Copa sem escola_15-5-14

159 views
76 views

Published on

Série de reportagens "Copa sem escola", produzida pelo jornalista Bruno Moreno e o fotojornalista Samuel Costa. Segunda da série.

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
159
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
2
Actions
Shares
0
Downloads
1
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Copa sem escola_15-5-14

  1. 1. F O R T A L E Z A – H á mais de 20 anos, a pro- fessora Nete Gomes, de 43 anos, trabalha na escola Irmã Iolan- da Brasil, na capital cearense. Construído na beira da antiga li- nha de trem, no bair- ro Aldeota, o imóvel é um dos 2.185 que se- rão desapropriados para a implantação do Veículo Leve sobre Tri- lhos (VLT) de Fortale- za. Mas, até o momen- to, Nete não sabe para onde vai a instituição. A escola comunitária atende 70 crianças e já havia sido desapropria- da anos atrás. Agora, te- rá que mudar mais uma vez de endereço. “A maior preocupa- ção deles (dos pais) é com a escola dos filhos. Muitos já assinaram (acordo para serem de- sapropriados) e o di- nheiro não caiu na con- ta. Os moradores estão ficando sem opção e os preços das casas estão aumentando. Eles es- tão indo para bairros muito distantes e mui- to perigosos”, lamenta a professora. Nete encara seu traba- lho como uma missão, e critica a postura de go- vernantes com relação ao que foi prometido pa- ra o Mundial de fute- bol. “Eles colocaram co- mo se a Copa do Mundo fosse deixar pra gente um grande legado. O le- gado que a gente está vendo é de famílias que estão perdendo as mo- radias, escolas perden- do alunos”, argumenta. Enquanto se divide en- tre o ensino e a adminis- tração da escola, ela per- de as noites de sono, sem saber qual será o destino dos alunos. “Ho- je o futuro delas (das crianças) é a incerteza. Se daqui a quatro meses elas vão ter a escolinha, não sei. A gente está ven- do que vai ficar sem es- cola. Porque a gente não tem condições de ar- rumar um espaço de uma hora pra outra. A nossa grande preocupa- ção é essa. É um dano social que o governo es- tá provocando, que só se preocupa em cons- truir estádio”, avalia. O governo do estado do Ceará informou que está garantindo moradia a todos os reassentados pelo projeto do VLT, ofe- recendo imóveis e pagan- do aluguel social. BrunoMoreno bmoreno@hojeemdia.com.br RECIFE – Desde o início do ano, as tardes em uma rua do bairro São Francisco, na cidade de Camaragibe, na Região Metropolitana de Recife, não são mais as mesmas para a pequena Luíza*, de 7 anos. As brincadeiras na rua, agora, ganharam uma atividade a mais: fa- zer o dever de casa. Regularmente, ela sai de casa com livro a tiraco- lo e se senta em frente à sua antiga escola, o Edu- candário Bom Jesus. Na mureta da calçada folheia a edição, no aguardo da antiga professora, Marcio- neFerreiradaCruz,de51, conhecida como Cione. Aluna e professora não foram desapropriadas por causa das obras do Mun- dial de futebol. Entretan- to,sãovizinhasdeumade- sapropriação para a cons- trução do Ramal da Copa, uma via que ligará Recife à Arena Pernambuco, construídaemSãoLouren- ço da Mata. Além disso, há o projeto de aumentar o Terminal Integrado de Passageiros (TIP), que fi- ca próximo à escola. Por isso, um boato e a incertezado que iria acon- tecer com a escola foram suficientesparaqueainsti- tuição de ensino fechasse as portas. Luíza e Cione moram próximas ao está- dio e no entorno do que seria a Cidade da Copa, um megaempreendimen- to imobiliário que teria a arenacomopontodeparti- dapara a aberturade uma nova fronteira de urbani- zação na Grande Recife. “Um rapaz me disse que se for sair daqui não tem nada a ver com a Copa. Vaiser para2016.Sobre a falta de informação, não posso acusar ninguém. Fui atrás, mas não conse- gui. O povose encarregou de falar. Não posso culpar o povo, porque ele tem medo. Não podia segurar a turma (os alunos). O queeudisse éminhapala- vra: não vai sair”, lembra a professora. MEDODEFECHAR Neste ano, com a saída de muitos moradores do en- torno, nenhuma mãe se arriscou a matricular o fi- lho no educandário, com receio de que, no meio do ano letivo, a escola fosse desapropriada. Luiza foi para uma escola do bairro vizinho, e, agora, vai de transporte escolar. “Euqueriaterumacerte- za, se fossem derrubar ou não. Para mim foi muito triste. Eu não esperava que, realmente, parasse a escola. Eu gostava de tra- balhar, de estar com as crianças. Eu paro ali na calçada e os meninos fa- lam assim: Tia Cione, vo- cê me ensina a tarefa? A escolafoi prarua. Eobom é que eu gosto”, conta, com lágrimas nos olhos. De acordo com a Procu- radoria Geral do Estado de Pernambuco, no Reci- fe,em Camaragibee Olin- da foram desapropriados 459 imóveis, ao custo de R$ 102,5 milhões. *Nomefictício Escola desapropriada pela segunda vez não tem para onde ir ObradoMundialafastaalunos eeducandárioéfechado > Em Recife, estudantes que não foram removidos ficaram sem aula perto de casa COPA SEM ESCOLACOPA SEM ESCOLA QUARTADEUMASÉRIE SAUDADE– Meninade7anos tevequemudarde escolaeagorase encontracom antigaprofessora todososdias FIMDE LINHA– Alunosda escolaIrmã Iolanda Brasilnão têmdestino definidona capital cearense FOTOS SAMUEL COSTA hojeemdia.com.br 31BeloHorizonte,quinta-feira,15.5.2014 HOJEEMDIAMinas

×