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  • 1. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler 1 Partes e Excertos do Livro: O IDOSO INSTITUCIONALIZADO Sandra Cardão © Editora Coisas de Ler Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 2. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler ÍndiceINTRODUÇÃO................................................................................................... 1 A Vivência de Perda no Ser Humano: Luto e Depressão............................... 5 Estrutura Psicodinâmica da Depressão....................................................... 10 2 Importância da Posição Depressiva na Luta contra as Perdas.................... 14 Envelhecimento e Vivência de Perda………................................................. 22 Envelhecimento e Velhice……….............................................................. 22 (Des)Investimentos do Envelhecimento..................................................... 25 Quando a Institucionalização é Vivida como Perda................................... 32MÉTODO............................................................................................................ 40 Delineamento do Estudo................................................................................. 40 Selecção da Amostra e Participantes.............................................................. 41 Instrumentos de Medida Aplicados................................................................ 42 Questionário Sociodemográfico................................................................. 42 Escala de Depressão Geriátrica................................................................... 42 Procedimento.................................................................................................. 45RESULTADOS................................................................................................... 47 Dados Sociodemográficos.............................................................................. 47 Sexo............................................................................................................. 47 Idade............................................................................................................ 47 Data de Admissão....................................................................................... 48 Autonomia da Marcha................................................................................ 49 Estado Civil................................................................................................. 50 Escolaridade................................................................................................ 51 Rendimento Económico.............................................................................. 51 Escala de Depressão Geriátrica...................................................................... 52 Prevalência da Depressão........................................................................... 52 Categorias Psicológicas.............................................................................. 54 Perda de Segurança................................................................................. 54 Perda de Utilidade................................................................................... 55 Perda de Motivação................................................................................. 55 Perda de Amor-Próprio........................................................................... 56 Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 3. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Perda de Esperança.................................................................................. 57 Perda Afectiva......................................................................................... 57DISCUSSÃO....................................................................................................... 59 Ausência de Depressão e Depressão Grave.................................................... 59 Depressão Ligeira........................................................................................... 63 Conclusão....................................................................................................... 65 3REFERÊNCIAS.................................................................................................. 70 ANEXOSANEXO A: CONSENTIMENTO INFORMADO.............................................ANEXO B: QUESTIONÁRIO SOCIODEMOGRÁFICO................................ANEXO C: ESCALA DE DEPRESSÃO GERIÁTRICA.................................. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 4. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Introdução O presente estudo realiza uma incursão sobre uma parte da velhice,centralizando-se na vivência da sua institucionalização. Entender-se-á a velhice como um indicador referente à última fase do ciclo 4natural de vida, englobando uma série de pessoas diferentes e únicas ao nívelbiopsicossocial, que aqui serão denominadas por idosas, ou por pessoas idosas, parausar a terminologia actual mais empregue (Fernandes, 2002: Imaginário, 2004). A institucionalização é aqui entendida como um duplo processo: (a) comorecurso a serviços sociais de internamento do idoso em lares, casas de repouso e afins,onde recebe assistência; (b) como vivência de perda, simbolizada pela presença deestados depressivos, significando uma das formas como o idoso sente e vive o ambienteinstitucional. A realidade vivencial da pessoa idosa institucionalizada foi observada durante oestágio académico no Centro de Apoio a Idosos de Portimão, mais concretamente nasvalências do Lar da Raminha e das Residências Vilavó, onde se centra o presenteestudo. As referidas valências configuram dois modelos espaciais e assistenciaisdiferentes, para uma população de ambos os sexos: (a) o Lar da Raminha constitui-sepor um edifício que detém um regime de internato colectivo e massificado; (b) asResidências (…) Ambos os modelos detêm a mesma estrutura normativa, (…) Considera-se que a institucionalização do idoso, qual “colonização da velhice”(Encarnação, 1995), configura um segundo movimento de esquecimento e deisolamento, face a uma sociedade ocidental por demais conhecida por acarinhar a quaseeterna juventude. Este processo representa uma grande mudança na vida do idoso,despoletando e/ou acentuando a vivência de uma série de perdas. Retrospectivamente, o idoso institucionalizado vê com nostalgia a perda de umavida activa, onde até certo ponto podia ser o senhor do seu mundo e das suas acções.Recorda ainda, com tristeza, um tempo desenrolado entre os laços familiares ecomunitários, agora longínquos. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 5. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler A institucionalização marca encontro com um ambiente colectivo de regras quenão têm em conta a sua individualidade, a sua história de vida, e que funciona de igualmodo para todos. Este é o tipo de ambiente relacional (…) No fundo, a sua configuração obedece ao paradigma dominante das práticasinstitucionais, que responde à lógica da massificação. Como indicou Encarnação, 5 O processo de institucionalização da modernidade, ao espartilhar a vida do homem em inúmeras <<prateleiras>> estanques, preconizadoras da indiferença civil e das relações íntimas de solidariedade, provocam profundas cesuras nos modos de vida do indivíduo, uma vez que os organiza administrativamente e de forma extremamente atomizada (1995, p. 64). Face a este tipo de ambiente institucional, que acaba por tornar o idoso cada vezmais dependente do mesmo, considera-se que o luto da perda do meio familiar,dificilmente será aqui elaborado, arrastando a marca nostálgica de uma vida que,idealmente, poderia ter prosseguido, e viria a terminar, na sua própria casa. À perda do meio familiar, com os sentimentos mais ou menos manifestos de“abandono” pela família, depressa se juntam outras vivências de perda, como a da suaindependência e do exercício pleno da sua vontade, devido à normativização eobservância da sua conduta dentro da instituição. A vida na instituição vai decorrendo de forma monótona, num microcosmosonde espaço e tempo são regulados pela instituição, de uma forma quase estática. Apossibilidade de projecção no futuro anula-se com a falta de objectivos, aqui e alémdespertados pelas actividades de animação sócio-cultural, para as pessoas que ainda seencontram suficientemente motivadas para as gozar. A dependência de como é organizado o seu tempo e o seu espaço de vida acabapor deixar-lhe pouca ou nenhuma motivação para planear por si próprio como as suashoras diárias podem ser vividas. Esta perda de autonomia própria impele a pessoa arecapitular as vivências do passado, feitas de histórias que se repetem, porque não hánada de novo a contar. Longe do bulício da vida exterior, é um tempo parado, queantecipa o seu fim, e que se compara com dias outrora vividos na sua plena força. O direito à sua privacidade também se perde, (…) Se a pessoa nunca antes se encontrara face a face com a realidade da suafinitude, é agora, no espaço e no tempo institucional, que se voltará para os fantasmasde morte, sentidos como cada vez mais próximos. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 6. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler São estes fantasmas que tornam o envelhecimento uma realidade inalienável eincontornável, dando conta das mudanças ao nível da imagem de corpo e de si,provocando a destabilização de um quadro de referências sobre a sua identidade e agradual desvalorização de si próprio. Isto, quando o eu/corpo é sentido como cada vezmais estranho a si mesmo, que se controla cada vez menos, que perdeu o vigor, seencheu de rugas, e até de maleitas, visto sem atractivos e inaceitável, e só aceite se 6doente. Ser doente é algo mais do que ser velho, condição que permite voltar a solicitara atenção sobre si. Estes movimentos psíquicos consubstanciam um investimento libinal num egovisto como diminuído, alterando todo o sentimento de si. Sobra o mal-estar por esteestado de coisas, o pessimismo sobre o dia a dia e o futuro, desvelando o conflito entrevida e morte. Logo, as perdas com que a pessoa idosa lida, não sendo partilhadas,escutadas e contidas, acabam por perpetuar um conflito interno sem voz, que, à custa dosilêncio, irrompe mais facilmente na doença depressiva. Pelo exposto, a prevalência de vivências de perda que podem mais facilmentemanifestar-se em estados depressivos, é uma variável comum aos dois modelosinstitucionais, colocando-se o problema de compreender em qual dos modelosprevalecem estados depressivos mais graves. A hipótese que se coloca, é a de haver diferenças na forma como os mesmos semanifestam dentro destas duas realidades ambientais, uma vez que se espera que omodelo residencial, pela reprodução de proximidade do meio familiar que o idosodeixou para trás, revele a presença de estados depressivos menos graves em comparaçãocom o modelo de internato colectivo. O indicador depressão (representante simbólico da vivência de perda) serámedido através de uma escala geriátrica para este efeito, num estudo post-hoc, denatureza descritiva e comparativa. O estudo, que aqui se realiza, encontra o seu interesse dentro do próprio espaçoinstitucional, uma vez que o Centro de Apoio a Idosos está a iniciar a construção demais residências unifamiliares, junto às já existentes, por considerar que este modelo émais humanizante. Porém, o presente trabalho surge como reflexão crítica sobre o ambiente humanodeste tipo de serviços sociais, pelo que o seu objectivo primordial é o de sensibilizar arede institucional para a prevenção do surgimento e/ou agravamento de estadosdepressivos, em qualquer dos modelos de assistência. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 7. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Assim, espera-se contribuir para o desenvolvimento de cuidados centrados napessoa, e que, por isso mesmo, tenham em conta o sofrimento de perda que permanecemuitas vezes escondido por detrás das queixas somáticas, sendo ignorado oudesvalorizado. Ao nível médico, pode permanecer subdiagnosticado, pelo que épertinente compreender o alcance das perturbações do humor, a fim de que possamreceber a terapêutica adequada. 7 A estruturação do presente estudo constitui-se de quatro capítulos. No primeirocapítulo, proceder-se-á ao enquadramento teórico privilegiando um modelo deabordagem integracionista das teorias psicodinâmicas e cognitivo-comportamentais. O primeiro capítulo estará dividido em duas partes. Na primeira parte, aborda-sea dinâmica que encerra a vivência de perda no ser humano em geral, associando-a aoluto e à depressão. Explicar-se-á como a função do luto contribui para a elaboração dasvivências de perda, e a depressão para a falência desse trabalho elaborativo. De seguida,a descrição da estrutura dinâmica da depressão integra a compreensão do fundo comumàs várias manifestações depressivas. A descrição da importância da posição depressivana luta contra as perdas mostra como a capacidade psíquica de suportar a dor e osofrimento de perda se aprende ao nível da primeira infância, influenciando o modocomo qualquer perda futura é confrontada. Na segunda parte serão delineadas as diferenças entre envelhecimento e velhice,dando conta que a vivência de perda na última etapa de vida é, como de resto noutrasalturas do desenvolvimento, determinada por factores biológicos, psicológicos e sociais. Contudo, tentar-se-á ilustrar de que forma a institucionalização da pessoa idosapode, como factor ambiental, contribuir para um estilo de vida patogénico, pesandocomo barreira à elaboração do luto contra todas as perdas subjacentes. O segundo capítulo descreverá as estratégias e actividades planeadas pararealizar o estudo, seguido de um terceiro capítulo com a apresentação de resultadosapurados. No quarto e último capítulo efectua-se a discussão dos resultados,apresentando as conclusões que se considerarem pertinentes. A Vivência de Perda no Ser Humano: Luto e Depressão A vida tem um carácter efémero e impermanente, o que leva a que o ser humanolide com uma série de ganhos e perdas no seu curso, e lhes atribua um significado, Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 8. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Leracompanhado da sua afectividade. A vivência é o sentido subjectivo que cada serhumano atribui, com maior ou menor agrado, às suas experiências de vida. Apesar das variações individuais, sabe-se que a vivência de perda constitui-sesempre como um processo psicológico mais ou menos doloroso e perturbador, por serelacionar com a experiência de falta de algo, que acompanhou um tempo de vida. Para além das perdas integrantes do processo de desenvolvimento humano, 8como a perda de capacidades físicas e/ou psicológicas, perde-se por morte, (…) Do ponto de vista psicanalítico, a perda associa-se a um objecto, que tanto podesignificar, na realidade ou na fantasia, uma pessoa, como uma situação, coisa, símbolo,função, ideal ou objectivo (Laplanche & Pontalis, 1990). A perda de objecto suscita um período de luto, variável de cultura para cultura, ede pessoa para pessoa. De acordo com (…) A natureza destas respostas traduzirão uma forma de ser emocional, mais oumenos saudável, fruto de uma estrutura ou organização da personalidade. O que implicaque, a vivência de perda tanto pode ser vivida de forma considerada normal, ou não. Os trabalhos pioneiros de Freud e de Abraham, sobre o luto e a melancolia, sãoainda uma referência importante na compreensão das diferenças entre o luto normal e opatológico. Nestes trabalhos, o processo patológico de luto (melancolia ou depressão)acabaria por esclarecer a semiologia do seu curso normal (Laplanche, 1987; Roudinesco& Plon, 1997; Matos, 2001; Coelho, 2004). Desde então, considera-se que no luto normal aparecem sintomas que tambémsão observados na depressão, o que é ilustrado por alguns estudos mais recentes sobre otema, entre eles o de Widlöcher (2001). É assim que o autor salienta que no luto, podemencontrar-se: (…) todos os traços da melancolia; a fixação dolorosa das preocupações, a perda de interesse pelo que é estranho a estas preocupações, a ausência de desejo por qualquer outra situação, o abandono de toda a actividade (2001, p.62). A dor do luto envolve a tristeza e o pesar, demorando-se na manifestação destese doutros sintomas, como os orgânicos. Sintomas que denotam toda uma dinâmicapsíquica que permanece após a perda de objecto. Laplanche (1987) e Widlöcher (2001), esclarecem que (…) Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 9. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Na linha das teorias da vinculação, Bianchi (1989) evoca o facto de que a vidado ser humano constrói-se através de ligações afectivas mais ou menos estáveis com osobjectos exteriores. Ligações fortes manifestam a existência de um apego ou vínculoaos mesmos, o que reenvia para a natureza do objecto interno. Seguindo a tradição psicanalítica, Le Gouès (2000) explica que a (…) 9 Como o investimento libinal do objecto traduz a existência de um vínculo deamor com o mesmo, a sua ausência representa o desaparecimento do objecto de eleiçãoe de satisfação, alterando todo um sentido prévio de equilíbrio e de segurança no mundoda pessoa enlutada. Assim, o sofrimento psíquico manifesta o (…) Desenvolvendo a dinâmica do luto, verifica-se que a primeira defesa perante aperda é a de continuar a vida como se aquela não tivesse ocorrido. Uma defesa quereenvia para o conflito latente entre a realidade e a fantasia, i.e., entre a ilusão dapresença do objecto e a necessidade de aprender a viver com a sua perda permanente(Freud, 1917; Laplanche, 1987; Widlöcher, 2001). Guedeney & Guedeney (2004) esclarecem que na sequência dos trabalhos deAnna Freud e de Dorothy Burlingham, sobre os efeitos da separação da mãe emcrianças pequenas, Robertson irá descrever esta resistência como correspondente a umaprimeira fase de reacção à perda. Denominou-a de fase de protesto, à qual se seguem duas outras fases,respectivamente, de desespero e de desapego. São três fases que predizemcomportamentos de resposta à perda, e que Bowlby (1985) virá a adoptar e adesenvolver na sua obra, da década de sessenta, sobre o luto infantil. Corroborando a teoria freudiana, a obra de Bowlby salientará que as reacções àperda mantêm sinais comuns tanto na infância como na idade adulta; o que é hoje aceitepela comunidade científica (Coelho, 2004). Ainda referenciando Bowlby, a fase de protesto envolve a vivência subjectiva einconsciente de desejo em reaver o objecto perdido, onde persiste a ilusão de que aperda de objecto, por morte ou por separação, não ocorreu. Daqui os esforços que (…) Depois, surge o choro pela dor de perda, os sentimentos de revolta, e até deraiva, denotando a solidão da pessoa enlutada e a sua esperança em recuperar o objecto Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 10. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Leramado. É natural que, mais ou menos inconscientemente, o objecto perdido sejarecriminado pelo sofrimento que provoca, ou que surjam auto-acusações pela perdaocorrida. É uma agressividade dirigida, que Coelho (2004), na linha de Bowlby, referecomo adaptativa, caso não persista por tempo indeterminado. Segundo Coelho, aagressividade latente do luto representará a crença instintiva de que as perdas não 10voltarão a acontecer se forem desaprovadas. Nesta fase, Bowlby aponta, ainda, a vontade de cuidar dos outros de formacompulsiva, como variante patológica do luto do adulto, podendo ser entendida como odeslocamento da ilusão de recuperar o objecto. Ou seja, simbolica e inconscientemente,os sentimentos para com o objecto perdido são substituídos pelos cuidados para com osoutros, seus representantes substitutos. Voltando ao luto normal, adianta-se que a fase de desespero sobrevém peladecepção e impotência em recuperar o objecto perdido. A pessoa enlutada retrai-sesobre si própria, preenchida por sentimentos depressivos (depressão normal do luto)que, paulatinamente, vão sendo confrontados com a realidade de que a natureza daperda é real e duradoura. A aceitação da prova de realidade deverá prevalecer, esperando-se que a pessoaenlutada enfrente e tolere o sofrimento emocional que a acompanha (Freud, 1917;Laplanche, 1987; Widlöcher, 2001; Coelho 2004). Na fase de desapego, espera-se não só que a pessoa enlutada se vá distanciandoe desinvestindo o objecto perdido, aceitando a sua perda; como também se recomponhamobilizando energias de forma a investir afectivamente novos objectos de relação. Novos investimentos traduzem a capacidade de deslocamento da libido,libertando a pessoa (…) Para além das fases normais do luto, há ainda a salientar que, perante umaperda, a pessoa poderá reagir de uma outra forma, que passa pela ausência desentimentos depressivos conscientes, nomeadamente o pesar. Esta condição foi descritapor Deutsch (cit. por Bowlby, 1985), que a denominou como um paradoxo. Face ao exposto, compreende-se que o trabalho de luto consiste em desfazer oconflito instaurado pela perda, abrangendo todas as fases descritas, numa série deprocessos psicológicos complexos que exigem o seu tempo e uma grande energiapsíquica. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 11. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler O trabalho de luto é difícil e complexo, demorando um tempo variável de pessoapara pessoa, isto porque, como Freud salientou, o abandono de uma dada ligaçãolibidinal não é feita de ânimo leve, nem mesmo quando já se afigura uma outra ligaçãosubstitutiva. Como explicou Bowlby, com esta asserção, Freud lança a suspeita de quemesmo que o luto se concluísse de forma normal ficaria sempre um resquício do objecto 11perdido no mundo interno da pessoa, simbolizando uma forma de não abandonartotalmente uma ligação afectiva anterior. Por esta razão, Bowlby salienta (…) Até este ponto, compreende-se que a reacção depressígena do luto é de normalocorrência. No entanto, quando a pessoa enlutada se sente dominada e absorvida pelador da perda sem a conseguir ultrapassar, o efeito poderá ser o da depressão (Freud,1917; Bleichmar, 1989; Widlöcher, 2001). Ou seja, enquanto que no luto (depressão normal) se realiza um trabalho deaceitação da perda, na depressão (luto patológico), há quase sempre a sua negação ouevitamento (Matos, 2001), constituindo-se como uma resistência à mudança (Fairbairn,1958, cit. por Coelho, 2004). Como se pôde constatar, a dinâmica reaccional à perda varia, podendo sersintetizada em três tipos consoante a natureza do objecto perdido: (…) Matos sugere uma outra distinção ao nível da afectividade, destacando a“tristeza” e a “revolta” como sintomas dominantes do luto; e o “abatimento” e a“culpa” caracterizando a depressão (2001, p. XVII). Avançando no esclarecimento da diferença entre o luto e a depressão, ressalta-seque, na fenomenologia da depressão, a falta de interesse pelo mundo exterior,englobando actividades e relações pessoais, e o pessimismo, são sintomas queestacionam no tempo. O abatimento invade a vida do indivíduo por completo, originando remorsos ounostalgia do passado, desinteresse ou aborrecimento pelo presente, e receio, ou falta deesperança no futuro. Usando a expressão de Hipócrates, a depressão é marcada pelo“humor negro” (Widlöcher, 2001, p. 18). Além destes sintomas emocionais e motivacionais, (…) Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 12. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Ao nível somático (manifestações físicas da angústia), podem ser encontradasperturbações do sono; do comportamento alimentar e da sexualidade, entre outras(Meyer & Salmon, 1984; Widlöcher, 200; APA, 2002). Até aqui referiu-se à depressão como se fosse uma entidade única, o que serámantido por uma questão de economia de conceitos. (…) 12 A heterogeneidade de quadros clínicos, que comporta, pode ser categorizadaquanto: (a) à sua etiologia, como é o caso da depressão endógena de origem biológica,e da reactiva ou exógena ocasionada por um acontecimento externo; (b) à sua estruturapsicodinâmica e sintoma dominante, e.g., a depressão neurótica, com a carência afectivacomo sintoma dominante; a depressão psicótica, onde predomina a melancolia; adepressão anaclítica, (…) Será importante ilustrar que a depressão major não parece derivar tanto deacontecimentos exteriores, apresentando mais sintomas físicos, em contraponto com adepressão minor (Belsky, 1996). Uma questão de grau de intensidade diferencia os doisdiagnósticos (Fontaine, 2000). Estes são alguns exemplos, pois a nosologia da depressão é complexa epolémica, procedendo de modelos teóricos diversificados dentro da psicologia e dapsiquiatria (Meyer & Salmon, 1984; Bleichmar, 1989; Ménéchal, 1999; Matos, 2001;2002: Fernandes, 2002). Estrutura Psicodinâmica da Depressão De acordo com Freud (1917) e com o modelo psicanalítico, a perturbação daauto-estima é uma condição que não se observa no luto. Matos (2001) denomina estaperturbação de insuficiência narcísica, considerando-a como uma das três condiçõespresentes na estrutura dinâmica da depressão. Laplanche & Pontalis (1990), definem narcisismo como amor próprio, porreferência à representação ou imagem que cada ser humano tem de si. O amor é umafecto básico fundamental ao desenvolvimento do narcisismo saudável ou positivo,resultando na construção de uma boa auto-estima. Dizer que uma pessoa detém um narcisismo positivo (ou saudável), equivale aexpressar que o investimento das suas pulsões libinais se encontra equilibradamentedistribuído no seu ego e na relação com o mundo envolvente. Ou seja, o equilíbrio da Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 13. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lerenergia libidinal permite não só o amor próprio, como também o amor pelos outros epelo mundo envolvente (amor objectal). A privação precoce deste afecto provocará um sentimento depressivo de falta oucarência, uma ferida aberta no amor-próprio (ferida narcísica), como se o mundo internoestivesse despovoado de amor e, com isso, impossibilitado de valorizar a auto-imagem. A insuficiência narcísica é, precisamente, caracterizada pelo sentimento de falta, 13ou mesmo de vazio, podendo ser traçada a sua origem na infância, quando a criança nãofoi valorizada e investida amorosamente pela mãe. O que subentende que a criança serelacionou precocemente com uma pessoa cujo narcisismo também foi lesado, herdandoa sua insegurança básica. O desinvestimento narcísico, por parte da figura materna, terá impossibilitado acriança de desenvolver um sentido de segurança e de amparo internos, por forma aalimentar o amor por si própria. Ou seja, o objecto deixou de alimentar o seu amor-próprio, logo, desaparecido o objecto, desaparecido o amor; perdido o objecto, perdidoo próprio eu, ou uma sua parte. Não se sentindo amada, as pressões do exterior acabam por desorganizar eeventualmente esvaziar ou destruir a identidade da pessoa. Isto porque, se a pessoa se vêcomo inferior aos outros e tem pouca confiança nos acontecimentos da vida, a auto-estima reduz-se, conduzindo a outras consequências negativas, como a desvalorizaçãode si mesma, ou mesmo a despersonalização, em casos mais graves. Quando se dá valor a si próprio e se respeitam as capacidades próprias, não sereceiam os desafios, traduzindo-se a auto-estima em (…) Fazendo uma interpretação da obra de Matos sobre a depressão, Coelho (2004)aponta três derivativos do sentimento de falta, consoante o momento desenvolvimentalem que a falta do objecto narcizante acontece: (a) os sentimentos de abandono e dedesespero traduzirão a perda da função de cuidados e protecção do objecto, reenviandopara o momento da estruturação psicótica; (b) o desamparo é sentido pela perda deconstância do objecto narcizante, objecto de apoio, reenviando para a organizaçãoborderline; (c) a falta de esperança é um sentimento que deriva simbolicamente daangústia de castração, representando (…) De qualquer modo, na linha do pensamento freudiano, Matos (2001) salienta queseja qual for a natureza da depressão, observa-se que nela o objecto de amor perdidocontinua inconscientemente investido. Investimento que impele a pessoa a viver na Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 14. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lerexpectativa de um amor idealizado, projectado pela sua fantasia, mas que na realidadenunca ocorreu. Para o autor, a persistência deste investimento é responsável pela imobilizaçãoda pessoa, uma vez que (…) A culpa patológica, muitas vezes inconsciente, prende-se com uma outra 14condição inseparável da estrutura da depressão: a existência intrapsíquica de umainstância crítica (superego) que se comporta de forma severa, induzindo a sentimentosde auto-acusação e de recriminação por perdas ocorridas. Na depressão, a culparesultante da ambivalência amor-ódio permanece por elaborar. (…) McWilliams (2005) esclarece o processo de indução de culpa com o exemplodos casais divorciados, quando negam às crianças a possibilidade de fazerem o luto pelaseparação dos pais, ao insistirem que tudo fica melhor dessa forma. Este exemplo ilustracomo, ao nível precoce, a criança se identifica com a crítica paterna da suavulnerabilidade ou fragilidade e aprende a acreditar que esses aspectos de si são maus. Outra situação, onde pode ser observada a condição de culpa, é a da idealizaçãoda pessoa morta, onde os sobreviventes se centram unicamente nas característicaspositivas e idílicas da sua personalidade, deixando as menos positivas de lado. O que,como demonstrou Bowlby (1985), pode ter subjacente o receio no adulto de que a perdade objecto (por morte, separação ou abandono) é equivalente à perda do seu amor,tornando-se uma variante patológica do luto infantil. Matos adianta que a culpa patológica deriva de um erro cognitivo na percepçãoda realidade. O erro reside no sentimento dilatado de se ser mau, prevalencendo acrença de que o objecto é (…) A par da severidade do superego, encontra-se, portanto, uma grande exigênciado eu idealizado, que impele ao desejo omnipresente de perfeição, em contraponto comas capacidades do eu real. A perfeição absoluta, embora impossível de atingir, é para odepressivo uma meta a atingir, numa eterna busca de aperfeiçoamento do eu real, nuncaaceite como suficientemente bom (McWilliams, 2005). Persistindo inconscientemente neste erro avaliativo da realidade, a pessoa anulaa possibilidade consciente de retaliar, de acreditar que também ela pode ser um bomobjecto, digno de ser perdoado e não castigado. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 15. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Então, pode dizer-se que o sentimento de culpa encontra-se invertido, numsofrimento auto-infligido, representando uma agressividade latente para com o objectoque não é exteriorizada, mas antes voltada contra a própria pessoa. Esta condiçãoexplica a irritabilidade e/ou agressividade presentes na fenomenologia depressiva. Na linha de outros autores psicanalíticos, como Rado, Fenichel e Spitz (cit. porCoelho, 2004), Matos (…) 15 Deste modo, a pessoa torna-se incapacitada de amar os outros, logo, de formar einvestir novos vínculos. Esta fome de afecto reenvia para a oralidade, para a regressão(ou fixação) à vinculação e dependência infantil, e à constante ameaça de abandonoafectivo. Importância da Posição Depressiva na Luta contra as Perdas Segundo Bowlby (1985), Klein foi a autora que, dentro da psicanálise, postuloua existência de sentimentos de perda na primeira infância, assim como o luto e adepressão, relacionando-os com a vivência de perda no adulto. Klein (1996) salientou que o luto infantil é revivido sempre que, no futuro,ocorram perdas, premissa que, como já foi referido, Bowlby pôde confirmar nos seusestudos sobre o luto. A teoria kleiniana é uma teoria da relação/conflito, assente nas constantes inter-relações da criança com os seus objectos internos e externos (objectos fantasiados ereais) ao nível pré-edipiano. Estas relações, influenciam profundamente todo odesenvolvimento ontogenético, uma vez que os pais (primeiros objectos externos derelação) serão introjectados como protótipos de todas as relações de objecto posteriores. Klein acredita que todos os estímulos geram fantasias no bébé, destacando que:“estímulos desagradáveis, incluindo a mera frustração, provocam fantasias agressivas;os gratificantes, fantasias concentradas no prazer (1996, p. 331).” A capacidade de fantasiar irá tingir, ao longo de todo o desenvolvimento, não sóas relações com os objectos externos, mas também a forma como estes sãopercepcionados internamente. (…) Envelhecimento e Vivência de Perda Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 16. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler O envelhecimento e a velhice são fenómenos inerentes ao desenvolvimento doser humano que comportam, na actualidade, uma série de preconceitos que não abonama favor da elaboração das vivências de perda, entre outras, que englobam. Isto porque associedades ocidentais são sistemas onde tendencialmente se representa a velhice deforma negativa (e.g. como doença, incapacidade ou senilidade) numa série deestereótipos que já vão sendo corrigidos pelos diversos trabalhos científicos emergentes 16sobre os processos de envelhecimento, nomeadamente na área da geriatria e dapsicogerontologia (Berger & Mailloux-Poirier, 1995). Envelhecimento e Velhice De acordo com a revisão da literatura do capítulo anterior, face ao sofrimentosão mobilizadas energias que ou contribuem para o bem estar emocional ou para adoença, constituindo-se como investimentos ou desinvestimentos dos processos de vida,determinando a sua qualidade. O mesmo ocorre na velhice, pelo que convém diferenciá-la do envelhecimento. A velhice é uma etapa de vida marcada pela longevidade, que embora tenha oprocesso de envelhecimento como pano de fundo, com este não se confunde.Envelhecer não é ser velho, é ir sendo mais velho dentro de um processo complexo dedesenvolvimento entre o nascimento e a morte, inerente a todos os seres vivos. Ser maisvelho implica, nesta perspectiva, a passagem do tempo e a quantidade de anos que sevive. Ora, uma análise cronológica do envelhecimento pode induzir a vários erros deavaliação quando se observa que, por vezes, alguém com 70 anos de idade parece sermais jovem do que outro com 30 anos; ou quando se considera que dentro da mesmafaixa etária, uma pessoa parece muito mais velha do que aqueloutra (Fernandes, 2002). A mesma ideia encontra-se na perspectiva de San Martin e Pastor (1990, cit. emNetto, 2002, p. 26), ao salientarem que “as divisões cronológicas da vida humana nãosão absolutas e não correspondem sempre às etapas de envelhecimento natural (…).” Por esta razão, compreende-se o alerta de Aragão e Sacadura (1994, cit. porImaginário, 2004), sobre a discriminação de que é alvo a população com idade igual ousuperior a 65 anos, idade para denominar a pessoa de idosa, segundo convenção daOrganização Mundial de Saúde (OMS). A ampla literatura sobre o conceito de envelhecimento ilustra que a análisecronológica é largamente influenciada pelo estudo demográfico da população Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 17. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lerenvelhecida, constituindo-se a idade como uma categoria operacional que, mesmoassim, não é livre de polémica ao nível de outras disciplinas científicas, como é o casoda psicologia (Berger & Mailloux-Poirier, 1995; Fontaine, 2000; Fernandes, 2002;Imaginário, 2004; Cabete, 2004). A título de exemplo, veja-se a divisão de fases do ciclo de vida sugerida porLevinson e colaboradores (1978/79; 1990, cit. por Marchand, 2005, p.19), onde se 17constata que na idade que a OMS define para início da velhice se encontram pessoas,que segundo os autores, estão na “fase final da vida adulta” entre os 60 e os 70 anos;e que a “velhice” é uma fase destinada à faixa etária entre 70 e 80 anos de idade atéque a vida se extinga. Mas, considere-se que idosas são todas as pessoas entre os 65 anos e a morte,pessoas que estão na fase da velhice dentro do ciclo de vida. Então, como distinguirque também dentro deste grupo há pessoas mais jovens ou mais velhas que outras, doponto de vista estritamente cronológico? Imaginário (2004, p. 43) proporciona a resposta quando refere que, dentro dagerontologia, há autores que dividem este grupo de pessoas em três categoriascronológicas: (1) entre os 65 e os 74 anos encontram-se os “idosos jovens” ; (2) entreos 75 e os 84 anos, o “idoso médio” ; (3) e, finalmente, o “Idoso idoso” a partir dos85 anos de idade. Com esta pesquisa, fica-se com a ideia que, afinal, a velhice embora resulte doenvelhecimento, não é mais que uma fase tardia deste processo, determinada peloavanço da idade. Porém, a retenção desta ideia, não estando longe da realidade, servirátão-só para simplificar o envelhecimento, nomeadamente, nas fases tardias do ciclo devida. Centrando a discussão, todo o ser humano cresce e evolui, logo, envelhece.Imaginário (2004), revê algumas teorizações em torno da definição de envelhecimento,que traduzem-no como um processo de desenvolvimento gradual e multifactorial,determinado em larga medida pelo declínio biológico e funções adaptativas, que setorna mais evidente com o avanço da idade. Nesta linha de pensamento, cabe uma outra definição como “perda progressivae irreversível da capacidade de adaptação do organismo às condições mutáveis do meioambiente (Robert, 1994, cit. por Fernandes, 2002, p. 22).” No entanto, a definição de Binet e Bourliere, citados pela mesma autora, parececonter um sentido mais lato, quando o equaciona com “todas as modificações Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 18. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lermorfológicas, fisiológicas, bioquímicas e psicológicas que aparecem comoconsequência da acção do tempo sobre os seres vivos (2002, p.22).” Uma definição que permite conceber o envelhecimento como um processo quenão se reduz a perdas; (…) Assim, do ponto de vista biopsicossocial, pode dizer-se que não se envelhece da 18mesma forma, no mesmo ritmo e na mesma época cronológica. O que significa que,embora o envelhecimento seja comum a todas as pessoas, revela características própriasde pessoa para pessoa, consoante a constituição biológica e a estrutura dapersonalidade, em estreita interacção com o meio (Spar & La Rue, 1998; Fontaine,2000). Infere-se, então, que envelhecimento e velhice não são conceitos sinónimos,uma vez que não só as pessoas idosas, envelhecem. Esta perspectiva encontra a suaprofundidade no modelo psicanalítico, onde se considera que “o velho não existe”(Ribeiro da Ponte, 2002, p. 119), mas antes pessoas com um conjunto de processospsíquicos conscientes e inconscientes que influenciam a forma como “o tempo humanoé vivido subjectivamente” independentemente da sua idade cronológica. Ao nível desenvolvimental, a velhice é entendida como a última fase do ciclo devida, encerrando um processo de envelhecimento normal ou patológico. Daí quealgumas perspectivas psicológicas equacionem a velhice com a sabedoria e a vontade deviver, outras com um estado mental, caracterizado pelo desinvestimento da vontade deviver e da esperança que encerra (Frutuoso, 1990, cit. por Fernandes, 2002). Idosos são, neste caso, um grupo sociológico constituído por pessoas com idadeigual ou superior a 65 anos, com vários processos psicológicos de envelhecimento. (Des)Investimentos do Envelhecimento Dentro da variabilidade individual, o modelo psicanalítico de Le Gouès (2000)propõe alguns denominadores comuns para o processo de envelhecimento, reunindo-osem quatro tipos gerais: (a) o envelhecimento compensado; (b) o envelhecimentosupercompensado; (c) o envelhecimento descompensado; (d) o envelhecimentoagravado. Os tipos de envelhecimento, descritos pelo autor, não sendo mutuamenteexclusivos, encerram movimentos psíquicos e investimentos/desinvestimentos libidinaisque ajudam a compreender que o envelhecimento é um processo que pode ser Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 19. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lerdesenvolvido tanto de forma saudável como patológica, influenciando a forma como évivido. Os movimentos que levam a investimentos ou a desinvestimentos podem sersintetizados pela vias descritas por Bayle (2002, p. 100), respectivamente: (1) “a viaelaborativa e o desejo de viver” onde a pessoa, numa atitude construtiva, aceita einveste as mudanças pessoais e sociais inerentes ao avanço na idade; (2) “a via 19regressiva entre a vida e a morte”, onde a pessoa, numa atitude destrutiva, se retrai emsi mesma negando as mudanças e enquistando a sua elaboração. Como que um regressoà posição depressiva, o que leva a ter em linha de conta que a via elaborativa ou aregressiva dependerão não só do manejo psicológico que a pessoa realiza entre as suaspotencialidades e limitações, como das condições externas de vida. O envelhecimento compensado caracteriza-se, então, pela via elaborativa, pelaexistência de um narcisismo saudável (Le Gouès, 2000), onde a pessoa escolhecontinuar a acreditar e a investir no seu valor próprio à medida que a idade avança. Exemplos deste tipo de envelhecimento podem ser encontrados no grupo depessoas reformadas da vida profissional. Dias Cordeiro (1982) e Olivenstein (2000)convergem na perspectiva de que o sentido de inutilidade dado pela reforma éultrapassado por muitos idosos, por investirem de forma positiva outros interesses comoo do convívio, das viagens, da pintura, da jardinagem, da investigação artística oucientífica, ou mesmo cursos de valorização pessoal. Tudo isto, é claro, desde que adoença não surja como ameaça ao bem estar geral. O desejo por novos objectivos, actividades e relações pessoais, leva as pessoas aabraçarem a possibilidade de perpetuar um narcisismo saudável, através do que LeGouès designa por “sublimação de produção”, diferenciando-a da “sublimação deconsumo” onde o sujeito goza aquilo que não produziu (2000, p. 35). O autor destacaque, dentro da economia do envelhecimento, a sublimação produtiva, entendida no seusentido clássico, é aquela que melhor alimenta o narcisismo positivo, sucedendo-se àelaboração do luto. Fora do modelo psicanalítico, encontram-se autores que corroboram esta linhade pensamento. Fontaine (2000) confirma que as actividades produtivas (e.g. culturais,desportivas, associativas) configuram-se como condição importante de umenvelhecimento bem sucedido. Para Paúl e Fonseca (2005, p. 76), o conceito de envelhecimento bem sucedidoassenta em critérios que representam a manutenção da actividade, logo, o bom Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 20. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lerfuncionamento do organismo, sendo o sucesso ou satisfação de vida abalizados peloequilíbrio entre a “autonomia física, psicológica e social dos idosos.” A funcionalidade é um indicador apontado pela OMS, como aquele que “avaliamelhor a saúde do idoso” (Hernández & Giménez, 2000, cit. por Imaginário, 2004, p.48), prendendo-se com a capacidade da pessoa realizar as actividades da vida quotidianade forma independente. 20 A partir deste indicador, infere-se que o envelhecimento bem sucedido implicasaúde física e mental, sendo que a diminuição ou a ausência de funcionalidade serelacionam com perdas intrínsecas ao processo de envelhecimento, influenciandodirectamente as capacidades adaptativas. As perdas podem ser de três ordens, estando estreitamente interligadas: (a)biológicas, como a perda ou restrição de energia física, de acuidade visual, de massaóssea, de mobilidade; (b) psicológicas, como as alterações cognitivas e emocionais; (c)sociais, como a perda de papéis e de estatutos, a perda por separação, rejeição ou mortede familiares e amigos, a perda de suporte social (Cordeiro, 1982; Belsky, 1996;Fontaine, 2000; Fernandes; 2002; Imaginário, 2004; Netto, 2004; Cabete, 2005). Em suma, envelhecer bem implica saúde, actividade e o desenvolvimento dasrelações pessoais. Desta forma, as fases tardias do ciclo de vida podem ser vividas comoum tempo em que as perdas inerentes ao envelhecimento são elaboradas, e em que asenergias são direccionadas para o progresso e para novas aquisições. Concepção do envelhecimento muito ao encontro das teorias de autorespsicanalíticos mais antigos, como as de Jung e de Erikson (cit. em Marchand, 2005). Jung salienta que o movimento progressivo do eu ajuda a viver a velhice comsabedoria, ao investir de forma satisfatória as exigências do mundo exterior. Eriksondebruça-se sobre a resolução positiva do conflito da última etapa de vida, integridadevs. desespero, através da aposta na integridade e continuidade do eu, o que pressupõe“a aceitação e responsabilização face ao seu próprio ciclo de vida (Paul & Fonseca,2005, p.140).” Por outro lado, o envelhecimento pode ser ensombrado pela angústia com quesão vividas as naturais diminuições orgânicas e funcionais, como no tipo deenvelhecimento supercompensado descrito por Le Gouès (2000). Supercompensar o envelhecimento é negar a sua realidade. Segundo o autor, aperda de função, que consiste na natural diminuição de energial libidinal, influencia acapacidade de sedução feminina e a de potência masculina. Quando esta perda é negada, Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 21. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lera angústia de castração é reactivada, podendo comprometer a valorização pessoal ligadaaos aspectos físicos. Com o envelhecimento, a imagem de si, inseparável da do corpo, vai sendo cadavez mais diferenciada numa outra. Outra, onde os movimentos já não são tão rápidos ouestão impossibilitados, onde o corpo enruga-se, se torna mais vulnerável à doença, e setransforma numa imagem diferente dos seus tempos áureos. Acentua-se, assim, o que 21Olivenstein denomina por “inquietação narcísica (2000, p. 69).” A negação desta inquietação, é notória nas “tentativas compulsivas” que apessoa efectua para permanecer jovem (Grinberg & Grinberg, 1998, p. 63), ilustradaspelo recurso a cirurgias estéticas a fim de eliminar as rugas, a flacidez e outros sinaiscorporais da passagem do tempo; prática corrente nas sociedades contemporâneas, ondeo culto da juventude representa o desejo omnipotente de imortalidade e o medo latenteda perda e da morte. No fundo, trata-se de negar o conflito entre o eu actual envelhecido e o eu idealsempre jovem (Vandenplas-Holper, 2000), o que conduz a um eu narcisicamente ferido,porque, como sublinha Le Gouès, “l´enveloppe corporelle qui soutient l´image de soiperd les attraits de la jeunesse (2000, p.79).” Nesta óptica, Ribeiro da Ponte denomina a velhice como fase do “espelhoquebrado” (2002, p. 118). O espelho já não devolve uma imagem de pujança, mas antesa de um eu/corpo pouco aceitável, o que origina várias queixas somáticas. O narcisismotorna-se insuficiente, pois, neste caso, a pessoa sente-se sem qualidades suficientes paraser amada, acabando por tomar-se como objecto indigno de amor, ficando a um passode um outro envelhecer. Esse será de tipo descompensado, que Le Gouès caracteriza pelo predomínio donarcisismo patológico e pelo desinvestimento dos objectos exteriores. Contrapondo o narcisismo patológico ao saudável, no narcisismo patológico ounegativo, a libido encontra-se mais investida no mundo interno da própria pessoa do quenos objectos do mundo exterior, causando um desequilíbrio energético muito próprio doprocesso de luto e da posição depressiva. Exemplos de retraimento podem encontrar-se (…) O autor sugere que a perda de si deriva da existência de identificações recíprocasno curso de uma longa vida em comum, significando que, nessas identificações, o outrohavia-se tornado numa parte de si próprio, e o próprio numa parte do outro. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 22. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de LerCompreende-se assim que, também nas últimas etapas de vida, a perda pode ser sentidacomo uma ferida narcísica, quando o objecto suspende o complemento ao amor próprioda pessoa enlutada. Ora, o desinteresse ou apatia pelo mundo externo, incluindo o vínculo aosoutros, liga-se estreitamente com a falência da sublimação produtiva, proveniente dasactividades reparadoras. Por outro lado, a consciência de que os recursos para 22compensar as perdas são cada vez mais limitados (Correia, cit. em Fernandes, 2002),constitui-se como factor de desmotivação. Subvalorizando o seu potencial, a pessoaacaba por isolar-se e sentir-se só. Do ponto de vista psicodinâmico, a solidão é o “resultado de uma ânsiaomnipresente por um estado interno perfeito, inalcançável (Klein, 1991, p.341).” O queconduz ao sentimento de falta de esperança, caracterizando uma vida sentida comodesprovida de sentido, ou até mesmo vazia de interesse. O sentimento de falta de esperança tem precisamente a ver com o sentimento deum paraíso perdido que continua a ser investido na sua representação, mas que a pessoa(exactamente por isso) sente que não conseguirá voltar a viver. Assim, a retracção da pessoa sobre si própria representará um vínculo profundocom o passado, em que grande parte da sua energia está concentrada nos objectosintrojectados, sendo este investimento o que impede a mobilização de energias paranovas relações de objecto. Com o desinvestimento do exterior apaga-se, também, toda a possibilidade desonhar, continuando os desgostos num lugar central da vida da pessoa. Por esta razão,não é raro verificar que a única esperança da pessoa que envelhece de formadescompensada se encontre no desejo de morte, a perda de si. Le Gouès (2000)menciona que, a vontade de morrer pode ser relacionada com uma identificaçãopatológica ao objecto perdido, simbolizando a vontade de união com o mesmo. Por outro lado, a perda de si como perspectiva de proximidade da própria mortepode causar medo e sentimentos depressivos, tais como aqueles que Freud (1887-1904;cit. em Coelho, 2004) exemplifica a Fliess, sobre ele próprio: apatia, sentimentos deinutilidade e inibição da actividade. Segundo Le Gouès, o luto pela perda de si passa pela aceitação da própriafinitude e pelo investimento das pulsões de vida. (…) Quando a Institucionalização é Vivida como Perda Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 23. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler O processo de internamento da pessoa idosa, em instituições de acolhimento quedesenvolvem cuidados de longa duração (e.g. lares, casas de repouso), é uma realidadesituacional e ambiental para algumas pessoas que, por motivos de vária ordem, nãoencontraram dentro da comunidade uma resposta satisfatória às suas necessidadesexistenciais. Ou porque a família não tem tempo ou capacidade para se ocupar do idoso que 23se tornou dependente e/ou cronicamente doente; ou porque a viuvez, ou a perda decompanheiros de uma vida, a acrescer à falta de uma actividade válida, o coloca numasituação solitária e fragilizante. Depois, ao nível secundário, são poucos ou raros os “programas comunitáriosde atendimento ao idoso”, principalmente quando se encontram dependentes oudementes, o que deixa as suas famílias sem outras alternativas ao internamento (Born,2002, p. 406). Estes vários motivos, que até se poderão sobrepor, caracterizam em últimaanálise, a questão da independência da pessoa idosa, entendida como a capacidade derealizar por si mesma a satisfação das suas necessidades e de concretizar as actividadesda vida diária sem que dependa da ajuda de outras pessoas (Belsky, 1996; Imaginário2004). Nesta perspectiva, o internamento é a alternativa de último recurso à vidafamiliar para os mais frágeis e dependentes (Berger & Mailloux-Poirier, 1995; Netto,2002). Assim, a institucionalização, quer por vontade própria quer por sugestão defamiliares ou outros (amigos, vizinhos), pode ser vista como um ganho, pelo recurso àoferta paga de acompanhamento e de cuidados, principalmente se a doença lhe impõe,ou vier a impor, limites sérios à sua funcionalidade. No fundo, do ponto de vista psicológico, trata-se da procura de vínculosalternativos, numa outra relação de apoio e de protecção, a fim de que o resto das suasvidas possa ser vivido em segurança, para o que muito contribui “a própria qualidadede vida oferecida pelas instituições (Santos, Sobral, Ribeiro & Costa, 2003, p. 12).” Ora, a instituição, rede de suporte formal, substitui-se à rede de cuidadosinformais e familiares. De acordo com Born, a qualidade das instituições depende detodo um conjunto que engloba o ambiente humano e espacial, “onde a vida é valorizadae a dignidade do idoso é reconhecida até no leito de morte (2002, p. 406).” Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 24. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Assim é quando a instituição representa metaforicamente um prolongamento doque Winnicott (2002) denominou por mãe suficientemente boa, juntamente com a suacapacidade de holding, para lembrar um ambiente de confiança capaz de ajudar aspessoas a estabelecer uma relação feliz com o mundo externo e o interno. O ambiente institucional que oferece uma base segura, adapta-se às necessidadesemocionais da pessoa idosa e deixa margem para que esta possa manifestar a sua 24própria personalidade. A preservação e a potencialização das capacidades individuaistornam-se fundamentais para a continuidade e bem-estar do idoso, por forma a evitarinteracções insatisfatórias e experiências de frustração intolerável. É um ambiente que se centra na pessoa, onde paralelamente se desenvolvemcuidados gerontológicos adequados como os que, nomeadamente, são sugeridos porBerger & Mailloux-Poirier: (a) desenvolvimento de planos que visam a promoção e amanutenção da saúde, logo, o bem estar; (b) aperfeiçoamento de cuidados em conjuntocom outras equipas de cuidadores, que tenham em conta a pessoa e a sua história devida; (c) promoção de modelos de cuidados que sejam mais convenientes àreadaptação e autonomia da pessoa idosa. Pelo contrário, se o ambiente institucional antes privilegia as tarefas da rotinadiária e a impessoalidade dos cuidados a desenvolver (e.g. controle de medicações,higiene e alimentação das pessoas dependentes; limpeza e arrumação dos espaçosinstitucionais), tenderá a privar o residente de estimulação, de atenção emocional e devínculos afectivos. Cuidados desenvolvidos de forma impessoal terão um efeitonegativo na vivência da pessoa institucionalizada (Fernandes, 2002). De acordo com Born, este tipo de ambiente é muita vezes agravado pelointernamento de mais pessoas e pela fragilização dos residentes antigos. Nestes casos, ainstituição corre “o risco de tornar-se um hospital de terceira linha, ou pior, umaantecâmara da morte (2002, p. 406).” Deste modo, às perdas psicossociais iniciadas com a institucionalização (e.g.perda da própria casa, do meio familiar e social), junta-se-lhe a patologia dos vínculosinstitucionais, evidente pela falência do diálogo intersubjectivo e recíproco. Kaës (1996) refere que a psicopatologia dos vínculos institucionais não implicanecessariamente a simples soma das patologias individuais, devendo ser procurada nascondições em que esses vínculos se estabelecem. Todavia, deverá ser salientado que, qualquer que seja o ambiente institucional, aentrada neste contexto é sempre vivida como algo emocionalmente difícil para o idoso, Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 25. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lerpondo em causa o seu sentimento de segurança básica (Cordeiro, 1982; Berger &Mailloux-Poirier, 1995; Encarnação, 1995; Bayle, 2000; Fernandes, 2002; Netto,2002). Esta nova circunstância de vida, representando a ruptura com um meio até entãofamiliar, acaba por reactivar a angústia de separação, (…) 25 Relembrando a primeira das três fases de reacção à perda, desenvolvidas porBowlby, poder-se-á inferir que (…) No idoso internado, o sofrimento de separação e/ou abandono é marcado porfantasias de “perda de liberdade, abandono pelos filhos, aproximação da morte,tratamento que irão receber de funcionários e colegas” (Born, 2002, p. 407), enquantoos seus familiares fantasiam que o internamento irá proporcionar-lhe mais convívio emelhor tratamento ao nível dos cuidados básicos e da saúde. No confronto com o meio institucional, acresce a angústia perante o estranho,consubstanciada nos medos que Bayle (2000, p. 49) salienta: “medo do desconhecido,do mau trato, do desrespeito pela sua integridade física e psicológica.” Estes medos subsistem silenciosamente, quando os cuidados básicos oferecidosressoam atitudes mais ou menos inconscientes de antipatia, repulsa, ou de hostilidade,perante os seus corpos envelhecidos, deteriorados, doentes. A ressonância deste tipo deatitudes é negativamente interiorizada pelo idoso, reenviando-o para a exposição àvergonha e a sentimentos latentes de fragilidade e inferioridade. Por analogia, poderão aqui aplicar-se as reflexões de Vidit (1990, cit.por Cabete,2005, p. 18) em relação ao internamento hospitalar do idoso, salientando que ainstituição é um outro mundo, onde se projectam sentimentos ambivalentes como asegurança e a incerteza. (…) A rigidez de algumas normas, como as que Encarnação (1995) observou numestudo que realizou nas valências do Centro de Apoio a Idosos de Portimão, revelouefeitos negativos ao nível da autonomia e identidade da pessoa idosa. Entre eles, aobediência ou a impotência, o conformismo ou a revolta. Mesmo considerando que as normas institucionais são de algum modo flexíveis,o idoso perde sempre grande parte do controlo da sua vida, e até da sua morte (Berger &Mailloux, 1995), “na medida em que, geralmente, as rotinas diárias da instituição de Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 26. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Leracolhimento, encorajam imenso a dependência dos residentes (Vandenplas-Holper,2000, p. 234).” Parece então, que a questão centra-se na uniformização da vida dos residentes,factor que os condiciona a comportamentos de maior dependência e os torna maissensíveis ao meio exterior. Mas, a falta de estimulação dos comportamentos de autonomia é outro factor de 26relevo, por dificultar o envolvimento activo na vida quotidiana. Logo, todo o equilíbrioexistente ao nível sensório-motor, cognitivo e emocional sofre um declínio mais rápido.A situação mais se agrava quando se trata de pessoas incapacitadas, a quem não éincentivado que mantenham e/ou desenvolvam competências como vestir-se ou comersozinhas (Belsky, 1996). Outro exemplo importante apontado por Encarnação, prende-se com o atractivoda imagem de corpo/imagem de si e o “desincentivo de todo o valor simbólico doarranjo pessoal, seja no que respeita ao vestuário ou ao embelezamento pessoal do corpo(1995, p. 193).” A autora adianta que esta falta de estímulo responde a uma representaçãoinconsciente da rede institucional de que os residentes já não necessitam de prazeres.Representação que acaba por ser introjectada pelo próprio idoso, contribuindo para asua despersonalização (vivência de si sentida como estranha e vazia de sentido). Ainda dentro do âmbito do desprazer, junta-se-lhe o desincentivo dos jogos desedução entre os idosos e a regular incompreensão quanto às suas necessidades sexuais,que também contribuem para a angústia de castração. Castração de um corpo que setorna assexuado e que se pretende tão-só cuidado, como se tivesse perdido a capacidadede amar. Atitudes que desvalorizam ou desaproveitam as competências básicas do serhumano e que Herrero (1993, cit. por Fernandes, 2002, p. 47) menciona comoresultantes de um “paternalismo” excessivo, a ser evitado. A promoção da actividadefísica e mental no idoso é facilitadora da sua adaptação ao meio, com o qual poderá,assim, estabelecer uma relação satisfatória. O declínio da autonomia produz quebra da auto-estima e sofrimento emocionalde tonalidade depressiva, que muitas vezes só fica visível no aumento de queixassomáticas (Netto, 2002) ou de comportamentos somatizados, como a anorexia, asperturbações psicomotoras, ou outras doenças do foro médico (Spar & La Rue, 1998). Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 27. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Segundo Spar & Lar Rue, a somatização constitui um traço comum da depressãono idoso, referindo alguns estudos que reportam a somatização como prevalecente asentimentos de culpa ou à diminuição da auto-estima. Neste refúgio do corpo, o idosoesconde-se, portanto, da falta de afectos, voltando a solicitá-los, pois ser doente é nãoser votado ao esquecimento. (…) 27 Conclusão que se associa à de Encarnação, quando relata que se para umaspessoas é possível manter a sua identidade e sentido de valor próprio, para outras osentimento de solidão caracteriza toda a sua vivência. Nestes casos, segundo a autora, os discursos pontuam-se pelo silêncio ou pelarevolta, como a que fica patente na desvalorização que o idoso manifesta sobre sipróprio, seus familiares e a sua própria situação de vida: Estou só, não quero mais nada. Já não presto para nada, inútil, completamente inútil (…). Vestir uma roupa bonita para quê? (…) Os filhos? Eles já não me vêm ver! Eu já não lhes sirvo para nada! Estão demasiados ocupados com a vida deles, não têm tempo para perder! (1995, p.131).” Discurso que denota a falta de esperança, a insuficiência narcísica e aagressividade voltada não para o objecto, mas antes para a própria pessoa. Também sepressente a ambivalência da luta depressiva. Na última frase, lê-se a desculpabilizaçãodos familiares pelo abandono, amiúde observada na pessoa idosa institucionalizada.Defesas psíquicas, postas à prova em situações de angústia. Considerando, precisamente, a influência dos factores psicológicos na vivênciado meio institucional, será importante relembrar que, do ponto de vista psicodinâmico,as relações de dependência (ou de outro tipo), desenvolvidas pela pessoa idosa nestecontexto são influenciadas pela revivescência do ambiente emocional das primeirasrelações objectais (e.g. mãe, pai e irmãos). Ou seja, as relações de dependência podemreflectir uma forma de dependência infantil não superada na idade adulta, e que é comoque projectada neste novo espaço relacional. O pressuposto de um repetir ou actualizar inconsciente de um padrão decomportamento assenta num fenómeno do psiquismo humano posto a descoberto porFreud (1912), no espaço terapêutico: a transferência. No sentido lato, a transferênciarepresenta a atitude emocional (positiva ou negativa) do sujeito para com o seu analista,atitude essa inconsciente, que assenta na repetição de modelos infantis (Rycroft, 1995;Laplanche & Pontalis, 1990). Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 28. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler De acordo com Freud (1912), da sua definição podem ser retirados dois sentidos:(a) como fenómeno universal, manifestando-se no nosso relacionamento diário com ooutro e influenciado pelas experiências passadas; (b) como fenómeno que surge não sóno tratamento analítico, como também em instituições que não recorrem a este tipo deterapêutica. Assim, entende-se que a vivência institucional será sempre pontuada pela 28actualização dos conflitos psíquicos da pessoa idosa, que até podem ter estado mais oumenos contidos ao longo de uma vida com poucos ou nenhuns percalços, mas que facea um ambiente sentido como inseguro e pouco contentor, se despoletam ou se acentuam,mesmo que de forma longínqua e deformada à laia do sonho. (…) Conclusão Os resultados obtidos, nas entrevistas por inquérito, apoiaram a hipótese queorientou a pesquisa deste estudo, mostrando que os estados depressivos mais gravesencontram-se, de facto, no grupo de internato colectivo, com diferenças significativasem comparação com o grupo residencial. Sumariando os resultados da pesquisa realizada, o nível de depressão grave,apoia o enquadramento teórico em três vertentes: (a) na depressão grave os lutosencontram-se enquistados, predominando sentimentos condicentes com o humor negro;(b) a presença da depressão grave em pessoas idosas ilustra envelhecimentos do tipodescompensado e/ou agravados; (c) a depressão grave em idosos institucionalizadossugere que o meio institucional tem tanta influência quanto os factores psicológicosindividuais, principalmente quando é vivido como perda, pesando como barreira àelaboração dos lutos, que acabam por permanecer enquistados. O resultado obtido para a concentração de níveis de depressão ligeira apoiou opressuposto de que a depressão, como representante simbólico da vivência de perda,seria uma variável comum aos dois grupos institucionais. Tal como foi revisto na literatura, a presença da depressão ligeira leva asublinhar que o meio institucional, qualquer quer que seja, é sempre vivenciado comouma ruptura com a vida familiar e comunitária, inaugurando uma série de perdas,pessoais, sociais e biológicas. Através das categorias psicológicas de perda, extraídas a Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 29. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Lerpartir da GDS, observou-se que os sentimentos de ambivalência estão presentes,sugerindo lutos por elaborar e recordando a angústia da luta da posição depressiva. A ausência da depressão vai de encontro ao facto de que há diversos tipos deenvelhecimento, ilustrando que o envelhecimento bem sucedido é possível, implicandouma boa adaptação às mudanças do meio ambiente. Muito possivelmente, apercentagem de não deprimidos apontará para as pessoas idosas que, nos dois grupos 29estudados, se envolvem mais em actividades, quer nas de animação sociocultural, quernoutras da sua vontade. Os dois grupos institucionais caracterizaram-se por apresentar um maior númerode mulheres institucionalizadas, com maior longevidade e autonomia que os homens, ecom mais anos de institucionalização. No entanto, alguns destes dados poderão estarcontaminados, precisamente pelo maior número de mulheres. (…) De entre os factores referidos teria sido interessante investigar, precisamente, emque idades incidem os diferentes níveis de depressão e sua ausência, uma vez que dentrodos dois grupos há uma grande amplitude de idades, que vão desde os 60 a mais de 90anos. Eis um dos limites do presente estudo, traçado no objectivo de pesquisar em qualdos grupos institucionais existiriam depressões mais graves. Porém, as interrogaçõeslevantadas pela análise dos resultados, e as hipóteses que se foram colocando, poderãoinaugurar novos caminhos de investigação em trabalhos futuros. Através da observação dos modelos institucionais estudados, que mantêm,respectivamente, condições idênticas para todos as pessoas idosas, e da forma como sãovividos, puderam-se inferir verificações gerais, complementando-as com os dadosresultantes do inquérito. Este é um outro limite, que coloca a discussão entre objectividade esubjectividade no centro do debate, prevendo-se o argumento de que não foram testadasas eventuais relações entre o meio institucional e os diferentes níveis de depressão, porforma a melhor clarificar as questões quanto à influência da institucionalização namanifestação de estados depressivos. É um argumento válido, pelo que se sugere que o melhoramento deste estudopassaria por (…) Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 30. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Apesar dos limites apresentados, o trabalho realizado tem o mérito de, ao nívelteórico, chamar a atenção da pessoa idosa, e dos que estão a envelhecer, que envelhecernão é sinónimo de adoecer, embora a vulnerabilidade à doença aumente com a idade.Como foi revisto, a actividade é importante na manutenção da funcionalidade,espelhando o investimento continuado no mundo externo, investimento que contribuipara alimentar o amor-próprio da pessoa. 30 Enfim, envelhecer é um processo mais psíquico do que físico. No fundo, comose costuma dizer, a idade é um estado de espírito, o que ficou patente nos tipos deenvelhecimento descritos. Envelhece-se biologicamente, é certo, mas sobretudo,envelhece-se quando deixamos de nos encantar com os processos de vida. Ao nível prático, o conjunto de resultados obtidos sobre a prevalência dadepressão nos dois grupos institucionais, superior à sua ausência, sugerem que osefeitos da institucionalização podem ser, de facto, nocivos e vivenciados como perda. Principalmente quando se consideram os factores ambientais que se prendemcom: (a) a uniformização dos comportamentos; (b) a falta de estimulação pessoal eafectiva das competências funcionais e sociais do idoso; (c) a dependência de como éorganizado o seu tempo. São factores que, comparativamente ao grupo residencial, foram mais notóriosdentro do grupo de internato colectivo, e que acrescem à perda de uma história de vidaprévia dentro da comunidade, contribuindo para o declínio geral do idoso como pessoa,logo, dos seus índices de funcionalidade e de bem estar. Sugere-se, assim, que o modelo de internato colectivo oferece um ambiente quenão é vivido como uma mãe suficientemente boa, e que dificilmente contribuirá para aelaboração dos lutos com os quais a pessoa idosa institucionalizada se confronta. Se calhar, as pessoas não foram feitas para, no fim das suas vidas perderem aactividade e colonizarem-se em instituições que mais parecem hospitais, ou, no melhordos casos, hotéis, mas sempre à parte de todo um mundo, que lá fora continua na suadiversidade e complexidade. Um pouco a lembrar outras colonizações, como as colónias de índios, deemigrantes, de refugiados, ou do não muito longínquo “apartheid”. Não será adiversidade que nos inspira e estimula, junto com outros seres humanos de várias etnias,idades e comportamentos? (…) Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 31. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler Para os que já se encontram institucionalizados e deprimidos, espera-se por partedesta e de outras redes institucionais: (a) uma maior atenção e compreensão para o quese esconde por detrás do silêncio e das queixas somáticas; (b) uma cultura institucionalque previna o surgimento e/ou agravamento de estados depressivos; (c) o diagnósticomédico e terapêuticas atempados; (d) uma maior humanização dos serviços de apoio àpessoa idosa, com o desenvolvimento de cuidados que se centrem mais pessoa e na 31contenção das angústias individuais. Enfim, há esperança de que entre as possíveis implicações do presente estudo setrace uma cultura preventiva de envelhecimentos que encerram sentimentos de perda devária ordem, como o sentimento de perda de segurança, de utilidade, de amor-próprio,de motivação e de esperança. Perdas que aqui se foram separando, a fim de as compreender melhor, mas quese reúnem em perdas sentidas e sofridas, inerentes a lutos enquistados, ou por elaborar.Lembrando Goethe (cit. por Benedict, s.d.): Quem quer conhecer e descrever o vivente, Procura primeiro desembaraçar-se do seu espírito, E depois de ter as diferentes partes na mão, Falta só, infelizmente, a faixa espiritual que as une. Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 32. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler 32 REFERÊNCIASAmerican Psychiatric Association (2002). DSM-IV-TR: Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais. Lisboa: Climepsi Editores.Bayle, F. (2000). O Idoso em 2000: Actualidades e perspectivas na intervenção psicossocial. Loulé: Instituto Universitário Dom Afonso III.Bayle, F. (2001). Freud e a psicanálise: Uma introdução pedagógica. Loulé: Instituto Universitário Dom Afonso III.Belsky, J. K. (1996). Psicología del envejecimiento: Teoría, investigaciones e intervenciones. Barcelona: Masson.Bento, A. & Barreto, E. (2002). Relações de objecto, vinculação e sistemas. In A. Bento & E. Barreto, Sem - amor, sem – abrigo (pp. 121-158). Lisboa: Climepsi Editores.Benedict, R. (s.d.). Padrões de Cultura. Lisboa: Edição Livros do Brasil.Berger, L. & Mailloux-Poirier, D. (1995). Pessoas idosas: Uma abordagem global: Processo de enfermagem por necessidades. Lisboa: Lusodidacta.Bianchi, H. (1989). La question du vieillissement. Paris: Dunod.Bleichmar, H. (1989). Depressão: Um estudo psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas.Bleichmar, N. M. & Bleichmar, C.L. (1992). A psicanálise depois de Freud: Teoria e clínica. São Paulo: Artmed Editora.Born, T. (2002). Cuidado ao idoso em instituição. In M. P. Netto, Gerontologia: A velhice e o envelhecimento em visão globalizada (pp. 403-414). São Paulo: Editora Atheneu.Bowlby, J. (1998). Separação: Angústia e raiva. São Paulo: Martins Fontes.Bowlby, J. (1985). Perda: Tristeza e depressão. São Paulo: Martins Fontes.Cabete, D. G. (2005). O idoso, a doença e o hospital: O impacto do internamento hospitalar no estado funcional e psicológico das pessoas idosas. Loures: Lusociência Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 33. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler(…) 33 Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.
  • 34. Excertos do Livro: O Idoso Institucionalizado, de Sandra Cardão, Editora Coisas de Ler 34 Proteja os Direitos de Autor. Obrigado.

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