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TABOR - A Dinastia de Jesus

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Resumo elaborado por Carlos Jorge Burke para o livro "ENSAIO SOBRE CONTRADIÇÃO. Civilização e Natureza: aquecimento global - síntese final? ...

Resumo elaborado por Carlos Jorge Burke para o livro "ENSAIO SOBRE CONTRADIÇÃO. Civilização e Natureza: aquecimento global - síntese final?
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TABOR - A Dinastia de Jesus Document Transcript

  • 1. TABOR, James D.. A Dinastia de Jesus – A história secreta das origens docristianismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.Resumo por: Carlos Jorge Burke – www.cburke.com.brOBS: Se desejar, solicitar arquivo pelo blog.“Mateus faz também referência a um antigo adágio do profeta hebreu Isaías: "eis queuma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel" - como sedissesse que a gravidez de Maria era a realização dessa profecia (Isaías 7:14). MasIsaías faz referência a uma criança que deveria nascer na sua própria época, no séculoVIII a.C., cujo nascimento seria um sinal para o rei Ahaz, que então governava. Apalavra hebraica (almah) que Mateus traduz por "virgem", em sua versão grega,significa "jovem mulher" ou "donzela”, sem introduzir qualquer implicação miraculosa.A criança receberia o nome pouco comum de Emanuel, que significa "Deus conosco", eIsaías garante ao rei Ahaz que, antes que essa criança tenha idade suficiente paradistinguir "o bem do mal", os assírios que ameaçavam Jerusalém e a Judéia seriamremovidos da face da terra. Ahaz não teria que esperar muito tempo. Mateus infere quea profecia de Isaías foi "realizada” pelo miraculoso nascimento virgem de Jesus - o queclaramente não é o sentido do texto original.” (pag. 60)“Outro dogma católico afirma que Maria permaneceu virgem durante toda a sua vida(semper virgine, "sempre virgem")" - percepção partilhada até mesmo por inúmeroslíderes protestantes, como Lutero, Calvino, Zwingli e John Wesley, embora seja poucocorrente hoje em dia entre os protestantes. Maria foi idealizada em todos os temposcomo a divina e santa "Mãe de Deus". Ela estava tão afastada de sua cultura e de suaépoca, que a mera idéia de que poderia ter tido relações sexuais, gerado outros filhos evivido a vida normal de uma mulher judia casada foi impensável durante séculos. Elafoi "louvada até os céus" de maneira bastante literal, e sua verdadeira humanidade seperdeu, assim como se perdeu a importância de seus ancestrais.” (pág. 61)“Na primeira linha de seu Evangelho, Mateus chama Jesus de "filho de Davi".Em Lucas, o anjo anuncia a Maria que seu filho Jesus iria sentar-se "no trono de Davi,seu pai" (Lucas 1:32). Esses dois conceitos estão interligados: nem todos osdescendentes de Davi iriam ocupar seu trono, mas tampouco ninguém ocupou essetrono sem ser descendente de Davi.O rei Davi, célebre autor de muitos salmos e pai do rei Salomão, foi o mais renomadodos antigos reis de Israel. Pouco antes de sua morte, Deus lhe fez a promessa de que seu"trono" duraria para sempre e que apenas aqueles gerados por sua "semente" oocupariam como governantes da nação de Israel (2 Samuel 7:12-16). Os profetashebreus aceitaram essa promessa transformando-a na base de sua predição de que, nos"últimos dias", o Cristo, ou o Messias, se sentaria no trono de Davi como governanteideal de Israel. Para isso, ele teria necessariamente que ter a linhagem adequada.Essa promessa foi encarada como um contrato inabalável. No livro de Jeremias, Deusdeclara que, "se o meu concerto do dia e da noite não permanecer, e eu não puser asordenanças dos céus e da terra, também rejeitarei a descendência de Jacó e de Davi,meu servo, de modo que não tome da sua semente quem domine sobre a semente deAbraão, Isaac e Jacó" (Jeremias 33:25-26). Essa promessa feita a Davi, de que seusdescendentes reais reinariam sobre Israel, era equiparada a uma lei fixa da natureza.
  • 2. Outros, gregos ou romanos, poderiam até mesmo reinar sobre Israel, mas seriam semprepercebidos como estrangeiros e ocupantes ilegítimos, que Deus varreria da face da terraquando chegasse o verdadeiro Messias. Os judeus foram independentes durante umbreve período - de 165 a 63 a.c. - antes que os romanos conquistassem o país. Umafamília judia local, os macabeus ou asmonianos, governaram o país, estabelecendo umadinastia de sacerdotes, mas foram incapazes de se proclamar da linhagem de Davi.Como já notamos, Herodes, o Grande, apesar de seu título de "Rei dos Judeus", temiaque um verdadeiro descendente da linhagem de Davi pudesse vir ameaçar seu poder.”(pág. 63s)“Qualquer genealogia banal naquela época se baseava apenas na linhagem masculina,que tinha uma importância fundamental. O pai de uma pessoa era o fator significativona cultura do mundo em que Jesus nasceu. No entanto, Mateus menciona quatromulheres, ligadas a quatro dos quarenta nomes de homens listados, o que é inteiramenteirregular e inesperado. Mateus registra:Judá gerou Peres e Zerá por meio de Tamar (v.3)Salomão gerou Boaz por meio de Raabe (v.5)Boaz gerou Obede por meio de Rute (v. 5)Davi gerou Salomão por meio da esposa de Urias (v.5)(...).O padrão cadenciado dessa lista de nomes de homens choca-se com a menção dessasmulheres, todas bem conhecidas dos leitores judeus. Elas não têm nada a ver com agenealogia formal da família real. As histórias dessas mulheres na Bíblia chamamatenção pelos sórdidos detalhes sexuais. Parece claro que Mateus está tentando colocaro nascimento de Jesus, potencialmente escandaloso, no contexto de seus ancestrais -homens e mulheres. Na verdade, ele está preparando o leitor para o que vai se passar.No final da lista, o último nome da última linha, dá lugar ao choque. Mateus estáseguramente tentando sacudir, tomar o leitor de surpresa, quando escreve:Jacó gerou José. marido de Maria;dela foi gerado Jesus, que se chama o Cristo.O que seria de esperar, em qualquer genealogia comum masculina, era:Jacó gerou José;José gerou Jesus, que se chama o Cristo.Mateus emprega o verbo "gerar" (do grego gennao) 39 vezes na voz ativa, com umsujeito masculino. Mas quando chega a José, o desvio é importante: ele usa o mesmoverbo na voz passíva com um objeto feminino: dela foi gerado Jesus. Dessa forma, umaquinta mulher se infiltra inesperadamente nessa lista: a própria Maria.E, certamente, essa não é a linhagem de Maria, mas a genealogia de José. Por que,então, ela é incluída? Mateus está preparando o leitor para a história que virá, na qualMaria, noiva, fica grávida de um homem que não é seu futuro marido. É como se eleestivesse prevenindo, de maneira implícita, os leitores sentenciosos ou extremamentereligiosos para que não tirem conclusões precipitadas.” (pág. 64ss).“A Antiga Israel era dividida em 12 tribos, descendentes dos 12 filhos de Jacó, neto deAbraão. Os sacerdotes de Israel tinham que ser descendentes de Aarão, irmão de
  • 3. Moisés, da tribo de Levi. Os reis deviam ser da linhagem real do rei Davi, da tribo deJudá. Estas posições, rei e sacerdote, davam às tribos de Judá e Levi proeminênciaespecial.“ (pág. 70s).“Cristãos e Judeus vieram posteriormente a se centrar no Messias - uma única figura dalinhagem de Davi que deveria governar como rei nos últimos dias. E, no entanto, nosManuscritos do Mar Morto encontramos uma comunidade religiosa extremamentedevota, habitualmente identificada com os essênios, que esperavam a vinda de trêspersonagens - um profeta, como Moisés, e os messias de Aarão e de Israel. O "Messiasde Israel" é claramente o rei da linhagem de Davi, mas o "Messias de Aarão" se refere auma figura sacerdotal - também chamada de messias. Essa percepção preenche umafalha em nossa compreensão da dinastia de Jesus. Vários textos começam a fazer maissentido e se encaixam de uma maneira que tinha sido precedentemente omitida.A palavra "messias" vem do termo hebraico moshiach, que significa simplesmente"pessoa ungida”. O termo grego equivalente, christos, também significa "ungido", e foia partir dele que se derivou o termo que nos é mais familiar de "Cristo", em suasignificação de Messias. O termo se refere ao ritual sagrado no qual se derrama óleosobre a cabeça de um indivíduo escolhido, para confirmá-lo oficialmente comosacerdote ou rei. A sagração daquele que era escolhido por Deus se fazia em geral porintermédio de um profeta. Mas, fosse ele rei ou sacerdote, o candidato teria de possuir alinhagem apropriada. Muita gente se surpreende ao saber que o primeiro Messias naBíblia foi Aarão, "ungido" como sacerdote por seu irmão Moisés e citado no textohebreu como um "moshiach" ou "messias" (Êxodo 40:12-15), centenas de anos antesque o profeta Samuel tivesse ungido Davi como rei de Israel (l Samuel 16:13). Todosacerdote ungido teria de ser descendente de Aarão, e todo rei ungido teria de serdescendente de Davi. Maria, mãe de Jesus, era descendente direta do rei Davi, mas tinhatambém laços de sangue com a linhagem levita, de sacerdotes, descendentes de Aarão, oque é provado tanto por sua genealogia quanto por seu parentesco com a família deIsabel, mãe de João Batista. Séculos mais tarde, depois da era bíblica, o pai determinavaa filiação tribal dos filhos, enquanto a mãe dava a garantia de seu filho ser realmente"judeu”. As coisas não eram tão claramente definidas na época bíblica. Na Bíblia, fala-se das mulheres como portando a "semente”, e a mesma palavra hebraica zara(literalmente "semente") é usada como referência tanto aos filhos dos homens quantodas mulheres. Assim, Jesus podia perfeitamente reivindicar o fato de ser da "semente deDavi" pela linhagem de sua mãe.” (pág. 72s).“Os eruditos que colocam em questão a verdade literal dos relatos de nascimento feitospor Mateus e Lucas e sugerem que o fato de dar a Jesus um extraordinário nascimentosobrenatural é uma maneira de afirmar a natureza divina de Jesus como “filho de Deus”.Essa idéia de seres humanos procriados por deuses é extremamente comum na culturagreco-romana. Há uma legião de heróis citados como sendo o produto de uma uniãoentre sua mãe e um deus – Platão, Empédocles, Hércules, Pitágoras, Alexandre, oGrande e mesmo César Augusto. A idéia do homem divino (theios aner) cujonascimento sobrenatural, capacidade de fazer milagres e morte extraordinária o separamdo mundo comum dos mortais é encontrado em vários textos. Esses heróis não sãodeuses “eternos”, como Zeus ou Júpiter, mas seres humanos que foram elevados a umestado celeste de vida imortal. Seus templos e santuários povoavam cada cidade e cadaprovíncia do Império Romano, na época de Jesus. É fácil imaginar que os cristãosprimitivos que acreditavam em Jesus o queriam tão louvado e celestial quanto qualquerdos heróis e deuses gregos e romanos e se apropriaram dessa maneira de contar a
  • 4. história de seu nascimento como uma maneira de afirmar que Jesus era ao mesmotempo humano e divino.” (pág. 75s).“E se essas histórias do nascimento virgem tivessem sido criadas não tanto paraapresentar Jesus como um herói divino, no estilo greco-romano, mas para tratar de umasituação realmente chocante – a gravidez de Maria antes de seu casamento com José?Todas as quatro mulheres mencionadas por Mateus em sua genealogia tiveram relaçõessexuais fora do casamento e pelo menos duas delas, ficaram grávidas. Ao nomear essasmulheres especiais, Mateus parece estar tratando implicitamente da situação de Maria.Nossos Evangelhos dão algumas indicações de que boatos sobre a ilegitimidade jáestavam circulando à boca pequena. Marcos, nosso primeiro Evangelho, escrito porvolta de 70 d.C., inclui uma cena importante em que Jesus volta à sua casa em Nazaré,já adulto, suscitando rumores entre seus concidadãos. Notem com cuidado como elesfalam:Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, e de José, e de Judas, e deSimão? E não está aqui conosco suas irmãs? (Marcos 6:3)Mateus usa Marcos como fonte e inclui a mesma história, mas notem como, sabiamente,ele diz as coisas de outra maneira:Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago,e José, e Simão, e Judas? E não estão todas suas irmãs conosco? (Mateus 13:55)Esta mudança sutil, mas crítica, na maneira de se exprimir é absolutamente reveladora:Não é este o carpinteiro, o filho de Maria? (Marcos)Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria? (Mateus)Chamar Jesus de “o filho de Maria” indica que seu pai era desconhecido. No judaísmo,refere-se invariavelmente às crianças como filhos ou filhas de seu pai – não de sua mãe.Marcos nunca se refere a José, seja pelo nome ou de outra maneira qualquer. Ele evitainteiramente a questão da paternidade. Deve haver uma boa razão para este silêncio. Aocontrário, Mateus rapidamente refaz o fraseado de Marcos, de modo a que a questão deilegitimidade não seja sequer evocada. Vemos mesmo que os manuscritos gregosposteriores do Evangelho de Marcos tentam “resolver” o escândalo, alterando o texto,de forma a falar do “filho de Maria e José”.” (pág. 77s).“Estou convencido de que nossa melhor prova indica que José, que se casou com Mariajá grávida, não era o pai de Jesus. O pai de Jesus permanece desconhecido, mas chama-se possivelmente Pantera e, nesse caso, é bastante provável que seja um soldadoromano. A pedra tumbal da Alemanha, seja ela do pai de Jesus ou não, tal como astumbas e os ossuários que estudamos em Jerusalém, nos recordam que esses nomesassociados com a família de Jesus estão baseados nas provas materiais que aarqueologia continua a descobrir. Esses personagens eram seres humanos reais queviveram e morreram em um passado que se torna cada dia mais acessível para nós. Jesusnão era o filho de José, mas Maria estava casada com ele e teve outros filhos depois deJesus. Assim, poder-se-ia pensar que José era o pai do resto da família – mas comoacontece frequentemente, quando se trata de assuntos familiares, especialmente de umafamília real, as coisas não são tão simples assim.” (pág. 88).
  • 5. “Marcos, nosso primeiro registro evangélico, informa que Jesus tinha quatro irmãos e,pelo menos, duas irmãs. Ele dá o nome dos irmãos com muita naturalidade: Tiago, José,Judas e Simão. Marcos não fornece os nomes das irmãs, mas a tradição cristã primitivadiz que eram duas - Maria e Salomé (Marcos 6:3). Mateus, cuja fonte é Marcos, inclui amesma lista, embora, em vez de José, ele escreva "Joses", um apelido semelhante a"Josy", em inglês, que corresponde a "José" na versão integral. Ele também colocaSimão antes de Judas (Mateus 13:55). Lucas, ao contrário, desenrola inteiramente a listade nomes. Como declarado defensor do apóstolo Paulo, ele inaugura um longo processode relegação dos irmãos de Jesus à obscuridade na qual hoje se encontram. Com muitafreqüência, quando falo ou ensino sobre os irmãos de Jesus, sobre a posição importanteocupada por Tiago, o mais velho deles, a quem Jesus confiou o encargo de seusdiscípulos, uma mão se levanta na sala, e o comentário é sempre o mesmo: "Nuncasoube que Jesus tivesse tido algum irmão”.Há um certo número de fatores por trás dessa falha em nosso conhecimento sobre ocristianismo primitivo. O centro dessa questão é o posterior dogma cristão de que Mariafoi uma virgem perpétua, que nunca teve outros filhos além de Jesus e jamais teverelações sexuais com qualquer homem. Na Igreja primitiva, ninguém poderia nemsequer imaginar isso, pois a família de Jesus exercia um papel muito central e visívelem sua vida e na dos primeiros discípulos. Tudo isso tem a ver com o fato de Maria tersido totalmente isolada da cultura e do Contexto judaicos do século I, em função dointeresse de uma visão emergente na época de que a sexualidade humana era, na piordas hipóteses, degradante e perversa, e, na melhor delas, um mal necessário que tinha dealguma forma que ser combatido. O mundo material e tudo o que se relacionasse com ocorpo eram vistos como baixos e de menor valor do que o mundo celeste e espiritual.”(pág. 89).“O imperador romano Augusto concedera oficialmente o cobiçado título de “Rei dosJudeus” a Herodes, o Grande. Ele era o mais rico e mais influente rei-cliente do ImpérioMediterrâneo oriental. Seus pródigos programas de construção tanto dentro quanto forado país, eram ímpares, mesmo em Roma. Quando José e Maria se encaminhavam para oTemplo, teriam visto o palácio esplendoroso de Herodes ao longo do muro ocidental dacidade, com suas torres impressionantes, cujas fundações ainda hoje são visíveis.Herodes havia iniciado a remodelação do próprio Templo em 20 a.C., com a intenção detorná-lo uma maravilha do mundo antigo. Isso oferece um forte exemplo de contrastes.Jesus nasceu pobre e praticamente sem teto, apesar da linhagem real de Davi que herdouda mãe. E, no entanto, era essa linhagem dinástica que Herodes e seus filhos tãodesesperadamente cobiçavam e temiam, apesar de sua riqueza e seu poderextraordinário.” (pág. 104).“Os romanos ocuparam o país que os judeus chamavam de "a Terra de Israel" em 63a.C. O grande general Pompeu, antigo aliado de Júlio César, levou seus exércitos para oMediterrâneo oriental, conquistando a Ásia Menor, a Síria e a Palestina. OcupouJerusalém após três meses de sítio, massacrando 12 mil judeus. Aproveitou-se do diasagrado do Sabbath, atacando ferozmente, quando sabia que os judeus praticantesestariam menos propensos a lutar. O general e seu estado maior ousaram penetrar osantuário secreto do Templo judaico - o "Santíssimo", uma pequena câmara acortinadaque abrigava a Arca da Aliança nos tempos antigos. Segundo a Torá, apenas o sumosacerdote tinha permissão para entrar nesse recinto, e apenas uma vez por ano, no Diado Perdão (Yom Kippur). Por uma ironia da História, Josefo diz que a violação do
  • 6. Templo por Pompeu aconteceu no "dia do jejum” ou Yom Kippur. Talvez mais do quequalquer outro, esse único ato foi o ápice da arrogância e do poder dos romanos. Comoera possível que o Deus de Israel, adorado diariamente pelos judeus como "Senhor doMundo", não fosse capaz de proteger seu próprio santuário no dia mais sagrado do anojudaico? O poder político e militar é uma coisa, mas a humilhação religiosa é bem outra.A visão profética judaica de um Rei Messias que reinaria na Terra de Israel e,finalmente, em todos os países do mundo, nunca pareceu mais impossível.” (pág. 111).“A conquista do Oriente por Pompeu trouxe riquezas incalculáveis para Roma, sob aforma de frutos de pilhagens e novos impostos. A Síria foi anexada e transformada emuma província romana, e seu governador dividiu a Palestina em vários distritosautônomos, com soberanos locais, sob o controle militar romano. O mais ambiciosodesses soberanos-clientes foi Antipater, pai de Herodes, o Grande. Era um período deinstabilidade e guerra civil em Roma. Nas duas décadas seguintes Júlio César derrotouPompeu, que se tornara seu inimigo, mas depois foi assassinado por Brutus e Cássio,que, por sua vez, foram derrotados por Marco Antônio. Otaviano, sobrinho de César,que seria conhecido como Augusto, o primeiro dos imperadores romanos, foisubseqüentemente subjugado por seus rivais Antônio e Cleópatra em 31 a.C. Augustoprecisava desesperadamente de uma fronteira oriental estável e constatou que o únicocapaz de conseguir isso era Herodes.” (pág. 111s).“Herodes estava decidido a ser Rei dos Judeus e único soberano da terra de Israel.Em 40 a.C. tinha viajado para Roma e conseguido convencer Antônio e Otaviano, aindaaliados na época, a declará-lo "Rei da Judéia". Reconheceram que Herodes era o únicocapaz de consolidar o regime na Palestina e apoiá-los contra os pártios, que tinhaminvadido pelo leste. Em sua coroação, Herodes ofereceu sacrifício a Júpiter na ColinaCapitolina, ladeado por Otaviano e Antônio. Voltou à Palestina e começou a subjugar aGaliléia no norte, passou para Samaria no sul e, finalmente, apoiado por legionáriosromanos, sitiou Jerusalém. Massacrou impiedosamente todos que se opunham a ele, e,no verão de 37 a.C., Herodes finalmente consolidou seu regime e ocupou oficialmenteseu trono ensangüentado como "Rei dos Judeus". A mãe de Herodes era judia, mas seupai, Antipater, era um estrangeiro da Iduméia, a leste. Herodes casou-se com Mariane,descendente da família de sacerdotes conhecida como os asmonianos ou macabeus.Embora sua família não pudesse reivindicar descendência de Davi, eles haviam, de fato,reinado sobre o país durante um curtíssimo período de independência entre cerca de 165a.C. e a chegada dos romanos em 63 a.C. Constituíram uma dinastia real e cunhavam otítulo de "rei" em suas moedas. Havia um certo ar de mistério ligado a essa famíliasacerdotal que havia expulsado os sírios da Terra de Israel cem anos antes. Herodes,meio judeu, achou que, com a bela Mariane ao seu lado, alcançaria um pouco mais delegitimidade para o título que cobiçava.” (pág. 112).“Em 31 a.C. houve um terremoto devastador na Judéia que causou trinta mil mortes. Aspessoas que desprezavam Herodes e tudo que ele representava viram isso como ocomeço do castigo de Deus aos judeus por se acomodarem ao regime romano. Otavianoderrotou Antônio naquele mesmo ano, e um de seus primeiros atos como o novoImperador Augusto foi confirmar o título de Herodes como "Rei dos Judeus”. Ele ocoroou em uma cerimônia formal em Rodes, para onde Herodes havia navegado paraencontrá-lo e cumprimentá-lo.Um dos primeiros atos de Herodes foi executar 45 dos setenta membros do Sinédriojudaico, o conselho encarregado dos assuntos legais judaicos. No princípio de seu
  • 7. reinado, aumentou e fortificou as várias fortalezas no deserto fundadas pelosasmonianos, inclusive Massada, o Alexandrium, Maqueronte e Hircânia. Proveu-as dearmas, alimentos, e água, como potenciais refúgios para a sua família em tempos decrise. O que mais temia era uma revolta nativa que talvez tivesse apoio popular daquelesque buscavam um soberano legítimo da casa de Davi.” (pág. 113).“Quando Herodes morreu em março de 4 a.C., Jesus era um bebê de seis meses,morando na Galiléia. O testamento de Herodes dividia seu reino entre três de seusfilhos. Herodes Antipas tornou-se soberano da Galiléia e de Peréia, a região do outrolado do Jordão. Seu irmão mais velho, Arquelau, tornou-se "etnarca" da Judéia, termoque significa "soberano da nação". Felipe, um terceiro filho, de outra esposa, recebeuterritórios a nordeste do Mar da Galiléia. O Imperador Augusto ratificou o testamento, eos três filhos foram a Roma nessa ocasião. Augusto favoreceu Arquelau e prometeu-lheque seria sagrado rei caso se provasse digno. Arquelau deu ao pai um enterro pomposo,colocando seu corpo em uma câmara secreta dentro do Heródio, uma grande fortaleza-palácio, pouco menos de cem quilômetros ao sul de Jerusalém, construída por Herodespara ser seu mausoléu. Até hoje a sepultura não foi descoberta, embora a fortaleza tenhasido escavada.Houve revoltas em Jerusalém nessa ocasião, e a Páscoa dos hebreus se aproximava.Arquelau reagiu com violência, e seus exércitos massacraram mais de três mil pessoas.Em breve o país inteiro insurgiu-se; foi então que Varo e suas legiões invadiram aGaliléia, vindos da Síria, destruíram Séforis e marcharam sobre Jerusalém, queimandocidades e aldeias em seu caminho e crucificando aqueles que resistiam ao regimeromano, pouco depois do nascimento de Jesus. Na Galiléia, um homem chamado Judas,filho de Ezequias, havia iniciado a insurreição, arrombando o arsenal real em Séforis eapoderando-se das armas. Diz Josefo que esse Judas aspirava a ser honrado como rei.Ao sul, um certo Simão, escravo de Herodes, reuniu um grupo de seguidores, fez-seproclamar rei e queimou e saqueou o palácio real em Jericó. Os romanos o alcançaram edecapitaram. Um camponês chamado Atronges, apoiado por quatro irmãos, proclamou-se rei e reuniu um grande bando armado, assolando a zona rural durante meses. SegundoJosefo, os três líderes usavam o diadema que significava suas pretensões a serhomenageados, como reis. Na tradição judaica, um rei é um "messias: ou ungido comotal, então não seria errado considerar esses líderes aspirantes a messias de algum tipo.”(pág. 118).“A Judéia mostrava-se longe de estar pacificada. Uma figura fogosa conhecida comoJudas, o Galileu, instigou uma revolta em grande escala, aproveitando-se da mudança deadministração. Ele instou seus conterrâneos a se recusar a pagar os impostos romanosque resultariam da anexação. Judas pregava que Deus era o único senhor e quedeveriam se livrar do jugo romano. Segundo Josefo, Judas foi o fundador do partido dosjudeus que tomou o nome de zelote. Se Judas vinha da linhagem de Davi ou se seacreditava um messias ou rei, simplesmente não sabemos. Josefo não relata seu fim,mas Lucas, nosso evangelista, diz no segundo volume de seu Atos dos Apóstolos que"Judas pereceu, e seus seguidores foram dispersados" (Atos 5:37). Provavelmentevoltaram para a Galiléia, onde tinham simpatizantes que poderiam escondê-los.Essa revolta de Judas, o Galileu foi mais significativa do que os outros atentados que seseguiram à morte de Herodes, por ter meta política e religiosa maior. Por pior quetivesse sido Herodes, ele era, pelo menos nominalmente, "judeu" e, assim, um reinativo; ao morrer, seu território passou para os filhos. Augusto tencionava anexar aJudéia e colocá-la diretamente sob administração e taxação romanas. Judas não buscava
  • 8. apenas poder pessoal, mas foi o iniciador de um movimento - dos zelotes - com vistas àindependência do Estado judaico. Seu objetivo não era apenas político, mas tambémreligioso. Os zelotes afirmavam que os dois não podiam ser separados. Israel era o povoescolhido por Deus vivendo na Terra Prometida e governado pela Lei Mosaica ou Torá.Que os romanos administrassem a Terra de Israel era uma deformação e uma afronta aDeus.Judas, de fato, parece se ajustar a um certo molde "dinástico: visto que seus filhosTiago e Simão, seguiram seus passos e foram julgados e crucificados pelo procuradorromano, cerca de uma década depois da morte de Jesus.” (pág. 119).“Como veremos, Jesus sentia desprezo absoluto por Herodes Antipas e tudo que elerepresentava. Falava com sarcasmo daqueles que vestem belos mantos macios e vivemno luxo em palácios reais. Uma vez referiu-se diretamente a Herodes como "aquelaraposa; e quando Herodes interrogou-o, na manhã mesma em que Jesus foi condenado àcrucificação, recusou-se até a abrir a boca para responder. Foi Herodes quemassassinara brutalmente seu parente e mestre João Batista, e Jesus tinha observado comoo desejo de Herodes por poder e riqueza oprimiu injustamente as vidas de seusconterrâneos.Não creio que haja muita dúvida de que Jesus freqüentemente percorreu as ruas emercados tanto de Séforis quanto de Tiberíades. Foi completamente exposto à culturaurbana romana que Herodes importou para a Galiléia. Ele certamente viu tudo. Aochegar aos trinta anos, começara a formular um plano que acreditava levar à destruiçãocompleta de tudo que Roma e seus simpatizantes e partidários judeus representavam,incluindo o estabelecimento religioso corrupto que dirigia o Templo em Jerusalém. Oque visionava, encontrou escrito nos textos sagrados dos profetas hebreus. O tempo erachegado - os reinos do mundo estavam para se tornar o Reino de Deus e de seusMessias.” (pág. 123).”Jesus era judeu, não cristão. Esse singular fato histórico abre a porta para acompreensão de Jesus como realmente era em seu próprio lugar e tempo; é uma portaque muitos nunca pensaram em ultrapassar. Jesus foi circuncidado, observava a Páscoados hebreus, lia a Bíblia hebraica e observava o sabbath como dia de descanso. Dois milanos de separação e alienação relativamente hostis entre o judaísmo e o cristianismotenderam a obscurecer o fato de que Jesus cresceu em um mundo religioso e culturalque foi quase totalmente perdido nos subseqüentes movimentos do cristianismo.Para compreender Jesus em seu próprio tempo e lugar, precisamos compreender suaprofunda dedicação à fé ancestral de seus antepassados. Via-se apenas cumprindo aspalavras de Moisés e dos profetas, e a esperança messiânica que orientou sua vida elevou à sua morte era o âmago do mais profundo de seu ser.” (pág. 125).“Ser judeu, na Palestina do século I ocupada pelos romanos, tinha tanto a ver comidentidade nacional e étnica como com crenças religiosas abstratas. Assim, para muitosjudeus era impossível separar as realidades sociais e políticas da ocupação militar eopressão econômica da devoção e fé judaicas. Era fundamental a crença judaica de queo povo de Israel tinha sido escolhido por Deus para se tornar uma "nação modelo", queseria um exemplo de justiça e religiosidade para o mundo inteiro. Os profetas hebreushaviam predito que nos últimos dias todas as nações iriam a Jerusalém para se instruirsobre o único verdadeiro Deus Criador, irresistivelmente atraídas pelo exemplo moralde paz e justiça de Israel. Nem todos os judeus aceitavam essa visão tão idealista, masos que a aceitavam eram em número suficiente para que João Batista, Jesus e seu irmão
  • 9. Tiago pudessem atiçar um movimento que ameaçou os mais altos níveis doestabelecimento político e religioso.A família de Jesus, como todos os judeus da Galiléia, deve ter feito peregrinações paraJerusalém três vezes por ano, como exigia a Torá, todos os anos, na primavera, porocasião da Páscoa dos hebreus, no princípio do verão, para a celebração de Pentecostes,e no outono, para a celebração dos Tabernáculos. Na Páscoa dos hebreus,principalmente, Josefo afirma que dois milhões e meio de judeus, da Palestina e domundo inteiro, reuniam-se em Jerusalém. Era lá que Jesus regularmente se deparavacom os símbolos mais pungentes do poder romano, fundidos com o que ele consideravao epítome da corrupção religiosa judaica. A Jerusalém de Herodes, com seus palácios,teatro, hipódromo, mansões luxuosas e Templo magnífico, poderia ser considerada pormuitos uma maravilha do mundo, mas para Jesus e milhares de outros era um "covil deladrões", a ser brevemente condenada por Deus. Não foi por acaso que Jesus, aos 33anos, deliberadamente escolheu Jerusalém, na Páscoa dos hebreus, como o cenário deseu mais dramático confronto com o que ele chamava de "poderes das trevas".Precisamos imaginar que suas percepções estão profundamente enraizadas em suasexperiências ao crescer. Séforis e Jerusalém - as duas principais representantes daopressão romana e da corrupção religiosa - foram absolutamente fundamentais para omodo como ele via sua vocação e seu destino. “ (pág. 126).“O judaísmo pode ser resumido sob quatro rubricas: Deus, Torá, Terra e PovoEscolhido. Como judeu, Jesus teria afirmado sua crença no único Deus Criador Yahwehsobre todos os deuses ou entes espirituais; na divina revelação da Torá, como um planopara a vida social, moral e religiosa; na santidade da Terra de Israel como um perpétuodireito inato da nação; e na noção de que o povo de Israel, descendente de Abraão, Isaace Jacó, tinha sido escolhido por Deus para esclarecer todas as nações. A missão históricadesse povo seria atrair a humanidade para o Deus único e sua revelação na Torá.” (pág.131).“A descrição básica de Josefo combina com o que sabemos a partir do NovoTestamento e de fontes judaicas posteriores. Os saduceus vinham sobretudo das classessacerdotais. O sumo sacerdote, endossado politicamente pelos romanos, era escolhidode suas fileiras. Por conseqüência, detinham o controle principal do Templo deJerusalém, que era o ponto de foco do judaísmo do mundo inteiro, e dominavam oSinédrio, um tipo de "conselho" ou "senado" judaico ao qual os romanos permitiamalguma autoridade limitada. A interpretação saduceísta da Lei Judaica tendia a ser maissevera e mais rígida do que a dos fariseus, e sua concentração “neste mundo" em vez de"no mundo por vir” tornava-os céticos quanto a assuntos relativos ao mundo celestial,quer se tratasse de anjos, demônios, ressurreição dos mortos ou eventos associados aofim dos tempos. Os fariseus, por outro lado, especulavam livremente sobre taisquestões. Sua interpretação da Lei Judaica era mais liberal e aberta a mudanças. Emborahouvesse uma ala mais rigidamente conservadora dos fariseus, liderada pelo rabinoShammaí, do seculo I, seu rival, rabino Hillel, parecia ter mais influência. Costuma-sepensar em Jesus como inimigo ferrenho de todos os fariseus, quando, na verdade,muitas de suas opiniões sobre a Lei Judaica refletem as posições mais transigentes dorabino Hillel.Tanto Hillel quanto Jesus enfatizavam o “amor ao próximo” como fundamental ecitavam a "Regra de Ouro" como um breve resumo da Torá e dos profetas. Mas, nofinal, foi uma coalizão de sacerdotes saduceus e seus partidários entre os fariseus queentregou Jesus ao governador romano Pôncio Pilatos.” (pág. 134).
  • 10. “Em termos gerais, Jesus se identifica mais com o que se descreveria como omovimento messiânico da Palestina do século I. Esse movimento era intensamenteapocalíptico, e embora compartilhasse certas idéias com os essênios, tinha um apelomais amplo para a plebe judaica de todas as seitas, unida na esperança da libertação porDeus. Quando compreendermos a história, os valores centrais e o mundo mitológicodesse movimento, seremos capazes de situar Jesus adequadamente dentro dessadiversidade incrível do judaísmo palestino do século I. Havia judeus que se sentiam àvontade em seu mundo social e político, aceitando o status quo, mesmo se ditado porRoma, vivendo da melhor forma possível. Mas havia outros, fossem fariseus, saduceusou essênios, ou mesmo sem filiação alguma, que esperavam uma mudança radicalbaseada nas previsões messiânicas dos profetas hebreus. O importante não são osrótulos, mas uma certa visão da realidade - uma crença de que Deus interviria paracumprir essas previsões messiânicas. Jesus não originou esse movimento; na verdade,ele começou a se formar duzentos anos antes do nascimento de Jesus. Mas foi Jesus, seuparente João Batista, e seu irmão Tiago que deram a ele a forma definitiva que mudou ocurso da história. Em algum momento, antes de completar trinta anos, Jesus começou aformular seu plano. Sem dúvida, houve etapas no caminho. Mas no outono do ano 26d.C., ele está pronto para tornar públicas suas idéias, e a dinastia de Jesus começa asurgir.” (pág. 136s).“João proclamava para as multidões que vinham escutá-lo que "o machado já estava àraiz da árvore", sugerindo a iminência da condenação apocalíptica de Deus de todos osinjustos, do mais alto ao mais baixo nível da sociedade. Pregava que as pessoasdeveriam se arrepender de seus pecados e ser "batizadas" ou imersas em água, pelaremissão de seus pecados. Com essa atitude se tornariam o “povo do Caminho".Josefo trata de "João, cognominado Batista”, de maneira breve, mas significativa.Escreve que João instava as pessoas a levar uma vida justa e a praticar justiça, com seussemelhantes e devoção a Deus, atestando isso pela imersão ou batismo em água. Dizque as multidões ficavam "arrebatadas" quando João aparecia, e que seu efeito sobre opopulacho era tal, que as multidões maciças, atraídas por ele, começaram a pedir suaorientação e estavam prontas a fazer tudo que dissesse.João não foi o primeiro a ouvir essa Voz e a atendê-la desse modo. Cem anos antes, osjudeus que conhecemos pelo nome de essênios leram aquele mesmo versículo em Isaíase, literalmente, se mudaram para o deserto da Judéia, perto do Mar Morto, a fim deviver em um pequeno assentamento chamado Qumrã, onde escreveram os Manuscritosdo Mar Morto. Em seu documento de fundação, chamado a Regra da Comunidade,registram que haviam "se separado da habitação de homens injustos" e ido para odeserto para lá preparar o Caminho do Senhor, pois está escrito "Preparai, no deserto, oCaminho". E disseram mais, "É este o tempo para a preparação do Caminho nodeserto”. Também se referiam a si mesmos como o "povo do Caminho.” (pág. 142s).“Herodes Antipas ficou muito assustado com o potencial revolucionário que Joãorepresentava. É difícil superestimar o impacto dramático criado por João com a suapregação. A princípio localizou-se no sul, no deserto, ao longo do Jordão, logo ao nortedo Mar Morto. Marcos conta que toda a Judéia e todo o povo de Jerusalém afluíam aodeserto para ouvir sua pregação. Josefo diz que era popular, audacioso e eloqüente. Erapor tudo isso que tantos haviam esperado. A mensagem de João era radical, semelhanteà de outros que haviam tentado inspirar uma revolta entre a população judaica, mashavia algo diferente nele, algo que ultrapassava a política. João tinha a aparência e o
  • 11. estilo de um antigo profeta bíblico. As massas se sentiam eletrizadas com apossibilidade - teria Deus finalmente enviado um mensageiro verdadeiro que iniciaria aNova Era do Reino de Israel?” (pág. 144).“Pouco antes de completar trinta anos, Jesus juntou-se às multidões que afluíam paraouvir João. Jesus viajou de Nazaré, seguindo o Jordão, por essa mesma rota, para serbatizado por João no Rio Jordão (Marcos 1:9). Fazendo isso, estava publicamenteaderindo e endossando o movimento do despertar desencadeado por João. Ao emergirda água, ele ouviu a Voz também vinda de Isaías, mas com um texto diferente, sobreuma figura diferente: "Olhai! Meu servo que apóio, meu escolhido que alegra a minhaalma!" (Isaías 42: 1). Mateus transformou essa voz em uma proclamação pública do céu- "Este é meu filho amado em quem me regozijo", enquanto para Marcos, conservandouma tradição anterior, provavelmente mais autêntica, isso foi uma voz que Jesus ouviu -não uma que as multidões ouviram (Mateus 3:17; Marcos 1:11). É significativo que aversão em siríaco antigo, de Mateus, ainda conserve a leitura original: "Vós sois meufilho bem-amado em quem me regozijo", atestando assim a autenticidade de Marcos.Não podemos ter certeza da natureza exata dessa revelação nem se foi algo que surgiude repente em Jesus naquele instante, ou algo para o qual se preparara ao longo docaminho. O que podemos dizer é que a partir de seu batismo, Jesus estava pronto paratomar o lugar que lhe fora destinado ao lado de João, como pleno parceiro nomovimento do batismo. Juntos estavam preparados para enfrentar o que viesse, nospapéis proféticos para os quais ambos se acreditavam chamados.” (pág. 144s).“Quando se trata de entender João Batista e Jesus, da forma como eles se entendiam eda forma como teriam sido vistos pela sociedade judaica de seu tempo, os evangelhosdo Novo Testamento são tanto nossa melhor fonte quanto nosso maior obstáculo.Quando os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João foram escritos (70-100 d.C.),havia uma tentativa evidente dos cristãos de minimizar e marginalizar João Batista,enquanto exaltavam exageradamente o papel singular de Jesus. Não havia espaço paradois Messias. E, por essa mesma razão, Tiago, o irmão de Jesus que o sucedeu, foipraticamente eliminado da história. Os cristãos começaram a ver Jesus como o únicoSenhor e Cristo, com os papéis combinados de profeta, sacerdote e rei. João era visto deforma positiva, mas apenas como um precursor que apresentou Jesus ao mundo e depoisrapidamente sumiu de cena.O grande obstáculo enfrentado pelos cristãos era o fato de todos saberem que João haviabatizado Jesus - não o contrário! Jesus havia procurado João e aderido ao seumovimento -, o que, no contexto do judaísmo antigo, significava que Jesus era umdiscípulo de João, e João era o rabino ou mestre de Jesus. Para cristãos posteriores, quehaviam exaltado Jesus, essa idéia era inconcebível. Podemos comprovar nos quatroevangelhos do Novo Testamento uma tendência progressiva a lidar com esse fatohistórico renitente e suas implicações minimizando a importância de João sem negar seupapel de precursor de Jesus.Em Marcos, nosso primeiro relato, Jesus vai ao Jordão para ser batizado por João, masJoão diz ao povo que vem alguém mais poderoso do que ele, cujas sandálias não é dignode desatar (Marcos 1:7). Em Mateus, João tenta impedir que Jesus seja batizado,insistindo que Jesus é quem o deveria estar batizando (Mateus 3:13). Lucas mencionaque Herodes mandara calar e aprisionar João, e depois, no versículo seguinte, escreve"Agora quando todos foram batizados e quando Jesus foi batizado...” como a insinuarque talvez nem tenha sido João que batizou Jesus - visto que ele já estava preso (Lucas3:19- 21). Finalmente, no evangelho de João, o último relato, João Batista sequer batiza
  • 12. Jesus - o fato pode ser sugerido, mas não é declarado. Em vez disso, João vê Jesus edeclara: "Eis o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo" (João 1:29). Mais tarde,falando aos discípulos sobre Jesus, João diz: "ele deve crescer, e eu devo diminuir"(João 3:30). Embora esses relatos sejam muito influenciados pela teologia cristãposterior, oferecem um testemunho básico do fato de que Jesus foi batizado por João.”(pág. 150s).“A mensagem de Jesus, tão conhecida pelos cristãos no Sermão da Montanha demonstraindícios de ser parte de uma mensagem que Jesus e João compartilhavam e pregavam.Jesus e João tornaram-se parceiros integrais no trabalho para o qual acreditavam ter sidochamados conjuntamente, mas a deferência de Jesus em relação a João é indiscutível emnossas fontes, uma vez removido o véu da teologia cristã. Segundo Jesus, João é "maisque um profeta”, "não há ninguém maior nascido de mulher" e, é ele "de quem toda aTorá e os profetas falaram”, que veio para "salvar o mundo”. Não foi por acaso que oano seguinte, 27 d.C., é quase um espaço em branco em nossos registros. Foi esse o anodo trabalho conjunto dos Dois Messias - agora perdido para a história e memóriacristãs.” (pág. 153).“Não sabemos qual o esquema cronológico exato endossado por João Batista e Jesus.Sua maneira de contar os anos era diferente da nossa, e certamente não tinham nossocalendário gregoriano. Contudo, vale notar que, se começarmos pelo ano 457 a.C.,quando Ezra voltou para Jerusalém e começou a restaurá-la após o cativeiro naBabilônia, e contarmos 69 dessas "semanas" proféticas (483 anos), chegamos ao ano 26-27 d.C. - faltando uma "semana" de anos para chegar ao número mágico de 490. Podebem ser que João Batista e Jesus tivessem algo semelhante a esse tipo de cálculo emmente. Talvez acreditassem que o ano sabático de 26-27 d.C. tivesse introduzido umperíodo final de sete anos antes do Apocalipse. Qualquer que fosse o esquema, não hádúvida de que se convenceram de que o tempo estava próximo, e com Deus de seu ladoestavam preparados para introduzir os acontecimentos profetizados dos últimos dias.Devido à profecia crítica de Daniel, uma tempestade apocalíptica se aproximava daPalestina romana do século I. Nunca houve antes uma época semelhante a essa, e nemdepois. Mas só o timing não é suficiente. O outro componente da equação,absolutamente essencial para a mistura, foi o aparecimento de Dois Messias.Cristãos e judeus acabaram focalizando o aparecimento de um único Messias.Isso certamente não era o caso no tempo de Jesus, como já vimos nos Manuscritos doMar Morto. Em texto após texto, lemos sobre não um, mas dois Messias queintroduziriam o Reino de Deus. Um será uma figura régia da linhagem real de Davi,mas, a seu lado, estará uma figura sacerdotal, também um Messias, da linhagem deAarão, da tribo de Levi.” (pág. 161).“Em vista dessas esperanças e expectativas profundamente enraizadas entre esses judeusmessiânicos, é difícil imaginar o grau de emoção e fervor que João Batista e Jesusteriam provocado ao preparar seus próximos passos na primavera de 27 d.C. João, comoum sacerdote da tribo de Levi, e Jesus, como um descendente de Davi da tribo de Judá,devem ter incitado as esperanças de milhares que aguardavam a chegada dos DoisMessias como um sinal certo do fim. Até mesmo Herodes Antípas logo sentiu o ferrãoda mensagem abrasadora de João Batista clamando por arrependimento. Os cristãostendem a imaginar um Jesus "brando e humilde" que raramente elevava a voz, mas osindícios mostrarão que ele aprendeu bem com seu mestre e que, assim como João
  • 13. Batista, a mensagem radical de Jesus dividia famílias e aldeias e abalava o sistemapolítico e religioso.” (pág. 165).“Os cristãos, mais tarde, tenderam a separar os dois movimentos - o de João Batista e ode Jesus, como se um fosse "judaico" e o outro "cristão". Durante a vida de Jesus e entreseus seguidores imediatos, havia um só movimento unificado e um só batismo.No final de 27 d.C., do ponto de vista desse movimento messiânico, havia apenas doistipos de judeus na Palestina - os que responderam positivamente à pregação de João ede Jesus e tinham sido batizados, e os que não fizeram isso. Não existia meio-termo. O"trigo" havia sido separado do "joio". O machado estava suspenso sobre a raiz daárvore.” (pág, 166).“A campanha de batismo de Jesus, por mais vitoriosa que tivesse sido, sofreu umainterrupção abrupta em algum momento no princípio de 28 d.C. Uma notícia chocantechegou ao norte, vinda da Galiléia, Herodes Antipas aprisionara João Batista. Segundoo evangelho de João, Jesus então soube que alguns dos fariseus em Jerusalém, que seopunham a João, estavam assustados com o sucesso de Jesus com as multidões, e, porisso, estavam tomando medidas ameaçadoras contra suas atividades (João 4: 1-3). Erahora de ir para a clandestinidade.” (pág. 168).“Foi um golpe chocante e terrível para o movimento messiânico. Seu fundador e líder,João Batista, havia sido atirado à prisão por Herodes Antipas, soberano de Galiléia ePeréia. Segundo o evangelho de Marcos, João Batista havia denunciado publicamenteHerodes por ter tomado a linda Herodíades, esposa de seu irmão Felipe, que participoupor vontade própria no adultério. Josefo não menciona especificamente esse incidente,mas diz que Herodes se assustou com a influência extraordinária de João sobre o povo,temendo que incitasse uma "revolta”. João localizara-se estrategicamente no limite doterritório de Herodes, na Galiléia oriental, para que pudesse, se necessário, fugir,atravessando o Rio Jordão, para a região chamada Decápolis, fora de sua jurisdição. Astropas de Herodes conseguiram pegá-lo de surpresa, e ele foi levado para Maqueronte,uma das fortalezas de Herodes no deserto, no lado leste do Mar Morto. A intenção eracolocá-lo em uma das regiões mais remotas de seu reino, para diminuir aspossibilidades de sublevação popular.No sul, Jesus sabia que seus próprios dias de batismo estavam contados. Um novoprocurador romano chamado Pôncio Pilatos, nomeado pessoalmente pelo imperadorTibério, assumira a autoridade militar da província da Judéia, em 26 d.C. Mostrara-seimediatamente um chefe brutal, sem qualquer preocupação com a sensibilidade religiosajudaica. Trouxera os símbolos militares romanos, com seus bustos de César, para dentroda cidade santa de Jerusalém. Pouco depois, tirara dinheiro do tesouro do Templosagrado para cobrir os custos de finalização de um aqueduto para Jerusalém. Asmultidões judaicas estavam alvoroçadas, e ambos os incidentes provocaram tumultosaos quais Pilatos reagiu com violência, matando um grande número de judeus. Aestabilidade na Judéia era a grande preocupação dos romanos, e a última coisa quedesejavam era um profeta judeu, da linhagem de Davi, atraindo grandes multidões efalando sobre o advento do Reino de Deus.” (pág. 169).“Não podemos ter certeza de como e quando Jesus desenvolveu sua própriacompreensão de seu papel e missão no que acreditava ser o plano divino para introduziro Reino de Deus. Certamente, cresceu sabendo que ele e os irmãos eram herdeirosmasculinos da linhagem real do Rei Davi, e teria plena consciência das significativas
  • 14. implicações messiânicas dessa herança. As Escrituras hebraicas estavam cheias depromessas de que Deus, nos "últimos dias", ergueria um Rei da linhagem de Davi queseria atuante na derrubada do jugo estrangeiro e no estabelecimento de um Reino deIsrael independente, iniciando assim a Nova Era de paz e justiça para o mundo inteiro.A profecia de Jeremias descreve isso sucintamente:Os dias certamente estão chegando, diz Yahweh, quando erguerei para Davi um Ramohonrado, e ele reinará como rei e agirá com prudência, e exercerá a justiça e aintegridade na terra. Em seus dias, Judá será salva e Israel viverá com segurança.(Jeremias 23:5-6)”. (pág. 170).“Jesus tem um programa de "seis pontos": reinar sobre Israel no trono de Davi; purgarJerusalém e a terra de Israel de soberanos estrangeiros; estabelecer um regime dejustiça; separar os pecadores do povo de Israel; estender seu governo a todas as naçõesímpias do mundo; reunir todas as tribos dispersas de Israel.Essa é a agenda ambiciosamente extravagante exigida de qualquer candidato dalinhagem de Davi que, porventura, sentisse inclinações messiânicas para esse tipo devocação. Para os romanos, tais idéias devem ter parecido totalmente ilusórias, e osjudeus pragmáticos sempre poderiam interpretar a linguagem de seus profetas menosliteralmente, ou ignorá-la de todo. Mas milhares de judeus acreditavam que esse reiideal da linhagem de Davi apareceria e, com os poderes sobrenaturais de Deus,realizaria tudo isso. Todos os indícios indicam que Jesus era esse judeu.O reino de Deus nesses textos não é um sentimento ou um conceito etéreo. A linguagemé concreta e particular. A palavra "reino", tanto em hebraico como em grego, significa"governo" ou "autoridade", assim como se poderia falar do "reino" de Herodes ou da"autoridade" romana. A oração ensinada por João e Jesus definia o reino de Deus comoa "vontade de Deus feita na terra" como já era feita no céu. Esse não era um reino "no"céu, mas a idéia da autoridade "do" céu, penetrando a história da humanidade emanifestando-se na terra. Isso era entendido literalmente como nada menos do que umarevolução, uma derrubada completa do status quo político, social e econômico.” (pág.171s).“Uma vez que Roma havia entrado no Mediterrâneo oriental, ocupando a Palestina,como fizeram Alexandre Magno, Ciro e Nabucodonosor em séculos passados, o tempodo "quarto" reino havia chegado. Isso, aliado ao período de contagem regressiva final deDaniel, de 490 anos ou dez ciclos de Jubileus, havia convencido as pessoas na Palestinaromana do século I que levavam os profetas hebreus a sério de que elas estavamvivendo nos "últimos dias" ou no "final dos tempos". É extremamente importante notarque não esperavam o "fim do mundo"; essa expressão jamais ocorre. É sempre o fimdos "tempos", ou o período de tempo em que reinos gentios prevalecem antes dachegada da Nova Era - o Reino de Deus. Nos Manuscritos do Mar Morto chama-se "ostempos finais da perversidade".Jesus compartilhava essa compreensão do tempo e da história. Sua mensagem depois daprisão de João, quando começou a pregar, era: "Cumpriu-se o tempo, o Reino de Deusestá próximo". Ele talvez tenha crescido com esse ponto de vista apocalíptico, quecertamente se intensificou quando se tornou adulto e começou a cogitar sobre o queacreditava ser seu próprio destino e sua vocação. Era a pessoa certa no momento certo -mas havia um outro componente vital.Estou convencido de que Jesus provavelmente começou a ler certas passagens dasEscrituras hebraicas e a aplicá-las a si mesmo. Em minha opinião, esse fator é
  • 15. absolutamente vital para compreendermos o desenvolvimento de sua noção de auto-identidade messiânica. Há vários textos da Escritura que apresentam a agenda geral doRei descendente de Davi, como observei acima. Mas há outros textos messiânicos,especialmente na metade final do livro de Isaías e nos Salmos, que têm uma qualidademuito mais pessoal - alguns deles são até escritos na primeira pessoa. Por exemplo,Isaías 61 começa: "O espírito do Senhor Yahweh está em mim porque Yahweh meungiu; ele me enviou para trazer a boa nova aos oprimidos, para juntar os de coraçãopartido, para proclamar a liberdade aos cativos, e soltar os prisioneiros; para proclamaro ano do favor de Yahweh, e o dia de vingança de nosso Deus". Se alguém que estáconvencido de um destino messiânico pessoal lê esse texto e "ouve" sua própria voz,uma dinâmica poderosa entra em ação. O texto serve para confirmar e reforçar aidentidade dessa pessoa, enquanto a identidade encontra expressão e direção específicasao longo do texto.” (pág. 172s).“Se Jesus, de fato, começou a se apropriar desses textos da Escritura e neles encontrou asua voz, não foi o primeiro a fazê-lo. Nos Manuscritos do Mar Morto há um textoextraordinário chamado Hinos de Ação de Graças, partes do qual estudiosos acreditamterem sido escritas pelo próprio Mestre da Integridade. O Mestre, líder da comunidadedos Manuscritos do Mar Morto, definitivamente via-se nesse papel de eleito, e aplicavaregularmente a sua vida e a seu tempo alguns desses mesmos textos. Esse textofascinante, que em alguns trechos assume aspecto de autobiografia, nos dá umvislumbre da consciência interior do Mestre e de como ele formou sua própria auto-identidade messiânica como profeta para sua comunidade. Com esse modelo fica maisfácil imaginar alguém como Jesus, por causa de sua linhagem de Davi, aliada a seutempo e suas circunstâncias, sofrendo processo semelhante.” (pág. 174).“A mensagem era simples: "Afastai-vos de vossos pecados, pois o Reino de Deus estápróximo - o juízo está próximo". Em cada local, Jesus impunha as mãos sobre osdoentes ou fisicamente deficientes e expulsava espíritos maus ou demônios. Pensava-seque doenças eram causadas por demônios "que cerceavam" as pessoas, então suasatividades de cura e de exorcismo eram coerentes. Jesus era um revolucionário políticoque esperava nada menos que a derrubada violenta dos reinos do mundo, mas nãoachava que isso se daria pela reunião de armas e de tropas rebeldes, como foi tentadopor alguns de seus contemporâneos. O primeiro passo era derrotar Satanás e seuspoderes. Do ponto de vista de Jesus, para que o Reino de Deus chegasse, não sóHerodes, Pôncio Pilatos e as legiões romanas teriam de ser depostos, mas sobretudo opróprio Satanás, que era considerado o "soberano dos tempos" por trás dos bastidores.Jesus ligava diretamente seu poder de expulsar demônios a "atar Satanás" e destruir seureino. (...).As campanhas de pregação continuaram nos primeiros meses de 29 d C.. O efeito eraimenso. Multidões enormes se reuniam para ouvi-lo pregar e para presenciar osexorcismos e curas propalados. Segundo Marcos, as pessoas afluíam para a Galiléia, daJudéia e de Jerusalém, do lado leste do Jordão e até de Tiro e Sidônia, ao norte. Joãohavia causado bastante agitação na Galiléia, mas era nem curador, nem exorcista, eagora parecia impotente, aprisionado em Maqueronte. Essas novas atividades de Jesus eo poder resultante que começava a perceber em si mesmo energizaram o movimentomessiânico, tornando-o o centro das atenções. Esses acontecimentos naturalmente nãoagradavam a todos. Havia grupos de opositores fariseus, na região, cuja base de poderestava sendo ameaçada. Provavelmente, temiam que tanto sua influência quanto sua
  • 16. base econômica fossem desafiadas pelo amplo apoio, entre o populacho, a umcarismático pregador do Reino de Deus.” (pág. 176s).“Como futuro Rei de Israel, Jesus tomou medidas para estabelecer um "governo"provisório, constituído de um gabinete interno ou Conselho dos Doze. Dentre seusseguidores, escolheu 12 homens que nomeou "delegados" ou enviados. É esse osignificado da palavra grega traduzida como "apóstolo". Sua intenção fundamental eraque, quando seu governo estivesse em plena operação, cada um deles se sentasse em um"trono", um para cada uma das 12 tribos de Israel (Lucas 22:30). O cristianismo, maistarde, poderia considerar a escolha dos "12 apóstolos" como um passo na organizaçãoespiritual - e certamente era isso. A comunidade dos Manuscritos do Mar Morto sehavia estruturado em torno de um "Conselho dos Doze" fechado, e é inteiramentepossível que esse modelo tenha influenciado Jesus. Mas não devemos omitir asimplicações revolucionárias das ações de Jesus.Uma das principais tarefas do Messias descendente de Davi era reunir as tribos deIsrael, incluindo as ditas Tribos Perdidas, que se haviam exilado durante a invasãoassíria de Israel, no século VIII a.C. Segundo Josefo, apenas duas das tribos de Israelestavam sob o domínio dos romanos - Judá e Benjamim, com um pouco de Levi -enquanto o grosso das outras dez tribos havia migrado para o noroeste e se concentravana região do Mar Negro. O termo "judeu" se refere a alguém da tribo de "Judá", masviera a ser usado livremente para qualquer pessoa de descendência israelita. A visão deJesus do futuro, como veremos, envolvia convocar todos os israelitas espalhados pelomundo inteiro a voltar à Terra. Era isso que todos os profetas haviam predito queaconteceria nos "últimos dias". Na verdade, Jeremias até disse que o "novo Êxodo" deisraelitas de todas as terras de sua "dispersão" ou espalhamento rivalizaria em tamanhocom o Êxodo original do Egito, no tempo de Moisés (Jeremias 16:14-15).” (pág. 178).“A comunidade do Mar Morto tinha centrado suas expectativas messiânicas nessepreciso texto de Isaías 61. Um precioso fragmento da Gruta 4, a que os estudiososchamam de Apocalipse Messiânico, profetizava que o Messias iria "curar os doentes,ressuscitar os mortos, e trazer a boa nova aos pobres". Jesus e João Batista conheciamesse texto do Qumrã ou outro semelhante. João enviou da prisão uma mensagem aJesus, perguntando: "És aquele, ou devemos aguardar outro?" Ele queria de Jesus aconfirmação de que teria realmente iniciado o programa messiânico. Jesus respondeunão com a citação de Isaías 61, mas com as próprias palavras preservadas noManuscrito do Mar Morto: íde e dizei a João o que ouviste e viste: os doentes estãocurados, os mortos ressuscitados, os pobres receberam a boa nova (Lucas 7:22). Éimportante assinalar que Isaías 61 não especifica que o Messias irá "ressuscitar osmortos”; mas Jesus inclui essa frase em sua resposta, como "um sinal do Messias",sabendo que João Batista estaria familiarizado com ela, possivelmente por esse mesmomanuscrito. Tanto o manuscrito como a resposta de Jesus indicam a importância darealização da profecia de Isaías 61 para o movimento messiânico.” (pág. 186).“Com a inesperada e brutalmente chocante morte de João, todas as esperanças e ossonhos do movimento messiânico pareciam esmagados. Ninguém havia até entãoassociado sofrimento e morte ao Messias. A celebração do sucesso que poderia teracompanhado o retorno dos Doze de sua campanha de pregação transformou-se emdesespero. A situação era igualmente muito perigosa. Herodes ouvira falar dos
  • 17. extraordinários efeitos que as últimas atividades de Jesus tinham causado e, segundoMarcos, supersticiosamente, supusera que, de alguma forma, "João Batista tinha sidoressuscitado dentre os mortos" (Marcos 6: 14). Não conseguia imaginar outra formapara explicar como o movimento que ele julgava ter esmagado parecia agora lideradopor alguém cujo sucesso era tão extraordinário como fora o de João.” (pág. 189).“De seu círculo mais amplo de seguidores, ele escolheu setenta delegados, dividindo-os,como havia feito com os Doze, em grupos de dois, que o deveriam preceder em cadacidade e local aonde pretendia ir. Suas tarefas básicas consistiam em curar os doentes,exorcizar os demônios e proclamar, em cada lugar, que “O Reino de Deus está próximode vós” (Lucas 10). Jesus via isso como a mensagem final, o finalizar do trabalho queele e João tinham começado três anos antes. Ele disse aos grupos que qualquer cidadeque os rejeitasse deveria ser marcada para destruição no julgamento que estava por vir.”(pág. 197).“Mais tarde, a tradição cristã coloca a última refeição de Jesus na noite de quinta-feira, esua crucificação, na sexta-feira. Sabemos, hoje, que havia uma defasagem de um dia. Aúltima ceia de Jesus se deu na noite de quarta-feira, e ele foi crucificado na quinta-feira,no 14º dia do mês judaico de Nisan. A ceia da Páscoa, propriamente dita, deu-se naquinta-feira à noite, ao pôr-do-sol, no início do dia 15 de Nisan. Jesus não chegou afazer essa refeição pascal, pois morrera às três da tarde desse dia.O equívoco foi gerado porque todos os evangelhos relatam que seu corpo foi retirado dacruz para ser sepultado antes do pôr-do-sol, porque o Sabbath estava próximo.Presumiu-se que essa referência ao Sabbath indicava o sábado - e, portanto, acrucificação teria sido na sexta-feira. No entanto, como bem sabem os judeus, o dia daPáscoa dos hebreus também é "Sabbath", ou dia de descanso - não importa em que diada semana caia. No ano 30 d.C. a sexta-feira 15 de Nisan também foi "Sabbath" -portanto houve dois "sabbaths" consecutivos - sexta-feira e sábado. Mateus parece saberdisso quando escreve que as mulheres que visitaram Jesus na tumba vieram no domingode manhã, "depois dos Sabbaths" - o original grego está no plural (Mateus 28:1).” (pág.212s).“Como dissemos, a comunidade essênica, em Qumrã, descreveu, em um de seusmanuscritos, um futuro “banquete messiânico”, no qual o Messias Sacerdotal e oMessias da linhagem de Davi sentar-se-iam com os membros da comunidade crente eabençoariam a sagrada refeição de pão e vinho como a celebração do Reino de Deus.Teriam certamente ficado espantados com qualquer simbolismo sugestivo de que o pãofosse a carne humana, e o vinho, o sangue. Tal idéia simplesmente não poderia terpartido de Jesus como judeu.Portanto, qual a origem dessa linguagem? Se parece primeiramente com Paulo, e elenão a recebeu de Jesus, então qual seria sua fonte? As maiores semelhanças encontram-se em alguns ritos mágicos greco-romanos. Existe um papiro grego que registra umencantamento amoroso, no qual um macho pronuncia certos feitiços sobre um cálice devinho, que representa o sangue que o deus egípcio Osíris tinha dado à sua consorte Isispara que ela o amasse. Quando sua amante bebe o vinho, ela simbolicamente se une aseu amado pelo seu sangue. Em outro texto, o vinho é transformado na carne de Osíris.Simbolicamente, comer a "carne" e beber o "vinho" era parte de um rito mágico deunião na cultura greco-romana.” (pág. 216s).
  • 18. “Mais tarde, os cristãos mostraram-se muito ansiosos em culpar os judeus pela prisão ecrucificação de Jesus. Embora Jesus tivesse inimigos judeus, esses eram na sua maioriasacerdotes aristocratas saduceus que administravam o Templo com apoio de algunsfariseus. Josefo escreveu que os saduceus eram "mais cruéis que quaisquer outrosjudeus" quando se sentavam para julgar. Entre o povo judeu, em geral, Jesus era muitopopular. E tinha também amigos em postos importantes, incluindo o próprio Sinédrio -uma espécie de senado judaico. Essa foi a razão das atividades clandestinas noiteadentro até o amanhecer. Todos estavam ocupados com as preparações da Páscoa doshebreus, e, se tudo fosse feito com rapidez, Jesus estaria numa cruz romana pela manhã,antes que alguém desse por isso. Os inimigos judeus de Jesus foram certamente oscatalisadores do golpe, mas a conclusão foi romana em toda a linha.O "julgamento" de Jesus teve três fases. Primeiramente, foi levado, no meio da noite,para uma casa particular, possivelmente pertencente ao sumo sacerdote Anás. O cargode sumo sacerdote era politicamente designado pelos romanos. Esse cargo, em 30 d.C.,era ocupado oficialmente por José Caifás, mas era seu sogro, Anás, quem detinha opoder. Anás ocupara oficialmente o cargo de sumo sacerdote de 6 a 15 d.C., quando foiremovido pelos romanos, mas nunca perdera influência. Cinco dos seus filhos ocuparamsubseqüentemente esse posto, em sucessão praticamente contínua. Os romanos nãofaziam essas escolhas de modo leviano, e devemos presumir a existência de uma grandemistura de influência política e corrupção para que uma única pessoa assegurasse esselugar por tanto tempo. Além de Herodes Antipas, José Anás foi o mais rico e poderosolíder judeu de seu tempo. Pertencia a uma dinastia sacerdotal, e seu controle dosnegócios judaicos era quase absoluto. Essa não foi a última vez que a dinastia de Anásatacaria a dinastia de Jesus, ameaçada por seu potencial controle das pessoas como alegítima autoridade da linhagem de Davi. Como veremos, o quinto filho de Anás, seuhomônimo Anás II, fora o sacerdote que mandara matar, de forma brutal, Tiago, o irmãode Jesus, em 62 d.C.. A dinastia de Jesus e a dinastia de Anãs eram como água e azeite.Tanto Jesus quanto Tiago lamentaram a sorte dos ricos quanto ao iminente julgamentode Deus. E parte da agenda messiânica consistia na profética esperança de ver essafamília sacerdotal corrupta substituída por uma linhagem de sacerdotes que ensinariame praticariam a justiça até o fim dos tempos (Malaquias 3).” (pág. 224s).“Os estudiosos concordam que muito pouco dos relatos do julgamento de Jesus diantede Pilatos tem valor histórico. Eles foram inteiramente moldados por uma posteriortradição teológica cristã, que procurou colocar a culpa pela morte de Jesus inteiramentesobre o povo judeu, exonerando os romanos como simpatizantes de Jesus, com Pilatosfazendo o possível para lhe salvar a vida. Nossos quatro Evangelhos do NovoTestamento foram escritos depois da grande Revolta Judaica contra Roma (66-73 d.C.)Os sentimentos anti-semitas prevaleceram no reinado de Tibério (14-37 d.C.),estimulados pelo notório prefeito Sejanus, o mais influente dos cidadãos romanos de seutempo. Após a custosa e sangrenta Revolta Judaica, esses sentimentos antijudaicosforam minimizados pelos romanos, e qualquer associação de Jesus com a sediçãojudaica e com a falta de lealdade para com Roma deveria ser evitada, para nãoprejudicar a propagação do novo movimento cristão entre os romanos. Que Jesusmorrera pela crucificação romana era fato inegável e terrivelmente embaraçoso. Mas sesua crucificação pudesse ser atribuída à obstinação dos judeus, então talvez omovimento cristão pudesse explicar suas origens judaicas e a vergonhosa morte de seuchefe sob uma luz mais favorável, ou seja, menos judaica. Isso permitiria à nascentetradição cristã uma oportunidade maior de ganhar convertidos e aceitação em todo oImpério Romano, no qual se disseminava. (...).
  • 19. Deixando de lado a teologia, e concentrando-nos em fatos históricos mais prováveis,podemos dizer o seguinte: os sumos sacerdotes, Anás e Caifás, e seus adeptosentregaram Jesus a Pilatos, acusando-o de sedição. Pilatos interrogou Jesus em privadosobre tais acusações. Quando soube que Jesus era da Galiléia, decidiu mandá-lo paraHerodes Antipas, que se encontrava hospedado em um palácio próximo. Herodesprocurava um modo de matar Jesus há algum tempo, e ficou satisfeito por finalmente tê-lo sob sua custódia. Herodes interrogou-o prolongadamente, mas Jesus recusou-se aresponder. Os acusadores de Jesus estavam presentes e repetiram as acusações contraele. Herodes e seus soldados decidiram brincar um pouco com Jesus. Vestiram-no comum manto real e começaram a tratá-lo com menosprezo, chamando-o de "o tal de Rei".Herodes, então, mandou Jesus de volta para Pilatos, tendo endossado a decisão de queJesus fosse executado por crucificação. Em Jerusalém, era Pilatos quem tinha ajurisdição para executar as decisões tomadas.” (pág. 231s).“A expectativa diante da morte violenta do líder de um movimento é de caos, confusãoe subseqüente desintegração. Josefo mencionou pelo menos uma dúzia de outrosaspirantes messiânicos e líderes de rebelião executados pelos romanos ao longo doprimeiro século d.C. Em todos os casos, os movimentos iniciados por eles foramesmagados ou desapareceram. Foi nitidamente diferente com o movimento de Jesus.Afinal, seus membros tinham perdido os dois líderes, primeiro João e depois Jesus - osdois Messias em quem depositavam tanta esperança. No entanto, o movimento não seextinguiu; na verdade, começou a crescer e a se espalhar.(...). Eu atribuiria a sobrevivência e a renovação do movimento de Jesus a três fatores:em primeiro lugar, ao próprio Tiago, assim como à mãe e aos irmãos de Jesus. Este sefora, mas Tiago, como veremos, tornou-se uma imponente figura de força e fé para osseguidores de Jesus. Ter o irmão de Jesus com eles, alguém de sua própria carne esangue, e que também pertencia à real linhagem de Davi, deve ter sido um poderosoreforço.(...). O segundo fator foi a mensagem que tanto João quanto Jesus pregaram, as “boasnovas do Reino de Deus” e tudo que isso implicava. Por mais reverenciados que tenhamsido os mensageiros, o que eles advogavam e proclamavam subsistiu, sem ter sido, demodo algum, destruído ou perdido com suas mortes. Clamaram contra a injustiça e aopressão, incitaram ao arrependimento e proclamaram o perdão dos pecados eencarnaram a esperança e a fé messiânicas enraizadas nos Profetas hebreus. A causa dosDois Messias permaneceu e sobreviveu. Finalmente, tanto Jesus quanto João tinhamproclamado que o “fim dos tempos” se aproximava. A perspectiva apocalíptica por elesincorporada foi reforçada, como veremos, pelos acontecimentos sociais e políticos daépoca. Era como se tudo que os profetas hebreus tinham previsto estivesse em vias de serealizar diante de seus olhos. A instabilidade de Roma, a ameaça de guerras e rebeliões,e até a oposição das autoridades por eles enfrentada, tudo era visto como sinais de que o“tempo indicado” estava ficando muito curto – assim como proclamado por Jesus. Elesconstituíam uma comunidade intensamente apocalíptica que esperava ver amanifestação do Reino de Deus em sua plenitude. Afinal, Jesus esperava a chegada do“Filho do Homem” antes mesmo de sua morte. Ao enviar os Doze, dissera-lhes que não“chegariam a percorrer todas as cidades de Israel antes da vinda do Filho do Homem”.No sonho de Daniel , a “vinda do Filho do Homem nas nuvens do céu” era um símbolopara o tempo em que ao povo de Deus seria dado o governo de todas as nações (Daniel7:13-14, 27). (pág. 259s).
  • 20. “O corpo principal do núcleo dos seguidores de Jesus, incluindo os que participavam domovimento messiânico desde o início da obra de João Batista, reuniu-se em Jerusalémno final da primavera, quase no começo do verão, O festival de Pentecostes ou Shavuot,naquele ano, caiu na última semana de maio. Não restavam muitos, apenas pouco maisde cem, que permaneceram fiéis ao longo dos dias sombrios e penosos da Páscoa doshebreus (Atos 1:15). Agruparam-se na área da baixa Jerusalém, na cidade de Davi. Ahospedaria com a "Sala do Andar Superior" (Cenáculo), onde Jesus fizera a últimarefeição, virou seu centro de operações. A escolha do local pode representar mais doque uma questão de conveniência, pois Jesus deliberadamente escolhera aquela área dacidade para sua reunião final com os Doze. O rei Davi tinha escrito um Salmo em queDeus declarava "Estabelecerei meu rei em Sião, meu monte sagrado", referindo-se ao"Monte Sião", na cidade de Davi (Salmos 2:6). Já que muitos provinham da Galiléia eoutras regiões do país, a comunidade juntou seus recursos e passou a viver uma vidacomunitária livre, partilhando as refeições, os de fora da cidade ficando nas casas dosque moravam em Jerusalém (Atos 2:46). Deve ter havido alguma sensação de perigo,mas também de nervosa expectativa - já que certamente Deus não permitiria que amorte de seus Justos, Jesus e João, ficasse impune. Pouco depois do dia de Pentecostes,o grupo se reuniu para deliberar sobre sua situação. Precisavam de um novo líder etinham de substituir Judas Iscariotes, que cometera suicídio, no Conselho dos Doze.O que aconteceu depois disso é uma das maiores histórias "não contadas" dos doisúltimos milênios. A tradição mais lembrada pela maioria das pessoas é a de que oapóstolo Pedro assumiu a liderança do movimento como chefe dos Doze. Não muitodepois, o apóstolo Paulo, recém-convertido ao cristianismo, deixara o judaísmo paraunir-se a Pedro. Juntos, os apóstolos Pedro e Paulo se tornaram os "pilares" gêmeos daemergente fé cristã, pregando o evangelho em todo o mundo romano e vindo a morrergloriosamente, como mártires, em Roma - por designação divina, a nova sede da Igreja.Essa visão das coisas vem sendo entronizada na arte cristã ao longo dos tempos, tendosido popularizada em livros e filmes. Na verdade, a primazia de Pedro como primeiropapa tornou-se mesmo a pedra angular do ensino dogmático do catolicismo romano.Hoje sabemos que as coisas não se passaram dessa maneira.Pedro tornou-se figura de proa no grupo dos Doze, como veremos , mas foi Tiago, oirmão de Jesus, quem se tornou o sucessor de Jesus e o líder inconteste do movimentocristão. Jesus, o regente que descendia de Davi, tinha sido levado de seu convívio.Tiago era o próximo nessa linhagem real. A morte de Jesus não significou o fim domovimento, nem política, nem espiritualmente. A dinastia de Jesus continuaria por maisde um século após sua morte. Mas, se é assim, como é que Tiago, o herdeiro dessadinastia, tem sido quase inteiramente deixado de fora da história das origens cristãs - e,mais importante, - por quê? Tiago mal aparece na arte e iconografia cristãs. É como sesua própria existência tivesse sido completamente esquecida. No entanto, ele surge emuma história oculta, história surpreendente e inspiradora essa, com importantesimplicações para o entendimento de Jesus e da causa pela qual ele viveu e morreu.”(pág, 261ss).“Devemos começar nossa procura de Tiago por um exame das fontes do NovoTestamento - já que foi a partir daí que sua memória foi extensamente apagada. Temosapenas um relato substancial da história dos primórdios do movimento cristão que seseguiu à morte de Jesus - o livro do Novo Testamento conhecido como Atos dosApóstolos. O mesmo autor do evangelho de Lucas escreveu os Atos como um segundovolume de seu trabalho literário. O livro dos Atos é amplamente responsável peloretrato oficial dos primórdios do cristianismo, em que Pedro e Paulo assumem papel tão
  • 21. destacado, e Tiago é amplamente deixado de fora. A apresentação dos Atos tornou-se ahistória, embora a versão de Lucas seja, é lamentável, unilateral e historicamentequestionável. Lucas com certeza sabia, mas não estava disposto a afirmar que Tiagoassumira a liderança do movimento após a morte de Jesus. Em seus capítulos iniciais,nunca sequer menciona o nome de Tiago e escala Pedro como o líder inconteste dosseguidores de Jesus. Mas seu maior objetivo no livro como um todo é promover acentralidade da missão e mensagem do apóstolo Paulo. Embora os Atos tenham 24capítulos, uma vez introduzido o nome de Paulo no nono capítulo, o resto do relato deLucas é inteiramente sobre ele - até Pedro começa a sair de cena. Mais do que Atos dosApóstolos, o livro deveria se chamar A Missão e Carreira de Paulo.Isso não quer dizer que falte aos Atos valor histórico. Sem eles, teríamos umacompreensão bem inferior do desenvolvimento inicial do movimento cristão. Alémdisso, ironicamente, Lucas deixou de forma involuntária no livro dos Atos pistas quenos permitem verificar o que sabemos por meio de outras fontes, que Tiago, e nãoPedro, tornou-se o legítimo sucessor de Jesus e líder do movimento. Precisamosaprender a ler o livro dos Atos cuidadosamente, conscientes durante todo o tempo domal velado "viés" dado por Lucas à história,Lucas, mais do qualquer um dos outros evangelistas, marginaliza a família de Jesus.Lembrem-se, é de Lucas o evangelho que deliberadamente evitou até mesmo mencionaros irmãos de Jesus, muito menos dar nome a eles, embora sua fonte, Marcos, os tenharelacionado naturalmente como Tiago, José, Judas e Simão (Marcos 6:3). Só em Lucas,quando uma mulher na multidão que seguia Jesus gritou "Abençoado é o ventre que ocarregou e os seios que o amamentaram", Jesus replica "Não, abençoados antes os queouvem a palavra de Deus e a guardam" (Lucas 11:27-28). Até na cruz, quando Marcosdiz simplesmente que "Maria, a mãe de Tiago e José", assim como Salomé, a irmã deJesus, estavam presentes, Lucas muda isso para "as mulheres (não nomeadas) que oseguiram desde a Galiléia" (Lucas 23:49).(...). Na maior parte das vezes, Lucas seguiu Marcos bem de perto, como sua fonte,muito mais do que Mateus, que constantemente acrescentou suas próprias revisõeseditoriais. No entanto, Lucas se afastou de Marcos quando se tratava da mãe e dosirmãos de Jesus. Acho que ele fez isso para evitar que fossem suscitadas questões sobrea liderança de Pedro sobre os Doze ou a superioridade da missão de Paulo junto aosgentios. Uma edição tão ousada não poderia ser acidental; há algo muito importante emjogo aqui. Faz parte da intenção de Lucas reconfigurar a história do início domovimento de forma a dar a Paulo a primazia sobre outros rivais, incluindo Tiago. Masque rivalidade era essa?Lucas era um gentio. Na realidade, era o único autor não judeu em todo o NovoTestamento. Ele enfatiza a versão gentia do cristianismo esposada por Paulo. Não podenegar que Jesus era judeu, ou que todos os seguidores originais de Jesus eram judeus, ouque o movimento cristão inicial, como um todo, era um movimento apocalíptico dentrodo judaísmo, mas, escreveu em uma época, duas décadas após a rebelião judaico-romana, quando essas origens judaicas do movimento estavam ficando marginalizadas esem ênfase, e a iminente esperança apocalíptica enfraquecera.Lucas também era a favor dos romanos. Paulo, seu herói, era cidadão romano, e eledesejava que seus leitores romanos gentios soubessem e valorizassem isso nele,olhando, portanto, favoravelmente para o crescimento do movimento gentio cristão. Norelato do julgamento de Jesus, Lucas ultrapassa Marcos, sua fonte primária, paraenfatizar que Pôncio Pilatos era um governante razoável e justo, que foi a extremos paraconseguir a libertação de Jesus. Retira a referência do açoitamento de Jesus a mando dePilatos e até omite a zombaria e os abusos sofridos por Jesus nas mãos da guarda
  • 22. pretoriana romana de Pilatos (Lucas 23:25). Segundo Lucas, ainda de acordo com ateologia de Paulo, Jesus não poderia ter morrido "esquecido por Deus", já que sua morteera parte do plano divino de trazer ao mundo o perdão dos pecados (Lucas 24:27).Lucas elimina o grito agonizante final de Jesus e, em seu lugar, faz com que Jesus rezediretamente pelos soldados romanos que levam a cabo sua crucificação, "Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem" (Lucas 23:24). Lucas não estava escrevendohistória; estava escrevendo teologia. Com isso em mente, devemos aceitar o que ele nosrelata com extrema cautela, lembrando-nos o tempo todo de sua agenda em prol dePaulo e dos romanos.A perda da compreensão da dinastia de Jesus e sua substituição por uma memória cristãmais recente devem -se sobretudo ao livro dos Atos que, deliberadamente, suprimiu suaexistência.” (pág. 263ss).“De acordo com os Atos, cerca de quarenta dias após a morte de Jesus, os 11 apóstolosse reuniram em Jerusalém, na Sala do Andar Superior, onde fizeram a última refeiçãocom Jesus para escolher o sucessor de Judas. Lucas lista cuidadosamente os líderespresentes:Pedro, e João, e Tiago, e AndréFelipe e Tomás, Bartolomeu e MateusTiago filho de Alfeu, e Simão o Zelote, e Judas irmão de TiagoAcrescenta, então, cuidadosamente, uma definidora frase fatídica que serviu paramarginalizar a família de Jesus por dois mil anos:"Todos esses [os 11] devotavam-se constantemente à oração, junto com certas mulheres,incluindo Maria, a mãe de Jesus, assim como seus irmãos." (Atos 1:13-14)Ao separar os 11 de "Maria, mãe de Jesus, bem como de seus irmãos", Lucas conseguiuefetivamente recolocar as coisas de forma que Tiago e os outros irmãos de Jesus nãodesempenhassem um papel de liderança nessa conjuntura crucial do movimento. Sãomencionados apenas de passagem, como que dizendo "Ah sim, por falar nisso, elesestavam presentes, mas na verdade não eram significativos".Mas é claro que Lucas se sentiu obrigado a registrar suas presenças. Ele não ousou bani-los completamente do relato sabendo, como sabia, do papel absolutamente crucialdesempenhado por eles. É mais do que irônico que, ao listar os 11, ele mencione osnomes de Tiago, Simão, e até mesmo observe que Judas é o irmão de Tiago. Comoveremos, o livro dos Atos foi escrito em torno de um inegável fato básico - Tiagoassumira a liderança do movimento, e Simão, seu irmão, o substituiu após a morte deTiago em 62 d.C. Lucas escreveu os Atos nos anos 90 d.C., pelo menos trinta anosdepois da morte de Tiago, e sabia, seguramente, que Simão, também de linhagem real,tinha sucedido Tiago, e era chefe da igreja de Jerusalém, no momento mesmo em queLucas escrevia. Lucas termina propositalmente seu relato no livro dos Atos com aprisão de Paulo em Roma, por volta de 60 d.C. Para ele, a história acaba aí - Paulo emRoma, pregando seu evangelho ao mundo gentio. Ao escolher essa data de corte, isenta-se da obrigação de registrar tanto a morte de Tiago quanto a sucessão de Simão, irmãode Jesus. A história de Lucas, nos Atos, tornou-se a história do cristianismo primitivopara as gerações subsequentes. O que ele escolheu não contar ficou esquecido.Não deixa de ser irônico que a primeira prova referente ao papel de liderança exercidopor Tlago e os irmãos de Jesus, após sua morte, nos chegue diretamente de Paulo. Jesus
  • 23. foi crucificado no ano 30 d.C., e as cartas de Paulo datam dos anos 50 d.C. Nãodispomos de registro para essa lacuna de vinte anos. Estes são os anos de silêncio nahistória do cristianismo primitivo. O que podemos saber precisa ser lido de trás paradiante, a partir dos registros que sobreviveram. Felizmente, na carta de Paulo aosgálatas, escrita por volta de 50 d.C., ele retrocede há pelo menos 14 anos, ao recontarsua biografia. Isso nos fornece uma fonte pessoal primária original, a mais valiosaferramenta com que um historiador pode trabalhar, cujo alcance chega à década de 30d.C.Na carta aos gálatas, Paulo relata que, três anos após se juntar ao movimento, ele fez suaprimeira viagem à Jerusalém, onde viu Pedro, por ele chamado de Cefas, seu apelidoaramaico. Paulo ficou com ele durante 15 dias. Nessa ocasião, escreveu: "mas não vinenhum dos outros apóstolos, com exceção de Tiago, irmão do Senhor" (Gálatas1:19).Não só chamou Tiago de apóstolo, como claramente o identificou como o irmão deJesus. Os nazarenos, de forma compreensível, desconfiavam de Paulo, já que este, hátão pouco tempo, estivera à frente daqueles que os perseguiam, aliado dos próprioslíderes que mandaram matar Jesus. Paulo viu Pedro, mas sabia que era essencialencontrar-se com Tiago, que estava no comando. Que Paulo tenha mencionado isso depassagem é ainda mais significativo, pois não precisa explicar a quem quer que seja asrazões pelas quais teria se encontrado com Tiago.” (pág. 266s).“Como já expliquei, o Evangelho de Tomé foi descoberto no alto Egito, em 1945, nascercanias da cidadezinha de Nag Hammadi. Embora o texto em si date do terceiroséculo, estudiosos demonstraram que ele preserva, a despeito de acréscimos teológicosposteriores, um documento original em aramaico que remonta aos primeiros dias daigreja de Jerusalém. Graças a ele, podemos ter um raro vislumbre do que os estudiososchamaram de "cristianismo judaico", isto é, os primeiros seguidores de Jesusconduzidos por Tiago. Como vocês vão se recordar, o Evangelho de Tomé não é umanarrativa da vida de Jesus, mas antes uma lista de 114 de seus "ditos" ou ensinamentos.O de número 12 diz o seguinte:Os discípulos disseram a Jesus "Sabemos que vai nos deixar. Quem, então, será nossolider?" Jesus lhes disse "Onde quer que ides, deveis ir a Tiago, o Justo, por quem o céue a Terra passaram a existir:”Temos aqui uma declaração direta do próprio Jesus de que estava entregando aliderança e a direção espiritual do movimento a Tiago. A extravagante e categóricaafirmação nos faz lembrar da homenagem conferida a seu parente João Batista, aochamá-lo de "mais que um Profeta” e o maior "de todos os nascidos de mulheres" desua geração. Devemos ter em mente que o Evangelho de Tomé, em sua forma atual,vem de um período mais recente, quando a questão "quem será nosso líder" tornara-secrítica para os seguidores de Jesus. A frase "onde quer que ides" implica que aautoridade e liderança de Tiago não se restringem à Igreja de Jerusalém ou mesmo àPalestina romana. De acordo com esse texto, Tiago, o irmão de Jesus, ficara responsávelpor todos os seguidores de Jesus. A frase "por quem o céu e a terra passaram a existir"reflete a noção judaica de que o mundo existe e se mantém por causa das extraordináriasvirtudes de um punhado de indivíduos retos ou "justos". Tiago, o irmão de Jesus, foidesignado "Tiago, o Justo", tanto para distingui-lo dos outros de mesmo nome quantopara homenageá-lo por sua posição preeminente. O Evangelho de Tomé nos fornece aprova declarada mais antiga e clara de que Tiago foi o sucessor de Jesus como líder domovimento, mas é confirmada por muitas outras fontes.
  • 24. Clemente de Alexandria, que escreveu no final do segundo século II d. c., é outra fonteprimitiva que confirma essa sucessão. Em dado momento, escreveu: "Pedro, Tiago eJoão, após a ascensão do Salvador, não lutaram pela glória, porque tinham sidopreviamente homenageados pelo Salvador, mas escolheram Tiago, o Justo, parasupervisor de Jerusalém". Em passagem subseqüente, Clemente acrescenta: Após aressurreição, o Senhor [Jesus] concedeu a tradição do conhecimento a Tiago, o Justo, aJoão e a Pedro, que a deram aos outros apóstolos, e estes aos Setenta”. Esta passagemconserva para nós a estrutura hierárquica do governo provisório deixado por Jesus:Tiago, o Justo, como sucessor; João e Pedro como seus conselheiros à esquerda e àdireita; o restante dos Doze; depois, os Setenta.(...). O que impressiona com relação a essas fontes é o modo como elas falam com umasó voz, embora procedentes de autores e períodos diversos. Os elementos básicos doquadro que preservam para nós são surpreendentemente consistentes. Jesus transmite aTiago, seu sucessor, o governo da Igreja; Tiago é amplamente conhecido, até porJosefo, um estranho, devido a sua reputação de retidão tanto em sua comunidade quantoentre o povo; Pedro, João e o restante dos Doze consideram Tiago seu líder.Por causa do que hoje sabemos, temos condições de investigar o tipo de cristianismoque Tiago, o Justo, herdou de seu irmão, Jesus, e passou adiante, e o que a existênciadessa dinastia de Jesus nos revela sobre a causa oculta e esquecida pela qual Jesus viveue morreu. Mas antes de me dedicar a isso, precisamos olhar para Paulo. Sua influênciadominante no Novo Testamento representa o maior desafio e qualquer tentativa derecuperar o legado da dinastia de Jesus.” (pág. 270ss).“Se Jerônimo está certo, e Paulo nasceu pouco antes de 4 a.C., ele teria idade próxima àde Jesus. É interessante pensar que tanto a família de Paulo como a de Jesus, vivendo aapenas alguns quilômetros de distância, foram afetados pelas rebeliões na Galiléia demodos diversos. Maria e José se mudaram para Nazaré, ou talvez tivessem sido exiladoscom o restante dos habitantes de Séforis, enquanto Paulo e seus pais foram, ao queparece, forçados a sair do país. É possível que essa origem galiléia de sua família possalançar alguma luz sobre as ulteriores motivações de Paulo. Após testemunhar tamanhadevastação e destruição desencadeadas por aqueles que, na Galiléia e na Judéia,procuravam se opor à Roma, talvez Paulo e família tenham aprendido a ficar bem maiscomplacentes com as realidades sociais e políticas de seu mundo romano. Na epístola dePaulo aos cristãos, em Roma, escrita por volta de 56 d.C., quando Nero era imperador,Paulo os instruiu a pagar impostos e honrar todos os funcionários romanos, incluindo oimperador, que, segundo ele, é o agente de Deus para sempre (Romanos 13:6). Isso éseguramente o oposto da mensagem pregada por Jesus. Como veremos, o "Reino deDeus" para Paulo era um reino espiritual, não na terra, mas no céu. Embora esperasseum juízo apocalíptico no futuro, aconselhava seus seguidores a se adaptar à sociedade, aser bons cidadãos, e a esperar pacientemente até que Jesus aparecesse entre as nuvensdo céu para levar seus seguidores para longe.” (pág. 275s).“Em torno do ano 36 d.C., Paulo teve uma experiência de "conversão" em que clama ter"visto" Jesus após sua ascensão. Disse ter recebido tanto uma revelação quanto ummissão - que Jesus era o "Cristo" celestialmente exaltado e que ele, Paulo, deveriapregar as boas novas da salvação pela fé em Jesus ao mundo dos gentios. Começou a sever, finalmente, como o décimo terceiro apóstolo, e se referia a si mesmo como o"Apóstolo dos gentios". Assim como Jesus escolhera seu Conselho dos Doze parachefiar o povo de Israel, Paulo reivindicava ter recebido a autoridade sobre o mundo dos
  • 25. não judeus ou gentios, para prepará-los para uma "Segunda Vinda" de Jesus comoMessias, dessa vez, do céu.Há dois "cristianismos" inteiramente separados e distintos enraizados no NovoTestamento. Um deles é bem familiar e se tornou a versão da fé cristã conhecida porbilhões de pessoas ao longo dos dois últimos milênios. Seu principal proponente foi oapóstolo Paulo. Outro foi amplamente esquecido e, por volta da virada do primeiroséculo d.C., tinha sido efetivamente marginalizado e eliminado pelo outro. Até dentrodos documentos do Novo Testamento é preciso olhar cuidadosamente para detectar suapresença. Seu paladino não era outro senão Tiago, irmão de Jesus, líder dessemovimento de 30 d.C. até sua morte violenta em 62 d.C. As duas versões da "fé" sãomarcadamente diferentes, tanto no que diz respeito aos valores quanto à prática. Oconceito por trás da dinastia de Jesus, qual seja, o de que Jesus foi sucedido por umasérie de líderes que eram seus irmãos, não diz respeito apenas à linhagem real e àgenealogia, mas também a que versão da fé cristã melhor representa as crenças eensinamentos originais de Jesus de Nazaré e João Batista - os fundadores do movimentomessiânico.Não há muita dúvida de que o apóstolo Paulo foi aceito nos círculos mais íntimos dosseguidores de Jesus. De fato, no ano 58 d.C., ele foi preso e levado à presença do sumosacerdote judeu Ananias, acusado de ser um "cabeça da seita dos nazarenos" (Atos24:5). Segundo os relatos de Paulo, e também de Lucas, Tiago, o Justo, Pedro e João -os três "pilares" da igreja - conferiram a ele "o lado direito da parceria" e publicamenteendossaram sua pregação missionária aos gentios do mundo romano (Gálatas 2:9). Foiaquilo que pregou e ensinou que começou a criar problemas.Paulo era judeu e, efetivamente, conforme seu próprio testemunho, na condição defariseu que estudou em Jerusalém, "avançara no judaísmo" além de muitos de seuscontemporâneos (Gálatas 1:14) Não há provas de que tenha chegado a conhecer ououvir Jesus. Se testemunhou os eventos que cercaram a crucificação de Jesus porocasião da páscoa dos hebreus, em 30 d.C., jamais mencionou isso. Sua ligação comJesus se baseava em suas próprias experiências visionárias, nas quais reivindicava ter"visto" Jesus vários anos após sua crucificação. Paulo acreditava que seu "chamado" foipré-ordenado: "Ele me pôs de lado antes que eu nascesse e me chamou por meio de suagraça... para que eu pregasse o evangelho entre os gentios" (Gálatas 1:15-16). Alegavatambém ouvir uma "voz" desencarnada, por ele identificada como "palavras" de Jesus.Na verdade, orgulhava-se de sua pretensão - ao contrário de Tiago e o restante dosDoze, que conheceram Jesus segundo a carne - de ter recebido sua autoridade e missãodiretamente do Cristo celestial, dispensando, assim, toda e qualquer aprovação ouautorização humana terrena. Como escreveu para seus seguidores gregos em Corinto:"De agora em diante, não conhecemos nenhum homem segundo a carne; mesmo tendoum dia conhecido Cristo segundo a carne, agora não o conhecemos mais assim" (2Coríntios 5: 16).Paulo ensinou que Jesus era um ser celestial divino preexistente, criado como o"primogênito" de toda a criação de Deus. Existia sob a "forma de Deus" e era "igual aDeus" (Filipenses 2:6). Foi por intermédio de Cristo que Deus fizera o mundo existir.Em sua glória celestial, Cristo existiu antes de todas as coisas e foi glorificado eadorado pelas hostes celestes. Subseqüentemente, "esvaziou-se" e assumiu a formahumana, tendo "nascido de uma mulher" e sendo enviado ao mundo desde o céu. Seupropósito era viver sem pecado e morrer na cruz como redenção dos pecados do mundo.Segundo Paulo: "Para nosso bem [Deus] fez dele uma oferenda pelos pecados, ele quenão conhecia pecado, de modo que por ele pudéssemos nos tornar a retidão de Deus" (2Coríntios 5:21). Deus então ergueu Cristo dentre os mortos e tornou a transformá-lo em
  • 26. seu glorioso corpo celestial. Cristo ascendeu ao Céu e se sentou, em poder e glória, àdireita de Deus.Assim, Deus pôde "reconciliar" um mundo pecaminoso, tanto de judeus quanto degentios, consigo mesmo. Segundo Paulo, aqueles que aceitaram o sacrifício de redençãodo sangue de Cristo foram perdoados de todos os pecados e receberam o "dom" da vidaeterna. Acertaram as contas com Deus pela fé e não pelas boas ações. Paulo esperavaque ele e a maior parte de seus seguidores vivessem para ver Cristo voltar do céu empoder e glória. Paulo escreveu que Jesus lhe ensinara que os seguidores deveriamreencenar "a ceia do Senhor", na qual beberiam vinho como se fosse o "sangue deJesus" e comeriam pão como se fosse seu "corpo", sem o que não poderiam escapar dojuízo. Alegou que a observância imprópria dessa refeição sagrada poderia causar doençae até mesmo a morte.” (pág. 278ss).“Paulo foi algumas vezes acusado de desenvolver sua versão do cristianismo a partir deidéias helenísticas ou "pagãs", como se tivesse que buscar fora do judaísmo suainspiração. Isso, na verdade, é uma concepção equivocada, a partir de uma visão muitosimplificada das várias formas de judaísmo do mundo romano. Temos muitos textosjudeus anteriores a Paulo que já tinham começado a desenvolver uma orientaçãodualista com referência ao mundo celestial, fazendo especulações sobre os níveis docéu, as hierarquias de anjos e demônios, os ritos mágicos, a vida após a morte emdomínios espirituais invisíveis, com recompensas e castigos e glorificação celestial.Mesmo idéias especulativas relacionadas a figuras cósmicas redentoras preexistentes,cujos domínios são mais celestiais do que terrestres, não são desconhecidos. Paulodesenvolveu suas concepções de "cristologia" baseado em suas próprias experiênciasmísticas, mas também deve ter sido capaz de esboçá-las a partir de um conjuntocomplexo de tradições especulativas judaicas.” (pág. 280).“Os aspectos mais inquietantes do "evangelho" místico de Paulo, para os membros domovimento messiânico inaugurado por João Batista e Jesus, eram sua concepção danatureza temporal da Torá ou Lei Judaica e uma redefinição "espiritual" de quemconstituía o povo de Israel. O judaísmo no mundo romano era bem diferente, mas emtodas as suas formas sempre houve dois elementos comuns: o lugar central ocupadopela Torá e a crença de que o povo de Israel era a nação eleita de Deus. A Torá foirevelada por Deus a Moisés e, como tal, representava uma eterna aliança que unia opovo de Israel, ou seja, os descendentes de Abraão, Isaac e Jacó. O último dos Profetashebreus, Malaquias, fechara seu livro com as palavras "Lembrem-se da Torá de meuservo Moisés", seguidas da promessa de enviar "Elias" com sua mensagem dearrependimento antes do grande dia do Juízo. A observância da Torá e a expectativa dofim dos dias estavam intrinsecamente ligadas.No começo dos anos 50 d.C., Paulo começara a propor uma versão de sua nova "fé emCristo" que requeria a ab-rogação essencial da fé judaica, repudiando a validade darevelação divina da Torá e redefinindo "Israel" como todos os que tinham fé em Cristo.A Israel "segundo a carne", como diz Paulo, já não era verdadeiramente "Israel. Jesus eJoão Batista tinham vivido e morrido como judeus fiéis à visão do destino histórico deIsrael, tal como declarado por todos os Profetas hebreus. O movimento nazareno,conduzido por Tiago, Pedro e João era, por qualquer definição histórica, um movimentomessiânico dentro do judaísmo. Até a expressão "cristianismo judaico: embora talvezútil como descrição dos seguidores originais de Jesus, é, de fato, uma denominaçãoequivocada, já que eles nunca se consideraram outra coisa que não judeus fiéis. Nessesentido, o cristianismo primitivo é judaico.
  • 27. Os gentios tinham sido aceitos pelo movimento por conta da mensagem ética universaldo judaísmo para toda a humanidade, mas ninguém, nem remotamente, imaginou queJoão Batista ou Jesus tinham anulado a aliança de Deus com o povo de Israel ou aeterna Torá, na qual se baseava. Ninguém no movimento de Jesus pensava em uma"nova religião", mas antes em uma restauração e cumprimento das antigas promessasfeitas por Deus a Israel. Isso incluía a promessa de uma Nova Aliança, profetizada porJeremias - mas tratava-se de uma aliança renovada com a "casa de Israel e a casa deJudá”, como declarado pelo Profeta Jeremias, e como esperara Jesus, ao escolher seusDoze Apóstolos, um para cada uma das 12 tribos de uma Israel reunida (Jeremias 31:31;Lucas 22:30).” (pág. 281s).“Paulo, então, prosseguiu argumentando, na epístola aos gálatas, que a Torá ou a Leidada a Israel no tempo de Moisés era apenas uma revelação provisória, que agora ficavaanulada com a vinda de Cristo. Escreveu: "A Torá exercia sobre nós sua custódia, até avinda de Cristo, garantindo-nos uma justificativa pela fé. Agora, porém, que essa féchegou, já não estamos sob custódia" (Gálatas 3:24-25). O uso da primeira pessoa aquiindica que mesmo ele, na condição de judeu, já não estava "submetido à Lei". Maistarde, afirmou que, em primeiro lugar, a Torá nem sequer tinha sido dada diretamentepor Deus, mas entregue a Moisés por um mediador angélico como uma medidaprovisória. Alertou os seguidores gentios de que se eles começassem a observar os diassantos judaicos estariam correndo o risco de se tornar escravos de "espíritos"hierarquicamente inferiores a Deus. Posteriormente, Paulo manteve que a aliança feitacom Israel no Monte Sinai sob Moisés era um sistema de escravidão, e que o povojudeu, como "crianças nascidas segundo a carne", estavam agora banidas, a menos queaceitassem Cristo como Salvador. Aqueles com fé em Cristo faziam parte de uma "novacriação", na qual as distinções entre ser "judeu" ou "gentio" não valiam mais. Asimplicações de Paulo são claras. A aliança de Deus com Israel tinha sido anulada pela"fé em Cristo”; de forma que "ser judeu" e obedecer aos mandamentos de Deusanunciados na Torá eram coisas obsoletas.” (pág. 282s).“O legado de Paulo é formidável, já que sua versão do evangelho foi sendogradualmente aceita por um número cada vez maior de cristãos espalhados pelo mundoromano. Após 70 d.C., como veremos, com a destruição do centro do movimento emJerusalém e a morte ou dispersão de seus líderes, a influência da mensagem dos DozeApóstolos originais começou a arrefecer. Por volta de 150 d.C., líderes cristãosintelectualmente astutos, como Justino, o Mártir, que vivia em Roma, defenderam asidéias de Paulo e começaram a desenvolver um metódico sistema teológico, construídoem torno de suas idéias básicas. O triunfo de Paulo, até certo ponto, foi de caráterliterário - isto é, suas epístolas e a influência de suas idéias, encaixadas nos escritos doNovo Testamento, incluindo os evangelhos, tornaram-se tão persuasivas, que passarama constituir o que foi visto como o único cristianismo autêntico. Se os escritos dosseguidores de Jesus originais de Jerusalém tivessem subsistido, não teríamos perdidocom tanta facilidade a visão que Pedro, João e o resto dos Doze perpetuaram. Até asduas cartas no Novo Testamento atribuídas a Pedro soam tanto a Paulo, que muitosestudiosos as consideram interpoladas ou mesmo compostas pelos seguidores de Paulo.”(pág. 286).
  • 28. “Qual foi o último "evangelho" proclamado por Tiago e pela igreja original deJerusalém, independentemente do que quer que Paulo tenha afirmado? Será que elepode ser recuperado?A dificuldade com que nos defrontamos é a onipresente influência de Paulo nos cânonesde documentos do Novo Testamento. Diria mesmo que o próprio Novo Testamento é,fundamentalmente, um legado literário do apóstolo Paulo, citado como autor de 13 dos27 "livros" do Novo Testamento. O livro dos Atos é, na quase-totalidade, uma defesa deseu lugar central como o "décimo terceiro" apóstolo. O de Marcos foi escrito por voltade 70 d.C., após a morte de Paulo, e é um primeiro transmissor da mensagem pregadapor Paulo, projetada retroativamente sobre a vida de Jesus. Então, tanto Mateus quantoLucas, que usaram Marcos como sua principal fonte narrativa, passaram adiante onúcleo da mensagem de Marcos. O evangelho de João, pelo menos em teologia,também reflete a essência da concepção que Paulo tinha de Jesus: Cristo como o divinoe preexistente Filho de Deus, que assumiu a forma humana, morreu na cruz pelospecados do mundo e ressuscitou para a glória celestial à direita de Deus, tornou-se amensagem cristã. Lendo o Novo Testamento, pode-se supor que essa foi a únicamensagem pregada e que não houve outro evangelho. Contudo, não foi esse o caso. Seprestarmos atenção, ainda podemos ouvir uma voz original abafada - tão "cristã” emcada uma de suas fibras quanto a de Paulo. É a voz de Tiago, fazendo ecoar o querecebeu de seu irmão Jesus.O documento mais negligenciado de todo o Novo Testamento é a carta escrita porTiago. Tornou-se tão marginalizada, que muitos cristãos nem se dão conta de suaexistência. E, no entanto, faz parte de qualquer Bíblia cristã, agora encontrada como ovigésimo livro do Novo Testamento, bem no final da coleção. Foi quase inteiramentedeixada de fora. Quando os cristãos começaram a canonizar o Novo Testamento, noséculo IV - isto é, a determinar autoritariamente os livros que seriam e os que nãoseriam incluídos - o status da carta de Tiago foi questionado.Ele não foi incluído no Fragmento Muratório, nossa lista mais antiga dos livros do NovoTestamento aceitos como Escritura em Roma, ao final do século II. Orígenes e Eusébio,estudiosos cristãos do século III, o listaram entre os livros controvertidos. MesmoJerônimo e Agostinho, os grandes estudiosos cristãos ocidentais, só aceitaram a cartacom relutância. Felizmente, acabou sendo incluída no cânone da Sagrada Escritura doNovo Testamento.Houve duas razões importantes para que alguns cristãos posteriores questionassem acarta de Tiago. A primeira diz respeito ao que Tiago falou ou não falou sobre seu irmãoJesus. Mencionou o nome de Jesus apenas duas vezes, de passagem, e cada uma dasreferências podia ser facilmente eliminada sem afetar o conteúdo da carta ou as posiçõesdefendidas por Tiago (Tiago I:I; 2:I). Além disso, a carta não fazia qualquer menção àconcepção que Paulo tinha de Jesus como o divino Filho de Deus, sua morte redentorana cruz ou sua glorificada ressurreição. Como é que um documento do NovoTestamento a que faltassem esses ensinamentos poderia ser realmente considerado"cristão"? O segundo fator a fazer com que a carta merecesse a desaprovação de algunsfoi que Tiago contestou o ensinamento de Paulo de "salvação pela fé" sem cumprir asprescrições da Lei, enquanto sustentava firmemente a natureza positiva da Torá, assimcomo sua permanente validade:De que serve, meus irmãos, um homem dizer que tem fé, mas não ter obras? Pode sua fésalvá-lo?... Então, a fé, por si só, se não vem acompanhada de obras, está morta. (Tiago2:14, 17)
  • 29. Pois quem quer que se aprofunde na perfeita Torá [Lei], a Torá da liberdade, epersevere não como um ouvinte que esquece, mas como um praticante que age, seráabençoado em suas ações. (Tiago 1:25)Pois quem quer que observe toda a Torá, mas falhe em um dos pontos, se torna culpadode todo o resto. (Tiago 2:10)Tiago endereçou sua carta às "Doze Tribos da Dispersão" (1:1). Essa é uma referênciadireta às dispersas "Doze Tribos" de Israel, que, conforme prometido por Jesus, seriamgovernadas pelos Doze Apóstolos. A carta reflete um contexto cultural judaico-palestino primitivo. Por exemplo, Tiago se referiu à reunião local ou assembléia decristãos como sinagoga, o que reflete sua concepção do movimento como parte integraldo judaísmo (Tiago 2:2). Embora a carta esteja escrita em grego, pelo menos sob aforma como hoje a conhecemos, ela reflete, do ponto de vista lingüístico, numerosasexpressões aramaicas e hebraicas, tendo sido revelada pelas pesquisas recentes comooriunda de um meio judaico-palestino.O mais impressionante nessa carta de Tiago é que o conteúdo ético de seusensinamentos é diretamente paralelo aos de Jesus, chegados a nosso conhecimento pelafonte Q. A fonte Q é a mais antiga coleção dos ensinamentos e ditos de Jesus que osestudiosos datam como sendo das proximidades do ano 50 d.C. Como já visto, nãosobreviveu como documento intacto, mas tanto Mateus quanto Lucas o empregaramextensivamente. Comparando Mateus e Lucas, e extraindo o material que usaram emcomum, sem ter sido derivado de Marcos, podemos chegar a uma construção razoáveldesse perdido "evangelho de Q". Ele consiste em cerca de 235 versículos, que são, emsua maioria, mas não totalmente, os "ditos" de Jesus. A fonte Q nos leva de volta aosensinamentos originais de Jesus, sem muito do arcabouço teológico acrescentadoposteriormente pelos evangelhos. Talvez a mais impressionante característica da fonteQ, em termos de reconstrução das origens cristãs, seja o fato de não incluir coisa algumada teologia de Paulo, especialmente sua cristologia ou concepção de Cristo.” (pág.287ss).“A carta de Tiago contém o elo mais direto possível com os ensinamentos do próprioJesus. Tiago essencialmente repete e afirma o que aprendera e transmitira de seu irmãoJesus que, por sua vez, aprendera e ouvira de João Batista. É importante ressaltar queTiago não citou diretamente Jesus ou atribuiu qualquer desses ensinamentosnominalmente a Jesus - embora eles sejam ensinamentos de Jesus.Para Tiago, a mensagem cristã não é a pessoa de Jesus, mas a mensagem por eleproclamada. Na carta de Tiago não há um único ensinamento característico do apóstoloPaulo e nada tirado da tradição de Marcos. O que preservamos neste preciosodocumento é o reflexo da proclamação evangélica original de Jesus - o "Evangelho doReino de Deus", com todas as suas implicações políticas e sociais.Vários testemunhos adicionais dessa versão original não-paulina do cristianismosobreviveram. Um deles, surpreendentemente, é de um segundo irmão de Jesus, a saber,o apóstolo Judas. Assim como aconteceu com a carta de Tiago, os teólogos do século IVdebateram sobre a inclusão da carta de Judas no Novo Testamento. Embora tenha sidofinalmente declarada parte da Sagrada Escritura, foi posta quase por último na coleçãodo Novo Testamento, e nunca um verso sequer de Judas foi lido no ciclo católicoromano das leituras dos textos sagrados nas igrejas. Muitos leitores da Bíblia hojeficariam surpresos ao saber que temos, de fato, no próprio Novo Testamento, cartas nãoapenas de um, mas de dois irmãos de Jesus. O reformador protestante Martinho Lutero,
  • 30. um grande paladino do apóstolo Paulo, moveu as cartas de Tiago e Judas bem para ofim de sua edição de 1522 do Novo Testamento, afirmando que eram de qualidadeinferior aos "verdadeiros e certos livros do Novo Testamento". Comentou que Tiago,particularmente, era uma "epístola isolada”, indicando sua opinião de que ela forneciapouco alimento espiritual.” (pág. 291s).“Tiago e Judas se referem a seu irmão Jesus como "Senhor", mas não usam o termopara se referir ao “Senhor Deus”, e sim a Jesus como seu respeitado “Mestre”, que deraa vida pela causa do Reino de Deus.(...). Uma das manobras fundamentais de Paulo foi igualar Jesus, como “Senhor”, apassagens da Bíblia hebraica que se referiam exclusivamente ao “Senhor Deus” deIsrael – desse modo, efetivamente, tornando Jesus igual à Jeová. Por exemplo, porintermédio do Profeta Isaías, Deus declarara:Vinde a mim, e sejam salvos todos os confins da terra! Porque eu sou Deus, e não existeoutro. Jurei por mim...diante de mim todos os joelhos devem se dobrar e todas aslínguas jurar fidelidade (Isaías 45:22-23)Paulo cita esse mesmo verso, mas muda sua referência para o “Senhor” Jesus comoCristo: “de forma que diante do nome de Jesus todos os joelhos devem se dobrar...todasas línguas devem confessar que Jesus Cristo é o Senhor” (Filipenses 2:10-11). Trata-sede uma enorme mudança que veio a se tornar comum entre os cristãos ortodoxos, quefacilmente passaram a igualar Jesus de Nazaré, o homem, com o Senhor Deus de Israel.Jesus era "Deus segundo a carne" e, de acordo com isso, sua mãe, Maria, se tornou a"santa mãe de Deus". Como os cristãos sustentassem que apesar disso erammonoteístas, isto é, aderiam ao Shemá - a grande confissão do judaísmo "Ouça, ó Israel,o Senhor nosso Deus, o Senhor é um" -, a conclusão se tornou inevitável. Se Jesus eraverdadeiramente "Deus", um Deus e não dois, então ele é nada menos que a encarnaçãodo Senhor Deus de Israel. Para falar sem rodeios, Deus se tornou homem.Paulo usa regularmente as expressões "Jesus Cristo" e "o Senhor Jesus Cristo", como seo termo "Cristo", palavra grega para o Messias ou rei ungido da linhagem de Davi, fosseum nome próprio, e não um título. Ele está bem consciente da reivindicação de Jesus àlinhagem de Daví, mas menospreza este aspecto de sua ascendência "humana".Escreveu à igreja de Roma que Jesus Cristo, nosso Senhor, "tinha nascido da sementede Davi, segundo a carne", mas foi declarado o Filho de Deus com poder "pelaressurreição dentre os mortos" (Romanos 1:2-4). Para Paulo, qualquer coisa "segundo acame" é "terrestre" e, portanto, sem importância, de forma que a reivindicação de Jesusde ser o Messias da linhagem de Davi é essencialmente marginalizada, com o objetivode afirmar seu status de divino "Filho de Deus" e Cristo celestial. Se o fato de Jesusdescender da linhagem de Davi significa tão pouco para Paulo, a reivindicação de Tiagoà mesma genealogia significaria ainda menos.Isso é algo que poucos judeus podiam aceitar, e nunca passou pelas cabeças de Tiago,Judas e dos seguidores originais de Jesus uma idéia dessas. Para eles, Jesus era ovenerado "Mestre" e o ungido Messias ou Cristo, mas, como um judeu devotado, opróprio Jesus confessou o Shemá, realçando-o como o "grande mandamento" (Marcos12:29). O evangelho de Marcos preserva um dito de Jesus a respeito disso, em que umhomem chega perto de Jesus e se dirige a ele como "bom mestre" ao que Jesus replica:"Por que me chamas de bom, existe apenas um que é bom, só Deus", (Marcos 10: 18).Jesus foi anunciado como Deus de Israel e foi de fato executado por essa reivindicaçãoantes que pudesse assumir formalmente o trono de Davi.
  • 31. Segundo todos os Profetas hebreus, o Messias da linhagem de Davi deveria governar apartir da cidade de Jerusalém, e não no céu; deveria reunir e conduzir à Terra Santa asDoze Tribos de Israel, de onde quer que tivessem se dispersado; e deveria anunciar umaera universal de paz e justiça para o mundo todo. A expressão "reino do céu" não serefere a um reino no céu, como a oração ensinada tanto por João Batista quanto porJesus deixa claro: "Venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade, assim na terraassim como no céu". Contrastando com isso, Paulo ensinou que a "Jerusalém terrestre jánão era relevante, e que uma nova "Jerusalém acima; espiritual, era onde Cristo agorareinava (Gálatas 4:26). Para Paulo, o povo de Israel, a cidade de Jerusalém e o Messiasda linhagem de Davi foram todos transferidos do literal para o simbólico, da terra para océu. Tiago, Judas e a fonte Q permanecem como testemunhas de uma versão original dafé cristã que nos remete ao próprio Jesus, com firmes elos históricos que remontam aJoão Batista.” (pág. 293ss).“Jerusalém foi cercada por quatro legiões romanas - a décima quinta, que Tito trouxerado Egito, e a quinta, a décima e a décima segunda, trazidas por Vespasiano da Síria. Seincluirmos as tropas auxiliares, as forças romanas chegavam a um contingente superiora 50.000 homens. A cidade ficou sem acesso a suprimentos e, por volta da primavera de70 d.C., instalou-se uma fome de grandes proporções. Josefo relata que houve até quemrecorresse ao canibalismo, e o caos reinava no interior da cidade sitiada. Os quetentaram escapar foram capturados e crucificados. Ainda segundo Josefo, que então sejuntara a Vespasiano, acampado no Monte das Oliveiras, antes da entrada da cidade,cerca de quinhentos por dia eram capturados e crucificados para aterrorizar os queestavam do lado de dentro e forçá-los a se render. As tropas vespasianas tinham despidode árvores as terras em torno de Jerusalém para obter madeira suficiente para aconfecção de todas as cruzes. Os zelotes, que controlavam a população local, presos dolado de dentro, recusaram todas as ofertas. Quando o verão chegou, os romanos tinhamconstruído rampas e conseguiam abrir brechas nos muros e entrar na cidade em etapas.Atearam fogo à cidade e puseram abaixo os muros. Finalmente, o próprio Templo, comseu vasto complexo de edificações e pátios, foi incendiado e posteriormente demolido.(...). A guerra judaico-romana foi uma tragédia além da conta para a religião judaica epara a nação. A destruição de Jerusalém e do Templo deixou o povo judeu sem umcentro nacional e religioso. Milhares foram feitos prisioneiros, e centenas de milharesmorreram, de um jeito ou de outro. Houve uma grande marcha triunfal, em Roma, paracelebrar a vitória de Vespasiano, com prisioneiros judeus e pilhagem do Templo,incluindo seus vasos sagrados, exibidos pelas ruas. Os romanos cunharam uma moedade prata especial, com a inscrição IUDAE CAPTA (“A Judéia foi derrotada”).” (pág.309s).“O simples fato de ser judeu estava se tornando cada vez mais impopular no mundoromano. Durante os anos 132-35 d.C., uma segunda e mais sangrenta Revolta Judaicairrompeu na Palestina, no reinado do imperador Adriano. Foi liderada por Simão barCosiba, posteriormente conhecido ao longo da história como Bar Kochba, aceito pormuitos judeus como o Messias de Davi. Como castigo, os romanos proibiram a entradados judeus na cidade de Jerusalém. que foi inteiramente reconstruída por Adriano etransformada em uma colônia romana, renomeada Aelia Capitolina, em honra a JúpiterCapitolinus, divindade padroeira de Roma. Um templo dedicado a Júpiter foi erguidosobre o local das ruínas do templo judeu.Qualquer esperança de que o Reino de Deus se concretizasse na terra começara adesaparecer, e o fervor messiânico judeu esmoreceu. O "evangelho" de Paulo, que
  • 32. rejeitava a "Israel segundo a carne" e enfatizava a salvação e o Reino de Deus "não naterra, mas no céu", passou a ter um apelo crescente para muitos.Sabemos que esses cristãos originais sobreviveram, sobretudo nas áreas a leste daPalestina, até o século IV d.C., mas estavam dispersos, sem poder ou influência, etiveram pouco ou nada a ver com o que entrou no Novo Testamento, que se tornou ahistória oficial do cristianismo primitivo.Passaram, mais tarde, a ser conhecidos como os "ebionitas", que em hebraico significa"os pobres”. Eusébio sabe da existência deles, embora os considere hereges emcontraste com a ortodoxia cristã por ele encampada. Entre suas acusações, estava a deque os ebionitas transformaram Jesus em um "homem simples e comum", nascidonaturalmente de "Maria e seu esposo”. Além disso, Eusébio declarou que os ebionitasinsistiram na observância da Lei Judaica ou Torá, e sustentaram que a salvação se dariapelas "obras” assim como pela fé, conforme afirma a carta de Tiago. Os ebionitasrejeitaram as cartas do apóstolo Paulo e o consideraram um apóstata da fé original. Sóusavam uma versão em hebraico do evangelho de Mateus - que só chegou a nós sob aforma de fragmentos. Eusébio, aliado ao imperador Constantino, que se convertera aocristianismo por volta de 325 d.C., classificou cada uma das concepções dessesebionitas como herética. No entanto, ironicamente, suas concepções se baseiam nosensinamentos do próprio Jesus e na tradição transmitida por seus irmãos.” (pág. 316s).“A mensagem que Paulo começou a pregar nos anos 40 e 50 d.C., como ele mesmoreiterou de maneira inflexível, não dependia de maneira alguma nem era derivada dogrupo original dos apóstolos de Jesus dirigido por Tiago, em Jerusalém. Baseava-seantes em sua própria experiência visionária de um Cristo celestial.Foi esta mensagem de Paulo que se tornou a pedra fundamental da ortodoxia teológicacristã. Ao contrário, a mensagem de Tiago e dos apóstolos originais de Jerusalém nãoderivava das revelações que Paulo dizia receber, mas se fundava no que o grupo tinhaaprendido diretamente de João Batista e de Jesus, durante o tempo em que viveram.Assim, Tiago e seus sucessores são nosso melhor laço histórico com Jesus e seusensinamentos originais. Não é de espantar que não encontremos nenhum traço doevangelho ou da teologia de Paulo na fonte Q, na carta de Tiago ou no Didache. Tiago eseus sucessores representam a versão original do cristianismo, diretamente vinculada aoJesus histórico, com todas as reivindicações à autenticidade. É isso que representa adinastia de Jesus. Ela é mais do que uma virada alternativa interessante na históriacristã, que nos permite completar uma pequena parte que faltava na história. Acompreensão da dinastia de Jesus abrirá o caminho para que possamos recuperar, paranossa própria época, o cristianismo original e sua poderosa mensagem.” (pág. 324s).“O cristianismo que conhecemos a partir da fonte Q, da carta de Tiago, do Didache, ede outras fontes judaico-cristãs sobreviventes, representa uma versão da fé de Jesus quepode, na verdade, unificar cristãos, judeus e muçulmanos, em vez de dividi-los. Na piordas hipóteses, as percepções reveladas pela compreensão da dinastia de Jesus podemabrir amplamente novas e frutíferas portas de diálogo e compreensão entre essas trêsgrandes tradições, cujas visões de Jesus foram consideradas, no passado, tãoprofundamente contraditórias, que impediram qualquer discussão.” (pág. 329).