia, afinal o programa do Bozo era dirigidoao público infantil e a possibilidade de integrantes de um grupo ecológicoinfanto-juvenil apresentando animais, era bem interessante. Não demorou em chegar a minha vez. Eu não queria, estava muito34 Umdos principais jornais da cidade de Sorocaba.
  • 58. assustado com a idéia de aparecer na TV daquele jeito. Eu assistia sempre aoprograma e ao menos para mim, aquelas entrevistas pareciam uma eternidade. Eunão teria capacidade para tanto. Mas a Neli me tranqüilizou e conseguiu meconvencer, porém o animal a ser apresentado só me foi revelado no dia, maisespecificamente quando deixávamos a cidade rumo a São Paulo. Fui informadoque deveria falar sobre a coruja-suindara e me deram vários livros para ir lendodurante o caminho. Eu não sabia nada sobre corujas naquela época, na verdadeeu não me simpatizava muito com aqueles animais, mas aceitei o desafio e fuitentando memorizar nomes, curiosidades, hábitos alimentares, etc. Quando chegamos aos estúdios do SBT e adentramos no local onde oprograma seria gravado, eu tremia e suava frio de medo. Fiquei impressionadocom o auditório, que apesar de parecer enorme na TV, era na verdade minúsculocom pouquíssimas crianças. Finalmente a gravação começou e lá estava o Bozoperguntando meu nome. Depois de algumas piadas, inclusive a de passar a mãona minha cabeça me chamando de moreninho provocante, ele começou a fazerperguntas sobre aquela coruja e eu acabei respondendo, porém misturando asinformações de tudo que eu havia lido nos livros. Aí aconteceu algo que marcariaminha vida para sempre... O Bozo perguntou se coruja eram aves de rapina. Eu fiquei em silêncio,já havia ouvido aquela palavra antes e sabia que estava relacionada a aves dogrupo das águias e dos gaviões, aves carnívoras, predadoras, mas nunca me deiao trabalho de saber o seu real significado. Se alguém, por exemplo, me pedissepara fazer uma relação de aves de rapina, era bem provável que eu listasseanimais como harpia, águia-cinzenta, carcará, entre outros, mas as corujas eramtão diferentes destes bichos... Fiquei em dúvida sobre o que deveria responder earrisquei um não, afinal eu não podia dizer que não sabia, não pegaria bem. Mas,esta não era resposta esperada e ele perguntou mais uma vez acrescentando um“tem certeza?” e eu, dentro da minha teimosia, continuei afirmando que não. Foium fiasco, pois no final ele acabou me corrigindo e a partir daí eu aprendi, dapior forma possível, que aves de rapina eram aves predadoras. Além dessevexame todo, eu ainda teria que dar uma bitoca, ou seja, beijar o nariz do palhaçosem graça, antes de deixar o programa. Quando o programa foi ao ar, eu acabei acidentalmente tendo aaudiência de muitos amigos da escola e até de alguns professores. Tudo culpa doKiko, pois, no dia marcado para a gravação havia uma prova de português
  • 59. agendada. Com a correria, eu não consegui avisar a professora que não viria aescola e pedi ao Kiko para conversar com ela. Mas ele não se limitou em contarapenas a professora, mas para a classe toda. Quando cheguei à escola, no diaseguinte, todos me receberam cantando a musica tema de abertura do programa.Foi terrível! Ainda hoje meus amigos do Zôo lembram-se desta história e sedivertem me perguntando se “coruja são aves de rapina”.“Não vou carregar o passado comigo,quero caminhar sozinho”3535 Trecho do poema “De volta pra casa”, escrito pelo próprio autor em1993.
  • 60. Os meus primeiros vôos “Luz, quero luz, Sei que além das cortinas São palcos azuis E infinitas cortinas Com palcos atrás Arranca, vida Estufa, veia E pulsa, pulsa,pulsa Mais...” (Chico Buarque de Holanda)36E m 1989, houve um Encontro de Anilhadores de Aves em Brasília e eu queria ir, pois um dos meus ídolos na área de Ornitologia, o naturalista Helmut Sick iria realizar uma palestra no evento. O Professor Sick eraalemão e há muito tempo vivia no Brasil estudando nossas aves. Foi ele quemescreveu a maior obra sobre a história natural das espécies brasileiras,“Ornitologia Brasileira: uma introdução”, um dos meus livros de cabeceira queeu lia e relia o tempo todo. Quando contei ao grupo do COAS que queria ir a Brasília, outrointegrante, o Humberto, disse que me acompanharia na viagem. Meu pai teveque ir até o Juizado de Menores para retirar uma autorização para que eu pudesseviajar sozinho já que eu tinha apenas 17 anos e o Humberto 16. Eu vendi minhabicicleta, para poder ajudar a completar o valor da passagem, além de juntar36 Trecho da música “Vida” do Chico Buarque de Holanda
  • 61. economias de três meses do meu salário de monitor. Feliz da vida, pela primeira vez eu deixaria o estado de São Paulo, paraconhecer o Distrito Federal. Durante a viagem, a cada quilômetro uma surpresa, fosse pelas cidadespor onde passávamos ou pelo ambiente natural que há tempos conhecia doslivros e que agora me saltavam aos olhos: O Cerrado... Emociono-me até hoje sóde recordar como foi lindo ver seus Buritis pela primeira vez no horizonte, semdúvida um dos meus ecossistemas favoritos. Vi tucanos-toco acompanhando oônibus, voando a distância com seus bicos coloridos esticados, seriemas correndoentre os arbustos e muitos periquitos e jandaias. No congresso, ficamos impressionados como conseguíamos entenderboa parte das explicações dos palestrantes e começamos a discutir, comopoderíamos elaborar pesquisas sobre aves em nossa cidade. Eu voltei cheio de idéias, além de autógrafos de vários pesquisadorespelos quais tinha grande admiração, entre os quais o do professor Helmut Sick.Alguns anos após este congresso ele viria a falecer o que acabou tornando a suaassinatura ainda mais especial para mim. Comecei então sozinho, a observar a aves nos parques e na regiãopróxima a minha casa. Aos poucos, desenvolvi uma listagem de espécies quehavia registrado e organizei-a na forma de um trabalho científico. Neste processoeu pude contar com a ajuda da Bióloga Maria Martha, que havia conhecido emSão Paulo, durante um curso promovido pelo DEPAVE. Como ela morava nacidade de São Paulo, eu arrisquei enviar-lhe uma carta contendo minhasobservações em Sorocaba. Imediatamente ela me escreveu, impressionada com omeu interesse, me ajudando a melhorar a minha lista e propondo muitassugestões. A partir daí, muitas outras cartas foram trocadas e foi o início de umaamizade à distância. Até hoje admiro a paciência e atenção dispensada e a tenhocomo uma pessoa muito especial. No ano seguinte, estavam anunciando um Congresso de Ornitologia emBelém do Pará e, numa brincadeira, escrevi um resumo para a reunião científicautilizando como base, Anais de congressos anteriores existentes na biblioteca doZôo. Lembro que a Teonila fez as devidas correções de português, no meuresumo, e o enviamos pelo correio.
  • 62. Era apenas uma brincadeira para mim, imaginem se, pesquisadoresrenomados iriam levar a sério uma besteira escrita por um adolescente de 18anos que ainda estava cursando o Ensino Médio. Mas para meu espanto, não sóleram como o aprovaram para apresentação. Fiquei alegre e ao mesmo tempoassustado com a notícia e fui mostrar a carta a todos no zoológico feliz da vida.Quando mostrei ao Roni, ele apenas me disse parabéns, num tom inexpressivo, eem seguida apenas me perguntou quando eu estaria viajando para o Pará, comose tudo já estivesse planejado, já fosse certo. Aquilo me soou estúpido, pois, ele sabia que eu não teria condições de iraté o Norte do País. Isso demandaria uma quantia de dinheiro que eu não possuíamuito menos meus pais. Eu respondi que não iria e então ele novamente, deforma clara e tratando do assunto com algo simples respondeu: — Você vai sim, nós vamos dar um jeito nisso. Até hoje não sei quem pagou, mas eu ganhei as passagens de ônibus e aNeli ainda conseguiu a casa de um amigo dela para eu ficar. Foi uma longaviagem de ônibus onde, fui o caminho todo ouvindo o meu walkman econsultando alguns livros e revistas que tratei de colocar na bagagem. Foi minha primeira apresentação num congresso, onde fui tratado comoum profissional, apesar de muitos terem se admirado quando eu dizia que aindaestava cursando o Ensino Médio. Durante a exposição do meu painel eu respondiperguntas e também fui visitar os painéis de outros congressistas para conhecerum pouco dos trabalhos apresentados. Retornei radiante e decidido de que,aquilo era o que eu faria o resto da minha vida. Eu queria ser Ornitólogo. Eu já estava terminando o Ensino Médio, aquele seria meu último ano eteria que decidir fazer uma Faculdade em algum lugar. Na minha cidade só haviaLetras, Medicina, Enfermagem, Contabilidade e Engenharia. Mas eu já tinhadecidido, queria ser Biólogo e se fosse estudar fora, teria que ser em umainstituição pública, pois eu não teria dinheiro para financiar um curso particular. Naquele ano eu prestei vestibular e não passei, pois a Matemática e oPortuguês destruíram qualquer possibilidade de uma vaga na USP, Unicamp ouUNESP. Eu pedi então, para minha irmã me ajudar a pagar um cursinhopreparatório e ela concordou. Assim eu passei o ano seguinte, me preparando
  • 63. para o próximo vestibular. Foi aí que surgiu o primeiro curso de Ciências Biológicas em Sorocaba,implantado pela PUC-SP. Eu não queria estudar na cidade, eu queria fugir de lá, mas no vestibulareu fui novamente reprovado nas três universidades, mas havia conseguido umavaga na PUC. O curso era caro e meu pai não queria de jeito nenhum que eucursasse aquilo. Ele dizia: — Já que vai gastar dinheiro, pelo menos faça algo que lhe de umfuturo! Vai fazer Direito ou Engenharia. Mas eu queria ser Biólogo, queria ser como as pessoas que eu admirava,queria trabalhar com os animais. No ano seguinte eu estaria na PUC, iniciando uma nova etapa da minhavida, conhecendo novos amigos e experimentando o tão sonhado ambienteacadêmico. Eu iria também me decepcionar, mais uma vez, com o sistema deensino e com a ética de alguns profissionais, mas no fundo, seriam os melhoresanos da minha vida dentro de uma escola.“...acredite, há mais em mim,Do que qualquer um possa entender.E há mais em mim,Do que a própria vida”3737 Trecho de umpoema intitulado, escrito pelo próprio autor em1990.
  • 64. Descobertas Descobertas “When routine bites hard, “Quando a rotina morde forte, And ambitions are low, E as ambições andam baixas, And resentment rides high, E o ressentimento corre alto, But emotions wont grow, Mas as emoções não crescerão, And were changing our ways, E nós vamos mudando nossos caminhos, Taking different roads.” Pegando estradas diferentes” (Ian Curtis)38Q uando descobri que havia passado no vestibular da PUC, eu me enchi de alegria. Além de mim, outros integrantes do Clube de Observadores de Aves também haviam feito a prova e sido promovidos. O pessoal do Zoológico, então, organizou um “trote” especial, assimque ficaram sabendo do resultado. A Bióloga Cecília e a Teonila fizeram questãode nos levar até uma região movimentada da cidade, para realizar um pedágio,com direito a corte de cabelo e pinturas no rosto. Era um sonho que estava serealizando, mas ainda havia uma preocupação: como iria conseguir arcar com aalta mensalidade daquele curso? A minha irmã e meus pais resolveram me ajudar com as despesas. Meupai, a princípio, não via muita utilidade num curso de Ciências Biológicas, aindamais quando eu dizia que queria trabalhar com animais na natureza. Era umuniverso completamente distante do qual ele estava inserido, afinal, ele nãoconhecia ninguém que exercesse aquela profissão. Eu, por outro lado, estavamergulhado num mundo onde as pessoas trabalhavam com aquilo e, a cada dia,conhecia mais pessoas que haviam optado pela mesma profissão.38 Trecho da música “Love will tear us apart” da banda inglesa de rock alternativo JoyDivision. Esta eucurtia quando estava triste. Outro grande poeta do “underground” inglês, mas umtanto insano... viveu na bordado abismo cometendo suicídio na flor da idade, mas ele foi e sempre será lembrado pelas letras torturadas, de umlirismo mórbido, únicas e belas.
  • 65. A aprovação do meu pai, só viria a acontecer durante os primeiros anosda universidade, quando eu acabei, por várias vezes, saindo na TV e no jornallocal, divulgando atividades de pesquisa com animais (estudo de aves) edesenvolvimento de cursos de educação ambiental na cidade. Foi aí que elecomeçou a acreditar que eu poderia ser bem sucedido na minha escolhaprofissional. O período da adolescência, que agora era mais intenso, somado asminhas experiências durante o Ensino Médio, acabaram por transformarcompletamente a minha personalidade. Eu, de certa forma, acabara me tornandoum tanto melancólico e os meus gostos musicais não ajudavam muito a melhoraresta situação. O pós-punk dos anos 80 era o meu estilo de música favorito nestaépoca, representado principalmente pelas bandas The Smiths, Siouxie and theBanshees, Echo and the Bunnymen e The Cure. Suas músicas, ao contrário domovimento Punk dos anos 70 que tinha um cunho mais social e político,tratavam mais de temas existenciais, ressaltavam as perdas, o abandono, asincertezas e a tristeza. Eu idolatrava aquelas bandas e ainda gosto de muitas delas.Eram conjuntos que possuíam letras bastante elaboradas, poéticas, bem distantesdo besteirol que dominava as paradas de sucesso da época. Elas tambémacabaram me influenciando e eu acabei por me integrar no movimento “dark” daépoca, adotando roupas pretas como forma de expressão. Assim, todos os dias euia a PUC vestido de preto, com um “sobretudo” comprido, fosse inverno ouverão. Aquilo de certa forma, chamou a atenção dos meus novos colegas deescola, porém de forma negativa, e pela primeira vez, sem querer, eu faria comque as pessoas me respeitassem... Eu faria as pessoas sentirem receio de seaproximarem de mim. Ao mesmo tempo em que minhas roupas repeliam alguns, elas atraiamoutras pessoas, que se identificavam com o meu estilo musical. Foi desta forma,que eu acabei conhecendo a Erica, uma grande amiga que teria uma participaçãomuito importante na minha vida profissional. A Erica não conhecia muito do movimento pós-punk, ela era maisinteressada em hard rock, punk e grunge, porém, como eu, se sentia isoladanaquela escola onde muitas pessoas desfrutavam seus momentos de formaordinária. Foi quando voltei de um show do Depeche Mode, em 1993, vestindo acamiseta da banda e contando a todos como eu tinha me divertido, que eu havia
  • 66. pegado na mão do vocalista Dave Gahan, que ela arriscou um bate papo. Nós jános conhecíamos de vista, porém nunca havíamos conversado pra valer... Ela mediria, mais tarde, que possuía uma mistura de respeito e medo por mim. Mais tarde, eu começaria a apresentar a ela, alguns dos meus gruposmusicais favoritos, em gravações em K-7, como pequenos presentes. Eudespedia um tempo enorme, escolhendo as músicas, organizando a seqüência eelaborando a arte da capinha com colagens e pinturas. Adicionava tambémalguns dos meus poemas. Além da Erica, outras pessoas eram presenteadas comestas coletâneas musicais. A Maria Cláudia, por exemplo, deve ter ganhado pelomenos umas 20 fitas delas. Até hoje, em plena era digital, elas me dizem quepossuem as fitas guardadas... Hoje, quando converso com meus antigos colegas da PUC, muitos delesafirmam que no início sentiam o mesmo que a Érica, “tinham medo” daquelemeu visual esquisito que vinha, além de tudo, acompanhado de uma “carafechada”, com uma expressão de poucos amigos. Acho que, inconscientementeeu havia descoberto uma forma de me proteger das pessoas pelo menos o meusemblante garantia minha privacidade. A verdade é que, apesar do sonho da universidade estar se realizando, eutinha muitas dúvidas sobre o que me tornaria no futuro. A universidade era ofinal da minha jornada e a partir dali o futuro parecia incerto. Essa minha nova personalidade, no entanto, não me impediu de fazeramigos, pelo contrário, com o tempo fiz muitos. Como eu continuava comminhas pesquisas com as aves, trabalhando no Zoológico e indo a congressoscientíficos, eu era muito respeitado no ambiente acadêmico e todos me tinhamcomo alguém que realmente gostava do curso de Biologia. No último ano, eu acabaria mergulhando fundo no meuautoconhecimento, decidindo fazer alguns meses de análise. Neste período eupude confrontar meus medos e aplacar a tristeza, erguer a cabeça e seguir emfrente. O fim da universidade não soava para mim como o término de algo, muitopelo contrário, ele tinha sabor de algo novo, como de um nascimento, enascimentos podem ser traumáticos. Eu não queria mais enfrentar tudo no escuro,eu queria uma luz para me guiar e neste sentido, me conhecer um pouco mais, foimuito importante. No ambiente acadêmico, eu acabei me decepcionando novamente com a
  • 67. forma com que muitos professores agiam em sala de aula. O curso era novo, aminha classe ainda era a segunda turma e havia muitas falhas na programação ena escolha do corpo docente. Acabamos tendo aulas de Fisiologia com umadentista, que mal sabia do que estava dizendo. Ela fazia transparências depáginas de livros, projetava-as na tela e permanecia durante duas aulas apenaslendo, linha a linha. Mas havia muitos professores bons também; um em especial,Paulo Inácio, do curso de Metodologia Científica, tinha um jeito especial deaplicar suas aulas, utilizando muitos conceitos de filosofia e cultura popular paraexplorar as etapas da investigação científica. Ele, além de tudo, era um excelenteorador e demonstrava segurança sobre o que estava explicando. Lembro-me que,nesta época, eu costumava dizer que “se um dia eu me tornasse professor, queriapoder dar aulas como o Paulo Inácio” – algo que ainda acredito. Havia outro professor fabuloso, o Walter, que lecionava as disciplinasrelacionadas à Ecologia, as minhas favoritas. Ele também foi meu orientador,quando desenvolvi Iniciação Científica, estudando as aves de um fragmento demata na cidade de Sorocaba. Este agia de forma mais aberta em sala de aula eexigia dos alunos uma postura mais participativa, responsável e dinâmica, quebuscássemos mais informações nos livros e periódicos. Ele também solicitavapequenos projetos práticos, e nos avaliava com provas com consulta,extremamente trabalhosas e complexas. Muitos alunos não se adaptaram aquela forma de ensino e acabavamtirando notas bem baixas. Uma vez, extremamente irritado com o baixorendimento da classe e com as constantes reclamações de alguns alunos sobresua forma de lecionar, ele nivelou a nota de toda a turma ao conceito mínimo dauniversidade, 7,0. Neste momento, ele acabou tornando-se de ídolo numa grandefrustração, pois eu havia me esforçado para conseguir meu 9,0 e não tinha culpaem relação ao comportamento dos outros alunos. Assim, ele também acabariapor me ensinar algo para o resto da minha, como não me portar no futuro, casoum dia me tornasse professor... Apesar disso, não posso negar que o Walter me ajudou muito no campoda Ornitologia, área esta, que eu achava que daria seqüência na minha vidaprofissional. Mas eu já havia, inconscientemente, sido contaminado por outrocampo profissional, mas eu ainda teria que descobrir isto durante minhasexperiências fora da universidade.
  • 68. “Por um segundo, atropelei meu tempo,quase congelei de medo,tramei a fuga,perdi o senso...A ilusão que construí, abraçando a razão,me despiu ...”3939 Trecho de umpoema intitulado, escrito pelo próprio autor emdata desconhecida.
  • 69. Ao lado: alimentando umfilhote de leão no ParqueEcológico do Matão(Votorantim-SP).(foto: Erica Nestori).Abaixo: Na cozinha doZoológico Municipal Quinzinhode Barros (Sorocaba-SP),explicando sobre a alimentaçãodos animais, durante atividademonitorada com escolas.(Foto: Neli).
  • 70. Enfim, Biólogo... “Não me enfrente Não me traia Não me queiras mal Teu rosto pálido Teus punhos, vazios Teus medos, que Eu sei.”40O último ano na universidade foi estranho. Eu não tenho muitas lembranças, a impressão que ficou é que tudo passou rápido demais. Foi naquele ano de 1996, que morreu Renato Russo, o vocalista daLegião Urbana. Aquilo foi um baque tremendo para mim, pois eu gostava muitoda banda, tinha todos os discos e sabia todas as letras. Acho que foi a Erica quemme contou, assim que cheguei à PUC para assistir aulas. Eu não acreditei, acheique era boato, só fui aceitar quando vi noticiado nos jornais e na TV. Lembro quecomprei vários jornais e revistas e montei uma pasta com as reportagens queconsegui. Eu crescera ouvindo o Renato cantar e como milhares de jovensespalhados pelo Brasil, sentia que suas letras, de certa forma, continham muitoda minha história. Ele dizia, nos versos de “Tempo Perdido”:Todos os dias quando acordoNão tenho mais40 Trecho do poema “Eu Sei”, escrito pelo próprio autor em1998.
  • 71. O tempo que passouMas tenho muito tempoTemos todo o tempo do mundo...41É tão triste, hoje, perceber que ele teve tão pouco tempo... No final daquele ano, a Neli e o Professor Walter me fizeram umconvite de trabalho. Eles haviam apresentado um projeto para um programa deeducação ambiental da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, oPrograma Guarapiranga, e estavam precisando de quatro biólogos para coordenarNúcleos em quatro regiões: Embu das Artes, Embu Guaçu, Itapecerica da Serra eSão Paulo. Este programa visava à conscientização das comunidades quehabitavam as regiões próximas a represa Guarapiranga, importante recursohídrico da região que estava ameaçada pelo lixo e loteamentos clandestinos dasáreas de mananciais. Eu ainda alimentava o sonho de deixar a cidade de Sorocaba eexperimentar a liberdade de viver sozinho em algum lugar. A região onde oPrograma Guarapiranga iria ser desenvolvido, situava-se na Grande São Paulo,ou seja, muito próxima da minha cidade preferida. Sem pestanejar, eu aceitei odesafio e tratei de avisar minha família que estaria em breve, deixando o lar paraseguir meus próprios caminhos. Quando disse que em duas semanas, estaria partindo para São Paulo,ninguém me deu atenção. Eles achavam que eu estava brincando, afinal aindaestávamos em outubro, ou seja, eu tinha dois meses de aulas pela frente, comopoderia então ir morar e trabalhar em outra cidade. Mas eu já tinha tudoplanejado, havia conversado com os professores e todos me disseram que nãohaveria problema, desde que eu entregasse trabalhos. Minhas notas, naquele ano,estavam excelentes e os professores ficaram mais do que contentes com estapossibilidade de emprego que eu havia conseguido. A Neli também estavalecionando na PUC a disciplina de Educação Ambiental e somando com asdisciplinas de Ecologia do Walter, eu já tinha alguns dias livres na semana.Nossos contratos, no entanto, ficaram pendentes até fevereiro de 1997, pois sóentão conseguimos nossos certificados da graduação. Foi muito engraçado quando num domingo a tarde, minha mãe me41 “Tempo Perdido” é uma faixa do álbum“Dois”, lançado em1986, pela banda Legião Urbana.
  • 72. perguntou se eu ia viajar, enquanto eu terminava de fazer duas malas. Eurespondi que sim, que estava indo morar em São Paulo, que partiria no diaseguinte de manhã. Ela entrou em desespero. Foi só a partir daquele momentoque ela realmente acreditou em mim. Embarcaram nesta aventura eu, duas colegas de classe, a Frederica e aVirgínia, e um carioca formado em Ecologia chamado Rosan. Eu acabei morandoe trabalhando em Embu das Artes, o Rosan ficou perto do bairro de CampoLimpo em São Paulo e a Frederica e a Virgínia em Embu Guaçu e Itapecerica daSerra respectivamente. Todos nós tínhamos cargos de Coordenador de EducaçãoSanitária Ambiental. Juntos, nós permaneceríamos mais de dez meses trabalhando no projetoe conhecendo um pouco dos problemas daquela região cheia de pobreza eviolência. O Rosan tinha um jeito bem humorado de classificar aquela tristepaisagem de casas construídas sobre os morros, sem acabamento, mostrando overmelho dos tijolos. Ele dizia que parecia a “Grécia depois da feijoada”,fazendo uma analogia ao estado que ficamos, quando fazemos a digestão destacomida pesada. Aquilo era engraçado, mas sabíamos que era apenas uma formade manter o foco em nossas atividades, pois o cenário todo era bastantedeprimente. Eu sentia pena daquelas pessoas vivendo naquele lugar... Por causa da faculdade, eu sempre estava voltando a Sorocaba, masapós o término do curso eu começaria a passar mais tempo longe; no inícioalgumas semanas e posteriormente alguns meses. Naquela época, apesar de gostar da minha família, eu não queriapermanecer em casa junto com eles. Desde que havia dado início a Universidade,eu comecei a me incomodar com o fato de, mesmo tendo mais de 20 anos, aindaser tratado como uma criança. Ninguém me dava ouvidos quando euargumentava sobre algum assunto, eu não tinha poder de decisão em nada; eracomo se eu ainda tivesse 10 anos. Eu achava que sair daquele ambiente era asolução para obter a atenção que não possuía. Assim, eu não me importava emficar longos meses fora, curtindo o meu momento, buscando minha identidade...Amadurecendo. Esta foi minha primeira experiência profissional após o término dagraduação e, apesar do Programa não ter sido um sucesso, eu carregaria comigomuita bagagem para meus futuros empregos.
  • 73. Em meados de 1997, a bióloga Cecília do Zôo de Sorocaba me disse queo Zoológico de Mogi Mirim estava procurando por um Biólogo. Naquela época,eu estava extremamente desapontado com a política do Programa Guarapirangaque parecia mais preocupado em agradar as prefeituras, do que desenvolveratividades educativas. O projeto, em minha opinião e dos outros coordenadores,era uma farsa e ia contra nossos princípios e ideais. A Neli e o Walter, amarradosa política da Secretaria o Meio Ambiente, e visivelmente desapontados com orumo político dado ao Programa, decidiram abandonar as atividades. Nós todosacabaríamos fazendo o mesmo alguns meses depois. Visivelmente chateado, eu abandonei Embu e me mudei para MogiMirim e apesar de achar que minha adaptação seria fácil, que neste novoemprego eu encontraria um caminho tranqüilo para meu crescimento profissional,após alguns meses de bonança eu enfrentaria grandes tempestades. A cidade era um caldeirão político pronto para explodir. Para piorar asituação, a verba que mantinha o Zôo naquela época, era oriunda doDepartamento de Educação e havia um movimento interno para acabar com ela efechar o Parque. Em meio a todo este debate político, nós começamos a melhorar ainfra-estrutura do Zoológico e eu comecei a desenvolver diversas atividadeseducativas dentro do Parque e nas escolas, entre os quais, o Curso de FériasEcologia no Zoológico - ECOZÔO. Este foi um dos projetos de EducaçãoAmbiental do Zôo, que com o passar do tempo, tornar-se-ia muito popular nomunicípio de Mogi Mirim e região. Tratava-se de uma atividade desenvolvidacom crianças em todos os meses de férias (janeiro, julho e dezembro), abordandoum tema diretamente relacionado à ecologia, meio ambiente e qualidade de vida.A metodologia adotada neste projeto era uma adaptação do curso “Tranzôo”,desenvolvido no Parque Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros” emSorocaba. O Curso tinha a duração de seis dias, onde participam cerca de 80crianças (7 a 12 anos), divididas em quatro grupos com 20 participantes. A cadaEcozôo aborda-se um tema diferente, onde os grupos eram batizados com nomesrelacionados à temática adotada pelo curso. O Ecozôo era desenvolvido na formade gincana, enriquecido com diversas atividades práticas que motivavam aparticipação das crianças, bem como o tornava mais animado e divertido. Alémdo público infantil, o Ecozôo era também direcionado aos monitores que
  • 74. participam orientando as crianças durante todas as atividades, aprendendojuntamente com elas particularidades do tema proposto e aos pais, que eramconvidados a comparecerem no curso em dois momentos: numa reunião, paraserem informados da dinâmica e objetivo do curso; no encerramento, paraassistirem peças de teatro elaboradas pelas crianças. A cada Ecozôo participavamcerca de 10 monitores, os quais eram estudantes universitários e professores,coordenados pela equipe de educação ambiental do Zôo de Mogi Mirim. O ECOZÔO era um sucesso na cidade e todos os meses de férias,quando acontecia, os jornais e a TV local o noticiavam, fazendo reportagens comos técnicos do Parque. De certa forma, foram essas atividades que impediramque o Zoológico fosse fechado, e também ajudaram a promover a gestão daprefeitura da época. A equipe do Zoológico acabaria por receber oreconhecimento da então Diretora do Departamento de Educação (DEC), aProfessora Josélia, que a partir daquele momento passaria a defender aimportância do Parque na cidade. Mas tudo isso só foi possível devido à fantástica equipe que eu possuíanaquela época. Havia o Veterinário Gianfranco, que apoiava e dava suporte atodas as atividades desenvolvidas. Ele era cético quanto à importância daeducação ambiental e de certa forma, não gostava muito de crianças, mas emnenhum momento foi contra o projeto, muito pelo contrário, incentivava e davasugestões. Desde 1999 eu também contava com a ajuda de uma antiga amiga dostempos de Universidade, a Erica. Devido ao grande volume de trabalhoacumulado pelo programa de Educação Ambiental, nós havíamos conseguido,com a Diretoria de Educação, a contratação de mais um profissional. Somavamse ainda, vários voluntários, entre estagiários e amigos, que sempre apareciampara dar uma mãozinha. Tudo corria bem até que começamos a ser perseguidos pela oposição aopartido do Prefeito, que estava visivelmente descontente com toda aquelapromoção gratuita da atual gestão. Assim, todos os dias passaram a trazerpequenas surpresas desagradáveis como boicotes de materiais solicitados,fofocas e muitas, muitas ameaças. Eu fiquei com medo e muito triste com todaaquela situação. Aquela cidade estava sugando meus sonhos. Após o trabalho, ia direto para casa, pois passei até mesmo odiar andarnas ruas daquele lugar. Só deixava a segurança do lar para visitar alguns amigos.
  • 75. Numa destas ocasiões, na noite chuvosa de 11 de março, eu e o Gianfrancoestávamos em uma reunião na casa de uma amiga, quando repentinamente asluzes se apagaram. O Gian já havia me alertado que, se a chuva continuasse, nósteríamos que ir ao Zôo checar os animais, ele estava preocupado com apossibilidade do lago transbordar e inundar alguns recintos. Esperamos por mais de meia hora e a chuva só parecia piorar e nada daenergia voltar. Foi então quando decidimos, munidos de lanternas e capas dechuva, enfrentar o tempo ruim e fazer uma ronda no Parque. Quando chegamos,nos deparamos com uma cena horrível. O lago havia chegado ao seu limite ealguns recintos estavam cheios de água. Tivemos que, no escuro, capturaralgumas aves e remanejá-las para outra área. Felizmente, nenhum animal ficouferido. O que parecia ser apenas uma queda ordinária de energia devido ao mautempo acabou durando algumas horas e, somente no dia seguinte, nos daríamosconta que havíamos presenciado um blecaute de grandes proporções, que atingiraas regiões Sul e Sudeste do país: o Apagão. Na semana seguinte, tivemos quefazer muitos reparos no parque, além de restaurar os recintos de alguns animais. Em Mogi Mirim eu pude experimentar, de forma mais intensa, o contatocom os animais, o que me proporcionou momentos inesquecíveis. Eu pude, porexemplo, presenciar o nascimento de jacarés-de-papo-amarelo, lobos-guarás,araras, entre outros. Muitos destes filhotes precisaram inclusive, receberemcuidados especiais, sendo alimentados na mão. Foi uma fantástica experiência,porém a instabilidade política acabou roubando de mim o gosto de continuar nacidade. Ainda me lembro de como ficava feliz nas sextas-feiras. Já ia aotrabalho com minha mochila nas costas e logo que o dia terminava, corria diretopara a Rodoviária e tomava o primeiro ônibus para sair da cidade. Era comoabandonar o inferno rumo ao paraíso que, ironicamente, era a minha cidade natal,a casa dos meus pais. Nesta época, já estávamos no final de 1999 e eu voltava constantementepara a cidade nos finais de semana e feriados. Acho que, nesta época, minha irmãenjoou de ouvir minhas reclamações sobre o trabalho e até sugeriu que euabandonasse aquilo tudo e voltasse para Sorocaba. Mas a liberdade ainda pesavamais que o meu conforto e eu nem sequer refleti sobre seu conselho.
  • 76. Foi nesta época que comecei a perceber como as coisas haviam mudadoem casa. A distância somada os longos meses vivendo longe dali, de certa forma,mudaram a minha forma de relacionar com a família. Neste processo, elespassaram a me escutar mais, o que foi muito importante, pois assim consegui meaproximar de todos. Isto, porém, também tornaria as coisas bem complicadasnum futuro próximo, quando eu daria início a minha próxima aventura... Após três anos trabalhando em Mogi Mirim eu passei a ter um só desejo,o de desaparecer, de fugir para um lugar bem distante, longe de toda aquelasujeira política. Eu não tinha idéia que minhas preces seriam tão prontamenteatendidas... Um dia, visitando o Zoológico de Sorocaba, eu comentei com o Ronique não estava feliz em Mogi Mirim, que havia muitas coisas ruins acontecendo.Expus a ele grande parte dos meus problemas, os quais ele ouviu pacientementee fez vários comentários. Alguma semanas depois, eu recebi um telefonema delecom uma oferta de trabalho de acordo com as minhas preces, uma proposta paratrabalhar em um Zoológico particular em Recife, o Chaparral Zoo. Este parecia ser o emprego perfeito, feito sob encomenda para mim. UmZoológico com uma coleção somente de aves, muitas das quais eu só conheciados livros. Além disso, eles procuravam alguém para trabalhar como EducadorAmbiental, uma área em que eu estava a cada dia gostando mais e mais. O Chaparral era famoso por ser o único, naquela época, a possuir umcasal da raríssima ararinha-azul42, uma espécie do Nordeste classificada comoum animal extremamente raro, havendo apenas um único exemplar macho emliberdade na natureza e cerca de 60 indivíduos espalhados em criadouros ezoológicos pelo mundo. Apesar de tudo isto, aquilo não me trouxe alegria de imediato, muitopelo contrário, eu fiquei com muito medo, afinal seria uma grande mudança, amaior que eu já havia enfrentado até aquele momento, pois significariaabandonar da minha família por um longo período. Naquele momento eles eramo meu porto seguro e eu aprendera a curtir muito os momentos em queestávamos juntos. Eu havia desenvolvido um carinho especial por criançasdurante minhas experiências na área de Educação Ambiental e naquela época, eu42 A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é uma arara restrita ao extremo Norte doestado brasileiro da Bahia ao Sul do rio São Francisco.
  • 77. tinha muitos sobrinhos e primos com os quais eu adorava partilhar parte do meutempo. A minha sobrinha, a Tatiany, e os meus primos: João Paulo, MarcoAntônio e Luiz Fernando, sempre me foram muito especiais, principalmenteporque eles sempre retribuíram o meu afeto e queriam sempre ficar por pertoquando eu estava em Sorocaba. Assim, morar em Recife significaria abdicardestes momentos, me distanciando também dos amigos numa jornada incerta,num local completamente estranho. Antes de aceitar o convite, eu tive longas conversas com minha irmã ecom alguns amigos, principalmente o André. Sempre o considerei uma pessoaponderada e pedi seus conselhos. Ele apenas me disse: — Aceite! O máximo que poderá acontecer é você se arrepender, mas aívocê poderá voltar e nós estaremos aqui para recebê-lo. Aquelas palavras me deram coragem e eu retornei a ligação para o Roniaceitando o convite. Novamente, avisei a família que estaria trocando de emprego e que,desta vez, de estado também. Mais uma vez ninguém acreditou, até riram de mime eu ainda tive que agüentar meu irmão fazendo piadas sobre o assunto, porém,quando perceberam que eu havia pedido demissão em Mogi Mirim e que vivia aspressas organizando minhas coisas, todos emudeceram. Algumas semanas depois eu já estaria de malas prontas, embarcandopara Recife. A despedida foi dura, parecia que eu estava partindo para nuncamais voltar. Ainda me lembro da minha mãe chorando, dos abraços e das minhasdúvidas se aquilo realmente era o melhor para mim. Foi uma viagem bem triste, eu chorei bastante durante o caminho, maseu alimentava a curiosidade de conhecer um pouco mais do Nordeste, vivermergulhado numa cultura diferente e manter minha liberdade. Quando o avião pousou no Aeroporto Internacional de Guararapes, euestava totalmente desolado e um pouco arrependido; foi só quando vi o mar, deazul intenso da lindíssima praia de Boa Viagem, que eu consegui perceber ondehavia chegado e o longo caminho percorrido durante a minha vida. Aquilo erabonito demais para ser considerado um castigo, era uma dádiva, algo preciosoque me estava sendo ofertado. Então eu levantei a cabeça e resolvi aceitar o quea vida estava me proporcionado e prometi que daria o máximo para desfrutardaquele momento.
  • 78. O período no Recife foi muito importante para mim. Eu acabei fazendonovos amigos e conhecendo um pouco mais da cultura do Nordeste, da qual eusempre gostei. O Zoológico era bem pequeno, mas bastante conhecido na cidadedevido à presença da ararinha-azul. No início, eu mesmo recebia as escolas, sozinho, visto que eu não tinhauma equipe de trabalho. Com o tempo, eu consegui recrutar alunos do curso deMedicina Veterinária e Ciências Biológicas da Universidade Federal Rural dePernambuco para atuarem como monitores de Educação Ambiental e com estegrupo, passei a organizar cursos, eventos, além de oferecer visitas monitoradasno zoológico. Além do trabalho, eu gostava de curtir a cidade. Sempre que podia,viajava para Olinda e Porto de Galinhas, além de ir à praia todos os finais desemana com meus amigos. A culinária, o artesanato, e a receptividade do povonordestino haviam me conquistado. Eu morava no paraíso... O Recife me ensinou muitas coisas, entre elas, a gostar mais de ChicoScience, famoso cantor e compositor olindense morto em 1997, num trágicoacidente automobilístico. Ele foi um dos principais colaboradores do movimentoMaguebeat que despontou no início da década de 90 e acabou sendo bastanteconhecido no meio internacional. Antes de ir morar no Nordeste, eu apreciava asmúsicas da sua banda, Chico Science & Nação Zumbi, mais pelo instrumentalque pelas letras enigmáticas que pareciam terem sido escritas em outro dialeto.Mas a cidade, aos poucos, foi me mostrando que era sobre ela que o Chico falavana maioria das suas letras. Entre outras coisas, ele retratava a desigualdade sociale questionava o progresso num tom revolucionário, apoiando-se no discursopopular para edificar suas “poesias do mangue”. Lembro-me do meu espanto, quando percebi que na música “Rios,Pontes e Overdrives”, eu podia ouvir claramente o nome do bairro onde morava,o Imbiribeira. Algumas audições posteriores, no entanto, me mostrariam queaqueles versos incluíam apenas bairros do Recife:“É macaxeira, Imbiribeira, Bom pastor, é o Ibura, Ipseb, Torreão,Casa Amarela
  • 79. Boa Viagem, Genipapo, Bonifácio, Santo Amaro, Madalena, Boa Vista Dois Irmãos, é o Cais do porto, é Caxangá, é Brasilit, Beberibe,CDU Capibaribe, é o Sertão eu falei...”43 Era a trilha sonora daquele momento da minha vida. Ainda hoje, quandoouço Chico Science cantando, me vêem lembranças do Recife, algumas delasbem tristes... Quando as Torres Gêmeas do World Trade Center sofreram ataquesterroristas em 2001, eu ainda estava por lá e acompanhei tudo pela TV.Lembro-me que, naquele 11 de setembro, eu estava doente, com febre, devido aum resfriado forte e não fui trabalhar. Recebi a ligação de um dos meusmonitores me dizendo afobado: — Você viu na TV Cláudio? Meu Deus! Acho que é o início daterceira guerra mundial... Eu não entendi nada até ligar o aparelho e me deparar com imagens deuma das torres coberta de fumaça e replays de um avião chocando-se a ela.Fiquei estarrecido e ainda pude acompanhar, na seqüência, outro avião atingir osegundo prédio e mais tarde vê-los ambos desmoronarem. Aquilo me deixoucompletamente deprimido, comecei até mesmo questionar se valia à penacontinuar trabalhando em prol do meio ambiente, se haveria alguma chance paraa natureza uma vez que o ser humano não respeitava nem a si próprio. O mundo é um lugar estranho... Nas minhas férias, que eu fazia questão de sempre marcar entre osmeses de dezembro e janeiro, eu voltava para Sorocaba para visitar a família edesfrutar das festas de fim de ano. Todos ficavam contentes com a minhachegada e muito curiosos, ávidos por novidades. Minha mãe, às vezes, seimplicava com o meu jeito de falar, pois eu havia incorporado muito do sotaquenordestino e passara a usar muitas expressões populares da região que lhe eramdesconhecidas. Quando chegava o momento da despedida, já não era mais tão dolorosocomo da primeira vez. Eu conseguia voltar pro Recife tranquilamente, mas nofundo ainda sentia uma ponta de tristeza, por não poder continuar dividindo mais43 “Rios, pontes e overdrives” é uma música da banda de rock alternativo Chico Science & Nação Zumbi, doálbum“Da Lama ao Caos” de 1994.
  • 80. do meu tempo com meus pais, irmãos e amigos. A verdade é que eu gostava muito do Nordeste e já começava até aplanejar me instalar definitivamente na região. Mas tudo que é bom... Após o meu primeiro ano trabalhando no Chaparral, muitos problemasde ordem financeira afetaram o local que após três anos, acabaram culminandono fechamento da Instituição. Havia também alguns problemas de ordem legal,em relação ao IBAMA, que colaboraram para o encerramento das atividades. Desiludido e muito triste, retornei a Sorocaba contra a minha vontade.Este retorno tinha um sabor de derrota, eu sentia como se algo me fora roubado,desta vez eu era um perdedor. Os três meses que se seguiram foram uma tortura, desempregado e semânimo para correr atrás de alguma atividade, eu permaneci boa parte do meutempo em casa, trancado em meu quarto, extremamente deprimido. Muitosamigos ficaram preocupados e me ligavam insistentemente para me convidarpara sair, porém, sem trabalho e sem dinheiro eu preferi me isolar. Foram mesesde trevas, porém o destino como sempre, havia planejado algo especial paramim.“There is a light that never goes out”44“Há uma luz que nunca se apaga”44 Título de uma música do grupo inglês de rock alternativo “The Smiths”
  • 81. Casal de ararinha azul no Chaparral Zoo azul
  • 82. O Encontro Marcado 45 "O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." (Fernando Pessoa)46E m agosto de 2002, eu recebi o telefonema da Cristina, uma veterinária que eu conhecia dos meus tempos de Observador de Aves no Zôo de Sorocaba. Ela trabalhava numa Organização Não Governamentalchamada Associação Mata Ciliar (AMC), na cidade de Jundiaí-SP, um local queeu vivia visitando com o Gianfranco, quando eu ainda trabalhava no Zoológicode Mogi Mirim. Ela quis saber como eu estava, pois havia ouvido que eu andavameio chateado com os eventos do Chaparral e me deu uma baita bronca, pois euhavia retornado a Sorocaba e não tinha entrado em contato. Ela também meconvidou para fazer uma visita a AMC. Eu não havia contatado a Cristina, porque, até aquela época, apesar daminha grande admiração por ela como profissional e como pessoa, não éramostão chegados. Lembro-me de tê-la conhecido ainda nos anos 80, quando o Zôode Sorocaba estava inaugurando o seu Centro de Educação Ambiental, umaconstrução de madeira patrocinada pela WWF. A Cristina confeccionou diversos45 Título de umdos livros do escritor Fernando Sabino46 Frase do poeta e escritor Ferando Pessoa
  • 83. origamis (dobraduras de papel), de vários animais para decorar o ambiente dabiblioteca do Centro. Eu fiquei encantado com aquele seu dom, de conseguirtransformar papel colorido em pequenas e delicadas esculturas. Naquela época, a Cristina morava na cidade de Pedreira, trabalhando noZoológico local. Além de excelente veterinária, ela ainda desenvolvia atividadesde Educação Ambiental e chegou até mesmo, a criar um clube ecológico mirimna sua cidade, o qual mais tarde faria um intercâmbio com os Observadores deAves de Sorocaba. Quando eu trabalhava em Mogi Mirim, o Gianfranco sempre ia visitar aAMC e me levava junto. Eu adorava ir ao local, pois era muito diferente doambiente no qual eu estava trabalhando. Como não era uma instituição aberta aopúblico, pois o local se prestava mais a pesquisa, os recintos dos animais nãoprimavam pela beleza, mas pela ambientação para garantir o conforto dasespécies cativas. Conseqüentemente, os bichos pareciam mais saudáveis ebonitos e ainda podíamos chegar bem próximo deles sem o inconveniente dascercas que existem nos Zoológicos. Além de tudo isso, a Cristina e o Jorge, opresidente da ONG, sempre nos recebiam muito bem. De certa forma eu imaginava a possibilidade de um dia trabalharnaquele lugar... Foi numa quarta-feira, quando peguei um ônibus em Sorocaba rumo aJundiaí, planejando retornar ainda no dia seguinte, porém eu acabariapermanecendo em Jundiaí durante quase uma semana. Na rodoviária, o Jorge, presidente da AMC, veio me buscar de carro,pois a instituição ficava longe da cidade, num local um tanto inacessível. Erauma antiga fazenda, que havia sido transformada num centro de pesquisa ecriadouro de animais selvagens. Ali, a Mata Ciliar mantinha o Centro de FelinosSelvagens com várias espécies de gatos brasileiros e um Centro de Reabilitaçãoque prestava assistência a animais feridos, provenientes da região da ReservaEcológica do Japi. Além do trabalho com animais a AMC ainda produzia mudasde árvores nativas, realizando reflorestamentos e recuperação de áreasdegradadas e possuía um amplo programa de educação ambiental. Apesar detodas estas atividades, a equipe era bastante reduzida e eles estavam procurandotécnicos para trabalharem no local.
  • 84. Durante todo o percurso até a AMC, Jorge veio me perguntando sobre oque eu estava fazendo, e como havia sido minha vida lá no Recife e se eu tinhaalgo planejado para o futuro. Todas estas perguntas, é claro, obtiveram respostasbem vagas, entrecortadas por longas pausas, pois eu não estava fazendo nada,morria de saudades de Pernambuco e não tinha nenhuma previsão de futuro. Chegando à instituição, fui me encontrar com a Cristina, que estavaconversando com um grupo de estadunidenses que faziam uma visita aAssociação. Cristina me recebeu entusiasmada, com aquele bom humor que lhe émarca registrada e me apresentou em inglês ao grupo. Lembro-me, que eu estavatrajando uma camiseta do Chaparral Zoo, com a estampa da ararinha-azul. Umadas norte-americanas, observando o desenho na minha camiseta, me perguntouem inglês se aquela era a arara-azul comum e antes que a Cristina traduzisse afrase para o português, eu respondi que não, que era a ararinha-azul, uma dasaves mais ameaçadas do mundo. Espantada, ela me perguntou se eu já havia visto uma e eu confirmei quesim, contando que no Chaparral havia um casal e que, pela primeira vez noBrasil, elas haviam se reproduzido em cativeiro. Esta conversa durou algunsminutos. Foi aí que eu notei a cara de espanto da Cristina e do Jorge, eles nãosabiam que eu entendia o idioma. Por conta da visita dos estrangeiros, a equipe da Mata Ciliar estavatendo problemas com a organização de suas atividades. Eles precisavam receberestas pessoas, mas ao mesmo tempo, havia outras coisas urgentes para seremencaminhadas. Percebendo que eu conseguia me comunicar em inglês, a Cristiname pediu para ajudá-la no dia seguinte, acompanhando o grupo em passeios naReserva Ecológica da Serra do Japi. Eu aceitei, afinal de contas eu sempre quisconhecer a Reserva e nunca havia tido oportunidade. O sábado foi muito gostoso, fomos a Serra do Japi, acompanhei o gruponum passeio pela cidade e ajudei na organização de uma festa junina, à noite,para que eles pudessem conhecer um pouco mais da cultura brasileira. Até aquelemomento, no entanto, eu não havia conseguido conversar com o Jorge e aCristina sobre o real motivo do convite para eu estar na AMC. Isto só aconteceriana segunda-feira à noite, quando o Jorge me perguntou se eu não gostaria detrabalhar com eles, coordenando o Departamento de Educação Ambiental da
  • 85. instituição. Imediatamente eu respondi com um sim e perguntei: — Quando é que eu posso começar? Eles me olharam e sorriram dizendo: — Como assim? Você já começou. Bem vindo a Mata Ciliar! Naquele dia, teve início a fase mais gostosa da minha vida profissional.Eu permaneci três anos e meio trabalhando na Associação Mata Ciliar, atuandona área de Educação Ambiental e também auxiliando nas atividades de manejo ecuidados com os animais. A Cristina e o Jorge eram profissionais altamentequalificados, com enorme senso de responsabilidade e bastante éticos. Eles eramtambém apaixonados pelo que faziam, numa proporção que eu até me espantava. Neste período que estive no local eu desenvolvi projetos com escolas,cursos de capacitação para professores e comunidades rurais, ajudei a organizar oamplo programa de estágio e voluntariado da ONG, entre outras atividades. A impressão que eu tenho hoje, quando olho para trás e me lembro dosanos na AMC, é de um período de grande aprendizado e realizações pessoais. Após três anos trabalhando com o Jorge e a Cristina, eu receberia umconvite para um vôo ainda mais alto... Uma amiga, da época em que eu trabalhava em Mogi Mirim, aprofessora Josélia, ex Diretora do Departamento de Educação da Prefeitura dacidade, me telefonou perguntando se eu não gostaria de trabalhar no Japão. Ela estava pronta para deixar o Brasil e assumir a Direção da EscolaComunitária Paulo Freire, na cidade de Toyota, província de Aichi-ken. Notelefone ela me disse que estavam precisando de um professor de Ciências e quese lembrou de mim. A partir deste telefonema, até final dos sete meses que se seguiram,quando eu finalmente pisei no Japão, eu tive muitas dúvidas se estava realmentefazendo a escolha certa. O Japão era um sonho de infância, mais que trazia umcusto bastante elevado, uma total mudança na minha área de atuaçãoprofissional. Eu também tive medo da reação da minha família, amigos e colegas detrabalho. Eu era visivelmente bem aceito na Associação Mata Ciliar, erarespeitado como profissional e a cada dia me envolvia mais e mais nos projetos
  • 86. daquela instituição. Não queria que o Jorge e a Cristina me dessem as costas, eleshaviam se tornado grandes amigos, eram muito importantes para mim. Paraminha surpresa, quando revelei que havia recebido um convite para ir ao Orientee que planejava deixar a AMC, tudo correu bem, tive a aprovação dos doisrecebendo muitas palavras de incentivo. Com a Mata Ciliar, eu encerrei uma fase importante da minha vida eaqui, finalizo as recordações da minha trajetória como estudante e profissional,ao mesmo tempo em que, pontuo um novo começo, num país distante, na Terrado Sol Nascente. Estas novas memórias estão em construção, ainda são crianças, mas jácarregam um oceano de sentimentos. Além da minha caminhada profissional, euvolto novamente à condição de estudante, no curso de Pedagogia a distância, daUniversidade Federal do Mato Grosso, Ainda é cedo para eu conseguir avaliar esta minha nova fase, mas jáposso afirmar que, não me arrependo das minhas escolhas, que eu tenho grandesexpectativas pelas próximas páginas das memórias que virão, das recordaçõesque vou conseguir escrever a partir deste momento. Afinal de contas “Somos quem podemos ser” e devemos alimentar os “Sonhos que podemos ter”. podemos
  • 87. GuilhermeArte: André Guilherme
  • 88. SP):Dois momentos na Associação Mata Ciliar (Jundiaí – SP): Ao lado: Manejando uma coruja Suindara. Abaixo: Em atividade de Educação Ambiental (Fotos: Mariângela)
  • 89. Foto: Mariângela Foto: Cristina AdaniaNa Associação Mata Ciliar Acima à esquerda – Ministrando curso de Capacitação em Ciliar:Educação Ambiental para professores em Pedreira (SP), Acima à direita – Com umfilhote de Jaguatirica. Abaixo – Com técnicos e estagiários durante evento de Educação
  • 90. No Japão, com meusalunos da EscolaComunitária PauloFreire.Fotos: Josélia Fuídio
  • 91. Acima: Cozinhandona Associação Mata Ciliar(Foto: Mariangela) Ao Lado: Durante atividade deEducação Ambientalno Zoológico de Mogi Mirim(Foto: Erica Nestori)
  • 92. Longe é um lugar que não existe47 5DVFXQKRV GDV PLQKDV PHPµULDV 1D 7HUUD GR 6RO 1DVFHQWH 47 “Longe é um Lugar que não existe” é o título de um livro do escritor Richard BachPor do sol em Kyoto – 2006.
  • 93. Verde e amarelo desbotando-se no Oriente desbotando-Q uando cheguei ao Japão, em 2005, vim parar direto no coração de uma das maiores comunidades brasileiras no arquipélago - o conjunto habitacional Homi (Homidanchi), - na cidade de Toyota, província deAichi-ken onde, dos seus 9.000 moradores, cerca de 4.000 são brasileiros. A impressão que tive, já nos primeiros dias, é de ainda estar no Brasil,visitando um bairro qualquer pois, o português é praticamente a língua oficial nolocal. Placas, faixas nas ruas, folhetos informativos, revistas, tudo devidamentetraduzido para o nosso idioma, além de um supermercado com produtostupiniquins. A população local ainda veria, nos anos seguintes, a instalação de umousado complexo comercial - o FOXTOWN - com restaurante, padaria,academia, locadora de vídeos, cabeleireiros, entre outros, no melhor estilobrasileiro. O momento era de prosperidade entre a comunidade, que a cada anocrescia mais e mais. O futuro, no entanto, reservava incertezas, devido a umacontecimento histórico, que transformaria a vida de muitas pessoas. Segundo dados da Embaixada do Brasil em Tóquio, aproximadamente
  • 94. 320.000 brasileiros residem e trabalham atualmente no Japão, sendo esta aterceira maior comunidade verde e amarela no exterior. O Homi é apenas um dos núcleos brasileiros na região, havendo outrosnas proximidades como, na cidade de Seto, Togo e Myioshi, localizados a poucosquilômetros daqui e em outras províncias como as de Gifu e Hamamatsu. Durante meus primeiros anos no Japão, pude conhecer e compreenderum pouco do dia-a-dia dos Dekasseguis, forma como são chamados osestrangeiros por aqui, onde incluem-se os brasileiros. Pude observar a formacomo eles se entregam nas empresas onde trabalham, permanecendo muitasvezes mais de 10 horas diárias desenvolvendo os serviços que são recusadospelos japoneses, os chamados "3Ks" (kitsui, kitanai, kiken — duro, sujo eperigoso). Também pude observar o descontentamento de muitos deles, devidoas irregularidades em contratos junto as empreiteiras, do preconceito dacomunidade japonesa e da saudade da terra natal. Este último item, aliás, começou também a me incomodar, visto que,eu já estava distante da minha família a pelo menos três anos. Em outubro de2008, resolvi retornar ao Brasil para desfrutar de merecidas férias, permanecendoum mês por lá. Quando retornei, encontrei um Japão diferente, devido aos eventosdesencadeados pela crise econômica, que já começavam a atingir os brasileiros. Antes mesmo de deixar o Oriente, eu já ouvia boatos de que a economiado país não estava nada bem, que o Japão poderia, em breve, entrar em colapso.As notícias divulgadas, nos principais meios de comunicação, eram alarmantes.Milhares de pessoas estavam ficando desempregadas nos Estados Unidos e aperspectiva para os meses que viriam, eram desesperadoras. Quando retornei, pude acompanhar a crise aterrizar e se instalar noarquipélago. A velocidade com que as empresas demitiam era assustadora e acada semana, os jornais divulgavam a previsão de mais e mais cortes. O principal alvo foram os estrangeiros. Admitidos com contratos deserviço temporário, os dekasseguis foram "os escolhidos" para auxiliar naredução dos gastos das empresas, em grande parte, afetadas pela redução dasvendas de seus produtos de exportação. Na região da Província de Aichi-ken, a Toyota, umas das principaisempresas automobilísticas do mundo, reduziu drasticamente a sua produção,causando uma reação em cadeia nas empresas fornecedoras de produtos e peças
  • 95. para montagem de carros. Estas, com a redução da demanda da gigante Toyota,também demitiram centenas de pessoas. Toda esta sequência de eventos, não tardou a se refletir de formanegativa entre a comunidade. Com as demissões em massa, cujo principal alvoeram os estrangeiros, centenas de brasileiros se viram, de um dia para o outrosem empregos e até mesmo sem moradia uma vez que, uma porçãorepresentativa deles, encontrava-se residindo em apartamentos de empreiteiras,responsáveis pelos seus contratos junto as empresas. Eu pude presenciar o drama de famílias que, impossibilitadas detrabalhar, optaram por abandonar o Japão de vez, retornando ao Brasil. Porém, omaior problema encontrava-se entre aquelas que decidiram permanecer no país.Destas, muitas simplesmente não possuíam recursos financeiros para arcaremcom os custos das passagens. Conheci pessoas que haviam chegado ao Japão háapenas alguns meses e, portanto, não dispunham de dinheiro algum parafinanciarem o retorno. Para estes, a permanência no país, deixou de ser um sonho daconstrução de um futuro promissor, para tornar-se um pesadelo de grandeproporções. Haviam ainda aqueles, que já a alguns anos, tinham decidido construirum futuro na Terra do Sol Nascente. Para estes, a crise foi implacável. Muitoshaviam investido suas economias no país, adquirindo imóveis, os quaisfinanciavam em longas parcelas. Sem renda, devido ao desemprego, não tiveramoutra opção, a não ser devolver seus bens, abdicando do sonho de anos detrabalho. Segundo o website do jornal brasileiro no Japão Ipcdigital/br, em janeirode 2009, dos 320.000 brasileiros residentes, cerca de 50.000 haviam perdido seusempregos. O banco do Brasil, neste mesmo mês, apresentava que,aproximadamente 25.000 dos seus clientes, já haviam retornado para o Brasil48. Com o agravamento na situação da econômia japonesa, o comércio deprodutos e serviços para brasileiros, que antes se encontrava em expansão, foiextremamente afetado. Supermercados e lojas fecharam repentinamente, escolasperderam mais da metade de seus alunos, o que culminou na falência de algumasdestas instituições.48 http://www.ipcdigital.com/br/Noticias/Crise-no-Japao/Pelo-menos-50-mil-brasileiros-estao-desempregados-no-JapaoWebsite: Ipcdigital/br – Matéria: "Pelo menos 50 mil brasileiros estão desempregados no Japão Segundo o consulado de Nagoya, 15,6%dos brasileiros perderam seu emprego por causa da crise"
  • 96. Famílias começaram a passar necessidades, sem ter alimento ou mesmoonde morar. Os jornais noticiavam que muitas delas estavam morando embarracas, carros e/ou sob pontes, em pleno inverno japonês, onde as temperaturascaem abaixo de zero. Os brasileiros foram às ruas protestar e brigar pelos seus direitos.Somaram se a eles, outros estrangeiros atingidos pela crise, além de algunsjaponeses. Porém, muitos deles, nem mesmo conheciam a lei trabalhista local outinham a mínima idéia dos direitos garantidos por ela. Devido a barreiralingüística e cultural, as empreiteiras e empresas, muitas vezes realizavamcontratos duvidosos, desconsiderando a legislação vigente. O resultado destascontratações foi que, muitos sequer, tinham direito a receber o segurodesemprego. Todos estes acontecimentos, chamou a atenção de entidades nãogovernamentais e de membros da comunidade, brasileira e japonesa, queprogramaram várias ações para ajudar os mais necessitados. Entre estas ações, é digna de nota, a desenvolvida pelaempresária japonesa Mutsuyo Fukao, que cedeu um Hotel (Hotel Hakusen), queencontrava-se fora de funcionamento, na cidade de Okazaki para abrigar osestrangeiros necessitados. Esta ação mobilizou vários brasileiros, que foram aolocal, auxiliar na limpeza e reorganização da sua infra-estrutura. Com o passar dotempo, este hotel chegaria a acomodar cerca de sete famílias, recebendodoações de todo o arquipélago e transformando-se numa espécie de símbolo daluta dos dekasseguis contra a crise. Outra mobilização interessante foi a promovida pelo Centro LatinoAmericano Homigaoka (CELAHO), organização sem fins lucrativos sediada noHomidanchi em Toyota. Atuante desde 2001, o CELAHO sempre defendeu acomunidade brasileira, oferecendo assistência para seus associados (serviços detradução de documentos, orientação jurídica, acompanhamento a hospitais eoutros órgãos, etc.), além da criação e manutenção de uma escola comunitáriabilíngüe no local, a Escola Comunitária Paulo Freire – ECOPAF, o local onde eutrabalho. Observando o agravamento da crise, bem como a incapacidade dosbrasileiros em enfrentá-la, devido a magnitude que ela alcançou dentro de toda acomunidade, o CELAHO tomou algumas medidas urgentes. Uma delas foi aredução das mensalidades escolares da ECOPAF e o oferecimento de bolsas de
  • 97. estudo para as famílias que não podiam pagar os valores cobrados. Esteprograma, chamado "Bolsa Escola Comunitária", tinha como prioridade auxiliaros pais, cujos filhos estudavam em outras escolas brasileiras e encontravam-seincapacitados de arcar com as mensalidades (todas as escolas brasileiras noJapão são particulares e possuem mensalidades bem caras). Além da preocupação com a educação, o Centro Homigaoka tambémmobilizou voluntários, brasileiros e japoneses, organizando uma campanha emprol dos estrangeiros afetados pela crise, arrecadando alimento e distribuindo-oentre a comunidade.Toneladas de mantimentos foram arrecadados e um sistema de cadastramento edistribuição organizados, para atender os mais necessitados. O CELAHO ainda conseguiu disponibilizar, em várias ocasiões,consultas jurídicas gratuitas e confrontou diretamente o Governo Japonês,solicitando ajuda aos estrangeiros que sofriam com o agravamento da crise. Umdos principais tópicos discutidos foi a liberação de vários apartamentos públicosna região do Homidanchi para famílias desabrigadas, com aluguéis mais baratos.O Homi, possuía cerca de 380 apartamentos que se encontravam vazios,porém os órgãos púbicos responsáveis, alegavam que eles não poderiam serocupados devido a pressões da comunidade japonesa local. A Associação deMoradores do Homi, queria evitar a entrada de mais brasileiros no local, pois,segundo ela, os problemas existentes no bairro (acúmulo de lixo e barulho) eramgerados por eles. Assim, o CELAHO organizou abaixo assinados e uma noite deprotestos no Homi – a Vigília Noturna – visando atrair a atenção dos órgãoscompetentes para a situação trágica, pela qual os estrangeiros estavam passando. Todas estas ações, de certa forma, surtiram algum efeito e ajudaramcentenas de pessoas. O cadastro de doação de alimentos contava, até o início deJunho, com mais de 200 famílias beneficiadas com mantimentos semanalmente ehouve sorteios e liberação de vários apartamentos, não somente no Homi mastambém em outras regiões. O Governo Japonês, até hoje, não conseguiu definir uma política socialconcreta que contemplasse os dekasseguis que vivem no arquipélago. São muitasas reclamações, entre as quais, estão aquelas relacionadas aos direitostrabalhistas e as que envolvem a moradia e educação. Esta morosidade dogoverno foi julgada por muitos, como sendo fruto de preconceito e discriminaçãopara com os imigrantes, tema este bastante recorrente entre os brasileiros.
  • 98. A crise, de certa forma, agravou a situação, colocando todos estestópicos em evidência, além de tornar pública a necessidade de umareorganização política para com os estrangeiros. Em meio ao caos gerado, surgiram propostas e medidas urgentes foramcriadas, para conter a profusão de problemas que pareciam crescer sem limites.Entre elas destacaram-se:1. A contratação de mais professores para a rede pública japonesa, visandoatender a demanda de alunos oriundos das escolas brasileiras, cujos pais nãoestavam conseguindo pagar as altas mensalidades.2. O desenvolvimento de cursos de língua japonesa e outros de caráterprofissionalizante, visando capacitar os estrangeiros para o mercado de trabalhoque, com os eventos da crise, tornou-se mais exigente.3. O oferecimento de uma cota, em dinheiro, para que as famílias necessitadas esem empregos, pudessem retornar ao Brasil. Esta última, ganhou destaque na mídia internacional, devido a umacláusula que, proibia quem aceitasse a ajuda financeira, de retornar aoarquipélago. Mais tarde ela tornaria-se menos severa, propondo um prazo de trêsanos para o retorno. Mais uma vez, era levantada a velha discussão sobre preconceito dosjaponeses ante aos brasileiros. A Embaixada brasileira defendeu o governojaponês, afirmando que, a medida em questão, não era preconceituosa, mas simum esforço em ajudar os prejudicados pela crise. Porém, muitos não ficaramsatisfeitos com os esclarecimentos e o site TIME, expunha na sua página nainternet em abril de 2009, uma matéria intitulada: “Japan to Immigrants: Thanks,But You Can Go Home Now” (Japão para os Imigrantes: Obrigado, mas agoravocês podem voltar para casa) 49 . Já o The New York Times apresentavao drama dos brasileiros e discutia a proposta do governo japonês na matéria"Japan Pays Foreign Workers to Go Home" (Japão paga para trabalhadoresestrangeiros voltarem ao lar)50.49 http://www.ipcdigital.com/br/Noticias/Crise-no-Japao/Pelo-menos-50-mil-brasileiros-estao-desempregados-no-JapaoTIME – Matéria: “Japan to Immigrants: Thanks, But You Can Go Home Now”50 http://www.nytimes.com/2009/04/23/business/global/23immigrant.html?_r=1&pagewanted=1
  • 99. Pois é, este é um assunto que parece nunca ter fim... A economia japonesa parece ter começado a se estabilizar desde o finalde maio; parece que as empresas não estão mais demitindo, porém, muitos dosque perderam seus empregos ainda não conseguiram uma recolocação nomercado de trabalho. Muitas pessoas que eu conheço, estão com viagem marcadade volta ao Brasil. Além das malas, elas carregam muitas incertezas do que irãoencontrar pela frente. Algumas farão uso da verba cedida pelo Governo Japonês,outros decidiram pagar do próprio bolso, pois tem esperança de já no próximoano estarem de volta. Assim, o Homi vai ficando mais quieto, silencioso, pois a crisedesconstruiu toda a comunidade por aqui. Ela também acabou mostrando a suafragilidade em enfrentar um evento tão catastrófico. Os brasileiros remanescentessurgem mais fortes, mais determinados, pois nestes últimos meses eles sentirama necessidade de se organizarem, formando grupos e associações para seajudarem mutuamente. Uma lição foi aprendida com a comunidade japonesa que,se solidarizou com o sofrimento dos dekasseguis e doou alimentos e ofereceuabrigo; uma mensagem clara de que os estrangeiros são aceitos por muitos delesno país. Esta tem sido também, uma grande experiência pessoal. Eu jamaisimaginaria que, durante minha estadia num país de primeiro mundo como oJapão, presenciaria um drama social como este. A minha esperança é que estefenômeno dramático, coincidentemente desencadeado no ano da comemoraçãodo Centenário da Imigração Japonesa ao Brasil, concerte os erros cometidos atéagora e dê início a uma maior integração entre estas duas culturas tão distintas.The New York Times – Matéria: "Japan Pays Foreign Workers to Go Home"
  • 100. Afro-descendentes no Japão Afro-H á pouco mais de três anos, eu jamais poderia imaginar a possibilidade de trabalhar e morar no Japão. Convidado para integrar a equipe de uma escola brasileira, temeroso, deixei o Brasil em julho de 2005rumo ao desconhecido, sem ter a mínima idéia do que iria encontrar pela frente. O medo que vivenciei, foi partilhado por familiares e amigos, e tinhasuas raízes na imaginação equivocada que muitos brasileiros possuem dasociedade japonesa. O fato de eu ser negro e não possuir nenhuma descendência,fez com que meus pais, de imediato, não concordassem com a minha decisão dedeixar o país e, para piorar, alguns amigos descendentes de japoneses mealertaram que minha adaptação seria dolorosa e muito difícil, que eu deveriaencontrar a indiferença e preconceito por parte dos orientais. Hoje, após três anos na terra do sol nascente, retorno ao Brasil comovisitante e me vejo rodeado de pessoas curiosas, interessadas na cultura eorganização da sociedade japonesa. Familiares, amigos e conhecidos meperguntam sobre tudo, tamanha a curiosidade que este pequeno país desperta.Mas a pergunta mais freqüente é “você sofreu algum tipo de preconceito?” Aresposta, no entanto, pede algumas considerações e uma avaliação crítica desteperíodo que estive do outro lado do mundo mergulhado numa culturacompletamente diferente e considerada por muitos exótica. Algo que me chamou a atenção, logo nas primeiras semanas, foi o fatode existirem muitos negros no Japão. A grande maioria representada pornorte-americanos e africanos, vistos com freqüência nas grandes cidades comoNagóia, Tóquio e Osaka. Os afro-brasileiros, por outro lado, são poucos e os queconheci, casados com japoneses ou brasileiros-descendentes. A obtenção devistos para residir no país é muito complicada se você não possui parentesco,necessitando comprovação detalhada da sua experiência na área de trabalho. Istojustifica o espanto por parte dos japoneses quando eu revelo minha nacionalidade,
  • 101. mas não são só eles que se assustam, os brasileiros da comunidade onde residotambém ficam intrigados ao verem um negro não descendente e solteiroresidindo por lá. Por esse motivo, em qualquer evento, nas ruas e nas lojas ondeentro, sou sempre reconhecido como um negro norte-americano sendo abordadoem inglês pelos japoneses e por outros estrangeiros. O tratamento despendido aos negros, baseado na minha experiência, nãoera diferente ou grosseiro, muito pelo contrário, existe uma grande admiração emrelação a nossa etnia. Esta admiração é gerada, em parte, pelo contato que osjaponeses possuem com a cultura afro norte-americana. O mercado fonográfico,por exemplo, disponibiliza CDs de diversos artistas negros que são consumidoscom voracidade pelos japoneses, isto sem contar o grande interesse deles porcinema e esportes. O impacto da cultura negra pode ser observado, por exemplo,na forma como muitos jovens se vestem, e nos penteados. Não é difícil encontrarjaponeses em Tóquio usando dreadloks ou cabelos crespos no maior estilo Afrodos anos 70. Mas o preconceito existe sim, não aquele direcionado a raça, mas opreconceito contra estrangeiros em geral. Os japoneses possuem um estilo devida que não se encaixa facilmente nas outras culturas e parece que não estavampreparados para esta “internacionalização” que invadiu o Arquipélago nestasúltimas décadas. Os estrangeiros vieram contribuir para a manutenção dos mercados detrabalho local, que há muito tempo tem encolhido devido as baixas natalidades epela repulsa dos japoneses por determinados serviços ditos “braçais”. Mas juntoa esta contribuição, os imigrantes trouxeram também suas próprias culturas, seuspróprios estilos de vida. Entre as maiores queixas estão o barulho e a desorganização que osestrangeiros impõem as comunidades onde residem. Os pequenos delitos comofurtos e pichações, além da separação inadequada do lixo, hoje comuns nasgrandes cidades e locais com grande concentração de brasileiros e peruanos,incomodam os japoneses, acostumados com o silêncio e a segurança. As cidadesinterioranas, por exemplo, se assemelham a cidades fantasmas após as 19h,sendo difícil encontrar alguém nas ruas. Nestes locais o silêncio impera. A comunidade brasileira, no entanto, reclama muito sobre o tratamentorecebido nas fábricas onde trabalham e nos bairros onde moram. Não é difícilentender os motivos, uma vez que existe um grande choque cultural entre
  • 102. japoneses e brasileiros e, os primeiros, parecem não possuir um programa claroque favoreça a integração minimizando os conflitos existentes. Por este motivo,existem diversas Organizações Não Governamentais, nas regiões com altaconcentração de brasileiros, destinadas a prestar auxílio às comunidades. Muitasestas ONGs foram criadas e/ou são mantidas pelos próprios japoneses, poremcarecem de recursos do governo local para a manutenção e expansão de suasatividades. Apesar de todos estes problemas, afro-descendentes podem andarlivremente nas ruas e entrar com tranqüilidade nas lojas, sem serem observadoscom indiferença ou abordados por policiais solicitando documentos nas ditas“batidas”, que ocorrem com freqüência no Brasil e que muitas vezes estãoassociadas à cor da pele do cidadão. O Japão, com certeza, precisa ainda mudarmuito para poder conviver com a diversidade cultural presente no seu meio,assim como estrangeiros deveriam respeitar mais as regras locais. Voltei ao Brasil, nas minhas férias, para matar as saudades, revendoamigos e familiares e retornei ao Oriente, desta vez, sem medo e com a sensaçãode que “Negão no Japão pode dar samba”.
  • 103. Em Nagoya em 2007 (Foto: Kengo)
  • 104. Madrugada NervosaE ram exatamente 3:15 da manhã e eu não conseguia dormir. Na verdade, eu tinha quase certeza que, muita gente por ali também estava acordada, com os nervos a flor da pele, esperando pelo grande (glup!) terremoto! Tudo culpa do Jucelino Nóbrega da Luz, que na internet tem sidochamado de Jucelino das Trevas (Não podiam ter escolhido melhor). O carapreviu um tal terremoto pro dia 13 de setembro de 2008, bem onde eu moro, noJapão. Eu geralmente não fico muito antenado, nestas coisas trashs depremonições apocalípticas mas, todos estavam comentando desde o início domês e naquela semana, como quem não quer nada, fui fazer uma busca noGoogle e, como já esperava, não tive muito retorno sobre o Dia D. Mas a TVJaponesa veiculou uma matéria sobre o tema que apavorou Japoneses eBrasileiros. O Jucelino parece ser uma divindade por aqui, saindo na televisão eatraindo a atenção inclusive das autoridades do país. Pais de alunos ligaram na escola para saber se isso poderia realmenteacontecer e, de repente, me vi fuçando mais e mais na internet a procura derespostas. Tudo que encontrei foram provas do provável charlatanismo doJucelino e, como o tema era quase bíblico, acabei descobrindo com os links quevoltavam da minha pesquisa, sobre uma tal previsão Maia do Fim do Mundo em23 de Dezembro de 2012 ... Uma coisa era certa, se o terremoto não viesse, pelo menos eu teria maisquatro anos de sossego até o próximo fim dos tempos. Mas aquilo soava sério, era um assunto preocupante pois, desde que puso pé neste país, venho ouvindo essa história do grande terremoto deTOKAI. Dizem os especialistas que, num ciclo de 150 anos o chão treme naregião de TOKAI que compreende as províncias de: Shizuoka, Aichi, Gifu e Mie.
  • 105. Eu moro em Aichi e, toda vez que sinto pequenos abalos (muito comunspor aqui), fico petrificado. A previsão é de um tremor de 8,0 pontos na escalaRichiter... realmente assustador se levarmos em conta que, o que atingiu Kobeem 1995, ceifando a vida de aproximadamente 6.000 pessoas, foi de apenas 6.9.Me disseram que o "suposto" terremoto, previsto pra aquele dia, aconteceria as3h da manhã (pois é, como se não bastasse saber o dia, mês e o ano... ). Só pra não me arrepender depois, fui dar uma voltinha as 2:30h eretornei ao meu apartamento as 4h da manhã. Passei pela loja de Conveniência evi alguns carros, cheios de pessoas, estacionados por lá. Eu não possoafirmar, mas acho que eram pessoas dando um "tempinho" fora de casa, fugindodo terremoto. Ah! Eu fiquei com medo sim, afinal eu moro no quinto andar deum prédio que, com certeza, não vai agüentar um terremoto desta escala. No fim das contas, o tempo passou e nada aconteceu. O Jucelino dasTrevas fez mais uma previsão furada e, todos nós, continuamos por aqui. Fuídio) Homi Sweet Home. (Foto: Marcelo Fuídio)
  • 106. Minhas Poesias_________________________________________________________________ Como todo adolescente confuso, numa busca constante por algoincompreendido, um dia, eu também já gostei de registrar meus sentimentos nopapel. Foi um hobby que começou lá por 1987 ou 1988, não me lembro aocerto e os escritos que guardei comigo, não me ajudaram muito no resgate doperíodo em que foram criados, uma vez que eu não costumava datá-los. Era algo momentâneo, sem compromisso, uma forma de desabafo. Grande parte delas eu mantinha escondidas num caderno brochura,outras eu entregava a amigos acompanhadas de uma seleção de músicas gravadasem fitas K-7. Eu sempre gostei muito de escutar música, principalmente nosmomentos quando estava triste ou quando me sentia sozinho e queria partilhá-lascom aqueles que me eram queridos. Muitos de meus amigos ainda possuem estas fitas e poemas. Escrever estas memórias foi muito gostoso, foi também uma forma deresgatar um período que andava meio dormente nas minhas lembranças eexorcizar alguns dos meus demônios. Elas, as memórias, não estariam completassem esses versos, muitos deles tristes, mas que são de certa forma um registro domeu passado. Ultimamente eu não tenho mais escrito poemas, o último que fiz numpedaço de rascunho, encontrei por acaso entre as páginas de um livro. Eu outilizei para abrir este capítulo que encerra este pequeno livro. Ele foi feito aquino Japão, pouco depois de eu ter chegado nesta terra tão distante e tão diferentedo meu Brasil. Todos os poemas, registrados nas próximas páginas foram citados aolongo das minhas Memórias de Estudante, exceto este que abre esta seção. Euprocurei mantê-los da forma ingênua como foram escritos, fazendo o mínimo dealterações possível._________________________________________________________________
  • 107. A NOSSA LUA Quando o sol poente toca as colinas daqui, Deste meu lado do mundo... Quando meu coração, de sobressalto engasga e Entre um toque e outro, quase fica mudo...Quando lágrimas esquecidas, lágrimas da despedida, Aos cântaros me consomem no escuro... Quando o verde, do qual ainda me lembro, De súbito tornou-se vermelho, Emoldurado num branco profundo... As vezes, a noite, minha companheira me acorda, Inspira, me ilumina, me conforta Minha musa me consola E, sem rumo, eu sei Que esta é a mesma Lua Que teus lindos olhos alcançam Do seu outro lado do mundo
  • 108. AFAGO Quero teu afago, não o abandonopois neste estado o desgosto toma minha alma,Quero algo grande, mesmo que não me encante, mesmo que não complete a falta. Tudo que vem a mente, tudo que corrói a alma, queres mesmo saber? Tudo que tenho a dizer, não digo, para não te obedecer Não digo para não te ofender, Guardo comigo.
  • 109. ANTES QUE O AMOR SE ACABE Antes do efeito do vinho, o sabor da derrota,do fracasso daquilo que deveríamos ousar de tudo que poderíamos tentar. Antes mesmo de planejarmos a fuga, sem rotas, para um encontro cheio de culpa. Feito de cacos atirados à rua, rejeitados pelo asfalto. E antes de tudo, antes mesmo que o amor se acabe, quanto mais da dor... É preciso para adormecer um coração?
  • 110. MEU CAMINHO SEM VOCÊ Eu perdi meu caminho. A pé, cansado, desisti então do corpo Abandonei-o a beira do abismo. Foi triste observá-lo escorregando, por entre rochas atingindo o chão morto. Eu desbotei meu sorriso. Liberei demônios, foram tantos, foram muitos. Aquele sonho, não sei, esqueci, enterrei. Agora só ficou este desespero a arder, sem a esperança de um consolo, de poder te ver ao meu lado Eu vislumbrei a ruína, vagando inconformado, desiludido, Me afogando, me perdendo nestas trilhas. Enquanto o vento perseguia meu rosto, o frio congelava minhas mãos. Lágrimas encharcavam minha boca com seu gosto amargo de abandono sem razão. Eu abracei uma ilusão, enquanto envolvia-te em meus braços. Eu encontrei desprezo e solidão, enquanto tentava aquecer-te em meus braços.E tudo que tinha, toda minha ambição, toda minha vida, foi pilhada, queimada, destruída. Tantas léguas andei, procurando uma resposta, chorando, decompondo teu nome em vão,
  • 111. sussurrando nas trevas, arrebentando-me nas pedras,Suando, sangrando, sofrendo, Implorando teu perdão
  • 112. PARA QUANDO QUISERES RESPOSTAS E se a vida abandoná-lo, em seu próprio lar? Perdas, o que sabes sobre elas? Até onde provou teu sabor amargo? E se ... de alguma forma, tudo lhe for negado: Um beijo, uma paixão, a própria vida?Seriam nossas almas confusas, nossas realidades divididas? E se a morte vier nos abraçar em nosso próprio lar? Este medo herdado de seus pais o manteria acorrentado? Você desistiria de procurar seu coração? E se... de repente, algo desejado lhe for roubado: Um beijo, uma paixão, a própria vida?Seriam nossas almas corrompidas, apenas almas vendidas?
  • 113. MUNDO CAÓTICO Da leviandade construí meu império.Do esforço de muitos, para o espanto de todos, tornei-me rei e criminoso, vivendo em meu mundo caótico. Depois de suas meias verdades, as quais você considera reais, furtei parte do tempo para meditar, sem precisar de teus meios sorrisos. Ignorando-os, torno-me pleno e completo. Eu - em meu mundo caótico. Tanta lucidez durante o dia, desespero ao chegar a noite. Desfruto cada cena, cada momento, por fim me entrego a melancolia,Eu - vivendo em meu pequeno mundo caótico
  • 114. O PERTO DO SOL Na soleira da porta do teu esconderijo, a luz do sol há de encontrar as rosas que deixei. Naquela noite, a chuva forte, atacava as flores em minhas mãos. Golpeava-as com tanta fúria, como que um aviso de que você não mais estaria lá. Se viver bastante fizer algum sentido,então juro que ainda preencho o vazio do meu coração. Sorrateiro adentrarei tua sala, Tomar-te-ei teu corpo e de súbito te abraçarei. Não se assuste, não se perca na multidão Só a luz te alcançaria, meus olhos persistentes procurariam, por toda parte, por tantos lugares. Para te encontrar tão perto do sol.
  • 115. (SEM TÍTULO) "Há mais em mim do que versos irônicos, e a vida nos deu mais do que podíamos aproveitar, Há mais em mim do que estes versos dementes, Acredite,há mais em mim do que qualquer um possa entender, E há mais em mim do que a própria vida"
  • 116. FIM... INÍCIO... FIM.E caiu aquela tarde de desespero, Que perseguia tua alma, Consumia teu espírito, Usurpava teu coração E caiu o dia, Que antes embora vazio, Não ousava estar distante De minhas mãos O instinto,O medo que envolvia teus desejos E a noite que avançava, subia, chegava fazendo-se princesa e depois rainha anunciando o fim e o início de um novo dia
  • 117. DE VOLTA PRA CASA Abraçado a minha própria sombra, Mais do que nunca... Eu sei Estou perdendo toda minha fé Nas palavras, naquela promessa Que ainda me persegue e me afrontaE isto é triste demais para alguém suportar Sem calar, deixando tudo para traz Volto a seguir novamente meu caminho E isto pode ser real demais Para alguém se aventurar Eu vou sair nas ruas, Vou atropelar carros a pé Atirar-me, quebrar tudo nas paredes Escondido na minha agonia, Mas do que antes...eu sei, Que estou perdendo você E isto é injusto demais Para alguém como eu Não vou carregar o passado comigo, Quero caminhar sozinho Mas vou atirar tudo Quebrar você nas paredes
  • 118. Não se preocupe,Quero voltar a encontrar meus passos perdidos, Nem que isto me custe cortar as tuas pernas Para conseguir as minhas de volta Voltar a viver meu tempo perdido Nem que isto lhe custe ficar abandonado aqui Nesta estrada, No frio, Sozinho, A pé... Pois eu... Estou voltando pra casa
  • 119. (SEM TÍTULO) Por um segundo, atropelei meu tempo, quase congelei de medo, tramei a fuga, perdi o senso...A ilusão que construí, abraçando a razão, me despiu ... Num segundo, escondi meu rosto, quase perdi a esperança, planejei uma despedida, num texto medonho, sem vinho ou rosas, regado a lágrimas e drogas Mas a vergonha do que estava por vir, tomou-me de surpresa, me consumiu Tudo em um segundo..
  • 120. EU SEI Não fuja Não procure se esconder Não apague as luzes Por favor, não corra Porque... eu sei Agora que o tempo se foi Que o vinho azedou Que o vidro quebrou Mais do que nunca Eu seiTeus segredos, minhas armas Teu medo, meu beijo Tua espada, foi roubadaPorque sei tanto a seu respeito Não me enfrente Não me traia Não me queiras mal Teu rosto pálido Teus punhos, vazios Teus medos, que Eu sei.
  • 121. (Foto: Craig Alan Volker, 2008)
  • 122. I dont need more ammunitionIve got more than I can spendI dont dwell on things Im missingIm just pleasedWith the things Ive found (Morrissey) Eu não preciso de mais munição Eu tenho mais do que posso gastar Eu não lamento sobre o que me faz falta Eu estou satisfeito com as coisas que eu encontrei