Imagens para "O Sentimento dum Ocidental" de Cesário Verde

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Ilustração do ciclo "O Sentimento dum Ocidental" com fotografias do século XIX

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  • 1. Imagens para «O Sentimento dum Ocidental» de Cesário Verde Burghard Baltrusch http://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch
  • 2. JOSÉ JOAQUIM CESÁRIO VERDE (1855 - 1886) Cf. Esboço biobibliográfico em http://estudoslusofonos.blogspot.com/p/autorases.html
  • 3.  
  • 4.  
  • 5. I AVE MARIAS Nas nossas ruas, ao anoitecer, Ha tal soturnidade, ha tal melancholia, Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.
  • 6.  
  • 7. Claude Monet, Le Parlement, Effet de Brouillard , 1903, Museum of Fine-Arts, St Petersburg, Florida O ceu parece baixo e de neblina, O gaz extravasado enjôa-me, perturba; E os edificios, com as chaminés, e a turba Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.
  • 8.
    • Impressionismo
    • Pintura: Claude Monet (1840-1926)
    • Música: Claude Debussy (1862-1918)
    • Literatura:
        • O termo também é usado para descrever obras e técnicas literárias que só precisam acrescentar poucos detalhes para estabelecer as impressões sensoriais de um incidente ou cena.
  • 9. Batem os carros de aluguer, ao fundo, Levando á via ferrea os que se vão. Felizes! Occorrem-me em revista exposições, paizes: Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
  • 10. Lisboa. Estação de Sta Apolónia, vista exterior - 3º quartel do séc. XIX Estação principal do caminho de ferro do norte e leste Gravura, B. Lima/Pedrozo, 1866 in Arquivo Pitoresco , vol. 9, 1866, p. 1 BN J. 156 B.
  • 11. “ Estação de São Lázaro", Claude Monet
  • 12. Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações sómente emmadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
  • 13. Voltam os calafates, aos magotes, De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos; Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos, Ou érro pelos caes a que se atracam botes.
  • 14. E evoco, então, as chronicas navaes: Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado! Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado! Singram soberbas naus que eu não verei jámais!
  • 15. E o fim da tarde inspira-me; e incommoda! De um couraçado inglez vogam os escaleres; E em terra n'um tinir de louças e talheres Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda. Lisboa, Hotel Central, séc. XIX
  • 16. N'um trem de praça arengam dois dentistas; Um tropego arlequim braceja n'umas andas; Os cherubins do lar fluctuam nas varandas; Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!
  • 17. Vasam-se os arsenaes e as officinas; Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras, Correndo com firmeza, assomam as varinas.
  • 18. Vem sacudindo as ancas opulentas! Seus troncos varonis recordam-me pilastras; E algumas, á cabeça, embalam nas canastras Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
  • 19.  
  • 20. Varinas, Lisboa 1905
  • 21. Greve das varinas, início séc. XX
  • 22. Trechos dos painéis da Gare Marítima de Alcântara, da autoria de Almada Negreiros.
  • 23. Descalças! Nas descargas de carvão, Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas; E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas, E o peixe pôdre géra os focos de infecção! Descarga de carvão, séc. XIX
  • 24. II NOITE FECHADA
  • 25. A prisão do Aljube, em Lisboa Toca-se as grades, nas cadeias. Som Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças, Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!
  • 26. E eu desconfio, até, de um aneurisma Tão morbido me sinto, ao accender das luzes; Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes, Chora-me o coração que se enche e que se abysma.
  • 27. A espaços, illuminam-se os andares, E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos Alastram em lençol os seus reflexos brancos; E a lua lembra o circo e os jogos malabares.
  • 28. Duas egrejas, n'um saudoso largo, Lançam a nodoa negra e funebre do clero: N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo, Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo. “ O Inquisidor”, Diogo de Macedo www.ci.uc.pt/artes
  • 29. Na parte que abateu no terremoto, Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas;
  • 30.
    • 1/XI/1755: Terramoto de Lisboa
    • Um dos sismos mais mortíferos da História.
    • Destruição quase completa de Lisboa.
    • Atingiu grande parte do litoral do Algarve (cf. tb. catedral de Tui).
    • Seguido de um tsunami (20 metros de altura) e de incêndios, mais de 10 mil mortos.
    • Grande impacto político e sócio-económico na sociedade port. do séc. XVIII.
    • Nascimento da Sismologia moderna.
    • Largamente discutido pelos filósofos iluministas, como Voltaire.
    • Inspirou desenvolvimentos significativos no domínio da teodiceia e da filosofia do sublime.
  • 31.  
  • 32. Ruínas do Convento do Carmo em Lisboa
  • 33. A Lisboa anterior ao terramoto é descrita nos textos da época como caótica, com ruas e becos que não obedeciam a qualquer plano prévio. Descreviam-na ainda como nojenta, as bacias com dejectos eram despejadas no Tejo, e contava-se que estava sempre a ser fustigada por incêndios.
  • 34. Planta do centro da cidade de Lisboa antes do terramoto de 1755 com os projectos dos novos arruamentos sobrepostos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, (circa 1760)
  • 35. Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas, E os sinos d'um tanger monastico e devoto.
  • 36. Inauguração do Largo de Camões em 1867 Mas, n'um recinto publico e vulgar, Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras, Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras, Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!
  • 37.  
  • 38. Largo de Camões, 1902 Largo de Camões, 1900
  • 39. E eu sonho o Colera, imagina a Febre, N'esta accumulação de corpos enfezados; Sombrios e espectraes recolhem os soldados; Inflamma-se um palacio em face de um casebre. Death's Dispensary [Dispensário da Morte]; gravura de George John Pinwell, publicada numa revista inglesa, durante a epidemia de cólera de 1866. Representação da febre amarela
  • 40. Partem patrulhas de cavallaria Dos arcos dos quarteis que foram já conventos; Edade-média! A pé, outras, a passos lentos, Derramam-se por toda a capital, que esfria.
  • 41.
    • Convento do Carmo, fundado em 1389 e destruído em boa parte em consequência do terramoto de 1755.
    • Em meados do século XIX optou-se por não continuar a reconstrução para criar um cenário de ruína, seguindo a estética oitocentista.
    • A parte habitável foi convertida em instalações militares em 1836 .
    • Foi no Quartel do Carmo, sede do Comando-Geral da GNR, que o Presidente do Conselho do Estado Novo , Marcelo Caetano, se refugiou dos militares revoltosos no dia 25 de Abril de 1974 .
    • O cerco do aquartelamento foi dirigido pelo capitão Salgueiro Maia.
  • 42. Convento do Carmo no século XIX
  • 43. Triste cidade! Eu temo que me avives Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes, Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.
  • 44.  
  • 45.  
  • 46. Costureiras trabalhando, 1884, origem desconhecida, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto E mais: as costureiras, as floristas Descem dos magasins, causam-me sobresaltos; Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.
  • 47.  
  • 48. Edgar Degas (1834-1917), As Engomadeiras
  • 49. E eu, de luneta de uma lente só, Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
  • 50. Entro na brasserie; ás mesas de emigrados, Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.
  • 51. III AO GAZ
  • 52. E saio. A noite peza, esmaga. Nos Passeios de lagedo arrastam-se as impuras. Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras Um sopro que arripia os hombros quasi nús.
  • 53. Passeio de lajedo, século XIX
  • 54. «as impuras» prostituição no século XIX
  • 55. José Malhoa, p intura a óleo sobre tela, Museu de José Malhoa das Caldas da Rainha.
  • 56. Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso Ver cirios lateraes, ver filas de capellas, Com santos e fieis, andores, ramos, velas, Em uma cathedral de um comprimento immenso.
  • 57. As burguezinhas do Catholocismo Resvalam pelo chão minado pelos canos; E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.
  • 58.  
  • 59. N'um cutileiro, de avental, ao torno, Um forjador maneja um malho, rubramente; E de uma padaria exhala-se, inda quente, Um cheiro salutar e honesto a pão no forno. Padaria Independente Lisboa, Fábrica da Bempostinha 1º quartel do século XIX Faiança policroma Proveniente do revestimento parietal da padaria Independente, Rua da Graça, nº 80
  • 60. E eu que medito um livro que exarcebe, Quizera que o real e a analyse m'o dessem; Casas de confecções e modas resplandecem; Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.
  • 61. Longas descidas! Não poder pintar Com versos magistraes, salubres e sinceros, A esguia diffusão dos vossos reverberos, E a vossa pallidez romantica e lunar!
  • 62. Que grande cobra, a lubrica pessoa, Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo, Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
  • 63.  
  • 64. E aquella velha, de bandós! Por vezes, A sua traîne imita um leque antigo, aberto, Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.
  • 65. Desdobram-se tecidos estrangeiros; Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; Flócos de pós de arroz pairam suffocadores, E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,
  • 66. Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; Da solidão regouga um cauteleiro rouco; Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.
  • 67. «Dó da miseria!... Compaixão de mim!...» E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, Meu velho professor nas aulas de latim!
  • 68. Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cáe nas lages, ás escuras: Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras, E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.
  • 69. IV HORAS MORTAS
  • 70. O tecto fundo de oxygenio, d'ar, Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras, Enleva-me a chimera azul de transmigrar.
  • 71. E eu sigo, como as linhas de uma pauta A dupla correnteza augusta das fachadas;
  • 72. Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas, As notas pastoris de uma longiqua flauta.
  • 73. Poppies Blooming (1873), Claude Monet, Musée d’Orsay, Paris
  • 74. Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
  • 75. Esqueço-me a prever castissimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!
  • 76. José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899), óleo sobre tela
  • 77. Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis, Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
  • 78. Gustav Klimt (Viena, 1862-1918). Cf. ideal da femme fragile . Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, N'umas habitações translucidas e frageis.
  • 79. Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, N'umas habitações translucidas e frageis.
    • Sonho de habitar “translúcidas e frágeis” mansões:
    • Desejo de evadir-se da “massa irregular de prédios sepulcrais”.
    • “ Triste cidade”:
    • Arquitectura utópica torna-se, pelo avesso, a representação utópica e mais verdadeira da sombria capital portuguesa do século XIX.
  • 80. Ah! Como a raça ruiva do porvir, E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes, Nós vamos explorar todos os continentes E pelas vastidões aquaticas seguir! “ [Trata-se do] esboço e da promessa de uns anti-Lusíadas que, como tal, igualmente e definitivamente rasuram a presença tutelar de Camões.”(David Mourão Ferreira 1995)
  • 81.  
  • 82. Mas se vivemos, os emparedados, Sem arvores, no valle escuro das muralhas!... Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.
  • 83. José Malhoa, Os Bêbados ou Festejando o São Martinho (1907). Pintura a óleo sobre tela, Museu de José Malhoa das Caldas da Rainha. E n'estes nebulosos corredores Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas; Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
  • 84. Eu não receio, todavia, os roubos; Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes; E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes, Amarelladamente, os cães parecem lobos.
  • 85. E os guardas, que revistam as escadas, Caminham de lanterna e servem de chaveiros; Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros, Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
  • 86. E, enorme, n'esta massa irregular De predios sepulchraes, com dimensões de montes, A Dôr humana busca os amplos horisontes, E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
  • 87. Claude Monet, Roche a Belle-Ile, 1886
  • 88. Claude Monet, Impression Sunrise, 1872 oil on canvas 48x63cm, Musee Marmottan, Paris
  • 89. Imagens para «O Sentimento dum Ocidental» de Cesário Verde Burghard Baltrusch http://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch