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Em uma passagem do livro Ces enfants de ma vie, de modo simbólico, aprofessora coloca em prática um gesto que evoca o da a...
Cabe-nos agora ressaltar a representação do intelectual assumida por GabrielleRoy e Marco Micone. Ser dos trânsitos por ex...
aldeia italiana resolve também partir, fugindo do mapa das certezas identitárias (“Levillage envolé”).       O fantasma de...
BOLAÑOS, Aimée G. Diáspora. In: BERND, Zilá (org.) Dicionário das mobilidadesculturais: percursos americanos. Porto Alegre...
Grandes et petites langues. Pour une didactique du plurilinguisme et dupluriculturalisme. Berne:Peter Lang: 2008RADKOWSKI,...
__________. Le passage obligé. Montréal: Leméac/Actes Sud, 2010. 252 p.13
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(24) 14.00 Maria Bernadette Velloso (Louvre IV, 25.04)

  1. 1. Representações do Canadá como espaço marcado pela consciência diaspórica nocontexto cultural das Américas Maria Bernadette Velloso Porto (UFF/CNPq) Antes de tudo, é preciso definir o lugar de onde emerge minha fala. Há algunsanos, sou coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses da UFF, primeiro NECcriado no âmbito das universidades brasileiras. Trata-se de um espaço crítico onde sedesenvolvem pesquisas acadêmicas sedimentadas pela tradição, reconhecidas por suaqualidade e continuidade no meio universitário brasileiro e canadense. Tive o privilégio,mais recentemente, de me tornar editora da Revista Interfaces Brasil/Canadá, revistaoficial da ABECAN (Associação Brasileira de Estudos Canadenses)1. Criada em 2001pela Profa. Zilá Bernd, essa publicação deve muito também à Profa. Nubia Hanciau(FURG), que se empenhou, como editora, para que tal revista multidisciplinar fosseclassificada como Qualis A1, na área de Letras pela CAPES. Na UFF foramorganizados, até agora, dois números: o12 e o 13. Este último número, que contou,além de minha participação efetiva, com um editor convidado, o Prof.Arnaldo ViannaNeto, centrou-se nas comemorações dos 20 anos da ABECAN, tendo reunidopesquisadores brasileiros, canadenses e canadianistas que muito fizeram pelodesenvolvimento dos estudos canadenses no Brasil. Na condição de articulista do primeiro número da Revista InterfacesBrasil/Canadá, em um texto intitulado “Babel revistada nas Américas“, afirmei o papelda multidisciplinaridade em pesquisas no âmbito dos estudos canadenses, através daqual, “fazemos dialogar nossos estranhamentos e realizamos trocas no contexto dasAméricas” (PORTO, 2001, p.9). Acreditando que a Interfaces Brasil/Canadá “podeainda ser considerada o veículo por excelência do “trans” em nosso território no âmbitodos estudos canadenses” (HANCIAU, 2012, p.96), a Profa.Nubia Hanciau salienta: Acessível na rede, a Interfaces reforça o pensamento de que as perspectivas transversais, os lugares privilegiados à expressão das trocas que enriquecem cada1 A partir do número 14, além de mim, atuarão como editores efetivos os professores Arnaldo ViannaNeto (UFF) e Gunter Axt (UNILASALLE). A Profa. Maria Zilda Cury é a editora convidada do número 14.1
  2. 2. vez mais nossos países, parceiros do Norte e do Sul da América, também podem refletir as grandes articulações da sociedade brasileira entrecruzadas às áreas de excelência canadenses. A experiência multidisciplinar da Interfaces Brasil/Canadá – aberta à livre manifestação das ideias de brasileiros, canadenses e canadianistas – incrementa os estudos comparados em suas interfaces e traz grande impulso às pesquisas universitárias, para situá- las tanto no terreno das artes e da cultura, quanto em várias outras esferas do saber, permitindo renovar as representações hoje requeridas para afrontar o desafio da diversidade do mundo contemporâneo.(HANCIAU, 2012, p.97 ) E é pinçando a ideia de diversidade como mote nas considerações daProfa.Nubia Hanciau que começo propriamente meu texto. Pensar a diversidade nopanorama identitário do mundo contemporâneo, que se deve, em grande parte, àsmigrações pós-coloniais, é salientado como uma aprendizagem por Marc Augé, em seulivro Por uma antropologia da mobilidade. Lembro, de imediato, nesse fórum centradona educação internacional, de que somos todos aprendizes, de que nos situamos sempreem situações plurais de aprendizagem na cena do mundo: É preciso aprender a sair de si, a sair de seu entorno (...). É preciso sair do cerco culturalista e promover o indivíduo transcultural, aquele que, adquirindo o interesse por todas as culturas do mundo, não se aliena em relação a nenhuma delas. É chegado o tempo da nova mobilidade planetária e de uma nova utopia da educação. Mas só estamos no começo dessa nova história que será longa, e como sempre, dolorosa. (AUGÉ, 2010, p.109) Encontram-se, nessa afirmação do antropólogo francês, pistas que nos orientamem direção ao conceito de diáspora, ressemantizado nos últimos tempos (BOLAÑOS,2010). Em vez de ser encarada por teóricos de peso como Stuart Hall (Jamaica) e2
  3. 3. François Paré (Canadá) a partir de uma concepção fechada, como era anteriormente, anoção de diáspora adquiriu novos significados. “Questão conceitual e epistemológica,além de empírica” (HALL, 2003, p.28), a diáspora não sugere apenas a dispersão e odeslocamento – voluntário ou forçado – de comunidades originárias de um lugardeterminado que se dirigem a vários espaços que as acolhem, mas o reconhecimento deuma multiplicidade de contatos e a necessária releitura da ideia de nação e de território.Associada a uma nova perspectiva de se ler o mundo e de se relativizar a noção defronteira, a consciência diaspórica supõe, aos olhos de François Paré, a plurilocalidade,ligada a uma lógica plural da história e à fratura da memória coletiva. (PARÉ, 2003,p.72). Na literatura quebequense a consciência diaspórica tornou-se mais presente nosúltimos anos, com o advento do que se convencionou chamar de escrita migrante, nointerior da qual, por exemplo, a diáspora haitiana é representada por escritores eensaístas de renome como Émile Ollivier, Dany Laferrière, Stanley Péan, JoëlDesrosiers, Jean Jonassaint, entre outros. Faz-se necessário assinalar que mais do queapontar a produção literária de um grupo étnico, é bom lembrar o número significativode subjetividades diaspóricas vindas de todo mundo cujas vozes imprimem novasmarcas da alteridade no campo literário quebequense.2 Mais revelador ainda é constatar,na obra de autores quebequenses não-migrantes, a presença do exílio, do imaginário dadistância característicos da consciência diaspórica. Nos últimos anos, por exemplo,Michel Tremblay publicou quatro romances centrados na história da diáspora de umafamília quebequense. Trata-se dos livros La traversée du continent, La traversée de laville, La traversée des sentiments, Le passage obligé, que descrevem, com muitapoeticidade, itinerâncias da família Desrosiers, também representada nas célebresChroniques du Plateau Mont-Royal, no interior das quais a menina Rhéauna, do2 É preciso lembrar aqui que a presença do Outro sempre esteve presente na produção literária do Quebec,como nos mostra Janet Paterson em seu ensaio Figures de l’autre dans le roman québécois. Inspirando-seno conceito de grupo de referência de Landowski ( 1997 ), Paterson (2004) analisa a presença daalteridade em vários romances quebequenses,nos quais se identificam figuras plurais do outro . Mas écom o advento da chamada escrita migrante no campo literário quebequense que a alteridade ganhoumaior visibilidade.3
  4. 4. primeiro livro da série diaspórica do autor, aparece como a personagem da GrosseFemme. 3 Para ilustrar a presença do imaginário diaspórico em escritores quebequenses deorigem, podemos salientar ainda o livro Les aurores montréales de Monique Proulx,cujas novelas elegem Montreal como cidade heterogênea, lugar de diferentesestranhezas e estrangeiridades, não-lugar dos excluídos e dos sem-lugar. Nas novelasdedicadas a escritores diaspóricos como Dany Laferrière, Ying Chen, Marco Micone,Monique Proulx explora a multiplicidade de memórias e referências culturais. Deve serlembrado que, com a emergência crescente de seres diaspóricos em Montreal, a próprialeitura da cidade sofreu modificações. É o que salienta Sherry Simon em seu ensaioTraverser Montréal: une histoire culturelle par la traduction (2008) no qual apesquisadora interpreta a cidade a partir da travessia entre línguas e da prática datradução. Ao recuar na linha temporal, ela identifica a mudança no tecido cultural deMontreal, que passou da dualidade típica da cidade colonial, marcada pela divisão deduas referências, à cidade mestiça e cosmopolita da atualidade onde se reinventamidentidades diaspóricas. No desenvolvimento de minhas reflexões, gostaria de evocar duas figurasexemplares da consciência diaspórica no âmbito do Quebec: Gabrielle Roy e MarcoMicone aos quais podemos associar três lugares identitários: o do ser em trânsito, o docriador/a e do professor/a. Embora marcados por percursos identitários diversos – Roy écanadense e Micone nasceu na Itália –, ambos se vinculam, de perto, à questão dasmobilidades culturais e às interrogações sobre a problemática identitária que põem sobsuspeita a concepção de uma sociedade homogênea. Nascida em 1909 na pequena cidade francófona de Saint-Boniface, no interiorda província anglófona do Manitoba, Gabrielle Roy é considerada por Jean Morencycomo uma escritora cuja obra é marcada pela “visão cosmopolita da experiênciacanadense francesa” (MORENCY, 2009, p.152) e pela representação dos grandesespaços, o que equivale à noção de americanidade. Segundo o mesmo pesquisador,trata-se de uma autora profundamente canadense que conseguiu muito prestígio junto aum duplo leitorado. Seus leitores, de língua francesa ou de língua inglesa – através da3 Na verdade, o leitor de Tremblay conhece primeiro a Grosse Femme, para, muitos anos mais tarde dapublicação do romance com seu nome, vê-la como a menina Rhéauna (Nana) em La traversée ducontinent e nos outros livros sobre a diáspora dos Desrosiers.4
  5. 5. tradução – percebem, em muitos de seus textos, seu interesse pelos deslocados de seuslugares de origem. Em um texto intitulado “Mon héritage du Manitoba”, a autora faz obalanço do legado recebido dessa província anglófona: “(...) esse espetáculo dosdesterritorializados que o Manitoba me ofereceu quando eu era muito jovem tornou-seinseparável de meu sentimento da vida” (ROY, 1996, p.191). Embora muitas personagens femininas de Gabrielle Roy se encontremprisioneiras das representações de gênero, desempenhando funções tradicionalmenteatribuídas à mulher, há na poética royana o constante apelo aos deslocamentos quepermitem a realização de sonhos, a descoberta da imensidão do mundo em suapluralidade paisagística e humana. No romance memorial da família de Gabrielle Roy,uma lembrança compartilhada por todos através de relatos de vida transmitidos ao longode gerações, remete a uma experiência vivida pelos avós maternos da autora. Comooutros casais de sua geração, um belo dia, seduzidos pelas promessas de uma vidamelhor no Oeste, os avós de Roy decidem deixar a região das Laurentides, no norte deMontreal, para se instalarem na província anglófona do Manitoba. As peripécias eobstáculos superados durante o périplo, realizado de trem e no interior de uma carroçaabarrotada de objetos e pessoas, constituíram uma verdadeira aventura para a famíliaque teve de se embrenhar na planície ainda selvagem de uma região inóspita em direçãoà montanha Pembina que, segundo o avô, poderia consolar a mulher da perda dascolinas quebequenses. Do dilaceramento4 causado pela duplicidade de uma geografia doafeto, representada através do amor pelas colinas e do amor pelas planícies -desenvolvido posteriormente no Manitoba – surgiram belos textos da autora, como LaRoute d’Altamont.5 No conjunto da obra royana o apelo do espaço diaspórico semanifesta como “a transmissão de narrativas fundadoras entre gerações” (PARÉ, 2007,p,50), o que confirma os vínculos entre mobilidades geográficas e mobilidades textuais. Representante expressivo da diáspora italiana no Quebec, ao lado de autorescomo Fulvio Caccia, Antonio d’Alfonso, entre outros, em uma entrevista publicada nolivro Sous le signe du Phénix, Marco Micone diz ter sofrido as consequências da4 Para uma melhor compreensão dessa temática, o texto “Mon héritage du Canada”, inserido no interiorde Fragiles lumières de la terre: écrits divers 1942-1970, oferece maiores detalhes.5 O amor pelas colinas longínquas da terra natal, interiorizadas nos recônditos das paisagens da memóriaafetiva, também aparece na novela “Où vas-tu Sam Lee Wong?”, publicada no livro Un jardin au boutdu monde.5
  6. 6. emigração de seu pai que deixou a Itália quando ele tinha seis anos de idade. Oreencontro dos dois se deu quando ele era um adolescente de treze anos, o que sugere anecessária aprendizagem da dor causada pela distância. (CACCIA, 1985, p.261). Asdificuldades relativas à experiência do exílio e, em particular, à adaptação ao novo paísaparecem no conjunto das obras de Micone que acredita na missão dos escritores deorigem italiana no Quebec: a de desenvolver uma consciência crítica que ultrapasse acomunidade italiana, uma vez que suas questões não concernem a um grupo específico,mas dizem respeito a outras realidades quebequenses. (CACCIA, 1985, p.271-272) Em momentos distintos da história quebequense, Gabrielle Roy e Marco Miconeexerceram o magistério no Canadá, lidando, em seu cotidiano, com a experiência daalteridade. Segundo Paola Puccini, foi como professor de italiano6 em um colégio inglêsfrequentado por filhos de imigrantes que Micone aprofundou o estudo do fenômeno daimigração (PUCCINI, 2008, p.280). Na formação do intelectual interessado pela análisede uma sociedade marcada pela diversidade, sua própria trajetória de estudantedesempenhou um papel significativo.. Graças a suas intervenções públicas, Miconeforneceu a seus leitores e espectadores dados sobre sua biografia linguística (PUCCINI,2008, p.280). Desde cedo, foi alvo de marginalização no meio escolar. Recusado, assimque chegou a Montreal, nos anos cinquenta, por uma escola francesa de seu bairro,passou por diferentes instituições de ensino até que foi aceito por uma espécie de escolafrancesa frequentada unicamente por jovens italófonos. Após algum tempo inscreveu-ena escola inglesa de seu bairro onde conheceu de fato a marginalização. Segundo PaolaPuccini, para o jovem Micone, a instituição escolar passou a ser vista como lugarfechado que se opunha à rua, lugar da aprendizagem informal, dos contatos e dasocialização que lhe abriram as portas de acesso à língua francesa. A experiência do magistério – presente em alguns textos de cunhoautobiográfico onde se entrelaçam memória e ficção – também permitiu a GabrielleRoy, muitos anos antes de Marco Micone, a descoberta da alteridade, expressa nosrostos, na expressão linguística e nos hábitos de seus pequenos alunos, na maioria recémchegados ao Canadá. É o que aparece no livro Ces enfants de ma vie, publicado em1977, considerado como uma obra de maturidade da autora que aí recria ficcionalmente6 Inspirada pela obra de Marco Micone, em uma das novelas de seu livro Les aurores montréales,Monique Proulx homenageia o autor, através da dedicatória e da escolha do personagem de um escritor deitaliano que, como Micone, reflete sobre a complexidade da cultura imigrada.6
  7. 7. sua experiência no magistério. Como jovem professora primária de inglês em umapequena escola perdida nas planícies do Manitoba, teve a oportunidade de se depararcom a multiplicidade e a riqueza de povos que compõem o Canadá. Deve ser tambémressaltado que o interesse pela diversidade e o desenvolvimento de uma consciênciadiaspórica se manifestaram muito cedo em Gabrielle Roy, nascida no seio de umafamília de “procuradores de horizonte” (ROY, 1996, p.180). No seu livro Fragileslumières sur la terre, ela ressalta o papel exercido por seus pais nesse sentido.Funcionário do governo, seu pai, que, jovem, havia deixado o Quebec para viver nosEstados Unidos7, antes de conhecer sua esposa e de se instalar com ela no Manitoba, emais precisamente, na cidade francófona de Saint-Boniface onde nasceu Gabrielle Roy,era responsável pela instalação de imigrantes nas terras virgens de Saskatchewan e deAlberta (ROY, 1996, p.187). Assim, muito nova Gabrielle Roy mostrou-se atenta aosrelatos paternos construídos em torno das famílias de imigrantes. Por sua vez,apavorada e fascinada pela onda mesclada de humanidade que se deslocava à sua porta,a mãe de Gabrielle Roy levava seus filhos menores para fazerem uma travessia de barcono rio Rouge para lhes mostrar, mesmo de longe, as comunidades de imigrantes jáinstalados em solo canadense. Aos olhos da menina, sensível à revelação da alteridade:,essas pequenas viagens abriram as portas de um mundo distante, ao mesmo tempo,acessível a seu olhar: As Mil e Uma noites de minha infância foram essas viagens nas pequenas Valônias, as pequenas Ucrânias, as pequenas Auvergnes, as pequenas Escóssias, as pequenas Bretanhas do Manitoba, e também as réplicas quase exatas do Quebec distribuídas na planície. Eu adquiria aí talvez esse sentimento de deslocamento, essa sensação de deriva de nossos hábitos que, pela leve angústia que ela engendra, não tem nada igual para nos impor a tarefa de tudo ver, de tudo captar e de tudo reter ao menos um instante. (ROY, 1996, p.192)7 No texto “Mon héritage du Manitoba”, a autora se refere à condição exilar de seu pai que, ao cantarmúsicas como “ Il était un petit navire” e “Le Canadien errant”, aí imprimia “a confissão meio velada deseu próprio desenraizamento’. (ROY, 1996, p.186)7
  8. 8. Em uma passagem do livro Ces enfants de ma vie, de modo simbólico, aprofessora coloca em prática um gesto que evoca o da autora, ao ajudar seus alunosimigrantes a se situar no novo país onde suas famílias tinham acabado de se instalar. Noinício do ano letivo, desenhou no quadro-negro a escola perdida no meio da imensidão epediu a cada aluno para desenhar sua própria casa. Traçou, então, um caminho entre oprédio da instituição escolar e as pequenas habitações. Os estudantes se incluíram nessecenário através de desenhos em que se representaram no meio da rede criada pelamestra. Essa representação pictórica confirma o vínculo estabelecido pelo antropólogoGeorges-Hubert Radkowski (2002) entre o sentimento do existir e a consciência dalocalização. Em outra obra de caráter autobiográfico, La Petite Poule d’Eau, Gabrielle Royressalta os vínculos entre o exercício do magistério e a experiência do deslocamento.Muito jovem, pensando em juntar algum dinheiro para completar suas economias quelhe permitiriam embarcar, pela primeira vez, para a Europa, procurou o Departamentode Educação de Winnipeg em busca de uma vaga de professora em uma escola de verãodo Manitoba. Assim em 1937, realiza uma viagem cheia de riscos e de peripécias que alevam a,uma região de lagos, deltas e rios, afastada de tudo, chamada La Petite Pouled’eau, como aparece no romance citado. Como a jovem mestra dessa narrativa, MlleCôté, a autora experimentou a sensação de “extrême dépaysement”(ROY, 1996, p.240)Inspirando-se em André Gide, que um dia afirmara: “Antes de descobrir terras novas,épreciso consentir em perder de vista toda margem”, ela declara: “Bem, a partir daí, perdide vista minhas margens familiares e ganhei para toda a vida o sentimento que nenhumlugar no mundo é o seu centro,” (ROY, 1996, p..241). Assim, a consciência diaspóricase configurou desde cedo para ela vinculada à ideia de descentramento e como conviteàs viagens.88 A atração exercida pelas viagens e pelas mudanças explica a decisão tomada muito cedo por GabrielleRoy que logo desiste do magistério. Na primavera de 1939, ao retornar de sua estadia de dezoito meses naEuropa, resolve não voltar ao Manitoba onde a espera sua função de professora primária. (Heureux lesnomades et autres reportages. 1940-1945 (ROY, 2007, p.7) Na novela “L’alouette” ,do livro Ces enfantsde ma vie, a jovem professora se sente desanimada diante do futuro que a espera se continuar comoprofessora. Ao olhar suas colegas envelhecidas no exercício de uma função desgastante, antecipa o que aaguardaria se continuasse na área pedagógica.(ROY, 1993 a, p.40-41). De qualquer modo, mesmo tendodeixado sua primeira profissão, essa lhe trouxe inspiração para textos ligados à descoberta da alteridade.8
  9. 9. Cabe-nos agora ressaltar a representação do intelectual assumida por GabrielleRoy e Marco Micone. Ser dos trânsitos por excelência, sensível à experiência do exílio,conhecido enquanto condição real ou metafórica, o intelectual se reveste de um olharorientado pela consciência diaspórica. Um dos mais importantes críticos literários eculturais da atualidade, Edward Said, nascido em Jerusalém e educado no Cairo e emNova York, nos oferece pistas interessantes para a compreensão do lugar e do papel dointelectual na cena do mundo. Associando a figura do intelectual à do exilado – mesmose não se tratar de uma real desterritorialização – Said insiste no fato de se sentir fora domundo familiar: Para o intelectual, o exílio nesse sentido é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros. Não podemos voltar a uma condição anterior, e talvez mais estável, de nos sentirmos em casa; e, infelizmente, nunca podemos chegar por completo à nova casa, nos sentir em harmonia com ela ou com a nova situação.(SAID, 2005, p.60-61) É também o sentimento do desassossego que se depreende na leitura do ensaiode François Paré intitulado Le fantasme d’Escanaba, publicado em 2007. Construídocomo uma utopia do espaço, o mito de Escanaba é baseado em uma cidade real que fazparte da história genealógica franco-americana: instalada no estado de Michigan, aí seencontrava, no passado, uma comunidade canadense francesa com suas escolas, seujornal e suas associações. Em 2001, uma outra Escanaba, situada em um não-lugar,aparece como cidade inacessível no romance Une ville lointaine de Maurice Henrie, noqual ela deixa de ser a cidade real do Michigan setentrional para sugerir“ o símbolofugidio de todas as destinações migrantes.” (HENRIE, 2001, p.27). O romance deMaurice Henrie gira em torno do imaginário do desaparecimento: um dia, seupersonagem principal some de casa, assim como muitos outros habitantes da cidadeEspérance. Os que ficam imaginam que eles teriam ido para Escanaba, cidade-lugar depassagem, em eterno trânsito, onde seria impossível o enraizamento. Curiosamente,encontra-se na obra Le figuier enchanté de Marco Micone a estética do desaparecimentoem um relato no qual, cansada de assistir às sucessivas partidas de seus habitantes, uma9
  10. 10. aldeia italiana resolve também partir, fugindo do mapa das certezas identitárias (“Levillage envolé”). O fantasma de Escanaba - visto como a busca de um lugar mais promissor -aparece na escrita royana associada a uma ética da memória e ao imaginário do espaçomigrante (PARÉ, 2007, p.38) que fazem parte, como já foi ressaltado, da memóriafamiliar da autora. Lugar simbólico de todos os recomeços identitários no espaçodiasporal francófono na América, segundo Paré (2007, p.28), Escanaba seria, na poéticade Roy, a promessa de um mundo melhor, talvez uma Pasárgada de certo modo, capazde permitir a concretização de todos os possíveis. Na leitura proposta por François Paré,como sinal de abertura para um outro lugar, Escanaba representa a ruptura daexiguidade quebequense (2007,p.173), que se refere menos à extensão geográfica doque a uma certa concepção imaginária de um povo que, durante séculos, resistiu àassimilação, fechando-se em si mesmo. No que concerne às personagens femininas deGabrielle Roy o desejo de partir – com seus riscos e atrativos – seria uma atualização domito de Escanaba, sinônimo de desassossego segundo Paré, sugerindo a quebra deinterditos e limites emocionais que as confinavam no espaço doméstico. Nos momentos finais desta apresentação, permito-me voltar a refletir sobre olugar de onde falo: a de professora de língua e culturas estrangeiras em uma instituiçãono interior da qual se desenvolveu o espírito do desassossego na abordagem pedagógicada francofonia e, em particular, da literatura quebequense. Mais uma vez, em sintoniacom Edward Said, acredito que, à maneira do intelectual descrito por esse crítico, oprofessor deve fugir a uma concepção esclerosada da identidade como algo fixo eestável e abrir-se para a prática da Relação (GLISSANT, 1990). Respondendo “ao riscoda ousadia, à representação da mudança” (SAID, 2005, p.70), estimula seus alunos aescaparem à tentação do conformismo e da acomodação, de modo a investirem seussonhos e seu potencial em outros lugares desse mundo, “vasto mundo” como já dissenosso poeta maior. REFERÊNCIASAUGÉ, Marc. Por uma antropologia da mobilidade. Maceió: EDUFAL: UNESP, 2010BERND, Zilá. Dicionário das mobilidades culturais: percursos americanos. PortoAlegre: Literalis, 2010.10
  11. 11. BOLAÑOS, Aimée G. Diáspora. In: BERND, Zilá (org.) Dicionário das mobilidadesculturais: percursos americanos. Porto Alegre: Literalis, 2010.CACCIA, Fulvio. Sous le signe du Phénix: entretiens avec 15 créateurs itallo-québécois.Montréal: Les Éditions Guernica, 1985.GLISSANT, Éouard. Poétique de la Relation. Paris: Seuil, 1990.HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editorada UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 2003.HANCIAU, Nubia. XI Congresso Internacional da Associação Brasileira de EstudosCanadenses. 20 anos de interfaces Brasil-Canadá. Interfaces Brasil/Canadá: 2001/2011,uma década em circulação. In: Interfaces Brasil/Canadá. Vol.13. Universidade FederalFluminense. Associação Brasileira de Estudos Canadenses, 2011.HENRIE, Maurice. La ville endormie. Québec: L’Instant même, 2001.LANDOWISKI, Éric. Présences de l’Autre: essais de socio-sémiotique II. Paris: PressesUniversitaires de France, 1997MICONE, Marco. Le figuier enchanté. Montréal: Boréal, 1993MORENCY, Jean Romanciers du Canada français. In: HOTTE, Lucie et POIRIER,Guy (dir.) Habiter la distance: études en marge de La distance habitée. Ottawa:Éditions Prise de parole, 2009PARÉ, François. La distance habitée. Le Nordir, 2003___________ . Le fantasme d’Escanaba. Montréal: èditions Nota Bene, 2007PATERSON, Janet. Figures de l’autre dans le roman québécois. Montréal: Nota Bene,2004PORTO, Maria Bernadette. Babel revisitada nas Américas. In: InterfacesBrasil/Canadá. Vol. 1. Porto Alegre: UFRGS.ABECAN, 2001PROULX, Monique. Les aurores montréales. Montréal: Boréal, 1996PUCCINI, Paola. Autobiographie de Marco Micone comme lieu privilegie durenouvellement méthodologique de l’enseignant. In: ALAO George et alii (Eds)11
  12. 12. Grandes et petites langues. Pour une didactique du plurilinguisme et dupluriculturalisme. Berne:Peter Lang: 2008RADKOWSKI, Georges-Hubert. Anthropologie de l’habiter: vers le nomadisme. Paris:Presses Universitaires de France, 2002ROY, Gabrielle. La Petite Poule d’eau. Montréal: Boréal, 1950__________ . Ces enfants de ma vie. Roman/nouvelle édition. Montréal: Boréal:1993 a.___________. La Route d’Altamont.Roman/nouvelle édition. Montréal: Boréal, 1993 b.__________ .Un jardin au bout du monde. Nouvelles/nouvelle édition. Montréal:Boréal, 1994__________ . Fragiles lumières sur la terre: récits divers 1942-1970/nouvelle édition.Montréal: Boréal, 1996__________. Heureux les nomades et autres reportages. 1940-1945. Montréal: Boréal,2007SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia dasLetras, 2003___________ . Representações do intelectual: as conferências Reith de 1993. SãoPaulo: Companhia da Letras, 2005SIMON, Sherry. Traverser Montréal: une histoire culturelle par la traduction. Montréal:Fides, 2008TREMBLAY, Michel. La grosse femme d’à côté est enceinte. Montréal: Leméac/ActesSud. Collection Babel, 1995.288 p.__________. La traversée du continent. Montréal: Leméac/Actes Sud, 2007, 288 p.__________. La traversée de la ville. Montréal: Leméac/Actes Sud, 2008, 216 p.__________. La traversée des sentiments. Montréal: Leméac/Actes Sud, 2009. 260 p.12
  13. 13. __________. Le passage obligé. Montréal: Leméac/Actes Sud, 2010. 252 p.13

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