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Carlos Burke - A Pirata (Conto)

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Conto escrito por Carlos Burke com o pseudônimo de Raimundo Fúzio. Este conto foi publicado no jornal A Gazeta do Povo de Curitiba, no caderno de Cultura em 1995.

Conto escrito por Carlos Burke com o pseudônimo de Raimundo Fúzio. Este conto foi publicado no jornal A Gazeta do Povo de Curitiba, no caderno de Cultura em 1995.

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Carlos Burke - A Pirata (Conto) Carlos Burke - A Pirata (Conto) Document Transcript

  • A PIRATA Botão, farelo de bolacha, fio de cabelo, cinza de cigarro, guardanapo usado, copo de papel, bituca de cigarro, pedaço de pão, tubo de pasta de dente, pente, medalha de campeão de futebol de botão, tecido, catarro seco de nariz, pivô que quebrou com uma azeitona escondida numa pizza à portuguesa, xerox do "honra ao mérito" de escotismo, cutícula, pelos do barbeador elétrico, cueca, meias, etiqueta de preço, cartão de crédito vencido, armação de óculos, camisinha, resultados de exame de sangue, baratinha pisada com o pé direito, garfo, vidro de perfume vazio, tampinha de cerveja, caroço de manga, caco de disco, sola de sapato, osso de frango, cadarço, papel de bala, chiclete mascado... Ela nunca vez um inventário completo de tudo que guardara ao longo dos anos. Ficavam num armário em seu quarto. Trancava-se todas as noites e revia os objetos. Cada qual tinha uma história. Lembranças, lembranças. Um verdadeiro tesouro. Daqueles de filme em que a vida do pirata é achar o baú. Não é o ouro em si que conta, mas a busca, a determinação. Se nunca encontrado, valeu a emoção da vida. Para Solange o que valia a vida era o homem amado. Um verdadeiro tesouro, reluzente. A paixão, o delírio, a busca. Era bem mais velho do que ela. Quase 15 anos. Ele nunca notou àquela menina que ia crescendo enquanto brincava com sua irmã mais nova. Ele sabia dela sempre por perto. Em todas as datas de comemoração da família, em todos os fins de semana de todos os anos. “Amizade assim é pra vida toda”, pensava... Solange navegava por todos os mares e vencia todos os desafios em busca de sua paixão. Enquanto brincava de boneca, ficava pensando numa forma de aproximar-se dele. Qualquer subterfúgio, qualquer desculpa valia a emoção. Nunca mais esqueceu quando forjou um desmaio e ele a pegou nos braços. Foi quando conseguiu o fio de cabelo. Bituca de cigarro era mole. Fumava feito doido. Pra conseguir a camisinha invadiu o quarto dele, quando todos estavam na sala em festa e revirou suas gavetas. Guardou por muito tempo como bexiga, até começar a ter aquele objeto como dos mais excitantes. Tudo que a fizesse lembrar-se do seu amor quando estivesse longe ela guardava. Um dia, tomando café com a irmã mais nova dele, sentada obviamente no lugar que se destinava a ele, sentiu quando esfregava as mãos por baixo da mesa que ali se encontrava um grande tesouro Retirou-os com todo cuidado para não esfarelarem. Alguns chicletes também foram conseguidos, e eram bem mais fáceis de desgrudarem. Apesar de mais raros embaixo da mesa, eram fartos no sofá da sala. Quando Solange começou a tomar corpo e as sensações sexuais se intensificaram, buscava objetos mais íntimos. Sua maior frustração era não ter conseguido uma gaze que serviu no pós-operatório de fimose. Oportunidade como essa é única. A empregada passara antes. Chegou a revirar o lixo. Nada da gaze. Contentou-se com o vidro de perfume vazio. Tinha um cheirinho ainda e cheiro, certamente, é lembrança. Ele casou! A morte. A ilha do tesouro agora ficava mais distante, em mares nunca dantes navegados. Talvez até ficasse em outra galáxia. Fim do mundo. Como invadir agora uma fortaleza intransponível? Ficar amiga da esposa? Empregar-se como doméstica? Calada da noite? Tocaia? Segui-lo nas ruas, no trabalho? Os tesouros eram cada vez mais difíceis. Tinha que contentar-se com bitucas de cigarro quando ele ia visitar a casa dos pais. Um farelinho aqui, um guardanapinho ali. Até que um dia aconteceu. Solange percebia que ele a olhava incessantemente. Repetiu- se outras vezes em outras ocasiões. Dias e noites era a lembrança daqueles olhos, já meio cansados, tristes, melancólicos até. Ela nunca havia procurado os olhos.
  • Num dos encontros que tiveram, em mais um aniversário da irmã mais nova dele, aproximou-se de Solange, que já estava prestes a pegar o palito de fósforo usado que havia deixado por cima da mesa após acender o cigarro, ele disse: - sabe que tenho notado mais você. Não havia me dado conta que se tornou uma mulher. Solange quase desmaiou de verdade dessa vez. Sentiu um calafrio descendo pela espinha, as pernas bambearem, começou a tremedeira. O coração disparou e um calor invadiu todo seu corpo. Após esse dia ela desinteressou-se pelos objetos trancados no armário. Não dormiu. Não comeu. Só lembrava agora das palavras. Podia até sentir o calor do corpo dele, o cheiro, os lábios movendo-se em câmera lenta parecendo uma eternidade. De repente o telefone: - Oi Solange! Estou ligando porque não consigo parar de pensar em você. Não sei o que está havendo comigo. Tantos anos você por perto e eu nem notava. Meu casamento não anda muito bem e acho que minha esposa nunca me amou de verdade. Talvez eu também não a tenha jamais amado de verdade. - Que tal conversarmos, almoçarmos uma hora dessas? Um silêncio mórbido se estabeleceu do outro lado da linha. Ele nem sentia a respiração dela. - Solange? Solange? Você me ouviu? - Sim! - Responde! O que acha de nos encontrarmos? - Não! Agora, todas as noites, ela só liga o gravador: “Oi Solange...” Raimundo Fúzio Publicado no jornal Gazeta do Povo/Caderno G/ em Curitiba, 06/01/1995